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EM CENA: AÇÃO

PEQUENO ENSAIO SOBRE A TEATRALIDADE NA MOBILIZAÇÃO CLÍNICA

CARLOS A . LUGARINHO

“Para mim, a personagem é definitivamente o outro, aquele que não sou e em cuja pele, por definição, não posso penetrar.” JEAN PAUL SARTRE

INTRODUÇÃO

Já foi dito em outro lugar e ocasião que a Formação Freudiana (FF) é uma das poucas ou talvez a única instituição psicanalítica que, apesar de conter em sua identificação a explícita referência a Sigmund Freud, não é na verdade alinhada em suas bases com o pensamento de Jacques Lacan. Mas mesmo mantendo esta ligação estreita, mais que um mero tributo, a FF se caracteriza pela busca da abertura de horizontes ao não excluir nenhum dos teóricos psicanalistas, assim como pensadores de outras áreas como a filosofia, física, artes, etc. do seu leque de referências, não obstante uma avaliação rigorosa e crítica da produção destes autores, abertura essa que não é nada além do paradigma do próprio psicanalista. Esta amplitude de influências propicia uma reavaliação contínua das diversas questões sobre as quais se debruçam os psicanalistas tanto nos aspectos de sua prática individual quanto institucionais. Um aspecto nos interessa aqui de modo especial é a transmissão e suas formas, a partir do ineditismo da Mobilização Clínica (MC) como elemento de discussão, aprofundamento e, por que não, criação de um pensamento psicanalítico, o que o termo mobilização mesmo não deixa margem a dúvidas e que não deixa de ser um indicativo da própria evolução do analista em formação.

A supervisão em psicanálise é tema de vários colóquios, simpósios e trabalhos, o que testemunha a importância do assunto e a diversidade de posicionamentos, chegando mesmo a ser o ponto de identificação de determinadas correntes, como no caso de Lacan que propôs toda uma escola a

partir da crítica à maneira como as instituições ligadas à IPA encaminhavam, e ainda o fazem, a avaliação dos proponentes ao lugar de psicanalista. Mas em que a MC é original? No que ela difere de uma sessão de

supervisão ou de outros meios de discussão e avaliação?

especificidade? Como abordá-la? Ética ou esteticamente? Após um primeiro contato, após a primeira exclamação, abre-se um espectro de possíveis formas de abordagem do tema tão amplo, que o desejo de divulgar este trabalho peculiar de uma instituição vem acompanhado de um forte sentimento de estarmos sendo presunçosos a ponto de deixarmos de lado tantas produções já existentes acerca da transmissão da psicanálise. Como sermos fiéis ou pelo menos respeitosos às teorias estabelecidas, mesmo que questionáveis, e obtermos um mínimo de originalidade? A resposta nos veio a partir de uma manifestação do inconsciente. Ao se iniciar o primeiro encontro da MC do qual tomamos parte, o impacto que anteriormente citamos tomou a forma de uma indagação: “Será que, ao tomar o papel de analisando, eu terei condições de expressar as palavras e gestos do meu real paciente, de modo a que o grupo possa avaliar o movimento transferencial dele? Ao mesmo tempo, se eu tomar o lugar de analista, como avaliar este mesmo movimento que o colega em minha frente estará tentando expressar?”.

Qual sua

Ao debruçarmos sobre essas frases, dois significantes se nos impuseram:

‘palavras e gestos’. O diferencial da Mobilização Clínica está em abrigar o gesto? A partir daí, a esses se articulou o significante ‘papel’, o que foi tecendo uma rede na qual foram agregados os termos personagem, teatro, movimento,

Será a MC uma encenação? Como então dar uma

especificidade psicanalítica, articulando numa mesma teia uma prática que privilegia a palavra e na qual o gesto é encarado como indesejável e até prejudicial, e outra que pode até mesmo prescindir da palavra contanto que o gesto possa ser? A chave pode estar no ato.

ação, atuação, cena

I

A correspondência Freud-Fliess pode ser tomada como a primeira experiência, ainda que não designada como tal, de supervisão, posto que observamos nela a necessidade que Freud tinha de um interlocutor que se dispusesse a intervir com apreciações, críticas e avaliações, o material que vinha a ser o embrião de uma ciência a ser chamada Psicanálise. Daí em diante houve os encontros das quartas-feiras, a fundação da IPA e toda estruturação institucional que desaguou numa forma de supervisão, em francês contrôle, muito criticada, porém ainda vigente. Não nos interessa aqui fazer uma revisão crítica dos rumos que tomou a supervisão dentro das instituições psicanalíticas, tanto por já haver inúmeros trabalhos sobre o assunto, divulgados por estudiosos que se debruçaram sobre ele com competência inquestionável, como pelo motivo de virem essas análises sempre acompanhadas do aspecto ideológico-político. Entretanto, desejamos citar aqui o trabalho de alguns autores que tratam da supervisão sem esse ranço, o que muito pode nos ajudar no delineamento de nossa pesquisa começando por um trecho de Daniel Kupermann (1), que escreve:

“Freud sempre combateu os ‘ecléticos’, considerados uma camada amortecedora entre a psicanálise e seus adversários, que deixa subsistir algo da análise em detrimento de suas verdades mais incomodativas. Por outro

lado, recusando a captura da psicanálise em um sistema totalizante e imóvel buscou delimitar o campo psicanalítico em torno de suas premissas fundamentais, deixando uma ampla margem para o surgimento de diferenças

,

Assim,

entre a recusa do sistema totalizante e a recusa do ecletismo,

encontra-se um amplo espaço de jogo para o desenvolvimento da psicanálise.”

Este ‘espaço de jogo’ tem sido preenchido por vários questionamentos e proposições acerca da função da supervisão e do lugar da que nela ocupa a transferência, os quais nos ajudam a estabelecer alguns critérios que esclarecem nossa linha de pensamento. A coletânea de ensaios “A SUPERVISÃO NA PSICANÁLISE” (2), é um exemplo instigante das diversas possibilidades de se pensar o tema. No texto escrito por Conrad Stein, comentando a ideologia da supervisão da forma como ela era praticada pela policlínica de Berlim, a chama de ‘atuação de uma fantasia’ e segue:

“Assim, sabe-se hoje que uma fastidiosa narrativa das sessões, que se desejaria tão fiel quanto possível, não informa o mínimo sobre o trabalho de um psicanalista; que, portanto, a arte de informar sobre a psicanálise de um paciente consiste em uma criação que procede de fato da própria análise de quem a pratica. Se o psicanalista pode dar valor deste modo ao que descobriu escutando um paciente, não poderia expor o trabalho do qual apenas este último poderia dar testemunho”.

Não menos provocadora é Maud Mannoni, que ao se referir a outro trabalho de C. Stein, afirma se alinhar ao pensamento deste

ele menciona o lugar do morto que o paciente está

arriscado a ocupar nos casos em que o supervisor faz deste paciente seu assunto pessoal.”

quando “

E mais adiante avança colocando

“ A questão ‘quem fala a quem?’ define o eixo em torno do qual a supervisão se dispõe. É sensibilizando o candidato para esta interrogação que se deixa a ele e a seu supervisor a possibilidade de permanecer expostos ao inconsciente.”

Seria impossível descrever todo o conjunto de idéias expresso nestes ensaios, entretanto ainda desejamos citar um trecho do estudo de Tierry Bokanowski , A Caça ao Snark do Supervisionado – 2, o qual propõe a avaliação da transmissão da psicanálise através da supervisão pela observação de três tempos distintos, a saber: o supervisionado escuta o paciente; o supervisionado escuta sua escuta do paciente; e, por fim, o supervisor escuta a escuta do supervisionado e a escuta do paciente. Desse modo, complementa Bokanowski,

“Parece-me que é à parte, entre estas duas escutas (a do supervisionado e a do supervisor em relação ao paciente) que vai se criar um espaço, permitindo esta transmissão porque, também em função deste afastamento – e no seu interior – o supervisionado seria reenviado à sua própria análise e à continuação de sua auto-análise. Como com seu analista, na sua análise ele reencontrará o supervisor no lugar onde ele não o espera. Ali, onde ele pensa em termos de conteúdos, aquele lhe falará de processos, ou inversamente. Ali onde ele se interroga sobre o tipo de transferência de seu paciente, aquele, discretamente, o fará observar que se trata, talvez do mesmo modo, de sua contratransferência ou de uma resistência ao material do paciente alimentada por um tipo particular e momentâneo da transferência lateral sobre o supervisor”.

Não podemos nos esquecer também da proposição feita por Jean-Paul Valabrega no mesmo volume acerca da ‘Análise Quarta’, objeto de explanação em outro ensaio (3), que poderíamos sintetizar dizendo que, por ser uma experiência interpsicanalítica, a supervisão ideal contaria com quatro agentes, a saber, o paciente, o analista, o analista do analista e o supervisor, estrutura que não permitiria, ou que pelo menos, evitaria em grande parte os efeitos negativos da supervisão associada à análise pessoal.

A partir destes breves extratos, podemos fazer algumas considerações:

A supervisão existe dentro das instituições psicanalíticas a partir ou de uma

oferta ou de uma demanda, ou ainda associadas; o relato que o analista em formação faz de seu trabalho junto ao paciente é uma criação, a qual mais do que revelar os caminhos do desejo do analisando e do destino dado a ele na relação transferencial para uma avaliação e possível endosso, é indicador eloqüente da sua reação contra-transferencial, exposta através dos comentários do supervisor acerca do que o analista não escutou do discurso do paciente, o que nos faz concluir que, utilizando termos lacanianos, o lugar do supervisor

deve ser sempre o de sujeito suposto saber, facilitando ao formando as condições de assumir o lugar de objeto a; a supervisão é uma interseção imprescindível na formação da rede psicanalítica que promove a sua transmissão; a possibilidade de ‘transferências laterais’, na verdade indicaria a liberdade de se encarar a supervisão através de diferentes características formais, desde que preservado o único conteúdo que é a ampliação da rede que acima enfocamos. A MC, através de seus atributos próprios, deve ser avaliada não apenas como uma forma diferente de supervisão, mas também, senão principalmente, posto que muitas vezes as discussões incluem os relatos das intervenções feitas pelos supervisores dos diversos participantes, uma supervisão lateral, que permite a abertura de horizontes no encaminhamento dos casos apresentados, além de uma possível observação da linha de trabalho, mesmo que não crítica, dos estilos dos vários supervisores atuantes dentro da instituição. Ao nosso ver, o diferencial da MC, em relação a outras modalidades de supervisão, seja individual ou em grupo, é que ela associa como ferramentas de trabalho o relato das sessões, ou seja, a palavra, ao gesto, ou ainda, à observação de como a transferência age no inconsciente, via corpo, do analista em formação, através

da encenação de uma sessão psicanalítica.

II

Para os que não conhecem e de maneira breve e resumida, podemos assim descrever um encontro de Mobilização. Em uma sala da instituição, as cadeiras são dispostas em círculo, as quais serão ocupadas pelos participantes, sendo duas cadeiras colocadas no centro do deste círculo. Ali, dois ‘formandos’ se colocarão, um no papel de analista, outro tomando parte como paciente, tendo este último, portanto, invertido sua posição em relação àquela assumida em seu real local de atendimento. Ou seja, quem assume a posição de paciente é um analista que tenha alguma dificuldade no manejo transferencial de um determinado paciente, ou apenas deseje apresentar um caso que desperte interesse. Deste lugar ele fala a partir do que ouviu do discurso do paciente real; vai falar dos problemas, queixas, medos, enfim das impossibilidades do seu paciente, ao que o outro, investido do papel de analista eventualmente, como numa real sessão, intervém com pontuações acerca do que lhe é dito. Note-se que não é cobrada daquele que fala qualquer tipo de linearidade temporal ou discursiva, podendo ele mesmo associar livremente diversos discursos, de modo que, numa mesma ‘sessão’ possa ser apresentada num único relato a conjugação de vários encontros ocorridos, não importando inclusive uma seqüência cronológica. O relato também não tem limite de tempo. Após considerada suficiente, é aberta discussão com os demais participantes, os quais, então poderão emitir suas próprias pontuações, sempre à luz da teoria psicanalítica e sempre com a intervenção de um mediador. Desta maneira, podemos dizer que o setting analítico é então transferido para essa sala, de forma até certo ponto invertida, que, juntamente com os comentários dos demais colegas possibilitarão novas falas e novas escutas no encaminhamento clínico do tratamento. Descrevemos no capítulo acima esta forma de exercício como uma encenação, que aqui assume um contexto de jogo de simulação, ou seja, de algo que permite uma representação, no caso cênica,

entretanto totalmente desprovido de um caráter farsesco que, em outras circunstâncias poderia sobrevir. Mas por que encenação? Porque, numa situação como a descrita, é impossível aos participantes evitarem a observação dos dois participantes

enquanto a sessão se desenrola. Muitas vezes os comentários que se seguem à apresentação/representação, são feitos não só a partir das palavras por eles ouvidas, mas também das posturas, dos olhares, dos gestos, dos atos, enfim, tanto de um como de outro. Na verdade, se formos fazer uma correlação entre um encontro da mobilização clínica e uma formação psicanalítica, é o grupo que assume a função de supervisor, senão vejamos:

- o “analisando” - fala o que escutou do paciente

- o “analista” - escuta a fala do analista/paciente

- o grupo - escuta a escuta do paciente, e do ‘analista’

- o mediador - assegura a teoria a partir das análises empreendidas

III

Tomando por base a descrição anterior, fica evidente a teatralidade que perpassa estes encontros da MC, se não se constitui sua essência diferencial. Mas, não estaríamos sendo precipitados ao qualificar de teatral uma forma de trabalho cuja base é uma reflexão epistemológica rigorosa? Seria a MC uma corruptela de um psicodrama? Em que ponto se cruzam a ciência psicanalítica e a arte cênica? Como abordar a ciência cênica? Um primeiro enfoque seria o de estabelecer alguns parâmetros acerca da estrutura do teatro. Todos sabemos das dificuldades de se analisar semiologicamente uma expressão artística, principalmente em virtude da riqueza e complexidade que tal tarefa supõe. Várias tentativas tem sido perpetradas com o objetivo de estabelecer os signos que caracterizam-na em suas variadas formas. Desse modo, aqui apresentamos algumas considerações, obviamente segmentadas, de alguns autores que se acercaram da tarefa. De início, cabe-nos esclarecer que, apesar da importância da linguagem falada

nesta manifestação artística, interessa-nos mais a avaliação da ‘teatralidade’ conforme definida por Roland Barthes, ou seja teatro sem palavras, pois como poderemos constatar adiante, e seguindo a afirmação de Jindrich Honzl,

a ação é a mola mestra, a essência mesmo, da arte dramática, conforme

encontrado em uma coletânea de textos. (4) Na mesma seleção, Tadeuz Kowzan cerca-se de outros pensadores para fazer

uma abordagem semiológica da arte teatral, e considera que a arte do espetáculo

é a que produz signos com a maior variedade e densidade, mesmo que

possamos considerar que a maior parte desses signos sejam pertencentes a uma linguagem não lingüística como diria Jakobson, ou sistemas de significação não lingüísticos. Para ele, na representação tudo é signo, e poucas vezes estes se encontram em estado puro, daí sua análise partir do resultado (o espetáculo como realidade existente) para estabelecer que ‘os signos que a arte teatral

emprega pertencem todos à categoria de signos artificiais’ tomando por base a constatação de que são criados de forma voluntária com o objetivo de estabelecer uma comunicação imediata, instantânea e de especificidade peculiar. Kowzan propõe treze sistemas de signos que permitem estabelecer uma investigação semiológica da ciência cênica e cuja característica predominante é a intercambialidade possível e desejável entre eles a fim de obtermos a riqueza e complexidade que citamos acima. Aqui contentamo-nos com seis, que são:

A

Palavra – com suas alternâncias rítmicas, prosódicas ou métricas;

O

Tom -

compreendendo elementos como a entonação, o ritmo, a

velocidade e a intensidade; A Expressão Facial – que muitas vezes são capazes de por si só substituir a palavra;

O Gesto – considerado como movimento para criar ou comunicar

signos;

A Marcação – signo cinético que compreende as relações com o

espaço cênico;

O Cenário – representação de um espaço e de um tempo.

Em um outro viés, José Teixeira Coelho Neto em seu texto Em Cena, O Sentido (5), analisa o jogo teatral do ponto de vista de um espectador e propõe em lugar da intercambialidade a tessitura de uma rede significante, observando que a teatralidade se dá em dois níveis: no primeiro estão o Espaço Trabalhado ( a cena ) e nela os personagens, que iniciam o Jogo, segundo ele um conjunto de regras determinantes do relacionamento entre os dois. Para Coelho Neto, toda vez que se tiver Personagem, Cenário e Jogo, tem-se teatro. O outro nível é o Tempo, designado aqui como uma alteração de estados, noção intrinsecamente ligada à de espaço, completando assim o conceito de Texto Teatral. Este ‘texto’ é proferido por Actantes, sujeitos (animados e inanimados) e objetos (animados ou inanimados), que investem entre si através de Máscaras

ou seja, representações de uma determinada realidade, o que resulta numa configuração mais metafórica que real. Cabe aqui a introdução de um terceiro nível que é o Eixo Cena-Espectador. Considerando-se o espectador como um componente do texto teatral, ele pode ser considerado um Actante ‘passível de sofrer um processo de investimento de uma Máscara e de ver-se atribuir (ou de definir, ele mesmo) um Espaço próprio´ não previamente determinado, mas ponto de referência das personagens. Todos estes elementos são considerados Intérpretes, mas não somente. Se Umberto Eco diz que Interpretante é aquilo que garante a validade do signo mesmo na ausência do

Intérprete, Coelho Neto, por julgar que o texto teatral só tem sentido no eixo cena-espectador, sugere que se tratem estes três elementos, a Cena, o Espectador e o referido eixo como Interpretantes deste mesmo texto. Neste ponto, indo mais além da idéia do autor que propõe essa fusão entre Intérpretes- Interpretantes e tomando por base a afirmação sartreana que abre este estudo, se

a personagem é aquele em cuja pele não se pode entrar por definição, a função

interpretativa do Espectador só se pode exercer desde que entre ele e a Cena se considere o Eixo como tendo uma função de integração mas ao mesmo tempo de isolamento entre estes dois elementos. Daí que, se este eixo for apenas integrativo, deixa de existir o Espectador para ser Actante, o que o teatro moderno por muitas vezes experimenta. Para Sartre há um muro entre eu (ator)

e o outro (platéia) constituído pela função do olhar. É o olhar que determina o

Eixo. O personagem que olha o espectador assimila-o à Cena; o teatro termina,

o personagem e o imaginário desaparecem. No momento em que o outro olha o

eu, desaparece o texto teatral; não é o personagem que olha, mas sim o ator e todos se tornam actantes de uma mesma representação. No contexto de uma sessão da MC, poderíamos afirmar que o paciente (ausente) é aquele sob cuja pele o analista não pode entrar, o texto enunciado passa a ser dele, além do

que o olhar torna a todos presentes actantes de um mesmo enunciado maior.

IV

Até aqui, portanto, pudemos observar que a teatralidade é constituída pelo ato, seja da palavra, do gesto, ou da movimentação dentro da cena. Ao propor a representação de uma sessão analítica como fonte de estudo, a MC propõe um ato, sem platéia, somente actantes, de um texto que está sendo construído naquele tempo e espaço específicos, por mais que o ‘texto’ do

paciente seja o elemento catalisador da cena. Este texto é proferido com o olhar

do enunciante posto sobre o receptor, não mais do paciente, mas daquele que o

profere. Isto se torna mais claro quando observamos que num mesmo encontro possam ser resumidas (ou não) uma ou várias sessões analíticas do paciente. É

o ‘actante’ que, de acordo com seus próprios movimentos em relação ao

paciente, escolhe quanto e quando. Por esta razão, mais do que apresentar os caminhos do desejo do paciente original, a MC permite avaliar os caminhos do desejo do analista em relação ao seu paciente através da observação de sua própria ‘atuação’. Mas será que poderíamos aqui ensejar uma inter-relação entre a atuação de que falamos até agora com a atuação (acting out) no contexto da teoria psicanalítica? No texto freudiano, ou pelo menos em sua tradução, encontramos uma relação estreita entre atuação, ação e atualização. Em 1914 (7), Freud trabalha o conceito de acting out tratando-o enquanto retrato da resistência e espelho da repetição, o que fica evidenciado em trechos como:

dizer que o paciente não recorda coisa alguma do que

esqueceu ou reprimiu, mas expressa-o pela atuação ou atua-o (acts it out). Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem naturalmente,

saber o que está repetindo.”

podemos “

ou ainda, mais adiante,

que devemos tratar sua doença não como um acontecimento do passado, mas como uma força atual. Este estado de enfermidade é colocado,

fragmento por fragmento, dentro do campo e alcance do tratamento

Por parte do analista poder-se-ia afirmar que ele atua se deixa seu próprio desejo invadir o setting analítico, ou quando abre mão do silêncio sobre si mesmo. Entretanto a MC torna-se uma Cena onde não só essa atuação é possível como se torna um elemento primordial para uma avaliação de seu movimento contra-transferencial. Na sessão da MC o actante analista está acting-in seu paciente, ou seja, atuando o modo como seu inconsciente foi atravessado pelo inconsciente do paciente. Através de uma representação de cunho teatral ele está expondo sua própria rede de significantes na qual se incorporaram alguns que lhe foram oferecidos pelo outro.

Para finalizarmos, citamos Marília Sodré (8), que afirma:

“A arte que está contida neste ofício parece ser a do Monge somada à do Mágico, nunca a do Ator.”

Ela nunca esteve presente à Mobilização Clínica.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

(1)

KUPERMANN, Daniel – Transferências Cruzadas – Rio de Janeiro:

(2)

Revan, 1996, p. 215 STEIN, Conrad et. Al – A Supervisão na Psicanálise – São Paulo:

(3)

Escuta, 1992, p. 22 MANNONI, Maud. Idem, P.38 BOKANOWSKI, Thierry. Idem, P. 93 VALABREGA, Jean-Paul – A Formação do Psicanalista – São Paulo:

(4)

Martins Fontes, 1983 HONZL, Jindrich – A Mobilidade do Signo Teatral in O SignoTeatral – A Semiologia Aplicada à Arte Dramática (Vários Autores) – Porto Alegre:

Editora Globo, 1977, p.51 KOWZAN, Tadeusz – O Signos no Teatro, Idem, p. 64 (5) COELHO NETO, José Teixeira – Em Cena, o Sentido: Semiologia do Teatro – São Paulo: Duas Cidades, 1980, p.79 (6) FREUD, S. – Recordar, Repetir e Elaborar ( Novas Recomendações sobre a Técnica da Psicanálise II) – In. Edição Standard Brasileira. Vol. XII – Rio de Janeiro: Imago, 1980, p. 196 e 198 (7) SODRÉ, Marília – O Monge, o Mágico, o Analista e o Ator. In Tempo Psicanalítico Vol. 26 – Rio de Janeiro: SPID, 1992, p. 145