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CINCO TESES SOBRE A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA COMO CONCEITO JURÍDICO

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CINCO TESES SOBRE A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA COMO CONCEITO JURÍDICO 1

Krystian Complak 2

Resumo: Embora não seja possível construir uma definição para a dignidade humana, existem algumas tentativas. Den- tre elas a hipótese do teórico Emmanuel Kant, para quem a dignidade é o valor de que se reveste tudo aquilo que não tem preço, ou seja, não é passível de substituição por equi- valente. Discordando da afirmação kantiana, define-se a dignidade humana como algo privativo do ser humano: a dignidade é destinada exclusivamente ao indivíduo em par- ticular representado pelo ser humano.

Palavras-chave: Dignidade da pessoa humana. Dignidade do ser humano. Dignidade e liberdade.

Abstract: While we can not build a definition for human dignity, there are some attempts. Among them the theoretical hypothesis of Emmanuel Kant, for whom dignity is the value of which is all that is priceless, that is, is not liable for replacement by equivalent. Disagreeing with the claim Kantian, is defined human dignity as something private of

1 Palestra proferida no dia 26 de setembro de 2008, por ocasião da Jornada ESMESC, 20 anos da Constituição: direitos fundamentais/cidadania – seus limites.

2 Dr. Hab. Professor de Direito Constitucional. Universidade de Wroclaw (Polônia). E-mail: complak@ prawo.uni.wroc.pl

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human beings: the dignity is intended for the person in particular represented by human beings.

Keywords: Human dignity. Freedom and dignity.

INTRODUÇÃO

Nesta palestra desejo apresentar a minha opinião sobre a dig-

nidade da pessoa humana em forma de cinco considerações. Creio que as minhas asseverações podem ser ponto de partida para uma discussão sobre a dignidade como noção jurídica capaz de exercer o papel que corresponde a ela. A abordagem deste tema deve ajudar

a empregar essa categoria no atual mundo relativista da época pós- moderna. A corrente doutrinária predominante – o chamado pós- modernismo – não só questiona a utilidade da dignidade humana nas negociações jurídicas, como também nega pura e simplesmente

a sua existência e a sua viabilidade em geral.

I. DEFINIÇÃO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA

No que tange à definição jurídica da dignidade humana, a maio- ria dos cultivadores deste campo do direito não além de não formu- larem tal definição, alegam que é impossível elaborar uma explicação satisfatória sobre seu significado. Outros alegam que só se pode tra- tar de especificar os exemplos de sua violação dando uma espécie de definição negativa da dignidade da pessoa humana. Não é melhor a situação na jurisprudência. Os casos resolvidos exclusivamente com fundamento na dignidade humana são escassos e contraditórios. 3 A maioria das definições da noção em tela baseia-se na filosofia de E. Kant segundo a qual no reino dos fins tudo tem um preço ou

3 Veja-se a minha introdução a uma coletânea dos artigos e a uma seleção dos casos jurisprudenciais

intitulada em polonês “A dignidade do homem como categoria jurídica. Escritos e materias”, K. Com- plak (org.), Godnosc czlowieka jak kategoria prawa (Opracowania i materialy), Wroclaw 2001. Neste livro é apresentada nomeadamente a posição da dignidade da pessoa humana em oito ordenamentos nacionais da Europa (Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, França, Itália, Polônia e Portugal), e ainda no direito da União Européia.

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uma dignidade. Aquilo que não tem um preço pode ser substituí- do por qualquer outra coisa equivalente e relativa, enquanto aquilo que não é um valor relativo é superior a qualquer preço, é um valor interno e não admite substituto equivalente, é o que tem uma dig- nidade. De outro lado, a filosofia kantiana mostra que o homem como ser racional existe como fim em si, não simplesmente como meio; enquanto os seres desprovistos de razão têm um valor relativo e con- dicionado (o de meios), eis por que se lhes chamam coisas; ao contrá- rio, os seres racionais são chamados de pessoas, porque sua natureza já os designa como fim em si, ou seja, como algo que não pode ser empregado simplesmente como meio e conseqüentemente limita na mesma proporção o nosso arbítrio, por ser um objeto de respeito. E assim se revela como um valor absoluto, porque a natureza racional existe como fim em si mesma. Correlacionados assim os conceitos, vê-se que a dignidade é atri- buto intrínseco da essência da pessoa humana, único ser que com- preende um valor interno superior a qualquer preço, que não admite substituição equivalente. Assim a dignidade entranha e se confunde com a própria natureza do ser humano. 4 Levando em conta o acima dito, proponho definir a dignidade do homem como o conjunto (o todo) das únicas qualidades que o distinguem do reino animal e vegetal, as quais asseguram a ele um lugar excepcional no universo. Se o homem é considerado apenas como um mamífero – mesmo mais desenvolvido – seria difícil justi- ficar para ele esse tratamento extraordinário. De outro lado, a iden-

4 A justificativa para a elevação do homem na doutrina cristã é mais simples. Segundo esse entendi- mento, a dinidade da pessoa humana está fundamentada na sua criação à imagem e semelhança de Deus. Dessa vinculação o homem tira a sua singularidade no mundo e no universo e também a sua excepcionalidade. O absoluto caráter incomparável do homem consiste no fato de que a sua dignidade sai além de sua existência. A vida para o ser humano é um estado subordinado a certos objetivos e não uma vida para viver. Em outras palavras, o homem não existe só biologicamente. Ele personifica o rico e sublime mundo espiritual, refletido no saber e sentimentos, inclusive religiosos. Mas a aceituação desta explicação como a de Emmanuel Kant, depende já da cosmovisão de cada um.

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tificação da dignidade com uma transcendentalidade (com o Deus) traz o risco de deificação do homem. Do mesmo jeito, é impossível abranger com essa noção outras criaturas, instituições, ou os fenômenos naturais. 5 Nem é correto falar tampouco da dignidade da mulher, da criança, do jovem, do idoso, etc. O resultado dessas discriminações seria uma possibilidade de opor, por exemplo, a dignidade de certos elementos integrativos do ambiente ao homem, da mãe ao menino (bebê não nascido), etc. A dignidade pertence exclusivamente ao particular como represen- tante do gênero humano.

II. DIGNIDADE DO SER HUMANO OU DA PESSOA HUMANA?

Apesar de alguns teóricos de direito atribuírem a dignidade aos diversos componentes da natureza (fala-se até da dignidade da rocha), mesmo as facetas parciais da realidade (a “dignidade da vida em ge- ral”), nos diplomas normativos internacionais como nacionais - este atributo - está ressalvado à gente. Os documentos do direito interna- cional valem-se – para remeter-se à dignidade – das várias locuções. No preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos do Homem de 10 de dezembro de 1948, alude-se à dignidade dos “membros da família humana”. O seu primeiro artigo liga esta noção com os “seres humanos”. Os preâmbulos de ambos os pactos internacionais dos direitos (civis, políticos, bem como econômicos, sociais e culturais) de 16 de dezembro de 1966, ao referir-se também aos integrantes da família humana, conectam a dignidade à “pessoa humana”. A Convenção Européia para a Salvaguarda dos Direitos do Ho- mem e das Liberdades Fundamentais de 4 de novembro de 1950 não menciona a dignidade. Com ela se relacionam, porém, dois outros

5 Uma tentativa doutrinária de divulgar no Brasil uma nova dimensão, a noção em tela constitui o livro organizado por C. A. Molinaro, F. L. Fountoura de Medeiros, I. W. Sarlet e T. Fensterseifer, intitulado A dignidade de vida e os direitos fundamentais para além dos humanos. Uma discussão necessária. Editora Fórum, Belo Horizonte 2008.

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diplomas jurídicos regionais versando sobre o status pessoal: o art. 5º da Convenção Americana sobre os Direitos Humanos de 4 de novembro de 1969 cita a dignidade da “pessoa humana”; o art. 5º da Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos de 28 de junho de 1981 articula a dignidade com o “ser humano”. Os termos lingüísticos dos documentos internacionais associam

a dignidade somente ao homem. A idéia do homem é em certa me- dida indeterminada. Normalmente sugere uma certa fase do desen- volvimento biológico e psicológico do indivíduo. Por isso é árduo englobar com este rótulo o homem na sua etapa logo do nascimento ou numa fase final da sua vida. Os primeiros tempos de sua evolu- ção são ligados a tais expressões como mamãe, bebê, rapazote (guri, mocinho) ou simplesmente adolescente. Quando se fala de uma pes- soa em idade avançada dá-se o nome de ancião, velho (velhinho) ou até “este era um homem”. Quando se trata de relacionar o concei- to de homem com o seu estágio de formação no seio da madre ou ao contrário com os seus restos mortais numa urna funerária, surge uma dúvida ou inclusive uma objeção (quem é esse “homem”?). De outro lado, pode-se dizer que os conceitos do “ser” ou da “pessoa” sublinham a sua pertença ao gênero humano: a todas as gentes do globo terráqueo. Estes termos apontam a sua humanidade sejam quais forem os traços peculiares de um homem concreto. Em outras palavras, quando se fala do ser ou da pessoa humana frisam- se as características comuns de todos os indivíduos e destaca-se o inteiro gênero humano. A melhor qualificação do homem seria a dignidade do ser hu- mano. Este modismo permite evidenciar melhor a dignidade do ho- mem. Notadamente esta locução facilita a extensão do conceito de

homem até o feto humano, desde os primeiros momentos da sua evolução. Por esta razao, não é fácil chamar um zigoto de pessoa. In- dependentemente de como se definiria a pessoa, esta sempre reflete

a articulação de determinadas propriedades que pemitem distinguir um particular, uma figura ou simplesmente um homem. À união

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de duas células reprodutoras (de uma masculina com uma outra feminina) – o chamado gameta – já se pode denominá-la ser. Ao contrário, é difícil denominar como pessoa o feto humano, ou seja, com menos de dez semanas. Embora a sua nomeação como um ser humano 6 não produza tal resistência.

III. DIGNIDADE E LIBERDADE

Uma das confusões mais graves referentes à dignidade humana diz respeito à sua relação com a liberdade do indivíduo. Às vezes, coloca-se o sinal de igualdade entre a dignidade do homem e a livre decisão (arbítrio) ou a autodeterminação pessoal. Entre ambas as noções existe uma certa afinidade até uma interdependência. Apesar de isso não querer dizer que, no caso de contraste entre a liberdade e a dignidade, a primeira deveria preponderar sobre a segunda. Fosse esse o caso, essa circunstância desmentiria a essência da dignidade humana. Qualquer relativização da dignidade humana minaria o seu caráter incondicional. Tal é também a regulação dos instrumentos do direito internacional e dos tribunais de justiça internacionais em matéria das liberdades individuais. A liberdade do homem pode ser, assim, restringida. Por exem- plo, o art. 5º da Convenção Européia dos Direitos do Homem de 1950 prevê as seis situações nas quais se pode privar uma pessoa de sua liberdade. 7 Não se pode jamais depreciar nem restringir a digni-

6 Este raciocínio é apoiado, p. ex. pela Convenção sobre a proteção dos direitos do homem e da

dignidade do ser humano diante das aplicações da biologia e da medicina, aprovada pelo Conselho da Europa em novembro de 1996. Na exposição de seus motivos, diz-se que o uso da palavra “ser “ em vez da “pessoa” resulta do caráter universal do primeiro termo. Este permite, entre outras coisas, salvaguardar a vida humana a partir da sua concepção. O art. 1 inc. 2 da Convenção deixa à legislação interna de cada um Estado a liberdade de normatizar a salvaguarda das pessoas humanas. Em outras palavras, nos diplomas do direito internacional, a vida é defendida de maneira absoluta, enquanto nas ordens jurídicas nacionais podem-se prever as regulações diferentes nesta seara. Cf. a discussão na França, acerca da mesma diferenciação, apud Rapport de synthèse, publicado por M.-L. Pavia, T. Revet (orgs.), La dignité de la personne humain, Economica, Paris 1999, págs. 166-170.

7 Entre elas, a internação de um alienado mental, de um alcoólico, de um toxicômano, de um vagabun- do. Veja-se I. Lasgabater Herrarte, Convenio europeo de derechos humanos. Comentario sistemático, Civitas Editores, SL, Madrid 2004.

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dade da pessoa humana. De outro lado, como observou o Tribunal Constitucional Federal alemão, “não podem dar-se” 8 casos em que a defesa da dignidade de um homem possa infringir a dignidade do outro.

Não se pode entender a dignidade sem a liberdade. A pesar de sua conexão mútua, não é possível identificar estas duas noções. A pessoa é digna porquanto é livre. Mas não existe a dependência no sentido contrário. A dignidade é total. No caso de colisão, por exem- plo, com a liberdade de expressão, deve-se sempre dar primazia ao respeito da dignidade. Isso pode levar à limitação, p.ex., da liberdade de expressão. Também os direitos individuais podem ser restringidos no caso de choque com a dignidade. 9 E mais, a natureza incondicio- nal da dignidade da pessoa humana pressupõe que ela mesma possa restringir a livre vontade do homem. Por exemplo, ninguém pode exigir o seu aperfeiçoamento genético (ou dos seus filhos) para criar uma espécie de super-homem. A liberdade dá origem ao reconhecimento da liberdade de outra pessoa, enquanto a consideração da dignidade de um outro homem significa algo mais importante. A dignidade impõe os deveres ao indivíduo e ao Estado. A dignidade impõe a solidariedade e faz nas- cer o ditame de uma ação positiva. A contraposição da liberdade à dignidade constitui o menosprezo do ser humano na sua totalidade.

A liberdade sem atendimento à dignidade é uma liberdade alienada.

A dignidade separada da liberdade é uma dignidade periclitante. A

dignidade da pessoa humana – sendo um conceito mais profundo

8 Cf. Ph. Kunig (org.), Grundgesetz Kommentar. Band I. Präambel bis Art t. 20, Munich 1992, p. 80.

Nesta direção aponta a anotação ao art.1 da Carta dos Direitos Fundamentais da União Européia (a dignidade do ser humano) o qual estipula que nenhum dos direitos consignados na presente Carta poderá ser utilizado para atentar contra a dignidade de outrem“, pois essa noção, faz parte da essência dos direitos fundamentais”.

9 Sobre este ponto é explícita a anotação ao art. 1 da Carta (dignidade do ser humano) ao dizer que a dignidade não pode ser lesada “mesmo nos casos em que um determinado direito seja objeto de restrições”.

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que a liberdade – cria grandes possibilidades de interpretação no direito (e também os perigos de seu abuso).

IV. DIGNIDADE E DIREITOS SOCIOECONÔMICOS

Outro ponto delicado da problemática estudada é a relação entre

a dignidade humana e os direitos na seara das dimensões materiais e intelectuais dos particulares. Contrariamente a uma opinião bastan-

te generalizada, a dignidade da pessoa humana não tem nada a ver

com as boas condições de vida. Se fosse assim, isso significaria que a

dignidade pertenceria somente às pessoas que dispusessem do eleva-

do nível de seu conforto (bem-estar) material, o que seria difícil ser

determinado nos casos individuais. Ao aderir conseqüentemente a esta opinião, caberia admitir a graduação da dignidade entre a gente. Em relação a isso, a vida digna corresponderia mais, p. ex., às pessoas que se aproveitassem das prestações sociais ao máximo (ocupando, p. ex., um apartamento espaçoso, bem aparelhado, recebendo um alto auxílio estatal, etc.) que aos indivíduos que moram nas miseráveis condições residenciais com uma prole numerosa, estando sempre em estreiteza econômica, etc. 10

A defesa da dignidade da pessoa tem por alvo a salvaguarda de sua humanidade, isto é, de suas qualidades originais. A estas não pertence com certeza o trabalho. Mesmo no âmbito do chamado marxismo-leninismo, o trabalho não é nada mais que um processo durante o qual o indivíduo se humaniza gradualmente. A sua huma- nização completa é possível só numa sociedade comunista futura.

O trabalho - segundo o comunismo científico 11 – seria, pois, tão-

10 Estas informações podem chocar nos países latino-americanos, os quais não conhecem ainda

este tipo de abusos do Estado social. Na República Federal Alemã não são raros os casos quando os beneficiários do seguro-desemprego estão passando as férias de inverno na Austrália. Por sua parte, os centros penitenciários suecos são tão atraentes entre os delinqüentes europeus que muitos deles sonham com a possibilidade de cumprir pena de prisão lá. Pos vezes estas cadeias lembram mais um spa (estação balnear) ou uma casa de repouso do que as casas de detenção.

11 Assim os comunistas nos antigos Estados do campo socialista chamavam presuncosamente a

sua especulação, no que tange às leis que regiam supostamente as sociedades em vias inevitáveis da extinção do capitalismo e da construção de uma perfeita auto-administração sem classes, integrada pe-

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somente a primeira necessidade do homem, não enquadrada por al- gum poder ou Estado. De outro lado, o emprego de todas as pessoas aptas a trabalhar significaria, no fundo, o dever de trabalhar e seria sempre uma grave e requintada mutilação espiritual e física do ser humano. 12 De outro lado, as relações industriais de hoje atravessam uma evolução caracterizada por uma crescente redução das horas de traba- lho, diminuição de parte do trabalho manual, emprego simultâneo em diferentes lugares, inclusive a necessidade de se aposentar mais cedo, etc. O desenvolvimento da proteção e das prestações sociais faz que esta atividade remunerativa não seja uma fonte única de o homem ganhar a vida. Pode-se dizer que é neste caso que se aplicam outras leis de assistência social, econômica e cultural; o indivíduo manifesta-se apenas como alguém que luta com as adversidades da vida coletiva. 13 O Estado pode voltar-se a eliminar as diferenças sociais e econô- micas entre os seus cidadãos. Este não pode, sem embargo, requerer que todos se ajustem a um nível de vida pré-estabelecido, porquanto se realiza no mesmo grau um indigente que mora por debaixo de uma ponte como um milionário que vai viajando de carro custoso como manda o derradeiro grito de moda. A imposição ao primei- ro de morar numa casa considerada pela sociedade como de classe apropriada, e ao segundo uma taxa do imposto de renda que lhe desprovê de uma possibilidade de viver do jeito preferido não são

los homens novos, harmoniosamente desenvolvidos. Cf. o verbete comunismo no Pequeno dicionário político (em português), impresso na URSS por as Edições “Progresso” em 1980.

12 Esta questão é bem exposta no conto bíblico do Gênese no qual o trabalho aparece como um es-

forço que o homem deve assumir depois de sua queda somada à perda de sua “divindade”: o trabalho, pois, é digno de um homem afetado pela indignidade. Resumindo, o trabalho ao tempo em que contribui pela humanidade do homem, causa ao mesmo tempo a sua indignidade, visto que é um constrangimen- to que lhe assemelha a um animal, a uma maquina, a um instrumento, etc.

13 Isso nota-se precipuamente no direito ao trabalho. Hoje em dia, prefere-se a chamada mobilidade

ocupacional que um emprego permanente. Na França, por causa deste novo fenômeno usa-se o ne- ologismo “emplealidad”. Esta oferece apenas o direto de ordenar a capacidade profissional, mas não dá um direito de ter um emprego. Cf. um opúsculo de P. Kurczyn Villalobos (coordenadora), ?Hacia un nuevo derecho del trabajo?, UNAM, Ciudad de México 2003.

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compatíveis com os seus direitos ao desenvolvimento universal da personalidade. O Estado não pode ditar aos seus cidadãos um estilo de vida uniformizado. O Estado do bem-estar é um exemplo típico da estandardização jurídica do homem. A dignidade humana deve ser analisada como tal – deixando de lado as estruturas sociais e as situações – nas quais ela se manifesta. Se um homem integra quase sempre alguma comunidade, a sua dig- nidade não tem relação hierárquica relativa à dignidade de outras pessoas. Por esta razão é inadmissível o sacrifício de sua dignidade em favor de comunidades ou grupos. Dizendo isso de outra ma- neira, a dignidade nunca pode pertencer a uma classe social, a uma opinião pública ou ao Estado.

VI. A DIGNIDADE HUMANA SEGUNDO A CARTA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS DA UNIÃO EUROPEU

Sem dúvida o maior esforço coletivo de interpretar a dignidade da pessoa humana no tempo presente foi empreendido no dito direi- to europeu. Este processo começou com a proclamação da Carta dos Direitos Fundamentais da União Européia no dia 7 de dezembro de 2000. 14 Este texto passou - desde aquele momento até a sua segunda proclamação, sete anos depois (12 XII 2007) - por várias vicissitu- des da sorte, cujo resultado final é a valorização da sua validade e im- portância legais. A Carta deveria entrar em vigor em 1º de janeiro de 2009, 15 independentemente das diversas controvérsias doutrinárias e práticas (atuais e futuras) relativas à importância deste documento e de um denominador comum das quadrantes jurídicas (ou das eleites

14 Cf. o pequeno comentário feito por A. Vitorino à Carta Dos direitos Fundamentais da União Européia,

Principia, Cascais 2002. Consoante ao autor, a adoção deste conjunto de direitos fundamentais é o re- sultado de um longo percurso, marcado nas últimas décadas por diversas tentativas que não obtiveram o êxito que mereciam ( p. 8).

15 Ja sabemos que em conseqüência da votação popular negativa na Irlanda, o dito Tratado de Lis-

boa e a Carta não entraram em vigor no dia primeiro de janeiro de 2009. Sem embargo, para nós, o mais importante aqui é que as sucessivas modificações da Carta não afetaram os preceitos sobre a dignidade da pessoa humana. Por isso, posso dizer que aquilo que foi elaborado há mais de sete anos mantém a sua vigência.

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dos advogados) nesta seara da maioria dos Estados do continente. Trata-se de uma espécie de contribuição européia a uma discussão mundial sobre a dignidade da pessoa humana. Os seus pontos mais salientes são ao menos seis. Em primeiro lugar, a dignidade da pessoa humana passou a ser um direito fundamental. As tentativas de restringir a dignidade humana a um princípio jurídico (base das liberdades e dos direitos individuais) ou a uma cláusula geral (direito de reserva ou comple- mentar) falharam. Se esta Carta for posta em vigência, a salvaguarda da dignidade do ser humano estará no nosso continente ao alcance de qualquer particular mediante o procedimento judicial. Em outras palavras, a dignidade deixará de ser um lindo valor abstrato ou uma regra de interpretação deste diploma sem muita importância na es- fera legal. Ao contrário, a dignidade assim entendida será um direito subjetivo exigível nos tribunais. A dignidade humana recebeu – por primeira vez – o seu próprio conteúdo normativo específico. Assim o seu âmbito delimita outros direitos ‘dignitários’, como o direito à vida, o direito à integridade da pessoa, bem como as proibições da tortura, dos tratamentos ou penas desumanos e degradantes, da escravidão e do trabalho força- do. Por essa razão, nos domínios indicados, a possibilidade de aplicar autonomamente a dignidade humana está excluída. Em outras pala- vras, a carta remeteu estes tipos delitivos a uma já rica jurisprudência e às regulamentações normativas respectivas. O direito à liberdade em suas diferentes manifestações, como o direito à privacidade, à proteção dos dados pessoais, à religião, ao pensamento, etc., - e regulamentado na Carta como um direito diferente do direito à dignidade 16 - faz com que este não possa ser

16 A Carta ao rejeitar as velhas tipologias dos direitos e das liberdades (políticos, socio-políticos, ge- neracionais, etc.), acabou por reuní-los em seis “valores indivisíveis e universais” (na siguinte ordem):

dignidade, liberdades, igualdade, solidariedade, cidadania e justiça. É curioso comprobar, p.ex., que o direito à educação está inserido no título segundo (das liberdades), enquanto a liberdade de circulação e de permanência ficam no título quinto (cidadania). Esta nova classificação é criticada pelo autor francês

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considerado como um direito equiparado à liberdade em geral ou ao

livre desenvolvimento da pessoalidade. Desta feição, a Carta rejeitou

a arraigada consubstanciação da dignidade do indivíduo com a sua autonomia, introduzida pela lição kantiana nesse ponto. E mais, segundo a Carta, pode-se aplicar a um indivíduo os di-

versos meios de repressão, incluída a pena privativa da liberdade. Es- tão totalmente proibidos a pena de morte, as torturas, o tratamento ou castigos desumanos ou degradantes ou ainda o trabalho escravo (obrigatório). Embora haja a interdição do trabalho não-voluntário,

a Carta legaliza o trabalho forçoso realizado normalmente nos qua-

dros da execução da sanção punitiva de reclusão, de um serviço de índole militar (ou o substitutivo); os encargos requeridos durante os estados de emergência, as fainas e as prestações associadas com os deveres habituais dos cidadãos.

Embora a Carta tenha adotado o princípio do respeito da in-

tegridade física e psíquica do indivíduo, podem-se levar a cabo as práticas encaminhadas ao aperfeiçoamento da espécie humana com

a condição de que estas não têm por finalidade a seleção das pessoas.

No campo da medicina e da biologia se pode empregar o corpo hu- mano – com a reserva da exclusão das ganâncias financeiras. Permi- te-se também a clonagem dos seres humanos com outros objetivos que os de caráter reprodutivo. Consoante a Carta, a dignidade da pessoa humana não pode ser usada para proteger os direitos sociais, econômicos ou culturais. Os esforços de buscar tais possibilidades na sua fraseologia que fala das “condições de trabalho dignas” ou da “existência condigna das pessoas idosas” não se justificam. O adjetivo citado não qualifica as pessoas, mas as circunstâncias de vida peculiares. Outrossim, o epíteto utili- zado pode ser trocado – sem quebrar o seu sentido - com um outro, p.ex., adequado, apropriado, conveniente, decente, merecedor, etc.

D. Capitant e pelo irlandês G. Hogan, apud P.J. Tettinger e K. Stern, Kolner Gemaintschaftskomentar zur Europaischen Grundrechte-Charta, Munchem 2006.

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APONTAMENTOS FINAIS

Não é por acaso que, na virada dos séculos XX e XXI, a digni- dade do homem passou a ser de novo o centro de interesse intensi- ficado. Pode-se comparar este aumento de preocupação pela noção do que acorreu depois da II Segunda Guerra Mundial. Agora, a ra- zão desta nova inquietação são as ameaças originadas pelos avanços biotecnológicos com efeitos para a eugenia, a clonagem, e outras

técnicas voltadas a realçar traços do humano para que seja mais útil, mais pragmático, em conseqüência, menos natural ou espontâneo, etc. Justamente esta possibilidade de criar um ‘homem novo’ voltou

a atenção para a sua posição no mundo.

Até hoje em dia prevalece a opinião de que o homem é algo excelente que merece estima e proteção especiais. O que merece esta consideração exclusiva é o objeto de disputa. A dignidade do ho- mem tanto na versão laica como cristã encontra resistências e ques- tionamentos. Para evitar todas estas acusações de subjetivismo ou de especulações, proponho a definição da dignidade humana baseada nas suas características descobertas pelas ciências que, devido às suas seqüelas práticas, não permitem a sua relativização. A ela contribui designadamente o chamado livre desenvolvimenento da personali- dade. Sem embargo este livre desenvolvimento do indivíduo é um aspeto da liberdade do homem e deve ser analisado na sua óptica. Com relação à liberdade do homem, vale a pena sublinhar o caráter inato e inalienável da dignidade humana, às vezes esquecido quando se estuda esta noção. Por razão da índole inalienável, o indi- víduo não dispõe de sua dignidade, nem pode renunciar a ela nem

a parte dela. Infelizmente, alguns documentos jurídicos esquecem a natureza absoluta da dignidade. Por isso, qualquer consentimento da pessoa no domínio da medicina ou biologia é proibido. Em suma, esta palestra mostra que nos dois últimos séculos a dignidade do ser humano deixou de ser uma nebulosa noção filosófi- ca sem contornos ou um conteúdo determinado. As suas definições,

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nomeadamente a kantiana pecam pela subjetividade. Esta proposta de definição é também arbitrária ao transportar seu centro de gra- vidade para o homem. Independentemente de suas diversas explica- ções, trata-se de um ser mais organizado pela sua inteligência e pelo dom da palavra. Várias áreas do saber estabelecem as suas qualidades que o diferenciam de outros seres, colocando-o - como diz a própria Carta dos Direitos Fundamentais européia - no cerne da ação desta organização. A ênfase nas características do homem comprovadas na prática cotidiana evita o voluntarismo das escolhas dos indivíduos quando se sublinha a autonomia pessoal. Caso fosse necessário determinar um lugar para a dignidade hu- mana no sistema jurídico, dever-se- ia, antes de mais nada, notar que este conceito tem a natureza defensiva. Não é uma nova cláusula geral que pode ser utilizada para ganhar um novo direito ou fazer absolutos as liberdades e direitos reconhecidos. A dignidade do ser humano salvaguarda a humanidade no que é único e ao mesmo tempo comum a todos os humanos. Neste quadro é muito difícil in- fringir a dignidade da pessoa humana. Este tipo de ato deve agredir contra não só o indivíduo concreto, mas simultaneamente contra o homem como representante da espécie humana. A dignidade como categoria constitucional deveria expressar-se em primeiro lugar na legislação e na jurisprudência correspondentes em questões como a engenharia genética, as pesquisas sobre as célu- las-tronco ou embriões dos seres humanos, a clonagem do homem, etc. De outro lado, convém excluir as referências à dignidade do ho- mem nas controvérsias tocantes à reputação, honra, difamação ou ao insulto. Para a sua proteção vigoram as prescrições penais, civis, etc. A mesma exclusão deve reger os temas relacionados à eutanásia, pena de morte, ao aborto e assim por diante. É a problemática do direito à vida. A este respeito o Tribunal dos Direitos Humanos europeu já se pronunciou: não pode coexistir o direito à vida com a sua negação.

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