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Siddhartha

Eermanut, I[ase

(

.

--

\

.ilIIERVA DE BOLSOT

Publ,icados:

I Mad.a.rne Bovary,

-

2-O

Gusta,vo Flüfurt (Esgotab)

Infetno dos Hontens Vilos, Guido de Verona

(Esgotado)

3-O Crime do Padre Mouret, Eallio Tnlz

4 Vie.tname

-

-

A Chacint de Mttar, John Sack

5/6-Pan Além da Morte, Jdh! Gâlsworthy

7 Drdcula, Bra,m Stoü(er (Esgolado)

-

8 -

9 -

10

Caderno Proib4o, Alba de Césp€des

A Dama das

Camélias, Alexandre Dumas @ilho)

Mfuirno Gorki

-Voragem,

||-Um

Sociolista Insocidyel, BerDârd Shaw

l2-Um Homem Sd, Roger VallaÍd

13

-O

Exílio, Peanl Buck

14-O Espião que Saiu do Frio, Jobn [-e Carré

15/16-0 Tio Goriot, Honoré de Balzac

17 -Viúvas

da Vh,os, Joaquim t.agaeirc

18 Primeíro Amor, lvan Turguemiev

-

19 - Ftankensteht, Mary Sheltey 20/21- Diário de uma Criada de Quarto, Octave Mirbeau 22-Certos de Capri, Mário Soldaü

23- A Virgem de 18 Quìl@tes,

frtigr'tüi

24-Os Inf ortúmios da Vittude, Marquês de Sade

25 Santudrio, Wi,Uiam Fau,Ìknqr

-

26- Aldeia das Águias, cu€des de Amorim

27-ACasa e o Mutdo, RabiÍìdratrath Tagore

28/29 -Cnme e Castigo (vol.

30/31-Crime e Castigo (vol. II), Fédor Dostoiewski

I), Fédor Dostoiewsld

32- O Camq.ra.da, Cesare Favese

33

do Presdente Mao Tset.au

34- A Atl ntid.a, PierÌ€ B€noit

35 -

-Citq.ções

Siddhartha, HeÍrann }IessP' (2.' edição)

Hernzann Eesse

Siddhartha

Editoríal Mhrcrua

r Ët\ts31

t

EDIFORIAL MINER.VA Fudrdr .d 1927, p6 líüod nodrlruc.

núr Lut Sorllrro, 3l-3 -

l20O LISBOÀ, Porrurl

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Título do orbÍÍd

SIDDH'RTH'

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S rr*.nn vÈr.r

1974

2.' diçb: Setembro 1982

Trduç'o dc F.Ín.rdr Ptnto nodrttr

C.!. dê P.dro llíGtdlo

Dlrcúo. dc tÍldüclo pâra lhaus Írodurucr!

r!.crv.d6 pch Editolhl Mircrv.

Comrúto . lmtr.!.o:

Editdiâl Mh.Ér -

Coop. dc An

R. d! Álciìb,

MIMCR^FICA,

(htlcl.,

SCÀRL

30 -

l2OO Lbbqi

- SETEMBRo DE 1982 - 30oo .x. -

ÍNDICE.

PRIMEIRA PARTE

O fiÌho do brâÌnane

9

\

Com oc Samanas

2l

Gautama

33

Despertar

45

 

SEGUNDA PARTE

Kamala

53

Entre o povo

69

" Sarnsara"

8l

Iunto do rio

93

O barqueiro

t07

O filho ---

r23

Om

t35

C'ovilda

145

(-

I

\

PRIMEIRÀ PÀRTE

g

O filho ilo brômúrô

Nl penumbra da casa,

ao sol da beira-rio, junto dos

barcoe, e

gueira, cresceu Siddharúa, o belo filho do brâmane, com o seu amigo Govinda. O sol bronzeo,u-lhe os ombros esbeltos, na .margem do rio, enquanto fazia as a'bluções sagradas, nos sacrifíoios sagrados. Per-

passavamìhe sombras pelos oÌhos nos necrios no

mangal, enquanto a ,mãe cantava, e dunante as lições

do seu pai, com os homens eruditos. Havia rnuito que Siddhartha participava nas conversas dos ho-

mens eruditos, tnavava ddbates com Govinda e -com

ele praticava a arte da conteÍnplação e da medita-

ção. sabia pronunciar Oz silenciosamente -

essa

dizê-la interiormente com

palavra das .palavras

à sombra do bosque arnarelado e da fi

-,

a inspiração do ar e expirar depois com toda a sua

alrna, cmn a luz do eapírito puro a il,uminarlhe a tronte. sabi,a reconhecer Atman nos abismos do seu ser, indesirutível, uno com o (Jniverso.

Havia felicidade no coração do seu pai, poÌqu€ o

seu filho era inteliçnte e sequioso de conhecimento.

rll

Alegravao vê-lo crescer para ser um homem sábio,

um sacerdote, um príncipe entre os Brâmanes. Havia orgrllho no seio da sua mãe, quando o via

andar, sentar-se e levantar-se: Siddhartha, forte, trelo, de membros flexíveis, saudando.a com toda

a graciosidad,:.

O amor palpitava no coração das jovens filhas

dos Brâmanes quando Siddhartha passava pelas

ruas da cidade, coÍn a sua fronte alta, os seus olhos

de rei e a sua figura esbelta.

Govinda, o seu amigo, o filho do brâman:, ama-

va-o rnais que ninguém. Amava os olhos a voz

ìímpida de Siddhartha; amava o su modo de andar e a graciosidade absoluta dos seus movimentos; amava tudo quanto Siddhârtha dizia e fazia, e, so- bretudo, amava a sua inteÌigência, os seus belos e

ardentes p€nsamentos, a sua vontade forte e a sua

grande vocação. Govinda sabia que o amigo não viria a ser um brâmane vulgar, um indolente fun-

cionário encarregado dos sacrifícios, um negociante avaro de dizeres mágicos, um orador vaidoso e sem valor, um sacerdote perverso e manhoso ou, apenas, uma boa e estúpida ovelha entre um grande rebanho.

Não. E ele, Govinda, não queria tornar-se nenhuma

dessas coisas, não queria ser um brâmane como dez

mil outros da sua espécie. Queria

seguir Siddh^artha,

o adorado, o magnífico. E se ele alguma vez se

tornasse deus, se penìetrasse na Radiância Absoluta, então Govinda queria acompanhálo como seu arnigo,

seu companheiro, seu servo, seu porta-lança, sua

sombra.

Era por isso que todos arnavam Siddhartha. Ele encanta\,'a e tornava toda a gente feliz.

Mas Siddhartha não erâ feliz. Caminhando ao

longo dos róseos carreiros do figueiral, sentado eÍn contempliação à sombra azulada do bosque, lavando

os membrìf,s no barìho diário de expiação, ofeÌ'ecendo

sacrifícios nas profundidades do strnbreado mangial

com âbsoÌuta graciosidad,e de maneiras, arnâdo por

todos, uma alegria pa.ra todos, não obstante tudo isso ainda não havia alegria no séu coração. Do rio,

das cintilantes estrelas da noite e dos raios escal'

dantes do sol dosprendiam-se e invadiam-no sonhos

e pensamentos agitados. Inladiarn-no sonhos e um

desassossego de alma qu€ se erguiam do fumo dos

sacrifícios, emanavam dos versos do Rig-Veda,

nessurnavam dos ensinamentos dos velhos brâ,ma-

nes,

Siddhartha começara a sentir dentro de si as

sementes do descontentamento.

Começara â sentir

que o aÍnor do seu pai e da sua mã€, e também

o amor dLo seu aÍnigo Govinda, não o fariam seÍnpr€

f,eliz, não lhe dariam paz, nâo o satisfariam e lhe

bastaniam. Começa.ra a suspeitar que o s€u resp€i-

tável pai e os seus outros professores, qs sábiod

brârnanes, tinham tnanderido parâ el€ o grosso

e o melhor da sua sabedoria, tinham despejado a soma total dos seus conhecimentos no vaso sôfrego

de os receber que ele era-e

o vaso não estava

cheio, a sra alma não estava em patz, o seu coração

não ôstava seÌeno. As abluções sabiam bem, mas

ll

eram água, náo purificavam dos pecados, não ali- viavam o coração deprimido. Os sacrifícios e as

súplicas aos deuses erram exoedentes, rnas seriam

tudo? Dariam os sacrifícios felicidade? E os deu-

ses? Fora realmente Prajapati que criara o mundo?

Não fora Atman que o criara sozinho? Não eram

os deuses formas criadas como ele e as outras pessoas, mortais, transitórias? Estaria portanto

bem, seria ac€rtado, seria um ge,sto sensato e digno,

oferecer sacrifícios aos deuses? A quem rnais se

deveria of,eÍeoer sacrifícios, a quem mais se deveria honrar, senão a Ele, a Atman, o único? E onde se encontrava Á,tman, onde residia, onde batia o Seu

.coração eterno, ss não dentro do Eu, no,rrìÂis secrto,

no eterno que cada pessoa trazia dentro de si mesma?

Mas onde estava esse Eu,,esse mais seoreto? Não era carne e osso, náo erìa pensâmento nem cons-

ciência. Isso era o que os hoÍìens sábios pensalram.

Onde se encontrava, erÌtão? Avançar na direcção do

Eu, na direcção de Atman -

haveria outrre carnrinho

que valesse a pcnâ procuriar? Ninguérn mostratu

o caminho, ninguém o conhecia-nem o s€u pai,

nem os professores, nem as canç&s sagradas. Os

Brâmanes e os seus livnos sagr',ados sabiam tr.ldo,

tudo; tinham penetrado em tudo-na criação do

mundo; na origem da fa.la, da comida, da inalação

e da exalação; na harmoni,a dros sentidos, e nos actos

dos deuses. Sabiarn um número tremendo de coisas

mas vaÌeria a pena saberem todas ressas coisas

-

se ignoravam a coisa importante, a única coisa

importante?

Muitos versos dos livroe sagrados, e sobretudo os Upanishads do Sama-Veda, falavam dessa coisa

mâis seorÊta. Está escrito: uA tua alma é o mundo

inteiro.) Diz q'ue quando um homem dorrne, penetra

no seu mais íntimo e vive em Atrrr-.an. Havia uma

sageza maravilhosa nesses versos; todo o conheci-

mento dos sábios se continha neles, numa linguagern

de encantar, ura como mel colhido .pelas abelhas,

Não, não se podia ignorar facil'mente essa tremenda

quantidade de conhecirnrento, reunida e preseúada

lxrr sucessivas gerações d,- sábios brâmanes. Mas onde estavam os brâmanes, os sacerdotes, os úbios, bern-sucedidos não apenas no facto de ,possui,rern

csse conhecimento profundíssimo, mas também em

experimentáìo, m sentilo? Onde estavam os ini-

ciados que, alcançando Atman no sono, o podiam

reter despertos, na vida, em toda a parte, na fala

c na acção? Sidd,hartha conhecia muitos ilustres

brâmanes, e acima de todos eles o pai - santo, enr- dito, digno da rnais alta consideração. O pai era digno de admiração, os seus modos era/In ser€nos e nobres,

levava uma boa vida, as suals palâvras eraÍn sen-

satas, na sua cabeça existiam nobres e belos pen-

mas, mesÍno ele que sabia tanto, vivia

cÍn beatitude, estava m paz? Não seu'ia também

saÍrentos

-

dos que procuravam o caminho, um insaciável? Não

ia constantsmente às fontes sagradas da salbed,oria, corn uma sede insaciálel, aos sacrificios, aos livros, às dissertações dos Brâmanes ? Porqu,s precisava

ele, o inocente, de se lavar dos pecados e de se rpuri-

ficar de rìovo, todos os dias? Sigrìificaria isso que

Ìl)

Atman não estava, afinal, dentro deÌe? Que a fonte

não se encontrava dentro do seu próprio coração?

Deve-se encontrar a fonte dentro do Eu, deve-se

possuí-la. Tudo o mais é procurar -

um desvio,

etro.

Eram €stes os pensamentos de Siddhartha, era

esta a sua sede, a sua mágoa.

Repetia muitas vezes a si ,rnesmo as palavras de

oEm verdade, o

nome de Bra.me é Satya. Efectivamente, aquele que

o sabe penetra todos os dias no mundo divino." Parecialhe frêquentem€nte Ì)erto, esse m'undo di-

vino, rnas nunca o alcançara completamente, nunca

saciara a derradeira se.de. E entre os homens sábios

qu,e conhecia e cuj os ensina,rnentos apreciava, não

um dos Chandogya-Upanishads:

havia um que tivesse alcançado inteinamente o

mundo divino, um único que tivesse saciado por

compÌeto a sed etrna.

Govinda -

disse Siddlhartha ao seu amigo

-

Govinda, vem comigo para a figueira-d,e-be,ngala.

-,

Vamos praticar meditação.

Dirigiram-se para a figueira-de-bengala

e senta-

ram-se, a vinte passos um .do outro. Enquânto.se

sentava, pronto para pronunciar o Oz, Siddhartha

recitou suavgmente:

Om é o arco, a setd é a olmí, Brame é o alw da seta

Ao qual se aponta limtemente.

Quando terminou o tmpo habitual destinado à prática da meditação, Govinda levantou-se. Entar-

decia, eram horas de efchrar as abluçóes vcsper- tinas. Chamou Siddhartha pelo nome; ele não res-

pondeu. Siddhartha estava absorto, de olhos fixos,

como que presos numa meta distante, e @m a pontâ

da lingua a rr-se um pouco,entre os dentes. Dir-

-se-ia que não respirava. Continuou assim, perdido

crn meditação, pemsando Om, ccxrr a sua alma oomo a scta apontada a Brame.

Uma vez, passaram pela cidad,e de Siddhartha

rtlguns samanas. Ascetas errantes, eram três ho,

rÌcns magros e consumidos, nem velhos nem novos,

tlc ombros sujos de e a sangrar, praticam€rìte

rrus, requeimados p€lo sol, solitários, estranhos e

lrostis-chacais escaÌìzelados no mundo dos ho

rrcns. Em redor deles pairava uma atmosfera de

serena paixão, de dedicação devastadora, de inexo-

r rivcl abnegação.

À noite, depois da hora de conternplação, Siddhar- tha disse a Govinda:

Amanhã de maahã, meu amigo, Siddhartha

tunta-se aos samanas. Tornar.se-á um sa!Ìutna. Govinda empaÌideceu ao ouvir tais palavras e leu tlu:isão no rosto determinado do amigo, u'ma drecisão

tiro firme e irredutível como a seta disparada pelo rr r co. Bastou-lhe um olhar a esse rosto para com- pro;nder que tudo com€çava, que Siddhartha ia se- lirrir o seu próprio caminhò. O szu destino começava

rr dcsenrolar.se, e com o destino de Siddhartha o

-

I

rb

deÌe, Govincla. Ficou tão pálido como uma casca de banana seca.

-Oh,

Siddhartha, o teu pai permiti-loá?

Si.ddhartha olhouo como se tivesse acabado de aoordar. Rápido como o reÌâmrpago, leu na alma de Govinda, compre:ndeu a sua alsiedade e a sua re-

signaçâo.

mur-

- Náo despcrdiçaremos palavras, Govinda -

m'urou, docemente.

Arnanhã, ao nascer do dia, ini-

-

ciarei a vida dos Samanas. Não discutamos mais o

assíunto.

Siddhartha entrou na sala onde o pai estava sen- tado numa esteira de entrecasca. Aproximou-se e pan:u, de pé, atrás do pai, à espera que ele desse

pela sua presença.

-És

tu, Siddhartha? -

Diz o q ur-' tens a dizer.

perguntou o brâmane. -

- Corn sua licença, pai, vi,m dizerlhe que desejo

deixar a sua casa amanhã e juntar-rne aos ascetas. Desejo tornar-me urn samaÍìa. Espe,ro que o pai não

se oponha.

0 brâmane fi,cou calado durante tanto teÍnpo que as estrelas passâram através da pequerna ja.nela e

o seu desenho mudou antes de o silêncio do apo-

sento se quebrar, finalrnrente. O filho permaneceu siÌe'ncioso e imóveÌ, de braços cruzâdos. O pai, silen-

cioso e imóvcl, continuou sentado na esteira. E as

estrelas iam passando, no oéu.

Por fim, o pai disse:

Não fica bem aos Brâmanes pncferi,rem pala-

,,,

-

vras violentas e coléricas, mas desagrado no meu

16

r olação. Não gostaria de te cruvir fazer seme,Ìhante

lrt tlido segunda vez.

() brârnane levantou-se devagar. Siddhartha per-

rrirrÌcc/:u silencioso e de braços cruzados.

- Porque esperas?

-

-.perguntou.lhe o pai.

Sabe o que espero.

O pai saiu do aposento, desçonten&, e estendeu-se

I lll ciìma.

( umo passasse uma hora sem que conseguisse

rlolmir, o brâmane Ìevantou-se, andou de um lado

o outro e depois saiu de casa. Olhou pela jane-

l)rra

lirrha da sala e viu Siddhartha de pé e de braços ( rlrzados, inóvel. O seu vestuário branco emitia rrrrr brilho frlrco. Voltou para a cama, com o coração

pr, r'turbado. Como passasse outra hora e o brâmane contifluasse scrn conciliar o sono, levantou-se no\r'amente, andou rlc um lado para o outro, saiu de oasa e reparou que

r, l-ua nasc:r?. Espreitou pela janelinha., Siddhartha

r'.ontinuava imóvel e de braços cruzados, com o luar rr brilharlhe nas canelas nuas. Com o coração per-

trrlbado, o pai voltou para a cama.

Levantou-se de novo passada uma hora e, passa- rlas duas horas, olhou pela janelinha e viu Siddhar-

tlra imóveÌ envolto em luar, imóvel à luz das estre-

las, imóveì na escuridão. Voltou silenciosamente,

lrora após hora, e hora após h ra o viu de pé, imó-

vcl. O seu coração encheu-se d-- cólera, de ansie,

rlade, de rnedo, de rnágoa.

E na uÌtima hora da noite, antes de nascer o dia,

voltot.r de novo, entrou no aposento, e viu o jovern

rlc pé. PareceuJhe alto e desconhecido.

17

(-

tl ìtl

-

-

Que esperas tu, Siddhartha?

Sabe o que tespero.

- Continuarás aí de pé, à espera, até ser dia, tarde, noìte?

Continuarei de pé, à espera.

-

 

Cansar-tc-ás, Siddhartha.

-

 

Cansar.m,:-ei.

-

 

Adorrnecerás, Siddhartha.

-

 

Não adormecerei.

-

 

Morrerás, Siddhartha.

-

 

Morrerei.

-

 

Preferias morrer a obedeoer ao teu pai?

-

 

Siddhartha obedeceu sempre ao seu pai.

-

Queres dizer que aba,ndonarás o teu pÌojecto?

-

 

Siddhartha fará o que o pai lhe disser,

-

. A primeira luz do dia entrou na sala. O brâmane notou que os joelhos de Siddharúa tremiam lelne mente, ffras não viu o mínimo tremor no seu rosto.

Os seus olhos, olhavam para muito longe. Então

o pai compreendeu que Siddhartha não poderia oon-

tinuar em casa com ele, pois o deixara.

O pai tocou no ombro do fitrho.

-Vd

Jhe.

-

para a floresta e torna-te sarnaaa

disse-

-

Se encontrares bem-aventurança na fÌoresta,

volta e ensina-ma. Se encontrares desilusão, regressa

e voltaremos a oferecer sacrifícios aos deuses, jun-

tos. Agora vai beijar a tua mâe e dizerlhe que par-

tes. Quanto a mim, úegou a.hora de ir ao rio fazer

a primeira ablução.

Tinou a mão do ombro do filho e saiu. Siddhartha

cambaleou, quando tentou andar. Dominou-se, incli-

rrou a cabeça ao

r'Ìc lhe mandara.

pai e foi ter com a mãe, fazer o que

Quando, ao nascer do dia e com as pcrnas dor-

rrrentes, saiu lentamente da cidade ainda adormerida,

rrrna sombra encolhida emergiu da última cabana e

juntou-se ao peregrilo, Era Govinda.

- Vieste -

- Vim -

disse Siddhartha, e sorriu.

respond,eu Govinda.

rl,

Oorn a Somnrs

Ao anoitecer desse dia alcançaram os samanas e ofereceram-lhes a sua companhia e submissão. Fo-

ram aceites.

Siddhartha deu as roupas a urn brâmane pobre

qu€ encontÌ,ou na estrada e ficou aponas com a tanga e a capa oor de terra sem pespontos. Só cornia trma vez por dia e nutca cozinhava os alimentos. J,ejuou

catorze dias. Jejuou vinte e oito dias. A carne desa-

pareceu das suas pernas e das suas faoes. Nos seus

olhos dilatados reflectiam-se estranhos sonhos. As

unhas cresceram, nos seus dedos magros, e no qnreixo

despontou-lhe uma barba seca e hirsuta. 0 seu olhar

gelava quando encontravâ mulhenes; os seus lábios arrepanhavam-se de desprezo quando passava por uma cidade cle gente bem vestida. Vúu otrnerciarìtes negociando, príncipes indo para a caça, giente enlu-

tada chorando os seus mortos, prostitutas ofereoen-

do-se, módicos cuidando de doentes, sacerdo,tes deci-

dindo o dia aproprìado para sem€ar, amantes aman-

do.se, mães ninando os filhos -

ceu digno de um olhar que fosse, era tlrdo mentira,

tresandava tudo a mentira. A felicidade e a beleza

mas nada Ihe par+

í

I

mais não eraÍn do que ilusões dos sentidos, cstava

tudo con'denado a apodrecer. O mundo tinha um gosto amargo. A vida era dor.

Siddhartha ,tinha um único objectivo: despejar-se, fiçar vazio de sede, des.ejo, sonhos, prazer e mágoa. Deixar o Eu morrer. Não ser mais Eu, oorúecer a paz de um coração vazio, conhecer o pensamento

puro. Era esse o seu objectivo. Quando o Eu esti-

vesse completamente vencido e morto, quando todas

as paixões e

todos os desejos estivessem silenciados,

então desp€rtaria o mais íntimo do Ser que não é Eu, o grande segredo!

Silenciosame,nte, Siddhartha parava sob os arden- tes rairos do sol, cheio de dor e de sede, parava até

nã,o sentir mais dor

sede. Silenciosamente,

'nem

parava delbaixo de chuva, com a água a escorrer-lhe do cabelo para os ombros enregelados e daí para os

quadris e para as pernas enregeladas. O asceta ficava

assim até deixar de sentir os ombros e as pernas

enregeladas, até os seus membros emmdecere'm, fica-

rem serenos. Silenciosamente, acocorava-se entre

espinhos. O sangue escorrialhe da pele a arder, for-

mavaÌn-s€: úlceras, e Siddhartha permanecia rígido,

imóvel, até não esoorrer mais sangue, até a pele

deixar de lhe ander e picar. Siddhartha s€ntava-se erecto e aprendia a poupar

o fôlego, a respirar pouco, a @nter a respiração.

Enquanto inaìava, aprendia a acalmar o bater do seu

coração, a reduzir as suas pancadas, até se toÌrÌarem poucas, até quase não existirern. Ensinado pelo mais veìho dos samairÌas, praticou a au on€gação e a meditação, de aoordo com as

22

regras sarnanas. Uma garça voava sobrc o bosque

cle bambu e Siddhartha recolhia-se na sua alma,

voava sobre florestas e montanhas, tornava-se urma

garça, comia peixes, sntia a fome das garças, usava

a linguagem das garças, morria a morte das garças'

Um úacal nìorto jazia na margeln areno'sa, e a

alma de Siddhartha i'nsinuava-se no seu cadáver, Siddhartha tornava-se um chacal mo'rto, iazia na

margsÌn, irrchava, fedia, apodrecia, era desm'embrado

por hienas, espicaçado

por abutres, tornavase esque-

misÍrrava-se com â atmosfera'

E a alma de Siddhartha regressava, morria, corrom-

pia-se, transformava-se ern pó, conìecia o caminho

atormsÍÌtado do ciclo da vida. Espereva clom nova

sede, como um caçador num abismo onde o ciclo

da vida termina, onde há um fim par:a as causas,

onde começa a eternidade indolor. Matava os senti- dos, matava a memória, saia do seu Eu de 'mil formas

diferentes. Era anirnal, carcaça, pedra, madeira e

água, mas reacordava todas as vezes. O Sol ou a

I-ua brilhalnam, ele era de novo Eu, regressava ao

ciclo da vida, tinìa sede, dominava a sede, e vol-

leto, tornav3-se pó,

tava a ter sed,e.

Siddhartha aprendeu

muito oom os Sarnarnas'

aprendeu muitas

t

rnaneiras de perder o Eu' Per-

o caminho da autonegação através da doa:,

através do sofrimento voluntário e do domínio da

dor, através da fome, da sede e da fadiga' Percorreu o caminho da autonegação através da rneditação, e

expulsando

a viajar

todas as imagens do espírito' Aprendeu

por estes e otrtros caminhos. Perdeu o Eu

23

r. n)il vczes e durante dias a fio vagueou num estado

I

dc

lão ser. Mas embora os caminhos o afastassem

do

Eu, no firn sempne a ele o reconduziam. Embora

Siddhartha fugisse mil vezes do Eu, fosse nada,

regresso el,a inevitável, era

inevitável a hora eÍn que se reencontrava de novo

fosse animal e pedra, o

ao sol ao luar, à sombra ou à chuva, e era de novo

Eu e Siddhartha, e de novo sentia o tormento do

pesado cicÌo da vida. A seu lado vivia Govinda, a sua sombra, que per-

corria o mesmo caminho e tentava os mesmos em-

preendimentos. Raramente conveq:savarÌn uqn com o

outro, aÌérn do que os seus serviços e práticas to,r'-

navam necessário. Às vezes atravessavam juntos

aldeias, a fim de esmolarem comida para eles e para

os seus mestres. Que te parece, Govinda? -

perguntou Siddhar-

-

tha, no início de uma dessas expedições.

Achas

-

que avançámos alguma coisa? AÌcançárnos o nosso

objectivo?

E Govinda respondeu:

Aprcndcm-os e ainda estamos a aprender. Tor-

-

nar-te'ás um grande samarÌìa, Siddhartha. Aprendes

todos os exercícios rapidamonte e os samanas velhos louvam-t€ com frequência. Um dia, serás um hornem

santo, siddhartha.

- Não me parece, m,3u amigo. Até agora, o que aprendi ç.om os Samanas poderi,a têìo aprendido mais depressa e mais facilmente em qualquer esta-

lagem de um bainrto de prostitutas, entre os carre-

gadores e os jogadores de dados.

24

- Brincas, Siddhartha. Como poderias lor irl)r'crr- dido a meditar, a conter a respiração e a scr irtst'tt

sível à fome e à dor entre esses desgraçados?

E Siddhartha redarguiu suavemsrìte, como se

falasse sozinho:

é a meditação? Que é o abandono do

-Que

corpo?

É

Que é jejuar? Que é contr a respiração?

urna fuga do Eu, e urna fuga temporária do

tormento do Eu. É um paliativo terrÌporário contra

a dor e a insensatez da vida? O boiadeiro faz a

mesma fuga, toma a mesma droga de efeitos tem- ponirios quando bebe algumas taças de vinho de arrcz ou leite de coco na estalagom. Deixa então

de sentir o Eu, de sentir a dor da vida, e experi-

menta uma evasão temporária. Ao adormecer sobre a sua taça de vinho de arroz, experirnenta o que Siddhartha e Govinda experimentam quando, gra-

ças a longos exercícios, se libertarn do corpo e erram

pelo não-ser.

Falas assim, meu amigo, e no entanto sabes

-

que Siddhartha não é nenhum boiadeiro e um samana

não é nenhum bêbedo-declarou Govinda.-O ébrio

experimenta, de facto, evasão, experimenta, de facto,

um breve alívio e repouso, mas despenta da ilusão

e encontra tudo como dantes. Não se Sornou mais sensato, não adquiriu conhecirnento, não subiu mais

alto. Siddhartha respondeuìhe, sorrindo:

Não sei, nunca fui um ébrio. Mas que eu,

-

Siddhartha, só consigo um breve alívio através dos

meus exercícios e das minhas meditações, e que me

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encontro tão ìonge da sabedoria e da salvação como

uma criança

Noutra

no útero materno, isso sei, Govinda'

ocasião, qua,ndo saiu da floresta com

Govinda a fim de esmolar comida para os seus irmãos e meslres, Siddhartha com€çou a falar e

perguntou:

Então, Crovinda, seguimos pelo caminho certo?

Estamos a adquirir saber? Aproximamonos da sal-

-

vação? Ou andaremos em círculos, nós <1uc ponsá- vamos escapar do círsulo ?

rcspondcu-lho

Aprendemos m;uito, Siddhartha

-

-

Govinda. -

E ainda temos de aprender muito mais'

circulos;

subimos. O caminho é

Não andamos em

uma espiral e nós subimos mruitos degraus'

Que idade calcuÌas terá o nosso samana mais

idoso, o nosso resPeitável mestre?

Creio que o

-

mais velho deve tcr ccrca de

-

sessenta anos.

Tem sessenta anos e não alcançou

-

o Nitwana

-

-

c-omentou Siddhartha.

anos, e tu e eu tornar-nos-emos tão velhos como ele, e faremos exercícios, e jejuaremos, e meditarcmos,

mas náo alcançaremos o Nirvana. Norn elc, nom nós'

Govinda, creio que entre todos os Samanas lalvez

neÍn um alcance o Nirvana. Encontra.mos consola-

aprendomos truques com os quais nos iludimos

Terá setenta ânos, c oitoÌìta

ções,

a nós próprios, mas o essencial -

o cami'nho -

,

isso náo encontramos.

digas palavras tão terríveis -

pediu Go

-Não

-

vinda

hornens sábios, erÌtre tantos brârnanes, entre tantos

Como poderia ser possível que entre lantos

samanas austeros e meritórios, entre tântos que

26

l

procuram, entr€ tantos devotados à vida interior,

entre tantos homens santos, nenÌrum eÍÌcontrass€ o

caminho certo? Mas Siddbartha respondeu-lhe, numa voz tão

cheia de mágoa como de zom,baria, numâ voz suave,

um pouco triste e um pouco brincalhona:

Em breve, C'ovinda, o teu amigo abando,nará

o caminho dos Samanas, ao longo do qual viajou

corÌtigo tanto tempo. Padeço de sede, Govinda, e

-

neste

diminuiu. Se.rnpre tive sede de saber, sernpre tive

muitas perguntas a fazer. Ano após ano interroguei

,longo caminho salna,na a minha sede não

os Brâmanes, ano após ano interroguei os sagrados Vedas. Quem sabe, Govinda, se não teria sido igual-

I mente bom, igual'mente inteligent€ e sagrado, se

houvera intexrogado o rinoceronte cru o chimpanzé? Precisei de muito ternlro, e ainda precisarei de mais para apronder o seguinte: que não apre.nde,rnos nada.

Acredito que existe na essência de tudo algo a que

não podomos chamar saber. Existe apenas, meu

amigo, um conhecimento -

es,tá em toda a parte, que é Atman, que está em mim,

em ti e em todas as criaturas, e eu começo a acre-

ditar que esse crynhecirnento não tsrn pior ini'rnigo

do que o homem sabedor, do que a sabedoria. Ao ouvir tais palavras, Govinda imobilizou-se no caminho, levantou as mãos e'pedi r:

um conhecirnento que

Siddhartha, não angusties o teu amigo com

palavras pertur-

csse falar. Em verdade, as tuas

-

bam-me. Pensa que

preces sagradas, a venerabilidade dos Brâmanes e

a santidade dos Samanas se, colno dizes, não hou-

significado teriaÍr

as nossas

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vesse saber. Que seria de tudo, Siddhartha, que seria

santo na Terra, que seria precìoso e sagrado? Go,vinda [Ìurmurou, para consigo, um versículo de um dos Upanishads:

Aquele cujo puro espírito rcllexivo mergulha em Atman Conhece uma beatitude ittexprimível pr palavras.

Siddhartha ficou calado, a reflectir longamente nas palawas proferidas por Govinda.

uSim,, pensou, de cabeça baixa, nque resta de tudo quanto nos parece santo? Que resta? Que

sobrevive?, E abanou a cabeça.

Uma vez, viviam os dois jovens haúa cerca de três anos com os