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Escola Secundária João de Deus HISTÓRIA A – 12ºAno Introdução A Poesia das Vanguardas no
Escola Secundária João de Deus
HISTÓRIA A – 12ºAno
Introdução
A Poesia das Vanguardas no
Início do Século XX
Fernando Pessoa, o inventor do Modernismo Português
Introdução

Este trabalho foi realizado por mim, Sarah Navaz de Mendonça Virgi,

aluna da turma C do 12ºAno, no âmbito do programa da disciplina de História A, dedicado aos movimentos vanguardistas da cultura na primeira metade do século XX, tendo como principal objectivo a consolidação dos conhecimentos adquiridos em sala de aula e o seu aprofundamento parcial, de modo a compreender, em pormenor, uma das subcategorias que este vasto tema abarca o modernismo poético português.

O motivo da escolha do tema prende-se com o facto de esta época,

durante e pós-guerra, constituir um ponto de viragem da história da Poesia,

que inicia a sua emancipação da Literatura, convertendo-se, a pouco e pouco e sub-repticiamente, numa forma de expressão independente, caracterizada por muitos autores como ―o expoente máximo da arte‖, precisamente por se

afastar das correntes prosaicas limitadas pelas categorias narrativas ou demasiado científicas, reguladas por parâmetros axiomáticos sem uma relação íntima com as palavras e o que existe para além delas. Então, a Poesia reinventa-se, numa linha autónoma, desatada dos aparelhos métricos, dos recursos e dos temas tradicionais.

É preciso salientar aqui o contexto histórico, pois o passado e os

acontecimentos recentes ao movimento são cruciais para o seu

desenvolvimento.

O Contexto Histórico do Modernismo

Não é por acaso que o modernismo poético se exalta na altura em questão; aliás, a própria definição de vanguardismo (derivado do francês avant-garde) integra a tendência que se adianta à evolução normal do pensamento ou da acção, podendo mesmo inovar ou tornar-se original. Ora, foi justamente neste momento que a velocidade se insurgiu, ultrapassando o decurso natural e lento das coisas, originando um tumulto vertiginoso nas mentalidades agora arrebatadas pelo movimento maquinal dos circuitos céleres do quotidiano, pelo consumismo exacerbado e pela crença e descrença simultâneas no sistema das forças humanas que precisava ser distinto através de uma expressão estética que se assemelhasse a tais ―fenómenos‖. A sociedade do início do século oferecia resistência aos efeitos miseráveis e grotescos da Primeira Guerra Mundial, que tinha devastado por

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completo, tanto física como psicologicamente, as populações europeias. Havia a necessidade de efectuar uma ruptura imediata e quase ―amnésica‖ com o passado sofrido, como fosse vítima de um impacto brutal com a morte e, tendo sobrevivido ao flagelo, não quisesse recuperar tal recordação do episódio traumático. ―Na linha da frente‖ (avant-garde), os ânimos sociais propunham-se a lutar contra esse classicismo falhado, prorrogando os horizontes e recriando os valores que tinham conduzido à situação actual.

No mesmo período emergiam teorias científicas e filosóficas que viriam corroborar estes factos, como é exemplo a psicanálise 1 , a expansão da nova Razão kantiana 2 , ou mesmo as especulações sobre a relatividade 3 , que vinham extenuar as anteriores teses positivistas do século XIX, crentes no absolutismo da ciência e da racionalidade. Assim, a inteligência emocional e intuitiva começava a amplificar-se e a tomar

relevância aos olhos do mundo ocidental, pelo que a arte, agora entendida como um estímulo das instâncias da consciência humana, ocupava um lugar privilegiado e livre de tomar posições autónomas, consoante a individualidade de cada artista e a sua própria subjectividade.

O Modernismo, em geral, pode definir-se, então, como uma reacção esteticista à civilização industrial e aos efeitos do conflito bélico entre 1914 e 1918. No contexto português todos os móbeis aqui enunciados são válidos; contudo, podem acrescentar-se outros mais específicos. Segundo Fernando Pessoa este movimento poético dá-se coincidentemente com um período de pobre e deprimida vida social, de mesquinha política, de dificuldades e obstáculos de toda a espécie à mais quotidiana paz individual e social, e à mais rudimentar confiança ou segurança num, ou de um, futuro‖, conforme publicado na revista Ática, em 1912.

futuro‖ , conforme publicado na revista Ática, em 1912. Ilustração 1 - Freud e a psicanálise

Ilustração 1 - Freud e a psicanálise

1 Derivada do grego psykhé, alma, e análise, é um método de investigação psicológica que visa elucidar o significado inconsciente das condutas e cujo fundamento se encontra na teoria da psíquica de Freud.

2 Página 4, ponto 4.

3 Página 4, ponto 4.

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O Modernismo Poético em Portugal e Fernando Pessoa

O Modernismo é utilizado nas correntes literárias e poéticas

portuguesas para designar o período de afirmação da geração do Orpheu 4 , que

pode situar numa datação restrita, entre 1912 e 1917, e onde se inserem três nomes nucleares: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros. Estas datas são as que têm como referência inicial a publicação dos artigos de Fernando Pessoa sobre «a nova Poesia portuguesa» que, entre outras alegações, defende que ―se a literatura é fatalmente a expressão do estado social de um período político, a fortiori o deve ser, adentro da literatura,

se

a fortiori o deve ser, adentro da literatura, se o género literário que mais de perto

o género literário que mais de perto

cinge e mais transparentemente cobre o sentimento e a ideia expressos e esse género literário é a poesia‖, porque a vitalidade de uma nação não se resume às suas condições militares, financeiras ou comerciais, mas sim a exuberância da alma do povo, isto é, a sua capacidade de criar novos ideais e padrões culturais de vida exactamente através da arte. Se analisarmos historicamente as correntes poéticas de países como a França ou a Inglaterra, constataremos facilmente que o seu auge foi

atingido em épocas decisivas para o desenvolvimento dessas mesmas regiões. Por exemplo, em França, foi a partir da Revolução de 1789 que o espírito retórico e lúcido francês se evidenciou, rompendo com os entorpecimentos religiosos (e mesmo confusos) do Ancien Régime. Ora, conforme a analogia, Portugal não foge à norma: Poesia é, assim, uma nacionalidade e, em simultâneo, uma novidade, prometendo ao país o início de uma revolução de ideias, uma renascença extraordinária, um ressurgimento assombroso.

Ilustração 2 - Revista Orpheu

Todas estas asserções de Fernando Pessoa, o percursor do Modernismo, imprimem desde logo algumas das características mais fincadas do movimento poético, das quais constam:

1. O desejo ansioso por uma cisão pronta com um passado inapto perante as necessidades do povo, que se traduz numa renúncia aos recursos académicos;

2. A irreverência iconoclástica, que alterna com certas formas de um sebastianismo delirante como se pode verificar em A Mensagem;

3. O gosto das ciências ocultas e da astrologia, que

verte para um

existencialismo oposto às filosofias positivas e uma admiração pelo

4 O nome advém da revista literária Orpheu, publicada em Lisboa, em 1915, que, embora com apenas dois números publicados, contribuiu para a divulgação dos maiores artistas portugueses e europeus do início do século XX, com uma influência duradoura e notável na elite intelectual.

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mistério e a «terrível estranheza de existir», que remete para a fé residual numa transcendência e uma perspectiva quase dialéctica com

a própria lucidez, que é a sombra projectada da Razão, não humana, mas espiritual;

4. A recusa das verdades definitivas, justificada pelas novas teses da problemática epistemológica, como a Crítica da Razão Pura, de Kant,

que teoriza o facto de o Homem não ser capaz de apreender a realidade na sua essência, pois está limitado por diversos factores, entre eles o espaço e o tempo, o que vai corroborar o relativismo científico de Einstein, que defende que ―o comportamento das massas‖ difere consoante o meio, ou seja, existe uma dilatação de presenças que define

a verdade de cada objecto. Isto é revolucionário na medida em que as coisas deixam de ser coisas em si mesmas, para o serem em relação

com tudo o resto. Esta fase é visível na poesia de Álvaro de Campos, por exemplo, quando ele se vê obrigado a recorrer às sensações para buscar

o verdadeiro conhecimento ou valer-se do ópio e da embriaguez para

integrar em si o regimento unânime de todas as ligações do universo;

5. O espanto perante a beleza da modernidade e, por conseguinte, das máquinas, isto é, um espírito futurista, fortemente baseado no sensacionismo e no elogio dos impulsos da velocidade, da força, da energia, dos desenvolvimentos tecnológicos. Esta temática está muito patente, por exemplo, na poesia de Álvaro de Campos, produto da heteronímia pessoana, da qual falarei mais adiante;

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica

Tenho febre e escrevo. Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno! Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! Em fúria fora e dentro de mim, Por todos os meus nervos dissecados fora, Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, De vos ouvir demasiadamente de perto,

E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso De expressão de todas as minhas sensações, Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquina!(…)

Ode Triunfal, Álvaro de Campos

6. A confiança na mudança do mísero estado recente do mundo envolvente

e a violência e a guerra como soluções imediatas para os problemas, que se apresentam através uma ironia notável sobre o quotidiano burguês e os assuntos políticos, as obrigações legais, os comportamentos rotineiros, a inadaptação ao mundo moderno e o apego às futilidades;

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A maravilhosa beleza das corrupções políticas, Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos, Agressões políticas nas ruas, E de vez em quando o cometa dum regicídio Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

Notícias desmentidas dos jornais, Artigos políticos insinceramente sinceros, Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes -- Duas colunas deles passando para a segunda página!(…)

Ode Triunfal, Álvaro de Campos

7. O primado e o afogo da subjectividade do sujeito poético Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjectividade 5 e do seu sensacionismo exagerado, em muito derivados do ―invento‖ da psicanálise e da metapsíquica que, como já se disse anteriormente, vieram despoletar a curiosidade pelos estados da consciência humana e pelas suas imagens oníricas, subsequentes de razões concretas mas por vezes desconhecidas da própria inteligência emocional complexa. Além disso, existe uma fragmentação do indivíduo motivada pela perda do sentimento de ―ser inteiro‖, decorrente das correntes céleres dos acontecimentos, com efeitos psicológicos que indicam a ―desracionalidade‖ do Homem ao aperceber-se de uma outra parte da sua identidade que não é lógica ou técnica, provocando um enlouquecimento que é mesmo traduzido na forma estridente de colocar as palavras no poema e… na heteronímia.

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro a técnica. Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Obra Poética, Fernando Pessoa

direito a sê-lo, ouviram? Obra Poética, Fernando Pessoa Ilustração 3 - Pessoa e a heteronímia (Costa

Ilustração 3 - Pessoa e a heteronímia (Costa Pinheiro, 1976)

Esta subjectividade como que desprende os constrangimentos da lógica, renovando, singularizando, recriando e afirmando uma nova modalidade da personalidade que, inconformada e insustentada, se segmenta em temperamentos, ideologias e mesmo vidas diferentes dentro de si mesma. Surgem, deste modo, os heterónimos resultantes desta

despersonalização do ortónimo,

5 Livro do Desassossego, Bernardo Soares (semi-heterónimo de Fernando Pessoa), 1929-32.

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como é o caso de Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, o que mais se expõe ao modernismo. Esta invenção nova na história da poesia pode ser compreendida supondo que cada heterónimo corresponde a um ciclo de atitudes como que experimentais, não necessariamente falsas, mas que procuram a unidade dentro dos recantos da antítese e da pluralidade conflitual que representam. A polémica interna de Fernando Pessoa expande-se e ramifica-se em teatros dialogais, e mesmo épicos, da emoção pensante, que não conseguem sair de uma roda incessante de questões ancestrais que, não tendo, por isso, razão de ser, se entretêm a examinar os seus fragmentos e a restituir um sentido humano à poesia.

Em termos formais, isto traduz-se numa justeza inexcedível de tom lírico, no Ortónimo, porque Pessoa opõe-se claramente à metafísica sentimentalista romântica e à evocação de imagens, funcionalmente usadas para denunciar a construção abstraccionismo dos sentimentos, íntimos e bem pouco sensoriais. Noutra vertente definitivamente marcada pela corrente literária em questão, Álvaro de Campos, o heterónimo mais representativo, emprega um vocabulário ilimitado de expressões futuristas como se verifica em Ode Triunfal e sensacionistas da energia bruta, da vida jogada por aposta, de «sentir tudo de todas as maneiras». Utiliza maioritariamente o verso livre e entusiástico, ausente de métrica ou rima, em estrofes irregulares, com uma influência evidente das odes de Whitman 6 . As suas fórmulas temáticas gizam planos ambíguos evanescentes de sonolência e tédio, desagregação, mas uma apetência de lucidez que dinamiza uma gama de recursos estilísticos sofisticados e inovadores, como sendo os grafismos expressivos, as onomatopeias (caracterizantes dos sons das máquinas), os estrangeirismos e neologismos, as metáforas ousadas, oximoros, personificações e hipérboles, enumerações excessivas e inquietantes (referentes, muitas vezes, à frustração individualista e ao enfatizar das sensações), as exclamações e interjeições, entre outros.

A obra de Fernando Pessoa já editada (e alguma aguarda ainda

arrumação e publicação) abrange mais de uma trintena de volumes. Saliento, ao lado da Obra Poética, a Obra em prosa, Páginas de Doutrina Estética, Páginas Íntimas e de Auto-interpretação, Textos Filosóficos e cada uma das obras dos heterónimos: Livro do Desassossego, de Bernardo Soares; O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro; as odes de Ricardo Reis; a Tabacaria e a Ode Triunfal, de Álvaro de Campos.

Conclusão

O Modernismo é um dos movimentos literários mais importantes de

toda a história da Literatura e, principalmente, da poesia portuguesa, e foi determinado tanto pelo contexto histórico, como pelo das mentalidades, directamente correlacionados. É no início do século XX que começam a

6 Poeta norte-americano cuja obra, de inspiração autobiográfica, em versos livres e numa linguagem popular directa (por vezes crua), é uma das percursoras do modernismo no mundo.

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insurgir-se os efeitos da industrialização, com o acrescento das consequências da Primeira Guerra Mundial, que, conjugados, resultaram numa crise aguda de dissolução de valores. Assim, a linguagem estética era uma das formas de expressão mais declaradas para exaltar as energias reacionárias, que se recusavam lucidamente a utilizar o código convencional estabelecido pela ordem social vigente, alertando para uma cisão eficaz com os academismos do século passado. É então que surge o movimento modernista. Apesar de constar de diversos nomes essenciais da geração de Orpheu, as principais propostas estéticas e filosóficas portuguesas nascem do génio criador de Fernando Pessoa, como sendo: o interseccionismo do poema com planos visuais e realidades diversas; o sensacionismo, desenvolvido pelas Odes, com a lição da linguagem futurista; a crítica do mundo exterior, isto é, social, inapreensível; a questão da subjectividade, da fragmentação do eu e da ―enigmática‖ heteronímia. Através da análise intensiva da obra de Fernando Pessoa, posso afirmar que este não é o melhor poeta português de sempre, mas sim os quatro maiores poetas portugueses.

Bibliografia

Livros:

José

Saraiva,

António,

e

Lopes,

Óscar,

Portuguesa, 10ªedição, Porto Editora, 1978;

História

da

Literatura

Enciclopédia LaRousse, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2007;

Internet:

Arquivo Pessoa: http://arquivopessoa.net/

o

Poesia Ortónima de Fernando Pessoa

o

Mensagem

o

Poesia de Álvaro de Campos

o

A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente Considerada, revista A Águia, nº4, Porto, 1912.

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