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MODELAGEM DA POLUIÇÃO NÃO PONTUAL NA BACIA DO RIO CUIABÁ

BASEADA EM GEOPROCESSAMENTO

Michely Inêz Prado de Camargo Libos

TESE SUBMETIDA AO CORPO DOCENTE DA COORDENAÇÃO DOS

PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO DE ENGENHARIA DA UNIVERSIDADE

FEDERAL DO RIO DE JANEIRO COMO PARTE DOS REQUISITOS NECESSÁRIOS

PARA A OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE EM CIÊNCIAS EM ENGENHARIA

CIVIL.

Aprovada por:

Prof. Otto Corrêa Rotunno Filho, Ph.D.

Prof. Peter Zeilhofer, Dr. Rer. Silv.

Prof. Flávio César Borba Mascarenhas, D.Sc.

Prof. Geraldo Wilson Júnior, Dr. d’Etat.

Prof. João Paulo Machado Torres, D.Sc.

Prof. Jorge Xavier da Silva, Ph.D.

RIO DE JANEIRO, RJ - BRASIL SETEMBRO DE 2002

ii

LIBOS, MICHELY INÊZ PRADO DE CAMARGO Modelagem da Poluição Não Pontual na Bacia do Rio Cuiabá Baseada em Geoprocessamento [Rio de Janeiro]

2002

cm

(COPPE/UFRJ, M.Sc., Engenharia Civil, 2002). Tese - Universidade Federal do Rio de Janeiro, COPPE 1. Modelagem hidrológica; 2. Regionalização hidrológica; 3. Poluição não pontual ou difusa; 4.

Geoprocessamento; 5. Sistema de informações geográficas (SIG); 6. Sensoriamento remoto; 7. Bacia hidrográfica do rio Cuiabá. I. COPPE/UFRJ II. Título ( série )

XVI,

249

pp.

29,7

iii

Infelizmente, a ciência, utilíssima, especialista em saber "como as coisas funcionam", tudo ignora sobre o coração humano. É preciso sonhar para se decidir sobre o destino da navegação. Mas o coração humano, lugar dos sonhos, contrário da ciência, é coisa imprecisa. Disse certo o poeta:

"Viver não é preciso". Primeiro vem o impreciso desejo de navegar. Só depois vem a precisa ciência de navegar.

" a galera navega em direção ao progresso,

velocidade cada vez maior, ninguém questiona a direção. E é assim que as florestas são destruídas, os rios se transformam em esgotos de fezes e veneno, o ar se enche de gases, os campos se cobrem de lixo - e tudo ficou feio e triste" (ALVES,

1999).

iv

Dedico esta conquista a Deus, que me deu de presente a oportunidade de começar, cursar e concluir este mestrado e aos meus pais, Michel e Maria Inêz, pelo exemplo de vida.

Dedico esta tese à professora Eliana Beatriz Nunes Rondon Lima que, de forma muito especial, me incentivou e abriu caminhos para que este mestrado fosse realizado, e que, como uma profunda conhecedora do significado da palavra “professor”, pôde transmitir conhecimentos de forma ímpar, com carinho, amor e vontade.

v

AGRADECIMENTOS

Este tempo de pesquisa foi um período ímpar em minha vida. Foi um tempo de dedicação exclusiva, o que significou muitas vezes afastamento das pessoas que tanto amo, meus pais, meus irmãos (Michel e Michelyne), meu namorado (Fernando), cunhados (Gleice e Emanuel) e, principalmente, meus queridinhos e lindos sobrinhos (Miguel, Rafael, Gabriel e Emanuel). Agradeço a todos vocês pelo apoio e por acreditarem que eu chegaria ao fim dessa jornada.

Houve assim, nestes anos, um mergulho nas origens e conseqüências das ações antrópicas no meio ambiente, tão fundamental aos seres humanos e tão negligenciado por nós.

Para essa necessária dedicação exclusiva, foi fundamental o apoio recebido da UFRJ e da CAPES/MINTER, possibilitando, em forma de bolsa, que esse mergulho não fosse disperso com outras atividades. Foi essencial também o apoio recebido do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFMT, onde pude realizar os trabalhos de pesquisas no laboratório de informática, com total tranqüilidade, liberdade e acesso, tanto aos dados e recintos, quanto principalmente ao pessoal.

Os meus agradecimentos dirigem-se, também, aos professores Otto Corrêa Rotunno Filho e Peter Zeilhofer, que depositaram em mim um voto de confiança, incentivando-me, indicando trilhas, caminhos e acreditaram em minha capacidade para a realização deste trabalho, com orientações sempre presentes, certas e incansáveis.

Gostaria de deixar o meu reconhecimento ao pessoal do projeto Sistema Integrado de Monitoramento Ambiental da Bacia do Rio Cuiabá (SIBAC).

Aos colegas de mestrado, ao pessoal Laboratório de Hidrologia, aos amigos, em geral. Particularmente, à amiga Alessandra, cujo convívio nos ensinou a aceitar nossas diferenças, nos respeitarmos e a nos amarmos no período em que moramos juntas.

À família Mussi de Barros (Júnior, Lorena, Matheus e Gabriela) por abrirem sua casa e principalmente seus corações para me abrigarem e me confortarem nos períodos em que estive na cidade do Rio de Janeiro. Vocês são muito especiais, meu eterno agradecimento.

vi

Agradeço ao professor David Maidment pelas sugestões dadas ao meu trabalho. Registro ainda o meu agradecimento pelos dados e informações dos órgãos ANEEL e EMBRAPA.

A todas as pessoas e instituições mencionadas, muito obrigada!

Escrever uma dissertação de mestrado é quase sem- pre trabalhoso e sua realização feita sob pressão. Uma parte dela é vivida de forma solitária; a outra parte é solidária. O produto final é sempre resultado da contribuição de várias pessoas, embora os erros e os acertos sejam de responsabilidade exclusiva do autor.

vii

Resumo da tese apresentada à COPPE/UFRJ como parte dos requisitos necessários para a obtenção do grau de Mestre em Ciências (M.Sc.).

MODELAGEM DA POLUIÇÃO NÃO PONTUAL NA BACIA DO RIO CUIABÁ BASEADA EM GEOPROCESSAMENTO

Michely Inêz Prado de Camargo Libos

Setembro/2002

Orientadores: Otto Corrêa Rotunno Filho

Peter Zeilhofer

Programa: Engenharia Civil.

A modelagem hidrológica tem sido uma das ferramentas de análise disponíveis para auxiliar no gerenciamento de recursos hídricos. A possibilidade de monitoramento da qualidade da água resultante da lixiviação dos poluentes advindos das atividades agrícolas, denominada poluição difusa, é a hipótese central deste trabalho, que busca identificar e quantificar alterações da qualidade da água na bacia do rio Cuiabá em função da cobertura e uso do solo. Essa bacia foi escolhida por estar localizada no Estado de Mato Grosso, que possui uma vocação eminentemente agrícola, localizando-se a montante do complexo Pantanal, constituindo-se em uma importante área para condução de estudos ambientais no Brasil. A bacia do rio Cuiabá possui uma área de drenagem de aproximadamente 29.000 km 2 . Nesse contexto, buscou-se desenvolver uma modelagem hidrológica distribuída, de longo curso, baseada em geoprocessamento através de sistema de informações geográficas (SIG). Mais especificamente, avalia-se a distribuição espacial dos poluentes nitrogênio total e fósforo total na bacia a partir da integração de dados hidrometeorológicos, de qualidade da água, fisiográficos, de uso e ocupação do solo e imagens do sensor Landsat 7 - ETM+ em ambiente SIG. Os resultados obtidos pela modelagem, quando confrontados com séries históricas de qualidade de água da bacia do rio Cuiabá, apontaram a aceitabilidade da metodologia proposta como indicadora da variabilidade espacial da qualidade média de água.

viii

Abstract of thesis presented to COPPE/UFRJ as a partial fulfillment of the requirements for the degree of Master of Science (M.Sc.).

MAP-BASED SIMULATION OF NON-POINT POLLUTION IN THE CUIABÁ RIVER WATERSHED

Michely Inêz Prado de Camargo Libos

Advisors:

September/2002

Otto Corrêa Rotunno Filho

Peter Zeilhofer

Department: Civil Engineering.

The hydrological modeling has been one of the available tools for analysis applied to water resources management. The possibility of water quality monitoring due to poluents leach by agriculture activities, named diffuse pollution, is the main hypothesis of this work, which aims to identify and to quantify water quality changes at Cuiabá river watershed as a result of land use and land cover. This watershed was chosen since it is located at Mato Grosso state, which is specially devoted to agricultural activitie upstream of Pantanal system, being, in this way, an important area for conducting environmental studies in Brazil. The Cuiabá river watershed has a drainage area nearby of 29.000 km 2 . Under this framework, it was sought to develop a long term distributed hydrological modeling based on mapping through geographic information system (GIS). Being more specific, it is evaluated the total nitrogen and total phosphorus spatial distribution in the watershed defined from a database including hydrometeorological data, water quality data, physiographic information, land cover data and Landsat 7 - ETM+ remotely sensed images under GIS environment. The results obtained through modeling, when compared to water quality data sets collected at Cuiabá river watershed, pointed to adopting the proposed methodology as an indicator of the mean water quality spatial variability.

ix

ÍNDICE

AGRADECIMENTOS

v

RESUMO

vii

ABSTRACT

viii

ÍNDICE

ix

LISTA DE FIGURAS

xi

LISTA DE TABELAS

xiii

LISTA DE ABREVIATURAS

xv

CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO

1

CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

5

2.1 Água: a força do mito

5

2.2 Binômio: água e agricultura

7

2.2.1 Agricultura

11

2.2.2 Solo: componente do sistema agrícola

25

2.3

Água: poluição e degradação

29

2.3.1

Poluição de fonte não pontual

31

2.4 Proposta de desenvolvimento agrícola sustentável

38

2.5 Ferramentas de análise

43

2.5.1 Modelagem hidrológica

43

2.5.2 Geoprocessamento

57

2.5.3 Interpolação espacial

81

CAPÍTULO 3 – MATERIAIS E MÉTODOS

87

3.1

Modelo numérico do terreno (M.N.T.)

91

3.1.1

Implementação do M.N.T. na bacia do rio Cuiabá

91

3.2

Direção e acumulação do fluxo de água na rede

91

3.2.1

Sub-bacias de drenagem ou áreas de contribuição

93

3.3

Interligação entre a concentração média estimada de poluentes com o uso

 

do solo

102

3.3.1

Sensoriamento remoto

103

3.4 Estimativa da carga anual dos nutrientes

116

3.5 Estimatimando a concentração média esperada

117

3.6 Simulação de cenários

119

CAPÍTULO 4 – ÁREA DE ESTUDO – BACIA DO RIO CUIABÁ

124

4.1

Características gerais da bacia

127

4.1.1 Características da exploração e ocupação da bacia

129

4.1.2 Características geológicas, geomorfológicas e de vegetação

131

4.1.3 Quantidade da água na bacia do rio Cuiabá

135

4.1.4 Qualidade da água na bacia do rio Cuiabá

136

4.1.5 Usos da água na bacia do rio Cuiabá

139

CAPÍTULO 5 – RESULTADOS E DISCUSSÕES

143

5.1 Modelo numérico do terreno

143

5.2 Sentido e acumulação de água na rede

144

5.2.1

Sub-bacias de drenagem ou área de contribuição

145

5.3 Interligação entre a concentração média esperada de poluentes com o uso

x

5.3.1 Sensoriamento remoto e SIG

157

5.3.2 Valores das concentrações médias esperadas (EMC)

165

5.4 Estimativa da concentração média dos nutrientes

168

5.5 Simulação de cenários

175

CAPÍTULO 6 – CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES

179

CAPÍTULO 7 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

187

LISTA DE APÊNDICES

215

Apêndice A

Resumo da resolução CONAMA 20/86

213

Apêndice B

Características do Landsat 7 – ETM+

218

Apêndice C

Noções básicas de correlação e regressão estatística

220

Apêndice D

Dados das estações pluviométricas em milímetros (células em

cinza contêm valores preenchidos)

227

Apêndice E

Dados fluviométricos medidos nas estações na bacia do rio

Cuiabá (m 3 /s) (células em cinza contêm valores preenchidos)

231

Apêndice F

Algoritmo de escoamento acumulado poderado (weight flow accu-

mulation)

233

Apêndice G

Algoritmo de escoamento acumulado poderado de nutrientes (nu-

trients weight flow accumulation)

234

Apêndice H

Estimativa de parâmetros pelo método da máxima verossimilhan-

ça (MAXVER)

235

Apêndice I

Produção agrícola do ano de 1999 na bacia do rio Cuiabá

239

Apêndice J

Testes estatísticos

243

Apêndice K

Pontos de controle utilizados na correção geométrica das imagens

de satélite Landsat 7 – ETM+

251

Apêndice L

Resumo estatístico das áreas de treinamento de calibração e

validação da imagem WRS 227/70

252

xi

LISTA DE FIGURAS

Figura 2.1 -

Ciclo hidrológico

9

Figura 2.2 -

Usos preponderantes da água

13

Figura 2.3 -

Ciclo do nitrogênio no solo

17

Figura 2.4 -

Principais etapas do ciclo do nitrogênio em corpos aquáticos

18

Figura 2.5 -

Utilização do nitrato como aceptor do hidrogênio

20

Figura 2.6 -

Principais etapas do ciclo do fósforo em ecossistemas aquáticos.

23

Figura 2.7 -

Composição volumétrica da camada arável de um solo que apre- senta boas condições para o crescimento das plantas

26

Figura 2.8 - Figura 2.9 -

Fontes de poluição Esquema das principais contribuições da agropecuária na conta-

30

minação das águas

33

Figura 2.10 -

Relação entre modelagem e simulação

45

Figura 2.11 -

Diagrama das fases da formulação do modelo

45

Figura 2.12 -

Fluxograma de um sistema de cartografia automatizada

59

Figura 2.13 -

Fluxograma de um sistema de cadastro de múltiplas finalidades

60

Figura 2.14 -

Fluxograma de um sistema de planejamento territorial

60

Figura 2.15 -

Fluxograma de um sistema de gestão territorial

61

Figura 2.16 -

Faixas do espectro eletromagnético

68

Figura 2.17 -

Curvas de probabilidade de píxeis pertencentes a certas áreas de treinamento

76

Figura 2.18 - Figura 2.19 -

Limites de decisão superpostos no processo de classificação Representação do método de classificação por MAXVER quando

76

áreas de treinamento estão sobrepostas

77

Figura 3.1 -

Fluxograma simplificado dos passos metodológicos para mode-

lagem

89

Figura 3.2 -

Fluxograma dos passos da metodologia empregada para a si-

mulação da carga dos nutrientes por fontes não pontuais

90

Figura 3.3 -

Processamento dos dados de elevação digital: (a) oito sentidos

do fluxo de água no modelo pontual; (b) modelo de elevação digital; (c) matriz de sentido do fluxo de água; (d) matriz do fluxo de água acumulado; (e) rede do fluxo do fluxo de água

93

Figura 3.4 -

Estações pluviométricas utilizadas no estudo

97

Figura 3.5 -

Estações fluviométricas utilizadas no estudo

98

Figura 3.6 -

Rede hidrográfica digital da bacia do rio Cuiabá

105

Figura 3.7 -

Esquema representativo do conjunto de cartas topográficas utili- zadas para a confecção da rede hidrográfica

106

Figura 3.8 - Figura 3.9 -

Decisão por funções discrimindas Comportamento das concentrações observadas de nitrogênio to-

113

tal

119

Figura 3.10 -

Comportamento das concentrações observadas de fósforo total

119

Figura 3.11 -

Municípios pertencentes a bacia do rio Cuiabá

121

Figura 4.1 -

Principais bacias hidrográficas da América Latina e brasileiras

124

Figura 4.2 -

Bacia do rio Paraguai e bacias ao redor: Amazonas, Tocantins e Paraná

125

Figura 4.3 -

Sub-bacias, no Estado de Mato Grosso, da bacia do Alto Para-

guai (BAP)

126

Figura 4.4 -

Área de estudo: sub-bacias do rio Cuiabá

128

Figura 4.5 -

Evolução das áreas irrigadas no Brasil

140

Figura 5.1 -

Modelo numérico do terreno (M.N.T.) da bacia hidrográfica do rio Cuiabá

144

Figura 5.2 -

Plano de informação do sentido fluxo superficial na bacia do rio

Cuiabá

144

xii

Figura 5.3 - Figura 5.4 -

Área de drenagem das sub-bacias de contribuição Semivariograma empírico para chuva média anual na bacia do

145

rio Cuiabá

147

Figura 5.5 -

Resultado da interpolação das estações pluviométricas

148

Figura 5.6 -

Plano de informação do volume anual acumulado das chuvas

149

Figura 5.7 -

Variações das alturas das vazões médias anuais observadas e vazão média de longo curso (mm) nos postos fluviométricos na bacia do rio Cuiabá (1993-1999)

151

Figura 5.8 -

Ajuste do modelo de regressão linear entre a chuva e a vazão

média de longo curso

154

Figura 5.9 -

Análise de resíduos – resíduos padronizados em função dos

valores estimados para a vazão

155

Figura 5.10 -

Plano de informação da vazão média de longo curso (mm/ano)

estimada por célula Figura 5.11 - Plano de informação do volume anual acumulado na bacia

156

Figura 5.12 -

(m 3 /ano) Correlação entre bandas: (a) 1/2; (b) 1/3; (c) 1/4; (d) 1/5; (e) 1/7; (f) 2/3; (g) 2/4; (h) 2/5; (i) 2/7; (j) 3/4; (k) 3/5; (l) 3/7; (m) 4/7; (n)

156

5/7

160

Figura 5.13 -

Detalhe de algumas áreas de treinamento atribuídas à imagem WRS 227/70

Figura 5.14 - Classificação do uso do solo baseada nas imagens digitais Landsat 7 – ETM+ (WRS 227/71, 227/70, 226/70 e 226/71) de julho de 2000

162

164

Figura 5.15 - Cobertura e uso do solo da bacia do rio Cuiabá segundo as classes estabelecidas

165

Figura 5.16 -

Distribuição do EMC de nitrogênio total na bacia do rio Cuiabá

168

Figura 5.17 -

Distribuição do EMC de fósforo total na bacia do rio Cuiabá

168

Figura 5.18 -

Nitrogênio total simulado e observado

170

Figura 5.19 -

Fósforo total simulado e observado

170

Figura 5.20 - Concentração estimada de nitrogênio total na bacia do rio

 

Cuiabá

171

Figura 5.21 - Figura 5.22 -

Concentração estimada de fósforo total na bacia do rio Cuiabá Simulação das concentrações de fósforo total em contraste com

171

o resolução CONAMA 20/86

173

Figura 5.23 -

Simulação das concentrações de fósforo total para caracteriza-

ção do estado de eutrofização das águas da bacia do rio Cuiabá.

174

Figura 5.24 -

Nitrogênio total simulado para algodão

177

Figura 5.25 - Fósforo total simulado para algodão

178

Figura C.1 -

Componentes da equação de regressão

222

Figura C.2 - Figura D.1 -

Representação dos resíduos na equação de regressão Variação da precipitação em cinco postos pluviométricos utiliza-

224

dos neste estudo

230

Figura D.2 - Variação da precipitação média anual nos postos utilizados neste estudo

230

Figura E.1 - Variação da vazão nos sete postos fluviométricos utilizados neste estudo

232

Figura E.2 - Variação da vazão média anual nos postos utilizados neste estudo

232

xiii

LISTA DE TABELAS

Tabela 2.1 -

Sistema de uso da terra proposto pela União Geográfica Inter-

nacional Tabela 2.2 - Vantagens e desvantagens da utilização da regionalização

27

 

hidrológica

47

Tabela 2.3 -

Modelos para avaliar a contaminação de fontes não pontuais

55

Tabela 2.4 - Principais aplicações das bandas do sensor TM do satélite Landsat 5

69

Tabela 3.1 -

Localizações geográficas dos postos de medição de precipitação

96

Tabela 3.2 -

Localizações geográficas dos postos de medição de vazão

97

Tabela 3.3 -

Classes preliminares utilizadas no processo de classificação e classes finais para a implementação da modelagem

115

Tabela 3.4 - Tabela 3.5 -

Valores das concentrações de nutrientes nos postos de medição. Características e informações dos municípios da bacia do rio

118

Cuiabá

121

Tabela 3.6 -

Quantidade de fertilizantes utilizados por cultura e proporções

dos nutrientes

122

Tabela 4.1 -

População residente, por sexo, situação do domínio e taxa de crescimento anual nos municípios da bacia do rio Cuiabá –

1996/2000

131

Tabela 4.2 -

Estimativa do consumo anual de fertilizantes (NPK) em Mato

Grosso – ano base 1998/99

131

Tabela 4.3 - Tabela 5.1 -

Evolução das áreas irrigadas no Brasil Informações dos postos fluviométricos e suas respectivas sub-

140

bacias de drenagem

145

Tabela 5.2 -

Dados de chuva média mensal e anual dos postos de medição

em milímetros na bacia (1993-1999)

146

Tabela 5.3 -

Dados de vazão média mensal e anual dos postos de medição

na bacia (m 3 /s)

146

Tabela 5.4 -

Volume anual acumulado das áreas de drenagem nas estações

de medição de vazão

149

Tabela 5.5 -

Vazão média anual (m 3 /s) registrada nos sete postos de medição

na bacia do rio Cuiabá

150

Tabela 5.6 - Vazão média anual (m 3 /ano) registrada nos sete postos de medição na bacia do rio Cuiabá

150

Tabela 5.7 - Altura média anual (mm/ano) registrada nos sete postos de medição na bacia do rio Cuiabá

150

Tabela 5.8 -

Conversão das vazões médias de longo curso de m 3 /s para

m 3 /ano e mm/ano

150

Tabela 5.9 -

Vazão e chuva média de longo curso por célula em mm/ano

153

Tabela 5.10 - Resultado da regressão entre chuva e vazão média de longo

 

curso, aplicando aos diferentes modelos

153

Tabela 5.11 -

Resultado estatístico do modelo de regressão linear entre chuva

e vazão

154

Tabela 5.12 - Tabela 5.13

Matriz de correlação entre as bandas 1, 2, 3, 4, 5 e 7 Análise estatística das áreas de treinamento de calibração (WRS

158

227/70)

161

Tabela 5.14 -

Análise estatística das áreas de treinamento de validação (WRS

227/70)

161

Tabela 5.15 -

Resultado da classificação

165

Tabela 5.16 - Valores observados e simulados de nitrogênio total (NT) e

conforme

fósforo

total

(PT)

nos

postos

fluviométricos

xiv

Tabela 5.17 -

Valores das concentrações estimadas de NT e PT por categoria de uso do solo

167

Tabela 5.18 - Valores observados e simulados de nitrogênio total (NT) e fósforo total (PT) nos postos fluviométricos conforme EMC’s calibrados

169

Tabela 5.19

Área plantada de cada cultura nos municípios pertencentes à bacia do rio Cuiabá

175

Tabela 5.20 - Quantidade de N e P utilizados nas culturas e suas percenta- gens

176

Tabela 5.21 -

Valores calculados de EMC por cultura

176

Tabela 5.22 - Área plantada (em km 2 ) de cada cultura e valores de EMC calculados

176

Tabela 5.23 -

Resultados da simulação de cenários para plantação de algodão

177

Tabela A.1 -

Padrões de qualidade de água segundo CONAMA 20/86

217

Tabela B.1 -

Informações sobre os satélites lançados pela NASA

218

Tabela B.2 -

Características do satélite Landsat 7 – ETM+

218

Tabela C.1 - ANOVA de uma regressão simples Tabela J.1 - Resultados da aplicação dos testes de estacionariedade nas

226

 

séries de chuva, vazão e qualidade de água

243

xv

LISTA DE ABREVIATURAS

ABRH

Associação Brasileira de Recursos Hídricos

ACTMO

Agricultural Chemical Transport Model

AGNPS

Agricultural Non-point Source Pollution

AMSC

Agência Munipipal de Saneamento de Cuiabá

ANEEL

Agência Nacional de Energia Elétrica

ANSWERS

Areal Non-point Source Watershed Environment Response Simulation

APA

Área de Proteção Ambiental

ARM

Agricultural Runoff Management

AVHRR

Advanced Very High Resolution Radiometer

BHC

Hexaclorociclohexana

BMP’s

Best Management Practices

CASI

Compact Airborne Spectral Imagery

CEMAT

Companhia de Energia Elétrica de Mato Grosso

CEQUEAU

Modelo hidrológico desenvolvido na Universidade de Quebec - Canadá

CETESB

Companhia Tecnologia de Sanemanto Ambiental

CONAMA

Conselho Nacional de Meio Ambiente

CPI

Comissão Parlamentar de Inquérito

CPRM

Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais

CREAMS

Chemical, Runoff and Erosion from Agricultural Management Systems

DBCP

Dibromocloropropano

DBO

Demanda Bioquímica de Oxigênio

DDT

Dicloro-difenil-tricloretano

DESA

Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental - UFMT

DNOS

Departamento Nacional de Obras e Saneamento

DSG

Diretoria do Serviço Geográfico do Exército

DT

Decision Tree

EDB

Dibromuro de Etileno

EDS

Expanded Downscalling

EE

Estações Ecológicas

EMC

Expected Mean Concentration

EMPAER

Empresa Matogrossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural S/A

EP

Estradas Parques

EPA

Environmental Protection Agency

EPIC

Erosion-Productivity Impact Calculator

ESCAP

Economic and Social Commission for Asia and the Pacific

ESRI

Environmental Systems Research Institute

ETE

Estação de Tratamento de Esgoto

ETM+

Enhanced Thematic Mapper Plus

FAO

Food and Agriculture Organization

FEMA

Fundação Estadual do Meio Ambiente de Mato Grosso

FGV

Fundação Getúlio Vargas

FIBGE

Fundação do Institudo Brasileiro de Geografia e Estatística

FIR

Infravermelho Afastado

FUNCATE

Fundação de Ciências, Aplicações e Tecnologias Espaciais

GLEAMS

Groundwater Loading Effects of Agricultural Management

GRASS

Geographic Resources Analysis Support System

HPSF

Hydrologic Simulation Program-Fortran

IBGE

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

IDW

Inverse Distance Weighted

INMET

Instituto Nacional de Metereologia

INPE

Instituto Naciona de Pesquisas Espaciais

IPH

Instituto de Pesquisas Hidráulicas

xvi

IQA

Índice de Qualidade de Água

M.N.T.

Modelo Numérico do Terreno

MAXVER

Máxima Verossimilhança

MIR

Infravermelho Intermediário

MKT

Kauth Thomas Multitemporal

ML

Maximum Likelihood

MSMA

Multitemporal Spectral Mixture Analysis

MT

Mato Grosso

NASA

National Aeronautics and Space Administration

NDVI

Normalized Difference Vegetation Index

NIR

Infravermelho Próximo

NOAA

National Oceanic and Atmospheric Administration

NPS

Nonpoint Source

NT

Nitrogênio Total

OPS

Organização Panamericana de Saúde

PCBAP

Plano de Conservação da Bacia do Alto Paraguai

PDBG

Plano de Despoluição da Baía de Guanabara

PI

Plano de Informação

PN

Parque Nacional

PT

Fósforo Total

RIMA

Relatório de Impacto sobre o Meio Ambiente

SAD

South America Datum

SAGA

Sistema de Análise Geo-Ambiental

SANEMAT

Companhia de Saneamento do Estado de Mato Grosso

SCS

Soil Conservation Service

SHE

Système Hydrologique Européen

SIBAC

Sistema Integrado de Monitoramento Ambiental da Bacia do Rio Cuiabá

SIG

Sistema de Informações Geográficas

SISPLAMTE

Sistema de Apoio ao Planejamento e Monitoramento Territorial

SPOT

Systeme Probatoire d’Observation de la Terre

SVAT

Soil Vegetation Atmospherical

SWAM

Small Watershed Model

SWAT

Soil and Water Assessment Tool

SWRRBWR

Simulator for Water Resources in Rural Basins Water Quality

TM

Thematic Mapper

UERJ

Universidade Estadual do Rio de Janeiro

UFMT

Universidade Federal de Mato Grosso

UFRJ

Universidade Federal do Rio de Janeiro

UGI

União Geográfica Internacional

USA

United States of America

USLE

Universal Soil Loss Equation

UTM

Universal Transversal Mercator

VIS

Raios Visíveis

WATFLOOD

Modelo hidrológico desenvolvido na Universidade de Waterloo – Canadá.

WEPP

Water Erosion Prediction Project

WQIA

Water Quality Improvement Act

1

CAPÍTULO 1 -

INTRODUÇÃO

A água, componente essencial à vida, é o recurso mais precioso que a Terra

fornece à humanidade. Em muitos domínios do saber, senão em todos, cabe à água o papel de fonte de vida, apesar de ser também um veículo para transmissão de muitas

doenças que causaram e ainda causam grandes epidemias.

Para as civilizações passadas, a água era uma substância primordial, qualitativamente diferenciada, que caracterizava toda uma forma de vida. PRIETO (2002) retrata todos os ensinamentos impregnados pela água na vida dos povos, que reconheciam, no rio, todo o universo, o tempo e o espaço, o riso e o pranto, a vida e a morte, o canto e desencanto, o ir e vir, a chegada e a partida.

A água, símbolo de muitas culturas, traz consigo as marcas do tempo e da evo-

lução da humanidade, onde as civilizações mais desenvolvidas floresceram nos vales em que a disponibilidade de água era abundante e com características especiais,

impulsionando assim o desenvolvimento da agricultura e urbanização nessas regiões REBOUÇAS (1999).

Da mesma forma, no Brasil, o estabelecimento das povoações deu-se nos locais onde a oferta de água era abundante em quantidade e qualidade. Através dos principais rios, estabeleceu-se todo o processo de desbravamento e interiorização do país. Nessa rota, bandeirantes, como Pascoal Moreira Cabral (SILVA, 2000), vieram atraídos pelo ouro e fundaram a cidade de Cuiabá na porção central do país.

Se, no passado, a região despertou uma grande atração migratória com a exploração do ouro, nos dias atuais, o Estado de Mato Grosso posiciona-se entre os maiores produtores de grãos, considerado assim um dos principais celeiros do país. BEZERRA e VEIGA (2000) apontam o cerrado brasileiro como a última grande reserva de terras agricultáveis do planeta.

Segundo ONGLEY (1997), a agricultura, enquanto maior usuário da água doce em escala mundial, é o principal fator de degradação dos recursos hídricos superficiais e subterrâneos, devido à utilização dos agrotóxicos e dos fertilizantes químicos engendrados nas diferentes práticas agrícolas. Tais poluentes, especificamente o nitrogênio total e o fósforo total, quando em excesso nos corpos de água, criam condições de desequilíbro ecológico com grande consumo de oxigênio e produção de

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altas concentrações de subprodutos que alteram a composição das águas, com implicações na saúde humana e na biota aquática (PORTO et al., 1991).

De acordo com BEZERRA e VEIGA (2000) e EXAME (1999), o Brasil espera alcançar o primeiro lugar na agroexportação, visto possuir uma grande reserva de recursos naturais ainda inexplorados. Nesse contexto, insere-se a bacia do rio Cuiabá, onde 88,47% de sua área total ainda é composta de vegetação natural e apenas 11,53% encontra-se antropizada. Desse último percentual, 87,98% é ocupada com pastagem plantada e pecuária extensiva, 9,33% é destinada às plantações de soja e milho que se desenvolvem, predominantemente, nas áreas de cabeceira do rio Cuiabá, plantadas com subdominância de policultura: 0,27% representa o cultivo da cana-de-açúcar, 0,01% é área de reflorestamento e silvicultura, 0,68% é ocupada pelo garimpo de ouro ou diamante e 1,73% constitui a área urbanizada (PCBAP, 1997).

Conciliar a expansão das fronteiras agrícolas na bacia com a preservação dos seus recursos hídricos representa um desafio técnico, econômico e ambiental na implementação da Política Estadual dos Recursos Hídricos, lei n o 6.945, aprovada em 05 de novembro de 1997, que instituiu instrumentos para promover a gestão e o controle dos recursos hídricos do Estado. Esses instrumentos requerem bases sólidas de dados e a utilização de ferramentas analíticas que subsidiem os planos de gerenciamento e as metas de qualidade dos corpos de água a serem definidas para a bacia (MATO GROSSO, 2001).

O gerenciamento dos recursos hídricos requer um conhecimento multidisciplinar, onde é necessária a inter-relação dos aspectos hidráulicos, hidrológicos, ambientais, econômicos, políticos e culturais de forma consistente, para que as tomadas de decisão possam atender às demandas da sociedade e garantir a proteção dos recursos naturais. Com essa finalidade, os modelos de planejamento buscam uma maior integração entre todas as ações, comportamentais e de otimizações, que se desenvolvem na bacia hidrográfica.

Dentro desse enfoque, neste estudo, buscou-se desenvolver uma modelagem hidrológica distribuída baseada em geoprocessamento dentro de um ambiente de sistema de informações geográficas (SIG) de forma a identificar, quantificar e definir cenários esperados que considerem a poluição não pontual na bacia do rio Cuiabá. Este estudo ganha em relevância devido ao fato da bacia do rio Cuiabá estar localizada estrategicamente a montante do complexo Pantanal, reconhecido como

3

patrimônio

eminentemente agrícola.

da

humanidade,

estando

inserida

em

um

Estado

com

vocação

O objetivo geral desta tese é identificar e quantificar as alterações da qualidade da água na bacia do rio Cuiabá em função da cobertura e uso do solo. Mais especificamente, avalia-se a distribuição espacial dos poluentes nitrogênio total e fósforo total na bacia a partir da integração de uma base de dados de natureza múltipla, com vistas a analisar os impactos decorrentes das cargas de nutrientes não pontuais provocadas pelas atividades agrícolas na bacia.

A abordagem adotada contempla uma modelagem hidrológica distribuída simplificada, podendo situá-la no campo de estudos de regionalização hidrológica, incluindo dados hidrometeorológicos, de qualidade da água, fisiográficos e de uso e ocupação do solo. Destaque-se o uso de imagens de sensoriamento remoto do tipo Landsat 7 - ETM+ para a obtenção da classificação da cobertura e uso do solo e do ambiente SIG para aplicação de uma metodologia de análise que leva em conta a natureza diversa dos dados empregados.

Este Capítulo 1 destaca, pois, a importância das múltiplas dimensões e significados da água ao longo das civilizações. Situa o Mato Grosso como um Estado rico em recursos hídricos e com grande potencial de solos produtivos. Introduz a problemática que envolve o gerenciamento desses recursos naturais, considerando a complexidade existente entre os fatores de produção agrícola sustentável e a manutenção da qualidade dos corpos de água. Enuncia o objetivo geral da tese e apresenta a bacia do rio Cuiabá como área de estudo, apontando sucintamente, o procedimento metodológico seguido.

No Capítulo 2 é apresentada a revisão teórica que contextualiza e fundamenta este trabalho, enfatizando a importância da água e da agricultura na sociedade. Salienta também as implicações provocadas pelo uso de fertilizantes nas práticas de cultivos, carreando para os corpos de água os nutrientes nitrogênio total e fósforo total que têm alterado as condições naturais desses compartimentos aquáticos. Relaciona ainda propostas para um desenvolvimento agrícola sustentável. No que tange aos instrumentos hidrológicos utilizados, o Capítulo 2 resgata, da literatura, o campo de modelagem hidrológica e, mais especificamente, os tópicos de regionalização hidrológica e modelos hidrológicos tipo chuva-vazão. A partir desse referencial, enfoca, então, o uso de geoprocessamento e de sensoriamento remoto como ferramentas de análise da qualidade de água de uma bacia hidrográfica.

4

No Capítulo 3 é apresentado o fluxograma metodológico desta tese, envolvendo as etapas de preparação dos dados, análise e classificação de imagens de satélite e implementação da modelagem hidrológica distribuída com ênfase na qualidade de água em um ambiente de sistema de informações geográficas. Essa metodologia foi utilizada anteriormente por SAUNDERS e MAIDMENT (1996).

A área de estudo escolhida foi a bacia do rio Cuiabá, sendo abordada, com mais detalhe, no Capítulo 4. São considerados seus aspectos gerais, físicos, demográficos, geológicos, hidrológicos, climatológicos e formas de ocupação. Apresenta ainda os usos múltiplos a que se destinam as suas águas, enfatizando a atividade agrícola como a principal usuária. Esta bacia possui uma área de drenagem de aproximadamente 29.000 km 2 .

Os resultados e as discussões oriundos deste estudo são apresentados no Capítulo 5. Mostram-se os planos de informação de uso do solo resultante da classificação das imagens do sensor Landsat 7 - ETM+, os dados relativos às séries temporais de chuva e vazão, os planos de informação que fazem parte do procedimento metodológico empregado para se chegar aos planos de informação esperados dos poluentes nitrogênio total e fósforo total estimados para os principais cursos de água na bacia.

As conclusões e recomendações deste trabalho encontram-se apresentadas no Capítulo 6.

No Capítulo 7 estão listadas as referências bibliográficas pesquisadas para a realização deste trabalho e, em seguida, encontram-se os Apêndices, contendo as informações adicionais desta tese.

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CAPÍTULO 2 -

REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

2.1 ÁGUA: A FORÇA DO MITO

Existem muitos mitos, estórias, histórias e crenças sobre a origem e poder das águas, tornando-a, assim, símbolo em muitas culturas e civilizações. No norte do páis, no Estado da Amazônia, existem várias lendas com relação à água e/ou seres que vivem na água. Uma delas é a que se refere aos botos, também conhecidos como golfinhos da Amazônia. Existem duas espécies de botos: o vermelho e o preto. Segundo os cablocos contadores de estórias, o vermelho, que é grande e perigoso, persegue canoas e nadadores e, a outra espécie, de tamanho pequeno, ajuda os afogados e espanta o boto vermelho. Na cultura dos Haida, nativos do noroeste da América do Norte, há um mito. Conta a lenda que a águia possuía água fresca guardada em um cesto; sabendo disso, o corvo conseguiu roubar-lhe o cesto, todavia, como era muito pesado, a água entornou, formando lagos e rios e fornecendo água e alimento não somente aos pássaros, mas também aos homens (RADCLIFFE- BROWN, 1980). Na mitologia a respeito de Narciso, a água foi a causadora de sua morte, pois se Narciso não visse sua imagem refletida na água poderia viver eternamente. Entretanto, quando ele foi saciar sua sede na fonte, viu-se e não pode mais sair dali, uma vez que se apaixonara por sua própria imagem (BRANDÃO, 1987).

A idéia do reflexo na água traz um significado ainda maior, porque a palavra de origem latina reflectere significa “voltar para trás”, entendida como uma tomada de consciência, postura essa necessária para conter a velocidade da degradação ambiental que vem ocorrendo desde os fins do século XVIII e agravando-se ainda mais nos tempos modernos.

Atualmente, apesar da percepção crescente sobre a sua importância e a essencialidade da água à vida, a razão científica transformou-a puramente em um símbolo – H 2 0, ensinado nas escolas como um elemento incolor, inodoro e insípido, como um corpo entre outros, sem alma, sem sentido, uma coisa morta. BRUNI (1993) ressalta que o papel da água não se limita apenas ao atendimento de usos múltiplos, mas ela tem a capacidade de agir também sobre o psíquico e emocional do ser humano. Isto pode ser percebido pelo fascínio que causam as inúmeras quedas de água, as fontes iluminadas, as ondas do mar quebrando na areia da praia, dentre tantas outras.

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No Brasil, a água exerce um fascínio ainda maior, uma vez que grande parte das reservas hídricas do planeta encontra-se nas bacias hidrográficas brasileiras (FREITAS e SANTOS, 1999). A riqueza desses recursos naturais tem despertado a atenção e interesse dos países mais desenvolvidos, desde o início do período de colonizações do século XV até os dias atuais.

No caso do Brasil, o marco histórico deu-se com a chegada dos portugueses em 1500. Na carta escrita por Pero Vaz de Caminha, endereçada a D. Manuel, rei de Portugal, descrevia-se, com imenso fascínio, as maravilhosas riquezas naturais existentes no Brasil, sobretudo, as águas 1 . Aqui ele pôde ver o conjunto harmonioso da natureza e dos homens nativos que aqui viviam, os índios. Esses possuíam, e ainda possuem, um respeito inigualável para com a natureza, consciente de que ela era, e ainda é, a mantedoras de todas as coisas, responsável pelo equilíbrio geral do planeta.

Nesse processo de civilização e colonização, os rios serviram de estradas para os desbravadores. Durante esse percurso, muitos acontecimentos marcaram alguns rios, tornando-os símbolos para a nação. O rio Tietê foi marcado por fazer parte da história da penetração 2 . O rio Ipiranga batiza o grito da nossa emancipação política. O rio Paraíba do Sul abriu caminho para as bandeiras que demandaram o centro meridional e simbolizou, também, a fé cristã da nação, uma vez que foi retirada de suas águas a imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. O ribeirão do Carmo foi a fonte de onde brotou a civilização do ouro. O rio São Francisco, conhecido como o rio da integração nacional, orgulho dos mineiros, sergipanos, alogoanos e pernambucanos, além de possuir a função de servir a população com suas águas abundantes, é também chamado de “o velho Chico”, demonstrando a relação de carinho e apreço que exerce sob os brasileiros. Essas são algumas, dentre tantas outras demonstrações da importância dos rios, não somente como recurso, mas principalmente no âmbito cultural (QUEIROZ, 1999).

1 “Andávamos por aí vendo a ribeira, a qual é de muita água e muito boa. Ao longo dela, há muitas palmas, não mui altas, em que há muito bons palmitos. Colhemos e comemos deles

Fomos até uma lagoa grande de água doce, que está junto com a praia, porque

toda aquela ribeira do mar é apaülada por cima e sai água por muitos lugares. (

) Águas são

muitos (

).

muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar [a terra], dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.” (CORTESÃO, 196?)

Infelizmente, hoje ele é o marco da poluição ambiental decorrente das ações antrópicas desregradas e sem medidas.

2

7

Os povoados eram formados em regiões às margens dos rios, facilitando assim o acesso a outras localidades pelas vias fluviais, apesar das barreiras que impediam a navegabilidade dos rios tais como: troncos de árvores, corredeiras, ondas causadas pelo vento, feras, índios canoeiros, redemoinhos traiçoeiros, entre outros. Os cursos de água representavam ainda grande suprimento aos navegantes, uma vez que eles podiam se satisfazer não somente com os peixes, que eram de espécies variadas e grandes em tamanho, mas também com os frutos e com as caças que eram facilmente encontradas às margens, além de propiciar a irrigação das terras ocupadas por povos de variadas culturas. Somente com o advento do transporte ferroviário é que os povoados foram se afastando das margens dos rios e implantados em regiões mais altas.

Entretanto, as crenças imaginárias não se distanciaram das águas. Os mitos eram quase sempre criados com seres oriundos das águas ou da natureza. Assim podemos relembrar o cabloco de água, o boto cor de rosa, sereias, iaras, entre outros, que, apesar de fazerem parte do imaginário das populações, não deixam de interferir tanto nas atividades sociais quanto nas ações sobre o meio físico.

As águas servem também de inspirações para as diversas artes. Podemos

citar, como exemplo, a música Aquarela do Brasil de Ary Barroso que diz: “Oh, essas

fontes murmurantes, onde eu mato a minha sede, onde a lua vem brincar

outras obras da cultura brasileira, insere-se a obra Macunaíma, de Mário de Andrade,

em que prevalecia a idéia de que a água encantada poderia lavar a negritude dos povos negros, tornando-os brancos após o banho, mostrando assim o poder das águas.

Entre

.

As múltiplas dimensões e os inúmeros significados das águas devem ser consi-

derados não somente como primordiais para o sustento da vida, mas também pelo simbolismo exercido no psíquico do homem, já que, ao longo das gerações, vem

fazendo-se presente em todos os cenários da história, em todas as culturas e civilizações.

2.2 BINÔMIO: ÁGUA E AGRICULTURA

O marco inicial da abordagem do gerenciamento dos recursos hídricos no

Brasil ocorreu em 10 de julho de 1934, quando foi decretado o Código das Águas, em que os temas predominantes eram aproveitamento hidrelétrico e utilização múltipla dos recursos hídricos. A partir de então, foram surgindo conselhos, divisões,

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superintendências, comissões, companhias, agências, comitês, entre tantos outros órgãos relacionados com os recursos hídricos (BHERING, 2000).

No entanto, apesar de existirem muitas leis e órgãos sobre a água, eles não foram capazes de incorporar meios de combater o desperdício, a escassez e a poluição das águas, bem como solucionar conflitos de uso e promover os meios de uma gestão descentralizada e participativa (SETTI et al., 2001).

Devido a crescente problemática, foram tomadas algumas iniciativas para se chegar a um adequado gerenciamento dos recursos hídricos. Entre essas iniciativas, destaca-se a atuação da Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRH) que, desde 1977, tem promovido debates, discussões e encontros científicos no sentido de dar suporte a ações políticas. Segundo CAMPOS (2001), entre as ações políticas, pode-se citar a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) de recursos hídricos do ano de 1984 que também deu força para se formular a lei nacional de recursos hídricos vigente.

O resultado desse processo foi, pois, a aprovação da Lei das Águas, lei n° 9.433, em 08 de janeiro de 1997, que tem a função de definir o rumo da gestão dos recursos hídricos no Brasil. Ela também introduziu importantes alterações de ordem conceitual, onde a água, anteriormente considerada como um bem infinito e renovável, passa a ser reconhecida com um bem vulnerável e de valor econômico (BRASIL, 1997). Toda essa mudança busca assegurar à atual e às futuras gerações a necessária disponibilidade de água em padrões de qualidade e quantidade adequados aos respectivos usos. CASAGRANDE (1982) explica que a conservação dos recursos naturais permite sua utilização, de forma a não destruir sua estabilidade, que, em geral, é extremamente sensível a qualquer fator abiótico 3 , com ação destrutiva sobre os seres vivos e sobre os demais componentes do biótopo 4 .

O conceito de conservação dos recursos naturais tem sido amplamente teorizado, todavia apresenta-se na prática pouco exercitado, como pondera RAIJ (1991): “A preocupação com o meio ambiente no Brasil é recente e, infelizmente,

3 Relativo a abiose, que não se pode viver (CETESB, 1985); ausência de vida. 4 É uma unidade ambiental facilmente identificável, podendo ser de natureza inorgânica ou orgânica e com as condições de habitat uniformes. Pode abrigar uma ou mais unidades. É geralmente a parte não viva dos ecossistemas (CETESB, 1985); área física na qual os biótipos adaptados a ele e às condições ambientais se apresentam praticamente uniformes; biótipo:

conjunto de indivíduos cujos patrimônios genéticos muito se assemelham.

9

tardia. Já destruímos demais a natureza e continuamos a fazê-lo em um grau maior do que os movimentos conservacionistas conseguem evitar”.

Apesar da grande quantidade de água do planeta, cerca de 97% está concen- trada nos oceanos e mares e apenas 3% é potável. Desse último percentual, 70% está sob a forma de gelo e neve, e 29% encontra-se abaixo da superfície terrestre, formando as águas subterrâneas. Somente uma fração muito pequena, cerca de 1%, está disponível ao homem e aos outros organismos, nos lagos e rios, ou como umidade presente no solo, na atmosfera e como componente dos mais diversos organismos para atender as demandas sociais e econômicas da humanidade nos diferentes usos (RIVIÈRE, 1989).

Essas águas encontram-se em permanente movimento, constituindo assim o chamado ciclo hidrológico (Figura 2.1), passando a água por suas diferentes fases. Por se tratar de um ciclo, não existe um ponto de partida inicial, mas, para efeito didático, podemos partir da água presente na atmosfera, que se mantém suspensa no ar, em forma de gotículas que se aglutinam, até ocorrer a precipitação através da dinâmica das massas de ar. Já na trajetória em direção à superfície terrestre, uma parte da água que se precipita sofre evaporação. A quantidade de água que cai sobre o solo é dividida nos processos de evaporação, infiltração e escoamento superficial.

de evaporaç ão, infiltração e escoamento superficial. Fonte: adaptado de REBOUÇAS (1999). Figura 2.1 - Ciclo

Fonte: adaptado de REBOUÇAS (1999). Figura 2.1 - Ciclo hidrológico.

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As raízes das plantas absorvem um pouco da água infiltrada e a devolvem à atmosfera através da transpiração. O volume de água não aproveitado pelas raízes percola para o lençol freático, que, posteriormente, contribui para o escoamento de base dos rios.

O escoamento superficial é impulsionado pela gravidade para as cotas mais

baixas, podendo ainda ser interceptado por vegetação e até mesmo infiltrado antes de encontrar um curso de água estável. Os cursos de água estáveis, com raras exceções, destinam-se ao oceano. Em qualquer tempo e local por onde circula a água na

superfície terrestre, há evaporação para a atmosfera, fenômeno que fecha o ciclo hidrológico descrito.

Quando a água da chuva atinge o solo e escoa sobre ele, inicia-se um processo de dissolução e arraste que transportará material retirado do solo até os rios e oceanos. Esse material influenciará diretamente na qualidade das águas superficiais. Outros fatores que também influenciam na qualidade da água são o clima, a litologia da região, a vegetação circundante, o ecossistema aquático e a influência do homem. Conhecer a dinâmica da atuação de cada um desses fatores e a interação estabelecida pela ação conjunta permitirá um entendimento melhor do processo de avaliação da qualidade da água.

A ação do homem sobre o meio aquático é, talvez, a maior responsável por

essas alterações, uma vez que os rios vêm sendo, ao longo dos anos, utilizados como

depositários de rejeitos, recebendo os esgotos domésticos, que contribuem com elevadas cargas orgânicas, e também efluentes industriais que contribuem com uma série de compostos sintéticos, metais pesados e plásticos. Adicionalmente, a intensificação das atividades agrícolas responde pela presença de pesticidas e excesso de fertilizantes na água. As alterações da qualidade da água representam uma das maiores evidências do impacto das atividades humanas sobre a biosfera (PORTO et al., 1991).

O entendimento das leis mais gerais que governam a distribuição de água no

planeta é essencial para o seu uso racional e proteção, uma vez que as alterações das paisagens com a ampliação das áreas agricultáveis e retirada das matas ciliares

devem ser consideradas de forma a se ter uma compreensão integrada da interconexão existente entre os ciclos da água, da rocha e da vida.

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2.2.1

AGRICULTURA

A agricultura é considerada como uma arte, quase tão antiga quanto o homem. Com a evolução da raça humana, a agricultura tornou-se também uma ciência, cada vez mais eficiente, renovando-se dia a dia (COELHO e VERLENGIA, 1973). A ela cabe um papel fundamental na produção de alimentos e de outros bens indispensáveis à vida e ao bem estar de uma população mundial que, em ritmo explosivo de crescimento demográfico, mais que quadruplicou ao longo do século XX.

HISTÓRICO

Através do tempo, o homem percebeu que o solo produzia mais quando cultivado continuamente, e, a partir disso, iniciaram-se os processos de práticas agrícolas que são utilizados ainda hoje, como adubação, calagem e rotação de culturas. Não se conhece como e nem quando iniciou-se o emprego de adubação.

Segundo COELHO e VERLENGIA (1973), na China, para poder suprir as necessidades de uma das mais densas populações, foi desenvolvida a prática do retorno ao solo daquilo que fora retirado pelas colheitas, pelo uso de excreções humanas e de animais e de restos de animais e plantas, visando manter a fertilidade do solo.

Conforme o mesmo autor, Homero, poeta grego que viveu por volta de 900 a 700 a.C., menciona o uso de esterco na adubação da videira. Também o grego Theopherastus (372 - 287 a.C.) faz inúmeras referências ao uso de esterco, chegando mesmo a organizar uma lista classificando seus vários tipos, conforme a qualidade. Cato, Plínio e Columello recomendavam a adição de cinzas e cal ao solo para torná-lo mais fértil e eliminar-lhe a acidez. Theopherastus e Plínio mencionavam o uso de salitre (nitrato de potássio) na fertilização das plantas. Os romanos possuíam bons manuais de agricultura, preparados por perspicazes observadores. No ano 60 a.C., Columello escreveu um manual de agricultura que serviu por cerca de 500 anos.

De acordo com COELHO e VERLENGIA (1973), Bernarde Palissy escreveu um dos primeiros livros sobre fertilizantes, “Tratado dos sais e da agricultura”, publicado na França em 1563, que contribuiu grandemente para o progresso da fertilização. Porém, a agricultura moderna tem apenas dois séculos de idade, e a experimentação de campo com base científica começou em 1834 com o francês Boussingault, que fez

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as primeiras tentativas para relacionar os constituintes das plantas com os do solo em que eram cultivadas.

Todavia, no ano de 1840, o alemão Justus von Liebig publicou o resultado de suas pesquisas, no qual fazia cuidadosas análises de solos e de plantas e estabeleceu o balanço da nutrição das plantas. Esses estudos destruíram, em parte, a teoria da matéria orgânica, e criou-se a teoria mineral de Liebig, na qual se fundamentam as modernas indústrias de fertilizantes (COELHO e VERLENGIA, 1973).

Foram, então, realizadas pesquisas na área de fertilizantes envolvendo, entre outros, os seguintes aspectos: (i) a química da nutrição das plantas; (ii) o superfosfato; (iii) novos fertilizantes; (iv) o crescimento das plantas em soluções aquosas contendo substâncias nutritivas; (v) a descoberta do microorganismo do gênero Rhizobium que cresce nos nódulos das raízes e fixa o nitrogênio do ar em formas que as plantas possam utilizar; (vi) o papel desempenhado por microorganismos do solo na transformação de nitrogênio da matéria orgânica em formas disponíveis às plantas (COELHO e VERLENGIA, 1973).

Todos esses estudos trouxeram à agricultura um enorme progresso, provocando uma revolução na indústria de fertilizantes químicos, o que possibilitou uma produção com melhor qualidade, quantidade e com menores custos (COELHO e VERLENGIA, 1973). Os fertilizantes passaram a ser, então, uma das maiores indústrias do mundo, desenvolvendo um importantíssimo papel no aumento da produção e da qualidade das colheitas, ampliando as fronteiras agrícolas, principalmente nos países em desenvolvimento. Com isso, a agricultura tornou-se uma prática bastante exercitada, e, para suprir suas necessidades, elevou-se muito o consumo de água para esse setor. Segundo TELLES (1999), 70,1% das águas captadas destinam-se às atividades agrícolas, 20% para o uso industrial e 9,9% para abastecimento público (Figura 2.2).

Embora os usos da água variem de país para país, a agricultura é a atividade que mais consome água. Ela constitui um fator de produção insubstituível para as atividades agrícolas e vem se tornando cada vez mais escassa à medida que a população, a indústria e a agricultura se expandem.

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Abastecimento

9.9%

13 Abastecimento 9.9% Uso industrial 20.0% Uso agrícola 70.1% Fonte: TELLES, 1999. Figura 2.2 - Usos

Uso industrial

20.0%

Uso agrícola

70.1%

Fonte: TELLES, 1999. Figura 2.2 - Usos preponderantes da água.

ESTRATÉGIAS DE INTENSIFICAÇÃO DA PRODUTIVIDADE

Para atender a essa demanda, tem-se aumentado a água captada dos mananciais superficiais e também das reservas subterrâneas. Alguns países, que não possuem grande disponibilidade de terras aráveis, a fim de reduzir o consumo de água na agricultura, têm investido em pesquisas tecnológicas com o intuito de aumentar a eficiência da irrigação. Nos casos de países como Japão e China, entre outros, onde as terras ainda não exploradas para a agricultura são extremamente reduzidas, a solução advem da importação de alimentos em larga escala.

Outros artifícios utilizados para o aumento da produção, quer de natureza vegetal ou animal, são a aplicação maciça de adubos químicos e pesticidas, além da criação de um grande número de animais em recintos limitados, conhecido como pecuária sem terra (CUNHA, 1994).

IRRIGAÇÃO

Com o crescimento populacional, a humanidade vê-se compelida a usar a maior quantidade possível de solo agricultável, o que vem impulsionando o uso da irrigação, não só para complementar as necessidades hídricas das regiões úmidas, como para tornar produtivas as áreas áridas e semi-áridas do globo, que constituem cerca de 55% de sua área continental total. Atualmente, mais de 50% da população mundial depende de produtos irrigados (WERNECK LIMA et al., 1999).

Denomina-se irrigação o conjunto de técnicas destinadas a deslocar a água no tempo ou no espaço para modificar as possibilidades agrícolas de cada região. A

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irrigação visa corrigir a distribuição natural das chuvas. Essa técnica tem sido uma tendência do meio empresarial agrícola, pois reduz os riscos ao produtor irrigador.

O manejo racional da irrigação consiste na aplicação da quantidade necessária

de água às plantas no momento correto. Por não adotar um método de controle da irrigação, o produtor rural usualmente irriga em excesso, temendo que a cultura sofra um estresse hídrico, o que pode comprometer a produção. Esse excesso tem como conseqüência o desperdício de energia e de água, devido à operação de bombeamento desnecessária.

O manejo racional da irrigação demanda estudos que considerem os aspectos

econômicos, técnicos e ecológicos da região. Os principais impactos ambientais decorrentes dessa prática são: (i) modificação do meio ambiente; (ii) consumo exagerado da disponibilidade hídrica da região; (iii) contaminação dos recursos hídricos; (iv) salinização dos solos nas regiões áridas e semi-áridas; (v) problemas de saúde pública.

Na avaliação das conseqüências dos impactos negativos sobre as reservas hídricas, deve-se enfatizar os problemas correlatos de erosão dos solos, assoreamento dos corpos de água e falta de controle no uso de agrotóxicos e de fertilizantes, sendo esse último aspecto tratado mais especificamente neste estudo.

FERTILIZANTES QUÍMICOS

Na agricultura, busca-se um rendimento satisfatório para o produtor, que pode ser alcançado com o crescimento das plantas cultivadas, definido como o progressivo desenvolvimento de um organismo. O crescimento das plantas depende de um conjunto de fatores, dos quais os mais importantes são:

temperatura – é um fator crítico para o crescimento das plantas, no qual o homem não pode influenciar; é preciso o reconhecimento, por parte do agricultor, do clima da região para poder escolher o tipo de cultura que melhor se adapta;

luz – sua necessidade varia de acordo com a planta cultivada; cada espécie tem o seu próprio comportamento em relação à duração do dia e exposição ao sol, chamado de fotoperiodismo;

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água – é o fator de maior importância na produção de culturas; contribui, em média, com 75% do peso da planta; o bom aproveitamento dos fertilizantes pelo solo depende muito da adequada disponibilidade de água;

oxigênio – é um elemento consumido por todas as células vivas no processo comum de respiração;

nutrientes – cerca de noventa constituintes são exigidos pelas plantas, destacando-se, entre outros, carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, fósforo, potássio e cálcio; os três primeiros elementos citados são encontrados pelas plantas no ar e na água, enquanto os demais são retirados do próprio solo.

Devido a diversos fatores tais como monocultura, saturação e enfraquecimento do solo, geologia da região, dentre outros, as plantas não encontram naturalmente os nutrientes que precisam no solo. Por esse motivo, na busca de uma agricultura altamente rentável e lucrativa, a tecnologia trouxe os nutrientes através de fertilizantes fabricados em laboratório.

É pela distribuição de fertilizantes químicos no solo que se pode fornecer importantes nutrientes às plantas, como nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K). Em particular, desde o início da indústria de fertilizantes, a fabricação dos que contem nitrogênio, fósforo e potássio tem sido enfatizada, uma vez que esses elementos estão mais comumente em falta nos solos (COELHO e VERLENGIA, 1973).

Nitrogênio, fósforo, potássio e diversos outros nutrientes, segundo RAIJ (1991), são indispensáveis à vida vegetal, porque, sem eles, as plantas não conseguem completar o seu ciclo de vida. O mesmo autor afirma que uma agricultura moderna exige o uso de fertilizantes e corretivos em quantidades adequadas, de forma a atender critérios econômicos e, ao mesmo tempo, conservar a fertilidade do solo para manter ou elevar a produtividade das culturas.

De acordo com MALAVOLTA (1987, 1992), os solos brasileiros, do Oiapoque ao Chuí, são ácidos. A correção da acidez aumenta, em muito, a eficiência da adubação. Portanto, em solo corrigido, pode-se usar uma menor quantidade de fertilizante para se obter uma mesma produtividade. Entretanto, um estudo feito pelo mesmo autor estimou que, para cada hectare (0,01 km 2 ) de terra cultivada no Brasil, exigir-se-iam duas toneladas de calcário por ano. Como admite-se que as principais culturas no Brasil são dez (algodão, arroz, café, cana, soja, trigo, milho, cacau, feijão e mandioca) e ocupam uma área de aproximadamente 60 milhões de hectares (600.000

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km 2 ), então, seriam necessários usar anualmente 120 milhões de toneladas de calcário. Entretanto, a produção de calcário das reservas brasileiras está ao redor de 12 milhões de toneladas, um décimo do necessário, o que ajuda a explicar a baixa produtividade.

BAPTISTA et al. (2000) consideram que o crescimento demográfico levou não só a uma pecuária intensiva, mas, sobretudo, a uma agricultura de caráter intensivo. Para obter, em uma determinada área, colheitas com o máximo rendimento, torna-se necessário devolver ao solo os nutrientes que foram subtraídos pelas plantas. Até o ano de 1920, predominava a adubação com detritos orgânicos produzidos na própria propriedade rural. Essa adubação com materiais orgânicos só satisfaziam parcialmente às necessidades das plantas. O déficit em substâncias inorgânicas nas lavouras era coberto com adubos inorgânicos chamados fertilizantes. Os adubos orgânicos eram empregados mais para a formação de húmus e para melhorar a consistência do solo. Mas, nos dias de hoje, observa-se um crescente aumento dos adeptos da agricultura orgânica, que foi melhor desenvolvida na década de noventa com maiores tecnologias e com capacidade de fornecer às plantas, através dos adubos orgânicas, todas as substâncias necessárias para o seu total desenvolvimento. Anteriomente a esse desenvolvimento da agricultura orgânica, formou-se uma cultura ao redor dos fertilizantes inorgânicos bastante arraigados nos agriculturores. Com eles são fornecidos ao solo muitos íons facilmente assimiláveis pelas plantas, como, por exemplo, nitrogênio na forma de NO 3 - (nitrato) e NH 4 + (íon amônio), potássio como K + (íon potássio), fósforo como H 2 PO 4 - (dihidrogeno fosfato), HPO 4 2- (monohidrogeno fosfato) e PO 4 3- (fosfato ou ortofosfato), e cálcio como Ca 2+ (íon cálcio). Dentre esses elementos, merecem destaque, nesta dissertação, o nitrogênio total e o fósforo total, merecendo assim consideração especial através da apresentação de suas formas, fontes e ciclos.

NITROGÊNIO: FORMAS E FONTES

Os compostos de nitrogênio, um dos elementos mais importantes no metabolismo de ecossistemas aquáticos, possuem comportamento químico complexo, em virtude dos vários estágios que o nitrogênio pode assumir e dos impactos que a mudança do seu estado de oxidação podem trazer sobre os organismos vivos, fenômeno melhor compreendido com o estudo do ciclo do nitrogênio. Os diferentes estágios desse ciclo são descritos por SAWYER (1985) e ESTEVES (1988), como mostrado na Figura 2.3, salientando que a atmosfera serve como um reservatório no

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qual o nitrogênio é constantemente renovado pela ação da descarga elétrica e pela fixação das bactérias. Durante essas descargas, grandes quantidades de nitrogênio oxidam-se, formando N 2 O 5 (anidrido nítrico) e a sua união com a água produz HNO 3 (ácido nítrico), normalmente carreado para a terra através da chuva. Os nitratos são também produzidos pela oxidação direta do nitrogênio ou do íon amônio e encontram- se também nos fertilizantes comerciais.

e encontram- se também nos fertilizantes comerciais. Fonte: adaptado de SAWYE R (1985) e ESTEVES (1988).

Fonte: adaptado de SAWYER (1985) e ESTEVES (1988).

Figura 2.3 – Ciclo do nitrogênio no solo.

Existem fontes naturais diversas de nitrogênio tais como chuva, material orgânico e inorgânico de origem alóctone 5 e a fixação de nitrogênio molecular dentro do próprio manancial. O nitrogênio está presente nos ambientes aquáticos sob várias formas: nitrato (NO 3 - ), nitrito (NO 2 - ), gás amoníaco (NH 3 ), íon amônio (NH 4 + ), óxido nitroso (N 2 O), nitrogênio molecular ou gás nitrogênio (N 2 ), nitrogênio orgânico dissolvido – NOD (peptídeos, purinas, aminas, aminoácidos, entre outros), nitrogênio orgânico particulado – NOP (bactérias, fitoplâncton, zooplâncton e detritos), entre

5 Quem ou que veio de fora; que se encontra fora de seu meio natural; denominação muito usada em geomorfologia, referindo-se a solos e rios. Esse termo vem do grego e significa allos - outro, khthon – terra (ART, 1998).

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outras. A Figura 2.4 apresenta as principais etapas do ciclo do nitrogênio nos corpos de água.

etapas do ciclo do nitrogênio nos corpos de água. Fonte: ESTEVES, 1988. Figura 2.4 - Principais

Fonte: ESTEVES, 1988. Figura 2.4 - Principais etapas do ciclo do nitrogênio em corpos aquáticos.

As diferentes formas dos compostos de nitrogênio encontradas no meio aquático podem ser utilizadas como indicadores da qualidade sanitária das águas. MOTA (1995) salienta que nitrogênio orgânico e amônia estão associados a efluentes e águas recém poluídas. Com o passar do tempo, o nitrogênio orgânico é convertido em nitrogênio amoniacal e, posteriormente, se condições aeróbias estão presentes, ocorre a oxidação do íon amônio, transformando-se em nitrito e nitrato. Conforme ressalta VON SPERLING (1996), em um corpo de água, a determinação da parcela predominante de nitrogênio pode fornecer informações sobre o estágio da poluição. Os compostos de nitrogênio, na forma orgânica ou de amônia (NH 4 + ), referem-se à

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poluição recente, enquanto que nitrito (NO 2 - ) e nitrato (NO 3 - ), à poluição mais remota. A Resolução CONAMA 20/86 (Apêndice A) estabelece limites de 1,0 mg/l para nitrogênio amoniacal, 0,02 mg/l para amônia não-ionizável (NH 3 ), 10 mg/l para nitrato (NO 3 - ) e 1,0 mg/l para nitrito (NO 2 - ).

O nitrito, juntamente com o íon amônio, assume grande importância nos ecossistemas aquáticos, uma vez que representam as principais fontes de nitrogênio para os produtores primários. O nitrito é encontrado em baixas concentrações em am- bientes oxigenados e, em ambientes anaeróbios, pode-se encontrar altas concen- trações desse íon. Ele representa uma fase intermediária entre o íon amônio (forma mais reduzida) e nitrato (forma mais oxidada). Em altas concentrações, o nitrito é extremamente tóxico à maioria dos organismos aquáticos.

O nitrogênio molecular, apesar de sua solubilidade ser relativamente baixa na água, apresenta-se em concentrações elevadas nos ecossistemas aquáticos. Contudo, sua distribuição na coluna de água não é homogênea, sendo o hipolímnio 6 a região onde sua saturação é observada. Isso se deve principalmente a dois fatores: à baixa temperatura, que proporciona aumento da solubilidade do nitrogênio, e ao processo de desnitrificação, que é intenso nessa região. O óxido nitroso (N 2 O) é formado durante o processo de redução do nitrato (desnitrificação) e oxidação de amônio e nitrito por bactérias nitrificadoras.

Em nenhum outro ciclo biogeoquímico, os microorganismos tem maior participação do que no ciclo do nitrogênio. A Figura 2.5 descreve o processo de desnitrificação e de nitrato-amonificação ocorrendo em um ambiente aquático.

Representantes de praticamente todos os grupos fisiológicos (autotróficos, heterotróficos, aeróbios, anaeróbios, entre outros) fazem parte desse processo, que são:

Amonificação é a formação do íon amônio (NH 4 + ) durante o processo de decomposição da matéria orgânica dissolvida ou particulada, resultando da decomposição da matéria orgânica por organismos heterotróficos; o sedimento é o principal local para a realização desse processo.

6 É a camada mais baixa de água fria em um lago estratificado termicamente. O hipolímnio suporta o esgotamento de oxigênio durante o verão (ART, 1998).

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20 Fonte: ESTEVES, 1988. Figura 2.5 - Utilização do nitrato como aceptor do hidrogênio. Nitrificação é

Fonte: ESTEVES, 1988. Figura 2.5 - Utilização do nitrato como aceptor do hidrogênio.

Nitrificação é a oxidação biológica dos compostos nitrogenados reduzidos, resultante da decomposição aeróbia e anaeróbia da matéria orgânica a nitrato; é caracterizada pela utilização de compostos inorgânicos reduzidos como doadores de hidrogênio, e, através da oxidação desses compostos, os microrganismos obtêm os equivalentes de redução para o processo de síntese; a nitrificação é um processo predominantemente aeróbio e, como tal, ocorre somente nas regiões onde há oxigênio disponível; na transformação de íon amônio para nitrito (nitrificação), participam dois gêneros de bactérias

Nitrosomonas – que oxidam amônio a nitrito

NH 4 + + 1 ½ O 2 NO 2 - + 2H + + H 2 O

e Nitrobacter – que oxidam o nitrito a nitrato

NO 2 - + ½ O 2 NO 3

-

Desnitrificação é o procedimento de redução do nitrito a nitrogênio molecular realizado pelas bactérias facultativas, que são capazes de utilizar o nitrato como

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aceptor de hidrogênio quando em condições anaeróbias, oxidando o substrato mesmo com a ausência de oxigênio molecular; essa capacidade de utilizar nitrato como aceptor de hidrogênio também é chamada de respiração de nitrato; esse procedimento ocorre principalmente no sedimento, onde as condições são anaeróbias e há grande quantidade de substrato orgânico; possui grande significado ecológico, pois a maior parte do nitrogênio molecular do ecossitema pode ser eliminado do meio a partir desse procedimento; a desnitrificação reduz o nitrato a nitrogênio molecular, como mostrado na reação

{H} + 2H + + 2NO 3 - N 2 + 6H 2 0

Nitrato-amonificação possui o mesmo fundamento da desnitrifação; utiliza o nitrato como aceptor de hidrogênio, ocorrendo, entretanto, a redução paro íon amônio; a reação mostrada, a seguir, refere-se ao processo de amonificação do nitrato ou nitrato-amonificação

{H} + H + + NO 3 - NH 4 + + OH - + 2H 2 O

A nitrificação e a desnitrificação são processos acoplados, pois, em regiões

com condições finais de anaerobiose, ocorre, em seguida, grande quantidade de nitrogênio amoniacal. Com a inserção do oxigênio do meio, inicia-se o processo de nitrificação, consumindo grande parte do íon amônio acumulado. Com a anaerobiose do meio, o processo inverte-se, reduzindo fortemente a concentração do nitrato pelo processo de desnitrificação e amonificação do nitrato.

FÓSFORO: FORMAS E FONTES

O fósforo possui grande importância nos sistemas biológicos. Nas águas naturais, segundo ESTEVES (1988), o fósforo encontra-se quase exclusivamente na forma de fosfato, que está presente em diferentes frações: fosfato particulado, fosfato orgânico dissolvido, fosfato inorgânico dissolvido ou ortofosfato ou fosfato reativo, fosfato total dissolvido e fosfato total. A fração de maior importância limnológica é o ortofosfato, por ser a principal forma de fosfato assimilada pelos vegetais aquáticos.

A presença do fosfato nos ecossistemas aquáticos pode ter sua origem em

fontes naturais ou artificiais. A maior fonte de origem natural vem a ser os minerais primários presentes nas rochas da bacia de drenagem. As fontes artificiais mais

importantes são: esgotos domésticos e industriais, fertilizantes agrícolas e material particulado de origem industrial contido na atmosfera.

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A ciclagem do fosfato na água caracteriza-se pela absorção por parte dos

organismos, que os incorporam a sua biomassa. Após a morte desses organismos, seus detritos são depositados no sedimento levando consigo os nutrientes. Os nutrientes são liberados do sedimento após a decomposição e transportados para a parte superior da coluna de água, onde, então, são reassimilados. Uma outra forma da ciclagem do fosfato, denominada curto-circuito, não insere o sedimento em seu ciclo. Nesse procedimento, a liberação do fosfato dos detritos ocorre ainda do epilímnio 7 devido ao fato do fosfato orgânico dissolvido ser rapidamente decomposto pelos microrganismos e reassimilados pela comunidade de fitoplâncton 8 .

A Figura 2.6 apresenta alguns dos aspectos mais importantes do ciclo do

fósforo em ecossistemas aquáticos. O fitoplâncton e as macrófitas 9 aquáticas são capazes de absorver o fosfato sob a forma iônica como também sob a forma de moléculas orgânicas. Portanto, esses organismos são de fundamental importância nesse ciclo, já que parte de sua biomassa é assimilada pelo zooplâncton 10 e por peixes que excretam fezes ricas em fosfato. O papel desempenhado pelo zooplâncton através do fenômeno de herbivoria faz com que grande parte do fosfato liberado para a água seja reciclado imediatamente.

Quase todo o fosfato existente na biomassa do fitoplâncton, macrófitas aquáticas, zooplâncton, nécton 11 e bentos 12 é liberado após sua morte para o corpo de água. No caso específico do fitoplâncton, devido ao fato de suas próprias células desfosforilarem o fosfato particulado para solúvel, a liberação do fosfato é muito rápida. Esse procedimento evita o empobrecimento total do plâncton nas zonas eufóticas. A autólise 13 das células fitoplanctônicas e das macrófitas aquáticas contribui

7 Camada superior aquecida de água, encontrada principalmente em lagos, durante o verão, em regiões temperadas. O epilímnio contém mais oxigênio dissolvido do que as camadas inferiores, e é muitas vezes separado da camada inferior, mais fria (hipolímnio), por uma camada onde o gradiente vertical de temperatura é muito grande, conhecido como termoclima (ART, 1998).

8 Plantas aquáticas pequenas, geralmente microscópicas; os plânctons realizam a fotossíntese, como as algas unicelulares (ART, 1998).

Planta, geralmente uma espécie aquática de tamanho macroscópico (ART, 1998). 10 Espécie animal de plâncton em ambientes de água doce ou mar; o plâncton não produz sua própria energia, mas se alimenta de fitoplâncton ou de plâncton animal menor. Tem pouco ou nenhuma capacidade natatória, sendo por isso, carregado pelas correntes de água (ART,

1998).

Grupos de animais aquáticos que nadam movendo-se sob sua própria força, em contraste com o plâncton, que apenas flutua (ART, 1998).

Termo coletivo para formas de vida que vivem no fundo dos corpos aquáticas (ART, 1998). 13 Ruptura interna de tecidos mortos de uma planta ou de um animal, no qual uma fração muito pequena das moléculas de água dissocia-se espontaneamente em hidrogênio (H + ) e íons de hidroxila (OH) (ART, 1998).

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de maneira significativa para o acúmulo de fósforo orgânico dissolvido. Esse fenômeno ocorre principalmente em células senescentes 14 .

ocorre principalmente em células senescentes 1 4 . Fonte: ESTEVES, 1988. Figura 2.6 - Principais etapas

Fonte: ESTEVES, 1988.

Figura 2.6 - Principais etapas do ciclo do fósforo em ecossistemas aquáticos.

FEITOSA e FILHO (1997) enfatizam que, devido à ação dos microrganismos, a concentração de fósforo pode ser baixa (< 0,5 mg/l) em águas naturais, e valores acima de 1,0 mg/l são geralmente indicativo de águas poluídas. O fósforo, por via antropogênica, é acrescido às águas por derivados de detergentes, inseticidas e pesticidas.

AGROTÓXICOS

No Brasil e nos demais países em desenvolvimento, apesar de proibidos a partir da década de 80, a sua utilização ainda é considerável, principalmente devido a

14 Processo de envelhecimento nos indivíduos maduros; o período correspondente ao fim do ciclo de vida de um organismo (ART, 1998).

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não proibição da comercialização dos grandes estoques adquiridos em épocas passadas. Os agrotóxicos foram muito utilizados no passado, mas, atualmente, não representam 10% do total em uso. Em campanhas de saúde pública, ainda é permitido a utilização de DDT no combate aos mosquitos transmissores de malária, dengue e febre amarela. Mesmo pesticidas proibidos nos países da Europa e América do Norte (DDT, endrin, aldrin, dieldrin) são ainda utilizados no Brasil para controle de vetores ou em produtos para conservação de madeira. Na agricultura, também é freqüente a utilização dos ciclodienos como o endosulfan em culturas de milho, cana de açúcar e arroz, entre outras (TORRES, 1998).

De acordo com LARINI (1999), os clorados ou halogenados e os compostos minerais agem por contato, matando a praga por asfixia. A vantagem dos produtos que agem por ingestão é que apenas a praga em questão é afetada, porém a desvantagem está em que esses produtos se acumulam nos tecidos orgânicos e são de longa persistência no ambiente. Os pesticidas orgânicos compreendem os de origem vegetal e os organo-sintéticos. Os primeiros, também muito utilizados no passado, são de baixa toxidade e de curta permanência no ambiente, como, por exemplo, o píretro e a rotenona. Os organo-sintéticos subdividem-se em:

clorados ou organoclorados – grupo químico dos agrotóxicos compostos por um hidrocarboneto clorado que possui um ou mais anéis aromáticos, ou mesmo cíclico saturado; em relação aos outros organo-sintéticos, os clorados são menos tóxicos, em termos de toxidade aguda, mas são também mais persistentes no corpo e no meio-ambiente, podendo causar efeitos patológicos a longo prazo; o agrotóxico organoclorado atua no sistema nervoso, interferindo na troca iônica que caracteriza a transmissão do impulso nervoso; o DDT faz parte do grupo dos organoclorados;

cloro-fosforados ou organofosforados – grupo químico dos venenos compostos por um éster de ácido fosfórico ou tionofosfórico, ditiofosfórico e fosfônico ou tionofosfônico ou ditiofosfônico, que, em um dos radicais esterificados, possui um ou mais átomos de cloro; possuem toxidez aguda semelhante a dos fosforados em geral, em relação aos agrotóxicos clorados e carbamatos, os organofosforados são mais prejudiciais em termos de toxicidade aguda sendo, como éster, degradados rapidamente e não se acumulando nos tecidos gordurosos; atua sobre a colinesterase, enzima de fundamental atuação no sistema nervoso, nas sinapses nervosas;

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carbamatos – grupo químico dos venenos compostos por um éster de ácido metil- carbônico ou dimetilcarbônico; em relação aos pesticidas organoclorados e orga- nofosforados, os carbamatos são considerados de toxidade aguda média, sendo degradados rapidamente e não se acumulando nos tecidos gordurosos; os carbamatos atuam inibindo a colinesterase em sinapses nervosas, e muitos desses produtos já foram proibidos em vários países em virtude de seu efeito altamente cancerígeno.

Os agrotóxicos mais nocivos ficaram sendo mundialmente conhecidos como os “doze sujos”. São eles: (i) aldrin; (ii) dieldrin; (iii) endrin; (iv) clordano; (v) DDT; (vi) lindano (gama-BHC ou gama-HCH); (vii) heptacloro; (viii) HCB (hexaclorobenzeno); (ix) mirex; (x) toxafeno; (xi) PCBs; (xii) dioxinas e furanos. Até meados de 1985, já estavam proibidos em mais de 50 países.

2.2.2 SOLO: COMPONENTE DO SISTEMA AGRÍCOLA

Segundo a definição de GLEISSMAN (2000), o solo é um componente complexo, vivo, dinâmico e em transformação do agroecossistema. Está sujeito a alterações e pode ser degradado ou manejado com inteligência. Já o solo, do ponto de vista agrícola, é definido por COELHO e VERLENGIA (1973) como sendo uma mistura de materiais minerais e orgânicos da superfície da terra que serve como ambiente para o crescimento das plantas. Outra definição dada por RAIJ (1991) classifica o solo como uma massa porosa, com partes dos espaços vazios normalmente ocupado por água porém, não se trata de água pura, mas de uma solução contendo diversos solutos que afetam as plantas, principalmente nutrientes e elementos tóxicos. COELHO e VERLENGIA (1973), MALAVOLTA (1980) e GLEISSMAN (2000), definiram o solo ideal, considerando a agricultura como sendo um sistema de três fases (Figura 2.7): sólida, líquida e gasosa, com o volume de aproximadamente 50 % de fase sólida (45% mineral + 5% matéria orgânica), 25 % de solução e 25 % de gases, podendo variar de acordo com o clima da região. Os principais fatores da formação do solo são: material da rocha-máter, ação dos organismos vivos, tempo, relevo e clima.

O solo apresenta duas características principais em relação ao seu valor agronômico que são: a fertilidade e a produtividade. A fertilidade refere-se à capacidade de um solo para fornecer nutrientes às plantas em quantidades adequadas e proporções convenientes. Portanto, a fertilidade pode e normalmente é influenciada por ações antrópicas. A produtividade é relacionada com a capacidade de um solo em

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proporcionar rendimento às culturas, podendo ser melhorada pela ação antrópica, como, por exemplo, pela incorporação de matéria orgânica em solos pobres nesse componente. Como pode-se perceber, todo solo é fértil, mas nem todo solo é produtivo. Essas propriedade estão relacionadas com as características físicas e químicas do solo.

5%

25% 25%
25%
25%

45%

Matéria Orgânicafísicas e químicas do solo. 5% 25% 25% 45% Mineral Solução Gases Fonte: COELHO e VERLENGIA,

Minerale químicas do solo. 5% 25% 25% 45% Matéria Orgânica Solução Gases Fonte: COELHO e VERLENGIA,

do solo. 5% 25% 25% 45% Matéria Orgânica Mineral Solução Gases Fonte: COELHO e VERLENGIA, 1973.

Solução

Gasessolo. 5% 25% 25% 45% Matéria Orgânica Mineral Solução Fonte: COELHO e VERLENGIA, 1973. Figura 2.7

Fonte: COELHO e VERLENGIA, 1973.

Figura 2.7 - Composição volumétrica da camada arável de um solo que apresenta boas condições para o crescimento das plantas.

GLEISSMAN (2000) fala que o homem, através da agricultura moderna, dispõe de inúmeras tecnologias mecânicas e químicas para modificá-la muito rapidamente. Em geral, o solo é visto como uma unidade de onde se extrai uma colheita, e os produtores enxergam o solo como um bem garantido e imutável. Com essa atitude, não se dão conta dos complexos processos ecológicos que acontecem abaixo da superfície.

Em um sentido mais abrangente, o solo refere-se àquela porção da crosta terrestre onde toda e qualquer planta está ou poderia estar fixada. Mais especificamente, o solo é a camada superficial da Terra, intemperizada, misturada com organismos vivos e os produtos de suas atividades metabólicas e de decomposição, incluindo material derivado de rochas, substâncias orgânicas e inorgânicas oriundas de organismos vivos, além do ar e da água que ocupam os espaços entre as partículas de solo (GLEISSMAN, 2000).

Pode um solo derivar-se de qualquer tipo de rocha: sedimentar, ígnea ou metamórfica. Seu caráter ultimado não dependerá, exclusivamente, da composição da rocha-máter, mas, em larga extensão, de outros fatores que contribuem para a formação do solo. A parte principal de muitos solos consiste em grãos minerais de vários tamanhos, mas é a presença de organismos e de matéria orgânica, fonte de nitrogênio, que distinge o solo de um simples manto de decomposição. O nitrogênio é essencial ao crescimento das plantas, e o tempo constitui outro fator importante na formação do solo. Os solos de regiões fortemente inclinadas diferenciam-se dos solos

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das regiões planas devido à condição de drenagem, entre outros fatores (COSTA,

2000).

SOLO: USO E DEGRADAÇÃO

A primeira etapa de ocupação da terra, ou seja, do uso do solo, segundo RAIJ

(1991), é a destruição da vegetação natural e a substituição dela por alguma atividade

agropecuária, ou mesmo de caráter urbano, industrial ou de exploração mineral.

Nessa fase, a destruição da floresta e da fauna é feita de forma irreversível.

A expressão uso do solo não possui apenas um único sentido, podendo

significar tanto espaço social, envolvendo delimitação física e estrutura da sociedade,

como recurso natural, relacionando-se às atividades que são desenvolvidas

antropicamente (COSTA, 2000). A União Geográfica Internacional (UGI) propõe um

sistema de classificação composto por onze categorias e respectivas formas de

utilização, que envolvem áreas urbanas, agrícolas com diferentes cultivos, pastagens,

florestas e pântanos, conforme apresenta-se na Tabela 2.1.

Tabela 2.1 - Sistema de uso da terra proposto pela União Geográfica Internacional.

Categoria

 

Forma de Utilização

Estabelecimentos humanos

 

Cidades e estabelecimentos industriais

Áreas não agrícolas

 

Mineração

Hortaliças

Hortaliças e frutas (não arbóreas)

Culturas

arbóreas

e

outras

culturas

Cultivos arbóreos permanentes

perenes

Culturas perenes sem rotação

Cultivos anuais

 

Cultivos contínuos ou de rotação

Rotação de terras

Pastagens permanentes plantadas ou

Pastagens plantadas

Pastagens melhoradas

 

Pastagens melhoradas

Pastagens naturais não melhoradas

Pastagens nativas

 

Densas

Abertas

Arbusto

Florestas

Paludosas

Com cultivo

Subsidiário

Áreas pantanosas (não florestais)

Manguezais

 

Rochosas

Terras improdutivas

 

Areais

Dunas movediças

Fonte: KELLER, 1969.

O uso do solo de uma bacia hidrográfica reflete-se profundamente na sua

qualidade de água. TIMMONS (1985) aponta que muitas formas de degradação do

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solo e da água não são facilmente percebidas, ficando ocultas e obscurecidas devido a alguns fatores, tais como: (i) uso de tecnologias que ampliem a produção agrícola por quilômetro quadrado; (ii) grandes reservas de água e solo intocáveis que vão sendo gradativamente incorporadas à agricultura em substituição às áreas já cultivadas; (iii) outras formas de degradação mais sutis que não podem ser prontamente visualizadas como erosão laminar, compactação, lixiviação, encharcamento, alcalinização, acidez, perda de húmus e perda dos nutrientes naturais. Esses aspectos têm levado a um movimento silencioso porém progressivo da degradação desses compartimentos.

TIMMONS (1985) afirma ainda que o manejo do solo e da água e suas interações no processo de uso desses recursos torna-se crucial para manter sua capacidade de renovação e, conseqüentemente, a disponibilidade contínua desses recursos. Pode-se visualizar três conjuntos de relacionamentos entre solo e água na produção das culturas:

complementaridade – se o solo não recebe água suficiente, as produções das colheitas não respondem de maneira eficaz; com exceções das culturas hidropônicas, a água necessita do solo para se tornar um insumo no processo de produção;

adversidade – a água pode causar a erosão do solo ou reduzir sua produtividade, seja através de volumes excessivos ou insuficientes; a água pode também poluir o solo com sais e outros componentes nocivos transportados por ela e depositados no solo; o solo também pode prejudicar a água com sedimentos e poluentes transportados; os efeitos adversos que a água e o solo causam entre si podem afetar seriamente a produtividade de cada um;

similaridade – o solo e a água são também relacionados através de suas similaridades em seus estados naturais; ambos os recursos ocorrem em forma renováveis e não renováveis.

De acordo com CASAGRANDE (1982), todas as providências para a conservação da água são absolutamente idênticas às medidas preconizadas para a proteção do solo. E não deixa de ser lógica essa integração de objetivos, uma vez que, afora alguns locais específicos em nossas regiões agrícolas, podemos desprezar a ação dos ventos e definir erosão como o processo de remoção do solo através da água em movimento, desde as pequenas gotas de chuva caindo sobre o solo

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desnudo, até os grandes cursos de água solapando margens desprotegidas. Dessa forma, as medidas de conservação dos recursos hídricos nas propriedades rurais mantêm íntima relação com os métodos usados para proteção do solo, de modo que se pode analisar cada medida conservacionista sob os dois enfoques simultaneamente.

2.3 ÁGUA: POLUIÇÃO E DEGRADAÇÃO

A revolução experimentada pelo setor agrícola foi de tal envergadura que não

se fez sem riscos para o ambiente. Segundo ONGLEY (1997), a agricultura, enquanto maior usuária da água doce em escala mundial, vem a ser o principal fator de degradação dos recursos hídricos superficiais e subterrâneos como conseqüência da poluição difusa causada pela erosão e pelo escoamento de componentes químicos.

O termo poluição é derivado de uma palavra latina (pollu’ere), que significa

sujar. Os termos poluição, contaminação, moléstia e degradação da água são freqüentemente usados como sinônimos para descrever as condições defeituosas das águas superficiais e subterrâneas. Várias definições têm sido usadas para conceituar poluição. A mais aceitável pelos cientistas é uso benéfico de um recurso a partir de uma interferência não aceitável. Entretanto, a percepção de uso benéfico difere para cada pessoa. NOVOTNY e OLEM (1994) consideram que poluição é uma mudança física, química, radiológica ou alteração na qualidade biológica de um recurso (ar, solo ou água) causada pelo homem ou devido às atividades humanas que são prejudiciais ao meio ambiente.

Uma definição mais abrangente é fornecida pela lei n° 6938 de 31 de agosto de 1981 (BRASIL, 1981) sobre política nacional do meio ambiente, que conceitua poluição como a degradação da qualidade ambiental resultante de atividade que direta ou indiretamente: (i) prejudique a saúde, a segurança e o bem-estar da população; (ii) crie condições adversas às atividades sociais e econômicas; (iii) afete desfavoravelmente a biota; (iv) afete as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente; (v) lance matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais estabelecidos.

A poluição das águas dos rios, segundo NARANJO (1997), é usualmente

originada de fontes pontuais como esgotos domésticos e industriais, bem como de fontes não pontuais como escoamento urbano e agricultura (Figura 2.8).

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30 Fonte: adaptado de DAVIS e CORNWELL, 1998. Figura 2.8 - Fontes de poluição. Os problemas

Fonte: adaptado de DAVIS e CORNWELL, 1998. Figura 2.8 - Fontes de poluição.

Os problemas nos corpos de água são, entre outros: (i) o acúmulo de restos orgânicos diminuindo a quantidade de oxigênio da vida aquática devido à proliferação de bactérias aeróbias consumidoras de oxigênio; (ii) os fertilizantes usados na lavoura que favorecem uma proliferação exagerada de algas causando eutrofização; (iii) os agrotóxicos que geram toxicidade, que é acumulada e transferida para organismos maiores através da cadeia alimentar; (iv) os detergentes que reduzem a tensão superficial, impedindo o desenvolvimento da vida aquática; (v) os compostos oriundos das chuvas ácidas que comprometem toda a vida aquática; (vi) o petróleo que, através de vazamentos, espalha-se sobre a água, formando uma camada que impede as trocas gasosas e a passagem da luz; (vii) os metais pesados que, quando ingeridos com a água, causam sérios danos à saúde devido a seus efeitos tóxicos.

Em países desenvolvidos, que já contam com elevados percentuais de cobertu- ra dos esgotos tratados, a poluição difusa torna-se mais relevante, passando a ser a preocupação do setor ambiental. Dessa maneira, o grande problema de poluição das águas é a poluição difusa advinda do escoamento superficial em áreas urbanas e rurais.

O Brasil enfrenta, ainda, o desafio de tratamento de suas fontes poluidoras pontuais, tais como esgotos domésticos e industriais, em conjunto com a poluição difusa. As soluções para tratamento objetivando reduzir ou mesmo eliminar as poluições pontuais são bastante conhecidas, enquanto que as técnicas estruturais para a minimização da poluição difusa, tais como melhores práticas de gerenciamento

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na agricultura, pavimentação permeável, encostas gramadas, bacias de infiltração e alagados, são ainda pouco difundidas.

De acordo com MOTA (1995) e FELLENBERG (1980), ao lado da contaminação das águas por detritos e esgotos urbanos, há que se considerar a grande variedade de poluentes característicos produzidos pela agropecuária. Entre as fontes agropastoris de maior importância, destacam-se os pesticidas, os fertilizantes e os excrementos animais. Cabe ainda salientar que a poluição tanto pontual como difusa contribui para a eutrofização acelerada dos lagos e reservatórios, onde a presença de nutrientes como o fósforo e o nitrogênio possibilita a proliferação de algas.

2.3.1 POLUIÇÃO DE FONTE NÃO PONTUAL

Há alguns anos atrás, o termo poluição difusa era usado como sinônimo de poluição não pontual (NOVOTNY e OLEM, 1994), porém, após o Congresso dos Estados Unidos da América aprovar a lei de qualidade de água (Water Quality Act) de 1987 (USA, 1987), redefiniu-se essa classificação. O termo fonte difusa nos Estados Unidos da América possui conotação jurídica que pode incluir certos tipos de fontes localizadas (pontuais). Portanto, entende-se por fonte não localizada toda fonte que não se inclui na definição jurídica de fonte localizada ou pontual, definida como: todo meio de transporte identificável, delimitado e distinto, incluindo e não restrito a qualquer tipo de cano, tubo, emissário, canal, túnel, conduto, poço, fissura, recipiente, atividades concentradas de alimentação animal, navio ou outra embarcação flutuante, formas que permitem o lançamento dos poluentes. Esse termo não inclui escoamento de água de chuva em áreas agrícolas nem escoamento de recirculação de agricultura, irrigada 15 . Entretanto, neste trabalho utilizou-se fonte difusa e fonte não pontual ou não localizada sem distinção alguma.

NOVOTNY e OLEM (1994) e ONGLEY (1997) comentam que a contaminação das águas decorrentes de fontes não pontuais é resultado de atividades humanas em que os contaminantes não têm um ponto definido de entrada nos cursos de água que

15 The term "point source" means any discernible, confined and discrete conveyance, including but not limited to any pipe, ditch, channel, tunnel, conduit, well, discrete fissure, container, rolling stock, concentrated animal feeding operation, or vessel or other floating craft, form which pollutants are or may be discharged. This term does not include agricultural storm water discharges and return flows from irrigated agriculture. Section 502 (14) of the United States Clean Water Act (Water Quality Act) of 1987.

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os recebem. As cargas poluidoras não pontuais são geradas em áreas extensas e chegam aos corpos de água de forma intermitente, dificultando assim sua identificação, medição e controle.

NOVOTNY e CHESTERS (1981) ressaltam que a extensão da poluição não pontual é associada, ao menos em parte, a certos eventos climáticos imprevisíveis, assim como a condições geológicas e geográficas, podendo diferir muito de região para região e de ano para ano. PORTUGAL (2001) comenta que esse tipo de poluição tem se intensificado em decorrência da utilização desregrada de agentes químicos e pesticidas e da gestão incorreta das volumosas quantidades de resíduos orgânicos gerados nas explorações agropecuárias.

Na maioria dos países, todos os tipos de práticas agrícolas e formas de utilização da terra, incluindo as atividades de alimentação de animais, são considera- das como fontes não pontuais. Para o controle dessas fontes, são necessárias imple- mentações de medidas não estruturais tais como iniciativas de educação ambiental, que incluem promoção de práticas adequadas das atividades e modificação nas formas de manejo e aproveitamento da terra.

As contribuições de nutrientes por meio de escoamento superficial podem ser provenientes de áreas com cobertura vegetal natural do solo, de áreas agrícolas, de áreas urbanizadas, entre outras. Entretanto, para este estudo, foram enfatizadas as considerações relativas às áreas agrícolas. Na Figura 2.9, estão apresentadas as diversas fontes de poluição resultantes dos despejos de ensilagem, detritos de animais, fertilizantes e praguicidas e os principais impactos causados na biota aquática e na saúde humana.

Destaque-se que as substâncias nocivas introduzidas nas águas através do estrume são sobretudo gás sulfúrico (H 2 S), gás amoníaco (NH 3 ) e substâncias orgânicas. O H 2 S forma-se na decomposição dos aminoácidos sulfurados de proteínas. Esse gás, que exala um odor semelhante ao de ovo podre, impede a respiração por um mecanismo semelhante ao da intoxicação por gás cianídrico (HCN), ou seja, bloqueia as enzimas necessárias para a respiração (citocromooxidases e outras). O H 2 S tem ação mortal sobre o homem e os animais. A contaminação da água de despejo por esse gás perigoso é apenas temporária, pois, em presença de oxigênio, ele é oxidado a enxofre e ácido sulfúrico.

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33 Fonte: FELLENBERG, 1980. Figura 2.9 - Esquema das principais contribuições da agropecuária na contaminação das

Fonte: FELLENBERG, 1980.

Figura 2.9 - Esquema das principais contribuições da agropecuária na contaminação das águas.

IMPACTOS DOS FERTILIZANTES NOS COMPARTIMENTOS AQUÁTICOS

A agricultura intensiva praticada em grande extensão de áreas requer a utilização de largas quantidades de adubos, constituindo uma das principais contribuições para as cargas de nitrogênio e fósforo lançadas nos recursos hídricos. Os nutrientes dos adubos podem infiltrar no solo e atingir os mananciais superficiais e subterrâneos.

Os poluentes mais importantes associados com agricultura incluem sedimentos, nutrientes, pesticidas e outras toxinas, bactérias ou patogênicos e salinidade (NOVOTNY e OLEM, 1994). De acordo com ALBERTS et al. (1978) e MCDOWELL (1989), cerca de 90% da perda de nutrientes (nitrogênio e fósforo) está associada com perda de solo. ALBERTS et al. (1978) também ponderam que a perda de nutrientes em áreas cultiváveis representa uma porção relativamente pequena do fertilizante aplicado. No entanto, a concentração no escoamento quase sempre excede

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os critérios definidos em legislação específica para evitar a eutrofização nos corpos de água receptores.

O destino do nitrogênio e do fósforo no solo depende de muitos fatores. Quanto

maior a solubilidade do fertilizante na água, mais facilmente ele é arrastado pela chuva. A sua remoção é retardada pela capacidade de retenção e de adsorção do solo. A precipitação pluviométrica reduzida também prolonga o tempo de permanência do fertilizante no solo. Parte desses nutrientes é fixada no solo pelas atividades metabólicas dos microorganismos.

O potássio e o cálcio não causam preocupação, pois esses elementos não podem influenciar de maneira decisiva o crescimento dos microorganismos na água. Mesmo em concentrações maiores, são considerados como não-tóxicos. Os demais componentes dos fertilizantes podem exercer um papel muito importante no problema de poluição da água. Por essa razão, uma análise mais detalhada do caminho percorrido por esses componentes, da lavoura até a água, faz-se necessária.

Também a cobertura vegetal tem grande influência sobre o tempo de permanência dos fertilizantes no solo. Em campos desprovidos de vegetação, os minerais são removidos muito mais facilmente do que em solos cobertos. Em campos não cultivados, a quantidade de nitratos removida é de 10 a 20 vezes superior a de campos com cultivo permanente. Em solos ocupados durante todo o ano, a remoção de minerais é menor nos meses em que a vegetação é mais intensa; nos meses de crescimento lento, a remoção é maior, pois as raízes apresentam capacidade de retenção máxima durante o período de maior crescimento da planta (BASTOS e FREITAS, 2000).

O comportamento do escoamento depende do tipo da área. Em áreas agrícolas

sujeitas à erosão, a dissolução, intercâmbio e transporte de nutrientes pelo escoamento ocorrem de diferentes maneiras. Estudos realizados por OMERNIK (1977) em bacias hidrográficas norte-americanas com intensas atividades agrícolas apresentaram concentrações médias de 3,69 mg/l e 0,133mg/l para nitrogênio total e fósforo total, respectivamente. O mesmo autor apresenta ainda as análises dos teores desses nutrientes resultantes das excreções de vários animais. Para o boi, foram encontrados valores médios de 57,49 kg/(animal.ano) de nitrogênio total e 17,60 kg/(animal.ano) de fósforo total.

Possivelmente, o efeito mais comum de poluição causada pelo lançamento de nitrogênio e fósforo em um corpo de água é a promoção do crescimento de algas. Em

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um ecossistema aquático, o tamanho da população das algas é limitado pela concentração desses nutrientes. As algas retêm clorofila e são, dessa forma, capazes de realizar a fotossíntese, não precisando oxidar carbono para obter sua energia. Podem, portanto, viver em ambientes aquáticos onde compostos orgânicos estão ausentes ou em baixas concentrações. Por outro lado, as algas requerem o suplemento abundante de nutrientes para sintetizar seus componentes, e, na presença de excesso de nitrogênio e fósforo, um enorme crescimento de algas é comum. Em situações semelhantes, diz-se que o curso de água está eutrófico.

A eutrofização está associada a variados fatores ou fontes imediatas ou potenciais de nutrientes. Podem ser mencionadas as seguintes fontes: esgotos domésticos, despejos industriais, drenagem urbana, escoamento de áreas agrícolas e de áreas florestais, decomposição de rocha e sedimentos, contribuições atmosféricas, águas subterrâneas e outras eventuais.

De acordo com EDMONDSON (1974), KETCHUM (1969) e ROLICH e COOK (1966), entende-se por eutrofização como um aumento na taxa de ingresso de nutrientes. Os nutrientes estimulam o crescimento das algas de água doce, que crescem rapidamente formando uma camada verde, que pode bloquear a luz, impedindo o crescimento da fauna e flora aquáticas, contribuindo também para a degradação da água. Além disso, devido ao excesso de nutrientes, as algas, quando morrem, são consumidas por um número crescente de bactérias que respiram e esgotam o oxigênio da água, sufocando assim os animais aquáticos mais ativos como os peixes, gerando também problemas com o odor (PARKER, 2000; BAPTISTA et al.,

2000).

O problema com a eutrofização não é novo, mas o incremento gradual e acelerado é que causa grande preocupação, intensificando-se a partir do maior aproveitamento do potencial hidroenergético do país. Esse processo desencadeou construções de muitos reservatórios ou lagos artificiais, onde o acúmulo de nutrientes é acelerado (ROCHA e BRANCO, 1986).

Adicionalmente, o crescimento excessivo das algas pode ocasionar danos ecológicos a outros habitantes aquáticos. Durante o dia, quando ocorre a fotossíntese, as algas produzem uma grande quantidade de oxigênio que ajuda na aeração do curso de água, entretanto utilizam carbonato e bicarbonato dissolvidos como fonte para suas células carbônicas. O resultado é um aumento no pH, tendo sido observados valores altos como 10,5. De modo oposto, no período noturno, uma

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reação reversa ocorre quando a alga respira, inspirando oxigênio e expirando CO 2 . Como conseqüência, a água está sujeita a valores de pH amplamente flutuantes. Se a concentração de algas for suficientemente alta, a água pode tornar-se completamente anaeróbia à noite. Essa condição é extremamente comum em todo o mundo, particularmente onde lagos recebem efluentes brutos ou até mesmo tratados (HORAN,

1989).

Dentre as diferentes formas de nitrogênio, pode-se destacar o íon amônio (NH 4 + ), que, em altas concentrações, pode ter grandes implicações ecológicas, pois influencia grandemente na dinâmica do oxigênio. Em pH básico, o íon amônio transforma-se em gás amoníaco (NH 3 livre, gasoso), que, dependendo de sua concentração, pode ser tóxico para alguns organismos. Concentrações de 0,25 mg/l ou superiores afetam o crescimento dos peixes, embora a concentração letal (que mata 50 % dos indivíduos) seja considerada de 0,50 mg/l. Em condições normais, a concentração de amônia atinge muito raramente os níveis letais. Para atingir esses níveis, devem ocorrer simultaneamente elevados valores de pH (> 9,0), temperatura (> 26°C) e baixos valores de potencial de oxiredução (ESTEVES, 1989). As águas ricas em nitratos, ao serem ingeridas pelo ser humano serão convertidas, no intestino, em nitritos que são altamente tóxicos e provocam anemia (BAPTISTA et al., 2000).

A maior parte do fósforo é transportado com o sedimento. Por isso, o controle dos sedimentos tem sido o foco principal dos estudos na área de contaminação de corpos hídricos por poluição não pontual (PARKER, 2000). Segundo ROCHA e BRANCO (1986), o solo é um grande retentor de fósforo e qualquer aplicação de fósforo solúvel, em geral, permanece próximo ao ponto de aplicação, exceção feita aos solos arenosos e turfosos, que são pouco reagentes ao fósforo.

Embora a remoção de fosfatos do solo seja quantitativamente pequena quando comparada com a remoção do nitrito, o fosfato constitui o principal fator eutrofizante encontrado nos fertilizantes, pois o fosfato representa, na água, um elemento quase sempre deficitário para os organismos. Concentrações de fósforo maiores que 0,05mg/l indicam meio aquático eutrófico. Compostos nitrogenados também contribuem para a eutrofização, mas esses compostos estão mais associados aos efeitos tóxicos que podem causar aos microrganismos (VON SPERLING, 1986).

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IMPACTOS DOS AGROTÓXICOS NOS COMPARTIMENTOS AQUÁTICOS

Os pesticidas podem alcançar as águas de vários modos: (i) conduzidos pelo ar, quando aplicados por equipamentos aéreos; (ii) carreados pelas águas das chuvas, após aplicações na agricultura; (iii) como resultado da lavagem de equipamentos de pulverização; (iv) através de águas de infiltração originárias de áreas onde os mesmos foram aplicados; (v) quando colocados diretamente na rede hidrográfica para combate a larvas de insetos transmissores de doenças (FELLENBERG, 1980).

Os problemas maiores são causados pelos inseticidas clorados orgânicos devido a sua maior persistência no solo, que, muitas vezes, atinge vários anos. Aqueles com maior persistência no solo, em ordem decrescente são: DDT, dieldrin, lindano, clordana, heptacloro e aldrin. Já os inseticidas fosforados orgânicos são menos persistentes no solo, permanecendo somente por algumas semanas ou meses (LARINI, 1999).

Na intoxicação crônica pelos organoclorados cíclicos como o DDT, observa-se sonolência, inapetência, desidratação por alteração do metabolismo eletrolítico, reflexos tardios e influência negativa sobre a reprodução, principalmente nas aves. São mutagênicos e suscetíveis de causar intoxicações com sintomatologia nervosa nos mamíferos que se alimentam de peixes e moluscos, uma vez que se acumulam nos animais. Do ponto de vista ambiental, os compostos organoclorados são bastante persistentes e provocam um enorme impacto ecológico.

Os inseticidas organofosforados são absorvidos por ingestão ou contato, sendo a sua toxicidade para os animais homeotérmicos bastante elevada; as aves suportam doses desse composto de 10 mg/kg, mas doses de 50 mg/kg tornam-se fatais. A diferença entre os inseticidas organoclorados e os organofosforados é que o primeiro não se acumula no organismo e os seus metabólitos encontram-se nos produtos de excreção, sendo que a parte não fixada ou libertada do complexo inseticida- colinesterase é metabolizada (LARINI, 1999).

Outro aspecto importante a ressaltar é a dualidade benefício-dano que esses tipos de produtos causam. A aplicação de veneno contra organismos que atacam as plantas cultivadas leva a que substâncias tóxicas dirijam-se aos cursos de água, pois a maioria é solúvel em água. Alguns produtos apresentam alta estabilidade contra a degradação física, química e biológica de seus princípios ativos, mantendo seu poder tóxico por longo tempo. Deve-se destacar que esse benefício às lavouras provocará

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um duplo efeito nefasto, uma vez que, além de contaminar as águas superficiais e, por conseqüência, os estuários que recebem essas águas, esses tóxicos podem, inclusive, acumular-se nos seres aquáticos, o que poderá causar sérios danos aos animais carnívoros que se alimentam desse seres, incluindo-se o homem (CASAGRANDE, 1982).

Todos os praguicidas são tóxicos, uns mais outros menos. Os peixes são especialmente sensíveis à contaminação com praguicidas (organoclorados, organofosforados, carbamatos, entre outros). Em função dessa sensibilidade, os peixes são considerados indicadores apropriados para a comprovação da presença de praguicidas em águas de rios, em lagos, em estações de tratamento de águas de despejo, bem como na água destinada a alimentar as estações de tratamento de água potável. A capacidade dos peixes de se colocarem contra a correnteza é encarada como índice de água livre de tóxicos. Quando 25% dos peixes mostrarem-se incapazes de se colocar contra a corrente, a água será considerada perigosa (BERTOLETTI, 1989; SWEET e MEIER, 1997).

2.4 PROPOSTA DE DESENVOLVIMENTO AGRÍCOLA SUSTENTÁVEL

A idéia de desenvolvimento passa a receber atenção na sociedade ocidental a partir da Segunda Guerra Mundial. No início da década de sessenta, instala-se, no Instituto de Tecnologia de Massachusets, Estados Unidos da América, um grupo de cientistas encarregados de elaborar uma teoria do desenvolvimento. Esse grupo defendia a idéia de que todas as sociedades humanas partem de uma etapa de organização socioeconômica mais simples para etapas cada vez mais complexas. Nesse sentido, as sociedades tradicionais eram vistas como pertencentes a uma etapa menos desenvolvida e que, pelo processo natural, elas chegariam ao mesmo estágio que as desenvolvidas. No entanto, deixando-se ao seu ritmo próprio, esse processo seria lento. Abria-se, então, a possibilidade de acelerá-lo na medida do interesse dos países centrais. Para tanto, fazia-se necessária a interferência desses países nas sociedades ditas atrasadas, por meio de empréstimos, financiamentos e transferência de tecnologia. A esse processo de aceleração do progresso foi dado o nome de desenvolvimento (PAULA, 1993).

Segundo o mesmo autor, a idéia de desenvolvimento assim concebida, penetrou na América Latina e ganhou simpatia tanto dos intelectuais de direita quanto dos de esquerda. Já ao findar da década de 1960, esse paradigma começou a ser questionado pela noção de desenvolvimento sustentável. O debate dessa questão

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aprofundou-se no decorrer das três últimas décadas, ressaltando os encontros de Estocolmo/1972 e Rio de Janeiro/1992.

Nos primórdios da sua formulação, de acordo com estudos realizados por VINHA (2000), o termo desenvolvimento sustentável carregava uma dimensão de revolução cultural, científica e paradigmática, apoiada na visão holística e multidisciplinar de uma sociedade regida pela lógica ecológica. Entretanto, essa revolução manifestou-se na forma de uma convenção de mercado, constituída com base na crença de que o desenvolvimento sustentável pode vir a se transformar numa poderosa estratégia de negócios. De certa forma, essa visão mercadológica contribui grandemente para a sustentabilidade do desenvolvimento. Um grande exemplo está na corrida frenética das empresas pelo selo da ISO 14.000.

Numa visão genérica, a agricultura tem sido bem sucedida, pois satisfaz uma demanda crescente de alimentos que ocorreu durante a última metade do século XX. Esse avanço na produção de alimentos ocorreu graças aos avanços científicos e tecnológicos, que inclui o desenvolvimento de novas variedades de plantas, o uso de fertilizantes e agrotóxicos e o crescimento da irrigação. Porém, essas práticas que fizeram aumentar a produção agrícola são as responsáveis pelo processo de degradação dos recursos naturais das quais depende a própria agricultura, que são: o solo, as reservas de água e a diversidade genética natural. Em suma, a agricultura moderna é insustentável, porque ela não é capaz de continuar a produzir comida suficiente para a população global, a longo prazo, sem deteriorar as condições que a tornam possíveis (GLEISSMAN, 2000; CARMO, 2001).

A FAO (Food and Agricultural Organization) definiu desenvolvimento agrícola sustentável como sendo (ONGLEY, 1997):

O manejo e conservação da base dos recursos naturais e a orientação da mudança tecnológica e institucional deve ser de tal maneira que se assegure a contínua satisfação das necessidades humanas para as gerações presentes e futuras. Esse desenvolvimento sustentável (nos setores agrícola, florestal e pesqueiro) conserva a terra, a água e os recursos genéticos vegetais e animais, não degrada o meio ambiente e é tecnicamente apropriado, economicamente viável e socialmente aceitável.

BEZERRA e VEIGA (2000), no trabalho que subsidia a elaboração da Agenda 21 brasileira, mostram-nos os problemas da agricultura e as soluções propostas para que ela se torne sustentável, com diretrizes nacionais e com restrições específicas para o ecossistema do cerrado.

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Um dos pontos mais marcantes no trabalho dos autores supracitados aponta que a agropecuária no cerrado tem sua continuidade seriamente ameaçada pelo esgotamento dos recursos naturais em que suas práticas se apóiam. O fato é que a dependência crescente de insumos químicos e de irrigação constitui ameaça não somente ao ecossistema como um todo, mas também ao prosseguimento das explorações agropecuárias. As práticas adotadas apóiam-se nas ocupações de novas áreas, sem antes ter racionalizado o uso das atuais, o que significa estimular uma ação que mais se aproxima de mineração do que da agricultura.

O crescimento das culturas exige e leva a um desgaste do solo e do regime hídrico. Mais do que isso, tanto a mecanização como o uso em larga escala de fertilizantes químicos, de agrotóxicos e de irrigações contribuem, de modo decisivo, para empobrecer a diversidade genética desses ambientes. Apesar disso, nas áreas de latossolo, os especialistas consideram possíveis a sustentabilidade da agricultura e da pecuária, desde que sejam adotadas técnicas elementares de manejo e de rotação de culturas visando o combate à erosão.

O plantio direto 16 , que vem sendo adotado de forma crescente no cerrado do Centro-oeste, chegando hoje a 30 mil km 2 , tem um papel decisivo. A rotação de culturas, sobretudo em áreas de pecuária, é um dos principais meios para recuperar pastagens degradadas e aumentar a oferta de grãos, sem a abertura e a degradação de novas áreas.

Dentre as políticas agrícolas que impulsionaram a agricultura dos cerrados, pode-se destacar especial atenção à política de subsídios ao crédito rural na década de setenta e a política de preços mínimos nos anos oitenta. Com esses incentivos, aumentaram-se os riscos econômicos inerentes aos altos investimentos requeridos à produção e apareceu também, com maior intensidade nesses sistemas, os riscos quanto às pragas e doenças. As pragas e doenças estão relacionadas com a aplicação exagerada de corretivos no solo, que desequilibra o ambiente químico e biológico do solo, e com a monocultura continuada. O controle químico dessas pragas e doenças é inviável, tendo em vista que o uso de agrotóxicos tendem a aumentar ainda mais na medida em que as doenças começam a criar resistências, o que requer doses cada vez maiores do princípio ativo, ou mesmo novos produtos, que são mais

16 Consiste em plantar, sem utilização das operações usuais de gradagem e aração, sobre os restos de uma cultura anterior, que fazem a cobertura, evitando o seu ressecamento e a evaporação de nutrientes (PAULA, 1993).

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caros e mais tóxicos. Com isso, os riscos de contaminação do solo e da água são altíssimos, causando ainda graves distúrbios ecológicos, econômicos e sociais (SHIKI,

1995).

Uma exploração agropecuária procurará obter o melhor rendimento econômico possível das culturas praticadas, com salvaguarda da qualidade do ambiente. Isso pressupõe a prática de técnicas de plantio corretas, dentre as quais a fertilização racional é essencial. Essa técnica deverá ser orientada para a nutrição adequada das culturas, corrigindo eventuais carências e evitando excessos de nutrientes de forma a proporcionar produções de elevada qualidade e, ao mesmo tempo, preservar o solo, a água e o ar.

O controle de cargas não pontuais é feito através do melhoramento do gerenciamento das práticas agrícolas, que são conjuntos de medidas que podem ajudar a diminuir ou evitar que os poluentes cheguem aos rios. Essas ações depen- dem de cada caso e podem variar em sua eficiência, mas não podem deixar de ser tomadas.

O termo agricultura sustentável revela a insatisfação com a situação da agricultura moderna. As propostas e diretrizes da Agenda 21 têm como objetivo: (i) satisfazer o desejo social de preservação dos recursos naturais e de geração de produtos mais saudáveis, tanto para o meio ambiente quanto para a saúde; (ii) manutenção, a longo prazo, dos recursos naturais e da produtividade agrícola; (iii) minimização dos impactos adversos ao meio ambiente; (iv) retornos adequados aos produtores; (v) otimização da produção com um mínimo de insumos externos; (vi) satisfação das necessidades humanas de alimentos e renda; (vii) atendimento às demandas sociais das famílias e das comunidades rurais.

Nesse sentido, a Agenda 21 propõe algumas ações visando a sustentabilidade da agricultura. São elas: (i) fortalecimento dos mecanismos e instâncias de articulação entre governo e sociedade civil; (ii) fortalecimento da agricultura familiar frente aos desafios da sustentabilidade agrícola; (iii) incentivo ao planejamento ambiental e ao manejo sustentável dos sistemas produtivos, através de: planejamento e gestão ambiental, conservação da biodiversidade, manejo dos sistemas produtivos, conservação e recuperação dos solos, redução do uso de agrotóxicos, aspectos legais relacionados ao seu uso, limites aos produtos transgênicos e instrumentos econômicos para o manejo sustentável; (iv) incentivo à geração e à difusão de informações e de conhecimentos que garantam a sustentabilidade da agricultura, com

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a utilização de pesquisas, geração de conhecimentos e de novas práticas, difusão, capacitação, assistência técnica e sistematização de informações.

Para garantir a sustentabilidade para o uso dos recursos hídricos, segundo ZALEWSKI (2000), é necessário não somente reduzir ou eliminar a emissão de poluentes, mas também ampliar o número de ferramentas potenciais de avaliação temporal da dinâmica da água na escala da bacia. Cinco componentes determinam esse modelo: clima, geomorfologia, cobertura do solo, dinâmica da biota e a interferência humana (FERRIER et. al., 2001). HE et al. (2000), também apontam a necessidade da utilização de ferramentas de análise para se garantir um desenvolvimento sustentável, além de práticas de gerenciamento para as áreas rurais.

Pelos numerosos estudos estatísticos que têm sido executados por todo o mundo, fica evidente que o homem vem freqüentemente explorando recursos limitados em uma extensão alarmante. A identificação desse problema permitiu realizar uma excelente troca nos conceitos da engenharia ambiental, que passou a se direcionar para o planejamento integrado juntamente com o desenvolvimento sustentável (RAUCH, 1998). Ao contrário do que se pensava e praticava anteriormente, a engenharia ambiental desenvolveu-se, nessas últimas décadas, preocupando-se não com os detalhes, mas com uma visão holística do problema. O objetivo é aumentar a estabilidade e o poder econômico da sociedade, ao mesmo tempo em que reduz a utilização dos recursos e o impacto prejudicial da sociedade no meio ambiente.

O desenvolvimento sustentável requer um novo paradigma para a definição de princípios e práticas em gerenciamento de recursos hídricos, de acordo com: (i) mudança de objetivo para alcançar a estabilidade econômica da sociedade; (ii) avaliação das conseqüências das decisões presentes para as gerações futuras; (iii) a política ambiental, que restringe somente emissões de poluentes, necessita de mudanças para compatibilizar seus objetivos com o desenvolvimento sustentável.

Feita essa revisão contextualizada do setor agrícola e de seus impactos ambientais e hídricos a nível de uma bacia hidrográfica, aborda-se, a seguir, o referencial científico envolvendo os instrumentos técnicos utilizados nesta tese para tratar o problema da poluição hídrica por fontes não pontuais.

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2.5 FERRAMENTAS DE ANÁLISE

Nas duas últimas décadas, a poluição por fonte não pontual, por representar parte significativa da poluição dos recursos hídricos, tem se tornado objeto de muitas pesquisas que resultaram em desenvolvimento de modelos hidrológicos e procedimentos de modelagem hidrológica. Adicionalmente, o gerenciamento adequado dos recursos hídricos, com base na lei n° 9.433 que institui a política nacional dos recursos hídricos, requer o tratamento dos dados de forma integrada.

Neste trabalho, é dada maior ênfase no procedimento de modelagem hidrológica integrada dos dados, mais do que ao uso de modelos hidrológicos sofisticados, destacando-se o uso de geoprocessamento e, em especial, o uso do sensoriamento remoto no tratamento do problema de deterioração da qualidade de água de uma bacia hidrográfica oriundo de fontes não pontuais. Modelos simplificados de regressão e técnicas de interpolação espacial tipo spline, disponíveis em códigos computacionais comerciais, são utilizados.

Feita essa observação, julgou-se adequado, na revisão bibliográfica que se segue, situar inicialmente o problema abordado no contexto de modelagem hidrológica, incluindo aspectos relacionados com a regionalização hidrológica e com os modelos hidrológicos. Em seguida, passou-se a tratar, mais especificamente, do geoprocessamento e de técnicas de espacialização relacionadas, que foram efetivamente utilizadas nesta tese.

2.5.1 MODELAGEM HIDROLÓGICA

Grandes desafios estão colocados para os cientistas no sentido de melhor representar os fenômenos físicos através de uma cascata de escalas, partindo de representações microscópicas até se chegar a representações macroscópicas. O chamado problema da escala na modelagem hidrometeorológica requer estudos profundos em termos de representatividade de propriedades espaciais. Equações diferenciais que representam o problema da infiltração no solo, por exemplo, foram derivadas para colunas (1-D) em laboratórios, enquanto problemas físicos reais acontecem, em geral, em 2-D (área) e 3-D (volume). Modelos de bacias hidrográficas servem de condição de contorno a modelos de meso-escala e escala global. Percebe- se, pois, a urgência de estudos que contemplem essa gama de escalas para representação da natureza e de seus ciclos naturais.

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Muitas vezes, dispomos de informações pontuais no tempo e no espaço para descrevermos fenômenos essencialmente espaciais. Com as tecnologias de geoprocessamento já disponíveis, é importante que passemos a incorporar essa nova base de dados, em conjunto com as informações pontuais, na análise dos fenômenos físicos. Para tanto, técnicas matemáticas e estatísticas devem ser desenvolvidas e adaptadas, de forma a que se possa maximizar a extração de informações úteis disponíveis nesses conjuntos de dados.

Até o momento, os modelos hidrológicos e ambientais utilizados na prática da engenharia hidrológica / ambiental foram concebidos para a utilização de dados pontuais. Muitas informações espaciais inerentes a um processo de modelagem de bacias hidrográficas não são contempladas nessa geração de modelos hidrológicos. Essas graves limitações começam, aos poucos a serem superadas, em função da disponibilidade de imagens de sensoriamento remoto, contendo informações relevantes sobre os processos físicos que se desenvolvem nas bacias hidrográficas. Novas concepções para esses modelos devem levar em conta a disponibilidade desses dados espaciais, que, por outro lado, exigem conhecimentos e estudos de tratamento diferenciados.

Tendo em vista a enorme quantidade de dados nos estudos hidrológicos e ambientais, faz-se necessário o desenvolvimento de sistemas de informações geográficas para armazenamento e gerenciamento desses dados, de forma que se processe a análise dos dados de forma planejada e organizada.

A hidrologia trabalha, principalmente, com o movimento, a distribuição e armazenamento de água. Partindo de uma perspectiva global, três sistemas estão envolvidos: sistema atmosférico, sistema terrestre e sistema oceânico. O domínio da hidrologia está confinado ao sistema terrestre, mas pode incluir aspectos dos sistemas atmosférico e oceânico, que diretamente afetam o movimento de água no sistema terrestre. O melhor entendimento da parte terrestre do ciclo hidrológico é de extrema importância em hidrologia. Nas décadas recentes, grande esforço tem sido empregado através de trabalho experimental e modelagem matemática.

Com a preocupação cada vez maior com o meio ambiente, surge a necessidade de se estudarem modelos que reconheçam e representem adequadamente as características hidrológicas de uma determinada região, para que se possam obter resultados confiáveis quando da simulação dos efeitos causados pela mudança no uso do solo, desmatamento, ou mesmo, poluição ou erosão do meio natural.

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Em relação a modelos hidrológicos do tipo chuva-vazão, podemos indicar pelo menos seis grandes campos de aplicação: (i) extensão de séries de descarga; (ii) geração de estatísticas sobre descarga; (iii) acesso aos efeitos provenientes das mudanças no uso do solo; (iv) possibilidade de acesso aos efeitos globais climáticos; (v) predição de vazões em bacias não monitoradas; (vi) predição de vazões provenientes das mudanças no uso do solo.

As duas primeiras aplicações têm sido implementadas com relativo sucesso. As demais têm encontrado grandes dificuldades em apresentar resultados satisfatórios. Uma das saídas para tal dilema é o desenvolvimento de novos modelos do tipo chuva-vazão, que apresentem uma estrutura distribuída, facilitando a incorporação de informações espaciais e temporais.

De acordo com ZEIGLER (1976) e HOUSE e MCLEOD (1977), as expressões modelagem e simulação designam o complexo de atividades associadas com a construção do modelo do sistema do mundo real e a sua simulação através do computador. A modelagem conduz a relação existente entre o sistema real e o modelo, e simulação refere-se à relação entre o computador e o modelo, conforme ilustrado na Figura 2.10. A Figura 2.11 representa um diagrama das quatro fases principais do uso de formulações matemáticas, ou modelos, como são usualmente chamadas.

matemáticas, ou modelos, como são usualmente chamadas. Fonte: ZEIGLER, 1976. Figura 2.10 - Relação entre

Fonte: ZEIGLER, 1976. Figura 2.10 - Relação entre modelagem e simulação.

Figura 2.10 - Relação entre modelagem e simulação. Figura 2.11 - Diagrama das fases da formulação

Figura 2.11 - Diagrama das fases da formulação do modelo.

É nesse contexto que se enquadra o presente trabalho, uma vez que adota uma modelagem hidrológica distribuída, de longo curso, simplificada de forma a avaliar o estado da bacia hidrográfica do rio Cuiabá em termos de qualidade de água. Mais

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especificamente, trata do problema da poluição pelos poluentes nitrogênio total e fósforo total por fontes não pontuais levando-se em conta a cobertura e uso do solo. Entre as abordagens metodológicas que melhor traduzem a inserção deste trabalho, destacam- se os tópicos de regionalização hidrológica e modelos hidrológicos.

REGIONALIZAÇÃO HIDROLÓGICA

O conhecimento da distribuição espacial e temporal da água é imprescindível para o planejamento dos recursos hídricos. A regionalização das informações, sejam de vazão e de chuva, consideradas as variáveis hidrológicas mais importantes, tem a finalidade de extrair o máximo de informação dos dados pontuais disponíveis, extrapolando-os espacialmente dentro de um contexto temporal. Segundo TUCCI (2002), o princípio da regionalização baseia-se na similaridade espacial de algumas funções, variáveis e parâmetros que permitem essa transferência.

O alto custo de implantação, de operação e de manutenção de postos hidrológicos em um país de grande superfície, como é o caso do Brasil, acarreta a existência de um número reduzido de pontos de amostragem de fenômenos físicos de interesse.

A regionalização de informações hidrológicas, especialmente vazão, é uma prática bastante adotada devido a inexistência de dados em muitas bacias hidrográficas. Essencialmente, consiste no tratamento estatístico de séries temporais de diferentes postos de medição, identificando-se padrões hidrológicos ou funções de transferência hidrológica. Dessa forma, aproveitam-se registros de algumas localidades conhecidas, extrapolando-se ou interpolando-se informações para a região de estudo ou transpondo dados e informações para a bacia de interesse.

Segundo TUCCI (1993), os métodos de regionalização de funções estatísticas podem ser classificados em três: (i) métodos que regionalizam parâmetros da distribuição de probabilidade; (ii) métodos que regionalizam o evento com um determinado risco; (iii) métodos que regionalizam uma curva adimensional de probabilidades (index-flood). Um método alternativo de regionalização, não registrado em TUCCI (1993), seria o método de componentes principais (DILLON e GOLDSTEIN, 1993; LLAMAS, 1984). A regionalização, de acordo com PIRES (1994), traz algumas vantagens e também desvantagens (Tabela 2.2) em relação ao estudo local de séries de dados, onde aspectos concernentes ao ajuste de diferentes distribuições de probabilidade são discutidos.

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Tabela 2.2 – Vantagens e desvantagens de utilização da regionalização hidrológica.

Vantagens

Desvantagens

Aumento considerável no tamanho da série, que passa a ter base regional, possibilitando uma redução do erro amostral;

O grau de dependência entre os even- tos de postos vizinhos da região;

A comparação das características es- tatísticas entre as séries, dentro da re- gião homogênea, pode ser utilizada para verificar a consistência dos da- dos; postos que apresentam caracte- rísticas estatísticas muito discordantes dos demais serão indicados como sus- peitos de possuírem dados inconsis- tentes;

A delimitação da região homogênea, bem como o grau de homogeneidade satisfatório;

Possibilita estimar quantis, para qual- quer tempo de retorno, em locais onde não haja observações, dentro da re- gião homogênea;

O grau de correlação com as caracte- rísticas físicas da região.

Permite identificar a falta de postos de observações.

 

Fonte: adaptado de PIRES, 1994.

Usualmente, seja qual for o método de regionalização, recai-se em uma

equação de regressão, que procura relacionar a vazão como variável dependente e,

como variáveis independentes, as características fisiográficas e meteorológicas da

região, os parâmetros da distribuição ou eventos com determinado tempo de

recorrência ou ainda uma medida estatística de tendência central de cada posto.

Dentre as principais características físico-climáticas a serem escolhidas para a relação

de regressão estatística, devem ser consideradas aquelas mais representativas e as

mais facilmente mensuráveis. Na prática, é comum utilizar, entre outras variáveis, área

de drenagem, precipitação média anual, densidade de drenagem e declividade do rio

para os casos de regionalização de vazões (THOMAS e BENSON, 1969,

ELETROBRÁS, 1985; CPRM, 2002).

Um dos aspectos que merecem atenção em um estudo de regionalização diz

respeito à independência espacial. KELMAN (1987) refere-se a esse problema como

paradoxo relativo à regionalização. Por um lado, espera-se delimitar regiões através

de postos com características hidrológicas uniformes. Por outro lado, é desejável que,

entre as séries temporais individuais de cada posto, ocorra independência estocástica.

Outro aspecto relevante está relacionado com a dificuldade de se estabelecer um

critério para a segmentação hídrica. Testes clássicos são encontrados em

DALRYMPLE (1960), KITE (1977) e BENJAMIN e CORNELL (1970), mas podem não

conduzir a bons resultados em termos de definição das equações de regressão.

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KELMAN (1987), por exemplo, relata que mesmo séries de apenas dois anos podem apresentar estimativas de vazão melhores do que valores obtidos por equações de regressão.

Finalmente, alguns estudos de regionalização, apenas para ilustrar, podem ser encontrados em ELETROBRAS (1985), BHASKAR e O’CONNOR (1989), BURN (1997), SWAMEE et al. (1995), OBREGON et al. (1999), BÜRGER (2002) e CPRM

(2002).

ELETROBRAS (1985), através de estudos realizados pelo IPH – Instituto de Pesquisas Hidráulicas, estabeleceu procedimentos para regionalização de vazões, confeccionando um guia metodológico, com o intuito de orientar a elaboração de estudos regionais. Realizou também, no mesmo estudo, a regionalização para a região do Alto Paraguai, aplicando a metodologia descrita nesse guia.

BHASKAR e O’CONNOR (1989) utilizaram análise de agrupamento e método residual para regionalização de dados de vazão de cinco regiões distintas do Estado de Kentucky nos Estados Unidos da América, tendo o método residual obtido melhor resultado.

BURN (1997) realizou um estudo de regionalização em um conjunto de bacias canadenses, onde a técnica empregada procurava usar as informações dos eventos chuvosos em tempo real. A técnica foi aplicada dentro de uma estrutura de região de influência e utilizou eventos de importância para a verificação da homogeneidade dos eventos regionais. Essa técnica identifica as regiões que são efetivas para a estimativa de vazão quantil extrema.

SWAMEE et al. (1995) estimaram a vazão média anual de noventa e três bacias da Índia, variando de 14,5 a 935.000 km 2 de área, com séries de 10 a 84 anos, onde as variáveis utilizadas foram chuva média, tempo de duração da chuva, período de retorno, área de drenagem, declividade da bacia, área de floresta e aceleração da gravidade.

OBREGON et al. (1999) utilizaram um modelo mensal de transformação de precipitação em vazão para estender a série fluviométrica que era curta, e realizaram a regionalização da curva de regularização e de permanência das vazões mensais. Os resultados desse estudo mostraram que as funções regionais estendidas apresentaram melhor correlação e que, apesar das limitações inerentes às extensões,

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é

precipitação.

possível

introduzir,

na

regionalização

de

vazões,

informações

incluídas

na

BÜRGER (2002) realizou um estudo de regionalização utilizando o método EDS (expanded downscaling) para algumas bacias da Europa: Pinis (Grécia), Jizera (Tchecoslováquia), Saar (Alemanha) e Thames (Reino Unido). O objetivo desse estudo foi a avaliação dos riscos das enchentes atuais e futuras, incluindo os efeitos das mudanças climáticas.

CPRM (2002) apresentou os estudos de regionalização das vazões médias anuais e de longo período, máximas e mínimas; da curva de permanência e regularização das bacias litorâneas de São Paulo e Rio de Janeiro, classificada como sub-bacia 59, segundo a ANEEL. A metodologia de regionalização adotada foi o método que regionaliza uma curva adimensional de probabilidades (index-flood), relacionando a vazão (variável dependente) com características fisiográficas e meteorológicas (variáveis explicativas ou independentes).

Feita essa breve revisão, aborda-se, no próximo item, o tópico de modelos hidrológicos, instrumentos complementares aos estudos de regionalização, utilizados no melhor entendimento da parte terrestre do ciclo hidrológico.

MODELOS HIDROLÓGICOS

Os modelos de simulações hidrológicas têm se tornado uma parte fundamental de quase todos os aspectos da hidrologia. O uso de modelos hidrológicos pode ser adotado com diferentes e variadas finalidades. Uma das aplicações de modelos hidrológicos do tipo chuva-vazão é a estimativa de futuras vazões de enchentes, permitindo assim agir antecipadamente evitando sérios danos ambientais e sociais. Esses modelos são também empregados, por exemplo, em estudos de planejamento urbano e regional para avaliação de impactos ambientais e hídricos, estimulando o desenvolvimento de planos alternativos de uso dos solos mais eficientes.

Já no final do século XX, segundo EAGLESON (1986) e O’CONNELL e TODINI (1996), destaca-se uma integração maior entre os modelos atmosféricos e hidrológicos, associados a esquemas de transferência solo-vegetação-atmosfera (SVAT), induzindo a um maior desenvolvimento dos modelos hidrológicos de forma a auxiliar no esforço de compreensão das mudanças climáticas que atingem o nosso

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planeta. Os modelos hidrológicos podem atuar como importantes condições de contorno para modelos atmosféricos globais e regionais.

Os processos físicos que ocorrem na natureza são bastante complexos, e os modelos têm a função de procurar melhor representá-los, de tal maneira que o comportamento estimado se aproxime da realidade. Apesar dos modelos hidrológicos variarem com o tempo e com o espaço, eles têm tratado esses processos de forma simplificada e concentrada devido à falta de informação e à dificuldade de manipulação de grande quantidade de dados. Para modelar sistemas complexos como uma bacia hidrográfica, com todos os seus processos físicos, químicos e biológicos, que governam a disponibilidade da água em quantidade e qualidade e as interações que ocorrem entre os compartimentos terrestres e aquáticos, são necessárias simplificações dos processos físicos espaciais e temporais envolvidos.

Os modelos podem ser classificados em físicos, analógicos e matemáticos. O primeiro representa o sistema através de um protótipo em escala menor na maior parte dos casos. Os modelos analógicos utilizam equações que regem diferentes fenômenos para modelar, no sistema mais conveniente, o fenômeno mais complexo. Segundo CLARKE (1973), os modelos matemáticos podem ser divididos em quatro grupos, a saber: (i) estocástico – conceitual; (ii) estocástico – empírico; (iii) determinístico – conceitual; (iv) determinístico – empírico.

Em relação a primeira classificação, estocástico e determinístico, segundo CHOW (1964) e TUCCI (1998), se a chance de ocorrência das variáveis é levada em conta e o conceito de probabilidade é introduzido na formulação do modelo, o processo e o modelo são ditos estocástico. Se não forem consideradas as variáveis envolvidas no processo e o modelo seguir uma lei que não a lei da probabilidade, o modelo e o processo são ditos determinísticos.

A segunda classificação, conceitual e empírico, está baseada na utilização de funções na elaboração do modelo. Se elas levam em conta os processos físicos da natureza, são conceituais. Se, por outro lado, utilizam funções empíricas, que não estão relacionadas com os fenômenos físicos, são considerados empíricos. Esses últimos são os conhecidos modelos do tipo caixa-preta. Uma observação deve ser feita com relação aos modelos conceituais, tornando a caracterização deles bastante difícil, pois também utilizam funções empíricas como, por exemplo, a equação de Darcy, a equação de Horton, entre outras, relacionadas com a física do sistema. Esse

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aspecto justificaria a nomenclatura atual, que possui a tendência de classificar a maioria dos modelos como semi-conceituais e empíricos.

Ainda sobre a classificação dos modelos, eles podem ser também concentrados ou distribuídos. São modelos distribuídos quando seus parâmetros e variáveis variam em função do tempo e do espaço, e são modelos concentrados quando seus parâmetros e variáveis variam somente em função do tempo.

Por sua vez, o elevado grau de variabilidade espacial em bacias hidrográficas de diferentes ordens de grandeza coloca sérios problemas de parametrização dos processos hidrológicos fundamentados na hidráulica e na física do solo. O excesso de parâmetros na modelagem hidrológica foi uma das preocupações expressas em BEVEN (1989). Nessa linha de discussão, surgiram reflexões por parte dos hidrólogos e estudiosos da época com relação ao procedimento de modelagem desenvolvido até então, bem como com o destino dos modelos do tipo chuva-vazão quanto à sua calibração e parametrização (JAKEMAN e HORNBERGER, 1993).

Sob uma perspectiva histórica, os modelos hidrológicos têm sido utilizados, desde o início do século XX, a partir do conceito da hidrógrafa unitária, que pressupõe um processo linear na transformação de chuva e vazão. Somente por volta de1960, os modelos passaram a ser construídos com bases conceituais abrangendo a não linearidade dos processos físicos envolvidos na transformação chuva-vazão. A representação dos processos físicos passou a ser feita através de um conjunto de reservatórios que descreviam, de maneira simplificada, os processos de escoamento superficial, evaporação, infiltração e escoamento subterrâneo. Entre os primeiros modelos baseados nesses conceitos, pode-se mencionar o modelo DAWDY e O’DONNEL (1965) e o modelo Stanford (CRAWFORD e LINSLEY, 1966).

Os avanços nos processos da modelagem foram ocorrendo, desde então, passando-se a tratar o problema sob três grandes prismas (O’DONNEL e CANEDO, 1980): (i) avaliação dos dados de entrada; (ii) representação dos processos e estruturação do modelo; (iii) procedimento de calibração e validação de modelos. Particularmente, o procedimento de calibração do modelo recebeu ênfase especial na literatura (SOROOSHIAN e DRACUP, 1980; SOROOSHIAN e ARFI, 1982; KUCZERA, 1983a,b; SOROOSHIAN et al, 1983; SOROOSHIAN e GUPTA, 1986). O conceito envolvido é encontrar o conjunto ótimo de parâmetros capaz de conduzir a uma calibração que possa levar a uma precisão aceitável. A calibração manual é realizada através do procedimento tentativa e erro dos parâmetros a serem ajustados pelo

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julgamento visual, comparando a hidrográfa simulada com a observada, o que depende muito da experiência do hidrólogo modelador e requer um tempo maior na realização da modelagem quando comparado com a calibração automática. Na calibração automática, os parâmetros são ajustados de acordo com um método de otimização e medidas numéricas da precisão do ajuste (MADSEN, 2000; ECKHARDT

e ARNOLD, 2001).

Nessa trajetória de se tentar obter o conjunto ótimo de parâmetros, foram encontradas muitas dificuldades na modelagem hidrológica. De acordo com JOHNSTON e PILGRIM (1976), uma das grandes dificuldades no procedimento de calibração automática é a existência da interação entre os parâmetros do modelo, que causam a formação de grandes regiões de indiferenças na superfície de resposta do modelo. Vários trabalhos suscitaram discussões sobre o procedimento de calibração em modelos hidrológicos (ROTUNNO FILHO, 1989; THOMAZ, 1992; MADSEN, 2000; YU e YANG, 2000; XAVIER, 2002; ECKHARDT e ARNOLD, 2001; MADSEN et al, 2002). Adicionalmente, passou-se a perceber a forte influência dos dados de entrada no efeito de calibração e das respostas hidrológicas (TROUTMAN, 1982).

XAVIER (2002) aplicou uma metodologia para análise de incerteza através do método de Monte Carlo para modelagem hidrológica baseado no método de estimação de incerteza Glue (BEVEN e BINLEY, 1992). O modelo hidrológico distribuído do tipo chuva-vazão TOPMODEL (BEVEN et al., 1995) foi empregado nessa análise e a implementação foi realizada para uma sub-bacia do rio Iguaçu, Rio de Janeiro.

No período da década de sessenta a meados da década de oitenta, o conjunto de modelos hidrológicos disponíveis, do tipo concentrado, apresentava dificuldades em responder aos impactos advindos das atividades humanas no ciclo hidrológico, tais como: os efeitos da devastação florestal sobre a erosão do solo, os regimes de cheia e

a dispersão de poluentes das atividades agrícolas e industriais. A evolução ocorreu no sentido de que os modelos pudessem avaliar e melhor explicitar os impactos decorrentes do desenvolvimento da bacia. Assim, destaca-se, na década de oitenta, o desenvolvimento de um projeto que tinha como objetivo a construção de um modelo hidrológico distribuído com base física, utilizando um conjunto de equações diferenciais que procuravam descrever os diferentes processos físicos do ciclo hidrológico. Esse projeto foi apresentado com o nome de Sistema Hidrológico Europeu

– SHE (ABBOTT et al., 1986a,b). Outros trabalhos nessa linha podem ser encontrados em MAHMOOD e YEVJEVICH (1975), KOUWEN (1986) e MIGUEZ (2001).

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