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RELATÓRIO

REUNIÃO REALIZADA NO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

PALMAS (TO) 24.04.2012

No dia 24 de abril de 2012, a Associação Brasileira de Antropologia, através de Telma Camargo da Silva, sócia efetiva, participou de reunião no Ministério Público Federal, em Palmas (TO). A reunião foi realizada para buscar soluções para o problema do alcoolismo entre as comunidades indígenas do Tocantins e aconteceu em decorrência das providências solicitadas pela Presidência da ABA junto à Procuradoria Geral da República a partir de nota encaminhada pela equipe de pesquisa do “Projeto Bonecas:

Arte, Memória e Identidade Indígena no Araguaia” – Museu Antropológico Universidade Federal de Goiás, em fevereiro de 2012. Esta nota foi proposta porque os integrantes da equipe se sentiram mobilizados pelos relatos referentes aos recentes casos de suicídio na Aldeia Santa Isabel do Morro e ao alto índice de alcoolismo o que demandavam a procura de soluções junto aos órgãos competentes. A reunião, então, atende ao encaminhamento feito pela MPF - 6ª Câmara de Coordenação e Revisão (Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais), conforme ofício nº 37/2012/PRES- Fênix-6CCR 685/2012, de 26 de março de 2012. A ABA foi convidada para participar da reunião (Cf. Of. PR/TO nº 952/2012 ALM, de 03 de abril de 2012) com a finalidade de contribuir para a instrução dos autos relativos ao Inquérito Civil Público em tramitação na Procuradoria da República no Estado do Tocantins Defesa do Meio Ambiente, Patrimônio Cultural, Índios e Minorias. Os objetivos da reunião, conforme oficio, eram o de “avaliar os desdobramentos do seminário realizado em outubro de 2010” e “verificar a possibilidade da realização de novo evento”. Com a presença do Procurador Álvaro Lotufo Manzano, participaram desta reunião: 1) representantes de instituições convidadas: ABA; Fundação Nacional do Índio (FUNAI TO); Distrito Sanitário Especial Indígena do Tocantins e do Araguaia (DSEI-TO; DSEI-Araguaia); Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do TO (SEJUDH-TO); Secretaria de Cultura do TO (SECULT-TO); Secretaria de Educação do TO (SEDUC-TO); Universidade Federal do Tocantins (UFT); Polícia Militar Tocantins; 2) lideranças indígenas integrantes de:

Associação de Mulheres Iny da Aldeia JK - AHIMA (Karajá- Ilha do Bananal TO); da União dos Estudantes Indígenas do Tocantins (UNEIT); do Conselho das Organizações e indígenas do Povo Javaé da Ilha do Bananal (CONJABA); 3) e lideranças indígenas ocupantes de cargos em organizações governamentais: Samuel Yriwana Karajá (Assessor do DSEI-Araguaia); Waxiy Maluá Karajá (SEDUC-TO); Narubia S. Werreria (SECULT-TO); João Werreria (Coordenação Técnica Local (CTL) FUNAI, São Felix do Araguaia-MT). Após dar inicio à reunião, o procurador Álvaro Lotufo Manzano solicitou que os presentes fizessem uma rápida apresentação e em seguida expôs os objetivos dessa reunião e relembrou o seminário ocorrido em São Felix do Araguaia-

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MT nos dias 26 e 27 de outubro de 2010. Foi rememorado que as lideranças indígenas participantes dos grupos de trabalho organizados durante este seminário apresentaram diagnóstico detalhado, retomado em relatório, onde indicaram os contextos e as razões que levam a ingestão abusiva de álcool pela população Karajá; disseram dos comportamentos violentos advindos da ingestão de bebida alcoólica e discorreram sobre as consequências desse hábito para as famílias envolvidas e para a comunidade como um todo; propuseram também ações interligadas envolvendo aspectos de saúde, educação, esporte e fiscalização para a solução do problema. Foi avaliado pelos presentes de que não houve implementação das soluções indicadas nesse seminário e que a situação permanece a mesma desde 2010, quando da realização do seminário. As lideranças indígenas foram enfáticas em dizer que a realidade sobre a ingestão de álcool na área Karajá é por demais conhecida, e que inúmeros outros diagnósticos foram realizados após o Seminário de 2010: “estamos cansados de diagnóstico” (Lenimar - AHIMA). Houve um consenso de que a medida necessária no momento é a implementação de ações concretas de encaminhamento para solução do problema já detectado. Outras lideranças indígenas presentes foram enfáticas em dizer que o alcoolismo em área Karajá está presente em outras aldeias além de Santa Isabel do Morro e Fontoura, como em Itxalá e Macaúba e também junto à população das etnias Krahó e Apinajé. O DSEI-TO relatou também casos de suicídio relacionados ao alcoolismo na área Krahô. Entre os pontos mais importantes levantados durante esta reunião, destacam-se: 1) Uma crítica generalizada à atuação da FUNAI; 2) A reivindicação, por parte das lideranças indígenas, do retorno da “guarda indígena” com a argumentação de que quando o “controle social tradicional falha” há necessidade de outras formas de controle e que as “coisas horríveis” que estão acontecendo nas aldeias, reportando a casos de violência ocorridos em 2011, o que causa insegurança e exige controle; 3) Relato de casos de ingestão de bebida alcóolica por parte de crianças; 4) A concordância entre os presentes de que as causas para o comportamento alcoólico são multifatorias e exigem ações interligadas nas áreas de saúde, educação, cultura e esporte; 5) O relato de medidas e projetos em andamento segmentados em diversas secretarias do estado do Tocantins e a avaliação sobre a demora para implantação decorrente de tramites burocráticos e a falta de recursos financeiros para a implementação dos mesmos; 6) O relato de Leila Maria Silva Rosa Fonseca (responsável pelo DSEI-Araguaia) de que existem recursos para tratamento individualizado da pessoa com uso abusivo de álcool mas não para ações que abordem este problema em sua totalidade, para o atendimento à família e para as visitas domiciliares; 7) O DSEI-Araguaia apresentou cópia do Projeto “Plano de Urgência/Emergência”, desenvolvido no período de fevereiro a 04 de abril de 2012; 8) Houve relato de liderança indígena sobre a existência de casos de suicídio não vinculados à ingestão de bebida alcoólica ou consumo de drogas; 9) Samuel Karajá reforçou a necessidade da instauração da “guarda indígena”, dizendo que “as mulheres e as crianças vão agradecer” e que “sociedade sem lei é sociedade em

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desordem”. Para ele, os casos de suicídio ocorridos em Santa Isabel do Morro, no início de 2012, são decorrentes de feitiço e não ocasionados pelo alcoolismo. Segundo ele, a situação nessa aldeia acalmou com a vinda de quatro pajés do Xingu. Nesse sentido, ele está organizando uma reunião de pajés para o dia 20 de maio e que em sua aldeia, Teribré, ele não vai receber “pessoal de GT”. Para ele, o povo Karajá está triste. É através da alegria que pode voltar a ser como era no passado. Quando o povo está dançando e comendo, o povo está bem. Ele considera que a volta do Hetohoky e, de outras festas, são importantes para assegurar a alegria do povo Karajá; 10) Dois representantes da FUNAI retomaram o item GTs e acrescentaram algumas propostas:

João Mitia, do Serviço de Gestão Ambiental e Territorial (SEGATE) da Coordenação Regional FUNAI - Palmas, destacou a importância da realização de um seminário para apresentar os resultados do GT Ilha do Bananal (FUNAI) que avalia alternativas de sustentabilidade para os Javaé e Karajá; Maria das Graças Medici da Costa (FUNAI - Palmas) relatou a existência de um GT Interministerial (composto pelos ministérios da Educação, Saúde, Casa Civil, Agricultura, Pesca e Turismo) dedicado à questão do alcoolismo entre os Karajá, informando que a coordenadora desse GT, que trabalha na Presidência da República, se dispõe a participar de futuros encontros como este e encontrar uma proposta de ação conjunta com órgãos locais. As intervenções da representante da ABA se resumem em: 1) ênfase na necessidade de que todos os projetos voltados aos Karajá sejam interligados, para que tenham alguma possibilidade de obter resultados efetivos; 2) que sejam elaboradas propostas de alcance a médio e longo prazo e não somente ações emergenciais; 3) problematizou a proposta de criação da “guarda indígena” para solucionar um problema que demanda ações interligadas decorrentes do entendimento da noção de saúde/doença como relacionada ao bem-estar total do individuo e da comunidade onde ele está inserido. Acrescentou que as medidas policialescas, centradas na punição do individuo, não mudam, por si só, o comportamento e o contexto em que se dá a alcoolização; 3) A partir das inúmeras colocações sobre a necessidade de projetos focalizados na valorização cultural Karajá e no incentivo à produção artística, observou que este é um momento privilegiado neste sentido em decorrência do registro das Bonecas Karajá como Patrimônio Cultural do Brasil, pelo Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 25 de janeiro de 2012. Considerando que está em discussão, com a comunidade Karajá, o Plano de Salvaguarda e que uma das interlocutoras na discussão sobre a implementação das políticas públicas decorrentes do registro das Bonecas Karajá é Narubia S. Werreria, responsável pela Coordenadoria Indígena, da Superintendência de Patrimônio Material e Imaterial da SECULT-TO, presente nesta reunião, sugeriu que representantes do IPHAN integrem as próximas reuniões que abordem as questões levantadas na presente reunião. Após as discussões, relatos e ponderações houve consenso em relação a alguns pontos: 1) Não realização de um novo seminário nos moldes daquele realizado em outubro de 2010; 2) Ir além dos diagnósticos e implementar ações

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efetivas. Ou seja, necessidade de políticas públicas constantes e efetivas com alocação de recursos que garantam a execução dos projetos e das propostas formuladas pelas lideranças indígenas e pelos órgãos governamentais envolvidos no enfrentamento da questão da alcoolização na área Karajá; 3) necessidade de articulação entre os diferentes órgãos e instituições dedicados à abordagem desta questão; 4) planejamento e realização nas aldeias de cursos técnicos voltados para a capacitação em áreas como cooperativismo; 5) Encontrar estratégias que garantam geração de renda. Encaminhamentos (Cf. MPF- Procuradoria da República no Estado do Tocantins Memória de reunião no MPF 24.04.2012): “Foi decidido por todos que deve haver uma aglutinação dos órgãos envovlidos com o tema em torno de um só fórum, que vem se articulando na Secretaria de Justiça e Direitos Humanos (TO) com a denominação “GT Interinstitucional – Povo Karajá”, evitando-se iniciativas paralelas em torno do tema”; 2) “Será realizada no próximo dia 22 de maio, na SEJUDH, às 14:30, a próxima reunião desse fórum, quando será elaborado um termo de compromisso envolvendo os órgãos e instituições dedicados ao enfrentamento desta questão, definindo suas atribuições e responsabilidades. Cada órgão levará nesta reunião o nome e os dados do representante que assinará o termo, inclusive com qualificação pessoal, bem como listando quais serão suas atribuições e responsabilidades”.

Goiânia, Abril de 2012.

Dra. Telma Camargo da Silva

- Professora do PPGAS-UFG

- Integrante da Equipe de Pesquisa “Projeto Bonecas Karajá: Arte, Memória e Identidade Indígena no Araguaia” (Coordenação -2010-2011)

- Representante de ABA na reunião MPF Palmas -24-04-12