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XICA

da Silva
A Cinderela Negra

1ª edição
Outubro de 2016
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

Miranda, Ana
M64x Xica da Silva [recurso eletrônico]: a Cinderela Negra / Ana Miranda. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Record, 2017.
recurso digital

Formato: epub
Requisitos do sistema: adobe digital editions
Modo de acesso: world wide web
ISBN 978-85-01-10945-3 (recurso eletrônico)

1. Silva, Chica da, m. 1796 - Ficção. 2. Mulheres - Brasil- Biografia. 3. Livros eletrônicos. I. Título.

16-38019 CDD: 920.72


CDU: 929-055.2

Copyright de textos e desenhos © Ana Miranda, 2016

Capa, projeto gráfico e pesquisa de imagens: Anna Dantes e Gabriel Takashi

Imagens da capa: desenho de Ana Miranda e ilustração Cabinda/Quiloa/Rebolla/Mina, de Pierre Roche Vigneron (Fundação Biblioteca
Nacional)

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Produzido no Brasil
ISBN 978-85-01-10945-3

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O medo atrai. O mistério encanta.
A.M.
Sumário

Prólogo. Meados do século 18, arraial do Tijuco, Minas Gerais


1. SANGUE NEGRO
A cafua suja. Nascimento de Xica, 1734
Taças de caveira. O reino de Daomé, primeiras décadas de 1700
I ou, i ou. As lembranças de Maria mina
Lojas de carne. Crianças vendidas no Valongo
Viagem ao Ivituruí. As penas de mais uma travessia
Uma dúzia de casas. O arraial de Milho Verde
Comer o sal de Deus. Batismo e infância de Maria mina, 1721
2. O TEMPO DOS DIAMANTES
A natureza do cristal. O segredo dos diamantes, 1714
Indesculpável omissão. Revelação do diamante, 1729
Olho de mosquito. Os garimpeiros, 1731
Tropas de dragões. Expulsão dos forros, 1732
Corações frios, vícios ardentes. O amor de Maria mina, 1733
Esperança no orgulho. A menina Francisca parda, 1734
Pequenos vultos de dois palmos. Santos e mandraqueiros
Pai-nosso, ave-maria. Festas religiosas
Velhos passeios pelo Cávado. O sargento-mor João Fernandes, 1739
Acirradas disputas. O contrato, 1739
3. ESCRAVA EM FLOR NO TIJUCO
A verdura dos jardins. Arraial do Tijuco
O filho varão. Estudos do primogênito, 1740
Conversas elevadas. A nova casa de Xica
Coche de pratas e alfaias. O acidente real, o seminário, 1742
Palavras rudes e pancadas. A Vassoura, 1748
O primeiro sangue. A sexualidade das escravas
Um fogo peculiar. Xica se torna mulher
O ovo da coruja. O médico, a medicina
Nova vida de Xica. Senhora e madrinha
Visita eclesiástica. Xica denunciada, 1750; o novo rei, dom José I
Os temerários minas. Domínio das mulheres minas
Uma deusa negra. Os atrativos de Xica
Fogoso e irritável. O contratador Brant, 1751
4. ESCRAVA SENHORA
Chuva negra. Acaiaca, a lenda do diamante
Junto à Horta Seca. A rotina de estudante e o quarto contrato, 1752
Mau prenúncio. O jovem contratador, 1753
Sonhos torpes. Encontro de Xica e João Fernandes
Banhada em ouro. A escrava alforriada, dezembro de 1753
Segredos de alcova. A cama de Xica e João
A alma oculta do século. Qualidades sexuais de Xica
Mulher requintada. A educação de Xica. 1754, grávida. A dança
Sinistras ruínas. O terremoto de 1755
A mulher poderosa. O desprezo por fidalgos. A madrinha. Seus escravos
O sentimento da amante. Concubinas. Homens ciumentos
Banquetes dignos de Lúculo. Festas no Tijuco
Trovões de tambores. Teatro e ópera
Palcos mineiros. O teatro de Xica
A arte de significar. Vestimentas no século 18
Tá bom, dalê. A fala de Xica da Silva
Mancha escura. A mãe, 1756. O sangue negro dos filhos
Aplacando a cólera divina. Vida religiosa, caridade, 1758
5. O REINO VENCEDOR
Cobertos de diamantes raros. O pai em Portugal; maldades pombalinas
Empório do mundo. Notícia da morte do pai, 1770
Martírio e tormento. O Aleijadinho
Confusão de sentimentos. A partida do contratador, 1771; o conde leviano
Sob um medalhão azul. Vida solitária no Reino
Vassalos da rainha piedosa. O morgado de Grijó; 1779, despedida de João Fernandes
A solidão de Xica. Cartas de amor; cotidiano da família, 1773
Hora do Ângelus. A Conjuração Mineira, 1789
Serranias da danação. Adeus a Xica, 1796
6. A LENDA NEGRA
Palavras finais. A lenda da Cinderela Negra
PERSONAGENS DA ÉPOCA
CRÉDITOS DAS IMAGENS
OBRAS CONSULTADAS
NOTAS
O desembargador João Fernandes de Oliveira, rico como um nababo, poderoso como um
príncipe, tornara-se um pequeno soberano do Tijuco. Não gozava de simpatias como Felisberto
Caldeira Brant, mas conseguiu exercer um domínio que não encontrava oposição, nem do próprio
intendente. Só uma mulher partilhava o seu poderio: era a sua amante Francisca da Silva,
vulgarmente conhecida por Xica da Silva.1

Joaquim Felício dos Santos


Prólogo

Meados do século 18, arraial do Tijuco, Minas Gerais

VEMOS UM PEQUENO MAR com águas paradas, doces, turvas. Fica em meio a uma região
ressecada e montanhosa, tão distante do oceano como o calcanhar de Judas. É um tanque feito pelo
contratador João Fernandes de Oliveira, onde se encontra uma nau de dimensões reduzidas que ele
construiu para mostrar a sua mulher o que é um navio, o maquinismo que o trouxe de Portugal.
No centro das águas flutua a embarcação, com as velas panejando ao vento. Em meio à neblina,
contra o perfil de montanhas, aparecem as vergas, mastros, varandas em madeira trabalhada, castelos de
proa e de popa. A imagem de uma santa no convés abençoa o barco. A nau é uma presença ao mesmo
tempo imponente e misteriosa. Parece um sonho.
Os marujos, com suas gorras, as mãos calejadas, encostam o barco no cais. Práticos em manejar uma
embarcação numa travessia marítima, foram contratados para uma inusitada viagem. O capitão espera
na portada o aparecimento do contratador com sua musa parda. Em terra, músicos de uma orquestra
aguardam, em silêncio e atentos, a ordem do mestre para que iniciem a execução.
Nas margens do tanque, habitantes do Tijuco igualmente anseiam pela chegada do casal, uns
impacientes, outros incrédulos, outros, ainda, fascinados, ou divertidos, mas todos curiosos e excitados
com a visão do navio. Acompanharam por longos meses a construção daquela pequena nau,
comandada por engenheiros navais vindos da Bahia e do Rio, onde se construíam fabulosos galeões tão
possantes que dispensavam a viagem em armada. Tentavam entender o fabrico jamais visto no lugar e
sem nenhum sentido que se deduzisse pela razão. Imaginavam se a nau teria asas para voar ou rodas
para se mover, se seria arrastada por um exército ou elevada por um balão, já que não havia águas em
que navegar. Foi quando viram chegar os engenheiros para as obras na Palha, erguendo barreiras de
pedras, represando riachos, e testemunharam a formação do grande tanque, ou pequeno mar. Quando se
abriram as comportas, a água foi enchendo o tanque e fazendo a embarcação flutuar.
Aquilo só podia ser obra de dona Francisca.

Um homem corre em meio aos convidados, fazendo sinais com um lenço. O maestro dá o comando,
a música soa. Logo desponta uma liteira dourada, trazida por escravos com chapéus tricórnio,
engalanados. Vem seguida por um cortejo de homens bons com suas perucas frisadas, damas adornadas
em luxo, escravos, e escravas vestidas de forma tão suntuosa como as damas, com muito ouro, fitas de
veludo, rendas, sedas, cobertas de diamantes. O séquito para diante de um tabuado, de onde se estende
um tapete adamascado que leva ao cais. Da liteira desce uma mulher parda que faz incendiar os olhos
dos espectadores: corpulenta, majestosa, talhe redondo como o de uma Vênus calipígia. Usa na cabeça
um imenso arranjo que se derrama em cachos e mechas postiças, por entre plumas, e, no cume, uma
gaiola de vaga-lumes que cintilam. Seu vestido é como o de uma rainha, tantas as pedrarias, os folhos,
véus, rebordados, drapeados, as transparências de musselinas. É dona Francisca, que o povo chama de
Xica da Silva.
O contratador João Fernandes vem em seguida, vaidoso, cheio de orgulho, mesmo embaraçado por
sua perruque à crinière um tanto incômoda, cacheada, longa até o meio das costas, que deixa no ar um
rastro do pó branco com que foi coberta. Essa peruca é encimada por um chapéu de corte militar, muito
quente, que o faz suar. Ele dá cortesmente a mão a sua mulher e ambos seguem até a esguia nau.

O episódio do navio no tanque, uma das cenas mais conhecidas na vida de Xica da Silva, por
ser tão carregada de dramaticidade e utopia, parece mais uma lenda. No entanto, o historiador
inglês Charles R. Boxer (1904–2000), um dos maiores conhecedores do passado colonial
português, major do Exército britânico, professor camoniano de português no King’s College e
autor de diversas obras sobre a história luso-brasileira, escreveu o seguinte parágrafo:

Seja como for, uma das mais célebres figuras na história do Distrito Diamantino é Francisca
da Silva, ou Xica da Silva, como até hoje costumam chamá-la. De início uma escrava
mulata, tornou-se amante primeiro de um cavalheiro local, e depois do milionário
contratador de diamantes, o doutor em leis João Fernandes de Oliveira, que floresceu durante
a segunda metade do século XVIII. Sobre aquela amante ele fez tombar — depois que o seu
primeiro dono a libertou, a pedido dele — tudo quanto os caprichos daquela mulher
pretenderam. Já que ela jamais tinha visto o mar e desejava saber como era um navio,
Fernandes de Oliveira construiu um lago artificial e um modelo grande de navio, com
mastros, vela e armação, guarnecido por uma tripulação de dez homens que o podiam
manobrar na água. Também construiu para ela uma grande casa de campo, cujo local ainda
é chamado chácara da Xica da Silva, onde deu banquetes dignos de Lúculo, bailes noturnos e
espetáculos de teatro amador em honra da mulher. É inútil dizer que ninguém mais se podia
permitir tais extravagâncias a que se dava o contratador milionário, também generoso
construtor e instalador de igrejas, mas os que tinham feito fortuna em Tijuco vestiam-se
conforme a mais alta moda europeia e importavam roupas luxuosas, armas, artigos
domésticos e mobiliário, que mandavam vir de Lisboa sem que lhes importasse saber qual o
custo.2

Boxer narra o episódio do barco como um fato. Não levanta nenhuma dúvida, nem faz
atenuações, confiando em suas fontes, que são as Memórias do Distrito Diamantino,3 de Joaquim
Felício dos Santos (1822–1895), e as Efemérides mineiras, de Xavier da Veiga (1846–1900). As lendas
que o povo conta e reconta sobre Xica da Silva parecem uma verdade, se não histórica, ao menos
poética. São as chamadas anedotas definidoras. Vemos nelas indícios de uma existência, tanto
quanto num auto de batismo, casamento ou óbito, permitindo a reconstrução de uma história
pessoal a partir de uma figuração pública. Carregam a presença de Xica, de geração em geração, e
a tornam indestrutível quanto à ação do tempo. Mas também incorporam as mentalidades,
superstições, crendices, suspeitas, intolerâncias, os ódios irracionais e a aversão a outras raças,
sexos, credos, que marcam as épocas.

O episódio do barco é mencionado por Joaquim Felício dos Santos ao descrever a chácara que
o contratador construiu para seus deleites, nas fraldas da serra de São Francisco, onde “nos dias
festivos do Contratador se reuniam seus amigos e pessoas importantes do Tijuco: havia aí jantares
suntuosos à Lúculo, à tarde passeios no jardim e pescaria no tanque em escaleres dourados, à
noite bailes e representações teatrais [...] É escusado dizer o luxo que Francisca da Silva ostentava
nessas ocasiões, e as homenagens e congratulações que recebia dos convivas. O dinheiro e poderio
do amante elevavam-na à condição das senhoras das famílias as mais distintas!”.4 Palavras
respeitosas, mas insinuantes, sobre a categoria da antiga escrava.
Na chácara da Palha, logo além do outeiro à saída sul do Tijuco (antigo nome da cidade de
Diamantina, em Minas Gerais), João Fernandes ergueu uma casa de excelente construção, com a
aparência de um castelo, rica e formosa capela, e um teatro onde se encenavam óperas e
comédias. A chácara era cercada por agradáveis jardins compostos de plantas decorativas,
labirintos de roseiras entrelaçadas e arvoredos transplantados da Europa, em cuja sombra se
sucediam trabalhos de águas, como fontes, lagos, cascatas deslizando sobre arranjos de cristais e
conchas. Escreve Joaquim Felício:

Francisca da Silva, que nunca tinha saído do Tijuco, por um capricho feminino, quis ter ideia de
um navio; João Fernandes apressou-se em satisfazê-la: mandou abrir um vasto tanque e construir um
navio em miniatura, que podia conter oito a dez pessoas [cerca de trinta pés, ou, aproximadamente,
nove metros], com velas, mastros, cabos e todos os mais aparelhos das grandes embarcações.5

Não seria apenas um “capricho feminino”. A invenção do navio pode acenar para uma ânsia
de empreender de forma imaginária a viagem que João Fernandes fizera para chegar ao Tijuco e
que o levaria para longe, e para sempre — ainda que Xica não tivesse conhecimento dessa
iminência, mas decerto a temia. Numa esfera mais profunda, poderia ser a necessidade de
construir uma memória atávica do mar, a diáspora de seu povo: o mar que separava o Brasil da
África, atravessado por sua mãe e por tantos negros, mar que permitia a volta ao continente
original. Ainda que uma volta simbólica.
Referido por sua grandiosidade, fruto da confluência de todas as águas, o mar sugere mistério,
abismo, forças da natureza e, ao mesmo tempo, um desejo, assumindo um caráter de liberdade.
Representava o meio que permitiu a existência do sistema colonial, a presença do que vem de
longe e oprime os nativos, símbolo do alargamento dos domínios portugueses; acima de tudo,
significava a possibilidade da escravidão negra no Brasil. “Pelo senso comum, pode-se dizer que
seu movimento de vai e vem marca a ideia de dinâmica e mistérios, de um elemento que leva e
devolve histórias, que guarda e revela segredos; local de passagem onde tudo se modificará; uma
fronteira entre o tradicional e o novo, entre Angola e Portugal. No passado, a economia de países
europeus, por exemplo, era quase que exclusivamente dependente do mar. Fator importante para
a economia e para a política de Portugal é através do mar que os portugueses se transportavam
para terras desconhecidas com a finalidade de desbravar e enriquecer o governo português.”6
Por outro lado, pode-se imaginar, para uma descendente de africanos, a força da
materialização de um barco com todos os seus significados. Segundo um costume dos povos
benga, do Gabão, os homens transmitem força a suas canoas recém-construídas, batizando-as
antes de lançá-las ao mar. Acreditando que a canoa é um ser vivo, ainda desconhecido pelo
oceano, executam uma cerimônia com oferendas aos espíritos do passado e às entidades que
protegem o mar, os barcos e os pescadores. Ao dar nome a uma canoa, acreditam que ela se torna
uma entidade marinha, digna de respeito por parte das forças do oceano, livre de todos os danos, e
que não será roubada. A memória do mar é imensa, acreditam os bengas, e o próprio mar é capaz
de discernir o que pertence a cada pessoa, a cada família numa aldeia, através de gerações.7

O que é descrito por Joaquim Felício dos Santos dá os indícios para chegarmos à personagem
criada por seu sobrinho-bisneto, o romancista João Felício dos Santos (1911–1989). Em seu
romance Xica da Silva, de 1976, vemos uma personagem satírica, alegre, graciosa, pueril,
rabelaisiana, explosiva. Ela tem como função muito mais simbolizar o conflito presente no
eldorado diamantino e na realidade colonial: um povoamento que surgia em torno da extração de
ouro e diamantes, os moradores travando lutas entre si, contra a natureza áspera da região, contra
os poderosos locais, contra os esbirros da Fazenda e contra a opressão da Coroa portuguesa, que
considerava todas as riquezas brasileiras pertencentes ao rei e tudo fazia para delas se apossar,
numa política secular de terra devastada.
É uma Xica simbólica, muito popular, de comportamento irreverente e provocador que a
afasta de qualquer ideia de submissão aos padrões europeus; um trabalho ficcional que ao mesmo
tempo a degrada e torna um desafio, a faz repulsiva e adorável, grotesca e inesquecível, cômica e
épica. Nas páginas do romance ela recebe títulos que vão descrevendo sua conduta durante a vida
senhorial, num sistema de sínteses comentaristas, como um elucidário: Xica diaba, Xica-Cigarra,
Xica-Loucura, Xica-Fabulosa, Xica-Turbilhão, Xica-Vingança-dos-Ódios-Dormidos, Xica-Teatro,
Xica-Foguete, Xica-de-Cheiro, Xica-Perfídia, Xica-Ferida-Demais-nos-Orgulhos, Xica-Tormenta,
Xica-Estourada, Xica-Painel, Xica-Trovão, Xica-Impassível-por-Gozação, Xica-se-Abrindo, Xica-
Toda-Cor, Xica-Vingança, Xica-Orgasmos, Xica-Justiça, assim por diante, e que ressaltam o
interesse idealizador por parte do romancista.

Na famosa cena do barco, também descrita no romance de João Felício, essa estrídula
personagem do narrador libertino é trazida ao cais numa liteira adornada de flores, fitas, ramos,
papéis pintados, ladeada não por doze, mas cento e vinte escravos lavados, em roupas coloridas e
cintilantes, “vestida de ouro e, para contrastar com os marinheiros pintados de preto, trazia a cara
inteiramente caiada de branco, e um véu negro de invisíveis malhas a guardar dentro de seu
penteado em cascatas altíssimas, duras de breu, centenas de vaga-lumes vivos, a tremeluzir
esvoaçantes entre uma enorme quantidade de palhetas de ouro puro. A cabeça de Xica-Enxurrada
resplandecia no contraste muito preto dos cabelos de sua incrível peruca e o rútilo das palhetas à
luz fria dos pirilampos”.8
A figura assombrosa chega ao barco, onde inicia sua “bacanal particular” diante de uma
população pasmada que a tudo assiste, às margens do tanque. Xica bebe exageradamente e força
suas escravas a fazerem o mesmo. Manda que os escravos entornem garrafas de um só trago.
Obriga os músicos a se embriagarem com a mesma presteza, o que nos faz lembrar a sátira de
Rabelais, o Quinto livro de Pantagruel, quando esse personagem, após longa peregrinação, chega
ao templo da deusa Botelha em busca de conselho e dela ouve uma única palavra, “Bebei!” —
interpretada por pantagruelistas como uma ordem de conquista das fontes do conhecimento e por
epicuristas como busca do prazer. Narra João Felício:

Já a música se descompassa. Xica berra, ordenando aos marinheiros, vindos especialmente do


Rio de Janeiro, que bebam desordenadamente. O negro de fumo com que pintaram as caras
começa a escorrer pelas barbas, pelas rugas do pescoço... Já os homens estão todos lambuscados
de tinta, de vinho, de aguardente... Xica se ri e se diverte enormemente com o escândalo e
com a repulsa que percebe envolver os convidados na margem do lago. Exigindo que o barco
voe sobre as águas de seu lago, solta desesperadamente os cabelos, desmanchando os armados
em breu, e, livre da peruca e do véu, dá liberdade à multidão de pirilampos que começam a
luzir esvoaçares desorientados sobre o espelhado das águas represadas. Nisso, tira o vestido, que
atira pela borda. Arranca as anáguas caras e despe-se decididamente, semeando as peças
íntimas por dentro d’água. As meias... os sapatos... Assim, nua, beija homens e mulheres,
freneticamente, nos lábios, no corpo... Aperta-os com lubricidade, fingindo-se ainda mais
excitada... rola pelo chão... ri... grita...9

Uma Xica da Silva feita de deleites, ódio racial, sede de vingança, sensualidade politizada,
humor satírico, que carrega em si e faz explodir toda a violência de que teria sido vítima em sua
vida de escravizada, mestiça pobre, mulher colonial, amante. Uma criação literária dotada de
razões varonis, que propiciam essa ousadia na devassidão, porque aos homens jamais oprimiu a
mesma força social e religiosa que repudia as mulheres malcomportadas. Uma redenção ideológica
da imagem de uma mulher com origem escrava, que passou a fazer parte do sistema de poder,
pois a Xica da Silva criada por João Felício dos Santos jamais se curva ao comportamento exigido
por brancos e poderosos. Pelo contrário, submete-os aos seus modos populares, abusando da
linguagem, da sexualidade, dos gestos.

Diziam os antigos que as histórias acontecem apenas para serem cantadas. Foi Joaquim Felício
dos Santos quem recolheu as primeiras histórias sobre Xica da Silva. Foi ele quem primeiro
registrou, em pouco mais de duas páginas nas suas Memórias do Distrito Diamantino, nos anos
1860, a perturbadora passagem da escrava e senhora pela vida colonial no distrito mineiro. Foi ele
quem a tirou do esquecimento e a fez renascer como personagem de nossa história colonial,
tornando-a uma das primeiras figuras femininas de relevo particular, cantada em verso e prosa.
Joaquim Felício era culto, escrevia acerca de matérias diversas, como jurista, ficcionista,
teatrólogo ou homem de imprensa, mas com uma aptidão especial para os estudos históricos, os
quais realizava com rigor, seriedade e elegância, numa prosa “da melhor água”.10 Em suas
memórias, dotadas de uma manifesta experiência da situação local, a fisionomia desse passado é
recuperada de modo vigoroso naquilo mesmo que possui “de mais particular, de mais
surpreendente”. O esboço de Joaquim Felício tornou-se a fonte primordial para o estudo ou a
recriação de Xica da Silva. Ele diz:

Foi célebre esta mulher, única pessoa ante quem se curvava o orgulhoso Contratador; sua
vontade era cegamente obedecida, seus mais leves ou frívolos caprichos prontamente
satisfeitos. Dominadora no Tijuco, com a influência e poder do amante, fazia alarde de um
luxo e grandeza, que deslumbravam as famílias mais ricas e importantes; quando por
exemplo ia às igrejas — e então era aí que se alardeavam grandezas — coberta de brilhantes e
com uma magnificência real, acompanhavam-na doze mulatas esplendidamente trajadas: o
lugar mais distinto do templo era-lhe reservado. Quem pretendia um favor do Contratador a
ela primeiramente devia dirigir-se na certeza de ser atendido, se conseguia granjear-lhe a
proteção. Os grandes, os nobres, que vinham a Tijuco, os enfatuados de sua fidalguia, não se
dedignavam de render-lhe homenagem, curvavam-se a beijar a mão à amante de um vassalo
do Rei. Tal é o poder do dinheiro! Esse vassalo era um milionário, e em todos os tempos o
ouro foi sempre o escolho, em que se quebrou o orgulho da fidalguia.11

Joaquim Felício traçou o retrato de uma mulher voluntariosa, caprichosa, dominadora,


influente, célebre, que ostentava riqueza e luxo, para a qual se reservava o lugar mais distinto na
igreja, assim como na sociedade, e diante de quem mesmo os poderosos e fidalgos se curvavam a
lhe beijar a mão. O conflito era quanto a tal reverência ser dirigida a uma mulher mestiça,
concubina, de origem humilde e escrava. A mulher mais rica de todo o Reino.
O poder em tais mãos capazes de quebrar o orgulho da fidalguia indica a habilidade de Xica no
trato das relações humanas, bem dentro dos modelos coloniais: concedia favores em troca de
respeito, esbanjava em troca de admiração, ostentava em troca do deslumbre, fazia caridade em
troca da compaixão. Sem omitir características lendárias, Joaquim Felício descreve-a como a uma
senhora, tal qual as outras senhoras ricas e distintas daquela sociedade a remedar o
comportamento da nobreza europeia. Mas a posição de Xica da Silva distingue-se por ser uma
conquista e, mais ainda, uma vitória, não apenas na sua dramática ascensão social, porém como
um paradigma histórico de grande valor e infinitos significados, digno de inúmeras publicações,
tanto ficções como ensaios; que trataram de cobri-la com todo tipo de interpretação: uma mulher
cruel, capaz de cortar os seios de suas escravas, por ciúmes; a senhora bondosa que libertava
escravos; a perversa que arrancava olhos de crianças; a devassa que ia para a cama com qualquer
um; a escrava desfeita e sem dentes, ou a belíssima estátua de mulher negra; a ostentadora e
dissipadora de riquezas, a mandona, a mãe insensível, entidade apavorante, a deusa sexual que
enfeitiçava os homens.

Hoje a imagem fascinante de Xica da Silva entusiasma estudiosos a mergulhar em pesquisas,


na crença de que possam “libertar o mito dos estereótipos que lhe foram imputados ao longo do
tempo”,12 como diz a historiadora Júnia Ferreira Furtado, autora de uma revolucionária biografia
de Xica da Silva, publicada em 2003. Nessa obra Júnia reconstrói a figura da personagem mineira à
luz de documentos e interpretações que revelam a mais surpreendente de todas as Xicas de nosso
imaginário: uma mulher sólida, obstinada, leal, mãe de catorze filhos, dedicada à família e
intensamente caridosa e religiosa.

Assim como as outras forras da época, ela alcançou sua alforria, amou, teve filhos, educou-os,
buscou ascender socialmente com vistas a diminuir a marca que a condição de parda e forra
impunha para ela mesma e para os seus descendentes. Inserção que se comprovou paradoxal,
foi porém a única maneira que as mulheres como Chica encontraram para retomar o controle
sobre suas vidas. Todas acumularam bens, transitaram entre as irmandades que se
constituíram, independentemente da cor dos membros que essas entidades pretendiam
congregar, foram senhoras de escravos, imitaram padrões de comportamento da elite — foi
assim que se integraram à sociedade branca, à procura de reconhecimento e aceitação.13

Mesmo transformada de lenda em figura histórica, Xica da Silva continua sendo uma mulher
instigante, com a força da personalidade, repleta de enigmas e significados que existem nas
profundezas das histórias de grandes personagens. Aos olhos de nosso tempo ela reaparece
libertada de estigmas — iluminada pelo estudo que a fortaleceu e lhe deu maior dignidade; e mais
“realidade”, conforme posturas adotadas por estudiosos para o levantamento de figuras do
passado. Todavia, as novas imagens de Xica não apagam as imagens antigas, assim como a
maturidade não apaga nossa infância; apenas acrescentam mais fascínio e mistério a essa lendária
mulher que representa um traço forte na história do nosso rosto, feita de luta e sonho.
1
Sangue negro
A cafua suja

Nascimento de Xica, 1734

NO INTERIOR DO PORÃO ÚMIDO não se usa mobiliário, mas costuma haver um amontoado de
troços. As escravas mal têm tempo de assear a cafua, tão ocupadas no serviço senhorial. Esteiras se
espalham pelo chão de terra batida, utensílios de barro se acumulam nos cantos, junto a panos e trapos,
restos de comida, lenha, manojos de folhas de tabaco, balaios com sementes, pedras de cristal
encontradas nos rios, e toda sorte de miuçalha que gostam de recolher. Dos madeiros que sustentam o
telhado pendem feixes de ervas de variadas espécies, usadas como medicinas ou temperos. Sobre uma
trempe fumega uma panela de barro; a fumaça turva o ar e tinge de fuligem paredes e teto.
Durante o dia fica ali apenas algum escravo doente, ou uma velha que mal pode se mover. À noite
os escravos dormem nas esteiras, com suas crianças aos pés. A porta e a janela são trancadas por fora,
para que os cativos não se aventurem a uma fuga rumo aos quilombos no cume da serra.
Nessas noites a grávida Maria mina vê seus medos surgirem: medo de que a criança nasça sem saúde,
ou com deformidades, medo da morte. Deixou de usar joias para que não marcassem a pele do neném,
não carregava metal à cintura, levando apenas um saquinho ao pescoço, com uma pedra de ara;
espantava os gatos de casa para que a criança não nascesse peluda, não passava debaixo de escadas para
que não ficasse de pequena estatura, e fazia promessas aos santos de sua devoção, desvelando pelo futuro
do rebento.

Maria mina tem por volta de vinte anos quando dá à luz sua filha. O parto ocorre sem
complicações ou maiores sofrimentos. O choro da menina soa como um grito, forte e melodioso. A filha
nasce sadia, de traços regulares, mais alva que a mãe, perfeita na conformação física. Tem boas chances
de sobreviver.
Logo após o nascimento as escravas cortam o cordão umbilical da criança e o jogam no rio, para
que não seja comido pelos ratos, dando a criança para ladra. Aplicam-lhe pimenta no umbigo, em
seguida apertam fortemente o seu ventre, rodeando-o com uma bandagem de pano. Temem o mal de
sete dias, que mata um grande número de crianças. Maria deita-se com a filhinha numa esteira, sobre
um pano branco. Quer dedicar sua menina à avó, mas não sabe se a velha está viva. Pede a proteção de
todos os antepassados mortos.

Francisca parda nasceu por volta de 1734,14 no arraial do Milho Verde, uma pequena
localidade mineira que ficava a meio caminho dos dois mais amplos ajuntamentos da comarca do
Serro do Frio: Vila do Príncipe e Tijuco. Sua mãe, Maria mina, era escrava africana; e seu pai, o
capitão Antônio Caetano de Sá, um militar branco, de elevada posição na sociedade da época.
Como outros filhos de escravos, Xica nasceu provavelmente num arremedo de senzala
erguido por baixo da moradia dos senhores, com apenas uma porta e uma janela. As casas
senhoriais de Milho Verde pouco passavam de uma construção tosca, de barro, algumas cobertas
de telhas — abundantes na região devido à presença de oleiros e à fartura da argila de boa
qualidade. No andar de cima, onde moravam os senhores, havia janelas e para lá se subia por uma
escada de paus roliços até uma varanda em frente à porta. Junto aos escravos, o andar de baixo
abrigava animais e servia como depósito.
As escravas almejavam que seus filhos não fossem escravizados e era crença popular que elas
provocavam abortos, até mesmo o infanticídio, para libertar seus descendentes dos sofrimentos
pelos quais elas mesmas passavam. Segundo alguns observadores, as negras minas, como Maria,
eram as que mais abortavam. Conheciam formas de expulsar o embrião e, quando a criança
nascia, evitavam nova gravidez amamentando por cerca de três anos, passando por cima de
tradições africanas que abençoavam grandes proles e de seu habitual amor pelos filhos. As negras
minas tinham uma tendência a sofrer abortos espontâneos. Também a má alimentação durante a
gravidez, o excesso de trabalho e as condições de vida favoreciam essas interrupções e o
nascimento de bebês doentes, quando não natimortos.15
Mas é preciso considerar a ideia oposta:16 a de que, mesmo abatidos, inconformados,
indignados ou revoltados, os escravos mantinham vivo o desejo de procriar, a fim de fortalecer
sua condição. Formar família, ainda que para o lucro do senhor e sob a expectativa de vê-la
esfacelada, significava uma construção de afetos que mitigava o desamparo, amainava a solidão e
a sensação de estranheza que a nova terra causava. Os senhores não costumavam estimular
nascimentos entre suas escravas; custava menos comprar um adolescente do que cuidar e pagar o
sustento de uma criança até que chegasse à idade de trabalhar — caso chegasse.

*
O parto de Maria mina foi provavelmente assistido por outras escravas, que saíam
prontamente a convocar a parteira, em geral uma preta velha, às vezes chamada de comadre.
Além de partejar, essa comadre curava males feminis usando bruxedos, rezas ou benzeduras,
misturando conhecimentos africanos a portugueses e indígenas. As parteiras moravam em casas
assinaladas por uma cruz branca à porta. Saíam a serviço usando mantos ou xales compridos,
debaixo dos quais levavam remédios caseiros e feitiços. Formavam o grupo de profissionais da
medicina, junto com os médicos, muitos deles judeus, os cirurgiões, físicos, barbeiros e algebristas
— estes, os que tratavam ossos quebrados e músculos.
Os métodos das parteiras, em que o conhecimento surgia da experiência, não diferiam muito
dos adotados por médicos da época, aprendidos nos manuais. Eram sabedorias paralelas e
entrelaçadas, apesar do preconceito que havia por parte da instituição contra a medicina popular.
O patriarca da medicina no Brasil, doutor João Ferreira Rosa, receitava pó de caranguejos
queimados misturado com água de erva cidreira e acreditava ser a peste que no século 17 atingiu
Pernambuco obra dos astros celestes ou da justiça divina, como castigo aos maus costumes dos
colonos. O ilustre pediatra reinol Fonseca Henriques, em seu Socorro délfico aos clamores da
natureza humana, afirmava que a luz da Lua era nociva aos meninos — nem mesmo suas roupas e
panos podiam ser deixados aos raios do astro noturno. O médico Simão Pinheiro Morão, em 1677,
falava em óleos de minhoca, de raposa, ou formulava receitas compostas de carne de cágado com
cevada, sementes de abóbora, melão e melancia, amêndoas, pó de dormideiras-brancas ou água
dos caracóis estilada e açucarada. A medicina doutrinária indicava remédios como chá de
percevejo com excremento de rato, urina de burro, cabelos queimados, pele, ossos e carne de
sapo, lagartixa, caranguejo e componentes semelhantes. No século 18, na região mineira, o
cirurgião Luís Gomes Ferreira17 criticava o uso de remédios como pó de sapo metido numa bolsa
de escarlate, ou ossos da coxa de sapo, para estancamento do sangue, ou dente de cavalo para
fazer cessar o fluxo de sangue no nariz. Mas ele mesmo prescrevia tratamentos tais como dar à
mulher com dificuldades no parto fígados pulverizados de enguias, do tamanho de uma avelã,
tomados em vinho branco, para que voltassem as dores e se realizasse o nascimento. Se o útero
saísse de lugar, prescrevia atar os braços da enferma por cima do cotovelo com fitas bem
apertadas e lhe aplicar ventosas “nos peitos fora das tetas”, e lhe dar bebidas perfumadas, pondo,
enquanto isso, coisas fétidas na sua madre; ou lhe dar de beber pó de chifre de veado, pondo sobre
sua barriga emplastros de alho pisado e destemperado com água de urtiga. Tudo isso pode
parecer estranho ou cômico aos olhares do século 21, assim como talvez venha a ser
incompreendida no futuro a medicina dos dias de hoje.

*
O nascimento de uma criança colonial guardava muitos perigos. Comumente, era fatal para o
filho, para a mãe ou para ambos. Ainda mais o parto de uma escrava num arraial tão pequeno,
que, embora contasse com o favor da naturalidade e o amparo do misticismo, realizava-se em
circunstâncias adversas e arriscadas. Para proteger-se, a parturiente beijava escapulários e
segurava amuletos, como uma pedra chamada mombaza, à qual se atribuía o poder sobrenatural
de atrair o feto à luz. Mãe, avó, parteira, ajudantes, todas evocavam Nossa Senhora do Bom
Parto, Nossa Senhora do Leite, do Ó, do Bom Sucesso, das Dores ou Santa Margarida, a protetora
das grávidas. Atravessava-se sobre o ventre da parturiente um cordão de São Francisco. A vulva
era azeitada com óleos ou mesmo com vinhos e, para aliviar as dores, davam à mãe seguidos
goles de cachaça.
Lemos num antigo manual18 que as escravas cortavam o cordão muito distante do umbigo e
usavam do “pernicioso” costume de lhe pôr em cima unguentos irritantes e fomentá-lo com óleo
de rícino ou qualquer produto da mesma natureza. Quando apertavam o ventre do neném, era
quase a ponto de sufocá-lo. Esse costume cortava o fio da vida a muitas crianças e contribuía para
desenvolver no umbigo a infecciosa doença do tétano, a que se dava o nome de mal de sete dias.
Usavam também banhar a criança e, por superstição, despejar no quintal as águas da lavagem
que descarregavam as impurezas e os maus eflúvios. Enrolavam os filhos em panos que tolhiam
seus movimentos de braços e pernas. Há algumas imagens de crianças nuas, no colo da mãe,
engatinhando ou dando seus primeiros passos. Mas nas épocas frias das montanhas mineiras, nas
temporadas de vento, de neblinas, era preciso vesti-las.
Após o parto havia um resguardo longo, de um, dois ou três meses. Nos primeiros dias a mãe
se alimentava com caldo de galinha ou de carne, misturado a alguma erva fortificante e sal.
Conhecidas como boas amamentadoras, as negras produziam grande quantidade de leite em seus
peitos de tetas escuras, roxas, cor das melhores terras agrícolas da colônia.19 Os seios das negras,
de tamanho adequado, apresentavam boa consistência; as tetas, nem aguçadas, nem retraídas,
resignavam-se à boca da criança. Além disso, eram mulheres acostumadas às temperaturas
ardentes; as condições do clima favoreciam sua saúde mais do que em qualquer lugar, o que trazia
como consequência a possibilidade de uma amamentação farta e salutar. Isso não ocorria com as
mulheres brancas — diz o manual de Imbert —, cuja organização física não se aliava à ação da
temperatura extrema das partes equatoriais. Sem falar na alegria exuberante das negras, sua saúde
e vivacidade esplêndida, em seus dentes alvos e inteiros, conforme as descrevem alguns
estudiosos apaixonados. E não se pode esquecer que as negras chegadas ao Brasil tinham passado
por um teste dos mais terríveis: a viagem no navio negreiro. Desembarcavam as mais fortes e
saudáveis, capazes de sobreviver às vicissitudes que sofriam a bordo dessas naus.

*
À noite, Maria nina a sua cria com cantigas de louvor ao Menino Deus, e logo na primeira sexta-
feira trata de queimar folhas de erva-guiné à porta da casa, para proteger a criança contra mandingas
ou coisas-feitas. Poucos dias depois já nutre seu rebento com pequenos bolos amassados na mão, tirados
da comida dos escravos: angu de milho, toucinho e alguma carne semanal.
A filha de Maria mina recebe o nome de Francisca. Dizem Francisca parda, pois é de pele clara,
filha de africana com português. Maria mina escolheu esse nome por devoção ao santo a quem fizera
promessas durante a gravidez e na hora do parto, enquanto segurava o cordão protetor. Ao acalentar a
criança, diz-lhe que quando crescer será livre, rica feito a Mãe do Ouro, será como as rainhas africanas
nascidas de leopardos, dominando exércitos. Sabe, porém, que o destino da filha é a pobreza e a
escravidão. Aquela criança poderá no futuro almejar apenas a alforria.
Mais um pensamento a inquieta. A filha nasceu longe das suas origens. A avó africana jamais a
conhecerá. O passado de Maria mina está perdido nas brumas do reino de Daomé.
Taças de caveira

O reino de Daomé, primeiras décadas de 1700

A COSTA DA MINA, amplo território da África Ocidental, diante do oceano Atlântico, no golfo
da Guiné, incluía o que os portugueses chamavam de Costa do Marfim, Costa do Ouro e Costa
dos Escravos. Delimitava-se pelos cabos das Três Pontas e de São Paulo. Ali se localizava o porto
de Ajudá, em Daomé, de onde teria vindo a mãe de Xica, a escrava Maria mina.
Estabelecido em 1625, o reino de Daomé tinha como capital a cidade de Abomé, ou Abomei.
Os palácios reais de Abomé, construídos pelo povo fon entre meados dos séculos 17 e 19,
formavam um valioso conjunto de estruturas em argila. A cidade era cercada por uma sólida
muralha de taipa em circunferência, com seis portas, protegida por uma vala funda e preenchida
por uma vegetação espinhosa de acácia. Dentro dessa muralha as diferentes aldeias eram
separadas por áreas em torno de um palácio real, um mercado e uma praça ampla com barracas
de comércio.
Ajudá era o maior ponto de comércio da costa da Guiné, onde se vendiam tantos escravos
quanto todos os outros pontos reunidos. Dezenas de navios portugueses, franceses, ingleses e
holandeses lá chegavam a cada ano. O rei, absoluto, se não conseguia por meio do comércio o
número de escravos necessários para pagar o crédito em mercadorias concedido pelos europeus,
marchava com o Exército pelas aldeias e arrasava tudo. Os reis de Ajudá e de Aladá cometiam
grandes depredações terra adentro conforme relato do médico da Marinha Real inglesa, John
Atkins,20 referindo-se a uma viagem que fez à Guiné em 1721. Os ataques garantiam o
fornecimento de escravizados, embora o comércio fosse constantemente interrompido por
combates. Trocavam os escravos por cauris, a moeda corrente, ou algodão estampado, cetim,
armas de fogo e munição, espadas e facas, bacias de cobre ou contas. E tabaco. Como adoravam o
tabaco baiano, de folhas cortadas e untadas com mel de cana, davam preferência a comerciar com
luso-brasileiros, que nos últimos dez anos dos 1600 já eram senhores do tráfico na Costa dos
Escravos, comprando quase o dobro do que os outros europeus.
É condenável a atitude daqueles monarcas africanos, “déspotas, irresponsáveis e selvagens,
com tendência para o sacrifício humano”,21 sempre dispostos a escravizar e a vender seus vassalos
como escravos. Porém, ainda mais deplorável a agressividade dos holandeses baseados em
Elmina. Se Daomé era um lugar turbulento, em constantes guerras, isso não ocorria apenas entre
as tribos de nativos, mas também entre os europeus que lutavam por seu domínio. Os conflitos
em meio aos colonialistas ocorriam tão assiduamente que levaram um soberano local, o rei Amar,
a exigir um tratado de paz ou neutralidade entre as quatro nações da Europa que negociavam em
Ajudá.

Como Estado central, Daomé tinha a premissa de dominar a costa em busca de armas de fogo
para defender-se do poderoso reino iorubano de Oió. As daomeanas representavam um
contingente de grande presença e força. Entre 1708 e 1727 cada funcionário tinha ao seu lado uma
mulher, titulada de mãe, incumbida de vigiar seus atos e denunciá-lo se houvesse qualquer desvio.
As mulheres que pertenciam aos reis eram chamadas por europeus de amazonas. Segundo o
aventureiro britânico e governador na Costa do Ouro Archibald Dalzel,22 havia um grande
número de daomeanas armadas como soldados, dirigidas por seus próprios oficiais e ordenadas
em tropas regulares. Elas representavam a nata das forças bélicas. Atuaram no litoral pela
primeira vez em 1727, dominando e saqueando os fortes de Ajudá e Aladá. As iorubanas, por sua
vez, detinham força política. Formavam um conselho de líderes que interferia no conselho
masculino e era a chefe desse tribunal feminino quem determinava a instalação de uma nova
soberania. Tinham o poder de depor o rei.
Em pouco tempo o reino de Daomé passou a ser a grande fonte de envio de escravos —
iorubas, na maioria. Chegavam ali cativos de diversos povos, como os maís e os baribas do Alto
Daomé; os uatchis, ou evés, do litoral; ou os belicosos fons, dissidentes dos iorubas, que desciam
do interior. Mesmo antes da chegada dos europeus já se buscavam nas aldeias homens para serem
escravizados, quando escasseavam os prisioneiros de guerra. Alguns deles eram vendidos a
comerciantes que seguiam terra adentro. As fêmeas, levavam aos caravançarais na entrada do
deserto do Saara, mas apenas mulheres com qualidades extraordinárias, como beleza ou algum
tipo de habilidade — uma excelente tecelã, ceramista ou cesteira — que compensasse o alto custo
da travessia desde o litoral até tão longe.

O viajante e militar inglês Sir Richard Francis Burton (1821–1890), que esteve em Daomé no
ano de 1861, impressionou-se com a força física das africanas, dotadas de um corpo musculoso,
masculino, que lhes permitia “competir com os homens na resistência ao trabalho duro, às
dificuldades e privações”.23 Ao passar por uma aldeia daomeana ele comenta a ossatura e a
musculatura dessas mulheres, dizendo que muitas vezes só se podia discernir a feminilidade
“pelas partes baixas”. Deparou-se com centenas de amazonas, grandes, atléticas, mas as achava
feias, apesar de vestidas com requinte. Eximiamente treinadas, eram, sem dúvida, mais
destemidas na guerra do que os homens. Algumas estavam grávidas, embora fossem celibatárias,
e Burton se perguntava como seriam na relação sexual.

Tropas iorubas ocuparam Abomé em 1738, determinando o pagamento de pesados tributos


anuais que consistiam em armas de fogo, pérolas, peles, animais, e quarenta mulheres e quarenta
homens jovens destinados à escravidão ou ao sacrifício humano. No Benin, no aniversário da
morte do pai de Obá matavam como oferenda uma dúzia de cativos, uma de vacas, cabras,
carneiros e galinhas. No ritual consagrado às miçangas do rei decapitavam um escravo para que
sua alma levasse ao Espírito das Contas súplicas de sabedoria ao obá e sua proteção contra feitiços
e maus desejos. Quando a chuva não vinha ou quando era excessiva e alagava as terras, matavam
uma mulher e a dependuravam numa árvore para que ali a oferenda fosse vista pelo Sol e pela
água das chuvas. Nas epidemias imolavam um casal ao deus das moléstias. Nuvens de gafanhotos,
pestes atacando plantios ou rebanhos, incêndios, qualquer ameaça motivava sacrifícios
propiciatórios ou expiatórios às divindades.

Quando Burton esteve em Daomé, fora designado para a missão de protestar contra os rituais
de sacrifício humano conhecidos como costume, e o uso da escravidão. Escolheu a época do
costume anual e foi com todo o luxo, levando comitiva e presentes caros, uma centena de
carregadores de fardos ou de macas, intérpretes, cozinheiros, um médico e um reverendo.
Desembarcou na Costa dos Escravos, no porto de Ajudá, onde ficou esperando autorização para
entrar no Daomé. Encontrou nesses dias centenas de estátuas priápicas de barro e diversos sinais
da existência de culto fálico. Com a permissão do rei Gelele iniciou sua caminhada, de aldeia em
aldeia, observando que quase não existiam mais homens adultos, decerto mortos ou escravizados
nas batalhas; até chegar a Kana, onde se localizava o palácio do soberano.
Burton encontrou Gelele em uma, como ele mesmo diz, penitência de recepção, entre
cerimônias e danças. Impressionado com a figura do monarca, descreve-o como “sem coração
mole nem cabeça fraca”.24 De corpo vigoroso, com mais de um metro e oitenta de altura, flexível,
quadris estreitos e ombros largos, os olhos avermelhados, lacrimejantes e inflamados, o rei tinha o
rosto ainda mais perturbador, desenhado por tatuagens na pele e escarificações faciais.
Com sua veemente admiração por mulheres negras, Burton estava ansioso para ver o afamado
exército de cinco mil virgens adultas africanas, dizendo jamais ter conhecido um único espécime
do gênero. As amazonas o enlevavam em sonhos e fantasias sensuais, preludiando intensas
sensações e descobertas amorosas. Ficou decepcionado ao vê-las. Descobriu que a maioria era de
mulheres flagradas em adultério e entregues ao rei “como bucha de canhão”, em lugar de serem
mortas pelos maridos traídos, ou pais. “Em sua maior parte, eram velhas e todas elas horrorosas.
As oficiais, decididamente, eram escolhidas pelo tamanho das nádegas.” Nas manobras pareceram
ao viajante um rebanho de carneiros, e fracas demais para resistirem a uma tropa europeia. No
entanto, tinham logrado algumas vitórias notáveis sobre reinos vizinhos e suas derrotas foram
atribuídas, pelo militar inglês, a comandos de oficiais masculinos.

Preparavam a celebração do costume e Burton insistia para que não sacrificassem nenhuma
pessoa pelo menos durante sua visita, chegando a pedir a libertação de vinte vítimas que estavam
amarradas dentro de uma barraca. Para atender ao desejo do emissário, o rei soltou dez, mas logo
o rufar de tambores e as danças foram iniciados para o ritual de decapitação, comandado pelo
próprio monarca. Gelele brindou ao seu hóspede bebendo numa caveira, dando-lhe duas outras
dessas “taças” de presente. Em deferência, sacrificaram as vítimas apenas à noite, enquanto
Burton aparentemente dormia. Foi Gelele quem cortou a primeira cabeça. Nove homens foram
decapitados e castrados “em respeito às viúvas reais”. Burton contou, ao final, vinte e três vítimas
do sexo masculino, mas apurou que costumavam imolar, nos cinco dias do costume, oitenta
pessoas, e cerca de quinhentas ao ano. As mulheres eram mortas por oficiais do mesmo sexo,
dentro dos muros do palácio e sem testemunhas masculinas. Burton compara esse gesto ao de seus
patrícios ingleses, que enforcavam mulheres em público: “[...] nosso último rei cristão, por
exemplo, matou uma mãe famélica de dezessete anos, com uma criança de colo, por ter tirado um
metro de tecido do balcão de uma loja.”
Refinado observador de outras culturas, Burton percebeu o caráter religioso das execuções em
Daomé, cuja razão era estabelecer entendimento com mortos reverenciados. Embebedavam as
vítimas sacrificiais para serem enviadas ao além com boa disposição. O rei Gelele queria se
comunicar com o falecido pai. O costume se originava da “piedade filial”.

*
Dotados de imenso poder, no curso de suas longas vidas os velhos africanos acumulavam
forças, herdavam a sabedoria das gerações anteriores e estavam entre o humano e o divino. Eram
os velhos que faziam os encantamentos, repassando-lhes a própria força. Como sua morte estava
próxima, tomavam-nos como um elo com os mortos.
As famílias sepultavam os mortos perto de casa, ou mesmo no quintal, para que pudessem
controlar sua força e sua vontade. De noite os ancestrais retornavam para perto dos familiares e
não se podia importuná-los. Guardava-se silêncio em casa; não se podia varrer, pilar, nem jogar
água fora; nem beber água ou bebida alcoólica sem antes derramar uma dose para os espíritos
ancestrais. A vontade dos mortos era decisiva, a ponto de se tornarem como que chefes de um
povo. Os mortos velavam dia e noite por seus descendentes e, como se fossem divindades, eram
capazes de distribuir riquezas, paz, saúde, prosperidade com as colheitas abundantes e
fecundidade. Por meio de sonhos avisavam aos vivos sobre os perigos que se acercavam. Os
mortos queriam ajudar e continuavam a fazer parte da vida e dos assuntos familiares.
I ou, i ou

As lembranças de Maria mina

A PAISAGEM DO REINO DE DAOMÉ era esplêndida, com exuberantes espécimes tropicais,


palmeiras, florestas, e a costa repleta de orquídeas e flores suntuosas. Aves numa enorme
variedade cortavam os céus ou pousavam nas margens dos lagos povoados de crocodilos. Nas
savanas vagavam grandes leões, guepardos, hipopótamos, bandos de búfalos, elefantes, girafas,
antílopes, e tantos outros animais. Tudo cabia na beleza dos imensos espaços de céus perfeitos, na
luz que cobria os verdejantes campos, nas poeiras a subir das savanas secas, debaixo de um
excesso de sol que embranquecia a paisagem: as cores ficavam mais pálidas, as luzes contornavam
e dilatavam ainda mais a largueza dos céus, das montanhas, das praias e dos campos criados por
deuses.25

Os daomeanos manifestavam a crença no Senhor dos Espíritos, o grande deus Mawe-Lissá.


Cultuavam os espíritos vodus, acreditavam que Mawe, entidade feminina, era o Ser Supremo dos
povos que, associada ao masculino Lissá, criara a Terra e os seres vivos, e engendrara os vodus,
divindades que a auxiliavam no governo do mundo. Os vodus de Abomé e Aladá, mensageiros do
invisível, dirigiam o mundo e regulavam a harmonia das coisas. Existiam apenas para a realização
do ser humano, mas esperavam retribuição. Nada podia ir contra seus anseios e deles ninguém
podia abusar. Dessa mútua colaboração dependia a felicidade do mundo. Tudo o que era obscuro
para os humanos vinha do mundo invisível. As pessoas ignoravam as causas dos acontecimentos
reais, porque essas causas estavam no mundo invisível. A fragilidade do ser humano residia nessa
ignorância.
Os vodus eram representados, cada um, ou por uma árvore sagrada, ou pela serpente do arco-
íris, pela linhagem real, pela terra firme, pelas entradas e saídas, e a sexualidade. Alguns vodus
comandavam os metais, a guerra, o fogo, a riqueza, os raios e relâmpagos, a varíola; outros
protegiam a caça e as florestas ou eram donos dos mares, da crosta terrestre e dos mercados. O
mais jovem deles tinha o dom da adivinhação e controle sobre o destino das pessoas e do mundo.
Nesses elementos divinos pode-se reconhecer a alma de um povo, tão entranhada à hierarquia,
aos temores relativos à natureza, às doenças e aos conflitos armados.
Os povos negro-africanos viam seus espíritos não como entidades eternas, imateriais e
incompreensíveis. Viam-nos como seres acessíveis por meio da inteligência ou da razão; não
eternos, mas efêmeros, que duravam certo tempo e depois pereciam, como a lembrança de um
nome.
Em boa parte, trocavam a noção de ser pela noção de força, orientando suas vidas no sentido de
ampliar essa qualidade, lutando contra sua perda ou subtração; e defendiam-se permanentemente
da influência das emanações destrutivas usando, para isso, a energia dos seres vivos ou mortos e
dos seres inanimados.

Maria mina trazia lembranças da própria infância — quando ainda tinha outro nome —, dos
costumes, das crenças de sua família, de seus dias sagrados. Nas terças-feiras o pai não ia pescar no mar
para ali obter um pouco de alimento, nem ia trabalhar na mineração. E a mãe não se dirigia ao
mercado para vender frutas, mas ficava em casa com os filhos e o esposo. O vinho tirado das árvores,
naqueles dias, entregavam ao rei, que pela noite o distribuía aos seus gentis-homens para o beberem
entre si.
As famílias se dirigiam ao mercado para o ritual religioso, as mulheres com colares, pulseiras e
brincos executados por magníficos ourives da região, roupas de tiras feitas nos teares caseiros, bem
coloridas. Ali se sentavam, devotas, diante de um altar feito de barro e o cimo bem apertado por
caniços, sobre o qual, num monte de palha, estava o fetiche. Aos pés da divindade os pais depositavam
milho miúdo, vinho de palmeira ou água, para que a divindade se pudesse sustentar e não perecesse de
fome ou sede. Mas eram as avezinhas do ar que devoravam o grão e bebiam a água. Quando tudo
estava consumido, os pais ungiam com óleo o altar e o refrescavam com mais alimentos e bebidas, em
honra ao seu fervor.
Nos dias de festa o feiticeiro, sentado num tamborete, diante do altar assistia às oferendas, junto a
um pote de bebidas, uma esteira e um hissope para aspergir água. Homens, mulheres e crianças da aldeia
sentavam-se ao redor dele, e o feiticeiro lhes fazia uma longa narrativa. Ao final o celebrante se
levantava e borrifava o altar com a água do pote, enquanto todos gritavam:
— I ou, i ou!
O pai ia ao encontro da mulher e pendurava em seu corpo feixes de palha, para que se livrasse de
todo o mal e para que os feiticeiros não lhe causassem dano. Coberta de palhas mágicas a mãe se
aproximava com as crianças e o mago esfregava em suas peles um unguento colorido que tinha a virtude
da bênção. Então todos voltavam para casa.
De manhã, após lavarem bem seus corpos, traçavam listras no rosto com uma terra tão branca
como o giz e, quando começavam a comer, dedicavam ao fetiche as palhas dos corpos, dando-lhe o
primeiro trago de sua bebida e o primeiro naco de sua comida, para ficarem em paz e sem moléstias,
para que tivessem sorte.
Em outros dias iam apaziguar a residência dos deuses, nas montanhas mais altas e mais sujeitas aos
trovões e relâmpagos. Em seu sopé ofereciam-lhes arroz, sorgo, milho, pão, vinho, azeite e tudo mais de
que pudessem dispor. Quando o pai de família não tinha sorte em suas atividades, acreditando que os
fetiches estavam encolerizados, dava ouro a seus feiticeiros para que pudessem pacificar a divindade e
convencê-la a propiciar-lhe novamente uma boa ventura. Nessas ocasiões o feiticeiro e suas mulheres,
com seus melhores trajes, percorriam a cidade em procissão, chorando, golpeando o peito, batendo
palmas e fazendo grande barulho. À beira-mar penduravam em volta do pescoço ramos de certas árvores
fetiches, que lhes enviavam o peixe. Após tocar num tambor os ritmos sagrados o feiticeiro voltava-se
para as mulheres, falava-lhes como se estivesse ralhando com elas, fazendo-lhes advertências, jogando no
mar os grãos e alguns brinquedos pintados. E regressavam todos para suas casas.
As crianças acompanhavam a mãe no trabalho do campo, ajudando a plantar e a colher. Também
a auxiliavam no comércio, executado de maneira inteligente e adequada. Mãe e filha saíam de
madrugada, levando mercadorias à cabeça.

A precisão e o apuro dessas africanas no relacionamento comercial pode ser um elemento


atávico na formação do caráter de Xica da Silva, tão habilidosa em seus “comércios” de favores e
em seus relacionamentos afetivos. Provavelmente ela acompanhava a mãe em todas as tarefas,
aprendendo com a prática e absorvendo tradições.

Argutas, experientes e bem-informadas, elas sabiam o que melhor se colocava em cada praça e
o que ali se adquiria com demanda certa em outros lugares. Aqui vendiam pimenta e
compravam o inhame que iam oferecer mais adiante. E lá adquiriam o pano branco, que
levavam a tingir, para trocá-lo, depois, por peixe seco noutro mercado. Arrematavam em
grosso e revendiam em pequenino. Jogavam com os preços, aproveitando-se muitas vezes de
diferenças mínimas. E não ignoravam as variações de valor que sofriam o ouro, o sal, o
escravo, o marfim, a noz-de-cola e os tecidos magrebinos, nos tratos com os diulas.26
Lojas de carne

Crianças vendidas no Valongo

NÃO SABEMOS COMO Maria mina foi escravizada. Há uma versão de que era nascida na Bahia,
onde teria sido batizada antes de ser levada para as Minas; mas ela mesma se declarou natural da
Costa da Guiné, o que é confirmado pelo nome que usava, Maria da Costa. O fato de ter sido
levada para a região mineradora no Brasil indica que possivelmente seu pai teria sido minerador
ou vivido em região mineradora. Talvez Maria fora capturada com toda a família, e
posteriormente dela separada. Mas costumava-se aprisionar crianças nas aldeias, assim como nas
estradas, nas lavouras ou nos seus momentos de diversão por campos e lagos africanos. Algumas
eram compradas aos pais a preço vil: uma macuta, moeda corrente na troca de escravos, que
consistia em uma peça de pano com uma jarda (pouco mais de noventa centímetros) de
comprimento.
Cerca de vinte por cento dos cativos trazidos nos navios negreiros eram crianças, apreciadas
por comerem menores quantidades e ocuparem menos espaço nos porões. “As crianças que
chegavam em navios negreiros pareciam esqueletos, cheias de sarna, problemas de pele e outras
moléstias e ficavam sujeitas a tratamentos horríveis para poder enfrentar e bem impressionar seus
compradores.”27 Um viajante observa que com rapidez o aspecto dos negros recém-chegados se
modificava para melhor, com a alimentação abundante, água e razoável tratamento concedido a
fim de que se tornassem mercadoria mais atrativa. “A pele como que se renova e adquire um
negror brilhante, os olhos se enchem de vida e fulgor, e em todos os seus gestos as jovens africanas
demonstram uma graça natural, que comumente falta à gente da Europa. Trajam-se
elegantemente. O níveo vestido amolda-se aos membros roliços dum brilhante pretume. O
turbante vermelho esconde-lhes a carapinha, única coisa que numa preta acho excessivamente
feia. Um ombro fica meio descoberto. Do outro cai um pano com cores variegadas.”28

*
No mercado, as crianças que vinham acompanhando a mãe ou a família eram comumente
vendidas em separado e serviam para inúmeros afazeres, muitos deles dentro de casa. Viajantes
que estiveram no mercado do Valongo, no Rio de Janeiro, onde desembarcava a maioria dos
escravos destinados às regiões mineiras, registraram a presença infantil, sendo que as crianças em
exibição tinham entre cinco e dez anos. As crias de peito e as crias de pé — começando a andar —
não eram anotadas, mas estavam por ali. Alguns se afligiam ao ver tantas crianças tiradas aos pais
para serem escravizadas; elas ficavam a conversar, a rir e a brincar umas com as outras. Enquanto
estavam juntas, pareciam felizes; mas quando começavam a ser vendidas, conforme cada uma ia
sendo levada, o ânimo das que restavam se abatia, até se tornarem apáticas, silenciosas e tristes.
As crianças eram tidas como excelentes ajudantes de mineradores. Tinham olhos capazes de
ver o que as vistas de adultos não conseguiam, como diamantes pequenos encravados numa rocha
ou rolando nos cascalhos, e ouro faiscando nas frestas; na avaliação das frias maravilhas eram
capazes de perceber sutis variações de refração da luz diamantina, um grão de areia na
cristalização, jaças, imperfeições de opacidade, falsas cores. Burton conta que no Hindustão as
crianças eram os melhores julgadores da água, do peso e da pureza das pedras de preço; e que o
viajante Tavernier fizera uma curiosa descrição de meninos compradores de diamantes nas feiras.

Trazendo sua alma africana, seu modo de ser, Maria mina chegou ao Brasil por volta de 1720.
Ainda criança e decerto conservando na memória seu nome e língua africanos, foi levada ao
arraial do Milho Verde numa leva de escravos sob a guarda do negro forro Domingos da Costa.
Diversos aventureiros, tropeiros e mercadores vendiam mulas, tecidos, artigos de armarinho e
outras mercadorias nas localidades rurais. Eram, em geral, esses homens que se tornavam
traficantes de escravos. Compravam-nos a crédito e organizavam pequenas caravanas,
penetrando os sertões e vendendo-os de fazenda em fazenda. “Assim que vendiam todos,
retornavam ao Rio para pagar suas dívidas, obter novo crédito e repetir o processo.”29
Os traficantes que iam por terra “começavam sua jornada em um barco pequeno que os
levava até Porto da Estrela, do outro lado da baía de Guanabara, onde comerciantes ou tropeiros
mineiros os apanhavam. Dali seguiam por estrada até Minas, onde a ‘cada hora passavam tropas
de mulas lotadas e filas de novos escravos com seus barretes vermelhos’. Em alguns casos os
negros também levavam cargas na cabeça, enquanto caminhavam em fila indiana pela floresta. O
chefe armado da caravana ia na retaguarda, à maneira do tráfico angolano.”30 Esse chefe armado
poderia ser Domingos da Costa.
Talvez vinda da Bahia, Maria mina provavelmente foi comprada no mercado de negros da rua
do Valongo, no Rio de Janeiro, onde havia cerca de vinte casas usadas como depósito de negros
desembarcados, ali vendidos a comerciantes ou a senhores locais. O Valongo lembrava uma
aldeia, com suas pequenas moradias cobertas de telhas, desenhadas contra a encosta verde do
morro e diante do mar coalhado de barcos. O andar térreo daquelas “casas de carne” era
destinado a esse comércio, e as janelas, fechadas por tijolos. No andar de cima habitava o
comerciante com sua família. Em alguns casos os escravizados ficavam em pátios, bem menos
sufocantes que os depósitos vedados. Ao aspecto bucólico do Valongo fazia grande oposição o
estado de saúde dos negros desembarcados, famélicos, alguns moribundos, apavorados, assim
como o cemitério que ficava ao lado, onde despejavam em valas os negros que iam morrendo.
Algumas dessas casas eram depósitos especializados na venda de crianças, como descreve o
viajante Brand,31 no início do século 19, em sua visita ao Valongo.

A primeira loja de carne em que entramos continha cerca de trezentas crianças, de ambos os
sexos; o mais velho poderia ter doze ou treze anos e o mais novo, não mais de seis ou sete
anos. Os coitadinhos estavam todos agachados em um imenso armazém, meninas de um
lado, meninos do outro, para melhor inspeção dos compradores; tudo o que vestiam era um
avental xadrez azul e branco amarrado na cintura.32

Marcadas a ferro quente no peito ou em outras partes do corpo, vivendo e dormindo no chão,
num ambiente de cheiro e calor insuportáveis, pareciam deploráveis aos olhos de alguns viajantes
comentaristas. Conforme F. J. Meyen,33 que visitou o Valongo por volta de 1830, “devido à sujeira
do navio em que haviam sido trazidos e à má qualidade da dieta (carne salgada, toucinho e feijão),
tinham sido atacados de doenças cutâneas, que a princípio apareciam em manchas e logo se
transformavam em feridas extensas e corrosivas. Devido à fome e miséria, a pele havia perdido a
sua aparência lustrosa, e assim, com as manchas com erupções esbranquiçadas e cabeças raspadas,
com suas fisionomias estúpidas e pasmas, certamente pareciam criaturas que dificilmente alguém
gostaria de reconhecer como seu próximo”.34 Além dos terríveis sofrimentos da separação
familiar, do rompimento com a sua cultura, da privação da liberdade e os da travessia marítima,
as crianças eram recebidas nas lojas de carne com verdadeiros suplícios, como o uso de
estimulantes para evitar a “preguiça” e a tristeza, feitos de pimenta, gengibre e tabaco. Caso
continuasse melancólica ou apática, a criança recebia socos, tapas e ameaças com o chicote e a
vara, que muitas vezes corriam soltos.
Viagem ao Ivituruí

As penas de mais uma travessia

MARIA MINA VAI TRILHAR o Caminho Novo no rumo das montanhas frias do Serro, que
chamam o Ivituruí. Experimenta algum consolo por estar sendo tirada desse lugar triste que é o
Valongo, mesmo sentindo falta das crianças que ficaram, das que foram vendidas a outros senhores, com
quem ela brincou e mesmo conversou, se falavam a sua língua. Por outro lado, há uma ânsia no seu
peito, por saber que a estão levando cada vez mais longe de sua terra e sem atinar como será sua vida.

Num relato de 1731,35 de comprovada exatidão nos dados geográficos, o viajante partia do Rio
de Janeiro em lancha e entrava pelo rio do Aguaçu com maré alta, até chegar a Pilar. Em canoa,
rio acima ele ia ao Couto, onde montava a cavalo e seguia a jornada até Taquaraçu, ao pé da Boa
Vista, onde ficava um registro. Subia a serra com inexplicável trabalho e do ponto mais eminente
da estrada avistava o mar, os rios, as planícies da terra, gozando de um formoso espetáculo.
Prosseguia, passava à direita do pico do Couro, que parecia feito no torno, todo de pedra, e por
uma banda de sua fralda descia a estrada. Após o pé da serra o viajante passava pelas roças do
Silvestre, Bispo, Governador, Alferes, da Rocinha, do Pau Grande, de Cavarumirim, Cavaruaçu,
Dona Maria e outra com o mesmo nome. Então atravessava o rio Paraíba em canoa, passava pela
roça de Dona Maria Taquaraçu, por outra roça chamada de Dona Maria Paribuna, vadeava o rio
Paraibuna, seguia por Rocinha do Araújo, Contraste, Cativo, Medeiros, José de Sousa, Juiz de
Fora, Alcaide-Mor, novamente Alcaide-Mor, Antônio Moreira, Manuel Correia, Azevedo,
Araújo, Gonçalves, Pinho, Bispo, e nesse ponto subia a serra da Mantiqueira. Rocinha, e saía ao
campo. Coronel, Borda do Campo, Registro. Prosseguia por José Rodrigues, Ressaca, Carandaí,
Outeiro, Os Dois Irmãos, Galo Cantante, Rocinha, Amaro Ribeiro, Carijós e Macabelo. O nome
Macabelo deriva de Macabeu e significa cristão-novo judaizante e disposto a enfrentar o Santo
Ofício, de forma que ali devia residir alguém com essas características. Em Macabelo o viajante
passava o Rodeio, isto é, ia à roda da serra Titiaia. Seguia por Pousos de Ilhéus, Lana e tomava à
esquerda; ia pela Cachoeira à vista da Casa Branca, buscava a passagem do Garavato e prosseguia
o caminho do Lama, de Três Cruzes e, afinal, Tripuí. A meia légua (menos de três quilômetros)
estava Vila Rica (antigo nome de Ouro Preto) e logo se entrava nela.
Em seu relato de 1711,36 Antonil informa que era possível se fazer a viagem pelo Caminho
Velho em cerca de trinta dias, marchando de sol a sol. No entanto, raras vezes se conseguia essa
marcha, pela aspereza dos caminhos e por serem necessários pousos nos locais, chegando-se às
vezes a uns cem dias entre caminhadas e paradas. Quase cem léguas (aproximadamente
quatrocentos e oitenta quilômetros) de estradas corriam por montanhas e abismos.

No lombo de animais ou a pé, a viagem era feita nas mais árduas condições, com frequentes
imprevistos, inicialmente por matas fechadas, trilhas sinuosas à beira de abismos, ladeiras
íngremes, cruzando o viajante com gente de toda espécie. Amanhecia muitas vezes entre neblinas
tão intensas que todos eram obrigados a esperar. A umidade excessiva no percurso das florestas
fazia mofar as comidas, couros e roupas, atacando também os pulmões e os ossos dos seres vivos.
O frio noturno fazia tiritar e causava doenças respiratórias.
Os viajantes se alimentavam com farinha, caça, mandioca e feijão das roças que havia no
caminho, frutos silvestres, mel de abelhas ou coração de palmito tirado das matas verde-escuras.
Atravessavam rios ou riachos que deslizavam nos abismos, por sobre troncos jogados de qualquer
maneira em dormentes. Não raro, homens, ou burros com suas cargas, tontos, eram engolidos
pelas gargantas das serras. O que mais atrasava a viagem eram os registros, onde se faziam
demoradas revistas, examinavam-se documentos e se alongavam nas contas de pagamentos de
passagem e impostos sobre escravos e mercadorias.37 Os muleteiros tinham de desmanchar as
cargas para que vasculhassem todos os possíveis esconderijos. Quando havia alguma suspeita, os
funcionários do registro e soldados arrancavam forros de casacos, descosiam roupas, abriam
cabeças de selas e esvaziavam enchimentos dos suadouros; descarregavam armas de fogo para
arrancar suas coronhas de madeira; despregavam saltos das botas, desarrumavam os fardos,
partiam as caixas, desferravam os animais, penteavam suas crinas e rabos com pente fino; nem
mesmo as senhoras viajantes escapavam a uma revista em suas intimidades.

Maria mina sente medo. Nas noites escuras os viajantes estão mais sujeitos aos ataques de salteadores,
ladrões de escravos ou de cavalos, assaltos de índios bravios. Os comboieiros com quem cruzam no
caminho dão notícias sobre a comarca. Contam que, nas Minas do ouro, onças famintas atacam com
uma audácia que não se vê em outra parte. Serpentes venenosas se precipitam da mata sobre viajantes,
saem das águas ao ouvir vozes ou passos, envolvendo-os e matando-os com agilidade. Todo tipo de
inseto nocivo pica as pessoas, muitas vezes levando-as a uma morte demorada e dolorosa, entre suores,
febres e delírios. Quanto aos moradores, dizem que nas Minas a falsidade é tão repetida que a reputam
por virtude e em alguns lugares só habitam pessoas que juram por dinheiro, à proporção das qualidades
das causas.
Assim seguem viagem pela mata úmida, verdejante, e densa a ponto de longos trechos correrem entre
túneis de árvores, sem se avistar o céu. Maria não compreende a fala dos homens, mas um dos escravos
lhe traduz palavras. Ela percebe o receio em seus olhos, contagiando-se. Faz preces aos vodus para que as
matas a protejam. Deixa aqui e ali uma pequena oferenda aos pés de uma pedra ou sobre raízes de uma
árvore. À noite, antes de adormecer, imagina voar para sua aldeia e fala com a alma de sua mãe.

Ao aproximar-se da região do Serro, seguindo pelas cristas dos montes, a paisagem se


modificava completamente. Surgiam penhascos selvagens, montes pedregosos hostis, picos
alcantilados, apenas um ou outro colmado mais distante. As pedras corroídas pelo tempo davam a
impressão de muito velhas. Os ventos açoitavam com tanta violência que por vezes derrubavam
homens e mulas com sua carga pelos despenhadeiros. O sol requentava aquela aridez,
encarquilhando e ressecando folhas e flores. Havia poucos arvoredos a sombrear.
Os viajantes muitas vezes passavam fome, mas raramente sede, pois a região era salpicada de
fontes, córregos, riachos e rios de águas frescas e cristalinas. Não se ouviam mais as sinfonias de
pássaros da mata, mas latidos surdos ou séries rápidas de sons agudos e metálicos de uma ave, o
rufar das asas de uma rapinante ou os cantos de trabalho escravo em lavras de ouro.
Pisava-se em areias com pedregulhos ou pedras de ferro porosas que cortavam os pés a quem
viajasse descalço. Escorregava-se por barrancos, por ladeiras feitas para cabritos. Os viajantes
venciam as ardentes trilhas ao longo de uma relva amarela. Precisavam saltar por tocos de
árvores, por buracos de onde raízes tinham sido arrancadas, galgavam ribanceiras. Entre as folhas
secas a juncar o solo vivia uma multidão de carrapatos que se aninhavam nas pernas dos viajantes
e sugavam seu sangue. A pele ficava cada dia mais picada também de formigas, abelhas e tantos
outros insetos danosos, o que se remediava com meia canada de rascante.
Nos lugares mais secos, urubus se fartavam em carcaças de bois. Nas estradas, juncadas de
esqueletos, cruzes indicavam a sepultura de viajantes infelizes. Um sentimento de desolação e
desterro crescia entre as serras agudas, riscadas, denteadas, eriçadas, entre aqueles picos e
fragmentos de rochas separados por crateras e fendas, umas escuras e ameaçadoras, em que
surgiam ora alvos areais, ora campos relvados, ora terrenos em cinzas.
As queimadas para plantio se sucediam no tempo de seca, entre agosto e setembro, sobre as
quais comentou o mesmo Sir Richard Francis Burton, que adentrou a região diamantina em 1867:
“Não há dúvida sobre o mal que esse romântico e pitoresco hábito produz nas matas, não
contando a madeira desperdiçada. Ele afeta profundamente a vegetação e destrói os mais rijos
espécimes. Nestes rudes campos daqui talvez não seja tão contraproducente, uma vez que a
grama brota imediatamente e que a potassa é tão útil ao gado.”38 Ele descreveu noites frias e
perpassadas por ventos fortes que faziam acumular-se montes de flocos azulados no céu,
“guarnecendo um arco de vapores mais claros e mais leves, sinais de um tempo miserável”.
Dependendo da direção do vento, encontrava-se a estrada enlameada ou poeirenta. As chuvas
começavam em outubro, algumas com fortes tempestades e trovoadas.

Apesar de a viagem ser tão árdua, a paisagem comove: à frente, muralhas prateadas; atrás, os
campos em ondulações até se perderem no horizonte, com a mais plena sensação de imensidade que, no
entanto, intensifica a solidão. Desfilam aos olhos de Maria mina os córregos de águas muito puras em
leitos alvíssimos, riachos avermelhados de ferro sobre areias douradas, entre renques de coqueirinhos-do-
campo, copaíbas a chorar na Lua nova de agosto, monjolos e pereiras-da-serra. Surgem árvores com
lírios, bromélias anãs, flores de estames azuis e amarelos, ou uma cor-de-rosa aqui, uma branca ali.
Voam alegres andorinhas, belas marias-pretas, rubros pitanguis. Tesourinhas fazem acrobacias no ar,
mansos tico-ticos acompanham os viajantes, como enamorados, e joões-de-barro saltitam à sua frente,
parecendo falar.
Com um sentimento de esperança as pessoas vão rumo a seus sonhos de riqueza e libertação ou, pelo
menos, sobrevivência. Diz o povo dali que os viajantes caminham sobre riquezas, que se arrancarem um
arbusto as raízes surgirão repletas de pepitas. Basta batear o cascalho para num instante se encher de
ouro uma grande bacia. O ouro é o pensamento do dia e o sonho da noite. Sussurram que um negro
encontrou umas pedrinhas brancas parecidas com diamantes. Mas ninguém acredita, tantas são as
notícias falsas de riquezas escondidas, que se espalham.

Maria chega ao Milho Verde ainda vestida com seu avental xadrez, rasgado, o barretinho vermelho,
e as mãos, pernas, os pés escalavrados. Está novamente magra, mas não tanto como quando chegou ao
Rio. No Valongo lhe davam farta comida para a menina engordar e ser logo negociada, e não era uma
comida tão ruim, porque um cozinheiro africano a preparava.
Ela tem um corpo esguio e muscular, mas altivez, temperamento soberbo e inclinação à birra.
Também uma agudeza clara, demonstrada no dia a dia, e particularmente diante de acusações. Possui
vivacidade, disposição e persistência na execução de seus atos. Será boa para o trabalho, embora com
risco de rebeldia. Mas, como ainda é criança, poderá ser amansada e ensinada a obedecer sem muxoxo.
Os escravos que fizeram a viagem com Maria vão embora, levados por Domingos às lavras para
serem vendidos pelo maior valor. Nessa região os cativos são arrematados a preços exorbitantes. Um
negro bem-feito, valente e ladino, vale trezentas oitavas de ouro; um molecão, duzentas e cinquenta;
um moleque, cento e vinte; uma negra ladina cozinheira vale trezentas e cinquenta oitavas; um crioulo
bom oficial, quinhentas oitavas; um mulato de partes, ou oficial, ou um bom trombeteiro, também
quinhentas; e a mulata de partes, a mais valiosa, quase sempre destinada aos amores, vale seiscentas e
tantas oitavas, ou o que se ofereça em maior lance.
Uma dúzia de casas

O arraial de Milho Verde

NOME GRACIOSO a sugerir plantios de milho e seus pendões dourados, o Milho Verde recebeu
essa designação quando das primeiras lavras de ouro locais, que pertenciam a um português do
Minho, Manuel Rodrigues Milho Verde. A aldeia, de poucas casas de barro e choupanas de palha,
corria ao longo de uma rude capela dedicada a Nossa Senhora dos Prazeres. O naturalista escocês
George Gardner, que esteve na região por volta de 1840, anotou: “Pouco antes passamos pelo
arraial de Milho Verde, mas a curta distância para o sul, em um lugar chamado Vau, atravessamos
um pequeno rio por uma velha ponte de madeira meio podre. Há aqui umas poucas casas de mau
aspecto, cujos donos são geralmente lavradores de diamantes: um destes me mostrou alguns,
todos pequenos e longe de igualar, quanto à cor, os que se encontram perto de Diamantina; um
era negro como azeviche, cor que não é raro encontrar.”39
Antes dele, lá esteve o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire (1779–1853), que deixou
anotada sua viagem do Tijuco ao Milho Verde, iniciada em 30 de outubro de 1817. Ele descreveu
a paisagem com o olhar de um naturalista.

Num trajeto de 5 léguas, de Tijuco a Milho Verde inclusive, percorre-se uma região
extremamente montanhosa, onde não se vê nenhum traço de cultura. Rochedos de uma cor
parda mostram-se por toda parte e dão à paisagem um aspecto agreste e selvagem. Por todos
os lados surgem nascentes de água e frequentemente se ouve o ruído das águas correndo
através dos rochedos. A vegetação muda várias vezes, segundo a elevação e a natureza do solo;
mas, em parte nenhuma se veem grandes florestas. Nas grotas crescem arbustos de 3 a 4 pés,
geralmente retos e muito próximos uns dos outros; são eles que caracterizam os carrascos das
altas montanhas. Em alguns lugares em que o solo é argiloso e quase plano, vi árvores
raquíticas e separadas como as dos tabuleiros do sertão; mas seus caules eram mais delgados e
mais estendidos. Para além de As Borbas, sobre diversos declives cobertos de pedras, achei em
grande abundância uma espécie de folhas pequenas do gênero Lychnophora Mart. (vulgo
candeia), gênero que, nas montanhas, caracteriza as vertentes pedregosas. Enfim, nos lugares
mais elevados, onde domina seja a areia, seja a pedra, aparecem ervas entremeadas de
subarbustos, e, entre estas últimas, esparsos, arbustos de diferentes tamanhos. As chuvas
tinham dado à folhagem das plantas um tom agradável e os relvados produziam às vezes um
belo efeito no meio dos rochedos.40

Estava o Milho Verde às margens de um córrego que buscava caminho pelas rochas, formando
quedas e tanques, numa parte plana entre as abas de serras. As águas que correm entre pedras e
areias são as mais cristalinas e delas emana o frescor. Mas a paisagem mostrava uma aparência
sáfara, delineada por montanhas pedregosas, a terra revolvida pela lavagem do cascalho e uma
vegetação ressecada em parte do ano, vastos campos sem árvores, cobertos de capins, em planos,
vales e colinas sob o domínio dos cerrados. Saint-Hilaire descreve a aldeia do Milho Verde
contando com “uma dúzia de casas e de uma igreja”.41 Lá, registrou a presença da sede do
destacamento militar encarregado de inspecionar os viajantes que trafegavam entre Tijuco e Vila
do Príncipe, vistoriando documentos e bagagens. Havia nesse tempo apenas um serviço de
mineração de diamantes em Milho Verde e algumas vezes para lá se enviavam escravos a fim de
trabalharem na cata de diamantes escapados a antigas pesquisas.

Às vezes aparece por perto do arraial uma onça-tigre ou uma onça-pintada. Também lobos-guarás,
vermelhos, com seus pés e focinhos pretos, a caçar de noite, gritando com voz de gente como se pedindo
socorro. Valentes antas, ou bandos famintos de cotias, de pacas, macacos ou guaribas destroem por vezes
os roçados. Veados das redondezas são os melhores alvos para os caçadores, que usam sua pele para fazer
botas. Homens e meninos atiram em perdizes, codornizes e outras aves, como papagaios, araras,
maritacas, maracanãs, inhambus, jacus, capoeiras, macucos, jacutingas, não só para o gosto da comida,
mas para o divertimento da caça. Índios aimorés rondam o arraial, com seus botoques nos lábios e nas
orelhas, de aparência e fama aterrorizantes.

*
Eram conhecidos os ataques de aimorés a arraiais, caravanas e fazendas de sesmeiros, quando
incendiavam tudo o que encontravam. Esses indígenas foram massacrados por soldados
portugueses na Batalha do Cricaré, travada em 1558 às margens do rio São Mateus, no Espírito
Santo. Constantemente expulsos de suas terras, no contato com o branco que os escravizou
aprenderam a abusar da aguardente. Robustos, ótimos guerreiros, corriam com grande
velocidade. Vinham dar nos povoados da comarca em busca de comida e aguardente. Também
perambulavam por ali alguns puris, índios dóceis que apareciam apenas para vender seus legumes
e fabricos.
Moradores primitivos da região ao leste de Minas Gerais, os botocudos — denominação
genérica dada pelos portugueses a grupos macro-jês — eram tidos como um dos empecilhos ao
povoamento e à paz. Por outro lado, essas tribos se tornavam favoráveis à política da Coroa
portuguesa de evitar o contrabando de ouro e diamantes, pois impediam a passagem de Vila Rica
ao rio Doce, por onde se podia atingir a costa, sem nenhuma possibilidade de controle. Os
próprios agentes da Coroa estimulavam a difusão das características violentas dos botocudos,
dando ênfase a sua crueldade para com os prisioneiros.
Afirma-se geralmente, na província de Minas Gerais, que os botocudos são antropófagos, e as
informações que colhi em Peçanha tendem a confirmar essa opinião. Quando estes índios
matam algum inimigo saboreiam, disseram-me, sua carne como se fosse um manjar delicado,
e não fazem o mesmo caso de todas as partes do corpo. Muitas vezes, asseguraram-me, foi
encontrado só o tronco dos mortos por eles, e foram vistos os ossos dos membros em volta de
fogueiras apagadas. Devo dizer que Firmiano, o Botocudo que me seguiu durante vários
anos, repelia a acusação de antropofagia como uma mentira inventada pelos portugueses, a
fim de terem um pretexto para fazerem mal a sua nação; mas, ao mesmo tempo,
acrescentava que poderia ter dado ensejo a esta calúnia o hábito que tinham seus
compatriotas de cortar em pedaços os corpos dos inimigos já privados de vida.42

A população de Milho Verde e arredores compunha-se, como nos outros arraiais, de alguns
homens brancos, mineradores em geral vindos do Minho e Douro e de capitanias brasileiras,
quase todos solteiros, sendo raros aqueles com família branca e muitos os unidos a negras ou
pardas; talvez um comerciante, um ou dois homens de ofício como ferreiro, pedreiro ou
carpinteiro, um cristão-novo, algum índio puri; uma ou outra negra de tabuleiro e prostitutas.
Predominavam os escravos ligados à mineração do ouro. Não sabemos se e por que Domingos da
Costa residia nesse arraial, onde Maria mina passaria sua infância e juventude, até lhe nascerem
os filhos. Talvez estivesse associado com algum minerador que lhe financiasse a mercancia de
escravos.
Em torno do arraial havia, além das catas de ouro, esparsos ranchos com roças de milho,
feijão, algodão, cana e mais plantios de subsistência, assim como um engenho e uma pequena
indústria de fiação e tecelagem de uma negra mina, na propriedade de uma mulher branca
chamada dona Teotônia.
Nas casas modestas, de taipa, palha e pedras, os moradores do arraial levavam uma vida lenta,
de trabalho árduo, quebrada por momentos de susto e animada por festas religiosas que se
celebravam em torno da capela, ou pela manifestação efusiva de algum minerador ao encontrar
uma boa lavra de ouro.

As crianças escravizadas, na região mineira, tinham serventia quase somente como ajudantes
domésticos; desestimulavam sua presença nos serviços de mineração por temerem sua facilidade
em roubar pepitas ou gemas; tampouco podiam acompanhar as mães que eram negras de ganho.
Andavam soltas pelas ruas nas vilas e arraiais, muitas vezes abandonadas por senhores — que não
queriam ter gastos com alimentação, vestimenta nem saúde de uma criança escrava.
Andavam pelas senzalas mas também pelas dependências da casa dos senhores, sobretudo
quando suas mães eram escravas ali, e havia uma confraternização humilhante, pela presença do
sentimento de superioridade dos brancos em relação aos negros e mestiços. Alguns autores, como
Debret e Rugendas, contam que as senhoras “acarinhavam e aceitavam as crianças negras que não
tivessem ainda atingido os sete anos, sobretudo as menores e, a partir daí, segundo Debret, eram
entregues à tirania dos outros escravos”.43 As crianças menores, tidas como graciosas, serviam
para distração das senhoras, como se fossem brinquedos. Riam de suas cambalhotas e travessuras,
davam-lhes guloseimas e permitiam que convivessem com seus filhos brancos. Essas crianças
eram chamadas de pardo, cabra, mestiço, mulato, ou gente de cor, e os pequenos serviços domésticos
que realizavam não eram mais que levar recados, buscar uma qualquer coisa, lavar louça ou
fazer-se de bobo, de malfalante, de bicho.
Os que tinham boa voz eram treinados para cantar nas festas, muitos como sopraninos puros e
bem agudos. Não raro ocorria a participação de crianças nas bandas e orquestras que tocavam nas
festas profanas ou religiosas. Donos de cativos treinavam-nos para que funcionassem como uma
fonte de renda, recebendo pagamento por seus “moleques” cantores ou instrumentistas. Em 1794,
consta o pagamento pela irmandade do Pilar, em Vila Rica, de um moleque que tocava tambor e
de um menino tocador de caixa. Havia a contratação de “lobinhos” para cantar e de “dansantes”
para representar papéis nas comédias.
Algumas crianças participavam da vida de trabalho auxiliando em algum ofício, como de
carpinteiro, pintor, alfaiate ou construtor. Muitas aprendiam essas atividades desde a primeira
infância e a maioria era escrava dos próprios artífices. No caso da pequena Maria mina, supõe-se
que tenha trazido da África alguma experiência de serviços domésticos assimilados da mãe, mas a
menina teve de passar por um processo de domesticação e aprendizagem de novos serviços, além
de uma nova língua, novos costumes, nova religião.
Comer o sal de Deus

Batismo e infância de Maria mina, 1721

SE NÃO FOI BATIZADA NA ÁFRICA, Maria mina recebeu a admissão solene na Igreja cristã no
Milho Verde, por volta de 1721, na capela de Nossa Senhora dos Prazeres, uma construção de
traços singelos, com apenas uma porta e, acima, duas janelas e um óculo para entrada de luz. Seu
batismo foi provavelmente realizado de forma coletiva, com o dos demais escravos levados por
Domingos da Costa e talvez mais alguns, de outros donos. Na descrição de uma curiosa cerimônia
de batismo coletivo de negros no Rio, no século 19, vemos que o padre separava as mulheres dos
homens, formando uns três ou quatro conjuntos de cada sexo. Perguntava-lhes, e todos estavam
ensinados a responder sim:

— Queres lavar tua alma com água benta?


— Queres comer o sal de Deus?
— Expulsarás todos os pecados de tua alma?
— Não cometerás mais pecados?
— Queres ser um filho de Deus?
— Expulsarás o demônio de tua alma?44

O nome de batismo era dado a todos de um mesmo conjunto de escravos. O padre agitava
uma vassoura molhada com água benta sobre suas cabeças até ficarem bem borrifadas, enquanto
gritava qual seria o nome das pessoas daquele grupo: Antônio, Maria, José, Francisco... Tinham
aprendido o pai-nosso, a ave-maria, os procedimentos da confissão e, com muita dificuldade, o
sinal da cruz. Dizer sim a comer o sal de Deus, para aqueles seres, significava renunciar aos dons
de sua tradição e perder a capacidade de voltar à África. Alguns africanos acreditavam que não
comer sal conferia-lhes poderes especiais, como os dos espíritos.
Henri Koster (1793–1820), um viajante anglo-português que esteve no nordeste do Brasil entre
1809 e por volta de 1820, informa que os escravos vindos de Angola eram batizados em grupo,
ainda nas praias de sua terra, antes do embarque. O viajante dá um testemunho sobre o tema do
batismo do escravizado no nordeste do Brasil, observando o ponto de vista do negro.

A religião do amo ensina que ele será extremamente culpado consentindo que seu escravo
permaneça herético e os brasileiros e portugueses têm profundo sentimento religioso para que
negligenciem um dos mandamentos da Igreja. O próprio escravo deseja ser cristão porque seus
companheiros em cada rixa ou pequenina discussão com ele, terminam seus insultos com
oprobriosos epítetos, com o nome de pagão! O negro não batizado sente que é um ser inferior
e mesmo não podendo calcular o valor que os brancos dão ao batismo, deseja que o estigma
que o mancha seja lavado, ansioso de ser igual aos camaradas. Os africanos há longo tempo
importados estão imbuídos do sentimento católico e parecem esquecer que já tiveram eles
próprios posição semelhante. Os escravos não são convidados para o batismo. Seu ingresso na
Igreja católica é tratado como uma cousa em curso. Não são considerados como membros da
sociedade, mas como animais brutos, até que sejam levados em massa a confessar seus pecados
e receber os sacramentos.45

A pequena Maria mina aos poucos domina a fala dos portugueses. Aprende a trabalhar nas novas
funções de escrava de Domingos da Costa e a rezar. Sendo seus senhores negros forros, a menina convive
em casa com lembranças africanas, costumes de escravos, a fala, a maneira, o gesto negro. Mas assimila
os modos portugueses e as exigentes determinações da Igreja católica ensinadas pelo pároco, cujos dogmas
a menina tem de cumprir. A cada novo dia está mais distante da língua materna, dos costumes
africanos, de sua terra, seus afetos.
É obrigada a trabalhar na lida da casa, ajudando as outras escravas e cuidando das crianças de seus
donos. Não pode passear até as lavras do português Manoel Milho Verde, onde alguns negros giram
bateias na cata de ouro. Nem à chácara de dona Teotônia, para olhar a negra mina que passa o dia a
fiar e a tecer tiras de pano, com outras escravas. Perambular de casa em casa, olhar os quintais, colher
frutas, fazer amizades, nada é permitido às crianças escravas. Mas Maria mina, como toda criança, faz
travessuras. Quando é descoberta, recebe castigo de dona Ana da Costa. Seus castigos são bolos nas mãos,
os tornozelos amarrados ao pé da mesa ou umas varadas de marmelo.

*
As crianças escravizadas passavam por inumeráveis maus-tratos: beliscões e pancadas nas
mãos, chicotadas, varadas, humilhações e tantas outras violências. Koster, que publicou seu relato
de viagens em 1816, conta que crianças senhoriais recebiam de presente, ao nascimento, um
“escravo de sua idade e sexo, para companheiro, ou melhor, para brinquedo. Crescem juntos, e o
escravo é o objeto onde o jovem amo desabafa suas vontades, e o servo é empregado em todos os
mandados e recebe a culpa de todos os acidentes imprevistos”.46 Moleques serviam de cavalo a
seu sinhozinho, de boi de carga, besta de almanjarra, burro de liteira e de cargas as mais pesadas;
e as molequinhas, filhas das amas, desempenhavam o papel de mulas parelhas.
Como a menina angolana Ullunga, trazida ao Brasil em 1736 pelo tráfico de escravos, Maria
logo aprenderia que, “no Brasil, o ingresso no mundo dos adultos se dava por outras passagens:
em vez de rituais que exaltavam a fertilidade e a procriação, o paulatino adestramento no mundo
do trabalho e da obediência ao senhor. Uma vez na América”,47 Maria mina era uma criança
escrava.
Domingos da Costa vivia a viajar em seus negócios, assim como a maioria dos homens nas
Minas do século 18, que realizavam um trabalho precário e sujeito a mudanças, o que os
distanciava de suas famílias. Dessa forma, “grande parte das crianças, sobretudo na primeira
infância, tinha apenas contato com suas mães e com outras mulheres, isso acontecia não somente
com os filhos de escravos, mas inclusive com os filhos de homens livres, mesmo brancos”.48 Essa
vida aventureira, nada estável, regia as relações familiares do período. O que determinava os
aspectos da vida familiar era a busca de oportunidades, quase sempre em torno da descoberta de
uma mina de ouro. Até cerca de 1714, ainda não haviam sido descobertas as fabulosas jazidas de
diamantes.
2
O tempo dos diamantes
A natureza do cristal

O segredo dos diamantes, 1714

Um faiscador de nome Francisco Machado da Silva quebrou um bloco de pedra encontrado no


córrego do Pinheiro, junto à serra da Lapa. Pretendia fazer uma trempe para sua mulher, dona
Violante, cozinhar. Encontrou no cerne do cristal uma pequena gema muito dura, lúcida,
cintilante. No córrego Mosquito o mesmo faiscador achou várias outras daquelas pedrinhas
densas e claras, presenteando-as ao capitão dos dragões. Era o ano de 1714.
O militar levou-as para serem lapidadas e constatou serem diamantes, avaliados em cerca de
dois mil cruzados. Manteve segredo e passou a recolher grandes quantidades de gemas, cedidas
por mineradores de ouro que não imaginavam a natureza daqueles cristais usados por eles apenas
como tentos nos tabuleiros de jogos. Alguns, durante o dia de trabalho, enchiam suas algibeiras e
as copas dos chapéus com as maiores e mais brilhantes pedras das que encontravam, e depois as
davam, ou desprezavam, com a mesma ingenuidade com que as tinham ajuntado.
Sete anos depois, bateando com as próprias mãos no córrego Morrinhos, certo feitor
encontrou um desses cristais e entregou-o ao proprietário da lavra, o cristão-novo Bernardo
Fonseca Lobo. Nas jazidas que ficavam perto do arraial de Tijuco, junto à serra da Lapa, havia um
derrame dessas gemas. Em outros lugares próximos, escravos as retiravam em grandes
quantidades, tampouco se dando conta de seu valor.
Após uma missa de domingo, na capela do Tijuco, mineradores tiraram de seus bolsos cheios
aquelas pedras e as mostraram a dois homens que haviam acabado de chegar à comarca do Serro.
Um era o frei italiano Elói Torres; o outro, o mercador baiano Felipe de Santiago, que, com tropas
de mulas, cruzava os sertões entre a Bahia e Minas Gerais vendendo mercadorias. Tendo vivido
anos nas regiões diamantíferas da Índia, o frei reconheceu de pronto os excelentes diamantes.
Transmitiu ao comerciante a sua descoberta. Juntaram uma partida de amostras e se foram para a
Bahia, sem nada revelar a ninguém.
Mas logo faleceu o desafortunado frei e Santiago passou a levar clandestinamente os
diamantes, em grandes quantidades, para a Bahia, onde tratava de vendê-los. Dali as pedras
seguiam nas naus. Para não despertar suspeitas no Reino, eram vendidas além-mar como gemas
do Oriente.
O negociante revelou o segredo ao ouvidor do Serro do Frio, Antônio Rodrigues Banha, a fim
de se associarem para a mercancia. Fingindo desprezar as pedrinhas, Banha as arrecadava junto
aos mineradores e as entregava ao seu parceiro. Enviou algumas secretamente a Lisboa para
serem avaliadas; e mandou, por astúcia, alguns cristais sem valor a um fidalgo e ao secretário do
Conselho Ultramarino, pedindo que verificassem se eram diamantes. De posse da carta com a
resposta negativa, o ouvidor apregoava a insignificância daquelas pedras, mostrando a avaliação
feita no Reino, enquanto enchia as algibeiras para seu próprio lucro. Em Portugal, as notícias que
chegavam sobre a descoberta de diamantes no Serro eram, portanto, desconsideradas. Isso
permitiu que durante anos o ouvidor e alguns mineradores que possuíam o segredo extraíssem as
gemas onde quisessem e as vendessem clandestinamente.
O cristão-novo Bernardo Fonseca Lobo, dono das lavras do córrego Morrinhos e do Caeté-
Mirim, dos primeiros a encontrar as pedras, levou uma partida a Vila Rica, presenteando-a ao
secretário de dom Lourenço de Almeida — primeiro governador privativo das Minas, que
exerceu o cargo entre 1721 e 1732. Dom Lourenço, que também residira durante anos na Índia,
reconheceu as pedras. Mas manteve silêncio, enquanto fazia chegar a seus cofres particulares a
maior quantidade possível dessas riquezas.
Entretanto, Bernardo Lobo ficou sabendo que as pedras eram magníficos diamantes brutos e
espalhou a notícia. Mandou algumas ao ouvidor, afirmando serem bons diamantes, mas o ouvidor
as devolveu dizendo que queria “cristais bonitos”, não diamantes. Mas enviou intermediários
para irem buscar as pedras junto a Lobo, que desde então se recusou a entregá-las. O ouvidor
passou a persegui-lo com violências e desatinos que duraram até sua destituição do cargo na
ouvidoria.
O cristão-novo continuava interessado apenas no ouro. Permitia que seus escravos tirassem e
vendessem livremente os diamantes para sua própria subsistência. Muitos desses faiscadores
enriqueceram e compraram a própria alforria. Até que Bernardo da Fonseca Lobo partiu com seus
melhores escravos para minerar em novas lavras descobertas por outros judeus no Fanado,
deixando Morrinhos e Caeté-Mirim entregues aos cuidados de José Ribeiro, um rapaz pobre a
quem criara, de sua amizade e confiança.
O novo ouvidor, Antônio Ferreira do Vale e Melo, instruído pelo antecessor, mandou uma
intimação a José Ribeiro a fim de que introduzisse dezenove escravos seus nas lavras de
Morrinhos e Caeté-Mirim, para a cata de diamantes, comandados esses escravos por um padre
que era tio do novo ouvidor — padre que, por sua vez, meteu nas lavras do cristão-novo mais
nove escravos que mineravam para os bolsos de sua batina. O ouvidor ordenou que José Ribeiro
fosse levar ao seu patrão a notícia de que tudo era ruína e prejuízo em Morrinhos e Caeté-Mirim.
Instalado nas Minas Novas, acuado pela violência, Bernardo Lobo acabou por vender ao ouvidor,
a preço vil, suas valiosíssimas terras. Em pouco tempo o novo dono das lavras encheu dois barris
com diamantes. Alguns anos depois, Bernardo foi recebido na Corte e considerado o descobridor
oficial dos diamantes. Como recompensa por sua lealdade recebeu por despacho régio o honroso
hábito de Cristo, a propriedade hereditária de um cargo de tabelião em Vila do Príncipe e o título
vitalício de capitão-mor.
Essa versão da descoberta dos diamantes nos é contada por Augusto de Lima Júnior em A
capitania das Minas Gerais, livro editado pela primeira vez em Lisboa, no ano de 1940. Mineiro de
Leopoldina, Lima Júnior viveu sua infância em Ouro Preto e foi estudante no quartel de cavalaria
de Cachoeira do Campo entre 1900 e 1903. Em sua obra afirma que elaborou a breve história da
capitania examinando registros paroquiais de batismos, de óbitos, arquivos e livros velhos, assim
como recolhendo a tradição oral.
Indesculpável omissão

Revelação do diamante, 1729

MORADORES DOS ARRABALDES ou de lugares mais distantes foram se instalar nas redondezas
das lavras do ouvidor Vale e Melo. Tal invasão o forçou a tomar uma providência: enviou ao
governador Lourenço de Almeida um cargueiro de diamantes, pedindo socorro contra os
ambiciosos forasteiros. Dom Lourenço despachou um destacamento de dragões, com a ordem
para que ninguém se instalasse naquelas terras sem a licença do ouvidor.
Mas os diamantes agora eram encontrados fartamente em córregos, ribeiros, grotas,
gupiaras,49 em numerosas localidades, onde se formavam novas catas: no rio das Pedras, entre
Tijuco e Milho Verde; no ribeirão do Inferno; nos rios Jequitinhonha do Campo e Jequitinhonha
do Mato; no rio do Peixe, no de Santa Maria, no Manso, nos de Santo Antônio e de São Francisco,
nas vertentes dos rios Pinheiro, Pardo e Paraúna. A quantidade de diamantes que descia rumo ao
litoral, e dali para os portos europeus, principalmente os portugueses, era tanta que não restou ao
governador senão dar notícia do descoberto à Coroa. Em 8 de fevereiro de 1730 os diamantes
foram declarados, por meio de um decreto, propriedade real. O rei dom João V enviou ao
governador e capitão-general das Minas uma carta, dando severas instruções:

Eu El-Rei vos envio muito saudar. Foi-me presente a vossa carta de 22 de julho passado em
que me dais conta do descobrimento que se fez na Comarca do Serro do Frio, de umas pedras
brancas de que me remeteis amostras, referindo a opinião que correm de serem diamantes e as
razões por que até agora me não participastes estas notícias e por que sou informado que ela se
divulgou nessas Minas há alguns anos e há já dois que nas frotas se remetem várias pedras
semelhantes, com a certeza de serem diamantes, vos estranho muito a indesculpável omissão
que tivestes a não averiguar logo a seu princípio, uma novidade de tanta importância,
sucedida no distrito de vossa jurisdição, e aquela obrigação do vosso cargo, devíeis aplicar todo
o cuidado e dar-me conta dela, ainda na incerteza de verificar-se a notícia vaga que dizíeis
correr, por não ser justo que ela chegasse primeiro à minha presença por outra via do que pela
informação. E como ainda me participais da circunstância desse descobrimento não é
bastante para poder tomar resolução sobre a arrecadação das ditas pedras, que é sem dúvida
serem diamantes, e que as minas em que se acham igualmente são da minha regalia, de as dos
metais e me são devidos delas os mesmos direitos, vos ordeno que tomando mais algumas
informações dos sítios em que se acham e do mais que pertence a esta matéria, procureis
aplicar-lhe inteiramente aquela providência que julgardes mais conveniente para promover o
dito descobrimento, ou seja, a de mandar e o continuar por conta da Fazenda Real, ou
cometereis esta diligência a quem a faça por sua conta, pagando o Quinto que me é devido
das pedras que extrair, procurando de evitar muitos descaminhos que pode haver na sua
arrecadação, sobre o que ouvireis as pessoas práticas que vos parecer e com os arbítrios que vos
propuserem e o vosso parecer, me dareis conta, como também do que inteiramente resolverdes
e mandardes pactuar, para que à vista de tudo possa eu tomar a resolução que achar mais
conveniente.50

O reinado de dom João V (1689–1750), um dos mais longos na história portuguesa, durou
quarenta e três anos. Filho do segundo casamento de dom Pedro II de Portugal com a princesa
Maria Sofia de Neubourg, dom João foi declarado herdeiro do trono em 1697 e aclamado rei em 1º
de janeiro de 1707, aos dezoito anos. Casou-se com dona Mariana de Áustria, a “rainha feia”, que
chegou ao palácio trazendo seus jesuítas, cães e cravos holandeses. Tiveram seis filhos, entre os
quais dom José, herdeiro do trono. O rei teve filhos de ligações com outras mulheres, destacando-
se os Meninos de Palhavã, Antônio, Gaspar e José, bastardos reconhecidos pelo rei, frutos de
amores por uma dama da Corte e duas freiras.
No período joanino, Lisboa passou a ser mais cosmopolita, encheu-se de franceses, alemães,
espanhóis e italianos atraídos pela prosperidade, que se instalavam em profissões mercantis ou
liberais, assim como nas artes manufatureiras, que tiveram grande impulso. Os hábitos da
metrópole passaram por uma verdadeira convulsão. Dom João V sacudiu a poeira do passado,
acabando com o espírito monacal, cavalariço e beato do Paço. O rei adolescente não se deixou
abafar numa Corte sem jovens e sem mulheres, nos corredores soturnos frequentados por clérigos
e velhos nobres, nas salas bolorentas, escuras, com chão de tijolos. Afilhado do Rei Sol, o sonho de
Versalhes o seduzia e o jovem monarca iluminou salões e mentes da Corte portuguesa. No dia 4
de novembro de 1708 os salões do Paço se abriram para a primeira grande festa.

[...] inundaram-se de luz, armaram-se de panos de Arrás; damas acanhadas, deslumbradas,


salpicadas de joias, entraram aos bandos, tímidas, escorregando, escondendo-se, encostando-se
umas às outras como ovelhas medrosas; pela primeira vez, desde os bons tempos de D.
Manuel, homens e mulheres encontraram-se, conheceram-se, cortejaram-se nas salas do Paço;
a rainha tocou cravo, a infanta D. Francisca, muito gorda, muito corada, muito empoada,
dançou; os moralistas de bioco do Portugal velho cuidaram que se tinha acabado o mundo e
a vergonha — e Luís Manuel da Câmara, alarmado, apreensivo, contava para a Holanda,
seis dias depois, em carta a D. Luís de Cunha: “houve um baile no dia de S. Carlos, em que
dançaram, e cantaram as damas do paço na presença de damas e fidalgos; el-Rei está teimado
em estrangeirar o nosso país, e não sei até onde acabará...”51

As mulheres deixaram de ser sombras misteriosas e impessoais, ventres destinados à


fecundidade, e passaram a ser cultuadas como criaturas vívidas, voluptuosas, discutidas,
celebradas. Poetas lhes dedicavam versos, moralistas atacavam-nas com sátiras, zombeteiros lhes
punham apelidos sugestivos. Em vez das sóbrias e sombrias vestimentas à espanhola, em vez do
recato fugitivo e ciumento, gorjeavam em seus altos toucados armados por um cabeleireiro, com
o colo repleto de joias. Os homens da Corte viviam de baile em baile, de comédia em comédia, de
sarau em sarau, formavam bibliotecas, falavam expressões em francês, tratavam de mandar os
filhos aos estudos, e iam para suas casas de campo, onde passavam o tempo a caçar, jogar cartas,
banquetear-se, amansar potros, fazer intrigas, podar rosas ou rezar nas capelas. De assembleia em
assembleia maquinavam os destinos de suas riquezas, e das alheias.
Essa revolução de costumes influenciou a colônia brasileira, chegando aos confins das
montanhas agrestes das Minas. Foi essa Corte — feita de graça, sedução, cultivo da elegância, do
espírito, da conversa, convivência e galanteria, mas também de intrigas, traições e maldades, com
um apreço especial pela ópera, e repleta de casos de amor — que serviria de modelo para as
cidades e vilas coloniais, até mesmo para arraiais pequenos e distantes que ainda estavam
surgindo da poeira e da lama das lavras, como o Tijuco.

Com a notícia da descoberta das minas de diamantes, festas esplendorosas ocorreram em


Lisboa e em todo o Reino, celebrando-se longos te-déuns e procissões intermináveis. O rei dom
João V enviou ao papa52 suas primeiras amostras de diamantes brasileiros e também em Roma
comemoraram, com ações de graças solenes. Soberanos em toda a Europa mandavam
cumprimentos ao feliz monarca português. A descoberta atiçou o sonho de gente que ansiava por
enriquecer, o diamante era bem mais rendoso do que o ouro; e novas levas de portugueses, assim
como de brasileiros das diversas capitanias, e pessoas de outras nacionalidades, arribaram para o
Serro do Frio.
Pouco tempo após a revelação da descoberta dos diamantes, o arraial do Tijuco ostentava
uma espantosa prosperidade, que chegava a ameaçar a extração do ouro, contribuindo para o
decréscimo das rendas dos quintos reais.53 Em meio à paisagem feroz, contrária à invasão
humana, surgiam novos povoados a partir de um serviço de mineração, que iam crescendo em
número de habitantes e em riqueza.
No ano de 1732, além dos arraiais grandes, Tijuco e Vila do Príncipe, estavam estabelecidos na
região de diamantes os arraiais de Chapada, Rio Manso, São Gonçalo, Gouveia, Andrequicé, o
nosso já conhecido Milho Verde, e Inhaí, Mendanha, Acaba-Saco, Massangano, Senhora do Ó,
Borbas, Ponte do Gonçalo, Capivari, Padre Mendanha, Santa Catarina, Mangabas, São Pedro,
Canjica, Cacundo, Galvão, Almas, São João, Angu Duro, entre outros de menor vulto.
Um relatório escrito em 1735 para ser enviado a Lisboa assevera que em pouco tempo se
achavam mais de dezoito mil escravos a minerar diamantes, o que causou o despovoamento de
outras localidades mineiras. Essa multidão de negros tirava “grandes quantidades e muitas pedras
grandes, que estas se acharam nas mãos dos potentados e grandes do Serro do Frio, pela razão
destes trazerem escravos seus e homens pobres pelos rios, comprando os diamantes dos negros.
Assim por esta razão e outras muitas, se está vendo os mais dos dias mortes de brancos e de
negros, pois assim é preciso para tal negócio”.54
A violência imperava nos meandros da extração, ocorrendo assiduamente crimes bárbaros
cometidos para o roubo de diamantes; alguns senhores muniam seus escravos com armas de fogo
e lhes forneciam pólvora e balas, assim como espadas e facas, instruindo-os a entrar pelos rios e a
roubar os que mineravam.
Dom Lourenço de Almeida baixou um regimento para controlar a extração, suspendeu as
licenças e iniciou nova repartição dos rios e córregos, concedendo pequenas dimensões aos
mineradores, reservando as melhores datas para a Coroa. Foi imposta uma taxação aos senhores:
a capitação55 anual sobre cada escravo que para eles minerasse. Apesar dessa tentativa de
controle, a extração seguia num ritmo vertiginoso e muitas mais partidas de diamantes do Serro
chegavam a Portugal, chamando a atenção da Coroa para a verdadeira dimensão das riquezas.

As terras em volta do Milho Verde contêm não apenas diamantes, mas também crisólitas,
esmeraldas, safiras, ametistas e águas-marinhas. No rio das Pedras, entre Tijuco e Milho Verde, onde há
grande quantidade de diamantes, todos os dias se descobrem novas jazidas e chegam cada vez mais
caravanas de homens com seus plantéis de escravos. Instalam-se à beira dos córregos, nas gupiaras,
constroem ranchos de palha e iniciam o trabalho de cata. Não se interessam mais pelo ouro. Dizem:
“Com ouro, alguém pode ser pobre, mas, com diamante, não.”
Alguns senhores encontram pedras imensas e partem, ricos, para outras regiões. Outros amargam um
trabalho inútil, sem jamais encontrar alguma jazida diamantina que valha as penas. Perdem ali todas
as suas fazendas e, não raras vezes, suas vidas.
Comboieiros chegam ao arraial conduzindo escravos enfileirados e agrilhoados, como Maria mina
via na África de sua infância e como ela mesma veio dar nestas terras. Domingos da Costa arrasta levas
cada vez maiores de escravos para negociar com os mineradores. Esperto para o comércio, o comerciante
reconhece a mesma aptidão de sua jovem escrava e manda-a sair às lavras como negra de ganho, com
um tabuleiro pendurado ao pescoço, vendendo ovos e hortaliças, ou quitutes, aumentando assim os
cabedais do senhor. Maria mina passa de casa em casa, sem parar em conversas; sabe vender e contar as
oitavas. Recorda com melancolia os momentos ao lado da mãe, a negociar, de aldeia em aldeia, a
discutir preços, pesar merces, medir, a perceber tramoias.
O arraial cresce pelos matos, novas casas surgem de repente, abre-se uma trilha aqui, outra ali.
Como quase ninguém planta, a não ser pequenas hortas e pomares, ambulantes vêm oferecer alimentos;
trazem também panos, sal, ferramentas, o que seja necessário, e tudo é vendido a preços muito elevados.
Vendem um alqueire de farinha de mandioca a quarenta oitavas de ouro; pedem três oitavas por seis
bolos de farinha de milho; um único paio custa três oitavas, um pastelzinho, uma oitava, uma libra de
manteiga, duas oitavas, um queijo da terra, três oitavas; um presunto de oito libras sai por dezesseis
oitavas, e uma galinha, por três ou quatro; um apreciado queijo flamengo custa dezesseis oitavas, e um
do Alentejo, três a quatro, dependendo do peso; uma boceta de marmelada, três oitavas; um frasquinho
de confeitos, dezesseis oitavas; uma cara de açúcar de uma arroba, trinta e duas; uma libra de cidrão,
três oitavas; um barrilote de aguardente, cem oitavas, e o vinho, caríssimo, é avaliado em cem oitavas
por uma pequena garrafa; tabaco em pó, com ou sem cheiro, é vendido por uma oitava; uma vara de
tabaco, três oitavas.
As roupas, que raramente aparecem no Milho Verde, são igualmente caras; uma casaca de baeta
ordinária chega a custar doze oitavas de ouro; uns calções de pano fino, nove; uma camisa de linho,
quatro oitavas, e ceroulas, três; um par de meias de seda, oito oitavas, sapatos de cordovão, cinco; um
chapéu ordinário, seis; uma carapuça de seda, quatro ou cinco, e de pano forrado de seda, cinco; uma
boceta de tartaruga para tabaco, seis oitavas, e de prata com relevo, até doze, dependendo do feitio.
Maria mina admira os mascates estendendo seus produtos, desejosa de ter uma roupa boa, comer um
pastel, possuir uma faca para seu uso e defesa ou mesmo uma pistola prateada.
As armas, mercadorias as mais necessárias, são negociadas a preços também elevados: uma
espingarda sem prata fica por dezesseis oitavas, mas com prata, bem-feita, cento e vinte oitavas, o
mesmo preço de um escravo; uma pistola ordinária, dez oitavas, uma prateada, quarenta; uma faca de
ponta com cabo curioso, seis oitavas, um canivete, duas, e uma tesoura, duas oitavas de ouro. Quase
todos possuem armas, mesmo os escravos.
Como os preços são altíssimos e os mineradores andam com as burras cheias de ouro e diamantes,
comerciantes trazem ao Milho Verde o que há de coisas naturais e industriais, adventícias e próprias. As
trilhas, ruas e lavras são cruzadas por comboieiros e mascates, surgem mais negras de ganho. As noites do
arraial se povoam de prostitutas, bêbados, ladrões, salteadores e toda a rafameia que cerca os eldorados.
O Milho Verde prospera, tão bem localizado a meio caminho do arraial do Tijuco e Vila do Príncipe.

*
Aquele inesperado afluxo de diamantes em Lisboa levou a um vertiginoso declínio o valor
comercial dessa pedra. Alguns atribuíam os baixos preços às “maquinações dos financeiros judeus,
na Inglaterra e na Holanda.”56 Tais comerciantes, que anteriormente negociavam com gemas da
Índia, perceberam as consequências do súbito derramar das pedras brasileiras e logravam esforços
para monopolizar o mercado. Discutia-se em Lisboa os melhores meios de fazer subir os preços
limitando a extração. Como os aumentos dos tributos não haviam desencorajado os mineradores
do Serro do Frio, a Coroa decidiu proibir inteiramente os trabalhos de mineração, até que os
preços voltassem aos patamares desejáveis. “O Distrito dos Diamantes ficou como que isolado do
resto do Universo; situado em um país governado por um poder absoluto, esse distrito foi
submetido a um despotismo ainda mais absoluto; os laços sociais foram rompidos ou pelo menos
enfraquecidos; tudo foi sacrificado ao desejo de assegurar à Coroa a propriedade exclusiva dos
diamantes.”57
Olho de mosquito

Os garimpeiros, 1731

NUMA MANHÃ DE MAIO entra no povoado um viajante a cavalo, esbaforido, a noticiar que a
mineração está proibida. Ele viu um meirinho afixando na porta de uma igreja no Tijuco a ordem do
rei, enquanto a caixa tocava chamando os moradores. A carta régia de março de 1731 determina que
nenhuma pessoa, de qualquer qualidade, trabalhe ou dirija trabalhos nos córregos e ribeiros de onde se
extraem diamantes na comarca do Serro do Frio. Quem for encontrado extraindo diamantes, ainda que
seja um só olho de mosquito, será degredado por dez anos em Angola e perderá todos os bens.
No Milho Verde, localizado dentro da comarca onde vigora a proibição, muitos homens, com seus
escravos, ou com suas famílias, decidem deixar as terras, lavras, roças, casas. Arrumam sobre mulas o que
podem, e partem. Uns vão para as periferias de Vila do Príncipe, que fica fora da área proibida; outros
para os Goyazes, para a Bahia, o Rio de Janeiro; e outros, ainda, voltam para Portugal.
O movimento no Milho Verde cessa, o arraial padece uma imensa desolação. Mascates são raros.
Não se ouvem mais os cantos dos escravos no trabalho das lavras, a batida metálica de seus almocafres,
nem as conversas e risadas dos moradores, ou a esbórnia dos bêbados noturnos. Grupos se juntam e
falam aos murmúrios, homens passam cabisbaixos. Mulheres não aparecem mais para vender. As negras
que iam buscar água ou fazer alguma compra para a casa do senhor agora andam apressadas, não se
divertem mais a conversar e a rir. Escravos deitados à sombra das árvores, indolentes, esperam nem se
sabe o quê. À noite saqueiam as plantações, buscam nas casas abandonadas algo que possa ter sobrado,
mas só encontram ratos do campo.

Ouvem-se o tilintar de arreios, patas de cavalos batendo nas pedras, uma cantoria viril e
unissonante. Desconfiados, os poucos moradores de Milho Verde vigiam por frestas das janelas. Um
destacamento de soldados e um oficial mestre em construção, com um bando de escravos, adentram o
arraial. Instalam-se nas casas dos moradores e, sem dar notícia de sua missão, começam o trabalho. Os
escravos quebram pedras e mais pedras, carregam-nas às costas; depois as encaixam, levantando paredes
grossas, aos gritos do oficial; fazem uma cobertura com telheiro, instalam canhões que chegam
arrastados por bois. Em pouco tempo terminam a construção do forte do Milho Verde. Passam a viver
ali um cabo, seis soldados a cavalo e quatro pedestres, fornecidos ou rendidos pelo quartel do Tijuco, a
controlar a passagem, varejando os viajantes, mas também perseguindo mineradores, contrabandistas,
capangueiros, garimpeiros e todos os que trabalham na extração, no comércio ou no extravio de
diamantes.
Em toda a comarca, patrulhas percorrem as margens dos córregos e rios, as trilhas, atrás de
contraventores. Homens que simplesmente se banham em rios diamantíferos são açoitados, presos,
degredados, perdendo tudo o que possuem. Outros, encontrados a faiscar, têm suas mãos cortadas. Um
simples buraco às margens de um córrego é tomado por lavra e as terras são confiscadas ao dono. O
ouvidor abre devassas, fiscalizando e sindicando os provedores que o representam. Oficiais de inspeção
aparecem de surpresa, com destacamentos de dragões bem armados, fazendo barulho de tropel de cavalos
e salpicando lama nas casas. Revistam moradores que passam na rua, entram em casas, interrogam,
vasculham, prendem. Mineradores que sofrem processos são despejados do Milho Verde. Maria os vê,
arrasados, a partir com suas famílias, a pé, sem levar nada, pois além de perder suas casas, lavouras,
lavras, perderam seus escravos, cavalos, mulas, cabras, patos, e tudo o que amealharam em anos de
labuta. Uns são arrancados de casa, aprisionados pelos dragões, enquanto esposa e filhos choram
amargamente. Algumas mulheres partem com seus rebentos. As que continuam no arraial são ajudadas
por moradores que se comovem com seus dramas. Umas passam a fazer serviços para manter os filhos ou
entram no pequeno comércio. O matagal toma conta das casas abandonadas.
Alguns moradores, mesmo privados de seu trabalho e meio de vida, de suas roças e serviços, de sua
relativa paz, resistem. Recusam-se a partir e procuram meios de mudar a situação, sem abandonar suas
posses. Cessam os trabalhos de extração legal. Por outro lado, ninguém mais se apresenta aos
arrendamentos, estancando assim a arrecadação de quintos.

A repressão à extração de diamantes, que talvez custasse mais caro do que a desvalorização
das pedras, atendia mais aos interesses de grandes comerciantes internacionais do que
propriamente à Coroa. O cônsul francês Du Montagnac informava numa carta que os diamantes
“são procurados pelos lapidários da Holanda e da Inglaterra, e os ingleses compram o que podem
encontrar, fazem-nos trabalhar na Inglaterra e os revendem em seguida aos portugueses. A
senhora marquesa de Távora, neta da falecida senhora duquesa de Cadaval, comprou
recentemente pelo preço de 3.000 cruzados um belíssimo fruto daquelas minas que havia sido
lapidado na Inglaterra”.58 A Corte e os comerciantes que faziam da raridade das pedras o ponto de
apoio para seus enormes lucros demonstravam o quanto estavam alarmados com a derrama de
pedras brasileiras. O grande comerciante inglês John Gore escrevia de Londres a seu
correspondente em Lisboa que, se continuasse a chegar a mesma quantidade de diamantes do que
“o luxo dos ricos exigia, era fatal que chegariam a um desprezo geral”. E Gore prevê que todos os
que se dedicam a esse comércio vão se arruinar, caso a Coroa não tome providências para
“conservar tesouro tão precioso”. Du Montagnac menciona numa carta que o rei estava
empenhado em encontrar uma solução para impedir que suas pedras se tornassem vulgares na
Europa. “Para isto, têm tido várias reuniões para as quais, a maior parte dos negociantes, tanto
portugueses como estrangeiros, foram chamados a opinar...”59 E assim foi decidida a proibição da
extração de diamantes. Mas o trabalho de construção e a manutenção dos postos de controle, a
formação de exércitos repressivos, de forças de fiscalização, a formação de um funcionalismo
burocrático e todo o imenso esforço para conter a população mineira se mostravam inúteis.
Os diamantes e o ouro continuaram a ser extraídos na comarca do Serro, agora apenas de
forma clandestina, por homens que chamavam de garimpeiros. Eram uma espécie de
contrabandistas que se reuniam em tropas e se distribuíam pelos locais onde havia abundância de
diamantes, os quais eles próprios extraíam. “Alguns deles ficavam de esculca em lugares elevados,
avisando os demais à aproximação dos soldados e o bando se refugiava nas montanhas de difícil
acesso, as mais escarpadas”,60 nos cumes, também chamados grimpas — daí o nome garimpeiro, ou
grimpeiro.
Levadas através de trilhas sinuosas e secretas, as pedras eram negociadas com ingleses e
holandeses aportados no litoral, para que não chegassem a Portugal como gemas do Serro. Os
garimpeiros, em geral homens que se recusaram a ir embora ou a viver na miséria, após terem
seus bens confiscados, escaparam à expulsão ou ao degredo fugindo para as brenhas. De lá,
catando e vendendo diamantes, enviavam algum auxílio à família, quando a tinham, que
continuava no arraial.
Os garimpeiros acreditavam que lhes haviam usurpado um direito. Eram audazes, intrépidos,
mas inofensivos, não havia processos contra garimpeiros por outro crime que não o garimpo; não
roubavam, não agrediam as tropas reais, não matavam a não ser em sua defesa. Trabalhavam à
noite e dormiam de dia, ao relento, nos campos; comiam caça e frutos silvestres. Refugiados nas
pedras, nas grutas, erravam de córrego em córrego a extrair diamantes, sempre à espreita para
não serem surpreendidos por dragões. Tornaram-se os melhores conhecedores das brenhas. À
noite encontravam-se, em lugares ocultos, com os capangueiros que lhes compravam os
diamantes. Nenhum viajante temia encontrar garimpeiros na trilha; esses rebeldes eram acolhidos
nas casas e, eventualmente, admirados — o que significava uma desobediência ao rei português,
considerada crime. Moradores lhes mandavam alimentos, mantas para o frio das montanhas ou
armas cevadas.
Como se fossem soldados treinados, garimpeiros travavam batalhas contra homens do rei,
quase sempre os rechaçando, especialmente quando estavam em igualdade de condições. Se eram
vencidos, os garimpeiros passavam por torturas e humilhações, mas nunca denunciavam seus
companheiros; esse silêncio lhes custava a própria vida. Às vezes, moradores do Milho Verde
subiam as montanhas para verificar os mortos depois de um combate, enterravam-nos no
andurrial dos montes, espetavam pequenas cruzes sobre as covas, rezavam e levavam a triste
notícia para as famílias. Muitos garimpeiros eram negros, escravos fugidos ou forros.

O mais conhecido garimpeiro foi Isidoro, cuja história, conforme relato de testemunhas
oculares, está registrada com detalhes nas Memórias de Joaquim Felício dos Santos. Isidoro era um
escravo pardo que viveu no fim do século 18 e início do 19, e foi preso no período da intendência
do desembargador Manuel Ferreira da Câmara Bittencourt Aguiar e Sá, primeiro brasileiro a
ocupar esse cargo, a partir de 1807. Conhecido como intendente Câmara, o desembargador
nascera na própria comarca do Serro do Frio.
Forte, alto, valente e ousado, Isidoro foi um homem de poucas palavras, “e estas muito
atenciosas, macias e corteses; mas de gênio retrincado e sagaz, e a cujos dotes deveu ele a
prerrogativa de sempre dominar sobre grandes enxames de tal gente”.61 Excelente minerador,
trabalho que praticara desde a infância, conhecia as melhores lavras. Diziam que guardava o
segredo de um local onde havia imensa quantidade de estupendos diamantes de fácil extração. O
escravo pertencera a um frei minerador; acusado de contrabando, foi confiscado e entregue à
Fazenda Real, sendo condenado à galé — obrigado a trabalhar com argolas nos pés e correntes
ligadas a outro prisioneiro — nos serviços de extração. Não suportando a pena, Isidoro limou os
ferros e, iludindo os fulares, embrenhou-se na mata, passando a viver como garimpeiro. Outros
escravos o seguiram, formando bando de uns cinquenta homens bem armados que viviam sob sua
liderança, em rígida disciplina e ousada atuação. Quando um garimpeiro cometia algum delito,
Isidoro o castigava mandando-o de volta ao antigo senhor. Considerava essa a pior das penas.
Disfarçado por manta e capuz, Isidoro era recebido em casas de pessoas ricas no Tijuco, onde
vendia clandestinamente o produto de seu trabalho. Certa noite, o garimpeiro procurou um
senhor na rua da Romana e foi levado a um gabinete secreto, onde tirou o disfarce, apresentando-
se. Travaram um diálogo transcrito por Joaquim Felício, repleto de códigos de honra:
— O senhor tem uma escrava? — diz Isidoro.
— Tenho algumas.
— Uma fugida?
— Sim.
— Chamada Maria?
— Sim.
— Sabe que não fui eu quem a aliciou a que fugisse de sua casa?
— Sei que para fugir ela não precisa de quem a alicie.
— Quanto o senhor quer pela sua liberdade?
— Por ter o defeito de fugitiva, só vale duzentas oitavas.
— Mas ela está parida.
— Então quero duzentas e vinte.
— Mas o filho é meu.
— Então só quero as duzentas.
— Eu trouxe seiscentas para a liberdade da mãe e do filho. O dinheiro aplicado para a liberdade é
sagrado. Peço-lhe que distribua as quatrocentas restantes pelos pobres.62

Ao tomar posse na intendência, Câmara declarou guerra contra Isidoro. Enviava tropas, dia e
noite, para caçá-lo. Tentou prendê-lo pela sedução, ameaça ou maus-tratos contra pessoas ligadas
ao garimpeiro. O fracasso constante dessas investidas só aumentava a ira do intendente. Afinal,
traído por um companheiro que o delatou em troca de recompensa, Isidoro foi assaltado por um
grande destacamento de pedestres e, após dura resistência, caiu baleado por três tiros. Entrou no
Tijuco amarrado num cavalo, ensanguentado, escoltado por soldados. Foi preso, maltratado,
espancado. Passou por diversos interrogatórios e torturas para que denunciasse seus compradores
e companheiros, mas disse apenas que os diamantes pertenciam a Deus e por isso não cometia
crime algum em extraí-los. Câmara prometeu-lhe a liberdade, o perdão pelos crimes, em troca da
delação, porém Isidoro guardou um intrépido silêncio. Amarrado a uma escada na porta da
cadeia, com as pernas e os braços estendidos, açoitaram-no diante de um povo aflito e
compadecido. Durante todo esse martírio público o garimpeiro não fez nenhuma queixa, nem
mesmo emitiu um gemido. Deixaram que descansasse por mais um dia, para se refazer e suportar
nova sessão de interrogatórios e torturas, durante a qual ele manteve o mesmo sigilo.
Percebendo que Isidoro estava à beira da morte, levaram a sua presença um padre e um
médico. O moribundo pediu para ver o intendente a fim de fazer-lhe uma revelação e um pedido.
Câmara foi à cadeia, mordido de remorsos pela atrocidade que cometera contra aquele homem, e
lhe pediu perdão. Isidoro ainda tentou murmurar algo, mas morreu. Consta que iria revelar o
segredo das lavras riquíssimas que só ele conhecia; o pedido, ignora-se qual fosse. Talvez a
proteção de Maria forra e seu filho.

Houve outro garimpeiro famoso cuja história se passou em 1742. Nas proximidades do rio
Manso, um destacamento de dragões encontrou um bando de garimpeiros, travando-se ali uma
dura batalha. Entre eles havia um, mais jovem, audacioso e destemido. De pequena estatura,
olhos e cabelos negros, parecia ser o líder e, por esse motivo, o prenderam, enquanto os demais
escapuliam. Intrigava o fato de não ter barba nenhuma e as feições suaves. Foi posto no tronco da
cadeia. O jovem não respondeu a nenhuma pergunta sobre sua idade, procedência, de quem era
filho, se era padre ou se tinha religião. Quando tiraram seu gorro para lhe tonsurar os cabelos,
viram que eram longos e sedosos. E, ao despir-lhe a roupa, para vestir o hábito de prisioneiro,
deram com uma bonita moça que se fazia passar por homem. No dia seguinte, quando o escrivão
entrou na cela da garimpeira, encontrou apenas os cabelos espalhados no chão. Jamais se soube
como a jovem conseguira escapar dali; supõe-se que tenha aliciado ou inspirado compaixão em
um carcereiro ou em alguma autoridade.63
Tropas de dragões

Expulsão dos forros, 1732

EM JANEIRO DE 1732, dom Lourenço de Almeida, governador e capitão-general das Minas,


acirrou o conflito, ordenando em toda a comarca a expulsão dos forros.

Ordeno por este meu Bando, que todo negro, negra, ou mulato forro que se achar em toda a
Comarca do Serro do Frio, despeje logo incontinenti a dita comarca e, não o fazendo, será
preso e açoitado ao pelourinho dessa vila e lhes serão confiscados para a Fazenda Real, todos
os seus bens que lhe acharem e serão infalivelmente degredados para a nova Colônia
(Sacramento) para trabalharem nas obras de S.M. e mais obras públicas daquela povoação.
E o Doutor Ouvidor da Comarca do Serro do Frio mandará prender a todos estes negros e
mulatos, confiscando-lhes todos os seus bens para a Fazenda Real e me remeterá os presos
para esta vila para os remeter a irem cumprir a sua pena.64

E acrescentou em outro bando que nenhum negro, mulato, fosse forro ou cativo, podia portar
armas defensivas de qualquer tipo, nem mesmo bordões, sob pena de duzentos açoites. Isso numa
região repleta de salteadores, desordeiros, animais selvagens, índios bravios, onde todos andavam
armados.
Lourenço de Almeida pertencia a uma casa de ilustre linhagem portuguesa e sua história
familiar se ligava estreitamente ao alto-comando do império. Filho do segundo conde de Avintes,
dom Antônio de Almeida, e da filha do terceiro conde dos Arcos — membro do Conselho de
Estado e presidente do Conselho Ultramarino —, teve uma irmã casada com Diogo de Mendonça
Corte Real, poderoso ministro de dom João V. Ao escolher os administradores para o ultramar, a
monarquia lusitana dava preferência aos nobres de linhagem antiga, e concedia títulos e honras
aos que serviam nas colônias. Muitos foram os vassalos que, mesmo nascidos fidalgos, aceitavam
o sacrifício de servir nas possessões, a fim de apurar sua nobreza acrescentando novos títulos aos
já existentes em suas casas. Outros adquiriam a nobreza que, originalmente, não tinham,
exercendo cargos nas longínquas regiões do império, como Goa ou Minas Gerais.

Forros do Milho Verde vão se refugiar nos quilombos do cume da serra. Penetram as florestas e os
sertões, carregando uns poucos pertences, precipitando-se em fugas. Abandonam suas casas, ficando o
arraial ainda mais inóspito. Os que ficam, vivem tensos, receando a prisão, e, quando se aproxima uma
tropa de dragões, vão se esconder nas casas afastadas, nas grotas, nos ranchos.
Temendo perder toda a sua fazenda, muitos dos forros bem estabelecidos pensam nos prejuízos que
terão se partirem com a família. Procuram os companheiros e, em vez de alegres batuques, bebidas, jogos
de trunfo e renegada, debatem. Como homens prósperos, de influência, estão revoltados e confusos.
Nada fizeram para merecer o banimento. Suplicam aos santos para que iluminem el-rei a fim de que
tenha piedade dos seus súditos.
Dom João V, Deus o guarde, leva a vida entregue aos luxos extravagantes e aos prazeres da
sensualidade e não tem olhos para seus distantes súditos. Um padre que passava por ali a comprar
diamantes contava que o rei se disfarça de mendigo para ir beliscar mulheres na igreja de São Roque.
Dom João V domina a arte de conhecer pela ponta dos dedos todas as moças bonitas de Lisboa,
enquanto a rainha, alheia a tudo, vive metida no quarto com as damas, os cães, os mestres de música. O
rei gasta todos os dias um saco de moedas de ouro com as bacantes da Corte e da ópera, dos conventos e
do Paço. Não um dinheiro qualquer, mas moedas de ouro cunhadas com a efígie do rei, nos dois lados,
destinadas apenas a suas amantes. O dinheiro das fêmeas. E não apenas mulheres da Corte, das óperas,
ou dos conventos, mas saloias de carapuço colhidas pelos verdes de Belas ou franças novinhas da rua
Nova, já sorvadas pelos padres gulosos de São Francisco. Murmuram em Lisboa que dom João V deu
uma navalhada no rosto de uma mundana, Dionísia de Águas Belas, a mais formosa mulher das
Espanhas. A francesa levou vinte pontos e esteve em perigo de vida; achando-se melhor, pediu um
espelho e, mesmo vendo o desmedido da desgraça, não quis confessar o nome do homem que a ferira.
Contam que ela é a mãe de um bastardo do rei, que os tem espalhados pelo Reino. Vive el-rei nos
locutórios, nos pátios iluminados dos conventos, em grandes festas com doces e licores, sons de bandolins
e o galanteio de Cupido. Converte os mosteiros em serralhos de abutres tonsurados e de potentados à
custa do ouro brasileiro.
Todo o ouro mandado para Portugal como pagamento de tributos, não direitos reais, como dizia o
padre, não basta para sua vida dispendiosa e a de sua Corte; sua capela ornada em ouro custou milhões
de cruzados; o título de Fidelíssimo, comprado à Corte romana, outros tantos milhões; com o ouro do
Brasil o rei constrói um pesadelo em Mafra que rivaliza com os mais suntuosos castelos de França, para
fazer ali um mosteiro, enquanto os conventos andam aos demos, como acontece nos claustros femininos
que o próprio rei frequenta para arrebatar mais algumas de suas conquistas sensuais. E enquanto isso os
lavradores portugueses, sem nenhum apoio, vivem miseráveis, os comerciantes, miseráveis, os fabricantes,
miseráveis, as estradas, miseráveis, as ruas, miseráveis. A riqueza do ouro brasileiro se esvai para os
ingleses com quem o rei anterior assinou o funesto Trato dos Panos e Vinhos apenas para ter lãs macias e
em troca embebedar os britânicos; e agora a ambição desmedida leva el-rei a expulsar os pobres forros
das pobres casas erguidas com suor e sangue nas terras mais bravias da colônia. Vai o rei dissipar o
diamante nos banquetes e nos leitos onde esbanja sua virilidade.
Mas aqueles homens respeitam o soberano, temem desagradá-lo, convencidos de que acima de tudo
está El-Rei Nosso Senhor; julgam que Sua Majestade mandou a carta régia apenas porque desconhece a
existência de forros tão bem estabelecidos, dos que trabalham em diversas atividades, do comércio que
fazem, das capelas e igrejas que construíram, das boas famílias que sustentam. Os arraiais e roças em que
se dedicam à extração, sobre os quais pesam as medidas, contam com casas públicas, religiosas, militares.
Ali estão enraizadas pessoas que deixaram suas vidas em outros locais e rumaram para lá com imensos
sacrifícios, onde trabalham em toda sorte de atividades, fazendo progredir o lugar, antes tão ermo. Ali
fizeram suas vivendas, plantaram roças, ali nasceram seus filhos, criaram-se fortes laços familiares.
Parece o rei querer despovoar completamente a comarca. Mas não sairão. Uns falam em resistência
armada.
O negro forro Domingos da Costa chega a sua casa com as notícias, encontra a mulher, os filhos, a
escravaria, ansiosos, de olhos arregalados. Maria mina sofre com os acontecimentos, mesmo porque a
afastam ainda mais do seu sonho de alforria. Ao menos, como escrava, nada pesa contra si, desde que
não ande em ganhos pelas lavras nem porte armas. De todo modo, mantém-se o mais que pode em casa,
saindo apenas para algum serviço dos senhores. Teme ser confundida com uma forra, açoitada e
exterminada, indo pertencer à Fazenda Real.
Moradores decidem dirigir uma súplica ao ouvidor. Forma-se uma representação de homens
principais, que lhe apresenta seus motivos e necessidades. De outros arraiais e vilas seguem mais
representações.

Encarregado de aprisionar todos os forros que encontrasse na região diamantina, o ouvidor-


geral do Serro do Frio representou ao capitão-general a inconveniência das medidas, os
transtornos que causavam e a impossibilidade de sua execução, pois “na grande circunferência que
eles compreendem em poucas distâncias deles mesmos, se acham os arraiais do Milho Verde, de
São Gonçalo, Tijuco e Rio Manso e nos arredores habitam tantas pessoas arraigadas, com casas de
vivendas, roças e engenhos, uns desde que começou a povoar aquele Serro, e outros que se
situaram há menos tempo, com ocasião do estabelecimento dos diamantes, que não parece justo
que se extinguira os tais arraiais, que despejando as ditas pessoas daquelas paragens, percam por
esse modo, o que é seu e o que lhes tem custado tanto trabalho e despesas, o que julgo não ser a
mente de nosso soberano [...]”.65
Revoltas já haviam ocorrido nas Minas. No início, a sangrenta Guerra dos Emboabas, de 1707
a 1709, na qual paulistas desbravadores se confrontaram com forasteiros que chegaram à região
após as primeiras descobertas de ouro — portugueses e migrantes das capitanias brasileiras,
chamados de “emboabas”. Em 1715 os moradores do Morro Vermelho se levantaram contra as
fintas, que eram uma contribuição extra imposta aos mineradores. Em 1717 o povo revoltado
incendiou a casa de um coronel e amotinou-se com tamanha ira contra um ouvidor e sua comitiva
que teria matado a todos, não fosse a intervenção de um vigário. Em 1720 houve outro levante, na
vila de Pitangui, tão intenso que foi preciso enviar para a localidade um ouvidor com dragões e
uma tropa de quinhentos auxiliares. Os rebeldes mataram algumas pessoas e, na devassa
realizada pelo ouvidor, o cabeça do motim foi condenado à forca, mesmo sem ter sido preso e
julgado; o ouvidor mandou levantar uma forca no local mais público da vila e em estátua fez
enforcar aquele rebelde. Tendo notícia desse procedimento, o cabeça do motim mandou levantar
outra forca, nas margens do rio Pará, e enforcou também uma efígie do ouvidor diante de seus
companheiros e parciais no levante. É o que nos conta o engenheiro e militar José Joaquim da
Rocha, autor de uma geografia histórica de Minas, de 1781, perito em assuntos estratégicos e de
segurança na capitania, homem que conhecia bem o território. “Em estátua” ou “em efígie”
significa a pena aplicada sem a presença do condenado, usando-se uma imagem que o represente;
se possível, dentro de uma jaula.

O ouvidor solicitou a dom Lourenço de Almeida que permitisse a mineração na comarca, mas
o governador ignorou suas palavras. Porém, premido pelas representações populares, pela
inquietação que pairava por todo lado, pela iminência de um novo levante e, acima de tudo, pelos
cofres vazios, decidiu baixar normas paliativas, num sistema mais caro de pagamento de tributos,
permitindo uma mineração submetida a regras severas.
Alguns mineiros retornaram e retomaram seus trabalhos, mas sempre inseguros de que tudo
pudesse acontecer novamente, sentindo-se extorquidos com a carga dos tributos. Viviam, então,
debaixo de um regime cerrado: era proibido comprar diamantes aos escravos; só se podia vender
diamantes nos arraiais, com o mostruário a um palmo e meio fora da porta — a negociação devia
ser feita sobre esse mostruário, à vista de todos, e apenas durante o dia. Os mineradores foram
obrigados a entregar todos os diamantes que haviam sido encontrados antes da proibição, para
serem registrados e lacrados no cofre da intendência, e dali sua venda era controlada, sendo as
pedras entregues ao comprador apenas quando este saísse da comarca. Muitas eram as buscas em
casas de habitantes. Foram proibidas lojas e tabernas nas lavras e por até duas léguas em torno.
Determinou-se a expulsão de todos os frades que por ali se encontrassem, pois andavam a pregar
que os quintos eram tributos, não direitos reais. Quem não cumprisse à risca todas as normas sofria
duras punições. Toda denúncia se acatava; os denunciantes, mantidos em segredo, recebiam a
terça parte das pedras e dos bens confiscados.
A cada novo bando a vida dos habitantes ia se estreitando entre mais dificuldades, sob o terror
da pena de degredo, confisco ou, no caso de escravos, açoite e prisão — sem confisco, pois eram
impedidos de possuir bens. Em 1733 foram proibidas novas estradas, ou mesmo picadas, devendo
a entrada e a saída ser feitas apenas por caminhos antigos e públicos. Quem fosse encontrado
viajando em trilhas recebia as penas determinadas; e se levasse bateias, almocafres, escudelas,
alavancas ou quaisquer outras ferramentas de extração, ficava constituída a prova do delito.
Em 1734 o conde de Galveias, novo governador, aboliu a capitação estabelecida um ano antes
e proibiu novamente a mineração de diamantes em todo o distrito. Cessaram as concessões de
cartas de datas e a mineração do ouro também ficou proibida dentro da região diamantina. Como
esse domínio era bastante impreciso, o rei enviou um representante, Martinho de Mendonça, para
fazer a demarcação precisa do território controlado. Seis marcos de pedra foram construídos nos
limites, formando uma elipse em torno do Tijuco:

o primeiro, na barra do rio Piraí;


o segundo, no córrego das Lajes, uma légua acima da barra;
o terceiro no penhasco da serra do Ó;
o quarto no morro chamado das Bandeirinhas;
o quinto numa pedreira da Tromba da Anta;
e o sexto, na cabeceira do rio Preto.

Estava constituído o Distrito Diamantino. Novos registros foram erguidos nos limites da
demarcação, a fim de se fiscalizar com ainda mais severidade as entradas e saídas, havendo abusos
nas revistas aos viajantes. O controle era garantido pela ação dos dragões, companhia de soldados
que se caracterizavam por deslocar-se a cavalo mas combater a pé, constituindo uma infantaria
montada. Os dragões mantinham particularidades da infantaria, como o uso de tambores em vez
dos clarins e trombetas da cavalaria, sendo comandados por oficiais de infantaria. Treinados em
missões militares que incluíam piquetes e postos avançados, defesa de pontes ou desfiladeiros, uso
de mosqueteiros desmontados para apoio à cavalaria de linha, possuíam uma mobilidade muito
adequada ao trabalho de perseguição a contrabandistas, patrulhamento de estradas e repressão a
desordens públicas. E custavam menos do que as companhias de cavalaria, por utilizarem
montarias de qualidade inferior e equipamento mais simples.
Recrutados no norte de Portugal, os dragões mineiros se destacavam das demais companhias
militares, apontadas por viajantes como maltrapilhas e indisciplinadas. Fardavam-se melhor,
comportavam-se com mais disciplina, executavam com mais rigor suas atribuições — que
consistiam, acima de tudo, em prender contrabandistas e evitar o estabelecimento de potentados
independentes nos sertões remotos. As duas primeiras companhias de dragões, compostas cada
uma de sessenta homens recrutados em Portugal, foram enviadas a Minas, em 1719, para dar
apoio ao conde de Assumar, dom Pedro de Almeida e Vasconcelos, governador das Minas de 1717
a 1721. A primeira delas, comandada por um capitão veterano da Guerra da Sucessão Espanhola,
veio a cavalo pelas trilhas escarpadas, na estação de chuvas. Seu comportamento disciplinado,
esforçado e diligente foi comentado pelo conde de Assumar; durante a viagem os homens “não
haviam causado o menor constrangimento aos paisanos, pagando prontamente por tudo quanto
tomavam”,66 conquistando o respeito da população. Porém, a segunda companhia, que chegou
meses depois, não era controlada pelo comando de modo tão eficaz e causou alguns conflitos.
Testemunhando a atuação daqueles militares nas revoltas em Pitangui e Vila Rica, os habitantes
passaram mais a temê-los do que a respeitá-los, embora os dragões lhes dessem segurança,
dispersando exércitos de potestades que aterrorizavam vez ou outra alguma região mineira.
Também desagradava à população o fato de que os dragões tinham o direito de se aboletar em
casas particulares até que fosse construído um quartel.
Pagos e fardados por meio de um sistema de contratos, que também se encarregava de lhes
fornecer serviços médicos e tratamento hospitalar, eles patrulhavam assiduamente as trilhas e os
caminhos, ficando um pequeno destacamento no quartel. Recebiam recompensa a cada apreensão
efetuada, o que estimulava seu empenho e compensava o pequeno número de homens,
redobrando o zelo e a precaução.
Além da vigilância dos dragões, foi criada a figura dos capitães do mato, beleguins que
caçavam garimpeiros e negros fugidos, com direito a receber parte do confisco, ou uma
recompensa pela tomadia dos escravos. Como ficavam com a responsabilidade de perseguir os
escravos fugitivos, isentavam os senhores de responder pelos terrores da captura. Escolhidos de
preferência entre índios, mulatos e carijós, os capitães do mato cortavam a cabeça dos que
resistiam, levando à presença do governador os demais, para serem “justiçados”.

Abriu-se devassa geral e interminável. Os cartórios se entulhavam de processos contra


moradores, iniciados às vezes por motivos insignificantes, como o encontro de um pequeno
diamante no brinco de alguma senhora. As lojas de fazenda passaram a ser duramente tributadas.
Foi extinta a Casa da Moeda, recolheram todo o dinheiro corrente em ouro, deixando em
circulação apenas as moedas de quatrocentos e oitocentos réis, que serviam para pequenas
despesas. O restante do ouro em moeda ou em pó devia ser levado à casa régia de fundição para
ser transformado em barras que eram tributadas e recebiam certificado de quitação.
Ao entrar na demarcação, os comboieiros deviam declarar o valor de suas cargas e, ao sair,
mostrar as barras em ouro obtidas com o produto das vendas. Se fossem encontradas moedas em
seu poder, as devidas penas eram aplicadas. Qualquer pessoa encontrada com moeda, ou que não
pagasse o quinto, ou que concorresse para a saída do ouro em pó, perdia seus bens e era
degredada por dez anos para colônias portuguesas na Índia. Quem soubesse de qualquer
contravenção e não a denunciasse era sujeito ao “extermínio”, nome que usavam para a expulsão
perpétua, além de outras penas aplicadas pelo governador, a seu arbítrio. Se o produto da delação
fosse maior do que duas arrobas de ouro, o delator recebia certidões para, junto ao rei, requerer
honras e mercês — cargos, ofícios ou ocupações honoríficas. O escravo que denunciasse seu dono
recebia, além da terça parte do confisco, a carta de alforria. A política da denúncia premiada criou
uma casta de gente que vivia disso, usando de qualquer meio, até os mais vis, para auferir
vantagens, assim como armou ainda mais o escravo contra o senhor, e o senhor contra o escravo.
Quem espalhasse rumores considerados prejudiciais aos interesses da Fazenda Real era
severamente castigado como sedicioso, recebendo as penas tradicionais de degredo e confisco, e
outras ao arbítrio do governador. O intendente abusava de seu poder e com arrogância
determinava a expulsão de algum infeliz, imediatamente arrancado da sala de sua casa, do seu
passeio, no meio dos seus deleites, dentre os braços de seus familiares, arrastado a uma prisão e,
então, com a maior demora, conduzido algemado à casa do escrivão dos diamantes, onde o
obrigavam a assinar a sentença do seu desterro.
No entanto, foi “em vão que se estabeleceram leis penais e se multiplicaram as medidas
preventivas”.67 Algumas eram expressamente descumpridas, como a que limitava o número de
comerciantes; a que condenava ao confisco ou às galés o negro encontrado com um almocafre e
uma escudela; ou aquela que proibia o começo das fundações de uma casa sem que os trabalhos
fossem testemunhados por um oficial de Justiça e três feitores.

Em 1735, o poder que ficava nas mãos do ouvidor-geral foi entregue ao intendente, que passou
a ser figura essencial no sistema de controle. O intendente gozava de um poder quase absoluto,
dispondo de força militar para o cumprimento de suas atribuições. Regulamentava, de acordo
com sua vontade, tudo que dizia respeito aos trabalhos de mineração; podia suspender ou
substituir empregados tanto nas alas do governo quanto na esfera particular; qualquer pessoa,
mesmo o governador, era obrigada a solicitar-lhe permissão para entrar no distrito. Encarregado
do policiamento local, o intendente atuava também como juiz, caso tivesse estudado
jurisprudência. Pronunciava sentenças sem audiência e sem apelação. Qualquer delito relativo ao
contrabando de diamantes era de sua alçada, mesmo se ocorrido fora do distrito e até em outras
capitanias. Hierarquicamente, ficava acima do ouvidor, que passou a ter uma função apenas
judicial e o dever de defender, na administração, os direitos da Coroa.
Logo depois da posse do novo intendente, o governador-geral Gomes Freire de Andrade —
moço fidalgo que governou o Brasil entre 1733 e 1763, herói do poema O Uraguai, de Basílio da
Gama — visitou o Tijuco com a intenção de estudar o melhor e mais seguro modo para se
extraírem as riquezas de forma que fossem diretamente para os cofres da Fazenda Real. Por conta
das medidas drásticas tomadas pelos administradores, o escoamento de diamantes reduzido a um
“gotejar de gemas ilícitas”, segundo Boxer, e os preços na Europa mais elevados, a Coroa decidiu
renovar a licença de extração, porém numa escala restrita e controlada. O conde de Sabugosa
havia, em 1732, advogado a favor de um sistema de contrato; cinco anos depois o conde de
Galveias, seu sucessor, também enfatizara o contrato como a melhor decisão para se trabalhar
com a exploração dos diamantes. Alegou os precedentes de um lucrativo monopólio do
imperador austríaco sobre a produção de cobre na Hungria, o monopólio do tabaco exercido pela
Coroa espanhola e o do duque da Bavária sobre a cerveja. “E que seja possível”, escreveu o conde,
“que todos estes Príncipes tenham vassalos consideráveis, e importantes, e que Sua Majestade não
há de achar dois homens de quem possa fazer a mesma confiança, é grande desgraça; e ainda é
maior que os Portugueses com injúria e vergonha de todos, façam soar semelhantes vozes aos
ouvidos dos Estrangeiros, para nos considerarem por homens ineptos, e incapazes de servirem a
seu Príncipe.”68
Enquanto se decidia entre o sistema de contrato e o de companhia, ou seja, o de arrendamento
da mineração a terceiros ou a criação de uma estrutura própria da Coroa para a extração do
diamante, foi feita uma reforma dos guardas-mores e superintendentes das Minas.

Muitos moradores do Tijuco que haviam ido se refugiar em Vila do Príncipe faziam oposição
ao novo intendente, Rafael Pires Pardinho, um desembargador culto, inflexível, severo e
desinteressado, que cumpria cegamente as ordens da Coroa sem se importar com os ódios que
granjeava contra si. Tinha “fama invejável de honestidade e integridade completas, fazendo
lembrar, a esse respeito, alguns dos grandes ouvidores espanhóis, dos quais os reis de Castela com
tanta frequência dependiam para a identificação e correção de abusos em seu império
americano”.69 Portanto, o distrito estava rigorosamente fechado. Funcionava um arranjo feito
“com maravilhosa sagacidade; cuidaram-se dos menores detalhes; todas as possibilidades de
roubo foram previstas, tendo sido tomadas medidas para desarmar os mais hábeis ladrões”. No
entanto, “a ambição e a astúcia zombavam de todos os temores e triunfavam sobre todos os
obstáculos”.70
Tão grave era o momento para os habitantes do distrito diamantino que em 1738 eles
enviaram uma súplica diretamente ao rei, narrando seu drama: além de privados do trabalho ou
expulsos da região, tinham adquirido ao próprio poder real, por títulos onerosos, as suas lavras;
haviam feito os descobertos e serviços com gravíssimo empenho, despendendo o que possuíam, e
então, arruinados, privados das mesmas lavras, das casas, das roças, não tinham como pagar as
dívidas à mesma Coroa. O rei mandou suspender a proibição e determinou que se permitisse
àqueles homens o retorno ao trabalho; mas o governador Gomes Freire destinou-lhes algumas
datas já exauridas, sem mais possibilidades de lucro.
Corações frios, vícios ardentes

O amor de Maria mina, 1733

CHEGA AO PEQUENO MILHO VERDE um destacamento de auxiliares. O capitão Caetano de Sá


vem à frente, sobre seu cavalo, os metais cintilando, espada à cinta, a fazer suspirar as moças do arraial.
Avista Maria mina, que desce a escada do chafariz de pedras pisando descalça uma relva verdejante.
Desde esse dia ele se dedica a conquistar a escrava, dando-lhe prendas e dirigindo-lhe palavras doces,
levando-a em passeios a cavalo, a batuques e saraus.
Maria mina apaixona-se pelo militar, que a seduz contando histórias do Rio de Janeiro, onde ele
nasceu, e suas aventuras caçando negros calhambolas ou em batalhas nas matas contra os aterrorizantes
botocudos. Conta como prendeu um negro que assobiava na rua à noite, em Vila Rica, ou gente que
lançava imundícies pelas janelas.
O casal se oculta nos matos, deita-se nas relvas, nas beiras de rios distantes, nas veredas de pedra, em
qualquer esconderijo que pareça um catre. Algum tempo depois, Maria descobre que espera uma criança.

Nascido no Rio de Janeiro e batizado na igreja da Candelária, Antônio Caetano de Sá fora


capitão de ordenanças em distritos de Vila Rica por volta de 1720, cargo que também lhe dava um
lugar de distinção e honra, e denotava alguma riqueza. No tempo de seu encontro com Maria
mina, Caetano comandava um destacamento de auxiliares.
Os primeiros terços de auxiliares foram formados em 1640, em Portugal, sob o reinado de dom
João IV. Seu regimento dizia que a nobreza por meio de armas só poderia ser concedida a alguém
que ocupasse um posto de milícia. O posto de capitão era suficiente para permitir o acesso à
nobreza. A palavra nobreza classificava em geral os homens influentes ou ricos, mais do que
aqueles que levavam um título de conde ou marquês, chamados de fidalgos.
Tropas de segunda linha destinadas a defender o território de Portugal dos ataques de inimigos
externos, as auxiliares podiam ser deslocadas para o exterior em caso de guerra. Cada uma das
cerca de dez companhias era composta por duzentos e cinquenta soldados comandados por um
capitão comandante, um alferes subcomandante, um sargento e quatro cabos de esquadra,
havendo pequenas diferenças entre a organização da cavalaria e da infantaria. Somente os oficiais
recebiam soldo, mas a partir de 1657 os auxiliares passaram a receber metade do valor pago aos
soldados profissionais, apenas durante as operações de combate.
No Brasil os postos maiores dos auxiliares eram mestre de campo, coronel, que comandava a
infantaria, e tenente-coronel, responsável pela cavalaria. O capitão era obrigado a fornecer sua
própria espada e possuir pelo menos um cavalo e um escravo para cuidar das suas necessidades e
das do animal.
Os auxiliares recebiam treinamento militar para o caso de substituírem as tropas de primeira
linha. Só podia participar da cavalaria o pretendente que fosse branco; os demais eram enviados
para a infantaria, que aceitava pardos e negros libertos. Suas principais missões nas Minas eram de
combate a quilombos e a índios bravios, assim como o controle do desvio de ouro e diamantes. O
interesse de participar daquela arriscada atribuição sem receber soldo era explicado pelas regalias
que o cargo proporcionava. Os auxiliares gozavam de foro militar, não contribuíam com tributos
determinados pelas câmaras, não eram passíveis de confisco de suas casas, animais, carros,
estrebarias, de seu pão, vinho, palha, cevada, galinhas e outros gêneros. Tampouco eram
constrangidos a ocupar cargos públicos, nem podiam ser presos em enxovia. Significava muito o
prestígio que representava aquele uniforme.
Poucos homens se julgavam felizes sem ter um posto na milícia de auxiliares, e os altos cargos
eram a consagração definitiva. Senhores da região, os oficiais correspondiam-se com
governadores, manipulavam as câmaras no rumo de seus interesses pessoais, exerciam influência
nas irmandades e faziam o que bem entendiam. Alguns cometiam extorsões e abusos de toda
espécie, e todos tinham o direito de residir em casas particulares até que se construíssem os
quartéis. “Os oficiais militares são poucos e malcriados; nasce a discórdia de dois princípios: o da
ignorância do ofício, o que suscita dúvidas em toda a Tropa que é insciente; o segundo, da
elevação que o pó das Minas mete nos narizes dos habitantes que a pobreza traz nus e descalços.
Não há cabo que não se presuma alferes, e todos duplicam em si graduações tais”,71 dizia em carta
o sisudo conde de Bobadela, o governador Gomes Freire.
Orgulhosos, os militares ostentavam suas fardas, que eles mesmos eram obrigados a comprar.
“Não deveria ser tão pequeno o ônus imposto aos mineiros, fardando-se e armando-se à sua custa,
embora pareça compensação a eterna sedução da farda, e a parcela de autoridade que ela parece
atribuir a quem a usa, o que no interior se manifesta nos elementos mais rústicos, por uma
irritante arrogância no falar e nas maneiras. Havia vistosos uniformes que terão sido um grande
atrativo às vaidades [...]”72 As fardas eram, realmente, vistosas e coloridas. Os henriques, terço de
homens pretos de Vila Rica, usavam uma em vermelho vivo, colete branco, gravata preta,
dragonas prateadas, uma pluma escarlate curvada para a frente e meias brancas; os pardos de
Mariana vestiam colete, calções, gravata, punhos, meias e pluma amarelos, e uma faixa vermelha;
os pardos do Inficionado, colete, punhos e forro amarelos, calça preta, faixa e debrum da túnica
vermelhos e por trás um penacho também amarelo; a infantaria de auxiliares usava colete branco,
gola, punhos e pluma amarelos, uma faixa vermelha; a infantaria vestia casaco azul revirado com
forro vermelho, peitilho, colete, gola, punhos, talabarte e uma faixa vermelhos. Os que tocavam
tambores eram os mais exuberantes em seus uniformes, predominando o vermelho, com vivos
azuis.
A força irregular de pedestres que servia à intendência dos diamantes compunha-se em sua
maior parte por escravos dos funcionários da intendência, do governo, e de seus protegidos. Esses
homens recebiam o soldo e sua tropa tinha má reputação; “não servia nas poucas patrulhas que
fazia, para outra coisa que não fosse encobrir e concorrer para o extravio dos diamantes”.73 No
entanto, a força de auxiliares atuava de maneira severa na organização, defesa, e na repressão aos
“desmandos”. A cavalaria de dragões, armada com grandes clavinas, espadas e pistolas,
funcionava na guarda dos governadores, comboiando as riquezas da Coroa e acudindo “alguns
insultos ou levantamentos que façam algumas pessoas poderosas, fazendo-se fortes com seus
escravos”, conforme ato de sua criação, em 1719.

Pesava sobre os pés-rapados um perverso sistema de recrutamento. Muitos eram arrolados


para o serviço militar por contrariarem os poderosos ou por simples capricho de algum inimigo. O
envio de tropas a outras regiões resolvia inúmeras demandas, confiscos ou raptos, escapando-se às
leis e aos processos. Alguns homens eram recrutados enquanto trabalhavam na lavoura ou em
lavras, por não terem concordado em vender suas propriedades a algum coronel de auxiliares ou
sargento-mor que, por esse motivo, se fizera inimigo de morte da vítima. Levados a pau e corda,
ou seja, com as mãos amarradas nas costas e um pau atravessado para retesar o laço, logo depois
perdiam suas terras, lavras ou roças, apossadas pelo inimigo. Mulher e filhos do “voluntário”
passavam a viver em situação de miséria. Às vezes, surpreendido numa multidão em alguma festa
religiosa, um homem era recrutado e desaparecia, nunca mais se tendo notícia dele.

A imponência do capitão Antônio Caetano de Sá leva a supor que Maria mina se destacava das
demais escravas pela beleza, vivacidade ou sensualidade. Os oficiais, segundo antigas prescrições
portuguesas, deviam ter sangue “limpo” — pele branca e avós de linhagem pura. O capitão
Caetano tinha essas características e, segundo depoimento do oficial de jardineiro Baltazar
Gonçalves de Carvalho, possuía riqueza e escravos, gozando de situação elevada. O depoimento
de Baltazar, tomado anos depois para o processo de habilitação à Ordem de Cristo do filho mais
velho de Xica da Silva, afirma que Maria mina e Caetano de Sá eram unidos e tinham posses
conjuntas. Ele chega a afirmar que Xica era filha legítima do capitão dos auxiliares Antônio
Caetano de Sá e de Maria da Costa, que possuíam muitos cabedais e uma copiosa escravatura, e
que Maria era de cor parda. O fato é que, ao nascimento de Xica, o capitão não registrou, não
batizou, nem alforriou a filha. Mesmo assim, um dos filhos de Xica seria batizado com o nome do
avô, Antônio Caetano.
Esperança no orgulho

A menina Francisca parda, 1734

NA CAPELA DE NOSSA SENHORA DOS PRAZERES encontravam-se apenas um cirurgião-


barbeiro, Silvestre de Reis Drago, que, trinta e cinco anos depois, descreveria num depoimento a
cena do batismo de Xica da Silva; e os padrinhos da criança, dois homens-bons, talvez escolhidos
na expectativa de que um deles concedesse a alforria à recém-nascida, o que não custava demais,
eram cerca de vinte mil-réis, ficando o amo obrigado a libertar o infante na pia batismal se lhe
apresentassem essa quantia. Domingos da Costa não estava presente. Nem o pai da menina.
Era comum mulheres escravas pedirem a pessoas de consideração que apadrinhassem seus
filhos, “na esperança de que o orgulho que essa gente possui, no mais alto grau, a leve a não
permitir que os afilhados continuem na escravidão. Assim por seus esforços, pelo favor dos amos
ou por outros meios, os indivíduos que se libertam, a cada ano, são verdadeiramente
numerosos”.74 Por volta de 1734, Xica foi batizada pelo reverendo Mateus de Sá Cavalcanti na
capela de Nossa Senhora dos Prazeres, arraial do Milho Verde. Seus padrinhos foram Luiz de
Barros Nogueira e Alexandre Rodrigues de Fontoura.75 Prescritos eclesiásticos orientavam que o
batismo devia ser ministrado em até sete dias após o nascimento da criança.

Vestida com apuro, saias franzidas, colares de contas no pescoço, a cabeça rapada, Maria mina
atravessa a pé o arraial do Milho Verde, carregando sua filha enrolada num xale de listras. Adiante de
Maria vão os dois padrinhos e, atrás dela, as amigas escravas. O capelão espera em pé, à porta da capela
dos Prazeres. Os padrinhos se apresentam ao reverendo e entram.
No silêncio da ermida, sem mais palavras, sem sinos nem cantorias, o capelão, paramentado com
sobrepeliz rendada e uma estola roxa sobre a alva, lava as mãos. Segura a criança no colo e, virando-a
com a boca para baixo, imerge-a na pia batismal, invocando o nome do Pai, do Filho e do Espírito
Santo, mergulhando-a na morte de Jesus para fazer com que ressurja como nova criatura. Os padrinhos
põem a mão sobre a pequena Francisca parda, prometendo, como pais espirituais, ensinarem-lhe a
doutrina cristã e os bons costumes. Perdoado seu pecado original, a menina passa a participar da vida
trinitária do Deus cristão, recebe as virtudes teologais e os dons do Espírito Santo. Ela é, então, filha do
Deus branco. Membro inalienável da Igreja, pertencerá para sempre a Jesus Cristo.
Recebe nome, entrada no Céu e Pai divino.

Os apadrinhamentos nos batizados firmavam quase um laço de parentesco, a ponto de ser


considerado crime o sexo entre compadres ou entre compadres e seus afilhados. Por meio desse
ritual religioso, mulheres conseguiam incluir seus filhos num sistema de proteção e favores; era
uma forma de resistência que ampliava o resguardo familiar para além dos pais, formando sólidas
alianças nas quais entravam relações de afeto e fraternidade; também interesses de natureza
diversa, como a alforria. Assim, era natural que os pais buscassem padrinhos numa camada
hierarquicamente superior.
Cientes desse sistema, autoridades tentavam burlar qualquer tentativa de organização entre
escravos por meio do compadrio, ou de escravos com alforriados. O conde de Assumar chegou a
proibir que escravos fossem padrinhos de outros escravos, “temia que esse relacionamento
fortalecesse o poder dos escravos e enfraquecesse os elos de dependência dos senhores”.76
Assumar defendia restrições à alforria, ao direito de herança para cativos, e era contrário à
liberdade de associação dos negros, livres ou escravizados; mais uma maneira de subjugá-los.
A hierarquia do compadrio acompanhava, de certa forma, a hierarquia da sociedade: os
brancos tinham padrinhos brancos; os negros, padrinhos negros; os ricos, padrinhos ricos; e os
pobres, padrinhos pobres. O padrinho era comumente de uma camada social hierarquicamente
superior ao apadrinhado, mas não muito. Porém, os negros recém-chegados adultos recebiam
como padrinhos outros negros na mesma condição. Os senhores, e sua família, raramente
apadrinhavam seus escravos; mas era comum batizarem filhos de seus escravos.
Também raramente escravos apadrinhavam filhos de forros ou crianças nascidas livres.
Quando um branco servia de padrinho a um escravo, geralmente tinha posição inferior ao dono
desse escravo. Grande parte dos filhos de pardos tinha padrinhos brancos.
Os filhos legítimos, nascidos na vigência de um casamento (raro na região), tinham mais
chance de receber um casal de padrinhos branco ou rico, e padrinho e madrinha compareciam à
festa, geralmente mais pomposa. Nas Minas eram celebrados mesmo os batismos de filhos
naturais. Senhores faziam festejos para crianças tidas com suas concubinas, convidando muita
gente para um banquete, após uma cerimônia com fartura e gala. Koster descreveu um batizado
senhorial em que todo um dia foi dedicado a se comer, beber e jogar baralho. Mas o batizado da
filha de Maria mina, embora num padrão mais digno do que seu próprio batismo, deu-se de modo
singelo.
*

Pequenina, Xica é levada pela mãe ao trabalho. Vai amarrada por tiras de pano a suas costas ou,
em trajetos mais distantes, numa cangalha sobre a mula. Maria mina põe a trouxa na cabeça, leva um
pão de sabão e vai lavar roupa no córrego. Xica ouve a voz da mãe a entoar cantos melancólicos:

— Ai! Ô ari,
caturinga ô aringa ti!
O Tijuco combaro barundo mutenguê...
Ai! Ô ari,
caturinga ô aringa ti!

É uma canção falando de um sinhô do comércio do Arraial Grande, o Tijuco. Ou, então, Maria
canta a canção do negro que no quilombo sente saudades de seus pais que estão no Tijuco:

— E! Mia pai!
Ererê! Mia mãe
O Tijuco combaro quilombô maiauê!
Ê lê lê, mia pai, ê.

O grande número de nascimentos de crianças mulatas fez com que o mestiço se tornasse um
grupo predominante na população mineira. A existência dessas crianças mestiças recebia
constantes críticas por parte de autoridades coloniais e de “alguns habitantes das vilas e arraiais
que escreveram a Lisboa, quase sempre fazendo amargas considerações. Tais queixas se referem à
quantidade de pessoas que irão integrar outra categoria populacional: não eram brancos, e nem
africanos ou seus descendentes. Logo foram vistos como um grupo à parte, gerando o desfavor dos
habitantes das vilas e arraiais mineiros que se consideravam brancos e que constituíam a categoria
dos desfavorecidos”.77
Parte das reclamações surgia do direito à herança por parte das crianças mestiças, quando o
pai era declarado. O fato de mulatos se tornarem proprietários foi motivo de inúmeras cartas
enviadas a Lisboa por moradores de terras mineiras. Autoridades e pessoas gradas tentavam
impedir que filhos ilegítimos e mestiços recebessem as “copiozas” heranças, como diz um
documento de 1755, pois as gastariam em pouco tempo, pretendendo “se igualar aos brancos em
fidalguia e viver na ociosidade”.78 Essa questão das heranças aprofundou a prevenção contra as
crianças ilegítimas e mestiças, assim como contra a largueza com que a alforria era dada a essas
crianças no ato do batismo.
A pequena Francisca parda nasceu e cresceu com o estigma de filha de escrava e a “mancha”
da tez. No entanto, mesmo não tendo o pai branco acompanhando seu crescimento, protegendo-
a, mesmo não tendo sido declarado o seu pai ao batismo e não tendo sido alforriada, como muitos
filhos de brancos com negras, Francisca parda é um passo adiante em relação a sua mãe, no
caminho do branqueamento para a ascensão social. Com a ausência do pai capitão, a imagem
paterna mais presente para Francisca parda era provavelmente seu proprietário, o negro forro
Domingos da Costa.

Domingos da Costa está sempre viajando, a comprar escravos no Rio de Janeiro. É já um homem
próspero, senhor de sua escravaria. Considera-se superior. Ao punir seus escravos, exclama:
— Agora não vai dizer que branco é mau — referindo-se a si mesmo como branco.
Ele e sua mulher se esforçam para ombrear-se aos brancos, embora não gostem de se misturar com
eles; por esse motivo, Domingos construiu sua moradia um pouco fora do arraial, num lugar onde há
apenas negros e aventureiros.
Gosta de batuques e adquiriu o hábito da bebida nos caminhos frios da estrada. Nas festas, ele e seus
parceiros cantam:

— Oia como bebe


Esse povo do Brasí
Inxuga um garrafom
Mai depressa q’um funí.

— Mia Santa Catarina


Santa de cabelo loro
É uma santa milagreira
Qui mora ni pé di moro.

Domingos interrompe seu caminho quando encontra um escravo na rua, que, tangido por saudades,
canta alguma cantiga de lembrança africana. Cerca-o, a observar, e logo o acompanha na cantoria,
com outros que por ali passam e deixam por um instante suas cargas, suas tarefas. Batem palmas,
entoam o refrão, aparece um músico com seu instrumento, formam um círculo e de um em um vão
para o centro, fazendo gestos de encenações antigas, danças, lutas. Uns entram em transe, gritam. Até
que tudo cessa e cada um retoma a carga, o tabuleiro, e segue seu destino.

Essa é na verdade a história de Felipe mina, contada por Aires da Mata Machado Filho (1909–
1985) em O negro e o garimpo nas Minas Gerais, que recolheu alguns vissungos — cantos de
trabalho dos escravos — nos arredores de São João da Chapada, lugar de belos diamantes azuis.
Felipe Neri de Sousa, o Felipe mina, um dos primeiros povoadores dali, grande proprietário, dono
de um arruamento inteiro no arraial, com casas de telha, construiu com apoio de seus
compatrícios prósperos a capela da localidade. A cantiga citada anteriormente fazia parte de uma
das festas antigas do Tijuco, o coreto, realizada com a finalidade apenas de se beber e cantar.
Como os escravos que chegavam à comarca eram compelidos a seguir normas culturais e
religiosas lusitanas, avassalados ao rei e tornados filhos do Deus cristão, esqueciam muito de suas
origens e crenças tão condenadas e perseguidas. O único caminho para uma vida respeitável era
enriquecer e arremedar a vida dos brancos, sufocando os próprios modos. Mas suas verdades
interiores surgiam aqui e ali, numa cantiga, num gesto, num lamento.

Como as outras crianças escravas, Xica logo aprende a trabalhar. Realiza no começo pequenas
tarefas, como colher verduras na horta, abrir vagens de feijão, debulhar milho, juntar ovos das galinhas,
lavar frutas e legumes. Limpa a cuscuzeira de barro, desfia palha para fazer colchão ou recolhe algum
graveto seco, para lenha. Ajuda a mãe com a roupa, lava peças pequenas, bate-as na pedra, bota para
corar, enxagua e as estende em cima de galhos para secar.
Mas, como toda criança, Xica encontra tempo para se divertir. Pesca com uma peneira os lambaris,
bagres e outros peixinhos, que torra numa trempe; come ali mesmo as delícias, na beira do riacho. Entra
na água fria, toma banhos refrescantes, lava os cabelos e corre ao sol para secar-se. As águas do Lajeado,
com vários poços de água cristalina e forrados de areias brancas, formam tanques abaixo de três boas
quedas, que servem como diversão infantil.
Os meninos botam visgo numa vara e esperam: quando pousa um pintassilgo, um curió, um tico-
tico, e fica grudado, a pequena Xica corre, limpa os pés do passarinho com azeite de carrapato e o mete
numa gaiola. Admira os beija-flores-de-rabo-branco que parecem parados no ar, metidos nas flores a
tirar néctar, ou a construir seu ninho avermelhado.
Outra brincadeira de Xica é procurar pedrinhas redondas para os jogos, casulos de borboletas, ninhos
de pássaros, tudo que possa servir de fantasia ou tesouro. Catar capim e fibras para fazer bonecas
amarradas. E ir bem longe, a colher mangabas, caninha dedo-de-moça, cagaitas de bagos amarelos,
laranjas embigudas, pequi para fazer sabão ou então gabiroba, a goiaba acre e gostosa que ela come ali
mesmo debaixo do pé, mordendo a pontinha azeda; depois junta algumas dessas frutas para sua mãe
fazer marmelada.
Xica aprecia olhar os garimpeiros a virar as bateias. Aprende a discernir um diamante a estrelar no
cascalho. Vez em quando um faiscador acha uma pedra grande e cai de joelhos, suplicando, “Meu
Divino Pai e Senhor, se é castigo, que se suma esta riqueza!”. Ela ri, porque o diamante não desaparece
e o homem se vai, feliz, em busca de vender a pedra.

Descalça, com os pés molhados, Xica sobe e desce o desbarranque da lavra, procurando folhetas de
ouro, brilhantinhos. Às vezes, dá um grito e se abaixa, apanha um diamante maior, que vai vender a
algum capangueiro que anda nas lavras com uma pequena bolsa, comprando o produto das faisqueiras
e avisando se vêm os dragões dar batidas. Com o dinheiro arrecadado, Xica vai comprar uma guloseima
às escravas de ganho que andam sorrateiras pelas minerações. Corre para olhar quando aparece um
mascate vendendo panos coloridos, sal, botões, espelhinhos, marmelada paulista a cem réis e tantos
outros produtos encantadores e raros.
Cuida de crianças menores, dá-lhes banho, mingau, cata seus piolhos, canta para elas as canções que
aprende com a mãe, ou na capela do arraial, ou com outras crianças. E as põe para dormir.
Nas noites frias e quietas fica em volta do fogão da casa senhorial, com a mãe e os outros pequenos
escravos, ouvindo as histórias, lembranças e conversas das negras, os pios das aves noturnas, o estalar das
chamas. No inverno a senzala é gelada e Xica dorme muitas noites ali mesmo, no chão da cozinha,
ninada pelos contos sedutores ou apavorantes.

Os mitos em Minas Gerais resultavam de um prolongamento, com traços peculiares e


assimilados, da mitologia paulista.79 Elementos tupis foram ali plantados por homens das
bandeiras, misturados depois a imaginações de origens portuguesa, africana e outras, levadas por
numerosos homens e mulheres que para as Minas se dirigiram desde os primeiros tempos. O ciclo
do ouro confundia-se com os mitos do fogo, que se expressavam pelo Mboitatá, ali chamado de
Batatá ou Bitatá. Era a coisa de fogo, facho cintilante correndo pela mata, luz inquieta e fugitiva, a
luz errante do fogo-fátuo. Em Portugal essa figura mitológica simbolizava almas de meninos
pagãos, ou um espírito que deixou dinheiro enterrado, ou a transubstanciação de algum amor
sacrílego entre irmãos ou compadres. O fogo da paixão, das queimadas, do conflito armado.

Quando no céu desce uma estrela cadente, é ela, a serpente mãe, viva e encantadora, que faz o
homem deixar mulher, família, terras, abandonar tudo e ir atrás da divindade. Para quebrar o encanto
é preciso fazer um corte no dedo de uma mulher virgem e deixar cair sobre a Mãe do Ouro gotas de seu
sangue, ou levar ao lugar onde a entidade foi vista uma criança de sete anos e ainda sem batismo.
É fascinante essa lenda, faz Xica se imaginar uma dona das almas, uma rainha. Ela ouve dizer que
a Mãe do Ouro sai de seu subterrâneo com um longo cortejo de luzes, voando, deixando cair estrelas dos
cabelos, que se apagam e viram diamantes, e Xica mete vagalumes nos seus cabelos cortados em formato
de coroa. A moça que vir as luzes da Mãe do Ouro e fizer um pedido será sua senhora, mas lhe
pertencerá para sempre.
De noite, em imaginação, Xica vai ao palácio da Mãe do Ouro, grutas e mais grutas que se
iluminam, águas que viram tapetes ou camas. Lá, a encantada participa de festas inebriantes junto a
mulheres formosas, casadas ou donzelas, vestidas com roupas transparentes, os cabelos transformados em
plantas luminosas, sem poderem falar-se ou tocar-se. Algumas têm as pernas em forma de cauda de
peixe e são amadas por almas dos rios ou antigos príncipes mortos em guerras. De noite essas mulheres se
recolhem ao fundo das águas e de manhã fogem entre os nevoeiros, cinzentas, dançando a ronda das
nuvens.

Monstros de várias furnas e águas povoavam as montanhas mineiras, assombrando,


fascinando, ameaçando ou protegendo aquelas criaturas ao léu. As histórias eram passadas de
mulheres a crianças, de velhos a jovens: histórias africanas em que animais falavam, tramavam,
amavam, odiavam, festejavam, como pessoas humanas; histórias portuguesas, de princesas,
madrastas, rainhas más, mouras-tortas ou lendas assustadoras, para ensinar o comportamento, a
moral, os costumes aprovados e os reprováveis. Para as crianças aprenderem a sonhar. Velhas
escravas costumavam passar pelas senzalas e contar histórias antigas de sua terra. Decerto a
menina Xica ouviu alguns desses relatos.
*

Em 1737 sua mãe engravidou novamente, dando à luz uma menina que foi chamada de Rita.
Não se conhece a paternidade dessa criança.
Pequenos vultos de dois palmos

Santos e mandraqueiros

NO MILHO VERDE muitas crianças morrem de fome, febres e tantos males. Mas Xica recebe bons
tratos, boa alimentação, por isso não sucumbe às doenças que matam os filhos de escravos. Cresce forte e
saudável, conseguindo sobreviver a adversidades de toda sorte. Come com prazer sua cuia de feijão,
torresmo, delicia-se com os ovos, as verduras da horta, com frutas de quintal, ou um pirão feito do caldo
que sobra da carne.
É vergonha para o senhor um escravo pedir de comer, mas a pequena Xica, com seus olhos vivazes e
sua figura ativa, mesmo sem pedir, ganha um pedaço de bolo, um carajé, um enfeite de doces, melado
com cará, ou queijo com banana. Porém, dão-lhe mais as comidas feitas de milho: broa, mingau de
fubá, cuscuz de farinha grossa, pamonha, corá, sempre fartas quando é tempo de colheita nas roças de
milho em torno do arraial.
Se Xica sucumbe a algum mal, a mãe a leva ao curandeiro. A criança vê o feiticeiro a raspar o
suadouro de um chapéu e o aplicar num dente doído. Vê quando ele põe uma pele de fumo na boca de
um doente, ou quando abre uma lagartixa e estende as vísceras sobre a caxumba, ou passa manteiga
numa ferida e chama um cachorro a lambê-la. E vê outras coisas estranhas, mas que lhe parecem
naturais. Para dentada de cachorro doente, o curandeiro mete na boca do mordido uma chave de
sacrário. Para picada de lacrau, abre o bicho e o assenta sobre a ferida. Também prescreve amuletos,
talismãs, fetiches para um quebranto ou para se conseguir algum fim. Por precaução, a mãe faz
promessa a Nossa Senhora dos Prazeres e vai à capela rezar para que Xica fique logo boa.

A devoção a Nossa Senhora dos Prazeres, em Portugal, vinha desde o século 16, após a
descoberta de uma imagem da Virgem Maria numa fonte localizada em Alcântara. Aldeões que
bebiam daquela água passaram a alcançar graças, curas e milagres, e a família de condes,
proprietária da quinta, levou a santa para dentro de casa. Porém, misteriosamente, a imagem
desapareceu. Tempos depois uma menina foi beber água num poço e lá encontrou a santa
perdida. Uma voz lhe pediu para que os cristãos construíssem no lugar uma igreja dedicada a
Nossa Senhora dos Prazeres. Também chamavam essa Virgem de Nossa Senhora das Alegrias.
Os prazeres de Nossa Senhora consistiam em a Anunciação, a saudação de Isabel, o
nascimento de Jesus, a visitação dos Reis Magos, o encontro com Jesus no templo quando ele
falava aos doutores, a Ressurreição de seu filho e a sua própria coroação, no Céu. A invocação a
essa Senhora, com nomes que sugeriam satisfação e ventura, era auspiciosa para os aldeões
dotados de fé.
Não havia povoado nas Minas que não estivesse assentado em torno de uma capela ou igreja.
Os portugueses que vieram para o Brasil, na maior parte nascidos no Minho, traziam um fervor
religioso profundo, uma tocante e singela piedade. Essas populações, “valorosas e rudes, dispostas
a afrontar os mais sérios perigos, arrostando as doenças e a morte, pela aspereza do clima ou pela
maldade alheia; dispondo de parcos haveres, que mal lhes dava para obter o transporte na longa e
perigosa travessia marítima; varando a distância selvagem entre o porto de mar e a terra das
Minas do Ouro, através de caudalosos rios, sertões pestilentos e alcantiladas serras, sonhando com
a riqueza que haveria de ser obtida, custasse o que custasse; homens capazes de matar e morrer
espumando ódios, na batalha tremenda da aventura mineira; entretanto, eram todos ternura e
humildade ao contemplarem os pequenos vultos de dois palmos, Virgem Maria ou dos santos
Oragos da terra natal, conduzidos em seus surrões de peregrinos”.80
As capelas, em geral pequenas construções de pau a pique e barro, possuíam um tosco altar de
tábuas. No adro, ou numa praça fronteiriça, fincava-se uma cruz também muito rude, com os
emblemas da Paixão e um cofre para os fiéis depositarem suas esmolas. Controlava-se a presença
nas missas — obrigatórias para todos, inclusive para os escravos — por meio de listas com os
nomes dos moradores, os quais o sacerdote lia antes de começar o ritual. Nas igrejas, sob as
disposições do direito canônico, realizavam-se as anotações relativas a nascimentos, casamentos e
mortes.
Diante do altar, piamente ajoelhados, moradores tentavam aliviar-se de suas culpas.
Confessavam aos padres ou diretamente aos santos os pecados, delitos ou crimes que cometiam:
roubo, furto, assassinato, onzena, violação de donzelas, luxúria, desonestidade nos negócios,
blasfêmias ou calúnias, e tantos mais. As penas incluíam, além das rezas, penitências de donativos
proporcionais à riqueza do culpado. “A relação de casos cabeludos, canalhices, torpezas, hipóteses
pecaminosas, modalidades de infração às leis divinas e humanas, como o modo de enfrentá-los,
coibi-los e resolvê-los comumente, enchem as páginas do disseminado e precioso livro
‘Penitológio Sacramental e Foral Espiritual’, de Frei Luís de São Francisco, que, desde 1691, foi o
guia seguro de padres missionários que andaram pelas terras do Brasil, tentando refrescar as
carnes dos moradores e muitas vezes incendiando as próprias.”81
Viviam os habitantes e seus escravos carregados de escapulários, bentinhos, rosários e terços;
diante de suas casas fincavam cruzes, que eram vistas também nos caminhos, no cume dos
morros, na guarda das pontes, para a proteção e a redenção, e a fim de afastar os demônios, evitar
a destruição. Para quem levava uma vida tão cheia de perigos, a lembrança da morte era
constante.

Xica vai assistir à missa de domingo com sua mãe e as outras escravas, vestidas com as melhores
roupas. A menina é vaidosa, penteia os cabelos com apuro, olhando-se num caco de espelho. Como não
possui adornos de ouro, fabrica-os de cristais coloridos que cata pelos matos e rios, ou sementes e
coquinhos que fura com um espeto quente. Ganha de escravos pequenas figas em raiz de alecrim e outros
enfeites que eles esculpem para a menina. Amarra seus panos coloridos à cintura, ata fitas vermelhas nos
braços e nos cabelos, pendura ao pescoço todos os seus cordões com medalhas, cruzes, amuletos e o
escapulário que o capelão lhe deu. Sonha ter um par de sapatos. Raras escravas o possuem e, mesmo
quando o conseguem, costumam ir descalças até a capela para não gastar as solas, calçando-os apenas
para entrar no templo.
A mãe de Xica vai à missa com o vestido azul ornamentado na gola, nas mangas, e se cobre com
um xale preto, preso ao ombro. As escravas seguem atrás de dona Ana da Costa, que por sua vez vai
atrás do esposo. Os senhores entram e, como a igreja está repleta, as escravas ficam de fora, espreitando a
missa pela porta, ajoelhadas no chão poeirento do adro. Em dia de comunhão o reverendo leva hóstias
para as escravas comungarem lá, debaixo das nuvens.
Quando termina a missa, Xica vê sua mãe entrar na capela e se ajoelhar com fervor diante de Nossa
Senhora, de são Miguel, tocando-os, beijando seus pés vezes seguidas. A menina se consola ao constatar
que a mãe de Jesus também não tem sapatos.
Maria mina comunga ao menos uma vez por ano e dedica sua fé a são Francisco. Mas, não demora,
prostra-se devota diante do feiticeiro a pedir poções e amuletos — que o capelão tanto condena — para
que seus senhores sejam mais bondosos, para curar alguma doença, para ser protegida, alforriada ou para
que ele leia a sua sorte e a da filha.

Os minas tinham inclinação pelos rituais, vindos da tradição de seu povo. Muitos dos
feiticeiros na comarca do Serro do Frio eram minas. Pouco se sabe de como eram suas cerimônias,
nem se ocorriam no Milho Verde, mas há notícias da presença de feiticeiros na região diamantina.
Pelos relatos de viajantes que testemunharam a atividade de feitiçaria, podemos imaginar como
seriam as casas religiosas de magia no Serro do Frio. Com uma visão de estrangeiro, o viajante
Ewbank descreveu o conjunto de materiais de um negro mina no Rio de Janeiro, preso por
feitiçaria, por volta de 1840 — objetos suficientes para “encher uma carroça”.
Uma jarra grande, escondida por saias, constituía o corpo do ídolo principal; dois menores
eram de madeira, com braços articulados, faces e cabeças besuntadas com sangue e plumas —
uma ave sendo exigida de cada consulente; garfos de ferro e facas de pedra, usados como
implementos sacrificiais; chifres de bode, presas de marfim, caveiras de animais, um colar de
maxilares, caixas pequenas de poeira colorida, chocalhos, uma palmatória, feixes de ervas (um
de arruda), a capa e o capuz vermelho do encantador, e a cortina atrás da qual ele fazia o
papel de ventríloquo ao chamar os espíritos e conversar com eles.82

Enquanto esteve na África Ocidental, determinado a sondar as origens, as fontes primitivas


dos africanos, Sir Richard Francis Burton conseguiu permissão para entrar numa casa de fetiches,
um “desses templos rudes e embrionários” tão “ciosamente fechados a estranhos”, e viu estátuas
rudimentares, instrumentos musicais, bacias pintadas com gredas coloridas, enfeitadas com fitas e
contas.
Frequentassem ou não as casas de fetiches, os colonos mineiros, como quase todo ser humano
do século 18, eram extremamente supersticiosos. Acreditavam que qualquer indício possuía um
significado mágico. Algumas vezes abandonavam uma lavra apenas porque suas sortes não
combinavam com as de seu sócio.
Os sonhos, sempre augúrios, podiam ser fastos ou nefastos. Os sonhos com águas límpidas
davam sinal de algum benefício; o contrário se dava no caso daqueles com águas escuras. Sonhos
com cobras eram fastos. Também com crianças pequenas nos braços, despejando suas escórias.
Os sonhos em que apareciam negros ou padres podiam ser tanto fastos como nefastos. Sonhar
com um boi visto ao longe era certeza de se encontrar um grande diamante. Se o boi estivesse
perto, significava a proximidade do encontro da pedra preciosa. Se o sonhador lutava com o boi, a
gema seria encontrada na primeira lavagem. As raízes desses últimos sonhos vinham de crenças
totêmicas ligadas ao boi, de origem banta.
Havia os feitiços de mandinga, coisa-feita contra uma pessoa ou seus bens: uma doença que
enfermava o gado, uma praga que matava o roçado ou uma temporada sem sorte na mineração. E
havia o feitiço de mandraca, um poder que vinha de esferas elevadas, adquirido por meio de rezas
brabas ou de pacto com o diabo. O mandraqueiro, o mais poderoso dos magos, era capaz de
dominar a mente de uma pessoa e de acionar objetos à distância, como abrir portas cerradas ou
fazer uma arma disparar sozinha; exercia influência sobre elementos da natureza enviando
tempestades, raios, ou ventanias arrasadoras. O povo acreditava que o mandraqueiro andava sob
a chuva sem se molhar e se transformava no que quisesse, como uma árvore, um animal ou um
objeto.
Alguns feiticeiros tinham o poder de salgar uma lavra fazendo com que, por sete anos, os
diamantes se tornassem cristais, e o ouro, carvão. Para tirar o “sal” de sua lavra, o minerador
precisava desnudar-se, pegar um molho de folhagens verdes e, sem olhar para trás, molhar o ramo
na água e fazer aspersões, rodeando o local, com os olhos fechados. Havia feitiços especiais contra
mineradores e faiscadores — estes eram os que trabalhavam em lavras pequenas — para que
ficassem cegos aos diamantes e ao ouro.
Bastava uma mazela, uma pouca sorte, para levar aqueles moradores ao feiticeiro. Iam
escondidos, carregando objetos de uso pessoal como uma roupa, uma ferramenta ou um cacho de
cabelos, para encomendar uma garrafada, que lhes era entregue numa cerimônia cabalística.
Havia, no Tijuco, feiticeiros que preparavam garrafadas para todo tipo de pedido: separar ou unir
casais, atrair pessoas ausentes, levar alguém à miséria ou alçar à riqueza, para se conseguir a
alforria, ou um bem qualquer.
O povo no arraial mineiro de Quartel chamava seus feiticeiros de caquis e a eles atribuía as
mortes violentas, assim como as mortes misteriosas ou repentinas. Quando passava na rua uma
rede com um defunto para ser enterrado, os comerciantes fechavam as portas de suas lojas,
temendo ser enfeitiçados. Episódios com animais, como a mordida de um cão, a picada de uma
lacraia ou o coice de um cavalo, eram atribuídos aos caquis, que teriam poder sobre os “bichos
mandados”.
Não era raro ver-se no mato, nas noites de sexta-feira, um grupo de pessoas em torno de uma
grande fogueira jogando ali palhas de alho, folhas de guiné e de tabaco. Levavam à força o
feiticeiro, defumavam-no com essa fumaça nauseabunda, atingiam-no com ovos chocos e lhe
davam uma surra com paus de fumo, que eram madeiras usadas para se enrolar o tabaco.
Acreditavam que esse procedimento acabava com o poder dos feiticeiros. Algumas negras velhas
contaram que haviam sido defumadas, perdendo seus dons.83
Quando não chovia e as plantações de milho começavam a embonecar, os moradores da
região molhavam os cruzeiros ao meio-dia. Faziam procissão murmurando rezas, levando uma
pedra na cabeça até determinado lugar no cemitério. Ou tiravam um santo de seu altar, em
procissão, e só o devolviam à igreja depois que caíssem as chuvas. Um trecho das preces cantadas
dizia assim:

I
Glorioso Mártir
S. Sebastião,
Livrai-nos da peste [ou da seca]
S. Sebastião.
II
Sofrestes martírios
Com toda [a] paciência:
A Deus merecestes
Por vossa inocência
III
Por vossos martírios,
Vossa intercessão,
Livrai-nos da peste,
S. Sebastião.
Pai-nosso, ave-maria

Festas religiosas

NÃO FALTAVAM DATAS para preencher de festas e rituais a vida dos colonos mineiros: a
Semana Santa, a Quarta-feira de Cinzas, o Senhor dos Passos, Corpus Christi, missas cantadas,
batizados, ofícios de defuntos. Eram tantas as festas que em 1799 o letrado José Vieira Couto, em
sua Memória sobre a capitania das Minas Gerais, sugeriu à rainha de Portugal a abolição de alguns
dias santos.
As comemorações, organizadas com o esforço de muita gente que largava o trabalho para se
empenhar nos preparativos, davam ensejo a que ricos ostentassem sua opulência. Inúmeros
artífices trabalhavam para vestir um simples indivíduo; vinham brocados do Oriente em navios,
peles do Setentrião. As mesas se cobriam de iguarias vindas de quatro partes do mundo. Nos dias
santos, consagrados à oração e ao ócio, era raro não haver algum acontecimento novo entre a
escravatura. Cometia-se a maioria dos assassínios e dos grandes delitos nesses dias, quando os
escravos preparavam e levavam a efeito suas fugas. Os homens se impossibilitavam para o
trabalho do dia seguinte; quase nunca o dono via os seus trabalhadores juntos na manhã após o dia
santo.

Quando vem o Santíssimo, a pequena Xica ajuda na arrumação da casa e a erguer montinhos de
areia na rua, nos quais ela espeta ramos e flores. Acompanha a preparação do altar na casa onde entrará
o Santíssimo, ajuda a acender as velas. Banhada, penteada, com sua roupa de missa, segue a procissão e
todo o festejo.
Sexta-feira da Paixão é dia de jejum, de manhã a pequena escrava só pode tomar um pouco de
água de infusão, rala e sem gosto. No almoço come um pouco de angu com feijão e abóbora. No
jantar, uma espiga de milho cozida.
Rompem-se as aleluias em grande alegria no Milho Verde, sinos e campainhas tocam ao mesmo
tempo, não se vê mais o homem de opa na rua, estalando sua exasperada matraca o dia todo até de
madrugada, sem deixar ninguém dormir. Mulheres abrem as janelas e estendem nos parapeitos mantas
coloridas. Escravos saem de roupa limpa para malhar o Judas e cumprimentam as mulheres à janela:
— Louvado seja Cristo, sinhá velha.
Na procissão das Cinzas, Xica segue atrás dos penitentes que batem nas próprias costas com chicotes
de palha. No Dia de Santa Cruz a menina fabrica lamparinas de laranja-da-terra ou de barro, vai
buscar bambu, cata ramos, ajuda a enfeitar as casas e a capela. Observa a mãe a fazer um judeu de
frango ao molho pardo, lombo de porco com angu, e vai aprendendo a cozinhar.
A Festa do Divino é a mais animada: nove dias de música e movimentação. Moradores mandam os
escravos limpar as fachadas das casas, fazem novas roupas bem garridas e esperam chegar os compadres
dos arrabaldes. As casas ficam cheias — e, quanto mais cheia a casa e mais farta a mesa, mais o
anfitrião fica feliz com o sinal de prosperidade. Xica percorre a rua, atrás dos aldeões, de casa em casa,
debaixo da bandeira, a buscar pessoas que fizeram promessas e levam os milagres para a capela: uma
perna em madeira com manchas vermelhas de chagas, uma cabeça, um braço, um pé, um menino
forjado em cera, muito bem-feito e coberto de feridas...
São admiráveis a escrava e o escravo sorteados para rei e rainha. Essas majestades desfilam com suas
coroas e oferecem jantar para a corte toda, gastando tudo o que têm e muitas vezes o que não têm.
Suntuosa, fascinante, a rainha vai com soberba, seguida dos súditos, arrastando sua grande cauda
segurada por uma caudatária. Mas a atividade religiosa de Xica não se limita às festas. Ela tem de rezar
a ladainha da manhã e o terço de todas as noites. Assiste à missa, quando tem padre, e se confessa e
comunga no dia determinado pelo capelão. No mês de outubro vai rezar o rosário na capela. Aos
domingos acorda antes de os galos cantarem, para a missa da madrugada.
Velhos passeios pelo Cávado

O sargento-mor João Fernandes, 1739

MISSA DE DOMINGO na fazenda da Vargem. O sargento-mor João Fernandes reza para a santinha
que repousa em efígie, pedindo a sua Senhora da Conceição que lhe dê a graça do êxito na nova
empresa. Sente um frio na espinha ao imaginar os perigos que o esperam. Se conseguir o contrato de
extração de diamantes, terá de despender uma enormidade de dinheiro tirado de seus cofres particulares.
Mas poderá usar apenas seiscentos escravos na mineração e receberá o prazo de somente quatro anos para
empreender a busca das pedras, além de precisar manter o controle sobre aquela gente tão facinorosa.
Olha ao lado a piedosa esposa, aflita, a rogar à santinha que proteja o marido. Ele recorda, com
brasas no coração, o longo caminho até as terras do Brasil, desde que deixou seu povoado. Lá, foi um
menino solto. Não esquece os passeios pelo Cávado, a empurrar o batel com uma vara, nem o caminhar
a esmo entre pomares e pinhais, a caça ao coelho, a mãe limpando as mãos no avental de serguilha, as
cirandas, as danças de sapatinho, as laranjas doces recheadas com chila... Mas foi proveitoso deixar o
Minho. Se lá estivesse, ele não possuiria as vastas terras da Vargem, os tantos escravos, nem tantos
cabedais. Seria, talvez, lavrador numa pequena quinta, ou um oleiro de galos, quiçá um apanhador de
sargaço na Apúlia. Ri, interiormente, de seu pensamento tolo.
Seu primeiro filho já completou doze anos de idade. É um menino vivo, curioso, sabe mandar; tem
apenas a fraqueza das negras. Haveria sempre de ser assim, pois as escravas estão o dia todo a cercá-lo
com mimos e afagos, o menino vive num mundo de mulheres que o amolecem. Mas é seu primogênito
varão e terá de ser capaz de realizar os sonhos do pai. Seu filho irá aos estudos, receberá a reverência que
merece a família, vai enobrecer o nome do pai com a glória mais alta que se possa almejar. Para isso, o
pai contratou um tutor que está a preparar o pequeno herdeiro. Também a mãe, que sabe a leitura e a
escrita, passa seus conhecimentos ao menino, que dá provas de ser capaz. O sargento-mor decide que
todos os outros filhos, nascidos ou que venham a nascer, se tornarão padres e freiras, para que não se
divida a fortuna familiar. O menino batizado com o mesmo nome do pai, João Fernandes, lhe seguirá
os passos, indo muito além.
O sargento-mor olha ao longe o pico do Itacolomi. Em poucos dias partirá, mais uma vez, pelos
caminhos áridos. Chama escravos, ordena que preparem sua viagem ao Tijuco. Irá ao encontro do
governador a fim de apresentar-lhe sua proposta para ser agraciado com o contrato dos diamantes.
*

Na primeira década do século 18, João Fernandes de Oliveira, nascido no arraial de Nossa
Senhora de Oliveira, concelho localizado perto da vila de Barcelos, veio para o Brasil na grande
leva de jovens minhotos que atravessavam o oceano atraídos por notícias da descoberta de um
novo Eldorado. Desembarcou no Rio de Janeiro e sem demora subiu as montanhas a caminho de
Vila Rica, onde iniciou sua atividade mineradora aurífera. Já instalado na vila do Ribeirão do
Carmo, e com o título de sargento-mor, conseguiu reunir riquezas suficientes para adquirir a
fazenda da Vargem, onde desenvolveu trabalhos de mineração e agricultura. Em 1725 a fazenda
contava com cerca de quarenta escravos, entre negros e mulatos, número que dava indício de
grandeza.
O caminho do sargento-mor João Fernandes para o enriquecimento se fez também por meio
de outras atividades. Associou-se a homens de negócios em Portugal, representando seus
interesses na colônia brasileira. Em Ribeirão do Carmo conseguiu, com três sócios, o direito de em
nome da Coroa fazer a cobrança do imposto do dízimo na região, que incidia sobre todas as
mercadorias locais — como a carne, produtos agrícolas, ferramentas de mineração, aguardente e
farinha — e era a maior fonte de lucros da Fazenda Real. Durante quatro anos os sócios tiveram
em mãos altos valores de impostos arrecadados, conseguindo assim realizar investimentos
particulares e abrir novas oportunidades. Uma dessas foi a atividade de testamenteiro e tutor de
herdeiros, o que permitia ao sargento-mor controlar fortunas que ficavam presas em longos
inventários.
Não tardou a amasiar-se com uma mulata de seu plantel, que lhe deu um filho; mas obrigou-a
a casar com um escravo, alegando que duvidava da paternidade, pois a negra sempre fora
“mulher meretriz”, ele declarou. Trouxe para o Brasil alguns de seus familiares, em geral primos
jovens, a quem apoiava emprestando dinheiro e com quem mantinha negócios, ampliando sua
atuação.
Ao adquirir a fazenda da Vargem, o sargento-mor tratou de construir uma capela dedicada a
sua santa protetora, Nossa Senhora da Conceição, com um altar azul e colunas ornadas de
pinturas de flores. Lá se realizavam missas dominicais e festas religiosas com a presença de
convidados ilustres, como um fazendeiro vizinho, pai do futuro poeta Cláudio Manuel da Costa
(1729–1789), que daria ao sargento-mor o menino para batizar; ou o medianamente rico
minerador e cirurgião Luís Gomes Ferreira, que escreveria, voltando ao Reino, o Erário mineral.
Ferreira cuidava da saúde dos escravos do sargento-mor, aplicando seus conhecimentos adaptados
às condições locais e obtendo bons resultados e boa reputação, o que lhe garantiu fazer parte do
círculo de frequentadores da fazenda da Vargem.
O sargento-mor casou-se em 1726 com Maria de São José, filha de um comerciante rico
residente no Rio de Janeiro com quem ele provavelmente mantinha negócios. Virtuosa, educada
num recolhimento para moças, Maria de São José sabia bordar, tecer, fazer rendas, criar filhos,
mas também ler e escrever, o que era bem raro na época. O casamento foi celebrado com toda a
pompa na igreja matriz da vila do Carmo, com missa seguida de festas que duraram três dias. Um
ano depois nascia o primogênito, João Fernandes de Oliveira. O casal teria cinco outros filhos,
sempre do sexo feminino e, decerto por receberem educação por parte de uma mulher virtuosa,
mas também a fim de não se dividir a fortuna familiar em dotes para casamentos, todas se
tornariam freiras.
Acirradas disputas

O contrato, 1739

EM TODA A CAPITANIA DE MINAS e no Rio pregaram-se bandos em locais públicos


convocando homens de negócios — grandes comerciantes ou investidores — que se interessassem
pela mineração a comparecer ao Tijuco, a fim de fazerem suas propostas para administrar o
monopólio da extração de diamantes. Para lá seguiram alguns homens bem estabelecidos, na
comitiva do governador Gomes Freire, levando suas condições. Em 1739, quando Xica tinha por
volta de cinco anos de idade, foi realizado o primeiro pregão para a lavra de diamantes. Depois de
acirradas disputas e tensas negociações, arrematou o contrato o homem de negócios, português do
Minho, sargento-mor João Fernandes de Oliveira, e mais um sócio. Como Fernandes era amigo
próximo de Gomes Freire, os concorrentes alegaram ser o escolhido apenas um títere do
governador — que oficialmente não podia arrematar para si o vantajoso contrato.

Na companhia de seu sócio Francisco Ferreira da Silva, o sargento-mor João Fernandes de


Oliveira assinou o contrato de extração de diamantes em todo o Serro. Um contrato de risco, mas
com boas chances de lucros altíssimos. Recebeu o monopólio da extração de diamantes pelos
quatro anos seguintes, mas viveria sob severas regras que visavam a controlar a produção, o preço
e o caminho das pedras.

Além de poder usar apenas seiscentos escravos na mineração, o contratador tinha de iniciar os
trabalhos em lugar determinado, pelas margens do rio Jequitinhonha acima. Caso no período do
contrato se chegasse à barra do ribeirão do Inferno, ou do rio das Pedras, os trabalhos poderiam
seguir por esses cursos. Os nomes dos seiscentos escravos eram anotados num livro e por cada um
se pagava uma capitação anual (depois semestral); isso não impediu que o contratador usasse mais
de quatro mil escravos, declarando apenas os seiscentos que lhe eram permitidos — murmurava o
povo. Funcionários da Coroa e fiscais registravam queixas contra essa infração, mas não se
encontrou nenhum processo instaurado contra o sargento-mor referente a abuso no número de
escravos.
Todos os diamantes, entregues semanalmente no escritório da Casa do Contrato, eram
pesados e registrados diante do contratador, do intendente e do tesoureiro, e fechados num cofre
do qual apenas essas autoridades possuíam a chave. As pedras deviam ser enviadas anualmente
para a Casa da Moeda, em Lisboa. As que tivessem mais de vinte quilates pertenciam à Coroa; as
demais eram vendidas por procuradores do contratador, que lhe prestavam conta do lucro obtido.
A prestação de contas era anual e, por esse motivo, o contratador podia dispor de créditos em
Lisboa e no Rio de Janeiro para o financiamento dos trabalhos de extração.
Em menos de quatro anos o sargento-mor tornou-se um dos homens mais prósperos do país.
Com sua riqueza, que lhe conferia ainda mais poderes, soube se safar do sistema de denúncias e de
todas as penas que recaíam sobre as irregularidades. E as penalidades eram severas, tentadoras
para rivais do contratador. Se alguém denunciasse um ou mais negros excedentes nas lavras do
monopólio, ficava com esses negros sob sua propriedade. Se um feitor do contrato fosse o
responsável pela infração, sofria pena de degredo, entre outras; se fosse o caixa (tesoureiro), ou o
administrador do contrato, este era obrigado a pagar a capitação em dobro por cada escravo, que
era confiscado, ficando metade da escravaria para a Fazenda Real e metade para o denunciante, se
houvesse.
O contratador tinha direitos e prerrogativas com grande força de opressão social. Podia, por
exemplo, cobrar dos devedores a quem dera crédito, mandando penhorar seus bens ou fazendo
com que os metessem na cadeia de Vila do Príncipe. Podia ceder locais para que terceiros
minerassem, mediante fiança; mas o sargento-mor não usou dessa prerrogativa, preferindo
manter o controle exclusivo sobre as lavras.
A fim de garantir seu monopólio na extração de diamantes, o contratador contava com uma
legislação que criava oportunidades e pretextos para que poucos permanecessem na demarcação.
As leis determinavam que quem não tivesse emprego ou ofício era despejado e quem abrigasse
em sua casa, roça, sítio ou fazenda ou ajudasse, de qualquer outra maneira, pessoa sem emprego
ou ofício, incorria em penas. Qualquer pessoa encontrada a minerar era tida como traficante e
sofria as respectivas punições; bastava a suspeita de alguém minerando ou comerciando para que
fosse penalizado. Quem adentrasse a demarcação devia se apresentar ao intendente para dar
conta do ofício, negócio ou pendência que o levava ali, relacionando todo o seu cabedal. E quem
fosse flagrado sem licença era tomado por traficante. Todos os diamantes encontrados deviam ser
entregues ao intendente, que os repassava ao contratador.
Processos contra moradores, inclusive do Milho Verde, ou simples requerimentos do
administrador levavam ao extermínio. Em represália a um letrado — provavelmente o advogado
Antônio de Macedo, tido como malévolo e perturbador da paz —, foram exterminados da
demarcação todos os advogados e quem lá exercesse a advocacia era passível de penas rigorosas.
Por ordem de el-rei, num alvará publicado em 1741, negros achados nos quilombos levavam na
espádua uma marca de fogo com a letra F; se fossem encontrados já com a marca, cortavam-lhes
as orelhas, sem processo algum, por um simples mandado do juiz de fora.84 Proibiram às negras
ou mulatas, forras ou cativas, andarem com tabuleiros pelas ruas ou lavras, obrigando-as a vender
seus gêneros no pequeno mercado das quitandeiras no Tijuco, sob pena de duzentos açoites e
quinze dias de prisão. Se algum soldado se deixasse corromper era degredado por dez anos em
Angola. Qualquer homem de posto na hierarquia militar contra quem se provasse ter cometido
fraude, ou que houvesse dissimulado algum delito, por interesse, ou consentisse na venda de
diamantes, tanto por homens relacionados ao contrato como por parte de traficantes, era privado
de seu posto e obrigado a servir por dez anos como soldado na Nova Colônia, ou recebia algum
castigo maior, dependendo do crime.

Os protestos dos moradores do Serro do Frio quanto a injustiças ou excesso de severidade


eram desdenhosamente ignorados por autoridades. Mesmo a Câmara Municipal de Vila do
Príncipe não tinha voz, como ocorreu certa vez, quando se aventurou a protestar contra a revista
rigorosa que sofriam os lojistas e comerciantes em suas propriedades e mesmo pessoalmente, por
ordem do contratador. O intendente Pardinho declarou que tanto ele como o contratador, assim
como o comandante dos dragões, estavam investidos de tais poderes e o fariam sempre que assim
o entendessem. Se os moradores da vila não se resignassem a tal tratamento, que se mudassem.
Estavam todos marcados com a mesma tinta, acrescentou o intendente, fosse branca ou preta a
cor de sua pele, porque brancos agiam como receptadores de diamantes roubados por pretos.
Rígido, afirmou que os moradores “bem poderão refletir, que, sem uma grande e particular razão,
não manteria Sua Majestade quatro anos, com tanta despesa de sua fazenda, proibição dos
diamantes, e antes ele quererá ver o distrito diamantino despovoado de seus moradores, do que
tornarem estes às suas passadas traficâncias de diamantes...”.85
Os comboieiros obtinham facilmente a licença para entrar, sair ou viver na demarcação, pois
eram importantes para o suprimento de escravos. No entanto, flagraram no registro um
comboieiro levando um contrabando de duzentas e seis oitavas de diamantes. Ele negociava
cativos em troca de diamantes ou, com o produto de suas vendas, adquiria essas pedras, que
levava pela estrada, algumas vezes escondidas em saquinhos atados nos rabos de bois mansos.
Preso, o comboieiro denunciou todos os que com ele comerciavam. Abriu-se uma devassa
específica para esse fato, processos foram instaurados, resultando em mais condenações, confiscos,
perseguições e extermínio dos envolvidos. Os comboieiros passaram a ser o novo alvo do
controle, sempre sob suspeitas, e seu trabalho ficou ainda mais difícil de ser realizado.
Em 20 de outubro de 1745 foi proibida a entrada de comboieiros e todos os que moravam na
demarcação se viram despejados. Podiam residir apenas em Vila do Príncipe, mas nunca entrar na
região demarcada, por motivo nenhum, nem mesmo para cobrar dívidas, o que devia ser feito por
procuradores registrados.

Cansado das perseguições, proibido de comerciar livremente, temendo ser despejado de sua casa,
Domingos da Costa decide partir. Ele vende a casa, arruma o que pode no lombo das mulas e vai
embora, levando a família e os escravos.
A pequena Xica logo se interessa pela estrada. Viajam por uma trilha tão estreita que os animais
andam em fila, tangidos por um tocador negro. Passam pelo Vau, onde uma ponte de madeira leva à
outra margem do pequeno rio. Sobem as montanhas pedregosas, até um vale repleto de árvores, mas de
aspecto ainda árido, chegando a Borbas, onde passam a noite.
Acordados por gritos das seriemas, seguem viagem; percorrem uma grande extensão por um trilho
pedregoso, vencem a elevada serra de Itambé, de trato desolado, com uns poucos arbustos e matos de
candeias. Depois do cume do Serro do Frio, uma região descampada e relvosa, descortinam-se numerosas
subidas e descidas cheias de grandes pedras, que os viajantes vencem com dificuldade. Cruzam com uma
junta de bois a arrastar troncos de madeira, e com catadores de lenha, a qual enfeixam em grandes
fardos sobre mulas. Por toda parte escravos cortam arbustos que crescem nas ravinas, para fazer lenha.
Penosamente, uma tropa de mulas leva um armário apoiado nas cangalhas, bem amarrado. A cada
nova légua o movimento da estrada é maior, os viajantes têm de dar lugar à passagem dos tropeiros com
mulas carregadas, levando também seus feixes de lenha ou baús carregados de mercadorias.
Ao anoitecer, é com alívio que avistam o Tijuco.
3
Escrava em flor no Tijuco
A verdura dos jardins

Arraial do Tijuco

LOGO APÓS A DESCOBERTA DE OURO nos rios Piruruca e Grande, o Tijuco não passava de
um pequeno ajuntamento com poucas palhoças. “Parece que os mais antigos habitantes, foram
aventureiros paulistas que, tendo encontrado muito ouro nessa região, aí se fixaram até ao
começo do século passado [século 18]. Um dos primeiros sítios onde eles fizeram descobertas foi
num pequeno regato que corre sobre o monte onde hoje se acha a aldeia. As margens desse regato
eram pantanosas e foi isso que fez dar ao lugar o nome de Tijuco, que significa barro, na língua dos
índios.”86
As primeiras habitações, nascidas num lugar agreste e distante, não passavam de apressados
abrigos provisórios, uma vez que os pioneiros estavam ali apenas para recolher as riquezas e com
elas partir. Organizados em bandos, não em famílias, mudando continuamente de lugar em busca
de melhores locais de lavras, erguiam moradias coletivas para o breve repouso permitido pelo
trabalho. Consistiam esses abrigos em um teto de palha amarrado com cipós, às vezes
aproveitando um barranco como parede. No interior ficavam uma trempe sobre um braseiro, os
jiraus, couros, ou esteiras para o descanso. Lá guardavam arreios, mantas de montaria, que
serviam de capas nas noites de frio, selas usadas também como bancos, e ferramentas de trabalho.
Mas, aos poucos, os mineradores foram se enraizando, erguendo tapumes em seus ranchos e
instalando fogões de lenha; construíram uma capela consagrada a santo Antônio, ergueram casas
com paredes de pau a pique e divisões internas, cobertas de telhas — a primeira olaria mineira
surgiu na vila do Carmo, em 1713 —, cada vez mais próximas umas das outras. Assim, formou-se
a primeira rua, a do Burgalhau, e uma praça. Novos arruamentos foram surgindo ao redor da
capela. Em volta da praça ergueram-se casarios de barro, madeira e pedras, também cobertos por
telhas. Lá habitavam mineradores, lavradores e escravos, alguns mercadores, padres, gente da
Coroa. Ciganos, salteadores, índios, quilombolas e animais ferozes vagavam nas cercanias do
arraial.
Com a descoberta dos diamantes, surgiram construções mais sólidas e imponentes, como
belas igrejas, os casarões da administração e sobrados residenciais ornados por balcões mouriscos,
alguns protegidos por treliças de madeira, os muxarabiês, diante de agradáveis jardins e pomares.
Essas construções acolhiam funcionários reais, militares, comerciantes prósperos, famílias
portuguesas ou brasileiras e um surpreendente número de mulheres forras, fossem negras ou
pardas, quase sempre amasiadas com algum homem de posses.
No tempo em que a menina Francisca parda chegou ao Tijuco, o arraial era composto por
cerca de quinhentas casas e seus habitantes livres não chegavam a mil pessoas. Eram, como nos
outros arraiais, funcionários da Coroa, mercadores ambulantes, donos de lojas de comércio e uma
boa quantidade de artífices, como pedreiros, carpinteiros, ferreiros, sapateiros, alfaiates, ourives,
entalhadores, músicos e tantos mais; além de vadios, prostitutas, ladrões, contrabandistas, toda
uma ralé que vivia de investidas e malogros. Havia uma ou outra família branca, em geral
paulista; brancos, negros e mestiços provenientes do Rio, da Bahia e de outras capitanias; cristãos-
novos e judeus chegados de outros países, como a Holanda. Mas a parte principal da população
masculina constituía-se dos emigrados de Portugal, especialmente do Minho, quase sempre jovens
e solteiros que, unindo-se a negras, formavam uma descendência mestiça.
Os ricos fruíam da fartura de alimentos e mercadorias em geral. Havia comércio exuberante;
nas lojas vendiam-se produtos luxuosos, transportados por tropas de mulas a partir do Rio ou da
Bahia, muitos importados de países europeus ou da Índia. Num ambiente intelectual
extremamente arrojado para um lugar tão distante, alguns moradores tinham bibliotecas e
falavam o francês, língua elegante da época, e o latim. Enviavam seus filhos para estudos
superiores em Coimbra e as filhas para recolhimentos locais ou conventos portugueses. Em
lugares diversos eram apresentados concertos, com peças escritas e executadas por músicos da
região, principalmente nas festas religiosas. Todos possuíam plantéis de cativos, proporcionais à
sua riqueza.
O arraial tinha um pelourinho, onde amarravam e supliciavam contraventores e criminosos
até serem mandados para a enxovia na Vila do Príncipe. Com o primeiro contrato o Tijuco
passaria a contar com um hospital para escravos mineradores.87 Embora ainda não houvesse
chafariz público, água não faltava. As escravas buscavam-na, pura e fresca, no córrego Tijuco —
água excelente, jorrada por fontes que nasciam na montanha. A do rio das Pedras, de menos
limpidez, servia para a lavagem de roupa e a rega de jardins.

Ocupa todo o flanco da serra um aglomerado de casas. Caiadas de branco, são entremeadas de
construções que se elevam umas mais altas que as outras nas íngremes encostas, forradas e rematadas por
numerosas plantações. Espécimes do grotesco pinheiro-do-paraná se alçam contra o perfil das casas e
avista-se o dossel dos pomares. As casas de arrabalde são cercadas de arvoredos e roças, tudo isso fazendo
um enorme contraste com a região rochosa, sáfara, que rodeia o Tijuco. Luzes vão se acendendo aos
poucos, tremulantes, encantando a menina que jamais saíra do pequeno Milho Verde.
Ao passar pelos arrabaldes, Xica se admira com as casas amplas como nunca viu, rodeadas de jardins
e pomares de frutíferas: laranjeiras, bananeiras, abundantes e compactas jabuticabeiras ou pitangueiras
coalhadas de frutas maduras. Alguns homens encapotados passam a pé, segurando tochas de canela-de-
ema, assoviando. Outros vêm a cavalo, sozinhos ou em pares, conversando; tocam a aba do chapéu em
cumprimento aos viajantes. Um bando de ciganos acampado perto da estrada canta em torno de uma
fogueira. Diante do fogo dança uma mulher sensual, girando as saias.
Finalmente, atravessam o arraial de baixo e adentram uma rua calçada que dá no largo de uma
igreja, tudo ladeado de casas unidas, caiadas de branco, cobertas de telhas. Avista-se atrás dos balcões e
das treliças a sombra de uma ou outra pessoa a se mover no interior iluminado. Diante de algumas
gelosias arrumaram tigelas de barro com pavios acesos, cujas luzinhas trêmulas mal iluminam a rua,
mas tornam o caminho gracioso. A igreja é elevada como a montanha que se delineia por trás, aos olhos
de Xica, espantada com a alta porta e a torre que parece chegar às estrelas, em cujo campanário cintila
um sino dourado.
Adiante, um grande edifício está sendo construído e vê-se o esqueleto de madeiras cercado de montes
de material empilhado. Os viajantes passam por casas imponentes, ornadas por muitas janelas pintadas,
protegidas por balcões e sacadas. Xica se assombra com tantos lampiões iluminando as frontes,
dependurados em esguias varas. Algumas casas são guardadas por soldados que usam vistosos uniformes e
ostentam armas à cintura. Aqui e ali surgem um escravo sem uma das pernas — perdida nos serviços de
mineração — e alguns com uma das orelhas cortada por castigo. Passa uma mulher negra carregada
numa cadeira por escravos, vestida com tanto luxo que a menina Xica mal pode acreditar no que vê.
O sino se move lançando sons belos e tão possantes que parecem se alongar até o fim da paisagem,
dando a sensação de que o mundo para por alguns instantes. Portas das casas se abrem, uma a uma, e
delas saem bandos de pessoas que caminham para a igreja. Mulheres cobertas de capotes de pano ou
embuçadas de mantas passam pelo chafariz no centro do povoado, onde escravas recolhem água ou
conversam. Num largo, em uma pequena campina sob uma gameleira, homens espairecem numa
inocente e folgada palestra.
Diante de um oratório numa esquina, repleto de candeias acesas, negros se ajoelham implorando a
proteção do santo. Ouvem-se suas palavras rezadas, melancólicas:
— Virgem Maria Mãe da Piedade,
Piedade e misericórdia,
Pelo vosso filho que trazeis morto em vossos braços...

Os viajantes entram numa rua de quitandas umas ao lado das outras. As lojas estão fechadas e há
um movimento de gente andando nas duas direções, assim como liteiras, serpentinas, redes carregadas
por escravos. Até que chegam a uma loja. Domingos bate palmas diante da porta cerrada. Depois de
algum tempo surge um homem negro trajado como branco e rico, de casaco azul, calça justa, sapatos de
fivelas. Traz um candeeiro na mão, cumprimenta discretamente os recém-chegados e comenta que é
bom não terem aparecido mais cedo, à luz do dia, para não chamar a atenção. Faz com que entrem,
oferece aos senhores um quarto no interior da casa e manda os escravos se acomodarem numa senzala
aos fundos, ladeando um depósito e uma cocheira.

Pela manhã, Xica sai a andar no pomar, colhendo frutas. Está faminta, mas distrai-se sentindo o
frescor do bosque, a maciez da areia sob seus pés, quando a chamam para trabalhar. A menina entra na
casa pelos fundos, dando numa cozinha ampla e enfumaçada, o chão feito de tijolos assentados com
traço por igual. No canto fica um imenso fogão de barro; ao lado, um armário de tabuado liso, repleto
de panelas e louças. Xica jamais viu um desses, os fogões no Milho Verde não passavam de um simples
braseiro no chão ou, em casas melhores, de coifas sobre uma mesa em alvenaria, sustidas por vigas de
madeira ou pedra. Sobre uma comprida mesa de refeições pousam comidas de diversos tipos que lançam
no ar seus odores misturados.
Curiosa, depois de beliscar às escondidas algumas guloseimas, Xica entra por um corredor e vai dar
no interior da loja. Espanta-se com a quantidade de objetos à venda: louças da Índia desenhadas com
cenas de caça ou florais, tecidos preciosos, fechaduras trabalhadas, ferros de Biscaia, pelicas, vidros,
lampiões, caixinhas de rapé e até sacos de farinha.
Num escritório o mercador mostra a Domingos seus diamantes, escondidos no secreto de um móvel.
O dono daquela casa, também negro forro, foi comboieiro. Conta a Domingos como mudou de vida,
tornando-se próspero comerciante: certa noite subia a serra, voltando do Rio de Janeiro com uma
partida de escravos para vender nas minas, quando, tendo-se recolhido num rancho, viu chegar um
homem encapuzado, ofegante, como se estivesse fugindo. Apesar de perceber que era um garimpeiro,
deu-lhe abrigo entre seus escravos. Tarde da noite o homem o chamou a um recanto da mata, tirou do
chapéu um saquinho de couro e, de lá, um imenso diamante. Pesava cerca de dois vigésimos de onça.
O garimpeiro pediu seiscentos mil-réis pela pedra. Testando o diamante, o comboieiro olhou-o
contra a chama do fogo — sabia que esse mineral alterava levemente a luz que passava por seu corpo.
Friccionou a pedra para sentir se emitia suaves vibrações, um teste de muita dificuldade e resultado
duvidoso. O exame favorito era o de usar a pedra para cortar um vidro, mas o comboieiro não dispunha
de nada que fosse desse material. Tampouco tinha consigo sua safira, que podia ser arranhada
unicamente por um diamante e que alguns ingleses costumavam usar como prova. Como trazia
escondido um pequeno diamante, o comboieiro pôde realizar ainda outro teste, que era friccionar as
duas pedras, ouvindo com atenção a sonoridade produzida, mas isso exigia um conhecimento derivado
de muita prática. Porém, ele tinha na mão, ao tomar o diamante, a sensação de frio que apenas aquela
pedra causava. Ofereceu ao homem uma parcela do ouro em pó que possuía, bem escondido numa acha
de lenha oca.
O garimpeiro partiu antes de clarear o dia e o forro resolveu voltar ao Rio de Janeiro com o
diamante. Com grande cautela, temendo ser degredado e perder todos os seus bens, negociou a pedra com
um inglês que as comprava no escuro das noites, perto do mercado do Valongo. Recebeu vinte contos de
réis e, admirado por nunca ter visto tanto dinheiro, perguntou se aquilo tudo lhe pertencia. Depois ficou
sabendo que o diamante foi revendido pelo dobro do preço, e na revenda seguinte, por mais o dobro.
Chegou a ter o juízo afetado pelo pesar com tão grande perda, mas acabou recuperando-se. Com os
vinte contos comprou aquela casa no arraial e abriu a loja de artigos importados, secos e molhados, e
progride, desde então; é mais comum prosperar ali um comerciante do que um minerador, pois este
costuma dissipar toda a sua fazenda em mercadorias de luxo.

Xica trabalha o dia todo, cuidando de crianças, arejando as roupas de dona Ana da Costa ou
areando louças na bacia. Suada, banha-se na pequena fonte que jorra ao fundo do pomar, come
jabuticabas, uma cuia de angu e se veste com o maior capricho para ir à missa.
Assombrada, vê como as senhoras se ornam com luxo e chegam seguidas de aias ainda mais
adornadas, negras ou pardas, faceiras, asseadas, usando formosas saias de cetim, becas de fino linho,
camisas de cassa rebordada, ouro nas fivelas, pulseiras, colares, nos brincos e memórias de dedos.
Como no Milho Verde, a igreja está repleta de fiéis e os escravos ficam do lado de fora, ouvindo os
cantos e o sermão do padre. Xica penetra por entre a multidão. É maravilhoso o altar de talha
dourada, a quantidade de pratas que cintilam. Tudo atordoa a menina: as imagens dos santos no altar-
mor e nos laterais, a riqueza das alfaias, os paramentos bordados em ouro, os lampadários, tocheiros, o
cálice, o ostensório de prata lavrada, as lâmpadas moçárabes, os retábulos.
E vem a festa com luminárias, que dura já três dias. As janelas, adufas e postigos se abrem, armados
de colchas da Índia. Alecrim e mirto juncam as ruas. Toucadas e pingadas de joias, moças espreitam das
janelas, a acenar seus leques. Ouvem-se cascalhas de risos. Uma orquestra executa melodias animadas,
ressoam bombardas, clarinetes, serpentes e violas. Soldados dão salvas em frente a uma casa, quando sai
uma cópia de pessoas em procissão. Diante de algumas residências, homens declamam palavras honrosas,
enquanto moças, das sacadas, atiram flores perfumadas com água de cheiro. Aqui e ali se ouvem canções
entoadas por coros ou em solos.

No período em que esteve no Brasil, Auguste de Saint-Hilaire coligiu dados importantes acerca
dos habitantes e seus costumes, da geografia e da história dos locais que visitou. Chegou ao Tijuco
em setembro de 1817, quando ainda era “humilde sucursal dependente de Vila do Príncipe”, e
escreveu valiosos relatos sobre o arraial.

Tijuco é construída sobre a encosta de uma colina cujo cume foi profundamente cavado pelos
mineradores. Ao pé dessa colina corre, em um vale demasiadamente estreito, um regato que
tem o nome de Rio S. Francisco. Do outro lado do vale outeiros extremamente áridos fazem
face à aldeia, e apresentam por todos os lados rochedos de um pardo escuro, no meio dos quais
cresce um relvado cuja cor difere pouco (quando de minha viagem) da dos próprios rochedos.
A verdura dos jardins da aldeia contrasta, como mostrarei, com esses tons sombrios; [...]
avista-se uma palmeira, que, plantada num desses jardins, domina todas as casas e forma
acima delas uma elegante coroa.88

Descreveu as ruas do arraial como bem largas e limpas, porém mal calçadas; sempre em
rampa, ladeadas por casas de barro e madeira ou de adobe, cobertas de telhas, as fachadas
brancas. Os alizares das portas e janelas, no entanto, costumavam ser pintados com cores variadas
e em algumas casas havia vidraça nas janelas. Saint-Hilaire entrou numa das principais casas do
Tijuco, numa de suas visitas de despedida, e observou que era extremamente limpa, com as
paredes internas bem caiadas, lambris e rodapés pintados com motivos imitando mármore. Os
móveis, em pequenas dimensões, não passavam de alguns tamboretes cobertos de couro cru,
cadeiras de espaldar, bancos e mesas.
As casas tinham quase todas um quintal, bem cuidado, mas sem simetria nos arranjos de
plantios, com pomares de laranjeiras, bananeiras, pessegueiros, jabuticabeiras, figueiras,
marmeleiros e mesmo alguns pinheiros. Cultivavam-se em hortas diversas verduras, como couve,
alface, chicória, ervas medicinais e também flores, dentre as quais o cravo era o mais comum. Em
algumas casas se plantavam espécies de gramíneas vivazes, para alimento dos burros e cavalos. E
o naturalista dá sua impressão: “[...] resultam perspectivas muito agradáveis dessa mistura de
casas e jardins dispostos irregularmente sobre um plano inclinado.” A paisagem avistada de
muitas das varandas e janelas, composta de telhados das casas abaixo, o fundo da várzea e as
montanhas, produzia um efeito cromático encantador: “[...] o contraste da verdura tão fresca dos
jardins com a cor dos telhados das casas e mais ainda com as tintas pardacentas e austeras do vale
e das montanhas circundantes.”
Havia no Tijuco sete igrejas e duas capelas, compostas com apuro, contando com belos
ornatos e pratarias, e muito limpas. Acima da porta das igrejas ficava uma tribuna para os músicos
que acompanhavam as missas solenes. Algumas possuíam um órgão construído por mestres
locais, e a maioria dispunha de um capelão mantido pela irmandade a que a igreja pertencia. Aos
negros da costa da África cabia a igreja de Nossa Senhora do Rosário; os crioulos e os mulatos
também tinham sua ermida particular, não menos bela, apresentando santos negros nos altares
laterais. Lá celebravam festas da padroeira com solenidade e a presença dos numerosos confrades,
que se esforçavam para economizar uma quantia anual destinada a manter o templo religioso.
“Os bens da igreja do Rosário são administrados por brancos”, comenta Saint-Hilaire, “e eles têm
o cuidado de reaver em grosso o que os negros lhes roubaram a varejo, dizia um homem de
espírito.”
As lojas do arraial ofereciam variada mercadoria: panos, chapéus, comestíveis, quinquilharia,
louças, vidros e uma boa quantidade de artigos de luxo, quase sempre de fabricação inglesa.
Oriundos dos portos da Bahia e do Rio de Janeiro, eram vendidos a preços módicos, tendo em
vista a distância e as dificuldades no transporte. Os víveres vinham também de fora, mas não de
tão longe, transportados por incessantes caravanas de burros, e custavam mais do que em outras
partes da capitania. Resumiam-se a farinha de mandioca, milho, toucinho, banha, arroz, frango,
feijão, a valiosa lenha e a forragem para os animais, ainda mais cara, numa região em que a
pastagem era excessivamente magra.
Naquele arraial o viajante conheceu pessoas de costumes delicados, bem trajadas, cheias de
demonstrações de afabilidade e hospitaleiras. Nas primeiras classes da sociedade local, tais
qualidades eram acrescidas de “uma polidez sem afetação” e sociabilidade. Foi onde Saint-Hilaire
observou mais gente culta do que em todo o resto do Brasil, com “mais gosto pela literatura e um
desejo mais vivo de se instruir. Vários moços, cheios de nobre entusiasmo, aprenderam o francês,
sem terem mestres; conhecem nossos melhores autores e alguns mesmo, praticando muito entre
si, chegaram a falar nossa língua de modo inteligível com o auxílio único de uma gramática muito
mal escrita”. Havia bibliotecas compostas de mais de trezentos volumes — muitos em latim ou
em francês —, número bastante expressivo para a época, contando com livros de autores como
Cervantes, Rousseau, Fénelon, ou Montesquieu, estes três últimos, proibidos em Portugal. Muitos
desses livros eram importados por revendedores, como o capitão Manuel Ribeiro dos Santos,
também caixa e administrador dos Contratos dos Dízimos na capitania mineira, que os
encomendavam a um correspondente em Lisboa, a pedido de habitantes do arraial. Os jovens que
iam estudar em Coimbra retornavam trazendo seus baús de livros, aumentando ainda mais o
acervo do arraial.
Entre os moradores do Tijuco havia homens notáveis na arte da caligrafia e outros não menos
hábeis na arte musical. Pouco antes de partir o viajante francês pediu licença à esposa do
intendente, dona Matilde da Câmara, para lhe ofertar um caderno de músicas. “Logo após o
intendente ofereceu-me um concerto em que figuravam lindas variantes sobre uma ária do
caderno.”
Dentre as poucas ressalvas que registra, Saint-Hilaire lamenta que “os habitantes de Tijuco
não fogem a esse caráter de imprevidência que infelizmente tanto distingue os brasileiros; eles
gastam à medida que recebem e frequentemente os empregados da administração diamantina
morrem endividados, apesar de seus ordenados serem consideráveis”.
O filho varão

Estudos do primogênito, 1740

JOÃO FERNANDES, O FILHO, cresceu vigoroso, solto nas relvas e montanhas, cercado de
negras que dele cuidavam com apuro. Na fazenda da Vargem recebeu educação religiosa e
provavelmente aprendeu as primeiras letras com padres mestres ou com a própria mãe, que sabia
ler e escrever. Cedo na vida percebeu como lidar com as mulheres, pois em seu cotidiano havia as
cinco irmãs e nenhum irmão, e todas aquelas escravas camareiras. Adquiriu decerto os primeiros
conhecimentos sobre a empresa da extração do diamante em contato com os problemas que seu
pai enfrentava. Visitando as lavras, ouvindo conversas de homens de negócios, mineradores e de
escravos, o menino ia guardando memórias sobre a rotina do sistema de contrato. Essa
familiaridade com o serviço de extração de diamantes, desde a infância, preparava-o para ser o
mais bem-sucedido de todos os contratadores e o homem mais rico de todo o Reino e das colônias.
Mas seu pai tinha outros planos. Maquinava para o filho uma ascensão social no Reino, bem
acima da sua própria — limitada ao título de sargento-mor, apesar de toda a riqueza que
amealhara. O caminho era uma primorosa educação na universidade, seguida de uma carreira
eclesiástica ou de um alto cargo na Coroa que trouxesse prestígio à família e proporcionasse
relações sociais proveitosas.

Por volta dos treze anos de idade, em 1740, o jovem foi mandado para Portugal, onde iria
receber a educação planejada pelo pai — ou pelos pais. Desceu a serra pelo Caminho Novo,
chegando por mar ao Rio de Janeiro. A visão da imensa cidade, com quase trinta mil habitantes,
casas espalhadas pelos morros, montanhas de pedra surgindo de matas exuberantes, era um
espetáculo para quem atravessava de barco a baía de Guanabara. O jovem foi recebido na casa da
avó materna no largo do Rosário, centro do Rio. Lá permaneceu pouco tempo, aguardando a
partida da nau, travando amizades e conhecendo a urbe com suas novidades e esplendores.
Aprontadas as embarcações, João Fernandes seguiu para Lisboa numa viagem ainda mais
árdua e perigosa do que a descida da serra, que duraria cerca de três meses, com uma escala nos
portos da Bahia e de Recife, saindo então para alto-mar. Era uma travessia fascinante, apesar de
perigosa e desagradável em muitos aspectos. Carregadas de ouro, as naus seguiam em frotas de às
vezes mais de quarenta velas, escoltadas por galeões de guerra, navegando bem próximas, numa
visão majestosa. Enfrentavam vagas altas, tempestades ou terríveis calmarias. A comida era
racionada e pobre, mesmo para os viajantes de classe alta; no apertado camarote se respirava a
fumaça enjoativa dos candeeiros; o sal penetrava até os ossos, deixava as roupas, a pele e o cabelo
pegajosos. A possibilidade de um ataque de piratas ou corsários mantinha a tripulação e os
passageiros sempre tensos.
A entrada nas águas do Tejo era motivo de festas e missas realizadas no convés, em
agradecimento a Deus pela chegada.

Enfim o rapaz encontrava-se em Lisboa, diante de palácios, igrejas, residências monumentais,


mosteiros, fábricas, rocios, atentando ao grande movimento de povo e transportes nas ruas, ao
comércio, às oficinas. Era uma cidade cosmopolita, ponto de comércio entre nações as mais
poderosas, ricas, ou exóticas, com o porto repleto de embarcações de diversas partes do mundo e
homens falando outras línguas.
Após descansar uns dias em casa de um amigo de seu pai, encarregado de cuidar das despesas
e das necessidades do jovem, João Fernandes foi mandado para o seminário jesuítico de São
Patrício, que tinha o prestígio das melhores instituições educacionais.
Conversas elevadas

A nova casa de Xica

DOMINGOS RESOLVE VENDER A MENINA Francisca parda. Precisa de dinheiro para se


estabelecer no Tijuco. Procura um homem conhecido no arraial como rico e piedoso, José da Silva de
Oliveira, casado com dona Ana Joaquina da Roza, e lhe oferece a pequena escrava. Achando-a
mimosa, o senhor Oliveira a compra.
Xica passa a morar numa casa ampla e opulenta, frequentada por senhores e senhoras do arraial,
com suas vestes luxuosas e conversas elevadas, que abrem livros e falam palavras que a menina não
compreende. Vive pela primeira vez entre brancos. Ganha roupas boas, enfeites e um ou outro pequeno
adorno de ouro.

O comboieiro permanece no Tijuco por mais três anos. Maria mina vai-se embora para o arraial de
Conceição do Mato Dentro. Um dia, aparece trazendo a soma para a sua alforria e um filho recém-
nascido, Anastácio. Vai batizá-lo e oferece a Domingos da Costa também o valor de alforria da criança.
Domingos comparece ao batismo e, recebendo a quantia determinada, concede liberdade ao menino.
Maria vive em Conceição, amasiada com um ferreiro. Alforriada, chama-se agora não mais Maria
mina, mas Maria da Costa.
Em 1743 Domingos batiza a filha Catarina. Em 1745, proibido de comboiar, sem conhecer outra
atividade, ele, a mulher e os filhos partem do Tijuco.

*
Segundo o naturalista George Gardner, o arraial de Nossa Senhora da Conceição do Mato
Dentro era um dos lugares “de mais miserando aspecto” por ele visto nas Minas. Situado num
recôncavo, às margens de um riacho, cercado por altas e relvosas montanhas, quando da
passagem do estudioso em 1840 o arraial possuía duas ruas paralelas e longas, ladeadas por casas
modestas, muitas das quais em ruínas. As que se achavam habitadas não eram sequer caiadas,
mas rebocadas de um barro vermelho. Com exceção de pequenas hortas junto a algumas das
casas, não havia sinal de plantações em torno do povoado.
A região tinha uma aparência desértica, porém o capim-gordura que cobria as montanhas lhe
dava um ar mais suave. O topo das montanhas envolvia os viajantes em denso e frio nevoeiro que
não raro se estendia encosta abaixo. Nos estreitos caminhos circulavam tropas de às vezes mais de
cem mulas, rumando ao Tijuco. Como era lugar de passagem e pouso de caravanas, dispunha de
ferrarias para a venda e o conserto de ferraduras dos animais.
Distante menos de duas léguas (pouco mais de sete quilômetros) de Conceição morava um
ferreiro, num sítio cercado por montanhas cobertas de mata virgem, às margens de um riacho
cujas águas se precipitavam num estreito canal de pedra. Nascido na Alemanha, o ferreiro vivia
no Brasil havia dezoito anos, sete dos quais naquela bucólica localidade que se chamava Girau.
Sua pequena forja produzia apenas cem libras de ferro por dia, mas ele almejava construir outra
igual, a fim de dobrar seu fabrico.

Os foles para a fornalha e a chama da forja, bem como o grande malho que bate o ferro para
fazer em barras, tudo é movido a água. Havia diversos homens a seu serviço, fabricando toda
espécie de implementos de ferro usados no país, mas principalmente ferraduras para mulas, de
rápida venda aos tropeiros que passam diariamente. Manufatura ele também pequena
quantidade de aço, que me confessou ser de qualidade inferior. Há abundância de mineral de
ferro nos arredores e muito mato com que fazer carvão de lenha para reduzir o minério. A
Província de Minas Gerais é talvez mais rica que qualquer outra parte do mundo em ferro, e
se pode realmente, como observa St. Hilaire, considerar inexaurível. Na Europa o minério de
ferro encontra-se geralmente a grande profundidade, mas em Minas está frequentemente perto
da superfície.89

Joaquim Felício dos Santos afirma que Xica foi escrava de José da Silva de Oliveira Rolim.
Alguns historiadores contestam essa informação por não existir nenhum documento encontrado,
até hoje, que a comprove. Acreditam que Joaquim Felício teria sido levado a relacionar a escrava
a Oliveira pela coincidência dos sobrenomes. O sargento-mor José da Silva de Oliveira Rolim,
primeiro caixa administrador da Junta Administrativa da Intendência dos Diamantes, era pai do
padre Rolim (1747–1835), que se tornaria um dos heróis na Conjuração Mineira de 1789. A
afirmação de Joaquim Felício dos Santos pode ser digna de crédito.
Nascido em Vila do Príncipe no ano de 1828, quando ainda estavam vivas algumas das pessoas
que conheceram Xica da Silva, Joaquim Felício era filho do administrador da Casa da Fundição do
Ouro nessa vila. Seu avô paterno, guarda-mor das Minas do Serro, manteve ligações com vários
clãs de senhores dessas terras. A família possuía atividades e propriedade no Tijuco, onde nasceu
um irmão mais velho de Joaquim. Ele mesmo foi advogado de uma neta de Xica da Silva,
Frutuosa Batista de Oliveira, em processo de divórcio, e atuou em outras questões jurídicas da
família. Com toda essa convivência, e a sua seriedade no trabalho memorialístico, Joaquim Felício
reproduzia um dado da tradição oral, ao afirmar que Xica fora escrava de Oliveira Rolim,
provavelmente conferido junto à neta da ex-escrava. O sobrenome adotado por Francisca — da
Silva de Oliveira — não parece ser mera coincidência, uma vez que as escravas costumavam
adotar o sobrenome do senhor que as alforriava ou lhes fazia algum benefício.
Coche de pratas e alfaias

O acidente real, o seminário, 1742

NA TARDE DE 10 DE MAIO DE 1742, durante um despacho com o cardeal Mota, o rei dom João V
é fulminado por um mal repentino. Levam-no nos braços para o quarto, tiram sua cabeleira, despem-
no e o estendem sobre a cama. Correm os archeiros, vem a rainha, afobada, médicos, cirurgiões,
boticários invadem o quarto real. Todo o lado esquerdo do corpo do soberano está paralisado. Tentam
as sangrias em suas mãos, aplicam sarjas, põem a seus pés tijolos em brasa, dão-lhe purgantes e pós. Os
corredores do Paço se enchem de padres, frades, bispos, fidalgos, nas ruas saem procissões. A rainha
suplica que a deixem ir à Madre de Deus para orar pelo soberano. Sinos dobram nos mosteiros e igrejas.
Reunidos, os médicos da junta discutem o mal que acometeu o monarca. As opiniões se dividem.
Uns atribuem o acidente ao mau hábito de dom João despachar depois de comer. Outros acusam
cirurgiões de terem causado a doença real ao secarem com unguento de ouro as úlceras que o rei tinha
nas pernas. Alguém diz que o motivo da doença é o excesso de doces na dieta real e as histórias
mentirosas que lhe contam. Um médico rabugento, o velho Bernardes, afirma que o que está matando o
rei é a senhora Petronilla.
A italiana Petronilla Trabò Brasili, célebre e medíocre cantora de ópera, chegou a Lisboa em 1725,
na companhia teatral das irmãs Paghetti. O rei se apaixonou ao vê-la representar travestida de homem o
personagem Aniceto, num drama musical. Passado dos cinquenta anos, o soberano guarda as marcas de
ao menos trinta de uma gloriosa vida sexual por conventos, camarotes, catres modestos de ciganas,
regateiras, moças do povo e mesmo de rapazes. O médico considera que o rei está fatigado pelos excessos e
pelo costume de tomar, antes dos encontros com a Petronilla, um remédio que lhe restituiria a
mocidade: a essência de âmbar. A solução alcalina de âmbar gris, considerada pelo autor da
Farmacopea tubalense um excelente fortificante do cérebro, coração e estômago, é fabricada
secretamente na França para uso de Sua Majestade.
Depois de um mês em tratamentos o rei move o braço lesado e, alguns dias depois, a perna. Os
oratorianos lhe levam a imagem de Nossa Senhora das Necessidades. Rezas, bênçãos, agradecimentos,
missas e júbilo comemoram a recuperação do monarca. Sentindo-se bem, ele pede para encontrar-se
com a Petronilla. Tentam dissuadi-lo; dom João V insiste. Prometem que a verá na volta da viagem de
tratamento, quando ele fará banhos milagrosos. Assim que dom João parte para as Caldas, o cardeal
manda o corregedor do Rocio com dois meirinhos à casa da italiana. Três dias depois, em coche real,
seguida de trinta bestas de carga carregadas de pratas e alfaias, Petronilla é levada de Lisboa no meio da
noite, com destino desconhecido.

No ano desse acidente vascular cerebral sofrido pelo rei dom João V, o jovem João Fernandes
de Oliveira estudava no seminário de São Patrício, em Lisboa. Localizado na Escadinha de São
Crispim, freguesia de São Cristóvão e São Lourenço, esse seminário jesuítico fora criado para
formar jovens irlandeses que sustentassem a difusão do catolicismo em seu país de origem. Nessa
primorosa escola o adolescente foi preparado com todo o rigor da disciplina, aprendendo a
respeitar a autoridade, sem jamais questioná-la, e a não se envolver em “novidades de opiniões”.
Cumpria os exercícios espirituais formulados por Loyola, praticava a meditação e a
contemplação. Lá recebeu educação não apenas religiosa, mas humanista. Estudou gramática,
ortografia, redação, oratória, retórica, filosofia moral, teologia, latim e grego. Requintou-se
intelectualmente, assimilando autores como Homero, Ovídio, Cícero, Horácio, Isócrates, são
Tomás de Aquino, penetrando em assuntos como a física, a metafísica, as leis da poesia e do
drama, a música, a lógica, o governo, a ética, a biologia ou a zoologia, contidos na obra de
Aristóteles. Além de culto, preparado para a grandeza, decerto era um jovem atraente, bem-
apessoado, talvez até formoso, com um corpo muscular adquirido na infância solta pelos campos,
correndo ou a cavalo, visitando áreas de mineração, treinando a arte da espada com escravos.
Já bastante impregnado pela formação religiosa que lhe deram os jesuítas, o rapaz de quinze
anos — em 1742 — decidiu entregar sua vida a Deus. Solicitou licença para a habilitação clerical e
seu ingresso nas ordens menores, mas por problemas de demora na papelada o jovem não
conseguiu tomar o hábito. No ano seguinte matriculou-se na Universidade de Coimbra para
cursar direito canônico, o que era comum aos candidatos a padre que desejavam aperfeiçoar seus
estudos e alcançar cargos mais elevados dentro da hierarquia da Igreja, como o de desembargador
eclesiástico.
Seu pai morava no arraial do Tijuco após subarrendar o contrato de cobrança de dízimos a um
amigo, Jorge Pinto, que passou a ser responsável pelo caixa e representante da empresa. Em 1743
o sargento-mor renovou o contrato de extração de diamantes, com vigência até 1748. Apesar das
vantagens no novo contrato, foi um período de dificuldades. Lavras se esgotavam, obrigando-o a
minerar em terras mais distantes, inacessíveis e com maior movimento de águas, o que elevava os
custos da extração. Era necessário um número bem maior do que os seiscentos escravos para se
chegar a uma produção lucrativa. O contratador estava endividado.
Em 1746 um novo acontecimento veio afligir ainda mais a família: após um ano de
padecimentos dona Maria de São José faleceu, sendo enterrada na matriz de Santo Antônio, no
Tijuco. Os filhos herdaram, como previam as leis portuguesas, dois terços da metade da fortuna
materna, a qual permaneceu presa num demorado inventário, ficando o sargento-mor ainda mais
complicado financeiramente. Mas estava livre para um novo casamento e a ocasião surgiu quando
era iminente a quebra do contrato e por esse motivo o sargento-mor procurou o amigo
governador, pedindo-lhe proteção. Gomes Freire apresentou como solução o casamento de João
Fernandes com a rica viúva de um capitão-mor, dona Isabel Pires Monteiro, que vivia no Rio. O
casamento entre o velho sargento-mor, provavelmente maltratado pelas condições de seu
trabalho em terras agrestes, um homem rude, sem instrução, de origem modesta, e a moça
refinada da cidade acabou por se realizar, sob um pacto que anexava os bens do casal, que
passaram a ser controlados pelo sargento-mor. Em troca, dona Isabel recebeu a garantia de que,
após a morte do esposo, se o casal não tivesse filhos ela receberia o valor equivalente às suas
fazendas, escravos, bois e cavalos. O patrimônio da segunda esposa não resolveu os problemas
financeiros de João Fernandes, que preferiu não continuar com o monopólio de extração de
diamantes, retirando-se da disputa pelo novo contrato. Vendeu ao novo contratador, Felisberto
Caldeira Brant, todas as ferramentas e maquinismos de mineração de que dispunha e, em 1750,
partiu para o Reino, levando a nova esposa e as cinco filhas, que tratou de internar em convento.
Apesar dos baques, ainda era um homem rico.
Palavras rudes e pancadas

A Vassoura, 1748

AS MULHERES COMPUNHAM A MAIORIA entre os alforriados nas Minas.90 Livres, algumas


conseguiam escapar à degradação social tornando-se comerciantes ou prestadoras de serviços,
chegando a acumular bens. Muitas delas, libertadas por seus amantes, se tornavam esposas
informais e mães de família. Para coibir o grande número de casos de concubinato e outros delitos
de comportamento ou de fé, a Igreja enviava visitas eclesiásticas, que, de vila em vila, de arraial
em arraial, instalavam mesas e inquiriam os moradores, obrigando-os a denunciar os próprios
pecados, assim como os alheios.
Numa visita eclesiástica ao arraial de Conceição do Mato Dentro, em 1748, certa Maria da
Costa, que se supõe ser a mãe de Xica, foi acusada de deitar-se com qualquer homem que a
quisesse, apesar de amasiada com um ferreiro. As denúncias revelam que o companheiro a
maltratava, ambos se descompunham publicamente com palavras rudes e pancadas desferidas
por ciúmes, e aquele modo de viver resultava em ruínas e mortes. Agredindo uma rival, a forra
disse que seria capaz de dar uma bofetada até mesmo em Nossa Senhora do Pilar. Acusada de
prostituição, alegou que, se a chamavam de pecadora, também fora pecadora a santa Maria
Madalena. Embora tivesse inúmeras razões para tal comportamento, e as blasfêmias fossem
recursos de distensão fartamente utilizados pelo povo, suas palavras escandalizaram os
moradores do arraial e as autoridades do clero.
Tempos depois, Maria da Costa foi novamente denunciada por insultar, com linguagem
ofensiva e sarcástica, habitantes do arraial, motivo pelo qual a chamavam de “A Vassoura”. Em
1753 um novo visitador registrou que Maria da Costa tinha prometido se corrigir, mas continuava
a “descompor os homens com palavras injuriosas e menos decentes, como também as
mulheres”.91 Condenada pelo crime de concubinato e por delito de voz a pagar duas oitavas de
ouro à mesa de visitação, a ré assinou o termo de culpa com um X.
Mas seu erro parecia pequeno diante, por exemplo, do de um reverendo que em Vila do
Príncipe mantinha uma amizade violenta com a forra Rabu, brigando ambos assiduamente no
meio da rua. Um dos motivos dessas brigas era a defloração da filha da negra por parte do
reverendo. Além disso, o hábito da concubinagem, a que se mostrava “tão afeito o imigrado
português de todas as camadas sociais, era generalizado na incipiente capitania [...] Mesmo entre
as grandes famílias regularmente constituídas e que eram de prosápia, constatava-se, às claras, o
costume de terem seus chefes várias concubinas teúdas e manteúdas, toleradas e, às vezes, sob o
mesmo teto, numa estranhável mistura, sendo os bastardos reconhecidos e contemplados nos
testamentos, usando dos nomes paternos”.92 O arraial de Conceição tinha um “elevado índice de
prostituição graças a seu papel de entreposto de todo o comércio com o norte da capitania”.93
Certa mulata forra, Adriana, lá alcovitava mulheres para homens enquanto consentia encontros
em sua casa, cedendo a própria cama. Outras formavam prostíbulos nas periferias das vilas,
vivendo de sua administração.
Quando respondeu que era pecadora como Maria Madalena, Maria da Costa admitia usar da
prostituição. Muitas escravas se prostituíam pela obrigação de pagar aos seus donos uma quantia
determinada ou mesmo eram mandadas por seus senhores às ruas para, após um dia estafante de
trabalho, vender à noite seus corpos e levar o ganho para a casa senhorial: as negras lhes rendiam
os jornais. Elas se ofereciam pelos albergues, onde podiam jantar e dançar os batuques.
Mas não apenas as escravas se entregavam ao meretrício. Esse modo de vida era disseminado
e enraizado naquela sociedade solteira e amplamente masculina, de tal forma que regimentos
determinavam não poder entrar mulheres “más”, suspeitas ou mulatas, deixando passar apenas as
escravas que acompanhavam seu senhor.
Muitas mulheres na região dedicavam-se a trabalhos de comércio, vendendo em tabuleiros
diversos produtos, como doces, bolos, mel de cana, verduras, queijo, artefatos de armarinho,
roupas velhas, unguentos, até hóstias. Mesmo essas trabalhadoras sofriam perseguição das
autoridades e eram proibidas de circular nas áreas de mineração onde gostavam de oferecer seus
quitutes, por suspeita de colaborarem no desvio de ouro e diamantes.
Negras mais bem-sucedidas conseguiam abrir quitandas, nas quais moradores de diversas
profissões, brancos, forros, escravos, se divertiam e tramavam fugas, encontros amorosos,
brigavam, negociavam contrabando ou furtos, se embriagavam e se libertavam de suas tensões.
As quitandas foram igualmente reprimidas por medidas de controle: em 1719 o conde de Assumar
proibia em Vila Rica que negros ou negras possuíssem quitandas para venda de comidas e
bebidas, norma que se estendeu depois a outras vilas e arraiais. Que fizessem seus folguedos,
bailados, saraus e galhofas em suas próprias casas, ou nas senzalas, dizia a ordem.

[...] pelas muitas e repetidas queixas que aos meus ouvidos têm chegado, além da notória
publicidade das desordens que atualmente acontecem motivados da dança a que chamam
batuque, que se não pode exercitar sem o concurso de bebidas, e mulheres prostituídas, de que
resulta pela bebida obrarem com total falta de juízo, e pelas mulheres os ciúmes, que causam
aos seus amásios, que nenhuma deixa de os ter, de que vêm a resultar brigas, desordens,
ferimentos e ainda talvez mortes, procedimentos estes contrários à paz e sossego dos povos.94
O conde de Galveias, logo depois de sua posse como governador das Minas em 1732, tratou de
expulsar do Tijuco mulheres de “vida dissoluta e escandalosa” que passavam pelas ruas ou
entravam nas igrejas, vestidas suntuosamente e levadas em liteiras postas aos ombros de
escravos.

Como as demais forras, Maria da Costa era obrigada a contribuir todos os anos para a Fazenda
Real com impostos de quatro oitavas e três quartos de ouro, sob a pena de confisco, multas ou
prisão. “Inumeráveis mulheres pretas e pardas pagam a capitação por sua pessoa por não terem
algum escravo; é certo [que] vivendo de ofensas a Deus, necessariamente a sua contribuição há de
sair do pecado”,95 argumentava a Câmara de Sabará. Além desse pesado tributo, Maria da Costa
tinha de prover sua prole, e a si mesma, de casa, comida, roupa e tudo mais, mesmo contando
com o seu amante ferreiro.
Uma medida determinava que toda solteira era obrigada a notificar sua gravidez; e, vinte dias
depois do nascimento, tinha de dar parte ao Senado. Se não o fizesse, era multada em cinquenta
oitavas de ouro para a “criação do enjeitado”. As escravas ou forras que fossem flagradas em
comércio ambulante nas vizinhanças das lavras tinham suas mercadorias confiscadas e destinadas
aos presos da cadeia local; depois, eram presas durante oito a noventa dias; castigadas com entre
cinquenta a duzentas chibatadas em praça pública; e, afinal, obrigadas a pagar uma fiança de
quatro a sessenta oitavas de ouro. Todo esse sistema de repressão e obrigações empurrava
mulheres a ser fadistas, palavra usada para desordeiros e, no caso, meretrizes.

Por outro lado, Maria da Costa cumpria com as obrigações da fé católica. Ia à igreja e foi
madrinha de batismo de uma filha de escrava, o que significa que levava uma vida religiosa. Há
testemunho de que era boa cristã. Um capitão que habitava o Tijuco declarou que Maria da Costa
vivia “na crença de tudo o que crê e ensina a Santa Madre Igreja, assistindo como cristã-velha,
observando todos os quesitos da Lei de Deus e da Santa Madre Igreja e a todas as funções e atos
pios [...] com grande devoção, especial zelo, dando suas esmolas e concorrendo com o que pode
para o culto divino”.96 Declarou um reverendo que a forra assistia à missa todos os dias e
comungava diversas vezes ao ano. Esses depoimentos foram tomados anos depois para a
habilitação do filho mais velho de Xica, quase sempre dados por amigos do contratador e da
família Fernandes de Oliveira.
Um destino miserável, com tantos percalços, sofrimentos, penúrias e perseguições justifica
Xica ter permanecido escrava até a vida adulta. Se usufruísse de melhores condições,
provavelmente Maria da Costa teria comprado a liberdade da filha. Seja como for, Maria era
pessoa zelosa e progrediu: em 1774 a veremos proprietária da casa em que habitava, no Tijuco.
Possivelmente uma casa dada pela filha.
O primeiro sangue

A sexualidade das escravas

NA CASA DOS OLIVEIRAS, Xica aprende novos serviços e quando fica mais forte vai buscar água no
rio com um jarro à cabeça, o mais apreciado dos trabalhos, pois ela pode olhar as casas, as pessoas, e
ouvir as conversas das escravas. Limpa o chão, esfregando areia e folha de pita, põe flores no oratório,
engoma roupa, cerze, remenda, cozinha, descaroça algodão, trabalha a cardar e a fiar no fuso. Aprende
a tingir panos, a coser sua saia de algodão, seu casaco de baeta, sua camisa rude. E tem de manter o
fogo sempre aceso.
Uma vida de tanta atividade desde a mais tenra infância vai delineando sua imagem, de galharda
estatura, em músculos definidos, conformando um corpo bem torneado e firme. A figura de Xica, no
fim de sua infância, começa a atrair a atenção de homens. Torna-se mulher na flor dos doze anos. De
seus olhos irradia um fogo tão peculiar e o seio arfa em tão ansioso desejo que é difícil aos homens resistir
a tais seduções.

O sangue menstrual significava poder feminino e dominação sexual, comentava o médico


português Bernardo Pereira em 1734. Seus efeitos eram considerados mágicos; o sangue feminino
tinha a faculdade até mesmo de enlouquecer alguém. Acreditava-se que pessoas enfeitiçadas pela
ingestão do sangue secreto ficavam endemoninhadas, delirantes, sofriam fúrias, medos e lágrimas.
E o médico indicava poções de pó de secundina com agriões ou óleos feitos com sementes e flores
de sabugueiro ou figueira-do-inferno, preparando-se as poções longe da vista de qualquer mulher
menstruada. Ensinava-se às mulheres que os dias de sangue secreto representavam perigos,
quando elas sofriam as influências de eflúvios nocivos que podiam contaminá-las. Afastadas do
leite, do vinho, dos metais, das colheitas, para que não os arruinassem, consideradas criaturas
chagadas, ou terra estéril, habitadas por seres invisíveis, expiavam nesses dias o que haviam feito
de errado em sua vida e em sua história desde a origem adâmica. Ao lado da falta de vontade, da
moleza de um corpo não muscular, da ausência de atividade intelectual, dos ossos menores e
arredondados, da carne cheia de líquidos e enxúndia, dos sentimentos ternos, a menstruação era
elemento que completava a ideia de debilidade feminina.
Chegava-se, cautelosamente, a publicar regimentos determinando o que as mulheres deviam
fazer nos dias menstruais. Era prescrita, por exemplo, a respiração de ares quentes ou a aspiração
de drogas olorosas. Os alimentos deviam ser gordurosos e doces, como a mistura de manteiga,
açúcar e mel, ou gemas de ovos frescos, caldos de galinha, carnes assadas. Jamais a jovem
menstruada devia ingerir alimentos azedos, como o vinagre, nem frutas ácidas ou verdes. O vinho
podia ser tomado apenas como medicamento. A água da lavagem de roupas sujas do mênstruo
tinha de ser jogada na terra. Era preciso evitar as afetações da alma, não se entregar à melancolia
nem às alegrias exuberantes. E nos dias de regra a mulher devia ficar reclusa, solitária. Havia todo
um sistema de crenças que relacionava a “rubra diferença” feminina a mistérios da natureza.

A origem das regras deu margem a concepções muito variadas. A explicação mais comum
fazia da mulher um ser eternamente ferido, pagando um incômodo tributo para expiar um
pecado ou uma falta original. Nessa forma de relato, a serpente intervinha quase sempre
como uma testemunha da Eva ancestral no paraíso mítico. A serpente era sempre associada à
lua e a deusas selênicas. Eis por que em tantas línguas as palavras usadas para designar
menstruação e lua são as mesmas ou possuem as mesmas raízes etimológicas. Desse modo,
menstruação significa mudança de lua, a raiz mens dando origem a mênstruos e a meses. No
passado, as fases da lua permitiam aos homens a contagem do tempo, e as menstruações
facilitavam as previsões femininas.97

Dizia um padre na Bahia, no início do século 17 — na Segunda visitação do Santo Ofício às


partes do Brasil —, que, depois de a mulher ser tirada da costela do homem, viera um cão e a
comera, despejando-a pela parte traseira. Assim, Deus a fizera da costela, mas ela foi segregada
pelas partes imundas do cão.
Se as mulheres eram tidas como matéria do cão, que significava também demônio, Xica da
Silva o era ainda mais por ser de origem humilde, nascida escrava, e que, como as outras moças
pobres, almejava uma vida à qual estavam destinadas apenas moças de boas famílias cristãs. Os
confortos e luxos não faziam escândalo em mulheres brancas; eram próprios da sua condição.
Relacionava-se a origem negra a um corpo animalizado, demonizado, considerado lascivo,
desalmado, um abismo de perdição.
Na vida cotidiana, quando vivia dentro da casa do senhor, a escrava provia a família de
comodidade, higiene, alimento, prestando serviços de toda espécie, e, embora costumasse sofrer
maus-tratos e humilhações, criava laços de sentimentos. A mulher escrava cuidava de tudo —
mesmo dos ímpetos do seu senhor, concebendo seus filhos, sem defesas para com as dores ou a
fatalidade que rondava o parto. Mas era uma presença perigosa e precisava ser domesticada.

Aos padres cabia a repressão da sexualidade das escravas, embora fossem eles mesmos, muitas
vezes, acusados de abusos sensuais contra essas mesmas mulheres que deveriam educar. São
inúmeras as reclamações contra clérigos que se aproveitavam do ato da confissão para o exercício
de seus ímpetos sexuais; abusavam de escravas, assim como de brancas, índias, forras, jovens ou
maduras.
Orientadas a usar vestes decentes, discretas e modestas, não portar joias em ouro nem roupas
suntuosas, as mulheres escravizadas ou livres deviam ser piedosas e adornar-se, sim, com o seu
bom comportamento, ouvindo a instrução em silêncio, submissas às regras impostas. Não era
permitido que doutrinassem os homens, seus superiores e a quem deviam se submeter.
Pecadoras, só podiam ser salvas pela maternidade, mantendo sempre a modéstia, a fé, o amor por
Deus e pelos santos, como orientava Paulo de Tarso, na “Epístola aos efésios”.
Um manual de confessores da época instruía os padres a fazer perguntas muito diretas à
mulher:

Se pecou com tocamentos desonestos consigo ou com outrem.


Se tem retratos, prendas ou memórias de quem ama lascivamente.
Se solicitou para pecar com cartas, retratos ou dádivas.
Se foi medianeira para isso gente maligna que devia ser sepultada viva.
Se falou palavras torpes com ânimo lascivo.
Se se ornou com ânimo de provocar a outrem a luxúria em comum ou em particular.
Se fez jogos de abraços ou outros semelhantes desonestos.
Se teve gosto e complacência dos pecados passados ou de sonhos torpes.98

Se não nas confidências entre amigas ou na própria vida, era durante a confissão que a escrava
recebia as primeiras noções de sexualidade, tendo notícia sobre o prazer das carícias, descobrindo
que mulheres guardavam retratos, prendas ou lembranças de homens amados lascivamente.
Aprendia, com as perguntas do padre, que os homens podiam ser lascivamente amados, podiam
ser atraídos por meio de cartas, retratos ou presentes, que a mulher podia usar favores de gente
para a mediação de sentimentos ou encontros, que palavras torpes eram ditas com ânimo lascivo,
que se faziam jogos de abraços e mais jogos, que se podia sentir prazer com a recordação de
algum pecado ou de algum sonho, e que havia sonhos torpes.
Também logo ela percebia o poder de seu corpo desnudo da cintura para cima, o efeito que a
exibição dos seios, da pele, das curvas causava em rapazes ou velhos. E compreendia a sedução
que provinha das roupas e enfeites — quando uma mulher se enfeitava, podia provocar a luxúria
em um homem ou em muitos homens juntos, como dizia o manual. A vestimenta luxuosa, ou
leve e transparente, ou, ainda, colorida, podia ser usada como meio de atrair a atenção masculina,
sobretudo se usada por uma escrava jovem, que trazia no sangue a cadência das danças soltas, os
perfumes do corpo suado, a predisposição para a submissão e a disponibilidade, ensinadas desde a
infância por meio da chibata. E as escravas eram bem menos acanhadas do que as reclusas filhas
de senhores.
Outros manuais de confessionários procuravam disciplinar os toques femininos; qualquer
afago era motivo para castigos. Beijar, por exemplo, no século 18 era uma carícia punida com
cinco pais-nossos e cinco ave-marias, se fosse um “beijo com sensação de seda”, ou seja, o beijo
aplicado no nariz. O “beijo com sensação de veludo”, associado às partes sensíveis femininas, era
mais grave, punido com um número bem maior de orações, feitas de joelhos. Permitia-se o sexo
apenas aos casais unidos pela Igreja — mesmo assim, repleto de interdições. A única posição
aceita era a do homem por cima da mulher; as mulheres por cima enlouqueceriam. No coito, o
homem não podia estar em pé, nem sentado, para que não dispersasse o esperma procriador num
lugar errado. A posição em que a mulher ficava de quatro dava origem a crianças aleijadas. Toda
uma prática era condenada e outra, indicada no sentido de coibir os prazeres da relação sexual,
que devia servir apenas para a geração de filhos no casamento.
Um fogo peculiar

Xica se torna mulher

ESCRAVAS DE DOZE, TREZE ANOS já tinham a vivência de mulheres adultas, pelo trabalho,
pela luta nas relações a que eram obrigadas, pelos conflitos que precisavam superar, pelo ultraje
que significava o estado de escravidão; pelo ódio irracional contra sua cor e sua pobreza, pelo
modo como haviam sido criadas, em famílias desestruturadas ou sem famílias; pelas privações e
maus-tratos, pela exploração a que eram submetidas, na maior parte, de cunho sexual. Todo esse
sofrimento redundava em maturidade ou, algumas vezes, em malícia, astúcia, dissimulação.
Ainda meninas, eram mulheres feitas.
O engenheiro e tenente de granadeiros alemães do Exército do imperador dom Pedro I, Carl
Schlichthorst, que esteve no Brasil entre 1825 e 1826, comenta:

[...] doze anos é a idade em flor das africanas. Nelas há de quando em quando um encanto
tão grande, que a gente esquece a cor [...] As negrinhas são geralmente fornidas e sólidas, com
feições denotando agradável amabilidade e todos os movimentos cheios de uma graça natural,
pés e mãos plasticamente belos. Dos olhos irradia um fogo tão peculiar e o seio arfa em tão
ansioso desejo, que é difícil resistir a tais seduções.99

Xica floresce em moça, cresceu bem formada de corpo, rija, fornida, graciosa, alta, peitos
empinados, nádegas tesas, as formas arredondadas e atraentes cobertas por uma pele morena, amaciada
com umburana. Tem o rosto das minas: testa ampla, olhos cintilantes, maçãs bem formadas, nariz
delicado, lábios desenhados com apuro e não muito grossos, cheios de sensualidade. Quando sorri, seus
dentes lembram pérolas.
Usa os cabelos rapados e agora possui boas roupas, assim como uma delicada joia com que dona
Ana Joaquina da Roza lhe presenteou, para que se apresente com primor. Quando sai para buscar água
no chafariz, o cântaro na cabeça, ou quando vai à missa aos domingos, com vestimentas de boa
qualidade, adornada, limpa, espalhando no ar um rastro de limão-bravo, os homens a admiram e lhe
dirigem palavras enamoradas. Cantam para ela as modinhas de amor, mandam-lhe prendas, flores,
doces, cartas de tocar — tudo fazem para demonstrar que estão enfeitiçados. Alguns mais afoitos lhe
dirigem convites, como para ir a uma comédia de bonecos, em troca de prazeres sexuais. Uns lhe dizem
palavras chulas e comentam, em bandos de rapazes, sobre detalhes de seu corpo.
Ela percebe o fascínio que desperta nos homens e aperfeiçoa seus requebros, capricha nos gestos com
as mãos, os pés, deixa cair languidamente o pano sobre um dos ombros, mostrando um seio que arfa em
ansioso desejo, as espáduas em suaves curvas, a cintura sinuosa e o flanco dos quadris. Move a cabeça
com altivez e arranca suspiros a cada meneio, a cada levantar da saia de cadarço.
Tem amigas entre as escravas do arraial. A mais próxima é Rita, escrava de Vieira Balverde, que,
embora muito jovem, está esperando um filho. Apesar de seus sofrimentos as escravas saem em bando,
como passarinhos fugidos das gaiolas, falando mal dos senhores, dos rapazes, comentando seus sonhos,
dando risadas. Caminham descalças, com roupas coloridas, cântaro sobre uma rodilha de pano no alto
da cabeça, ou de cangalha nas costas, ou abraçadas a cestas repletas de frutas ou quitutes para vender
nas ruas, mesmo com a proibição. No rio, a buscar água, aquelas moças trocam seus segredos, criam um
mundo feminino e laços de apoio, adesão, amizade, fazendo surgir um poder interior e doméstico.
A vida de Xica é de trabalho. Mas não tanto como na casa de Domingos, pois seu novo senhor
possui outras escravas, já acostumadas ao serviço ou de mais idade. Verte suor na cozinha, corre para
todo lado, lava panos no rio de Santo Antônio, limpa a casa ampla, sempre bem conservada, com
fartura de comidas feitas no maior esmero, e iluminada por lamparinas de cobre.
Vive na casa dos Oliveiras uma jovem chamada Dalida, que foi enjeitada à porta quando criança, e
os senhores a criam com amor de pais. Dalida possui de tudo o que uma moça precisa ou gosta de ter:
anáguas, meias brancas, sapatos com fivela de ouro, saias de cetim, blusas de chamalote, leque para se
abanar, um chapéu de copa alta e objetos de toucador, como pente de chifre, vidro de água de cheiro,
carmim para passar nos lábios. Come amêndoas e marmelada e toma chá. Usa talheres de prata para
cear à mesa com a família, modos novos que Xica observa enquanto serve os pratos.
Dalida tem seu quarto luxuoso, com cama coberta de lençóis de linho bordado, um oratório com
santinha, arcas trabalhadas. No escrínio guarda um laço de prata incrustado de pedras roxas, medalhas,
brincos e pulseiras de ouro. Vai à missa numa rede levada por dois escravos, coberta por uma tapeçaria
preciosa. Quando segue a pé pela rua, protege-se com uma capa rebordada de dourados que lhe dá um
ar imponente. Foi educada com os modos de menina rica e Xica a observa, querendo aprender a falar, a
vestir-se, a comportar-se como essa mestiça tão afortunada, que não precisa trabalhar e ganha presentes
do senhor. Mas, como está sempre na cozinha ou entre as escravas, na labuta da casa, ou com as amigas
no chafariz, Xica tem os modos do povo. Quando fica agoniada, chora golpeando o peito, batendo
palmas e fazendo barulho. Algumas vezes, ao beber a água do pote, murmura, I ou, I ou, sem saber por
que o faz. Se deseja algo ardentemente, enche uma cuia de comida e a põe na janela, oferecendo-a aos
passarinhos. Faz esses gestos por um instinto que não consegue controlar nem compreender.
Mora na senzala que fica nos baixos da casa, um lugar úmido e escuro, porém mais amplo e melhor
do que a senzala da casa de Domingos no Milho Verde. Há alguns catres, bancos, e lamparinas de latão
com azeite suficiente para toda a noite. Uma bondosa escrava velha acarinha Xica como se fosse sua
filha. O casal Oliveira e seus filhos também querem bem àquela mocinha firme e desobediente, todavia
perspicaz. Ela costuma se demorar na rua, mas faz o serviço bem-feito. É boa para levar recados e para
convencer alguém. Sempre extrovertida, seduz com sua fala e voz melodiosa.

Amanhece num dia frio a Xica com tosses e a escrava velha lhe aplica mezinhas de feiticeiros. Não
melhorando a mocinha, dona Ana Joaquina da Roza manda que chamem o médico. Vem o doutor
Manuel Pires Sardinha, amuado por tratar de uma negra. Entra na senzala franzindo o nariz, é um
branco soberbo, português da vila de Estremoz e, além de esculápio, vai ser nomeado juiz ordinário.
Homem de posses, ostenta os bons lucros de suas lavras auríferas. Velho, de uns sessenta anos, nunca se
casou, vive amasiado com sua escrava também chamada Francisca, com quem teve um filho.
Assim que entra e avista a paciente, Pires Sardinha sente-se arrebatado por sentimentos confusos,
perturbado com a figura da jovem. Examina-a com cuidado e prescreve o tratamento: algumas sangrias
nos pés, esfregações repetidas e ventosas até nas nádegas, que ele mesmo faz questão de aplicar. Para os
achaques no peito e abrandar a tosse, prescreve a mezinha de amêndoas descascadas, açúcar e água de
cevada, que ele vai preparar com cuidado. Manda que Xica se alimente com caldo de galinha
temperado de sal e fervido na alfazema e macela.
Ao voltar para casa, carrega a imagem da moça, como se marcada a fogo em sua lembrança. Não a
apaga mais dos pensamentos, desejando-a, vendo-a em todos os cantos para onde olhe: lá está Xica num
vulto de moça que passa, numa palha que farfalha ao vento, no suor do lençol em sua cama, no passo
de uma égua elegante, numa nuvem fluida, numa folha que cai languidamente. Cuida de Xica com
esmero, fica um longo tempo sentado ao lado do catre, conversando, enquanto a seduz, segurando sua
mão, acarinhando-a nos braços, no peito, até fazê-la se submeter a seus desejos de homem. Xica sente
pudor de se afeiçoar a um sujeito tão mais velho, a quem não sabe se ama — nem mesmo conhece o
amor. Mas esse senhor, de boa presença e refinado no dizer, faz com que vença sua repulsa, com afagos,
presentes, promessas. Assim que a vê curada, o esculápio pede ao Silva de Oliveira que a venda, pagará o
que pedir. Está enamorado e a quer para sua concubina. Logo que consegue comprá-la, leva-a para sua
casa e toma seus serviços.
O ovo da coruja

O médico, a medicina

A PROFISSÃO DA MEDICINA NO BRASIL COLONIAL confundia-se com a de curandeiro. Uma


das queixas que fazia o médico Simão Pinheiro Morão, em 1677, era que os habitadores, não
conhecendo as propriedades da medicina, “a adulteravam de tal maneira que de racional a faziam
empírica e desta, como de Mãe, nasciam tantos abusos médicos, ou filhos tão adulterinos, que
sendo a Medicina criada de Deus para remédio dos homens, a faziam verdugo de suas vidas”.100
Para alcançar os princípios da medicina, por ser prática e especulativa, os pretendentes tinham
de aprender latim, conhecer filosofia e estudar por oito anos contínuos na universidade, sendo
obrigados a passar por dez ou doze exames públicos antes de receber o grau de médico. Queixava-
se o doutor Simão de que no Brasil muitos dos que professavam a medicina nem mesmo sabiam
ler e escrever, ou, quando o sabiam, achavam um livro em português e assim se constituíam
doutores nessa ciência. Uns, conhecendo mezinhas de seus antepassados, consideravam-se os
mais cientes. Outros preferiam uma experiência irracional e charlatã a uma prática racional e
metódica. Cirurgiões viam os médicos em seus procedimentos e os imitavam, sem conhecimento
das doenças e de suas causas, provocando tanto danos na vida dos pacientes como em suas
próprias reputações.
A medicina da época fazia uso de dois remédios universais para as enfermidades do corpo e da
alma: a sangria e a purga.101 Mas era preciso seguir os ditames corretos para as indicações e os
empíricos abusavam desses recursos sem saber sua ciência. Além de tudo isso, queixava-se o
médico português – que viera para o Brasil após perseguições da Inquisição e era obrigado a usar o
sambenito como marca de sua condenação — que não encontrando um cirurgião ou médico, raros
num país de tão grande extensão, o povo recorria aos “feiticeiros ou embusteiros (que por tais os
julgamos) valendo-se das artes do demônio antes que das da natureza, tanto em dano de suas
consciências e da saúde das criaturas”.102
Em Portugal a ciência médica sofria um grande atraso, comparando-a com as de Inglaterra e
Holanda, que haviam passado por um processo evolutivo no século 17. A Inquisição perseguia
universidades e professores que ousavam ir além dos limites da ideologia estabelecida, de forte
cunho religioso, supersticioso, arraigada num pensamento medieval que aprisionava a razão à fé.
Qualquer iniciativa puramente científica era considerada heresia e as universidades se
estagnavam no obscurantismo e dogmatismo, instruindo exclusivamente por meio de obras de
mestres da Antiguidade, como Galeno ou Aristóteles. A literatura médica portuguesa produzida
na época fundava-se na alquimia, na astrologia e num empirismo ingênuo, revelando o tipo de
formação promovido pelas universidades.
Considerava-se a doença uma consequência dos pecados que o paciente cometera e a cura
relacionava-se ao seu arrependimento. A ação diabólica era base para a cura dos males. Uma das
indicações para as chagas, por exemplo, mais parecia um procedimento satânico: tomava-se um
cão preto, dependurado com os pés para cima no ramo de uma árvore, e o açoitavam para que
ficasse enraivecido. Cortava-se de repente a sua cabeça, metiam-na em uma panela nova, até ficar
bem torrada e transformar-se num pó fino. Esse pó devia ser pulverizado sobre as chagas quantas
vezes necessárias, até que se fechassem.
O cirurgião Luís Gomes Ferreira, que na primeira metade do século 18 viveu duas décadas em
Minas Gerais, aconselhava no seu Erário mineral os senhores a cuidar bem dos escravos, para que
não lhes faltasse o necessário, tendo-os como filhos; e aos doentes, tratar com bondade, dar-lhes
agasalho, demonstrando estar pessoalmente empenhados nos cuidados. Assim, trabalhariam mais
diligentes, teriam menos doenças, vida mais longa e menos conflitos. Suas receitas incluíam
“sapatos velhos, enxofre de verrugas, água de cisterna, leite virginal, óleo humano, fezes de
cavalos ou de meninos sadios, legumes de hortas, meias sujas e suadas dentre outros —
ingredientes que precisavam ser emprestados, pedidos e barganhados entre a comunidade”.103 Diz
o Erário:

Cortem os cabelos das partes baixas da própria doente e botem-nos em brasas, e tome aqueles
fumos pelos narizes, debruçada em cima, que logo se livrará do paroxismo por modo de
milagre; é experimentado muitas vezes. Ou este: untem o palato ou garganta com fel de boi,
que logo entrará em seu acordo.104

Para os que sonham coisas tristes e turbulentas é bom remédio beber semente de alface em pó
com água ou vinho, ao deitar na cama e a toda a hora que quiserem; ou ponham no leito em
que dormirem uns pés de beldroegas e não sonharão mais.105

Dar ao bêbedo o vinho em que se afogarem duas ou três enguias, estando vivas, por algumas
vezes a beber, o aborrecerá para sempre; ou dar-lhe a beber o vinho em que se misturem um
bocado de esterco de homem; ou o em que misturem o suor dos companhões [equipagem] de
um cavalo, estando suado; ou em que deitarem de infusão um ovo de uma coruja, mal-
assado, feito em talhadinhas miúdas; ou o em que deitarem de infusão uma fatia de pão que
estivesse duas horas no sovaco de um agonizante; ou o vinho que se deitasse por duas horas
dentro nos sapatos do mesmo bêbedo, estando ainda quentes, quando os descalçar; ou o
sangue das trutas, tirado delas estando vivas e misturando no vinho bebido por algumas vezes.
O coração do corvo feito em pó e dado a beber e vinho ao bêbedo, o não beberá mais.106

E ainda: enxúndia de rã para cessar dor de dente, sangue de morcego aplicado no couro
cabeludo para deter o crescimento de cabelos, assim como sebo de homem esquartejado, para
fazer nascer cabelo. “Para quem urinar na cama estando dormindo não há coisa melhor que
comer, a miúdo, coração de cabrito-montês assado muitas vezes, ou beber, em vinho, sessos de
lebre, que é a última tripa, ou bexiga de porco ou porca feita em pó, bebido no mesmo vinho.”107
O cirurgião indica remédios para males como escarros de sangue, lombrigas, tosse, dor de
dentes ou de cabeça, inchaço nas pernas, mal gálico, febres malignas, impingens, névoas nos
olhos, verrugas, para sonhos medonhos, para bexigas, surdez, cólicas, panarício, arrotos,
reumatismo, sarna, espinhela caída, azia, voz rouca, vômitos, queimaduras de pólvora, água
fervente ou fogo, asma, para calos, chagas no membro viril, tumores, flatos, bafo fedorento, para
emagrecer os muito gordos, curar feitiços, e tantos outros males, até mesmo para se tirarem
nódoas de vestidos, fazer letras de ouro, ou afugentar pulgas. Seu relato é uma mostra do que
atormentava a população nas Minas e do que devia ser a rotina dos médicos na região mineira,
como Manuel Pires Sardinha.
Nova vida de Xica

Senhora e madrinha

CONCUBINA DE UM HOMEM RICO, Xica vê sua vida prosperar. Ainda serve a mesa, cozinha,
lava, faz limpeza na casa, leva recados, apanha água no rio. Mas tem algum poder, até mesmo de
passar o serviço para as outras escravas. O plantel doméstico de Manuel Pires é farto, para um morador
de vila: Manuel e Maria crioula, com cinco filhos, e mais José, Paulo, Ventura, Felipa, João e João
mina, além das duas concubinas e mais crianças.
Xica sai de casa quando bem entende, já ensaiando ares de dama, e ainda mais bem-vestida, pois
com carinhos e astúcia arranca presentes de seu senhor. Aprende essas manhas com a outra concubina do
médico, a escrava Francisca crioula. Também com a terceira amante do esculápio, Antônia Xavier,
forra, que vive em casa separada. As duas concubinas, Francisca crioula e Antônia Xavier, carregam
com orgulho suas crias mestiças, os meninos Plácido e Cipriano, filhos do doutor, e, aproveitando os
afetos do senhor pelas crianças, conseguem favores. Com seu novo amor, Manuel Pires pouco presta
atenção às amantes mais usadas. A Xica, dá-lhe saia de estofo e a leva pela rua, em seu cavalo,
segurando-a pela cintura.
Quando chegam visitantes à casa do médico, ela não mais permanece na cozinha ou a servir à mesa,
mas dá instruções às outras escravas, usando o que aprendeu na casa da fina família dos Oliveiras. Não
chega a sentar-se à mesa com os visitantes, mas fica por ali, bem-vestida, gozando de sua situação.
Às vezes, uma escrava lhe pede para que o médico a trate de algum mal e Xica não se aquieta
enquanto Manuel Pires não o faz. Passa a ser ainda mais considerada entre seus pares. Usa a perspicácia
para dar sugestões ao amante em assuntos das lavras, de algum comércio, dos conflitos dentro de casa, e
é sempre ouvida quando ele precisa tomar uma decisão importante. Mas não deixa de receber castigos
quando, por exemplo, demora-se na rua até tarde da noite, em visitas a amigas ou em passeios pelos
arredores. Trancada numa alcova escura, sozinha, purga as melancolias e tece novas tramas para sua
vida. Não quer ser apenas uma forra dona de casa, como Antônia. Anseia ser respeitada como senhora.
Quer que a tratem de dona Francisca.
*

A escrava Rita, no chafariz, convida Xica a ser madrinha de sua filha Ana, que acabou de nascer.
Xica exulta, amadrinhar é motivo de orgulho, confirma o novo poder da parda, sua atual posição, pois
só são chamadas para madrinhas, ainda que de uma criança escrava, mulheres de melhor condição. A
criança a ser batizada é filha de um sargento-mor, homem branco, o que dá mais pompa à cerimônia;
Xica apresenta-se na igreja com suas melhores roupas e joias: saia de cadarço, holandas debruadas,
crivos, pelerine, botinas, pedras lapidadas... Pela primeira vez entra naquele templo ciosa de sua
dignidade, altiva.
Após esse batismo, passado algum tempo, Xica espera um filho. Anda pelas ruas com a barriga
crescida, sorrindo, e o povo do arraial se escandaliza com aquele arranjo do médico e seu serralho. A
escrava pouco se importa com os murmúrios, está feliz com a maternidade, tem o instinto das negras
minas, amorosas para com seus filhos. A criança poderá ser libertada ao batismo, é o que espera, pois
Pires Sardinha deu a alforria ao filho de Francisca crioula, o pequeno Cipriano. O médico lhe jura que
vai dar liberdade à criança, mas não à própria Xica; teme perdê-la.
Promete registrar um testamento onde a fará forra depois de sua morte, que adivinha próxima
devido à idade e às friezas das montanhas. Quer ser enterrado na capela-mor da matriz de Santo
Antônio, a igreja de mais pompa do Tijuco, amortalhado com o hábito de são Francisco, carregado
num tapete por negros de ganho e miseráveis; e faz Xica prometer que irá ao enterro, assim como a
todas as missas em intenção de sua alma, que ele deixará pagas com esmolas. Também legará a cada um
de seus afilhados, filhos de escravos de outros senhores, oitavas de ouro suficientes para pagar as alforrias.
Diz que fará do filho de Xica seu herdeiro junto com os outros dois meninos.
Visita eclesiástica

Xica denunciada, 1750; o novo rei, dom José I

ACLAMADO REI EM 1750, dom José I, casado com dona Mariana Vitória, irá modificar
profundamente o governo real português e, em consequência de uma nova política externa,
também a realidade no Distrito Diamantino — e a vida de Francisca parda.

Entrando o mês de dezembro do ano 1750, chegou ao Tijuco o reverendo Miguel de Carvalho
Almeida e Matos. Vinha, por ordem do bispo, realizar uma visita eclesiástica, com poderes sobre
todos os cristãos do arraial para penalizar os vícios, disciplinando seus cordeiros.
O visitador mandou pregar na porta das igrejas uma ordem para que todos os que tivessem
notícia de qualquer mau procedimento, abuso, escândalo ou crime comparecessem à mesa da
visitação, a fim de registrar denúncias, assim como para confessar suas próprias faltas e pecados.
Como em todas as visitações, houve uma abundância de mea-culpa e delações de casos de
adultério, feitiçaria, farras em batuques, bebedeiras, bigamias, concubinatos, sodomia, incesto,
roubos, alguns baseados apenas em comentários ouvidos nas esquinas, outros inteiramente falsos,
nascidos de um sentimento de rancor ou inveja por parte do denunciante.
Um minerador português que vivia de lavras de ouro denunciou ao visitador o trato ilícito
entre Xica e Manuel Pires Sardinha, afirmando que o médico a comprara com a intenção de com
ela amasiar-se, e assim viviam publicamente. Mas a denúncia foi ignorada, talvez por ser a única
feita contra aquele casal, numa avalancha de outras da mesma natureza.

*
Nasce o filho de Xica e ela lhe dá o nome de Simão. É um menino de tez clara como o pai, mal se
vê nele o sangue africano, o que deixa a mãe feliz, pensando nas melhores oportunidades que ele terá em
sua vida, sem a pecha da cor. Conforme combinado, Pires Sardinha lhe concede a alforria à pia
batismal, embora se recusando a registrá-lo como filho. O registro significaria uma confissão de
concubinato, o que poderia prejudicar a vida do médico, pois é um pecado grave, inaceitável para a
Igreja, que penaliza o casal com a excomunhão, assim como a expulsão da concubina para outra
localidade. Os escravos amancebados devem ser presos e levados ao degredo, embora tal determinação
seja letra morta nessa comarca.
Assim que termina o resguardo, Xica vai à igreja, a fim de rezar, acender uma vela e dar a esmola.
O nome escolhido para a criança é uma homenagem ao capitão Simão da Cunha Pereira, homem de
amizade do pai, escolhido para padrinho da criança.
Xica demonstra ser uma boa mãe, dedicada e afetuosa para com o menino, criando-o com
cuidados, mimos e privilégios o mais que pode. Amamenta-o fartamente, desfila na rua com a criança
bem cuidada, a roupinha alva, engomada, perfumada. Não amarra o filho às costas, como costumam
fazer as escravas, mas leva-o ao colo, como a um filho de senhores. Mas, intimamente, teme por seu
futuro.

Os pardos nas Minas, mestiçados com europeus, inteligentes e fortes, física e


economicamente, segundo Lima Júnior, “passaram em pouco tempo a influir na sociedade da
época, dominando as câmaras e cargos públicos, provocando reações dos portugueses recém-
chegados, que se rebelavam contra isso, para dentro em pouco apoiarem os mulatos seus
filhos”.108 Mestiços eram padres, camaristas, funcionários, magistrados, proprietários de minas, de
engenhos, e houve o caso da eleição de um mulato para o cargo de juiz ordinário, um escândalo
que provocou a reação indignada de brancos. Um documento do Conselho Ultramarino, de 1725,
indica que os receios de Xica da Silva, ao pensar no futuro de Simão, podem ter sido uma aflição
constante em sua vida:

[...] se a falta de pessoas [brancas] capazes fez a princípio necessária a tolerância de admitir os
mulatos ao exercício daqueles ofícios, hoje, que tem cessado esta razão, se faz indecoroso que
eles sejam ocupados por pessoas em que haja semelhante defeito [...] será talvez em ocasião
que se vejam ocupar aqueles lugares por pessoas notoriamente defeituosas e maculadas,
seguindo-se naturalmente, por esta causa, menos reverência aos mesmos lugares e desprezo às
suas ordens e mandados [...] E porque a maior parte dos moradores daquelas terras não
tratam de casar-se pela soltura e liberdade com que nelas se vive, não sendo fácil a coação
para que se apartem do concubinato das negras e das mulatas, e por esta escusa se vão
maculando as famílias todas, é preciso uma providência, pela qual se evite este dano.109

O documento solicita ao rei que, a partir daquela data, 25 de setembro de 1725, nenhum
mestiço possa ser eleito vereador, nem juiz ordinário; não possa andar na governança das vilas
“homem algum que seja mulato dentro nos quatro graus em que o mulatismo é impedimento e
que da mesma sorte não possa ser eleito, e que mande esta ordem aos ouvidores para que a façam
registrar nos livros das comarcas e nos das suas ouvidorias, recomendando-lhes que ponham
muito especial cuidado na sua observância”. E o texto continua, numa maliciosa argumentação
baseada na afeição “natural” dos colonos por cargos públicos: “Desta sorte ficarão aqueles ofícios
dignamente ocupados e poderá conseguir-se que os homens daquele país procuram deixar
descendentes não defeituosos, impuros, vendo que de outro modo não podem alcançar, nem para
si nem para os seus, os empregos de maior distinção e honra das terras em que vivem, pois o afeto
de consegui-los é natural a quase todos os homens.”

A vida da escrava, mãe e concubina segue dentro de certa paz, quando chega ao Tijuco uma nova
visitação, pelo reverendo Manuel Ribeiro Taborda, que novamente recebe denúncia contra Pires
Sardinha. Dessa vez o médico não pode se safar, pois ajunta-se a denúncia de sua “bigamia” — que
nem leva em conta a terceira concubina, Antônia — e os filhos das duas escravas que com ele residem, e
que comprovam o delito. Pires Sardinha e suas duas Franciscas, a parda e a crioula, condenados por
crime de concubinato em primeiro lapso, são intimados a comparecer à mesa e assinar o termo de culpa.
Como não sabem escrever, as mulheres marcam o documento de condenação com uma cruz. Os três são
paternalmente admoestados para que se separem, por estarem ofendendo a Deus, aos outros e às suas
próprias almas. Na primeira admoestação têm de pagar oitocentos réis cada um; se persistirem e forem
novamente admoestados, terão de pagar o dobro; e uma terceira vez elevará a multa a três contos de
réis. Se ainda assim persistirem, sofrerão maior pena pecuniária, e as de prisão, degredo ou excomunhão,
segundo pareça ao visitador o mais conveniente para emendar o que se pretende. Os admoestados não se
podem falar, nem se aproximar um do outro. E o esculápio compromete-se a deixar as amantes. Mas
não o quer fazer, gosta dos filhos alegrando a casa e reconhece o quanto Xica é peculiar, em seu caráter,
em seu dom de seduzir e trazer sorte. Desde que se juntaram, suas lavras de ouro vão dando mais
pepitas. Se as negras minas são tão apreciadas, nenhuma se compara a essa filha de uma mina.
Os temerários minas

Domínio das mulheres minas

ERA VELHO COSTUME PORTUGUÊS chamar os escravos vindos da África Ocidental ou da


costa da Guiné de negros minas,110 ou, mais especificamente, aos que se originavam do castelo de
São Jorge da Mina, na Costa do Ouro. O nome dessa feitoria surgiu da crença dos lusitanos de que
naquela região escondiam-se opulentas minas de ouro. Por terem experiência de mineração e
metalurgia, os minas foram os preferidos em Minas Gerais. A maior parte dos chamados minas
era do grupo linguístico ioruba, sendo gegês ou nagôs. Mas, como já vimos, o termo incluía outras
etnias, como os fanti-axantis, de dialeto tshi, que viviam nas partes mais remotas a oeste, e os
calabares ou iefiques, nas profundezas ao leste.
Muitos desses escravos eram capturados nas regiões interioranas e o nome indicava apenas a
feitoria de onde haviam sido trazidos, sobretudo os fanti-axantis, ou escravos não bantos, de
qualquer procedência. Dizia-se, na Bahia, mina-nagô, mina-popô, mina-fanti ou mina-mahi.
No Rio de Janeiro, conforme depoimentos de alguns viajantes, essa denominação também era
bastante vaga, referindo-se a grupos diversos, como os hauçás muçulmanos que habitavam o
interior, entre Timbuktu e Bornu; falavam, liam e escreviam o árabe e chegavam ao Brasil
aportando nas costas da Bahia. Inclui esse termo alguns iorubas e fulas. Havia os não muçulmanos
entre os minas, mencionados por Debret, no Rio do século 19: os da Costa do Ouro, simplesmente
minas; os da costa do Daomé, os minas-mahis; os minas-nagôs do oeste da Nigéria; e os minas-
calabares ao leste desse país. Determinados os escravos a não se unir a outros grupos por uma
hostilidade encarniçada contra qualquer etnia diferente da sua, os minas no entanto formavam
uma nação separada, coesa e solidária, tomando-se como parte de uma só família. Cultivavam
entre si um sentimento de adesão e apoio mútuo nas desventuras, como foi o caso do escravo
Fernando mina, doado à Santa Casa do Rio de Janeiro, portador de grave moléstia: um grupo de
minas pediu à instituição a sua liberdade, solicitando-lhe que arbitrasse o valor.
Preservavam a língua, que falavam entre si, e pregavam a união apenas com mulheres do
mesmo grupo. Os muçulmanos que utilizavam a língua árabe costumavam ser dotados de
inteligência apurada, com nível de aprendizado muitas vezes superior ao de seus senhores.
Enérgicos em relação ao trabalho, de temperamento soberbo, indomável, arrogante, os minas
eram capazes de atos de coragem, mesmo os mais temerários. Obstinados em comprar sua
alforria, formavam sociedades de poupança, conforme informação do diplomata Joseph Arthur de
Gobineau, no século 19. Alguns compravam passagem de volta para a África, mas não muitos,
temendo ser novamente capturados e escravizados ou porque haviam encontrado alguma forma
de sobrevivência com o trabalho livre no Brasil. A maior parte dos forros retornados para a África
consistia em negros minas.
Bons comerciantes, muitos deles se tornavam mascates. Havia pequenos sistemas de trocas
comerciais organizados por minas, movimentando-se e correspondendo-se em árabe com outros
minas, entre os estados de Minas Gerais, Rio, São Paulo e Bahia. Revelavam-se por intuição
excelentes mineradores e metalúrgicos.
Mesmo sabendo de todas essas qualidades, nem todos queriam os minas como escravos.
Temiam sua habilidade e disposição para fugir ou para matar os senhores e a si mesmos. Muitos
negros acreditavam na vida após a morte e que suas almas retornavam para a África,
especialmente as daqueles que se afogavam ou se enforcavam num galho de árvore, desde que sua
cabeça não fosse cortada. Para desestimular esses suicídios, alguns senhores mandavam decapitar
os corpos dos escravos que se matavam, como exemplo para os outros. Não raro, mulheres minas
matavam seus amantes brancos que as traíam.
Os minas, ainda assim, eram os preferidos nas regiões de lavras, não apenas por sua maior
força e vigor, por serem resistentes e saudáveis, como por terem um poder quase mágico de
encontrar ouro, segundo crença local.
Para evitar revoltas, os senhores mineiros estimulavam a mistura étnica. Eram comuns as
notícias de conspirações de escravos, em vários locais, sendo as mais importantes as de 1719, 1724
e 1756. Na primeira delas o conde de Assumar notificou a Coroa de um plano da “canalha tão
indômita” de assassinar seus senhores e todos os brancos durante a missa de uma Sexta-feira
Santa. Mas o massacre não ocorreu, segundo o relato, porque os minas e os angolas, pretendendo
proclamar um rei após o extermínio dos brancos, não conseguiram se entender quanto a qual
etnia pertenceria esse monarca. Uma rivalidade constante e insuperável entre minas e angolas
malogrou as tentativas de libertação negra no tempo da mineração, com o reforço da opressão e
vigilância por parte das forças militares da Coroa. O espírito de independência dos minas e sua
capacidade de organizar e realizar motins eram motivo de temor.

As negras minas, as mais disputadas e caras, com frequência eram compradas para serem
amantes e concubinas, e elevadas não raro à condição de senhoras brancas. Também as preferiam
como mucamas e cozinheiras. Excelentes companheiras, julgavam-nas sadias, inteligentes,
perspicazes e afetuosas. “Com semelhantes predicados, e nas condições precárias em que no
primeiro e segundo séculos se achava o Brasil em matéria de belo sexo era impossível que a mina
não dominasse a situação.”111 Principalmente naquele distrito mineiro, onde essas mulheres
desempenhavam uma função civilizadora.

Foram essas Minas e as Fulas — africanas não só de pele mais clara, como mais próximas em
cultura e “domesticação” dos brancos — as mulheres preferidas, em zonas como Minas
Gerais, de colonização escoteira, para “amigas”, “mancebas” e “caseiras” dos brancos. Ilustres
famílias daquele Estado, que ainda hoje guardam traços negroides, terão tido seu começo
nessa união de brancos com negras minas, vindas da África como escravas, mas aqui elevadas
à condição, segundo o testemunho de Vaía Monteiro, “de donas de casa”. Outras terão
permanecido escravas, ao mesmo tempo que amantes dos senhores brancos: “preferidas como
mucamas e cozinheiras”.112

Sua beleza, mais próxima do padrão branco, foi louvada por estrangeiros. Europeus, muitos
deles e em todos os séculos, demonstraram uma inclinação por mulheres exóticas.
Em suas viagens, Sir Richard Burton, que era casado com uma inglesa, amou algumas delas.
No vale do Sind, na Índia, assistiu à dança de Mahtab e, fascinado, tentou convencer a si mesmo
de desistir da aventura amorosa, temendo a reação da esposa: que cuidasse para não se apaixonar
pela dançarina, formosa como outras mulheres sindis, de grandes olhos ardorosos, escuros e puros
como uma pedra de ônix, amendoados, com cílios longos e curvos, “inegavelmente belos”. Ele
tremeu ao pensar no humor com que sua esposa, a recatada Isabel Arundell, bem penteada,
escondida por toucados, anáguas e mantos, receberia a sua “escorregadela”.
O comentário de Burton faz um parâmetro entre dois diferentes comportamentos femininos: o
das brancas e o das mulheres exóticas. As europeias deviam seguir os mais rígidos princípios sobre
o sexo, a propriedade, os deveres familiares. A maioria das inglesas nunca aprendeu realmente o
“verdadeiro deleite da relação carnal”. Burton se encantava por mulheres que mostravam um
“estado interior de arrebatamento erótico”, sutis, com “maravilhosas faculdades de percepção”,
conhecimentos e “apreciação intuitiva dos homens e das coisas”. Nutriu uma grande paixão por
uma persa, uma das mais belas moças que ele jamais vira, “encantadora, com traços esculpidos
em mármore, como uma estátua grega, os nobres, meditativos olhos castanhos profundos e
brilhantes, como os de uma andaluz, e o talhe aéreo e gracioso com que Maomé, segundo nossos
poetas, povoou o paraíso de seus homens”.113 A moça foi supostamente envenenada pelos
familiares, por haver se envolvido com o estrangeiro.
Burton padeceu de amores também por uma abissínia, mulher com tatuagens no rosto, uma
linha bem marcada que ia da testa à ponta do nariz; uma flor-de-lis entre as sobrancelhas, e pintas
marcadas por toda a face. As abissínias eram conhecidas pelo poder de apertar os músculos da
vagina a ponto de provocar dor no membro do homem. Sentadas sobre as coxas do parceiro, sem
mover qualquer outra parte do corpo, levavam-no ao orgasmo.
Nos desertos da Somália, Burton fascinou-se por uma nômade. “Sua pele era de um marrom
cálido e profundo, um encanto especial nessas regiões, e seus movimentos tinham aquela
graciosidade que sugere uma simetria perfeita dos membros. [...] Um pano cobrindo parcialmente
os seios e uma saia de couro não faziam grande mistério de suas formas.”114
O viajante John Gabriel Stedman, quando esteve no Suriname a observar uma revolta de
escravos, deslumbrou-se com uma escrava de nome Joana, a qual assim descreveu:

[...] de estatura mediana, ela era perfeita, com as mais elegantes formas que podem ser vistas
na natureza, movendo suas bem formadas pernas como uma deusa quando caminha. Sua
face era cheia da modéstia nativa e da mais distinta doçura. Seus olhos, negros como ébano,
eram largos e cheios de expressão, demonstrando a bondade do seu coração [...] Seu nariz era
perfeito, bem formado e quase pequeno; seus lábios eram um pouco proeminentes e, quando
ela falava, mostravam duas pérolas tão brancas quanto as montanhas de neve. Seu cabelo era
escuro, quase preto, formando um lindo globo de pequenos anéis.115

Os portugueses, que guardavam em suas lembranças ancestrais uma secular convivência com
povos mouros, que mantinham relações antigas com os africanos a quem colonizavam, ou com
povos indígenas desde o século 16, eram os europeus talvez mais propensos à união carnal com as
mulheres destas etnias exóticas: as índias, negras e mestiças.
Na África do século 16, já vemos os portugueses se unindo a negras. Elas eram suas mestras e
parceiras. Por meio das mulheres, esses homens criavam meios de conviver com as estruturas de
poder locais, tão severas que não permitiam nem que colhessem frutos silvestres; unindo-se a
negras, os portugueses ganhavam dignidades tribais e mais segurança, assim como mais
oportunidades de comércio. As mulheres lhes ensinavam os hábitos locais e eles aprendiam a não
ofender esses costumes; tornavam-se fluentes na língua local e por vezes nas línguas de povos
vizinhos, ou porque se associavam a várias mulheres, ou porque suas companheiras conheciam
outros idiomas. Elas lhes passavam as regras de comprar, ensinavam-lhes a arte de regatear e,
enquanto africanizavam os costumes de seus companheiros, iam se aportuguesando. No Tijuco,
sequiosos, os homens viam nas escravas, especialmente nas minas ou em suas descendentes,
mulheres destinadas ao concubinato e ao prazer sexual. E “as pretas e mulatas ‘de parte’
continuavam, malgrado tudo, a obter altos preços no mercado do amor e despejavam mulatos
sem cessar”.116
Uma deusa negra

Os atrativos de Xica

Francisca da Silva era uma mulata de baixo nascimento. [...] Tinha as feições grosseiras, alta,
corpulenta, trazia a cabeça rapada e coberta com uma cabeleira anelada em cachos pendentes, como
então se usava; não possuía graças, não possuía beleza, não possuía espírito, não tivera educação, enfim
não possuía atrativo algum, que pudesse justificar uma forte paixão.117

ESSAS PALAVRAS de Joaquim Felício dos Santos foram contestadas em nota, numa edição
posterior de seu livro, Memórias do Distrito Diamantino, pela historiadora Nazaré Menezes, em
1924. Nazaré dizia que Xica talvez fosse boçal — no sentido moderno da palavra, de rude,
ignorante.118 Mas “nunca odienta e asquerosa, como a descreve o Dr. Joaquim Felício dos Santos.
Se assim não fosse, não teria inspirado ao Desembargador João Fernandes de Oliveira, moço,
nababo, nobre, galanteador, paixão tão ardente e duradoura”.
Em 1956, José Teixeira Neves voltava ao assunto em observações à nota, contradizendo a
historiadora, concordando com Joaquim Felício. Argumentou que muitas pessoas do tempo de
Xica da Silva ainda eram vivas quando foram fixadas tais impressões que, “por tradição oral,
alcançaram até nossos dias através de reminiscências de famílias veteranas da Diamantina...”.
Viriato Corrêa chega ao extremo da descompostura na descrição que faz da escrava e senhora
mineira: “Chica da Silva, ao que contam os cronistas, nada tinha na vida, no corpo e no espírito
que pudesse prender um homem. Era uma mulata escura, beiços grossos, nariz chato, alta,
enorme de carnes e feições ásperas. Não trazia nenhuma das graças femininas, que são, às vezes,
mais embriagadoras que a beleza. Nem ao menos um desses lampejos de coração e de bondade,
que são sempre os nós indesatáveis que seguram os homens às mulheres feias. Nada. Tudo nela
era grosseiro e chato como o nariz.”119
Desde então, especula-se acerca do aspecto físico de Xica. Decerto era bonita quando jovem,
mesmo que por sua vivacidade, frescor, seu corpo ardente, sua sensualidade, comuns nas escravas
e tão do agrado dos portugueses. Pelo menos possuía a beleza da juventude.
O conceito de beleza variou de época para época, e mesmo, de pessoa para pessoa. No século
18 para o 19, predominava uma visão de beleza greco-latina ou neoclássica. Um dos teóricos da
estética neoclássica,120 em seus escritos de 1750 e 1760, defendia a existência de um “belo ideal e
universal” que não era encontrado na natureza, mas no espírito. Para ele, os mais próximos da
beleza ideal eram os gregos do período clássico e, mais tarde, os renascentistas italianos que se
inspiravam justamente nos antigos gregos. No entanto, viajantes europeus oitocentistas
introduziram observações sensíveis que influenciariam o conceito de beleza. Comparavam corpos
de carregadores ou guerreiros negros às mais belas estátuas gregas. Africanas que vendiam frutas
em cestos sobre a cabeça lhes sugeriam as antigas cariátides das cornijas atenienses. Um jornal
londrino comenta,121 em 1759, que “ninguém duvidará se um de seus [africanos] pintores fosse
pintar a deusa da beleza e a representasse negra, com lábios grossos, nariz achatado e cabelos de
lã...”. Tratava-se da defesa de um relativismo estético, contra o ideal de beleza único. Passou a ser
moda entre artistas das academias de belas-artes europeias a representação do corpo negro como
padrão de beleza.
Apesar disso, no conceito geral a cor escura da pele era considerada feia, assim como qualquer
traço ou sinal que fugisse aos padrões delineados na época. Sobretudo para aqueles que conviviam
com escravos africanos. Assustavam as tatuagens e escarificações que podiam ser observadas
“diariamente nas negras, a isso levadas pela saudade da pátria. Assim, de manhã”, diz o pintor
Jean-Baptiste Debret, “quando essas vendedoras se reúnem na praça de legumes, basta que uma
das mais alegres entoe uma canção africana, balançando-se com gestos específicos, para que todas,
subitamente eletrizadas e frenéticas, no auge do entusiasmo e procurando sobrepujarem-se umas
às outras, lancem mão de tudo o que encontram para se tatuar, desde o simples barro até a cal”.122
Europeus estranhavam as tatuagens, os adornos, pareciam-lhes feias as marcas a ferro do tráfico,
as cicatrizes de chibatadas, as marcas a fogo da posse, assim como os odores, os gestos mais
expansivos, para não falarmos no medo causado por elementos de uma cultura diferente, como as
danças, as cerimônias religiosas ao som de tambores, a alma, enfim, do africano. Mas, entre os
viajantes, foram raros os que não se deixaram atrair por encantos das negras.

Xica não tinha as qualidades exigidas pelo historiador Joaquim Felício dos Santos, que
demonstram um gosto refinado: graça e beleza aliadas a espírito e educação. Enquanto fora
escrava não sabia ler, decerto falava e se comportava como as demais escravas, mas com certeza
tinha uma figura sedutora. A ideia de uma mulher corpulenta deve-se, provavelmente, à imagem
de Xica na maturidade, após ter catorze filhos e viver durante décadas uma vida de fartura, e
sedentária, como era costume senhorial.
Entre as negras filhas de Eva encontram-se no seu gênero verdadeiras belezas. Destacam-se
muitas pela estatura elegante, harmonia e plenitude das formas. Têm a maior parte uma
graça natural e uma majestade inata. Seu andar e seu porte permanecem soberbos e
imponentes, mesmo quando carregam fardos pesados, os quais levam sobre a cabeça. Quando
se tornam mães desaparecem logo tais atrativos. Os seios intumescidos, fortes e rijos tornam-se
moles, murchos, caindo até o umbigo. Acontece frequentemente que amamentam atirando as
tetas por cima do ombro, pois levam as crianças às costas, ou presas ao quadril.123

Gilberto Freyre afirmou que Minas Gerais teria sido a região que, no século 18 e início do 19,
contava entre seus habitantes com as mais belas mulheres do continente africano: as minas e as
fulas. Elogiou também a beleza das escravas da Guiné, de Serra Leoa e do Cabo Verde. As sul-
africanas, por terem “nádegas salientes”, foram descritas como mulheres de verdadeiros “corpos
afrodisíacos”. Se imaginarmos a adolescente Francisca parda a caminhar pelas ruas do Tijuco, com
apenas um pano amarrado nos quadris, os seios nus, o corpo torneado pelo trabalho, viçoso de
juventude, a pele morena e lisa, chegaremos à ideia do corpo afrodisíaco.
Em seus comentários de viagem, Ferdinand Denis descreve um grupo de negros vistos numa
rua do Rio de Janeiro, impressionado com a quase nudez, os membros robustos que evocavam “as
mais belas formas da estatuária antiga”, as tatuagens bizarras, além de uma espécie de harmonia
compassada da voz. E observa as negras:

[...] aqui, são pretas levando a cesta cheia de frutos, que acabam de colher nas quintas de seus
senhores e vão colocar no mercado; outras, como antigas canéforas, balançam uma urna
sobre suas cabeças; mais longe vê-se uma negra crioula ricamente ornada com sua camisa
guarnecida de renda, e com longos cordões de ouro. Esta vai cumprir algum mandado; e se a
nudez de seus pés atesta a escravidão, a indolência de seu caminhar prova quanto ela se julga
superior às suas companheiras, que a olham com inveja.124

Há uma contradição nos depoimentos de viajantes a respeito do aspecto físico das escravas e
forras, divididos entre a repulsa nascida do estranhamento e o fascínio derivado da mesma
sensação. Segundo teoria da época, sobre as noções do belo e do sublime, “a negrura induziria ao
terror a mente de seu observador, por motivos de ordem fisiológica”.125
E se sucedem descrições e sentimentos antagônicos que parecem revelar o embate entre o
desejo e a aversão. “As figuras dos negros são frequentemente bonitas”, dizia o príncipe Adalbert
Ferdinand, da Prússia, “e em geral fortemente constituídas; seus rostos, ao contrário, são quase
sempre horrendos, especialmente os das mulheres.” O viajante Ernst Ebel,126 no começo do século
19, faz digressões também conflitantes:
Na maioria, os homens são bem proporcionados e muitos que vi poderiam servir, sem dúvida,
de modelo para um Antínoo [...] As mulheres são no geral feias e mesmo de corpo deixam a
desejar, tendo forte tendência para a gordura, mas seus braços são comumente bonitos, os pés
e as mãos pequenos, finos até, apesar de não se calçarem. Muitas são tatuadas ou marcadas
no rosto com luas, estrelas e mais sinais característicos. A outras faltam os dentes incisivos de
cima ou limam-nos em ponta, processos esses de embelezamento africanos que as tornam
francamente horrendas aos olhos de um europeu [...] Em casa de Herr Theremin vi pela
primeira vez uma negra bonita, que, abstração feita da cor, poderia servir de modelo para
uma Vênus, tão perfeita era de formas, como no porte e mesmo nos traços fisionômicos.
Todavia, no caráter não difere vantajosamente de suas conterrâneas, por mais bem tratada
que seja pelo seu senhor.127

O botânico Georg Freireyss128 também revela, em seu relato, uma semelhante contradição
interior. Diz que os negros comumente se distinguem por grande beleza de formas, assim como as
negras. Mas critica aquele que queira encontrar entre as negras a Vênus de Médici, mesmo se a
procurasse sem a cabeça. “As negras têm geralmente peitos flácidos e pendentes e somente as
moças muito novas os têm de uma forma que satisfaz nossas ideias de beleza.”
Fosse feia ou bonita, a jovem Xica saberia conquistar o homem amado e o manteria para si.
Mesmo depois de partir para Portugal, o contratador João Fernandes não se envolveria com
nenhuma outra mulher, de forma pública, nem se casaria com uma branca, como era de se
esperar. Xica foi a única mulher de sua vida.
Há algum murmúrio de que ele, chegado ao Tijuco como contratador, teria deixado em
Portugal dois filhos naturais. Mas a suspeita parece totalmente contrária a todo o seu
comportamento em relação aos filhos naturais com Xica da Silva. Provavelmente, esses filhos
portugueses, se existissem, teriam sido incluídos na partilha de bens do homem mais rico do
Reino, a qual incluía primos, sobrinhos, padres ou donzelas desconhecidas.
Fogoso e irritável

O contratador Brant, 1751

O TERCEIRO CONTRATO, arrematado por Felisberto Caldeira Brant, valeu pelo período de
1748 a 1751. Particularmente, Felisberto se associou com seus irmãos Joaquim, Sebastião e
Conrado. Rico, pródigo, fogoso, irritável e ousado, Felisberto se lançava aos desafios sem nenhum
temor. Dono de ricas minas em Goiás, teve de atuar no Distrito Diamantino sob as mesmas
condições dos dois contratos anteriores entregues ao sargento-mor João Fernandes de Oliveira.
Com seu modo um pouco estouvado, Felisberto promoveu grande aumento de riquezas,
negócios e população do Tijuco. Tolerava o contrabando, o garimpo, o comércio, as faisqueiras. A
ninguém perseguia; os dragões não mais patrulhavam a demarcação, criando-se assim uma
atmosfera de liberdade e bem-estar no arraial e nos arredores. Em seu período como contratador,
o intendente adoeceu e seu suplente era homem por demais valetudinário e omisso. Felisberto
detinha todo o poder na demarcação; ninguém ousava sindicar seus atos e era estimado pela
maioria dos moradores. A riqueza da extração se traduzia em luxo na própria região. Foi nesse
tempo que se arraigaram no Tijuco os desejos de alcançar os padrões de vida dos nobres
europeus.
Sabendo o governador Gomes Freire da liberdade que grassava no Serro, remeteu um bando
com ordens de expulsão dos mercadores e vendilhões, e, novamente, todos os forros. Dirigiu-se ao
Tijuco em 1751, encontrando suas ordens descumpridas; nem mesmo haviam sido registradas.
Gomes Freire enfureceu-se e determinou novos, longos e detalhados procedimentos ao
contratador. Levou a efeito uma limpeza na demarcação, expulsando numerosos suspeitos de
comércio e extravio de diamantes, entre outras providências. E partiu, certo de que tudo estava
ordenado. O volume de extração seguia em alta, e os cofres da Coroa, abarrotados.
No ano seguinte um acontecimento levaria à ruína todos os irmãos Brant: o roubo do cofre da
intendência, sem que jamais se encontrassem os autores, nem mesmo algum suspeito. Talvez
fosse um roubo encomendado, de cunho político. O contratador não teve como saldar seu débito
anual com a Fazenda Real. Após esse episódio, ele precisou retirar quatrocentos escravos de suas
minas em Goiás, que não estavam mais dando lucros. Conseguiu uma modificação no contrato.
Desde que falecera dom João V, em 1750, e reinava seu filho dom José I — que cada vez mais
entregava o poder nas mãos do seu ministro de negócios estrangeiros, Sebastião José de Carvalho
e Melo —, tudo se renovava em Portugal — desde o sistema político à administração, do
comércio às ideias religiosas. Mas Carvalho e Melo era um homem de temperamento autoritário
e imprimia seu modo às reformas. Os aliados dos irmãos Brant, em Portugal, tinham sido
afastados do novo governo.
Conta Joaquim Felício um incidente que teria sido o causador final da ruína do contratador
Brant. Chegando de Portugal um novo ouvidor, teria esse homem agido de maneira
inconveniente, considerada mesmo libertina e desrespeitosa à religião, escandalizando o povo do
Tijuco. O caso foi que o ouvidor se interessou por uma bela jovem, parente dos Caldeira Brant.
Desejando chamar sua atenção, lançou ao seu colo uma flor, no recinto da igreja e diante de
inúmeras pessoas, que ficaram indignadas. Ao lado estava Felisberto, que, pálido de raiva,
murmurou algumas palavras ao ouvidor e foi esperá-lo no adro da igreja. Houve então uma
contenda. Na presença do intendente, Felisberto apunhalou o ouvidor; só não o feriu porque o
punhal resvalou num dos botões metálicos da casaca. O intendente chamara um destacamento de
dragões, para prevenir alguma violência. O povo uniu-se a Felisberto e a uma tropa de pedestres
e, quando ia se iniciar um sangrento combate, surgiu um amigo dos Caldeira Brant, com um padre
trazendo nas mãos uma cruz, e assim conseguiram acalmar a turba.
Mas a calma foi efêmera. Logo a população se dividiu entre os adeptos do contratador e os
favoráveis ao intendente que tomara a causa do ouvidor. O intendente passou a perseguir
Felisberto de todas as maneiras, abrindo contra ele processos, fazendo novas exigências nos
trabalhos de mineração e outros artifícios que encontrava. Felisberto relatou as ocorrências ao
governador, o general Gomes Freire de Andrade, que enviou seu interino ao Tijuco. Mas nada
pôde ser feito e o intendente continuou com as perseguições. Formando-se com os inimigos dos
Caldeira Brant, o ouvidor levantava diversas acusações contra Felisberto: que trabalhava com um
imenso excedente de escravos nas lavras, sem os declarar; traficava diamantes, mandando apenas
as pedras miúdas e guardando para si as maiores; que negociava com garimpeiros e
contrabandistas; que contratara um lapidador flamengo para não mais mandar lapidar as pedras
em Portugal, como era obrigado; e que protegia facínoras. Dizia o ouvidor que a poderosa família
Brant era temida, obedecida cegamente por todos na demarcação, não respeitava o poder real e
conspirava pela independência do Tijuco, planejando repartir as lavras diamantinas entre o povo.
O ministro Sebastião José de Carvalho acatou as denúncias e, não tendo provas para uma
acusação legal, encontrou um pretexto nas minúcias do contrato, dando o contratador como
falido. Mandou prendê-lo, em segredo, ordenando o confisco de seus bens, documentos, cofre e
tudo o que pudesse servir de prova para incriminá-lo.

*
Felisberto fazia preparativos para receber o governador. Mesmo supondo que poderia ser
preso, ocultava seus temores usando de sangue-frio, determinado a enfrentar a ameaça. Saiu com
os irmãos ao encontro de Gomes Freire assim que soube de sua chegada a Vila do Príncipe. No
alto de uma colina, logo depois do ribeirão do Inferno, avistaram a numerosa força do general,
envolta em poeira, cavalgando a toda velocidade. Dizem os cronistas que o cavalo de Felisberto,
sempre fogoso, naquele momento caiu, derrubando o cavaleiro, que se ergueu, pálido, e disse aos
companheiros saber que aquela queda era prenúncio de uma desgraça que vinha ao seu encontro.
Seguiram em silêncio e foram tratados secamente pelo governador, que após um breve diálogo
deu a ordem de prisão. Felisberto disse que não iria preso sem saber de que o acusavam. Os
dragões o cercaram, desembainhando suas espadas, e ele não teve como resistir. Foi levado para
os cárceres de Portugal, enquanto lacravam suas casas e faziam o confisco de todos os seus bens.
4
Escrava senhora
Chuva negra

Acaiaca, a lenda do diamante

“OH, MEU DEUS, estareis fazendo isso para provocar a minha desgraça?”, diziam, quando
encontravam um grande diamante. Essa gema era cercada por diversas lendas. Joaquim Felício
dos Santos escreveu uma novela intitulada Acayaca, que narra a fundação mitológica de
Diamantina, dando as razões secretas das tragédias do Serro por meio de um mito indígena
pertencente aos puris. A lenda gira em torno de uma frondosa árvore cujos galhos chegavam a
tocar o céu: uma acaiaca, também chamada de acaiacá, cedro-cetim, ou cedro-rosa. Erguia-se o
majestoso exemplar dessa árvore no alto do Ibitira, a Serra Fria, ao lado do Tijuco.
Diziam os índios que aquela árvore tinha sido abrigo para o primeiro casal povoador, os pais
dos puris, quando o rio Jequitinhonha com fúria devastadora inundara a região. À sombra da
frondosa copa os puris faziam seus conselhos e buscavam forças para repelir os inimigos.
Acreditavam os seus descendentes que, se a árvore fosse morta, toda a tribo pereceria — e se
preservavam guardando esse segredo. Mas, por meio de um ardil, o mameluco Tomás Bueno, o
Pirapiranga, revelou aos brancos esse mito puri. Almejando invadir aquelas terras ricas em ouro,
onde, pela força dos guerreiros, eram impedidos de entrar, os exploradores decidiram tirar
proveito da crença indígena.
No dia da tabira, casamento do guerreiro Iepipo com a índia Cajubi, a flor de manacá,
celebravam uma grande festa um pouco distante da árvore, às margens do Ipiacica. O povo
estranhou que o cacique Cururupeba, pai de Iepipo, retirara-se dos festejos, indo se isolar numa
gruta. Ele ouvia rumores longínquos, e cismava, em seu alheamento. Quando escutou um pio de
mocho, deu o grito de alarma, encerrando o festim. Ouviu-se um estrondo a ecoar pelas serras,
tão forte que parecia o chão se abrindo.
Correram os índios ao alto do Ibitira, temendo o que veriam. Ao chegar, encontraram a
acaiaca no chão, cortada a machadadas por homens brancos. Furioso, um guerreiro deu o grito de
guerra. O cacique Cururupeba agastou-se, pois era ele quem devia ordenar os combates. Afastou-
se, deixando os guerreiros e todo o povo. Recolheu-se em seu refúgio e ficou a pensar. Sem o
cacique, desesperados, os puris se desentenderam de tal forma que guerrearam entre si.
Quando Cururupeba retornou, viu seu filho e Cajubi, a flor mimosa da tribo, e seus outros
filhos, e parentes, suas mulheres, seus guerreiros, seu povo todo estendido no chão, morto.
Desesperado, em pé sobre o tronco caído, com as mais duras palavras lançou uma maldição sobre
os brancos. Ateou fogo à árvore, lançando-se nas chamas. Seguiu-se a mais violenta das
tempestades, com relâmpagos, trovões que reboavam com fúria, raios, e da árvore calcinada
saltavam misteriosos carvões, que iam se entranhando pela terra, pelos leitos e margens dos rios,
nas pedras. No outro dia, quando os brancos subiram a serra, encontraram apenas cinzas.
Então apareceram os diamantes nos arredores e nasceu a tradição popular de que eram restos
da árvore carbonizada, que traziam em si a maldição do cacique. Seriam causa de grandes
opressões e sofrimentos a todos os brancos que ali habitassem. Realmente, o processo de
colonização naquelas montanhas foi dos mais violentos, opressores e sofridos de todo o Brasil.

Os diamantes são quase míticos. Objeto de profundo desejo, aparecem pela história nos dedos
reais, nas coroas, em mantos de rainhas, nas suas joias mais valiosas. Pedra de maior brilho e
dureza existente entre os minerais naturais, reúne ideias de perfeição: eternidade, limpidez,
esplendor, dureza extrema, reflexos vivos e a capacidade de produzir tantas flamas quanto forem
as facetas. O diamante incolor é considerado a primeira das pedras preciosas. Lapidado, oferece
belos efeitos de luz em virtude dos valores elevados de seu índice de refração e de seu poder
dispersivo.
Existem imensos e puríssimos diamantes, célebres pela perfeição e por sua história: o Grão-
Mogol, que pertenceu ao xá da Pérsia no século 16 e em seguida desapareceu; o Orlov, de
Catarina II; o Sancy, adquirido por Henrique III; o Regente, de propriedade do duque de Orléans,
regente de França, considerado o mais puro diamante do mundo, tendo 135 quilates; o mais belo,
o Estrela do Sul, encontrado por uma mulher negra em Bagagem, Minas Gerais, em 1853, e
vendido a um paxá do Egito; o Koh-i-noor, da rainha Vitória; e o Cullinam, tido como o maior de
todos, encontrado no Transvaal, em 1905, e oferecido a Eduardo VII.

O diamante do Serro, ao contrário do africano encontrado na rocha matriz, era retirado das
encostas de morros, ou do cascalho nos rios. Cristalizava-se na superfície da terra e não em
veeiros entranhados pelos montes. Não apresentava base ou crosta que lhe servisse de assento
como matriz para a cristalização. Seu formato mais comum era em pião, pontudo nas
extremidades, levemente triangular, tendo todos os lados faceados e lisos, o que indicava uma
cristalização dispersa, solitária, não continuada. Criando-se na superfície da terra, ia sendo
conduzido, ao longo do tempo, por aluviões das águas e movimentos da terra, até os rios, onde
mais era encontrado. Mesmo nos picos das serras e em planícies elevadas, despojadas de cursos
d’água, os diamantes do Serro jaziam à flor da terra.
Desde que apontava a barra do dia, já se viam nas lavras os escravos com as varas de sondar e
os prumos, verificando as possibilidades dos terrenos. Os fiscais mantinham-se atentos,
controlando o momento em que os escravos começavam a encontrar os satélites de diamantes,
nos cascalhos que ficavam sob húmus vegetal ou sob argila, ou debaixo de camadas de areia de
inundações. Uma pequena pinta de ouro podia anunciar a presença do diamante.
O modo de retirada do diamante era o mesmo de se extrair ouro, o único conhecido por
aqueles mineradores improvisados, e foi aplicado desde que começaram a apanhar os primeiros
diamantes até o final do século 18. O sistema era basicamente este: jogava-se a terra num lavador
em forma de canoa. Enquanto a água escorria continuamente sobre essa terra, um escravo a
mexia com uma pequena enxada pontuda, o almocafre. A terra, mais leve, ia escorrendo com a
água e o ouro, mais pesado, ia se assentando no fundo do lavador. No fundo se depositavam
também as pedras mais pesadas e os satélites nos quais se encravavam diamantes. Nessa ação de
escorrer a terra na água, muitas pepitas menores se perdiam, assim como os diamantes menores.
O trabalho se repetia. De manhã bem cedo sondavam com uma vara os locais à beira do
córrego ou rio. Determinado o local de cata, levavam para lá as ferramentas necessárias. Erguiam
um rancho para fazer as refeições, dormir e guardar seus instrumentos. Cobriam com um teto de
palha o lugar de cata, para proteção contra o sol. Abriam uma vala para levar a água até onde se ia
fazer a lavra. O escravo trabalhava com os pés dentro da poça, vestido com um calção grosso ou
uma simples tanga de pano rude. Os que carregavam material, ou quebravam pedras com
almocafres especiais para esse fim, trabalhavam ao sol.
No relatório enviado a Lisboa em 1735129 há uma boa descrição do processo de extração dos
diamantes, dando noção das dificuldades e sofrimentos que enfrentavam os escravos e seus
patrões, quase sempre inexperientes nesse tipo de mineração:

[...] a forma de se tirarem diamantes é minerando-se nestes rios e ribeiros, na mesma forma
em que se minera o ouro destas Minas, para se tirar ouro, dando-se catas, amontoando-se
cascalho que, depois tomado nas bateias se vai lavando com muito vagar e vigilância porque
não escapem alguns. Somente nos cascalhos se acham diamantes, em veios de águas,
barrancos e tabuleiros dos rios, ribeiros e córregos e se estende a pinta em manchas até onde
chega o cascalho e fora dele não se acha algum, posto que nem em todo o cascalho se acham,
porque se dão muitas catas falhadas. Não há sinal algum certo para saber se há diamantes no
cascalho. É sinal sim, infalível, de os não haver, não aparecer alguma faísca de ouro na
bateia e é também experiência certa que quanto mais ouro aparece mais diamantes houve, e
se acham a respeito da grossura do ouro é o tamanho dos diamantes, de sorte que onde o ouro
é excessivamente miúdo, o são também os diamantes.130
Nas faisqueiras, que eram pequenas minerações, viam-se poucos faiscadores a minerar,
avulsos. Nas grandes minerações, como as dos contratadores, trabalhavam centenas de escravos,
um ao lado do outro, cada qual com a sua “canoa”, remexendo a terra. Diante de cada dois
escravos postava-se um fiscal armado, atento a qualquer movimento suspeito, e recolhendo os
diamantes encontrados.
Quando um escravo achava um diamante grande, acima de dezoito quilates, seus
companheiros o coroavam com uma guirlanda de flores silvestres e num alegre cortejo o levavam
ao caixa, que lhe concedia a carta de liberdade e o direito de faiscar por conta própria. Se a pedra
tinha mais de oito quilates, o escravo ganhava duas camisas, um agasalho, um chapéu e uma faca.
Aos diamantes davam nomes que revelavam uma peculiar linguagem: búzio, o de bom peso;
avoador, o mui pequeno; estrela era o diamante de boa água; ao defeituoso chamavam bisborna; ao
arredondado, natura; o triangular era chapéu de padre; com fendas, diziam jaçado; o que aparecia
como se já fosse lapidado pela natureza chamava-se lambreado; em pirâmide era o pingo d’água;
bala tinha a forma de um projétil de carabina; e tantos mais.

No tempo dos contratos os diamantes eram recolhidos pelo feitor num saquinho de couro, que
o levava ao fim do dia para a Intendência. Diante de funcionários graduados, pesavam-se as
pedras e as separavam em lotes. Guardavam-nas em saquinhos de seda e as trancavam num cofre
com três fechaduras, ficando cada chave com uma autoridade. A produção anual era posta numa
arca forrada de marroquim vermelho, presa por tachas douradas. Essa arca seguia para o Tesouro
Real, no Rio de Janeiro, levada por um homem da maior confiança do intendente, que viajava
escoltado por um destacamento de dragões fortemente armados. Soldados da cavalaria abriam o
séquito, seguidos por pedestres que ladeavam a arca, que ia sobre uma mula, coberta por uma
manta com o brasão real. À retaguarda viajavam o caminhante e o comissário, que não perdiam
de vista o cargueiro. Mais soldados da cavalaria fechavam a tropa.
No Rio de Janeiro os diamantes eram embarcados em navio de guerra até Lisboa. As melhores
gemas ficavam para a Coroa; o restante vendia-se em lotes, em períodos determinados, para não
haver excesso de oferta e desvalorização das pedras. Os compradores oficiais representavam as
casas mais conceituadas do ramo, em Amsterdã e Londres. Dessas cidades, as pedras eram
distribuídas pelos mercados mundiais, sendo a Rússia e a Turquia os maiores compradores do
diamante do Serro no século 18.
Judeus em Amsterdã participavam como receptadores do contrabando de diamantes
brasileiros. Os Hoppe, por exemplo, compravam por quarenta e cinco francos o quilate do
diamante bruto e o vendiam a cento e noventa e sete francos, lapidado. Apuravam, anualmente,
conforme contas feitas em 1858, vinte e cinco milhões de francos, muito mais do que a Coroa de
Portugal.
No mundo todo as pedras eram avidamente desejadas. No Oriente, em países de maiores
conflitos e êxodos de população, usava-se o diamante como poupança, por sua extrema facilidade
de transporte, sua natureza praticamente indestrutível e a possibilidade de ser escondido numa
bainha de roupa, numa aba de chapéu ou no próprio estômago de um fugitivo. No Brasil era
demonstração de prosperidade, mas bastante acessível, “como nas cidades atlânticas dos Estados
Unidos, onde todo mundo pode ostentá-los, e até garçons de hotel e cantores negros usam
diamantes em anéis, botões de camisa [...]”.131
Junto à Horta Seca

A rotina de estudante e o quarto contrato, 1752

NUMA VIDA DIFÍCIL, longe dos confortos de casa, do acolhimento familiar, em jornadas de
estudos intensos noites adentro, sofrendo as friagens de Coimbra, a alimentação escassa, as
minuciosas proibições, o jovem João Fernandes amadurecia. O fato de ser brasileiro representava
um obstáculo a mais, que o levava a se associar a outros estudantes da colônia, especialmente os
que tinham origem na região mineira. Assim, podiam defender-se das violências que ocorriam nos
corredores das repúblicas, nas ruas de Coimbra, e também se ajudar mutuamente nas tarefas.
O estudo das leis, que exigia grande esforço de memória e disciplina, era feito em quatro anos,
nos quais os alunos aprofundavam-se nas Instituições de Justiniano, no direito civil e no direito
canônico. A formação no cânon representava prestígio e honra, e era a preferida dos filhos de
homens ricos sem título de nobreza, por ser o caminho para cargos elevados no clero ou na
magistratura. Em 1748, João Fernandes passou por exame público em cerimônia de grande
solenidade, e por exame particular. Aprovado em ambos, os sinos badalaram, saudando-o, e, após
uma missa na Capela Real, o jovem recebeu o barrete. O grau de bacharel foi comemorado com
trombetas e estridentes charamelas.
Seguindo o plano de ascensão, o sargento-mor adquiriu para o filho a honraria de Cavaleiro da
Ordem de Cristo. Após solenidades ainda mais cerimoniosas, João Fernandes passou a ter direito
de usar o hábito branco e a cruz da Ordem, signos de grande distinção. Determinado, então, a
seguir carreira jurídica, ele requereu licença para advogar. Em 1752, com apenas vinte e quatro
anos de idade, conquistou o título de desembargador, sendo nomeado para o Tribunal da Relação
do Porto.

Com a prisão de Felisberto Caldeira Brant foi aberta, então, nova concorrência para o contrato
da extração diamantífera, arrematado mais uma vez pelo sargento-mor João Fernandes de
Oliveira, com vigência de 1753 até 1758, e sob as mesmas condições gerais dos contratos
anteriores. Novo bando foi proclamado, reafirmando as proibições que vigoravam na
demarcação.

Desde 1751 no Reino, o sargento-mor João Fernandes de Oliveira tentava ajustar suas contas
com a Coroa, com seus parceiros nos contratos diamantinos, e negociar suas dívidas, enquanto
cultivava relações com o novo Poder, em especial com o ministro Sebastião José de Carvalho.
Residia o sargento-mor com a segunda mulher, dona Isabel, gozando de todos os confortos da
cidade grande europeia, numa casa junto à Horta Seca, ladeada de casarios da nobreza. Já de mais
idade, cansado, decidiu ficar em Lisboa e, logo após a renovação do contrato, determinou a seu
filho, o jovem desembargador João Fernandes de Oliveira, que desistisse de sua carreira
eclesiástica e jurídica e voltasse para o Brasil, a fim de cuidar pessoalmente da exploração dos
diamantes no Tijuco.
Mau prenúncio

O jovem contratador, 1753

DE NOITE, MORADORES SÃO ACORDADOS por gritos da escrava Arcângela, que bate as costas
na porta da igreja de Santo Antônio, blasfemando contra os santos. Alguns tomam como um mau
prenúncio.
Mas o arraial amanhece em festa; canhões dão salvas a cada hora e os sinos das igrejas tocam dobres
musicais. A praça foi enfeitada com ramos, algumas casas têm as sacadas ornadas com flores e, de
tempos em tempos, moradores vêm vigiar a chegada do novo contratador. Janelas de sobrados se
empavesam de colchas coloridas, mantéis, finos brocados ou panos da costa. A população aguarda,
ruidosa, vigiada por pedestres da Intendência, comprando quitutes e limonada às negras de ganho. No
dia anterior chegou a notícia de que João Fernandes já se encontrava a légua e meia do Tijuco, em
Ressaquinha de Fora, e chegaria ao entardecer.
Em rodas, homens discutem a situação instável: o novo intendente já está no arraial, mas ainda
não tomou posse. É o desembargador Tomás Robi de Barros Barreto. Comenta-se que veio com ordens
do governador para manter uma relação pacífica com o novo contratador, pois os desentendimentos
entre o intendente anterior e Felisberto Caldeira Brant causaram graves prejuízos aos cofres reais.
Conhecido de alguns moradores do Tijuco, que dizem ser o novo intendente um poeta da Academia dos
Seletos, Robi aguarda na Casa do Contrato a chegada de João Fernandes, conversando com os homens
mais importantes do arraial, sobre poesia, sobre o Rio de Janeiro e, principalmente, sobre o desafio que
aguarda o novo contratador. O contrato vinha sendo administrado por Álvares Maciel, um velho amigo
do sargento-mor, e dizem que muito mal administrado. Especulam como será a reação de Maciel ao
saber que o herdeiro irá substituí-lo.
Um dos presentes informa que esteve com parentes de João Fernandes em Vila Rica e soube que o
desembargador traz uma procuração paterna para assumir o comando, no que é apoiado pelo sócio do
contrato. Comentam que o administrador Maciel se recusa a entregar tão grande responsabilidade a um
rapaz inexperiente, de apenas vinte e seis anos, que vivia nas almofadas das casas ricas de Lisboa,
estudando para ser padre. Decerto um faceira que mal saberia distinguir um cristal de um diamante.
*

João Fernandes faz o caminho já nos arredores do Tijuco, quando encontra um minerador e alguns
escravos que trabalharam para seu pai. Apeiam, o minerador comenta sobre a figura de homem que
João Fernandes agora apresenta, lembra alguns episódios de sua infância e faz um relato dos problemas
que ocorrem na administração de Maciel. O maior de todos é que as lavras designadas no novo contrato
como as que deviam ser exploradas já foram exauridas pelos homens de Felisberto, irregularmente, pois
eram antes vedadas à mineração. Tanto as lavras para o tempo das águas, no ribeirão do Inferno, no
Jequitinhonha da Lavra do Mato, até a barra do Inhacica Grande, como as lavras para o tempo da
seca, no rio Pinheiro e nos córregos Caeté-Mirim e Quilombolas, têm as suas vertentes e gupiaras
dissipadas. Sugere que João Fernandes busque novos locais ao longo dos rios Pardo e Jequitinhonha,
onde haverá chances de melhores extrações. João Fernandes incumbe o homem de fazer sondagens nesses
rios e levar-lhe um relato o mais depressa possível. Despede-se e segue caminho.

Xica está à janela da casa de seu senhor, entretendo-se com o movimento na rua, quando ouve um
murmúrio geral. A gente vai pouco a pouco engrossando até a entrada do arraial, defronte à igreja do
Rosário. Ouve-se um grito avisando que o contratador chegou. Nesse instante, roqueiras de ferro, que
bem arremedam a artilharia, principiam a atirar em salvas. As mulheres nas janelas também gritam
vivas e batem palmas.
O desembargador João Fernandes sobe a ladeira, montado num fogoso cavalo. Com a capa
empoeirada, depois de uma viagem de mais de um mês sobre o animal, vem sem demonstrar cansaço,
seguido de escravos armados, alguns senhores e, atrás, a tropa, com uma farta bagagem. À retaguarda,
uma escolta de mais homens armados. Percorre a rua sob uma chuva de pétalas perfumadas lançadas
das janelas, onde as moças disputam um lugar para ver o mancebo português, cuja figura atraente já
desperta comentários excitados. Ele tira o chapéu para cumprimentar os moradores e seus cabelos
precocemente grisalhos cintilam ao sol do entardecer.
Muitos o conhecem de menino, quando vinha da fazenda da Vargem a fazer visitas com o pai, ou
compras, com as irmãs, ou a alguma cerimônia religiosa. Saudado por vivas da população, o jovem
apeia diante da igreja, onde o espera toda a clerezia da terra. Na igreja há um te-déum com o concurso
de imenso povo. Acabado, o jovem desembargador torna a cavalgar, até a Casa do Contrato, onde o
esperam.
Tira a capa, dando-a ao escravo que lhe vem atrás. É uma figura realmente marcial e bela, com
espada e pistola à cinta, mas ares refinados da nobreza. Moradores o cercam, cumprimentam-no,
conversam, pedem notícias do sargento-mor e da madrasta Isabel. Logo chegam outros, até que em certo
momento ele se vira e Xica vê seu rosto, tendo a impressão de que também ele a vê, à distância.
É apenas a ele que destaca, na multidão, como se estivesse cercado de um halo de luz. O homem é
jovem, atraente, rico, poderoso, respeitado. O coração de Xica bate acelerado, suas mãos esfriam, de sua
fronte escorrem gotas de suor, enquanto o corpo parece febril. Ela mal consegue respirar, ouvir ou
murmurar alguma palavra. Sente as pernas sem forças para mantê-la em pé, está paralisada por algo
que não sabe se vem de fora ou de dentro de si.
João Fernandes é levado pelo futuro intendente para o interior da Casa do Contrato, seguidos de
inúmeras pessoas, que disputam a primazia de entrar. De lá soa então uma melodia tocada por cordas,
em honra ao novo contratador.

Manuel Pires Sardinha prepara-se para ir ao banquete dessa noite, em comemoração à chegada do
jovem desembargador. Recebeu o convite na qualidade de juiz ordinário, cargo para o qual foi
recentemente nomeado. Acredita, como tantos outros moradores, que esse jovem, apesar de sua boa
compleição física e seu preparo nas universidades, será incapaz de tão grande responsabilidade. Nada se
ensina em Lisboa sobre a crua realidade mineira; os cânones, o latim, o grego, a filosofia servem mais
para o brilho nos salões do que para a lama das lavras. E faz comentários sobre as irregularidades que o
pai, o sargento-mor, cometeu nos contratos anteriores, enchendo os bolsos de diamantes extraviados e
debandando com a riqueza para consumi-la em Lisboa. Agora manda o padreco almofadinha para
terminar o serviço de devastação. Acredita mesmo que o título de desembargador lhe foi comprado pelo
pai, pois, fazendo os cálculos, o rapaz não tem idade para tal honradez.
Reconhece que o povo exagera ao dizer que o sargento-mor utilizava quatro mil escravos na
extração, trabalhando clandestinamente e em locais proibidos. Manuel Pires foi procurador do sargento-
mor Fernandes de Oliveira, no segundo contrato. Oliveira era seu fiador, amigo, e depositava em si toda
a confiança. E o médico também o considerava e lhe fora sempre leal. Mas algo o sargento-mor fez de
desonesto, para enriquecer tanto em tão pouco tempo, e Manuel Pires sabe muito bem o quê. Diziam
que agora habita uma das mais suntuosas residências de Lisboa, tendo sua segunda mulher o colo sempre
ornado com os diamantes mais puros, belos e pesados. Comem com talheres de ouro e distribuem favores
e créditos à fidalguia, para tê-la em suas mãos.
Xica o ajuda a vestir-se, ouvindo com atenção tudo o que se refere ao recém-chegado, fazendo uma
pergunta aqui e ali, cuidando para não despertar suspeitas quanto ao seu interesse. Viu que João
Fernandes não chegou acompanhado de nenhuma mulher e pensa se seria solteiro ou se deixou esposa e
filhos em Portugal. De toda forma, estava sozinho. Nem mesmo trouxe escravas para seu serviço. Pensa
em pedir ao médico que a leve ao banquete, mas sabe o absurdo desse pedido e se contém. Sai ao balcão
para olhar Manuel Pires a seguir pela rua, levemente trôpego. Sente uma terrível melancolia
comparando esse homem ao viril jovem português que arrebatou seu coração com um simples virar de
rosto. João Fernandes a teria visto? Ela quer se aproximar dele e sente-se uma tola, sonhando com algo
que jamais poderá alcançar.
Passa a noite ouvindo a música que as janelas da Casa do Contrato despejam nas ruas silenciosas da
cidade, as risadas, uma ou outra voz, tintilares de cristal, de talheres. Soa a interpretação da orquestra
de pardos que veio de Vila Rica para a ocasião, tocando músicas lentas, cheias de notas, complicadas e
difíceis de acompanhar. Imagina-se ali, bailando nos braços de João Fernandes, e repete seu nome vezes
seguidas. Nua em seu quarto, recebe carícias nos braços, no seio, ele diz palavras apaixonadas, joga-a na
cama com ardor e tudo o mais.

No dia seguinte, à beira do rio, o assunto das escravas é o mancebo. Mas Xica se cala, nada comenta
sobre suas impressões e sentimentos. Ouve, atenta, os relatos sobre a figura do jovem e sobre o banquete
da noite anterior, que as escravas escutaram pela manhã, de seus senhores que estiveram na festa. Dizem
que João Fernandes estava muito garboso, uma beleza de homem, que era gentil para com as mulheres,
e descrevem sua vestimenta: uma cabeleira trançada em rabicho, entrelaçada com cadarços de ouro,
arrematada por um laço de seda.
— Ai, mana, aquele casaca!
A camisa de folhos, com colarinho baixo, dizem que estava amarrotada, assim como a gravata de
lenço toda rebordada; ele precisa de uma aia que cuide das suas roupas. O colete que usava era do mais
luxuoso cetim, arrematado por preciosas abotoaduras, e a casaca de veludo tinha cores jamais vistas, e
portinholas, dobrões largos... O calção, apertado por fivela cravejada de diamantes, marcava umas
partes bem fornidas, no meio das pernas, e as escravas riem. As pernas forradas por meias de seda pérola
eram duras e deliciosas, e aqueles sapatos, pontudos, e aquele relógio com cadeia de cornalina, e o florete
de bainha de ouro...
— O homem é uma verdadeira adaga de gancho!
Vão esfalfar aquele cabrão na cama até acabar com seu garbo, vão lhe sapecar umas dentadas de
lascar, fazer aquele marotinho se ajoelhar e uivar, mesmo se tivesse vindo de batina, como ouviram
comentar nas casas dos senhores que tinham sido os estudos do rapagão. Dizem que não é casado, e que
as brancas do arraial, aquelas sacas de trampa, estão assanhadas para conquistar o nababo, ensaiando
posturas, trejeitos, tomando seus banhos de suco de limão, fazendo esfregação no corpo e areando os
dentes com fumo de rolo.

Instalado na Casa do Contrato, em aposentos modestos para seus costumes, mas confortáveis, João
Fernandes recebe o minerador com o resultado de suas investigações. O homem confirma a exaustão das
lavras determinadas no contrato para o tempo das águas e sugere que se lavre no rio Paraúna, da barra
do Andrequicé para cima, nas suas vertentes, tabuleiros e gupiaras, assim como no córrego da Canjica.
As lavras de tempo seco, no rio Pinheiro, no Caeté-Mirim e no Quilombolas, estão vivas. Na companhia
desse homem, João Fernandes passa a frequentar a região coberta por seu contrato. Logo está a par das
minúcias do que ocorre nas lavras, o que não difere muito do que se passava na sua infância, quando
vivia na fazenda da Vargem e percorria, com o pai, os serviços de mineração nas terras da família.

No banho quente preparado por seu escravo de confiança, o Cabeça, João Fernandes pensa nas
mulheres do arraial. São as mais formosas que jamais viu, e em vestimentas e adornos não ficam atrás
das que ele conheceu em Portugal, toaletes notavelmente belas, cada pescoço a resplandecer de
diamantes. Dançam graciosas e são bem mais soltas dos quadris e ombros do que as lusas. Mais
decotadas, mais morenas na pele, mais sedosas e sedutoras. Porém, nenhuma o atraiu como as pardas
que ele avistou de relance, sob algum pano que mal lhes cobria os seios empinados, as curvas acentuadas
na cintura. Todas escravas, descalças, apesar de estarem cobertas de arrecadas, memórias, colares e
pulseiras; ele sabe que as escravas no Tijuco se adornam com joias presenteadas por seus donos e amantes.
Apenas escravas enrolam daquele modo os panos coloridos nos quadris, deixando os seios à mostra. Essas
mulheres são as que mais arrastam seu olhar e excitam seu desejo. Lembra-se das escravas que cuidaram
de si na meninice, cheirosas, macias, dedicadas, alegres. À flor de suas mãos, a carne tronchuda de uma
coxa, a polpa firme de um peito, a pele rija e suave como os pêssegos dos coutos de Alcobaça. Chama o
Cabeça e o instrui a averiguar sobre a compra de algumas negras de dentro. Quer as mais caras, as mais
prendadas.

Assim que o novo intendente toma posse no cargo, João Fernandes apresenta-lhe a procuração do
pai para que o represente diante do contrato e solicita que destitua o administrador Maciel. Orientado
pelas ordens régias, de cultivar boas relações com os contratadores, Robi encontra uma maneira de
afastar Maciel: suspende o contrato. Alguns dias depois, extermina-o do distrito, acusando-o de má
administração, e renova o contrato, registrando os poderes do novo contratador João Fernandes. Ele
mesmo suspeita das possibilidades de êxito desse rapaz solteiro, de boa vida e costumes; no entanto,
seguirá as ordens de el-rei e do governador.

*
Agripa Vasconcelos informa que João Fernandes, ao chegar no Tijuco, instalou-se
parcialmente na ala residencial da Casa do Contrato, mas logo depois passou a residir numa casa
que pertencia a seu pai, na rua Lalau Pires. Ali fez instalação de móveis de jacarandá da Bahia e
louça de gente rica, roupas de cama brancas de linho inglês, encheu a casa de mucamas e ladinas,
assim como de escravos às ordens. Logo após sua chegada passou a visitar as catas, assistir à
arranca de cascalhos e às lavagens, informa o médico e escritor mineiro, nascido em 1900.
Na posse de seu cargo, João Fernandes solicitou ao intendente Robi que fizesse vistorias nos
locais destinados a lavras pelo contrato, a fim de que testemunhasse estarem exauridas aquelas
terras. Enviou uma petição ao vice-rei, o conde de Atouguia, no Rio de Janeiro, relatando os
problemas encontrados e solicitando a abertura da exploração dos rios Pardo e Jequitinhonha.
Demonstrava, logo no começo de sua administração, ser experiente dos problemas que afetavam
a extração de diamantes no Serro.
Sonhos torpes

Encontro de Xica e João Fernandes

FRANCISCA PARDA ANDA DIFERENTE, suspirando, calada, recolhida em pensamentos, todos


notam. Não revela seu segredo de amor nem mesmo a Rita, sabe que essas moças todas têm a boca rota,
gostam de murmurar e trocar confidências, de forma que os segredos deixam de ser segredos. Além disso,
acha-se uma tonta, com tão grandes pretensões amorosas. Não quer ser motivo de mofas, nem chamar
uma atenção séria sobre o homem.
Passa, sempre que pode, na frente da Casa do Contrato, apenas para rondar e, quem sabe, ver João
Fernandes atrás de uma janela. Se ouve cascos de cavalos, corre à janela, com o peito atarantado. Ao
amanhecer, vai ao balcão esperar a passagem do contratador a caminho das lavras; faz que está batendo
um tapete, e bate com força, para tentar atrair os olhares do contratador. Parece-lhe às vezes que ele a
olha, mas em seguida tem dúvidas sobre sua própria observação, pode ser apenas o desejo de ser vista.
João Fernandes trabalha incansavelmente, acompanhando os serviços, sempre seguido de um bando
de mineradores e escravos armados. Também cultiva amizades no arraial, ocupando as noites em bailes,
banquetes ou em reuniões com os poderosos locais. Está a apadrinhar crianças filhas de gente branca e
rica. Entra na igreja com sua casaca de droguete azul, meias de seda, a cruz da Ordem de Cristo ao
pescoço ou trajando a beca de desembargador do Tribunal da Relação do Porto que o faz ainda mais
imune e distante.
De longe, Xica vigia seus passos, tramando todas as astúcias para se aproximar. A paixão, em vez de
acalmar com os dias, parece um fogo que se alastra. Xica se recusa a qualquer toque de Manuel Pires,
não quer deitar-se com ele, alega dores, enjoos, cansaço e instiga-o a procurar Francisca crioula. Sozinha
no catre da senzala deleita-se pensando nos tocamentos, nos jogos de abraços, no amor lascivo. Talvez
possa confiar em Francisca crioula, ou em Rita, para enviar uma carta de amor, mas nem sabe escrever.
Pensa em se enfeitar para quando sair à sacada, quem sabe desperte a atenção de João Fernandes e o
atraia, mas teme despertar as suspeitas de seu senhor. Adormece ansiando por sonhos torpes.

*
Reconforta-a cuidar do filho, que cresce bonito, cheio de vigor, solto pela casa, fazendo exigências,
sempre vestido como um sinhozinho e tomando os modos educados do pai, que pensa para ele uma
carreira, talvez de leis; será um juiz, como o pai, já que é tão branquinho. Nunca lhe permitirá a
medicina, tão desacreditada e confundida com feitiçarias reles de escravos. O pequeno Simão já sabe
falar e caminhar. E Xica trabalha distraída, quebra potes, queima a mão no tição, esquece as tarefas.
Só não descuida do filho.
Manuel Pires chega um dia em casa cabisbaixo, agastado. Chama Xica para lhe dizer algo. A
escrava pensa que vai ser castigada por suas recusas e prepara pretextos, quando o médico lhe diz que a
vendeu. Manda que prepare sua trouxa de roupas, leve suas joias — tudo, menos o menino.
Desesperada, Xica pensa que será levada do arraial e não suportará ser separada do filho, nem irá
para longe do balcão de onde vê João Fernandes. Lembra ao médico sua promessa de dar-lhe a alforria
e comprar-lhe uma casa, para não viverem mais amasiados porta adentro. Pergunta para quem foi
vendida e o esculápio, agora juiz, diz que a vendeu ao novo contratador. Xica mantém a calma,
embora queira explodir em gritos, e diz que só irá se levar o pequeno Simão. O médico acaba por
concordar; o filho não viverá mais na sua companhia, mas estará por perto, e mesmo, ele terá motivos
para entrar na Casa do Contrato e se aproximar das autoridades que ali habitam, ou frequentam, o que
lhe parece uma boa oportunidade. Explica a Xica que a vendeu, e por preço muito acima do que vale,
por haver se comprometido no termo da visitação a se separar do trato ilícito. Com o coração batendo
feito almocafre na pedra, ela corre a recolher seus trecos e os de seu filho, mete a trouxa na cabeça,
despede-se do médico e das escravas e se dirige para a Casa do Contrato, de mãos dadas com Simão.
O escravo Cabeça a recebe com uma estranha curiosidade e gentilezas. Ordena que Xica não vá para
a cozinha; será aia de câmara do contratador, servindo a ele somente. Dá-lhe um saquinho com moedas
e manda que compre uma boa veste na roupa-velheira, se banhe, se vista com decoro, deixe o menino
com uma determinada escrava que está a serviço na cozinha, e se dirija aos aposentos do seu novo senhor
a fim de preparar-lhe o banho quente para assim que ele chegue das lavras, ao anoitecer.

Xica prefere guardar as moedas. Banha-se, perfuma-se, veste sua roupa mais decente, entrega Simão
à escrava que trabalha na cozinha, fazendo todas as recomendações, e é levada por Cabeça ao quarto de
seu senhor. Um pouco trêmula, entra no imenso aposento, onde predomina uma cama luxuosa, com
dossel trabalhado, coberta de lençóis alvos, com travesseiros, manta, véu de mosquiteiro. Tudo está
desarrumado, há roupas jogadas por todo lado, sapatos, toalhas úmidas. Xica recrimina Cabeça por
tanta desordem e numa atividade febril deixa o aposento arrumado, tomando as camisas em suas mãos
como se fossem sagradas, sentindo nelas o suor do corpo masculino. Muda os lençóis da cama, faz uma
trouxa e manda Cabeça levá-la, para tudo aquilo ser muito bem lavado e engomado. Cabeça dá um
leve sorriso, pensando que é mesmo dessa escrava que seu sinhô precisa.
*

O tropel dos cavalos faz Xica estremecer. Ela desfaz a arrumação das toalhas e se põe a dobrá-las
novamente, para que seu novo senhor não a encontre descansada, também porque quer ocupar as mãos.
A porta se abre com delicadeza e João Fernandes entra, seguido de Cabeça. Abraçada às toalhas,
Xica o olha, paralisada, sentindo o coração desordenado. Ele também se imobiliza num instante que
parece demasiado longo, mas se recupera, toma ar, cumprimenta-a com um leve curvar da cabeça,
elogia a arrumação, diz não reconhecer o quarto. Não fala, mas reconhece a escrava, é uma das que viu
ao balcão no dia de sua chegada, e que ele desejou, e parece ainda mais sedutora assim, de perto, bem
mais sedosa. Por um instante se lembra novamente das negras da Vargem, macias, cheirando a suor e
flores. Manda Cabeça sair e tira a capa. Xica pensa em ir segurar a capa e ajudá-lo a se livrar do colete,
das botas enlameadas, mas não o faz, prefere manter-se altiva desde o começo.
João Fernandes se despe e entra no tonel onde uma água morna e perfumada o espera. Tem um
corpo muscular, alvo, com pelos fartos e escuros. Pede então a Xica que esfregue suas costas, e ela sabe
como o fazer. Tomado de um ímpeto que causam aquelas mãos vigorosas, o homem lhe ordena que tire
a roupa e entre na água. Beija-a com o furor da necessidade. Xica se dedica a fazer com que ele jamais
esqueça esta noite, e que jamais queira outra mulher. Usa de toda a sua força sexual, com o que conhece
e o que nunca fez, com o que sua intuição lhe ensina, com o que seu corpo possui de mistérios, voragens
e delícias. É ele quem será seu escravo.

Diversos autores se aventuraram a imaginar o encontro de Xica da Silva com o contratador


João Fernandes de Oliveira. No livro Rei branco, rainha negra, em que o personagem padre Rolim
narra a “verdadeira história” da escrava, Paulo Amador conta que João Fernandes toca o braço de
Chica. “A pele dela fervia. Chica olhou firme para João. [...] Chica não encontrava palavra de
língua de branco para dizer. Tudo que a partir dali chegava à ponta de sua língua era uma vontade
desrespeitosa de falar em língua de africano. O que fervia dentro dela, saía pela noite da pele,
furava os panos do vestido, entrava no nariz de João Fernandes. [...] João Fernandes foi até a
porta, deu ordem ao feitor: — Cabeça, não recebo ninguém no dia de hoje. Fechou a porta. E
Chica já se despia dos panos brancos de sua roupa africana.”132 Nesse relato imaginário, ressalta-se
a dificuldade de comunicação entre dois seres de culturas e origens diferentes, expressa na
linguagem. E a intenção de africanizar a personagem mulher.
Em outro viés, da autora Lia Vieira, o encontro aparece romantizado, quase lírico e despojado
de sexualidade, talvez por tratar-se de uma publicação destinada a jovens. João Fernandes estava
“em meio ao pomar, sob a copa de velhas mangueiras”, quando Xica se aproxima. “Trouxe para o
ar, um cheiro adocicado de jasmim e aloés. Com modos mansos e elegantes, fez uma reverência
ao visitante. O olhar penetrante, dentadura belíssima e o altivo porte de rainha. [...] Chica
começou a povoar os sonhos do contratador que, em vão, tentou sufocar a sua paixão. Quanto
mais buscava esquecê-la, mais a imagem corporificava-se em seus pensamentos. Também ele
povoava os sonhos de Chica, a quem a saudade torturava o coração.”133 No primeiro encontro
amoroso descrito pela autora, o casal está no quarto da escrava, entre dois jardins, ornado com
espelhos, cortinas de chiffon em tons púrpura e violeta, e muitas flores. Ele se depara com “uma
deusa de açafrão, a amante de seus sonhos”, crava “os olhos cobiçosos na imagem resplandecente.
Os corações acelerados tremeram em pulsações de marfim e ébano, que se prolongaram até
quando a cotovia anunciou o amanhã”. A oposição flagrante entre marfim e ébano evoca, como
na cena de Amador, as diferenças entre aquele homem e aquela mulher, a partir da cor da pele
mas para muito além disso. O amanhecer anunciado por uma cotovia ressalta a atmosfera lírica
dos apaixonados, fazendo lembrar o amor proibido de Romeu e Julieta, os personagens da
tragédia shakespeariana.
No romance Chica que manda, Agripa Vasconcelos também recria o primeiro encontro do
contratador com Xica.134 Ele imagina que João Fernandes vai à chácara de Rolim para pedir
esclarecimentos sobre um assunto de diamantes, quando entra uma mucama vestida com
modéstia, mas que alegra as orelhas com argolões de prata. “João Fernandes recebeu o cálice mas
deixou-se a olhar a jovem que, de olhos baixos, aguardava. Era morena, alta, enxuta de carnes e
cabelos negros corridos de filha de branco.” Na mesma ocasião o contratador propõe a compra da
escrava. Diante da negativa de Rolim, João Fernandes faz ameaças veladas e propostas de preço
cada vez mais altas, até conseguir dobrar o dono da jovem escrava:

Naquela mesma noite, Cabeça, escravo de confiança de João Fernandes, foi procurar o que seu
Sinhô comprara. Chica saiu chorando da casa do Sargento-Mor Rolim e Cabeça acompanhou-a,
levando-lhe o baú de roupas pobres à mansão da Rua Lalau Pires.
Naquele baú estavam apenas dois vestidos já usados, e badulaques. [...]
A escrava vendida chegou descalça no solar do milionário. O novo senhor apresentou-a aos outros
cativos de seu serviço de modo um pouco desnorteante:
— Esta é Dona Francisca da Silva, a Sinhá de todos vocês. Ela é a dona da casa.
Serviu-se uma ceia de coisas boas, não usadas nos lares do arraial. Francisca pouco pôde comer,
embaraçada por lágrimas e ainda sob o peso da surpresa que a esmagara. Não compreendia o que estava
acontecendo, tonta, desnorteada, perto de um homem que não conhecia a não ser daquela noite. Estava
medrosa e era difícil erguer os grandes olhos negros, habituados a viverem baixos, submissos.
Jelena, escrava cozinheira que a conhecia, levou-a para o quarto de banhos do palacete. Às 10 horas,
João Fernandes chamou-a, para conduzi-la ao quarto que lhe reservara. Esse quarto era o do próprio
Desembargador. Ao abrir-se a porta, a nova escrava sentiu-se infeliz. Não sabia o que estava
acontecendo.
João Fernandes tomou-a nos braços, entrando com ela carregada no dormitório. Como tapete, ao
rés da cama, havia espalhados centenas de diamantes de todos os quilates e a colcha da índia do leito
estava totalmente coberta de libras esterlinas de ouro. Beijando-a, João Fernandes confessou:
— Você de agora em diante será, para sempre, minha esposa.135

Essa versão de Vasconcelos apresenta uma arrebatadora decisão. Descrita sem nenhum
arroubo, apenas uma escrava como as outras, e um tanto submissa, no entanto aquela Chica
torna-se a eterna esposa do contratador já no primeiro encontro, mesmo antes de qualquer
contato mais íntimo. Uma concepção extravagante, arrojada e repleta de simbolismos, como os
diamantes aos pés e as libras de ouro sobre a cama.
A mais modesta das figurações é a de Viriato Corrêa. Ele achava provável que “o opulento
contratador conheceu-a ali mesmo no Tijuco, no ‘eito’,136 descalça, a pingar suor, de tanga e
cabeção de zuarte. Partiu daí a sua paixão”.

Pouco depois de chegar ao Tijuco, em agosto ou setembro de 1753, João Fernandes de


Oliveira comprou a escrava Francisca parda ao médico e juiz ordinário Manuel Pires Sardinha,
pagando a quantia de oitocentos mil-réis. O contratador despendeu um valor bem mais alto por
Francisca parda, comparando-se com a soma gasta por Isidoro para comprar a escrava Maria, de
duzentas oitavas, anos depois. Provavelmente, o médico vendeu-a como consequência da
visitação eclesiástica feita em agosto daquele mesmo ano, quando assinara o compromisso de se
apartar da concubina, sujeitando-se a duras penas caso não o fizesse. E, para isso, ele tinha as
opções de adquirir uma casa onde ela habitasse fora de seu lar, ou vendê-la. Preferiu a segunda.
Teria, igualmente, poucas possibilidades de resistência diante da figura poderosa do contratador.
Talvez o médico e o contratador tivessem uma relação de amizade, nascida como herança das
relações de trabalho do médico com o pai de João Fernandes, o sargento-mor.
Não há nada que revele os motivos que levaram João Fernandes de Oliveira a comprar
Francisca parda, nem como o fez. Talvez ele precisasse comprar aias para seu serviço,
acostumado a tê-las por toda a vida, mesmo nos tempos de estudante em Coimbra. Mas os
indícios apontam para um interesse sexual, pois era arraigado o hábito de o homem rico possuir
uma ou mais escravas para tal finalidade. Já em dezembro do mesmo ano, cerca de dois meses
após a aquisição de Francisca parda, o desembargador dirigiu-se a Vila do Príncipe, que sediava a
burocracia da comarca do Serro, e lá registrou a sua carta de alforria. Essa rapidez na concessão da
liberdade indica que Xica e o contratador já tinham um caso de amor logo após ele se tornar
legalmente o seu dono — ou mesmo antes.

*
São raros os casos de alforria concedida a escravas jovens, como ocorreu também com Maria
da Costa, a mãe de Xica. Ainda mais raras as alforrias para escravas recém-compradas. A
historiadora Júnia Ferreira Furtado, em suas pesquisas nos arquivos do Tijuco, encontrou apenas
uma alforria semelhante à de Francisca parda: a negra Maria de Sousa da Encarnação, nascida na
costa da Mina, foi comprada pelo amante, Domingos Alves Maciel, homem branco. Logo em
seguida ele a libertou. As demais escravas receberam a alforria no processo de coartação, que era
o pagamento parcelado, por parte da própria beneficiada, da carta de liberdade; ou em
testamento, após a morte do proprietário, o que era considerado um gesto piedoso e benéfico para
a biografia espiritual do senhor, ou seja, ajudava a que sua alma fosse para o céu. Os testamentos
de senhores eram repletos de atos caridosos, como esmolas a mendigos, dezenas de missas em
favor de sua própria alma, dinheiro para afilhados pobres ou para instituições religiosas, entre
outros. Mas as concubinas, mesmo as que tivessem filhos de seus senhores, eram geralmente
mantidas em regime de escravidão. O gesto de João Fernandes sugere um espírito mais generoso,
uma relação de amor e respeito pela escrava, e a habilidade de Xica em conduzir sua vida rumo à
ascensão social.
Foi no dia 25 de dezembro que o jovem desembargador fez o registro da alforria de sua
escrava. O Natal era comemoração de cunho estritamente religioso, uma forte tradição em terras
portuguesas, ainda mais para aquele jovem com formação dirigida à carreira eclesiástica. Dessa
forma, João Fernandes cobria o gesto com significados sagrados, caridosos, e ainda mais honrosos
para a escrava. Um presente cristão. Ela passou a se chamar não mais Francisca parda, mas
Francisca da Silva. O desembargador não fez o registro da forra com seus próprios sobrenomes,
Fernandes de Oliveira, o que ocorria às vezes nos casos de alforria, como no da mãe de Francisca
da Silva, que adotara o sobrenome de seu antigo dono, Domingos da Costa, uma referência à
Costa dos Escravos.
Se a adoção do sobrenome da Silva foi feita pelo próprio contratador, indica talvez uma
escolha genérica, pois era o mais comum. Se a escolha foi da própria Francisca, seria um registro
de sua relação com os Silvas de Oliveira, confirmando a posse da escrava menina por parte dessa
família. Seja como for, mesmo sem registrá-la com seus sobrenomes, João Fernandes dava
autonomia à mulher e, ao mesmo tempo, livrava-se de uma relação nominal com a concubina,
deixando assim de registrar o delito condenado pela Igreja, embora tão habitual. Supondo que
tenha sido uma escolha genérica por parte do contratador, imaginamos que Francisca da Silva
tenha se ressentido, mesmo que de forma inconsciente, e que tenha planejado a adoção do
sobrenome do contratador. Nos registros do Tijuco, apareceria pela primeira vez como Francisca
da Silva de Oliveira no batismo da primogênita do casal. O sobrenome da Silva, tão simples,
carregado de significados populares, por ser o mais comum, comporia um dos elementos de sua
futura celebridade. Xica da Costa, Xica Fernandes de Oliveira, Xica Pires Sardinha, ou qualquer
outro nome, não teriam a mesma carga simbólica e perfeição sonora.
Banhada em ouro

A escrava alforriada, dezembro de 1753

NA NOITE DE NATAL, Xica aparece deslumbrando a todos. Traz na cabeça uma coifa de seda
branca presa ao cabelo com alfinetes e borla de fio de ouro na extremidade. Os cabelos estão empoados
com polvilho de goma de mandioca e parecem brancos, enfeitados por um laço precioso. Usa uma
camisa de folhos apertada ao pescoço. A cintura se afina por um espartilho de barbatanas, sobre o qual
se destacam um macaquinho de veludo, com rica abotoadura, flores de pedras pendentes sobre o peito,
um grosso afogador e pesados brincos de pedraria encastoada. A saia de ampla roda com cauda, que
Xica faz pousar no braço, deixa entrever os sapatos de bicos agudos, levemente voltados para cima, com
altos saltos de madeira. Ela segura um bastão fino, mostrando os dedos quase inteiramente cobertos de
anéis de ouro. A figura faz grande efeito aos olhos de João Fernandes, que a via em casa sempre usando
um folgado timão.
Assim vestida, ornada, recebe a carta de alforria e acompanha João Fernandes à missa, não mais
caminhando como escrava, ao fim do cortejo, mas logo atrás dele, como mulher livre. João Fernandes
sente-se seguro para qualquer atitude. Possui, além do poder de seu cargo, a força do êxito que seu
empenho na mineração traz ao Serro, enchendo cofres e bolsos da Fazenda Real e dos habitantes. É um
bom modo de medir seu poderio e ao mesmo tempo agradar a essa mulher que o embriaga de paixão.
Habitantes do arraial murmuram, escandalizados, mas Xica entra altiva na igreja e assiste à
cerimônia sentada ao lado de João Fernandes, na primeira fileira, reservada aos principais do Tijuco
com suas esposas. No adro, após a missa, moradores comentam o caso da forra Jacinta, que morreu há
apenas dois anos, em Vila do Príncipe, um mau exemplo para as forras de todo o Serro. Jacinta teve
cinco filhas de homens diferentes com quem se amasiava, todos de posição elevada, e as casou com
brancos de boas famílias. A mulher possuía lavras, casas, escravaria, joias e deixou um testamento rico,
encomendando cinquenta e cinco missas para sua própria alma. Alma “negra e diabólica”, comentam.
Dizem que Jacinta dominava os homens adoçando-os com seus pães de ló e finos chocolates, a ponto
de fazer com que seu amante, o juiz Quaresma, mudasse o lugar da povoação de Vila do Príncipe, cujo
pelourinho era a apenas duas léguas do Tijuco, indo para nove léguas adiante, por “capricho da preta”.
Na ausência das senhoras, entretanto, os homens se divertem elogiando as qualidades sensuais das negras,
que podem exercer seu domínio desde que apenas no reino das camas.
*

As moças casadouras do arraial não desistem de tentar seduzir o mancebo, estimuladas pela ideia de
que, mesmo tendo uma concubina tão atrevida, João Fernandes haverá de se casar com uma mulher de
boa condição, uma branca à sua altura. A sensualidade e o temor de alguma delação denunciariam
antes essa fraqueza de caráter do homem, que, ao menos por sua posição social, deveria ter mais
compostura em seus atos. Mas João Fernandes não se interessa por nenhuma delas, pouco frequenta os
bailes e saraus, preferindo sempre estar em casa com a mandraqueira. Quando vai a festas religiosas, ou
a óperas, ou a compromissos que não pode descumprir, leva a concubina vestida no maior luxo e
empinada como uma rainha. Comentam que Xica, sendo filha de mina, o enfeitiçou com filtros
imundos e sórdidos amuletos. Até ao menino a ladina estende os encantamentos, pois o mancebo o
carrega ao colo como filho e sai a cavalo com o pequeno Simão à sela de carmesim bordada.
Xica, sempre que pode, corta os enredos contra si e João Fernandes. A murmuração anda tão
intensa que, para aliviar sua Xica e a si mesmo, João Fernandes compra-lhe uma casa na rua da Ópera,
um sobrado de madeira e adobe, amplo, confortável, com três janelas no andar térreo e quatro balcões
no superior, assim como uma varanda providencialmente protegida por muxarabiês. Ao lado, a casa
possui uma capela particular, com altar-mor a Nossa Senhora das Dores. Os quartos dão para um
terreno com pátio subindo pela encosta em degraus de pedra, ajardinado, florido, e um abundante
pomar, uma horta de verduras, legumes e ervas de mezinhas. Da varanda lateral, protegida por treliça,
se vê boa parte da cidade e a ampla paisagem acinzentada dos rochedos. O contratador compra móveis
para a sala, para os quartos: mesas torneadas, com gavetas, cadeiras de encosto e bancos de couro, camas
de dossel, em jacarandá, cortinadas, com colchão macio de cabelos; e estantes, armários para os objetos,
um espreguiceiro, mochos, uma boa cômoda de madeira branca, assim como colchas, lençóis de linho,
cortinas de porta, tapetes e mais tecidos; louçaria inglesa esmaltada, talheres de latão, diversos objetos
importados da Europa ou da Índia. Guarnece a copa e a cozinha. Compra escravos para Xica, que ela
escolhe com cuidado: José, que é batizado adulto; Ana Gomes, Manuel, Ana mina, Maria benguela,
Bárbara mina, Severina, José maqui, Domingos sabaru, João tapa e tantos outros. Uns são para o
trabalho de casa, outros ela aluga para serviços do contrato, ou a terceiros, ou os manda fazer ganhos
nas ruas. João Fernandes lhe presenteia os escravos para que Xica possa se sustentar, sempre, pois não
terá jamais direitos sobre os bens do contratador.

João Fernandes continua residindo na rua Lalau Pires, onde estão seus pertences, mas mal aparece
por lá. Não escapam aos olhos curiosos dos moradores do Tijuco as entradas do desembargador na
residência de sua barregã, e suas saídas, ao amanhecer, parecendo esfalfado por prazeres noturnos. Ele
continua levando a amante às festas e cerimônias religiosas, cada vez mais luxuosamente vestida e mais
altiva. Porém, Xica não é convidada às casas dos amigos de João Fernandes, como o capitão Cabral,
cavaleiro da Ordem de Cristo e escrivão da intendência, o capitão-mor Malheiros, o cirurgião Ferreira, o
sargento-mor Freitas, o capitão e comerciante Lopes da Costa, o sargento-mor Landim, nem o padre
Simão, o padre Aldonço, o padre Ferreira e o padre Ribeiro — os mais leais ao contratador. E nem eles
vão a sua casa. Ela se ressente, pensa que se casar tudo mudará, mas sabe que o casamento de João
Fernandes com uma forra o impedirá de concorrer a qualquer cargo da Coroa. Ele seria talvez expulso
das Ordens e isso afetaria toda a sua descendência. Ademais, a Coroa não admite casamentos entre
desiguais. Ela precisa, nesse sentido, viver à sombra.
Cumpre os mandamentos da Igreja, ouve missa aos domingos e dias santos, confessa-se ao menos
uma vez ao ano, comunga pela Páscoa da Ressurreição, jejua quando determinado, paga dízimos e
primícias, e sua presença é tolerada nas igrejas, quando vai ao lado do contratador ou quando entra
para amadrinhar algum filho de escravo. Ao mergulhar em seus pensamentos, procura um modo de
adentrar os salões da gente branca e rica, sem ser humilhada com olhares cruéis, invejosos, nada cristãos,
que lhe dirigem na igreja. Em sua casa bem arrumada, sempre brilhando em limpezas, ela recebe com
prazer suas amigas, Rita, com a afilhadinha Ana, a vizinha Antônia Xavier com o meio-irmão do
pequeno Simão, ou Francisca crioula com o pequenino Cipriano, mulheres a quem se afeiçoou antes da
alforria, pessoas de vida mais simples. Recebe gente pedindo favores, dinheiro emprestado ou que João
Fernandes seja padrinho de seus filhos. A todos, Xica atende. Mas não vai ali quase nenhuma pessoa
branca, a não ser Manuel Pires, quando visita o filho. Se João Fernandes é chamado a apadrinhar
casamentos de brancos ricos, ou batismos, vai sozinho. Tudo entra nas contas de Xica.
Sabe que João Fernandes gosta de ostentar riquezas e belezas, e ela se enfeita cada vez mais
suntuosamente, superando todas aquelas mulhericas brancas do arraial. Recebe na sala os mercadores
mais requintados, que ao chegar à cidade já vão direto à rua da Ópera, trazendo as cores a seu gosto,
vibrantes, variadas. Compra-lhes tecidos, adornos, sapatos, chapéus, leques de plumas, capas douradas,
adquirindo sempre mais arcas de guardar roupas e escravas para seus cuidados. As joias lhe são
presenteadas por João Fernandes, sempre as mais belas e valiosas. Xica percebe, também, que João
Fernandes gosta de se submeter a caprichos femininos e os inventa, cada vez mais impertinentes.

Moradores do Tijuco imaginam que o contratador logo estará cansado da barregã e moças ainda
nutrem esperanças de uma separação do casal, que deixe o caminho aberto a suas investidas amorosas.
Mas, após um ano, João Fernandes parece ainda mais apaixonado pela negra. Os homens riem às
escondidas, comentando entre si que a mulher é mesmo lasciva, para prender assim o rapaz tão fogoso.
— Juras de foder não são para crer — diz um, às risadas.
— Antes se amancebar com uma negra bonita do que com uma feia, assim como se deve beber
vinho bom e não vinagre.
— Quem cá não se farta de fornicar não pode ir ao paraíso.
— Fornicar, fornicar, que farte, que d’el-rei é a terra onde ninguém foi ao inferno por fornicar. —
E riem.
O mais suntuoso dos móveis da casa de Xica é a cama em que recebe seu amante, sempre com a
mesma dedicação, a fazê-lo feliz e satisfeito. É onde ela dá os nós no coração e na vontade desse
homem, roda especial para as doidices.

Embora as roupas de Xica e de suas escravas fossem sempre citadas como luxuosas, a
ostentação não parece ter sido o móbil de seu comportamento. As palavras de Joaquim Felício
sugerem que a intenção de Xica era fazer parte daquela sociedade que por sua vez almejava
participar do modo de vida da nobreza de Lisboa. Ela o fazia por meio de suas roupas e seus
séquitos de escravos, mas, acima de tudo, por sua postura e atuação. Paramentada como uma
senhora da Corte, reservava seu lugar. Era o comportamento imposto às mulheres que ansiavam
por aceitação. Mesmo mulheres de “má vida” iam às igrejas vestidas como senhoras.
Quem portava o costume da ostentação e conhecia as medidas do poderio era seu
companheiro, o contratador João Fernandes de Oliveira, oriundo de altas esferas sociais.
Predominava no Distrito Diamantino a mentalidade do homem português que, com suas
recordações pátrias, reconstruía os ideais e costumes lusitanos, adaptando-os à realidade mineira,
usando os elementos que tinha à mão.

Se fossem arrolados os bens de Xica da Silva, os inventários informariam que seus baús e
guarda-roupas eram repletos de vestidos e saias em tecidos refinados e cores fortes, assim como
anáguas, capas, vestes, sapatos, fivelas, pentes. Uma descrição das peças que fariam parte do rico
e colorido vestuário da ex-escrava incluiria “meias brancas e anáguas da mesma cor, para dar
volume, e sapatos de seda ornados com fivelas de prata ou pedras coloridas. A saia, de cetim ou de
outros tecidos, era sempre de cores vibrantes, listadas ou floridas. Para combinar, blusas de
chamalote ou algodão em tons de verde, vermelho ou branco. Os acessórios eram variados:
chapéu de copa alta, brincos de ouro com pedras preciosas e brilhantes, colares e patuás para
proteção, nas mãos um leque de plumas brancas [...] capa dourada ou colorida, que conferia ao
conjunto um ar distinto e imponente”.137
Xica da Silva foi a mulher “mais extravagantemente bizarra que houve no Brasil, pela época de
Pombal. [...] Foi a mulher que, no Brasil, mais ouro teve, naquele tempo, para gastar”.138
E, nadando em dinheiro, coberta de adulações e diamantes, ninguém mais do que ela
alardeou tanta riqueza, nem teve caprichos mais alucinantes.
O seu guarda-roupa, sem gosto, como é de prever, foi o mais numeroso, o mais caro que se
conheceu. As joias que lhe ornavam os braços e o pescoço fariam inveja a qualquer rainha.
Tudo que havia de melhor no Tijuco era para ela.
O preconceito da cor, naquela época, devia ser profundo e terrível. Conseguiu calcar o
preconceito, aos pés. Nas igrejas (e havia, naquele tempo, igrejas onde só a gente branca podia
entrar) o lugar de honra era seu. A missa, a que a amante do contratador assistia, era sempre
acontecimento. A mulata dava, com a sua presença, os tons de uma grandeza real. Só
entrava nos templos nas altas solenidades, rutilantemente vestida, coberta da cabeça aos pés
das joias mais fulgurantes. Doze mulatas, lindas, florescentes, à guisa de aias, trajadas de seda,
apanhavam-lhe a imensa cauda do vestido espalhafatoso.

Entre as joias de uma das filhas de Xica da Silva, possivelmente herdadas, encontravam-se “um
laço e brincos de prata com pedras amarelas e alguns diamantes pequenos, dois pares de brincos
com pedras roxas, duas flores de prata com pedras roxas e amarelas, quatro pares de botões de
prata com círculos de pedras vermelhas, uma fivela de prata com pedras brancas, duas pulseiras
de prata com ramos de ouro, cravados com pedras brancas, e um par de fivelas de prata para usar
nos sapatos”. Numa das fazendas herdadas pelas filhas de Xica ainda havia em 1833, “uma
medalha encastoada em ouro, com cruz de crisólito; pedras de topázio carmim com uma flor de
crisólito por cima, encastoadas em prata; uma medalha menor encastoada em ouro francês; um
par de botões velhos em pedra branca e mais dois botões de massa bastante antigos com figuras
brancas no centro encastoados em metal dourado”.139 Esse remanescente de joias dá ideia do
escrínio que devia pertencer a Xica da Silva.
Segredos de alcova

A cama de Xica e João

A IGREJA TENTAVA CONTROLAR o leito dos casados. Desde o ano de 392, são Jerônimo
preceituava que os maridos não fossem demasiado ardentes com a mulher, pois nada era mais
imundo do que tratar a esposa como amante — instituindo, assim, uma espécie de permissão para
o ardor entre amantes. Eram exigidos aos casados o jugo dos sentidos e a moderação, uma vez
que o ato sexual entre esposos se destinava exclusivamente à procriação. A mulher devia apenas
insinuar o seu desejo, emitir sinais de maneira discreta, recatada, pudica, e a esses indícios o
esposo devia ficar atento, sendo obrigado a pagar o “débito conjugal”. Cabia ao homem o
adestramento da voragem feminina e ambos deviam manter-se impassíveis diante do fogo do
desejo, para que não ardessem no do inferno.
Manuais prescreviam que era o homem quem devia iniciar a copulação e determinar as noites
adequadas, sendo os dias de mênstruos interditos, assim como dias de procissão, dias santos ou
após a missa. A mulher devia estar limpa, vestida e não usar seda ou qualquer tecido mais macio
que a pele. As escravas deviam ser retiradas da alcova, pois o marido podia arder em luxúria com
a visão das negras. A fêmea não podia desnudar nem mesmo os seios — que andavam nus nas
cozinhas — nem dizer palavras torpes aos ouvidos do esposo ou permitir que ele as pronunciasse
com o intuito de provocar tremeliques e, se estes ocorressem, ela devia se conter, aquilo era o
capeta tentando entrar em seu corpo. Devia a esposa manter os olhos fechados, não emitir
gemidos ou ruídos, não desejar carícias ou brutalidades, nem permitir que o marido repetisse a
copulação.
Os hábitos sexuais interditos, controlados por visitações e devassas da Inquisição,
enumeravam as posições contra natura, destacando a cópula sodomítica; a retro canino com a
mulher de costas para o homem, assemelhando-se aos animais; a mulier super virum, concebendo
que a mulher sobre o varão feria a natureza superior e ativa do macho. Não era permitido o coito
do homem em pé, sentado ou em qualquer outra posição que desperdiçasse o sêmen. Não se
toleravam beijos, carícias e jogos eróticos, o coito interrompido, nem o sêmen fora do vaso. E
condenavam todos os pecados de molície, um vasto elenco de atividades correlatas à copulação,
como a masturbação solitária ou a dois, a felação (coito na boca), a cunilíngua (língua na vulva
e/ou no clitóris).

Os homens no Brasil tinham direito a uma vida solta, mas eram ciosos de suas mulheres. Esse
ciúme significava uma espécie de reconhecimento de que os próprios maridos se inclinavam a
corromper mulheres alheias. Viam-se muitos deles aterrados com o fantasma do adultério e
preocupados com o estigma da mulher insaciável ou insatisfeita. Flagrando a esposa em adultério,
podiam licitamente matá-la, e ao parceiro.
Vemos Xica da Silva, no romance de João Felício dos Santos, a manter relações sexuais com
outros homens. Mas nunca se teve notícia de adultério de sua parte ou da de João Fernandes, que
reconheceu a paternidade de todos os treze filhos do casal. Seria ingênuo acreditar na “santidade”
de um homem colonial português e talvez uma das qualidades de Xica fosse ignorar, ou fazer que
ignorava, alguma escorregadela — como dizia Sir Richard Burton — do esposo, tendo em vista a
preservação do casal. Há lendas de que Xica mutilava os seios ou dentes das escravas, se elogiados
pelo contratador.
Provavelmente, Xica possuía qualidades sensuais que prendiam seu companheiro. Como mina
e escrava, ela jamais foi posta sob o manto de pureza presente na imagem cristã de feminilidade.
Nunca a destinaram à castidade nos conventos e recolhimentos, nem aos ciúmes das gelosias até
que viesse o casamento próspero e seguro. Não foi educada para ser a reprodutora dos filhos sem
“impurezas de sangue”. Não era controlada por pais, irmãos, maridos, padres e toda autoridade
masculina, tampouco pela mãe, por avós ou tias. Ninguém exercia controle sobre sua sexualidade,
ao contrário, uma escrava de boa figura devia servir sensualmente aos senhores. Não teve seu
ímpeto carnal abafado em prol de uma harmonia no lar, na formação da família e na sociedade.
Não se esperava que fosse discreta, submissa, silenciosa, iletrada, fervorosa, piedosa, prendada e
pura. Tampouco era uma prisioneira da casa, como as brancas de família. Xica da Silva gozava a
liberdade dos becos e das beiras de rio.
João Fernandes, por sua vez, carregava dentro de si uma profunda moralidade cristã, marcada
por uma educação ministrada por jesuítas, assim como regras de comportamento bastante
severas. Essas regras e princípios foram aos poucos absorvidos por sua concubina conforme se
tornava mais poderosa e aceita pela sociedade local. Nas disposições que prescreveu aos seus
herdeiros, que iriam administrar o morgado por ele constituído posteriormente em Portugal para
preservar o patrimônio familiar, João Fernandes estabeleceu algumas das concepções nas quais
acreditava ou precisava acreditar. Era necessário, antes de tudo, diz ele, observar fielmente a lei
de Deus e obedecer à Igreja católica, crendo piamente que, sem a religião, as pessoas se faziam
abomináveis aos olhos de Deus e desprezíveis aos do mundo. Sem uma sólida piedade, ninguém
conseguiria conservar as virtudes cristãs. Com esse mesmo sentimento, por princípio, e por dever
de suas consciências, deviam cultivar a mais pura fidelidade e obediência ao rei, substituto de
Deus na terra e senhor natural da monarquia; não seriam seres vivos a respirar a não ser quando
cumprissem os deveres para com Deus e o rei, a quem deviam amar e temer, porque apenas sobre
esses dois polos se podia sustentar a nobreza e a felicidade das famílias, e o não cumprimento
desses deveres provocaria a ruína familiar. Deviam cuidar de ser benquistos por todos, e o
caminho para isso era uma exata civilidade e a afabilidade geral, sempre servindo e beneficiando a
todos, preferindo a amizade dos bons, evitando absolutamente os ódios e as inimizades; qualquer
inimigo, por menor que fosse, seria causa de trabalhos, preocupações e danos. Deviam aumentar
a descendência, procurando para seus filhos e netos os melhores casamentos, fazendo
honestamente crescer a renda das casas. Obtendo o renome da probidade e da lealdade,
conservariam a riqueza, seriam estimados e procurados por boas famílias, com as quais
manteriam alianças dignas de seu merecimento. Nenhum de seus herdeiros poderia se casar por
livre-arbítrio antes que completasse trinta anos de idade; só com experiência de vida
reconheceriam suas escolhas longe das paixões que cegavam a mocidade. João Fernandes tentava
evitar que os filhos, netos, sobrinhos e primos seguissem seu próprio caminho, que aos vinte e seis
anos havia se apaixonado por uma escrava e com ela formara a descendência, padecendo o
consequente resultado que pesaria sobre seus filhos. No entanto, como fora uma paixão de
juventude e em condições específicas, podia ser justificada perante sua própria consciência. Como
não era uma relação de casamento legítimo, as interdições não alcançavam sua intimidade.
A alma oculta do século

Qualidades sexuais de Xica

“SERÁ QUE ELA POSSUÍA UM FILTRO? Conhecia unguentos e pós, alquimias e abracadabras,
obscenidades esgotantes, movimentos de seios, carícias que envergonham, magias brancas? Qual
era o segredo dessa amante superlativa?”, pergunta-se o francês Gilles Lapouge, um viajante
moderno apaixonado pelo Brasil.140
O que atraiu tanto João Fernandes, a ponto de se ligar eternamente a Xica da Silva, sem jamais
casar com uma mulher de sua mesma condição? Não as qualidades das brancas, não a erudição, a
graça, a fineza, o espírito, mencionados por Joaquim Felício. Talvez a desenvoltura, as prendas
domésticas, a religiosidade, e a sensualidade combinada a um aguçado dom para manter
relacionamentos pessoais e sociais. E uma energia produtiva fora do comum: mesmo gestando e
parindo um filho quase a cada ano, e cuidando de sua criação e educação, e dando atenção de
cama e mesa ao amante, Xica via-se às voltas com a administração de sua casa e do plantel de
escravos, com a organização das variadas atividades na Palha incluindo a construção e depois a
manutenção do castelo, com tantos jardins e pomares; administrava uma extenuante vida social
que incluía a gestão de um teatro de bolso, a manutenção de um barco e um tanque, tratava de
sua própria educação, mantinha uma intensa atividade religiosa e de caridade, participava
assiduamente das irmandades locais, recebia postulantes a benesses, tratava da sua aparência de
luxo, a das escravas, e ainda encontrava tempo para despachar como uma rainha.
Xica parecia ser dominante no casal, tinha uma individualidade excepcional e uma intensa
força da personalidade capazes de transformá-la numa lenda que atravessa gerações. Decerto
estimulava as manifestações de poder, fama, luxo e glória que animavam o temperamento
daquele português oriundo de uma classe social ambiciosa e ostentadora. E, por extensão, ela
seria dominante nas atividades sexuais. Sendo João Fernandes um homem refinado, não se
sentiria atraído por meros encantos do corpo ou unicamente por uma sensualidade — presente na
maior parte daquelas jovens e exuberantes escravas ou nas prostitutas. Haveria outros encantos
em Xica, de natureza interior, que o atraíram, que talvez fossem a inteligência, a capacidade de
responder aos estímulos, o caráter, a lealdade, a autoridade, a ambição, a aceitação do mundo
masculino e europeu do parceiro e um coração cheio de amor — sobretudo, a liberdade nos
encontros e delícias sexuais.
O fato de Xica ser uma mulher parda, de origem humilde, pode ter livrado o casal da revoada
de infelicidades causadas por ciúmes. Mas João Fernandes não trancou a mulher nas alcovas, não a
guardou a definhar em quartos fechados, diante de oratórios, não tentou anular a sua grandeza ou
impedir seu crescimento; ao contrário, ostentou, ou deixou que ostentasse sua força feminina,
influenciado pelo fato de estarem na colônia, não na sociedade estreita de Lisboa.

Muitos acreditavam que Xica possuía poderes ocultos capazes de prender o jovem
contratador. Em Portugal e, por extensão, no Brasil e nas Minas, os dons femininos despertavam
um temor obsessivo, despejado sobre as mulheres consideradas bruxas. Menções a feitiços
apareciam em processos da Inquisição, tratados de medicina, pastorais eclesiásticas, em receitas
da farmacopeia, versos de poetas ou cartas de amor. “A bruxa é a alma oculta do século. Debruça-
se sobre os leitos quando as crianças nascem; mete-se pelos anéis de núpcias quando as mulheres
casam; senta-se sobre os gremiais de oiro, nos joelhos dos bispos; ladra como os cães nas alforjas
silenciosas; preside a todos os destinos humanos, brinca com todos os corações descuidados,
espreita a todas as portas infelizes.”141
O povo se provia de amuletos em âmbar branco, cruzes de são Bento ou vinténs furados de
são Luís, para se proteger das bruxas. Se nascia uma criança numa casa, queimavam-se solas de
sapatos velhos para afastar as bruxas; se uma criança definhava, penduravam uma espada nua à
sua cabeceira, para afugentar as bruxas que estavam a lhe chupar o sangue; a última filha era
tomada como bruxa quando não havia filhos homens; o último filho era bruxo quando não havia
filhas mulheres; longas procissões atravessavam as ruas em Portugal, levando uma cruz à frente,
para exorcizar casas nobres. Nos locais considerados viveiros de bruxas, como a Pampulha, os
peixes que as pampulheiras vendiam eram tidos como portadores de feitiços. Uma lagartixa posta
na soleira da porta por uma bruxa tornava estéreis todas as mulheres de alguma casa. Uma fava
negra defumada por uma bruxa cegava a quem a comia.
O pavor das bruxas e dos feitiços alastrava-se não apenas entre pessoas de espírito mais
primitivo, mas também entre letrados e nobres, que faziam uso dos feitiços e das feiticeiras. Dom
Nuno da Cunha, o inquisidor-mor do Reino, “espécie de bicho de seda embrulhado na púrpura de
cardeal”, tentava assiduamente convencer o rei de que deveria fazer o papa livrar Portugal dos
espíritos malignos e de fetiches; depois “ia de coche desdemoninhar-se, todos os dias, à casa da
bruxa Catarina do Espírito Santo”.142
Os próprios médicos observavam os feitiços, tentando discernir algum aspecto científico e
uma terapêutica que lhes pusesse fim. O criado de quarto do rei, o insigne médico Curvo Semedo,
costumava tratar bruxedos como casos clínicos. Ele relata, em seu tratado Observações médico-
doutrinais, o uso de uma mezinha contra certa bruxaria feita para a sedução de maridos: “Aqueles
que havendo sido bem casados, e muito amantes de suas mulheres, passavam a uma tal
metamorfose, ou mudança odiosa, que nem as podiam ver, nem deitar-se na mesma cama, fiz
reconciliar em amizade mandando que às escondidas untassem a palmilha dos sapatos do homem
amancebado com o esterco da manceba, e a palmilha dos sapatos da manceba com o esterco do
amancebado; e daquele dia por diante se converteu em desagrado e aborrecimento de ambos o
que até àquele tempo tinha sido cegueira do amor lascivo ocasionado de algum feitiço.” Boticários
astutos enriqueceram vendendo ervas às bruxas, como a universal erva-pombinha, defumada
junto com dentes de defunto sobre tijolos em brasa, cujo pó era usado para despertar o amor no
organismo desgastado de velhos ou combater a frigidez desdenhosa de jovens. E afirmava o
médico Braz Luiz de Abreu, em sua portentosa obra de 1726, Portugal medico ou monarchia medico
lusitana..., que as feiticeiras recebiam seu poder maléfico das mãos de Satanás e eram suas
vassalas. Roubavam pedaços de pessoas mortas para fabricar pós que, misturados com ervas ou
frutos, danavam a saúde e provocavam conflitos. Espalhavam esses pós pelo ar, nos caminhos, nas
escadas, nas casas, nas pias de água benta e as pessoas que os tocavam logo adoeciam ou
morriam.143
Também no bruxedo do amor, no malefício amatório, na arte de unir e separar casais, a
liturgia do feitiço — e do antídoto — atingia o delírio. Por volta de 1730, a bruxa Francisca Xavier,
a Queijeira, ensinava sortilégios que tinham por fim favorecer amores ou casamentos. Ela dava
uns pós para se defumar a casa, de ponta a ponta, formando-se no centro uma cruz onde se
depositava um alguidar com água e cruzes de junco; depois, rezava-se a oração de santo Adrião.
Para atrair alguém a uma casa, sem que os vizinhos vissem, rezava-se, com o braço, perna e pé
esquerdo nus, e metade do cabelo, do mesmo lado, desgrenhado, tendo uma janela ou porta
aberta, e um prato de sal junto a si, deitando sal pela janela ou porta:

Esta mão cheia venho deitar por (Fulano) para que sem tino andar, sem tino andar, sem
tino andar, me venha buscar, me venha falar, que venha e não se detenha, para Satanás,
para Barrabás, para Caifaz, e logo me venha amar, e de mim nunca se possa apartar, por
amor de Barrabás, Satanás e Caifaz, e estes sinais me hão de dar — cães a ladrar, bestas a
passar, galos a cantar.144

O médico e escritor Bernardo Pereira aconselhava, num tratado médico teológico publicado
em 1734, que os atingidos por feitiços de bruxas urinassem num cemitério pela argola da campa de
uma sepultura e, não sendo um feitiço muito antigo e entranhado, urinassem pelo anel da
desposada.
Suspeitando que as bruxas de Salema, aliadas ao padre Bartolomeu de Gusmão e a umas
freiras de Odivelas, tentavam enfeitiçá-lo usando sangue, pedaços de perdiz e marmelada, para
que ele deixasse madre Paula e se tomasse de amores por uma freirinha de Odivelas, o rei dom
João V convocou o Conselho de Estado para que os regimentos fossem às ruas a fim de oprimir
bruxedos.
A bruxa dona Paula realizava feitiços amorosos para atrair homens, derramando mãos cheias
de sal e entoando uma oração diabólica. Dom João V, embuçado no coche, a caminho do
convento de Odivelas, levava os processos dos penitenciados e lia em voz alta a oração de dona
Paula, que corria de boca em boca pela cidade; e as freirinhas repetiam a prece profana, para que
o rei as procurasse na cama: “Esta mão cheia de sal eu deito por el-rei meu senhor, para que me
venha buscar, me venha falar, e logo me venha amar, venha e não se detenha...”145
Tal mentalidade com certeza adicionou significados mágicos ao fenômeno de Xica,
relacionados ao medo que se sentia da mulher, ainda mais da mulher negra e, acima de tudo, ao
medo desta perigosa e prazerosa energia: o ímpeto sexual. Corriam lendas antigas de que Xica
revelava ao contratador os melhores locais de extração de diamantes e de que era por meio de
feitiços que o prendia, dominando-o sexualmente.
Mulher requintada

A educação de Xica. 1754, grávida. A dança

QUANTO MAIS O CONTRATADOR ENRIQUECE, mais dona Francisca enriquece, adquirindo


escravos e administrando aluguéis. Sua posição no arraial se firma, demandando um comportamento
mais refinado. João Fernandes procura instruir a mulher, passando-lhe regras de convivência e
corrigindo o que ele considera suas falhas. Sabe que sua Xica é boa cristã, cumpre as determinações da
Igreja, mas procura reafirmar nela os sentimentos de piedade e o cultivo das virtudes. Preocupa-se com a
falta de fidelidade ao rei português e a seus vassalos, pois a mulher demonstra não reconhecer a primazia
do monarca como representante de Deus na terra, tratando os reinóis com desprezo. Ela deve amar ao
rei como ama a Deus.
Aconselha Xica a não entrar em conflitos de vizinhos, de casais, a ser afável com todos, a não
expressar publicamente suas rebeldias e revoltas, pois se for benquista, prestando favores, ajudando, sendo
caridosa e piedosa, evitará as inimizades que costumam trazer a ruína das famílias. Deve evitar as
pessoas de má índole e se cercar sempre de gente virtuosa, granjeando uma reputação de pessoa recatada,
honrada e íntegra, para ser respeitada. Mas, sozinhos, no recinto da alcova, tudo é permitido.
João Fernandes manda vir do Rio de Janeiro dois mestres de nomeada, com grandes dispêndios e
altos ordenados. Eles trazem, e leem para sua atenta, mas inquieta aluna, livros que contêm tratados
sobre a inesgotável matéria da etiqueta. Ensinam dona Francisca a não dar cotoveladas, nem muxoxos,
nem catar piolhos, não cuspir, não puxar os cabelos em desespero, não gritar com os escravos, não dar
risadas ou gargalhadas, nem expressar sua alegria com I ou I ou, mas com sorrisos leves. Usar um tom de
voz comedido, ouvindo atentamente, sem interromper a fala de algum senhor ou senhora. Na igreja,
dona Francisca deve se manter em silêncio, reverente à cerimônia, em vez de ficar em conversações
levianas. Não levar ao pescoço nenhum fio repleto de amuletos e patuás, coisa de escravas. Usar sempre
os modos mais finos mesmo quando estiver a sós, na sua intimidade com as amigas ou com algum
familiar. Nada de andar com matulas negras e pardas, soldados e frades, ciganos de corriola e
garimpeiros ou regateiras de saia de veludo.
Xica perde a paciência, considera essa etiqueta burlesca e ridícula, mas treina para agradar o João
Fernandes. Aprende a cumprimentar apanhando delicadamente o meado da saia, segurando o tecido
com as pontas dos dedos, dobrando levemente os joelhos e flexionando a cabeça.
Pela manhã as aulas são de noções das letras. Dona Francisca aprende a escrever, treina a escrita de
seu nome, para que possa assinar documentos. Ganha de presente do esposo uma escrivaninha portátil,
em laca, com motivos orientais, que usa então para praticar sua assinatura, a escrita e a leitura.
Melhora a fala, deixando de usar palavras e expressões que os mestres condenam. É levada a decorar
frases inteiras de cumprimento, de recepção a convidados, de agradecimentos ou pêsames. Precisa
pronunciar bem as palavras para ser entendida. Ao ouvir uma orquestra não deve balançar a cabeça
nem marcar o ritmo com os pés.
E que tenha curiosidade para conhecer o mundo, ilustrando-se. Os mestres explicam as tramas das
óperas, quem são os personagens e o que significam. Abrem livros de imagens diante dos olhos fascinados
da aluna, ainda mais quando são gravuras de Lisboa e Coimbra, onde João Fernandes viveu, ou mapas
em que aparecem navios de toda espécie, naus, caravelas, bergantins e armadas com mais de cem velas,
com bandeiras diversas. E dona Francisca aprende mesmo umas palavras em francês, como bonjour,
bonsoir, excusez-moi ou merci beaucoup, como é sinal de requinte entre as moças pronunciar, com bom
acento — a mais difícil lição para a antiga escrava. Decepcionados com sua pronúncia, desistem de
fazê-la usar expressões francesas, mas ao menos saberá o que significam, se as ouvir. E acrescentam:
quando os homens entrarem na liberdade das confidências, ou em suas recordações libertinas, dona
Francisca deve se afastar, levando as outras mulheres.
Ensinam à senhora como preparar uma mesa de banquetes sobre toalhados brancos de rendas
francesas: quais e onde se põem os talheres, pratos, copos e cálices, como os escravos devem servir. Não se
trocam mais de três vezes os talheres: depois do serviço, após as carnes e à sobremesa. Quando for oferecer
uma festa, dona Francisca deve preparar uma coberta de princípios de copa: uma de potagens, uma de
massa, uma de assados e outra de doces e frutas, cada qual com dez diferentes pratos. A copa será com
baixela de prata e louça da Índia, assim como cristais de França. Não se admitem crianças barulhentas
à mesa, nem homens com seus chapéus, esporas ou espadas, nem em camisas.
Quando dona Francisca se espanta com algum cardápio desconhecido, ensinam que ela nunca
deverá demonstrar pasmo; e, se lhe perguntarem o que achou, deve dizer: “Encontrei nesse manjar
estranho um sabor extremamente agradável que lembra o do creme mais delicado.” É elegante os ricos
comerem manjares exóticos, os franceses apreciam as lesmas, os sapos, os ratos que vivem nos bosques.
Naturalistas estrangeiros comem tanajuras quando vêm ao Brasil. E Xica dá suas gargalhadas, para
desespero dos mestres.
Para que a aluna se familiarize com a cultura clássica, eles tecem relações entre a jacuba e os
mistérios de Elêusis, entre o angu e Ovídio, entre a farinha e a deusa Anat, entre o pão e Michelangelo.
Leem para ela e suas escravas páginas do livro Arte da cozinha, receitas e cardápios que mestre
Domingos provou, uma obra útil e necessária a todos os que governam ou regem casas. Aí, afirmam os
mestres, estão os pratos que o desembargador gostará de ter à mesa: caldos dourados, azevias, pastéis de
carneiro com açúcar e canela, perdigões assados, frangas lardeadas sobre sopas de natas, manjares reais
em tigelas coradas, empadas inglesas nevadas, adens estofados com marmelos, pombos com cardo em
fricassé, sonhos passados por açúcar e graxe, e mais doces, como pinhoadas, nogadas, boroas de mel,
esquecidos, raivas e suspiros — dizem que o açúcar embriaga muito mais ao português do que o vinho.
Criado na fazenda e comendo nas mãos das escravas, João Fernandes aprecia mesmo é o cuscuz, o angu,
o feijão com torresmo, mas dona Francisca apenas ouve, sem contestar, fazendo por dentro seus
comentários. Falam do esplendor à mesa do rei dom João, que Deus o tenha, o multiplicar estonteante
dos ornatos e que, sob novo reinado, não sabem se mudarão os hábitos ou não.
Abrem à senhora garrafas de vinhos preciosos, tintos, brancos, vermelhos, claros, rascantes, macios,
secos, perfumados, para que prove, narrando sobre suas qualidades, e licores ardentes para a saúde
cumprimentadeira. Na frasqueira, o xerez, o porto, o velho-Reno, o lachrima-Christi, em garrafas de
vidro dourado. Os vinhos de Orléans são ásperos e interditos à mesa. À noite vem o mestre de dança;
ordena música.
— Festa começa na boca e acaba nos pés — diz.
Dona Francisca aprende a dançar o minuete com deleitosos requebros, matéria na qual ela se revela
o melhor dos aprendizes. Ensaia com seus mestres as contradanças, duas cortesias com trocadilhos de
pernas, representa um sentimento — e lhe ensinam os sentimentos mais adequados — e que não se
alvoroce demais com o doido fandango, ao som do xiquexique de prata, ofegante, até resvalar
arquejando sobre uma cadeira de tapeçaria, a cabeça ourada de vertigens. Nada dessas danças de
abominação e de inferno das negras, tão reboladas de quadris, jogadas nos lombos, tão batidas de
ventres, peito contra peito, ancas contra ancas, coxas contra coxas, como faunos a se esfregar nos troncos
das árvores. Essas são as aulas da noite.
Dona Francisca ouve e esquece, mas algo sempre lhe fica marcado e, aos poucos, o seu
comportamento vai se refinando. Mas sem jamais deixar de ser a mulher de sempre, cheia de vida,
fulgor, autoridade.
Neste ano de 1754, Xica engravida do primogênito de João Fernandes. Com um filho do
contratador, sua posição estará mais firme e elevada.

Em Chica que manda, Agripa Vasconcelos imaginou que a educação de Xica da Silva foi levada
a cabo por três mulheres portuguesas. Elas teriam vindo após o fracasso financeiro de seus
maridos no Reino, atingidos pela tragédia do terremoto de 1755. Um grupo teria aportado no
Tijuco e se posto sob a proteção de Francisca da Silva. Eram Rodolfo Morais e dona Leonor, seu
Gonçalves e dona Fátima, Vasco Beltrão e dona Céu, Sebastião Albino e dona Cândida, Gonçalo
Alves e dona Luzia, Nogueira e dona Conceição, expatriados, alguns trazendo seus filhos. “Esses
emigrantes lograram a simpatia de Chica e foram-lhe de suma importância para lhe polir as
maneiras, fazendo-a elegante e conversadora razoável. Essas senhoras começaram a frequentar o
Castelo de Chica, dando sugestões sobre modos de decorar o palácio, como receber visitas e
função das mucamas. Chica tinha tudo, mas usava o seu luxo de modo asselvajado. As lisboetas
reeducavam a nova amiga conforme usos da sociedade europeia.”146
*

A dança nas Minas do século 18 era mais que um reflexo da etiqueta da Corte. Fazia parte da
educação da nobreza, ou dos que almejavam a condição de nobres — no sentido de homens
“principais”, “bons”. Estabelecia uma distinção social, com a apresentação, nos bailes e encontros
sociais, de uma conduta cortesã. O lazer da dança também proporcionava a exibição e admiração
do corpo, com o intuito não apenas de diversão, mas de sedução.
As cheganças estavam proibidas em todo o Reino e colônias desde 1745, por um alvará de dom
João V, que mandava para a prisão qualquer um flagrado naquela dança de “abominação e de
inferno, tão rebolada de quadris, tão jogada de lombos, tão batida de ventres...”.147 Até então, as
cheganças tinham sido uma febre: irrompiam bruscamente pelas ruas, nas varandas, nas chácaras,
invadiram Lisboa desde o Mocambo ao palácio dos reis e eram dançadas até pelas damas da
rainha. Os bailarinos se entregavam a requebros, saracoteios das nádegas, as ancas contra ancas,
coxas contra coxas, rompendo depois em sapateados bravos, acabando ventre contra ventre, peito
contra peito. O povo lamentava a proibição, entoando uma cantiga.

Já não se dançam cheganças


Que não quer o nosso rei,
Por que lhe diz frei Gaspar
Que é coisa contra a lei.

Os portugueses eram bem mais libidinosos do que os africanos, afirma Gilberto Freyre.148
Mesmo as danças eróticas dos negros, desempenhando funções afrodisíacas, de excitação ou
estímulo à atividade sexual “correspondem à carência e não ao excesso, como a princípio pareceu
a muitos...”. Quanto mais frequentes e ardorosas, mais fraca sexualidade essas danças indicavam.
Após a proibição das cheganças entrou em voga o minueto, ou minuete brejeiro, levado para
Lisboa desde a década de 1730 pelas cómicas italianas e pelas óperas de bonecos. Era uma antiga
dança de origem aristocrática, muito difundida na França desde o século anterior. Caracterizava-
se pela nobreza e equilíbrio de movimentos. Alegre, gracioso, leve, com movimentos graves e
lentos, o minueto era dançado por pares que ora se davam as mãos, ora se afastavam em mesuras.
O nome se deve provavelmente aos passos delicados: dança dos passos miúdos, ou menus.
Em Lisboa o minueto invadiu os palcos das comédias, os salões do palácio real, os bailes e
saraus das casas particulares.

Canta-se, dança-se, tilinta, gorjeia, palpita por toda a parte, nas cordoagens de cobre dos
cravos e das virginais, nas caixas acharoadas de oiro dos relógios de Londres, nos sinos de todas
as igrejas e de todos os mosteiros, nas flautas de marfim com que os mestres de solfa, pintados
de carmim e pingados de minas, batem o compasso da “mirontela” sobre o tampo de
harmonia das espinetas.149

Tocado em sinos, clavicórdios, violas, o minueto era dançado e cantado. Ocupava não apenas
os entremezes das óperas, mas também os serenins e até mesmo as missas pontificiais. Esquecido
dos cantos gregorianos, o rei dom João V passava horas a ouvir minuetos tocados nos carrilhões
dos conventos. Esse estilo musical conquistava a liturgia e penetrava os mosteiros. O frei José do
Espírito Santo, organista e mestre de cravo, tocava minuetes no mosteiro de Sant’Ana para que as
freiras dançassem.
Dois mestres de dança franceses, monsieur Le Beau e monsieur Louis, enriqueceram em
Lisboa, dando aulas de “minuete liso”, o “afandangado”, ou o “minuete da cidade”. O mestre
espanhol Pedro Avendaño foi levado pela rainha dona Mariana, a peso de ouro, para Lisboa, onde
seus papéis de solfa passavam de mão em mão, eram interpretados por todo lado e mesmo
assobiados por habitantes das ruas sujas. Sua mais célebre composição foi o malicioso “Minuete
do maroto”, com letra de um poeta ignorado.

Senhor maroto,
Tome uma figa!
Não me persiga...
Mas venha cá.

Quer um beijinho?
Sabe [a]onde eu vou?
Pois não lho dou...
Mas tome-o lá.

A partir de meados do século era a dança dominante também na colônia, alegrando bailes,
entremezes e diversos tipos de festa. Ao lado dos minuetos apreciava-se a contradança, ou country
dance, que teve origem nos ambientes rurais da Inglaterra. Era dançada em grupos: os dançarinos
formavam círculos ou filas que se moviam numa grande variedade de passos. As contradanças
deram origem às quadrilhas.
Também dessa época é a popularização da valsa como dança de baile. De origem controversa,
era dançada inicialmente por camponeses, que se abraçavam tão próximos a ponto de encostarem
rosto contra rosto. Há suposições de que, por volta de 1780, entediados com os formais minuetos,
nobres e fidalgos frequentavam bailes populares onde teriam aprendido a dançar a valsa.
Levaram o gênero para os salões, todavia adaptado: passos mais largos e selvagens se tornaram
movimentos curtos e elegantes, com distanciamento entre o par.

A dança mais apreciada na segunda metade do século 18 foi o lundu, associado à luxúria e
durante muito tempo praticado apenas pela população pobre. Misto de danças africanas com
fandangos espanhóis e portugueses, acabou por penetrar as casas de famílias abastadas; na década
de 1780 era dançado até no palácio do governador em Vila Rica. Nas festas, após o consumo de
bebidas espirituosas, como o vinho, os pares bailavam ao som da viola “quase sem moverem as
pernas, mas com todos os gestos lascivos do corpo, tocando-se durante a dança de uma forma
singularmente impudica”. Enquanto isso, os espectadores cantavam e batiam palmas. O lundu
também era dançado nos entremezes dos espetáculos teatrais, com uma explosiva sensualidade
feminina, conforme observado por um viajante francês,150 em 1817, na Bahia.

Esta dança, a mais cínica que se possa imaginar, não é nada mais nem menos do que a
representação a mais crua do ato de amor carnal. A dançarina excita o seu cavalheiro com
movimentos os menos equívocos; este responde-lhe da mesma maneira. A bela se entrega à
paixão lúbrica: o demônio da volúpia dela se apodera, os tremores precipitados das suas
cadeiras indicam o ardor do fogo que a abrasa, o seu delírio torna-se convulsivo, a crise do
amor parece operar-se e ela cai desfalecida nos braços do seu par, fingindo ocultar com o lenço
o rubor da vergonha e do prazer...

Batuque era como se dizia para todo tipo de dança dos negros. Com um ritmo desenfreado,
acompanhado pela percussão de instrumentos com corda esticada, ou pela batida das mãos, o
batuque acontecia a qualquer momento. Bastava que se juntassem alguns negros, um deles batia
palmas ritmadas: era a chamada para o batuque. Dirigido por um figurante, dançava-se com as
ancas se agitando, um estalar de línguas e dos dedos como se fossem castanholas, acompanhando
um canto monótono. Os dançarinos formados em círculo repetiam o refrão. Os negros dançavam
às vezes sem parar, durante toda a noite; por isso preferiam os sábados e as vésperas de dias
santos. Em suas Cartas chilenas, de 1787, Tomás Antônio Gonzaga descreve o batuque dançado
nas regiões mineiras, com as umbigadas usuais, mas afinal se tornando o lundu que penetra os
salões dos senhores.

Fingindo a moça que levanta a saia


e voando na ponta dos dedinhos,
prega no machacaz, de quem mais gosta,
a lasciva embigada, abrindo os braços.
Então o machacaz, mexendo a bunda,
pondo uma mão na testa, outra na ilharga,
ou dando alguns estalos com os dedos,
seguindo das violas o compasso,
lhe diz — “eu pago, eu pago” — e, de repente,
sobre a torpe michela atira o salto.
Ó dança venturosa! Tu entravas
nas humildes choupanas, onde as negras,
aonde as vis mulatas, apertando
por baixo do bandulho a larga cinta,
te honravam cos marotos e brejeiros,
batendo sobre o chão o pé descalço.
Agora já consegues ter entrada
nas casas mais honestas e palácios!151

Mas logo passaria o tempo dos lundus e reinaria a modinha brasileira, a partir da década de
1790, com a malícia das letras e os requebros lânguidos com que as brasileiras a cantavam.

O que se sabe das danças de baile nas Minas do século 18 vem quase sempre de relatos de
viajantes que testemunharam bailes ou saraus. Mas, também, de um ou outro documento, como o
contrato do artista de teatro, Francisco Mexia, com o Senado de Vila Rica, firmado em 1751, para
a apresentação de óperas e contradanças nas comemorações à coroação de dom José I.
O registro da presença de construtores de instrumentos musicais em Vila Rica sugere a
ebulição da dança e da música. Eram fabricados saltérios, flautas, clarinetas, fagotes, rabecas,
descantes, violas e até órgãos de tubos. Proibidos de tocar gratuitamente, fosse nas igrejas,
oratórios, nas ruas ou nas casas de moradores, os músicos tocavam profissionalmente em
cerimônias religiosas, bailes, saraus ou banquetes.
Sabe-se que mestres de danças de baile realizavam apresentações cênicas de contradanças e
minuetos, com homens atuando no papel das damas. Esses mestres chegavam a fazer anotações
das coreografias, que eram trocadas entre eles. Supõe-se que alguns vinham de Portugal ou
mesmo da França.
Sinistras ruínas

O terremoto de 1755

CHEGAM TERRÍVEIS NOTÍCIAS DE LISBOA. Um terremoto arrasou a cidade, no Dia de Todos


os Santos, matando milhares de pessoas. O sargento-mor João Fernandes e sua esposa Isabel escaparam e
o solar onde residiam, na rua do Guarda-mor, foi dos poucos edifícios que continuaram de pé. Mas,
aterrorizados, estão vivendo numa tenda levantada num jardim da cidade, junto a outros moradores. O
casal está de partida, o sargento-mor deseja rever as terras de sua infância, como se pressentisse uma
despedida deste mundo. Não é possível viver em meio a tão sinistras ruínas. Vai visitar as filhas que
vivem na clausura do convento, distribuindo esmolas aos pobres que encontrar no caminho, e depois irá
peregrinar a Santiago de Compostela, com dona Isabel, para retribuir a graça de estarem vivos.

O terremoto de 1755 reduziu a destroços e cinzas uma das mais opulentas metrópoles da
época, abalando também a fé em Deus e as concepções acerca da natureza. O tremor ocorreu por
volta das dez da manhã e, depois de seis ou sete minutos, quase toda a cidade de Lisboa estava
completamente em ruínas, e grande parte da população, morta sob os escombros. As águas do rio
desapareceram por um instante, retornando em ondas altas e poderosas que se elevaram de seis a
nove metros, alagando áreas já arruinadas, matando ainda mais pessoas. E irromperam
numerosos incêndios que duraram de cinco a seis dias, segundo relato do cônsul britânico Edward
Hay, que presenciou o fenômeno.
Os abalos começaram no cais que se estendia da ribeira do Tejo ao palácio dos reis, o qual foi
inteiramente destruído, sem deixar indícios de sua construção. O que antes eram a catedral da Sé,
a Casa da Índia, a Alfândega, a praça de comércio, os tribunais públicos, a casa da Inquisição, após
o terremoto não passavam de um monte de entulho e lixo que em alguns locais alcançava a altura
de vários andares. O Real Teatro da Ópera, acabado de construir, estava em ruínas; das quarenta
igrejas de Lisboa, trinta e cinco desabaram sobre os fiéis que assistiam à missa de Todos os Santos,
esmagando-os; restaram apenas três mil, das cerca de vinte mil casas da cidade; casarios, solares e
palácios desmoronaram num instante; foram aterradas bibliotecas e obras de arte: somente num
palácio desapareceram cerca de duzentas pinturas – entre elas um quadro de Ticiano, outro de
Rubens — e perto de dezoito mil livros e dois mil manuscritos; a Biblioteca Real, de setenta mil
livros, foi devastada.

[...] cada palácio era um tesouro particular; tanto em pinturas e tapeçarias como em outros
efeitos preciosos, e assim se pode prudentemente discorrer quanto imensa terá sido essa perda. A
do dinheiro não podia ser das maiores pela pobreza, em que se achava este reino; porém
compreendido o do Erário real e o dos particulares nacionais e do Brasil (que ali chamam
comumente mineiros) poderá montar ao todo na quantia de 10.625$ cruzados. Acrescente-se
a esta perda a das joias, pedrarias e prata lavrada, assim da coroa como de particulares,
igrejas, e comunidades, e se achará uma soma que excede toda a imaginação.152

Calculavam o número de mortos entre dez a quarenta mil pessoas;153 os feridos e desabrigados
eram sem conta e os sobreviventes se encontravam duramente abatidos. A família real escapara,
pois, quando desabou o palácio, encontrava-se em Belém. Consta que após o terremoto o rei dom
José I teria sofrido de uma fobia a recintos fechados, vivendo o resto da vida num luxuoso
complexo de tendas no Alto da Ajuda, em Lisboa.
O ministro Sebastião José de Carvalho nada padeceu, assim como sua casa à rua Formosa. A
residência do sargento-mor João Fernandes de Oliveira, como já vimos, sofreu poucos abalos, mas
ele e sua esposa, temerosos, foram se instalar em tendas levantadas nos jardins, junto a outros
moradores de Lisboa, inclusive o rei dom José I e seus familiares. Logo em seguida ele e dona
Isabel partiram para o Porto, onde se encontravam suas filhas enclausuradas no convento Madre
de Deus de Monchique, e em seguida para Santiago de Compostela, em agradecimento pela
bênção de estar vivos, numa peregrinação que durou todo o ano de 1756.
A Europa se abalou com o acontecimento, noticiado através de correio expedido de Portugal.
A abastada Inglaterra remeteu prontamente um auxílio de quinhentos mil cruzados, seis mil
barris de carne, quatro mil barris de manteiga, mil e duzentas sacas de arroz, mil sacas de biscoito,
dez mil quintais de farinha, mais de três mil moios de trigo e um grande número de ferramentas
para os trabalhos de reconstrução da cidade. França e Espanha demonstraram o desejo de enviar
socorro, o que foi dignamente recusado pela Coroa, por serem considerados países adversários.
Alguns nobres recusaram o dinheiro do fundo de socorro para que a dádiva fosse distribuída entre
os pobres. O clero e a nobreza ajudavam a enterrar os mortos e a minorar os sofrimentos dos
sobreviventes. O rei mandou distribuir abundantes esmolas e queria acompanhar os enterros,
acompanhado dos príncipes seus irmãos, mas foi desencorajado de fazê-lo, por seus validos.
Os italianos encheram-se de piedade pelas dores do povo português. A comoção foi intensa.
“Em Santo António dos Portugueses fez-se logo um tríduo com exposição das Quarenta Horas.
Sem convites, sem nada, a igreja está cheia de dia e de noite. É o povo, clero e nobreza que vêm
pedir a Deus misericórdia para Portugal. E no meio da assistência religiosa e amiga, vê-se o papa
Bento XIV.”154
Acenderam-se debates sobre os significados do terremoto, que envolviam pensadores como
Rousseau, Goethe e Voltaire. Aprofundou-se a imagem de Lisboa como uma terra de catástrofes
absurdas, atolada em superstições irracionais. Três terremotos (os outros foram em 1531 e em
1551); a obscurantista Inquisição a predominar desde 1536; a grande peste de 1569; o desastre de
dom Sebastião em Alcácer-Quibir, no ano de 1578; a perda da independência na Batalha da Ponte
de Alcântara, em 1580; o cataclismo de 1598, que destruiu parte do monte de Santa Catarina —
foram desgraças que confirmavam essa imagem da cidade, mas não nublavam sua grandeza.
O ministro Carvalho mostrou-se impassível diante da tragédia, a qual tentou minimizar.
Numa de suas cartas chegou a escrever que, do ponto de vista político, Portugal nada perdera em
tal revolução. Provavelmente, via ali uma grande oportunidade de exercer maior poder, impondo
uma política de renovação profunda.

Derrubaram-se-lhe algumas pedras, que estavam arruinadas, e postas umas sobre as outras; a
aniquilação das mercadorias, que pertenciam quase todas aos estrangeiros; o incêndio dos
móveis; e a perda de alguns vassalos ociosos, que não eram nem lavradores, nem artistas, não
fazem falta ao seu sistema geral. O fenômeno não caiu mais que nos materiais, que bem
longe de serem causa da grandeza do Estado, eram pelo contrário a fonte da sua ruína.155

A fatalidade arrasou não apenas o ânimo e as bolsas da população como os cofres do governo:
era preciso socorrer os feridos, doentes e indigentes, limpar as ruas, reconstruir os edifícios
públicos e tantas mais providências que representavam altíssimos custos. A ruína geral dos
senhores reduziu o rendimento da maioria dos tributos e ainda foi necessário abolir alguns
impostos, como o que incidia sobre madeiras importadas, para facilitar aos moradores a
reconstrução de suas casas e de suas vidas.

Havia três anos que o antigo contratador de diamantes, Felisberto Caldeira Brant, estava
preso sob suspeita de fraudar a Coroa. Deportado, agrilhoado, encontrava-se numa cela da prisão
do Limoeiro aguardando seu julgamento, quando ocorreu o terremoto. As paredes
desmoronaram à sua volta e Felisberto se viu sem guarda. Em vez de fugir, como os demais
prisioneiros das celas arruinadas, ele tomou uma decisão incrivelmente sensata.
Ainda acorrentado, atravessou a cidade em ruínas e se apresentou ao ministro Sebastião José
de Carvalho, pedindo-lhe justiça e que seu julgamento fosse logo realizado. Não suportava mais
os sofrimentos da prisão. O ministro lhe permitiu ir para as fontes termais de Caldas da Rainha,
onde poderia aguardar em boas condições o seu julgamento. Lá ele passou pouco tempo porque,
logo depois, debilitado pelo péssimo tratamento recebido na prisão do Limoeiro, veio a falecer.

O rei dom José entregou ao ministro Sebastião José de Carvalho e Melo a autoridade completa
para lidar com as consequências da catástrofe. Esse trabalho incluía o despejo de corpos no mar
atados a pedras pesadas, o controle do preço de alimentos e materiais de construção, a proibição
de qualquer construção provisória, os trabalhos de limpeza dos escombros, o enforcamento de
saqueadores, o inventário dos direitos de propriedades, numerosos atos de saneamento,
nivelamentos, a contratação de engenheiros e topógrafos para o desenho das plantas da nova
cidade — e tantas providências mais. Os arquitetos foram orientados a projetar as novas
construções resistentes a possíveis novos terremotos; criavam modelos para testes — engenhosas
gaiolas de madeira — em que os abalos eram simulados pelo marchar de tropas. Carvalho enviou
a todos os concelhos em Portugal um questionário acerca de tremores de terra que incluía
perguntas como: os animais se comportam de maneira diferente antes do evento? Houve
mudanças no nível da água? Quantos edifícios ali desabaram? O inquérito permitiu aos cientistas
portugueses uma verificação do terremoto de 1755 e marcou o nascimento da ciência da
sismologia.
Em menos de um ano, a cidade já estava praticamente reerguida. O êxito deu a Carvalho o
impulso definitivo para seus poderes colossais — que exerceria por vinte e dois anos, até a morte
do rei — e uma nova face ao Reino português. Com esse extraordinário trabalho de reconstrução,
empreendendo uma arquitetura monumental, o ministro celebrava a sua ideia de um Estado
moderno, regulado, mercantil e utilitário.

O Brasil tomou a iniciativa de contribuir com a reconstrução de Lisboa, pagando uma quantia
anual de quarenta contos, levantados nas capitanias, exceto a do Rio de Janeiro. Criou-se um
imposto aduaneiro cujo montante era totalmente destinado à contribuição e em alguns anos o
donativo brasileiro ultrapassava o valor prometido. Vultosas fortunas que ficavam nas colônias
foram transferidas para Lisboa. Riquezas extraídas do Brasil financiaram parte da reconstrução;
senhores de cabedais foram obrigados ao pagamento de um imposto ordenado pelo ministro
Carvalho, como subsídio “voluntário”. Homens de negócios emprestavam altos valores, a juros,
ao Estado e à fidalguia arruinada.
A situação do sargento-mor João Fernandes em Lisboa escapou à falência pelo fato de que seus
bens e sua fonte de renda eram, na maior parte, em terras do Brasil. Assim, ele chegou a
emprestar dinheiro ao próprio ministro Carvalho e Melo, estabelecendo laços valiosos. Mais
tarde, em 1770, o sargento-mor concederia a Carvalho e Melo uma fabulosa quantia para a
conclusão das obras localizadas junto à igreja da freguesia arruinada de São Paulo, pertencentes ao
ministro, por herança.
O sargento-mor adquiriu um quarteirão de terras na valorizada “baixa pombalina”, a fim de
construir ali moradias nobres para aluguel. “Entre as inúmeras consequências, o terremoto
provocou a redistribuição da riqueza na cidade. De um lado, dilapidou o patrimônio de muitas
famílias nobres que viram suas propriedades e tesouros destruídos; por outro, propiciou a
contínua ascensão da classe mercantil que possuía negócios além-mar”,156 como era o caso de João
Fernandes de Oliveira.

Após dois anos entre visitas e peregrinação, de volta a Lisboa, o sargento-mor decidiu, com a
esposa, construir uma suntuosa residência que exaltasse sua riqueza e seu poderio aumentado
pelos novos vínculos, compartilhando de um sentimento renovador que nascera na cidade, com a
tragédia. Escolheram um terreno no bairro da Lapa, aprazível, arejado e elevado, imune a
terremotos e devastadoras invasões das vagas marítimas. Ademais, com uma bela vista para o
Tejo. A nova casa de Fernandes ficava à rua Buenos Aires, ao lado de um cruzeiro, onde os
abastados estavam construindo suas novas mansões. Tamanhas eram as despesas com a
construção da casa que o próprio ministro Carvalho chegou a limitar os gastos, cobertos com
rendimentos do contrato.
A mulher poderosa

O desprezo por fidalgos. A madrinha. Seus escravos

UM NEGRO ORGANIZA UMA MARUJADA no Tijuco. Dona Francisca manda um recado para
que venha com a marujada se apresentar em sua chácara, na festa do domingo. O negro manda a
resposta de que está comprometido com um dos grandes do arraial e se oferece para a cantoria na
chácara de dona Francisca depois desse compromisso.
Ela não pode admitir semelhante diminuição de sua importância. Mas encontra uma saída ardilosa
e cruel: pede ao contratador que mande comprar o negro, e ele o faz.
E Xica ordena ao negro que cante, noite e dia, no seu jardim, a tocar o pandeiro da marujada.
São dias a fio nesse bater sinistro.

O episódio da marujada faz parte da lenda em torno de Xica da Silva, sugerindo as possíveis
ocorrências em que demonstrava sua força. Cenas como o capítulo no romance de João Felício,
em que Xica da Silva, agora bondosa, encontra um mascate seguido por um escravo idoso a levar
uma pesada carga. A senhora o aborda e faz uma proposta de comprar o negro, logo aceita pelo
mascate. E Xica ordena ao mascate: “Leve essa porcaria toda na cabeça ou pague a algum
desocupado da tua marca para carregar. Se tiver a audácia de chamar um negro, mesmo que seja
livre... sei lá! Não brinque comigo que te despejo da Demarcação em seis horas, com uma mão na
frente e oura atrás, está me ouvindo?” Outra anedota mostrará como dona Francisca da Silva
tratava os portugueses, “que a seu turno tratavam os brasileiros com o maior desprezo”.157

Alguns portugueses vieram de Lisboa demandando fortuna nesta nossa terra, onde constava
que magicamente se enriquecia de um dia para outro. Para terem um princípio de vida,
como era costume, foram pedir a proteção de Francisca da Silva. Esta os recebeu com
benevolência, por lhes haverem sido recomendados por grandes da Corte; depois, voltando-se
para um escravo:
— Cabeça — disse —, trata desses marotinhos.
Cabeça era o escravo que tomava conta da casa: uma espécie de mordomo; marotinhos era o
nome que ela dava aos portugueses.
Depois como um favor especial mandou que fossem trabalhar com os escravos nos serviços do
Contrato.158

Sabendo a população, e os recém-chegados se inteiravam, que o contratador costumava


atender às demandas de dona Francisca, era a ela que procuravam com seus pedidos. Xica era um
caminho para se conseguir uma benesse, até mesmo o enriquecimento. Aos poucos ela foi
conquistando um poderio paralelo, enquanto criava ligações entre o contratador e a população
negra e pobre. Os apadrinhamentos de João Fernandes e os de Xica da Silva dão uma noção dos
vínculos desse casal.
Assim que chegou ao Tijuco, em 1753, ele foi padrinho de Angélica, filha legítima de um casal
branco. No ano seguinte foi padrinho de casamento de um casal branco, sendo o outro padrinho
um velho amigo de seu pai, também sargento-mor. Nos anos seguintes foi padrinho de diversos
casais, sempre pessoas brancas da classe alta do Tijuco. Em 1760, João Fernandes apadrinhou,
junto com o intendente, um casal que escolheu os dois homens mais poderosos para abençoar seu
casamento. Desde que construiu a chácara da Palha, João Fernandes de Oliveira passou a ser,
além de padrinho, anfitrião de casamentos, que eram realizados na capela de seu sítio, sempre
entre pessoas das famílias ricas.
Dona Francisca da Silva era convidada a amadrinhar crianças ou casais de sua mesma
condição, ou mais baixa, na hierarquia social.159 O primeiro amadrinhado da Francisca forra foi
um casal de brancos, moradores do distrito de Gouveia. Em 1762 ela foi madrinha, ao lado do
intendente, da filha legítima de um casal branco. Mas os demais convites eram sempre para ser
madrinha em cerimônias de escravos ou forros: a criança Maria, filha da preta forra Maria de
Jesus; Francisca parda, filha da escrava Inácia, que homenageou a madrinha dando seu nome à
menina; Vicente, filho de pai desconhecido; Maria, filha ilegítima de mulher branca e solteira;
Joana, filha da crioula forra Rosa Maria; Vitória, filha do pardo Roberto Antônio da Cruz.
Ao seu lado como padrinho João Fernandes esteve apenas uma vez, em 1760, batizando a filha
da forra Severina crioula; a Igreja não admitia casais de amancebados como padrinhos. Em alguns
casos, os padrinhos que faziam par com Francisca da Silva eram homens de certa importância,
como foi o caso do intendente. Também Xica foi madrinha de várias crianças filhas de escravos
fora de seu plantel, mudando a praxe. Amadrinhou algumas crianças filhas de negras ou pardas
que eram suas amigas desde os tempos de seu próprio cativeiro, como o caso da filha de Francisca
crioula, agora chamada de Francisca Pires, amante do médico Pires Sardinha. A segunda filha de
Francisca Pires, de pai desconhecido, foi batizada por João Fernandes, talvez por influência de sua
mulher. O contratador, também por uma possível influência de dona Francisca, passou a ser
chamado para padrinho de crianças enjeitadas ou filhas de crioulas, escravas, forras. Levava como
madrinha sua filha primogênita, Francisca de Paula, ainda criança, ou Rita Quitéria, a outra filha
do casal, transgredindo a regra da Igreja que determinava serem os padrinhos maiores de catorze
anos.
Esses fatos demonstram que os laços afetivos de Xica eram com a gente “de cor”, e profunda a
interdição junto à sociedade branca; justificam a atitude de humilhação a que ela possivelmente
submetia os brancos, os marotinhos, os portugueses que se curvavam a seus pés em pedidos.

O povo do Tijuco, de viva imaginação, sempre apaixonado por ditos espirituosos, passa adiante as
histórias de dona Francisca mofando dos marotinhos e de alguns desses empregados seculares, militares e
eclesiásticos que vivem à custa da Fazenda. A maioria é sustentada pelo trabalho dos mineiros, dos
escravos, dos comerciantes, que sofrem violências de natureza diversa, como extorsões ou rapinas, sempre
em nome do rei; muitos, reinóis ávidos, insaciáveis, desumanos, agindo como donos daquele torrão
diamantino.
As histórias são contadas cada qual a sua maneira e em algumas delas Xica toma o renome de
heroína. Escravos e escravas a admiram como a uma rainha, sentindo-se eles mesmos vitoriosos quando
a veem passar nas ruas do arraial, numa cadeirinha dourada, cercada por escravas suntuosamente
adornadas, entrando na igreja, de cabeça erguida. Escravas querem pertencer a dona Francisca,
participar do seu mundo glorioso de festas e da sua vida alegre e animada. Xica é uma Mãe do Ouro a
defender os escravos, é ela quem vai libertá-los, eles sonham, com todo o seu poder no reino dos brancos,
e o Tijuco será mandado só por negros e negras.

Com a escravidão tão arraigada, o escravo era tido como um bem patrimonial, que produzia
trabalho e rendas: “A primeira cousa que seduz um operário em Tijuco, quando ele consegue
economizar algum dinheiro, é arranjar um escravo; e, tal é o sentido de vergonha dado a certos
trabalhos que, para pintar a pobreza de um homem livre, diz-se que ele não dispõe de ninguém
para ir buscar-lhe um balde de água ou um feixe de lenha./ A compra de escravos é também para
um grande número dos habitantes de Tijuco, um meio fácil de valorizar seus capitais; eles alugam
à administração dos diamantes os escravos de que se tornam proprietários, e por esse meio
retiram de seu capital juros de cerca de 16%. Mas desse modo eles põem seus valores em fundo
morto e nada deixam aos seus herdeiros.”160
Ter escravos era também uma forma de ostentação: quanto mais escravos, mais rico o senhor,
e mais sólido o seu patrimônio. A sociedade olhava com admiração os donos de grandes plantéis.
Os negros vinham principalmente da Bahia, onde se pagava mais caro do que no Rio de Janeiro e
a distância era maior; mas na estrada que vinha da Bahia ocorriam menos mortes de cativos do
que no caminho montanhoso, sombrio e úmido do Rio de Janeiro, mais nocivo aos negros recém-
chegados da África. Após se unir a João Fernandes, Xica tornou-se dona de mais de uma centena
de cativos, com os quais o contratador provavelmente a presenteava, enquanto raros senhores
ricos possuíam mais de vinte escravos.
Alguns do plantel de Xica deixaram registro: José e Manuel crioulo, batizados já adultos; Ana
Gomes, Maria benguela, Tomásia cabra, João tapa, João Coelho, João Barundó, Lourenço
carapina, Miguel cafuzo, Bárbara mina, Catarina e sua filha Francisca, Severina da Costa e a filha
Margarida; os casais Joaquim pardo e Gertrudes crioula, José mina e Joana mina, Francisco mina e
Ana mina, que eram pais de Sotério e Antônio; Joaquim mina e Clara Maria, Antônio pardo e
Faustina cabra. Foram anotadas as mortes de alguns adultos que pertenciam a Xica da Silva, como
José maqui, João sabaru, João congo, José mina e Domingos sabaru. Todos esses escravos viviam
provavelmente num porão escuro e abafado, sujeitos a males e doenças. Em 1778, Francisca
perdeu alguns adultos e crianças, vitimados por uma epidemia. Entre 1786 e 1787 morreram vinte
e quatro escravos de Xica. Muitos deles trabalhavam na mineração, alugados ao contratador. Lá
morriam afogados, esmagados, feridos ou de doenças consequentes ao sistema da extração dos
diamantes, como aconteceu a João tapa.
No Erário mineral, o médico Gomes Ferreira conta que os negros mineradores como que
habitavam dentro d’água. Trabalhavam, comiam e dormiam no mesmo local, andavam banhados
em suor, com os pés sempre na terra fria, em pedras, ou dentro das águas geladas dos rios. Sofriam
de pleurises, paralisias, estupores, convulsões e outros males que os conduziam a uma morte
precoce. Eram levados ao Hospital do Contrato — onde morreram alguns escravos de Xica, como
João sabaru e João congo, assistidos por seus senhores.
As escravas de Xica da Silva, além do serviço doméstico, provavelmente eram ocupadas em
ganhos, vendendo mercadorias nas ruas ou fazendo serviços a terceiros, sob o sistema de aluguel:
lavar e engomar roupas, costurar, tecer, cuidar de crianças, amamentar e outros serviços. Alguns
de seus negros de ganho decerto trabalhavam em agricultura, carpintaria e ferraria, ou como
músicos, em festas, missas e velórios.

Os escravos empregados nos trabalhos de mineração pertenciam a particulares, que os


alugavam à administração: seus proprietários os vestiam e tratavam em caso de moléstias; a
administração lhes dava ferramentas de trabalho e comida. Costumavam receber a cada semana
um quarto de alqueire de farinha de milho, um tanto de feijão e sal, assim como um pedaço de
tabaco em rolo. Algumas vezes o feijão era substituído por carne. Como trabalhavam o dia
inteiro, os escravos preparavam seus alimentos à noite e durante o dia comiam-no frio ou
malcozido. Não era raro terem para se nutrir apenas um maço de ervas tiradas do mato.
Executavam um trabalho contínuo e penoso dentro d’água, para a lavagem do minério, sob
um sol escaldante para a busca do cascalho, dormindo ao relento nas noites frias, sempre
submetidos a temperaturas extremas; o que, somando-se à má alimentação, os tornava morosos e
apáticos. Eram frequentemente esmagados por pedras que desmoronavam das jazidas ou
soterrados por deslizamentos de terra. Os feitores não lhes permitiam um instante de repouso
durante o dia e severos castigos se sucediam a qualquer deslize, como chicotadas, clisteres de
pimenta-malagueta ou a ingestão de pedras.161 Havia o perigo de se depararem com serpentes
sucuriús, de “vinte varas de medir e grossas como um homem”, conforme documento coevo, ou
serem atacados por grandes onças pintadas e suçuaranas; e o perigo das doenças oportunistas e
das febres causadas por picadas de insetos. Ainda assim, eles preferiam o trabalho na extração de
diamantes ao serviço de uma casa. Nas lavras tinham a esperança de alforria, no caso de
encontrarem alguma pedra de grande valor. Além disso, sentiam o consolo das cantorias em coro
durante o trabalho e de noite em volta do fogo, relembrando com saudades canções de sua terra;
viviam o desafogo de certa liberdade, livres dos caprichos de donos ou donas a qualquer hora do
dia ou da noite. Também contavam, muitos deles, com um ganho adicional: o furto de diamantes.
Havia toda uma arte de surrupiar essas pedras, que os escravos ensinavam uns aos outros.
Cada moleque novo que chegasse recebia treinamento, usando-se feijão ou grão de milho como
diamantes, os quais aprendiam a atirar de longe para a boca, engolindo-os rapidamente. Sabiam
esconder diamantes entre os dedos e palmá-los na boca de modo que ninguém pudesse perceber.
Amassavam diamantes numa bola de barro ou piçarra, lançando-os fora e marcando o lugar onde
depois voltariam para recolher a pedra roubada. Quando não conseguiam furtar um diamante,
pela vigilância do feitor, o encostavam à cabeceira da canoa e o cobriam com esmeril, para de
noite tirá-lo. Como podiam usar apenas uma tanga nos serviços, faziam no pano uma espécie de
remendo que servia como bolsa para esconderijo de uma pedra. Ou aplicavam uma pequena
quantidade de cera no pano da tanga, na qual enterravam algum diamante. Sabiam introduzir
habilmente um diamante no nariz, como se estivessem tomando tabaco, ou escondê-lo entre os
dedos dos pés, onde as pedras ficavam horas seguidas, sem serem percebidas no exame que se
fazia na saída das lavagens. Metiam um pouco de cera preta atrás das orelhas e, fingindo que se
coçavam, ali escondiam alguma gema; da mesma maneira o faziam nos cabos ou reentrâncias das
ferramentas de trabalho. Possuíam sagacidade e senso de observação suficientes para marcar um
local em meio a um cascalho onde luzisse um diamante e voltavam de madrugada para buscar a
pedra. Deixavam algum diamante numa bateia, ou dissimulado na areia, para furtá-lo à noite.
Não cortavam as unhas das mãos, para fisgar diamantes pequenos, metendo-os na carapinha que,
para isso, deixavam crescer até tomar boa altura.
A atividade se tornara tão intensa que, no relatório de 1735, o autor escreveu: “Ainda se não
pôde evitar aos negros que andam no exercício de tirar diamantes, os furtos que deles fazem, de
sorte que não bastam dez brancos para vigiar um negro e, por esta razão, são raríssimos os
diamantes grandes que os negros têm dado aos seus senhores, porque todos os dão às negras e os
vendem nas tavernas a brancos que ocultamente lhos compram por grandes preços, e só entregam
os pequenos a seus senhores e esta é uma das causas e não a menor, porque se acha pouca conta
em ocupar negros neste exercício.”162

Parece-nos perverso que uma forra submetesse seres humanos ao mesmo cativeiro que a
fizera sofrer; a própria Xica e sua mãe tinham sido escravas, e Maria mina fora escrava de um
negro alforriado. Dizia um ditado: o bom escravo é o pior senhor.
A tradição popular se divide, afirmando por um lado que Xica era uma senhora implacável,
que castigava cruelmente seus cativos, mutilando escravas por ciúmes; por outro, que foi uma
benfeitora de negros. Não se comprovaram maus-tratos, mas Xica foi moderada na concessão de
alforrias. Existe a comprovação documentada de apenas uma liberdade que ela concedeu, a uma
filha de sua escrava Catarina, à pia batismal.163 Catarina fora a ama de leite dos filhos de Xica e
homenageou-a dando à criança o nome da benfeitora. Mas há indícios de outras alforrias.
Talvez Xica tenha libertado uma sua escrava chamada Maria, a qual, na alforria, adotou o
sobrenome Fernandes de Oliveira. A cabra Tomásia, que ao ser libertada adotou os sobrenomes
da Silva de Oliveira Fernandes, pertencia ao espólio de Xica da Silva. A escrava Gertrudes adotou
os sobrenomes religiosos das filhas de dona Francisca, Maria de Jesus de São José. Donata e Davi,
escravos alforriados do seu plantel, também adotaram os sobrenomes da família.
Sabe-se que os escravos de Xica eram batizados, casavam-se, faziam parte das irmandades de
mulatos e de negros, recebiam extrema-unção e eram enterrados dignamente, em capelas e
igrejas. Muitas das suas escravas, suntuosamente vestidas, a acompanhavam como damas de uma
rainha.
O sentimento da amante

Concubinas. Homens ciumentos

UMA DAS SOLUÇÕES para a pacificação das Minas, segundo o governador Lourenço de
Almeida, era que os homens se casassem com mulheres de sua mesma condição, assim instalando-
se, formando família, tornando-se mais respeitáveis e conformados. A Coroa chegou a promulgar,
em 1732, uma lei proibindo mulheres brancas de partirem do Brasil para Portugal, sem licença,
tentando prover aos colonos suas esposas.
Mas as mulheres disponíveis ao amor eram a negra, a mestiça, a escrava, a forra. E, mesmo
quando havia alguma cristã branca desimpedida, o reinol preferia a mulher exótica. Para justificar
essa primazia, espalhava-se que não havia mineiro que pudesse viver sem uma negra mina, pois
só com ela faria fortuna.
Todas as leis que tentavam regrar as uniões eram inócuas. A maioria dos casais formava-se
entre brancos e negras ou brancos e mestiças. As negras e mestiças ocupavam o lugar de esposas e
proviam a população de sua descendência. Cerca de noventa por cento das crianças nascidas em
Minas Gerais, entre 1719 e 1723, eram ilegítimas ou naturais, e a quase totalidade destas, filhas de
escravas ou forras concubinas.
O concubinato encobria numerosas situações amorosas e sexuais. Os casais ilícitos às vezes
moravam numa mesma casa; outras vezes, em casas separadas, mantidas ou não pelo homem,
que podia ser solteiro ou casado, ou amante de outras mulheres. O casamento era estimulado pela
Coroa, mas a postura da Igreja o desencorajava, impelia às uniões consensuais ao exigir vasta
documentação, quase sempre difícil de se obter, e ao cobrar taxas para a realização da cerimônia.
Aquela sociedade instável, em que as pessoas viviam vidas provisórias e estavam ali apenas para
enriquecer, desestimulava ainda mais as uniões legitimadas pelo casamento — que se realizava
somente no âmbito religioso. Xica da Silva e João Fernandes jamais se casaram, o que deve ter
dado origem a uma situação complicada, sobretudo para ela, que já havia passado pela
experiência da repressão por parte dos visitadores eclesiásticos. Por outro lado, era a condição das
outras forras que viviam como concubinas, o que lhe podia trazer algum conforto. Certamente, tal
situação irregular levou o contratador a registrar a casa em nome de sua mulher e de provê-la com
bens materiais e escravos.
*

Mesmo sendo as mancebias tão comuns no Tijuco e de certa forma facultadas às negras ou mestiças,
mesmo sentando-se ao lado de João Fernandes na igreja, dona Francisca sofre, sob as vestes luxuosas, o
estigma que sua pele e origem carregam. Mas a cada filho que gera com João Fernandes, livres e
batizados com pompas, sua posição de concubina esmaece exteriormente. O casal está sempre
intimamente ligado, como se num casamento realizado pela Igreja. Com o passar do tempo dona
Francisca vai se tornando mais poderosa, mais importante. Vence com um sorriso, ordena com um
olhar, decide destinos, desdenhosa, com as varetas douradas do leque. É ela quem manda, mesmo
quando parece obedecer. Porém, em seu íntimo persiste a mancha das circunstâncias de sua origem. Suas
crianças terão de passar por desafios e é preciso que os pais trabalhem para apagar as máculas de
nascimento que a mãe lhes transmitiu.
Quando João Fernandes não vai dormir em sua casa na rua da Ópera, dona Francisca deita-se
magoada, com insônia, vigia à varanda e se entrega aos pensamentos mais infelizes, sentindo-se sozinha,
abandonada. Onde estará ele? Talvez num rancho de mineração, talvez dormindo na Casa do
Contrato, talvez no leito de outra mulher. É como se João Fernandes não lhe pertencesse inteiramente,
levando uma vida à qual ela não tem entrada. Sabe que seu amante não se sente dono nessa casa,
aparece como uma visita, para ver os filhos, ter noites de amor, depois vai embora. Suas roupas não
estão lá, nem seus livros, nem suas armas. Seus amigos não vão à casa da barregã, a não ser um ou
outro, quase sempre para pedir intercessão junto ao contratador. Essa casa a mantém limitada a um
lugar ainda aquém daquele que ela deseja e sabe merecer. Está preparada para enfrentar a classe dos
mais poderosos com seus requintes. Pensa, então, em pedir a João Fernandes que construa uma casa para
ambos. Não falará assim, será melhor dizer que tem por capricho um palácio, com muitos salões, à
altura da riqueza e poderio de João Fernandes, onde ele promoverá comédias, óperas em sua própria
casa de ópera, os recitais de música que tanto aprecia, jantares suntuosos, assembleias com danças e
outros folguedos. Dona Francisca conhece bem o gênio alegre, folgazão e também sensual do seu
companheiro, que ama a mesa, os festins e toda sorte de divertimentos e ostentação.
Como sempre, João Fernandes concorda. Compra um largo terreno na Palha, a pouca distância do
arraial, numa localização aprazível e pitoresca nas fraldas da serra de São Francisco. Constrói um
magnífico edifício em forma de castelo, com uma capela ricamente adornada, um salão para teatro
particular com todos os petrechos necessários, uma excelente adega. Em torno da casa manda plantar
um aprazível jardim de exóticas e curiosas plantas, com cascatas artificiais, fontes amenas cujas águas
correm por entre conchas e cristais, sombreado por arvoredos transplantados da Europa. Manda abrir
um vasto tanque, onde se pode velejar em pequenos barcos ou remar em escaleres. Faz até mesmo uma
nau pequena, com velas e todo o aprestamento das naus de viagens oceânicas, para que sua mulher sinta
o gosto da navegação marítima.
Quando lhe permitem os afanosos trabalhos de seu cargo, João Fernandes passa ali todo o tempo
entregue aos prazeres, aos filhos e a sua Xica, recebendo numerosas visitas. Mesmo em alguns dias de
trabalho ele fica na chácara, em conversas com mineradores ou com o caixa, que lhe levam os problemas
a resolver. Faz suas contas, reuniões, toma decisões de trabalho. Logo, dona Francisca ordena que
Cabeça leve para a Palha os pertences do contratador. Ela faz que ainda mora em sua casa, mas aos
poucos vai também se instalando na chácara. Fica na rua da Ópera apenas quando João Fernandes
viaja para cuidar das inúmeras fazendas nas redondezas, das casas em Vila Rica e no Rio de Janeiro.
E se sucedem os dias de festas. À tarde são passeios no jardim e pescaria no tanque em escaleres
dourados. À noite o casal oferece lautos banquetes seguidos de representações teatrais com peças do
repertório local ou trazidas do Rio, de Lisboa. Apresentam-se concertos musicais, em seguida os
convidados bailam e vão beber nos jardins iluminados, até o romper da aurora. Dona Francisca ordena
aos escravos que sirvam a todos sem distinção, providenciando para que nada falte, compartilhando o
prazer geral. Anima com sua presença os divertimentos, fazendo com que reine a maior liberdade e
satisfação. O caráter do contratador combina perfeitamente com o do povo do Tijuco, sempre alegre e
amante de prazeres.
Lá João Fernandes se sente em sua casa. Lá dona Francisca é mesmo uma senhora, como as das
famílias mais distintas. Recebe os amigos do contratador, o intendente, ouvidores, militares de altas
patentes, gente da Coroa, comerciantes ricos, com suas senhoras e filhos. Eles se aproximam de dona
Francisca, conversam com ela, tratam-na como esposa do contratador. Xica está no auge de sua força,
seu esplendor de mulher, seu domínio. O único desassossego que remanesce em seu espírito é o da
separação: há sempre o risco de que João Fernandes vá embora.

Os homens portugueses no século 18 eram extremamente ciumentos. “Ciumentos e beatos”,


disse Montesquieu em 1723. “Muito dados a ciúmes”, palavras de William Dalrymple, que visitou
Lisboa em 1774.164 Talvez pela frágil virtude da mulher portuguesa que, na opinião do duque de
Châtelet, “excedia no galanteio todas as mulheres da Europa”.165 Esse mesmo duque, uma espécie
de jornalista impertinente, que visitou o marquês de Pombal em 1777, escreveu que os homens
portugueses eram “vis, soberbos, escarnecedores, presunçosos, ignorantes e excessivamente
ciumentos das mulheres”. “Ciumentos e tenebrosos”, completou o viajante alemão Heinrich Link,
em 1797.166 Ciumentos por índole, por fatalidade, por herança, por caráter. Sua taciturna
desconfiança vinha de uma geração de beatos e inquisidores. Nutriam pelas mulheres um
sentimento de posse que constituía o elo fundamental de sua honra. Não foram raros os casos de
desastres ou tragédias matrimoniais em consequência de ciúmes. Trancafiavam as esposas,
mandavam criados vigiá-las, acusavam-nas de crime apenas por serem belas, afligiam-nas com
vexames, torturavam-nas com suspeitas, causando “um irreprimível sentimento de dignidade
ofendida, que foi a razão suprema de todos os adultérios e a dolorosa justificação de todos os
crimes”.167
Não há nenhum indício de que João Fernandes fosse um homem ciumento. Seria, talvez, se
tivesse casado com uma senhora branca e vivesse em Lisboa. Mas Xica era sua concubina e
viviam longe da Corte, onde havia até mesmo o escárnio público dos maridos traídos. Em
Portugal chegavam a criar adjetivos para os que eram vítimas da traição de sua esposa: “cuco”, o
marido de uma mulher infiel; “antecuco”, aquele casado com uma mulher que fora de outro antes
do casamento, mas que era fiel ao marido; “recuco”, a que tivera outro antes do marido e se
portava mal; “chiscismelro” era o marido que sabia das traições da esposa e não se importava;
“ribeirinho”, aquele que consentia na infidelidade e obsequiava os amantes da sua mulher; e
“assombrado”, o marido que não era cuco por algum milagre. Tantos eram os casos de adultério
feminino que em 1769 foi publicado um alvará proibindo, sob pena de prisão, que se pendurassem
chaves de noite nas portas de senhoras casadas. A impressão é que, mesmo tendo uma vida solta,
recebendo marotinhos e outros em sua casa a lhe pedir benesses, vivendo em festas, adornada
com roupas e joias, e sendo o centro de atenções, a vida de Xica da Silva não corresponde às
lendas de devassidão que tentam atribuir a sua figura. Como vemos nas páginas do romance de
João Felício dos Santos, que imagina assim um pensamento do contratador: Xica da Silva “[...]
vinha, por último, não só fazendo uso de umas garrafadas esquisitas, como multiplicando-lhe
dissabores com diferentes tipos de adultérios, repartindo os supraditos requintes, na forma do
costume, com um cada vez maior círculo de parceiros, ultrapassando (ao que parece, por puro
gosto) muros e paredes com aqueles públicos rumores felinos, já sem ao menos o resguardo da
primitiva discrição, ainda que sempre rudimentar”.168
Banquetes dignos de Lúculo

Festas no Tijuco

“ERAM JANTARES, reuniões, bailes, funçonatas, e todos os diversos jogos em moda na época:
mesas, dados, bolas, peças e os mais complicados petrechos, vindos de Paris, como tudo ali,
especialmente para a chácara”,169 escreveu o romancista João Felício dos Santos. Ele imaginava o
contratador um sujeito caladão e distraído, a gozar nas varandas sua ventura, fumando um
charuto engastado numa piteira de âmbar, ouro e brilhantes, “por influência do gosto excêntrico e
da imaginação borbulhante de sua mulata”, tomando conhaque morno com açúcar; um homem
meio blasé, aborrecido com aquele fausto, que deixava a cargo da mulher o espetáculo da alegria.
Educado e amável, João Fernandes soltava uma ou duas palavras gentis aos convidados que, no
fundo, desprezava; intimamente “ria da falsidade grosseira de todos, a fazerem desconjuntados
esforços a se dirigirem a ele, elogiando-lhe a mulher que detestavam em molho de inveja,
forçando encontros acidentais de corredor, oportunidades e motivos ridículos ou absolutamente
inexistentes”. Enquanto isso, em carnavais de vestidos e berros de arrecadas, Xica zanzava dando
ordens, adeusinhos, recebendo divertida os convidados e convidadas com seus “rapapés e
zumbaias, falsas mas gostosas de ver, batendo carícias nas carinhas adolescentes e, com um pouco
mais de força e picardia, nas de mais idade [...]”. Para levar a um extremo de libertinagem, o
romancista imagina Xica beijando na boca, exageradamente, diante de todos, suas mucamas mais
bonitas e seivosas.

O memorialista Joaquim Felício dos Santos descreveu algumas das festas que se davam no
Tijuco, em que se abrandava um pouco a severidade dos rigorosos artigos da etiqueta: “[...] era
nas reuniões de família, que hoje chamamos bailes, quando a música eletrizava os espíritos e
convidava para a dança damas e cavalheiros: e eram frequentes essas reuniões”. E prossegue o
memorialista, com um sabor de quem experimentara os prazeres desse tipo de festa: “Todos
dançavam, não essas contradanças modernas, compassadas, monótonas, lentas, sem significação:
era o minueto engraçado e expressivo, com lânguidos e voluptuosos requebros; contradanças
ardentes e animadas; valsas figuradas, onde cada figura parecia significar um sentimento, um
desejo, um pedido; o doudejante fandango, regulado e aquecido pelo som vibrante de um xique
xique de prata. O tempo assim corria, as horas passavam, e o sol muitas vezes surpreendia os
dançantes fatigados, mas não saciados.”170
Sobre as festas na Palha, Joaquim Felício conta que reuniam as pessoas mais importantes do
arraial, em jantares suntuosos, à Lúculo. Político e general romano, apesar de sua cultura
vastíssima, sua honestidade e seu amor pelas artes e letras, Lúculo ficou na história como o
protótipo do luxo desmedido. Ele venceu todas as guerras que comandou, retornando para Roma
sempre coberto de glória e tesouros saqueados que enchiam de riquezas os cofres romanos.
Construiu uma fabulosa mansão no monte Pincio, com arcos, cascatas precipitando-se no mar,
canais e tanques para peixes, luxuosos cômodos e miradouros, entre faustosos jardins para
passeios. Debilitado por uma brevagem que lhe oferecera um de seus libertos e pelo hábito de
consumir drogas narcóticas, refugiou-se nas artes e nos prazeres. Como um monstro indolente
encerrado nos palácios, dedicava-se ao estudo da filosofia, meditando sobre o epicurismo, a fim de
comprovar sua própria vida guiada pela loucura da ambição e pela ilusão da virtude.
Temos a descrição171 de uma festa dedicada ao governador, na casa de dona Josefa Maria da
Glória — um majestoso edifício com jardins amenos, chafarizes, tanques, bosques transplantados,
labirintos de flores. Na noite da festa, mais de oito mil luminárias clareavam o jardim, cujo chão
fora recoberto por uma camada de areia branca e macia. Duas bandas de música, uma do Tijuco e
outra de Vila Rica, tocavam sem cessar, enquanto o povo circulava pelas aleias, contente,
conversando, dando vivas ao governador ou participando dos divertimentos oferecidos pelos
anfitriões. Em duas grandes e iluminadas salas, repletas de mobiliário refinado, damas e
cavalheiros dançavam valsas, ou minuetos.
Em outro salão ficavam as iguarias, numa mesa longa e abastada. “Ao som de uma marcha
interrompeu-se a dança, e todos os cavalheiros, cada um com sua dama sobraçada, dirigiram-se
para a mesa. Sua excelência, o general, colocou-se no topo. Depois de concluídos os primeiros
serviços, sua excelência deu princípio às saúdes, e foi a primeira: — Para que viva Sua Alteza Real,
de quem o amor para seus povos é o primeiro móvel de seu governo. Todos levantaram-se, e houve
um viva geral. Seguiram-se outras saúdes: — à capitania de Minas, — à união britânica e
portuguesa, — ao povo do Tijuco, que foram feitas pelo mesmo general. Houve também muitas
outras saúdes, que todas exprimiam alusões ao tempo e às circunstâncias em que se achava o
Tijuco. Recitaram-se também muitas belas poesias. E desta maneira se entreteve a mesa sempre
animada e cheia de respeitosos e honestos galanteios por mais de duas horas.”172 Os pares
tornaram a dançar, até que a aurora fosse interromper suas alegrias e prazeres.

*
Também Sir Richard Burton testemunhou um baile no Tijuco, organizado pela rica viúva
Maria de Nazaré Neto Leme para comemorar o batismo de um neto. “As salas estavam cheias e
muitos sentados para um jantar preliminar. As toaletes eram notavelmente belas [...] Cada
pescoço resplandecia de diamantes. [...] O baile parecia uma festa de família que se divertia: aqui,
como entre os católicos da Inglaterra, todos são parentes ou relacionados mais ou menos, e os que
não o são, passam por ser ou são compadres. As danças consistiam principalmente em quadrilhas.
[...] O jantar parecia não ter fim e uma forte chuva que caiu pareceu aumentar a alegria geral.” No
dia seguinte à festa, as senhoras com seus escravos percorriam as ruas para recolher os maridos
nas calçadas, “onde as pernas embaralhadas os haviam feito cair”.173
Trovões de tambores

Teatro e ópera

OS CONVIDADOS AGUARDAM, buliçosos, sentados no salão de ópera. Dona Francisca, no


camarote principal, resplandece em joias, mas seus olhos cintilam ainda mais. Na primeira fila de
cadeiras na plateia, ao lado dos homens mais importantes do arraial, está João Fernandes, também
trajado com luxo. Pela primeira vez seria encenada a ópera mágica Os encantos de Medeia, que se
apresentou no teatro do Bairro Alto de Lisboa anos antes, deliciando fidalgos e damas refinadas. Dona
Francisca assistiu ao ensaio da montagem ali na Palha, admirada com o barco, a manta de pele de
carneiro banhada em ouro, as fitas negras que representavam a tempestade, em que tambores imitavam
trovões, negros fazendo-se de soldados e as duas mulheres da história encenadas por dois jovens mulatos
com o rosto pintado de branco e vestes femininas que mais pareciam lençóis despejados.
A orquestra de negros anuncia a apresentação, dois moleques acendem luminárias, abrem-se as
cortinas e se vê, ao fundo, a pintura de uma paisagem: montanhas, céu e mar, com uma cidade grega
pintada no flanco de um monte. Um homem entra e lê a abertura:
— Embarca-se Jason em Tessália na nau Argos e parte para a ilha de Colcos, empenhado na
empresa e conquista do Velocino de ouro; e, chegando perto de Colcos, desembarca com Teseu e
soldados. Manda el-rei de Colcos saber a razão do desembarque. É enganado el-rei. Recebe a Jason na
sua corte. A princesa Medeia, filha de el-rei, e Creúsa, sobrinha do mesmo, se namoram de Jason.
Concorre Medeia para o furto do Velocino com seus encantos e com eles se livra do castigo de seu pai.
Repudiada Medeia por Jason, este, levando o Velocino e juntamente a Creúsa, indo já embarcados para
Tessália, Medeia, zelosa, faz mover contra eles uma tempestade e com ela retroceder a nau Argos outra
vez a Colcos, onde o rei, ofendido de Medeia, casa a Jason com Creúsa, dando-lhe o seu próprio reino.
Medeia, ultimamente, desesperada por não ver a sua ofensa, desaparece pela região do ar. O mais se verá
no contexto da história.
Entra a nau Argos trazendo Jason, Teseu, Sacatrapo, marinheiros e soldados, ao som de uma solfa
militar. Os atores, todos com o rosto pintado de alvaiade, usam joias emprestadas por dona Francisca.
Podem-se ver seus pés abaixo da embarcação, com botas ou descalços, e Xica observa, mas logo se
entrega à fantasia da cena.
— Amaina! Amaina! — diz um marinheiro.
— Terra, terra! — grita outro.
— Terra, à escota!
A nau para no meio do palco e os homens desembarcam. Jason se destaca à frente, abre os braços
com dramatismo e canta a primeira ária, alternando recitativos:
— Felices argonautas valerosos, que rompendo o cristal do falso argento, apesar das violências de
Neptuno indignado e soberbo, aportamos enfim com fausto auspício nesta ínclita Colcos soberana, onde
se guarda o célebre tesouro do áureo Velocino, a cuja empresa de nossa amada Pátria nos partimos; e se
quisera a sorte que com feliz progresso conquistasse este rico despojo para glória imortal da grega prole! E
assim, soldados meus, em cujos peitos seu furor deposita o mesmo Marte; e tu, valente, impávido Teseu,
de quem tantas proezas canta a fama, agora mais que nunca valeroso, mostrai o brio desse heroico
braço; por que veja o Universo em tanta glória alcançar-se a mais ínclita vitória.
Os heróis mentirosos estão ali para roubar o Velocino de ouro, e acontece a história de amor: a
paixão de Creúsa por Jason, os ciúmes de Medeia; uma boa história. Mas as falas são lentas, demoradas,
há palavras incompreensíveis e Xica se entrega a devaneios, tentando esconder sua inquietação. Prefere
as festas do povo nas ruas, com danças e cantorias alegres, carros de triunfo, atores retratando
personagens da Bíblia, bonecos, as comédias que a fazem rir, ou mesmo as cavalhadas, a colorida guerra
entre mouros e cristãos; mas precisa se conformar com os costumes dos nobres e fidalgos. Olha para o
lado, João Fernandes parece embriagado com as palavras e a música, e ela se esforça para sentir o
mesmo. Mas espera, ansiosa, pelo entremez.

Assim como João Fernandes mandou construir uma perfeita amostra de uma nau que
navegava num pequeno mar, a sala de teatro na chácara da Palha era provavelmente uma casa de
ópera em tamanho reduzido, com as mesmas características: palco diante de um pano de boca
pintado por algum artista, com a paisagem referente à cena; cortinas de damasco; plateia com
assentos para os homens; camarotes para as senhoras em uma ou duas ordens e camarote
principal à direita, para autoridades, num ambiente iluminado a velas e lamparinas. Lá se
apresentavam óperas como Os encantos de Medeia e A fábula de Anfitrião ou Júpiter e Alcmena,
ambas de Antônio José da Silva, o Judeu; Porfiar amando, provavelmente uma adaptação de
Porfiar hasta vencer, de autor desconhecido, ou de Porfiar errando, comédia impressa e reimpressa
em Lisboa a partir de 1758; e as traduções das comédias italianas Chiquinha e Pelo amor de Deus.

*
Antes do surgimento das casas de ópera a atividade teatral na colônia brasileira consistia em
apresentações públicas nas festas religiosas, com temas cristãos, ou nas comemorações
determinadas pelas câmaras. Festejava-se uma vitória de Exércitos portugueses em alguma
batalha, assim como o nascimento, casamento, coroação de um membro da família real, ou de
alguma autoridade colonial.
Há notícias de representações profanas sobretudo a partir de 1640, quando Portugal tornou-se
independente da Espanha. Em 1641, na Bahia, ocorreu uma grande apresentação teatral para
comemorar a aclamação de dom João IV; outra no Rio de Janeiro, com a encenação de comédias;
e em Recife comemorou-se a mesma ocasião com uma peça falada em francês. Na Bahia, a
apresentação teatral foi patrocinada por comerciantes locais, conforme as atas da Câmara, nas
quais consta a primeira referência a um espetáculo profano no período seiscentista: o pedido para
que fossem desobrigados de financiar cortejos religiosos, exceto o de Corpus Christi, por terem
tido gastos demasiados com as comédias apresentadas nas festas do rei de Portugal. Em 1662 as
atas registram novo espetáculo, dessa vez para comemorar as bodas da infanta portuguesa dona
Catarina com Carlos II da Inglaterra — o rei que restaurou o teatro inglês e sucumbiu ao fascínio
da atriz Nelly Gwynn.
Na virada para a segunda metade do século 17, a pujança crescente da economia assim como
os anseios dos moradores e de instituições coloniais levaram a uma intensa produção cultural sob
a influência das Luzes (o Iluminismo surgiu na França a partir de 1650 e floresceu até cerca de
1790). As representações teatrais profanas tornaram-se frequentes, incorporando um aspecto
moralista, de ensino e discussão do comportamento dos colonos. Tudo era apresentado em palcos
efêmeros: grandes tablados montados em praças, adros de igrejas, e menores, no interior de uma
igreja, no salão de algum palácio governamental ou de uma casa abastada.
Além de servirem como demonstração de lealdade ao rei, as apresentações teatrais nas praças
e igrejas davam oportunidade aos homens da administração de aparecer em público e ostentar seu
poder. Garantiam para si os melhores lugares, às vezes numa tribuna com toldo, sentados ao lado
de bispos, ricaços, poetas e demais pessoas influentes — as senhoras em camarotes protegidos —,
reafirmando sua influência. A fina flor participava das festas públicas por prazer, mas também por
obrigação de suas posições sociais.
Essas apresentações públicas significavam uma oportunidade rara de convivência entre
pessoas de todas as camadas sociais. Mesmo sentados conforme o modelo hierárquico — os mais
poderosos na frente, a escravaria nos lugares mais distantes —, todos podiam assistir às peças.
Juntos davam gargalhadas numa cena jocosa, marejavam os olhos diante de um trecho
emocionante. Num panegírico em versos, publicado no ano de 1729, encontra-se uma boa
descrição do público nobre que assistia às festas na Bahia pelo duplo casamento dos príncipes de
Portugal e Espanha.

Toda a área do teatro circulavam


camarotes armados ricamente,
que as Senhoras mais nobres ocupavam
por ser lugar para elas mais decente.
Pelo Sólio também muitas estavam
de qualidade, e estado diferente,
bem que a Fortuna às vezes, como louca
dá o melhor lugar a quem não toca.
Em lugar eminente aos mais estava
o Vis-Rey num Dossel por mais grandeza,
e logo a comitiva, que constava
de Oficiais, Ministros, e Nobreza.
O popular concurso se sentava,
donde lhe davam cômodo a presteza,
ocupando em pé muitos o seu posto
contra sua vontade por seu gosto.174

Nas residências, as comédias ocorriam com muita frequência. O ouvidor-geral da comarca de


Sabará foi denunciado durante uma visitação eclesiástica à vila, por assediar uma solteira de trinta
anos: Isabel da Encarnação relatou que o ouvidor enviava uma negra forra à sua casa portando
recados e “que muitas vezes tem solicitado a ela testemunha para pecar, persuadindo-a que vá a
sua casa ou lhe dê licença para ele vir à dela e a mandou convidar três vezes para que fosse assistir
a uma comédia que na sua casa se fazia de noite [...]”.175

As casas de ópera, ou casas de comédia, foram surgindo no curso do século 18. Construídas e
exploradas por empresários, cobravam ingressos e ofereciam assinaturas anuais de camarotes
para gente endinheirada, o que eliminava a participação do populacho como espectador de
óperas. Usava-se o termo ópera para qualquer peça que intercalasse a recitação e o canto; e casas de
ópera ou de comédia eram os teatros. Chamavam-se as peças sem música de recitados.
Orquestras acompanhavam as apresentações de óperas executando árias, sonatas, duetos,
trios cantados, em geral encomendados a músicos locais, que precisavam se adaptar às condições
existentes, aos músicos e instrumentos disponíveis, como violino, viola, rabeca, rabecão, baixo,
trompa, flauta, oboé, clarim, além das partes vocais.
Os textos eram adaptados “ao gosto português”, o que significava a tradução não apenas da
língua original, o castelhano, italiano ou francês, mas a um gosto mais rudimentar e emotivo, em
geral com a inclusão de elementos jocosos e burlescos. Na região mineira circulavam traduções e
adaptações trazidas de Portugal ou preparadas por escritores locais. Algumas dessas são atribuídas
ao poeta inconfidente Cláudio Manuel da Costa, um amante das artes teatrais, que numa
declaração enviada à Academia dos Renascidos, em 1759, afirmou ter traduzido diversos dramas
do abade Pedro Metastasio: Artaxerxes, A Dircea, Demetrio, Jose reconhecido, Sacrificio de Abraão, O
regulo, O Parnaso acusado — peças em rima solta ou em prosa.

O viajante Johann Emanuel Pohl descreveu uma representação em Vila Boa, na capitania de
Goiás, que dá uma ideia da monotonia de alguns espetáculos, muitas vezes divididos em partes
que continuavam no dia seguinte. A comédia Carlos Magno, apresentada ao ar livre, contava com
atores homens desempenhando mesmo os papéis femininos. Usavam trajes luxuosos em veludo
guarnecido de ouro puro e joias cedidas por empréstimo. “Com notável fluência, porém com má
acentuação, são proferidos longos discursos, as [às] vezes de várias páginas. Toda a ação da peça é
enfadonha e mesmo com bem executados combates, frequentemente repetidos, não se consegue
tolerar até o fim. E continuada nos dias seguintes.”176
Alguns operistas, ou operários, que eram os homens que trabalhavam na arte teatral,
procuravam em todo caso dar um ritmo o mais animado possível, para agradar o espectador na
colônia. Em geral, as peças eram apresentadas em três jornadas, ou atos. Como havia a
necessidade de fechar as cortinas entre os atos, apresentavam-se à beira do palco pequenos
espetáculos engraçados, chamados de entremezes ou sainetes, que eram comédias curtas, de dois ou
três personagens; e, para encerrar, um sarau, mogiganga ou bailado com coreografia ensaiada:
contradanças por um rancho de máscaras, passapés de dois ou quatro, minuetes simples e
figurados, minuetes da Corte. Enquanto o público ria e se divertia com as graças dos atores,
mudava-se o cenário — palácios, salas, jardins, bosques e arvoredos — e preparavam-se raios,
trovões, mares, navios e nuvens, que mais pareciam “realidades do que demonstrações fingidas”,
conforme documento da época. Um pagamento da peça Ifigênia, em 1786, revela o uso de
maquinários e efeitos especiais, e dinheiro para pagamento da “mágica da transformação de
Júpiter”, e para o maquinista fazer três “vistas de jardim e sala real de ciprestes [e] reformar a
tenda real de Alexandre”.177
Também era comum a inclusão de um personagem cômico chamado de gracioso, que, como os
bobos da corte, podia satirizar autoridades, zombar, denunciar, reclamar, desde que arrancasse
risadas do público. Esses graciosos levavam nomes como os de palhaços: Soquete, Alcaparra,
Paquete ou Ranheta, e muitas vezes eram o ponto alto das apresentações.

*
A nossa mais antiga casa teatral surgiu no Rio de Janeiro, quando se fundou, em 1719, uma
sociedade para apresentação de teatro de marionetes, com um prédio destinado a tal fim, em
espetáculos com entrada paga. Um contrato estabelecia que a inauguração da casa seria no Natal
daquele ano, com a apresentação de um presépio. Foram esculpidas e pintadas as figuras em
madeira, e instaladas no palco. O músico e empresário Antônio Pereira foi incumbido de escolher
a música polifônica — a quatro vozes, pelo menos — e a providenciar os instrumentos musicais
necessários. Pereira também ficou responsável pelo recolhimento da receita dos espetáculos e do
posterior rateio dos valores entre os membros da sociedade.
Em 1748 um tripulante francês, desembarcado da nau L’Arc en Ciel no porto do Rio, deixou
escritos seus comentários sobre uma apresentação de marionetes à qual assistiu numa sala de
teatro. O tema, a conversão de doutores pagãos por santa Catarina, foi representado por bonecos
em tamanho natural. Peças bem-feitas, trajadas com boas roupas de tecido; “as vozes e
movimentos agradavam”, diz o marujo, “e o mecanismo era bastante bom para ser percebido”.178
A cena se passava por trás de uma grade de arame fino, iluminada por uma grande quantidade de
velas. Conta ainda o francês que os homens se acomodavam no plano térreo, em bancos de
espaldar e braços, e as mulheres, em camarotes no pavimento superior “donde viam
comodamente o espetáculo e olhavam de soslaio os espectadores, brincando indolentemente com
as cortinas destinadas a escondê-las”.179 Havia, ainda, um terceiro andar, com varandas
frequentadas por homens. Esse prédio construído com a finalidade específica de montagens
teatrais era provavelmente a primeira casa de ópera do padre Ventura, localizada na rua da
Alfândega. Poucos anos depois, em 1769, a casa de ópera do padre Ventura foi incendiada,
enquanto em seus palcos se encenava a peça Os encantos de Medeia.

O “mulato e corcunda” Boaventura Dias Lopes (1710–1772?), empresário de teatro, mesmo


após se ordenar como secular do hábito de São Pedro continuou a exercer o seu ofício. Era,
inicialmente, proprietário de um teatro de presépios; em seguida, de um teatro de marionetes,
que apresentava peças variadas; e, finalmente, quando se adotaram atores humanos, da casa que
passou a se chamar Ópera dos Vivos. Num contrato de arrendamento, em 1754, o padre Ventura
estabelecia o pagamento por parte do novo administrador, um músico profissional, por dois anos
de fruição. Padre Ventura reservou para si um camarote exclusivo, mantendo assim o vínculo
com a casa de ópera, a qual nunca deixou de frequentar. O viajante francês Louis Antoine
Bougainville, que esteve no Rio em 1766, refere-se a essa casa como “assaz bela”. No mesmo ano
o pastor F. L. Langstedt, ao passar pela cidade, comentou que a casa de ópera era “razoavelmente
bem construída e espaçosa”.
Concorrendo com a casa do padre Ventura, o empresário Manoel Luiz abriu a Ópera Nova,
nas cercanias da praça do Carmo, em frente ao Paço. Anunciados por tocadores de tímpanos
chamados de timbaleiros, os espetáculos, não raro, acabavam em tumultos que se estendiam até o
largo do Paço, precisando da intervenção policial. Apesar de a casa do padre Ventura se localizar
próximo a uma fábrica de fogos e de ser iluminada a velas e lamparinas, há suspeitas de que
Manoel Luiz tenha ateado fogo a esse teatro, destruindo o concorrente; seu teatro também
acabaria em meio às chamas.
A primeira sala permanente na Bahia surgiu em 1729, improvisada num salão da Câmara, mas
após quatro anos foi desmontada por ordem real, sob a alegação de que aquele era um local para
“assuntos sérios”. As casas de ópera se espalharam pela colônia, sendo construídas em locais como
Vila Rica, São Paulo, Cuiabá e Porto Alegre, e até um pequeno teatro na distante vila de Macapá,
aberto em 1775.

Com o aparecimento das casas teatrais formaram-se as primeiras companhias, montadas


conforme o modelo português. Contratavam atores por um período de meses, ou pelo ano todo,
para um número determinado de apresentações. Os atores, em geral pessoas do povo — pobres,
negros, mulatos, vadios — representavam também os personagens femininos, vestidos em roupas
de mulheres, e os papéis de homens brancos, com o rosto pintado de alvaiade. Os amadores,
chamados de curiosos, trabalhavam eventualmente e sem receber pagamento, ao contrário dos
profissionais, contratados sobretudo pelo sistema de arrematação. Esses curiosos eram,
comumente, homens de elevada posição social.
Apesar de o espetáculo teatral ser concorrido e apreciado, havia uma desconsideração para
com os profissionais que duraria, ao menos oficialmente, até 1771, quando um alvará publicado
em Portugal declarou a profissão de ator isenta de infâmia, apontando benefícios que o teatro
poderia proporcionar ao povo e estimulando a construção de novas casas de espetáculos,
consideradas escolas onde se podiam ensinar os princípios saudáveis da política, da moral, do
amor à pátria e, sobretudo, da fidelidade ao rei. Numa descrição de empresários teatrais do Rio de
Janeiro nota-se o tom pejorativo das palavras: o “mulato e corcunda” padre Ventura; o fagotista e
“bajulador de autoridades” Manoel Luiz; ou o “cabeleireiro Fernandinho”.
Apesar da infâmia que cobria qualquer ator ou músico, a excelência artística de um negro ou
mulato proporcionava-lhe alguma ascensão social. Carregando o estigma de sangue “impuro”, os
mulatos, assim como judeus, ciganos e muçulmanos, sofriam impedimentos para se inserir nas
esferas mais altas do ambiente colonial. Decretos lhes proibiam receber títulos de mestres em
artes e ofícios, possuir bens, adquirir escravos. Mas um mulato de pele clara podia ser tratado
como branco, se tivesse alguma riqueza ou prestígio, segundo palavras do governador Gomes
Freire que antecipavam o dito popular tão sugestivo das relações raciais no Brasil: branco pobre é
preto e preto rico é branco. Mas o discurso do governador “foi além, implicando que não era só
por acumular riquezas, mas também por destacar-se nas artes e obter o reconhecimento da
comunidade que o mulato poderia ascender à condição de homem digno. Assim, o
profissionalismo nas artes, que historiadores e musicólogos costumam ver como um caminho para
a ascensão social e econômica do mulato, era na verdade uma maneira de torná-lo reconhecível
como ser humano integral”.180

A crítica realizada por viajantes demonstra o encanto dos espectadores, mas também o
desprezo por mestiços e negros. Considerado uma arte de civilidade e sociabilidade, só o teatro,
“esta arte divina”,181 seria capaz de arrastar e subjugar os corações mais rebeldes. Na Bahia, em
1717, a representação da comédia Afetos de ódio e amor foi realizada com tanta pontualidade,
propriedade e acerto que “os exercitados muitos anos em semelhante gênero de representações
podiam invejar o desembaraço, expressão e acidentes com que os interlocutores desta ação
conseguiram repetidos aplausos”. Em Santo Amaro da Purificação, em 1760, os estudantes das
aulas de teatro do padre João Pinheiro de Lemos, apresentando ao vivo a ópera A fábula de
Anfitrião ou Júpiter e Alcmena, eram os “mais destros, e hábeis”. No Maranhão, em 1786, a “bem
apresentada” ópera Demofoonte foi executada por atores curiosos “com tanta perfeição, como o
poderiam fazer os atores mais exercitados nos teatros da Corte”. Na apresentação da tragédia Inês
de Castro, em Cuiabá, no mesmo período, a sala foi ocupadíssima para se assistir a cômicos que, na
sua maior parte, nunca tinham subido num palco, mas era “admirável o como executam os seus
papéis”. Também admiráveis, diz a crítica, as suas habilidades, o gosto com que se empenhavam
e a eficácia dos ensaiadores.
Mas os dramas eram “estropiados pela boca de mulatos”, conforme palavras do Fanfarrão
Minésio.182 Dizia-se que os atores negros davam muito que rir e criticar, mas havia certo número
deles extremamente hábeis em suas funções teatrais. Como Vitoriano, escravo alforriado,
inimitável nos papéis de caráter violento e altivo. Outros cantavam árias e duetos e diziam
recitados aprendidos com grande esforço. Apresentavam-se “bem asseados e as damas de roupas
inteiras”, conforme crítica de apresentações em Cuiabá, em 1790. “Quem lidou com eles e os
ensaiou foi Francisco Dias Paes. Fez-lhe as despesas do teatro, luzes e música o major Gabriel; e
todos eles me vieram oferecer a sua comédia. […] A comédia findou com um epílogo recitado por
todas as figuras. Em conclusão, até a orquestra, que foi fora do teatro, foi a mais numerosa que até
então ali apareceu; e logo não faltou quem oferecesse fazer as despesas para haver segunda
representação, por isso mesmo que todos os atores são uns pobrezinhos, que já tinham feito muito
e despendido com as roupas e outras cousas.”183

*
Numa instrução de 1725 houve a primeira tentativa de regulamentar a atividade teatral na
colônia, estabelecendo-se o local destinado às autoridades nos espetáculos e atos públicos. Mas
não havia orientação quanto à escolha das peças. Os folhetos com os textos eram difíceis de se
encontrar e a maioria vinha de Lisboa, o que determinava o repertório. Até meados dos
setecentos, constava de autores célebres do Siglo de Oro espanhol, como Calderón de la Barca,
Zorilla, Moreto Y Cabaña, Montalbán, Arellano, Córdova y Figueroa, Barcia, e Candamo. As
peças conservavam seus títulos originais, como Affectos de odio y amor, Fineza contra fineza, El
monstro de los jardines, La fiera, el rayo, y la piedra, Armas de hermosura, La monja Alférez, La fuerza
del natural, El desdén con el desdén, El amo criado, Rendirse a la obligación, La sciencia de reynar, La
piedra phylosophal. A representação da comédia espanhola conferia nobreza e majestade ao
imaginário cavalheiresco e à cultura de corte no Século de Ouro ibérico.
Mesmo autores brasileiros, como Manoel Botelho de Oliveira, se inspiravam em Calderón de
La Barca e outros espanhóis do mesmo período. Nascido na Bahia em 1636, Botelho é autor do
primeiro livro de um brasileiro impresso em Portugal, o Musica no Parnaso, publicado em 1705,
que contém duas obras teatrais de sua autoria: Hay amigo para amigo e Amor, engaño y celos. A
primeira, parodiando a peça de Zorilla, No hay amigo para amigo, e a outra, sob a inspiração de
uma peça de Montalván, La mas constante mujer.
O sentimento do barroco estava presente nessas peças, com sua acepção de teatralidade do
mundo — a vida nada mais é do que um espetáculo passageiro; a ausência de limites, a ideia de
que todas as artes deveriam ser utilizadas como elementos que formassem um grandioso efeito
ilusório. Também a dualidade barroca se imprimia nos textos, que tentavam angustiadamente
harmonizar ideias opostas, como a virtude e o pecado, a alegria e a tristeza, o popular e o erudito,
a fé e a descrença, o espírito e a matéria.

Do mesmo modo que o colono brasileiro buscava imitar os costumes dos fidalgos portugueses,
o teatro brasileiro no século 18 estava sob forte influência da mesma atividade em Portugal. Com
o declínio da presença cultural espanhola e com o estrangeirismo em voga durante o reinado de
dom João V (de 1707 a 1750), autores italianos e franceses passaram a predominar nos repertórios
apresentados em Lisboa. Nos teatros do Bairro Alto, da rua dos Condes, da Graça e do Salitre,
encenavam-se peças do mais renomado libretista italiano, Metastasio, comédias de Molière e
Goldoni, tragédias de Voltaire e Racine, assim como farsas e entremezes de diversos autores
europeus.
Quinta-feira era o dia de ir ao teatro. No Pátio das Arcas apresentavam-se comédias novas; as
vozes preciosas das irmãs Paghetti chilreavam nas óperas da Academia da Praça de Trindade;
Antônio Antunes e o Tortinho da Sé, “duas glórias do teatro português de 1740, iam bailar os
bonecos ao Pátio da Mouraria e cantar em falsete, nas óperas de bonifrates, o ‘duo da vassourinha’
e a ‘ária do balalão’”.184 Usavam-se os fantoches por serem mais econômicos e manejáveis: com
eles se podiam realizar cenas impossíveis ou perigosas para atores humanos, num tempo de tanta
opressão inquisitorial.
As óperas de bonecos da Betesga, destinadas ao povo, faziam o público delirar com as
tramoias. As francesas dos condes, mais prostitutas do que atrizes, fascinavam frequentadores do
Rocio e comerciantes da rua Nova dos Ferros; vozes líricas cantavam no Paço, diante de el-rei. No
Pátio das Arcas, teatro tradicional de Lisboa, se apresentavam as mais célebres cómicas de
Espanha, flores das arenas de Toledo e de Sevilha, de Salamanca e de Valladolid, a quem os
homens chamavam de senhoritas da comédia.
Ter como amante uma cómica era quase um título de fidalguia, afirma Júlio Dantas. Mas
muitos desses amores eram apenas à distância, despertados quando a atriz agradecia no palco os
seus aplausos e lançava uma flor a algum pretendente, ou a asa de seda do seu leque.
No camarote dos frades, os quais ficavam escondidos por uma rótula, na plateia, no sobrado
do povo miúdo, nos escanos nobres às ilhargas do tablado, o público mostrava sua predileção pelo
teatro. Gritos irrompiam de todos os cantos, junto a aplausos, enquanto lançavam-se ao palco
patacas de prata, dobrões de ouro, pedrinhas de diamante talvez vindas do Serro do Frio.
Depois da apresentação, já noite fechada, homens apaixonados desciam do camarote e iam ao
beco do Lopo Infante para ver a saída das cómicas. Tentavam cortejá-las de perto, tratando-as com
familiaridade, dizendo gracinhas e tolices. Iluminados pelas tochas nas mãos de criados, entre o
tumulto dos carros e da gente, tentavam ajudar as senhoritas a subir nas liteiras, seges ou
cadeirinhas, despedindo-se com um beijo na aba de um xale.

Mas, no Brasil, não havia cantoras líricas até meados do século 18. Nas igrejas não era
permitido às mulheres nem mesmo emitir sua voz no púlpito, no canto sacro ou nas cerimônias.
Numa passagem da “Primeira epístola aos coríntios”, Paulo explica essa interdição: “É
vergonhoso para a mulher falar na igreja.”
Com as transformações no ambiente teatral e a construção das casas de ópera, as mulheres
passaram a atuar como atrizes e a cantar, não mais como curiosas, mas como profissionais, a
exemplo do que acontecia com as divas em Lisboa. Mulheres cantaram em Minas Gerais pelo
menos desde 1770, quando João de Souza Lisboa, o proprietário da casa da ópera de Vila Rica,
escreveu ao governador Gomes Freire que tinha na sua casa “duas fêmeas que representam, e
uma delas com todo o primor, muito melhor que as do Rio de Janeiro”.185
No Rio ficou célebre uma cantora chamada Lapinha, cujo verdadeiro nome era Joaquina
Maria da Conceição Lapa. Não se sabe muito sobre ela. Foram encontrados apenas registros das
apresentações e críticas sobre seu desempenho a partir da década de 1780. Sabe-se que executava
coloraturas — a emissão de várias notas agudas numa só sílaba — com grandes efeitos, que
encantavam os espectadores. Diz uma crítica que “na harmoniosa execução do seu canto, excedeu
a expectação de todos: foram gerais e muito repetidos os aplausos que expressavam a admiração
que causou a firmeza e sonora flexibilidade da sua voz, reconhecida por uma das mais belas e mais
próprias para teatro”.186
Após conseguir licença para se apresentar em Portugal, Lapinha atravessou o oceano e
desembarcou em Lisboa. Encontrou, no entanto, um veto à participação de mulheres em
apresentações de teatro — dizem que por ordem da rainha, enciumada do rei que vivia flertando
com as atrizes —, mas, mesmo assim, talvez por ser mestiça, Lapinha conseguiu se apresentar. A
cantora era obrigada a disfarçar a cor de sua pele, segundo comentário de um viajante sueco:
“Joaquina Lapinha é natural do Brasil e filha de uma mulata, por cujo motivo tem a pele bastante
escura. Este inconveniente, porém, remedeia-se com cosméticos. Fora disso, tem uma figura
imponente, boa voz e muito sentimento dramático.”187

Num remedo de Portugal, no Brasil passaram a montar peças de dramaturgos italianos, como
Goldoni, Maffei e Metastasio; assim como dos franceses Molière e Voltaire, entre outros.
Apreciava-se particularmente a peça de Molière, Les fourberies de Scapin, traduzida sob o título de
Astúcias de Escapim. Há indícios de que o ator e empresário teatral português Antônio José de
Paula tenha trazido ao Brasil, na última década dos setecentos, montagens de peças de Corneille e
Voltaire. Pouco depois, Saint-Hilaire descreveria com detalhes uma montagem de O avarento —
do mestre satírico francês Molière — em São Paulo.
Mas havia a presença de autores teatrais brasileiros. O pernambucano Luís Álvares Pinto
(1719–1789) teve diversas peças encenadas, sendo Amor mal correspondido apresentada num teatro
construído no Recife, em 1780. A dramaturgia pernambucana contava com pelo menos oito
autores, arrolados pelo cronista e padre Domingos Loreto Couto em Desagravos do Brazil e glorias
de Pernambuco. Entre esses dramaturgos destaca-se Francisco de Sales Sylva, que escreveu as
comédias O que poderão palavras, O que padece a verdade neste mundo de mentira, Los cencimientos
del cielo, El estorvo de un padre y la constancia de un hijo, além de mais de cem bailes para variadas
comédias.
Além do jurista e poeta árcade de Vila Rica, o inconfidente Cláudio Manuel da Costa — autor
dos versos teatrais O parnaso obsequioso, encenados em Vila Rica em 1768, no Rio e
provavelmente em outros lugares —, destacou-se em Minas como dramaturgo Inácio José de
Alvarenga Peixoto (1744–1793), também advogado, poeta e participante da Inconfidência
Mineira, que escreveu o drama perdido Eneias no Lácio e traduziu a tragédia Merope, de Maffei. O
diplomata Alexandre de Gusmão traduziu a comédia francesa O marido confundido, assim
anunciada na apresentação do livro:

Se o nosso Autor não teve parte no enredo, também não será criminoso pela moralidade; mas
em nosso entender, se não foi sua a escolha, com repugnância, e indulgência lhe relevaremos
os toques, e o colorido; os costumes, e os prejuízos do tempo foram pintados com bastante
graça, e arte, mas a virtude não alcançou o triunfo. — Eis aqui mais um facto, que nos
firma em nossos juízos. Enquanto se lisonjeavam as paixões de D. João 5º, e seu espírito era
entretido com objetos de fingida piedade, a corrupção ganhava novas raízes, e a superstição
lançava mais profundos alicerces: armava-se a ignorância entre os descuidos da Corte, e a
ilusão do povo [...]188

Após sua doença, que o deixou hemiplégico, o rei dom João V tomou-se de um terror
moralista e religioso que o levou a banir os espetáculos teatrais que não fossem nos oratórios e nas
festas cristãs. Mas a situação se inverteu após sua morte, em 1750, quando o rei dom José I
ascendeu ao trono trazendo um projeto de tornar Portugal o centro do desenvolvimento artístico
europeu. Como dom José I era um apreciador da arte da encenação, aplicavam-se somas bastante
significativas no financiamento do teatro lírico português. Verificou-se um crescente interesse pelo
repertório escrito em língua portuguesa, assim como pelas obras de teatro italiano e francês
traduzidas para o português, em versões diversas — movimento que teve repercussões na colônia
brasileira.
Durante todo esse período os espetáculos teatrais se intensificaram no Rio, Pernambuco,
Bahia, Mato Grosso, Minas, Maranhão, Pará, São Paulo, Porto Alegre e em outros locais da
colônia. Folguedos populares complementavam a representação teatral, como taieiras, cacumbis,
congadas, marujadas ou danças relacionadas a atividades como a de marceneiro, alfaiate ou
cutileiro, assim como danças de populações negras ou ciganas.
Um autor nascido no Brasil imperava nos palcos coloniais, com peças jocosas: Antônio José da
Silva, o Judeu. Suas sátiras, assiduamente encenadas a partir da década de 1730, rivalizavam com
comédias espanholas e óperas italianas. Embora demandassem mais nível de instrução por parte
dos espectadores, suas peças, dotadas de graça, movimento e vivacidade, faziam sucesso junto a
um grande público. A inovadora obra, de inspiração popular, incorporava a linguagem coloquial,
contando com agradáveis músicas compostas pelo padre Antônio Teixeira. E já vinha escrita em
português. Há diversos registros de apresentações de suas peças e entremezes no Brasil, como O
labirinto de Creta, A fábula de Anfitrião ou Júpiter e Alcmena, e a destacada Guerras do alecrim e
manjerona. Oito de suas óperas foram publicadas em 1744, na coleção Theatro comico portuguez.
Um dos mais importantes impressores de livros em Portugal, Antônio Isidoro da Fonseca, veio
refugiar-se no Brasil, provavelmente temendo as garras da Inquisição — era amigo e editor das
peças de Antônio José da Silva. Aqui publicou, em 1747, uma crônica sobre a apresentação de um
drama de Metastasio — talvez o primeiro livro impresso no Brasil. Trouxe na bagagem suas
edições de óperas do Judeu, que circulavam pela colônia às vezes vendidas em forma de folhetins
por cegos, ambulantes, músicos de rua. Trouxe também sua biblioteca pessoal, que tratava de
reimprimir conforme as necessidades, como a peça Filinto perseguido e exaltado, em 1759, para as
festas da chegada do bispo do Rio de Janeiro.
Outro material circulava pela colônia, levando textos teatrais a localidades diversas. O dono
da casa de ópera de Vila Rica, Souza Lisboa, enviou a um interlocutor, em 1771, uma ópera, em
retribuição a outra que o amigo lhe enviara:

Já vossa mercê me há de ter em má opinião, por lhe não ter remetido a ópera da Queijeira,
que agora remeto, com o ato dela; mas como não estava na minha mão o copiá-la, esperei
em lha mandar. Estimarei que vá a seu gosto, que eu também não sei o gosto que tem a do
Amor saloio porque ainda está fechada e lacrada conforme vossa mercê ma mandou, em
troco desta.189

As peças que a carta menciona foram montadas em Vila Rica. A Queijeira em 1793 e Amor
saloio em 1795.
Palcos mineiros

O teatro de Xica

A OPULÊNCIA DA REGIÃO MINEIRA proporcionava aos habitantes uma vida de pomposas


festas religiosas ou profanas e permitia o aparecimento de manifestações artísticas de qualidade na
arquitetura, pintura, escultura, na arte sacra, poesia, música e no teatro; manifestações financiadas
tanto por moradores abastados, por meio de irmandades ou ordens terceiras, como pelo Senado
da Câmara. O sentimento barroco favorecia o desempenho luxuoso das cerimônias gratulatórias,
e das mundanas, como o teatro laico, uma das diversões mais apreciadas e que conciliava outras
artes: a música, a literatura, a dança.
Homens nobres vindos de Portugal para ocupar altos cargos em Minas traziam uma
expectativa de vida cultural semelhante à de Lisboa e queriam manter o costume de assistir a
peças de teatro, o divertimento predileto em Portugal. Filhos de famílias abastadas que iam
estudar na Europa traziam novidades do mundo teatral, demandando a mesma animação da
metrópole e estimulando a vida em meio a artes.
O mais antigo registro de um evento teatral em Minas foi uma comédia representada em Vila
Rica, em 1726, embora o governador Lourenço de Almeida comentasse, numa carta ao rei de
Portugal, outras cenas teatrais ocorridas anteriormente em cerimônias públicas. Famosa é a festa
do Triunfo Eucarístico realizada em 1733, em que foram encenadas peças de Calderón de La
Barca. E a festa de aclamação do primeiro bispo da diocese de Mariana, em 1748, quando a vila se
divertiu com espetáculos teatrais. Todas essas encenações eram montadas em tablados, ruas,
igrejas, em salões de palácios. Há notícias de que se encenavam óperas e comédias na Casa do
Contrato, no Tijuco, no tempo do contratador Felisberto Caldeira Brant — entre 1748 e 1752.

Homem de educação refinada, João Fernandes de Oliveira apreciava o teatro decerto desde
sua estada com os jesuítas no seminário de São Patrício, em Lisboa, cujo currículo incorporava a
arte cênica. Também, durante sua permanência no Reino, deve ter assistido a montagens numa
metrópole repleta de casas de ópera e apresentações animadas nos salões de moradias ricas ou
mesmo no Paço.
O teatro de bolso que fez construir na chácara da Palha “parece ter sido o núcleo pioneiro de
espetáculos regulares em Minas”.190 De lá saíam atores e cantores para apresentações em outras
localidades. Entre as décadas de 1750 e 1770, ele e Xica da Silva faziam representar não apenas
óperas e comédias com atores e cantores, mas também espetáculos de bonecos. Decerto o
desembargador contratava companhias ou elencos que se ofereciam, como era costume, sabendo
da atividade na Palha e da riqueza do contratador; mas também mantinha seu elenco e trazia
atores, cantores, trupes de bonequeiros, orquestras e companhias de cidades como o Rio de
Janeiro, mesmo portugueses ou franceses. Talvez tivesse um encarregado da sala de teatro da
chácara para gerenciar as atividades, fazer a programação e os contratos, organizar a produção,
encomendar as “vistas” para cenários, maquinaria e maquinistas, hospedar e alimentar o elenco,
efetuar os pagamentos e tudo mais. Tomando por base a história da marujada, em que Xica da
Silva se enciumou da festa e mandou comprar o escravo artista, pode-se deduzir que ela atuava
firmemente na programação na Palha.
Agripa Vasconcelos menciona alguns profissionais que teriam sido contratados por João
Fernandes: o ex-seminarista Zé Mulher organizava um grupo de ópera, escolhia as peças e
ensaiava moças locais em danças, recitativos e apresentações cômicas. Olinto, o melhor bailarino
do Tijuco, teria entrado em contato com dona Francisca para se oferecer; era também amante de
serenatas, possuía voz agradável e as organizava. “João Fernandes comprara em Sabará um
mulato de meia-idade, Félix, maestro com admiráveis qualidades de compositor de valsas e
modinhas. Chica estava organizando sua banda de música.”191 Dona Francisca da Silva chamou
também outro ex-seminarista, Amarinho, para seu secretário particular. Amarinho era calígrafo
invejável, quase perfeito, e, além de muita sarda, tinha boa educação social.
Havia alguns mestres de teatro na região, os operistas, como Francisco Mexia, músico nomeado
mestre de capela em Vila Rica e Sabará nas décadas de 1740 e 1750. Antes de 1770 atuava no
Tijuco o operista José Bonifácio, também ator, que nesse ano foi agenciado para a casa de ópera
de Vila Rica. Certamente, João Fernandes contratava alguns desses profissionais para a realização
de espetáculos na chácara da Palha.

Além de Os encantos de Medeia, Joaquim Felício dos Santos afirma que o casal Fernandes de
Oliveira apresentou para convidados a “ópera joco-séria” A fábula de Anfitrião ou Júpiter e
Alcmena, de Antônio José da Silva, baseada na tragicomédia latina Anfitrião, de Plauto. No mito,
Júpiter se apaixona por Alcmena, esposa de Anfitrião, e a ilude transformando-se na imagem de
seu esposo. Dessa noite de amor nasce o semideus Hércules. A peça parece distante da realidade
no Tijuco, mas não deixa de fazer críticas aos costumes da época e a fidalgos destituídos de senso
comum, enquanto concede a personagens do povo bem mais sagacidade. A linguagem cômica,
repleta de metáforas e trocadilhos, arrancava risadas da plateia.

Foi só em 1768 que se iniciou a construção de uma casa de ópera pública mineira, em Vila
Rica. Resultou da paixão do coronel João de Souza Lisboa – contratador dos reais quintos e das
entradas — pela arte teatral. Essa obra custou a considerável quantia de dezesseis mil cruzados e
demorou dois anos para ser concluída, sempre com o apoio do governador à época, o conde de
Valadares, e do secretário de seu governo, o poeta Cláudio Manuel da Costa. Em 6 de junho de
1770, por ocasião do aniversário de dom José I, a casa de ópera foi inaugurada. Não era
portentosa, mas tinha sua dignidade. Com a mesma conformação do teatro no Rio de Janeiro,
ficavam os homens abastados nos melhores lugares, na plateia, e as mulheres, escondidas por
cortinas nos camarotes.
Cláudio “se achou desde cedo estreitamente ligado à história local do teatro, seja como autor
ou tradutor, seja como um dos incentivadores da Casa da Ópera, ao tempo de Sousa Lisboa, e é
admissível pensar que o êxito do empresário tenha decorrido em boa parte do interesse pessoal do
poeta”.192 Naquele teatro Cláudio declamou seus versos, aplaudiu espetáculos encenados,
assistindo em algum lugar de honra. Sabe-se que escreveu, além do Parnaso obsequioso, uma série
de peças e oratórias que se perderam no tempo e que teriam sido encenadas nas casas de ópera da
região, como o drama lírico São Bernardo, de 1770. Também subiu àquele palco o poeta Tomás
Antônio Gonzaga, de nome arcádico Dirceu, para recitar versos quiçá sobre o seu amor pela
adolescente Maria Doroteia, a pastora Marília; talvez críticas aos governantes.
Souza Lisboa cuidava com esmero da sua casa de ópera, esforçando-se para garantir a
qualidade, variedade e assiduidade dos espetáculos. Contratava atores no Tijuco e em Sabará,
encomendava ou permutava peças em Lisboa e na própria capitania, mandando compor e copiar
partituras, além de cuidar da manutenção do prédio. Buscava atrair para o teatro as pessoas mais
influentes da região, como mineradores ricos, poetas, militares de alta patente, homens da Coroa,
capazes de apoiá-lo em momentos decisivos. Talvez tenha sido por sua influência que, em 1786, o
governador Cunha Meneses, o Fanfarrão Minésio das Cartas chilenas, determinou que os
camarotes fossem distribuídos entre as famílias e senhoras “mais principais” da vila.
Inteligente, adepto do bom gosto artístico e portador de ideias avançadas para seu tempo, o
proprietário da casa teve a atitude corajosa de substituir no palco os homens travestidos de
mulheres por atrizes e cantoras “fêmeas”. Com sua morte, em 1788, o teatro foi fechado, mas
reabriu oito anos depois para as comemorações de casamento do infante dom João, apresentando
três noites de óperas com a presença no palco das cantoras Joana Maria, Violanta Monica e
Antonia Fontes. O sucesso do teatro em Vila Rica estimulou o surgimento de outras casas de
ópera na região. A de Sabará, aberta por volta de 1770, permaneceu em funcionamento por uma
década.
Mesmo com a presença das casas de ópera, trupes ambulantes e companhias de comédias se
apresentavam nos tablados armados em praça pública, nas vilas ou nos menores povoados da
capitania. Alguns espetáculos eram apresentados em frente a uma casa emprestada para a função
de bastidores e camarins. Grupos de ciganos levavam para os locais mais distantes suas “comédias
e óperas imorais”, com grande aparato, conforme reclamação do bispo Antônio de Guadalupe,
em 1727. Numa viagem pastoral a Minas, em 1743, o prelado fluminense frei João da Cruz chegou
a ameaçar de excomunhão os cristãos que comparecessem a esses divertimentos.
Havia também o curioso costume de ambulantes que batiam à porta das casas oferecendo um
espetáculo de bonecos, apresentado ali mesmo para os moradores, que os recompensavam com
algum dinheiro e, eventualmente, uma boa refeição à mesa. O circo de cavalinhos, “com seus
palhaços e dramatizações rudimentares, formas de conteúdo mais popular e ingênuo, porém de
remarcada tradição principalmente para as populações interioranas”,193 apresentava mestres de
ginástica, equilibristas e dançarinos de corda.

Números de saltimbancos, funâmbulos, mágicos e outros artistas de picadeiro, ao lado das


touradas e cavalhadas presentes nos programas festivos desde o mais remoto período colonial,
completavam, pois, os meios de diversão da gente mineira, satisfazendo a necessidade de
fantasia principalmente das populações mais humildes.

O ambiente teatral não se restringia aos espetáculos, mas fazia surgir o cultivo da dramaturgia
como forma literária; textos de peças de teatro compunham os baús e armários de livros dos
intelectuais nas Minas, que os letrados costumavam ler, e os poetas, imitar. As relações de livros
sequestrados aos inconfidentes e as listas de acervo das bibliotecas particulares confirmam a
presença de uma vasta coleção de dramaturgia. A maior biblioteca particular das Minas,
pertencente ao cônego Luís Vieira, contava com obras de Racine, Metastasio, Corneille, tragédias
de Sêneca e comédias de Terêncio. O fazendeiro José Resende da Costa mantinha em seu acervo
oito volumes de peças de Molière, três de Racine e nada menos que onze da obra teatral de
Voltaire. Alvarenga Peixoto possuía obras de Metastasio e Crebillon, e Cláudio Manuel da Costa
teve confiscados três livros de traduções de tragédias e um quarto de tragédias e poemas.
Do mesmo modo, o teatro estimulou na capitania a formação de uma casta de pintores e
artesãos cenográficos com uma surpreendente obra que primava por sua “qualidade e
versatilidade”,194 apesar do comentário rigoroso de Saint-Hilaire após assistir a uma apresentação
em Vila Rica: “A cortina representa as quatro partes do mundo pintadas do modo mais grosseiro;
entre, porém, as decorações, que são variadas, há algumas suportáveis.”195 Mas a crônica de uma
peça representada no Tijuco em 1818 menciona o apuro da cenografia.

O pano representava o último quadro da clemência, já descrito na iluminação da casa do


Intendente. As vistas, duas em número, que assim o requeria, eram de bosques e rochedos; e
como a demarcação diamantina oferece a cada passo bons exemplares de rochedos eriçados,
ruínas, desfiladeiros e precipícios, foram maravilhosamente retratados naquele quadro.196
A arte de significar

Vestimentas no século 18

DONA FRANCISCA NÃO VAI DEITAR-SE. Amanhã será o dia da procissão. O cabeleireiro veio
pentear de véspera seus cabelos. Armou um enorme toucado, com ferragens e uma infinidade de fitas.
Para não desmanchar o penteado, não desfazer os tristes — e dona Francisca acerta os caracóis que lhe
caem sobre as orelhas —, para não desriçar um melindre, ela dorme sentada num tamborete, com a
escrava a acordá-la quando a cabeça pende nas cortesias do sono.
Ainda não aponta o sol e a escrava levanta as rótulas, desperta a senhora dona Francisca. Acende o
candeeiro e dona Francisca, embrulhada em roupas de chambre, camisinhas à húngara, chinelos de
bocejo, levanta-se do tamborete e vai se espreitar ao espelho. Polvilha o toucado um pouco mais, retoca
os cachos e começa o refresco da pintura: trabalham as tigelas de vermelho. Chegam as moscas de tafetá,
que a escrava lambe e lhe aplica nos lugares mais maliciosos do rosto — o apaixonado no canto do
olho, o beijocador no canto da boca, o louquinho na asa do nariz. A escrava veste dona Francisca com
a camisa de holanda sem fita de afogar, para que fique com o seio descoberto. Duas aias lhe ferram as
pernas nos quadris e puxam as fitas do justilho, metem-lhe as meias e apertam as ligas abaixo dos
joelhos, e lhe calçam os sapatos com saltos de perdiz. Trazem a imensa armação de arame do donaire,
bojuda como um sino, vestem-lhe a saia de baixo, enfiam-lhe o guarda-pé e os bambolins. Compõem a
palatina de assopros, descobrindo bem a polpa do seio, penduram um rosicler no seu peito, uns brincos
de diamantes nas orelhas. Ela toma a echarpe, as luvas e o leque — arma terrível de significados —,
caro como uma joia. E rompe a manhã, quando dona Francisca se doura de sol e ar fresco, sentindo o
alecrim cheiroso da procissão.

A vestimenta é uma linguagem escrita não com palavras, mas com imagens, silhuetas,
tessituras. Possui diversos significados, ao transfigurar a pessoa que a veste em algo que a
sociedade interpreta, e em algo que a pessoa quer dizer de si mesma. Um único vestuário pode
carregar em si a época, as artes, ciências, religiões, os princípios da moralidade e muito mais
referente à sociedade e ao tempo. Também aquilo que a pessoa sente, pensa e quer transmitir a si
mesma e aos outros.
As mulheres sempre foram mestras na utilização da vestimenta como a arte de significar. Pelo
vestido, podemos saber se a mulher quer parecer casta ou libertina, se quer atrair ou repudiar os
olhares e desejos, se é tradicional ou extravagante, submissa ou rebelde, se é pobre, remediada ou
rica, se quer revelar ou iludir. Além disso, como é um fenômeno local, próprio de um grupo e de
um tempo, pode nos dizer muito sobre aquele grupo e aquele tempo.
No Distrito Diamantino, como de resto na colônia, as mulheres vestiam-se de acordo com a
hierarquia. As ricas possuíam roupas em tecidos preciosos, sedas, musselinas, damascos, debruns
de ouro, chapéus preciosos; e as pobres, algodão, baeta, chita e outros panos rústicos. As que se
mantinham dentro de casa, mesmo as senhoras ricas, não viam motivos para se engalanarem com
panos e adereços aflitivos e quentes; preferiam o conforto das vestes frescas, o abandono das
camisas largas, dos pés descalços, costume tomado por observadores e viajantes como desleixo.
Mas não era desmazelo, e sim o costume local, em parâmetros peculiares, e uma sabedoria
feminina: as mulheres preferiam se sentir bem e à vontade no recôndito da casa, lânguidas, em
saia, camisa de musselina delicada, trabalhada, “tão larga no busto que resvala pelos ombros ao
menor movimento, deixando o busto inteiramente à mostra. Além disso é tão transparente que se
vê toda a pele”.197 As que trabalhavam nas ruas, as que eram arrimo de suas famílias, tanto em
público como em casa não dispunham de mais do que roupas em tecidos baratos, assim como
xales rústicos e rudes capas de lã para proteger-se do frio.
Ao sair, no entanto, para uma festa religiosa, um banquete, um teatro, uma ocasião especial,
as senhoras e moças se transfiguravam. Metiam seus melhores trajes e se excediam nos adornos,
às vezes tão excessivos que elas mal podiam passar por uma porta. E levavam suas escravas no
mesmo luxo e ostentação de riqueza, com saias finíssimas, pulseiras, colares, medalhas, argolas de
ouro.
As prostitutas também tinham motivos para se enfeitar e embelezar, e se atreviam a ir pelas
ruas em liteiras, magnificamente vestidas; dessa forma era que adentravam as igrejas.

As vestimentas, tanto das mulheres quanto dos homens do Tijuco, seguiam a moda ditada
pelos franceses. Durante o reinado de Luís XIV a roupa fora altamente formal e afetada, mas após
sua morte, em 1715, houve mudanças na mentalidade e, por consequência, na vestimenta. As
mulheres passaram a usar roupas mais fluidas e libertadoras. Veio a moda chamada sacque, um
vestido quase sem formas, com pregueados nas costas de onde descia um pano farto até o chão,
dando a ideia de um manto. Mas, de forma curiosa, retornou o uso do arco de salgueiro, ou da
barbatana de baleia, em estruturas que buscavam a maior amplidão nas saias que se abriam como
uma cesta emborcada, por isso chamadas de panier. Essas saias tão dilatadas dificultavam o
movimento da mulher ao sentar-se num divã ou no banco da igreja.
O mais característico era um vestido com uma abertura na frente da saia, barrada com
enfeites, deixando aparecer a anágua, que era peça acolchoada e fartamente rebordada, mais rica
do que a própria saia. O corpete costumava trazer uma abertura semelhante, preenchida por um
peitilho removível, encorpado com barbatanas ou papelão, sob uma amarração de laços que iam
diminuindo de tamanho à medida que chegavam à cintura. As mangas vinham aos cotovelos,
deixando aparecer os babados de renda do chemise que se usava por baixo. Havia todo um sentido
de revelação das roupas internas, que se derramavam por frestas e bordas. Os decotes às vezes
eram vertiginosos, e quadrados, para maior amplidão e visão do colo. Usava-se, todavia, a “peça
de recato”, uma orla franzida que saía do corpete, com a finalidade de esconder a parte inferior do
decote. Além disso, usava-se um lenço de seda ou musselina que, dobrado, se enrolava em volta
do pescoço ou se cobria o seio. Os penteados eram baixos, encimados por chapéus ou laços.
Mais tarde, por volta de 1760, a moda francesa aderiu à vestimenta campestre inglesa,
incorporando uma praticidade anglo-saxônica. Os vestidos não ficavam mais sobre arcos, mas
sobre um tipo de anquinhas. Algumas mulheres usavam o colete estufado, ou o colete masculino,
com lapela, ou um vestido “para montar”, de linhas mais simples. A silhueta ampla da saia
começou a murchar, com o entusiasmo pela moda inglesa.
Os penteados faziam oposição à simplicidade dos vestidos. Para criar topetes altíssimos, às
vezes de um metro de altura, as mulheres esticavam os cabelos sobre uma estrutura de almofada
ou uma armação de arame. Em seguida, fileiras de cachos eram aplicadas, descendo pelas laterais;
dependuravam-se chinós, sobrepunham-se plumas, alfinetes enfeitados e, no final, cobria-se tudo
com pomada seguida de uma aplicação de pó branco. Sobre esse arranjo ainda se metiam enfeites
os mais fabulosos: ramos e panos rebordados, cúpulas de igrejas, paisagens campestres com
moinhos e bichos; ou verdadeiros jardins compostos de flores naturais ou de pano, ramos e
frutinhas silvestres. Seria mesmo possível, na década de 1770, uma gaiola de vaga-lumes — como
a que foi imaginada sobre a cabeça de Xica da Silva por João Felício dos Santos em seu romance.
A estrutura do cabelo, que levava adornos diferentes para cada ocasião, era fixa. Permanecia
por meses na cabeça. A mulher dormia, acordava, passava os dias e as noites com aquela
armação, um perfeito ninho para piolhos. O sofrimento se tornava tão torturante que oficinas
fabricavam hastes com uma mãozinha na ponta para que as mulheres pudessem aliviar as
terríveis coceiras naquele grande oco de cabelos. O martírio, todavia, não era motivo para se
abandonar um adorno. Na Inglaterra oitocentista as classes abastadas cingiam as meninas já desde
os quatro anos de idade com espartilhos de lona apertadíssimos, estruturados com barbatanas de
osso ou metal, para afinar suas cinturas; esse costume afetava os intestinos das crianças,
deformava a estrutura óssea, entre outros danos a sua saúde.

*
Os homens usavam sempre o mesmo casaco, colete e calções, o mesmo sapato. O casaco era
justo na cintura, com aberturas pregueadas, um longo abotoamento na frente, mangas com
babados nos punhos. O colete vinha por baixo do casaco, também repleto de botões, justo na
cintura e encorpado por uma entretela. Presos nos quadris, os calções iam até os joelhos, onde
eram fechados por uma fivela, e ali se prendiam as meias brancas. Usavam uma espécie de
gravata larga chamada plastrom, ou um pedaço de linho ou cambraia, às vezes sob uma gravata
preta “solitária”. O chapéu também pouco variava, com as abas dobradas em três partes e presas
por uma joia — o universal tricórnio preto, lavrado em pele de castor, que causava uma
impressão de pompa militar.
As vestes de João Fernandes, calculadas para impressionar e impor o respeito devido a sua
posição, poderiam ser conforme esta descrição: “A primeira peça do ritual em que o vestir-se
consistia era a ceroula, seguida da camisa branca de linho com babados, de calção ou calça e meias
finas de seda. Por cima, usava-se uma casaca de droguete preta, vermelha ou azul, ou um fraque
de baeta, veludo ou seda. Por fim, um casacão ou capote com mangas, quase enrolado sobre o
corpo”. Os adereços que ele provavelmente usava tinham a mesma função: “o pescocinho; no
bolso, lenço de seda com babados, outro azul para o tabaco; cabeleira, chapéu com presilha e
pluma; a Cruz da Ordem de Cristo pendurada ao pescoço, sapatos com fivelas de prata ou ouro,
bengala de tartaruga com castão de ouro ou prata e anéis de pedras preciosas. Na algibeira, faca e
espadachim com cabos de prata, além das pistolas.”198 Nas ocasiões mais solenes o contratador
usava o hábito da Ordem de Cristo ou, conforme o caso, a capa da Ordem Terceira do Carmo, ou
a beca de juiz do fisco das Minas. Quando circulava pelo arraial a cavalo ia sobre uma sela de
veludo carmesim toda rebordada; ou seguia numa luxuosa cadeirinha levada aos ombros dos
escravos.
Leis diversas tentavam coibir a ostentação nas vestimentas, mas em 1749 um decreto de dom
João V permitia aos que mantinham cargos superiores ao de alferes o uso de “galão de ouro, ou
prata no chapéu e botões lisos dourados, ou prateados nos vestidos e que, nos arreios dos seus
cavalos, possam usar de metal dourado, ou prateado com muita moderação e nos xairéis e bolsas
dos coldres, de um galão de ouro, ou prata, posto pela borda, sem desenho”.199

A descrição de um homem nobre em Lisboa preparando-se para participar do jogo de faraó na


casa do marquês de Pombal nos dá uma ideia do cotidiano das vaidades masculinas no século 18.
É o filho de um rico mercador de tecidos que recebe o convite dobrado em três, com aparas
douradas, entregue por um criado. O pai está tocando um fandango na viola, quando recebe a
notícia e chama a esposa, que logo aparece. Acorrem as criadas: uma mulata, uma enjeitada do
hospital Real, uma negra copeira e o negrinho da casa, vestido de amarelo. Todos ouvem o rapaz,
que em pé sobre um tamborete lê o honroso convite:
“Os marqueses de Pombal esperam Vossa Mercê na sua casa à rua Formosa, para o serão de
jogo da sexta-feira que vem.”200
Logo se manda um recado para o alfaiate Neves: que faça em três dias uma casaca de seda;
outro recado, para o ilustre sapateiro Antônio Coelho, instalado no Carmo: que fabrique um par
de sapatos de marroquim preto, com fivelões de prata; o terceiro recado vai para o cabeleireiro
Tomás dos Reis, do Chiado, “mestre admirável que aprendera a polvilhar em França com o
cabeleireiro de Luís XV, Monsieur Dagé, para uma cabeleira de bolsa com rolos e alcachofra à
francesa, em tudo semelhante às do excelentíssimo marquês de Pombal”. Compram-se frascos de
perfume na loja do Leconte, um óculo novo de punho de ouro no Lázaro, manguitos de renda de
Bruxelas e meias de espinhas de prata nos Genoveses; e o convidado vai tomar umas aulas de
francês na rua da Figueira, com o mestre João Roberto Doumeau — que anunciava suas lições na
Gazeta de Lisboa. Nos dias de preparativos, se não está a beliscar as ancas de uma mulata ou não
toca um fandango, o velho fidalgo treina algumas cortesias com o filho e o mestre de dança, diante
dos espelhos da sala. Se chega uma visita, depois de lhe mostrar as pratarias da casa, como era da
boa etiqueta, a mãe, empenachada de plumas, logo se gaba com o convite do marquês de Pombal.
Chegado o dia, o jovem espera, em sua roupa de pentear, a vinda do alfaiate Neves com a
casaca, do Reis com a cabeleira e do Coelho com os sapatos. No pátio já está atrelado um coche
emprestado pelo holandês diretor da Fábrica das Sedas, para levar o convidado à rua Formosa.
Dois criados vestidos de redingotes vermelhos esperam as ordens do jovem, quando chega o
cabeleireiro Reis, cheio de rendas, um quitó dourado à cinta, uma cabeleira à la greca no punho e
um ajudante carregando suas ferramentas de trabalho. Toda a família, criadagem, uma mulher
que vende escapulários e bentinhos à mãe, um cãozinho e até um macaco e um papagaio vêm
assistir à cena, no quarto do felizardo. A cabeleira é na moda nova, baixa, elegante, coleante,
alada, de rolos armados sobre a orelha, a fronte larga descobrindo a testa, e atrás um rabicho
preso por um laço cor-de-rosa. Com dedos ágeis o cabeleireiro apalpa, acaricia, levanta e deixa
cair levemente a peruca sobre a cabeça do rapaz. É a hora delicada dos polvilhos. O jovem
protege o rosto com um funil de papelão. O ajudante arma uma pequena escada portátil. O
mestre, empoleirado no último degrau, com duas bolas de arminho sacode no ar uma nuvem de
pós da França. O ajudante cá de baixo sopra com um fole a farinha perfumada, que se espalha
tenuemente, depositando-se pouco a pouco sobre o pelo de cabra finíssimo da cabeleira. Muitos
espirros depois, o pai pergunta ao cabeleireiro se é assim que se polvilha o excelentíssimo
marquês de Pombal.
O sapateiro já vem assomando à porta, mas tem de esperar que a poeira baixe para
desembrulhar os sapatos. Afinal chega o alfaiate Neves, de bengala, trazendo o redingote de seda
— uma peça suntuosa de gorgorão de seda preto, comprida e picada de ouro, babada de rendas,
forrada de seda verde, com mangas holandesas feitas ao punho, algibeiras no estilo inglês, botões
miúdos de prata. Enquanto o sapateiro, ajoelhado, mete pelas coxas do rapaz os rolos que fazem
as pernas mais altas, criados vestem seu senhor com a nova casaca. O alfaiate observa, tocando
desdenhosamente, com a ponta da bengala, uma prega, desfazendo uma ruga no tecido,
compondo as rendas da camisa, dando alguma graça aos penduricalhos de ouro do relógio, até
considerar que tudo está bem composto.
O convidado calça as luvas e mete no punho um lenço de rendas, põe o óculo, toma o bastão
com punho de Limoges e desce a escada nobre da casa, ante o desvanecimento do pai e o sorriso
orgulhoso da mãe, os saracoteios voluptuosos das mulatas; sobe o coche, altivo, a caminho da casa
solarenga à rua Formosa. Essa cena se passa em 1770, um ano antes da volta de João Fernandes
para Lisboa.

Não se usava mais a antiga e pesada espada portuguesa do século 17, com grande tigela de
ferro e lâmina soldadesca de seis palmos, que tinia nos duelos a serviço da honra, do orgulho ou
do amor. Com o afrancesamento da Corte de dom João V a espada foi substituída pelo quitó, um
espadim leve como um brinquedo e caro como uma joia, “feito mais para namorar do que para
matar, cuja lâmina, pela lei joanina de 1719, não podia exceder três palmos, e em cujas guardas
doiradas o faceira pendurava, como um floco de espuma, o seu lenço eloquente de cambraia
ligeira”.201 Daí em diante, nas emboscadas e nos duelos os homens utilizavam armas de fogo:
clavinas, bacamartes, arcabuzes.
Criou-se uma linguagem de significados para o uso do quitó. Metendo-o entre as coxas o
cavalheiro mandava uma mensagem de ternura; se punha no espadim um lenço de guardas
douradas, estava a dizer que retornaria no dia seguinte; se o levava à boca e lhe beijava os punhos,
queria dizer à moça que ela era bela. E assim por diante. Mas não se usava essa arma apenas de
maneira inofensiva nos momentos de sedução; ela também feria e matava, de modo mais gentil e
gracioso, em duelos “corteses”. A gazeta Mercúrio de Lisboa, em 6 de março de 1745, noticiava que
“na rua dos Ourives da Prata se apearam dois casquilhos das suas carruagens, e, tirando o chapéu
um ao outro, puxaram dos espadins e começaram a pendenciar até que os ourives os
apaziguaram”. Em junho de 1742 o marquês de Alegrete varou com um quitó o peito de um
sobrinho do embaixador da França, motivado por ciúmes de uma espanhola, criada das damas da
comédia. E usando dois leves espadins franceses, na tarde de 9 de novembro de 1743, na bica do
Sapato, o marquês de Cascais e um inimigo se bateram com veemente cortesia, até que passaram
uns frades barbadinhos e os detiveram, antes que caíssem mortos na calçada. Numa noite de
março de 1744 duelaram o filho do marquês de Távora e seu adversário, Bartolomeu de Escarça,
cumprimentando-se primeiro, graciosamente, com seus espadins. Foi com um espadim dourado
que um dos filhos bastardos de dom João V tentou estocar o ministro Sebastião José de Carvalho
por ter feito oposição ao seu casamento com a princesa herdeira, dona Maria. O poderoso duque
de Cadaval desafiou o marechal inglês Duarte Smith, no teatro do Bairro Alto, em 1770, por
questões amorosas com uma cantora italiana. E foi, afinal, com um pequeno espadim de punho de
prata que o conde de São Vicente, por ciúmes da sua amante atriz, deixou morto sobre uma poça
de sangue, na travessa da Espera, o mestre de campo Teixeira Homem.
Os homens na colônia também levavam espadins como acessório decorativo de sua
vestimenta. Os ricos possuíam peças trabalhadas por ourives, o punho de prata ou de ouro
enfeitado com filigranas, desenhadas especialmente para aristocratas e cavalheiros abastados.
Foram usados até o final do século 18 e podiam servir, eventualmente, para defesa ou duelos.
E usavam perucas, acessório exclusivamente masculino. A perruque à crinière, ou peruca
comprida, era peça essencial no vestuário dos homens das classes altas, mas havia diversos
modelos, adequados a profissões ou a situações. Quanto mais janota o sujeito, mais longa a
peruca. Passou a ser coberta de pó branco a partir dos primeiros anos desse século. As perucas
eram extremamente desconfortáveis e caras, sobretudo as fabricadas com cabelo humano.
Também podiam ser feitas com crina de bode ou de cavalo, ou fibras vegetais. Até os militares
usavam-nas, mas adaptadas a “perucas de campanha”, que permitiam atividades mais vigorosas.
Os sapatos masculinos, muito finos, levavam fivelas de ouro, prata, pechisbeque ou aço adornado
com pedras preciosas, ou imitações.

As mulheres em Portugal eram descritas por viajantes como morenas de olhos bonitos e
muitos topázios, tomadoras de rapé fulvo, bêbadas, perigosas e fáceis, com uma escandalosa
queda para os amores lésbicos e que se vestiam à mangalaça, como os homens. Usavam decotes
vertiginosos que deixavam o colo do seio e os ombros à mostra, polvilhados de branco, coalhados
de diamantes e outras gemas preciosas.

O seio nu foi, desde o terceiro quartel do século XVII até ao primeiro do século XIX, a moda
admitida e consagrada. Puderam as mercuriais condenar-lhe alguma vez o exagero e o
excesso; pôde Frei Alexandre da Paixão estranhar, em 1668, “que os homens andassem
enfeitados como mulheres e as mulheres nuas como maganas”; pôde ainda Frei José de S.
Cirilo Carneiro, carmelita descalço, ulular, no tempo dos Franceses, “que era pecado mortal
andarem as mulheres nuas de peitos e de braços”; pôde, finalmente, o padre José Agostinho de
Macedo, brandindo como um arrieiro o seu cacete apostólico, acusar na Besta Esfolada as
malhadas gaivotas de “andarem meias nuas pela rua e de quererem andar despidas de todo”: o
uso tinha admitido os próprios desmandos das senhoritas da comédia e das mulheres damas.202

Acostumado com a generosidade do decote, o português ficava indiferente; mas os


estrangeiros estacavam, perturbados, assestando o óculo, desvanecidos com a visão encantadora
daquela nudez. Montesquieu anotava, em 1720, que os homens em Portugal permitiam a suas
mulheres aparecerem com o seio descoberto. Em 1777 o duque de Châtelet comentaria: “Que
encanto o das portuguesas! Não há europeia alguma que tenha melhor carnação!”
Quando em 1764 surgiu a moda de se velar o decote com um lenço translúcido houve
reclamação geral, com o argumento de que o seio apenas sugerido era mais tentador do que o seio
desnudo. E caiu o uso do véu insinuante. A carne alva dos seios voltou a flamejar, nua, nas óperas,
nos serenins, nas noitadas de jogos. Mas ai da mulher que ousasse mostrar, mesmo ao ajoelhar-se
na igreja, a ligeira ponta de um pé! O gesto era considerado uma grave ofensa ao pudor e à virtude
feminina. Calçado de veludo, dissimulado por um pesado guarda-pé, o encanto misterioso
despertava paixões fetichistas. Toda a volúpia do século 18 palpitava “numa penumbra doirada e
incerta, em volta dessa ponta de pé ou dessa nesga de perna, mil vezes sonhados e uma só vez
entrevistos, que resumem, para o apaixonado de 1770, toda a graça oculta, toda a beleza
inatingível, todo o mistério perturbador da mulher”. E, quando parava algum coche num pátio,
dezenas de lunetas espreitavam para flagrar o pezinho calçado de “rico vermelho, abrochado de
minas luzentes, tateando o estribo”.

As tendências da moda do Reino vinham dar na colônia e seus ditames eram adotados com
adaptações para o clima ou o material disponível. Os modelos chegavam às mãos das mulheres
por meio de publicações vindas em navios da Europa desde os anos 1740, como La Couturière, que
trazia desenhos mostrando os modelos vistos de frente e de costas; os fashion plates, começados a
vir a lume em 1770, como The Lady’s Magazine, revista que se imprimia em Londres; folhetos
como La galerie des modes; ou bonecas vestidas com os modelos minuciosamente reproduzidos. Le
monument du costume,203 publicado em Paris entre 1775 e 1783, também era em forma de costume
plates. Essas ilustrações em pranchas mostravam vestidos diversos, de passeio, de verão, de
inverno, para o dia ou para a noite, para o campo ou para a cidade, para o teatro, a igreja, o baile.
Os preciosos tecidos e adereços, as linhas, botões para a confecção dos vestidos e acessórios
como chapéus, sapatos, meias, chinós, as rendas, fitas, flores de pano, eram diretamente
importados pelos consumidores, trazidos por comerciantes ou adquiridos nas lojas requintadas
que se espalhavam pelas ruas das vilas e arraiais mineiros. Raros eram os vestidos que vinham
prontos, quase sempre vendidos depois de usados. Tudo tinha de ser copiado, planejado, medido,
cortado, costurado, provado e acabado. Para isso, havia uma classe de costureiras e bordadeiras,
ajudantes, e alfaiates com aprendizes em suas bancas.
Num apêndice das Memórias do Distrito Diamantino, Joaquim Felício dos Santos descreve
roupas das mulheres do Tijuco, no tempo das anquinhas. Usavam vestidos simples e ligeiros que
marcavam as curvas do corpo e a qualquer brisa se levantavam, mostrando indiscretamente os
avessos e recatos. Para corrigir os “defeitos da natureza” elas usavam bolsas ou almofadas
estofadas com cabelos ou com farelos, arrumando-as nos locais que desejavam relevar. Numa
festa religiosa, certa jovem de comportamento “equívoco” perdeu suas anquinhas dentro da igreja
e foi intimada pelo intendente Robi Barros de Barreto a, em menos de três horas, deixar o distrito.
Nas aquarelas de Carlos Julião (1740–1811), militar italiano que esteve nas Minas a observar os
costumes, vemos negras e brancas vestidas na mesma moda: uma saia bojuda como um sino, de
cor forte, a camisa branca de manga fofa, uma capa preta ou amarela jogada por sobre um dos
lados do corpo, a figura encimada por um chapéu triangular ou um turbante. Também vemos
negras vestidas com apenas um pano colorido enrolado na altura do ventre, amarrado na lateral;
mas, sempre, alguma pulseira, colar e um turbante nos cabelos.
Tá bom, dalê

A fala de Xica da Silva

Giniroso não viu treva. Bom; Giniroso não viu treva. Giniroso não viu lava-pé. Giniroso e
nós tudo não vê inforcá o juda que vendeu Nossinhô, oncê não vê que não é possive?204

ESSAS PALAVRAS ESTÃO REGISTRADAS no livro de Helena Morley, Minha vida de menina,
como a fala do escravo Giniroso, em Diamantina, março de 1894. Nessa época já não havia
escravos nascidos na África; a quase totalidade era de brasileiros. Também a maior parte dos
vissungos coletados por Mata Machado registra essa fala em corruptelas. Assim falavam alguns
escravos. Mas havia os ladinos, que se expressavam corretamente em português ou, ao menos,
com uma pronúncia mais próxima da fala culta.
Muitos senhores transformavam os escravos boçais em falantes do idioma português. Os que
vinham para o Brasil ainda crianças ou adolescentes aprendiam com facilidade a língua lusa e,
depois de pouco tempo, eram fluentes. Alguns escravos aprendiam o português em apenas três
meses; no entanto, não pronunciavam o st e o r. Diziam tá bom e dalê no lugar de darei. Muitos
falavam com tanta fluência que passavam por libertos, especialmente os que se originavam de
regiões africanas sob domínio do Reino de Portugal. Alguns até mesmo chegavam ao Brasil já
sabendo essa língua, aprendida nas operações comerciais ou junto aos missionários. Referindo-se a
sua viagem pelo nordeste do Brasil, o viajante Henry Koster afirma que “o idioma português é
falado por todos os escravos e sua própria linguagem é de uso tão diminuto que muitos a
esquecem totalmente”.205 Informa, também, que muitos dos escravos capturados após uma fuga
eram reconhecidos pelo modo como falavam o português.

[...] nenhum ou quase nenhum resquício de influência africana ou indígena se manteve na


linguagem, nos costumes ou nas lendas mineiras, pelo menos na região clássica e característica
da civilização do século XVIII. O que do africano se tinha incorporado aos costumes do
Norte do Brasil, e que teria vindo com a gente da Bahia e Pernambuco, diluiu-se com a
massa de brancos portugueses que penetrou em Minas sem interrupção durante quase um
século. O filho do europeu com africana nascia um “europeu” na língua [...]206

Havia no Rio de Janeiro um número surpreendente de escravos e escravas alfabetizados, que


assinavam com bela letra os documentos e registros notariais, como o fez Francisca da Silva de
Oliveira, já usando o sobrenome do contratador.
As línguas da África Ocidental se distinguiam por palavras em geral com mais de três sílabas,
os prefixos sistemáticos e flexionados, e constantes repetições de sonoridades, as chamadas
aliterações, “cujas letras recíprocas têm seu mistério teoricamente explicado por uma eufonia em
muitos casos ininteligível”.207 A entonação e a altura da voz eram usadas para expressar as formas
negativas do tempo dos verbos no passado, presente e futuro.
Não sabemos como Xica falava. Seu caso sugere uma pronunciação em desenvolvimento, ao
longo da vida. Na infância talvez tenha se expressado como Giniroso e com certeza ouviu diversos
idiomas e dialetos africanos nas senzalas onde viveu na condição de escrava. Sua mãe era nascida
na África e, se não falava em sua língua nativa, decerto ainda a guardava na memória e deixava
escapar expressões que a menina ia absorvendo. Talvez Xica tenha aprendido as primeiras
palavras na língua de sua mãe; certamente aprendeu, na infância, expressões africanas com a
família de Domingos da Costa e com outros escravos com os quais mantinha uma vida em
comum. Mas a convivência de Xica com os brancos cultos, como escrava de dentro das casas
senhoriais, terá aperfeiçoado sua pronúncia, sua sintaxe e seu vocabulário. E, após a união com o
contratador, talvez tenha atingido uma fala castiça, ou quase, imperativo para sua aceitação e
ascensão, próxima à fala de Bárbara Heliodora, uma das primeiras poetisas brasileiras e uma das
musas da Conjuração Mineira. Nascida em 1758, em São João del Rei, e de esmerada educação,
Bárbara Heliodora escreveu poemas que versam sobre temas maternais, com bastante humor e
referências irônicas à situação política. Usava uma linguagem culta, como nestes versos:

Tudo mais são ideias delirantes,


Procura ser feliz na eternidade
Que o mundo são brevíssimos instantes.208

Segundo alguns cronistas, o número de idiomas falados na África excedia a duzentos e


cinquenta, tendo, cada um, numerosos dialetos, chegando por vezes a mais de oitenta as
variedades dialetais dentro de cada língua. No Brasil, não era possível identificar grupos de
escravos pelo idioma que falavam, pois comumente os negros usavam vários dialetos
pertencentes a vários grupos étnicos, até mesmo a diferentes grupos linguísticos. As variantes
eram muitas e, às vezes, inusitadas. Uma simples enumeração dos idiomas dá ideia das dimensões
sonoras africanas: abure, aizi, ambenga, ambuno, ambundo, andango, angáci, angico, angolês,
angolar, avicam, babua, babulu, bamana, bambate, bambo, bambole, bangba, banto, biafada,
bila, bosquímano, bunda, cacanda, caçanje, cafre, cafreal, camítico, coi, conguês, cucurucu,
daomeano, efé, egbé, ecolombe, econda, eubá, fula, guineanos, guineo-sudanês, guruneis, hauçá,
herero, hotentote, ibo, ioruba, jalofo, jeje, jena, jinga, ladino, landim, libongo, lumbindo, lunda,
maca, malê, mandinga, manhiça, manjanga, marimba, moci, nagô, nabule, naolo, nifê, quicongo,
quimbundo, quissuáli, quitote, semíticas, senegalês, sobo, sosso, suáli, suto, umbundo, xitonga,
zambeze e zurura, além de outros menos notáveis.
Mesmo com a impossibilidade de sistematizar os idiomas africanos, estudiosos elaboraram
uma divisão de seus grupos linguísticos: as línguas semíticas, as camíticas, as negras, as cafres ou
bantos, a hotentote e a dos boxímanos. A mais próxima das origens de Xica da Silva seria a língua
fon. Há registro da presença de povos ewe-fon nas Minas, grupo que cresceu na mesma medida da
demanda de escravos para a extração do ouro e dos diamantes na região. A concentração dos ewe-
fon foi de tal ordem em Vila Rica que chegou a ser corrente os escravos se expressarem com base
nessa língua, afirmação de António da Costa Peixoto em Obra nova da língua geral da mina,
precioso texto escrito em 1741 e publicado apenas em 1943, em Lisboa. Considerado o documento
linguístico mais importante do período colonial, Obra nova foi produzido como um instrumento
de controle da escravaria, segundo o próprio autor. Levava ao conhecimento dos senhores das
lavras o vocabulário, as frases, as expressões mais usadas pelos escravos locais, para que
pudessem ser previstos e reprimidos os furtos, os contrabandos, as rebeliões e as fugas, planejados
por negros. “Pois é certo e afirmo”, diz o autor em prólogo, “que se todos os senhores de escravos,
e ainda os que não têm, soubessem esta linguagem não sucederiam tantos insultos, ruínas,
estragos, roubos, mortes, e finalmente casos atrozes, como muitos miseráveis têm
experimentado: de que me parece de alguma sorte e poderiam evitar alguns destes desconsertos,
se houvesse mais curiosidade e menos preguiça nos moradores e habitantes destes países.” Entre
os vocábulos dos negros minas, Peixoto registrou:

dê — cabelo
tâ — cabeça
józim — lêndeas
jô — piolhos
dá bâ — cabeleira
agom gou gou — miolos
vtou — orelhas
hum dá mâ — sobrancelhas
anucum — olhos
ahótim — nariz
adû — dentes
num — boca

A única referência histórica à fala de Xica da Silva encontra-se nas Memórias do Distrito
Diamantino. Ela teria dito:

— Cabeça, trata desses marotinhos.209

Marotinho era um dos variados cognomes depreciativos dados aos portugueses na época. O
dicionário210 registra diversas alcunhas para os reinóis, como boaba ou boava, emboaba ou
emboava, caneludo, cotruco, cupê, cutruca, labrego, marabuto, marinheiro, marreta, mascate, matruco,
mondrongo, novato, parrudo, pé de chumbo, portuga, talaveira, quase sempre relacionadas aos
conflitos do período colonial, ou ao tempo das lutas pela independência do Brasil.
A linguagem de Xica da Silva, a personagem do romance de João Felício dos Santos, é
primitiva e chula, como podemos verificar nos exemplos a seguir:

— Merda também. (muxoxo descasado da zanga e gracioso)

— Pra que tanta lambança, meu velho gostoso? Tu não te acanha de tanto gritar? E tu não vai
dar um cheiro bonito em sua mulata? Taí tuas calças, pra que tanto esparrame? Apois, meu benzinho,
meu velho, me diga... (empurrando descaradamente na voz e no jeito)

— Vá, larga minha bunda, menino! Assussega, Zezé! (no meio do riso)

— Viu a mulher do porqueira do Mucó? Viu como aquela saca de trampa, branca que nem bicho
de goiaba, estava assanhada? Velhaca, uai! (rindo e falando) Dona Hortênsia só queria saber se o
contratador era branco, moço, tinha sustança... Puxa! Assim, nunca vi! E bem na venta do corno,
Zezé! Será que já não abasta pra ela o mundo de bode da cidade? Falar no chifrudo, Zezé, tu não viu
como o desgraçado me apalpou todinha no meu corpo mode ver meu dente? Onde já se viu dentes nos
peitos da gente? Até na curva da bunda o infeliz me passou a mão... eu, doida de vontade de sapecar
uma dentada de lascar quando ele me meteu aqueles dedos cheios de rapé na minha boca...

— Vá! Uai! Desencosta de mim! Chega! Deix’eu ver o homem que tá chegando... Não sacaneia!

— Que qui é um contratador?

— Cala essa boca, bobo! Olha a festa! Vá... assossega, uai! Quer que eu lhe faça doutra, quer? Que
nem lá no porão? Então tira o juízo dessas bobajadas.

— Ele é formoso, Zezé! Ele é diferente do mundo! Até parece um príncipe, uai!

— Ora, vá pros quintos, velha porca!

— Vai t’embora você também, rato branco nojento! Se tu quer me iludir, vá iludir sua avó...
Quero mais saber de você não, Zezé. De hoje pra frente, eu só sei ser cativa daquele homão que t’ali! Só
dele, ouviu? E pode ir contar tudo pro broxa do teu pai...

— Com o bosta do ouvidor, não! Vê lá se eu sou dessas negras do ganho dos pés rachados!

— Vá, meu amo! Froxa não! Abre sim... só um tiquinho... abre pra sua mulata! Morde! Morde
aqui! Morde com força, uai! Vá!

— Que qui tu quer também, baroa de merda?

— E eu sei muito trem... não é só dançar, não! Eu sei bater bolo... catar cafuné... eu sei...

E diz o romancista neste sugestivo trecho, parcialmente composto em ritmo de redondilhas


menores:
A voz da escrava, agachada na soleira da porta, ali ao alcance guloso da mão, tem quase
gosto: sibila nos sustos, soluça nos sestros, nas exclamações, se espanta sozinha com falas
malucas, com frases inteiras de mel e alcaçuz, excita as vontades do sexo ninado só nos
assoprados das sílabas quentes... E, com o achegar da boca mais perto, nas sublinhações de
algumas passagens pedintes de tinta, fazia incensar de cheiros dolentes que viram fluência de
orgasmos silvestres, orgasmos de frutas azedas, maduras, nos íntimos gratos do contratador.211

Os homens portugueses do período colonial usavam entre si a linguagem chula sem pudores,
com opulência, contando anedotas obscenas, fazendo gestos licenciosos, expressando uma
obsessão pelo amor físico. Um erotismo crasso e plebeu dominava reinóis de todas as classes
sociais, sendo considerado efeminado o homem que não usasse palavrões e mímicas torpes.
Contavam episódios de frades com amantes, de freiras sedutoras, de negras amasiadas com
brancos, de ingleses impotentes, franceses invertidos, desvios sexuais e todo tipo de escatologia,
mencionando excrementos. Esse costume se estendeu às terras coloniais brasileiras, mas apenas
aos homens na sua intimidade, sem a presença das mulheres de família.
As negras adoçaram o português falado no Brasil fazendo reduplicações dengosas, como dodói,
bambanho, amolecendo as palavras com diminutivos, dindinho, bimbinha, criando apelidos
meigos, como Totonho, Dondon, Toninho, Chico, ou tratamentos como nhanhã, iaiá, sinhá, nhá,
sinhozinho, nhô. Francisca virou Xica, ou Chica. A fala mansa, descansada, corrompeu a pronúncia
dos ss e rr, e tirou a rigidez da construção gramatical lusitana, como na inversão do pronome: em
vez do imperativo deixe-me, diziam me deixe; em vez de diga-me, me diga — usos malemolentes e
íntimos. Do mesmo modo como se mestiçavam as gerações, mestiçava-se a fala.
Assim como havia uma dualidade no comportamento ou nas vestimentas, em casa e na igreja,
por exemplo, havia uma dualidade nas falas: a fala para a intimidade e a fala para os salões e
encontros formais, às vezes empregadas pelos mesmos utentes. A ostentação de riqueza
acarretava uma ostentação de linguagem culta. Dizia Joaquim Felício dos Santos que os
moradores do Tijuco, “povo de espírito e viva imaginação, foram sempre, apaixonadamente
loucos por belos ditos”.212 Cultivava-se a arte da conversa, o espetáculo da erudição e da fala
espirituosa.

*
Muitos escravos eram ensinados a ser polidos e corteses — quando já não o eram de sua
origem — segundo o cerimonial da cultura branca. Pela manhã tinham de saudar os senhores com
uma inclinação da cabeça ou ajoelhar-se diante deles. Quando entravam num aposento onde
estivesse presente a família, tinham de estender a mão direita, dizer “Louvado seja Nosso Senhor
Jesus Cristo” e pedir a bênção. De noite, depois das orações, deviam novamente pedir a bênção
aos senhores. Na rua tinham de dar preferência à passagem de um branco, uma etiqueta que
enfatizava a desigualdade pretendida. Nem todos o faziam e reações violentas ocorriam
comumente.
Não eram raros os escravos que traziam de suas origens noções de respeito e formalidade,
tratando-se, entre si, por Vossa mercê ou Vossa Senhoria. Sabemos que os negros que vinham
escravizados para o Brasil possuíam origens sociais diferentes; uns eram membros da nobreza, ou
comerciantes cultos, ou intelectuais, ou sacerdotes, que carregavam seus códigos de cortesia e
polidez.
Também nas casas de famílias do Tijuco os escravos deviam se submeter à rigorosa etiqueta
dos brancos; percebiam que uma possível libertação e ascensão na sociedade era atrelada a seu
comportamento, sua fala, sua apresentação. E, mesmo não conseguindo sua própria elevação
social, tentavam que seus filhos fossem afastados dos estigmas raciais, clareando sua pele por meio
de miscigenação e educando-os dentro dos padrões brancos, a começar pela linguagem.
Mancha escura

A mãe, 1756. O sangue negro dos filhos

O CONTRATADOR ANDA DE UM LADO A OUTRO diante da recâmara quando a comadre entra,


com uma vela benta numa das mãos e um registo da Virgem na outra:
— É macho! Alvíssaras, meu senhor, que é macho!
Feliz por seu filho homem, João Fernandes põe ao pescoço da parteira uma correntinha de ouro e dá
uma moeda ao Cabeça, que, ajoelhado, lhe beija a mão a chorar de alegria. O menino vai se chamar
João, como o pai e o avô.
Paga ao físico, que ali esteve para acudir a qualquer complicação no parto de dona Francisca. Dá
um saquinho de moedas aos padres, para os pobres por caridade, e manda Cabeça levar a notícia aos
amigos. O escravo toma o chapéu, desce ao pátio, onde monta o cavalo, e parte.
Na alcova entram e saem escravas nas pontas dos pés, com panelas d’água. Levam lençóis limpos,
sobre bandejas de prata, e retiram os sujos de sangue e águas do parto. Uma delas amantilha o menino,
apertando-o bem. Acendem velas bentas por todo o quarto, empurram as arcas e oratórios para um
canto, como manda o Regimento da feliz parida, e fecham as janelas para que não penetre nenhum
bafo de flores. Os padres entram no quarto e logo tratam de pôr ao pescoço da senhora um escapulário,
enquanto uma escrava deposita em sua cama uma rã verde dos valados, seca ao fogo. Alguém põe uma
espada velha à cabeceira do menino, para afugentar as bruxas.
Ninguém dormirá essa noite, toda passada em rezas, oratórios, recados, adorações em volta do berço.
Dona Francisca só descansa de madrugada, mas logo pela manhã entra no quarto o mestre da arte
de criar meninos, com o hábito e a cruz de Cristo ao pescoço, e um médico licenciado. Despem o menino
e o examinam, tornam a amantilhá-lo, dando ordens à comadre e às escravas, recomendando à mãe o
espírito de melissa bebido em vaso de prata. O mestre de criar meninos faz um discurso acerca de
fecundas uniões abençoadas por Deus e recebe a meia peça de ouro que lhe paga os serviços. Criadas
levantam a senhora, paramentam a cama. Penteiam-na de lisos. Vestem-lhe a camisa de holanda com
fitas azuis. Por cima, uma roupa à húngara. Diamantes nas orelhas, rosicler no seio, um sinalzinho
apaixonado no canto do olho e dona Francisca está pronta. Tudo são ordens do contratador.
Entram mais escravas com tapetes de Arraiolo, que estendem em torno da cama. Chegam bacios de
prata. Na porta da casa param seges, vêm as visitas olhar o menino.
— O anjinho de Nosso Senhor!
— É uma pintura do pai!

Em Portugal as “visitas de parida” eram um divertimento para as moças. As amigas da parida


entravam, alegres, saltitantes, trazendo figas, a bisbilhotar, a olhar a criança, a fazer perguntas
sobre o pai, os padrinhos, o nome do cordeirinho, o batizado. Cantavam à viola, dançavam
minuetes à roda do leito e prometiam voltar no dia seguinte, e todos os dias, até que a parida
pudesse dar seu primeiro passeio de coche. A certa altura, traziam o cravo para o pé da cama,
armava-se um bufê de doces e começavam as adivinhações espanholas. E se achegavam, curiosos,
os homens da família, frades, parentes. Atrás deles as criadas, os bobos, os negrinhos. Todos
ficavam em volta da cama a falar, a contar histórias, a dar notícias: uma mulher na Holanda tivera
cinco gêmeos, sendo o último um lobo; chegaram um bispo e dois diáconos gregos para cantar os
evangelhos na Capela Real; a mulher do armeiro-mor tinha uma doença que a fazia andar para
trás quando queria andar para diante; o diamante da frota de Pernambuco era falso; o papa
mandara pedir uma arara ao rei; a abadessa de Sant’Ana fugira com um frade capucho... As
mulheres rodeavam o cravo, tomavam de uma viola e rompiam, cantadas por solfa, as adivinhas
castelhanas de soror Inês da Cruz:

Qual es aquella homicida


Que, piedosamente ingrata,
Siempre en quanto vive, mata,
Y muere quando dá vida?213

Lá fora, beatas velhas cobertas de mantos pretos e rosários cantavam a “ladainha das paridas”.

O segundo rebento de Xica da Silva e João Fernandes nasceu homem, em junho de 1756,
quando a primogênita do casal tinha um ano de idade. O menino iria mandar na casa portuguesa,
já nascia como um pequeno tirano. Logo enfaixavam-no com mantilhas, punham um berloque de
ouro ao seu pescoço, um vintém furado de são Luís à cabeceira e ali ficava ele, imobilizado,
enquanto lhe faziam a adoração.
As mães ricas quase nunca amamentavam a criança, tanto no Reino como na colônia. Isso era
função das amas de leite, apesar das admoestações da medicina. Francisco de Fonseca Henriques,
médico de dom João V, fulminava as mães que, “contra os ditames da razão e contra as leis da
natureza, negam a seus filhos o próprio leite”.214 O médico da real câmara, Curvo Semedo, dizia
que “a melhor ama e o melhor leite para criar é o da própria mãe”. Mas as mães, e suas mães e
avós, acreditavam que a beleza se sugava no peito das amas, assim como as qualidades morais —
e certas doenças. Rigorosas na escolha da ama de leite, observavam que tivesse boa cor, peito
largo e espadaúdo, que não fosse muito gorda nem muito magra, que não tivesse sardas. As ruivas
não eram aceitas, nem as que não tivessem dentes alvos e inteiros. A ama de leite não podia ser
gerada de pais leprosos, asmáticos, tísicos, nem tocados de gota coral — a epilepsia — e nenhuma
doença contagiosa. Não podia ser primípara, porque no primeiro parto o leite não era puro nem
elaborado. Que não tivesse menos de dois e mais de dez meses do parto. Que seus filhos fossem
saudáveis e vivedouros. Que fosse pacífica, temperada, virtuosa e delgada de leite.
Algumas mães preferiam as amas de leite brancas, rosadas; outras escolhiam as trigueiras,
“porque as morenas”, dizia um médico, “além de serem mais sanguinhas, convertem melhor o
alimento em sangue e leite, à maneira da terra, que quanto é mais negra, tanto é mais fértil”. As
crianças costumavam desmamar aos dois, três anos de idade, dependendo de sua robustez.

Estudos e pesquisas recentes revelam que “as famílias do nosso passado colonial eram não só
tipicamente constituídas por poucos filhos como também bastante distintas da família patriarcal
característica das elites nordestinas (grande e complexa, constituída, além do casal e filhos, por
parentes e diversos agregados vivendo sob o mesmo teto) no sentido de traduzirem-se em lares
pequenos, com poucos integrantes e estruturalmente simples”.215 Xica parece ser uma exceção
nesse quadro, pois teve catorze filhos.
O primeiro deles é Simão Pires Sardinha, nascido em março de 1751, de seu segundo senhor, o
médico Manuel Pires Sardinha. Com João Fernandes ela teve Francisca de Paula, nascida em abril
de 1755; daí em diante seria quase um filho a cada ano, numa fertilidade extrema e uma
demonstração de saúde extraordinária, pois os partos representavam grande risco para as
mulheres. João, que seria o principal herdeiro do pai e administrador do morgado de Grijó, nasceu
em 5 de junho de 1756; Rita Quitéria veio à luz exatamente um ano depois; em agosto de 1759 foi
a vez de Joaquim José; Antônio Caetano nasceu quase dois anos depois, em fevereiro de 1761; Ana
Quitéria, em março de 1762; Helena, em maio de 1763; Luísa, em dezembro de 1764; Maria, em
janeiro de 1766; um ano depois nasceu Quitéria Rita, a filha mais longeva; Antônia veio ao mundo
em 1768; Mariana, em janeiro de 1769; e, finalizando a prole, o caçula José Agostinho, nascido por
volta de 1770. Todos os filhos e filhas do casal receberam o sobrenome do pai, Fernandes de
Oliveira. Alguns dos nomes relembram membros da família, como Rita, uma irmã de João
Fernandes, e também nome da pretensa irmã de Xica, a filha da Vassoura; Antônio Caetano é
nome do pai de Xica; e Maria, nome de sua mãe, denotando um interesse de coesão familiar.
Em sua ficção, Agripa Vasconcelos recria uma Xica da Silva com os cuidados maternais
prejudicados por festas e outros compromissos sociais, e pelos ciúmes de João Fernandes, que
muito ocupariam seu tempo e suas atenções. Mostra-a como uma mulher de pouco carinho para
com os filhos, e nada sincero, mantendo-os distantes de seus afetos. Mas os fatos da vida de seus
filhos sugerem que Xica foi mãe presente e acolhedora.
As nove filhas do casal foram todas educadas no recolhimento das Macaúbas, que ficava no
caminho de Vila Rica. Os pais visitavam as filhas com tanta frequência que chegaram a construir
uma casa lateral ao edifício do recolhimento, para se hospedar. Lá era onde se internavam
crianças e jovens de famílias prósperas e interessadas na melhor educação feminina, além de
alguns casos específicos, como viúvas, esposas em conflitos matrimoniais, adúlteras, filhas
rebeldes e moças em situações semelhantes.

O edifício do recolhimento se destacava na paisagem verde, encimando uma colina, com seu
perfil adornado por macaúbas, palmeiras de frutos comestíveis e flores perfumadas. Lugar isolado,
cercado por muros, dava mesmo a sensação de recato. Lá eram ensinadas a virtude, a obediência,
a simplicidade, preparando-se as internas para serem freiras. Elas cantavam em coro um
repertório de cantochão gregoriano, aprendiam as primeiras letras, bordados, rendas e costuras, e
podiam manter aias a seu serviço. As moças usavam o hábito de Nossa Senhora da Conceição e
adotavam uma vida reclusa, austera, dedicada a preces.
Apesar da proibição de visitas, Francisca e João Fernandes iam ver as filhas quando
desejavam, levando-lhes guloseimas, ou frangos para o caldo das meninas quando elas caíam
doentes — o que ocorreu diversas vezes, algo muito comum entre as internas “pela mental
natureza de que são dotadas” as moças, segundo médico local. Além de erguer uma casa ao lado
do convento, onde se hospedava com Xica quando passavam temporadas mais longas com as
filhas, o contratador financiou a construção de uma nova ala com celas mais cômodas, mirante de
treliças, e edificou uma boa capela. Algumas vezes as filhas padeciam de moléstias graves e eram
levadas para casa, como ocorreu com Rita Quitéria, que apresentava feridas na garganta e no
nariz, que não se curavam.

*
O recolhimento das Macaúbas funcionava irregularmente, uma vez que os conventos estavam
proibidos de se instalar e funcionar na colônia; e, apesar de ser uma casa de prestígio, ali ocorriam
problemas de natureza diversa, mas quase sempre relacionados a sexo. No começo do século 18
dois capelães foram presos pela Inquisição por terem tentado seduzir internas no momento da
confissão, com tocamentos ilícitos e palavras torpes. A devassa realizada em 1741 acusou a madre
superiora de ser omissa para com as enfermas e de não promover a fiscalização noturna das celas,
onde as jovens partilhavam o mesmo leito — o que sugeria relações lesbianas. As confissões sem
existência de confessionário permitiam uma proximidade arriscada entre o confessor e as jovens,
gerando diversas denúncias de abusos cometidos por padres. Em 1763, três moças acusaram o
padre Custódio Bernardo Fernandes de lhes solicitar “abraços e boquinhos, peitos para acariciar e
ligas para guardar de lembrança”, convidando-as para ir furtivamente à noite visitá-lo em sua cela.
Mas nada disso maculou a reputação da casa; apenas quatro anos depois, em 1767, a mais
prestigiosa e rica senhora da região lá matriculava suas filhas: Francisca de Paula, com doze anos
de idade, Rita Quitéria, com dez anos, e Ana Quitéria, com cinco, cada uma acompanhada por
três escravas, e mais um casal para serviços externos. Xica levou para também ser educada nas
Macaúbas, em 1768, a menina Luciana, sua sobrinha, ou talvez criança enjeitada e criada como
filha pelo casal.
Em 1780 já estavam recolhidas ali todas as filhas de Xica da Silva, mas, com a efetiva proibição
de visitas, quase todas voltariam a morar no Tijuco. Sem vocação para a vida religiosa, desistiram
do hábito, retornando depois ao recolhimento apenas em horas de aflição, mesmo casadas.
Apesar de mestiças, eram protegidas pela influência dos pais dentro do recolhimento. O casal
participava ativamente da educação das filhas, ainda que à distância.
Francisca de Paula chegou a tomar o hábito de freira, mas depois o deixou e casou-se com um
português. Não teve filhos. Era proprietária de uma casa no Tijuco.
Rita Quitéria viveu como concubina de um alferes português, casando-se com ele depois de ser
presa por esse crime, e de penar por mais de um ano na cadeia. Teve dois filhos naturais e uma
filha posterior ao casamento. Mantinha, com o marido, um negócio de secos e uma casa no
arraial.
Maria teve uma longa relação com um tenente, mas foi sempre solteira, e gerou uma filha, que
entregou à irmã para criar. Vivia na casa de sua mãe, apesar de ter uma fazenda de gado e cavalos.
Morreu no parto da segunda filha.
Quitéria Rita foi amancebada com o padre Rolim e com ele teve quatro ou cinco filhos. Após a
prisão do padre inconfidente ela voltou para as Macaúbas levando suas filhas.
Mariana, a mais nova, casou-se com um alferes português. Depois da morte de um filho
recém-nascido voltou para as Macaúbas. Deixou um filho e duas filhas.

*
Os filhos homens tiveram sua educação iniciada no Tijuco, quando crianças, recebendo as
primeiras letras em latim e noções cultas. O pai os levou posteriormente para Portugal, onde
receberam educação aprimorada.
João foi nomeado herdeiro de dois terços da fortuna da família, administrando o morgado de
Grijó. Apesar de muito rico, sua origem materna — uma “nódoa tão patente aos olhos de todos”,
ele mesmo escreveu — esteve sempre presente e ele jamais foi aceito na rígida e impermeável
sociedade portuguesa — pelo menos em comparação com a brasileira. Casou-se com uma filha de
lavradores, Ana Maria, natural de Guimarães. A menção a uma “nódoa tão patente” sugere que
ele tinha traços da mãe e da avó.
O segundo filho, Joaquim José, seria coronel de cavalaria em Minas Gerais e morador de Vila
Rica.
Antônio Caetano tornou-se negociante no Reino e trabalhava na administração do morgado.
Mais tarde retornou para o Tijuco, onde recebeu patente de alferes e, em seguida, de capitão de
milícias. Afinal, foi escrivão do Juízo dos Órfãos e Ausentes em Vila do Príncipe.
O mais novo, José Agostinho, educado para a carreira eclesiástica por desejo do pai, não se
ordenou padre e retornou ao Tijuco, tornando-se capitão de milícias; foi também escrivão da
ouvidoria de Vila do Príncipe.

O mais ilustre dos filhos de Xica é Simão Pires Sardinha, o mais velho, nascido de sua união
com o médico Manuel Pires Sardinha — que não assumiu a paternidade, mas lhe concedeu a
alforria na pia batismal. No Tijuco, ainda adolescente, Simão se habilitou à carreira eclesiástica,
tomando as quatro ordens menores em 1768, mas abandonou essa vocação a fim de acompanhar
o padrasto rumo a Portugal, três anos depois. Para obter essas ordens menores, passou no Tijuco
pelo processo de genere, que omitiu a paternidade e o nome do avô materno — provavelmente
para encobrir o concubinato de seus pais e avós.
Concluiu os estudos em Lisboa, graduando-se em artes, e recebeu o cargo de sargento-mor das
ordenanças de Minas Novas, obtendo também tenças como almoxarife do Reino. Tinha posses
desde a morte de seu pai, que lhe deixou em testamento um terço de suas riquezas.
O testemunho de um capitão que conheceu o jovem afirma que, sob a inspiração da mãe e da
avó, era “aplicado e acertado com muito bom procedimento, vivendo sempre com temor de Deus
e bons costumes”. Afirma que Simão era generoso em dar esmolas para a Igreja e em cerimônias
religiosas, “com especial culto e devoção”.216
A fim de se habilitar à maior de todas as honrarias lusitanas, a Ordem de Cristo, em 1779
Simão precisou passar novamente pelo processo de genere, que investigava seus antecedentes no
Brasil e em Portugal. No processo, tratou-se de disfarçar ou apagar a existência de sua mãe parda e
forra, e de sua avó negra e forra, pois a ascendência escrava era um obstáculo quase
intransponível. Para isso, convocou-se o testemunho de pessoas que moravam em Portugal, não
no Tijuco. A rainha dona Maria I217 foi benevolente, abonando a situação de filho ilegítimo e a
ausência de depoimentos realizados no Brasil. Dessa forma, passou-se a levantar testemunhos
“engenhosos” das origens de Simão: vivia na Corte com muito luzimento e era filho de pais
reputados; era filho e neto de pessoas bem reputadas no sangue e nos costumes, que viviam com
distinção e gravidade, sem crimes de infâmia; era filho natural mas fora perfilhado e incluído no
testamento paterno, o que significava reconhecimento; era neto de um capitão de auxiliares, cargo
que indicava nobreza; os ascendentes maternos viveram sempre à luz da nobreza, numa casa rica,
visitada por pessoas as mais consideradas do continente; a casa era visitada por pessoas com
cargos elevados no governo e na Justiça; Simão recebia na Corte uma pensão enviada pela mãe, o
que lhe permitia uma vida opulenta. Nem mesmo os testemunhos de pessoas que tinham estado
no Tijuco mencionaram a condição escrava da mãe e da avó do proponente. O padre Domingos
Caldas Barbosa afirmou não saber se os pais de Simão foram casados, mas ter certeza de que a
mãe, Francisca da Silva, era filha legítima, todos ricos, possuindo grande escravatura e vivendo
em situação elevada. Um antigo fiscal dos diamantes, Francisco Xavier de Oliveira, declarou que
Simão era filho de uma mulher que tivera uma vida de ostentação, proprietária de casa nobre. Em
todos os testemunhos foi encoberta a ligação ilegítima de Francisca da Silva com o contratador,
dando a entender que ela tivera uma relação estável com o médico, pai de Simão.218
Com a reputação de exímio naturalista e conhecedor da mineralogia, em 1784 Simão retornou
ao Brasil na comitiva do novo governador, Luís da Cunha Meneses, a quem admirava
imensamente. Sua mãe ainda estava viva para testemunhar o êxito desse filho. Ele realizou
trabalhos como naturalista e, depois da partida do governador, viveu no Rio de Janeiro. Foi
correspondente no Brasil da Real Academia de Ciências de Lisboa, junto a nomes os mais ilustres
na área científica. Fazia parte da Sociedade Literária, na companhia de intelectuais e literatos,
onde se fomentavam ideais de independência; Simão atuou na Conjuração Mineira de maneira
discreta, sem deixar registros. Sabe-se que Tiradentes o procurou em sua casa no Rio de Janeiro
para lhe encomendar a tradução de um compêndio que reunia as leis das colônias inglesas; e que
foi ele, Simão, quem tratou de avisar ao alferes sobre sua prisão, prestes a ocorrer.
Simão retornou a Portugal em 1789, onde foi inquirido sobre sua participação na
Inconfidência, livrando-se, todavia, de qualquer penalidade. Com pouco mais de cinquenta anos
estava coberto de cargos e glórias no Reino, usando de seu favor junto ao soberano para auxiliar
os irmãos, conseguindo para eles proveitosos cargos administrativos na colônia. O naturalista
desfrutava de grande prestígio junto ao rei dom João VI, regente desde 1799, que o tinha em alta
conta. Assim como a mãe, superou com louvores o sinal infamante de mestiço.

*
Mesmo em Lisboa a mestiçagem era uma realidade, segundo Oliveira Martins em sua História
de Portugal: “As pretas, que são fecundas, inçavam as casas de negrinhos e mulatinhos, vivos como
demônios, chocarreiros e ladinos; quem não gostaria deles? E depois, não eram bem gente; não
havia receio com esses animaizinhos. Por isso tinham todas as intimidades e os mimos das
meninas que, às vezes, apareciam grávidas. O preto, o mulato submisso, escravo mudo, era o
confidente dos amores, por vezes o amante — por desleixo, fraqueza ou requinte sensual dos
temperamentos ardentes.”219 Vemos em fevereiro de 1740 a senhora Ana Gertrudes Bragança,
moradora da Horta da Palmeira, freguesia de São José, concedendo a liberdade ao menino
Joaquim, mulato de dois anos de idade, “ao qual tem muito amor pelo criar na sua cama”.220
Mas, com toda essa convivência “mimosa”, os mulatos sofriam graves impedimentos pessoais
e sociais, como a cláusula de “limpeza de sangue”, que os incluía, junto aos mouros, judeus e
índios, entre as nações “infectas ou reprovadas”. Mesmo após a proibição dessa cláusula, em 1773,
os escravos ou forros e seus descendentes continuavam marcados pelo duplo estigma — o
institucional e por suas características raciais.
Desde o século 15 até a segunda metade do 18, cerca de oitocentos mil africanos foram levados
para Portugal, na condição de escravizados. Em um cálculo aproximado de seus descendentes,
somando tanto escravizados como libertos, estima-se que vários milhões de escravizados ou de
ascendência escrava viveram em Portugal durante o Antigo Regime, com um aumento constante
até as vésperas do fim do tráfico, promovido pelo marquês de Pombal, em 1761.221

Assim, a aplicação ao negro e, sobretudo, ao mulato, da regra de limpeza de sangue, bem


como a sua integração à categoria dos novos cristãos, parece ter-se realizado progressivamente
e nem sempre de maneira coerente e unânime. Enquanto certas ordens religiosas aplicam a
regra aos mulatos já no fim do século XVI, um relatório da Visita da Inquisição de Coimbra,
realizada entre 1618-1620, qualifica várias vezes de Cristãos Velhos vários negros e mulatos.
Nessa época a doutrina, inclusive na Inquisição, não parece ainda totalmente definida. Mas,
um pouco mais tarde, qualquer candidato a uma habilitação como familiar do Santo
Serviço, deve responder às exigências de limpeza de sangue dos seus ancestrais, expressas pela
fórmula canônica: “São e sempre foram considerados, e tidos, como absolutamente puros
Cristãos Velhos e de sangue puro ou de geração sem nenhum vestígio de Judeu, Mouro,
Mulato, Mourisco, infiéis, ou de qualquer outra nação infecta”, ou a sua alternativa “dos
novos convertidos à Nossa Santa Fé Católica”, fórmula que fecha quase totalmente a porta a
um número ainda maior de indivíduos naturais das províncias do Império.222

A mestiçagem, vista como anomalia, causou a instituição de uma regra de evitamento. Essa
regra não era constituída por lei, mas afetava a participação de mulatos em instituições como
corporações de ofícios, casas de misericórdia, ordens religiosas, benefícios eclesiásticos, governos
municipais, confrarias brancas e as instituições de morgadios. Apesar do evitamento, vemos os
“casos de vinte e sete homens agraciados com o título de Cavaleiro das Ordens Militares
Portuguesas do Cristo, Santiago e de Avis, do início do século 17 até 1731, nos quais testemunhas
da investigação sobre antecedentes haviam atestado que os pais ou avós desses homens haviam
sido descritos como ‘mulatos’ e/ou descendentes de escravos africanos. Quase todos os casos
envolviam pessoas que viviam em Portugal. Com apenas uma exceção, a dispensa exigida foi por
‘falta de qualidade’ e não por ‘pureza de sangue’. Mais de 80% dessas pessoas receberam
dispensas por serem ‘mulatos’, e se tornaram membros da Ordem de Cristo (a maioria) ou da
Ordem de Santiago”.223
Em 1773, uma lei do ventre livre concedeu liberdade aos escravizados de quarta geração,
provocando um “declínio progressivo do número de escravos, assim como das categorias sociais
geradas pelo sistema: negros e mulatos, libertos ou livres”.224 Apesar de minoria marginalizada, a
população mulata teve uma presença significativa na metrópole. Mesmo com a regra de
evitamento, João seria instituído administrador do morgado de Grijó, como veremos adiante.

A situação dos outros filhos homens de Francisca da Silva, que voltaram a viver nas Minas, era
bem mais assimilada por aquela sociedade composta de maioria mestiça. “O filho do europeu
com africana nascia um ‘europeu’ na língua, nos costumes, na religião, na mentalidade, apagando-
se na primeira geração os traços intelectuais da raça de Cam, que só perdurava no tipo
antropológico de transição”.225 Pardos bem nutridos, preparados, com dotes intelectuais e físicos,
e apoio da família, influíam na sociedade mineira por meio de seus cargos na administração e nas
câmaras, escandalizando reinóis recentemente chegados — que mais tarde iriam apoiar seus
próprios filhos mulatos. Mulatos eram vereadores, padres, magistrados, funcionários, militares de
patente, senhores de engenhos e de serviços de mineração, até juízes.
Uma representação do Conselho Ultramarino tentou conciliar as reclamações de brancos
contra mulatos e a situação estabelecida nas Minas. Inicialmente, o Conselho ponderou que as
famílias “de limpo nascimento” eram por justiça dignas dos cargos de vereadores e de
governantes, sendo “indecoroso” que esses cargos fossem ocupados por mulatos. Mas, adiante,
aceita a ocasião em que, na falta de algum ouvidor ou juiz ordinário, “se vejam ocupar aqueles
lugares por pessoas notoriamente defeituosas e maculadas”, apesar do risco de não serem
obedecidas suas ordens, o que poderia causar desordens entre o povo e perturbação na “boa
administração da Justiça”.226
Fato é que os filhos homens de Francisca da Silva e João Fernandes de Oliveira exerceram
cargos administrativos ou militares, dos mais disputados e bem pagos, conseguidos por meio da
extensa teia de relacionamentos pessoais da família.
Aplacando a cólera divina

Vida religiosa, caridade, 1758

HAVIA POUCOS PADRES no Distrito Diamantino e muitos deles eram mais mundanos do que
religiosos. Em junho de 1716, o governador dom Braz Balthazar da Silveira escrevia ao rei que “a
maior parte deles tem vida tão licenciosa como pela criação do Brasil sendo o mau exemplo destes
a maior causa de viverem os homens nestas Minas sem temor de Deus”.227
A Coroa portuguesa, apesar de sua reconhecida submissão à Igreja católica, recusou-se,
durante todo o século 18, a permitir o estabelecimento de ordens clericais nas Minas, banindo as
que ali existiam. Padres, capelães, párocos, vigários, todos vinham de fora. Clérigos podiam
entrar em peregrinação para coleta de donativos destinados a suas ordens, mas sob licença régia.
Frades de diversas ordens e conventos do Brasil, Portugal e até da Itália viviam pelas lavras a
esmolar ou nas vilas a especular negócios de toda espécie. Os estabelecidos cobravam preços
extorsivos dos paroquianos; uma tabela estipulava uma oitava de ouro por cada pessoa que
comungasse, dezesseis oitavas por cada missa cantada, quatro para um funeral, três para a leitura
de proclamas de casamento, uma para batismo, e vinte oitavas por um sermão.228 O bispo
nomeado para a Sé de Mariana, conforme relatório anônimo da década de 1750, recebia como
espórtula de batizados ou crismas valores que chegavam a dois mil cruzados anuais, em cera e
ouro, revendidos por bom preço. Crimes e pecados eram tolerados se permanecessem ocultos,
desde que “as oferendas à Igreja, aos santos e os donativos às irmandades aplacassem a cólera
divina”.229 Não raro, bentinhos e escapulários sobressaíam no peito de uma concubina ou de um
contrabandista, concedidos pelo padre em troca de um donativo.
Padres emigrados não se contentavam com os benefícios eclesiásticos, e nem todos viviam
deles. Alguns, formados em direito canônico, ou mesmo sem jamais terem pisado as salas da
universidade de Coimbra,230 atuavam como advogados no foro eclesiástico cuidando de
testamentos e inventários ou de questões administrativas religiosas. O padre José Correia da
Silva, que era advogado em Sabará, teve seus bens sequestrados por condenação de infidelidade
contra o rei, quando revelou-se a sua riqueza: grande quantidade de objetos em prata e ouro,
cerca de cinquenta arrobas em baixela, pequenos objetos, arreatas, candeeiros, vasos, tabaquetas,
além de trezentas peças de louça da Índia, oito camas de jacarandá com dossel e cabeceira
esculpida, quarenta cadeiras e tamboretes forrados de damasco, arcas de aroeira, oratórios de
cedro com imagens em marfim e pedras preciosas, entre diversos bens.
Outros padres se dedicavam à medicina e ao comércio de medicamentos nas chamadas
boticas. Alguns eram proprietários de fazendas de gado, engenhos de açúcar ou serviços de
mineração. Uns cometiam abusos de toda natureza, como extorsões e violência, ou provocavam
distúrbios. Chantageavam os que pecavam — vivendo com uma negra ou comendo carne na
Quaresma —, obrigando-os a pagar grosso cabedal em oitavas de ouro. Visitadores gananciosos e
turbulentos faziam periódicas incursões para se “desmandarem de modo lamentável”.231 O
cônego Antônio da Silva Prado “esquentava os ânimos das ovelhas do Serro do Frio, com as mais
inomináveis extorsões e ladroeiras”, declarando, diante de pessoas importantes — como um
capitão-mor e um mestre de campo —, que distribuíra ao cabido do Rio de Janeiro setecentas
oitavas de ouro para que o nomeasse visitador, e que havia de reavê-las com lucros. Um inquérito
posterior revela que esse cônego saqueou os fiéis do Serro, com clamorosas injustiças e pretextos
levianos. A legislação da época contém numerosos decretos que tentam reprimir uma atitude
nada edificante por parte de muitos desses padres.

A Coroa, que tinha subestabelecido o recolhimento dos dízimos de Minas Gerais, desde 1714,
agora recebia muito mais do que essa soma [vinte e um mil cruzados anuais], porém gastava
a maior parte do dinheiro em outras coisas. Argumentou-se que a maior parte das queixas
sobre a capacidade do clero de Minas Gerais, continuada através do período colonial, não
teria existido se a Coroa houvesse destinado estipêndios especiais para os sacerdotes, retirando-
os das somas substanciais que recebia, provenientes dos dízimos. Seja como for, permanece o
fato de que, apesar da avidez e relaxamento da maioria do clero da capitania, Minas Gerais
é, até hoje, a região mais católica do Brasil.232

Foram notados diversos homens do clero respeitáveis, como o primeiro bispo de Mariana,
fundador, em 1749, de um seminário com cadeiras de latim, teologia, moral e filosofia, que
funcionou com regularidade mesmo sem o apoio do governador e da Coroa. Ou o vigário de
Ribeirão do Carmo (depois Mariana) que, em 1726, foi violentamente expulso por seus
paroquianos após denunciar casos de devassidão sexual. Muitos padres passavam por serviços de
mineração difundindo a fé cristã, pregando a doutrina nos locais mais remotos, cristianizando e
dando alívio a escravos nas fazendas ou introduzindo o gosto pelas artes, pelo ornamento nas
igrejas, importando imagens de santos ou telas de grandes artistas europeus, de certa forma
civilizando “populações barbarizadas pelo deserto e pela cupidez do ouro”.233 Alguns padres nas
Minas foram mestres das primeiras letras e da gramática de filhos de gente abastada, preparando-
os para os colégios jesuíticos no Rio de Janeiro ou na Bahia, de onde seguiam para Coimbra.
Muitos, também, junto a frades capuchinhos italianos, foram professores de música, mestres de
música ou compositores.
Os sacerdotes exerciam uma forte autoridade sobre a vida e a alma dos seus paroquianos.
Como era obrigatória a presença nas missas de domingo, mesmo para os escravos, o padre fazia a
chamada dos nomes dos fiéis que constavam numa lista, fiscalizando inclusive a sua pontualidade,
a desobriga anual da confissão e comunhão pela Páscoa, entre outros deveres cristãos. Os faltosos
eram convocados a se justificar e punidos. Esse domínio não se dava apenas pela promessa do
inferno aos pecadores, mas também pelo controle de aspectos do cotidiano dos cristãos, como o
fato de registros de batizados, casamentos e mortes serem lançados pelos sacerdotes. Nem se
pensava na possibilidade de alguém viver sem ter sido batizado. E os fiéis eram ameaçados de
“morrer como cachorro” se não tivessem a bênção da extrema-unção e o enterro no recinto da
igreja — iriam penar no inferno se fossem atirados “num buraco qualquer”, como hereges,
mouros ou judeus.
A criação, em dezembro de 1745, do bispado de Mariana promoveu a autonomia religiosa nas
Minas e o desenvolvimento de uma nova moralidade nos assuntos espirituais. Floresceram as
ordens terceiras, que construíam belas igrejas em Minas; estabeleceu-se o culto do Coração de
Jesus e o de Nossa Senhora das Dores e dos Calvários, com as procissões de Corpus Christi. A
fundação de um seminário proporcionou melhor instrução aos jovens da capitania, formando um
clero local; também houve melhorias na ação apostólica. A população peregrinava nas procissões,
festejava as datas religiosas, tomava parte nas rezas coletivas do Ofício de Nossa Senhora diante
de oratórios alumiados a azeite que ficavam nas esquinas das vilas; acordava com os sinos e
recitava antes de surgir o Sol as velhas jaculatórias; caminhava pelas ladeiras e ruas envoltas em
neblina até as igrejas escuras, para assistir à missa da madrugada.

A intensa vida religiosa dos moradores do Tijuco ficava mais a cargo das irmandades, que
proliferavam. No arraial existiam a do Senhor dos Passos, da Senhora do Terço, das Almas, do
Santíssimo Sacramento, compostas de pessoas brancas; e as de Nossa Senhora do Rosário, de
Santa Ifigênia e a de São Benedito, reservadas aos negros, para citar algumas mais distintas. Eram
confrarias organizadas por laicos, que se encarregavam da construção de igrejas, capelas,
santuários, das festas religiosas, da devoção aos santos, entre outras missões. Tratavam da vida
religiosa dos habitantes do arraial desde o batismo até a extrema-unção, e administravam as
igrejas, permitindo ou não o enterro em recinto sagrado e trajando o morto com o hábito que o
levaria ao céu. Instaladas mediante licença dos reis portugueses, as irmandades recebiam a
determinação de que a elas só se integrassem “pessoas honradas e de aprovados costumes”. Seus
membros não podiam nem mesmo acompanhar o enterro dos “infames” que mantinham pardas e
filhos naturais.
As irmandades refletiam as desigualdades sociais e a segregação racial. Também expressavam
a mobilidade social que havia naquela colônia, aceitando afinal a participação de forros ricos nas
irmandades brancas, e de brancos pobres nas irmandades de negros. Nasciam sob a invocação a
algum santo, que recebia altar no recinto da igreja.
Apesar da sua condição de concubina, Xica da Silva e toda sua família fizeram parte das
principais irmandades do Tijuco, ocupando cargos importantes naquela hierarquia. A maior parte
de sua adesão às irmandades e a suas mesas diretoras foi feita depois da ida de João Fernandes
para Portugal, talvez como uma forma de manter seu prestígio, e de contato com os moradores do
arraial.
Os livros da igreja de Santo Antônio, matriz do Tijuco, registram contribuições de Xica da
Silva para o enterro de muitos de seus escravos ou dos escravos de suas filhas. Contribuições para
as próprias irmandades estão anotadas em suas fabriqueiras. Xica contribuiu, até perto de sua
morte, para a causa da irmandade da Terra Santa, ou Bula da Santa Cruzada, que pregava a
libertação dos “lugares santos da Palestina das garras dos infiéis”. Patrocinava, com outras forras,
a irmandade negra de Nossa Senhora do Rosário, em que essas mulheres exerciam cargos de
direção. A família Fernandes de Oliveira praticamente dominava a irmandade das Mercês.
Em 1758 o contratador João Fernandes custeou a construção de uma igreja para a irmandade
do Carmo, a mais distinta e exclusiva, consagrada a são Francisco de Paula, santo da devoção de
seus pais e que também fazia menção ao nome de sua mulher. Diferente das demais igrejas do
Tijuco, a do Carmo possuía a torre na parte posterior e reza a lenda que foi um capricho de Xica
da Silva, para que o sino tocasse mais distante de sua casa e não a incomodasse. Repleta de
trabalhos de dourados, pinturas e altares guarnecidos, ali ficavam as imagens de são Francisco de
Paula, Nossa Senhora do Carmo e a do Sagrado Coração de Jesus. Mais tarde foram transladadas
para lá imagens de santo Elias, santa Teresa, do Senhor Morto e Senhora da Soledade, esculpidas
em Portugal. Como retribuição, foi concedido ao contratador o mais importante cargo na
irmandade, o de primeiro prior, e muitos anos depois de sua morte ainda se celebravam ali missas
para sua alma.
Mulheres como Francisca da Silva iam à missa com frequência; davam esmolas para obras pias
e para o culto divino; participavam das festas religiosas, dedicando grande parte de sua vida a
funções cristãs. A seus filhos orientavam para que assistissem às missas, participassem das
irmandades e ajudassem nas celebrações, aceitassem ser padrinhos de crianças, em especial as
nascidas de escravos, e fossem caridosos, concedendo esmolas.
A caridade para com os pobres era uma forma de participar do mundo “generoso” dos
brancos. Feita de forma pública, para que servisse de exemplo, promovia o engrandecimento e a
fama de liberalidade dos caridosos, sendo também uma das formas de ostentação de riqueza.
Havia em Xica da Silva, decerto, o sentimento verdadeiro de compaixão pelos pobres, pois ela
mesma fora pobre. Por outro lado, ela recebia os benefícios que a “virtude dos grandes” lhe
granjeava, criando também laços de gratidão e sujeição por parte dos beneficiados. O casal
pagava tratamentos médicos para escravos, que ia visitar no hospital, demonstrando
publicamente seu ato caridoso; criava ou batizava crianças enjeitadas ou órfãs; arranjava
ocupações remuneradas para gente da família ou não; doava bens a irmandades; pagava enterros
de mendigos, de cativos em geral, e transmitia aos filhos o mesmo comportamento. Dos filhos de
dona Francisca, quando crianças, dizia o padre Aldonço que tinham comportamento adequado,
fruto da boa educação dada pela mãe, “com recato e singular doutrina”.
5
O reino vencedor
Cobertos de diamantes raros

O pai em Portugal; maldades pombalinas

EM LISBOA, O SARGENTO-MOR leva uma vida de gastos excessivos. Só com os jardins e pomares
da nova casa, junto à cruz da rua de Buenos Aires, emprega dúzias de escravos sob as ordens do
jardineiro do rei, para cuidarem de plantas indígenas, com fruteiras e perfumadas árvores de flores, num
arremedo dos palácios reais onde vicejam, com grandes custos, plantas brasileiras entre viveiros de
pássaros maravilhosamente coloridos, levados da colônia. O sargento-mor mandou cavar um
dispendioso túnel de centenas de metros, que traz água não apenas para a casa, mas para aguar os
amplos jardins, quando só possuem esses túneis a família real e o ministro Carvalho e Melo.
O casal paga regiamente criados-graves, mordomos, boleeiros, cocheiros, tendo a serviço da casa um
grande número de escravos levados das Minas. O pai e a madrasta circulam nas ruas em carruagens
suntuosas, ela portando diamantes raros e preciosas peças de adorno; enchem os aposentos de enfeites de
ouro e prata, dos mais refinados móveis e tapeçarias, alfaias preciosas, baixelas, cristais e porcelanas
importados.
No Brasil, João Fernandes também leva uma vida de pompas e os negócios progridem na mesma
medida da ostentação de riqueza, fruto de aspérrimos desterros, copiosos suores e incessantes fadigas. Mas
os valores que ele envia para Lisboa são devastados com os luxos paternos, também com empréstimos e
doações a homens de poder.
Toma da pena e tinteiro, escreve seu relatório:
Não se pode duvidar, porque consta dos livros das entradas assim da Casa do Contrato, como dos
administradores, que os serviços do Jequitinhonha foram utilíssimos, ricos e de considerável interesse para
o atual contrato, que presentemente se acha com grande lucro, segundo o cálculo das despesas e dos
diamantes que se acham extraídos e remetidos aos caixas da cidade de Lisboa...
Não menciona o que já observa e prevê: os diamantes estão a cada dia mais raros e difíceis de
extrair.

*
O sargento-mor João Fernandes de Oliveira estava em Lisboa quando ocorreu um atentado
contra o rei de Portugal, cujas consequências seriam marcantes nos sentimentos da população e
nos rumos da política. Em setembro de 1758, dom José I regressava ao Paço, pelas onze horas da
noite, após uma visita a sua amante, esposa do marquês Luís Bernardo de Távora. Para não ser
descoberto em sua escapada noturna, ia na sege de um valido e não na sege real. Passava por um
caminho deserto da Ajuda quando foi alvejado por um tiro que o atingiu no braço e,
superficialmente, no peito.
O rei se resguardou em seus aposentos, mantendo-se afastado da Corte por vários meses, após
fazer circular a notícia de que havia caído de uma escada. Durante sua recuperação, a rainha dona
Mariana Vitória assumiu a regência, mantendo silêncio sobre o incidente, enquanto o ministro
Carvalho e alguns homens de sua confiança preparavam uma investida.
Ao amanhecer de 13 de dezembro, tropas cercaram as casas dos duques de Aveiro, dos
marqueses de Távora, seu filho e nora, dos marqueses de Alorna, dos condes de Atouguia, dos
condes de Óbidos, dos condes da Ribeira Grande e mais alguns fidalgos, assim como a residência
do desembargador Antônio da Costa Freire. O duque de Aveiro, dom José Mascarenhas, que
presidia o Supremo Tribunal, era o nobre mais poderoso de Portugal na época, depois da própria
família real. O general e marquês de Távora comandava a cavalaria, após ter servido como vice-
rei na Índia. O conde de Atouguia dirigia a guarda do Paço. Também foram sitiadas todas as casas
que os jesuítas mantinham no Reino. Nesse mesmo dia tornou-se conhecido o atentado contra o
rei, com a publicação de dois decretos que estabeleciam prêmios para os que fizessem denúncias e
penas para os que, conhecendo os criminosos, não os delatassem. Prenderam os fidalgos suspeitos,
com muitos de seus criados; as fidalgas foram transportadas com os filhos pequenos para
conventos. Em menos de um mês já passavam de mil os prisioneiros à sombra do atentado ao rei.
Tornara-se um fato político.
Dom José I nomeou uma comissão para investigar o episódio, presidida pelo ministro
Carvalho e Melo e por mais dois secretários de Estado, concedendo-lhes poderes para revogar
qualquer proteção à nobreza prevista no código português. Realizaram-se numerosos
interrogatórios na presença do ministro. Em janeiro foi composta uma corte suprema para julgar
os envolvidos na inconfidência, presidida por Carvalho. Acusados de crimes de lesa-majestade,
traição e rebelião contra o rei e o Estado, os réus foram considerados culpados e receberam penas
severas. O duque de Aveiro teria os braços e as pernas esmagados, seria exposto publicamente
numa roda e depois queimado vivo; suas cinzas seriam jogadas ao mar. O marquês de Távora
recebeu a mesma sentença. A velha marquesa de Távora seria decapitada. Os outros membros da
família teriam pernas e braços quebrados, mas antes, por piedade, seriam estrangulados. A
sentença foi cumprida no dia seguinte, em Belém. Ao contrário de seus parentes, a jovem
marquesa de Távora, amante do rei, recebeu uma pena leve, sendo confinada num convento.
As dúvidas acerca da tentativa de regicídio prosseguiram por muito tempo após o ocorrido,
com versões bem diferentes da adotada pelo tribunal. Em O panorama, de 1839, o escritor
português Alexandre Herculano levanta uma questão: que vantagem teriam os aristocratas para
arriscar um regicídio quando poderiam obter melhores benefícios assassinando seu verdadeiro
inimigo, o ministro Carvalho e Melo? A sege que levava o rei no momento do atentado pertencia
ao valido Pedro Teixeira, que teria cometido pouco antes uma injúria contra o orgulhoso duque
de Aveiro. Herculano levanta a hipótese de que os tiros disparados contra a sege eram dirigidos ao
valido, o que se comprovaria pelo fato de que os atiradores fugiram, em vez de completarem o
assassinato, ao ouvirem os gritos do cocheiro de que naquela sege ia o rei.
De toda forma, a ideia do tiro partiu do duque de Aveiro, que chamou alguns de seus criados
para cometerem o atentado, e que confessou o crime sob o horror das torturas, limitando-se a
assinar documentos que lhe eram apresentados. Esses papéis afirmavam que a ideia de matar o rei
tinha sido sugerida por jesuítas; que os conspiradores se reuniam na casa do marquês de Távora,
com o envolvimento de diversas pessoas, sob a guarda da velha marquesa de Távora; que, para
pagar os criados pelo crime e fornecer-lhes os cavalos e as pistolas, diversos nobres participaram
de uma coleta de dinheiro levantando o valor — extremamente baixo para qualquer um dos
nobres denunciados — de quarenta moedas. Outros suspeitos assinaram confissões com a mesma
versão, mediante suplícios; ou mediante subornos, como foi o caso de um sapateiro que depôs
como testemunha, recebendo em seguida a recompensa do hábito de Cristo.
Os condenados eram alguns dos mais incômodos adversários do ministro Carvalho, que teria
usado o atentado para esmagar a aristocracia opositora de sua política e neutralizar o poder dos
jesuítas — o que terminaria com a extinção da Companhia de Jesus —, para atingir os pequenos
comerciantes que ele acreditava conspirarem com os jesuítas contra seus planos; e para consolidar
sua posição. Carvalho e Melo investia contra a nobreza, mas também contra o clero, em especial
os jesuítas, dentre os quais foram realizadas numerosas prisões, como a do padre Gabriel
Malagrida, entre outros, julgados “sócios e fautores” do caso. Tornou-se lendário o suplício de
Malagrida, que indignou gente em toda a Europa, como Voltaire, que expôs os portugueses ao
escárnio, afirmando ter sido essa execução “o excesso de ridículo unido ao excesso de horror”.
Malagrida foi morto pelo garrote e pela fogueira, sob a acusação de haver publicado um panfleto
sobre o terremoto de Lisboa atribuindo a catástrofe à ira divina, pois Portugal teria abandonado a
verdadeira religião.
As execuções tiveram lugar num cadafalso levantado na praça de Belém, com a orientação de
se dar a mais dolorosa morte aos condenados — acima de todos, ao marquês de Távora e ao
duque de Aveiro. O escritor Camilo Castelo Branco descreveu a execução de dona Leonor de
Távora, uma das senhoras mais inteligentes e refinadas de Portugal:

Havia uma escada que subia para o patíbulo. A marquesa apeou-se da cadeirinha,
dispensando o amparo dos padres. Ajoelhou no primeiro degrau da escada, e confessou-se por
espaço de 50 minutos. Entretanto martelava-se no cadafalso. Aperfeiçoavam-se as aspas,
cravavam-se pregos necessários à segurança dos postes, aparafusavam-se as roscas das rodas.
Recebida a absolvição, a padecente subiu, entre os dois padres, a escada, na sua natural
atitude altiva, direita com os olhos fitos no espetáculo dos tormentos. Trajava de cetim
escuro, fitas nas madeixas grisalhas, diamantes nas orelhas e num laço dos cabelos, envolta em
uma capa alvadia roçagante. Assim tinha sido presa, um mês antes. Nunca lhe tinham
consentido que mudasse camisa nem o lenço do pescoço. Receberam-na três algozes no topo
da escada, e mandaram-na fazer um giro no cadafalso para ser bem vista e reconhecida.
Depois, mostraram-lhe um a um os instrumentos das execuções, e explicaram-lhe por miúdo
como haviam de morrer seu marido, seus filhos e o marido de sua filha. Mostraram-lhe o
maço de ferro que devia matar-lhe o marido a pancadas na arca do peito, as tesouras ou
aspas em que se lhe haviam de quebrar os ossos das pernas e dos braços ao marido e aos filhos,
e explicaram-lhe como era que as rodas operavam no garrote, cuja corda lhe mostravam, e o
modo como ela repuxava e estrangulava ao desandar do arrocho. A marquesa então
sucumbiu, chorou muito ansiada, e pediu que a matassem depressa. O algoz tirou-lhe a capa
e mandou-a sentar num banco de pinho, no centro do cadafalso, sobre a capa que dobrou
devagar, horrendamente devagar. Ela sentou-se. Tinha as mãos amarradas, e não podia
compor o vestido que caíra mal. Ergueu-se, e com um movimento do pé consertou a orla da
saia. O algoz vendou-a; e ao pôr-lhe a mão no lenço que lhe cobria o pescoço — não me
descomponhas —, disse ela, e inclinou a cabeça que lhe foi decepada pela nuca, de um só
golpe.234

Após esse episódio de eficaz eliminação dos adversários, o ministro recebeu como recompensa
régia o seu primeiro título de nobreza: conde de Oeiras. Compraria, em 1770, o de marquês de
Pombal. Procedeu-se ao confisco dos bens de todos os condenados e posteriormente ao dos
“incomensuráveis tesouros” da Companhia de Jesus. O duque de Aveiro possuía uma das maiores
fortunas em todo o Reino e “parece fora de dúvidas que na perseguição que se lhe moveu entrou o
‘sorriso satânico do fator econômico’”.235
Grande parte da nobreza, clero e burocracia portugueses temia o ministro, incensando-o com
baixa e servil adulação. Em 1765 o memorialista Giuseppe Gorani conta uma cena que
testemunhou, quando o conde de Oeiras se restabelecia de uma moléstia grave: “No primeiro dia
em que o ministro convalescente, ajudado pelos criados se sentou num sofá da sala vieram logo
rodeá-lo todos os grandes senhores do reino, eclesiásticos, seculares, chefes de todos os conselhos,
que se prostraram na sua frente, esmagando-se uns de encontro aos outros em manifestações
exageradas, para lhe testemunharem regozijo pela cura.” Supomos que, entre os visitantes do
enfermo, estavam o sargento-mor João Fernandes e sua esposa, dona Isabel. Eliminada parte da
aristocracia de casta, e a outra parte amedrontada, imperava a aristocracia do dinheiro — da qual
fazia parte com destaque a família Fernandes de Oliveira.
O fortalecimento do ministro Carvalho era extremamente favorável aos negócios dos
Fernandes de Oliveira, ou pelo menos aparentava ser, para a manutenção do monopólio da
extração de diamantes no Distrito Diamantino. Mas Carvalho não punha dívidas ou gratidão
acima de seu ambicioso projeto de poder. Gorani, que privava da intimidade do conde de Oeiras,
faz um perfil do temperamento do amigo.
[...] odiado pelas suas perfídias, era, ao mesmo tempo, admirável presença de espírito, que
não o abandonava nunca, por uma atividade extraordinária, pela mais rara das perspicácias
e pela maior das firmezas no perigo. São estas qualidades que o elevaram, e sustentaram a sua
reputação, apesar dos seus inúmeros defeitos, apesar da sua cupidez pelas riquezas e apesar do
seu indigno e implacável caráter, que inundava Portugal do sangue mais inocente, para
saciar as suas vinganças.236

O poderio iluminista do ministro conde de Oeiras e marquês de Pombal duraria até fevereiro
de 1777, com a morte de dom José I e a ascensão ao trono de sua primeira filha, dona Maria I, a
Piedosa, ou a Louca.
Empório do mundo

Notícia da morte do pai, 1770

A VIDA DE JOÃO FERNANDES ao lado de Xica é prazerosa, com a alegria de crianças a saltitar nos
jardins, a crescer refinadas; muitas festas, bailes, saraus, as divertidas comédias e as óperas que ele tanto
aprecia; escravos e belas escravas servindo-os em todas as suas minuciosas vontades; amigos, alguns
verdadeiros, outros interesseiros e falsos, mas quase todos subjugados por seu poder; a lealdade de alguns
que o cercam; e as burras transbordando de dinheiro. Mas a distância das paisagens é uma ameaça; o
mundo é grande e misterioso, muito além dos olhos, da imaginação, e nos momentos de silêncio flui um
vazio inexplicável.
Num desses entardeceres melancólicos, João Fernandes revela à mulher sua insatisfação com o pai.
Em Portugal o sargento-mor esvazia os cofres do contrato para manter uma vida com altos luxos,
dominado por uma esposa ambiciosa, acredita. João Fernandes precisa ir a Lisboa, e já conseguiu a
nomeação de Caetano José de Sousa para administrar o contrato em sua ausência. Mas há dois anos a
licença da administração do contrato foi concedida a Caetano. O contratador planejava de muito sua
viagem, sem nada revelar a sua mulher. Tem sentimentos na consciência, por não levá-la, e no coração,
por deixá-la.

Quando João Fernandes chegou a Lisboa, aos treze anos de idade, viveu interno no seminário de
São Patrício. Preso, dedicado aos estudos severos a que o obrigavam os jesuítas, mal conheceu a cidade.
Aprimorava sua vida espiritual, meditando e contemplando, e muito jovem quis servir a Deus, no
estado clerical. Logo se foi para Coimbra estudar cânones. Voltou a Lisboa já homem, depois de
aprovado nos exames, para receber a sagração de cavaleiro da Ordem de Cristo, na igreja da Nossa
Senhora da Conceição. Quando seu pai retornou a Lisboa, em 1751, ele foi residir com a família junto
à Horta Seca. Morou ali até quando o pai o mandou de volta ao Brasil. Nesses últimos anos, de 1748 a
1753, pôde conhecer melhor a cidade de Lisboa.
Estava entre as metrópoles que mais se avantajavam em magnificência, tanto no que respeitava ao
número de habitantes como pela grandeza dos edifícios. Ponto de partida e de chegada de esquadras do
Oriente, do Mediterrâneo, Lisboa tornara-se um empório do mundo.
Naus vindas de remotos países, frotas de mais de cem barcos, centenas de pequenas embarcações de
pescadores e comércio, entravam e saíam do Tejo, com suas velas, bandeiras e fitas, remos, marujos a
gritar. Naus que eram vinte, trinta vezes maiores do que aquela que flutua na chácara da Palha.
Saltavam no cais de pedra estrangeiros de Gênova, Biscaia, da Catalunha, Bretanha, de lugares cujos
nomes alguém jamais ouvira falar. E descarregavam toda espécie de preciosidade do Oriente, especiarias
finíssimas, como canela, pimenta, açúcar, incensos perfumados e tecidos de toda qualidade, desde
escarlatas inglesas até as baetas dos pobres, e cintos, cordões, móveis, cerâmicas, talhas, charões, num
caudal que parecia inesgotável. E levavam o que se fabricava em Portugal: vinhos, azeite, frutas secas,
cera, mel, peixe salgado, sal e tantas mais mercadorias.
Cada praça era quase do tamanho de todo o Tijuco; nada daqueles terreiros acanhados que não
passavam de esquinas. O animado Rocio possuía muito comércio em lojas, quitandas numerosas,
tabernas, feiras e mercado. Lá ficava a igreja do convento de São Domingos, com sua pequena ermida
de Nossa Senhora da Corredoura, e o Hospital Real de Todos os Santos, também com sua igreja.
Passavam carruagens, nobres, gente do povo, e de lá se podia avistar a cidade que se estendia acima, até
o castelo de São Jorge.
O magnífico terreiro do Paço abria a cidade para quem chegasse pelo rio. Lá ficavam a casa onde
moravam os reis, casas que tratavam de comércio, a Casa da Índia e a Armaria. Na sua traseira
estavam as terecenas, onde se construíam naus. O jovem João Fernandes passeava nas ruas a olhar os
suntuosos palácios e as casas nobres que repontavam por todo lado. Ia à Ribeira Velha, a ver o mercado
de peixe, a tomar vinhos de muito sabor, nas tabernas. E olhava o povo nas ruas, em seu lavor e em
cavaqueiras de prazer.
Passavam nas ruas as meias vermelhas e chapéus de cardeais, os fidalgos, damas, a gente rica, entre
mendigos, cães, negros, cegos de sanfona, frades pedintes, mulatas marisqueiras, beatas com rosários de
contas grossas e rengos brancos; gente praguejava, pedia esmola, comia melancia, subia nos estribos dos
coches, vendia cordeirinhos pascais de barro do Estremoz, cantando ladainhas. O jovem foi ao palácio
dos duques de Aveiro, ao paço dos duques de Bragança nas encostas do monte Fragoso. Conhecia as
casas religiosas, os hospícios e mosteiros, verdadeiros palácios se comparados com as modestas igrejas do
Tijuco ou com a singeleza rude das Macaúbas.
Ia com fidalgos e homens bons correr os pátios de comédias, enchendo as arenas das Arcas e da
Betesga. Ia debaixo das rótulas ouvir alguma cómica a cantar, à viola, canções em italiano. Ou olhar
mulheres-damas que vagavam nos arcos do Rocio. Ia bailar com as francesas no corro dos Condes,
escutar óperas na Trindade, ver bailarem os bonecos ao pátio da Mouraria, ou as óperas de bonifrates,
ouvir espanholas a cantar no Paço, diante de el-rei. Ia ao teatro no nobre pátio das Arcas, assistir a Don
Gil de las calzas verdes.
Havia em Lisboa bancas de jogos em casas, onde se encontrava o demi-monde, entre mulheres-
damas, cônegos e monsenhores; de lá os homens saíam cheios de dívidas; uns iam direto para as celas na
torre de Belém, outros desfilavam em coche dourado com alguma célebre mulher pública. Vendiam-se
coleções de livros galantes e caixas de rapé pintadas com imagens de mulheres nuas. Uns tinham em casa
duas amantes que lhes roubavam os amigos à mesa do whist.
João Fernandes lembra dos serões nas casas de famílias abastadas: saíam das arcas de prata todas as
serpentinas de quatro e de seis lumes, chamavam-se músicos para tocar espineta e rabeca, armavam-se
bufetes de doces. Meninas se levantavam de seus estrados mouriscos, encandeadas das luzes e polvilhadas
como para o serenim do Paço; ele beijava suas mãos fazendo as cortesias, como ensinavam os mestres
franceses de dança. Negrinhos pinchavam pela sala e os velhos atiravam os dados do gamão. E
jogavam-se prendas, mercê das liberdades proibidas, ou se faziam as adivinhações espanholas. Aqueles
fidalgos desconheciam, quase sempre, os mais nobres prazeres do espírito, não sabiam conversar, nem
mesmo divertir-se, a maioria recebera uma educação de cavalariça e de oratório. As fidalgas, pingadas
de diamantes, com o abanico de seda na mão, assentavam-se, com os negrinhos aos pés a lhes comporem
as saias. Fidalgos as cortejavam, balançavam os cachos empoados da cabeleira, tiravam o lenço do
punho dourado do quitó e cavalgavam em tamboretes, fazendo par adiante do sofá das franças.
Nos dias da semana o jovem senhor abria despachos em casa, dava ordens aos criados, lia o
Mercúrio português, afagava os cães, trocava notícias da Corte e mexericos dos pátios nobres, das ruas,
dos mosteiros; havia aulas de lição de espada. Ficava atento às mocinhas que iam passear de coche,
beijar a mão da rainha, que rodeavam o cravo e rompiam as adivinhas castelhanas de alguma soror ou
penteavam seus macaquinhos de regaço. Mas nenhuma delas lhe despertava o mesmo desejo que sentia
pelas negras.
Admirável a indiferença e a naturalidade com que pessoas de bom senso suportavam as
extravagâncias e ridículos do amor em Lisboa. Havia na cidade um tipo chamado “turina”, um faceira
que andava pelas ruas arrepiado, pintado e polvilhado, com uma cabeleira de cachos, falando francês,
vestindo à francesa e namorando em francês. Vivia espevitando as janelas das mulheres, um namorador
fatal. Cheio de trejeitos, boquinha de barro, cheirando a água de rosas que bochechava, dentes tocados
com verniz, quitó dourado entre as pernas, mangas armadas com arame, bamboleava pela rua Nova e
pela Calceteria, um parvenu. Havia muitos namoradores em Lisboa, namoravam nos serões e na rua,
nos conventos e no Paço. Alcoviteiros das distâncias, eram paramentos da grande missa de amor que se
cantava em Portugal. A sacudir e morder lenços, piscar um olho, reluzir um espadim. Não havia por
toda a cidade mulher que lhes resistisse, frança ou chula, dama ou regateira, das casas do Mocambo às
hortas de Valverde, de Cata-que-farás aos arcos do Rocio.
Mulheres foram arrancadas aos seus hábitos árabes de recolhimento e mistério, reveladas, trazidas
pelo braço do rei para os trezentos lumes das salas do Paço. Dom João V decretou as cabeleiras de
França, camisas de França, mulheres de França. O rei era um rapazola un peu fou. O Paço de seu avô
dom João IV havia sido uma capela; o de seu tio dom Afonso VI, uma cavalariça; o de seu pai, Pedro
II, um mosteiro de corredores soturnos e silenciosos nos quais vagavam velhos e frades encapuzados.
Dom João V sacudiu a poeira e o mofo do Paço, mandou abrir as janelas e acender quinhentas velas.
Do Paço jorrava luz, lá faulhavam talhas, sacudiam polvilhos, revoavam pinturas; as salas dos
Embaixadores, dos Tudescos, dos Leões, foram abertas, inundadas de luz, armadas de panos de Arrás, e
estavam sempre repletas de leques e espadins, púrpuras de cardeais e casacas de seda, cabeleiras de França
e músicos da Itália, tudo tonto de liberdade e claridade, para desespero das marquesas velhas,
empertigadas e solenes.
Mas, apesar dos que pregavam retiro, silêncio e recato, e detestavam com positivo anátema o
comércio de damas e cavalheiros, venceu o partido da moda nova. As mulheres da Corte já não viviam
como antes, à mourisca, sem abrir uma rótula, sem assomar à janela, já não passavam o dia nos
estrados, de pernas cruzadas sobre uma esteira, rodeadas de criadas e de moças, vendo luzir o fuso ou
cosendo lençóis de três ramos. Somente a fiar, parir e chorar. Deixaram de ser a adoração sombria dos
lares monásticos para se tornarem tentação e volúpia. Viviam em frêmitos de asas, revoadas frívolas de
polvilhos e de joias, leques e sinais. Aprenderam a arte sutil de conversar, de perturbar e seduzir. As
grandes belezas da Corte não eram mais sombras impessoais e misteriosas, mas criaturas admiradas,
celebradas, musas de versos dos poetas ou de sátiras cruéis, envolvidas em intrigas de amor, névoas
ligeiras de sonho.
As moças saíam às ruas com a cara descoberta, a dona velha ao lado e o negrinho atrás. Antes, o
corpo e o rosto embiocado foram armas de sedução; estando oculta, a mulher era mais cobiçada;
revelando-se menos, perturbava mais; a mulher que passava era sempre o mistério. Mais que mistério,
era desejo, tentação. E os admiradores atrás, a galantear, no seu encalço.

— Ó figa de Cupido!
— Ó ciúmes da vista!
— Ó morte da esperança!
— Ó onça de neve!

Homens batiam-se, tinindo espadas por um olhar furtivo de uma cómica, por um fandango de uma
dama, e caíam numa poça de sangue no beco do Lopo Infante, com uma estocada no peito. Todas as
manhãs encontravam-se mortos nas calejas da Alfama, nas ruelas da Mouraria, nas alforjas da
Madragoa e do Bairro Alto, rasgados por navalhas, em crimes de honra, de roubo ou de amor. Homens
das naus, marujos, embarcadiços, homens destros e instruídos a brigar infestavam a Alfama,
embrulhados em capas, armados de navalhas ou facas agudas, disputando o leito das rascoas e as moedas
de prata dos seus baús.
Ninguém podia sair depois das ave-marias. Palmilhas suadas atacavam as seges e os coches, punham
a navalha no peito do fidalgo, pediam a bolsa. Mulheres carregavam facas nas ligas, roubavam a prata
e ouro das igrejas. As vaidades eram pagas com dobrões de ouro, patacas de prata e mãos cheias de
diamantes. Lisboa era assim, rica, sangrenta, amorosa, taciturna e efeminada.
Mas tudo estará mudado. Não reina mais dom João V e houve o terremoto que a tudo destruiu,
mesmo os costumes do povo. João Fernandes não sabe o que o espera em Lisboa.

*
Decide viajar a Macaúbas para visitar as filhas e se despedir, e dona Francisca e João Fernandes
partem em poucos dias. Instalam-se na casa de hóspedes, com sua grande bagagem, levando mil quitutes
preparados pelas escravas cozinheiras, e presentes para as meninas. Mas, logo após a chegada, João
Fernandes precisa ir até Vila Rica resolver uma pendência importante. Sozinha no recolhimento, dona
Francisca tem como consolo a companhia das filhas.

Em Vila Rica, João Fernandes vai se encontrar com o meirinho da Fazenda Real, Manuel Pacheco
Ferreira. Recebeu uma carta do escrivão da Junta pedindo-lhe para intermediar a compra de um raro
diamante de vários quilates, de origem ilegal. É surpreendido pela notícia de que as cartas foram
apreendidas e abriu-se uma devassa para apuração dos fatos.
Ele procura diversas autoridades em Vila Rica, afirmando que marcou o encontro com o vendedor
da valiosa gema apenas com o intuito de averiguar se estava sendo roubado por aqueles homens, pois era
seu direito o monopólio dos negócios com diamantes. Trata de dar ciência de seus argumentos ao conde
de Valadares, pedindo que informe ao seu poderoso amigo em Lisboa, o conde de Oeiras.
João Fernandes enviou solicitação a dom José I para limitar as retiradas de dinheiro que o sargento-
mor faz nos cofres do contrato, tendo seus gastos controlados pelos caixas em Lisboa, e imagina a reação
indignada do pai. Por outro lado, o desembargador se revolta com o arresto que o governador das Minas
impõe a suas retiradas de dinheiro junto à Provedoria da Fazenda Real para prover os custos da
extração. O conde de Valadares, um rapazote da nobreza, lhe parece ingrato; João Fernandes foi seu
aliado na opressão contra os descaminhos de moradores, garimpeiros e quilombolas, atuando fortemente
nos descobertos do Itucambirussu, expulsando os garimpos e aferindo as riquezas das Minas Novas.
Sempre lhe foi leal, visitava-o no palácio em Vila Rica, onde conquistou confiança e fez inúmeras
amizades. O próprio conde de Valadares o recebia com manifestações de apreço. Mas está prejudicando
suas empresas e enviou uma denúncia contra si. Aborrecem ainda mais a João Fernandes as
murmurações no distrito, de que ele tentou subornar o governador para que não o denunciasse.
Em Portugal, incumbiu seu pai de resolver a questão junto ao conde de Oeiras, que tem poder
suficiente para dar a contraordem ao jovem governador, e espera que o pai convença o ministro da sua
inocência. Mas João Fernandes não mais confia no tino do pai para conduzir negócios, apesar de
respeitá-lo e reconhecer seu mérito no enriquecimento da família. Sente por ele amor e gratidão, porém
o homem está velho, dominado por aquela mulher de garras poderosas. Tem saudades de suas cinco
irmãs, todas elas freiras no convento da Madre de Deus de Monchique, no Porto. Desde a partida para
Portugal, tão menino, nunca mais as viu. Faz tempo que João Fernandes recebeu permissão do rei para
se ausentar do Distrito Diamantino e se instalar em Lisboa, mas faltou-lhe a coragem de separar-se de
Francisca, de seus filhos e de todo esse mundo que construiu, mesmo que se ausentando por pouco
tempo.
*

Ainda em Vila Rica, João Fernandes é procurado pelo agente de correio que lhe entrega uma carta,
na qual ele lê uma notícia inesperada: seu pai sofreu uma convulsão que quase o paralisou, vindo a
falecer. Foi sepultado no convento da Senhora de Jesus.
A notícia deixa-o compungido de melancolia; já não é mais possível apaziguar a inimizade com o
pai, o que agrava a angústia dessa partida sem despedidas. Ao lado disso, fica sabendo que o sargento-
mor fez uma alteração no testamento, concedendo a Isabel a metade de seus bens, muito mais do que a
parte consignada no acordo das núpcias. Isabel levou o moribundo a ditar um documento restituindo-
lhe todas as despesas com o dote e o casamento de seu neto. Essa escritura não foi assinada pelo sargento-
mor, que sofria de tremor nas mãos, nem por Isabel, que não sabia escrever seu nome, mas por um
primo de Isabel. Tudo pode ser uma astúcia da madrasta, uma farsa para ela se apossar da herança do
esposo.
Martírio e tormento

O Aleijadinho

EM SUAS PASSAGENS POR VILA RICA o contratador se deparava com obras de Antônio
Francisco Lisboa no palácio do governador, ou mesmo nas ruas com a sua pessoa. Mas Antônio
Francisco era ainda um artífice desconhecido, realizara nessa vila apenas duas execuções de
desenhos de seu pai, em chafarizes, e o desenho e a execução de um busto e de uma mesa com os
bancos para o governador. Nascido nos arrabaldes de Vila Rica, em 1730, ou 1738, era filho
natural de um distinto arquiteto português com sua escrava de nome Isabel. Alforriado pelo pai ao
batismo, o pardo escuro “tinha voz forte, a fala arrebatada, e o gênio agastado; a estatura era
baixa, o corpo cheio e mal configurado, o rosto e a cabeça redondos, e esta volumosa, o cabelo
preto e anelado, o da barba cerrado e basto, a testa larga, o nariz regular e algum tanto
pontiagudo, os beiços grossos, as orelhas grandes e o pescoço curto”.237 Após o casamento de seu
pai com uma branca açoriana, supõe-se que Antônio Francisco teve de mudar-se de casa, com a
mãe e os irmãos.
Com o pai, reputado na capitania como primeiro arquiteto, e com um tio, aprendeu o
desenho, a arquitetura, a talha e a escultura, e talvez também com aulas do mestre João Gomes
Batista, que trouxera da Europa gravuras e pinturas que enriqueceram o seu aprendizado. Teria
frequentado, entre 1750 e 1759, o seminário de frades franciscanos donatos em Vila Rica, onde
lecionavam famosos artífices e mestres. Lá ele teve acesso a um vasto acervo de gravuras a “talho
doce”, cujas estampas serviam de modelo a artistas locais. E teria estudado gramática, latim,
matemática e religião.
Durante os anos de trabalho, em que a excelência de sua obra excedeu a todos, levava uma
vida dedicada à arte e ao estudo da vida dos santos e profetas no Evangelho. Mas também à boa
mesa. Passava noites em danças vulgares de batuques e fandangos, nos excessos venéreos, porém
gozando de boa saúde. Pagavam-lhe a modesta quantia de metade de uma oitava de ouro por
cada jornada de trabalho. Gastava grande parte para manter seus escravos e costumava ser
generoso em dar esmolas; muitas vezes foi roubado, do que costumava se lamentar com excessos.
Queixou-se de receber seu salário, pelas obras da capela do Carmo, em ouro falso. Dividia o seu
pagamento com o escravo Maurício, que o acompanhava a toda parte. Pagou os estudos de um de
seus irmãos, Félix, até que se tornasse padre, o qual tratava seu benfeitor com reverência. Passou
cartas de liberdade aos seus escravos, inclusive a uma chamada Ana, que guardava fechadas numa
caixa; essas cartas foram roubadas, acredita-se que pelos próprios escravos, com a intenção de
anotá-las no livro de alforrias, mas é certo que os escravos só tiveram a liberdade depois da morte
de seu senhor. Antônio Francisco nunca se casou, mas teve um filho natural com uma cabra forra,
Narcisa, a quem deu o nome de seu pai arquiteto, Manoel Francisco.
De 1777 em diante, acometido por uma enfermidade misteriosa, o corpo de Antônio Francisco
passou a sofrer de deformidades e paralisias. Ele perdeu todos os dedos dos pés, não podendo
andar senão de joelhos, passando a subir as altas escadas de carpinteiro usando um aparelho de
couro e madeira; os dedos das mãos se atrofiaram, curvando-se e enrijecendo, chegando alguns a
cair, sobrando apenas os polegares e os índices, e quase sem movimento, o que o obrigava a
esculpir com a ferramenta amarrada à mão. Dores intensas nos dedos, assim como seu humor
colérico, levaram o artista a decepar os próprios dedos usando o seu formão de trabalho. As
pálpebras se deformaram em uma incurável inflamação, prejudicando a sua vista e escondendo
parte dos olhos; no fim da vida cessou quase inteiramente a sua visão. Antônio Francisco perdeu
dentes, a boca entortou-se, o queixo e os lábios inferiores se imobilizaram. A figura sinistra, de
expressão assustadora e força admirável continuava a lavorar com um sopro divino. Trabalhava
quase sempre às ocultas, cercado por toldos, com a ajuda de seu escravo Maurício, que adaptava
as ferramentas às mãos deformadas do mestre. Antônio Francisco dirigia-se ao trabalho de
madrugada, antes que os moradores acordassem; ia pelas ruas da vila montado num burro guiado
por outro seu escravo, Januário, e só voltava para casa depois que os moradores se recolhiam.
Para ir à missa usava uma cadeira levada por dois homens; quando precisava se dirigir a um local
mais próximo, era carregado nas costas por um escravo.
Passou a usar uma sobrecasaca larga, de pano grosso azul, que ia até abaixo dos joelhos,
calçando sapatos fabricados de acordo com a deformidade dos seus pés. Quando ia a cavalo
cobria-se por uma capa preta e um chapéu de lã escura, com duas abas largas presas à copa por
colchetes. Os moradores da vila passaram a chamá-lo de o Aleijadinho.
Essa é a lenda que cobre a figura do maior artista do barroco brasileiro, reafirmada pelo
depoimento de sua nora, a parteira Joana Lopes, que testemunhou os últimos anos da vida de
Antônio Francisco Lisboa, quando o acolheu em sua casa. Foi onde ele jazeu por quase dois anos
deitado sobre tábuas apoiadas em cepos, tendo um dos lados do corpo terrivelmente chagado.
Deixou sua obra espalhada em muitas das cidades mineiras: capelas, esculturas de pedra ou
madeira, frontões, chafarizes, retábulos, vias-sacras, igrejas. Uma obra com fulgor e grandeza,
infelicidade e fatalidade. Martírio e tormento.

*
Xica da Silva, que permaneceu no Tijuco após a partida do contratador, foi contemporânea da
obra do Aleijadinho e decerto ouvia comentários acerca da figura assustadora do artista mulato
que se insinuava pelas madrugadas escuras nas vilas mineiras, esculpia rostos de moradores da
região nas figuras sagradas, desenhava e executava tortuosas talhas e esculturas, e riscava os
traços de algumas das mais fabulosas igrejas barrocas. Ele é o paradigma de todo um esplendor
artístico que floresceu nas Minas durante o período do ouro e dos diamantes, paralelamente ao
luxo dos costumes.
Confusão de sentimentos

A partida do contratador, 1771; o conde leviano

JOÃO FERNANDES VAI BUSCAR dona Francisca nas Macaúbas, dá a notícia da morte do pai e
ambos retornam para o Tijuco, a fim de fazer os arranjos da casa, do contrato, e preparar a viagem.
A situação de Xica é confusa, quanto a ir ou ficar. Sentirá por demais a ausência de João Fernandes
se ficar. Se for, morrerá de saudades dos filhos, de quem não pode se separar. Não pode levar os filhos,
nem deixá-los no Tijuco, abandonar casas, escravos, fazendas, riquezas da família; os filhos ainda não
têm como cuidar de tantos bens. No Reino ela se sentirá nada mais que uma mulata azevieira, vivendo
entre uma corja de brancos nojentos a se curvar em rapapés, e será vista não como uma senhora, mas
como uma concubina parda e forra; sua presença em Portugal trará aborrecimentos e malefícios a João
Fernandes.
Não é difícil para Xica imaginar seu amante nos palácios de Lisboa, um homem solteiro, atraente e
rico, rodeado de jovens fidalgas ávidas por um casamento; a tomar conhaque morno com açúcar, meio
embriagado, a jogar dados, bolas, baralhos, nas funçonatas, a deitar-se com uma branca numa cama de
altos espaldares, entre lençóis perfumados, cobertas coloridas, cheirando na pele da mulher a água de
Hungria, a lhe cobrir o colo com berros de joias. Ele é, agora, um homem dilacerado entre as obrigações
no Reino e na colônia.

Dona Francisca vai até Vila do Príncipe a fim de registrar seu testamento. O contratador nomeia
um tutor para seus filhos, o seu amigo, sargento-mor Landim, que cobrirá as despesas necessárias
durante sua ausência. João Fernandes deixou em Vila Rica seu testamento registrado com o tabelião
Pereira da Cunha, favorecendo todos os filhos. A previsão é de que demore um longo tempo no Reino,
tentando anular o testamento do pai, renovando o contrato e decidindo outras questões. Envia com
antecedência uma tropa de mulas levando sua bagagem.
Ele se despede de Francisca, deixando-a com o recém-nascido José ao colo. Monta seu cavalo e segue
pela rua, escoltado por escravos de confiança; logo vão a galope, levantando uma poeira que marca seu
rastro até o horizonte. Os morros lembram um oceano com ondas revoltas e surge um pequeno conforto,
por Xica ter conhecido um navio; pode assim imaginar a longa travessia de seu amado. Talvez esse seja
o momento crucial de sua vida. Existirá, sem João Fernandes?

Há versões de que João Fernandes tenha ido preso para Portugal. Joaquim Felício dos Santos
afirma que o contratador, extremamente ambicioso, não observava regulamentos e ordens reais:
usava mais escravos do que o número permitido, desrespeitava os limites de terras a serem
lavradas, entulhava os córregos em busca de uma extração mais fácil, dificultando trabalhos
futuros, e contava com a indulgência do intendente. Prejudicados em seus interesses ou invejosos
do êxito do contratador, alguns moradores do Tijuco tornavam-se seus inimigos e enviavam
denúncias à Corte sobre abusos que cometia e a influência que exercia sobre o intendente. O
marquês de Pombal mantinha espiões no Tijuco, mas era cauteloso quanto a um rompimento
com João Fernandes, recordando-se dos prejuízos causados pelo episódio de Caldeira Brant — e
de olho no acesso à riqueza dessa família, que o socorrera em mais de um aperto.
Guerras pela independência nas colônias irrompiam mundo afora e se falava em tirania,
liberdade, igualdade, contrabandeavam-se escritos de filósofos e pensadores franceses; no Brasil
alguns jovens mais arrojados se queixavam do peso da opressão colonial. O rei considerava esse
movimento um “contágio revolucionário”, e a Inquisição o chamava de “lepra hebraica”. Nesse
ínterim, o marquês de Pombal decidiu convocar o riquíssimo contratador a Lisboa — e teria
enviado o conde de Valadares ao Tijuco com esse intuito. Valadares, que então exercia o cargo de
governador da capitania, devia levar ao contratador uma Ordem Régia para que se retirasse ao
Reino. Havia ordens secretas que o autorizavam expressamente a usar da força e aprisionar o
contratador, caso se recusasse a cumprir a determinação.
Chegando ao Tijuco, o conde de Valadares dissimulou a finalidade de sua visita, mas João
Fernandes suspeitou do que o trazia. Conhecia a fama de interesseiro do governador e o recebeu
na chácara da Palha com uma “magnificência de príncipe”, para lisonjear o seu espírito frívolo.
Ofereceu-lhe bailes, teatros, caçadas, passeios, presentes valiosos, banquetes com a presença dos
homens mais importantes do distrito. Ao final desses jantares, um escravo punha diante do conde
uma salva de prata repleta de largas folhetas de ouro, escolhidas entre as mais puras e bem
conformadas; era a sobremesa que o hóspede mais apreciava. Em seu sorriso contente, João
Fernandes via uma promessa de benevolência, mas o governador estava apenas aproveitando as
benesses e ganhando tempo até revelar o teor das ordens que trazia. É o que afirma Joaquim
Felício dos Santos. O conde de Valadares pode estar sendo figurado através de sentimentos
anticolonialistas que percorrem a narrativa das Memórias do Distrito Diamantino.
De todo modo, o costume de presentear fazia parte do espírito português. “Os portugueses,
mais do que qualquer outro povo, aderem àquela regra das escrituras, segundo a qual um
donativo faz lugar para um homem, e é incrível como um presente aplaina as dificuldades de uma
solicitação. Aliás, eles esperam mesmo isso, e embora os presentes não sejam, necessariamente,
consideráveis, pois que algumas dúzias de vinho estrangeiro ou algumas jardas de tecido fino são
o suficiente, ainda assim, com frequência, fazem as vezes de dinheiro.”238
Certa ocasião, conta Joaquim Felício, o conde amanheceu melancólico e por muitos dias assim
permaneceu. Diante da insistência do contratador, decidiu patentear-lhe o segredo: “Muito sentia
ter de manifestar a um estranho negócios puramente domésticos, que só lhe interessavam, mas
que a ele o faria como um testemunho de amizade vencendo o natural constrangimento.”239 E
contou ao contratador que sua única propriedade em Portugal havia sido hipotecada e os papéis
estavam para vencer; era uma quantia muito alta, que ele não possuía, e sentia muito passar sua
herdade para as mãos de estranhos. João Fernandes não acreditou na história do conde,
suspeitando que ele pretendia extorquir-lhe mais ouro. Mas ofereceu-lhe a quantia mencionada,
como uma lembrança de amizade. O fidalgo recusou o presente, porém, vencido pela insistência
do contratador, acabou por aceitá-lo. Como empréstimo. E voltou a seu humor espirituoso.
O tempo passava e nada ele dizia sobre as ordens que trazia. Mostrava-se cada vez mais
afável, sempre recebendo favores e presentes. “Um dia, porém, chegando um estafeta de Vila
Rica, o conde simulando haver recebido um prego da parte de El-Rei, com ar de estudada
repugnância, vai ter com o Contratador. Este perturbou-se vendo a agitação e desalinho de seu
semblante. O Conde tira de um invólucro um papel selado com as armas reais, beija-o, e com
lágrimas nos olhos lê ao Contratador o decreto no qual El-Rei lhe ordena, que em três dias,
contados da intimação, se retirasse do Tijuco e seguisse para Lisboa, sob pena de ser considerado
inconfidente.”
Aturdido, João Fernandes teria se aconselhado com amigos, que lhe sugeriram resistir à
ordem, sujeitando-se às consequências de uma revolta declarada. Estariam do seu lado, com
homens e armas. Os entusiastas das novas ideias francesas viam ali a oportunidade para uma
revolta contra a opressão da Coroa. Mas João Fernandes, ao contrário do impulsivo Felisberto
Caldeira Brant, decidiu ser leal ao rei, temendo talvez a perda de sua fortuna e provavelmente
prevendo o rio de sangue que se derramaria na região. Conta Joaquim Felício que até um
garimpeiro teria visitado o contratador, de madrugada, oferecendo-lhe o apoio de homens
armados. Confiando em sua astúcia, em sua influência junto à Corte, especialmente ao marquês
de Pombal, João Fernandes decidiu partir, decerto imaginando que retornaria em pouco tempo.
Perdeu a oportunidade de tornar-se um grande vulto na história de nossa independência. Sua
lembrança era a de uma espécie de pequeno soberano que oprimia o povo do Tijuco para
satisfazer os caprichos da amante, conforme Joaquim Felício. Ou um déspota que desafiava as
ordens da Coroa e oprimia a elite local, interpretam historiadores modernos.
Sobre o conde de Valadares, documentos informam que durante seu governo soube fazer
respeitar sua autoridade, perseguindo malfeitores. “Não há nada na trajetória política do
governador de Minas Gerais que possa levantar dúvidas sobre a sua honra.”240 Nomeado
governador aos vinte e cinco anos de idade, o sexto conde de Valadares retornou ao Reino em
1774, onde desfrutou de uma longa carreira de gentil-homem na Corte, como retribuição aos
serviços prestados no Brasil.

O vice-rei recebeu, no Rio de Janeiro, uma carta do conde de Valadares e outra de Caetano
José de Sousa, pedindo que a frota demorasse mais do que os setenta dias que costumava ficar
fundeada na baía. Alegavam que a remessa de dinheiro e a partida anual de diamantes ainda não
haviam sido preparadas. Estavam também tentando ganhar tempo, para que o contratador
pudesse embarcar. Mas João Fernandes chegou à cidade no dia 6 de dezembro, antes do prazo,
ansioso pela saída da frota. Quanto antes fosse, antes voltaria. Impaciente, conseguiu que o vice-
rei ordenasse a partida para o Reino; o dinheiro e os diamantes seguiriam em uma nau que sairia
em janeiro.
Na véspera de Natal, quando completaram os improrrogáveis setenta dias de espera, a frota se
afastou da costa do Rio. Apesar do excesso de passageiros, o contratador conseguiu ir na
embarcação que protegia a frota, a Nossa Senhora de Belém. Era mais confortável viajar nas naus
de guerra, mais ágeis e seguras do que os pesados barcos de carga.
Cumpriram uma parada na Bahia para alguns reparos, aguada e o carregamento de uma carga
de madeira. Na noite de Natal, João Fernandes mandou rezar uma missa no convés, para proteção
da frota e pela alma de seu pai. A frota deixou o Brasil em 29 de janeiro. O contratador certamente
imaginava os desafios que o esperavam na Corte.
Sob um medalhão azul

Vida solitária no Reino

QUANDO JOÃO FERNANDES CHEGOU A LISBOA a cidade estava realmente transformada,


com a reconstrução dada a cabo após o terremoto de 1755. Os edifícios tinham um ar majestoso,
sólido e regular. As ruas eram bem mais largas, as esquinas em ângulos retos, e toda a parte
defronte ao Tejo fora nivelada, com a gradação dos aclives diminuída. Tudo parecia seguir o
mesmo desenho: trabalhos em ferro, entalhes de madeira, telhas, artigos de cerâmica; mesmo as
frontes das casas pareciam iguais. A cidade era mais arejada, limpa; tudo ostentava um ar de
utilidade, êxito e lucidez.
No caminho para o alto da Lapa já se podia ver a encosta, com a residência do sargento-mor
no topo. Avistava-se dali a parte de trás da casa, composta de um largo e verdejante quintal que se
abria a partir de um magnífico portão. À esquerda, uma casa menor, com três janelas no andar de
baixo e quatro no superior. Então, ao largo de todo o terreno, a casa se erguia majestosa, de três
andares e mais as mansardas sob o telhado. Só num andar contavam-se onze portas-janelas, cada
qual com um balcão em ferro forjado. Apresentava um desenho simples e de severa simetria,
como as demais casas ricas da nova Lisboa, mas sugeria uma nuança das casas do Tijuco.
Na fachada de trás fora incrustado um medalhão azul destinado a proteger a moradia, com
imagens dos santos da devoção familiar: Nossa Senhora da Conceição, são Francisco de Paula,
santa Rita de Cássia e a Virgem Maria, santo Antônio de Pádua com o Menino Jesus, são José
protetor dos lares, Maria de São José e a martirizada Santa Quitéria; assim como a Santíssima
Trindade. Alguns dos nomes desses santos tinham batizado pessoas da família Fernandes de
Oliveira. Lá estava escrito:

Santo Deus, santos fortes, santos imortais, tende piedade de nós.

*
Naquela casa imponente, sublime, estão as penas, dores e sacrifícios, transformados em paredes
majestosas. Ali está o fruto de asperíssimos desterros, copiosos suores e incessantes fadigas. Como João
Fernandes manterá sua elevada posição, num mundo novo e desconhecido, na Corte, sabendo que o
cabedal de diamantes decai e vai decair ainda mais sem a sua presença no Tijuco? Com o pai morto,
quem o apresentará aos novos poderosos de Lisboa? Estará o marquês de Pombal realmente a seu favor?
E a família real?
O ministro ouve repetidos rumores das malícias contra o desembargador João Fernandes, calúnias e
imposturas com que o querem denegrir, desde a devassa para esclarecer o descaminho daquele vultoso
diamante desaparecido, que, dizem, ele negociara com o escrivão da junta. A essas desconsolações estão
sujeitos todos os que, afastando-se dos caminhos mal trilhados, procuram caminhar só pelo da verdade e
da honra. Ele, que já passou por algumas dessas borrascas, deve ter voto na matéria, como
experimentado. Mais espinhoso será o assunto do testamento do pai, que precisa anular.

Quando a carruagem entra na casa, João Fernandes ouve latidos e os gritos dos empregados
avisando da chegada do senhor, que logo aparecem à estrebaria. Vêm da cozinha, da loja, da despensa,
das partes de serviço da casa. Ele reconhece os escravos, um ou outro, trazidos do Tijuco, que se
ajoelham e lhe pedem as bênçãos. Uma negra velha, de olhos marejados, faz recordar uma bela mina
que lhe dava prazeres nos tempos de sua juventude na fazenda da Vargem. Talvez seja a mesma.
João Fernandes é levado ao segundo andar por uma escadaria ampla. Dá num imenso salão com
quatro sacadas e de lá avista a paisagem, que se estende do jardim até o Tejo e o oceano, toda a Lisboa
a seus pés. Do balcão desce uma escada ornada com chafariz de águas frescas e límpidas, e no declive da
encosta é possível ver o jardim e o pomar, com árvores, arbustos, mantas coloridas de flores perfumadas.
Uma brisa refresca seu rosto, suas mãos. Um criado avisa que dona Isabel não o receberá; está prostrada
na cama, em sentimentos.
O novo morador percorre as salas, com lareiras, tetos adornados de revestimentos em estuque,
repletas de móveis imensos e maravilhosamente torneados, peças em ouro, pratarias, cristais, lustres,
castiçais, tapeçarias preciosas. Mostram-lhe os quartos e alcovas, e, quando vê a cama macia de seu novo
dormitório, um frio lhe percorre o peito. Sente o perfume de Xica, um leve entesamento, tomado de
lembranças das delícias com que sua mulher lhe favorecia.
Mas são restos desbotados de seu ouro negro sem escuma, olhos pretos azevieiros, forte de coxas nos
requebros de sarambeque. Olhos de amêndoa e alma de azougue.

*
Manda chamar o criado-grave e lhe ordena que relate com todas as minúcias a morte do pai. O
sargento-mor passou meses preso ao leito, diz o criado, depois do acesso que lhe fez adormecer o lado
direito, as mãos, pernas, até o rosto. Era atendido por carmelitas descalços, e dona Isabel não saía da
cabeceira de seu esposo. Frei Francisco da Visitação lhe foi um grande consolo da alma. O senhor
sargento-mor teve os melhores doutores. E podia falar, ainda que com dificuldade, compreendendo o
que lhe diziam, respondendo o que lhe perguntavam. Relembrava por vezes seguidas o filho e as filhas
freiras. O padre Dorta lhe deu a extrema-unção e o senhor morreu em paz, sem agonias.
João Fernandes pergunta ao criado-grave se, antes da morte do sargento-mor, dona Isabel quis que
ele assinasse um papel. O criado-grave não estava presente nesse ato, não sabe dizer se ele assinou ou
não. Contam, mas ele não pode garantir que o senhor sargento-mor estava com grande tremor nos
braços e não conseguiu assinar. Dona Isabel não sabe escrever o nome e quem assinou foi um primo da
senhora, a seu rogo. Garantiu o criado-grave que o senhor esteve sempre em perfeito entendimento, até a
hora de sua morte.
A convivência entre João Fernandes e dona Isabel, naquela imensa casa, será ríspida e dolorosa.
Seria conveniente se ela se despejasse para algum convento.

A situação que esperava por João Fernandes em Lisboa lhe parecia ser favorável. A política de
Pombal privilegiava os homens de negócios e facilitava a mobilidade social, concedendo direitos
de nobreza a ricos comerciantes. A velha aristocracia desprezava os novos-ricos, entre os quais o
próprio marquês de Pombal, a quem irritavam tratando-o como “o Sebastião José”; e se opunha
vigorosamente às manobras sociais do poderoso ministro, nascido numa família de pequena
nobreza provinciana — berço relativamente modesto. Mas a nobreza estava dividida: de um lado,
os puritanos, que desejavam manter o conceito de “pureza de sangue”, defendiam a linhagem e os
antigos métodos de governo, em geral proprietários de terra e grandes agricultores; de outro, um
grupo que aceitava a elevação à nobreza dos homens letrados, e mesmo de ricos homens de
negócio, comerciantes e burocratas. Durante o tempo que governou, Pombal concedeu vinte e
três novos títulos de nobreza e extinguiu outros vinte e três.
Como a maioria de seus bens se encontrava no Brasil, assim que chegou a Portugal João
Fernandes passou a adquirir propriedades — talvez um sinal de que pretendia enraizar-se. A
primeira delas foi a quinta do Grijó, que tinha sido tomada judicialmente aos padres agostinianos;
localizada em Vila Nova de Gaia, abrigava uma igreja e um convento. Comprou ao irmão do
marquês de Pombal a quinta da Portela, na estrada de Sacavém, provavelmente numa negociação
realizada para favorecer e adoçar o ministro. E na comarca de Leiria adquiriu a Enxara do Bispo,
que contava com sete casas.
*

Os costumes em Lisboa, no reinado de dom José I, eram mais austeros do que no período
joanino. O tímido rei, de estatura média, homem forte, com bochechas redondas e a usual peruca
em caracóis brancos, vestia-se com elegância e luxo, mas sem os exageros do pai, que a qualquer
hora do dia desfilara carregado de joias, peles preciosas, veludos e sedas. Dom José usava seda em
sua vestimenta, mas com o intuito de estimular o uso desse tecido produzido na Real Fábrica de
Sedas, por ele protegida.
Casado aos catorze anos com a princesa espanhola de dez anos, dona Mariana Vitória, ele
passou a adolescência numa vida de ócio com a princesinha: nada mais além de comer, dormir e
divertir-se com apresentações musicais, participando de festas e bailes na Corte, ou saindo em
grandes caçadas no Ribatejo e no Alentejo. Quando subiu ao trono, aos trinta e seis anos, não
tinha experiência com a responsabilidade, não conhecia os problemas do Reino, não fazia ideia de
como governar. Tomou, então, a medida mais adequada: nomeou três ministros aptos ao
governo, entre eles o futuro marquês de Pombal.
Afetuoso, o rei gostava da família, mas tratava a esposa com uma distante cerimônia. E tinha
amantes. Com o ardente sangue espanhol correndo nas veias, dona Mariana Vitória, ao contrário
de tantas outras rainhas, não admitia as infidelidades do esposo e explodia em violentas crises de
ciúmes. Comentava-se no palácio o affaire do rei com a bela marquesa de Távora, dona Maria
Teresa. Não eram segredo os encontros secretos do soberano com a bela fidalga. Certa ocasião,
quando o casal régio caçava na Tapada de Mafra, a rainha atirou e atingiu de raspão o rosto do
marido. Como era um dia enevoado, o rei aceitou a justificativa de que fora um acidente, mas
corria a versão de que se tratara de uma vingança, ou um aviso, uma vez que dona Mariana
Vitória era conhecida por sua excelente pontaria. O rei passou a ser mais discreto em suas fugas
noturnas, sem, no entanto, deixar de visitar a predileta Teresa de Távora. Por cautela, ia na sege
de um valido.
Numa tentativa de desviar o rei de sua inclinação femeeira, dona Mariana Vitória mantinha
um ritmo intenso de festas, banquetes, caçadas, touradas e óperas. Com tantas distrações, o rei
não tinha motivos para tirar das mãos de seus ministros o trabalho de governar, embora se
fechasse diariamente com Sebastião José de Carvalho numa sala de despachos, onde mantinham
longas e secretas conversas. Foi o reino da renovação, da burguesia, da indústria e do comércio,
com a criação de inúmeras instituições: a Companhia da Ásia, para organizar o comércio com o
Oriente; a Companhia de Agricultura, a das Vinhas e do Alto Douro, para proteção da qualidade
do vinho do Porto; a Companhia Geral das Pescarias do Algarve; a Companhia do Pará e do
Maranhão, e a Companhia de Pernambuco e Paraíba, ambas com o intuito de proteger o
comércio com o Brasil; a Companhia da Pesca da Baleia; a Real Fábrica de Faianças; além de
estímulo e proteção a indústrias, como a Real Fábrica de Sedas e a fábrica de vidros. E
incrementou-se a exploração das minas de chumbo, carvão, mármore, cobre e estanho; reformou-
se a administração pública e o setor financeiro. Ao lado disso, foram criados o Colégio Real dos
Nobres, a Aula do Comércio e instituídos centenas de novos professores; foi reformada a
universidade, reorganizado o Exército; criou-se uma intendência geral de polícia, iluminou-se a
cidade; aboliu-se a distinção entre cristãos-novos e velhos, assim como os autos de fé públicos, e
foi secularizada a Inquisição; proibiu-se o tráfico de escravos, que encaminhou o fim da
escravidão, também com a lei do ventre livre e a libertação de descendentes de escravos. Tudo
isso após a tragédia do terremoto e a consequente reconstrução de Lisboa.
João Fernandes encontrou não apenas a cidade diferente, mas também os costumes, a
atmosfera, as pessoas que tinham poder e as que flutuavam em seu torno. Talvez tenha
comparecido à inauguração de uma estátua equestre do rei dom José I no dia de seu aniversário, 6
de junho de 1775, que foi uma cerimônia esplendorosa para coroar a imensa obra da reconstrução.
Estavam presentes cardeais, bispos, altos militares, ministros estrangeiros, senhoras da Corte, o
corpo diplomático e os ministros dos tribunais, e umas duzentas mil pessoas do povo. O rei
assistia de uma tribuna ricamente armada às janelas do Conselho do Ultramar, quando o ministro
Carvalho, saindo da tribuna real, vestido de capa, cocar no chapéu, dirigiu-se à estátua, coberta
por uma cortina de nobreza carmesim. Acompanhado de autoridades, Carvalho recebeu e
retribuiu reverências respeitosas e continências da tropa, como se fosse o rei; afinal, descobriu a
cabeça diante da estátua e após as três mesuras de praxe a descerrou, recebendo a aclamação do
povo. Seguiram-se três dias de festas na cidade, com bailes, queimas de fogos, teatro, música,
banquetes e um desfile de carros alegóricos que representavam a América, a África, a Ásia, a
Europa, Apolo, o Oceano e Portugal Triunfante. A efígie de Pombal figurava no pedestal que dava
suporte à estátua. Era um símbolo perfeito do sistema de poder que imperava no Reino.

No cotidiano da cidade ocorriam ainda as festas do tempo joanino, na casa do conde de Oeiras
e de outros fidalgos, com danças de minuetes e toques de fandangos nas violas; os nobres assistiam
às óperas no teatro do Bairro Alto, recebiam em casa famosos cabeleireiros franceses, tomavam
aulas de francês com professores franceses, e liam a Gazeta de Lisboa; respirava-se um sentimento
iluminista em cada detalhe do dia a dia. “A corte anda sempre de Lisboa para Belém; quando não
se mete no picadeiro, joga as cartas.”241 Homens elegantes e ricos, os casquilhos de 1770
formavam a “burguesia pombalina”, com os mesmos costumes dos fidalgos. Extremamente
esnobes, caracterizavam a “plutocracia pombalina dos sindicatos e das companhias, do briche e
dos faraós”.242 Briche é um tecido de lã felpudo e fino. Faraós, os jogos de cartas.
Os que privavam da intimidade régia iam com os soberanos caçar perdizes nas reservas de
Salvaterra ou ver o rei a amansar cavalos no picadeiro com o marquês de Marialva e outros
vassalos. À tarde assistiam às óperas no teatrinho dourado do palácio, com cantores italianos —
apenas homens, porque dona Mariana Vitória não admitia atrizes nem cantoras. À noite o pátio
do Paço da Ribeira enchia-se de seges, estufas, liteiras, coches, dos quais saltavam nobres que lá
iam jogar o faraó. Nos ricos solares essas mesas de jogos se repetiam, em dias alternados da
semana. Na casa da condessa de Redondo era às segundas-feiras; na casa do ministro Carvalho, às
sextas. O cardeal da Cunha mandara armar de damasco as salas do palácio do Rocio e, sobre as
mesas coalhadas de serpentinas em prata e luminárias, promovia, às quintas-feiras, assembleias de
jogos para o corpo diplomático, regadas a docinhos. O prior de São Domingos oferecia partidas
aos frades, com chás e doces. O embaixador de França não escapava ao vício e recebia para
partidas do jogo as mais belas mulheres de Lisboa — as mulheres passaram a jogar na metade do
século 18. O jogo era a dinheiro, com altas apostas. Em poucas horas, homens perdiam suas
fortunas, outros iam direto para a prisão do Aljube, soterrados por dívidas. Nessas sessões de
jogos, homens e mulheres faziam seus tratos de amor, muitas vezes por baixo da banca, com os
pés se tocando e acariciando, a ponto de dizerem que se jogava o faraó “com os pés”.
Tão regulares como as partidas de faraó eram as caçadas: ia-se todas as manhãs ao campo.
Dona Mariana Vitória amava esse esporte e não deixava de praticá-lo nem mesmo nas
madrugadas chuvosas. Para as caçadas usava-se uma vestimenta adequada ao frio, que se tornara
moda: o capote de saragoça, um tecido de lã escura, forrado de seda branca. Era uma espécie de
capa com um imenso capuz que se deitava sobre o chapéu, criada, diziam, pelo marquês de
Pombal. Durante as caçadas os capuzes serviam de esconderijo aos casais que noivavam sobre a
relva.
A rotina do desembargador João Fernandes em Lisboa girava provavelmente em torno de
seus trabalhos financeiros e aqueles referentes às questões do testamento. No entanto, para tecer
suas teias de favorecimentos, seria de seu interesse participar desses costumes nobres e fidalgos.
Era, ademais, um homem acostumado a levar uma vida social intensa e glamourosa.

Pouco tempo depois da partida de João Fernandes do Tijuco, os filhos mais velhos de Xica da
Silva seguiram o caminho do pai, a fim de se educar nas melhores instituições de Portugal e ser
preparados para a sucessão. Simão tinha por volta de vinte anos; João era um adolescente de uns
quinze anos; Joaquim contava com cerca de doze anos e Antônio Caetano era uma criança de
apenas dez anos de idade quando partiram para Lisboa. O caçula José Agostinho também iria,
mais tarde, ao encontro do pai, a fim de cumprir seus estudos para ser o padre da família.
A mudança transatlântica significava não apenas uma educação mais refinada e dirigida para a
administração da fortuna familiar, mas um modo de apagar os rastros da mãe parda — e pode-se
supor que Xica tivesse consciência desse significado.
Nesse ínterim, o desembargador lutava pela renovação do contrato diamantino, junto ao
ministro Carvalho e a outros poderosos da Coroa. Teria sido convocado a Lisboa justamente para
a solução desse assunto, que já estava delineado pela política pombalina.
*

Logo uma desagradável notícia veio contrariar os interesses de João Fernandes: a ordem de
dom José I que o desembargador recebeu em julho de 1771 dava por encerrado o contrato a partir
do final daquele mesmo ano:

[...] por quanto pelo falecimento de João Fernandes de Oliveira, contratador que foi da Real
extração dos diamantes das minas do Brasil findou o arrendamento por ele celebrado.
Devendo, por isto, parar o giro do mesmo contrato para a liquidação das contas entre ele e os
seus sócios, e contar-se para este efeito o tempo do mesmo contrato na conformidade de os
outros da Minha Real Fazenda. Sou servido declarar findo o atual arrendamento do
sobredito contratador falecido e sociedade dele por acabada no último [dia] de dezembro
próximo futuro [...]243

O marquês de Pombal justificou o ato de forma bastante desfavorável aos contratadores: era
consequência dos abusos cometidos durante a regência do Contrato e do sistema que sustentava o
empreendimento, impossível de ser corrigido. Uma nova instituição de monopólio sem a
participação de particulares daria suporte à autoridade real para evitar desordens, coibir abusos e
manter todos dentro dos limites determinados.
Sem a renovação do contrato, não havia mais uma razão cabal para o retorno de João
Fernandes ao Tijuco. A partir de janeiro de 1772, a mineração de diamantes passou a ser realizada
pelo monopólio régio chamado de Real Extração dos Diamantes, quando foi instituído o famoso
“livro da capa verde”, que continha o regimento que impedia qualquer iniciativa particular nos
trabalhos de mineração no Serro. O Livro das entradas dos diamantes para o Cofre registraria a
entrada de mais de um milhão e trezentos mil quilates de diamantes para a Coroa. Contra mais ou
menos um milhão e seiscentos mil, fruto do recolhimento durante todo o período dos contratos,
quando a extração se encontrava em seu auge. Estava claro o desvio da produção administrada
pelos contratadores.
Vassalos da rainha piedosa

O morgado de Grijó; 1779, despedida de João Fernandes

DURANTE QUATRO ANOS, de 1771 até 1775, João Fernandes lutou para anular o testamento
do pai em favor da madrasta, conseguindo-o após uma declaração de incapacidade mental do
sargento-mor. A anulação foi assinada pelo marquês de Pombal em 1773, a despeito de todos os
testemunhos de padres e médicos que atestavam a lucidez do moribundo. Determinava que dona
Isabel não deveria ser meeira dos bens do casal, sendo-lhe apenas restituído o seu dote. Dona
Isabel tratou de refugiar-se na casa de um neto, levando consigo as joias inventariadas, adereços
diversos, tapeçarias, ouro e prata, e mais de onze mil cruzados, conforme acusação de seu
enteado. De lá, dona Isabel entrou com um pedido de embargo da sentença, que prendia
judicialmente João Fernandes ao Reino.
Certamente cheio de fúria, ele descobriu o esconderijo da madrasta e providenciou, com o
marquês de Pombal, uma ordem para que ela fosse confinada no convento de Vialonga, freguesia
localizada fora de Lisboa. Induzido por um bilhete do ministro, o juiz do crime do bairro de Santa
Catarina dirigiu-se de madrugada ao esconderijo de dona Isabel, surpreendendo-a no leito. Sem
esperar que ela se vestisse apropriadamente, levou-a pelas ruas, acompanhada apenas da sua
criada de quarto. Entregou-a à madre superiora e, ao alvorecer, dona Isabel foi enclausurada
numa cela, despojada de qualquer objeto, com apenas a escrava para servi-la. Viveria ali por três
anos dependendo da caridade das freiras, sem a mesada prometida por seu enteado, que só passou
a ser enviada em 1776. João Fernandes justificou essa decisão declarando que a madrasta não
necessitava da mesada por ter consigo o dinheiro, joias e objetos subtraídos ao inventário; e que,
durante o casamento com o sargento-mor, desviara vultosas somas para seus familiares, os quais
deveriam, portanto, pagar suas despesas.
Por outro lado, usando de extrema habilidade, João Fernandes conseguiu desmontar todas as
denúncias contra sua administração no Distrito Diamantino. Mas, em 1775, o desembargador
passou a sofrer de uma grave moléstia e sabia que a morte se aproximava. Precavendo-se contra
as atitudes da madrasta, e garantindo o futuro de sua fortuna, fez o levantamento de seus bens e
instituiu o morgado de Grijó, assim chamado por ter sede na quinta com o mesmo nome. Morgado
era uma instituição jurídica concedida pelo rei, vinculando propriedades ou conjuntos de bens
familiares que não podiam ser alienados ou divididos entre herdeiros. As famílias muito ricas
costumavam usar desse instituto para preservar seu patrimônio.

A lei de 3 de agosto de 1770, que regularizou os morgados em Portugal, estabelecendo regras


sobre sua instituição e acabando com as desordens, que ocasionaram sua multiplicidade e a
ampla liberdade das cláusulas das nomeações, esta lei, no preâmbulo, reconhece os
inconvenientes dos morgados, como contrários à natureza do direito de propriedade, criando
uma classe de bens sem verdadeiro proprietário, que deles possa dispor livremente; contrário à
justiça e à equidade, lançando muitas vezes na miséria a maior parte dos filhos do mesmo
pai, para dar ao primogênito o patrimônio da família, que devera ser dividido com
igualdade, e contrário aos princípios da ciência econômica, amortizando valores que são
tirados do giro ordinário do comércio e acumulando grandes propriedades territoriais, que
sendo divididas poderiam ter resultados mais vantajosos. A lei reconheceu estes inconvenientes,
mas deixou os morgados subsistindo, como necessários, diz ela, nos governos monárquicos para
o estabelecimento e conservação da nobreza, para que haja nobres, que possam com decência
servir ao Rei e ao Reino, tanto na paz como na guerra. Isto é, sacrifiquem-se muito embora
os interesses das outras classes, mas não se deslustre a da nobreza! É como então se legislava.244

O morgado de Grijó vinculava todos os bens da família, em Portugal e no Brasil, com


determinações minuciosas para que seus descendentes mantivessem coesa a fortuna familiar. Em
Portugal foram vinculados: a quinta do Grijó; um quarteirão de casas na rua Augusta, em Lisboa;
uma morada de casas na entrada do Beato, com vinte e sete granjas anexas; uma quinta no sítio da
Portela; uma propriedade de casas nobres no sítio de Buenos Aires, onde residia João Fernandes;
uma propriedade de casas nobres na rua da Boa Vista, com terras anexas; duas propriedades
defronte ao convento da Estrela; mais duas, na rua do Guarda-Mor. E no Brasil: uma propriedade
de casas nobres no Rio de Janeiro; outra em Vila Rica; mais uma em Pitangui; a chácara da Palha;
uma roça na Ponte Alta e duas fazendas na comarca do Serro do Frio, doadas post-mortem às
filhas para delas desfrutarem enquanto vivas; e as fazendas de pecuária, nas Minas: Santa Rita,
Riacho das Areias, Jenipapo, São Domingos, Povoação, fazenda do Rio de São Francisco, de
Paracatu, do Jequitaí, do Rio Formoso, de São Tomás, de Santo Estevão, de Santa Clara, da Ilha,
da Formiga, da Ponte Alta de Pitangui. Aproximadamente noventa e seis mil cruzados recolhidos
no cofre dos resíduos. E todo o dinheiro que resultasse das cobranças de dívidas ativas no Brasil,
que deveria ser empregado na aquisição de bens de raiz; todos os bens que o instituidor do
morgado viesse a adquirir; e todo o dinheiro e valores encontrados após a sua morte, a serem
igualmente aplicados em bens de raiz, que ficariam vinculados. A fortuna de João Fernandes era
calculada em cerca de dois milhões de cruzados, “valor que o tornava o homem mais rico de
Portugal à época”.245
Como a descendência de João Fernandes não era legítima, ele tratou de determinar a sucessão
do morgado legitimando seu primogênito, João, que adotou Grijó como sobrenome; instituiu-o
seu sucessor, nomeando-o primeiro administrador. A descendência legítima desse filho comporia
a sucessão no morgado, nas gerações posteriores. Não havendo descendentes, após sua morte
João Grijó seria sucedido pelo filho natural do desembargador, Antônio Caetano, e seus
descendentes legítimos; em segundo lugar, o filho natural, Joaquim José, e sua descendência
legítima; e assim por diante, até chegar a sucessores primos, paternos ou maternos. Tudo estava
calculado por João Fernandes.
Ele determinou que seus descendentes fossem postos a serviço da Coroa, deixando parte de
seu patrimônio vinculado para os herdeiros sucessivos, a fim de que pudessem ser educados e
tratados como pessoas de bem. Aos filhos não herdeiros do morgado deixou um terço de seus
rendimentos, a ser dividido igualmente entre todos, enquanto vivos. Para José Agostinho,
reservou uma quantia anual que cobrisse seu serviço de pároco na capela da quinta do Grijó.

Com a morte de dom José em 1777, subiu ao trono sua filha Maria, que seria chamada a
Piedosa e, depois, a Louca. Já era uma mulher madura, de quarenta e três anos. De temperamento
doce e melancólico, extremamente devota, educada com primor, dona Maria I dedicava-se à
música e à pintura. O romancista inglês Horace Walpole, que assistiu à sua aclamação,
considerou-a tímida, fraca de temperamento e dominada pelo clero. Antes de ser rainha, vivera
retirada no palácio de Queluz, propositadamente afastada dos problemas políticos, enquanto o
marquês de Pombal pregava a sua renúncia ao trono em favor de seu filho José. Embora não
tivesse um plano de governo, dona Maria I demonstrava seu desejo de reparar as “ofensas a
Deus”, moralizar a vida pública e governar de forma mais progressiva em certos campos. Logo ela
demonstrou desaprovação às ações do marquês de Pombal, abrindo as portas das prisões a
numerosos presos políticos de várias classes; havia indivíduos encarcerados e desterrados desde o
atentado contra dom José I, ocorrido cerca de vinte anos antes. Mais de oitocentos portugueses
retornaram do exílio; foram comparados pelo povo com “almas de outro mundo”, de tão
desfigurados pelo padecimento. Suas histórias corriam de boca em boca, despertando uma
curiosidade mórbida na população e incentivando o ódio contra o marquês. Mais de dois mil
infelizes tinham morrido nos cárceres, que agora, vazios, eram abertos às visitas atraídas pelo
“encanto patético dessas novas catacumbas. Toda a gente andava excitada com aquelas evocações
tétricas. A indignação ia do sul ao norte do país. Dum extremo ao outro reclamava-se que fosse
punido o responsável pelos martírios”.246 Já no dia da aclamação de dona Maria I, esboçou-se um
motim popular dirigido contra o marquês de Pombal, abafado pelas tropas. A rainha emitiu
decretos declarando inocentes o marquês de Alorna e a condessa de Atouguia; não se manteve
neutra diante de uma revisão legal do processo contra os inconfidentes de 1758, que inocentou a
todos, excetuando-se o duque de Aveiro. Ordenou uma medida financeira favorável aos jesuítas,
os mais perseguidos inimigos de Sebastião José; e estabeleceu-se uma atividade legislativa
notável. O marquês de Pombal se viu totalmente destituído das graças reais. Com ele, seus
aliados e toda a sua política.
Desde quando ainda se agravava a doença do rei, os cortesãos foram revelando sua hostilidade
contra o poderoso marquês; chegavam a tratá-lo com agressividade. Logo após o falecimento do
soberano, apareceu em Lisboa uma espantosa leva de sátiras contra o ministro denunciando fatos
criminosos a ele atribuídos, assim como a seus parentes e aliados, o que marcou o início de um
movimento de desconstrução das obras do marquês de Pombal, chamado de a “Viradeira”.
Alguns dos homens mais beneficiados por Carvalho foram os primeiros a atacá-lo, de forma vil.
Sabendo-se desprezado pelos novos reis, sentindo o ódio que explodia contra si, Pombal apressou-
se em pedir a dispensa de seus cargos. Numa carta à rainha – comparando-se ao duque de Sully,
que após a morte de Henrique IV viu-se na miséria —, expressou seu drama, desviando o repúdio
para as obras do rei dom José I, pai de dona Maria I.

[...] fez logo ver armados contra si o numeroso partido dos descontentes do governo del-rei seu
amo, outro de invejosos, que unindo-se ambos imediatamente trataram de desfigurar, e fazer
odiosos, e destruir todos os estabelecimentos daquele glorioso governo; trataram de espalhar
contra ele as maiores imposturas, ou maiores refalsidades, e mais negras calúnias; trataram,
por aqueles miseráveis meios, de converter os relevantes serviços de um tão assinalado ministro
em delitos atrozes; e trataram de concentrar contra ele o ódio universal de todo o povo, de
sorte que não podia ir para parte alguma da corte, ou da cidade, que se não achasse cercado
de inimigos, em próximo perigo de ser a cada momento assassinado.247

O pedido de clemência comoveu o devoto coração da rainha, que aceitou a sua dispensa dos
cargos, permitindo-lhe retirar-se para a quinta do Pombal, devido a sua idade avançada e às
moléstias que o atormentavam. Ela conservou seus ordenados como secretário do Estado, e ainda
lhe concedeu uma comenda e uma vaga na Ordem de Cristo.
No dia 5 de março de 1777 o marquês saiu de Lisboa numa sege alugada, enquanto a sua sege
particular o acompanhava de longe, para iludir o povo, que jogava pedras contra a carruagem
vazia. Foi viver confinado na quinta de sua propriedade. O desterro de Pombal não era
voluntário: um decreto de 1781 revelaria seu caráter obrigatório e punitivo, numa justificativa à
opinião pública. O decreto o autorizava a sair de sua quinta para tomar banhos medicinais nas
Caldas, por estar doente.
No exílio, o marquês sentia-se “uma vaca morta de lavrador pobre, da qual cada um dos
lavradores vizinhos vai buscar seu tassalho”, como ele mesmo declarou. Enquanto era ministro,
não se atreviam a cobrar-lhe dívidas do fisco, mas agora apareciam na sua quinta os cobradores da
Fazenda a apresentar altos valores; também cobradores particulares o acossavam, uns por vias
judiciais, outros recorrendo a meios não institucionais. Eram nobres, plebeus, ordens religiosas e
até mesmo parentes seus. Foram instaurados dezesseis processos contra Pombal nos tribunais,
exigindo o pagamento de dívidas ou tentando impugnar seus direitos de propriedade. Algumas
ações eram acompanhadas pelo público, como a do senhor Mendanha, que arremeteu ferozmente
contra o réu por questões relativas a uma compra de propriedades, mas transformando o processo
numa veemente imputação política. Pombal e a família passaram a viver com as despesas
reduzidas ao mínimo, chegando a empenhar ou vender sua baixela de prata.
Numa política de desespero, Pombal passou a redigir o que ele chamava de apologias —
memórias justificativas de sua administração, enviadas a seus filhos e genros na Corte que as
distribuíam entre os novos poderosos. Mas isso parecia irritar ainda mais os ânimos contra o
desterrado. A rainha ouvia o clamor popular contra o antigo ministro, dividida entre os
sentimentos de respeito pela administração de seu pai e o próprio senso de justiça. Em 1779 o
desgraçado marquês passou a responder a um inquérito decretado por dona Maria I. Os
interrogatórios, conduzidos por um deputado, na acanhada residência da família Carvalho, o
inquiriam sobre os mais candentes assuntos: por que ele perseguira vários secretários de Estado,
seus colegas, que chegaram a ser deportados; por que mandara para o desterro os filhos bastardos
de dom João V, os “meninos de Palhavã”; se havia alguma prova contra os jesuítas; qual a verdade
no caso dos Távoras; se todo o dinheiro das cadeias era gasto na sustentação dos presos; e mais
questões difíceis de responder. O marquês sustentou, em todo o inquérito, a ideia de que ele era
apenas um servo do rei que ordenava seus atos. A sentença demorou mais de um ano para ser
decidida, após o término das inquirições; considerou o réu culpado das acusações. No entanto,
atendendo a suas graves moléstias e à decrépita idade, usando mais de clemência do que de
justiça, a rainha o aliviou das penas corporais, ordenando, no entanto, que se mantivesse a pelo
menos vinte léguas (cerca de cem quilômetros) distante da Corte. Foram preservados seus bens,
para que pudessem atender às demandas judiciais.
O mesmo homem orgulhoso e arrogante suplicava humildemente por perdão; o mesmo
homem que mandara queimar o duque de Aveiro depois de partirem seu esqueleto osso por osso,
e de supliciar tantos nobres da maneira mais cruel e pública, transbordava de ternura por um
netinho recém-nascido.
Pombal morreu após uma doença que lhe causava sofrimentos atrozes. Escreveu a seu filho
que estava “coberto de pústulas nos pés, pernas e corpo que não me deixam sossegar com as
dores”; em outra carta fala de hemorragias “provenientes das matérias dos volumosos tumores
que se encontraram no meu lado esquerdo, e da grande quantidade de pústulas que se tinham
espalhado por todo o corpo”.

*
A desgraça de Pombal com certeza afetou a vida e a precária saúde de João Fernandes; ao
mesmo tempo, o desembargador perdeu o protetor e entrou no rol dos aliados do ministro, caídos
em desgraça.
Pouco antes de morrer, tomado de um espírito menos prático, João Fernandes incluiu em seu
testamento esmolas para suas irmãs religiosas no convento de Monchique; para seis criadas que o
serviram e acompanharam em diversos misteres; para o recolhimento da Lapa e para a
irmandade do Santíssimo Sacramento da Lapa, bairro onde morava; para o frei Antônio das
Angústias, da Terceira Ordem da Penitência; para uma viúva e seus cinco filhos; e, afinal, para os
dotes de duas donzelas. Não teve forças para assinar um último ato a ser incluído no seu
inventário.
Após oito anos de separação de Xica da Silva, João Fernandes de Oliveira morreu, no dia 21 de
dezembro de 1779, em sua casa no sítio de Bueno Aires, Lisboa. Foi sepultado na igreja do
convento de Nossa Senhora de Jesus, junto ao túmulo de seu pai. Tinha cinquenta e dois anos, dos
quais dezessete foram passados ao lado de Xica. No Tijuco, ela ainda sobreviveria por dezessete
anos ao amante e pai de seus filhos.

Xica não sabe se conseguirá viver sem a esperança da volta de seu homem. A vida parece não ter
mais sentido, os dias se repetem monotonamente, lágrimas marejam seus olhos a qualquer instante,
caem sobre o colo, sobre o prato de comida, sobre os lençóis. O que a mantém viva são os filhos, as filhas
a serem educadas nas Macaúbas. No rosto das crias ela busca os traços do pai, ela o vê ainda vivo num
olhar, num gesto, numa mecha de cabelos... Xica imagina que ele, em seus últimos instantes, atravessou
os mares e percorreu as serranias da fortuna e da danação nas remotas Gerais, a abraçar-se com a
lembrança de sua amada. Passeia com ele na antiga nau do tanque da Palha, salgado pelas lágrimas,
viajando por sonhos e recordações.
A terrível espera está terminada, Xica agora sabe que João Fernandes não voltará nunca mais; isso,
por um lado, a alivia, porém a perda da esperança é substituída por uma ausência ainda maior e mais
dolorosa. Precisa mostrar sua força, viver com a mesma alegria que lhe proporcionou o amor exclusivo
de João Fernandes. Nem mesmo consola-a saber que ele não se casou com alguma fidalga reinol, nem se
envolveu com nenhuma outra mulher, ao menos publicamente. É ela a viúva de João Fernandes, a
mãe de seus filhos, ela quem deve honrar sua memória, e precisa manter-se altiva, serena, forte.
A solidão de Xica

Cartas de amor; cotidiano da família, 1773

AS SAUDADES deviam ser intensas no cotidiano de Xica da Silva desde a partida de João
Fernandes para Lisboa. Não há notícia de cartas enviadas pelo desembargador, nem de alguma
que ela tenha escrito para seu companheiro, embora as cartas de amor fossem um costume
daquele tempo. Sentadas diante de alguma papeleira de charão, com talhas doiradas, as moças
escreviam cartas — muitas vezes aprendiam a ler e a escrever apenas para essa finalidade.
Eram as cartas de trique-traque, nas palavras do rei dom João V. Essa arte da carta de amor,
provavelmente inventada por freiras dos conventos no Reino, se compunha de alguns gêneros. As
cartas de ausência, que começavam por expressões como meus olhos, minha lembrança, meu
pensamento, e vinham picadas de flores secas, repletas de trocadilhos, borradas de lágrimas, e às
vezes havia frases como “lembro-lhe a vossa mercê que lhe não lembro e que me não esquece”.248
As cartas contemplativas devaneavam sobre o amor, em longas dissertações. As de equívocos,
graciosas e picantes, criavam ou desfaziam conflitos. As cartas de despique, de arrufos, de ciúmes
eram plena moda durante o reinado joanino, entrando pelo tempo de dom José I, quando
tentaram impedir que as moças de família aprendessem a ler e a escrever, para não se
corresponderem com namorados.
Terminada a carta, a saudosa deitava areia ou ouro em pó sobre a folha de papel com a tinta
ainda úmida. Recortava às vezes algum pequenino coração na folha e borrifava água cheirosa, não
apenas para enviar um perfume sedutor: teria a moça de possuir dois tinteiros, um de tinta para
escrever e outro, com água, para fazer as lágrimas. A carta era dobrada em pastel de três cantos
ou em forma de chapéu, e endereçada. Muitas dessas missivas de amor femininas eram escritas
secretamente e entregues a um moleque escravo para levá-las ao destinatário ou, no caso de o
amado estar distante, entregues a algum viajante que as levasse em troca talvez de um pequeno
diamante. Em 1775 a carta de amor passou a ser crime, punido com galés ou com degredo para
Angola.
*

As cartas representavam o principal modo de comunicação no Brasil do século 18. O envio


dependia de ações particulares, até chegarem os primeiros serviços com os assistentes do Correio-
mor das Cartas do Mar, nas cidades costeiras. Com a descoberta do ouro no interior, tornou-se
necessária uma farta correspondência, mesmo oficial, entre as Minas e o Reino. Em 1710 houve
uma primeira previsão de ajudantes de correio para as Minas, providência acolhida pelas câmaras
das vilas mineiras, e o correio passou a funcionar quase regularmente. Cinco anos depois o
governador do Rio de Janeiro suspendeu esses serviços e, preocupada com o vazamento de
informações sobre as riquezas, a Coroa proibiu a atuação do Correio-mor no interior do país,
permitindo a circulação apenas das chamadas cartas do mar — as de costa a costa. Surgiram alguns
serviços privados de entrega de correspondência, com o apoio de administradores coloniais, como
a linha de correio entre Rio, Mariana e São Paulo, sob as ordens de um particular. Apenas em 1730
foi estabelecida uma linha de correio. Em setembro desse mesmo ano foi assentado um serviço de
estafetas que levavam cartas entre o Rio e São Paulo, criado pelo governador desta capitania.

Algumas lendas contam que Xica da Silva teria ficado na miséria, desprezada pelos moradores
do Tijuco, após a partida do contratador. Mesmo o romance de João Felício dos Santos assume
essa versão. João Felício imagina que, após a partida de João Fernandes como prisioneiro do
conde de Valadares, Xica ouvia comentários e ofensas vindos de trás das janelas, chamando-a de
“porca parideira”, “negra sem pejo”, “safada”, entre outros insultos. O padre apontava com uma
bengala para Xica — que estava a chorar nas pedras da rua —, mostrando em que resultavam “os
vícios, a dissolução dos costumes, o abandono da moral, o achincalhe da dignidade, a perversão
dos mui nobres sentimentos da carne”, enquanto um morador gritava “Prostituta! Cadela sem-
vergonha!”, atirando sobre ela um balde de despejos. “Sonsa de uma figa! Vá mostrar teu navio
pro padre que te fez!” Meninos se aproximavam de Xica, que tentava se levantar, tonta, ouvindo
as distantes vozes com insultos, como se não lhe fossem dirigidos; eles a rodeavam e despejavam
xingamentos cruéis. As injúrias iam se agravando até se tornarem agressões físicas e Xica era
acudida pelo alfaiate do arraial, que, no entanto, a ultrajava igualmente, enquanto lhe dava a mão
para se levantar. Xica corria, em fuga, quando ouvia que pessoas reunidas ameaçavam incendiar a
chácara da Palha, o castelo da “negra feiticeira”, “escrava do diabo”, queimar “o castelo mal-
assombrado onde ela trepava com o Demônio!”.249 E lhe acertavam uma pedrada e uma
cusparada.
Mas há indícios históricos de que, senhora de si e de suas propriedades, Francisca da Silva
continuava a ser dignamente incluída entre a elite do arraial sobre o qual reinara. No entanto, sem
a força da figura protetora do desembargador e sem o poder de sua extraordinária fortuna, além
do trabalho para administrar seus bens e o aluguel dos escravos, ela precisou enfrentar sozinha os
problemas dos filhos. Morava em sua casa na rua da Ópera, na companhia das filhas e de José
Agostinho, nos primeiros anos. Quando da partida do desembargador, em 1771, as filhas ainda
eram adolescentes ou crianças. A mais velha, Francisca, tinha dezesseis anos; Rita Quitéria,
catorze; Ana Quitéria, nove anos de idade; Helena, oito; Luísa tinha sete anos; Maria, apenas
cinco; Quitéria Rita, quatro anos; Antônia era uma menininha de três anos, e a caçula das
mulheres; Mariana contava com apenas dois anos de idade. Não se sabe a data de nascimento do
último dos filhos, José Agostinho, mas devia ter um ano ou menos quando o pai se separou da
família.
Ana Quitéria e Maria foram solteiras durante a vida de Xica, o que devia causar preocupações
naquela mãe zelosa. Helena vivia interna nas Macaúbas, onde certamente a mãe a visitava, e cuja
estada precisava ser custeada; mas, em 1781, padeceu de uma doença grave e voltou para a casa
materna, onde viveu pelo menos até a morte de Xica da Silva. Antônia viveu todo o tempo nas
Macaúbas, distante da mãe, que devia sentir sua falta em casa.
Rita Quitéria era amancebada com um alferes português, Bento Dias Chaves, nascido em
Braga, e a tensão provocada pela situação da filha decerto exigia da mãe muito trabalho e
preocupação, além da angústia daquela condição que a própria Xica vivera, como concubina do
contratador. O alferes tinha três filhos naturais de relações anteriores. Com Rita, teve três filhos
naturais: João, Manuel e Frutuosa.
Luísa, casada com Manuel Ferreira Pinto, também era uma fonte de preocupações para a mãe.
E despesas: em 1780, Xica fez um pagamento à irmandade do Santíssimo, para enterro de um dos
escravos da filha. O casal tinha boa condição financeira. Luísa e Manuel moravam numa das duas
casas que possuíam no Tijuco e Xica participava dos problemas da filha com o genro. Em 1788 o
caçula de Xica, José Agostinho, que tinha por volta de dezoito anos, fez uma petição ao
governador para que controlasse as desordens causadas pelo cunhado.
A situação de Quitéria Rita também não era nada confortável para Xica. Essa filha foi
desvirginada pelo padre Rolim, filho do (provável) antigo proprietário de Xica, com quem,
enquanto ainda era escrava, conviveu na mesma casa. O pai do padre Rolim fora amigo do
sargento-mor João Fernandes de Oliveira e os laços entre as famílias se estenderam pelas gerações
subsequentes. Uma testemunha no processo da Inconfidência declarou que o padre Rolim
obrigara Quitéria Rita a se casar com outro homem branco, mas o registro desse casamento nunca
foi encontrado. De toda forma, Quitéria Rita teve os filhos naturais do padre Rolim. Este era vinte
anos mais velho do que a mulher. A relação dessa filha com o padre devia significar, por um lado,
o desconforto da situação complicada e, por outro, o prazer de uma descendência de boa cepa.
Em 1796, Xica não chegaria a presenciar grandes alegrias: o casamento de duas de suas filhas.
Francisca de Paula, que tinha já quarenta anos de idade e abandonara o hábito de freira, uniu-se a
um reinol natural do Porto; a cerimônia foi celebrada em 12 de agosto na capela de Santa
Quitéria, que ficava na casa de Xica, à rua da Ópera. Duas semanas depois houve o casamento de
Mariana com um alferes português. Aos vinte e sete anos, Mariana também já estava passada da
idade de se casar.
A idade de Xica da Silva, sessenta e dois anos, e a proximidade de sua morte — talvez já
estivesse doente — deve ter influenciado a decisão das filhas de se casar. O melhor casamento,
dentre suas filhas, foi celebrado com um homem de posição mediana, com o cargo de alferes, um
oficial de patente do estado-maior, mas subalterno, ajudante de capitão.250 Nenhuma delas se
casou com um capitão-mor, governador, intendente ou ouvidor. Nenhuma se casou com um
grande homem de negócios, ou um homem rico. O único genro digno de nota histórica especial foi
o padre Rolim, por sua atuação na Inconfidência Mineira.
Xica tivera seu primeiro filho, Simão, aos dezessete anos. Mas Francisca de Paula, a primeira
filha com João Fernandes, nasceu quando a mãe estava com vinte e um anos. Na partida do
desembargador para Lisboa, Francisca da Silva contava com trinta e sete anos. Para os padrões da
época, era uma mulher bastante madura; decerto marcada por sofrimentos, pela idade, pelos
partos sucessivos, por uma vida sedentária e opulenta.

A casa de dona Francisca é animada, com suas filhas, escravas e escravos a trabalhar, e visitas: gente
das irmandades, amigas do tempo da escravidão, filhas de amigas que também foram escravas, afilhadas
e afilhados, um ou outro branco ou branca, um ou outro músico negro que tocara na orquestra da
Palha, algum escultor mulato, costureiras, alfaiates, sapateiros, joalheiros, negociantes de panos; e,
eventualmente, uma autoridade do arraial, ou algum amigo do desembargador a dar notícias de
Lisboa. Vez em quando vem o padre Aldonço, a oferecer conselhos e bênçãos e verificar a educação das
crianças.
A mesa de refeições está sempre repleta de gente e guloseimas. Dona Francisca tem muitas despesas
com as filhas e o pequeno José Agostinho; também com Simão, que está no Reino a estudar e recebe
uma boa pensão da mãe. Precisa sustentar as filhas que continuam nas Macaúbas, com suas servas.
Também são custosas as viagens que tem de fazer para visitar as filhas no recolhimento, levando suas
comidas prediletas e presentes de todo tipo. Já não é tão proveitoso e garantido o aluguel dos escravos,
desde que se encerrou o contrato. Mas nada falta a suas filhas e ao pequenino. São muitas as joias
guardadas no pequeno baú chaveado, que podem ser vendidas em qualquer sufoco. Dona Francisca não
precisa mais desses adornos, vai aos poucos se tornando parecida consigo mesma, sem a influência de
João Fernandes com seu gosto por luxo e ostentação de riqueza. Já não vai a bailes ou óperas, sai apenas
para as ocasiões religiosas, como missas ou cerimônias das irmandades, levando as filhas, todas muito
bem-vestidas. Veste bem suas escravas. Não é bom que mostre nenhum declínio financeiro e dona
Francisca usa ainda suas vestimentas suntuosas da juventude, mas tem uma aparência mais singela. A
escrava costureira está sempre desapertando as roupas de sua senhora ou reformando-as para vestidos das
filhas. Dona Francisca ainda tem voz e mando, ordena a casa com severidade, controla a própria vida e
a de seus filhos de forma austera, e não admite ser desobedecida.
De noite ela conta às filhas histórias do tempo de esplendor, dos fidalgos se ajoelhando a seus pés, dos
bailes e banquetes na Palha, dos passeios na pequena nau, relembra cenas de óperas e comédias, mostra
um leque de plumas em rosas douradas, as luvas de seda com ricos botões de charão japonês ou seu
precioso par de sapatos brancos usados em tal ou qual ocasião. Sobretudo, fala do pai das meninas, não
quer que o esqueçam. Quando João Fernandes partiu elas eram muito pequenas, a não ser Francisca de
Paula e Rita Quitéria, já mocinhas, mas vivendo na distância do recolhimento.

Após a morte de João Fernandes, um dos conflitos que Xica da Silva teve de enfrentar foi o
desentendimento dos filhos na disputa pela herança do pai. Os problemas do legado começaram
com a resolução da rainha dona Maria I de desfazer a venda da chácara do Grijó, devolvendo-a
aos padres da congregação de Santo Agostinho que a tinham perdido judicialmente. Foi um rude
abalo para o morgado que, sem a sua sede, perdia mesmo a razão do nome. Essa decisão dava a
entender que a rainha se inclinava contra a família Fernandes de Oliveira.
Entrementes, a madrasta dona Isabel deixou o mosteiro e foi viver numa casa alugada em
Lisboa, onde tinha melhores condições de acompanhar a apelação do processo de herança de seu
esposo, enfrentando a política de retardamento promovida pelo morgado do Grijó. Com a morte
de dona Isabel, em 1788, por uma lesão cerebral, sua filha do primeiro casamento passou a
representar a parte opositora ao morgado. Somente em 1793 foi concluído o processo de litígio:
surpreendentemente, a sentença foi favorável ao morgado, dando início à partilha de bens entre
os herdeiros do desembargador.
No Tijuco, os filhos ainda vivos tomaram providências para receber sua parte, registrando
procuradores em Vila do Príncipe. Ana Quitéria nomeou um representante para questionar a
parte que lhe cabia. E Antônio Caetano nomeou Simão Pires Sardinha para realizar demandas em
seu nome. Lutavam todos contra João Grijó e as determinações paternas. Seria uma longa batalha
pelo espólio familiar. Tudo isso devia representar aflições para aquela mãe solitária.
Hora do Ângelus

A Conjuração Mineira, 1789

DONA FRANCISCA RECEBE O CAIXA que escreve e controla o movimento de sua fortuna, tudo o
que entra, tudo o que sai. Cada vez mais os débitos se avolumam. Os cabedais são taxados cada vez
mais e agora, além do pagamento dos quintos, dos impostos sobre as mercadorias, os escravos, todos
terão de pagar um imposto sobre algo que não existe. O ouro que não se extraiu. Mais uma vez a
Fazenda Real deixa cair sua chibata nas costas dos mineiros. A Coroa mantém a intolerância, continua
a tentar destruir o que com tanto custo se instalou nas Minas.
Ouvem-se murmúrios de uma rebelião que se arma nas vilas e arraiais. Revoltados, os conspiradores
querem um novo mundo; todas as ideias, todas as instituições precisam ser mudadas, e a França é o
centro dessa imensa revolução. A filosofia arvorou seu estandarte contra o passado. Os princípios da
igualdade dos seres humanos, da soberania popular, são reconhecidos como dogmas incontestáveis.
Nobreza significa usurpação. Sacerdócio significa impostura. Religião, prejuízo da educação. É o que
chamam de filosofia. Já não se tem medo de repetir o dito de Rousseau, de que é impossível que as
grandes monarquias se mantenham por muito tempo. Repete-se abertamente a fala de Voltaire, uma
revolução sucederá infalivelmente. Felizes os jovens! Que coisas verão eles no futuro! Um cataclismo
destrói a religião e o trono. Está instalado o ódio à monarquia.

Com o declínio da produção de ouro na região mineira, causado pelo esgotamento das jazidas,
a Coroa proibiu, em 1785, a fabricação de produtos em toda a colônia, obrigando os moradores a
adquirir mercadorias fabricadas no Reino, taxadas a custos altíssimos. Julgavam os governantes
que a causa desse declínio era uma maior intensidade nas atividades do contrabando das riquezas,
assim como a sonegação dos impostos devidos à Coroa. O novo governador, visconde de
Barbacena, determinou nas Minas um sistema de imposto compulsório, que obrigava o envio de
cem arrobas (uma tonelada e meia) de ouro anuais para a Fazenda Real, independentemente da
produção atingida. Descontava-se ainda a quinta parte do ouro e do valor de escravos que cada
um possuía. Os colonos seriam submetidos à “derrama”, odiosa taxa de tributo pessoal destinado
a preencher a diferença até se perfazer o valor de ouro decretado pela Coroa. O visconde de
Barbacena iria para Vila Rica em fevereiro de 1789, a fim de anunciar a cobrança.
Já abatidos pelo declínio do Eldorado mineiro, por toda uma história de opressão,
descontentes passaram a conspirar em reuniões secretas, que aconteciam de madrugada na casa
do poeta Cláudio Manuel da Costa ou na de Tomás Antônio Gonzaga. Participavam donos de
fazendas de criação ou plantios, senhores de lavras, homens da Igreja, militares, homens das
letras, influenciados por ideias iluministas, pelo sonho de uma libertação da colônia, como a que
ocorrera na América do Norte em 1776. Almejavam que as Minas fossem um país independente
governado pelo sistema republicano, ainda escravista, e chegaram a desenhar a bandeira da nova
República, um triângulo verde com a expressão latina tirada da primeira écloga de Virgílio:
Libertas quae sera tamen, traduzida livremente como Liberdade ainda que tardia.251 Decidiram que
o movimento eclodiria no momento da chegada do governador a Vila Rica para dar execução à
derrama; imaginavam ser apoiados pelo povo descontente e pelas tropas sublevadas.
No Tijuco havia ardentes entusiastas da grande agitação política e de costumes que animava a
Europa. Naquele distante arraial os livros dos enciclopedistas eram procurados com avidez e as
ideias de liberdade aceitas com a ânsia de serem postas em prática. Pessoas distintas, como o
padre Rolim ou o médico naturalista José Vieira Couto, faziam parte de uma associação “com o
fim de promover a independência do Brasil e libertar dos tiranos a pátria: assim denominavam os
monarcas”.252 O padre Rolim era “genro” de Xica da Silva e não é absurdo imaginarmos que ela
acompanhava o movimento político numa posição favorável aos rebeldes.

[...] os conjurados contavam com um numeroso partido no Tijuco, foco das ideias
revolucionárias da comarca, que se correspondia diretamente com Vila Rica e transmitia os
planos de conspiração ao norte da Capitania. Demais, de todos os pontos da Capitania o
Tijuco era o que entretinha relações mais imediatas, não só com a metrópole por meio dos
correios diretos e enviados da Extração, como com outros países da Europa, em razão do
contrabando, que de contínuo se fazia pela Bahia e Rio de Janeiro principalmente com a
Holanda e Inglaterra, quase os únicos consumidores dos diamantes brutos extraviados.

O padre Rolim, amasiado com Quitéria Rita, filha de Xica, era pai de quatro netos da antiga
escrava: Thadeo, Domingos, Maria Vicência e Maria dos Prazeres. Consta que, apesar de padre, o
filho do tesoureiro do Distrito Diamantino dedicava-se a inúmeras atividades e contravenções,
minerando em áreas proibidas ou importando escravaria ilegalmente. Como administrador
oficialmente designado da lavagem de diamantes, o padre Rolim entregava apenas uma parte da
produção, o suficiente para esconder a que ele retinha para si. Dedicava-se também à agiotagem e,
segundo os Autos de devassa, estava para receber uma vultosa soma quando foi processado por sua
participação na Inconfidência Mineira. Bom cavaleiro, exímio atirador, era suspeito de haver
matado inimigos e desafetos.
As práticas ilegais contra a Coroa portuguesa, de que foi acusado, eram regra geral no Distrito
Diamantino, mas a situação de seu pai o mantinha imune às denúncias. Tornou-se padre secular
para escapar de um processo criminal. A conexão do padre Rolim, considerado criminoso, com a
Inconfidência Mineira praticamente delineia o aprofundamento de sentimentos nativistas e a sua
evolução até o martírio de Tiradentes.
Uma carta escrita em 1796 por um homem condenado ao desterro, dirigida a seu irmão,
morador do Tijuco, ilustra o sentimento que nascia da mais cruel e severa de todas as
administrações coloniais no Brasil:

Qual foi o meu crime? Tirar diamantes da terra. Mas quem foi que aí os escondeu, senão
Deus, para nós com nosso trabalho irmos procurá-los? Que direito, portanto, há para se nos
proibir a mineração? Deus criou os quatro elementos para gozo dos homens: o ar que
respiramos, a água que bebemos, o fogo que nos aquece, e a terra para dela tirarmos todo o
proveito, já cavando-lhe as entranhas para extrairmos os minerais e pedras preciosas, já
cultivando-a para alimentarmo-nos, já caçando nas suas matas e campos. Sou proscrito e
criminoso por ter querido gozar dos benefícios concedidos pela Providência.253

Toda a busca de riquezas minerais no Brasil tinha sido empreendida com o estímulo da Coroa,
que prometia atraentes recompensas aos descobridores. Uma vez encontrada a riqueza, as partes
rompiam seu acordo em decorrência do ponto fundamental e indiscutível de que todas as riquezas
coloniais pertenciam ao rei de Portugal. Os administradores aplicavam uma política de
convencimento — era preciso “ganhar os corações dos homens e obrigá-los com uma força
voluntária a cumprirem as suas obrigações, sem que aparecessem conduzidos mais que pela
própria vontade, e sem que percebessem mão Superior e estranha que desse os movimentos às
suas ações”,254 conforme carta do governador das Minas, Rodrigo José de Menezes. E, realmente,
havia êxito nesse esforço de convencimento a uma “força voluntária”; a mentalidade da época —
e os perversos castigos — fazia a população acreditar nos direitos reais concedidos por Deus, e
acreditar nas leis, nas autoridades. No entanto, o conflito se instalava em homens que se viam
esmagados pela voracidade, coerção, arbitrariedade e violência da Coroa; era natural que
sentissem uma inclinação à liberdade e dali surgissem os ideais de independência, influenciados
pelo Iluminismo francês. O movimento racionalista e antimonárquico — que, por meio da
audácia do conhecimento, pretendia apagar resquícios do feudalismo, tais como a tirania e a
superstição, e a demasiada influência da Igreja e da nobreza — representava uma saída para os
seres humanos se libertarem de qualquer sistema de tutelagem, sob o lema Sapere aude! Tem
coragem para fazer uso da própria razão!
A coleção de trinta e cinco volumes da grande Encyclopédie, editados na França a partir de 1751
e com a colaboração de grandes intelectuais, como Voltaire e Montesquieu, difundiu as ideias
iluministas pelo mundo e marcou o ápice desse movimento. Das vinte e cinco mil cópias do
conjunto, metade foi distribuída em cidades e colônias europeias, chegando a vilas e arraiais,
como o Tijuco. Do mesmo modo, eram sorvidas essas novas aspirações em livros de autores
iluministas, como Ética, de Espinosa, Ensaio sobre o entendimento humano, de Locke, Do espírito
das leis, de Montesquieu, ou Ensaio sobre os costumes, do anticlericalista Voltaire. O ideal iluminista
representou uma importante influência na Revolução Americana, deslumbrando homens
coloniais nas Minas com um horizonte de liberdade.

O padre Rolim estava de volta ao Tijuco em fevereiro de 1789, quando sua sogra Francisca da
Silva era uma senhora com cerca de cinquenta e cinco anos de idade. Ele retornara a fim de
organizar a revolta no Distrito Diamantino, até que ocorreu a denúncia contra o movimento
inconfidente. Em maio estavam todos presos, inclusive Tiradentes — que dera ao padre Rolim o
epíteto de Herói do Serro.
A ordem de prisão de Rolim chegou ao Tijuco em 28 de maio, à hora do Ângelus.
Comandados por um tenente, soldados deram intensas buscas nas casas onde poderia estar o
acusado, mas Rolim não foi encontrado. Constava que ainda estivesse no arraial, refugiado em
alguma residência de amigos poderosos, como a do tenente-coronel Abreu Vieira, da Cavalaria de
Auxiliares, nas quais não se podia entrar sem uma Ordem Régia. O fugitivo ia de uma casa a
outra, protegido pelo escuro da madrugada.
Diante do fracasso nas buscas, foi enviado pelo governador um militar com fama de eficiente,
violento e arbitrário,255 e o padre Rolim precisou fugir do Tijuco, possivelmente para não
comprometer seus amigos. Disfarçado com o uniforme de dragão da cavalaria e uma peruca,
rumou para a fazenda das Almas, que pertencia a seu pai, refugiando-se numa tapera que ficava
nessas terras. Seguiu escoltado por um cabo dos pedestres, homem da confiança do intendente.
Um retrato falado do fugitivo foi providenciado para as buscas e enviado junto a uma carta do
governador para o ministro Melo e Castro, em 15 de julho de 1789:

É de estatura alta ou mais que ordinária, magro e muito direito. Tem o rosto comprido,
claro tirando a macilento, seco, com um sinal de golpe ou cicatriz em uma das faces (que
parece ser à direita), e feio. A testa alta, os olhos pardos com sobrancelhas alguma coisa
arqueadas, nariz mediano e algum tanto arrebitado; beiços grossos e a boca comprida; dentes
grandes, acavalgados uns sobre os outros principalmente da parte esquerda, e amarelos. O
cabelo é castanho escuro com alguns brancos e, da mesma sorte, a barba com algumas pintas
brancas. Tem as canelas finas e os pés pequenos e secos. É de 35 para 40 anos, tido como bom
cavaleiro, e não tem boa pronúncia quando fala.

O padre Rolim foi encontrado na cabana não muito distante da sede da fazenda das Almas,
disfarçado por uma barba comprida. Cercado por soldados, que fizeram fogo contra o fugitivo e
sua pequena escolta — o cabo, o capataz da fazenda e alguns escravos —, padre Rolim conseguiu
fugir novamente, após cerrado tiroteio. Porém, alguns dias depois, foi preso por um sargento-mor
e três civis. Passou por quinze interrogatórios, entre outubro de 1789 até julho de 1791. Seu
advogado de defesa, da Casa da Santa Misericórdia, conseguiu a absolvição de dois agregados do
padre Rolim: seu escravo Alexandre e o velho cego João Francisco das Chagas, apelidado de
“Conversa”. Mas o padre foi sentenciado à pena de morte por enforcamento e a confisco de bens,
sentença posteriormente convertida para degredo. Por ser eclesiástico, Rolim não foi sentenciado
para a África, mas para o Reino, onde a rainha dona Maria I determinaria o local de sua prisão.
O padre inconfidente embarcou na fragata Golfinho, em junho de 1792, e em Lisboa a rainha
decidiu confiná-lo na fortaleza São Julião da Barra. Quatro anos depois ele seria transferido para o
claustro do mosteiro de São Bento da Saúde, ainda em Lisboa, na condição de “preso de Estado”.
Consta que nesse convento teve contato com outro célebre prisioneiro político, o poeta Du
Bocage.256
Dois meses após a partida do prisioneiro para Portugal, temendo represálias, Quitéria Rita
decidiu enclausurar-se no convento das Macaúbas, levando suas filhas Maria Vicência e Maria dos
Prazeres. Apesar de amasiada e mãe de duas filhas naturais com um padre, foi recebida no
claustro, supõe-se que com a ajuda do irmão mais velho, protegido do governador Cunha
Meneses. Xica da Silva sofreu a aflição de ver a filha passar por tantos riscos e desgostos, tomando
a decisão de recolhê-la e às netas nas Macaúbas.
Serranias da danação

Adeus a Xica, 1796

APÓS A MORTE de João Fernandes, quase todas as filhas deixaram o recolhimento das
Macaúbas, retornando para a casa da mãe, talvez porque Xica temesse alguma dificuldade
financeira no futuro. Todas receberam herança paterna de propriedades e escravos, mas era certo
que o inventário ia se arrastar por anos a fio. A decisão também deve ter sido influenciada pelas
medidas de moralização do recolhimento, que proibiam as visitas livres. Quando solicitou à
madre superiora a retirada de Luísa, Maria e Quitéria, Francisca da Silva alegou que suas filhas
tinham sido internadas ali apenas para aprenderem os rudimentos da educação e da virtude, não
tendo nem mesmo recebido o dote para a ordenação como freiras. Sempre apoiada pelo tutor das
meninas, Xica pediu que Francisca de Paula voltasse para casa, a fim de tratar-se de uma doença;
em 1781, Francisca de Paula foi para a casa materna com a obrigação de retornar para o
recolhimento após um ano, de andar sempre vestida com o hábito e manter os costumes de uma
irmã recolhida. E, mesmo tendo já professado os votos, Ana Quitéria voltou para a casa da rua da
Ópera, onde seria também tratada de uma doença. Helena e Rita desistiram do hábito e voltaram
aos cuidados da mãe. Antônia, no entanto, manteve-se recolhida por sua livre vontade. Os desejos
de Xica eram respeitados pela instituição, que lhe devia ainda a construção de uma ala e de uma
casa lateral, entre outros benefícios concedidos às Macaúbas pelo célebre casal.

As irmandades mandavam rezar missas póstumas em homenagem ao benfeitor morto, João


Fernandes, à quais Xica da Silva precisava estar presente. Ela continuava batizando crianças,
apadrinhando casamentos, fazendo doações caridosas, participando das irmandades.
Provavelmente era ainda chamada em questões relacionadas aos bens do contratador e suas
atividades sociais anteriores deviam ainda lhe tomar algum tempo, com visitas, esclarecimentos,
testemunhos...
Sua situação financeira era estável, embora não se tenha mais notícias das festas aparatosas da
Palha. Além da casa em que morava, na rua da Ópera, possuía uma casa na rua do Bonfim, joias,
móveis, entre outros bens. Administrava o farto plantel de escravos, sua principal fonte de renda.
Seu testamento, que continha o rol patrimonial, desapareceu; foi reproduzido por Xavier da Veiga
nas Efemérides mineiras com a data de 12 de novembro de 1770.257 Corre em Diamantina a versão
de que alguém teria roubado o documento e o manteria clandestinamente sob sua guarda. Mas,
pelas listas de bens de suas filhas, bem mais modestas, com joias, escravos e propriedades, pode-se
imaginar a boa situação da mãe — apesar de toda uma política contra os alugadores de escravos
perpetrada pela Diretoria de Lisboa que, ano após ano, diminuía o valor dos jornais da
escravatura de aluguel e buscava a redução do número de trabalhadores nas minas.
Também afetava a situação de Xica da Silva o que ocorria em Portugal. A rainha dona Maria I
enlouquecera, resignando a seu filho, o príncipe dom João — que seria, após a morte da mãe, dom
João VI. O poder estava entregue a uma fidalguia dissoluta, a presidência do Erário era exercida
por um ministro inepto, o governo preocupava-se sobretudo em demolir a obra de Pombal,
dissipando o saldo positivo nas contas do Tesouro Régio. Em mau estado nas suas finanças, o
Reino pesava a mão na cobrança de tributos. “A imensa riqueza que Portugal sugava do Brasil não
chegava para sanar a penúria do tesouro.”258 A situação foi agravada por uma guerra europeia,
eclodida após a morte do rei francês, Luís XVI, em 1792, que paralisou o comércio internacional,
incluindo o comércio do diamante — mercadoria de luxo, sujeita a variações abruptas. Havia
expirado o contrato com as casas de Benjamim e Abraão Cohen, em Amsterdã, e os diamantes do
Serro não encontravam novos compradores. Foi uma das causas principais da diminuição de
trabalhadores nas lavras de extração. Os empregados demitidos foram intimados a sair da
demarcação. Ficaram os que tinham família, mas esta recebia a ordem de morar num arraial
afastado pelo menos uma légua (cerca de cinco quilômetros). Muitas pessoas que trabalhavam ou
tinham seus escravos alugados viram-se repentinamente sem meios de vida. O intendente
franqueou uma mineração no rio Paraúna, para atender aos casos mais aflitivos e para despejar da
demarcação um grande número de escravos desocupados “que infalivelmente escalarão os
córregos e rios diamantinos, farão mais dificultosas a guarda e vigia deles, cometerão roubos e
insultos no ermo e no povoado, perturbarão o sossego público, e causarão a seus próprios
senhores, com prisões, tomadias e confiscos, maiores danos que os que eles já sofrem com a sua
despedida dos serviços da Extração”.259

Em 16 de fevereiro de 1796, Xica da Silva morreu em casa, no Tijuco, consolada na agonia pelo
pároco que lhe ministrou a extrema-unção, perdoando-lhe os pecados e lhe abençoando a alma.
Tinha provavelmente sessenta e dois anos de idade.
Ao som dos sinos, seu corpo seguiu em procissão até a igreja da irmandade de São Francisco de
Assis, para ser enterrado numa tumba ao lado dos mortos mais ilustres do arraial, sob a guarda da
imagem em roca de santa Margarida de Cortona. Seu enterro foi coberto com as dignidades que
lhe cabiam, por ser membro das irmandades do Santíssimo, de São Francisco de Assis, da Terra
Santa, das Almas e das Mercês. Recebeu missa de corpo presente com a participação de todos os
sacerdotes do arraial ricamente paramentados.

Em seu trabalho ficcional, Lia Vieira260 imagina a morte de Xica da Silva, afirmando a
dignidade da personagem que vivia, no entanto, em grande solidão. Xica celebra a própria morte
com uma cantiga, que é respondida por uma de suas escravas. O canto e a dança efetivados na
hora da morte e nas cerimônias fúnebres estão presentes em algumas culturas africanas e afro-
brasileiras. Instantes antes de morrer, Xica da Silva teria nas mãos um baú de flandres repleto de
pedras preciosas. Ela manuseava essas pedras, sussurrando uma suave música, cujos versos
diziam:

O rio corre para o mar


lua veio anunciar maré vazante
carrega saudade pra lá
carrega quizila pra lá
Ê girê, o girá
Me leva girá, para o fundo do mar

A escrava que lhe fazia companhia aprendia o “encantamento”. Como se voltassem a uma
origem africana, Naila cantava em surdina:

Iemanjá sobá
sobá mieiê
sobá mieiê, ô doía, sobá mieiê

Xica da Silva usava tranças africanas, não mais as cabeleiras europeias com as quais se
paramentara para penetrar a sociedade branca. E, indo para o mar, simbolicamente retornava ao
ventre materno.
*

Há grande comoção com a morte de dona Francisca. O povo do arraial comenta seu passado,
relembra as histórias, revive festas gloriosas do tempo do contratador.
Uns visitam a chácara da Palha onde o pequeno navio, abandonado no tanque quase seco, já se
espedaçando, cobre-se de plantas e detritos de animais, de lixo ali jogado, de folhas secas e restos do
jardim tomado de mato. Veem as paredes do castelo descascadas na pintura, a se rachar, os buracos onde
havia janelas de madeira, arrancadas por ladrões. Outros passam diante de sua casa, a olhar pelas
treliças, onde não se vê mais o mesmo movimento de gente.
As filhas choram, inconsoláveis. Missas e mais missas são rezadas pela alma de dona Francisca.
Uns dizem que ela distribuiu parte da sua fortuna aos pobres, em testamento, e libertou seus
escravos; sabem que algumas de suas escravas fazem parte de irmandades e umas podem até ler, como a
mina Laureana. Que dona Francisca foi boa de coração, mesmo mandona; que cuidou bem de seus
filhos. E que ainda era rica ao morrer. Mas, à medida que os dias passam, aparecem comentários que
não respeitam mais a morte, ignoram o sagrado dos cadáveres. Afloram sentimentos de raiva, inveja,
despeito, que estavam contidos pela presença da escrava e senhora. Vicejam algo de superstição e
ignorância, ódio à raça, à vitória alheia, à feminilidade, ao poder de sedução.
Mas todos sabem que dona Francisca foi um dos motivos da grandeza do Tijuco, de seu esplendor,
que ela foi uma rainha desse torrão diamantino, onde pessoas de origem humilde conseguem subir na
vida. Onde mulheres mandam e a terra vira mar, para obedecer a seus caprichos.
6
A lenda negra
Palavras finais

A lenda da Cinderela Negra

O CORPO DE XICA da Silva ficou enterrado na igreja de São Francisco de Assis por muitos anos.
Quando realizaram uma reforma no edifício, em 1917, os cadáveres foram exumados e levados
para fora do templo. Foi provavelmente durante essa reforma que localizaram os restos de Xica.
Seu corpo, conforme versões populares, estava em bom estado, “com a pele seca e negra”. O
escritor e jornalista Antônio Torres, nascido em Diamantina em 1885, que anotou uma história do
Tijuco através de seus personagens, conta que os ossos de Xica sacudiam-se a qualquer
movimento próximo e produziam um barulho sinistro. Temeroso, o coveiro decidiu jogá-los
numa grota distante, como se fossem restos de um ser assombrado. Batidos pelo vento forte que
costumava soprar na região, os ossos chacoalhavam em aterrorizantes vibrações que pareciam
gargalhadas. O povo temia passar por aquele lugar; mas, quando alguém o fazia, pronunciava
uma expressão local:

— Toma lá, Quingongo.

Benziam-se com o sinal da cruz e apertavam o passo. Quingongo, diz Furtado, baseada na
interpretação de dona Valdina, conhecedora da religiosidade banta, seria uma divindade das
profundezas da terra, associada à morte e à regeneração. A expressão era uma súplica a essa
divindade para que levasse para longe os restos mortais da antiga escrava e senhora. Xica era
assombração.
Mas era, também, um corpo essencial, radioso e invulnerável, corpo de rainha, a salvo das
degradações da morte.

*
Não há qualquer referência ao nome de Xica da Silva por parte de viajantes que estiveram nas
Minas do século 19 — como Saint-Hilaire, ou Spix e Martius, ou, ainda, Richard Burton, o amante
de mulheres exóticas —, que listaram diversos moradores dignos de nota, segundo suas
observações. Mas havia a lembrança do povo: a escrava enriquecida e dominadora que mandava
no homem mais rico daqueles tempos, humilhava os portugueses e ia à igreja como uma senhora
da elite, que Joaquim Felício dos Santos recolheu e anotou em suas crônicas dos anos 1860.261 Foi
quando Xica da Silva retomou a vida, regenerando-se pelos eflúvios de Quingongo que a levariam
mesmo para longe — ou até longe. Tinha a imagem de uma megera.
O bispo de Mariana confirmou essa interpretação em seu livro Sítios e personagens históricos de
Minas Gerais, de 1896, contando que o povo a apelidava de Xica Que Manda, ou Quemanda, por
ter a ex-escrava tanto domínio sobre o contratador. As Efemérides mineiras de Xavier da Veiga,
publicadas em 1897, introduzem a Xica da Silva de Joaquim Felício, afirmando que aquela história
parecia mais uma “página das Mil e uma noites”.
Numa posterior edição das Memórias do Distrito Diamantino, de Joaquim Felício dos Santos,
em 1924, como já vimos, a historiadora Nazaré Meneses incluiu notas explicativas, tentando
reabilitar a imagem de Xica, afirmando que nunca seria uma mulher “odienta e asquerosa”, pois
fora capaz de inspirar uma paixão ardente e duradoura em um “moço nababo, nobre,
galanteador”. No entanto, deixa escapar a afirmação de que Xica poderia ser boçal, no caso,
significando ignorante, rude, grosseira. Na sua História secreta do Brasil, publicada entre 1936 e
1938, o advogado e escritor Gustavo Barroso dá a Xica os adjetivos de famigerada e dominadora. A
palavra famigerado, ou seja, célebre, mas também, faminto, se inclina a nomear malfeitores
famosos. Barroso insinua alguma tragédia oculta, que teria sido a causa da “miséria e da loucura
do faustoso contratador”.
O poeta franco-suíço Blaise Cendrars visitou Minas Gerais em 1924, na companhia de amigos
modernistas, e vinte anos depois comentaria numa carta a um amigo sobre a mulata amante do
contratador, dando a impressão de estar em transe. Parece ser uma das primeiras menções
totalmente favoráveis a Xica da Silva. Cendrars revela o fascínio que sente pelo destino duplo
daquela mulher, entre a metade real e a metade imaginária. E se farta com as depravações, a
nobreza, o excesso, a ternura e o fausto.
Provavelmente esquecido do nome da ex-escrava mineira, Cendrars chama-a de Monia
Florestão, tornando-a personagem ficcional, mas descreve brincadeiras à beira do lago e dez
bailarinas que vão a bordo com a senhora negra; funcionários reinóis se irritam e dão ordens para
que o baile seja interrompido; o contratador de diamantes envia uma carta ao rei de Portugal,
acompanhada de um diamante, e o rei o perdoa. O casal de amantes pinta as paredes de seu
palácio com mais uma camada de ouro e em seguida pode recomeçar a fornicar...

Chica é uma dessas mulheres negras, talvez mais aperfeiçoada que outras, ocupando um lugar
mais inacessível que suas irmãs, um lugar ao mesmo tempo ausente, proibido, inexistente e
vencedor. Ela usa o poder aterrador de sua cor, de sua condição e de seu sexo para conduzir
um combate quase político e talvez metafísico. Ao dominar o corpo do representante do rei
em Minas Gerais, não é o poder branco que ela escraviza? A carne enigmática de Chica da
Silva subjuga o corpo do rei branco de Lisboa. Assim, a negra Chica da Silva se situaria no
mais secreto da inacessível identidade brasileira, no coração de seus enigmas, de seus silêncios e
de seus conflitos...262

Um ano após essa carta, em 1945, o filólogo mineiro Aires da Mata Machado Filho publicou
Arraial do Tejuco, cidade Diamantina, uma espécie de guia histórico para visitantes da cidade. Ali
fala sobre a casa em que teria vivido Xica da Silva, na rua da Ópera, segundo a tradição local, a
presunção quase certa, e a convicção geral (mas não se sabe com certeza se ali foi a residência de
Xica). Mata Machado comenta que a chácara da Palha era uma espécie de castelo feudal,
esplendoroso como um palácio asiático, com os tetos dourados, onde ocorriam “dramas trágicos e
desumanas sevícias de bárbara crueldade”,263 os quais não descrevia temendo corromper sua
escrita. Afirma que Xica mandara construir uma capela ao lado de sua casa porque era impedida
de entrar nas igrejas, ao contrário do que escrevera Joaquim Felício.
Em 1950 a casa de Xica, na rua da Ópera, foi tombada como patrimônio histórico. Nessa
década, Diamantina tratava de reconstruir seus mitos, de enobrecer a senhora parda, enquanto
continuava a difundir as lendas assustadoras. Conta a professora mineira Júnia Ferreira Furtado
que, em sua infância, ouvia de noite histórias que faziam medo, nas quais Xica era uma espécie de
bicho-papão, uma cuca horrenda que fazia mal à criança que não adormecesse. O anonimato das
lendas permite todas as vilezas de autoria. Porém, o fato de Xica ter sido traduzida por lendas
terríveis acabou por se tornar favorável à sua permanência. A incompreensão estimula a
investigação. O medo atrai. O mistério encanta.

No Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, longo poema publicado pela primeira


vez em Portugal em 1953, a poetisa apresenta uma Xica da Silva suntuosa, sensível, intuitiva,
dominadora, que não se engana, e nos faz recordá-la nos famosos versos em ritornelo:

É a Chica da Silva:
É a Chica-que-manda!264
O médico e historiador Soter Couto, em Vultos e fatos de Diamantina, de 1954, levanta um
perfil favorável de Xica, exaltando sua beleza, considerando seu luxo um refinamento tal qual o
dos aristocratas das altas cortes que promoviam as artes teatrais e musicais, muitas vezes atuando
como mecenas. Interpreta os maus-tratos que a senhora impunha aos portugueses como uma
espécie de vingança pessoal e política, dotando-a de um incipiente sentimento nativista que a
tornava uma pioneira da emancipação nacional. A imagem de Xica foi se tornando cada vez mais
complexa e intricada, adquirindo novas faces atribuídas pelo tempo, por novas compreensões,
pela necessidade de mitos, por um novo comportamento e modo de pensar. A distância trazida
pelo tempo é capaz de empalidecer as versões criadas na intimidade da convivência, maculadas
quase sempre por sentimentos pessoais.
Mas, em 1956, na terceira edição das Memórias do Distrito Diamantino, o anotador José
Teixeira Neves volta com o sentimento hostil contra Xica da Silva. Contesta as anotações de
Nazaré Meneses sobre a aparência bonita de Xica e suas qualidades, reprovando no contratador
um comportamento indigno de sua posição social.
Surge então a peça teatral escrita por Antonio Callado em 1960, O tesouro da Chica da Silva,
que fornece nova dimensão ao mito da escrava, dessa vez mulher inteligente e ardilosa, causa da
ruína do contratador. Nesse mesmo ano, Lúcia Machado de Almeida, autora mineira de livros
infantojuvenis, publicou Passeio a Diamantina, em que conta as histórias sobre Xica ouvidas
durante uma viagem que a escritora fez à cidade, nas quais a nossa personagem aparece como
uma mulher extremamente cruel. A autora foi em busca de documentos tentando confirmar, ou
não, as afirmações de Joaquim Felício. A vida de Xica ainda era envolta numa espessa nuvem de
mistérios.
O painel novelesco de Agripa de Vasconcelos, Chica que Manda, de 1965, mostra uma mulher
indômita, devorada por ciúmes, bondosa para com os negros e extremamente cruel em tudo o
que se referisse a brancos, principalmente autoridades e reinóis. O filme de Cacá Diegues, Xica da
Silva,265 de 1976, introduz contornos eróticos à personagem, num retumbante sucesso; e foi
responsável pela grande popularidade de nossa personagem em todo o país. Entre delírios de
luxo, o poder erótico de Xica se transforma em poder político; ela usa sua influência para proteger
humildes, negros, escravos fugitivos ou jovens revolucionários. O filme veio seguido do romance
do sobrinho-bisneto do criador do mito da escrava alforriada e poderosa, com a mesma visão da
personagem. Desde então, Xica esteve presente em manifestações de grande alcance popular: foi
tema de uma escola de samba, em 1963,266 e de uma novela televisiva, em 1997.267 E passou a
fazer parte intrínseca de nosso imaginário popular.

*
A lenta conquista de valorização da negritude e das mulheres também atua na tradição sobre
Xica da Silva. Numa renhida luta contra a discriminação e o preconceito, negros e mulheres se
tornam figuras cada vez mais importantes na conformação das sociedades modernas e a imagem
de Xica vai se beneficiando com as novas mentalidades que se impõem. Afinal, em 2003, surge o
livro de Júnia Ferreira Furtado, Chica da Silva e o contratador dos diamantes, o outro lado do mito,
fruto de um trabalho exaustivo do exame de documentação oficial em arquivos brasileiros e
portugueses, que desvenda inúmeros enigmas da vida de Francisca da Silva de Oliveira e de tantas
mulheres na sua mesma condição, permitindo um melhor entendimento de sua existência dentro
do contexto de seu tempo e lugar. Xica torna-se, também, uma figura humana de grande
dignidade, livre de sua pena infamante.

Por que a força tão extraordinária dessa Cinderela Negra? Por que não viraram ícones
nacionais o romântico garimpeiro Isidoro, por que não Jacinta e tantos outros personagens
fascinantes, registrados nas mesmas Memórias do Distrito Diamantino de Joaquim Felício dos
Santos? A estruturação da história de Xica da Silva através do tempo, por tantos autores, lembra
um dos contos de fadas mais conhecidos pela humanidade, contado e recontado em diversas
épocas e civilizações: a moça pobre e oprimida que, ajudada por forças misteriosas, casa-se com
um príncipe.
A lenda de Cinderela é de origem popular e recebeu versões diferentes. A mais antiga é uma
variante chinesa, que teve origem por volta do ano 800 a.C. Também muito antiga é a adaptação
popular italiana, intitulada La Gatta Cenerentola, ou A gata borralheira. A versão de Charles
Perrault, de 1697, apresenta a vilã madrasta e uma fada madrinha. Em outras versões, a fada é o
espírito da mãe de Cinderela, que lhe traz do céu o deslumbrante vestido de baile, seus sapatinhos
de cristal e sua carruagem com cavalos brancos. Na versão escrita pelos irmãos Grimm, pombos e
uma árvore que nasceu no túmulo da mãe de Cinderela são os elementos que realizam o sonho da
infeliz órfã – ir ao baile no castelo do príncipe — e a jovem usa palavras mágicas que ajudam a
tornar realidade os seus desejos. No desenlace da trama as irmãs malvadas de Cinderela são
cegadas por pombos que furam seus olhos. Xica da Silva não é uma Cinderela romântica. Ela
traduziria, como arquétipo, um anseio da natureza humana, especialmente feminino, de
reconhecimento e elevação social por meio do amor e do sexo. O mito da sedução.
Os contos que sobrevivem são aqueles com maior poder de perturbar o inconsciente humano
e há uma seleção natural a eleger certas histórias que trazem em si questões emocionais,
familiares, sexuais, sempre de cunho universal, em que cada um pode ver seus próprios estados
mentais penosos. Nas fantasias e simbologias dos contos de fadas, é possível encontrar soluções
analisando as partes da história que dizem respeito a nossos dilemas humanos.268 Além do aspecto
da sedução, o conto de Cinderela também evoca questões ligadas à ascensão social.
A história dessa Cinderela Negra é repleta de drama, fantasia, sonho, e carrega qualidades
estranhas e imponderáveis. Seja qual for a interpretação dada a Xica da Silva, ela encarna a
mulher que se libertou da pobreza, do desprezo racial e social, da opressão política e da senzala, o
que a torna inesquecível para aqueles que amargam prisões ou medos, para os esperançosos e
sonhadores. Ela sempre será alguém que sofreu, lutou e conquistou a liberdade.
Personagens da época

Alexandre de Gusmão — Filho de um cirurgião, Alexandre Lourenço adotou o sobrenome


de Gusmão em homenagem ao ilustre jesuíta que era seu professor no Colégio de Belém, na
Bahia. Nascido em Santos, em 1695, Alexandre conquistou com brilho o diploma de advogado na
Universidade de Sorbonne, Paris, cidade onde adotou os ideais racionalistas e anticlericais dos
filósofos franceses. Enviado como embaixador na Santa Sé, viveu em Roma por sete anos, num
momento de grande tensão entre Portugal e o Vaticano. Destacou-se na diplomacia como redator
e negociador do Tratado de Madri, que em 1750 estabeleceu as fronteiras entre possessões
portuguesas e espanholas, delineando o atual território do Brasil. Durante vinte anos (1730–1750),
como secretário particular de dom João V, interferiu profundamente nas decisões que se referiam
à colônia brasileira. Foi criador e articulador do sistema tributário de capitação, implantado nas
Minas e em São Paulo durante o governo de Gomes Freire de Andrade. A capitação era um
imposto que não levava em conta a renda do pagador e incluía toda a população pobre, fosse
branca, negra ou mestiça. Cada dono de escravo era obrigado a pagar duas vezes por ano uma
quantia em ouro por cada cabeça de escravo de sua posse. Os negros forros tinham de pagar sobre
si mesmos o tal imposto. A capitação se somou a outros tributos já existentes, como o quinto e as
fintas. Alexandre era irmão de Bartolomeu de Gusmão, o “padre voador”. Sua esposa e seus dois
filhos morreram num trágico incêndio que destruiu sua casa, em 1752. Ele morreu em Lisboa, em
31 de dezembro de 1753.

Ana Quitéria Fernandes de Oliveira — Filha de Xica da Silva e João Fernandes de Oliveira,
nasceu no Tijuco em 20 de março de 1762. Aos cinco anos foi internada no recolhimento das
Macaúbas, tornando-se freira; retirou-se dali para tratar de uma enfermidade em casa e não mais
retornou. Após a morte da mãe, Ana Quitéria casou-se com José Barbosa, cunhado de sua irmã
Mariana. O casamento se realizou na capela da fazenda do Pé do Morro. Ela não teve filhos, mas
criou uma filha natural de seu cunhado, Antônia Vicência, nascida quando o pai já enviuvara. Ana
Quitéria era dona de parte da fazenda do Pé do Morro, herdada do pai. Situada entre os rios
Jequitinhonha e Araçuaí, a fazenda contava com uma morada de casas, um engenho de cana, uma
capela e alguns paióis. Trinta e cinco escravos plantavam algodão, que era beneficiado,
produzindo-se tecidos rudes e roupas. Havia ali o plantio de cana, feijão e milho, e a criação de
cavalos, vacas, ovelhas, porcos, muares e outros animais. Após a morte de sua irmã Rita Quitéria,
Ana Quitéria cuidou também da sobrinha, Frutuosa, com quem morou na fazenda do Buriti. Ana
Quitéria morreu na fazenda do Pé do Morro em janeiro de 1846, aos oitenta e quatro anos.
André de Melo e Castro, conde de Galveias — O governador Melo e Castro (1668–1753),
quarto conde de Galveias, formou-se na Universidade de Coimbra com a intenção de seguir a
vocação eclesiástica. Chegou a ser nomeado deão da capela ducal de Vila Viçosa, mas em 1711
decidiu abandonar a carreira. O rei dom João V enviou-o numa missão diplomática junto ao papa,
em Roma, onde ele acabou por ser nomeado embaixador extraordinário. Dessa forma, participou
de todas as grandes negociações acerca de assuntos eclesiásticos desse período. Em 1º de setembro
de 1732 o conde de Galveias recebeu a incumbência de governar a capitania das Minas Gerais. Seu
governo foi marcado por uma preocupação em aumentar a produção de ouro, explorando novas
áreas. Acompanhado de Martinho de Mendonça, tomou as primeiras providências para sustar a
extração de diamantes. Governou as Minas até 26 de março de 1735. Foi um período de miséria,
desordem, ordens inócuas e violência contra os mineiros. Em 1736, Melo e Castro foi nomeado
vice-rei do Brasil, mantendo-se por treze anos nesse cargo. Homem de temperamento decidido,
mandou prender todos os vereadores da Bahia e determinou que não mais exercessem qualquer
cargo oficial, por terem se recusado a cumprir uma Ordem Régia. Passou à história como a
primeira pessoa a produzir um documento em defesa do patrimônio histórico brasileiro, num
episódio sobre o uso do palácio das Duas Torres, em Pernambuco, construído por Nassau. O
conde de Galveias não se casou, mas deixou um filho, Francisco de Melo e Castro, que seria
governador de Mazagão (Marrocos) e de Moçambique.

Antônia Fernandes de Oliveira — filha de Xica da Silva e João Fernandes, nasceu no Tijuco
em 1768. É a penúltima filha mulher do casal e a única a passar toda a vida no recolhimento das
Macaúbas — por sua escolha. Levava ali uma vida modesta, com apenas uma escrava, Edvirges, a
servi-la, emprestada pela irmã, Maria. Após a morte da mãe, Antônia tornou-se freira. Morreu nas
Macaúbas em data ignorada.

Antônio Caetano Fernandes de Oliveira — Sexto filho do casal Fernandes de Oliveira,


Antônio Caetano nasceu no Tijuco em 9 de fevereiro de 1761, sendo batizado com o nome do avô
materno. Foi com o pai para Lisboa quando tinha cerca de dez anos. Após a morte de João
Fernandes, tornou-se homem de negócios. Substituiu seu irmão mais velho na administração do
morgado de Grijó, quando este retornou ao Brasil. Em 1781, também voltou para o Brasil, a fim
de escapar da nova situação política no Reino, que lhe era adversa. No Tijuco recebeu a patente
de alferes, a de sargento-mor e, afinal, a de capitão de milícias. Exercia diversas funções nas
confrarias do arraial, como a irmandade de Nossa Senhora do Carmo, cuja igreja fora construída
pelo contratador, seu pai. De 1786 a 1821 administrou os serviços da ponte de São Gonçalo; entre
1800 e 1803 trabalhou como escrivão do contencioso, diretamente ligado ao regente dom João.
Em 1805 fez um requerimento solicitando a serventia vitalícia como escrivão do Juízo dos Órfãos
e Ausentes, em Vila do Príncipe. Desde 1791, Antônio Caetano residia no arraial de Paraúna,
Minas, onde morreu em 1841, aos oitenta anos.
Antônio da Costa Peixoto — Autor da Obra nova de lingoa geral de mina. Nascido em
Felgueiras, então província do Entre-Douro-e-Minho, foi para as Minas no início do século 18,
onde se dedicou a escrever manuais de língua para vender e a traduzir a fala de escravos para seus
senhores. Realizava esses trabalhos de forma intuitiva, recolhendo junto aos escravos tanto as
palavras africanas como suas traduções. A Obra nova, escrita em 1741, contendo cerca de
novecentas palavras, é um dos documentos mais importantes da época sobre as relações entre
escravos e brancos na capitania das Minas, assim como no campo da linguística, das religiões de
matriz africana, na investigação sobre a imigração dos minhotos durante o Ciclo do Ouro e ainda,
sobre a organização administrativa da colônia. Nessa obra, Peixoto registra a linguagem usada por
escravos oriundos do golfo da Guiné, que trabalhavam na mineração. O vocabulário foi recolhido
nos períodos em que Peixoto morou em São Bartolomeu, Casa Branca, Cachoeira do Campo e
Vila Rica. Ele morreu nas Minas, sem possuir nada mais que seu cavalo e um escravo.

Antônio Gomes Freire de Andrade, conde de Bobadela — O governador Gomes Freire,


conde de Bobadela, militar e administrador colonial, nasceu no Alentejo em 1685. Na sua
juventude foi moço de fidalgo e fidalgo escudeiro do Conselho do rei dom João V e, depois, de
dom José I. Estudou no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, mas preferiu a carreira
militar, atuando com êxito durante a Guerra da Sucessão Espanhola. Governou o Rio de Janeiro
por trinta anos, a partir de 1733. Dois anos depois da posse como governador do Rio, recebeu
também o cargo de governador das Minas, acumulando, posteriormente, o comando de São
Paulo, Mato Grosso e sul do Brasil. No Rio, realizou diversas obras, como o aqueduto da Carioca,
a Casa dos Governadores e o chafariz da praça do Carmo, e incentivou construções importantes,
como as dos conventos de Santa Teresa e da Ajuda. Promoveu a instalação da primeira tipografia
colonial, logo fechada por ordem da Coroa. Estimulou a criação de academias literárias — a
Academia dos Felizes e a dos Seletos, também de vida breve, mas de histórica atuação. Fez
grandes esforços para controlar a circulação do ouro e organizar a coleta dos quintos. Estabeleceu
um sistema de taxas sobre o ouro das Minas e determinou a imposição de um contrato para a
extração dos diamantes no Serro do Frio. Supervisionou a reforma do arraial de Ribeirão do
Carmo, que passou a se chamar Mariana em homenagem à rainha dona Maria Ana de Áustria.
Atuou intensamente em favor das artes e da educação na colônia. Comandou pessoalmente as
tropas luso-espanholas que lutaram contra os índios guaranis, massacrando-os durante a Guerra
Guaranítica ocorrida entre 1754 e 1756. Apoiava jovens que queriam se dedicar aos estudos, entre
os quais José Basílio da Gama, que, após concluir sua educação na Europa, escreveu o poema O
Uraguai, cujo herói é Gomes Freire. Ao final de seu governo, Gomes Freire tinha prestígio junto
aos reinóis sobretudo pela implantação bem-sucedida do sistema de capitação. Abatido por um
episódio referente à tomada da colônia de Sacramento, quando não conseguiu enviar reforços do
Rio de Janeiro, adoeceu gravemente, morrendo em 1º de janeiro de 1762, sem tomar posse do
cargo de vice-rei para o qual acabara de ser nomeado. Deixou em testamento um valioso
morgado a ser dirigido por seu irmão, uma vez que não se casara nem tivera descendência. Supõe-
se ter tido uma filha bastarda, que vivia enclausurada no convento de Santa Teresa, no Rio.
Pinturas encontradas na Câmara Municipal e em conventos apresentam-no com um rebuscado
porte afeminado, vestido numa armadura reluzente, com punhos e golas em finíssimas rendas
brancas, capa encarnada de veludo, mãos delicadas e alvas, e um olhar cândido.

Antônio Isidoro da Fonseca — Impressor de livros em Lisboa, foi um dos maiores editores
portugueses no período de dom João V. Editava anonimamente as peças de Antônio José da Silva,
o Judeu. Após a condenação desse autor teatral, temendo a Inquisição, Antônio Isidoro fechou sua
tipografia e mudou-se para o Brasil, numa negociação com o governador Gomes Freire de
Andrade, que o incentivou a abrir uma tipografia no Rio de Janeiro — onde ele chegou em
dezembro de 1746. Alguns dos trabalhos impressos na sua tipografia brasileira sobrevivem até os
dias de hoje, como um folheto sobre a chegada do novo bispo ao Rio; o “romance heroico”
intitulado Aplauso; uma coleção de epigramas, ambos em homenagem ao bispo Malheyro; e uma
tese do jesuíta Francisco de Faria. A tipografia de Antônio Isidoro foi fechada após apenas um ano
de atividades, por ordem da Coroa, como resultado da proibição de atividades fabris na colônia e
de regras específicas para publicação de livros, que tinham de ser aprovados pela Mesa Censora
do Santo Ofício — os livros impressos na colônia não estavam seguindo essa determinação. A
ordem também atendia a uma demanda dos livreiros e tipógrafos da metrópole, que não
admitiam concorrência. Antônio Isidoro retornou a Portugal em 1750 e três anos depois solicitou
licença para reabrir sua tipografia no Rio de Janeiro ou em Salvador, mas a licença não foi
concedida.

Antônio José da Silva — Autor teatral. Nascido em 1705, no Rio de Janeiro, filho de um
advogado e poeta, aos sete anos foi vítima de uma perseguição que praticamente dizimou a
comunidade de cristãos-novos em sua cidade. Nessa ocasião, sua mãe foi deportada para Lisboa,
acusada de judaísmo; o pai decidiu segui-la, levando o filho. Em 1725, Antônio José ingressou na
Universidade de Coimbra. Escreveu nessa época uma sátira que deu pretexto à Inquisição para
prendê-lo. Torturado, ficou inválido por semanas, o que o impossibilitou de abjurar, acabando por
fazê-lo num auto de fé. As primeiras edições de seus textos ocorreram em 1736, saídas
anonimamente em Lisboa. Em 1737, logo após a publicação de sua peça Guerras do alecrim e
manjerona, ele foi mais uma vez preso pela Inquisição — denunciado por uma ex-escrava — junto
com a mãe e a esposa, posteriormente libertadas. Mas, torturado de novo, descobriu-se sua
circuncisão. Apesar de uma sentença em que transparecia não ser ele de fato judaizante, Antônio
José foi garroteado e queimado num auto de fé, em outubro de 1739. Tinha apenas trinta e quatro
anos. Autor de grande número de peças teatrais, foi o maior dramaturgo luso-brasileiro do
período colonial. Suas sátiras, que criticavam a sociedade, foram intensamente apresentadas a
partir da década de 1730, tanto em Portugal como no Brasil. Usando o espírito e a linguagem do
povo, Antônio José rompeu com modelos clássicos, introduzindo a música como elemento do
espetáculo. Influenciado por ideias iluministas, ligou-se ao grupo de “estrangeirados” formado por
eminentes personagens da época, como Alexandre de Gusmão.

Antônio Rodrigues Banha — Baiano, formado em cânones, era filho e neto por parte
materna de desembargadores reinóis, sendo o seu pai vereador na vila de Odemira, no Alentejo.
Rodrigues Banha foi desembargador na Relação da Bahia; em 1694 constava como ouvidor-geral
do crime da Relação da Bahia, nomeação assinada por Bernardo Ravasco, irmão do padre Antônio
Vieira. Em março de 1720, Rodrigues Banha foi nomeado ouvidor-geral de Vila do Príncipe da
comarca do Serro do Frio. Quando, em 1721, os diamantes apareceram em grande quantidade nas
lavras do rio Morrinhos, Rodrigues Banha aliou-se ao governador a fim de extraírem ilegalmente
as pedras, omitindo do rei a descoberta. Dessa forma, o ouvidor reuniu uma grande riqueza. Em
agosto de 1723 foram feitas queixas no Conselho Ultramarino contra Banha, por irregularidades
nas cobranças relativas aos direitos régios. Ele levantou a população de Vila do Príncipe contra o
pagamento dos direitos de entrada, além de prender os responsáveis pela cobrança.

Auguste de Saint-Hilaire — Botânico, naturalista e viajante francês, Saint-Hilaire (1779–


1853) veio para o Brasil em 1816, acompanhando a missão do duque de Luxemburgo, enviada
com a missão de resolver um conflito entre Portugal e França quanto à posse da Guiana. Viajou
pelo Brasil no lombo de cavalo ou burro, às vezes abrindo o caminho a golpes de facão. Sofria com
escassez de alimentos, cansaço, riscos, privações, dormia em ranchos de palha ou debaixo de
árvores, em redes; sua mesa de trabalho era a mala de roupas. Precisou muitas vezes atuar como
médico de populações isoladas. Por onde passava, recolhia informações sobre o uso de plantas na
medicina, na alimentação e na indústria. Criou uma obra preciosa não apenas do ponto de vista
botânico, mas também quanto a informações de geografia e geologia, levantando um quadro
vasto das regiões que percorreu: Espírito Santo, Rio, Minas, Goiás, São Paulo, Santa Catarina e
Rio Grande do Sul. Com sua anotação minuciosa, precisa, numa narrativa agradável, informa
sobre ciência e história, enquanto faz verdadeiras reportagens dos costumes, comidas, atividades,
religião, trabalho, produção, trajes, artes, personagens de todas as classes sociais, observações
nascidas de uma vivência íntima e amorosa com o local. Sua obra modificou o modo como os
cientistas europeus viam o Brasil do século 19, reconhecendo no país sua dimensão continental.
Saint-Hilaire esteve em Minas em 1817, deixando uma excelente descrição do Tijuco. Retirou-se
do Brasil em 1822, após ter sido envenenado por mel de vespa. Faleceu na França, aos setenta e
quatro anos.

Bárbara Heliodora — Poetisa, nasceu em São João d’El Rei por volta de 1759. Supõe-se que
descendia da ilustre família paulista de Amador Bueno. Bárbara viveu durante anos com o poeta e
advogado inconfidente Alvarenga Peixoto. Casou-se com ele por decreto do bispo, quando a filha
do casal, Maria Ifigênia, estava com três anos. Tiveram mais três filhos: João Eleutério, João
Damasceno e Tristão Antônio. Ifigênia morreu aos treze anos, em virtude de uma queda de
cavalo. Consta que foi Bárbara Heliodora quem acalentou na alma de Alvarenga Peixoto o sonho
da libertação do Brasil, sem deixar que fraquejasse. Ela participou corajosamente das ideias e
planos da Inconfidência Mineira, sabendo que a pena para esse anseio era a forca. Quando
Alvarenga Peixoto foi preso, sentenciado e declarado infame pela Coroa — ele faleceu em Angola,
tendo a maioria dos bens confiscados —, Bárbara passou a morar com seus filhos e sua irmã.
Suportou com grande dignidade a tragédia da família. Foi declarada demente, mas historiadores
supõem que isso ocorreu apenas para que ela pudesse se livrar de uma ameaça oficial de sequestro
e execução. Viveu seus últimos anos na vila mineira de São Gonçalo de Sapucaí, onde tinha
fazenda de agricultura e de mineração. Acometida de tuberculose, morreu em 24 de maio de 1819.
É tida como a Heroína da Inconfidência. Dos poemas que escreveu, poucos restaram. Alguns
críticos contestam a autoria de um soneto seu, dedicado à filha Maria Ifigênia, e dos versos de
“Conselhos a meus filhos”.

Brás Balthazar da Silveira — Fidalgo português nascido em 3 de fevereiro de 1674, governou


a capitania de São Paulo e Minas do Ouro entre 1713 e 1717. Senhor de São Cosmado, na comarca
de Lamego e comendador de Banhados e de outras comendas herdadas do pai, era de linhagem
nobre e valente. Seu avô, marechal de campo em Flandres e almirante da Armada Real, capitão
de cavalos na Alemanha, governador de Cascais e um dos principais conselheiros de dom João IV,
morreu heroicamente na Batalha das Linhas de Elvas. Moço fidalgo por decreto de dom Pedro II
de Portugal, em 1690, e fidalgo escudeiro, dom Brás Balthazar serviu nas armadas do litoral
português, depois nos Exércitos da Beira e do Alentejo, passando de soldado a sargento-mor de
batalha e a mestre de campo general na Guerra da Sucessão Espanhola. Na Batalha de Almanza,
dom Brás mostrou tanta valentia que, mesmo recebendo três cutiladas na cabeça e sendo
atropelado pela cavalaria do inimigo, aprisionado, arrastado e decomposto, não pediu quartel
nem revelou quem era. A crônica da época refere-se a ele como a um cortesão que vivia de
maneira mais opulenta do que comportavam seus rendimentos. Em fins de 1712, pouco antes de
seguir para as Minas, participou de um sarau festivo no Paço de Lisboa, onde se celebrava o
primeiro aniversário da infanta dona Maria. Mascarado, dom Brás dançou em meio aos fidalgos
da Corte, assistido pelos soberanos e príncipes. Em 1713 celebrou seu aniversário com muita
pompa, numa casa bem iluminada, com artistas que cantavam e tocavam instrumentos, uma
apresentação teatral castelhana e fartura de comida e bebida. Quando governou São Paulo e
Minas do Ouro manteve amores com certa senhora paulista, sendo obrigado a recebê-la em
casamento para não ser morto. Com ela recebeu grande dote. Consta que a matou com veneno,
durante uma viagem marítima para o Reino, em 1718, e que tivera um filho dessa mulher. O
casamento foi anulado, por não ter licenças do rei. Dessa forma, dom Brás pôde casar-se
legalmente com a filha do segundo conde de Santiago e com ela teve três filhas. Enviuvando,
casou-se novamente, com uma dama do Paço e filha do primeiro conde de Povolide. Tiveram
nove filhos. Em 1720 dom Brás foi nomeado governador das armas da província e mestre de
campo general da Beira. No fim da vida governou a fortaleza de Outão. Morreu em 7 de agosto de
1751, sendo sepultado na igreja das Chagas, de Lisboa. Seu filho bastardo se enamorou de uma
freira do convento da Esperança; em combinação com um amigo que namorava sua irmã,
também freira, fugiram ambos, cada um com a sua. Fez outras “asneiras”, sendo por isso
degredado para a Índia, onde morreu. Outro filho de dom Brás, dom Antônio Inácio da Silveira,
foi governador-geral de São Paulo.

Brás Luiz de Abreu — Nascido em Leiria, em 1692, foi enjeitado pelos pais, sendo entregue
para adoção em Coimbra, onde se formou em medicina. Exerceu sua atividade no Porto e em
Aveiro. Em 1718 casou-se com dona Josefa Maria de Sá, com quem teve oito filhos. Por motivos
desconhecidos o casal se separou amigavelmente e ambos abraçaram a vida religiosa. Doutor Brás
vestiu o hábito de São Francisco, qualificando-se duplamente — quando não podia salvar o corpo
do enfermo, encaminhava sua alma ao paraíso. Escreveu diversas obras médicas e alguns textos
literários, como a peça teatral Aguilas hijas del Sol que vuelan sobre la Luna, que celebra a vitória
dos Habsburgo sobre o Império Otomano. No tratado Portugal médico, ele define as feiticeiras:
“[...] recebem o poder maléfico das mãos de Satanás e são suas emissivas. Das partes que roubam
aos mortos fabricam uns pós, com os quais infeccionam as ervas, os frutos, danam a saúde e
provocam discórdias. Espalhando os ditos pós pelo ar, nos caminhos, nas escadas, nas casas, nos
fatos [roupas], nas pias de água benta, e as pessoas que os tocam não tardam em adoecerem,
havendo muitos casos de morte.” A partir de sua denúncia contra os pós que, segundo ele, traziam
o morbus diabolico, em Lisboa foram tomadas sérias providências para não se importar do
estrangeiro os tais pós que espalhavam a peste, fiscalizando-se minuciosamente os navios que
entravam no porto. Conhecido, por motivos evidentes, como Olho de Vidro, o médico Brás Luiz
de Abreu morreu em 1756. Sua vida inspirou um romance do escritor português Camilo Castelo
Branco (1825–1890).

Carlos II e Nelly Gwynn — Carlos II (1630–1685) reinou sobre Inglaterra, Escócia e Irlanda a
partir de 1660 até o dia de sua morte. Com a execução de seu pai em 1649, durante a Guerra Civil
Inglesa, Carlos foi proclamado rei. Mas Oliver Cromwell derrotou-o na Batalha de Worcester,
tornando-se ditador, e Carlos passou nove anos no exílio. Cromwell governou sob a inspiração do
puritanismo, o que acarretou o fechamento dos teatros. Com a morte de Cromwell, uma crise
política levou a Inglaterra à Restauração da monarquia e Carlos retornou, sendo recebido em
Londres sob grande entusiasmo popular. Com a Restauração, o puritanismo perdeu força e os
teatros foram reabertos, surgindo um gênero obsceno, a “comédia da Restauração”. As licenças
teatrais emitidas por Carlos II foram as primeiras na história inglesa a permitirem atrizes
mulheres nos palcos. Entre elas estava Eleanor Gwynn, moça de origem humilde, que se tornaria
a musa da Restauração, amante de Carlos II por longos anos e heroína popular, com uma história
semelhante à de Cinderela. Era a mais famosa atriz da Restauração, de prodigioso talento para a
comédia. Carlos não teve nenhum filho com a rainha Catarina de Bragança, porém reconheceu
diversos filhos ilegítimos com sete amantes, incluindo os dois tidos com Nelly Gwynn.
Apelidavam-no de Velho Rowley, nome de um de seus cavalos que era notável garanhão. Em seu
leito de morte, Carlos II pediu ao irmão para cuidar de suas amantes: “Seja bom com Portsmouth
e não deixe a pobre Nelly passar fome.” Eleanor Gwynn morreu dois anos após o rei, em 1687.

Carlos Julião — Ou Carlo Giuliani, artista luso-italiano que deixou uma obra preciosa de
aquarelas, retratando tipos raciais do império português, em especial do período da mineração no
Brasil. Nasceu em Turim, Itália, em 1740, possivelmente filho de pai português. Em 1763
ingressou como tenente no Regimento Real de Artilharia do Exército em Lisboa. Uma de suas
primeiras missões parece ter sido em Mazagão, última possessão portuguesa no norte africano.
Julião combateu debaixo de fogo, em situações extremamente arriscadas. Como parte do seu
treinamento militar na engenharia, frequentou aulas de desenho que preparavam oficiais para
registrar informações visuais sobre os territórios colonizados. Viajou pelo império português até
1781 como inspetor de fortalezas, tornando-se capitão com especialidade em minas. Na capitania
de Pernambuco participou de uma importante coleta de madeiras. A partir de 1790 serviu numa
missão topográfica em Macau, China. Em 1792 recebeu da rainha dona Maria I o título de
cavaleiro professo na Real Ordem Militar de São Bento de Avis. Três anos depois foi promovido a
major e nomeado para o Arsenal Real do Exército, podendo finalmente dedicar-se ao seu
Dicionário de árvores e arbustos, publicado em 1800. Promovido em 1805 a coronel e a inspetor do
Arsenal do Exército, serviu ainda durante a segunda invasão francesa, em 1809. A autorização ao
pedido de aposentadoria que fez à Coroa chegou tarde demais, já após a sua morte na noite de 18
de novembro de 1811. Durante os seis anos em que serviu na Índia, Julião ilustrou um manuscrito
intitulado “Noticia summaria do gentilismo na Ásia”, no qual seus desenhos e textos reproduzem
crenças da tradição brâmane. Essas imagens estão incluídas no catálogo Riscos iluminados de
figurinhos de negros e brancos dos uzos do Rio de Janeiro e Serro Frio, uma coleção de quarenta e três
aquarelas retratando indígenas, militares, trajes e costumes, escravos e suas atividades – incluindo
a mineração de diamantes. O catálogo também inclui trinta e três ilustrações de cerâmicas e
têxteis indígenas do Peru, confiscados a um galeão espanhol que naufragou na costa portuguesa.

Cláudio Manuel da Costa — O poeta nasceu em 5 de junho de 1729, em Vargem do


Itacolomi, perto da fazenda que pertencia ao sargento-mor João Fernandes de Oliveira. O pai era
um português de origem humilde, que veio moço para o Brasil; e a mãe, filha de bons troncos
paulistas. Viviam de mineração e lavoura. Cláudio morou até os catorze ou quinze anos em Vila
Rica. Assim como seus três irmãos, foi mandado a estudar primeiramente no colégio dos jesuítas
no Rio de Janeiro, onde cursou Filosofia, Retórica, Matemática e Teologia, Letras Gregas e
Latinas, recebendo o título de mestre em artes. Seguiu para Portugal, onde ingressou na faculdade
de cânones da Universidade de Coimbra. Nesse período requereu às autoridades eclesiásticas as
licenças para ordenar-se sacerdote, não as recebendo. Dois de seus irmãos se tornaram padres e o
terceiro morreu enquanto cursava a universidade. Ainda estudante, Cláudio publicou suas
primeiras obras: um romance heroico intitulado Minúsculo métrico, em 1751; o Epicédio,
consagrado à memória de frei Gaspar da Encarnação; e os poemas “Labirinto do amor” e
“Números harmônicos”, em 1753. Nesse ano concluiu a faculdade de cânones e voltou para Vila
Rica, onde estabeleceu uma banca de advogado. Em 1754 exerceu, por dois meses, o cargo de
almotacé da vila de Mariana, eleito pela Câmara. Homem eloquente, erudito e extremamente
afável, em 1759 fazia parte da Academia Brasília dos Renascidos como sócio supranumerário. De
1762 a 1765 exerceu as funções de secretário do governo da capitania, nomeado pelo governador
interino, irmão de Gomes Freire de Andrade. Realizou, na companhia do conde de Bobadela e de
Lobo da Silva, uma viagem “dilatada e aspérrima” por quase dois mil quilômetros aos sertões do
Jacuí, concedendo cartas de sesmarias e provimentos de ofícios, com a intenção de enraizar os
moradores nas terras. O novo governador, conde de Valadares, nomeou-o substituto do
procurador da Coroa e da Fazenda. Em 1768, Cláudio fez publicar em Coimbra o volume Obras,
uma antologia de seus melhores poemas líricos e bucólicos. Organizou no palácio do governador
uma academia, na qual fez o discurso de abertura, recitando onze poemas encomiásticos de sua
autoria. Nomeado juiz das Demarcações de Sesmarias do termo de Vila Rica, exerceu o cargo de
1769 até 1773. Tornou-se amigo de Tomás Antônio Gonzaga, que chegara a Vila Rica na
qualidade de ouvidor-geral. Cláudio não se casou, mas teve duas filhas naturais, Francisca e
Maria. Levava uma vida próspera, distinta, financiada pelos frutos de seu trabalho como
advogado, os lucros de suas lavras e os juros que devedores lhe pagavam. Descoberto o seu
envolvimento na Inconfidência, teve a casa cercada por dragões na madrugada de 25 de maio de
1789. Foi arrancado da cama e aprisionado na Casa dos Contos de Vila Rica. Ali o submeteram a
severos interrogatórios. Combalido, acabou por assinar um termo em que afirmava que a
Inconfidência nunca tivera execução e não passara de conversações teóricas, hipotéticas e
inconsequentes, que estava sendo preso como castigo divino, em virtude de sua maldade, “de sua
libertinagem, de seus maus costumes, de sua perversa maledicência”. Seu depoimento
comprometeu o amigo Gonzaga e há quem acredite ter sido a causa de seu suicídio. Cláudio teria
se enforcado com as próprias mãos, usando um cadarço. Há suspeitas de que ele foi assassinado na
cela. Um de seus versos pode defini-lo (segundo Rodrigues Lapa), “uma alma terna, um peito sem
dureza”. Sua obra, entre o estilo simples e a propensão para o sublime, o inclui entre os maiores
poetas da literatura brasileira.

Edward Hay — Cônsul britânico em Lisboa entre 1754 e 1757, Edward Hay (1722–1779)
testemunhou a catástrofe do terremoto de Lisboa em 1755, o qual descreveu de forma precisa em
cartas enviadas à Inglaterra. Ele fora cônsul britânico em Cádiz, em 1752, quando se casou com
Mary Flower, com quem teve duas filhas, Mary e Margareth. Enviado extraordinário às Cortes de
Lisboa, em 1757, e ministro plenipotenciário dessas mesmas Cortes quatro anos depois,
testemunhou outro episódio dramático: a guerra entre Espanha e Portugal. Governou a ilha de
Barbados a partir de 1772. Sua esposa morreu em 1775 e Edward casou-se novamente, com Mary
Harbourne Barnwell. No mesmo ano de seu casamento, 1779, ele veio a falecer em Barbados.

Felisberto Caldeira Brant — Descendente do rei Henrique III da Inglaterra, filho de


paulistas, Felisberto foi um administrador mineiro riquíssimo e audacioso, nascido no início do
século 18, em ano desconhecido. Homem de natureza requintada, começou a acumular sua
riqueza nas minas de ouro de Goiás por volta de 1735. Teve de abandonar Goiás em 1744,
levando a família, após sua participação numa série de levantes contra o pagamento dos quintos.
Em Paracatu, onde havia minas recém-descobertas, encontrou grandes jazidas; mas, descontente
com os limites da mineração, partiu para o Tijuco. Arrematou o terceiro contrato de extração de
diamantes, de 1749 a 1752, em sociedade informal com seus irmãos Joaquim, Sebastião e
Conrado. Durante sua administração do contrato, o Tijuco cresceu em população, a qual teve
maior liberdade, melhores condições de vida e mais chances de enriquecimento. Mesmo os
garimpeiros eram tolerados. O arraial viveu um tempo de pompa, com inúmeras manifestações
de luxo; reinavam a elegância, o requinte nos trajes, os costumes passaram a imitar a Corte, de
onde se importavam professores de etiqueta. A extração era suficiente para pagar as despesas do
contrato, as dívidas para com a Coroa e ainda havia lucro para ser distribuído em dividendos.
Sabendo do crescente poder que Felisberto exercia no Tijuco e da sua tolerância para com o
contrabando de diamantes, o governador emitiu ordens severas, ignoradas por Felisberto. Foi
enviado um novo intendente em 1751, Sancho de Andrade Castro e Lanções, que intensificou a
vigilância e a perseguição a mineradores, particularmente a Felisberto. O contratador sofreria as
consequências de um misterioso roubo do cofre da intendência, no qual havia grande quantidade
de ouro e diamantes pertencentes ao Contrato. Enquanto isso, as minas de Goiás entraram em
declínio, obrigando Felisberto a retirar dali seus escravos, levando-os para o Tijuco. Com a
administração do ministro Sebastião José de Carvalho, o apoio político com o qual Felisberto
contava no Reino desmoronou. E, no Tijuco, ocorreu a dissidência entre Felisberto e o ouvidor da
Vila do Príncipe, que culminou com uma estocada que só não feriu o ouvidor porque a punhalada
acertou num botão de seu casaco, como já vimos. Aliado ao ouvidor, o intendente iniciou uma
série de processos contra Felisberto, buscando maneiras de impedir seu trabalho na mineração.
Felisberto enviou uma queixa a Gomes Freire de Andrade, o qual determinou que seu irmão,
governador interino, investigasse as queixas. Por outro lado, inúmeras denúncias contra os
Caldeira Brant eram enviadas a Lisboa; alguns acreditavam que aquela família detinha poder
suficiente para tornar o Tijuco independente, entregando as minas ao povo, e que esse era o seu
intento. Para efetuar a prisão de Felisberto, a Coroa precisava ter cautela, pois poderia despertar a
fúria de seus seguidores — que eram maioria na região. Como Felisberto não dispunha de
dinheiro para pagar sua dívida com a Coroa desde o roubo do cofre da intendência, foi acusado de
débito, assim como de forjar o roubo. Preso, Felisberto teve seus bens confiscados. Seguiu para a
prisão da Limeira, em Lisboa, onde ficou aguardando resolução de sua pendência. Quando
ocorreu o terremoto, e Felisberto viu as paredes da cela ruírem, deixando-o livre, apresentou-se
ao ministro Carvalho, que inquiriu sobre a situação do contratador, apurando que era vítima de
intrigas e perfídias. O ministro concedeu-lhe a liberdade, mas ordenou que se prosseguisse na
liquidação das suas contas e no exame do sequestro de seus bens. Após cinco anos de prisão,
Felisberto estava enfermo e seguiu para as Caldas da Rainha, onde esperava se tratar; mas, uma
vez lá, faleceu.

Francisca de Paula Fernandes de Oliveira — Primeira filha de Xica e João Fernandes,


Francisca de Paula nasceu em 7 de abril de 1755. Foi internada nas Macaúbas aos doze anos,
chegando a vestir o hábito de freira. Após a morte do contratador, a mãe solicitou dispensa para
retirar Francisca de Paula a fim de tratá-la de uma enfermidade, o que lhe foi concedido sob
condições, como usar o hábito e manter o cotidiano de religiosa. Logo após a morte de sua mãe,
em 1796, Francisca de Paula se casou com José Pereira da Silva e Sousa, natural do Porto. Ela já
estava com quarenta e um anos e o casal não teve filhos. Em 1808, Francisca residia
provavelmente numa casa no Tijuco, diante do rio São Francisco, que era de sua propriedade; e
tinha como fonte de renda as atividades de plantio e criação na fazenda Buriti, herdada do pai. Ela
passou os últimos anos de sua vida na fazenda do Pé do Morro, onde veio a falecer em 1839, aos
oitenta e quatro anos. Foi enterrada na capela da fazenda, após missa de corpo presente. Piedosa,
deixou parte de sua herança para a celebração de duzentas missas pela alma de seus pais; assim
como dinheiro para a execução de um frontal de ouro dedicado ao Santíssimo Sacramento, na
igreja matriz de São Gonçalo do Rio Preto.

Francisco José Pinto de Mendonça — O intendente Pinto de Mendonça, segundo Joaquim


Felício dos Santos, era de caráter “indulgente e tíbio”, o que muito contribuía para os desmandos
do desembargador João Fernandes de Oliveira em sua ambição de riquezas; “sem a necessária
energia para chamar o contratador ao cumprimento das condições do Contrato, mais o animava a
prosseguir em sua violação”. A morte de Pinto de Mendonça, em 7 de outubro de 1772, constituiu
motivo de dois sonetos, “Ao golpe se rendeu da Parca fera” e “Já lamentastes, ó Serro, a triste
ausência”, que fazem parte de um conjunto de doze sonetos anônimos relacionados com a
comarca do Serro do Frio, sobretudo em sua administração diamantífera. Um desses sonetos é
dirigido ao desembargador João Fernandes: “Nesta eleição, senhor, misteriosa.” O conjunto se
encontra na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

Francisco Mexia — Artista de teatro, de origem humilde, mulato, organizava festas e


apresentações em casas de ópera, em cerimônias públicas e em casas de moradores abastados.
Ajustou com o procurador do Senado a música para a função de coroação de dom José I e para o
te-déum nessa mesma ocasião; utilizando dois coros com seis tiples, seis rabecas, dois rabequins e
trompa, e as vozes necessárias, para a música de três óperas: Labirinto de Creta, O velho Serjo e Os
encantos de Merlin. Por contrato, Mexia era obrigado a aprontar a casa de ópera à sua custa e a
abrir as portas ao público gratuitamente, além de apresentar contradanças nas ruas nos três dias
de comemorações. Para esses festejos, Mexia ajustou o preço de cento e oitenta oitavas de ouro. O
mesmo bispo que o nomeara mestre de capela enviou uma reclamação ao rei, acusando o artista
de “profanidades” em sua música e de haver recusado submetê-las ao exame do atual mestre de
capela, persuadindo outros músicos a fazerem o mesmo. Mas dom José, na sua resposta em 1752,
não apenas se mostrou favorável ao músico como também recomendou ao bispo que parasse com
a atitude repressiva e suspendesse a necessidade de se tirarem licenças para a apresentação
teatral.

Helena Fernandes de Oliveira — É a menos conhecida das filhas de Xica e talvez a mais
desafortunada. Nascida em 15 de maio de 1763, a oitava filha do casal foi levada aos oito anos para
ser educada no recolhimento das Macaúbas, ali permanecendo até 1781. Com dezoito anos passou
a sofrer de uma grave enfermidade e retornou para casa, onde viveu aos cuidados maternos.
Sobreviveu à mãe por uns quatro anos, morrendo talvez em 1800.

Inácio José de Alvarenga Peixoto — O poeta e advogado, nascido no Rio em fevereiro de


1742 ou 1744, era filho de pai português e mãe fluminense, ambos de boas famílias. Fez seus
estudos iniciais no colégio jesuítico do Rio de Janeiro, mas aos oito ou nove anos foi para Braga,
Portugal, onde prosseguiu seus estudos. Começou em 1760 o curso em leis na Universidade de
Coimbra, interrompido entre 1761 e 1763, período em que esteve no Brasil. Formou-se advogado
em 1767, com louvor. Assumiu uma das cadeiras do curso, vivendo ainda da herança paterna.
Nesse período recebeu influência das ideias de liberdade que grassavam na Europa,
compartilhadas com seus colegas Basílio da Gama e Tomás Antônio Gonzaga. Nomeado juiz de
fora de Sintra em 1769, Alvarenga Peixoto exerceu essa função e residiu nessa localidade até 1772.
Designado ouvidor da comarca do Rio das Mortes, retornou para as Minas, estabelecendo-se em
São João d’El Rei. Lá conheceu Bárbara Heliodora, com quem passou a viver em união
consensual, casando-se quando a primeira filha do casal completou três anos. Bárbara e Alvarenga
Peixoto tiveram mais três filhos. Ele era amigo de homens poderosos e partilhava com poetas e
intelectuais as ideias iluministas. Entre essas personalidades estavam Cláudio Manuel da Costa,
seu parente Tomás Antônio Gonzaga, o padre Rolim, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o
Tiradentes, e Joaquim Silvério dos Reis, que seria um dos delatores da Conjuração. Por volta de
1780, Peixoto e Bárbara se mudaram para o sul da capitania das Minas, instalando-se nas
proximidades de São Gonçalo de Sapucaí. Ele abandonou a magistratura e as composições
poéticas para se dedicar aos trabalhos de criação de gado, lavoura e mineração, assim como à
fabricação de aguardente. Investiu quase toda a sua fortuna para abrir um canal de cerca de trinta
quilômetros que abrangesse as melhores minas de ouro da região, fazendo a lavagem de terra.
Atormentado por dívidas fiscais, Alvarenga Peixoto rebelou-se contra o pesado sistema de
tributação imposto pela Coroa, o que o estimulou a abraçar os ideais da Inconfidência. Desde 1785
ele era coronel de um regimento de cavalaria no arraial Campanha do Rio Verde, nomeado pelo
governador Luís da Cunha Meneses. Em maio de 1789 foi preso e levado para a fortaleza da Ilha
das Cobras, no Rio de Janeiro. No primeiro interrogatório nada revelou além do que já se sabia
sobre a Inconfidência. Mas, em janeiro de 1790, enfraquecido pelo isolamento e pelas condições
da prisão, confessou sua participação na conjura. Num julgamento apressado, recebeu a pena de
morte na forca; por haver prestado serviços à Coroa e por ser homem conhecido e formado,
conseguiu que sua condenação fosse comutada para degredo perpétuo na África. Na cela voltou a
escrever sua obra poética. Mandado para Angola em julho de 1792, ficou inicialmente prisioneiro
na fortaleza do Penedo, em Luanda; logo foi transferido para a prisão de Ambaca, mais no
interior, onde contraiu malária, falecendo ainda em julho de 1792 (ou em janeiro de 1793).
Precursora do romantismo, a produção literária de Alvarenga Peixoto apresenta sonetos
extremamente bem-acabados e uma temática dividida entre o amor e a crítica social. Em vida
publicou apenas dois sonetos e uma lira. Pesquisadores conseguiram recolher sua obra, que hoje
soma trinta e três composições, sendo vinte e cinco sonetos. Boa parte desses manuscritos se
perdeu, devido a seu envolvimento na Inconfidência.

Índios aimorés ou botocudos — Os aimorés eram também chamados de botocudos por


usarem batoques na boca e nas orelhas, que lhes davam um aspecto assustador, do ponto de vista
de um europeu. Nos séculos 16 e 17 habitavam o sul da Bahia e o vale do rio Doce, incluindo o
norte do Espírito Santo e Minas Gerais. Falavam a língua macro-jê (não tupi). Composto por cerca
de trinta mil indivíduos, o povo aimoré abrigava-se em cabanas provisórias, cobertas com folhas
de palmeira, e vivia da caça. Aimoré é uma palavra tupi que designa uma espécie de macaco. Esses
índios se denominavam engerakmung. Seus constantes ataques contra colonos portugueses e índios
escravizados dificultaram a instalação das capitanias de Ilhéus, Porto Seguro e Espírito Santo.
Praticavam a antropofagia por razões alimentares, sem rituais. Foram massacrados na Batalha do
Cricaré, travada em 1557 com o objetivo de livrar Vasco Fernandes Coutinho do risco de ataques
dos nativos. Considerados muito hostis, os aimorés sofreram uma implacável perseguição por
parte dos europeus. Dizia-se que atacavam aldeias de puris ou goitacazes, assim como caravanas
de viajantes e fazendas de sesmeiros, incendiando o que encontravam no caminho. Grandes
corredores, guerreiros temíveis, fortes, musculosos, no contato com o branco aprenderam a lavrar
a terra, mas também a fumar e a tomar aguardente. Registros de expedições do século 18
mostram que viajantes evitavam as florestas onde havia botocudos.

Índios puris — Também chamados de telikong e paqui, falavam um idioma do tronco macro-
jê. Habitavam a serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, no Espírito Santo e no Rio de Janeiro até
os séculos 18 e 19, quando foram dizimados ou se miscigenaram com portugueses e brasileiros.
Em algumas regiões aproximaram-se dos colonizadores de origem portuguesa, sendo comum sua
presença nas fazendas como agregados. O termo puri é pejorativo, dado por seus vizinhos, os
índios coroados, e quer dizer gente fraca, de pequena estatura. Segundo alguns historiadores, os
puris eram calmos, apáticos e resignados, mas, quando se enfureciam, tornavam-se vingativos,
jamais esquecendo uma ofensa. Diogo de Vasconcelos, então governador de São Paulo, numa
carta de 13 de outubro de 1775 descreveu-os como “tímidos, medrosos e covardes, não havendo o
que temer deles”. Num relatório de 1801, reproduzido pelo historiador Paulo Pereira Reis em Os
puris de Paicaré, o padre Francisco Chagas Lima diz: “Não se conhecia fato algum de um puri que
haja matado um branco. Quando os homens brancos embrenhavam-se na mata para colher a
planta medicinal poaia, ao encontrarem os puris, estes se punham a correr, arriscando-se
furtivamente a apanharem, para seus usos, as ferramentas dos brancos. O próprio nome ‘puri’
significava, na língua deles, gente mansa ou tímida.” Outros relatos dizem que os puris aceitavam
facilmente a invasão dos brancos e trabalhavam para eles, demonstrando medo e suscetibilidade.
Não roubavam, não mentiam, não eram ambiciosos. Mas também descrevem esses índios como
traiçoeiros e desumanos para com os brancos, provavelmente por atos em defesa de seu território,
família ou tribo. Eram realmente pequeninos: os homens tinham entre um metro e trinta e cinco e
um metro e sessenta e cinco de estatura, e as mulheres, em torno de um metro e quarenta.
Musculosos, achatados, pescoço grosso e curto, suas formas eram arredondadas. Tinham os pés
largos e os dedos grandes, a pele macia, de cor parda-escura, os cabelos compridos, lisos, grossos e
abundantes, de cor negra, e nenhum cabelo nas axilas e peito; o rosto largo, a testa estreita, o nariz
curto, os olhos oblíquos, uma boca pequena e os dentes alvos. Sua língua se caracterizava por um
vocabulário esparso, do qual alguns viajantes fabricavam pequenos dicionários. A dança era um
dos divertimentos favoritos dos puris, que tinham a fama de grandes dançarinos. Suas festas eram
acompanhadas de cantigas que produziam um “alarido infernal”. Cada homem podia ter várias
esposas e casavam-se por afeição. A mulher grávida, ao pressentir o nascimento, internava-se na
floresta, onde preparava uma cama de folhas e dava ali à luz a criança, sozinha, cortando ela
mesma o cordão umbilical e resolvendo por si qualquer complicação que pudesse advir.
Nômades, os puris viviam em habitações provisórias. Sua cama era o chão, que cavavam, fazendo
uma depressão para se acomodar. Acreditavam que um ser poderosíssimo e bom os
acompanhava. Tinham a fama também de grandes feiticeiros. A morte atingia esses índios muito
cedo; eram raros os que viviam até a velhice. Sentiam pavor da morte e evitavam assistir a um
falecimento na tribo; por esse motivo, abandonavam os velhos e enfermos no meio da selva, com
um fogo aceso, lenha, água e comida. Quando morria alguém na tribo, o sepultamento era feito
imediatamente para que os maus espíritos não se apossassem do corpo vago. Com a chegada dos
brancos, no século 18, começaram os confrontos entre puris e portugueses. Foram cometidas
grandes atrocidades contra esses índios, em vingança contra seus atentados; chegavam a usar a
peste de bexigas (varíola) para dizimá-los. No governo de Luís de Vasconcelos e Sousa (1779–
1790) forças militares partiram do Rio para o sertão do Campo Alegre, onde índios
(provavelmente botocudos) estavam assaltando fazendas. Assim os puris foram afugentados da
região. Formaram uma nova aldeia, onde viviam sob a orientação do padre Henrique José de
Carvalho, pároco de Resende entre 1767 e 1789.

João Fernandes de Oliveira Grijó — O filho homem primogênito de Xica e João Fernandes
nasceu no Tijuco em 5 de junho de 1756. Lá provavelmente recebeu as primeiras letras de sua
educação. Aos quinze anos seguiu para Lisboa, onde estava seu pai. Nomeado em testamento o
principal herdeiro e administrador do morgado, que reunia quase toda a fortuna da família
Fernandes de Oliveira, herdou também o direito de gerir as altas quantias do Juízo de Órfãos e
Ausentes em Lisboa. Trabalhou durante longos anos nessa área, emprestando dinheiro a juros
para reinóis, inclusive para famílias nobres em dificuldades — a um marquês endividado após a
morte do pai; a um desembargador que precisava reconstruir suas casas numa quinta, demolidas
pelo terremoto; ou a um nobre que precisava custear o casamento da filha. Em 1779, com a morte
do pai, retornou ao Tijuco, provavelmente levando a notícia para a mãe e encarregando-se das
providências necessárias. Deixou a administração do morgado nas mãos de seu irmão Caetano.
No Tijuco, foi pego de surpresa pelo alvará da rainha dona Maria I, em 1780, que restituía o
mosteiro do Grijó aos agostinianos. Ainda assim, permaneceu no arraial, ocupando cargos nas
irmandades locais, mas foi obrigado a voltar para o Reino, a fim de prosseguir na disputa judicial
contra sua madrasta. Morava em Lisboa, na casa da rua da Lapa, mas passava temporadas nas
propriedades rurais que lhe pertenciam por herança. Em 1784, aos vinte e oito anos, quis casar-se
com Ana Maria, uma filha de lavradores, natural de Guimarães. Como as determinações do
morgado pretendiam uma maior nobreza da família e exigiam casamentos “sempre melhores”, o
tutor de João Grijó opôs-se a essa união, ameaçando-o de perder seus direitos no morgado. João
Grijó recorreu à rainha dona Maria I, alegando que precisava honrar sua amada — dava a
entender que desvirginara a jovem. Argumentou, ainda, que para ele era quase impossível
cumprir as determinações do pai quanto a um casamento com moça de condição superior, uma
vez que não conseguia encontrar na nobreza ninguém que estivesse disposto a lhe dar a mão de
uma filha; e, apesar de sua imensa riqueza, jamais recebera uma proposta de casamento. O padre
encarregado de fazer cumprir as vontades de João Fernandes em seu testamento reforçou essa
ideia, lembrando que o filho do desembargador era nascido de uma “mulher preta”. A rainha
concedeu-lhe a liberdade de se casar com quem escolhesse, sem perder seus direitos no morgado,
e João Grijó casou-se com Ana Maria, com quem teve dois filhos, João Germano e Lourenço João.
Grijó administrou o morgado até o final de sua v