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Cooperativismo e Responsabilidade Social

Mateus de C. Reis Neves¹

Parece quase redundante ter que tratar particularmente dos assuntos


Responsabilidade Social, Ambiental e Sustentabilidade no movimento cooperativista,
principalmente quando sabemos que o 7º Princípio Cooperativista trata justamente do
Interesse pela Comunidade - visando o desenvolvimento sustentado da comunidade onde
a cooperativa está inserida, através de políticas aprovadas pelos seus membros - ou seja,
nada mais do que as já citadas Responsabilidade Social, Ambiental e Sustentabilidade,
mesmo que restritas ao âmbito local.
É sabido que o ambiente no qual se encontra uma organização interfere no
desempenho da mesma, e que o inverso também é verdade. Ao se inserir em uma
comunidade, a organização visa resultados e passa a influenciar e a ser influenciada pelo
meio através de processos de troca. Também usa recursos para atingir seus objetivos,
recursos esses que, muitas vezes, tratam-se de bens públicos, inerentes à toda a
sociedade.
E, enquanto muitas empresas estudam formas de ‘devolver’ esses recursos
públicos extraídos de volta à sociedade, a cooperativa tem como grande vantagem os
próprios princípios cooperativistas, que por si só, já ajudam a delinear a sua atuação na
sociedade. Pelo menos a princípio.
O objetivo desse artigo é, portanto, demonstrar com números e exemplos, de
cooperativas ou não, que se perde, ou se deixa de ganhar, quando não se tem na
sociedade um foco consciente e responsável.
O Sistema OCEMG/SESCOOP-MG já divulgou esse ano os números do Balanço
Social das Cooperativas Mineiras de 2006, somando R$ 682,93 milhões em investimentos
sociais, dentre os quais, investimentos com empregados (47,57%), com associados
(7,54%), com meio-ambiente (0,26%), recolhimento de impostos (42,7%) e investimentos
na comunidade (1,93%). Vale esclarecer que balanço social é o conjunto de despesas
feitas pela empresa, exigidas ou não por lei, que afetam positivamente a qualidade de vida
de pessoas ligadas à empresa e à sociedade em geral.
Esse ano, o levantamento contou com a participação de 126 das 830 cooperativas
filiadas ao sistema e das próprias OCEMG e SESCOOP-MG, que já vêm fazendo um
trabalho expressivo com relação à Responsabilidade Social e Sustentabilidade, colocando
esse assunto como pauta principal de discussões e ações, trabalhando a questão de
gênero no cooperativismo, como se viu no último Encontro de Mulheres Cooperativistas,
realizado no mês de setembro em Caeté-MG, e estimulando a participação crescente no
próprio Balanço Social das Cooperativas Mineiras.
Apesar de números expressivos, ainda há muitas cooperativas que não se
engajaram na participação do Balanço Social Mineiro, o que não significa,
necessariamente, que estas cooperativas ausentes não estejam fazendo a parte delas,
mas demonstram certa dose de desinteresse.
É esse desinteresse por um assunto tão atual e discutido na sociedade que pode
fazer com que pensemos que as cooperativas nada fazem, ou fazem pouco com relação à
sua comunidade e, conseqüentemente, ao país.
E mais, a questão ambiental está se tornando inerente ao negócio de muitas
cooperativas agrícolas, afinal, a exportação para a Europa, por exemplo, tem esbarrado
muitas vezes na falta de certificação e normatização dos produtos, como destaca a
Organização das Cooperativas Brasileiras. A OCB realiza em novembro uma reunião com
a Associação Espanhola de Normatização e Certificação (Aenor), para tentar esclarecer as
cooperativas sobre a situação.
No seminário Responsabilidade Social na Propaganda, realizado em 2003 pelo
Instituto Ethos e pela Associação Brasileira das Agências de Publicidade, uma das
questões colocadas foi se as empresas já viam a responsabilidade social como um
diferencial competitivo. Lançando mão aqui de discussões óbvias sobre a natureza
competitiva do mercado no qual as cooperativas também se inserem, a divulgação de
ações sociais responsáveis tem papel relevante no marketing positivo das organizações.
Mas é claro, como discutido no seminário, deve ser uma divulgação ética, traduzindo em
propaganda a consciência real das organizações, divulgando o que realmente é feito e

¹ Bacharelando em Gestão de Cooperativas pela Universidade Federal de Viçosa – Minas Gerais – Brasil.
gerando um efeito multiplicador nas outras empresas: ‘se ele faz, porque eu também não
faço?’.
E para quem ainda crê que o consumidor acha assuntos como Responsabilidade
Social, Ética, Meio-Ambiente e Sustentabilidade apenas detalhes na hora de comprar ou
escolher uma marca, se engana.
No Brasil, onde 51% da população, segundo pesquisa do Instituto Ethos em
parceria com a Indicator Pesquisa de Mercado, acha que a globalização vai melhorar a
economia, as pessoas não vêem as empresas mais como simples geradoras de divisas,
empregadoras e pagadoras de impostos. As organizações devem sim fazer isso, mas de
forma a estabelecer padrões éticos mais elevados, indo além do que é determinado pela
lei, ajudando a construir uma sociedade melhor para todos.
Quando perguntados se as empresas deveriam ter a responsabilidade de diminuir
a distância entre pobres e ricos, 83% das pessoas acham isso uma verdade. E o próprio
empreendimento cooperativo tem isso como um de seus fundamentos, então porque não
divulgar essas idéias e ações?
Afinal, algo em torno de 40% dos consumidores são propensos a falar bem e a
prestigiar organizações que consideram como sendo socialmente responsáveis. Os
entrevistados privilegiaram a redução da pobreza e da indigência (24%), a atuação para
melhoria da educação (20%), a área da saúde (16%), diminuição da criminalidade (16%) e,
por fim, o meio ambiente (6%).
E como o consumidor percebe isso? O fato de trabalhar junto a ONG’s é fator
relevante para 13%. E, entre as classes AB, 23% dos consumidores consideram relatórios
sobre o desempenho social das organizações, como os balanços sociais, bons indicadores
de responsabilidade das empresas no âmbito social.
Existem empresas que, já há algum tempo, se estabeleceram como estandartes da
Responsabilidade Social Empresarial. É o caso do Banco Real, ganhador de diversos
prêmios nacionais e internacionais devido a seu engajamento em causas sociais, como
financiamento de ONG’s, melhoria da qualidade de vida de seus funcionários e ações
ambientalmente corretas. E isso, segundo a empresa, se reflete em números: em 2006, os
ativos totais do ABN AMRO REAL cresceram 60% e somaram R$ 120,8 bilhões.
As receitas aumentaram em 22% e a captação de depósitos em 21%. Obteve-se
um expressivo crescimento (26%) na área de crédito. A carteira de clientes saltou de 12,1
milhões para 13 milhões de clientes. O lucro líquido do Banco foi de R$ 2.048 bilhões –
43% superior ao registrado no ano anterior.
A disseminação da sustentabilidade também tem repercutido na melhoria da
percepção dos atributos e da atratividade da marca. Na Pesquisa Imagem de Marca e
Comunicação do quarto trimestre de 2006, o ABN AMRO REAL é o segundo banco mais
atraente do mercado brasileiro, atrás apenas do Itaú.
Entre as cooperativas, uma gigante do setor nacional de saúde acordou para essa
nova realidade. A UNIMED, através de sua central, suas federações e singulares
movimentou em 2006 R$6,7 bilhões através das 187 cooperativas participantes do
Balanço Social. Foram investidos R$422.399 em ações que beneficiaram cooperados e
funcionários, como saúde, alimentação e capacitação. Externamente, algo em torno de R$
180 mil foram investidos, principalmente em saúde da comunidade, e também em cultura,
esporte e lazer.
Além disso, a UNIMED é associada do Instituto Akatu, ajudando não só na
disseminação do consumo consciente, mas também na consolidação da própria imagem
da cooperativa como socialmente responsável e preocupada com a sustentabilidade.
Observando os exemplos das duas organizações acima, cai-se na antiga
ambigüidade do tipo “quem veio primeiro: o ovo ou a galinha?”. Ou seja, o sucesso
financeiro vem como conseqüência da responsabilidade social, ou a consciência
responsável surge apenas em organizações já fortes economicamente?
Para as cooperativas isso pouco importa, pois, voltando ao que foi dito no início,
por menor que seja a cooperativa, ela já cumpre com um papel social diferenciado. E,
divulgar esse papel nas próprias assembléias, para os cooperados e a sociedade,
destacar essa função característica do sistema cooperativo por meio de campanhas
publicitárias, se interessarem pela comunidade, como determina o 7º Princípio, são passos
importantes para que a tal vantagem competitiva realmente penda para o lado do
cooperativismo, atraindo também os consumidores conscientes e fortalecendo o
movimento em todos os setores.