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Bastos- cap 04

VÂNIA' LOMONACO

BASTOS

PARA ENTENDER

A

ECON'OMIA

CAPITAUSTA

Noções

Introdl.Jt6rias

31EDiÇÃO

-_o-o

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AL

-

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.'0

.fu

FORENSE UNIVERSITÁRIA.

IV

A REPARTIÇÃO DO PRODUTO NA ECONOMIA CAPITALISTA

1. Al;uns Aspectos Básicos

Vimos que, no capitalismo, a produção se efetiva princjpal~

mente através

assalariada. Os trabalhadores vendem sua força de trabalho aos capitalistas que, com a posse das IlUiquinas, instalações e demais meios de produção,'e também do capital monetário suficiente para pagar os salários e adquirir os insumos necessáriOl, organizam 8 produção.

atividade desenvolvida por cada unidade produ-

de unidades

produtivas

que utilizam mão-de-obra

Através da

tiva, é g~rada uma certa prQdução de bens que depois serãotr~ cados no mercado. O conjunto das produções individuais constitui.

o produto' da sociedade.

~ esse produto que irá fornecer as condições materiais tiara .

)

a existência dos membros da sociedade e também o que será utlli~

zado para ampliação do produto futuro.

.

47

. A quantidade

de bens. que cada membro da sociedade pode

dispor em um dado momento depende das condições técnicas -

que determinam o tamanho do produto -

vigentes - que deterniinam a distribuição do produto.

e das relações sociais

Assim, uma parte do produto irá constituir os salános, que representam as rendas dos trabalhadores que participaram do pro- cesso produtivo. E uma parte irá constituir o excedente, gerado também pelo trabalho dos assalariados mas apropriado como ren- das provenientes da propriedade: os lucros, os aluguéis recebidos pelos proprietários de terra e os juros recebid,os pelos emprestado- res de capital monetário.

O que determÍJ!8 o tamanho das rendas provenientes da pro-

priedade? E os salários, como são determinados? A repartição do produto entre os salários, ou renda&-do trabalho, e as rendas de propriedade, tem sido objeto de e~tudo de grandes economiltas. .Nosso propósito, aqui, é apresentar essas questões de maneira simples, de modo a permitir que o leitor, mesmo nio tendo um conhecimento maior de teoria econômiça, obteDha uma visão da repartição do produto na economia capi!alista. Com esse objetivo, .vamos concentrar nossa análise nas duas principais rendas do capitalismo - os salários e os lucros - sem nos preocuparmos com as outras rendas provenientes da propriedade.

2. Ás Condições da Produção

Se entrarmos numa grande indústria moderna, veremos que ali se concentra uma enorme variedade de máquinas e equipamen- tos, encontraremos trabalhadores exercendo diferentes funções, e uma diversidade também grande de insumos estará sendo utilizada

para a obtenção do produto

e das operações de compra

e venda que se efetivam ao longo do processo produtivo toma bastante difícil acompanhar o funcionamento da economia. Por

final, que será colocado no mercado.

::t:- Essa complexidade da produção

48

isso, para melhor demonstrar o que se passa na economia capita- lista, vamos utilizar um exemplo com várias simplificações. Essas simplificações, para aqueles menos familiarizados com modelos usualmente adotados neste tipo de estudo, poderão re}>resentarum distanciamento do mundo real. Trata-se, porém, de um procedi- mento didático, que nos permite concentrar a atenção nos aspectos que querémos destacar. Os resultados obtidos podem ser generali-

zados para

economias mais <:omplexas, sem prejuízo

de sua va-

lidade.

Vamos, então, consideràr uma economia capitalista muito simples, em que existem apenas duas empresas, que produzem, respectivamente, trigo e b910. Na primeira empresa, um estabele- cimento agrícola, o empresário contrata um trabalhador assalariado e utiliza 6 toneladas de trigo como semente para, ao final do ano, obter 10,5 toneladas de trigo como produto. Essas condições podem ser fodicadas na forma abaixo:

6 toneladas de trigo, 1 unidade de trabalho ~

10,5 toneladas de trigo.

A segunda empresa emprega, anualmente, 2 toneladas de trigo

como matéria-prima e um trabalhador, obtendo, ao final do perío- do, 3 toneladas. de bolo. Utilizando a mesma notação, temos:

2 toneladas de trigo, 1 unidade de trabalho +- 3 toneladas de bolo.

A produção anual, ou produto,

dessa economia é, portanto,

de. 10,5 t de trigo e 3 t de bolo. Para obtê-Ia foram necessários 2 trabalhadores e 8 toneladas de trigo (6 t como sementes e 2 t como

matéria-prima para a confecção dos bolos).l

)

I Para simplificar, c não lfcsviar a atenção dos aspectos fundalIlcntais, es- tamos supondo que nio há neccssidade dc outros insulIl08.

49

de

a seguir. Vemos que, para obter uma pro-

dução de 10,5 t de trigo e 3 t de bolo (coluna 5), 'foram utilizados

2 trabalhadores e 8 t de trigo (coluna 3).

ttlatriz, na Tabela IV.l,

Essas mesmas informações estão índicadas

sob· a forma

A produção anual tem que fomecer os insumos consumidos,

para que o processo produtivo possa se repetir' no período seguinte.

Assim, para que essa economia tenha o mesmo produto no próximo

ano, é necessário reservar

trigo para servir de insumos para a indústria de bolos (coluna 3).

Restarão, portanto, 2,5 t d~ trigo e 3 t d~ bolo, cemo produto

de

6

t

de. trigo

como sementes e 2

t

.'

disponível que pock ser consumido pelos membros dessa economia

(coluna 4). Desse produto demais rendas.

disponível deverão sah- os salários e as

A repartição desse produto, na economia capitalista, depende

os trabalhadores

, recebem "uma parte como salários; os proprietários se apropriam

do papel desempenhado

no processo produtivo:

Tabela IV.1

t) no Processo

"----- ~

DE PRODUÇÃO DA ECONOMIA

Produção ConsUDÜda

TotalBolo

(t)(t)

(t).

(t)

(5)

Produção

Total

Trigo e Bolo Dieponível·

(2)(3)

(4)

Produto

da

Trigo (t) 28 trabalhadores)

12

2,510,53

1

6

3

• Estamos designando como "Produto Disponível" o produto que 8St4 disponível para ser utilizado pela sociedade ap6s descontar o que foi consu- mido diretamente no processo produtivo.

50

do excedente. Examinar a determinação da parcela que caberá aos

trabalhadores

~ a nossa próxima tarefa.

3. A Determinação dos Salários

A questão da determinação dos salários tem sido objeto de

estudo. dos economistas

Alguns,economistas concentraram sua atenção nos salários tal como são visíveis no m~rcado e nas conseqüências sobre os mesmos das fIutuações da· oferta e da demanda por mão-de-obra. Os economistas da Escola Clássica e Marx, embora sem negar os efeitos temporários da oferta e demanda nas flutuações, ocasio- 'naiB,.destacarani que os ~alári08 resultam do confronto de classes com interesses conflitantes e que, apesar das flutUaç6es, o salário tende a manter-se no nível que garante a subsistência dos traba- lhadores e suas famílias, isto é, no nível que assegura a ·reprodução da força de trabalho. Adam Smith (1723-1790) escreveu:2

desde a origem da

Ciência Econômica.

1180 depende

do contrato normalmente feito entre 81 d~

de forma alguma aio os mesmOS. Os trabalhadores desejam ganhar o m6.

ximo pomvel, aI patrões pagar o mínimo possível. (

qual d81 duas partes, normalmente, leva vantagem na dieputa e no poder

) Mas,

embora 081 disputas com os openlrios os patrões geralmente levem vanta- gem, existe uma determinada taxa abaixo da qual parece impossível reduzir por longo tempo 08 salmos normais, mesmo em' se tratando do tipo de trabalho menos qualificado. O, homem sempre precisa viver de seu tra- balho, e seu salmo deve ser &ufic,iente•.no mínimo, para a sua manutenção. Esses salários devem até constituine em algo mais, na maioria das vezes,

de forçar' a outra a cOncordar com

"Quais são os salários comuns ou normais do trabalho?

partes, et.jos lntel'Clfes, ali's,

) Não 6 dif.ícilprever

u suas própria ci4uaulu. (

de outra f~rma seria impossível pará ele sustentar Uma famflia e os tra- balhadores nio poderiam ir além da prlmeir4 geração."

2

Smith, A. A riqueza das nações: investigação sobre sua natureza e mal São Paulo, Abril Cultural, 1983. p. 92-94. (Coleçio Os Economiat8l).

causas.

Esse conflito de interesses entre trabalhadores e proprietários dos meios de produção fica evidenciado no nosso exemplo, onde vemos que,' quanto maior a parcela do produto destinada ao paga- mento dos salários, menor será o excedente que caberá 80S pro- prietários.

A expressão "nível de subsistência" não tem, nesse contexto, um significado apenas fisiológico:

'As próprias neccssidades naturais, como alimentaçlo, roupa, aqueci- mento. moradia, etc., são düerentes de acordo com o cHma e outras pecull.a- ridades naturais de um pafs. Por outro lado, o Ilmbito das assim chamadas necessidades básicas, •••im como o modo de sua satisfação, 6 ele mesmo um produto histí5ricoe depende, por isso, grandemente do nível cultural de um país, entre outras eoisas tamb6m essencialmente sob que condições, c,

portanto, com que hábitos e aspirações de vida, seconsutui trabalhadores livies.''J

a clalse dos

.

A determinação do nível de subsistência contém, pois, um

elemento hist6rico-social, que depende das condições sociais espe-

como

classe, contra os capitalistas, como classe. Essa luta compreende

o crescimento dos sindicatos~ os movimentos grevistas. a legislação sobre as··relações de trabalho e os salários em geral. Assim, a determinação do nível de subsistência não é mecanicista mas

resulta também do confronto entre trabalhadores'e constituem classes com interesses opostos.

dos

trabalhadores pode aumentar. pois. havendo interesse em aumentar

a produção. haverá maior necessidade de mão-de-obra e isso poderá

elevar temporariamente os salários. Contudo, a elevação dos salá-

rios irá estimular os empresários a utilizarem tecnologias que substituam o trabalho pela máquina, ·:reduzindo, dessa forma. a demanda por JX;1ãp-de-obrae pressionando novamente os salários

capitalistas, que

cíficas de cada época e incorpora

a luta dos trabalhadores.

Numa economia em crescimento, ~ poder

de barganha

3

52

Marx, K.

O Capital.

São

Paulo, Abril Cultural, 1984,

t.

.1, v. 1, p. 141.

para baixo. Como vimos ao estudat as' características do modo de produção capitalista, é exatamente a necessidade de manter baixos os salários, para preservar o lucro, que estimula as inovações no processo Na econo~ia simplificada do exemplo dado, vimos que, após 11 dedução dos insumos que garantem a reprodução do processo

físico a ser dividido

produtivo,

as

entre as classes. Uma vez determinado o salário real, isto

quantidades físicas que caberão a cada trabalhador, as quantidades física's que constituirão o excedente a ser transformado em lucros estarão também determinadas. E uma parcela s6poderá aumentar

existe um determinado

produto

é,

às expensas de outra.

Com o objetivo de examinar essa repartição, vamos supor que não se exige nenhuma qualificação especial dos dois trabalhadores empregados na produção - trata-se de trabalho " simples", não- qualificado.~ Suponhamos, em seguida, que, dadas as condições histórico-sociais em que funciona essa economia, os salários anuais tenham sido estabelecidos ao nível de 1 tonelada de trigo por trabalhador, sendo essa quantidade suficiente para garantir sua .subsistência durànte um ano.1I Nesse caso, da produção total. os proprietários dos meios de produção, que são também os proprie- tários do que foi produzido. destinarão 2 t de trigo para o paga- mento dos 2 trabalhadores. O restante do produto, O,S t de trigo

e 3 t de bolo, constitui o excedente, que será apropriado pela classe dos proprietários como um todo.

4 Essa hipótese em nada prejudica o modelo: estamos escolhendo trabalho simples como unidade de medida e o salário do trabalhador qualificado, ou complexo. segundo a terminologia marxista. pode ser cOnsideradocomo um múltiplo do salário atribuído ao trabalhador nio qual~icado. Em outras

as diferenças de qualidade entre 01 traba-

lhos ilo reduzidas a düerenças equivalentes na quantidade.

S Estamo. supondo que, em razio da mobilidade da força de trabalho e

contralação· dos trabal~adores. ha-

ver'

. palavras, eStamos supondo que

da concorr@nciaentre capitallat81 para a

tendancia a uma taxa unüorme. de salário.

S3

A apropriação do excedente se viabiJiza exatamente porqut:

os proprietários dos meios de produção controlam. a atividade pro- dutiva e se tornam proprietários de todo o resultado da produção. Assim, ao pagar aos trabalhadores apenas o equivalente ao traba- lho necessário, o que corresponde ao trabalho excedente permanece em suas mãos.

O que acabamos de expor está representado na Figura IV. 1.

abaixo

(

,

,,

Figura IV.l

A REPARTIÇÃO DO PRODUTO

TQne~ada5deTrlgo

'y

~

(10,5)

I I

I I

I I I

I I

I

.

Á

Toneladas de bolo (3)

~--~--A-----, I I

y

.,

i I

I I I

I I

I I I

A:-

y

",'

 

Insumos

Salários

Excedente

(8

t

trigo)

(2

t

trigo)

'(Ó,5

 

't

de trigo

 

e

3

t

de

bolo):

Obviamente,

se os salários

reais

aumentarem,

o

excedente.

físico diminuirá. A única maneira

ou seja, fazer

a parcela

com que o trabalho

utilizando a mesma quantidade de insumos e de força de traba- lho, fosse possível opter 11,5 t de trigo, os salários poderiam ser de 1,5 t de trigo. e o excedente não seria afetado.

Se, por exemplo,

de elevar os salários e manter

o produto,

dos proprietários

é aumentar

se tome

mais produtivo.

54

Na verdade, porém, caso se conseguisse elevar a produtividade do trabalho, atrav~ de um novo método de cultivo, por exemplo, düicilmente os capitalistas se conformariam em repassar esse

de

aumento de produtividade

para

os trabalhadores.

Se

a força

trabalho será ou não beneficiada pelo aumento

irá depender, novamente, dei confronto entre as duas classes que disputam o produto.

No mundo real, as coisas se passam de forma semelhante,

de produtividade,

embora. o paSamento dos salários em dinheiro possa düicultar a percepção da realidade. O que importa, porém, não são os salários monetários, mas os salários reais, 'isto é, a quantidade de produtos que pode ser adquirida com o salário monetário. R, quando não há aumentos, de produtividade, os salários s6 podem aumentar às custas das outras rendas.

Uma situação estacionária, contudo, não é típica da economia capitalista. E quando a produtividade cresce, e co~. ela o produto, é possível aumentar simultaneamente 05 salários e os lucr~s. Nesse caso, 'se os salários reais se mantêm constantes, enquanto ocorrem aumentos de produtivida.de na economia, isto signifi.ca que apenas os capita1is~asestão sendo beneficiados pelo crescimento. Até aqui,.fizemos referências apenas ao excedente global, que pode ser apropriado e convertido em lucros pelo conjunto dos proprietários dos meios de produção. Isto porque o nosso interesse se concentrava na deterininação dos salários e na oposiçãosalá- rios/lucros. Precisamos, agora, examinar a distribuição do exce- dente entre os capitalistas que controlam o processo produtivo. o que faremos na próxima seção.

4. A Taxa de Lucro e a Distribuição do Exeede, te

Chegamos, portanto,

à conclusão de que, uma vez determi·

nados

os salários. existe um excedente que será repartido

entre

 

55

os capitalistas. A questão, agora, é: qual sérá o critério para essa repartição? Para compreender o critério adotado, devemos, pri- meiramente, destacar algumas características do. sistema. .Sabemos que o m6vel da produção capitalista é o lucr:>. Os capitalistas empregam seu capital monetário na <?rganização da. produção, não porque desejam consumir os produtos que fabricam, mas porque objetivam um lucro. Obviamente, quanto maior o volWI;lede lucro, mais satisfeito estará o capitalista. Há, contudo, um outro elemento que está presente nas con- siderações do capitalista: a relação entre o lucro obtido e o ~'olume de capital que foi necessário para pbtê-}o.!Trata-se da taxa de

lucro,.

\ ~~

(r) definida como:·

~\

.

"\"'''/(]\

-'Ir'

r=·------- lucro

capital' investido

2 a taxa de lucro, e sua comparação com outras alternativa,

ao capitalista se ele escolheu o melhor emprego

para o seu capital. Voltemos, então, ao noslO exemplo. A emplUa agrícola obtc- .ve um excedente de 3,5 t de trigo, ou seja, o que restou ao capita- lista após pagar os salários (1 tonelada de trigo) e descontar os .insumos (6 toneladas de trigo). Admitindo que'. esse excedente se converterá em lucro, a taxa de lucro será:".

que irá informar

6 No modelo simplificado com o qual estamos tratando, deixamos de con- siderar a' utilização, na produção, de máquinas, instrumentos de trabalho, etc. Com isso, eliminamos a discussão sobre o capital fixo e o capital in- vestido se identifics com os custos de produçio. A inclusão do capital fixo na an41lse envolveria aspectos que estio all!m dos objetivos deste texto c por isso foi evitada. Para uma discuslio IObre·o tema, vcja-se I. Stccdman, Marx a/ter Sra//a, Londres, New Left Book, 1977; particularmente caps. 5. 10 e seguintes.

7 Trata-&e,obviamente, de uma tixa de rendimentos em termos físicos.

56

3,5

t

de trigo

r = ------------

6

t

de trigo

+

1

t

de

trigo

-

0,5, 9U 50%

.

de

bolos. Para continuar produzindo, o capitalista terá que trocar uma certa quantidade de bolos por. trigo, para repor o que foi gasta no processo produtivo e garantir o salário do trabalhador

empregado. Precisará, portanto, de 3 t de trigo (2 t como insumo

e

de bolos que terá que vender

para obter esse volume de trigo irá depender da relação de troca que se estabeleÇa entre os dois produtOs, isto é, dos seus preços

Na outra empresa,

o produto

final é constituíclo de· 3

t

I t CQmosalário). A quantidade

Suponhamos que ó preço da tonelada de trigo seja de 5 unidades monetárias e o preço da tonelada de bolos seja de 7,5 unidades monetárias.· Nesse caso, para pagar o salário do traba- lhador e comprar' os insumos necessários à produção, a empresa qUe produz bolos precisa de 15 unidades monetárias (5 u.m.para

01 salárioll e 10 u.m. para o trigo). Como o preço da

terá que vender 2 toneladas

para obter u 15u.m. Considerando o valor monetário da quanti- dade de bolos que lhe restará, sua taxa de lucro poderá ser, então:

toneláda de

bolo. é de 7,5 unidades monetárias,

'7,5 u.m.

r = --------

10 u.m.

+

5 u.m.

= 0,50

s Embora pudéssemos encontrar os preços relativos e à taxa m&lia de.lucro

sem necessidade de recorrer à unidade monet4ria, consideramos que a. adoçio

·de valores monet4rios toma mais fácil a intcrpretaçio do modelo. Iaso, contudo' introduz outro problema: a questão da moeda e seu papel na economia capitalista. Apesar da ielcvincia dessa questão, Dio iremos abor- dá-Ia, pois lUa complexidade exige uma diScussão teórica qu~ ultrapassa nossos objetivos.

57

I

Encontramos r = 0,50, ou 50%, que é a mesma taxa de lucro obtida na outra empresa. Portanto, estes preços monetários, 1 t de

de trigo, fazem com que

os dois capitalistas obtenham a mesma taxa de lucro.o Em outras palavras, o excedente terá sido distribuído de acordo com o capitál inv~stido, obtendo, cada empJ:esa, igual retomo por vólumes iguais de investimento feito. O critério adotadq para a distribuição do excedente entre os capitalistas terá sido a obtenção de uma mesma taxa de lucro. E isso foi possível através de determinados preços relativos:

trigo =

5 u.m.

e

1

t

de

bolo

=

1;5' t

1

t

de

bolo

=

1,5

t

de trigo

que mantenha essa

mesma relação entre os preços dos dóis pr-ódutos irá proporcionar

i~l

preço da tonelada de trigo fosse de 3 um.

fosse de 4,5 um;, ainda assim a taxa de lucro seria a mesma, apesar da alteração no valor monetário do lucro de cada capita- lista, pois a relação entre os preços teria sido mantida. ' A esses preços que permitem a igualação das taxas de lucro obtidas pelos capitalistas atuando nos diversos setores, os econo-

ou preços de pro-

e da tonelada de bolos

exemplo, o

Qualquer

conjunto de preços monetános

taxa de lucro para os dois capitalistas.

Se,por

mistas clássicos chamaram de preços naturais, dução.

5.

Comentários

Será razoável supor que, no' mundo real, prevalecem os preços naturais e a distribuição do excedente obedece a um critério seme-

9 Com o intuito de tomar R leitura mais aceSsível para os leitores não fa-

miliarizado~ com linguagem matemática, preferimos nio apresentar, no corpo

do texto, os cálculos necessários para a determinaçlo

c

da tua

de lucro

lhante?

da economia real com a qual estivermos tratando.

Numa économia em .que os capitais pudessem se transferir de um setor para outro, com razoável facUidade, poder-se-ia espe- rar uma tendência à igualação da taxa de lucro, entre os diferentes setores da 'economia. A existência de uma taxa de lucro mais ele· vada em um setor, em determinado momento, iria atrair capitais para esse setor, já que os capitalistas procuram investir onde podem obter um maior' retomo. Não' havendo obstáculos à' entrada de capitais no setor em questão, o afluxo de novos capitais iria pro- vocar um aumento na oferta da mercadoria, em relação à demanda ~xistente,e uma conseqüente tendência à queda do seu preç,?

Isso, por sua vez, iria afetar a taxa de lucro do setor, redtizindo-a,

c podendo eliminar a diferença inicial.

A resposta

a esta

questão

dependerá

das características

Assim, a concorrência entre os capitalistas e a livre movimen- . tação dos capitais, em busca de ~s de lucro mais elevadas, tenderiam a fazer prevalecer uma mesma taxa de lucro na econo- mia. Dizemos que a economia como um todo está em equilibrio quando a taxa de lucro é igual em todos os setores, pois os capi-' talistasnão poderão aumentar seus lucros transferindo investimen- .tos de um setor para outro.

O exemplo aqui adotado' trata, portanto, de uma economia

concorrencial em' equilíbrio. Esta situação, contudo, não é igual

à que nos deparamos quando examinamos o mundo em que vive-

mos. O' mundo capitalista atual não é um sistema concorrencial no sentido adotado acima. S um mundo competitivo em que a

mobilidade de capital encontra freqüentes obstáculos. Muitas vezes, o obstáculo pode ser representado pelo domínio da ~ecnolo- gia: o setor se tomar fechado porque os demais capitalistas não têm acesso àtecnologia usada na produção. Outras vezes, a bar- reira à entrada de novos capitais num setor é representada pelo

volume de investimento necessário. Podem existir, ainda~ barreiras

,

I

dos preços relativos.

Esses cálculos são apresentados no Apendicll B,

institucionais

ao ingresso de capitais em determinados

setores.

58

59

Em todos esses casos, os mecanismos responsáveis pela ten- dência à iguala~ão da taxa de lucro deIXarão"de atuar. Um capi- talista poderá obter um retomo maior pelo capital investido, enquanto persistirem os obstáculos à entrada de novos capitais no setor. Nessa situação, o excedente da economia não estará sendo' d~tribuído igualitariamente entre os capitalistas, conforme o' capital investido, e os preços no. mercado serão diferentes dos preços naturais.

Na verdade, os preços naturais, tal como foram ~qui apre- sentados, constituem uma construção te6rica, que nos possibilita examinar como se dá a repartição do prdi{uto numa economia

capitalista e o papel dos preços relativos nessá' distribuição. Do

modelo

apresentado,

podemos destacar alguns aspectos impor-

tantes:

1.

A distribuição

o volume real desse produto.

do produto

entre

salários e lucros não afeta

2. Numa situação estacionária, aumentos reais de salários s6 poderão ser obtidos çom a diminuição o dos lucros. A situaçio é o diferente quandb há aumentos de produtividade: tanto os salários como 'os lucros podem aumentar.

3 . A distribuição do produto se expressa através dos salários reais

e dos preços relativos das demais mercadorias. Assim, quando

os salários monetários aumentam e os preçOs monetários das demais mercadorias também aumentam, os preços relativos podem se alterar ou não, o que irá ou não ocasionar uma mudança na repa~tição do produto. ESse, contudo, não sofre alteração.

, Esse último ponto é importante, pois fornece elementos para

entendermos um pouco a disputa que se esconde por trás de um processe· inflacionário. Vàmos examiná-Io melhor, através do nosso

exemplo. Partimos de uma situação em que:

60

preço dê 1 tonelada ~etrigo

preço

de, 1 tonelada

de bolo

e. salário 'anual

par

trabalhador

Temos~ então:

= 5 u.m.

= 7,5 um.

= 5

u.m.

(l

t de trigo).

.Valor total da produção:

(10,5 X 5 um.)

+ (3

x

7,5 um.)

 

,

Insumos:

 

.

.

(8

X

5 u.m.)

Produto

disponível:

 

Salários:

 

.

.

'

(2 )C

5 u.m.)

 

,

Lucros:

 

(35

u.m. -

 

10 u.m.)

 

Participação no produto

disponível:

Salários:

 

.

2R,6%

Lucros:

 

71.4%

 

75

u.m.

 

.

'

40

um.

 

.

 

35

u.m.

 

.

 

10u.m.

 

.

 

25 u.m.

.DJ\-t 6~'fotl

r J1\.:::

lo",~1

Suponhamos que os' trabalhadores consigam uma elevação do salário monetário, que passa a ser de 6 u.m. Se os demais preços não se alterarem, os trabillhadores terão .um aumento real de salá- rio, uma vez que poderão adquirir uma quantidade maior de mer- o cadorias. Mas, como vimos, esse aumento de salário real significará uma alteração da distribuiçio do produto disponível, com prejufzo para os capitalistas.IO Ora, para evitar que isso ocorra, os o capita~ listas 'procurarão elevar os' preços de seus produtos, tentando preservar, seus lucros.

10 Bssa w:vaçlo

bolo. o da tonelada 40 trigo, produzirá efeitos diferentes nas ta,xas de lucro

nos preços da tonelada de

do.

sal4riOl, sem· alteraçio

du

duas emprcsa8. Ver' Apêndice B.

61

Suponhamos que a economia se estabilize com um novo C:lD- junto de preços, quais sejam.:

preço

de

1 t

de

trigo:

6 um.

preço

de

1 t

de bolos:

9 um.

e

salário anual por trabalhador:

6 u.m.

Nesse

caso, o

produto

terá

um

valor

monetário

maior,

e

também serão maiores os valores das parcelas destinadas aos salários e aos lucros:

Valor total da produção:

 

~

.

90 um.

Insumos:

:

:

.

48

u.m,

Produto disponível:

 

.

42 u.m.

Salários:

.

.

.

12

um.

Lucros:

.

.

'.'

.

30

u.m.

A

participação

no

produto,

contudo,

terá

permanecido

a

mesma:

Salários:

.

.

.

28,6%

.

Lucros:

.

.

.

71,4%

Esse apenas um exemplo do que pode ocorrer na economia qUll1:ldose alteram os preços monetários. Para exemplificar outro resultado possível, vamos supor que a situação venha a se estabi- lizar com os seguintes preços:

preço

de

1 t

de

trigo:

:

7,5 u.m.

preço

de

1 t

de bolos:

 

10,78 u.m.

e

salário

anual por trabalhador:

,

6 u.m.

Nesse caso, apesar da elevação do salário monetário, terá sido

A distribuição

reduzida a participação do produto será:

dos salários no produto.ll

.

11 , Podemos observar que a relação de troca entre trigo e bolo se alterou. As jUstificativas são apresentadas no Apendice B.

62

Salário:

23,5%

Lucros:

76,5%

!

.!

Vemos. assim. que as alterações dos preços monetários podem mascarar modificações na distribuição do produto, entre salários e lucros. ou entre a parcela do excedente apropriada por cada capitalista. Capitalistas com maior poder sobre o mercado conse- guirão mais facilmente repassar .para o preço dos seus produtos o aumento dos salários. Voltaremos a esse assunto. nas páginas

seguintes, quando

examinarmos o comportamento dos preços no

mercado.

63

Apêndice

B

,{

A DETERMINAÇÃO DA TAXA DE LUCRO E DOS PREÇOS DE PRODUÇÃO

Em um modelo simplificado como o que foi apresentado, a determinação dos preços relativos que iguala as taxas de lucro dos dois setores não apresenta grandes dificuldades. Primeiramente,

foi obtida a tua de lucro na empresa produtora' de trigo; como nessa empresa os insumos, os salários ~ o produto são constituídos pelo mesmo' produto, não foi necessário recorrer a uma medida

'de valor· para calculá-Ia.

Uma vez obtida a taxa de lucro da empresa produtora de

.

trigo, e considerando

tratamos de encontrar os preços relativos que permitem à empresa

de bolos realizar essa mesma taxa. Para isso, devemos

considerar que o valor da produção total de' bolos deve ser sufi- ciente para cobrir os custos de produção e proporcionar um volu- me de lucros que represente 8 mesma lucratividade. As~im:

produtora

a hip6tese da igualação 'das tuas

de' lucro,

preço de 3 t de bolo = preço dos insumos + v.alor dos salários + lucros

64

lucros

Se r = -------

capital investido

etlJão lucros = r (capital investido)

Designando os lucros por I, o preço da tonelada de bolo por Pb,

o preço da tonelada

de trigo por

Pt

e

o salário

por w,

temos:

= 2pt

3Pb = 2pt

3Pb

+ W

+ W + r

+ 1

(2pt

+ w)

comó W = Pt, então. substituindo r = 0,5, temos:

3

pb = .1.5pt

Um modelo mais C91Uplexoiria exigir um instrumental mais

tIOfisticado, sem prejuízo

salários,

sem que 08 preços das demais mercadorias se altere, produzirá. efeitos diferentes nas taxas de lucro das duas empresas. Para isso, voitemos às equações de preços das duas empresas. Para a empresa produtora de trigo, essa equação de preços é:

dos resultados.1

ainda,

que

uma

Podemos

verificar,

elevação

dos

10,5pt = 6pt

+ W +

rt

(6pt

+ w)

Para a empresa produtora

de bolos, a equação de preços é:

3Pb = 2pt

+ w

+

tb (2pt

+ w)

J

Veja-sc Sraffa,

P.

Produção

de Janeiro. Zah&r; 1977.

de mercadorias

por meio de mercadorias. '

Rio

65

onde

rt

taxa

de

lucro

para

a

empresa

produtora

de

trigo

e

1"1>

= taxa

de

lucro

para

a

empresa

produtora

de

bolo

Suponhamos que:

pt

Pb

c W

5 u.m. = 7,5 u.m. 6 u.m.

=

=

Fazendo as substituições e resolvendo as equações, teremos:

 

rt

= 0,49

e

1"1>

= 0,41

Observamos que as duas taxas de lucro foram reduzidas.

Tal resultado era de se esperar, que o excedente diminuiu com

o aumento no salário real. Mas, como na empresa produtora de

bolos o salário tem um peso maior em relação ao total do capital

investido, a elevação do salário refletiu-se mais intensamente na

sua taxa de lucro. Para que fosse mantida a mesma taxa de lucro

preços

relativos.

nas

duas

empresas,

seria

necessário

uma

alteração

nos

Para verificar isso, vamos supor que o salário real. expresso

Nesse caso,

em toneladas

de trigo. aumente para

1,2

t

de tjigo.

o lucro da empresa produtora

de trigo será:

l' = -'--------,-

 

6pt

+

1,2pt

r

= 0,39

ou

39%

Como a taxa de lucro deve ser igual nos dois setores, podemos

os novos preços ,relativos que permitem essa igualação

encontrar

66

,

I

substituindo, na equação de preços da indústria produtora de bolos, r pelo valor encontrado:

Vemos, assim, que, com o salário real correspondente a 1,2 t trigo, a relação entre os preços dos dois produtos para permitir a igualação das taxas de lucro, deverá ser: pb = l,47pt.

67

)

,

I

LEITURAS A,DICIONAIS

o modelo apresentado fundamenta-se nu idmu de D. Ricardo, expOltal

nu SUBI obras, e no deaenvolvimallto posterior feito por P. Sraffa em Produção' de mercadorilu por mtdo de lfNt'CtIdarlas, Rio de Janeiro, Zabar,

1977. Os leitores, contudo, poderão l!IIIContraruma 0llI'ta diflculdade na

leitura dessa obra, exceto, talvez, o prlmefro capítulo, .ue 6 meJa a~. Com relaçlo a Ricardo, indicamOl particularmlllite 01 capftulOl I, IV,

\'

Cultural, 1982. Sobre a repartiçio do produto e 01 preçOI de produçio, uma lei••

e

VI

de Prinetpios

de

economia

polltictz

'

tTlbuttlÇlo,

São Paulo, AIarll

acC8s'vele bastante didttica 6 P. M. Lichtenltein,

Op. cit., cap.5,

TM

Bco-

I

nomic

Surplus 'Historically

Considlll'ed,

e capo

7, TM

Post-Keynaian

(Neo-

'

Ricardilm)

Theory

01 Value

and

PricB.

.

Owmto à teoria marxista sobre os salários, um estudo introdut6rio pode

ser feito atrav6s de K. Marx, Sal4rio,

68

prtlÇO e lucro.

)

.,