Sei sulla pagina 1di 122

Universidade do Sul de Santa Catarina

Disciplina na modalidade a distância

Criminalística e Investigação Criminal

Palhoça

UnisulVirtual

2006

Apresentação

Este livro didático corresponde à disciplina Criminalística e Investigação Criminal.

O material foi elaborado visando a uma aprendizagem autônoma, abordando conteúdos especialmente selecionados e adotando uma linguagem que facilite seu estudo a distância.

Por falar em distância, isso não significa que você estará sozinho.

Não esqueça que sua caminhada nesta disciplina também será acompanhada constantemente pelo Sistema Tutorial da UnisulVirtual. Entre em contato sempre que sentir necessidade, seja por correio postal, fax, telefone, e-mail ou Espaço Unisul Virtual de Aprendizagem. Nossa equipe terá o maior prazer em atendê-lo, pois sua aprendizagem é nosso principal objetivo.

Bom estudo e sucesso!

Equipe UnisulVirtual.

Maria Carolina Milani Caldas Opilhar

Criminalística e Investigação Criminal

Livro didático

Design instrucional Carmen Maria Cipriani Pandini

Palhoça

UnisulVirtual

2006

Copyright © UnisulVirtual 2006 N enhum a parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer m eio sem

a prévia autorização desta instituição.

341.598

O69

Opilhar, Maria Carolina Milani Caldas Criminalística e investigação criminal : livro didático / Maria Carolina Milani Opilhar ; design instrucional Carmen Maria Cipriani Pandini. – Palhoça :

UnisulVirtual, 2006. 122 p. : il. ; 28 cm.

Inclui bibliografia. ISBN 85-60694-33-1 ISBN 978-85-60694-33-4

1. Crime e criminosos. 2. Inquérito policial. I. Pandini, Carmen Maria Cipriani. II. Título.

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Universitária da Unisul

Créditos

Unisul- UniversidadedoSuldeSantaCatarina UnisulVirtual- EducaçãoSuperioraDistância

Cam pusUnisulVirtual Rua João Pereira dos Santos,

Adm inistração

303

Renato AndréLuz

Palhoça - SC- 88130-475

Valmir Venício Inácio

Fone/fax:(48)3279-1541e

3279-1542

Bibliotecária

E-mail:cursovirtual@unisul.br

Soraya Arruda W altrick

Site:www.virtual.unisul.br

ReitorUnisul Gerson LuizJoner da Silveira

CoordenaçãodosCursos Adriano Sérgio da Cunha Ana Luisa M ülbert

Lilian Cristina Pettres (Auxiliar)

Vice-ReitorePró-Reitor Acadêm ico Sebastião Salésio Heerdt

Ana Paula ReusingPacheco Cátia M elissa S.Rodrigues (Auxiliar) Charles Cesconetto

Chefedegabineteda Reitoria Fabian M artins de Castro

Diva M arília Flemming Elisa FlemmingLuz Itamar Pedro Bevilaqua Janete Elza Felisbino

Pró-ReitorAdm inistrativo M arcus Vinícius Anátoles da Silva

Jucimara Roesler

Lauro JoséBallock LuizGuilherme Buchmann

Ferreira

Figueiredo

LuizOtávio Botelho Lento

Cam pusSul

M

arcelo Cavalcanti

Diretor:Valter Alves Schmitz

M

auri LuizHeerdt

Neto

M

auro Faccioni Filho

Diretora adjunta:Alexandra

M

ichelle Denise DurieuxLopes

Orseni

Destri

Cam pusNorte Diretor:Ailton Nazareno Soares Diretora adjunta:Cibele Schuelter

Nélio Herzmann Onei Tadeu Dutra Patrícia Alberton Patrícia Pozza Raulino JacóBrüning

Cam pusUnisulVirtual

Design Gráfico

Diretor:João Vianney

Cristiano Neri Gonçalves Ribeiro

Diretora adjunta:Jucimara

(coordenador)

Roesler

Adriana Ferreira dos Santos

EquipeUnisulVirtual

AlexSandro Xavier Evandro Guedes M achado

Fernando Roberto Dias

EquipeDidático-Pedagógica

Vanessa Francine Corrêa

(coordenador)

Zimmermann

Eduardo Kraus

Higor Ghisi Luciano Pedro Paulo Alves Teixeira RafaelPessi Vilson M artins Filho

Angelita M arçalFlores Carmen M aria Cipriani Pandini Carolina Hoeller da Silva Boeing Cristina Klippde Oliveira Daniela Erani M onteiro W ill

M onitoriaeSuporte Rafaelda Cunha Lara (coordenador) Adriana Silveira Caroline M endonça Edison Rodrigo Valim

Francielle Arruda Gabriela M alinverni Barbieri Gislane Frasson de Souza Josiane Conceição Leal

Dênia Falcão de Bittencourt

M

aria Eugênia Ferreira Celeghin

Elisa FlemmingLuz Enzo de Oliveira M oreira

Simone Andréa de Castilho Vinícius M aycot Serafim

Flávia Lumi M atuzawa Karla Leonora Dahse Nunes

ProduçãoIndustriale

Leandro Kingeski Pacheco

Suporte

Ligia M aria Soufen Tumolo

Arthur EmmanuelF.Silveira

M árcia Loch

(coordenador)

Patrícia M eneghel

Francisco Asp

Silvana Denise Guimarães Tade-Ane de Amorim Vanessa de Andrade M anuel

ProjetosCorporativos Diane DalM ago Vanderlei Brasil

Viviane Bastos

Viviani Poyer

SecretariadeEnsinoa

Grasiela M artins

LogísticadeEncontros Presenciais Caroline Batista (Coordenadora) Aracelli Araldi Graciele M arinês Lindenmayr JoséCarlos Teixeira

Distância Karine Augusta Zanoni (secretária de ensino) Djeime Sammer Bortolotti Carla Cristina Sbardella

James M arcelSilva Ribeiro

Letícia Cristina Barbosa

LamuniêSouza

Kênia Alexandra Costa Hermann

Liana Pamplona

M arcia Luzde Oliveira

M

aira M arina M artins Godinho

Priscila Santos Alves

M

arcelo Pereira

M

arcos Alcides M edeiros Junior

LogísticadeM ateriais

M

aria IsabelAragon

Jeferson Cassiano Almeida da Costa

Olavo Lajús Priscilla Geovana Pagani

Silvana Henrique Silva

SecretáriaExecutiva Viviane Schalata M artins

Tecnologia Osmar de Oliveira BrazJúnior (coordenador) Ricardo Alexandre Bianchini Rodrigo de Barcelos M artins

Edição– LivroDidático

ProfessorConteudista M aria Carolina M ilani Caldas Opilhar

Design Instrucional Carmen M aria Cipriani Pandini

ProjetoGráficoeCapa

Equipe UnisulVirtual

Diagram ação

Pedro Teixeira

RevisãoOrtográfi ca

B2B

Sumário

Palavras da professora

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

09

Plano de estudo

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

11

UNIDADE

1

Criminalística

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

17

UNIDADE 2 – Metodologia de redação de laudos periciais

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

33

UNIDADE

UNIDADE

UNIDADE

3

4

5

Investigação policial

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

49

Técnicas de Investigação Criminal

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

69

Limites da Investigação Criminal

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

91

Para concluir o estudo

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

109

. Sobre a professora conteudista

Referências

.

.

. Respostas e comentários das atividades de auto-avaliação

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

111

115

117

Palavras da professora

Prezado(a) aluno(a):

O presente livro tem por objetivo estudar a

Criminalística e a Investigação Criminal.

estudar a Criminalística e a Investigação Criminal. Para tanto, inicio apresentando o tema a partir do

Para tanto, inicio apresentando o tema a partir do seu conceito para possibilitar uma compreensão contextualizada sobre o conjunto de conhecimentos acerca da pesquisa, coleta, conservação e exame dos vestígios, possibilitando a realização da prova pericial, que é objeto da criminalística.

Em seguida, você vai estudar mais detalhadamente sobre as perícias, concebidas como as provas técnicas produzidas pelos peritos, de suma importância para apuração da materialidade e autoria do crime.

Você terá a oportunidade de estudar também como

se constituem os locais de crime, a importância do

isolamento e da preservação de provas na área onde o crime foi cometido e sobre os procedimentos empregados no exame de levantamento de local, possibilitando a confecção do laudo de exame de levantamento de local,

de

suma relevância à investigação criminal.

O

livro aborda, ainda, a metodologia de redação

de

laudos periciais, que segue padrão metodológico

importante para a sua compreensão, na condição de prova técnica e irá conhecer alguns modelos de laudos periciais.

Na parte que aborda a Investigação Criminal, faço breves comentários sobre o conceito e o histórico da Polícia, assunto relevante para compreender a função investigação criminal na atualidade, mencionando as competências das Polícias dispostas pela Constituição

Federal de 1988, todas atuando nas suas atribuições com a nalidade de prover segurança à sociedade.

Em seguida, apresento e discuto o conceito da investigação criminal, concebendo-a como o trabalho realizado pelas Polícias Federal e Civil, dentre outros órgãos, com o objetivo de apurar infrações criminais, amealhando provas técnicas e testemunhais para subsidiar o processo criminal.

Neste estudo, você terá a oportunidade de estudar sobre o inquérito policial, constatando tratar-se de procedimento sigiloso, inquisitivo e informativo, de competência exclusiva das Polícias Federal e Civil, no qual a investigação criminal é formalizada. Cito, neste contexto, algumas técnicas de investigação criminal, considerando ser imprescindível ao êxito da atividade investigativa policial à adoção de metodologia e técnicas adequadas.

Por fim, você terá a oportunidade de conhecer os limites da investigação policial, que necessita atuar sempre respeitando normas materiais e processuais inerentes a um Estado Democrático de Direito. Dentre estas normas, importante mencionar os direitos fundamentais elencados pela Constituição Federal de 1988, porquanto a busca pela prova na atividade investigativa não é absoluta.

Espero que o conteúdo tratado neste livro traga informações e subsídios úteis ao seu cotidiano de trabalho e que possa minimizar os problemas de Segurança Pública existentes no Brasil.

Profa. Maria Carolina

Plano de estudo

Plano de estudo Plano de Estudo O plano de estudo visa a orientar você no desenvolvimento

Plano de Estudo

O plano de estudo visa a orientar você no

desenvolvimento da Disciplina. Ele possui elementos que o ajudarão a conhecer o contexto da Disciplina e a organizar o seu tempo de estudos.

O processo de ensino e aprendizagem na UnisulVirtual

leva em conta instrumentos que se articulam e se complementam, portanto, a construção de competências

se dá sobre a articulação de metodologias e por meio das diversas formas de ação/mediação.

São elementos desse processo:

O Livro didático.

O EVA (Espaço Unisul Virtual de Aprendizagem).

Atividades de avaliação (complementares, a distância e presenciais).

Ementa

Criminalística. Conceito. Perícias. Locais de crime. Metodologia de redação de laudos periciais. Modelos

de laudos periciais. Investigação Criminal. Conceito e

histórico da polícia. Conceito de investigação criminal. Conceito de prova. Evolução histórica da prova criminal. Inquérito policial. Técnicas de investigação criminal.

Carga horária

60 horas-aula.

Objetivos da disciplina

Geral

Obter conhecimento teórico acerca da criminalística e da investigação criminal.

Específicos

Conhecer os conceitos e objetivos da criminalística.

Descrever as perícias e a sua importância como prova criminal.

Saber acerca dos locais de crime, a necessidade do isolamento para a preservação das provas e os procedimentos empregados no exame de levantamento de local.

Conhecer a metodologia aplicada para a redação de laudos periciais.

Compreender os conceitos e objetivos da investigação criminal.

Conhecer a prova criminal, seu conceito e sua evolução histórica.

Conhecer o inquérito policial.

Descrever as técnicas de investigação criminal e estar apto a aplicá-las.

Unidades de estudo: 5

Unidade 1 - Criminalística

Unidade 2 - Metodologia de Redação de Laudos Periciais

Unidade 3 - Investigação Criminal

Unidade 4 - Técnicas de Investigação Criminal

Unidade 5 - Limites da Investigação Criminal

Agenda de atividades/ Cronograma

Verifique com atenção o EVA, organize-se para acessar periodicamente o espaço da Disciplina. O sucesso nos seus estudos depende da priorização do tempo para a leitura; da realização de análises e sínteses do conteúdo; e da interação com os seus colegas e tutor.

Não perca os prazos das atividades. Registre no espaço a seguir as datas, com base no cronograma da disciplina disponibilizado no EVA.

Use o quadro para agendar e programar as atividades relativas ao desenvolvimento da Disciplina.

Atividades Avaliação a Distância 1 Avaliação a Distância 2 Avaliação Presencial Demais atividades (organize
Atividades
Avaliação a Distância 1
Avaliação a Distância 2
Avaliação Presencial
Demais atividades (organize sua agenda)

UNIDADE 1

Criminalística

Objetivos de aprendizagem

Compreender a Criminalística como um conjunto de conhecimentos científicos utilizados para a elaboração da prova pericial.

Estudar as perícias, os locais de crime e os procedimentos empregados no exame de levantamento de local, en fatizando a importância do isolamento da área onde ocorreu o delito.

Seções de estudo

Seção 1

Criminalística: conceituação

Seção 2

Perícias

Seção 3

Locais do Crime

Seção 4

Levantamento pericial: procedimentos empregados no exame do local

1

Universidade do Sul de Santa Catarina

Universidade do Sul de Santa Catarina Para início de estudo As Polícias Investigativas mais avançadas priorizam

Para início de estudo

As Polícias Investigativas mais avançadas priorizam a prova pericial, considerando que, por ser científica, é mais difícil de ser refutada, contrariada. Também, as Polícias do Brasil que têm como competência a apuração de crimes vem seguindo este norte.

Concebendo-se a perícia como prova primordial para a elucidação dos delitos, o estudo da Criminalística afigura-se como de extrema relevância.

Vamos ao estudo, então? Comecemos pelo conceito.

SEÇÃO 1 - Criminalística: conceituação

Não deve lhe ser novidade que a Constituição Federal de 1988 estabelece que a segurança pública, no nosso País, é dever de Estado e é exercida por diversas Polícias. Em seu artigo 144, a Carta Magna definiu as competências das Polícias, dispondo,

Neste livro, a autora apresenta como sinônimos os termos infração penal, crime e delito.

dentre outros,

compete à Polícia Militar e a apuração das infrações penais

que o policiamento ostensivo, preventivo

compete às Polícias Federal e Civil, esta também chamada de Polícia Judiciária. As competências das Polícias serão objeto de discussão, porém, serão detalhadas posteriormente.

Você teve a oportunidade de ver, nos estudos anteriores, que a Polícia Civil, via de regra, atua repressivamente, após a prática do crime e o seu objetivo é a elucidação dos delitos, procurando

demonstrar a existência do fato criminoso, a autoria e estabelecer

as condições em que o crime ocorreu. através da investigação policial.

Este trabalho é feito

através da investigação policial. Este trabalho é feito É interessante notar que a investigação policial é

É interessante notar que a investigação policial é formalizada através de peça preliminar e informativa denominada inquérito policial, o qual subsidia o processo criminal. Após a conclusão do inquérito policial, este é remetido ao Poder Judiciário, que poderá valer-se das provas amealhadas na fase policial durante o processo criminal e na prolatação da sentença.

Criminalistica e Investigação Criminal

Neste contexto, o trabalho pericial é de suma importância, para demonstrar materialidade e autoria do crime. Via de regra,

a perícia é realizada na fase policial, até porque muitas delas

necessitam serem feitas imediatamente ou logo após a prática do crime.

As Polícias Investigativas mais avançadas do mundo têm como

prioridade o trabalho pericial, menos sujeito a falhas do que

a prova testemunhal. Acerca deste tema Espíndula (2002),

discorre:

) (

fundamentação científica, enquanto que as chamadas provas subjetivas dependem do testemunho ou interpretação das pessoas, podendo ocorrer uma série de erros, desde a simples falta de capacidade da pessoa em relatar determinado fato, até o emprego de má-fé, onde exista a intenção de distorcer os fatos para não se chegar à verdade. (ESPÍNDULA, 2002:22).

a prova pericial é produzida a partir de

É importante notar, ainda, que no sistema processual penal brasileiro, as pessoas ouvidas na Delegacia de Polícia são reinquiridas em Juízo, o que pode relativizar o valor probatório do que foi dito na fase policial. Já a prova técnica é científica, objetiva, portanto, mais difícil de ser contestada.

ca, objetiva, portanto, mais difícil de ser contestada. No Brasil não há hierarquia entre as provas

No Brasil não há hierarquia entre as provas e o Juiz pode decidir de acordo com a sua consciência, desde que o faça motivadamente. É o chamado sistema da persuasão racional adotado pelo artigo 157 do Código de Processo Penal Brasileiro.

Desse modo, temos um sistema processual penal que permite todos os meios de prova, a princípio, com o mesmo valor probatório. Ocorre que analisando as sentenças criminais verifica- se a prevalência da prova pericial sobre as demais, pelos motivos já expostos.

Os laudos periciais são realizados através de conhecimento advindo da Criminalística. A Enciclopédia Saraiva de Direito conceitua Criminalística como sendo:

Unidade 1

19

Universidade do Sul de Santa Catarina

) (

contribuições das várias ciências, indica os meios para descobrir crimes, identificar os seus autores e encontrá-los, utilizando-se de subsídios da química, da antropologia, da psicologia, da medicina legal, da psiquiatria, da datiloscopia, etc., que são consideradas ciências auxiliares do Direito penal. (ENCICLOPÉDIA SARAIVA DE DIREITO, v. 21, 1997:486).

Conjunto de conhecimentos que, reunindo as

Segundo Gilberto Porto, Criminalística pode ser conceituada como:

) (

observação e de conhecimento científico que nos levem a descobrir, defender, pesar e interpretar os indícios de um delito, de molde a sermos conduzidos à descoberta do criminoso, possibilitando à Justiça a aplicação da justa pena”. (PORTO, Gilberto, 1960, p.28)

sistema que se dedica à aplicação de faculdades de

p.28) sistema que se dedica à aplicação de faculdades de José Del Picchia Filho (1982), preferiu

José Del Picchia Filho (1982), preferiu abordá-la como disciplina

) (

vestígios extrínsecos relacionados com o crime ou com

a identificação de seus participantes. (DEL PICCHIA FILHO, 1982, p.5).

que cogita do reconhecimento e análise dos

Segundo Garcia, Criminalística

) (

exame dos vestígios, ou seja, da prova objetiva ou material no campo dos fatos processuais, cujos encargos estão afetos aos órgãos específicos, que são os laboratórios de Polícia Técnica. (GARCIA, 2002, p.319).

trata da pesquisa, da coleta, da conservação e do

p.319). trata da pesquisa, da coleta, da conservação e do A Criminalística é também denominada Polícia

A Criminalística é também denominada Polícia

Científica, Polícia Técnica ou Policiologia, e difere da Criminologia que estuda o perfil do criminoso,

e os motivos que o levaram à prática do crime.

São disciplinas que integram a Criminalística, dentre outras, Locais de Crime, Medicina Legal, Balística Forense, Papiloscopia, Documentoscopia,

Odontologia Legal, Toxicologia Forense e Hematologia Forense.

Criminalistica e Investigação Criminal

Em Santa Catarina, o trabalho pericial é realizado pelo Instituto Geral de Perícias, que apresenta o organograma abaixo:

o trabalho pericial é realizado pelo Instituto Geral de Perícias, que apresenta o organograma abaixo: Unidade

Unidade 1

21

Universidade do Sul de Santa Catarina

Você que reside em outro Estado, faça uma pesquisa sobre o assunto. Como funciona o Instituto Nacional de Perícias? Socialize a investigação no Espaço Virtual de Aprendizagem. Use o espaço abaixo para registrar sua pesquisa.

Use o espaço abaixo para registrar sua pesquisa. Para ampliar seus conhecimentos sobre o conteúdo tratado

Para ampliar seus conhecimentos sobre o conteúdo tratado sugerimos:

DEL PICCHIA FILHO, José. Tratado de documentoscopia. Editora Universitária de Direito:

São Paulo. 1982.

GARCIA, Ismar Estulano. Inquérito – Procedimento Policial. Inquérito - Procedimento Policial. 9 ed. Goiânia: AB Editora. 2002 p. 319.

PORTO, Gilberto. Manual de Criminalística. Escola de Polícia de São Paulo. 1960, p.28

- A seguir, você vai estudar o objeto que trata das provas e os procedimentos de perícia.

Criminalistica e Investigação Criminal

SEÇÃO 2 - Perícias

A investigação policial tem como foco a obtenção de provas

criminais que podem ser testemunhais e técnicas.

Prova Criminal é aquela utilizada para demonstrar ao Juiz a veracidade ou falsidade da imputação feita ao réu e das circunstâncias que possam influir no julgamento da responsabilidade e na individualização das penas.

da responsabilidade e na individualização das penas. Você sabe a diferença entre provas criminais e técnicas?

Você sabe a diferença entre provas criminais e técnicas?

As provas técnicas são as perícias, realizadas por peritos

criminais, e são formadas pelas evidências materiais do crime.

As prova testemunhais são constituídas pelos depoimentos das

testemunhas, abrangendo, no sentido amplo, as declarações das

vítimas e o interrogatório dos suspeitos ou indiciados.

vítimas e o interrogatório dos suspeitos ou indiciados. Segundo Garcia (2002), perícia ( técnicas usadas, visando

Segundo Garcia (2002), perícia (

técnicas usadas, visando provar a materialidade do crime e apontar o autor. Um das perícias realizadas trata-se do exame de corpo de delito. O corpo de delito, por sua vez, é o conjunto de vestígios deixados pelo criminoso.

) é o conjunto de

Há diferenciação entre corpo de delito e exame de corpo de delito. Segundo JESUS (2002), o exame de corpo de delito é um auto em que se descrevem as observações dos peritos e o corpo de delito é o próprio crime na sua tipicidade.

e o corpo de delito é o próprio crime na sua tipicidade. Nos crimes que deixam

Nos crimes que deixam vestígios, o exame de corpo de delito é obrigatório, sob pena de nulidade processual, nos termos do artigo 158 do Código de Processo Penal Brasileiro.

Unidade 1

23

Universidade do Sul de Santa Catarina

Dispõe o artigo 167 do Código de Processo Penal Brasileiro:

“Não sendo possível o exame de corpo de delito, por haverem desaparecido os vestígios, a prova testemunhal poderá suprir-lhe a falta”.

Portanto, havendo vestígios, o exame de corpo de delito é imprescindível. Não havendo vestígios, a prova testemunhal é apta a suprir o auto de exame de corpo de delito.

É importante ressaltar que o artigo 159 Código de Processo Penal Brasileiro determina que todos os exames periciais,

inclusive o exame de corpo de delito, sejam realizados por dois

peritos oficiais,

devem ser realizadas por duas pessoas idôneas, portadoras de diploma de curso superior, escolhidas, de preferência, entre as que tiverem habilitação técnica relacionada à natureza do exame.

onde houver e, nos outros casos, as perícias

do exame. onde houver e, nos outros casos, as perícias Para saber mais sobre o assunto

Para saber mais sobre o assunto que foi tratado sugerimos:

DAMÁSIO, Jesus. Código de Processo Penal Anotado. 18 ed. São Paulo: Saraiva. 2002. p.157.

GARCIA, Ismar Estulano. Inquérito – Procedimento Policial. 9 ed. Goiânia: AB Editora. 2002. p. 319.

SEÇÃO 3 - Locais do crime

Segundo Kedhy,

2002. p. 319. SEÇÃO 3 - Locais do crime Segundo Kedhy, ) ( fato que assuma

) (

fato que assuma a configuração de delito e que, portanto, exija as providências da polícia. (KEDHY, 1963:11).

local de crime é toda área onde tenha ocorrido um

O exame de levantamento de local deve ser diferenciado de

acordo com a natureza da ocorrência. Dessa forma, há exame

de levantamento de local de homicídio, suicídio, afogamento,

furto qualificado, acidente de trânsito, dano, estupro, incêndio, disparo de arma de fogo e outros.

Criminalistica e Investigação Criminal

Isolamento e preservação das provas e vestígios essenciais à investigação

O isolamento do local de crime é a primeira providência a ser

tomada e é responsabilidade dos policiais e peritos, que devem

sempre ter em mente a importância da proteção do local do crime, para a preservação dos vestígios, e, conseqüentemente, para a investigação criminal.

e, conseqüentemente, para a investigação criminal. ) ( local permaneça sem alteração, possibilitando,

) (

local permaneça sem alteração, possibilitando, conseqüentemente, um levantamento pericial eficaz. (GARCIA, 2002: 324).

isolamento é a proteção a fim de que o

Esclarece Alberi Espíndula (2002) que:

diante da sensibilidade que representa um local de

crime, importante destacar que todo elemento encontrado naquele ambiente é denominado de vestígio, o qual significa todo material bruto que o perito constata no local do crime ou faz parte do conjunto de um exame pericial qualquer, que, somente após examiná-los adequadamente é que poderemos saber se este vestígio está ou não relacionado ao evento periciado. Por essa razão, quando das providências de isolamento e preservação, levadas a efeito pelo primeiro policial, nada poderá ser desconsiderado dentro da área da possível ocorrência do delito (ESPINDULA, 2002: 3).

) (

A alteração do local de crime é prevista como infração penal,

pelo artigo 166 do Código Penal:

Alterar, sem licença de autoridade competente, o aspecto de local especialmente protegido por lei. Pena – detenção de um mês a um ano e multa.

Unidade 1

25

Universidade do Sul de Santa Catarina

O Código Brasileiro de Trânsito, no artigo 312, também

tipificou como crime a alteração de local de acidente de trânsito:

Inovar artificiosamente, em caso de acidente automobilístico, com vítima, na pendência do respectivo procedimento policial preparatório, inquérito policial ou processo penal, o estado de lugar, de coisa ou de pessoa, a fim de induzir a erro o agente policial, o perito ou juiz:

Pena: detenção de seis meses a um ano, ou multa. Parágrafo único: Aplicar-se o disposto neste artigo, ainda que não iniciados, quando da inovação, o procedimento preparatório, o inquérito ou o processo aos quais se refere.

Dispõe o artigo 169 do Código de Processo Penal Brasileiro:

Para efeito de exame de local onde houver sido praticada a infração, a autoridade providenciará imediatamente para que não se altere o estado das coisas até a chegada dos peritos, que poderão instruir seus laudos com fotografias, desenhos ou esquemas elucidativos.

O artigo 6º do Código de Processo Penal enumera as

providências que devem ser tomadas tão logo o delegado de polícia tenha conhecimento do fato delituoso. O inciso II deste artigo menciona que a autoridade policial deve apreender os instrumentos e todos os objetos que tiverem relação com o fato. Não obstante, a prática demonstra que nada deve ser alterado até a chegada dos peritos no local, e que apenas após o exame de levantamento de local é possível a apreensão de qualquer material encontrado na cena do crime.

Apenas a título de exemplo, um projétil, parte de uma munição deflagrada, apreendido na cena do crime, pode vir a elucidar a autoria de um homicídio. Através do Laudo de Comparação Balística, tendo como objetos de exame o projétil e a arma de fogo de um suspeito, é possível verificar se ele foi expelido pelo cano daquela arma. Da mesma forma, um estojo, parte de uma munição deflagrada, sendo objeto de exame com arma de fogo, através de suas marcas de percussão, é possível constatar se foi deflagrado por aquela arma.

Criminalistica e Investigação Criminal

SEÇÃO 4 - Levantamento pericial: procedimentos empregados no exame do local

O

levantamento pericial é o trabalho pericial realizado nos locais

de

crime. Após concluído, o levantamento pericial dá origem ao

laudo de exame de levantamento de local.

Segundo Garcia (2002), uma perícia completa de levantamento

de local necessita de várias fases a saber:

) (

fotografia, desenho ou croqui, coleta e embalagem de evidências, transporte de evidências, exame das evidências em laboratório, avaliação e interpretação, e redação de laudo. (GARCIA, 2002:326).

isolamento, observações prévias ou exame do local,

Espíndula (2002) elencou alguns procedimentos a serem realizados nos exames de locais de crimes contra a vida, que podem ser, via de regra, utilizados em todos os exames de levantamento de locais. São eles:

Procedimentos anteriores ao exame

a) anotação do endereço do fato;

b) preparação do material utilizado no exame;

c) reconhecimento do tipo de solicitação (natureza do exame);

d) anotação do horário de solicitação do exame.

exame); d) anotação do horário de solicitação do exame. Exame preliminar da cena do crime: o

Exame preliminar da cena do crime: o que é necessário fazer?

Unidade 1

27

Universidade do Sul de Santa Catarina

entrevista com o primeiro policial a chegar no local do fato visando à tomada de informações relativas ao histórico;

visualização geral da cena do crime e verificação da adequação do isolamento;

escolha do tipo de padrão a ser utilizado na busca de vestígios (em linha, em grade, em espiral, em quadrantes, etc.);

formulação dos objetivos do exame;

busca de vestígios, que deve prever especial atenção às evidências facilmente destrutíveis, tais como: marcas de solado, impressões em poeira, dentre outras.

Anotações gerais da cena do crime: o que registrar?marcas de solado, impressões em poeira, dentre outras. data e hora do início dos exames; localização

data e hora do início dos exames;

localização exata do evento;

condições atmosféricas;

condições de iluminação;

condições de visibilidade;

completa análise das vias de acesso;

descrição do local, com nível de detalhe exigido para cada caso;

condições topográficas da área.

Croqui da cena do crime: o que é e como fazer?exigido para cada caso; condições topográficas da área. O croqui é o desenho do local do

O croqui é o desenho do local do crime, devendo sempre ser apresentado, independente da complexidade do local. Neste desenho recomenda-se incluir:

Criminalistica e Investigação Criminal

dimensões de portas, móveis, janelas, caso necessário;

distâncias de objetos até pontos específicos, como vias de acesso (entrada e saída);

distâncias entre objetos;

medidas que forneçam a exata posição das evidências encontradas na cena do crime;

coordenadas geográficas em locais abertos (obtidas por mapas ou GPS).

Qual a importância das fotografias da cena do crime? as da cena do crime?

As fotografias, internas e externas, são imprescindíveis para a elaboração do laudo de exame de levantamento de local.

Segundo Garcia, a fotografia é o mais perfeito dos processos de levantamento de local de crime, por tratar-se de uma ”reconstituição permanente da ocorrência, que irá permitir futuras consultas”. (GARCIA, 2002:326).

Espíndula (2002), também discorre sobre o processamento do local: coleta, identificação e preservação das evidências.

Quais os procedimentos de coleta?coleta, identifi cação e preservação das evidências. Todas as evidências devem ser coletadas de forma legal,

Todas as evidências devem ser coletadas de forma legal, visando à sua admissão como provas em um processo.

Os dois peritos de local devem efetuar a coleta de todas as evidências.

As evidências devem ser anotadas no croqui e fotografas antes da sua coleta.

Unidade 1

29

Universidade do Sul de Santa Catarina

O que fazer na identificação? cação?

Todas as evidências devem ser cuidadosamente identificadas. As marcas identificadoras podem incluir iniciais, números, etc., os quais permitam ao perito que realiza a coleta reconhecer, em data posterior, cada evidência como aquela coletada na cena do crime.

Qual a importância da preservação?cada evidência como aquela coletada na cena do crime. Cada item das evidências deve ser colocado

Cada item das evidências deve ser colocado em um recipiente ou invólucro adequado à natureza de cada material, tais como sacos plásticos, envelopes de papel, caixas que necessitam ser corretamente identificados e vedados ou lacrados;

Evidentemente, que técnicas especiais deverão ser aplicadas de acordo com o delito praticado. Algumas recomendações específicas deverão ser aplicadas nos locais de morte por precipitação, por ação do calor, por arma de fogo, por afogamento, por envenenamento, por aborto e outros.

- Leia, a seguir, a síntese da unidade, realize as atividades de Auto- avaliação e consulte o saiba mais para ampliar seus conhecimentos acerca do assunto estudado.

Criminalistica e Investigação Criminal

Criminalistica e Investigação Criminal Síntese Nesta unidade você teve a oportunidade de ver que, de acordo

Síntese

Nesta unidade você teve a oportunidade de ver que, de acordo com a Constituição Federal de 1988, que a atividade investigativa criminal é realizada, dentre outros, pela Polícia Federal e pelas Polícias Civis dos Estados, estas também chamadas de Polícias Juridiciárias.

A atividade de investigação criminal consiste na apuração

dos crimes, que é feita através da busca de provas, periciais ou testemunhais.

As provas periciais são técnicas, realizadas por peritos criminais

e são formadas pelas evidências materiais do crime. As

prova testemunhais são constituídas pelos depoimentos das testemunhas, abrangendo, no sentido amplo, as declarações das vítimas e o interrogatório dos suspeitos ou indiciados.

A pesquisa, coleta e produção das provas periciais compete

à Criminalística. Via de regra, o trabalho pericial exige

imediatidade. A título de exemplo, o exame residuográfico

de verificação de pólvora exige a condução do suspeito

imediatamente após a prática do delito. O exame de lesões corporais e de verificação de aborto exige lapso temporal curto entre o crime e o exame.

Considerada a importância da prova pericial e científica é imprescindível o isolamento e a preservação do local do crime. Falhas no isolamento do local do crime podem impossibilitar

a produção da prova pericial. Vestígios deixados no local do

crime podem levar ao autor. Como exemplo, um simples estojo componente de munição ou projétil componente de munição, encontrado em local de homicídio mediante disparo de arma de fogo, pode, através de perícia, ser prova crucial para demonstrar autoria.

Unidade 1

31

Universidade do Sul de Santa Catarina

Atividades de auto-avaliaçãoUniversidade do Sul de Santa Catarina 1) Analise as questões abaixo e assinale verdadeiro ou falso,

1) Analise as questões abaixo e assinale verdadeiro ou falso, conforme a proposição. Confira se atendeu as expectativas no final do livro didático.

(

) Nos crimes que ocorreram mediante disparo de arma de fogo, a apreensão de estojos no local não é importante, posto que não é possível realizar perícia comparativa entre o estojo e a arma de fogo.

(

) Nos crimes que ocorreram mediante disparo de arma de fogo, a apreensão de projéteis no local possibilita a realização do laudo de identificação de projéteis e, quando a arma é apreendida, o laudo de comparação balística.

(

) O rol de provas elencados no Código de Processo Penal Brasileiro é exemplificativo.

(

) O sistema de provas previsto no Código de Processo Penal Brasileiro é o da íntima convicção.

(

) A prova testemunhal pode suprir a prova pericial quando a infração penal não deixar vestígios.

Saiba maispericial quando a infração penal não deixar vestígios. Para saber mais sobre o conteúdo tratado acesse:

Para saber mais sobre o conteúdo tratado acesse:

http://www.espindula.com.br e leia o artigo: Função pericial do Estado.

http://www.abcperitosoficiais.org.br/arti.htm e leia o artigo:

Isolamento e preservação de locais de crime com cadáver.

UNIDADE 2

Metodologia de redação de laudos periciais

UNIDADE 2 Metodologia de redação de laudos periciais Objetivos de aprendizagem Conhecer a forma como são

Objetivos de aprendizagem

Conhecer a forma como são elaborados os laudos periciais.

Conhecer alguns modelos de laudo pericial.

Seções de estudo

Seção 1

O Laudo pericial: caracterização

Seção 2

Modelos de laudo pericial

2

Universidade do Sul de Santa Catarina

Universidade do Sul de Santa Catarina Para início de estudo Todos aqueles que queiram se aprofundar

Para início de estudo

Todos aqueles que queiram se aprofundar no tema da segurança pública têm, necessariamente, de saber acerca da importância da prova pericial e conhecer a metodologia de redação dos laudos periciais.

Cabe aos estudiosos do assunto segurança pública estarem aptos a interpretar e avaliar laudos periciais, na sua forma e conteúdo.

SEÇÃO 1 - O Laudo pericial: caracterização

O laudo pericial deve ser simples e preciso, facilmente

compreendido e assimilado. Não deve tecer juízos de valor, considerações subjetivas, mas fornecer objetivamente informações técnicas.

Existem diversos tipos de laudos periciais, dentre eles podemos destacar:

a) laudo de levantamento de local,

b) laudo de identificação de projétil, laudo de comparação balística,

c) laudo de verificação de eficácia de arma de Fogo,

d) laudo de exame cadavérico, laudo de constatação de danos, cada qual com as suas peculiaridades.

Não obstante, de forma geral, pode-se definir alguns requisitos inerentes a todos os laudos.

Toccheto elenca alguns itens a serem preenchidos na elaboração

de

laudo pericial relacionado a crimes contra o patrimônio, que,

de

forma geral, podem ser adotados na confecção dos demais.

TOCCHETTO, Domingos e ESPINDULA, Alberi. Criminalística. Procedimentos e Metodologias,

p.50-54.

Veja quais são:

Criminalistica e Investigação Criminal

1- Preâmbulo ou histórico.

2-Preliminares.

3-Objetivo da perícia ou quesitos.

4-Dos exames periciais.

5- Considerações técnicas ou discussão.

6-Conclusão e/ou respostas aos quesitos.

7- Fecho ou encerramento.

8-Anexos.

A seguir, você terá a oportunidade de conhecer cada um deles. Vamos lá?

Preâmbulo ou Histórico

Discriminar a data, a hora e o local em que for elaborado o laudo pericial, o nome do instituto e órgãos superiores aos quais está subordinado, tipo de laudo, a data da requisição e/ou solicitação, nome da autoridade que requisitou e/ou solicitou a perícia, nome do diretor e dos peritos signatários do laudo, bem como o objetivo geral dos exames periciais.

do laudo, bem como o objetivo geral dos exames periciais. Fazer, neste tópico, um pequeno histórico

Fazer, neste tópico, um pequeno histórico da requisição, bem como uma síntese do fato que originou a requisição da perícia e as providências tomadas referentes ao fato. Informações fornecidas por autoridades, funcionários e proprietários devem ser relatados neste item.

Preliminares

Neste tópico, o relator vai consignar as informações referentes

à preservação e isolamento do local e quaisquer outras

alterações que forem relevantes ao caso, ou que prejudicaram

o andamento dos trabalhos periciais. Nos casos de exames

em peças, este tópico destina-se à consignação de qualquer fato conflitante entre a requisição e o objeto de exame, tais como número de peças distinto do constante na requisição, peças que não estão discriminadas, objetivos do exame incompatíveis com o tipo de peça a ser examinada.

Unidade 2

peças que não estão discriminadas, objetivos do exame incompatíveis com o tipo de peça a ser

35

Universidade do Sul de Santa Catarina

Objetivo da Perícia ou quesitos

Descrever, conforme consta na requisição, quais os objetivos a serem buscados na perícia, os quais deverão estar contidos na requisição da perícia ou nos quesitos formulados. Não sendo especificado na requisição os objetivos da perícia, é de bom alvitre que os peritos descrevam com certa precisão quais são os objetivos periciais pertinentes àqueles exames.

são os objetivos periciais pertinentes àqueles exames. Dos Exames Periciais Discriminar todas as técnicas e

Dos Exames Periciais

Discriminar todas as técnicas e métodos empregados e os respectivos exames levados a efeito naquela perícia. Não é necessário que, nos exames periciais, constem de forma explícita os subitens seguintes, mas seu conteúdo deve obrigatoriamente integrar o texto relativo aos exames periciais:

a) do local: constitui a parte essencial. A descrição deve ser metódica, objetiva, fiel, minuciosa, clara, síntese do observado. Quando os fatos forem variados, convém distribuí-los em capítulos conforme sua natureza e interdependência. Evitar informações, discussões, hipóteses, diagnósticos e conclusões;

b) dos vestígios: partindo-se das indicações (referências) maiores para as menores (detalhes).

Descrever conforme a ordem de maior importância, como o acesso ao terreno, ao prédio, ao cômodo, à gaveta, etc. Aqui devem ser relacionados e devidamente descritos todos os vestígios constatados no exame pericial. Deve-se ater somente à descrição dos vestígios, deixando para o tópico seguinte a respectiva análise e interpretação dos mesmos.

seguinte a respectiva análise e interpretação dos mesmos. As técnicas ou métodos empregados devem sempre partir

As técnicas ou métodos empregados devem sempre partir do geral para o particular, de exames macroscópicos para exames microscópicos. Quando for empregada mais de uma técnica na realização de um determinado exame, é preciso citá-la na ordem em que a mesma foi aplicada.

Criminalistica e Investigação Criminal

Considerações Técnicas ou Discussão

Do histórico e das descrições (local e vestígios) defluem as conclusões. Porém, em certos casos há necessidade de cotejar fatos, de analisá-los, dissipar dúvidas ou ajustar obscuridades. Através da discussão asseguram-se conclusões lógicas, afastando-se as hipóteses capazes de gerar confusão, evidenciando-se aquelas que, depois de cotejadas, conduzirão e subsidiarão a conclusão.

de cotejadas, conduzirão e subsidiarão a conclusão. Buscar a coerência ou não dos elementos observados e

Buscar a coerência ou não dos elementos observados e anteriormente citados. Confrontá-los com a normalidade.

Enfim, relatar neste tópico as análises e interpretações das evidências constatadas e respectivos exames, de maneira a facilitar a compreensão e entendimento por parte dos usuários do laudo pericial.

Conclusão e/ou respostas aos quesitos

A conclusão pericial inserida no laudo pericial devem ser,

obrigatoriamente, uma conseqüência natural do que já fora argumentado, exposto, demonstrado e provado tecnicamente nos tópicos anteriores do laudo.

A

conclusão deve obedecer a critérios técnicos conforme

recomendados, ou seja: somente quando nos restar uma

possibilidade para aquele evento, sob a ótica técnico-científica é

que pode-se concluir de forma categórica.

Para chegar-se a essa única possibilidade, têm-se apenas duas situações viáveis.

A primeira situação é quando, no conjunto dos vestígios

constatados e examinados, há um que, por si só, determinante. Obviamente que vestígio determinante, neste caso, deve estar caracterizado pela sua condição autônoma associada ao seu significado no evento em estudo. Em muitos casos, este vestígio determinante pode estar associado a outros elementos de convicção técnico-científica. Veja exemplo para entender melhor esse conceito.

Unidade 2

37

Universidade do Sul de Santa Catarina

Universidade do Sul de Santa Catarina Impressão digital individualmente é um vestígio determinante, mas, se for

Impressão digital individualmente é um vestígio determinante, mas, se for encontrado um desses vestígios no local do crime, não quer dizer que foi identificado o autor do crime e por conseqüência trata-se de um homicídio.

Por outro lado, em um local de incêndio, a constatação de múltiplos focos iniciais não é um vestígio determinante por si só, mas se restar comprovado que tais focos eram isolados ou incomunicáveis, e em conjunto com as observações anteriores, nos locais correspondentes aos focos forem retiradas amostras de materiais que apresentem resultados positivos em exames laboratoriais, em pesquisa de vestígios de hidrocarbonetos voláteis, o grau de clareza da ação dolosa será determinante para a caracterização e materialização do delito.

A segunda situação em que os peritos poderão ter apenas

uma possibilidade será em um universo de vários vestígios, onde nenhum deles por si só seja determinante, mas apenas probabilísticos, e que, no seu conjunto de informações técnico- científicas levem a uma única possibilidade.

Todavia, existem várias situações em que os peritos poderão ter

vários vestígios relacionados com o fato, onde nenhum deles por

si seja determinante. Neste caso, os peritos deverão apontar quais

são e descrevê-los. Existem, por vezes, situações em que, apesar da existência de vestígios, mesmo analisando-os em seu conjunto, não será possível chegar a uma definição quanto ao diagnóstico. Neste caso, os peritos não poderão fazer qualquer afirmativa conclusiva quanto ao fato, salientando que os vestígios existentes são quantitativa e qualitativamente insuficientes para se chegar a uma conclusão categórica.

Há, ainda, a situação na qual, através do seu exame ou de sua análise, não se observem vestígios materiais capazes de fundamentar uma conclusão. Neste caso deve-se constar no laudo que, face à exigüidade de vestígios, não há elementos técnicos através dos quais possa ser fundamentada uma conclusão categórica.

Criminalistica e Investigação Criminal

Criminalistica e Investigação Criminal Mesmo que não seja possível uma conclusão categórica em uma determinada

Mesmo que não seja possível uma conclusão categórica em uma determinada perícia, deve-se constar no laudo o tópico correspondente e, nele informada a impossibilidade de conclusão face aos motivos que devem ser mencionados (exigüidade de vestígios, falta de preservação, etc.) , de forma clara e explicativa, porém, poderá ser levantada uma causa mais provável.

Então, não sendo possível concluir um laudo pericial, para auxiliar no contexto geral das investigações e, posteriormente, à justiça, o perito deverá tomar todo o cuidado, tanto no exame quanto no texto dessas argumentações.

Em alguns casos concretos, os peritos terão condições de eliminar algumas admissibilidades ou hipóteses, e, com isso, delimitarem

o trabalho dos investigadores de polícia, e, posteriormente, da

justiça. A eliminação de algumas das possibilidades na verdade

é uma conclusão pela sua exclusão, e, portanto, deve seguir o mesmo rigor técnico-científico já mencionado.

O técnico-científico se refere à técnica criminalística e o

científico às demais leis da ciência. O perito poderá se valer,

para as suas conclusões, ou de alguma técnica criminalística

já consagrada ou de alguma lei da ciência de qualquer área do

conhecimento científico, ou de ambas, de acordo com cada situação.

Unidade 2

39

Universidade do Sul de Santa Catarina

Fecho ou Encerramento

Analise um modelo de laudo e verifique os elementos que ele contém.

Modelo de fecho ou encerramento de laudo pericial

páginas impressas em seu anverso, foi feito

em duas vias de igual teor, pelos peritos da Seção de Crimes Contra o Patrimônio, estando ambas as vias autenticas com a rubrica dos seus subscritores, acompanhadas pelos anexos (citar quais os anexos e o número dos mesmos), bem como se devolve todo o material, descrito no tópico documentos de exame, lacrados no envelope nº

Este laudo, composto por (

)

Local e data

Nome dos peritos.

Classe e/ou cargo

Anexos

É necessário incluir, ao final, todos os anexos que foram produzidos e que sejam necessários para acompanhar o laudo, visando a melhor compreensão do mesmo, tais como, resultado de exames complementares, fotografias, gráficos, relatórios de outros peritos/profissionais, etc.

No entanto, considerando os avanços da informática, muitos recursos gráficos podem ser inseridos ao lado, ou logo abaixo, da parte do texto a que se refere tal assunto. Especialmente para evidenciar algum detalhe que o texto esteja se referindo naquele momento da argumentação. As fotografias, quando digitais ou digitalizadas, podem seguir esse mesmo critério.

SEÇÃO 2 - Modelos de laudos Periciais

Seguem abaixo alguns modelos de laudos periciais. Este modelos foram extraídos da obra “Inquérito e Procedimentos Policial” (GARCIA, 2002:397-398, 415-416, 448-449).

Analise atentamente cada um deles:

Criminalistica e Investigação Criminal

a) LAUDO DE EXAME DE DOCUMENTOS

, Criminalística, pelo Diretor LL foram designados PP e PQ para proceder ao exame pericial de documento, a fim de ser atendida requisição do Bel. AA, Delegado Titular do 1ª DP, conforme Ofício nº

Aos

dias do mês de

do ano de

nesta Capital, no Departamento de

Peças Motivantes

Trata-se de manuscritos apostos em um pedaço de papel sem pauta medindo aproximadamente 14,7 cm e 6,7 cm.

O documento encontra-se colado em uma folha de papel sem pauta

apresentando no canto superior direito “24-Z”.

Trata-se de envelope que apresenta manuscritos feitos com caneta dita esferográfica, tinta preta. Encontra-se ele endereçado a SS e está colado a uma folha em branco, apresentando no canto superior direito o n. “25-z”.

1. Peças Paradigmáticas

Como espécimes de confronto, contamos com padrões autênticos de JJ e JL, contidos em Auto de Colheita de Material Gráfico Autêntico, coletados pela Polícia Civil de São Paulo – DEGRAN – através do Dr. AB.

3 – Dos Exames

As peças motivantes e paradigmáticas foram examinadas a olho nu e por meios óticos adequados em busca e de hábitos gráficos característicos que, uma vez determinados, foram confrontados entre si para uma possível origem comum ou não. Fotomacrografias foram tomadas, e os assinalamentos necessários foram permitindo assim um controle da conclusão pericial.

4 – Quesitos e Respostas

1º - O autor do Auto de Colheita de Material Gráfico Autêntico, JJ, é

também autor das escritas gravadas no bilhete de fls. 24, doc 05 e envelope, doc06, fls. 25?

Resposta: sim

Para que dois grafismos sejam aceitos como do mesmo punho, é necessário que em ambos os seguintes valores sejam convergentes:

A)

habilidade gráfica;

B)

hábitos gráficos;

C)

que não haja divergências estruturais entre os dois grafismos.

( )

Unidade 2

41

Universidade do Sul de Santa Catarina

na carta de confronto em anexo, 01 a 07, os assinalamentos mais preponderantes estão em quantidade e qualidade suficientes para afirmarmos que as peças motivantes foram produzidas por JJ.

( )

É o nosso relatório.

Obs: O material examinado é devolvido com o presente laudo.

Goiânia,

de

de

PP

PQ

1º Perito

2º Perito

b) LAUDO DE EXAME DE ARMA DE FOGO

Aos

de Criminalística da Diretoria Geral da Polícia Civil, pelo Diretor LL, foram

designados os peritos PP e PQ para proceder ao exame pericial em arma de fogo, a fim de ser atendida requisição do Bel AA, Delegado do 1º Distrito Policial, através do Ofício nº.

1 – Características das Peças Examinadas

Aos peritos foram apresentados sete cartuchos intactos e um estojo calibre nominal 7.65 mm, de marca CBC, bem como uma arma de fogo, curta e de porte, classificada como pistola semi-automática, tendo as seguintes características:

a) Marca Beretta;

b) Fabricação italiana;

c) N de série 683C09;

d) Calibre nominal 7.65mm;

e) Mecanismo de percussão central, cão aparente e pino percursos

isolado;

f) Carregamento por pente;

g) Coronha guarnecida por talas de plástico pretas com inscrição “Cb.

BN”(lateral esquerda), bem como com o logotipo da marca da arma;

h) Dimensões: 8,5cm de comprimento de cano X13,5 de diagonal máxima;

i) Acabamento oxidado, em desgaste;

dias do mês de

do ano de

, nesta Capital, no Departamento

Criminalistica e Investigação Criminal

j)

OBS: Foi utilizado um cartucho em disparo experimental

2

– Funcionamento da arma

O

estado geral da arma é bom, não apresentando suas peças quaisquer

anomalias que impeçam seu funcionamento. Está apta à realização de disparos

3 – Quesitos e Respostas

a) Quais as características da arma periciada?

Resposta_ ver item 1.

b) No estado em que se encontra, está em perfeitas condições de uso?

Resposta: Sim, ver item 2.

c) A munição que a acompanha é do mesmo calibre da arma, e qual o seu

estado?

Resposta: Sim, estado em condições de uso. Seu calibre corresponde ao da arma, ou seja, 7,65mm.

d) Há evidências de disparo recente?

Resposta: Ver laudo químico.

e) O pedaço de chumbo pertence ao mesmo calibre da arma?

Resposta: O pedaço de chumbo a que se refere o quesito é um projétil de arma de fogo calibre nominal 7.65mm, que, inclusive foi expelido pela arma de fogo aqui periciada. Portanto, a resposta não só é afirmativa, como também identifica a arma que o expeliu. Ver fotos 1 e 2.

É o relatório.

OBS: O material examinado é devolvido com o presente.

Goiânia,

de

de

PP

PQ

Perito

2º Perito

Unidade 2

43

Universidade do Sul de Santa Catarina

c) LAUDO DE EXAME CADAVÉRICO

, nós, médico-legistas que abaixo assinamos, atendendo à requisição da Delegacia do 1º DP, procedemos ao exame CADAVÉRICO no cadáver que nos foi apresentado como sendo de SS (qualificação completa), no qual observamos:

Descrições das lesões: 1 – ferida pérfuro-contusa, medindo 0,8 cm de diâmetro, com área de chamuscamento, localizada na região bucinadora (cochecha) direita, com trajeto transfixando a língua e ramo mandibular esquerdo, com saída na região bucinadora contra-lateral; 2 – ferida pérfuro-contusa, medindo 0,8 com de diâmetro, com área de chamuscamento e câmara de mina, localizada na região parietal esquerda, logo acima do pavilhão auricular (orelha), transfixante, com grande destruição de massa encefálica, com saída na região carotideana direita, logo abaixo do pavilhão auricular; 3 – sem outras lesões. Nada mais tendo sido constatado, passamos a responder aos quesitos.

1º - Houve morte? Resposta: Sim, houve morte.

2º - Qual a causa da morte? Resposta: Hemorragia intracraniana

3º - Qual o instrumento ou meio que a produziu?

Aos

dias do mês de

de

no Necrotério do Instituto Médico-Legal,

Resposta: Pérfuro-contundente

4º - Foi produzida por meio de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel?

Resposta: Prejudicado

5º - Qual a data do óbito? (especificar hora, dia, mês e ano); Resposta:

Óbito dia

Dado e passado no Instituto Médico-Legal, em Goiânia, Capital de Goiás,

/ /

,

às 17 h.

aos

dias do mês de

de

PP

PQ

1º Médico-Legista

2º Médico-Legsita

Criminalistica e Investigação Criminal

d) LAUDO DE EXAME DE LESÕES CORPORAIS

, médico-legistas que abaixo assinamos, atendendo à requisição da Delegacia do 1º DP, procedemos ao exame de corpo de delito - LESÕES CORPORAIS - a pessoa que nos foi apresentada como sendo SS (qualificação completa), na qual observamos:

DESCRIÇÃO DAS LESÕES: 1 - cicatriz de ferida pérfuro-cortante, medindo

3 cm de extensão, localizada no hipocôndrio esquerdo, próximo ao

rebordo costal; 2- cicatriz de incisão cirúrgica, mediana, medindo 25 cm

de extensão, localizada na linha média do abdome; 3 – cicatriz de incisão cirúrgica, medindo 2 cm de extensão, localizada no flanco esquerdo

, examinei SS e constatei o seguinte: estado geral comprometido. Lesões

apresentadas: 1 – ferida penetrante no abdome, no hipocôndrio esquerdo;

2 – choque hipovolêmico, Instrumento: arma branca. Tratamento:

cirúrgico, ressecção de estômago devido à laceração extensa; reposição sangüínea; antibióticos, soroterapia. Seqüelas que futuramente poderão se apresentar: distúrbio digestivo. Afastamento de suas ocupações por 40 dias. Hospital BDF. Dr. OS, CRM – GO 007”. Nada mais tendo sido constatado, passamos a responder os seguintes quesitos:

1º - Houve ofensa à integridade corporal ou à saúde do paciente? Resposta: Sim.

2º - Qual o instrumento ou meio que a produziu? Resposta: Pérfuro- cortante.

(dreno); 4 – relatório de lesões, cujo teor é o seguinte: “Aos

Aos

dias do mês de

no Gabinete do Instituto Médico-Legal, nós,

/

/

3º - Foi produzida por meio de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel?. Resposta: Prejudicado.

4º - Resultou incapacidade para as ocupações habituais, por mais de trinta dias? Resposta – Sim

5º - Resultou perigo de vida? Sim, devido à lesão penetrante no abdome com a laceração do estômago e devido ao estado geral comprometido produzido por choque hipovolêmico que necessitou de cirurgia e de reposição sangüínea.

6º - Resultou debilidade permanente ou perda ou inutilização de membro, sentido ou função? Resposta: Sim, debilidade permanente da função digestiva.

7º - Resultou incapacidade permanente para o trabalho, enfermidade incurável ou deformidade permanente? Resposta: Não

8º - Resultou aceleração de parto ou aborto? Resposta: Não

Unidade 2

45

Universidade do Sul de Santa Catarina

Dado e passado no Instituto Médico-Legal, em Goiânia, Capital de Goiás,

aos

dias do mês de

de

PP

PQ

1º Médico-legista

 

2º Médico-Legista

- Leia, a seguir, a síntese da unidade, realize as atividades de Auto- avaliação e consulte o saiba mais para ampliar seus conhecimentos acerca do assunto estudado.

para ampliar seus conhecimentos acerca do assunto estudado. Síntese O laudo pericial deve ter linguagem clara,

Síntese

O laudo pericial deve ter linguagem clara, acessível e as

informações devem ser objetivas, sem haver juízos de valor.

O laudo pericial deve ser formado por:

1. Preâmbulo ou histórico.

Discriminar a data, a hora e o local em que for elaborado o laudo pericial, o nome do instituto e órgãos superiores aos quais está subordinado, tipo de laudo, a data da requisição e/ou solicitação, nome da autoridade que requisitou e/ou solicitou a perícia, nome do diretor e dos peritos signatários do laudo, bem como o objetivo geral dos exames periciais.

2.Preliminares.

Neste tópico o relator vai consignar as informações referentes à preservação e isolamento do local e quaisquer outras alterações que forem relevantes ao caso, ou que prejudicaram o andamento dos trabalhos periciais.

3.Objetivo da perícia ou quesitos.

Descrever, conforme consta na requisição, quais os objetivos a serem buscados na perícia, os quais deverão estar contidos na requisição da perícia ou nos quesitos formulados.

Criminalistica e Investigação Criminal

4.Dos exames periciais.

Discriminar todas as técnicas e métodos empregados e os respectivos exames levados a efeito naquela perícia.

5.Considerações técnicas ou discussão.

Do histórico e das descrições (local e vestígios) defluem as conclusões. Porém, em certos casos há necessidade de cotejar fatos, de analisá-los, dissipar dúvidas ou ajustar obscuridades.

6.Conclusão e/ou respostas aos quesitos.

7.Fecho ou encerramento.

e/ou respostas aos quesitos. 7.Fecho ou encerramento. 8.Anexos. Atividades de auto-avaliação Leia as questões a

8.Anexos.

Atividades de auto-avaliação

Leia as questões a seguir e responda com base no conteúdo. Verifique no final do livro as indicações e comentários.

1. Qual a importância do laudo pericial na investigação criminal?

Unidade 2

47

Universidade do Sul de Santa Catarina

2. Que tipo de prova é o laudo pericial?

3. O laudo pericial é sempre conclusivo?

o laudo pericial? 3. O laudo pericial é sempre conclusivo? Saiba mais Para aprofundar seus conhecimentos

Saiba mais

Para aprofundar seus conhecimentos tratados nesta unidade você pode assistir:

Filme: “Seven”. (EUA). Lançado em 1995. Gênero: Policial. Duração: 128 min. Direção: David Fincher.

Ou, então, ler:

Artigo: “Laudo pericial e outros documentos técnicos”.

Disponível em: http://espindula.com.br/default4.htm. Acessado em 17 de julho de 2006.

UNIDADE 3

Investigação Criminal

Objetivos de aprendizagem

Compreender o conceito e o histórico da Polícia.

Contextualizar a investigação criminal, concebendo-a como o trabalho realizado pelas Polícias Federal e Civil, dentre outros órgãos.

Identificar os procedimentos de apuração de infrações criminais, provas técnicas e testemunhais para subsidiar o processo criminal.

Identificar procedimentos de prova criminal e o seu histórico, a partir dos pontos relevantes para compreender o sistema de provas brasileiro da atualidade. Conhecer o inquérito policial percebendo-o como procedimento sigiloso, inquisitivo e informativo, de competência exclusiva das Polícias Federal e Civil, no qual a investigação criminal é formalizada.

Seções de estudo

Seção 1

Conceito e histórico da polícia

Seção 2

Conceito de investigação criminal

Seção 3

Conceito de prova

Seção 4

Evolução histórica da prova criminal

Seção 5

Inquérito policial

3

Universidade do Sul de Santa Catarina

Universidade do Sul de Santa Catarina Para início de estudo Para que você compreenda como é

Para início de estudo

Para que você compreenda como é exercida a atividade estatal de segurança pública brasileira na atualidade, é imprescindível que verifique quais são as polícias existentes que integram este sistema e quais suas respectivas funções. Dessa forma, saberá quais polícias serão responsáveis pela investigação criminal.

Importante, também, verificar o que é investigação criminal,

inquérito policial e

provas já foram aceitáveis em tempos passados e como é o

sistema de provas da atualidade.

prova criminal, e saber quais os tipos de

SEÇÃO 1 - Conceito e histórico da polícia

A palavra Polícia é vocábulo derivado do latim “politia”, que

por sua vez, procede do grego “politeia”, que significa, segundo

Thomé, (

)administração

da cidade.

THOMÉ, Ricardo Lemos. Contribuição à Prática da Polícia Judiciária, 1997, p.10.

Segundo o mesmo autor, Polícia pode ser definida como:

) (

pela investigação das infrações penais cometidas e pela política de disciplina e restrição empregada a serviço do povo.

instrumento de utilidade e que passa a ser responsável

Marcineiro (2001), conceitua Polícia como sendo:

) (

a organização administrativa que tem por atribuição

impor limitações à liberdade (individual ou de grupo) na

exata medida necessária à salvaguarda e manutenção da

ordem pública (

todos é a de segurança pública e por isso mesmo todos tendemos a confundi-la, enquanto parte, com o todo

) (

duas funções: a polícia preventiva (administrativa), de proteção individual e coletiva e a polícia judiciária, ou seja, atividade policial repressiva (judicial) ao crime e de auxílio à justiça penal (investigação científica dos crimes). (MARCINEIRO, 2001: 47,48).

).

No entanto, a polícia mais visível a

a polícia se especializa e hoje, se apresenta com

Criminalistica e Investigação Criminal

Segundo Tourinho Filho (2001),

a Polícia é o órgão incumbido de manter e preservar a ordem pública e a incolumidade das pessoas e do patrimônio (TOURINHO FILHO, 2001:27).

(

)

Você já teve a oportunidade de ler o que dispõe o artigo 144 da Constituição Federal de 1988 com relação à segurança pública. Diz o artigo:

A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é

exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas

e do patrimônio, através dos seguintes órgãos:

I – polícia federal;

II – polícia rodoviária federal;

III – polícia ferroviária federal;

IV – polícias civis;

V – polícias militares e corpos de bombeiros militares.

Portanto, às Polícias Rodoviária Federal, Ferroviária Federal e Militares cabe o policiamento ostensivo, atuando precipuamente na prevenção dos delitos.

De outro lado, é interessante que você perceba que a atuação principal das Polícias Federal e Civis ocorre após a prática do crime, na repressão dos delitos. Apuram materialidade e autoria das infrações penais, por meio da função investigativa.

O que cabe à Polícia Federal?

À Polícia Federal cabe a apuração das infrações penais contra

a ordem política e social ou em detrimento de bens, serviços e

interesses da União ou de suas entidades autárquicas e empresas públicas, assim como outras infrações cuja prática tenha

repercussão interestadual ou internacional e exija repressão

uniforme, segundo se dispuser em lei, além de prevenir e reprimir

o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o contrabando

e o descaminho, nos termos do artigo 144, § 1º, I e II da Constituição Federal de 1988.

Unidade 3

51

Universidade do Sul de Santa Catarina

O que cabe à Polícia Civil?

A Polícia Civil, também chamada de Polícia Judiciária, tem

competência residual, tendo a função de apurar as infrações penais e respectivas autorias, ressalvadas as atribuições da Polícia Federal e as infrações da alçada militar, de acordo com o artigo 144, § 4º, da Carta Magna.

de acordo com o artigo 144, § 4º, da Carta Magna. A Polícia como organização surgiu

A Polícia como organização surgiu em 1829, na

Inglaterra, com a criação da Polícia Metropolitana de Londres, considerada a primeira organização policial do mundo.No Brasil, a história da Polícia tem início apenas no século XIX, ano de 1808, com a vinda da Família Real Portuguesa ao Brasil, em decorrência das invasões napoleônicas no continente europeu. Segundo (MARCINEIRO e PACHECO, 2001:15).

Inicialmente, segundo Thomé (1997), a ação militar em defesa da posse, a função policial e a função de julgar não estavam separadas. A atividade investigativa ficava sob a responsabilidade dos magistrados, em especial dos Juízes de Paz. Com o rápido

crescimento das atividades econômicas e sociais, fez-se necessária

a organização dos serviços policiais.

Segundo Marcineiro e Pacheco, (2001), a origem da Polícia Judiciária, como organização, ocorreu em 1841, com a promulgação da Lei no. 261, de 03 de dezembro, que apresentava uma organização policial incipiente, criando em cada província um Chefe de Polícia, com seus delegados e subdelegados escolhidos dentre os cidadãos.

A partir da promulgação da república, em 1889, a Polícia passou

a atuar de acordo com o modelo político vigente. Na democracia

Segundo Silva, Democracia é “(

um regime político em que o poder repousa na vontade do povo”. In:

SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo,1999,

p.130.

)

a Polícia tinha como foco a segurança pública dos cidadãos,

e, nos períodos ditatoriais, a Polícia tinha como prioridade salvaguardar a segurança nacional estatal, o que fica evidenciado pelos dispositivos que versavam sobre segurança pública, inseridos nas Constituições Federais que se sucederam.

Criminalistica e Investigação Criminal

Criminalistica e Investigação Criminal Importante a diferenciação que Marcineiro e Pacheco, na obra Polícia

Importante a diferenciação que Marcineiro e Pacheco, na obra Polícia Comunitária. Evoluindo para a Polícia do Século XXI, p.33, fazem entre segurança nacional e segurança pública: a primeira com sendo a defesa do Estado e a segunda como tendo o foco na segurança da sociedade.

A atual Constituição Federal de 1988 é fruto de uma

redemocratização, iniciada em 1985, após vinte e um anos de

regime de exceção. Promulgada em um Estado Democrático de Direito, a Carta Magna prima pela garantia dos direitos

individuais.

Segundo Canotilho

(1999), “(

são os meios processuais adequados à proteção dos direitos. In: CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição, 1999, p.372.

)

garantias

Nesse contexto, a Polícia passa a ter o dever de prestar serviços respeitando tais garantias e contribuindo para salvaguardá-las.

SEÇÃO 2 - Conceito de investigação criminal

Você sabe o que significa investigar? Que sentido esta palavra assume no contexto da segurança pública? ca investigar? Que sentido esta palavra assume no contexto da segurança pública?

Segundo Bueno (1977), investigar significa

indagar, pesquisar, fazer diligências para achar, ( descobrir. (BUENO, 1977:685).

(

)

),

É um ato instintivo do homem que o faz movido pelo princípio

inteligente e pelo instinto de curiosidade. Você concorda? Muito bem, vamos adiante e contextualizando.

concorda? Muito bem, vamos adiante e contextualizando. A investigação policial é atividade de natureza sigilosa

A investigação policial é atividade de natureza

sigilosa exercida por policial ou equipe de policiais determinada por autoridade competente que, utilizando metodologia e técnicas próprias, visa

a obtenção de evidências, indícios e provas de materialidade e de autoria do crime.

Unidade 3

53

Universidade do Sul de Santa Catarina

A investigação policial, ou investigação criminal, é atividade

policial direcionada à apuração das infrações penais e de sua autoria. É o trabalho realizado por policiais, especialmente delegados e seus agentes, procurando esclarecer a autoria e materialidade de delitos, bem como as circunstâncias em que ocorreram. Estas circunstâncias são detalhes de fatos criminosos com a preocupação de melhor identificar as pessoas com eles relacionados e o próprio objeto do crime, visando reunir elementos probatórios para o indiciamento ou não e posterior encaminhamento à apreciação judicial.

Qual o objetivo da Investigação criminal?não e posterior encaminhamento à apreciação judicial. O objetivo da investigação criminal é amealhar provas

O objetivo da investigação criminal é amealhar provas criminais,

para comprovar materialidade e autoria do delito.

- A seguir você vai estudar sobre a prova e seu conceito.

SEÇÃO 3 - Conceito de prova

Como dito, o objetivo da investigação criminal é a busca das provas criminais necessárias para a elucidação do crime.

O vocábulo “prova” origina-se do latim probatio, que por sua

GRINOVER, FERNANDES E GOMES FILHO diferem fonte de Prova, meio de Prova e objeto da Prova: “Pode- se, assim, distinguir entre fonte de Prova (os fatos percebidos pelo juiz), meio de Prova (instrumentos pelos quais os mesmos se fixam em juízo) e objeto da Prova (o fato a ser Provado, que se deduz da fonte e se introduz no processo pelo meio de Prova)”. (GRINOVER, Ada Pellegrini; FERNANDES, Antônio Scarance; GOMES FILHO, Antônio Magalhães. As Nulidades no Processo Penal,1982, p.106).

vez emana do verbo probare, com o significado de demonstrar, reconhecer, formar juízo sobre um fato.

De Plácido e Silva (1978), A prova consiste, pois, na demonstração da existência ou da veracidade daquilo que se alega como fundamento do direito que se defende ou que se contesta.(De PLACIDO e SILVA, 1978: 1253).

Segundo Greco Filho (1997:196), a prova é todo meio destinado a convencer o juiz a respeito da verdade de uma situação de fato. destinado a convencer o juiz a respeito da verdade de uma situação de fato.

Criminalistica e Investigação Criminal

Todas as afirmações de fato feitas pelo autor, bem como as afirmações feitas pelo réu, que normalmente se contrapõem àquelas, podem ou não corresponder à verdade. De acordo com Cintra,

as dúvidas sobre a veracidade das afirmações de fato feitas pelo autor ou por ambas as partes no processo, a propósito de dada pretensão em juízo, constituem as questões de fato que devem ser resolvidas pelo juiz, à vista da prova dos fatos pretéritos relevante.

CINTRA, Antônio Carlos de Araújo; GRINOVER, Ada Pelegrinni; DINAMARCO; Cândido Rangel.Teoria Geral do Processo, 2003,

p.348.

Portanto, a prova constitui o instrumento por meio do qual se forma a convicção do juiz a respeito da ocorrência ou inocorrência dos fatos controvertidos no processo.

 

(CINTRA, Antônio Carlos de Araújo; GRINOVER, Ada Pelegrinni; DINAMARCO; 2003: 348).

Araújo; GRINOVER, Ada Pelegrinni; DINAMARCO; 2003: 348). Especifi camente com relação à prova criminal, pode-se

Especificamente com relação à prova criminal, pode-se afirmar que é aquela utilizada para demonstrar a ocorrência ou não

de

uma infração penal e as circunstâncias que possam influir

no

julgamento da responsabilidade e na individualização das

penas. As provas criminais formam a convicção a respeito da autoria e materialidade da infração penal, das condições de antijuridicidade e culpabilidade, e de todos os demais elementos necessários para fundamentar uma decisão condenatória ou absolvitória.

Em síntese, a prova criminal é aquela utilizada para demonstrar

ao Juiz a veracidade ou falsidade da imputação feita ao réu e as circunstâncias que possam influir no julgamento da responsabilidade e na individualização das penas.

SEÇÃO 4 - Evolução histórica da prova criminal

O sistema probatório, no Processo Penal Brasileiro, adotou o

modelo europeu-continental, fazendo-se importante uma breve

análise das origens deste modelo.

Os meios de prova, concebidos como instrumentos de reconstituição de fatos pretéritos, sempre acompanharam a história da civilização, estando fortemente condicionados por circunstâncias históricas e culturais.

Unidade 3

55

Universidade do Sul de Santa Catarina

Na Antigüidade, a religião era a força propulsora das organizações rudimentares e, posteriormente, das cidades, estando acima de tudo e de todos. Leis e organizações rudimentares e, posteriormente, das cidades, estando acima de tudo e de todos. Leis e religião se misturavam. Coulange (1996) menciona que o respeito dos antigos às leis advinha da crença de que estas eram ditadas pelos deuses, tinham origem sagrada. (COULANGE, 1996:152).

Esta foi uma época em que os homens não conheceram a liberdade individual, pois não se tinha a mais leve idéia sobre a individualidade humana e sobre os Direitos a ela inerentes. Foi neste período em que se instituíram as ordálias ou juízos de Deus, e os juramentos. Aqueles se fundavam na crença de que Deus não deixaria de sustentar o Direito do inocente, estes no pressuposto de que ninguém se atreveria a tomar Deus como testemunha de uma falsidade.

Santos (1970), conceitua ordália como “sendo a submissão de alguém a uma prova, na esperança de que Deus não o deixaria sair com vida ou sem um sinal evidente, se não dissesse a verdade ou fosse culpado.” (SANTOS, 1970:25).

Segundo Santos (1970), as ordálias constituíram a prova suprema usada pelos germanos primitivos e os povos antigos da Ásia, não tendo aplicação prova suprema usada pelos germanos primitivos e os povos antigos da Ásia, não tendo aplicação entre os romanos, que, segundo Sznick conheceram e fizeram uso da tortura contra seus escravos na Antigüidade. (SZNICK, 1978:24).

Durante muitos séculos na Idade Média, com o domínio absoluto dos bárbaros na Europa, as ordálias também tiveram aplicação. Segundo

Santos, (1970:26) na prova pelo fogo se fazia o acusado carregar uma barra de ferro em brasa por certa distância, ou caminhar, com os pés nus, sobre ferros candentes, e a prova pela água fervente consistia no acusado tirar um ou mais objetos do fundo de uma caldeira de água fervente, sendo o acusado absolvido se não restassem lesões e condenado no caso contrário.

Criminalistica e Investigação Criminal

Montesquieu (1996), menciona que a prova pela água fervente podia ser substituída, a critério do acusador, por certa quantia e pelo juramento de algumas testemunhas que declarassem que o acusado não havia cometido o crime. (MONTESQUIEU, 1996:

553).

Acerca dos juramentos, Santos (1970) analisa:

Compreende-se facilmente a inclusão do juramento entre

os velhos sistemas probatórios, que se reflete na influência exercida pelas religiões sobre os homens e as organizações sociais da Antigüidade e da Idade Média, bem como na circunstância de ser quase impossível, numa época em que a escrita não existia, colherem-se provas testemunhais, dada a pouca densidade da população e a própria natureza patriarcal dos agregados humanos. Assim, pode-se dizer que a prova pelo juramento

decorria da própria necessidade (

30-31).

). (SANTOS, 1970:

Com a desmoralização do juramento, instituiu-se como instituto probatório o duelo, também chamado combate judiciário.

No final da época medieval e durante a Idade Moderna surgiram, na Europa, os tribunais da inquisição, período em eram tidos como hereges os que contrariavam os dogmas oficiais da Igreja Católica.

que contrariavam os dogmas ofi ciais da Igreja Católica. Mas para que a tortura era utilizada?

Mas para que a tortura era utilizada? Qual a finalidade?

Discorrendo sobre este momento, Cotrin (1997) menciona que a tortura era utilizada oficialmente nos interrogatórios, na presença dos juízes, com a finalidade de obter a confissão. (COTRIN,

1997:157).

Novinski (1982) nomina este método de “inquisitivo”, atuante nos séculos XVI, XVII e XVIII, e que atendia aos interesses de todas as facções do poder: coroa, nobreza e clero. (NOVINSKY,

1982:47).

Unidade 3

57

Universidade do Sul de Santa Catarina

Considerando a dificuldade de se obter outros meios de prova, a confissão do acusado representava o objetivo primordial do procedimento inquisitório. Enfocando a tortura, Gomes Filho (1997), menciona: somente ela podia fornecer a certeza moral a respeito dos fatos investigados, e a pesquisa cedia vez à confirmação de uma verdade já estabelecida.(GOMES FILHO, 1997:22).

No que se refere à valoração das provas, é neste período que surgiu o sistema das provas legais, pelo qual cada prova tinha seu valor período que surgiu o sistema das provas legais, pelo qual cada prova tinha seu valor previamente determinado, e somente a combinação destas autorizaria uma condenação criminal.

A tortura clássica tornou-se mecanismo regulamentado e

legalizado de Prova. Segundo Foucault, (2002) a tortura é um

jogo judiciário estrito (

provas, de severidade graduada, e que ele ganha agüentando ou perde

),

o paciente é submetido a uma série de

confessando. (FOUCAULT, 2002:36).

Ortega (1998), discorrendo sobre o sistema jurídico-penal e processual penal, nos séculos XVI e XVII, na Europa, menciona que a tortura tratava-se de peça fundamental no processo, utilizada para obter a confissão do réu, e era diferenciada de acordo com a classe social a que pertencia o indivíduo, estando a nobreza sujeita à tortura apenas nos delitos considerados extremamente graves. Portanto, o princípio da igualdade era inexistente naquela época. (ORTEGA, 1998:463)

igualdade era inexistente naquela época. (ORTEGA, 1998:463) Sobre este tema, Beccaria (1993), autor da obra Dos

Sobre este tema, Beccaria (1993), autor da obra Dos Delitos e Das Penas, escrita no século XVIII, cuja

essência é a defesa do indivíduo contra as atrocidades

e arbitrariedades daqueles tempos, e que influenciou

a reforma de muitos Códigos Penais e Processuais

Penais Europeus, manifestou-se afirmando que a tortura é muitas vezes um meio seguro de condenar

o inocente fraco e de absolver o criminoso robusto. (BECCARIA, 1993:36).

Criminalistica e Investigação Criminal

Valiente (2002), sintetiza algumas das idéias defendidas por Beccaria, na obra citada: a mudança do processo inquisitivo para

o acusatório, público, com meios de prova claros e racionais; a

igualdade entre nobres, burgueses e plebeus; a proporcionalidade entre os delitos e as penas; a nítida separação entre a religião e

o

Estado e seus Poderes, desvinculando os conceitos de pecado

e

delito; a supressão total da tortura e da pena de morte; e a

preferência dos métodos preventivos aos repressivos; idéias estas que continuam a influenciar os sistemas penais e processuais penais atuais. (VALIENTE, 2002:161,162)

Para Bentham, a tortura era empregada para suprir a deficiência

dos meios probatórios da época: “A tortura, empregada para arrancar as confissões, objetiva suprir a deficiência das provas. Supondo que o delito não está provado, que faz o juiz? Ordena atormentar uma pessoa, na dúvida de ser inocente ou culpado”. (tradução da autora).

Sabadell (2002), discorrendo sobre a tortura oficializada afirma:

A tortura judicial está vinculada ao sistema de provas legais, desenvolvido a partir do século XIII pelos doutrinadores do Direito medieval europeu. Sua base é a classificação sistemática das provas romanas, segundo o método escolástico, em graus: provas plenas, semiplenas, indícios e presunções. Acima da prova plena está o notorium. Por meio deste instituto era concedida a dispensa de produção de provas em determinados casos. (SABADELL, 2002:275).

BENTHAM, Jeremias. Tratado de Las Pruebas Judiciales. p.316. “La tortura, empleada para arrancar las confesiones, se encamina a suplir la insuficiencia de las pruebas. En el supuesto de que el delito no está probado, qué hace el juez? Ordena atormentar a una persona, en la duda de si es inocente o culpable”.

Sabadell (2002), conceitua notorium como sendo a prova à qual se deve dar a máxima credibilidade, já que, diferentemente das demais provas, não se permite que se estabeleça nenhuma discussão ou questionamento.

Na Idade Média e grande período da Idade Moderna, inexistia a concepção de direitos individuais, havendo sempre a prevalência do interesse público em detrimento do indivíduo, o que se coaduna com o sistema inquisitório. A confissão era a regina probatium* e o depoimento de uma só testemunha não possuía valor probatório (testis unus, testis nullus**).

*tradução: rainha das Provas (cf. CALDAS, Gilberto. O Latim no Direito. p.495;

** tradução:

testemunha equivale a nenhuma testemunha. (cf. CALDAS, Gilberto. O Latim no Direito. p.308.

uma só

Unidade 3

59

Universidade do Sul de Santa Catarina

Em matéria de processo penal, o princípio da inocência do acusado era desconhecido, as provas não eram reunidas para apurar uma possível responsabilidade penal do réu, sendo que esta era constituída por cada um dos elementos que permitiam reconhecer um culpado.

De acordo com Sabadell (2002),

) (

consideração do réu como meio culpado. Um grau alcançado na demonstração da culpa (prova semiplena), implicava, conseqüentemente, um determinado grau de punição, incluindo a autorização para o uso da tortura. Em outras palavras, não se torturava um inocente, e sim um meio culpado, para confirmar a suspeita legalmente criada de que ele era realmente culpado. (SABADELL,

2002:278).

a existência de uma meia prova implicava a

Foram citados alguns meios de prova utilizados no transcorrer da história. É importante, também, mencionar os sistemas de valoração de prova, além do já citado sistema das provas legais.

Conforme Sabadell (2002), o sistema das provas legais passou por várias fases, sendo inicialmente rígido, mas ao longo dos séculos a doutrina o submeteu a modificações para facilitar a sua aplicação, até o surgimento posterior do sistema da livre apreciação de provas.

Os ideais iluministas postulados pela Revolução Francesa romperam com o sistema inquisitivo, e, através da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, conferiram maior liberdade aos juízes na apreciação da prova e na indicação dos motivos da convicção.

cf. GOMES FILHO. Antônio Magalhães. Direito à Prova no Processo Penal, 1997, p.28-29.

Tratava-se do sistema da íntima convicção. Tais ideais foram uma reação ao sistema inquisitório e à doutrina das provas legais. Vêm ao encontro de um sistema probatório que respeita o ser humano enquanto sujeito de direitos e garantias individuais, dentre elas, a proibição legal da tortura, a presunção de inocência do acusado e o direito ao contraditório.

Segundo Grinover (1982), a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, advinda da Revolução Francesa, consagrou a escola do Direito Natural, “selando a concepção

Criminalistica e Investigação Criminal

da existência de direitos subjetivos preexistentes ao Estado, não criados, mas reconhecidos por este”.

Acerca desta Declaração, menciona Bobbio (1992),

) (

nos três artigos iniciais: o primeiro refere-se à condição natural dos indivíduos que precede a formação da sociedade civil; o segundo, à finalidade da sociedade

)

política, que vem depois (

terceiro, ao Princípio de legitimidade do poder que cabe à

nação. (BOBBIO, 1992:93).

o núcleo doutrinário da Declaração está contido

do estado de natureza; o

da Declaração está contido do estado de natureza; o Segundo a Declaração Universal dos Direitos do

Segundo a Declaração Universal dos Direitos do Homem - art. 1º: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e Direitos”; art. 2º: “O objetivo de toda associação política é a conservação dos Direitos naturais e imprescritíveis do homem”; art. 3º:”O Princípio de toda soberania reside essencialmente na Nação. Nenhuma corporação, nenhum indivíduo, pode exercer autoridade que aquela não emane expressamente”. Disponível em:

<http://www.gila.net/legislação.net/internacional/

declaração_Direitos_homem_cidadao_1789.htm>.

Acesso em 14.12.03.

Gomes Filho (1997:55) entende que uma verdadeira Justiça penal pressupõe o reconhecimento, à defesa, do poder de produzir provas contrárias às da acusação, a fim de obter-se não uma verdade extorquida inquisitoriamente, mas uma verdade obtida através de meios probatórios produzidos pelas partes.

Gomes Filho (1997:31) afirma que em 1808, o Code d’instruction criminelle francês instituiu a combinação entre os padrões inquisitório e acusatório, influenciando os demais ordenamentos continentais e representando, até os dias atuais, o modelo inspirador da maioria das legislações.

A doutrina passou a postular limitações à íntima convicção do juiz, e, segundo esta nova concepção, o juiz só estaria autorizado a condenar se, além de convencido, estivesse amparado por um mínimo de elementos probatórios. Passou-se a postular pelo sistema da persuasão racional, também chamado por Capez de

CAPEZ, Fernando.Curso de Processo Penal. 2002,

p.267.

Unidade 3

61

Universidade do Sul de Santa Catarina

sistema da livre (e não íntima) convicção, da verdade real ou do livre convencimento.

Conforme Colucci (1988):

Num terceiro estágio, em respeito ao contraditório, xou-se como pressuposto do direito de defesa o conhecimento pelas partes dos caminhos percorridos pelo juiz ao julgar (persuasão racional), cedendo-se ao julgador liberdade de valoração da prova, desde que acompanhada de demonstração lógica dos motivos da decisão. A motivação das sentenças e decisões de modo geral, tornou-se verdadeira garantia individual, evitando-se que a excessiva liberdade na avaliação das provas transformasse o processo penal em instrumento de opressão e terror, em vez de protetor das liberdades públicas. (COLUCCI, 1988:237-250).

O sistema probatório de persuasão racional foi adotado pelo

Código Processual Penal Brasileiro - Decreto-Lei n.3689, de 03.10.1941-, através do seu artigo 157.

Código Processual Penal Brasileiro, (ano), art. 157: “O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova”.

Oportuna a transcrição deste trecho da Exposição de Motivos do Código Processual Penal Brasileiro. Trecho extraído da Exposição de Motivos do Código Processual Penal Brasileiro, no capítulo que discorre sobre Provas.

Não serão atendíveis as restrições à prova estabelecidas pela lei civil, salvo quanto ao estado das pessoas; nem é prefixada uma hierarquia de provas: na livre apreciação destas, o juiz formará, honesta e lealmente, a sua convicção. A própria confissão do acusado não constitui, fatalmente, prova plena de sua culpabilidade. Todas as provas são relativas; nenhuma delas terá, ex vi legis, valor decisivo, ou nec essariamente maior prestígio que outra. Se é certo que o juiz fica adstrito às provas constantes dos autos, não é menos certo que não fica adstrito a nenhum critério apriorístico no apurar, através delas, a verdade material. Nunca é demais, porém, advertir que livre convencimento não quer dizer puro capricho de opinião ou mero arbítrio da apreciação das Provas. O juiz está livre de preconceitos legais na aferição das Provas, mas não pode abstrair-se ou alhear-se ao seu conteúdo. Não estará ele dispensado de motivar sua sentença. E precisamente nisto reside a suficiente Garantia do Direito das partes e do interesse social.

Através do sistema da persuasão racional, não há hierarquia entre

as Provas e o juiz pode decidir de acordo com a sua consciência, desde que o faça motivadamente e, considerando-se a visão sistêmica, obedecendo à Constituição da República, o Código

Criminalistica e Investigação Criminal

de Processo Penal e demais legislações vigentes. Tal motivação não se faz necessária apenas nas decisões do júri, considerando a soberania dos vereditos e o sigilo das votações, preceituados no artigo 5º, XXXVIII, da Carta Magna.

De outro lado, os meios de prova mencionados no Código de Processo Penal são apenas exemplificativos, admitindo-se as provas inominadas.

Acerca deste sistema, entende Capez (2002), que:

) (

rejeitando o formalismo exacerbado, e impede o absolutismo pleno do julgador, gerador do arbítrio, na medida em que exige motivação. Não basta ao magistrado embasar a sua decisão nos elementos probatórios carreados aos autos, devendo indicá-los especificamente. Não pode, igualmente, o magistrado buscar como fundamento elementos estranhos aos autos.

(CAPEZ 2002:267).

atende às exigências da busca da verdade real,

Tem-se, pois, um sistema processual penal que permite todos os meios de prova, limitados, entretanto, pelas normas constitucionais e infraconstitucionais.

Neste sistema, concebe-se a prova no Processo Penal como verdadeiro direito garantido às Polícias, à acusação e à defesa, assegurado pela leitura coordenada da Constituição da República, e por textos legais internacionais.

SEÇÃO 5 - Inquérito policial

Como você viu anteriormente, o objetivo principal das Polícias Civil e Federal é a investigação criminal, que procura demonstrar a existência do fato criminoso, a autoria e estabelece as condições em que o crime ocorreu.

Mas, a investigação criminal não é atividade exclusiva destas Polícias. O Ministério Público, Congresso Nacional, Polícias Militares e outros órgãos podem exercer atividade investigativa.

Unidade 3

63

Universidade do Sul de Santa Catarina

Universidade do Sul de Santa Catarina O inquérito policial é de atribuição exclusiva das Polícias Federal

O inquérito policial é de atribuição exclusiva das Polícias Federal e Civil.

Após a prática da infração penal, cabe à Polícia Judiciária a apuração imediata do delito, por meio da investigação policial, cujos atos e resultados deverão ser formalizados, via de regra, através do inquérito policial.

O auto de prisão em flagrante, previsto no Código de

Processo Penal Brasileiro, o termo circunstanciado, previsto nas Leis Federais n. 9099/95 e n. 10259/2001, e o auto de apuração de atos infracionais, previsto no Código da Criança e do Adolescente (Lei Federal n. 8069/90), também são procedimentos policiais que podem ensejar investigação. Considerando que, de forma geral, os atos investigativos são praticados no inquérito policial, este estudo aborda apenas este.

no inquérito policial, este estudo aborda apenas este. Segundo Tourinho Filho (2001:25) inquérito policial ) (

Segundo Tourinho Filho (2001:25) inquérito policial

) (

visando a investigar o fato típico e a apurar a respectiva autoria