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edição adaptada bilíngüe

adaptação e tradução:

marilise rezende bertin e john milton

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© da adaptação e tradução 2005 Marilise Rezende Bertin e John Milton

Coordenação editorial Paulo Nascimento Verano

Capa e projeto gráfico Paula Astiz

Editoração eletrônica Cristiane Gaion / Paula Astiz Design

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Shakespeare, William, 1564-1616. Hamlet / William Shakespeare ; [tradução John Milton, Marilise Rezende Bertin]. — São Paulo : Disal, 2005.

Título original: Hamlet. Bibliografia. ISBN 85-89533-38-7

1. Teatro inglês I. Título.

05-6614

CDD-822.33

1. Teatro inglês I. Título. 05-6614 CDD-822.33 Índices para catálogo sistemático: 1. Teatro : Literatura

Índices para catálogo sistemático:

1. Teatro : Literatura inglesa 822.33

Todos os direitos reservados em nome de: Bantim, Canato e Guazzelli Editora Ltda.

Rua Major Sertório, 771, cj. 1, Vila Buarque 01222-001, São Paulo, SP Tel./Fax: (11) 3237-0070

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Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, arquivada nem transmitida de nenhuma forma ou meio sem permissão expressa e escrita da Editora.

Aos meus queridos alunos Frederico, Caio, Camila, Fernando, Gabriel, Juliana, Mário e Pedro, por terem me estimulado a adaptar o clássico shakespeariano.

Aos meus pais Walter e Florinda pelo estímulo constante e sugestões valiosas. A Dirceu Villa e à minha irmã Anelise, pela revisão final do texto em português. A John Milton, sempre tão presente em todos os momentos deste livro.

marilise

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Prefácio

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Introdução

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Hamlet

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Bibliografia

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Ler Shakespeare é difícil. Ele usa um vocabulário aproximado de cem mil palavras, quando seus quase contemporâneos franceses Pierre Corneille (1606-84) e Jean Racine (1639-99) usavam um vocabulário de somente 2 mil palavras. Aproveita-se de palavras regionais de Strat- ford-on-Avon, inventa palavras novas, busca palavras arcaicas, dá sentido novo às palavras já existentes, usa jargão de falcoeiros, de alquimia, de geografia, de exploração, de jardinagem e do cultivo de plantas e árvores, de guerra, de barcos, entre outras áreas específicas. Carrega suas frases com duplo, triplo, quádruplo sentido. Em muitos casos um dos senti- dos alternativos tem associações sexuais, que muitos editores, em épocas mais recatadas, não se atreveram ou não puderam explicar. Em Romeu e Julieta, quase todas as falas de Mercúcio trazem à margem a parte física do amor, contrastando-a com o amor idealizado de Romeu. E as falas do Hamlet “louco” a Ofélia estão cheias desses duplos sentidos. Na Inglaterra, onde o estudo de Shakespeare é obrigatório nos colé- gios, muitos adolescentes se desesperam com a dificuldade e a aparente “chatice” de Shakespeare. Suas falas longas são impossíveis, nunca indo diretamente ao ponto. Em vez de dizer que “está fazendo muito calor”, diz que “Sometime too hot the eye of heaven shines” (“às vezes, o olho do céu [metáfora para sol] arde em demasia”) (Soneto XVIII), e suas piadas são um emaranhado de cipós verbais. Muitos adolescentes ingleses saem do colégio aos 16 anos e nunca mais voltam a ter contato com o Poeta.

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A partir da segunda metade do século 17 até a primeira metade do século 19, as peças de Shakespeare foram consideradas impossíveis de se encenar. O teatro mudara muito desde a época elisabetana. Em vez de tea- tro ao ar livre no fundo de tavernas, assistido pelas várias classes sociais, encontra-se um teatro mais formal, sempre numa sala específica, e um público mais diferenciado. As normas culturais francesas de bom gosto, clareza e beleza dominavam a Europa no final do século 17 e no século 18. Shakespeare foi considerado um “diamante bruto” pelo filósofo francês Voltaire (1694-1778), e suas peças tinham que ser polidas para brilhar. Muitos elementos dramáticos que hoje nem pensamos em questionar foram considerados impossíveis de serem encenados nessa época. Tomemos Macbeth. Macbeth mata o rei Duncan. Na cena seguinte entra um porteiro bêbado, fazendo piadas sobre o dilema que se tem quando se embriaga: tem-se vontade de fazer sexo, mas o excesso de ál- cool é uma barreira grande ao bom desempenho. Para o público francês essa cena foi impossível de ser colocada no palco: i) as personagens de baixo escalão não costumavam entrar no palco; ii) era de muito mau gos- to colocar um bêbado no palco; iii) para piorar, o bêbado fazia piadas sobre sexo; iv) após a morte do rei seria apropriado colocar uma cena solene, não uma cena cômica. Os franceses mudavam muitas coisas e foram copiados por drama- turgos ingleses como John Dryden, que reescreveu Antonio e Cleópatra (All for Love, 1678), e Nahum Tate, cuja versão de King Lear, The History of King Lear (1681) reúne o rei Lear com sua filha Cordélia, que se casa com Ed- gar, num final feliz. O bom gosto da época cortava as cenas mais picantes e vulgares; às vezes o fim era mudado: várias versões de Romeu e Julieta no século 18 permitiram uma cena final com os dois amantes, antes de eles morrerem juntos. As peças tinham que obedecer às regras de tempo, tema e lugar: tudo tinha que acontecer dentro de 24 horas, no mesmo lu- gar, girando em torno de um mesmo tema. Assim, na adaptação feita por Jean-François Ducis – o mais conhecido de todos os tradutores france- ses de Shakespeare – para Othello (1792), onde toda a ação acontece em Veneza, a cena em que Cássio se embebeda é cortada, e a maior parte da ação acontece em ante-salas onde as personagens costumavam encon- trar-se, contando o que aconteceu em outro lugar. No Othello de Ducis o

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papel de Iago é reduzido, o de Brabantio, pai de Desdêmona, aumentado.

A tragédia de Shakespeare torna-se uma lição de moral para filhas deso-

bedientes. Também os nomes próprios são mudados para facilitar a rima dos versos alexandrinos: Desdêmona torna-se Hédelmone; Iago, Pézare; Cássio, Lorédan; Brabantio, Odalbert. João Caetano (1808-63), o dramaturgo brasileiro mais conhecido do século 19, tornou-se famoso por suas encenações de Shakespeare, encenações estas embasadas nas versões reescritas de Ducis. No século 19, o romantismo exigia versões mais fiéis, e na França as traduções de François-Victor Hugo (1828-73) foram as versões mais populares a se- rem encenadas. Também na Inglaterra começava-se a encenar as versões mais fiéis. Porém, a moralidade da época vitoriana (1837-1901) impedia que as piadas e referências sexuais de Shakespeare fossem enfatizadas. Edições para colégios expurgaram essas referências. Outras edições dei-

xavam de explicar tais frases. De fato, e somente nos últimos 30, 40 anos, editores e professores têm tido mais liberdade para discutir abertamente

os trocadilhos sobre sexo. Encenações de versões completas de Shakespeare em português são relativamente recentes. A partir de 1871, houve visitas de várias compa- nhias estrangeiras ao Brasil para encenar as tragédias de Shakespeare em italiano, espanhol e francês e no português de Portugal, mas a primeira encenação de uma versão completa de uma peça de Shakespeare parece ter sido a de Romeu e Julieta, do Teatro do Estudante, no Rio de Janeiro em 1938. A adaptação mais conhecida de Shakespeare é Tales from Shakespeare (Contos de Shakespeare, 1878), dos irmãos Charles e Mary Lamb, escrita na época vitoriana. Narra, em forma de conto, de modo bastante açucarado,

as peças mais conhecidas, dirigidas a um público juvenil. Mais tarde, os

Contos de Lamb foram traduzidos e adaptados para muitas outras línguas, inclusive o português. De fato, muitos jovens no mundo inteiro, que le- ram Shakespeare através das versões de Lamb, pensam que Shakespeare é um romancista! Hoje em dia, existe uma seleção muito grande de adaptações das obras de Shakespeare em língua inglesa, dirigidas a várias faixas etárias.

Em português, há muito menos material disponível.

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Esperamos que vocês apreciem a nossa adaptação de Hamlet. Tenta- mos manter a essência do original. Cortamos certas divagações e repe- tições que tivessem pouca coisa a ver com o desenvolvimento do drama. Modernizamos expressões e formas verbais arcaicas. Explicamos quando necessário. Não censuramos os duplos sentidos sexuais. Boa leitura!

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John Milton

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Qualquer discussão sobre a vida de William Shakespeare sempre estará repleta de superlativos. Durante um quarto de século de sua vida, Shakespeare escreveu aproximadamente 38 peças. Analisando-as in- dividualmente, muitas estão entre os mais belos trabalhos escritos; to- mando-as como um todo, colocam Shakespeare como o maior talento da era elisabetana, período áureo da história da Inglaterra governado pela rainha Elizabeth, entre 1558 e 1603. Muito mais impressionante que isso é o fato de esse feito criativo ter ultrapassado qualquer era, visto que suas peças são lidas e encenadas até os dias de hoje, nos mais diversos países. Não é de se estranhar, portanto, a quantidade de biografias escritas sobre Shakespeare desde a sua morte até os dias de hoje, passados quase quatrocentos anos. Pesquisas sobre a sua vida provêm de dados e regis- tros antigos, encontrados na igreja local em Stratford-on-Avon, cidade em que nasceu, bem como em repartições públicas de registros do con- dado, e bibliotecas como a Folger, em Washington. Alguns autores teatrais, entre amigos e inimigos, escreveram sobre Shakespeare e suas peças, ora criticando o autor e sua obra, ora elogian- do-os. Essa é também uma forma de se obter informações sobre a vida do grande poeta e dramaturgo. Todos os dados sobre a vida pessoal de Shakespeare levam a um indivíduo excessivamente prático, homem do teatro, mas também envolvido em círculos comerciais, capaz de fazer um

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pouco de tudo; ganhou dinheiro com suas peças, aposentou-se relativa- mente cedo e investiu sua fortuna em casas e terrenos. Através da pesquisa de documentos, chega-se à conclusão de ter sido ele o autor das famosas peças, descartando-se a idéia de que tivessem sido escritas por outras pessoas, como Francis Bacon, por exemplo. Há um consenso de que Shakespeare possa ter tido a colaboração de outro dramaturgo na peça teatral Os Dois Nobres Parentes, e que a peça Henrique VIII fora terminada pela mesma pessoa, possivelmente John Fletcher.

Vida

Registros paroquiais fornecem a informação de que William Shakes- peare foi batizado em 26 de abril de 1564. Seguindo a tradição da igre- ja anglicana, que batizava três dias após o nascimento, acredita-se que William Shakespeare possa ter nascido em 23 de abril, dia do patrono nacional da Inglaterra, são Jorge, na cidade inglesa Stratford-on-Avon. William foi o terceiro filho de oito de John Shakespeare e Mary Arden. Ela tinha posses e pertencia a um nível social superior ao de John, fabri- cante de luvas, que conseguiu aumentar seu humilde patrimônio sain- do-se bem financeiramente. Tornou-se membro do conselho da cidade, mas no início da adolescência de William passou a enfrentar dificuldades financeiras. Acredita-se que William Shakespeare freqüentou a grammar school, escola para onde iam os alunos a partir dos 11 anos. O dia letivo era lon- go, começando às seis horas da manhã e indo terminar às cinco da tarde, e era interrompido apenas brevemente para uma refeição e rápido inter- valo. As aulas iam de segunda-feira a sábado, e lá se estudavam as gran- des obras clássicas em grego e latim, que serviriam de base, futuramente, para a construção da obra de Shakespeare. Com a decadência financeira de seu pai, acredita-se que William Shakespeare teve de deixar a escola e trabalhar, nunca tendo freqüentado uma universidade. Em 1582, com a idade de 18 anos, William Shakespeare casou-se com Anne Hathaway, oito anos mais velha que William, grávida de três meses. Seis meses após o casamento, nasceu Susanna, em 1583, e em 1585 vieram os gêmeos Hamnet e Judith.

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Nada se sabe sobre sua vida, durante um período que vai do nasci- mento dos gêmeos até seu aparecimento como dramaturgo em Londres, em 1592. Nesse período, nomeado pelos críticos de “anos perdidos”, imagina-se que saiu de Stratford em busca de emprego, e que passou por vários até se estabelecer como ator e dramaturgo em Londres. Passou a morar em Londres, voltando raramente para casa, em Stratford. Em 1594 Shakespeare tornou-se ator e escritor da companhia Os Homens de Chamberlain, que apresentava peças para a rainha Elizabeth, grande admiradora do teatro. Essa companhia passou a ser chamada de companhia dos “homens do rei” durante o reinado de James I, que suce- deu Elizabeth. Shakespeare permaneceu na companhia até o fim de sua carreira em Londres. Acredita-se que, como ator, fazia papéis pequenos de homens idosos, como, por exemplo, o fantasma em Hamlet. Quando sua carreira como dramaturgo começou a deslanchar, Shakespeare passou por uma tragédia familiar: a morte de seu filho Ha- mnet aos 11 anos, ocorrida em 1596. Acredita-se que passou a ficar mais próximo de sua família a partir desse momento, dividindo-se entre o tea- tro, em Londres, e sua terra natal. Comprou uma mansão em Stratford, conhecida como New Place, e investiu no comércio de grãos até 1611. Não só comprou casas em Stratford como também em Londres. Aos 48 anos era um homem praticamente aposentado. Retornou a Stratford em 1613, morrendo três anos mais tarde de causa desconhecida.

Obras

Shakespeare publicou, no início de sua carreira, dois poemas narra- tivos em estilo renascentista – Vênus e Adônis (1593) e Lucrécia (1594). Os Sonetos, sua poesia não dramática, foram 154, e intrigam os especialistas, por serem endereçados a um jovem não identificado. Não se sabe a data exata da produção dos sonetos, mas acredita-se que foram escritos por volta de 1594. Os críticos estabeleceram uma lista cronológica das peças, baseada nas datas das primeiras edições, após a morte do dramaturgo, em no- tícias da época sobre as representações e na evolução do verso shakes- peariano. Esses dados permitem dividir a obra em três grandes fases, que

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correspondem ao período de formação (até 1595), à maturidade (entre 1600 e 1608) e aos últimos anos da vida do autor (fase que se estende até 1613). É importante mencionar que as datas da produção das peças são uma tarefa difícil e frustrante: podem variar de acordo com a fonte de informação.

Primeira fase. O drama Henrique VI (1589-92), em três partes, ini- cia o ciclo sobre a história da Inglaterra; segue-se Ricardo III (1592-3), uma das peças mais famosas do dramaturgo, protagonizada pela figura demoníaca do rei Ricardo III. A Comédia dos Erros (1592-3), inspirada no comediógrafo romano Plauto; Os Dois Cavalheiros de Verona (1589-93) ba- seia-se no argumento de um longo romance espanhol em prosa; A Me- gera Domada (1593-4) é uma comédia de costumes; Titus Andronicus (1593- 4) é uma tragédia violenta, à moda romana, e Trabalhos de Amor Perdidos (1594), que pode ter sido escrita mais tarde, pois conta com um trabalho de língua mais sofisticado, de certa forma incompatível com aquele de sua primeira fase criativa. É dessa época a primeira das grandes tragédias shakespearianas, Romeu e Julieta (1594). O ciclo das peças históricas continua com Ricardo II (1595), Rei João (1595) e as duas partes de Henrique IV (1596-7), a mais importante das peças históricas de Shakespeare. Segue-se Henrique V (1599). As comédias escritas entre 1596 e 1602 têm muito em comum. O tema é o amor e todas terminam em casamento. As histórias derivam de novelas e comédias italianas, contos ingleses. Sonho de uma Noite de Verão data de 1595, As Alegres Comadres de Windsor foi escrita por volta de 1597. O Mercador de Veneza (1596) é protagonizada por Shylock, judeu que preten- de usar a justiça para uma terrível vingança contra Antônio, o merca- dor cristão. Outras comédias: Muito Barulho Por Nada (1598), Como Gostais (1599) e Noite de Reis (1601), que é provavelmente a última das grandes comédias shakespearianas. Ainda por volta de 1599, após as peças sobre a história inglesa, Shakes- peare iniciou com Júlio César (1599) o ciclo das tragédias romanas.

Maturidade. As peças escritas por Shakespeare entre 1600 e 1608 têm em comum uma visão fundamentalmente pessimista e amarga da

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existência e a profundidade no tratamento das paixões, conflitos e con- tradições da natureza humana. Destacam-se as grandes tragédias: Hamlet

(1600), Othello (1602-3), Rei Lear (1605) e Macbeth (1606), obras em que

o magistral estudo dos protagonistas é realçado; são verdadeiras obras-

primas de linguagem poética. A maturidade de Shakespeare se expressa igualmente nas sombrias comédias Troilus e Cressida (1600-3), Tudo Está Bem Quando Acaba Bem (1601- 2), Medida Por Medida (1603). Completam o ciclo romano Antônio e Cleópatra (1607-8) e Coriolanus (1608). Timão de Atenas (1604-6) pode ter sido aban- donada pelo autor, pois não se compara em qualidade às outras obras da fase madura. Péricles, escrita entre 1606-7, é considerada um romance.

Últimos anos. A Tempestade (1610), que demonstra o alto vigor criativo de Shakespeare, Cimbelino (1609), Conto de Inverno (1609), Dois Nobres Parentes (1611) e Henrique VIII (1613), estas duas últimas provavel- mente escritas com a colaboração de John Fletcher.

O teatro na época de Shakespeare

Quando William Shakespeare chegou a Londres, encontrou uma cidade em grande desenvolvimento. Londres, que na época do rei Hen-

rique VIII era uma cidade de 50 mil habitantes, passou a ter uma popu- lação de 200 mil sob o reinado da sucessora e filha de Henrique VIII,

a rainha Elizabeth. Com a derrota da Armada Espanhola no mar pelos

ingleses, a Inglaterra passou a ter o domínio dos mares, bem como al- cançou um crescimento econômico jamais visto. Superpovoada e suja, Londres era o centro onde fervilhavam o comércio e as diversões, como

a luta de bois ou ursos. O teatro floresceu na região pobre de Londres,

mas também nas apresentações dirigidas à rainha, afeiçoada às artes, em especial ao teatro. Ela tinha uma companhia que lhe apresentava peças e, estimulados por seu interesse, bem como pelo interesse da população, os teatros e atores passaram a crescer em Londres, tornando-se a encenação uma profissão lucrativa àqueles que caíam nas graças da rainha com suas apresentações. Esses atores e dramaturgos, quando faziam grande suces-

so, alcançavam prestígio, podendo ter participação nos lucros das vendas

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de ingressos, ou mesmo dirigir um teatro. O teatro era um dos maiores divertimentos da época, igualando-se, de certa forma, às novelas de hoje em dia. Durante a temporada das apresentações teatrais, que acontecia na estação quente, o público freqüentava as casas teatrais, independen- temente do nível social. No entanto, havia um importante motivo que impedia as apresenta-

ções de acontecer, e os teatros eram obrigados a fechar. Esse motivo era

a grande peste. Ela devastava a cidade, a população perecia, e os teatros eram fechados. A peste era vista como castigo de Deus ante a maldade

da cidade, e a igreja anglicana aproveitava a situação para incriminar os atores da época que, segundo ela, traziam a corrupção e os maus exem- plos. Na verdade, a peste surgia como conseqüência da falta de condi- ções básicas de higiene. Dizimou grande parte da população londrina em 1564, 1592-3, 1603 e 1623, fazendo um número total de cem mil vítimas. Com os teatros fechados, não restava muito que fazer. Acredita-se que Shakespeare aproveitou um dos fechamentos dos teatros para escrever os sonetos que foram publicados por volta de 1594, produzidos durante

o período da peste. Como já foi dito, os teatros ficavam nos subúrbios de Londres, pró-

ximos a bordéis e tavernas. Por conta da má reputação dos teatros e ato- res, nem se pensava em admitir a presença de mulheres como atrizes. Daí

a solução encontrada pelos diretores teatrais de contratar garotos, que

eram treinados desde cedo na arte da encenação, aprendendo a dançar, cantar e imitar gestos femininos, para desempenhar personagens femi- ninas. Quando se tornavam adolescentes e suas vozes engrossavam, dei- xavam de representar papéis femininos, e outros garotos tomavam seus lugares. Não só garotos faziam papéis femininos. Na ânsia de se ganhar di- nheiro fácil, alguns diretores de teatros passaram a contratar crianças para encenar peças inteiras. Essas crianças atuavam num tom comovente, mas exagerado, encantando a população mais humilde, mas eram critica- das por dramaturgos e diretores rivais, que, em contrapartida, buscavam, através de cenas fortes no palco, atrair cada vez mais um número maior de espectadores, com o intuito de obter maiores lucros. Esse fato é men- cionado na peça Hamlet, no momento em que os atores chegam à cidade.

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Eles são atores errantes, sem teatro próprio, e passam por dificuldades, pois “eles têm que competir com um grupo de crianças que gritam suas falas e recebem ultrajante aplauso por isso”. (Hamlet, Ato II, Cena II).

A universalidade e popularidade de Shakespeare – Bardolatria

A resposta para a pergunta “Por que Shakespeare?” deve ser “Quem mais existe?”.

(Harold Bloom, crítico literário, no livro Shakespeare, a Invenção do Humano)

Desde a morte de William Shakespeare, suas peças têm sido quase que continuamente traduzidas e encenadas em todas as partes do mun- do. Nenhum escritor teve suas obras tão citadas como Shakespeare. Elas têm sido assunto para exame contínuo de críticos que tentam explicar a razão da perenidade desse encantamento que suas peças proporcionam, que não deriva de nenhum conjunto de idéias específicas. Na verdade, Shakespeare foi até criticado por alguns por não se atrelar a nenhuma fi-

losofia, religião ou ideologia particular. O motivo de Shakespeare conti- nuar tão atual durante todo esse tempo é que ele explorou, como poucos souberam fazer, os mais diversos aspectos da condição humana, criando tramas e personagens tão particulares quanto universais. Entre tragédias e comédias, suas peças ganharam popularidade, quer pela singularidade

de suas tramas, quer pela densidade de suas personagens, como Hamlet,

quer pela eloqüência das falas dessas personagens: um discurso vívido, forte, e ao mesmo tempo lírico, poético. As personagens shakespearianas não são nem totalmente boas nem totalmente más, e suas falhas, fruto da natureza inconsistente que exibem, as tornam memoráveis.

O Bardo, ou Poeta, como é conhecido, foi estudado, criticado e ido- latrado por séculos. Essa Bardolatria, ou adoração ao Bardo, alcançou seu ponto mais alto durante o reinado da rainha Vitória na Inglaterra, no século 19: em cada casa inglesa, ao lado de uma bíblia ostentavam-se o livro das obras completas de Shakespeare e o Peregrino, de John Bunyan.

O nome do dramaturgo foi usado como propaganda de guerra, é marca

de chá inglês, enfim, se faz presente numa mídia que comercializa seu

nome até hoje.

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Empresas cinematográficas passaram a produzir filmes baseados nas peças de Shakespeare. Com mais de 250 filmes produzidos, adaptações

se perdeu, escrita, segundo os estudiosos, algumas poucas décadas antes do texto consagrado. Shakespeare compôs uma personagem fascinante,

de filmes shakespearianos como o Romeu + Julieta, de Baz Luhrmann, com

capaz de encantar leitores e espectadores com sua infinidade de sentidos

Leonardo De Caprio; Shakespeare Apaixonado; e o mais recente O Mercador de Veneza, com Al Pacino, provam que tanto adaptações de filmes do Bardo,

e

interpretações. O dilema do príncipe e homem Hamlet, entre sentimentos errados

como filmes de suas obras continuam a atrair o público. Outro exemplo

e

ações corretas, transcende o homem do período elisabetano, fazendo-o

de filme bem-sucedido baseado em obra shakespeariana é O Rei Leão, da Walt Disney, que é uma adaptação de Hamlet tanto para crianças como para adolescentes e adultos. Sem falar em Kenneth Branagh, ator e dire-

um homem de todos os tempos. Na sua difícil luta, ao atuar num mundo corrupto e mesmo assim manter sua integridade moral, Hamlet reflete o destino de todos os seres humanos.

tor inglês apaixonado por Shakespeare e especializado em fazer adapta- ções de sua obra para o cinema. No Brasil, tanto as adaptações como os enredos shakespearianos fa- zem grande sucesso, nas novelas, principalmente. O Cravo e a Rosa foi uma novela que adaptou a peça A Megera Domada. Porto dos Milagres misturava os enredos de Hamlet e Macbeth. Citações famosas do dramaturgo estão pre- sentes não só no nosso vocabulário corriqueiro, como em novelas tam- bém, o tempo todo. Mais recentemente, a novela Senhora do Destino exibiu uma cena onde dois irmãos adolescentes, com o pretexto de querer sen- sibilizar a população para os desmandos do próprio pai, prefeito da ci- dade fictícia de São Miguel, onde moravam, vêm a público exibindo uma grande faixa com os dizeres: “Há algo de podre no reino de São Miguel”. Esse episódio foi ao ar no dia 15 de fevereiro de 2005 e parodia a famosa “Há algo de podre no reino da Dinamarca”, dita pelo Bardo em Hamlet e desde então eternizada.

Marilise Rezende Bertin

Hamlet

Hamlet, escrita por volta de 1600, é, sem dúvida, a peça teatral mais famosa do mundo. Essa tragédia é um marco no desenvolvimento dra- mático de Shakespeare, que atingiu maturidade artística nesse traba- lho através da sua brilhante descrição da luta do herói com duas forças opostas: sua integridade moral e a necessidade de vingar o assassinato de seu pai. Acredita-se que, ao escrever sua peça Hamlet, Shakespeare tenha se baseado num texto pré-existente chamado Ur – Hamlet – uma peça que

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horácio

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voltimando

cornélio

rozencrantz

guildenstern

osric

marcelo

bernardo

francisco

reinaldo

Rei da Dinamarca Filho do rei anterior da Dinamarca, sobrinho do rei atual Lorde Chamberlain Amigo de Hamlet Filho de Polônio

Cortesãos Oficiais Criado de Polônio
Cortesãos
Oficiais
Criado de Polônio

Atores

Dois coveiros

fortimbrás

Príncipe da Noruega

Um capitão Embaixadores ingleses

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rozencrantz

guildenstern

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marcellus

bernardo

francisco

reynaldo

King of Denmark The former King of Denmark’s son, also the present King’s nephew Lord Chamberlain Hamlet’s friend Polonius’s son

Courtiers Officers Polonius’s servant
Courtiers
Officers
Polonius’s servant

Players

Two Gravediggers

fortinbras

Prince of Norway

A Captain English Ambassadors

gertrudes

Rainha da Dinamarca e mãe de Hamlet

gertrude

Queen of Denmark, and Hamlet’s mother

ofélia

Filha de Polônio

ophelia

Polonius’s daughter

O fantasma do pai de Hamlet

Um fidalgo, um padre, nobres, oficiais, soldados, marinheiros, mensageiros e outros acompanhantes

cenário: dinamarca medieval, castelo de elsinore

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Ghost of Hamlet’s father

A Gentleman, a priest, lords, ladies, officers, soldiers, sailors, messengers, and other attendants

scene: medieval denmark, elsinore castle

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Elsinore. Uma plataforma diante do castelo

francisco de guarda. Entra bernardo.

Elsinore. A Platform before the Castle

francisco on guard. bernardo enters.

bernardo

Quem vem lá?

bernardo

Who goes there?

francisco

Não, você responde. Pare e identifique-se.

francisco

No, you answer. Stop and identify yourself.

bernardo

Viva o rei!

bernardo

Long live the King!

francisco

Você chegou na hora.

francisco

You’ve come right on time.

bernardo

Acaba de dar meia-noite. Vá se deitar, Francisco.

bernardo

The clock’s just struck twelve. Go to bed, Francisco.

francisco

Eu vou, obrigado. Está muito frio, e estou com um aperto no

francisco

I will, thanks. It’s freezing cold and I’m sick at heart. Quiet

bernardo

coração. A guarda foi tranqüila. Nem rato se mexeu. Bem, boa noite. Se você encontrar Horácio e Marcelo, diga para

bernardo

guard, you know. Not a mouse moving. Well, good night. If you see Horatio and Marcellus, tell them to

francisco

eles se apressarem. Parece que os escuto. Quem vem lá?

francisco

hurry up. I think I can hear them. — Who goes there?

Entram horácio e marcelo.

horatio and marcellus enter.

horácio

Amigos deste país e súditos do rei da Dinamarca.

horatio

Friends of this country and servants of the Danish King.

francisco

Boa noite a vocês dois.

francisco

Good night to you both.

[francisco sai.]

[francisco exits.]

marcelo

Ele apareceu novamente esta noite?

marcellus

Has it appeared again tonight?

bernardo

Não vi nada.

bernardo

I’ve seen nothing.

marcelo

Horácio acha que é imaginação nossa e não acredita em nós. Por

marcellus

Horatio thinks it’s our imagination and won’t believe us. So I’ve

horácio

isso eu pedi a ele para vir hoje à noite: se o fantasma aparecer, acreditará em nós e falará com ele. Ora, deixem disso!

horatio

begged him to come tonight because if the ghost appears he’ll believe us and speak to it. Oh, come on!

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