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1 A ESTRUTURA JURÍDICA NOS CLUBES DE FUTEBOL NILSON RIBEIRO Consultor Jurídico, contábil e Administrativo

A ESTRUTURA JURÍDICA NOS CLUBES DE FUTEBOL

NILSON RIBEIRO

Consultor Jurídico, contábil e Administrativo consultor@unimasterfutebol.com.br

Estamos a poucos anos da Copa do mundo da FIFA de 2014, evento que proporcionará

o afluxo de grandes divisas ao país e englobará os mais diversos setores de nossa economia.

O direito como elemento regulador do convívio pacífico entre os homens, tem papel

decisivo na garantia da segurança no cumprimento de contratos e no respeito as garantias universais , como liberdade de expressão, de locomoção , de comunicação, de livre associação e de pleno acesso ao judiciário, para termos protegidas as normas dispostas em nossa constituição.

O Brasil é uma das maiores potências econômicas mundiais e será sempre reconhecido

como o país do futebol, celeiro dos maiores craques, exportador de talento aos mais diversos centros desportivos do planeta. É justo que nossos clubes e atletas, tenham pleno conhecimento das garantias e obrigações oferecidas pela nossa legislação.

São crescentes as exigências do mercado de trabalho, o que requer cada vez mais esforços dos profissionais na incessante busca por aprimoramento e, conseqüentemente, por melhores oportunidades.

Imperioso considerar que investimentos e negócios relacionados ao esporte estão em franco desenvolvimento, aumentando, assim, a necessidade de preparação de profissionais para prestar consultoria e assessoria aos investidores, clubes, aos entes públicos e demais interessados.

A cada dia torna-se mais evidente a importância que a atividade profissional voltada ao

esporte tem adquirido, com a circulação de cifras estratosféricas e a criação de legislações regulamentando as relações jurídicas originárias do profissionalismo do

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esporte, notadamente no futebol. Essa realidade acabou por criar um vasto campo de atuação para os profissionais do direito.

Direito aplicado á Área Esportiva Antes de tudo vamos acabar com o mito chamado Direito Desportivo,

O termo não foi utilizado porque a expressão Direito Desportivo diz respeito a matéria

completamente diferente daquela em questão e daquela usualmente tratada como tal.

O Direito Desportivo é aquele previsto no Código de Justiça Desportiva ou no Código

Brasileiro de Futebol, que regulam os acontecimentos exclusivamente no âmbito desportivo, tais como a suspensão automática de jogador de futebol expulso em determinada partida; a perda do mando de campo do clube que na observar a segurança da torcida, jogadores, árbitros e demais envolvidos no espetáculo; a punição

a atleta que compete sob efeito de substâncias estimulantes, etc. As demais questões

dizem respeito a cada uma das áreas do Direito (se é que se pode falar assim, pois não sendo uma ciência estanque, as diversas áreas se interligam) aplicada ao âmbito desportivo.

Tanto é verdade que o Direito Desportivo diz respeito “às regras do jogo” que o artigo 50 da Lei 9.615/98 limitou a competência da Justiça Desportiva ao processo e julgamento das infrações disciplinares e às competições desportivas.

Nessa linha, temos o Direito do Trabalho aplicado ao Âmbito Desportivo, quando serão analisadas, por exemplo, as relações dos atletas profissionais de futebol com os clubes aos quais prestam serviços; o Direito Tributário aplicado ao Âmbito Desportivo, no qual, por exemplo, se discutem as questões tributárias incidentes sobre os pagamentos feitos a atletas de futebol e às empresas por eles criadas para gerenciar suas imagens; Direito Penal aplicado ao Âmbito Desportivo, quando, por exemplo, se apreciará questões ligadas a lesões corporais praticadas durante disputas esportivas não decorrentes do jogo propriamente dito (lembremos o caso do jogador argentino, Desabato, que foi parar na delegacia por, supostamente, ter ofendido o jogador Grafite, com palavras racistas, somente não vindo a ser processado criminalmente porque o brasileiro optou por não dar continuidade ao caso), Direito Civil aplicado ao Âmbito Desportivo, em situações em que, por exemplo, um torcedor se sente prejudicado porque comprou o ingresso para um determinado jogo e não pode entrar no estádio, por falta de organização do clube e busca indenização por danos morais e materiais, e assim sucessivamente.

Portanto, o primeiro mito a ser desfeito no caso é a denominação de Especialistas em Direito Desportivo àqueles profissionais o Direito que atuam em nome de atletas e/ou entidades de prática desportiva.

Esses profissionais são advogados especialistas em Direito Penal, do Trabalho, Tributário, Civil, etc., podendo apenas ser chamados de Especialistas em Direito Desportivo aqueles que cuidam dos interesses dessas mesmas partes (atletas e/ou entidades de prática desportiva) exclusivamente no âmbito desportivo, junto aos Tribunais mantidos pelas Confederações de prática desportiva, tais como os Tribunais

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de

Justiça Desportiva (TJD) das Federações Estaduais de Futebol, o Superior Tribunal

de

Justiça Desportiva (STJD) da Confederação Brasileira de Futebol.

Com a evolução do futebol ao longo das últimas décadas, em que deixou de ser mero lazer e se transformou em um “negócio” fenomenal, com índices físicos e técnicos

cada vez melhores dentro de campo e igualmente os expressivos números que os norteiam fora de campo, impreterível a aplicação de gestão profissional em cada setor

da administração dos clubes, a fim de melhorar a administração geral e produzir o

máximo que a atividade pode proporcionar, de modo que a gestão positiva venha

gerar decisiva influência no desempenho dos gramados.

No departamento jurídico não é diferente, a contratação de profissional conhecedor do Direito Desportivo para comandar o departamento ou executar os trabalhos é a medida necessária para o sucesso do departamento e dos clubes.

GESTÃO JURÍDICA NOS CLUBES DE FUTEBOL

A tão procurada e necessária gestão profissional dos clubes de futebol do país exige mudanças administrativas profundas em seus departamentos. Nos dias de hoje, é inaceitável que se admire o antigo trabalho “por amor a camisa” que orgulhava a

todos que dedicavam o tempo que tinham, gratuitamente, a fim atender as necessidades dos clubes de futebol.

Já não é de hoje que o esporte vem deixando vagarosamente de ser administrado por amadores, pessoas que alteram suas vidas profissionais entre a fonte de renda oficial e

a gestão da entidade esportiva, atuando na área esportiva sem qualquer

conhecimento profissional próprio, dirigindo, gerenciando, executando ou até mesmo presidindo, movidos tão somente pela paixão, pelo desejo de participar da administração de seu clube do coração.

A profissionalização que será tão abordada neste trabalho se tornou impreterível a

partir do boom que o mercado esportivo mundial enfrentou nas últimas décadas, em que o esporte praticado como lazer, se transformou em esporte como um lucrativo negócio. Hoje, boa parte dos próprios dirigentes são capazes de perceber que a profissionalização, como forma de especializar os departamentos do clube, é a única forma de viabilizar a subsistência destas entidades, com produtividade e resultados positivos, a fim de gerar e manter o mínimo de saúde financeira suficiente para

produzir resultados satisfatórios fora e dentro de campo.

A exigência natural de profissionalizar toda a estrutura dos clubes de futebol é tema

das mais diversas discussões e comentários, tanto pelos próprios dirigentes, como jornalistas e até torcedores. Neste sentido, passou a ser relevante que os clubes busquem a contratação de profissionais especialistas para cada área de atuação, com

competência para gerir o respectivo departamento ou executar com eficiência os encargos que lhe são atribuídos, de modo que cada setor da entidade possa trazer resultados positivos no que se propõe à administração geral do mesmo, tornando eficaz a sua a gestão e conseqüentemente justificando a sua existência.

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Conforme Carravetta (2006, p. 46):

A transição política que começa a ser vivida pelos clubes brasileiros passa a exigir a

implantação de procedimentos de modernização administrativa, assim como a profissionalização das gestões em diferentes departamentos, para que assim os clubes

possam adaptar-se à legislação e às novas exigências do mercado.

Especificamente quanto ao departamento jurídico, muitas vezes esquecido pela mídia em geral, neste departamento é possível observar o melhor exemplo da profissionalização eficaz dos clubes de futebol. O departamento jurídico é uma das mais importantes áreas de qualquer entidade desportiva, capaz de definir os procedimentos internos, aprovar ou reprovar contratações de atletas, interpretarem as mais diversas legislações para orientação dos demais departamentos, apresentar pareceres e sugestões sobre regulamentos, normas e outros atos promovidos por entidades de administração, além de promover as defesas judiciais e administrativas de interesse do clube.

GESTÃO PROFISSIONAL DOS CLUBES

Antes de adentrar ao mérito do trabalho, importante fazer algumas considerações sobre gestão profissional.

A palavra “gestão” vem do latim, gestione, e diz respeito ao ato de gerir, sinônimo de administração, direção, de onde deriva gerência. Portanto, o presente trabalho trata da direção ou administração de um dos principais setores de um clube de futebol: o departamento jurídico.

Importante lembrar que é do verbete direção que surge a palavra dirigente. Os

dirigentes esportivos eram antiga e popularmente conhecidos por “cartolas”, por

e

detinham o comando econômico e administrativo do esporte mais popular do mundo, o futebol. Era um contraste ter “cartolas” que não pertenciam àquele universo,

costumeiramente serem homens ricos e poderosos que usavam cartolas (à época

)

definindo seus rumos como melhor lhes conviesse. Da palavra direção também se encontra o verbete diretor ou gestor, administrador.

O adjetivo profissional é relativo ou pertencente a certa profissão, é a pessoa que faz uma coisa por ofício. A palavra profissional é derivada do verbete profissão, que significa qualquer das atividades especializadas, de caráter permanente, em que se desdobra o trabalho total realizado em uma sociedade.

A administração mais produtiva do departamento jurídico dos clubes de futebol ou de

seus serviços, exercida por pessoas que a façam de forma especializada, permanentemente e por ofício, é o tema central do presente trabalho. Profissionalizar

uma atividade que envolva gestão de conhecimento e recursos exige necessariamente a gestão eficaz destes mesmos conhecimentos e recursos.

Aidar, Leoncini e de Oliveira (2000, p. 102) comentam com conhecimento:

Gestão eficaz de recursos no negócio futebol só acontece se, no fim da temporada, o

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resultado final for boa performance técnica e caixa equilibrado. Mas para que se alcance esse tão desejado resultado final, cada departamento do clube deve executar com o máximo de produtividade o fim a que se destina, comandados por uma presidência eficiente, que seja capaz de delegar a demanda a seus executores especialistas, explorando ao máximo o que cada departamento pode produzir em prol de sua administração.

Esta execução profissional produtiva é que deve ser objetivada pela administração geral, também em cada departamento, na busca contínua por melhores resultados.

MODELO ORGANIZACIONAL DOS CLUBES DE FUTEBOL

No Brasil, os clubes de futebol, em sua grande maioria, mantêm suas estruturas jurídicas na forma de associação, pessoa jurídica prevista no capítulo II do Código Civil (Lei Federal n. 10.406/02), definida em seu art. 53, em que qualquer pessoa pode, em regra, se associar e integrar os quadros do clube: “Art. 53. Constituem-se as associações pela união de pessoas que se organizam para fins não econômicos. Parágrafo único. Não há, entre os associados, direitos e obrigações recíprocos”.

Para a legislação desportiva Lei Federal n. 9.615/98, Lei Geral Sobre Desportos, popularmente conhecida por “Lei Pelé”, os clubes de futebol são entidades de prática desportiva. As entidades desportivas profissionais são aquelas envolvidas em competições de atletas profissionais (Art. 27, § 10o, Lei Federal n. 9.615/98, acrescido pela Lei Federal n. 10.672/03) e integram o Sistema Nacional do Desporto (Art. 13, parágrafo único, VI, Lei Federal n. 9.615/98).

Sem pretender se alongar nesta explanação vale ressaltar que o artigo 27 e parágrafos da Lei Geral Sobre Desportos, após a alteração introduzida pela Lei Federal n. 10.672/03, facultou de forma induzida que os clubes de futebol transformassem sua estrutura associativa em sociedades empresárias, pessoa jurídica com fins econômicos, sob pena de serem consideradas sociedades em comum, empresa em que todos os sócios respondem solidária e ilimitadamente pelas obrigações sociais. Mas, diante das inúmeras impossibilidades, inviabilidades e dificuldades de tal transformação, prevalecem até hoje as originárias estruturas clubisticas, que os mantém constituídos na forma de associação.

Portanto, errônea é a denominação “sócio”, para aqueles filiados que integram voluntariamente tais entidades, sem desenvolvimento de atividade econômica. Ezabella (2003, p. 158) ensina: “Sócios, então, são aquelas pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício de uma atividade econômica e a partilha, entre si, dos resultados (art. 981)”.

Para gerir tais associações, seus dirigentes devem ser impreterivelmente, associados à mesma. Normalmente os cargos de direção dos clubes são: a presidência, vice- presidência(s) e diretorias de cada departamento.

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Como regra geral, são poderes dos clubes de futebol:

Assembléia Geral, composta por todos os associados, competente para eleger os conselheiros;

Conselho Deliberativo, espécie de “poder legislativo” próprio, órgão máximo da hierarquia dos clubes, composto por associados eleitos para exercício do cargo de conselheiro;

Conselho Fiscal, espécie de “tribunal de contas” próprio, composto por associados eleitos para o exercício do cargo de conselheiros fiscais;

Conselho Diretor ou Diretoria, espécie de “poder executivo” próprio, composto por associados eleitos ou nomeados pela Assembléia Geral ou Conselho Deliberativo para a administração do clube.

Todos os associados eleitos ou nomeados para ocupar funções nos conselhos ou diretoria exercem mandato por prazo determinado, na forma do que dispuser o respectivo estatuto, lei maior da associação, elaborado de acordo com os interesses dos associados, respeitando os ditames da Constituição Federal e do Código Civil.

É possível também a existência de outros poderes, como Conselho Consultivo, de

Orientação ou Fiscalização, poderes de cunho político, representado costumeiramente por ex-presidentes, políticos e outros associados ilustres, com mandato muitas vezes vitalício. No São Paulo Futebol Clube, entidade que detêm grande patrimônio, tricampeã mundial interclubes de futebol, o Conselho Consultivo, composto por ex- presidentes do Clube, de seu Conselho Deliberativo e do próprio Conselho Consultivo, “é o órgão responsável pela manutenção das tradições éticas, filosóficas e históricas do Clube”.

No tradicional e popular Sport Club Corinthians Paulista, o CORI Conselho de Orientação, têm, dentre outras competências, orientar o Presidente da Diretoria, fiscalizar a administração, aprovar regimentos internos, autorizar contratos e parcerias, verificar as contas, e apurar responsabilidades dos diretores. Agora, com a recente aprovação do novo Estatuto do Clube, o CORI passou a ser composto por 10 membros titulares, 10 suplentes, eleitos pelo Conselho Deliberativo dentre seus próprios integrantes, dos dois últimos presidentes da diretoria e daqueles que hoje ostentam a condição de membros natos, para exercício de mandato de três anos, vedada a reeleição consecutiva. Os membros do CORI não podem integrar a diretoria.

O Conselho de Orientação e Fiscalização COFI integra os poderes de outra grande e

tradicional agremiação brasileira, o Santos Futebol Clube. Este órgão responsável pela orientação e Fiscalização da Presidência, é composto por ex-presidentes do Clube e ex- presidentes do Conselho Deliberativo que cumpriram integralmente pelo menos um mandato em seus cargos, além de igual número de conselheiros indicados pelo presidente do Conselho Deliberativo, desde que já tenham cumprido ao menos um mandato completo como membro do CD.

Há também nas entidades, os poderes e cargos com diversas denominações ocupados por profissionais contratados, tais como “conselho gestor” ou “de administração”, “presidência executiva”, “superintendência” etc, mas a criação destes ainda é tímida na estrutura associativa da maioria dos clubes no Brasil.

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A primeira linha do poder hierárquico dos clubes de futebol é, portanto,

costumeiramente exercida por associados não remunerados, detentores do poder político da associação. Mesmo que a presidência não seja exercida conjunta ou subsidiariamente por um executivo profissional contratado para tal, mas tão somente

pelo presidente eleito pelos associados, logo abaixo, em linha hierárquica subseqüente, junto a cada departamento há necessidade da implantação da “famosa” gestão profissional.

Dentro do organograma funcional ideal de um clube de futebol, a presidência, vice- presidência(s) ou diretorias não preterem de ser profissionais. A preservação da Diretoria fora da estrutura profissional do clube, apesar de ser alvo de críticas das mais diversas por contrariar a lógica da profissionalização, traz como fundamento a preservação da essência da própria associação, cuja finalidade é não econômica. Nesta hipótese, presidente e diretoria são mantidos tão somente nestes cargos de caráter políticos da associação, como representantes escolhidos pelos associados para a gestão do respectivo clube.

Em regra geral os departamentos mais comuns que compõe a diretoria nos clubes de futebol são o administrativo, financeiro, de patrimônio, de futebol profissional, de futebol não-profissional (ou amador), social, jurídico, de marketing, de comunicações, dentre outros já não tão comuns. Cada um destes setores dos clubes devem ser comandados por um diretor ou vice-presidente específico.

No São Paulo F. C., por exemplo, cinco são as vice-presidências, responsáveis pelos

departamentos Administrativo; Social e de Esportes Amadores; de Futebol; de Patrimônio e de Comunicações e Marketing. Outras dezoito áreas são comandadas por diretores. Há vedação expressa a funções remuneradas pertinentes aos poderes do

Clube, só os profissionais contratados podem ser remunerados por suas funções.

O Estatuto do Santos F. C. permite expressamente que seu presidente venha nomear

até

cinco assessores não remunerados.

De

outra parte, o Clube Atlético Paranaense, outro exemplo de sucesso no futebol

brasileiro, a gestão profissional implantada foi responsável direta pelo crescimento do clube na última década. A Diretoria é composta por cinco associados, que exercem funções remuneradas, como Diretor Superintendente, Financeiro, de Patrimônio, Esportivo e Jurídico, todos eleitos pelo Conselho Administrativo (não-remunerado) para mandatos de dois anos. Compete ao Conselho Administrativo do Clube a fixação da remuneração da Diretoria e a forma de distribuição entre os diretores.

A estrutura ideal é, na realidade, o modelo defendido por Mintzberg (1992) citado por Pires que constitui uma organização em 5 partes:

(1) Vértice Estratégico, no topo da pirâmide, é responsável por coordenar a organização para que ela cumpra a sua vocação e missão e atinja seus objetivos estratégicos. Em um clube estaria a Diretoria, o Conselho Administrativo e Fiscal e demais áreas dispostas em estatuto exclusiva para os membros não-profissonais (associados);

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(2) Tecnoestrutura, que dá suporte a estrutura de produção da organização. Seriam as áreas de apoio, tais como os consultórios médicos, odontológicos, fisiologia ou mesmo a assessoria jurídica;

(3) Logística, são os serviços de suporte que não intervêm na produção da organização. Em um clube poderíamos enquadrar o estádio, a lavanderia, o refeitório entre outros;

(4) Linha Hierárquica, situado no centro da pirâmide, são as estruturas que estabelecem a ligação entre o vértice estratégico e o centro operacional. Setor onde estaria presente a área administrativa profissional, com gestores profissionais a executarem aquilo que o vértice estratégico determinou como metas e objetivos da organização.

(5) Centro Operacional, na base da pirâmide, são os encarregados pela produção da organização. Em um clube temos os jogadores e comissão técnica como sendo os “operários”, que se reportam diretamente a linha hierárquica e não ao vértice estratégico como acontece comumente em muitos clubes atualmente.

A necessidade de implantação de gestão profissional na administração dos clubes decorre da diversidade de relações existentes entre estes e seus atletas (profissionais e não profissionais), comissão técnica (treinador, auxiliar, preparadores físicos, treinadores de goleiros, massagistas, roupeiros), área médica (médicos, fisioterapeutas, odontólogos, psicólogos, fisiologistas, nutricionistas), entidades de administração, poder público, imprensa (emissoras de TV, rádio, jornais e mídia eletrônica), agências de marketing esportivo ou publicidade, patrocinadores, companhias de seguro, fornecedores (restaurantes, lavanderias, escolas), além dos demais empregados (administrativo, secretárias, vendedores, bilheteiros, porteiros, seguranças, jardineiros, motoristas, faxineiros

DEPARTAMENTO JURÍDICO

Ao departamento jurídico, também denominado “departamento de negócios jurídicos”, “departamento de interesses legais”, ou outra definida em seus estatutos, compete gerir todas as questões legais de interesse do clube, como o fornecimento de consultoria e assessoria jurídica à presidência e todos os departamentos, elaboração e revisão de todos os contratos firmados pelo clube, organização e manutenção de arquivo de documentos jurídicos, indicação de profissionais para a defesa judicial e administrativa do clube, dentre outras do mesmo ramo.

Em razão de sua relevância para todas as áreas do clube, este setor deve estar diretamente ligado aos demais departamentos, especialmente subordinado à presidência. Recentemente, o Sport Club Internacional de Porto Alegre, campeão mundial interclubes de futebol de 2006, demonstrando que a gestão profissional fora de campo é capaz de trazer resultados positivos dentro do campo, anunciou a contratação de advogado especialista em contratos comerciais e de marketing para atuação específica junto ao departamento de marketing do clube, a fim de fortalecer o clube em acordos com parceiros comerciais, investidores e patrocinadores.

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A respeito esclareceu Luís César Moura, Vice-Presidente de Marketing do Internacional:

Ao revisar os nossos contratos, percebemos que eles são bem feitos teoricamente e juridicamente, mas muitos não espelham o negócio em questão. Na hora que vamos pressionar os parceiros sobre o que foi acordado, eles se escondem no contrato, que é genérico, e não os obriga a cumprir tudo aquilo que a gente negociou.

O responsável por administrar o departamento jurídico é o seu diretor ou o vice-

presidente. Esta função privativa de advogado (Art. 1o, II, da Lei Federal n. 9.906/94

Estatuto da Advocacia e da OAB) é exercida por associado nomeado ou eleito para a mesma. O diretor jurídico no exercício do comando político do departamento deve ter pleno conhecimento de todas as atividades do clube, de modo que possa acompanhar ou determinar procedimentos que incluam o acompanhamento de tais atividades por seu departamento, exercendo atividades de consultoria jurídica e a chamada advocacia preventiva, no intuito de minimizar os riscos inerentes a todas as atividades da entidade, além de gerir as oportunidades que se apresentem. Costumeiramente o associado elevado à função diretiva deste departamento é um respeitado advogado que integra o quadro associativo do clube, não necessariamente conhecedor e militante na área do direito desportivo.

Elio Carravetta (2007, p. 46 e 47) comenta as “espécies” de dirigentes que atualmente comandam os clubes de futebol no Brasil:

Amparados por esse paradigma surgiram muitos dirigentes providos de forte idealismo que foram grandes empreendedores e provocaram amplas transformações e inovações, contribuindo de maneira decisiva para o crescimento patrimonial dos

clubes e para o desenvolvimento do futebol brasileiro. Por outro lado, muitos outros chegavam desprovidos de habilidades básicas para administrar e gerir pessoas. Desconheciam a finalidade e o verdadeiro papel dos departamentos no contexto do clube, a estrutura organizacional, a competência e a função dos colaboradores. Freqüentavam o clube somente no final do expediente, para conversar com os amigos

de diretoria, participar de eventuais reuniões formais ou informais e despachar alguns

documentos. Em muitas circunstâncias contratavam um amigo, freqüentemente desprovido de competência funcional, para exercer algum tipo de cargo remunerado, e

assim mantinham-se atualizados sobre o funcionamento dos setores.

Em muitos casos, especialmente nos das pequenas agremiações, o diretor jurídico é o único advogado responsável por toda consultoria, assessoria e advocacia prestada ao clube, atuando inclusive de forma gratuita e sem qualquer conhecimento do Direito Desportivo. Esta situação colide frontalmente com o bom modelo de gestão profissional do departamento, tendo em vista a alta demanda de trabalho, a disponibilidade de tempo para dedicar-se ao clube, a falta de especialidade nas

matérias de atuação, dentre muitos outros inconvenientes prejudiciais à produtividade

da entidade.

A primeira medida que se impõe para a gestão eficaz do departamento jurídico de um clube de futebol é a contratação de um profissional ou de um escritório militante na

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área do Direito Desportivo para a execução de consultoria, assessoria e advocacia a todos os setores do clube. Profissionais atuantes em outras áreas do direito, tais como direito empresarial, tributário, comercial, civil, também são bem aceitos e igualmente importantes para atuação específica nos respectivos departamentos que demandam

de seus conhecimentos.

Compete ao diretor jurídico a indicação dos advogados ou escritórios a serem contratados para a defesa dos interesses da associação, mediante a especialidade do profissional, para atuação em defesa do clube perante a Justiça estadual, federal, do trabalho e desportiva, além de consultoria e assessoria constante aos setores de registro e transferência de atletas, recursos humanos, financeiro, marketing, médico etc.

Os profissionais contratados pelo clube podem atuar de forma interna, como empregado, trabalhando diuturnamente em gabinete oferecido pela entidade em sua sede, ou de forma terceirizada, permanecendo em seu próprio escritório, com vínculo decorrente de contrato de prestação de serviços e estipulação de honorários advocatícios firmado, em que estarão definidas as atribuições dos profissionais, a limitação ou não de horas mensais para a prestação, e o valor dos honorários respectivos.

As grandes agremiações de futebol já possuem vários advogados trabalhando internamente no clube, com atuação constante em diversos ramos do direito, além de escritórios especializados terceirizados. Muitas já dispõem, inclusive, de gerente- jurídico, advogado contratado, diretamente subordinado ao diretor jurídico, que supervisiona o trabalho dos demais e gerencia os contatos e procedimentos com os escritórios terceirizados. Atualmente pouquíssimos clubes comportam e necessitam de tamanha estrutura nos quadros de seu setor jurídico, mas, tudo indica que este é o modelo mais eficaz para a gestão profissional do departamento.

Diante da relevância e das diversas especialidades exigidas àqueles que integram departamento jurídico de clubes de futebol, o Estatuto Social do Santos F. C., subdivide em três divisões: 1-) Consultiva e de Contratos, com competência para orientar a toda

a estrutura do clube com relação a contratos; 2-) Processual, responsável por

acompanhar toda a demanda contenciosa do Clube; e 3-) Inquéritos e Sindicâncias, destinada a apurar questões necessárias ou suscitadas no âmbito de sua administração interna.

João Paulo Rossi, diretor jurídico do grupo Telefônica, analisando o papel do advogado nos departamentos jurídicos, assevera (www.conjur.com.br, acesso em 09/04/2007):

Ao todo são dez as competências inerentes a um bom advogado interno de uma empresa. Conhecer a empresa, os clientes, os fornecedores e saber quais os serviços que presta é primordial para fazer uma boa assessoria. Só assim é possível elaborar contratos. Além disso, o papel do advogado é resolver.

Neste contexto, evidente que o papel do advogado da entidade é muito maior do que possa parecer, sua atividade deve estar diretamente ligada a cada ato dos demais

departamentos,

participando

de

DIREITO DESPORTIVO

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forma
robusta

dos

resultados

produzidos.

Para Carlezzo (2004, p. 4), embora a ciência jurídico-desportiva não esteja adstrita apenas ao estudo do futebol e suas relações com o direito, englobando também o vôlei, o futsal, o judô, o atletismo, enfim, as mais diversas modalidades esportivas praticadas no país, não há como olvidar que a grande estrela e carro-chefe do esporte brasileiro é o futebol.

Como anteriormente narrado, o ramo do Direito mais importante para o departamento jurídico dos clubes de futebol é o Direito Desportivo. Esta novel área jurídica já é considerada por muitos como segmento autônomo da ciência jurídica, independente das demais ramificações do direito. Para Castro (2002, p. 14 e 15) abordando a tese defendida por muitos, comenta:

Defendem ser o Direito Desportivo fruto de uma necessidade da sociedade oriunda de uma nova conduta e de interesses decorrentes de sua evolução. Defendem que o desenvolvimento e a importância do esporte na vida socioeconômica do cidadão, nos últimos anos, implicaram a necessidade de legislação específica para regular o desporto e sua prática. Para eles, as antigas legislações comerciais, civis e trabalhistas, apenas para citar algumas, não mais podem ser aplicadas diretamente no desporto, pois esse é uma atividade diferenciada do dia-a-dia da sociedade, devendo assim, ser tratadas diferentemente.

Exemplos não faltam para ilustrar essa diferenciação da atividade desportiva. As normas de Direito Penal não podem ser aplicadas ao boxe. Da mesma forma o Direito Previdenciário não pode ser aplicado integralmente em todos os casos ocorridos na prática das modalidades esportivas. Como ficaria o futebol se todos os atletas contundidos acionassem seus clubes pedindo indenizações por acidente do trabalho? E o Direito do Trabalho que, em tese, não se aplica a atletas dito “amadores” praticantes de modalidades como futsal, basquete, handebol. Castro (2002, p. 15) ainda

complementa:

O Direito Desportivo é um ramo interdisciplinar do Direito, mas sem estar vinculado ou

subordinado a nenhum. O Direito Desportivo é parte de todos os outros ramos do Direito e de nenhum dele ao mesmo tempo, por isso defendem ser o Direito Desportivo um ramo autônomo e não independente. Para eles, o Direito Desportivo é

o Direito Civil, Penal, Trabalhista, Previdenciário, Constitucional, Internacional etc., mas sempre com as características e exceções próprias que tornam ineficazes vários preceitos e regras de outros ramos do Direito.

Nas entidades de prática do futebol a relevância do Direito Desportivo é ainda mais evidente, tendo em vista a grandiosidade da estrutura organizacional das mesmas. Boa parte das atividades desempenhadas por tais associações são matérias abrangidas pela ciência jurídica-desportiva.

RELAÇÃO CLUBE X ATLETAS

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Para o advogado que milita na área do Direito Desportivo, especialmente defendendo os interesses dos clubes de futebol, a relação clube x atleta talvez seja a mais importante a ser gerida. A atividade fim dos clubes de futebol é o próprio futebol, e os atletas seu principal produto no mercado, cujos valores, em linhas gerais, pode ser suficiente para assegurar bons resultados econômicos e garantir a subsistência da agremiação.

Foi o tempo em que as rendas aferidas nas bilheterias eram fontes suficientes para garantir a manutenção qualificada das finanças do clube sem dependência de direitos televisivos, venda de atletas, patrocínios, entre outros. Atualmente as médias de renda alcançadas pelos clubes de futebol são insuficientes para assegurar a manutenção qualificada do time, estrutura administrativa, investimentos, despesas ordinárias etc. Mesmo com o fim do “passe” (art. 93 da Lei Federal n. 9.615/98, que revogou tacitamente o art. 11 da Lei Federal n. 6.354/76) a formação de atletas e venda de seus direitos federativos e econômicos ainda são as atividades mais rentáveis a serem exercidas pelo clube a fim de manter o melhor nível de sua atividade fim.

Neste contexto, a relação clube x atleta se destaca como uma “faca de dois gumes”, quando gerida com competência traz resultados absolutos para o clube. De outra parte, capaz de gerar prejuízos inestimáveis causando até mesmo a “quebra” da entidade quando mal aproveitados.

Ao operador do direito desportivo cabe orientar aos respectivos departamentos do clube a melhor forma de aplicação da legislação desportiva hoje vigente, especialmente quanto ao prazo contratual, valor da cláusula penal, registro para condição legal de jogo, elaboração de contratos de licença para uso da imagem, procedimentos legais do departamento médico, hipóteses e formas de rescisão contratual, representação do clube nas transferências de atletas, elaboração de contratos de formação de atletas não-profissionais, indenizações decorrentes da formação de atletas, contratação de seguros etc.

Também junto à Justiça Desportiva e Poder Judiciário, o advogado conhecedor do Direito Desportivo deve atuar constantemente em defesa dos interesses dos clubes. Na forma do art. 217 da Constituição Federal, a Justiça Desportiva é competente para apreciar os assuntos relacionados à disciplina e competições desportivas. Ordinariamente todas as infrações disciplinares e outras questões decorrentes das competições disputadas são submetidas ao processamento e julgamento dos órgãos judicantes desportivos, previstos no Capítulo VII da Lei n. 9.615/98, cuja organização, funcionamento, atribuições, processos e medidas disciplinares estão definidos no Código Brasileiro de Justiça Desportiva (instituído pela Resolução n. 01/03, do Conselho Nacional do Esporte).

A atuação do advogado junto à Justiça Desportiva traz resultados objetivos no fator campo. O papel do profissional responsável por esta área é trabalhar na prevenção da indisciplina dos jogadores e membros da comissão técnica, também do próprio clube com relação às suas obrigações com segurança, cumprimento de normas

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regulamentares e estruturais. De outra parte, tem a difícil incumbência de promover

as defesas de todos que forem levados a julgamento por esta Justiça especializada, a

fim de evitar a incidência de penas rigorosas a atletas, dirigentes e ao próprio clube,

requerendo em muitas oportunidades conversão de penas, recurso com efeito suspensivo e até liminares específicas.

Junto aos órgãos do Poder Judiciário, leia-se, Justiça Estadual Comum e do Trabalho, é costumeira também a atuação do advogado contratado pelo clube. É a Justiça Estadual Comum a competente para apreciar questões decorrentes da aplicação ou desrespeito ao contrato de imagem normalmente firmado entre clubes e atletas. Já a Justiça Federal do Trabalho possui competência para processar e julgar as questões decorrentes da relação de trabalho, não só de atletas profissionais, como os não- profissionais, treinadores, membros das comissões técnicas, além dos demais empregados do clube. Relevante o conhecimento específico do advogado na área do Direito Desportivo, posto as peculiaridades impostas pela legislação desportiva e jurisprudências para atletas profissionais, não-profissionais, treinadores e até massagistas.

Ainda na relação trabalhista, importante a assessoria jurídica constante do profissional ao setor de Recursos Humanos da entidade, em razão das inúmeras peculiaridades trabalhistas e previdenciárias atinentes ao obreiro da área esportiva e das implicações

ao clube.

Indispensável também a participação do advogado na assessoria para a formalização de negócios junto ao agente credenciado e elaboração de contratos de transferências nacionais e internacionais para resguardar todos os interesses e direitos do clube, especialmente adequando o pacto às disposições normativas expedidas pelas

entidades internacional (FIFA), nacional (CBF) e regional (federações) de administração

do futebol, além, é claro, da própria legislação pátria pertinente. Relevante ainda nesta

mira, a consultoria contínua do profissional ao departamento de registro e

transferência da agremiação.

Por fim, a constante assessoria ao departamento de futebol não-profissional nas atividades rotineiras de sua estrutura, especialmente quanto ao cumprimento dos contratos de formação e bolsa de aprendizagem, parceria, além da revisão de documentação e cumprimento da lei para exigência das indenizações de formação e mecanismos de solidariedade, previstas nas normas nacionais e internacionais da modalidade.

DEMAIS ATIVIDADES

O trabalho desenvolvido pelo advogado contratado por clubes de futebol não fica

adstrito à relação clube x atleta. Merecem destaque as questões de ordem tributária,

igualmente importantíssimas para todos os clubes, posto são a origem das dívidas de maior monta contraídas pelas agremiações. Especialmente agora, com a vigência da Lei Federal n. 11.345 de 11 de setembro de 2006, que instituiu a loteria denominada “Timemania”, cujo objetivo é desenvolver a prática esportiva do futebol, através da

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criação de receitas destinadas aos clubes, com o fim exclusivo de parcelamento de seus débitos tributários e com o FGTS, mediante a licença remunerada de suas populares logomarcas para o referido concurso de prognóstico. Da mesma forma, igualmente relevante o amplo conhecimento e militância sobre os ditames da Lei Federal n. 11.438/06, já alterada pela Lei n. 11.472/07, a chamada “Lei de Incentivo ao Desporto”, capaz de propiciar aos entes desportivos recursos oriundos de deduções de tributos federais para execuções de projetos específicos de caráter esportivos, previamente aprovados pelo Ministério do Esporte. Não se pode esquecer ainda, a coordenação de toda gestão contábil do Clube, especialmente para cumprimento do disposto no art. 46-A, I, da Lei Geral Sobre Desportos, com elaboração das demonstrações financeiras da entidade.

A consultoria e assessoria da presidência e demais departamentos do clube são atividades igualmente relevantes. Ordinariamente, a orientação, elaboração e revisão de contratos de patrocínio, transmissão televisiva, estágios e prestação de serviços; orientação para cumprimento do Estatuto de Defesa do Torcedor, instituído pela Lei Federal n. 10.671 de 15 de maio de 2003; atuação junto ao PROCON; orientação na contratação de seguros esportivos; elaboração de resoluções e portarias internas são constantemente necessárias.

GOVERNANÇA CORPORATIVA NO FUTEBOL

Muitas agremiações são administradas sob óticas gerenciais ultrapassadas e se protegem sob o argumento de que não têm fins lucrativos

Em breve resumo, para que todos possam entender o conceito geral de governança corporativa aplicado aos clubes pode ser definido como o conjunto de princípios e mecanismos que orientam as relações entre os associados do clube, seus dirigentes, funcionários (incluindo a comissão técnica e os jogadores), além de outros stakeholders de um clube, como por exemplo, os patrocinadores, os fornecedores de materiais, as federações e confederações aos quais os clubes estão associados; a mídia em todas as suas ramificações e, é claro, o torcedor.

Com a adoção dos princípios gerais de governança corporativa, aumenta a probabilidade de obtenção, pelos gestores e associados do clube, dos objetivos traçados.

Esses riscos não estão somente relacionados com superávit ou déficit do clube, mas também com ações ou atitudes que possam “manchar” a imagem da instituição perante seus stakeholders (todos que possuem algum interesse, direto ou indireto, com o clube, os quais foram exemplificados anteriormente).

Para que os clubes possam iniciar o processo de adoção das boas práticas de governança corporativa, devem prever, entre outras medidas:

• Atuação forte e independente dos seus conselhos;

• Revisão da política de remuneração de seus gestores, comissão técnica e jogadores;

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• Identificação dos fatores diferenciadores do clube, em relação aos “concorrentes”,

buscando maximizar estes diferenciais competitivos;

• Identificação dos fatores de riscos ou deficiências, em relação aos “concorrentes”,

buscando administrar e cobrir, da melhor forma possível, os riscos associados a estas

deficiências;

• Disponibilização periódica de informações detalhadas ao público (stakeholders); e

• Administração responsável de suas finanças, identificando o nível ótimo, é máximo de seu endividamento.

Assim como aconteceu com as empresas em outros segmentos, os clubes devem começar a se preocupar em se proteger criando estruturas que farão esse “tracking” e que deverão estabelecer padrões que o clube implantará em todas as operações desde

a mais simples compra de material até a venda dos direitos federativos de um

importante jogador, por exemplo. Estas regras internas devem, em primeiro lugar, atender à legislação tributária, fiscal e contábil vigentes no país; seguidas das normas

estabelecidas pelo próprio clube. Uma vez estabelecidas estas normas, o próximo passo será criar meios de controle e gerenciamento de forma a garantir, de forma independente, que tais normas são seguidas no cotidiano do clube.

Desta forma os clubes, além de se protegerem contra possíveis irregularidades, sejam elas cometidas eventualmente por funcionários, dirigentes, comissão técnica ou jogadores, posicionam-se diante das autoridades fiscais, contábeis e tributárias do país como uma entidade praticante das normas e leis vigentes; e evitam possíveis autuações decorrentes de investigações aos quais os clubes estão sujeitos, mantendo, portanto, a imagem do clube não só no país de origem, como internacionalmente.

Exemplos de investigações sobre negócios no futebol Necessário se tornou essa introdução, pois queremos abordar, em especial, um assunto que vem ganhando espaço na mídia internacional e que também já chegou ao Brasil. Está ocorrendo uma mudança importantíssima no comportamento das autoridades legais e fiscais de alguns países em relação ao segmento esportivo devido, sobretudo, aos bilhões de dólares que circulam por ano no mundo do esporte e em particular no futebol.

TMS - Transfer Matching System

A FIFA, entidade máxima do futebol, já implantou o sistema eletrônico nas transações de compra e venda dos direitos federativos de jogadores.

O objetivo do sistema TMS (sistema de correspondência para transferências) é, por

um lado, garantir que as autoridades do futebol dispõem de mais informações relativamente a cada transferência e, por outro lado, aumentar a transparência de todas as transações, o que, por sua vez, aumentará a credibilidade e a reputação de todo o sistema de transferências. Simultaneamente, o sistema garantirá que é de fato um jogador que está a ser transferido e não um mero jogador fictício usado para

movimentar dinheiro (“lavagem de dinheiro”). Além disso, o sistema contribuirá para salvaguardar a proteção de menores.

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Esse sistema, segundo a agência Estado, já contempla 38 clubes brasileiros. No mundo são 2.100 clubes em 144 países que adotaram o sistema. Até outubro de 2010, a FIFA planeja estar com 4.000 clubes integrados ao sistema em todo o mundo.

Nesse sistema, deverá ser informado tanto pelo clube vendedor como comprador todos os dados da negociação, incluindo: o montante do negócio; salário do jogador; agente ou advogado responsável; duração do contrato; e a conta e o país onde serão depositados os valores da transação. Sem esses dados, a FIFA não dará como aceita a transação e com isso o jogador não poderá ser inscrito em nenhum certame.

Estas determinações visam coibir fraudes contábeis e fiscais; transferências ilegais de jogadores; operações relacionadas a lavagem de dinheiro, etc. Em paralelo à posição da entidade, outras ingerências no futebol têm demonstrado a vontade das autoridades legais e fiscais de alguns países de acompanharem mais de perto as negociações e os valores envolvidos - citemos alguns exemplos que já foram noticiados em alguns dos principais jornais internacionais.

Na Inglaterra, por exemplo, conforme reportagem publicada no site Terra, as autoridades tanto do futebol como do fisco estão atentas às regras e com isso a punição pode ser tanto esportiva como pecuniária: um primeiro caso é envolvendo o jogador Carlos Tevez na transação realizada pelo West Ham, que o adquiriu mesmo sabendo que ele pertencia a uma empresa privada e não a um clube. Resultado: multa de 5,5 milhões de libras em abril de 2007 aos Hammers.

Outro exemplo é do fisco inglês que convocou 100 jogadores a explicarem os valores recebidos como direito de imagem, uma vez que os clubes pagam os valores relativos a este item a uma empresa do próprio jogador e que, caso esse pagamento fosse recolhido pelo jogador diretamente, o valor do imposto seria pago maior do que realmente o é. Essa diferença de imposto pago e o que o fisco inglês acredita que deveria ser pago pode chegar a um valor de 100 milhões de libras em impostos não recolhidos.

Na Bélgica, segundo reportagem publicada pelo Jornal Correio da Manhã de Portugal em sua edição de 26/02/10, a Justiça está investigando um diretor do Standart de Liége, que já atuou como jogador, agente, empresário, em seus negócios com alguns clubes, principalmente portugueses.

No Brasil começa a ser investigado negócios no futebol No Brasil, o Ministério Público abriu inquérito mediante denúncia de empresários que têm se utilizado das redes sociais para “seduzir” jovens interessados em jogar no exterior oferecendo testes em importantes clubes europeus sem terem essa autorização. O Ministério Público indagou a CBF sobre como são realizados os negócios de transações de venda de direitos federativos e esta disse que existem operações sobre as quais ela não tem conhecimento de sua realização, reconhecendo que 800 jogadores foram transacionados sem seu conhecimento.

O Ministério Público vai começar o seu trabalho sobre as transações legalizadas pela CBF e isso poderá trazer à tona algumas irregularidades cometidas, tais como valores

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não declarados, impostos não recolhidos, depósitos realizados em contas de paraísos fiscais sem a sua devida informação pelos clubes em seus relatórios e balanços, etc.

É neste momento que a governança corporativa torna-se importante instrumento de

proteção aos clubes que, em muitos casos, são administrados sob óticas gerenciais

ultrapassadas e que se protegem sob o argumento de que são entidades sem fins lucrativos e com isso estão isentas de determinas normas legais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por toda a narrativa apresentada ao longo do trabalho, é fácil concluir pela relevância da aplicação de gestão profissional mesmo nas “antigas” estruturas clubisticas brasileiras, para o aparecimento de resultados positivos em suas administrações e posteriormente dentro do campo, no fator meramente esportivo.

O calcanhar-de-aquiles do futebol administrado profissionalmente ainda é a paixão aliada ao esporte, muitas vezes prejudicial à concretização de planejamentos, alcance de metas e manutenção das estruturas. E a paixão aqui referida gera justamente a maior das despesas dos clubes de futebol, que são os salários de seus jogadores.

Os apaixonados torcedores sabem que os melhores jogadores são capazes de deixar

seu time mais próximo dos títulos, mas esquecem que a conta dos custos com atletas é

a mais arriscada a ser gerida pelo clube. Nem sempre o planejamento financeiro da

agremiação permite e prevê grandes investimentos com jogadores, mas basta que a equipe não obtenha os resultados esperados nos gramados para que o planejamento seja ignorado, contratações promovidas, prêmios oferecidos ou ampliados, redução do valor dos ingressos aos torcedores, enfim, o desastre administrativo.

Para a redução de todo esse risco ao longo da gestão exige-se conhecimento específico de cada setor de atuação. As múltiplas necessidades dos clubes, em cada área de sua atividade, demandam administradores focados na operação e com dedicação em tempo integral. Para garantir conhecimentos específicos e dedicação integral, os profissionais contratados devem ser remunerados segundo valores de mercado, preterindo até mesmo de serem torcedores do respectivo time.

Não se deve abrir mão da paixão na gestão esportiva, mas paixão deve ficar para a torcida. Sem qualquer necessidade de imposição legal, o mercado exige que a gestão dos clubes deva ser executada por profissionais, com atuação full time, focada na maximização das receitas e redução dos custos, com a finalidade de melhorar cada vez mais a estrutura e obter os melhores resultados dentro de campo. Na busca constante de novas conquistas, a estrutura gerencial deve ser semelhante à das empresas, ou seja, totalmente profissional.

O advogado incumbido da administração do departamento jurídico, ao contrário da maioria dos dirigentes dos demais departamentos, assim como no departamento médico, é impreterivelmente um profissional. Entretanto, apesar dessa visível “vantagem” constatada, nem sempre o diretor jurídico tem a formação necessária

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para ser um gestor eficaz de seu departamento, nem sempre é um conhecedor técnico-específico das atividades, mercado e necessidades desportivas.

Este setor do clube, conforme visto, deve se relacionar diretamente com todos os demais departamentos, também com sua presidência e conselhos, gerindo riscos e oportunidades, na busca de resultados vitoriosos para a administração geral.

Conclui-se enfim, que o Direito Desportivo é matéria relevante para a gestão dos clubes de futebol, e conseqüentemente que a contratação de advogados estudiosos e militantes nesta área do Direito para exercício de cargos de direção ou funções de assessoria executiva junto ao departamento jurídico dos clubes de futebol é medida eficaz como forma de especializar a execução destes trabalhos, corroborando frontalmente com a transformação dos conhecidos problemas de gestão em conquistas esportivas.

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ROBERTO J. PUGLIESE JR.:); membro dos Institutos Brasileiro e Catarinense de Direito Desportivo, da Comissão de Estudos do Direito Desportivo da OAB/SC

Quer saber mais

Belo Horizonte / MG, Setembro de 2010

“Seja lá o que for fazer ou sonhar, comece

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