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Modernismo e espaço público:

o Plano Agache do Rio de Janeiro

Vincent Berdoulay*

Modernism and Public Space: Rio de Janeiro’s Agache Plan

Rio de Janeiro’s Agache plan, developed under the supervision of French urbanist Alfred Agache at the end of the 1920’s, is a great achievement of a planner who followed the guidelines of urban ecology. This is why the concept of modernity which is embedded in the plan is somewhat different from the one defended by modernist architects of the time, such as Le Corbusier. Agache sees the city according to a functionalist view. The richness and complexity of social life, and the multipleforms by which it manifests itself in

urban space, seem not to have called his attention. This is not to say, however, that he was insensible to the confrontations of opinions and acts which characterize the city. He was aware of them but downgraded their analytical possibilities. This is why, in his plan, city dwellers ended up playing the role of city inhabitants rather than that of citizens.

Keywords: Urbanism, public space, ecology, health.

Resumo

A preocupação atual em delimitar os princípios de um desenvolvimento urbano

sustentável evoca freqüentemente a redefinição da participação popular nesse processo. Ao fazê-lo, remete esse clamor contemporâneo a uma discussão anterior e essencial, acerca da organização do debate público e da sua inscrição no espaço. Nesse sentido, admite-se que é possível encontrar elementos interessantes para a reflexão dos espaços públicos nos dias de hoje através de uma interpretação da sua constituição no passado.

É justamente nesse intuito que se propõe aqui uma análise do Plano Agache,

parcialmente aplicado na cidade do Rio de Janeiro durante os anos 30. Ao refletir sobre as conseqüências diretas e indiretas da sua intencionalidade direcionada a organização dos espaços na cidade, pode-se especular que a riqueza da vida social, a sua complexidade e as suas múltiplas formas parecem por vezes estarem conscientemente colocadas de lado. Dessa forma, será discutido como, em sua concepção positivista, o urbanista abria mão de certas dimensões fundamentais para a constituição espaço público, tornando-o paralisado, passivo, ou seja, uma área onde o habitante é mais citadino que cidadão.

Introdução

Juntamente com a crítica pós-modernista da sociedade, se manifesta um interesse crescente pelo espaço público nos últimos 25 anos (GOMES, 2002). No que tange ao urbanismo, sabe-se que alguns argumentos modernistas reduziam bastante a importância dos espaços públicos tradicionais (chegando até a recomendar a eliminação da rua), mas a complexidade dos debates, subseqüente a reação pós-modernista, nos impede de fazer uma oposição radical entre as duas correntes. Mesmo admitindo que o pós-modernismo teve uma forte influência, constata-se

*Laboratório SET, CNRS-UPPA

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que a modernidade persiste, ainda que se expressando sob novas formas, nas quais nota-se que o espaço público é um dos pontos que retém particularmente a atenção. Por conseguinte, o clamor contemporâneo por um desenvolvimento urbano sustentável faz um novo apelo a uma participação mais intensa da população, o que nos coloca novamente o problema da organização do debate público e da sua inscrição no espaço. De uma forma mais geral, a questão da ecologia urbana caminha há muito tempo em um mesmo sentido, o do florescimento da cidadania e, portanto, dos espaços públicos que a promovam (BERDOULAY, 1999). Nesse contexto, pode ser interessante nos aprofundar na contribuição de Agache, pensador e prático do urbanismo que, mesmo fortemente ancorado no pensamento francês do início do século XIX, não se mostrou insensível ao “canto das sereias” do modernismo, como sua ação no Brasil revelou amplamente.

Depois de lembrar alguns elementos do percurso de Agache, mostraremos, a respeito de seu plano para o Rio de Janeiro de 1937, como suas tendências modernistas fizeram-no chegar a uma certa desvalorização do papel do espaço público na ecologia urbana, e isto independentemente de suas intenções. O plano Agache do Rio será o substrato de uma reflexão sobre as razões que desviam o planejamento de um objetivo inclusivo do espaço público para efeitos que o desvalorizam.

Uma abordagem da ecologia urbana

Donat-Afred Agache (1875-1959) foi convidado a visitar a cidade do Rio de Janeiro em 1927, em vista da preparação do plano de manejo da cidade. Suas proposições foram publicadas na França, em 1930, em português, e em 1932, em francês (AGACHE, 1930c e 1932). Como o primeiro plano urbanístico datava de 1875 e o crescimento urbano se fazia sentir, sobretudo depois dos anos 20, esse segundo plano para uma cidade que é a capital do país constitui uma questão importante para seus habitantes. Sua importância se destaca pelas controvérsias que cercaram a elaboração, particularmente a retirada dos apoios recebidos sucessivamente por engenheiros e arquitetos, cujas rivalidades encarnavam posicionamentos diferentes em relação à modernidade (STUCKENBRUCK, 1996; SILVA, 1996; ANDRADE, 1996; ABREU, 1997). Ainda que poucas realizações concretas tenham decorrido desse plano, sua influência perdurou pelas idéias que ele permitiu discutir (como a de zoneamento) e pelo primeiro grande código de obras editado em 1937 a partir do mesmo, que continua a inspirar a legislação urbanística atual. Mais ainda, a instalação de Agache no Brasil a partir de 1939 e os planos aos quais ele contribuiu lhe asseguraram uma posteridade brasileira maior que aquela que o urbanista teve na França, como o ilustra a personalidade de Afonso Reidy, seu antigo assistente, ou os diversos avatares de seu plano para Curitiba, de 1943. A continuidade, discutida e discutível, entre os fundamentos desse plano e o sucesso dessa cidade no que diz respeito à ecologia (e cidadania) urbana, mostram as ligações que unem o pensamento de Agache às preocupações contemporâneas.

De fato, Agache, que já havia trabalhado fora da França antes de desembarcar no Rio de Janeiro, fazia parte de uma corrente de pensamento original na história do urbanismo francês, mas relativamente esquecida. Trabalhos recentes contribuem para mostrar sua riqueza, diversidade, abertura de visão e sua contribuição (BERDOULAY et CLAVAL, 2001). Vítima do sucesso e da autocelebração dos urbanistas que reivindicavam a doutrina dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna, esta verdadeira escola francesa de pensamento urbanístico desenvolveu, até a Segunda Guerra Mundial, uma atividade intelectual considerável para melhor compreender a cidade afim de melhor agir sobre ela, tendo um sucesso notável nos concursos internacionais.

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Dentro dessa escola se inscreve toda uma reflexão sobre o papel do meio na análise de uma cidade

e nas proposições de ações recomendadas. É literalmente uma ecologia urbana que então se desenha e que

dá aos debates recentes sobre a questão uma profundidade histórica ignorada até recentemente (BERDOULAY et SOUBEYRAN, 2001). Ora, Agache era um dos animadores dessa reflexão e a abordagem que ele propôs inspirou todos seus planos. Mas, como para muitos de seus colegas profissionais do urbanismo, o reconhecimento que ele recebeu na França foi freqüentemente ilusório. Membro influente da sociedade francesa de urbanistas, da qual ele foi durante um bom tempo secretário-geral antes de se tornar presidente em 1930, ele não foi professor da Ecole des Hautes Etudes Urbaines fundada depois da Segunda Guerra Mundial, instituição chave para formação de profissionais franceses. É um pouco como se o exterior, sobretudo o Brasil, tivesse funcionado como seu espaço de realização. Deve-se dizer que o fato de ter trabalhado no Brasil de Getúlio Vargas ou em Portugal de Salazar não é indicativo de suas preferências ideológicas, mas de sua convicção de que o mais importante aparece não na política governamental, mas preferencialmente no terreno, graças a um manejo fundado no conhecimento científico.

Fundamentalmente, seu pensamento é marcado pelo positivismo de Le Play e de seus sucessores ligados à revista La Science sociale (BRUANT, 1994 e 2001). As idéias de Le Play, por

intermédio das várias associações que as defendiam, tiveram um papel importante no grande conjunto de reformas francesas, do final do século XIX e do começo do século XX (TOPALOV, 1999). Mas

é no seio do restrito grupo La Science Sociale que Agache encontrou os elementos que lhe permitiram articular um estudo positivo e sistemático da cidade com suas preconizações urbanísticas. Considerando que o meio representa um papel essencial em urbanismo, ele se embasou nos ensinamentos desse pequeno grupo de “le playsiens” inspirados por Tourville e Desmolins. O

urbanista completou suas trocas intelectuais com os membros do Instituto Internacional de Sociologia,

e em particular com seu coordenador, René Worms. Nota-se que Agache manteve relações científicas

ativas principalmente com pesquisadores cujas contribuições não são institucionalizadas pela universidade, diferentemente da escola sociológica de Durkheim ou da geografia de Vidal de La Blache e de seus seguidores. Ele perdia assim, sobretudo após a Primeira Guerra Mundial quando as disciplinas universitárias se estabilizaram, o apoio que as ciências reconhecidas institucionalmente poderiam lhe trazer para legitimar suas idéias.

Seu percurso privilegiava, ao lado de uma consulta da população sempre difícil de realizar, estudos detalhados do meio físico e humano fundadas num método que ele queria que fosse cientificamente rigoroso. O exame do seu plano para a cidade do Rio de Janeiro mostra bem esta preocupação. Ao constituir um verdadeiro tratado de urbanismo, ele reúne uma quantidade considerável de informações ambientais, sociais e jurídicas, sem que o espaço público, certamente presente, pareça constituir uma entrada particularmente importante na problemática.

A primeira e quarta parte correspondiam a esta preocupação de compreender as interdependências que regiam o meio urbano do Rio de Janeiro. A segunda parte explicitava os problemas e as formas de solucioná-los, enquanto que a terceira enunciava as disposições jurídicas e legais a tomar para instrumentalizar o plano. Se a primeira parte fornecia, sobretudo, uma visão histórica do desenvolvimento da cidade e resume seus pontos fortes e fracos, a quarta se consagrava aos grandes problemas sanitários apoiando-se num exame detalhado do meio. Mais de cem páginas são dedicadas ao estudo das condições físicas de saúde: sítio, temperatura, correntes marinhas, pluviosidade, pressão atmosférica, natureza dos solos, drenagem das águas pluviais etc, assim como existiam também dados sobre a mortalidade e o fornecimento de água. Tratava-se, em suma, de um estudo detalhado da ecologia natural e sanitária da cidade. Longas passagens concerniam sobretudo

à hidrologia, mas também enfocavam o problema do destino dos dejetos e do esgoto. Soluções ou indicações a seguir foram anunciadas da forma mais documentada e operacional possível.

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Em sua essência, o que Agache propôs como estudo do meio é uma verdadeira ecologia urbana, de elevado nível documentário e científico, mas ela se referencia a uma problemática sanitária. A consideração do meio era, na verdade, reduzida a uma ecologia da saúde à base de ciências naturais e de engenharia. Essa insistência na saúde e soluções técnicas refletia, de fato, menos a tradicional preocupação higiênica, do que a inspiração devida à postura médica que Agache tenta insuflar no urbanismo.

Um plano para tratar

Desejo que vejaes em mim uma espécie de médico, que foi consultado e se julga feliz por trazer os seus conhecimentos e poder fazê-los valer no caso pathologico submettido à sua apreciação”. “Digo caso pathológico, porque Mlle Carioca, que acabo de visitar, está certamente doente; não temais, porém, porquanto a sua moléstia não é congênita é daquellas que são passíveis de cura, pois o seu mal consiste em uma crise de crescimento.”(AGACHE, 1930a: 5)

É necessário, então, prescrever um remédio: A Senhorita Carioca, deante do rápido

desenvolvimento da sua circulação, disso se ressente. A sua respiração, a sua circulação e a sua digestão dentro em pouco, estarão ameaçadas. Que fazer? O médico precisa lhe prescrever um regime severo, uma norma de progresso e de disciplina, e dar-lhe com urgência um plano regulador que lhe permitta desabrochar favoravelmente.” (AGACHE, 1930b: 21)

Com humor, Agache se dirigia a um grande público, apoiando-se vastamente na metáfora do organismo. Tratava-se, obviamente, de uma liberdade metafórica, uma vez que a comparação não se fixava num sistema estrito de analogias, privilegiando a busca de efeitos retóricos dos quais poderíamos nos valer. Assim, a cidade é identificada pelo recurso (comum nessa época) de termos tais quais “organismo vivo”, “cérebro” ou “corpo urbano”, e ela foi objeto de definições

variáveis. No texto que acompanha o plano para o Rio de Janeiro, Agache definiu a cidade, desde

a primeira frase, como uma “entidade coletiva que possui um organismo e funções”, antes de

mencionar duas frases mais tarde, que “o corpo urbano - assim como o corpo humano - deve responder à um conjunto de regras que condicionam a saúde”, prosseguindo com o tema, como no seguinte exemplo: “A cidade grande é o coração, o centro nervoso e o cérebro de uma região inteira e, às vezes, de um país” (AGACHE, 1932: XVII e 73). Estamos certamente no terreno da metáfora, que procura instigar no ouvinte ou leitor uma nova forma de enxergar as coisas - a imagem do organismo servindo como forma de conscientização de que o objeto considerado não

é simplesmente uma justaposição de elementos (BERDOULAY, 1982).

É por isso, provavelmente, que a única comparação mantida, de tipo analógico, apareceu

na primeira conferência, retomada na introdução de seu plano para o Rio de Janeiro. Os grandes traços e as grandes funções do organismo foram revisitadas: a circulação, que leva a toda parte a substância necessária à vida; a respiração para recomendar uma aeração suficiente da área construída (graças aos pulmões representados pelos espaços livres coletivos) e evitar a “asfixia”; e enfim a digestão, para chamar a atenção sobre o aprovisionamento e os dejetos e para evitar a “intoxicação”. Mas Agache não foi além da comparação: as análises que se sucedem quase não fazem mais alusão à analogia e repousam sobre as formas habituais do discurso científico ou argumentativo.

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Por outro lado, a importância da metáfora se desdobrava significativamente na concepção que Agache tem da prática de urbanismo. De fato, o especialista, em face de um organismo vivo, não estava em

situação de modificá-lo substancialmente. Ele se encontrava mais na posição de quem poderia ajudar, ou seja, na posição de um “clínico”: O urbanista “deve traçar um diagnóstico preciso sobre os casos que lhe são submetidos, trazer remédios aos males que se apresentem e sobretudo indicar o regime a seguir para que o corpo urbano se desenvolva o melhor possível” (AGACHE, 1932: XIX). A metáfora do organismo orientava, então, a definição do papel do urbanista, porque a cidade é ao mesmo tempo personalizada e naturalizada. De fato, seu desenvolvimento parecia natural e o urbanista era impotente diante dessa tendência de fundo: “Assim como o ser humano, uma cidade se desenvolve, se enfraquece ou morre por razões definidas e certas” (ibid: 73). Isto enquadrava o papel do urbanista: “A saúde, o desenvolvimento, a existência do corpo urbano são regidos pelas mesmas leis que as do corpo humano. Assim como um ser

) Uma cidade que se

vivo, a aglomeração urbana está exposta a indisposições, a doenças ou a crises. (

desenvolve passa, como um ser humano, por sua crise de crescimento e, se não tomamos cuidado, se não

intervirmos a tempo, as conseqüências para o futuro podem ser desastrosas” (ibid: XVIII).

Era, portanto, a idéia do desenvolvimento natural da cidade e das patologias que a acompanhavam que portava eficazmente a metáfora médica que Agache se valia. Mas, ratificando a concepção do urbanista como médico, a metáfora fixava a concepção da cidade como uma entidade à “curar”, e a aproximava da prospectiva como um projeto terapêutico. Uma prospectiva que tende à pesquisa de patologias se desvia do que poderia, mesmo num ser sadio, gerar o novo, desenvolver certos potenciais, favorecer a criação. Somente a preocupação com a beleza das cidades parecia escapar, em Agache, dessa lógica terapêutica (senão, teríamos que dizer que ele antecipou o sucesso da cirurgia estética carioca!).

Desta forma, neste nível metafórico, o espaço público se reduziria a duas das três funções do organismo: a circulação (“ruas, avenidas, travessas”) e a respiração (“os espaços livres, parques, jardins, passeios, campos de esportes etc”). Emprestando suas funções ao espaço público, a metáfora não fornecia uma visão muito original e não solicitava na prospectiva que ela propunha um uso mais criativo, podendo desembocar em outras funcionalidades. Esta posição profissional de Agache é ainda mais surpreendente quando se vê que ele sempre manifestou, pessoalmente, um gosto pela criação artística e cultural. Sentimos, todavia, que ele preferiu encontrar-se em situações nas quais a lógica terapêutica, na qual ele procura relegar o papel do urbanista, não possui pertinência.

De fato, as condições de exercício do saber do urbanista variavam em função do quadro que lhes era apresentado. Agache distinguiu quatro tipos de situação: as criações urbanas, os planos de extensão, os trabalhos de reforma ou de sistematização e os trabalhos de manejo parciais (AGACHE, 1917). Nos dois últimos casos, o trabalho do urbanista é fortemente limitado pelo que já estava construído e a lógica terapêutica se impôs à sua ação urbanística. As coisas eram obviamente diferentes nos outros casos e é por eles que Agache revelava um maior interesse, pois eles abriam um campo livre à sua ciência. Nesse sentido, ele comentava também claramente: “O urbanista deve agir com grande prudência uma vez que sugere transformações

radicais no interior de uma cidade (

mas é outra coisa quando se trata da extensão” (AGACHE

1923: 147). É por isto que a cidade-jardim, a cidade-nova ou ainda a “cidade-industrial” o

interessavam ao mais alto ponto. Segundo o autor, era possível pensar então que os planos de manejo de novos espaços, vinham para “propor soluções claramente sistematizadas que não

excluam (

o pitoresco e o agradável”(AGACHE 1917: 246). Se a beleza para ele estaria

relacionada com harmonia e com proporções, o pitoresco nos levava, essencialmente, às qualidades

),

)

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paisagísticas do espaço público (perspectivas, estilo das ruas, localização de edifícios e parques etc). O pitoresco permaneceria, todavia “uma questão de gosto; é impossível dar conselhos precisos a respeito disso”, pois “cada aglomeração pede soluções que lhe são próprias e a experiência artística do urbanista só pode entrever o que se deveria fazer em cada caso determinado” (AGACHE 1923: 149). Em suma, o manejo do espaço público, reduzido à procura do pitoresco, dependia exclusivamente do temperamento artístico do urbanista

Com isso o urbanista via complicada sua tarefa de adaptar a cidade às necessidades modernas e ao aumento no rendimento da atividade humana. É por isso que, face ao problema das favelas, Agache não se mostrou muito preocupado: “O problema das remodelações é mais fácil com relação às favelas, que se varrem como se fora poeira” (GODOY 1943: 79). Por outro lado, ele achava muito mais complicada a intervenção em Santa Teresa, onde belas casas, já construídas, encareciam demais as possibilidades de reconstrução do todo.

O urbanismo de Agache era, assim, francamente voltado ao futuro. Compreende-se melhor porque, no Brasil, Agache posava como um modernista cujas concepções, no fundo, prepararam o movimento que Le Corbusier viria a defender. A moderação do primeiro lhe asseguraria uma audiência segura na reflexão urbanística carioca, enquanto que a posteridade do segundo se desenrolaria mais na arquitetura (PEREIRA, 1996). Mas, mesmo se o urbanismo de Agache procurasse se acomodar ao peso do passado, ele é mais subjugado do que beneficiado dessa situação. Nessa perspectiva modernista, o espaço público parecia algo que poderia ser criado de todas as peças, suas qualidades herdadas do passado não pareciam ser vantajosas. Como a prospectiva podia marginalizar tanto o espaço público num urbanista que não tinha nada à priori contra este conceito?

A armadilha funcionalista

Vimos que a metáfora da medicina, a propósito da visão da cidade, diluía o espaço público ao seio das funções orgânicas de circulação e de respiração. Mas esse funcionalismo não acabava nesse nível metafórico, pois ele entrava em ressonância com a preocupação de eficácia econômica que caracterizava o urbanismo progressista da época. De fato, na sua concepção de sociedade, Agache insistia no que facilitava seu funcionamento econômico. A partir daí, sua abordagem era, afinal, bem normativa, apesar de sua preocupação à la Le Play de trabalhar empiricamente.

Em seus trabalhos e planos, Agache via a cidade através do prisma de uma concepção funcionalista e econômica. A riqueza da vida social, sua complexidade e as múltiplas formas que ela manifestava no espaço urbano pareciam escapar-lhe. É por isso que o espaço público, ainda aqui, não o guiava em suas análises científicas mais fundamentais. Na verdade, são as funções urbanas mais clássicas que mantinham mais sua atenção, pois elas traziam consigo o desenvolvimento econômico: funções comercial e industrial, funções política e administrativa e, como acessório, a função turística. A metáfora médica era abandonada e o funcionalismo persistia, sempre em detrimento da atenção dada ao espaço público.

Quanto às recomendações concretas, ainda mais que as análises, elas revelavam a que ponto o funcionalismo anestesiava os recursos da vida social que Agache desejava, no entanto, promover. Certamente, ele insistia sobre a composição geral, sobre a necessidade

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de construir um plano que conferiria uma coerência global à cidade. Concretamente ela deveria assegurar a “satisfação lógica e ordenada das exigências econômicas e sociais” (AGACHE 1932:

85) e se traduzia por uma ordem espacial fundada sobre a separação e a hierarquização. À escala da cidade, grandes áreas eram repartidas cada uma segundo sua função: no centro, o comando de decisões e os negócios de alto nível; nos bairros de produção, tudo o que estaria ligado à indústria ou à agricultura; nos bairros de consumo, o comércio e o centro universitário; nos bairros residenciais de formas diferentes, as diversas categorias sociais. Os espaços públicos existiam, mas eram ainda submetidos à especialização funcional dos bairros.

Este princípio de ordem se desenvolveu em todas as escalas: cada função parecia ter seus próprios manejos e estes estavam cada um em seu lugar. O plano do Rio de Janeiro descreveu em detalhe os serviços e os equipamentos necessários, que foram notados no espaço público: praças, corredores viários, espaços livres, terrenos de jogos, jardins, parques e mesmo estádios, escolas e bibliotecas. Mas esses mesmos eram justificados principalmente em termos de necessidades para um bom funcionamento da cidade. Se a justificativa era econômica, ela era também indissociavelmente social.

A interdependência funcional do econômico e do social fez com que Agache exprimisse sua “filosofia social” pela necessidade de assegurar o bem-estar da população urbana: o melhoramento do conforto material e da higiene de vida constituía um objetivo incontornável para o urbanista. Os espaços públicos foram abordados principalmente sob este ângulo. Uma

atenção particular foi assim dada a todas as intervenções que facilitaram a saúde pelo exercício corporal: “a cultura do físico, o desenvolvimento ao ar livre das forças vivas dos nossos corpos se tornaram elementos indispensáveis do nosso dia-a-dia” (ibid: 84). Nessa mesma linha, Agache abordava também os espaços públicos sob o ângulo do simbolismo que eles poderiam comportar,

a fim de transmitir certos valores. Constatando em especial que o Rio de Janeiro não estava à

altura do que deveria ser a capital do Brasil, ou seja, constatando a diferença entre a realidade de

uma função e o estado patológico em que ela se encontrava no momento em que ele foi convidado

a intervir, Agache propôs, para a parte central, o monumentalismo e o ordenamento dos grandes

prédios públicos e dos jardins, juntos aos edifícios comerciais a fim de exprimir os “ideais econômicos e sociais que caracterizam nossa época” (ibid: 85). É por isso, entre outros, que ele apoiava o manejo de uma ampla praça pública em forma de semi-círculo, aberta sobre a baía, que pudesse constituir a “porta” da cidade e do país do qual ela era a capital - projeto que era objeto

de diversas polêmicas (STUCKENBRUCK, 1996; SILVA, 1996). Assim, colocava que “em face à baía e no lugar de honra, se instalará o governo federal num conjunto que dará à obra do homem na cidade a nota grandiosa que lhe falta. O Rio de Janeiro oferecerá assim à admiração do visitante chegando do mar uma entrada monumental refletindo a importância e os destinos da cidade” (AGACHE, 1932: 116).

Aparecendo principalmente como suporte de saúde, bem-estar e símbolo de ordem e poder estatal, os espaços públicos contribuíam ao bom funcionamento da cidade, sem mais acrescentar. O efeito desse funcionalismo que tendia a desvalorizar a transversalidade do espaço público e, assim, o seu potencial para o debate e a emergência de novas idéias sociais, políticas ou culturais, foi agravado pela concepção prospectiva de Agache. Buscando diagnosticar as disfunções a fim de facilitar o retorno ao nível normal, Agache dirigiu todos seus esforços à formulação de uma prospectiva que se inscreveria na continuidade das lógicas econômica e

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ecológica.Esta abordagem desviaria, assim, sua atenção da procura de condições de emergência do novo, do que é dificilmente previsível no seio da sociedade e da cultura.

De fato, aparecia mesmo uma atitude contrária: o objetivo da prospectiva é o de reduzir a contingência mais do que tirar partido dela. Aliás, a propósito de seu plano do Rio de Janeiro, Agache se afirmaria convencido que ele continuaria válido, não importando quais seriam os eventos futuros. É somente a realização dos objetivos que tomaria mais ou menos tempo, dependendo das conjunturas econômicas. E mesmo quando o autor entrevia o impacto da aviação a longo prazo, Agache entendia que os modelos dados por seu plano se acomodariam positivamente: “os manejos que nós realizamos ou que nós prevemos - e que nós somos obrigados de conceber em função dos dados atuais - não serão, então, nem totalmente destruídos nem se tornarão completamente inúteis. Pode-se pensar que eles constituirão sempre uma base sobre a qual virão se desenvolver os manejos condicionados pelas novas descobertas. A organização lógica que nós preconizamos continuará de um interesse sempre essencial, não importa quais sejam as contingências que possa trazer o progresso da civilização” (ibid: 89). Prescrevendo a longo prazo e de forma unívoca, Agache reforçava seu funcionalismo e deixava escapar o potencial que o espaço público poderia trazer à evolução urbana e ao urbanismo.

Para concluir

O plano Agache do Rio de Janeiro foi a realização de um grande urbanista que trabalhou

no seio de uma escola de pensamento na qual a ecologia urbana foi uma de suas preocupações centrais, dando à sua modernidade uma tonalidade diferente daquela que a “arquitetura moderna” à la Le Corbusier foi, por muito tempo, referência (BERDOULAY e SOUBEYRAN 2002). Agache tinha ligado suas inclinações modernistas a uma abordagem do meio que se inspirava em Le Play e em alguns de seus discípulos e que estava dividida entre uma lógica físico-química (sanitária) e econômica, sobre a qual deveria se apoiar a normalidade do funcionamento urbano. Nessa abordagem, o papel dado ao espaço público era bastante reduzido.

A origem do problema vem do funcionalismo no qual Agache inscreveu seu percurso.

Privilegiando a metáfora médica para caracterizar o papel do urbanista, ele o confina ao diagnóstico

das anomalias ou das patologias ligadas ao crescimento e a corrigi-los. Com isso, Agache reduziu consideravelmente o papel que ele poderia dar ao espaço público, pois ele o emprestava funções que tinham lógicas diversas (circulação, saúde, bem estar etc), mas que poderiam todas ser levadas a uma justificativa econômica. O espaço público não era abordado como fonte potencial de novidades, de emergência de idéias ou de comportamentos inovadores. Inscrevendo-se na continuidade, a prospectiva segundo Agache bania a contingência e não deixava entrever uma criatividade particular, oriunda do espaço público.

Chegamos assim a um impasse análogo àquele que as versões mais recentes do funcionalismo conheceram. Como mostraram os trabalhos de C. Alexander, se propormos uma forma a cada função urbana, poderíamos pensar que seria possível gerar a forma da cidade; ora,tal afirmação é falsa, pois não se poderiam isolar todas as formas, ou todas as funções umas das outras: elas se combinam de formas diversas e, ainda que Alexander nãotenha insistido nesse ponto, é freqüentemente o espaço público que o permite (ALEXANDER, 1964 e 1965).

Não se deve, no entanto, pensar que Agache era insensível a esta confrontação de opiniões que fornecia a cidade. Ele tinha consciência, mas reduzia suas possibilidades:

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“Cumpre que em uma aglomeração haja o respeito e a tolerância mútuos, porquanto há um estreito contato de vizinhança. Certa polidez deve existir entre os habitantes, e isto é a urbanidade, vocábulo, aliás, muito antigo” (AGACHE, 1930a: 9). Contudo, “a mesma polidez deve existir entre as coisas e a isto se chama urbanismo, o qual exige preceitos diversos: regulamentos de construção, de circulação e de higiene” (ibid.).

Foram estas as palavras de um homem que amava a cidade, mas essencialmente pelo que ela representava de comodidade e de sociabilidade bem ordenada. Por sua concepção de urbanismo,o espaço público estaria paralisado num papel passivo, onde o habitante seria mais citadino que cidadão.

Bibliografia

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