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GT 1 Estudos Históricos e Epistemológicos da Ciência da Informação O GTI 1 aborda Estudos

GT 1

Estudos Históricos e Epistemológicos da Ciência da Informação

O GTI 1 aborda Estudos Históricos e Epis- temológicos da Ciência da Informação. Constituição do campo científico e questões epistemológicas e históricas da Ciência da informação e seu objeto de estudo - a infor- mação. Reflexões e discussões sobre a disci- plinaridade, interdisciplinaridade e transdis- ciplinaridade, assim como a construção do conhecimento na área.

SUMÁRIO INFORMAÇÃO SEGUNDO NIKLAS LUHMANN: BASE TEÓRICA PARA UMA “CIÊNCIA DO INFORMAR-SE” Marcos Gonzalez Souza

SUMÁRIO

INFORMAÇÃO SEGUNDO NIKLAS LUHMANN: BASE TEÓRICA PARA UMA “CIÊNCIA DO INFORMAR-SE” Marcos Gonzalez Souza

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INTEGRAÇÃO EPISTEMOLÓGICA DA ARQUIVOLOGIA, DA BIBLIOTECONOMIA E DA MUSEOLOGIA NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: POSSIBILIDADES TEÓRICAS Carlos Alberto Ávila Araújo

20

O

CAMPO DA INFORMAÇÃO

Angelica Alves Marques

39

O IMPERATIVO MIMÉTICO: A FILOSOFIA DA INFORMAÇÃO E O CAMINHO DA QUINTA

IMITAÇÃO

Gustavo Silva Saldanha

56

RUÍDO, PERTURBAÇÃO E INFORMAÇÃO: NOTAS PARA UMA TEORIA CRÍTICA DOS SISTEMAS AUTOPOIÉTICOS. Antonio Saturnino Braga

72

RELAÇÕES OU “SEMELHANÇAS DE FAMÍLIA” EM CRITÉRIOS UTILIZADOS PARA JULGAMENTO DE INFORMAÇÕES NA WEB Márcia Feijão de Figueiredo, Maria Nélida González de Gómez

88

A

INTERDISCIPLINARIDADE NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: ESTRATÉGIAS DO

DISCURSO CONTEMPORÂNEO INTEGRADOR Edivanio Duarte de Souza, Eduardo José Wense Dias

104

SOCIEDADE, INFORMAÇÃO, CONDIÇÕES E CENÁRIOS DOS USOS SOCIAIS DA

INFORMAÇÃO

Francisco das Chagas de Souza

122

ABORDAGEM FENOMENOLÓGICA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: QUESTÕES E DESAFIOS NO CENÁRIO DA PESQUISA José Mauro Matheus Loureiro, Maria Lúcia Niemeyer Matheus Loureiro, Sabrina Damasceno Silva, Daniel Maurício Vianna Souza

137

MIGRAÇÃO CONCEITUAL ENTRE SISTEMAS DE RECUPERAÇÃO DA INFORMAÇÃO

E

CIÊNCIAS COGNITIVAS: UMA INVESTIGAÇÃO SOB A ÓTICA DA ANÁLISE DO

DISCURSO

 

Fernando Skackauskas Dias, Monica Nassif Erichsen

150

ANTES DA GESTÃO DE DOCUMENTOS: PROSPECÇÃO NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA Renato Pinto Venancio

170

A PRESENÇA FRANCESA E O DESENVOLVIMENTO DA LEITURA: ORIGENS DA

DIFUSÃO E MEDIAÇÃO DE SABERES NO BRASIL Katia Carvalho ENTRE VALORES E VERDADES: ANÁLISE SOBRE

DIFUSÃO E MEDIAÇÃO DE SABERES NO BRASIL Katia Carvalho

ENTRE VALORES E VERDADES: ANÁLISE SOBRE A INFLUÊNCIA DO POSITIVISMO NAS CONCEPÇÕES DA ARQUIVÍSTICA SOBRE DOCUMENTOS

183

Raquel Luise Pret

194

O

CONCEITO ONTOLÓGICO FENOMENOLÓGICO DA INFORMAÇÃO: UMA

INTRODUÇÃO TEÓRICA Marcos Luiz Mucheroni, Robson de Andrade Gonçalves

211

DOCUMENTO “SENSÍVEL” E INFORMAÇÃO (IN)ACESSÍVEL? Icléia Thiesen

226

AS DUAS CULTURAS E OS REFLEXOS NO MUNDO ATUAL NAS CIÊNCIAS E NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO * Valeria Gauz, Lena Vania Ribeiro Pinheiro

240

A

IDENTIDADE DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO BRASILEIRA NO CONTEXTO DAS

PERSPECTIVAS HISTÓRICAS DA PÓS-GRADUAÇÃO: ANÁLISE DOS CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS DOS PPGCI’S

 

Jonathas Luiz Carvalho Silva, Gustavo Henrique de Araújo Freire

255

CARACTERÍSTICAS NATURAIS DA INFORMAÇÃO: VISÃO INTERDISCIPLINAR DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO COM A FÍSICA E A BIOLOGIA Marcelo Stopanovski Ribeiro, Rogério Henrique de Araújo Júnior

275

BREVES REFLEXÕES ACERCA DA INTERDISCIPLINARIDADE NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: UM OLHAR ATRAVÉS DA FORMAÇÃO ACADÊMICA DO CORPO DISCENTE DO PPGCI IBICT / UFRJ – 2009 E 2010 Leandro Coelho de Aguiar, Renata Regina Gouvea Barbatho

283

A

TEORIA MATEMÁTICA DA COMUNICAÇÃO E A CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO

William Guedes

290

CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: RELAÇÃO INTERDISCIPLINAR COM AS DISCIPLINAS INTELIGÊNCIA COMPETITIVA E GESTÃO DO CONHECIMENTO Simone Alves da Silva, Simone Faury Dib, Neusa Cardim da Silva

295

DO DOCUMENTO CONTÁBIL ELETRÔNICO ENQUANTO PROVA: ANÁLISE INTERDISCIPLINAR ENTRE O DIREITO E A ARQUIVÍSTICA. Rúbia Martins, João Batista Ernesto Moraes

302

A

VERDADE, A INFORMAÇÃO E O ARQUIVO: PRIMEIRAS IMPRESSÕES NA BUSCA

POR UMA FILOSOFIA DA INFORMAÇÃO

 

Aluf Alba Elias

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C O M U N I C A Ç Ã O O R A L

C O M U N I C A Ç Ã O

O R A L

INFORMAÇÃO SEGUNDO NIKLAS LUHMANN: BASE TEÓRICA PARA UMA “CIÊNCIA DO INFORMAR-SE”

Marcos Gonzalez Souza

Resumo:

No âmbito de sua oniabarcadora teoria de sistemas, Niklas Luhmann (2010 [1995]) recusou a “metáfora da transferência de informação”, conceito hegemônico desde a “teoria da comunicação” de Claude Shannon (1948), o que o colocou em uma “posição minoritária” em relação à pesquisa acadêmica de sua época. No esforço de erigir “um edifício suficientemente complexo, capaz de servir de contraste ao que foi obtido pela tradição”, Luhmann propôs então um conceito de informação substitutivo, que é aqui interpretado à luz de argumentos linguísticos. Concluímos que, para Luhmann, informação é tanto a própria “ação de informar-se” quanto o “resultado ou efeito” dessa ação, que deve ser compreendida no sentido de “instrução de processos”. Consideramos, por fim, que seus conceito e teoria são capazes de expandir os horizontes epistemológicos da Ciência da Informação.

Palavras-chave: Teoria de sistemas, Autopoiesis, epistemologia da Ciência da Informação

Abstract:

In the context of his encompassing systems theory, Niklas Luhmann (2010 [1995]) rejected the “metaphor of information transfer”, an hegemonic concept since the “theory of communication” of Claude Shannon (1948), which put him in a “minority position” in relation to the academic research of his time. In an effort to erect “a building complex enough to serve as a contrast to what was obtained by tradition”, Luhmann then proposed a surrogate concept of information, which is here interpreted in the light of linguistic arguments. We conclude that, for Luhmann, information is either “action of self information” or “a result or effect” of this action, which must be understood in the sense of “instruction of processes”. We consider, in the end, that his concept and theory are able to expand the epistemological horizons of Information Science.

Keywords: Systems theory, Autopoiesis, epistemology of Information Science.

1. Introdução Tendo como ponto de partida a mesma pretensão oniabarcadora dos “sistemas veteroeuropeus”, o sociólogo Niklas Luhmann ambicionou ir além da tentativa de renovar em profundidade as categorias

do modo ocidental de pensar o homem e a sociedade, a que a tradição chamou

do modo ocidental de pensar o homem e a sociedade, a que a tradição chamou “filosofia prática”, ou mesmo as categorias do pensar enquanto tal, que seriam igualmente as do ser, e que a tradição tematizou sob o nome de “ontologia” (SANTOS, 2005b, p. 8-9). Sua obra insere-se no domínio da sociologia de Talcott Parsons, sua principal referência, mas insere um leque muito significativo de novos contributos, de grande originalidade e ainda maior radicalidade, desenvolvidos no âmbito da “Teoria Sistêmica de Segunda Geração” (ESTEVES, 2005, p. 281-282). Na década de 1920, Ludwig von Bertalanffy havia introduzido a “Teoria Geral de Sistemas”, definindo sistemas como um “conjunto de elementos de interação” (VON BERTALANFFY, 2009 [1967], p. 63). Naquele tempo, a física convencional tratava dos sistemas fechados, isto é, isolados de seu ambiente. O segundo princípio da termodinâmica, por exemplo, enuncia num sistema fechado uma certa quantidade chamada “entropia”. Sendo entropia uma medida da probabilidade, um sistema fechado tende para o estado de distribuição mais provável, ou seja, um estado de equilíbrio. Von Bertalanffy dá como exemplos “uma mistura de contas de vidro vermelhas e azuis ou de moléculas com velocidades diferentes”, em um estado de completa desordem. Uma situação altamente improvável é “encontrar todas as contas vermelhas separadas de um lado e de outro todas as contas azuis ou ter em um espaço fechado todas as moléculas rápidas, isto é, uma alta temperatura do lado direito, e todas as moléculas lentas, numa baixa temperatura, do lado esquerdo”. Ao contrário, a tendência para a máxima entropia ou a distribuição mais provável é a tendência para a máxima desordem.

No entanto, encontramos sistemas que por sua própria natureza e definição não são sistemas fechados: todo organismo vivo, por exemplo, é essencialmente um sistema aberto. Para esses, as formulações convencionais da física são em princípio inaplicáveis; von Bertalanffy, porém, observou que concepções e pontos de vista gerais semelhantes surgiram em várias disciplinas da ciência moderna para lidar com os sistemas:

Enquanto no passado a ciência procurava explicar os fenômenos observáveis reduzindo-os à interação de unidades elementares investigáveis independentemente umas das outras, na ciência contemporânea aparecem concepções que se referem ao que é chamado um tanto vagamente “totalidade”, isto é, problemas de organização, fenômenos que não se resolvem em acontecimentos locais, interações dinâmicas manifestadas na diferença de comportamento das partes quando isoladas ou quando em configuração superior, etc. (VON BERTALANFFY, 2009 [1967], p. 61-62) Concepções e problemas desta natureza surgiram em todos os planos da ciência quer o objeto de estudo fossem coisas inanimadas quer fossem organismos vivos ou fenômenos sociais. Aparecem os “sistemas de várias ordens”, que não são inteligíveis mediante a investigação de suas respectivas partes isoladamente. Os sistemas abertos responderam, conforme resgate histórico de Luhmann (2010 [1995], p. 203) 1 , a essa referência teórica, na medida em que os estímulos provenientes do meio podiam

1 Doravante neste texto, faremos referências a essa edição citando-lhe apenas a página

modificar a estrutura do sistema: uma mutação não prevista, no caso do biológico; uma comunicação

modificar a estrutura do sistema: uma mutação não prevista, no caso do biológico; uma comunicação surpreendente, no social:

Mantém-se em um contínuo fluxo de entrada e de saída, conserva-se mediante a construção e a decomposição de componentes, nunca estando, enquanto vivo, em um estado de equilíbrio químico e termodinâmico, mas mantendo-se no chamado estado estacionário, que é distinto do último. Isto constitui a própria essência do fenômeno fundamental da vida, que é chamado metabolismo, os processos químicos que se passam no interior das células (VON BERTALANFFY, 2009 [1967], p. 65).

As categorias de variação, seleção, estabilização, consolidaram o modelo dos sistemas abertos na teoria geral dos sistemas, mas para Luhmann, ainda era preciso enfrentar o conceito de causalidade (acaso), que colocava a relação entre sistema e meio “no terreno dos impulsos de variação que se situam fundamentalmente na parte relativa ao meio”. Segundo essa teoria, tais impulsos levam a mutações no sistema (mudanças químicas operadas no meio, seleção de formas de sobrevivência que não estão de modo algum visíveis no sistema), tratando-se, portanto, de uma determinação externa da estrutura do sistema. Com efeito, desde Darwin, era preciso explicar a multiplicidade das espécies biológicas: como

é possível que de um acontecimento único fundador da vida (a célula) se tenha chegado a tão distintas formas orgânicas? No âmbito do social, poder-se-ia estabelecer uma inquietação equivalente: partindo- se do pressuposto de que a consciência é um programa praticamente em branco com uma estrutura biológica mínima, no sentido de estruturas inatas chomskyanas, competentes para a linguagem, ou com alguns instintos biológicos ancorados, como é possível explicar que, uma vez que a linguagem emerge como fenômeno universal de socialização, tenha se desenvolvido tamanha diversidade de culturas e de linguagens? (p. 62) Dispondo de um arquivo acumulado durante quarenta anos, contendo, segundo ele próprio, “cerca de umas cem mil anotações bibliográficas” (p. 203), Luhmann realizou um meticuloso trabalho de “ajuste” dos conceitos relevantes, para que pudessem comportar um corpo teórico coerente: “não se trata de introduzir, nem de dispor a contento dos conceitos”, dizia ele, “sem levar em conta as tradições teóricas que os acompanham e, caso necessário, substituí-los” (p. 292). Uma preocupação teórica de Luhmann consistia em articular a ideia de que a evolução não podia ser prognosticada, uma vez que a admiração pela complexidade do mundo sempre acarretou “o recurso às teorias da criação” e, finalmente, “à admiração por Deus”. Aí, “a ordem era a execução de um plano, porque o mundo não podia ser explicado sem que houvesse uma intencionalidade por detrás” (p. 143-144). Se não há intencionalidade, porque intencionalidade implicaria a volta a um sistema de causa e efeito, Luhmann não podia admitir qualquer tráfego de mensagens do meio para o sistema, muito menos informação: “Em outros preceitos teóricos”, explica Luhmann, “a informação

é entendida como um transfer a partir do meio; no contexto do acoplamento estrutural [em sua teoria

de sistemas autopoiéticos], trata-se de um acontecimento que se realiza por uma operação efetuada no próprio sistema”. Luhmann associa essa metáfora do transfer à Segunda Cibernética, com seus

“sistemas que interpretam o mundo (sob o preceito da energia ou da informação) e reagem

“sistemas que interpretam o mundo (sob o preceito da energia ou da informação) e reagem conforme esta interpretação”. Em ambos os casos, a entropia faz com que os sistemas estabeleçam um processo de troca entre sistema e meio:

Abertura significou comércio com o meio, tanto para a ordem biológica como para os

sistemas voltados para o sentido (sistemas psíquicos, sistemas sociais

nova ênfase no modelo: o intercâmbio. Para os sistemas orgânicos se pensa em intercâmbio de energia; para os sistemas de sentido, em intercâmbio de informação (p. 61).

). Surgiu, assim, uma

Aí reside a ruptura nas elaborações teóricas de Luhmann (GUIBENTIF, 2005, p. 221), por ele qualificada de “mudança de paradigma” ou “refundação da teoria” (p. 125), quando orientou, de maneira bastante inovadora, sua conceptualização dos sistemas sociais em torno do conceito de autopoiesis”. O termo foi inicialmente cunhado pelo biólogo chileno Humberto Maturana que, com Francisco Varela, postulou que “o que caracteriza o ser vivo é sua organização autopoiética” (MATURANA e VARELA, 2010 [1984], p. 55): seres vivos diferentes se distinguem porque têm estruturas distintas, que destaca o fato de que os seres vivos são unidades autônomas, embora sejam iguais em organização. A dúvida fundamental de Luhmann é “se a teoria da socialização pode ser entendida a partir do modelo da transmissão” (p. 148). Desde os anos 1950, diz o sociólogo, “verifica-se um ápice no emprego do conceito de informação, sem, contudo, denotar algum esforço em atingir clareza conceitual” (p. 139-140). A “teoria da comunicação” (SHANNON, 1948) é uma que fala em que “os meios de comunicação transmitem informação”, caindo aí no problema de “ter de afirmar que a individualidade é, portanto, somente uma cópia que se desenvolve no campo amplo da diferenciação cultural”. E não constitui um avanço substancial – prossegue o sociólogo – a afirmação de que isso se dá “mediante processos de ensino-aprendizagem, conduzidos por pessoas que desempenham o papel social de professor, educador – como sendo os que entendem o comportamento adequado –, e são capazes de transferir esses modelos de socialização aos demais”: isto seria, novamente, “basear a socialização na teoria da transmissão”. Maturana seria, segundo Luhmann, “um dos poucos que, decididamente, opôs-se ao emprego da metáfora da transferência”, ponto de vista que os colocou “numa posição minoritária” no meio acadêmico (p. 294). No Brasil, essa situação foi constatada empiricamente. Francelin (2004) cita o sociólogo entre os autores que formam as “bases do pensamento pós-moderno”, mas, como resultado de sua análise de 258 volumes de oito revistas de CI no Brasil, no período de 1972-2002, mostra que, na categoria de análise “Complexidade”, que abarca “teoria de sistemas” e “relações de complexidade”, há apenas 10 artigos. Arboit et al. (2010), um estudo que analisa a configuração epistemológica da CI brasileira com base na análise de citações da produção periódica da área entre 1972 e 2008, confirmam a ausência de Luhmann entre os autores que mais influenciam a área, muito embora um de seus mais proeminentes seguidores, Rafael Capurro, seja o autor estrangeiro mais citado. A Ciência da Informação, apesar dos esforços em aprimorar abordagens teóricas alternativas, não conseguiu, na

opinião de Hofkirchner (2011) e outros, desenvolver um corpo teórico que fosse reconhecido como uma

opinião de Hofkirchner (2011) e outros, desenvolver um corpo teórico que fosse reconhecido como uma teoria mais geral da informação. Daí nosso interesse em Luhmann, que acredita ter erigido “um edifício suficientemente

complexo, capaz de servir de contraste ao que foi obtido pela tradição” (p. 203). O que pretendemos

é analisar o papel que o conceito de informação tem nesse “edifício”. Sabemos que, como dizem

Capurro e Hjørland (2007 [2003]), “as definições não são verdadeiras ou falsas, mas sim, mais ou menos produtivas”, e concordamos com Basilio (1999) quando ela diz que “o conjunto de objetos do mundo externo designado por uma palavra não é suficientemente especificado pela estrutura morfo-semântica, estabelecendo-se com ela uma caracterização genérica”. Para nosso fins, estaremos satisfeitos se pudermos apontar, com base em um sistema de categorias suficientemente robusto (descrito na próxima seção), a essência da diferença entre as teorias de sistemas de Luhmann e daquelas que ele refuta. 2. Método Na Morfologia linguística, “derivação” é o nome do processo formador de novas palavras, e “produtividade”, da formação de palavras novas por determinada Regra de Formação de Palavras, ou RFP. A princípio, uma palavra como informação é formada por uma regra que pode ser representada como em [X] V → [[X] V -ção] N , que nos diz que se pode formar um nome em -ção a partir de um verbo (representado pela variável X) e, ademais, que a produtividade dessa RFP só se aplica a verbos, e não a qualquer lexema (ROSA, 2000; FREITAS, 2007). Eis porque é chamada “nominalização deverbal”. As nominalizações deverbais possuem duas funções reconhecidas pelos estudiosos das línguas:

de mudança categorial e designadora (ou denotativa). A primeira obedece, sobretudo, a motivações de estruturação textual, sendo uma construção transparente e sem objetivos designadores. Já a nominalização denotativa tem uma função de designação de “seres, processos, eventos, situações” específicos (BASILIO, 2004). As nominalizações em -ção costumam ser interpretadas como uma “ação ou resultado da ação” expressa pela base verbal correspondente. Por essa regra geral, informação pode então ser interpretada como a nominalização da ação informar (informar informação) “ou resultado dessa ação”. Não devemos nos esquecer, ainda, que o verbo em estudo admite reflexividade, informar-se, portanto, informação também é a nominalização da ação informar-se (informar-se informação), ou o resultado dessa ação. Há, porém, quem não considere relevante a origem da base das nominalizações, mas a relação geral verbo/nome, que obedeceria, em princípio, a um padrão derivacional, segundo o qual, “dada

a existência de um verbo no léxico do Português, é previsível uma relação lexical entre este verbo

e um nome”. É comum em algumas línguas como o português e o japonês encontrarmos termos com o mesmo étimo que muito frequentemente extrapolam os limites das suas famílias linguísticas. Afirma-se que, para o significado original, produtos da derivação sufixal em -ção, como informação,

referem-se basicamente a “seres abstratos”, mas o mesmo não vale, necessariamente, para as demais acepções

referem-se basicamente a “seres abstratos”, mas o mesmo não vale, necessariamente, para as demais acepções da palavra, que podem ser concretas: criação (“ato de criar”), por exemplo, pode ser referir a animais; coração, aparentemente, o concreto veio antes do sentido abstrato, “a menos que tenha tido algum significado abstrato inicial que não podemos restaurar” (VIARO, 2011, p. 117-122). Não podemos descartar, em suma, a hipótese de que informação é que deu origem aos verbos (informação informar; informação informar-se). Admite-se, ainda, que informação pode ser usada ignorando-se completamente a base verbal, aproximando o termo daquilo que, no “mito do objetivismo” identificado por Lakoff e Johnson (2002 [1980], p. 295-297), entenderíamos como um “objeto”, algo com propriedades independentes de quaisquer pessoas ou outros seres que os experienciem, conceitos como pedra, âncora, azeite ou escudo. Segundo esses autores, sob esse paradigma, mesmo “eventos, ações, atividades e estados” são metaforicamente conceptualizados como “objetos”. Uma corrida, por exemplo, é um evento compreendido como uma entidade discreta, e a prova está na língua: existe no tempo e no espaço

(“você vai à corrida?”), tem demarcações bem definidas (“você viu a corrida?”) e contém participantes (“você está na corrida no Domingo?”). Quanto à semântica, seguimos aqui as categorias de Salgado (2009), que, em estudo sobre as regências de informar em galego, estabeleceu quatro significados fundamentais para o verbo.

A acepção 1 é “continuadora do significado etimológico do verbo” (lat. informare, “dar forma”,

“modelar”, “formar no ânimo”) que, no galego moderno aparece quase exclusivamente em textos

de caráter filosófico. Com o significado 2, informar é um “verbo de transferência” que seleciona três

argumentos potestativamente, isto é, que podem estar expressos ou não, que projetam, sintaticamente,

os papéis de emissor, destinatário e tema. No dicionário Houaiss (2001), essa acepção é registrada como “fazer saber” ou “cientificar”, e informação, então, é a “comunicação de um conhecimento

ou juízo” ou um “acontecimento ou fato de interesse geral tornado do conhecimento público ao ser

divulgado pelos meios de comunicação; notícia”. Segundo Salgado, a acepção 2 é “a estrutura mais documentada de informar”, o que faz dela o sentido default para o verbo em galego. No significado 3, informar especializou-se no meio jurídico-administrativo como “[um organismo, perito, corpo consultivo] emitir informes da sua competência”. Essa acepção está lexicografada no Houaiss como sinônimo de “instruir (um processo)”. Por último, na acepção 4, informar aparece sempre em construção pronominal (informar-se), que no Houaiss é o informar-se (“tomar ciência de” ou “cientificar-se”); informação está associada à “recepção de um conhecimento ou juízo” ou um “conhecimento obtido por meio de investigação ou instrução”. Tomando como corpus o último livro Luhmann (2010 [1995]), vamos buscar, então, uma

“caracterização genérica” para seu conceito de informação, nos seguintes termos:

(A) Informação é uma “ação” ou “objeto”? (B) se denota “ação”, como se pode interpretá-la: como (i) “ação de informar”, (ii) “ação de informar-se”, “(iii) “resultado ou efeito da ação de informar” ou (iv) “resultado ou efeito

da ação de informar-se”? (C) ainda, se denota uma “ação”, expressa qual dos significados fundamentais

da ação de informar-se”? (C) ainda, se denota uma “ação”, expressa qual dos significados fundamentais de Salgado

(2009)?

3. A “metateoria” de Niklas Luhmann

Em Luhmann, o que mudou com a apropriação do conceito de autopoiesis, em relação aos avanços alcançados nos anos 1950 e 1960, foi a definição de sistema como “a diferença entre sistema e meio” (LUHMANN, 2010 [1995], p. 81). Poder-se-ia dizer: “o sistema é a diferença resultante da diferença entre sistema e meio” ou, ainda, “a fundação da unidade está colocada junto da diferença” (p. 304). Assim, a Teoria dos Sistemas não começa sua fundamentação com uma unidade, ou com uma “cosmologia que represente essa unidade, ou ainda com a categoria do ser, mas sim com a diferença”. A “afirmação mais abstrata” que se pode fazer sobre um sistema – e que é válida para qualquer tipo de sistema – é que a diferença que há entre sistema e meio pode ser descrita como diferença de complexidade: o meio de um sistema é sempre mais complexo do que o próprio sistema (p. 183-184). Cada organismo, máquina e formação social, tem sempre um meio que é mais complexo, e oferece mais possibilidades do que aquelas que o sistema pode aceitar, processar, ou legitimar. Na definição de Maturana, diz Luhmann, “autopoiesis significa que um sistema só pode produzir operações na rede de suas próprias operações, sendo que a rede na qual essas operações se realizam é produzida por essas mesmas operações”; ademais, “dentro do sistema não existe outra coisa senão sua própria operação” (p. 119-120). Ao tomar como ponto de partida esse “encerramento de operação”, deve-se entender por autopoiesis, então, “que o sistema se produz a si mesmo, além de suas estruturas”. O axioma do “encerramento operativo” leva aos dois pontos mais discutidos na atual Teoria dos Sistemas: a) auto-organização; b) autopoiésis. Os dois têm como base um princípio teórico sustentado na diferença e um mesmo princípio de operação: cada um acentua aspectos específicos do axioma, mas o sistema só pode dispor de suas próprias operações (p. 112). Se Maturana e Varela (2010 [1984], p. 53) entendem “organização” como “as relações que devem ocorrer entre os componentes de algo, para que seja possível reconhecê-lo como membro de uma classe específica”, para Luhmann só há “auto-organização”, no sentido de uma “construção de estruturas próprias dentro do sistema”. Como os sistemas estão enclausurados em sua operação, eles não podem “conter” estruturas, eles mesmos devem construí-las. Enquanto Maturana e Varela entendem por “estrutura de algo” os “componentes e relações que constituem concretamente uma unidade particular e configuram sua organização”, Luhmann diz que “uma estrutura constitui a limitação das relações possíveis no sistema” (p. 113). O sistema dispõe de um campo de estruturas delimitadas, que determinam o espectro de possibilidades de suas operações. Mas a estrutura luhmanniana não é o fator produtor, a origem da autopoiesis: trata-se de um processo circular interno de delimitação. Por exemplo (de Luhmann), “numa conversa”, que o autor enxerga como um sistema (o sistema “comunicação”), “o que se disse por último é o ponto de

apoio para dizer o que se deve continuar dizendo; assim como o que se percebe

apoio para dizer o que se deve continuar dizendo; assim como o que se percebe no último momento constitui o ponto de partida para o discernimento de outras percepções”. Portanto, o conceito de auto- organização deve ser entendido, primeiramente, como produção de estruturas próprias, mediante operações específicas. Autopoiesis significa para Luhmann a determinação do estado posterior do sistema, a partir da limitação anterior à qual a operação chegou. Somente por meio de uma estruturação limitante, um sistema adquire a suficiente direção interna que torna possível a autorreprodução. As estruturas condicionam o espectro da possibilidade no sistema; a autopoiesis determina o que é possível, de fato, na operação atual. O molde das estruturas pré-condiciona o que é passível de ser examinado; e a autopoiesis determina o que, realmente, deve sê-lo (LUHMANN, 2010 [1995], p. 138). Os sistemas luhmannianos são “autônomos no nível das operações”. Entende-se por “autonomia”

a propriedade que os sistemas têm de somente a partir da operação ser possível determinar o que

lhe é relevante e, principalmente, o que lhe é indiferente. Por conta da “teoria do encerramento operativo”, Luhmann conclui que “a diferença sistema/meio só se realiza e é possível pelo sistema”. Assim, o sistema não pode importar nenhuma operação a partir do meio, mas não está, por outro lado, condicionado a responder a todo dado ou estímulo proveniente do meio ambiente (p. 120). O meio, por sua vez, só pode produzir efeitos destrutivos no sistema se conseguir irromper na operação da autopoiesis, daí que a autopoiesis é construída de maneira altamente seletiva, resguardando-se precisamente de que o meio a destrua, “chegando a interromper o processo da evolução” (p. 280) se necessário. Donde se deduz que, segundo Luhmann, sobreviver é ainda mais fundamental que viver. Ao transferir seu centro de gravidade para o conceito de autopoiesis, a Teoria dos Sistemas defronta-se com o problema de como estão reguladas as relações entre sistema e meio; uma vez que, principalmente na estratégia teórica, “a distinção sistema/meio faz referência ao fato de que o sistema já contém a forma meio” (p. 128). Faz-se necessário mais um conceito fundamental da metateoria, o conceito de “acoplamento estrutural” (p. 130). As causalidades que podem ser observadas na relação entre sistema e meio situam-se exclusivamente no plano dos acoplamentos estruturais – o que significa dizer que estes devem ser compatíveis com a autonomia do sistema. Os acoplamentos estruturais podem admitir uma diversidade muito grande de formas, desde que sejam compatíveis com a autopoiesis. Um exemplo de acoplamento estrutural, dado pelo autor, é a musculatura dos organismos, que é condizente com a força da gravidade, embora restrita a âmbitos de possibilidades de movimentos. A linha de demarcação que divide o meio, entre aquilo que estimula ao sistema e aquilo que não o estimula – e que se realiza mediante o acoplamento estrutural – tende a reduzir as relações relevantes entre sistema e meio a um âmbito estreito de influência, pois acoplamento estrutural exclui

que dados existentes no meio possam definir, conforme as próprias estruturas, o que acontece no

sistema. Ele não determina, mas deve estar pressuposto, já que, do contrário, a autopoiesis se deteria

e o sistema deixaria de existir. Mediante o acoplamento estrutural, o sistema desenvolve, por um lado, um campo de indiferença e, por outro, faz com que haja uma canalização de causalidade que produz

efeitos que são aproveitados pelo sistema (p. 132). Em suma, todos os sistemas estão adaptados

efeitos que são aproveitados pelo sistema (p. 132). Em suma, todos os sistemas estão adaptados ao

seu meio (ou não existiriam), ainda que dentro do raio de ação que lhes é conferido eles tenham todas

as possibilidades de se comportar de um modo não adaptado (p. 131). Com a ajuda de modelos de seletividade, os sistemas se tornam, segundo Luhmann, mais capacitados para processar os dados – ou, como prefere Luhmann, as “irritações provenientes do meio” – o que proporciona “a possibilidade de aproximar-se da racionalidade”. Um sistema pode, no entanto, construir sua própria irritabilidade:

Ele pode inserir a distinção sistema/meio de ambas as partes, mediante ulteriores distinções e, dessa forma, ampliar suas possibilidades de observação. Também pode utilizar indicações e, com isso, condensar referências; ou então, não fazê-lo, deixando assim que umas possibilidades caiam no esquecimento. Ele pode recordar e esquecer e, portanto, “reagir à frequência das irritações”.

Diferentemente das concepções próprias da tradição, Luhmann não quer se aproximar de um ideal, nem de uma justiça maior, ou de uma construção superior, e tampouco da autorrealização

de um espírito objetivo ou subjetivo. Também não se trata de atingir a unidade: a racionalidade do sistema significa expor-se à realidade, colocando-lhe à prova uma distinção, entre sistema

e meio (p. 200). A radicalidade desses princípios teóricos, para Luhmann, subentende uma

mudança radical na teoria do conhecimento e na ontologia que lhe serve de pressuposto. Quando se aborda a teoria da autopoiesis tendo em conta o encerramento de operação, “fica evidente que se trata de um rompimento com a tradição ontológica do conhecimento, na qual algo pertencente ao meio pode ser transportado ao ato de conhecer, seja como representação, reflexo, imitação, ou simulação” (p. 125).

4. Objeções à “metáfora da transferência”

Na vida cotidiana, assim como em alguns processos de pesquisa das ciências, diz Luhmann, “o conceito de comunicação se baseia na metáfora da transferência (transmissão)”. Essa metáfora coloca, segundo o autor, “a essência da comunicação no ato da transmissão, no ato de partilhar a comunicação”. Ela dirige a atenção e os requisitos de habilidade para o emissor e acentua “o caráter de multiplicação, e não de perda, que se efetua com ela” (p. 294-295) As objeções feitas a esse conceito usual de comunicação concentram-se, de acordo com Luhmann, em “dois aspectos” 2 , sendo que o primeiro é “relativamente superficial e sempre foi conhecido” (p. 294): dar-se conta de que na comunicação não se trata de desfazer-se de algo – por exemplo, que, ao se comunicar, o transmissor deixa de possuir algo; assim como em uma transação econômica, na qual um pagamento pressupõe desfazer-se de uma quantidade de dinheiro, ou em uma venda, por meio da qual um proprietário se desfaz de um imóvel.

2 Luhmann fala em “dois aspectos”, mas elenca três, como veremos.

Luhmann discorda: “a comunicação é uma sucessão de efeitos multiplicadores”, primeiramente, um a tem, e

Luhmann discorda: “a comunicação é uma sucessão de efeitos multiplicadores”, primeiramente, um a tem, e depois, dois, e logo ela pode ser estendida a milhões, dependendo da rede comunicacional na qual se pense (por exemplo, a televisão). A metáfora sugere que o emissor transmite algo que é recebido pelo receptor; “mas este não é o caso, simplesmente porque o emissor não dá nada, no sentido de perder algo”. A metáfora do possuir, ter, dar e receber, portanto, “não serve para compreender a comunicação” (p. 296-297). Enfim, a metáfora da transmissão não é útil, pois implica “demasiada ontologia”. O sociólogo apóia-se aí em Gregory Bateson (1972), que pensava que a produção de redundâncias

é a manifestação primordial da comunicação; mais que isso, “o fenômeno da comunicação serve para

a elaboração de redundâncias”; isto é, para a criação de um excedente comunicacional a serviço de

todo aquele que se interesse por ele: “todo mundo”, enfim, “pode saber algo que foi transmitido pela televisão”. Trata-se de uma sobreprodução de excedentes, na qual o conhecimento se multiplica a si mesmo, que possui também uma elevada “cota de esquecimento” ou “desatualização”: “aquilo que se soube ontem já não interessa mais”. A segunda objeção ao “conceito usual de comunicação” – “menos difundida, mas de maior peso” – é se o modelo de transmissão não pressupõe, no fundo, que se tenha conhecimento do estado interno dos que participam. Ou seja, para afirmar que A e B sabem a mesma coisa, é necessário conhecer o que existe em A e em B. Se o que se existe em A for diferente do que existe em B, como se poderá dizer que houve um acontecimento de comunicação? (p. 295) A metáfora da transferência exagera, segundo o autor, a identidade do que se transmite. Embora “possa haver algo de verdade nisso”, admite Luhmann, “o ato de partilhar a comunicação não é mais do que uma proposta de seleção, uma sugestão: somente quando se retoma essa sugestão e se processa o estímulo é que se gera a comunicação” (p. 297). Luhmann não admite um programa cultural para a individualidade. Para ele, a socialização “é sempre autossocialização”. Tomando-se como ponto de partida a autopoiesis, torna-se mais compreensível que tanto a estruturação da consciência, como a da própria memória, reflitam para enfrentar os oferecimentos de cultura sob a dupla disposição de aceitação ou rejeição. Somente assim, afirma Luhmann, “é possível explicar a enorme diversidade individual”. Cada sistema de consciência desenvolve suas próprias estruturas, na medida em que se orienta conforme expectativas, palavras, frases e modos de ser específicos. O mesmo individuo cumpre com os requisitos determinados no comércio social, ou reage negativamente. Quando se entende a individualidade a partir da possibilidade radical do indivíduo de dizer sim ou não, e de principalmente pensar que, sob a forma de rejeição, a individualidade se reafirma

mais, torna-se, então, compreensível a origem das particularidades individuais: “a repulsa secreta a assimilar os costumes, o desconhecimento das normas, a aceitação normativa somente mediante a

Uma terceira ressalva à metáfora da transmissão se dirige contra a tese de que o processo

coação

(p. 148-149).

comunicacional está “disposto na simultaneidade do ato de comunicar e de entender”. Diz-se: “a metáfora

comunicacional está “disposto na simultaneidade do ato de comunicar e de entender”. Diz-se: “a metáfora da transmissão pressupõe simultaneidade. Ao estar ligada a um espaço delimitado pelas presenças individuais, a comunicação oral se torna dependente do presente” (p. 296). Mas, diz Luhmann, na compreensão básica do processo de comunicação, não há extensão de espaço nem de tempo: “o que se diz, deve ser imediatamente compreendido (simultaneamente), assim como quando alguém fala e vai paralelamente compreendendo a si mesmo; ou quando se pressupõe que aquele que escuta também está localizado nesse tempo e espaço da simultaneidade”. O advento da escrita rompeu, porém, com essa concepção espacial, já que consiste em uma organização totalmente nova da temporalidade da operação comunicacional. A escrita também acontece no presente, e simultaneamente. Mas, com a escrita se realiza uma presença completamente nova do tempo; isto é, ilusão da simultaneidade do não-simultâneo. O efeito da escrita consiste, para Luhmann, “na separação espacial e temporal entre o ato de transmissão e o de recepção”. Portanto, a metáfora da transmissão ligada à ideia da simultaneidade – na qual não se deixa terreno para analisar a relação entre espaço e tempo –não é suficiente para explicar o fenômeno constitutivo da comunicação (p. 296). 5. Informação em Luhmann O que o sistema experimenta no meio, segundo Luhmann, não são corpos (coisas), mas elementos constantes, “que são canalizados desse meio até o sistema” (p. 142). No plano dos acoplamentos estruturais, há possibilidades armazenadas (ruídos) no meio, que podem ser transformadas pelo sistema; portanto, mediante o acoplamento estrutural, o sistema desenvolve, por um lado, um campo de indiferença e, por outro, faz com que haja uma “canalização de causalidade”, como vimos. Os acoplamentos estruturais não determinam os estados do sistema, sua função consiste em “abastecer de uma permanente irritação (perturbação, para Maturana) o sistema”; do ponto de vista do sistema, trata-se da constante capacidade de ressonância: “a ressonância do sistema se ativa incessantemente, mediante os acoplamentos estruturais” (p. 136-137). Tratando-se de sistemas autopoiéticos, não existe transfer de irritação do meio ao sistema assim como não existe irritação do sistema no meio: informação é sempre “informação de um sistema” (p. 140), sempre “uma autoirritação, posterior a influxos provenientes do meio” (p. 132). As irritações surgem de uma confrontação interna (não especificada, num primeiro momento) entre eventos do sistema e possibilidades próprias, que consistem, antes de tudo, em estruturas estabilizadas, expectativas. Por exemplo: “no momento em que surge um odor cheirando a queimado, não se sabe se são as batatas ou algo que se incendeia na casa, mas, em todo o caso, sempre há uma interpretação limitada da percepção de um odor inabitual de queimado” (p. 138). O conceito de informação precisa, segundo Luhmann, ser concebido “no marco de referência da forma, como um conceito com dois lados”: a) o caráter de surpresa que traz implícita a informação; b) o fato de que a surpresa só existe se as expectativas já estiverem pressupostas no sistema, e se já estiver delimitada a margem de possibilidades dentro da qual a informação pode optar. Informação é seleção que só acontece uma vez, na escala das possibilidades, e que, quando é

repetida, perde o caráter de surpresa. Essa seleção é efetuada em um contexto de expectativas,

repetida, perde o caráter de surpresa. Essa seleção é efetuada em um contexto de expectativas, pois “somente aí a informação constitui uma surpresa” (p. 300). Uma notícia desportiva, por exemplo, figura necessariamente dentro de um contexto (expectativa): “o futebol não pode ser confundido com

o tênis”. Portanto, os horizontes de seleção já estão predefinidos (p. 300). Como os “acontecimentos” são elementos que se fixam pontualmente no tempo, ocorrendo apenas uma vez e somente no lapso mínimo necessário para sua aparição, seu suceder temporal identifica-os, e eles são, portanto, irrepetíveis. Por isso, diz Luhmann, servem como “elementos de unidade dos processos”. Uma informação cujo caráter de surpresa se repita já não é informação; conserva seu sentido na repetição, mas perde o valor de informação. Por outro lado, não se perde a informação, mesmo que tenha desaparecido como acontecimento. Modificou-se o estado do sistema e deixou-se, assim, um efeito de estrutura: o sistema reage perante essas estruturas modificadas e muda com elas (p. 140). Portanto, informação pressupõe estrutura, embora não seja em si mesma nenhuma estrutura, mas sim “um acontecimento que atualiza o uso das estruturas” (p. 140). Uma vez que existem estruturas que limitam e pré-selecionam as possibilidades, o sistema “reage apenas quando pode processar informação e transformá-la em estrutura”. Nesse contexto, há uma seleção sobre essa margem de possibilidades. Informação, prossegue o teórico, é o “acontecimento que antecede e sucede a irritação”, um período em que “estados do sistema” são selecionados (p. 140). Luhmann adota, a título de processo de seleção, a formulação clássica de Bateson: informação é a “diferença que faz diferença” para o sistema. É uma diferença que leva a mudar o próprio estado do sistema: “tão somente pelo fato de ocorrer, já transforma”: “lê-se que o fumo, o álcool, a manteiga, a carne congelada, colocam a saúde em risco”, exemplifica Luhmann, “e passa-se a ser outro – quer se acredite, ou não, na informação”. Cadasistemaproduzsuainformação,jáquecadaumconstróisuasprópriasexpectativaseesquemas de ordenação. A influência exterior se apresenta como “uma determinação para a autodeterminação” e, portanto, como informação: “esta modifica o contexto interno da autodeterminação, sem ultrapassar

a estrutura legal com a qual o sistema deve contar” (p. 140-141). O fundamental é que a informação “tenha realizado uma diferença” (p. 83). Todo acontecimento do processamento de informação fica sustentado por uma diferença e se orienta precisamente para ela. É a diferença que engendra a informação posterior (p. 84). A autopoiesis, diz Luhmann, “tanto da vida como da comunicação”, é um fenômeno tão forte, que o máximo que toda mudança estrutural produz, de forma quase imperceptível, é mais diversidade. A informação, enfim, não é a exteriorização de uma unidade, mas sim a seleção de uma diferença que leva a que o sistema mude de estado e, consequentemente, opere-se nele outra diferença. Os sistemas autopoiéticos se diversificam, ou evoluem, continuamente. A informação se realiza “por uma operação efetuada no próprio sistema” (p. 142). São, por conseguinte, acontecimentos que delimitam a entropia, sem determinar necessariamente o sistema. Segundo Luhmann, seu conceito de informação “toma o lugar do conceito encarregado da finalidade

de equilíbrio” na Teoria dos Sistemas. O ponto fundamental da reflexão acerca dessa problemática consiste

de equilíbrio” na Teoria dos Sistemas. O ponto fundamental da reflexão acerca dessa problemática consiste em Luhmann “ter compreendido que o estado de equilíbrio pressupõe uma situação de demasiada fragilidade para que possa ser estável”. A ênfase de sua pesquisa “não reside no equilíbrio, mas na estabilidade, uma vez que há sistemas que não estão em equilíbrio, e são estáveis, ou podem sê-lo” (p. 137-138). O conceito de autopoiesis, como o proposto por Luhmann, “acaba por reforçar o equilíbrio, ao especificá-lo”: não é possível predizer como o sistema se comportará, uma vez que a informação é um estado que surge de dentro dele mesmo (p. 143). A informação reduz complexidade, na medida em que permite conhecer uma seleção, excluindo, com isso, possibilidades. No entanto, informação também pode aumentar a complexidade. Operando de maneira seletiva, tanto no plano das estruturas, como no dos processos, “sempre há outras possibilidades que podem ser selecionadas, quando se tenta atingir uma ordem”. Precisamente porque o sistema seleciona uma ordem, ele se torna complexo, “já que se obriga a fazer uma seleção da relação entre seus elementos” (p. 184). A consequência é que, para ordens quantitativamente grandes, os elementos podem se conectar somente sob a condição de que este acoplamento se realize de maneira seletiva. Tal seletividade pode ser observada no fluxo da comunicação habitual, como nos círculos de vizinhos: “não é possível comunicar-se com todos, mas somente com determinadas pessoas, que, por sua vez, dão continuidade à comunicação” (p. 184-185). Portanto, “a redução de complexidade é condição para o aumento de complexidade” (p. 132).

6. Interpretação

Na teoria de sistemas de Niklas Luhmann não há espaço, conforme procuramos expor, para um conceito de comunicação que se baseie na “metáfora da transferência (transmissão)”. Com isso, podemos afirmar que, dentre os “significados fundamentais” identificados por Salgado (2009), Luhmann claramente descarta a acepção de informar como um “verbo de transferência”. Informação não pode ser interpretada nem como a nominalização da “ação de informar” nem como o resultado ou efeito dessa ação, pois ambas são, para ele, reflexos de uma metáfora que implica “demasiada ontologia”. Em Luhmann, também não se pode conceber informação como um “objeto”, pois “o que o sistema experimenta no meio não são corpos (coisas), mas elementos constantes, que são canalizados desse meio até o sistema”. A identidade de uma informação deve ser pensada paralelamente ao fato de que seu significado é distinto para o emissor e para o receptor. Cada sistema está voltado para as expectativas possíveis, “que já trazem impresso um sentido de avaliação”, se orienta “conforme expectativas, palavras, frases e modos de ser específicos” e pode, portanto, acatar ou negar a ocorrência ou existência de “objetos”, “seres”, “eventos” ou “situações” reais. Por eliminação, concluímos que a informação luhmanniana denota um “processo”. Informação, enquanto “processo”, é uma “operação” efetuada no próprio sistema. Envolve a seleção de uma diferença, um “acontecimento” que se fixa pontualmente no tempo: eles antecedem e

sucedem a irritação, selecionando “estados do sistema”. A seleção leva o sistema a mudar de

sucedem a irritação, selecionando “estados do sistema”. A seleção leva o sistema a mudar de estado

e, consequentemente, operar-se nele outra diferença. Argumentos como esses nos permitem postular

que informação em Luhmann nominaliza a “ação de informar-se”. Mas a informação luhmanniana também é “um estado que surge de dentro” do próprio sistema, ou seja, informação também é o resultado, ou efeito, da “ação de informar-se”. Não se perde a informação, diz o sociólogo, mesmo que tenha desaparecido como acontecimento: “modificou-se o

estado do sistema e deixou-se, assim, um efeito de estrutura”. A influência exterior se apresenta como “uma determinação para a autodeterminação”, pois cada sistema constrói suas próprias expectativas

e “esquemas de ordenação”. A informação, assim, reduz complexidade, na medida em que exclui

possibilidades, o que confere “valor de informação” a toda experiência. Como os “acontecimentos” ocorrem apenas uma vez e somente no “lapso mínimo necessário para sua aparição”, eles são irrepetíveis – eis porque, diz Luhmann, servem como “elementos de unidade dos processos”. Por tudo isso, observa-se que “o resultado ou efeito da ação de informar-se” aproxima-se de uma informação que nominaliza a acepção 3 de Salgado (2009), aquela em que informar significa “emitir informes da sua [organismo, perito, corpo consultivo] competência”. Conclusão: informação, para Luhmann, é tanto a própria “ação de informar-se” quanto o “resultado ou efeito” dessa ação, que deve ser entendida com um sentido que tem grande produtividade no Direito (formação originária de Luhmann 3 ): a de instrução de processos. Os sistemas instruem-se (= informam-se) continuamente, e cada instrução (= informação) fixa-se na própria estrutura, o que permite que as informações de um sistema possam ser “recuperadas” por um sistema-observador. 7. Considerações finais A teoria dos sistemas de Niklas Luhmann nos leva a compreender a CI como uma “ciência do informar-se”, e não como uma “ciência do informar”, conceito que, ainda hoje, parece ser hegemônico na Ciência da Informação. Essa mudança de perspectiva, embora reducionista, parece cumprir um papel didático eficaz o suficiente para contemplar outros horizontes epistemológicos como o desenvolvimento de uma Science of Information, como vem propondo Hofkirchner (2011, p. 372):

Currently, a Science of Information does not exist. What we have is Information Science. Information Science is commonly known as a field that grew out of Library and Documentation Science with the help of Computer Science: it deals with problems in the context of the so-called storage and retrieval of information in social organizations using different media, and it might run under the label of Informatics as well. A Science of Information, however, would be a discipline dealing with information processes in natural, social and technological systems and thus have a broader scope. 4

A informação ocupa, em Luhmann, um papel que nos parece central na epistemologia da

3 Luhmann estudou direito na Universidade de Freiburg entre 1946 e 1949, quando obteve seu doutorado e começou uma carreira na

administração pública.

4 Mantivemos o texto no original, pois, em português, tanto Science of Information como Information Science são traduzíveis para Ciência da Informação. De qualquer forma, em algum momento – caso a proposta de Hofkirchner se consolide como paradigma emergente – será preciso encontrar uma solução terminológica para a questão.

Ciência da Informação: a autonomia do sistema, propriedade já reconhecida ortogonalmente entre os “ natural,

Ciência da Informação: a autonomia do sistema, propriedade já reconhecida ortogonalmente entre os “natural, social and technological systems”. Aqui recorremos a Günter Uhlmann (2002, p. 57ss), que nos explica que a autonomia do sistema é obtida a partir da memória do “estoque”, como em Luhmann. O autor cita como exemplos a água que o camelo absorve para sobreviver uma travessia de um deserto; a gordura que o urso acumula antes da Hibernação; o conhecimento, que permite ao homem “sobreviver” em ambientes competitivos. Sistemas “necessitam” sobreviver, sob a imposição da termodinâmica universal; para isso “exploram” seus meios ambiente, “trabalhando” os “estoques” adequados a essa permanência. Além de garantirem alguma forma de permanência ou sobrevivência sistêmica, os estoques acabam por ter um caráter histórico, gerando o que Uhlmann chama de “função memória” do sistema. Uma função memória conecta o sistema presente ao seu passado, possibilitando possíveis futuros. Em sistemas de baixa complexidade, a memória é simples (como o caso do fenômeno da histerese em sistemas físicos ou o que é descrito por uma “função de transferência” em um circuito elétrico, por exemplo) mas em sistemas complexos ela pode surgir exatamente como na memória de um ser humano, um complexo processo cerebral e celular. A memória mais marcante em biologia é sem duvida aquela do código genético. Luhmann descreve sua obra como “uma espécie de metateoria, que não deve ser apresentada como instrução da base metodológica da pesquisa empírica, no sentido de exigir-lhe prognósticos estruturais, mas sim como uma orientação geral” (p. 125). O resultado, porém, já foi equiparado à Fenomenologia do Espírito de Hegel (MOELLER, 2006, p. 199) e considerado uma das “mais ambiciosas e potentes reformulações da sociedade tardo-moderna” (FARÍAS e OSSANDRON, 2006, p. 15) – “talvez mesmo a mais plausível” (SANTOS, 2005a, p. 161). Sua “Teoria Sistêmica de Terceira Geração”, como a entendemos, oferece de fato “um edifício suficientemente complexo” capaz de servir de contraste “ao que foi obtido pela tradição” e merece, na nossa opinião, ser apropriada pela Ciência da Informação.

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C O M U N I C A Ç Ã O O R A L

C O M U N I C A Ç Ã O

O R A L

INTEGRAÇÃO EPISTEMOLÓGICA DA ARQUIVOLOGIA, DA BIBLIOTECONOMIA E DA MUSEOLOGIA NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: POSSIBILIDADES TEÓRICAS

Carlos Alberto Ávila Araújo

Resumo:

O objetivo deste artigo é apresentar as conclusões de uma pesquisa que buscou problematizar

e discutir as possibilidades de integração epistemológica da Arquivologia, da Biblioteconomia e da

Museologia na Ciência da Informação. Para tanto, é analisada a origem e evolução teórica das três áreas, sendo identificado um paradigma custodial-tecnicista e teorias que apontam para sua superação. A seguir, analisa-se a origem e evolução da Ciência da Informação, propondo-se que o conceito de informação tal como estudado recentemente pode favorecer o avanço das perspectivas teóricas nas três áreas e possibilitar sua integração epistemológica.

Palavras-chave: Ciência da Informação. Arquivologia. Biblioteconomia. Museologia.

1 INTRODUÇÃO

O objetivo deste texto é apresentar os resultados de uma pesquisa de pós-doutoramento junto

à Universidade do Porto, em Portugal, intitulada “Ciência da Informação como campo integrador

para as áreas de Biblioteconomia, Arquivologia e Museologia”, realizada de junho de 2010 a maio de 2011. A pesquisa nasceu de uma questão bastante concreta: a criação, na Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (ECI/UFMG), dos cursos de graduação em Arquivologia e Museologia, que passaram a conviver com o já existente curso de Biblioteconomia. A intenção da escola desde o início foi promover uma integração entre esses três cursos na Ciência da Informação (CI). Desde então, uma série de esforços vêm sendo realizados, tanto para a consolidação das condições institucionais como para o avanço das aproximações teóricas. A pesquisa aqui relatada insere-se nesse segundo tópico, buscando problematizar aspectos relacionados com possíveis aproximações e diálogos entre as três áreas e destas com a Ciência da Informação. Os resultados encontrados apontam fortes evidências e argumentos em defesa da ideia de que é possível promover

a integração epistemológica entre as áreas da Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia, no

campo da CI, dadas certas condições teóricas, que serão aqui analisadas e tensionadas. Pretende-se demonstrar que a evolução teórica das três áreas (e alguns desdobramentos práticos), ao longo do século XX, tem apontado frequentemente para a superação das distinções disciplinares entre elas – e,

portanto, abrem caminho para a possibilidade de sua integração. Nesse cenário, a CI e o

portanto, abrem caminho para a possibilidade de sua integração. Nesse cenário, a CI e o conceito de informação surgem como possíveis aglutinadores e potencializadores dos desenvolvimentos futuros destas três áreas. 2 O LONGO CAMINHO ATÉ A CONSOLIDAÇÃO Os campos de conhecimento hoje conhecidos como Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia têm raízes em atividades práticas ligadas ao funcionamento das instituições arquivo, biblioteca e museu. Estas, por sua vez, surgiram há milênios e se configuraram de maneiras muito diferentes, até chegar aos modelos existentes atualmente. Todas elas, de uma forma ou de outra (seja pelas atividades de colecionismo que deram origem aos primeiros museus, pelas ações de acúmulo de documentos por motivos administrativos ou comerciais nos primeiros coletivos humanos, entre outros), ligam-se aos registros materiais do conhecimento humano e, portanto, têm estreita relação com as distintas atividades culturais humanas – entendendo aqui cultura como a ação simbólica, humana, de interpretar o mundo e de produzir registros materiais dessas ações em qualquer tipo de suporte físico. Assim, é com a invenção da escrita e do estabelecimento das primeiras cidades, há mais de cinco milênios, que surgem os primeiros espaços específicos voltados para a guarda e a preservação de acervos documentais. Autores que tratam da história dos arquivos, bibliotecas e museus frequentemente listam algumas instituições que se tornaram paradigmáticas (como os arquivos de Ebla, a Biblioteca de Alexandria, o Mouseion alexandrino), embora distinções muito rígidas do que seria arquivo, biblioteca ou museu se revelem infrutíferas (SILVA, 2006). No Egito Antigo, na Grécia Clássica, no Império Romano, nos mundos árabe e chinês do primeiro milênio e na Idade Média na Europa, ergueram-se diversos arquivos, bibliotecas e museus, relacionados com os mais diversos fins – religiosos, políticos, econômicos, artísticos, jurídicos, entre outros. Contudo, é com o Renascimento, a partir do século XV, que aparecem os primeiros traços efetivos daquilo que se poderia chamar de um conhecimento teórico específico nas três áreas, com a publicação dos primeiros tratados relativos a estas instituições. Nesta época, renasce o interesse pela produção humana, pelas obras artísticas, filosóficas e científicas – tanto as da Antiguidade Greco- Romana como aquelas que se desenvolviam no próprio momento. Salientou-se o interesse pelo culto das obras, pela sua guarda, sua preservação. Proliferaram, nos séculos XV a XVII, tratados e manuais voltados para as regras de procedimentos nas instituições responsáveis pela guarda das obras, para as regras de preservação e conservação física dos materiais, para as estratégias de descrição formal das peças e documentos, incluindo aspectos sobre sua legitimidade, procedência e características. A produção simbólica humana, compreendida como um “tesouro” que precisaria ser devidamente preservado, tornou-se objeto de uma visão patrimonialista (o conjunto da produção intelectual e estética humana, a ser guardado e repassado para as gerações futuras). Contudo, o foco do interesse fixou-se no conteúdo dos acervos. Os arquivos, as bibliotecas e os museus eram apenas instituições a serviço dos campos de estudo da Literatura, das Artes, da História e das ciências. Não se constroem, neste momento, conhecimentos arquivísticos,

biblioteconômicos ou museológicos consistentes - exceto algumas regras operativas muito próximas do senso comum. O

biblioteconômicos ou museológicos consistentes - exceto algumas regras operativas muito próximas do senso comum. O passo seguinte na evolução destas áreas se deu com a Revolução Francesa e as demais revoluções burguesas na Europa, que marcam a transição do Antigo Regime para a Modernidade. Ocorreu uma profunda transformação em todas as dimensões da vida humana e, também, nos arquivos, nas bibliotecas e nos museus. Surgem os conceitos modernos de “Arquivo Nacional”, “Biblioteca Nacional”, “Museu Nacional”, que têm no caráter público (no sentido de “nacional”, relativo ao coletivo dos nascentes Estados modernos) sua marca distintiva. Formaram-se as grandes coleções, com amplos processos de aquisição e acumulação de acervos – o que reforçou a natureza custodial destas instituições. A necessidade de se ter pessoal qualificado levou à formação dos primeiros cursos profissionalizantes, voltados essencialmente para regras de administração das rotinas destas instituições e, seguindo a tradição anterior, para conhecimentos gerais em Humanidades (ou seja, os assuntos dos acervos guardados). Por fim, com a consolidação da ciência moderna como forma legítima de produção de conhecimento e de intervenção na natureza e na sociedade, também o campo das humanidades se viu convocado a constituir-se como ciência. Surgiram, no século XIX, diversos manuais que buscaram estabelecer o projeto de constituição científica da Arquivologia, da Biblioteconomia e da Museologia. O modelo de ciência então dominante, oriundo das ciências exatas e naturais, voltado para a busca de regularidades, estabelecimento de leis, ideal matemático e intervenção na natureza por meio de processos técnicos e tecnológicos, se expande para as ciências sociais e humanas através do Positivismo. Esse é o modelo que inspira as pioneiras conformações científicas das três áreas, que privilegia os procedimentos técnicos de intervenção: as estratégias de inventariação, catalogação, descrição, classificação e ordenação dos acervos documentais. Opera-se um verdadeiro “efeito metonímico”: aquilo que antes era uma parte do processo (operações técnicas para possibilitar o uso das coleções) se torna o núcleo, em alguns casos a quase totalidade do conteúdo dos nascentes campos disciplinares. Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia tornaram-se as ciências (positivas) voltadas para o desenvolvimento das técnicas de tratamento dos acervos que custodiam. Ao mesmo tempo, o movimento de consolidação positivista destas áreas promove sua “libertação” de outras áreas das quais eram apenas campos auxiliares (como as Artes, a História, a Literatura) e a sua autonomização científica. Os três movimentos acima destacados se somam. A perspectiva patrimonialista volta-se para os “tesouros” que devem ser custodiados, ressaltando a importância da produção simbólica humana. Ainda que preservado em parte o sincretismo verificado nos séculos anteriores, há já alguma distinção entre arquivos, bibliotecas e museus. A entrada na Modernidade enfatiza as especificidades das instituições arquivos, bibliotecas e museus, que devem ter estruturas organizadas e rotinas estabelecidas para o exercício da custódia. E a fundamentação positivista prioriza as técnicas particulares de cada instituição a serem utilizadas para o correto tratamento do material custodiado. Constituem-se assim,

nos finais do século XIX e início do século XX, os elementos que marcam a

nos finais do século XIX e início do século XX, os elementos que marcam a consolidação de um paradigma patrimonialista, custodial e tecnicista (SILVA, 2006) para as três áreas. Um dos efeitos mais sensíveis deste modelo é que, ao privilegiar a dimensão física das coleções, em seguida as instituições que as guardam e finalmente as técnicas operadas para seu tratamento, ele efetivamente promove e incentiva a separação das três áreas e sua constituição como campos científicos autônomos. Tal fato se complementa com as ações, nas primeiras décadas do século XX, das associações profissionais em prol do estabelecimento das distinções entre os profissionais de arquivo, de biblioteca e de museu. Profissionais diferentes, em instituições diferentes, utilizando técnicas diferentes para o tratamento de acervos específicos – tal é a resultante da soma das ações ocorridas no plano teórico (com o paradigma custodial) e prático (com o fortalecimento das instituições, dos movimentos profissionais e associativos, e o início dos primeiros cursos universitários). No século XX, contudo, o desenvolvimento de reflexões e teorias nas três áreas não conduziu ao fortalecimento do paradigma dominante. Ao contrário, a vasta produção científica que se seguiu identificou, com muita freqüência, os vários limites desse modelo, ressaltando diversos aspectos que, pouco a pouco, foram conduzindo à necessidade de sua superação. Além disso, novos fatores surgidos neste século (a crescente importância da informação nos setores produtivos da sociedade, o desenvolvimento das tecnologias digitais, o incremento das práticas interdisciplinares e a importância da especificidade das ciências sociais e humanas) também exerceram importante papel na mudança do cenário de atuação de arquivos, bibliotecas e museus, conduzindo a iniciativas práticas que também evidenciavam mudanças no paradigma dominante. Em meio a tudo isso, surgiu ainda a Ciência da Informação, com uma proposta de cientificidade capaz de acolher e potencializar os diferentes aspectos da produção teórica das três áreas – como se pretende demonstrar a seguir.

3 O DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO

A diversidade de conhecimentos científicos e teóricos produzidos sobre arquivos, bibliotecas e museus, tanto nos próprios campos científicos como em outras áreas (como a História, a Pedagogia,

a Literatura, entre outros), torna extremamente difícil apresentar ou mapear essa produção. Para os

fins deste artigo, optou-se por um arranjo que privilegia a discussão aqui empreendida. Seria possível agrupar as diversas teorias e autores sob uma variedade imensa de aspectos (região geográfica, época histórica, disciplina de origem, inspiração filosófica, etc) mas optou-se por agrupar as variadas contribuições pelos aspectos que apontaram elementos de superação do paradigma custodial e

tecnicista predominante. Tais aspectos foram organizados em cinco eixos. Para a composição desses eixos, foram considerados tanto a vinculação dos estudos a diferentes correntes de pensamento (dentre aquelas existentes de uma forma ampla nas ciências sociais e humanas) quanto relacionados

a diferentes objetos de pesquisa e formas de abordagem desses objetos. Assim, dentro de cada eixo

apresentado a seguir, misturam-se teorias e perspectivas construídas a partir de aspectos analíticos de diferentes

apresentado a seguir, misturam-se teorias e perspectivas construídas a partir de aspectos analíticos de diferentes ordens – tendo-se portanto o seu agrupamento em eixos relacionados, cada um, a um aspecto específico de crítica/superação do modelo custodial.

3.1 Os estudos de inspiração funcionalista Já no final do século XIX, ensaios, manifestos e iniciativas vinham reivindicando mudanças nos arquivos, bibliotecas e museus, por meio de expressões como “arquivo efetivamente útil”, “biblioteca viva”, “museu dinâmico”, entre outras. Criticava-se o fato de estas instituições estarem voltadas apenas para seus acervos e suas técnicas, sugerindo que elas se “mexessem”, buscassem atuar ativamente nos contextos sociais em que se inseriam. E, ao propor isso, provocaram também mudanças consideráveis nas formulações teóricas. Em comum, essas várias manifestações têm como fundamento o Funcionalismo. Trata-se de uma perspectiva que se sustenta numa visão da realidade humana a partir da inspiração biológica do organismo vivo. A sociedade humana é entendida como um todo orgânico, composto de partes que desempenham funções específicas necessárias para a manutenção do equilíbrio do todo. Estudos funcionalistas se voltam, pois, para a determinação das funções (no caso, dos arquivos, das bibliotecas e dos museus), para verificar se as funções estão ou não sendo cumpridas (e para a identificação e eliminação dos obstáculos que impedem seu cumprimento), para a identificação de disfunções que possam estar ocorrendo e a formulação de estratégias para superá-las. Por todo o raciocínio encontra-se a ideia de eficácia: a investigação científica como fator para impulsionar o funcionamento adequado das instituições e, consequentemente, o desenvolvimento e o progresso das sociedades. No campo da Arquivologia, as primeiras manifestações deste pensamento se encontram nos manuais de Jenkinson, de 1922, e de Casanova, de 1928, que apontavam para a necessidade de os arquivos terem um impacto efetivo no aumento da eficácia organizacional. Mas é com o desenvolvimento da subárea de Avaliação de Documentos, assumindo para o campo a tarefa de eliminação dos documentos, que um pensamento pragmatista mais efetivo começou a formular-se. Sua maior expressão se deu com a chamada “escola norte-americana” da primeira metade do século XX, com os trabalhos de Warren (a partir dos quais formalizou-se uma associação que seria o embrião da American Records Management Association); de Brooks, sobre as três categorias de valor, e principalmente de Schellenberg,, sobre o valor primário e secundário dos documentos arquivísticos (DELSALLE, 2000). Tais proposições visavam conservar o máximo de informação preservando um mínimo de documentos – priorizando a funcionalidade em oposição aos aspectos de arranjo e valor histórico dos documentos. Uma outra vertente arquivística, também funcionalista, é a que prioriza a ação cultural dos arquivos e suas funções pedagógicas, que também provocou a busca por uma maior “dinamização” destas instituições (ALBERCH I FUGUERAS et al, 2001). Na Biblioteconomia, em meados do século XVIII surgem as primeiras manifestações em prol das bibliotecas efetivamente públicas (MURISON, 1988). O termo “efetivamente” ressalta que as

primeiras bibliotecas modernas, embora “públicas” no nome, seriam demasiadamente auto-centradas e elitistas. Atos,

primeiras bibliotecas modernas, embora “públicas” no nome, seriam demasiadamente auto-centradas

e elitistas. Atos, manifestos e iniciativas práticas no campo das bibliotecas públicas (Public Library Movements), liderados por bibliotecários como Mann e Barnard, buscaram romper com o isolamento destas e atrair cada vez mais pessoas para seu espaço. Já em 1876, Green defendia inovações práticas nas bibliotecas para aumentar a acessibilidade física e intelectual, sendo o precursor dos posteriormente chamados serviços de referência (FONSECA, 1992). A consolidação científica dessa vertente se deu na Universidade de Chicago, onde em 1928 foi criado o primeiro doutorado em Biblioteconomia. Autores como Butler, Shera, Danton e Williamson defendiam uma Biblioteconomia científica, voltada não para os processos técnicos mas para o cumprimento de suas funções sociais – ou seja, o fundamento da biblioteca se encontra no fato de ela ir ao encontro de certas necessidades sociais. Shera chegou a propor um novo espaço de reflexão científica, a “Epistemologia Social”, para o estudo do papel do conhecimento na sociedade. Teóricos de diferentes países, tais como Lasso de la Vega, Litton, Buonocore, Mukhwejee e Usherwood, seguiram essas orientações, ao defender o conceito de biblioteca como instituição democrática, ativa, e não como depósito de livros (LÓPEZ CÓZAR, 2002). Na Índia, Ranganathan, numa clara perspectiva funcionalista, desenvolveu as cinco “leis” da Biblioteconomia, defendendo o efetivo uso da biblioteca e de seus recursos e, ao mesmo tempo, o atendimento às necessidades da sociedade, por meio do atendimento a cada um de seus componentes. Desenvolvimentos posteriores de leis ou princípios da Biblioteconomia, como os de Thompson e de Urquhart, também priorizaram as funções sociais e a necessidade da biblioteca ser dinâmica e ativa. Recentemente, estudos sobre as tipologias de bibliotecas e sobre os impactos das tecnologias audiovisuais e digitais de informação também se inserem nesta perspectiva, buscando otimizar o papel da biblioteca e dinamizar o uso de seus recursos. No campo da Museologia, o maior destaque é a área de Museum Education. Conforme Gómez Martínez (2006), trata-se de uma museologia “verbal”, voltada para a ação, erigida em oposição

à tradição “nominalista”, voltada para a posse e a descrição dos objetos. Zeller (1989) aponta que

floresceu, principalmente nos EUA do final do século XIX e início do século XX, uma Museologia voltada para a eficácia dos museus, para uma efetiva difusão de certos valores junto à população,

e para oferecer à sociedade um “retorno” dos investimentos feitos. Autores como Flower, Goode,

Dana e Rea marcavam a especificidade dos museus como instituições que teriam como valor não a contemplação mas o uso, e que não esperariam pelos visitantes, mas iriam “buscá-los”, atraindo-os para os museus por meio da eliminação de barreiras e da busca por acessibilidade. Diversas parcerias foram realizadas com o setor privado para o incremento de atividades industriais e comerciais, resultando em inovações museográficas. Essa perspectiva manifestou-se em outros contextos. Na

França, destaca-se o pioneirismo do “museu imaginário” de Malraux, no plano teórico, e do Centro Pompidou, em Beaubourg, como aplicação prática. No Canadá, aproximações foram feitas entre os museus e o conceito de “comunicação” a partir dos trabalhos de Cameron. A partir da década de 1980, com as tecnologias digitais, houve uma revitalização da corrente funcionalista, com as

possibilidades de acesso remoto, interatividade e design de exposições, com manifestações em várias escolas e

possibilidades de acesso remoto, interatividade e design de exposições, com manifestações em várias escolas e correntes como, por exemplo, no grupo de pesquisadores ligados à Universidade de Leicester (Merriman, Pearce, Hooper-Greenhill, entre outros) e, ainda no contexto inglês, com a “Nova Museologia” defendida por Vergo e outros.

3.2 A perspectiva crítica Abordagens críticas sobre os fenômenos humanos e sociais se desenvolveram intensamente desde o século XIX como reação ao pensamento positivista. Onde as recentes ciências humanas

e sociais buscavam estabelecer padrões e regularidades, as manifestações críticas denunciavam o

caráter histórico da realidade, reivindicando o estudo dos contextos históricos para a compreensão dos fenômenos. Em oposição ao Funcionalismo, que almejava o bom funcionamento do social, as teorias críticas argumentavam que o conflito, e não a integração, constitui o principal fundamento explicativo

da realidade humana. A partir de uma postura epistemológica de suspeição, desenvolveram-se abordagens críticas em praticamente todas as ciências sociais e humanas – e, também, nos campos da Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia, buscando ver o papel dos arquivos, bibliotecas e museus nas dinâmicas de poder e dominação, a partir da denúncia de suas ações ideológicas. No âmbito da Arquivologia, os primeiros traços de pensamento crítico encontram-se em análises

de pesquisadores como Bautier, sobre os interesses ideológicos que motivaram critérios usados pelos arquivos ainda no início da era Moderna. Outros estudos relacionam-se com a questão do poder de posse dos documentos em várias ocasiões, como no caso dos processos de descolonização da África

e da Ásia (SILVA et al, 1998). Nas décadas de 1960 e 1970, debates sobre as políticas nacionais

de informação promovidos pela Unesco tematizaram o papel dos arquivos, a questão do direito à informação e a necessidade de transparência por parte do Estado (JARDIM, 1995). Numa linha diferente, autores como Colombo argumentaram contra a obsessão das sociedades contemporâneas com o arquivamento e o registro das atividades humanas. É na Arquivologia canadense, contudo, que se desenvolvem as principais perspectivas críticas contemporâneas. Com origem nos trabalhos de Terry Cook, tal corrente buscou superar os pressupostos de neutralidade e passividade das práticas arquivísticas, analisando em que medida os arquivos constituem espaços em que relações de poder são negociadas, contestadas e confirmadas – numa virada de ênfase das coleções para os contextos, feita por autores como Caswell, Harris e Montgomery. Na Biblioteconomia, manifestações de um pensamento crítico surgiram principalmente em países de terceiro mundo, vinculadas aos processos de redemocratização após ditaduras militares. Num primeiro momento, tais manifestações foram de caráter prático (com a criação de novos serviços bibliotecários de extensão, como o carro-biblioteca), com o objetivo de aumentar o acesso ao conhecimento por parte de populações socialmente excluídas. Anos depois, foram formuladas teorias relacionadas a essas práticas no escopo das reflexões sobre “ação cultural” e “animação cultural”, nas quais buscava-se distinguir os diferentes tipos de ideologias culturais e propor que o bibliotecário deveria identificá-las e atuar perante elas, não numa perspectiva de “domesticação” mas sim de

“emancipação” (FLUSSER, 1983). As bibliotecas deveriam ser dinâmicas e ativas, mas contra os processos de

“emancipação” (FLUSSER, 1983). As bibliotecas deveriam ser dinâmicas e ativas, mas contra os processos de alienação - num sentido bem diferente da perspectiva funcionalista (MILANESI, 2002). Estudos críticos diferentes também se desenvolveram em outros países, como na França, em que autores como Estivals, Meyriat e Breton se uniram em torno de uma abordagem marxista para estudar os circuitos do livro e do documento impresso (ESTIVALS, 1981). Na Museologia, as manifestações pioneiras de pensamento crítico se encontram na obra de artistas

e ensaístas como Zola, Valéry e Marinetti (BOLAÑOS, 2002), que viam o museu como “mausoléu”,

instituição que degradava a arte, instrumento de poder de alguns povos sobre outros. Na década de 1960, uma nova onda de críticas provocou o aparecimento de formas de “antimuseu” (BOLAÑOS, 2002), com importantes inovações museológicas. Porém, é na aproximação com a sociologia da cultura que estão as manifestações mais consolidadas da perspectiva crítica, com Bourdieu inspirando toda uma geração de pesquisadores. Bourdieu aliou as dimensões material e simbólica, analisando como diferentes grupos sociais têm relações distintas com a cultura (e inclusive com os museus). Abordagens atuais utilizam-se desse referencial e do conceito de “capital cultural” para o estudo de distintas práticas museológicas (LOPES, 2007). Outros estudos buscam correlacionar o papel que os museus tiveram (e ainda têm) na construção ideológica da idéia de nação, a partir do trabalho pioneiro de Anderson. Há ainda uma área recente, a “Museologia Crítica”, voltada para a crítica das estratégias museológicas intervenientes nos patrimônios naturais e humanos (SANTACANA MESTRE; HERNÁNDEZ CARDONA, 2006).

3.3 Os estudos a partir da perspectiva dos sujeitos Arquivos, bibliotecas e museus tiveram historicamente relações muito diferentes com a questão dos públicos (usuários ou visitantes). Há relatos de coleções privadas, cujo acesso era restrito a pouquíssimas pessoas, e mesmo acervos proibidos e secretos ligados a interesses políticos, militares ou religiosos. Na Era Moderna, em que passou a vigorar as ideias de universalização, cidadania e de arquivos, bibliotecas e museus “públicos”, a questão tomou uma nova dimensão. Contudo, durante

a vigência do paradigma custodial, se formalmente buscou-se abertura e acolhida para os diferentes

públicos, conhecê-los nunca chegou a constituir uma prioridade. Foi nos primeiros anos do século XX que as abordagens funcionalistas começaram a se preocupar com o público, tentando obter dados sobre índices de satisfação para a melhoria dos serviços. Aos poucos, a importância de se conhecer a visão dos sujeitos concretos que se relacionam com estas instituições foi aumentando, a ponto de acabar se tornando uma área de estudos autônoma. Os usuários e visitantes deixaram de ser vistos apenas como alvo dos processos arquivísticos, biblioteconômicos e museológicos, sendo compreendidos como seres ativos, construtores de significados e interpretações, com necessidades e estratégias diversas. A compreensão dessas novas questões trouxe relevantes impactos para a teoria e para a prática. No campo da Arquivologia, o tema da relação entre os usuários e os arquivos começou a ser discutido na década de 1960 (SILVA et al, 1998), dentro das reflexões sobre o acesso aos arquivos

nas reuniões do Conselho Internacional de Arquivos (CIA). Contudo, a temática sempre foi pouco expressiva

nas reuniões do Conselho Internacional de Arquivos (CIA). Contudo, a temática sempre foi pouco expressiva no campo. Conforme Jardim e Fonseca (2004), estudos pioneiros são os de Taylor, Dowle, Cox e Wilson, voltados para o entendimento das necessidades informacionais de diferentes tipos de usuários. Há também estudos de usuários no campo de dinamização cultural, principalmente sobre tipologia de usuários e sobre cidadãos e seus interesses em história familiar e em atividades de ensino (COEURÉ; DUCLERT, 2001). Na Biblioteconomia, as primeiras manifestações foram os “estudos de comunidade” realizados por pesquisadores da Universidade de Chicago, que tinham como foco os grupos sociais tomados em seu conjunto. Foram realizadas diversas pesquisas empíricas, nas décadas seguintes, sobre hábitos de leitura e fontes de informação mais usadas. Aos poucos, o interesse foi se deslocando para a avaliação dos serviços bibliotecários, convertendo os estudos de usuários em estudos de uso para diagnóstico de bibliotecas. Situando-se na temática de Avaliação de Coleções, tais estudos impulsionaram várias inovações técnicas, tais como a disseminação seletiva de informações. Na década de 1970, pesquisadores como Line, Paisley e Brittain deslocaram o foco de interesse para as necessidades de informação, que se converteram na principal linha de pesquisa sobre os usuários (FIGUEIREDO, 1994). Recentemente, destacam-se as pesquisas de autores como Kuhlthau e Todd no ambiente da biblioteca escolar, numa perspectiva cognitivista, identificando o uso da informação nas diferentes fases do processo de pesquisa escolar. Na Museologia, como parte da grande mudança nos museus, de depósitos de objetos para lugares de aprendizagem, operou-se uma alteração do foco, das coleções para os públicos – surgindo desse movimento a subárea de Estudos de Visitantes (HOOPER-GREENHILL, 1998). No começo do século XX foram realizados os primeiros estudos empíricos, com Galton seguindo os visitantes pelos corredores dos museus e Gilman estudando a fadiga e os problemas de ordem física na concepção de exposições. Na década de 1940, proliferaram estudos sobre os impactos nas exposições junto aos visitantes, realizados por autores como Cummings, Derryberry e Melton. Outros estudos, conduzidos por autores como Rea e Powell na mesma época, tiveram como objetivo traçar perfis sócio-demográficos dos visitantes e mapear seus hábitos culturais. Na década de 1960, Shettel e Screven inauguraram uma nova perspectiva com as medidas de aprendizagem nos estudos de visitantes. Nas décadas seguintes, desenvolveram-se abordagens de base cognitivista, sobre a efetividade das exposições (Eason, Friedman, Borun), e de natureza construtivista – como o modelo tridimensional de Loomis, a teoria dos filtros de McManus, o modelo sociocognitivo de Uzzell, a abordagem comunicacional de Hooper- Greenhill e o modelo contextual de Falk e Dierking. Em comum, essas várias abordagens buscaram ver como os usuários interpretam as exposições museográficas, construindo significados diversos, imprevisíveis, relacionados com suas distintas vivências, experiências e contextos socioculturais (DAVALLON, 2005).

3.4 Estudos sobre representação

Se em sua origem os arquivos, as bibliotecas e os museus se constituíram como instituições

Se em sua origem os arquivos, as bibliotecas e os museus se constituíram como instituições de coleta e guarda de acervos, há registros de que, desde muito cedo (há pelo menos dois milênios), estas instituições desenvolveram técnicas específicas com o fim de inventariar suas coleções para fins

de controle e guarda, catalogá-las e classificá-las para fins de recuperação, descrevê-las para facilitar

o acesso e o uso. Ao longo dos séculos tais técnicas foram sendo criadas, adaptadas, recriadas, de

forma a se produzir um grande acúmulo de conhecimentos sobre formas de organização dos materiais custodiados nestas instituições. Tal conjunto de conhecimento, contudo, sempre foi historicamente concebido como uma questão eminentemente técnica – encontrar as formas mais adequadas para atingir os objetivos. Nos séculos XVIII e XIX, o enciclopedismo, o historicismo e o positivismo marcaram fortemente as tarefas de representação com a proposição de esquemas universais de representação. Ao longo do século XX, contudo, diferentes teorias buscaram problematizar esses processos, conformando aos poucos uma subárea de estudos com forte influência das ciências da linguagem. De tarefa técnica, as questões da representação se converteram em importante campo de investigação científica. A temática relativa a princípios de organização e descrição de documentos arquivísticos surgiu

e foi debatida durante todo o período de consolidação do paradigma custodial. A partir de 1898, com

a publicação do manual de Muller, Feith e Fruin, ela ganhou um estatuto diferente, com a construção

de um espaço reflexivo sobre as normas e técnicas arquivísticas. Diversas aplicações práticas de instrumentos de classificação, inclusive de sistemas de classificação bibliográfica, foram testados nos anos seguintes, embora sem uma significativa reflexão teórica – o que só aconteceu em manuais posteriores, como os de Tascón, de 1960, e de Tanodi, em 1961, e em obras teóricas de pesquisadores como Schellenberg. Nas décadas de 1970 autores como Laroche e Duchein problematizaram os princípios de ordenamento confrontando o conceito de record group surgido nos EUA com o princípio

da proveniência europeu, e autores como Dollar e Lytle inseriram a questão dos registros eletrônicos

e a recuperação da informação (SILVA et al, 1998). Os aspectos relacionados com preservação e

autenticidade também estiveram no centro dos debates sobre os documentos digitais, envolvendo pesquisadores como Duranti e Lodolini, que buscaram confirmar o valor do princípio de proveniência

e o respeito aos fundos como critério fundamental da Arquivologia. O impacto dos suportes digitais

motivou o crescimento da pesquisa na área de normalização arquivística, principalmente a partir da ideia de interoperabilidade de sistemas e possibilidade de ligação em rede. A temática da indexação dos documentos arquivísticos também ganhou espaço nos últimos anos (RIBEIRO, 2003). As questões relacionadas com a descrição e a organização estão na origem mesma da fundação da Biblioteconomia como campo autônomo de conhecimento. A Catalogação, relacionada com a

descrição dos aspectos formais dos documentos, teve seus primeiros princípios formulados no século

XIX. A partir da década de 1960, padrões internacionais de descrição bibliográfica foram formulados

e envolveram diversos grupos de estudo. Também nesta época surgiram os primeiros modelos de

descrição pensando-se na leitura por computador, gerando padrões que, anos depois, conformariam o

campo conhecido como Metadados. Paralelamente, a área de Classificação teve início com a criação dos

campo conhecido como Metadados. Paralelamente, a área de Classificação teve início com a criação dos primeiros sistemas de classificação bibliográfica gerais e enumerativos, como os de Dewey, Otlet, Bliss e Brown. Na primeira metade do século XX, os trabalhos de Ranganathan sobre classificação facetada revolucionaram o campo, propondo formas flexíveis e não-hierarquizadas de classificação. Suas teorias tiveram grande impacto na ação do Classification Research Group, fundado em Londres em 1948, que congregou pesquisadores como Foskett, Vickery e Pendleton, empenhados na construção de sistemas facetados para domínios específicos de conhecimento e problematização dos princípios de classificação (SOUZA, 2007). Nos anos seguintes, diversos campos e setores de pesquisa estabeleceram diálogo ou se apropriaram dos princípios da classificação facetada, tais como os tesauros facetados de Aitchison, os estudos de bases de dados facetados de Neelameghan, a abordagem dos boundary objects de Albrechtsen e Jacob e o mapeamento de sentenças para a evidenciação de facetas por Beghtol. O espírito nacionalista e historiográfico dos primeiros museus modernos foi decisivo para a configuração de critérios de ordenamento, descrição, classificação e exposição dos acervos (MENDES, 2009). A subárea de Documentação Museológica surgiu no início do século XX, a partir do trabalho de autores como Wittlin, Taylor e Schnapper (MARÍN TORRES, 2002). Nas décadas de 1920 e 1930 houve grandes debates sobre os critérios de classificação adotados nos museus, mas a temática só se converteu em campo de investigação décadas depois. Entre as várias abordagens desenvolvidas, encontram-se aquelas que buscaram problematizar aspectos classificatórios dos museus, como a questão da representação dos gêneros, dos diferentes povos do mundo, das diferentes culturas humanas, numa linha marcada pelos cultural studies (PEARCE, 1994). Os aspectos envolvidos no trabalho de ordenamento também foram estudados por Bennett numa perspectiva foucaultiana. No campo das aplicações práticas, Bolaños (2002) apresenta vários exemplos históricos de inovações em métodos de representação, como o historicismo radical de Dorner, os period rooms do Museu do Prado, o enfoque multidisciplinar do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, a postura antiracista do Museu Trocadero e o modelo dinâmico do Museu de Etnografia de Neuchâtel, merecendo destaque, ainda, a criação de edifícios que em si mesmos constituem peças museológicas, numa linha inaugurada pelo Museu Guggenheim de Bilbao.

3.5 Abordagens contemporâneas: fluxos, mediações, sistemas Os avanços mais recentes nos campos da Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia têm buscado agregar as várias contribuições das últimas décadas. Novos tipos de instituições, serviços e ações executadas no âmbito extra-institucional conferiram maior dinamismo aos campos, que passaram a se preocupar mais com os fluxos e a circulação de informação. Buscando superar os modelos voltados apenas para a ação das instituições junto ao público, ou para os usos e apropriações que o público faz dos acervos, surgiram modelos voltados para a interação e a mediação, contemplando as ações reciprocamente referenciadas destes atores. Modelos sistêmicos também apareceram na

tentativa de integrar ações, acervos ou serviços antes contemplados isoladamente. A própria ideia de acervo,

tentativa de integrar ações, acervos ou serviços antes contemplados isoladamente. A própria ideia de

acervo, ou coleção, foi problematizada, na esteira de questionamentos sobre o objeto da Arquivologia, da Biblioteconomia e da Museologia. Somado a tudo isso, desenvolveram-se as tecnologias digitais com um impacto muito mais profundo, reconfigurando tanto o fazer quanto a teorização destes três campos. Na Arquivologia, na década de 1960, houve uma maior teorização sobre o objeto do campo (destacando-se o pioneirismo de Tanodi que, em 1961 definiu o objeto como sendo a “arquivalia”); uma ampliação de seus domínios (como os arquivos administrativos, os arquivos privados e de empresas); e ainda o surgimento de campos novos (os arquivos sonoros, visuais e o uso do microfilme). Tais avanços tiveram como consequência a criação, na década seguinte, do Programa de Gestão dos Documentos e dosArquivos (RAMP), estrutrurado pelo CIAe pela Unesco, no âmbito de seu Programa Geral de Informação (PGI) criado em 1976. Tal programa assegurou a publicação de trabalhos em diferentes áreas da Arquivologia, tais como os de Kula (arquivos de imagens em movimento); de Naugler (registros eletrônicos); de Guptil (documentos de organizações internacionais); de Harrison

e Schuurma (arquivos sonoros) e de Cook (documentos contendo informações pessoais). Contudo,

a maior inovação teórica, a Arquivística Integrada, surgiu no começo dos anos 1980 com o artigo

inaugural de Ducharme e Rousseau, que apresenta uma visão sistêmica do fluxo documental. Dois anos depois, Couture e Rousseau formalizaram a busca de uma síntese dos records management e da archives administration, a partir de uma visão global dos arquivos, considerando a gestão de documentos no campo de ação da Arquivologia, isto é, abarcando as tradicionalmente chamadas três idades dos documentos numa perspectiva integrada. Tal abordagem passou a desenvolver-se de formas específicas por autores de variados contextos, tais como Cortés Alonso e Conde Villaverde na Espanha, Menne-Haritz na Alemanha, Cook na Inglaterra e Vásquez na Argentina. Pouco depois, surgiu a expressão “pós-custodial” para designar uma nova fase da Arquivologia (COOK, 1997). Nessa mesma linha desenvolveu-se a perspectiva sistêmica em torno da ideia de “arquivo total” em Portugal, congregando pesquisadores como Silva e Ribeiro (SILVA et al, 1998). Outras temáticas contemporâneas são as que relacionam os arquivos com as atividades de registro da história oral, e o campo dos arquivos pessoais e familiares (COX, 2008). Dentro das abordagens contemporâneas em Biblioteconomia, destacam-se três grandes tendências que, embora possam ser separadamente identificadas, possuem vários elementos em comum. A primeira delas é a que se apresenta contemporaneamente sob a designação de “Mediação”. Tal vertente foi primeiramente trabalhada por Ortega y Gasset, em 1935, num sentido de ponte, filtro, sendo o bibliotecário um orientador de leituras dos usuários. Anso depois, expressou-se numa

alteração estrutural do conceito de biblioteca, sendo esta considerada “menos como ‘coleção de livros e outros documentos, devidamente classificados e catalogados’ do que como assembléia de usuários da informação” (FONSECA, 1992, p. 60). Assim, a ideia de mediação sofreu uma mudança, enfatizando menos o caráter difusor (de transmissão de conhecimentos) e mais o caráter dialógico da

biblioteca (ALMEIDA JR., 2009). A segunda vertente também pode ser entendida como parte dos estudos

biblioteca (ALMEIDA JR., 2009). A segunda vertente também pode ser entendida como parte dos estudos sobre mediação, embora tenha se desenvolvido de modo mais específico. Trata-se do campo da Information Literacy, surgido nos EUA em 1974, voltado para a identificação e a promoção de habilidades informacionais dos sujeitos, que não são mais entendidos apenas como usuários portadores de necessidades informacionais (Campello, 2003). Por fim, a terceira vertente é a dos estudos sobre as bibliotecas eletrônicas ou digitais, com todas as implicações em termos de acervos, serviços e dinâmicas relativas a essa nova condição (ROWLEY, 2002). Na Museologia, merece destaque o desenvolvimento dos ecomuseus e da chamada Nova Museologia. Conforme Davis (1999), o conceito de “ecomuseu” surgiu no começo do século XX, sob o impacto das ideias ambientalistas, de conceitos relativos à ecologia e ecossistemas, com a criação dos “museus ao ar livre”, que, numa perspectiva ampliada de museu, incorporavam sítios geológicos ou naturais ao seu “acervo”. Um outro sentido para o termo foi dado, a partir das ideias de Rivière, Hugues de Varine e Bazin, pela Nova Museologia, que propôs repensar o significado da própria instituição museu. Nessa visão, os museus deveriam envolver as comunidades locais no processo de tratar e cuidar de seu patrimônio. Tal proposta foi apresentada pela primeira vez em 1972, numa Mesa Redonda organizada pelo International Council of Museums (ICOM), sendo formalizada na Declaração de Quebec, em 1984. Do ponto de vista teórico, tal noção propõe que a Museologia passe a estudar a relação das pessoas com o patrimônio cultural e que o museu seja entendido como instrumento e agente de transformação social – o que significa ir além das suas funções tradicionais de identificação, conservação e educação, em direção à inserção da sua ação nos meios humano e físico, integrando as populações. Defendendo a participação comunitária no lugar do “monólogo” do técnico especialista, tais ideias colocaram no lugar do tradicional tripé edifício/coleções/público da Museologia uma nova rede de conceitos, composta por território, patrimônio e comunidade. Deve-se distinguir, porém, essa Nova Museologia dos recentes estudos com a mesma designação, propostos por Vergo e Marstine, entre outros, que representam, antes, uma revitalização do pensamento funcionalista. Soma-se a isso a recente ênfase nos estudos sobre a musealização do patrimônio imaterial. Por fim, o fenômeno contemporâneo dos museus virtuais representa uma dimensão com variados desdobramentos práticos e teóricos. Para Deloche (2002), a chegada da tecnologia digital à realidade dos museus acarreta a reformulação da própria concepção de instituição museal. Sem edifício ou coleções, marcos institucionais tradicionais definidores do próprio campo, o museu se vê na condição de oferecer novos serviços, por meio de novas práticas e funções, a usuários que também ganham novas condições de ação. A adoção de tecnologias tanto para o tratamento como para o planejamento de exposições aproxima também o museu do conceito de sistema de informação, tal como apontam os estudos da área de Museum Informatics, que trata das interações sociotécnicas (entre as pessoas, a informação e a tecnologia) nos espaços museais (MARTY; JONES, 2008).

GT1 33
4 A CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO As raízes da CI se encontram na área de Documentação,

4 A CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO As raízes da CI se encontram na área de Documentação, criada por Otlet e La Fontaine no início do século XX. Preocupados com a disponibilização de registros sobre a totalidade do conhecimento humano (mais do que com o armazenamento destes registros), os autores desenvolveram o conceito de “documento”, alargando o campo de intervenção para além dos livros e demais registros impressos. Embora tratando de arquivos, bibliotecas e museus numa perspectiva integradora, a área acabou se desenvolvendo como uma atividade profissional distinta, paralela, atuando principalmente no campo da informação científica e tecnológica. Foi justamente neste espectro de atuação, do registro e fornecimento de informações para campos específicos de ciência e tecnologia, que começaram a atuar aqueles que primeiramente ficaram conhecidos como “cientistas da informação” (FEATHER; STURGES, 2003). Na esteira das tentativas de institucionalização das atividades destes profissionais, entre as quais a realização da International Conference on Scientific Information, realizada em Washington, em 1958, deu-se a base para a criação da nascente “Ciência da Informação”. Poucos anos depois, em 1966, o American Documentation Institute (ADI) mudou sua designação para American Society for Information Science (ASIS), tornando-se a primeira instituição científica específica da CI. Os fundamentos teóricos imediatamente adotados foram a Teoria Matemática da Comunicação de Shannon e Weaver,

a Cibernética de Wierner e as contribuições de Vannevar Bush. Juntos, consolidaram um conceito

“científico” de informação e uma agenda de pesquisa da área, expressa num artigo de Borko, de 1968. Contudo, o que viria a ser a CI nos anos seguintes ultrapassou em muito o imaginado nos primeiros anos. Conforme González de Gómez (2000), nas décadas seguintes a CI desenvolveu-se por meio de subáreas relacionadas a diversos “programas de pesquisa”: os fluxos da informação científica, a recuperação da informação, os estudos métricos da informação, os estudos de usuários,

as políticas de informação, a gestão do conhecimento e as possibilidades trazidas com o hipertexto e

a interconectividade digital. O objeto de estudo do campo ampliou-se para além dos registros físicos

em sistemas de informação. Foram estudados, por exemplo, os “colégios invisíveis” (processos de troca de informação em ambiente informal), o “conhecimento tácito”, as necessidades de informação e as competências informacionais dos sujeitos, entre outros. Segundo Capurro (2003), as diferentes teorias e subáreas acabaram por consolidar três amplos modelos de estudo do fenômeno informacional: o físico (que privilegia a idéia de informação como “coisa” a ser transferida de um ponto a outro), o cognitivo (inspirado na filosofia de Popper e que enfatiza a informação como elemento alterador dos modelos mentais dos usuários) e o social (que busca entender o que é informação por parte de comunidades de usuários, resgatando a idéia de

construção intersubjetiva). Silva (2006) também expressou essa ampliação por meio da definição das seis “propriedades” da informação como conceito científico. A informação é algo comunicável, reprodutível e quantificável (pode-se dizer que correspondem ao conceito “físico” de Capurro); possui pregnância de sentido

(corresponde à dimensão “cognitiva” identificada por Capurro); integra-se de forma dinâmica a seu contexto e

(corresponde à dimensão “cognitiva” identificada por Capurro); integra-se de forma dinâmica a seu contexto e é estruturada pela ação humana (corresponde à dimensão “social” de Capurro).

A CI tem sido caracterizada, ainda, como uma ciência interdisciplinar (SARACEVIC, 1996),

pós-moderna (WERSIG, 1993) e pertencente ao campo das ciências humanas e sociais (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 2000). Tais características a têm credenciado como um campo flexível, capaz de fazer

dialogar e interagir, dentro dela, campos disciplinares distintos; crítico aos limites do Positivismo e ao mesmo tempo sensível às especificidades da atual “sociedade da informação”; e capaz de permitir

a convivência de diferentes escolas e correntes teóricas.

5 CONCLUSÕES Os avanços teóricos na Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia apontam para a efetiva superação do modelo custodial consolidado no final do século XIX. Ao propor o estudo das relações entre essas instituições e a sociedade (tanto na perspectiva funcionalista como na crítica), ao focar o

ponto de vista dos sujeitos, ao problematizar os aspectos relacionados ao significado nas representações

e ao pensar os fluxos e as mediações, as teorias desenvolvidas no século XX tensionaram os limites das áreas de conhecimento. Assim, a dinâmica mais ampla dos processos passou a ser contemplada, com

objetos que vão desde a produção dos registros (e até mesmo o que ainda não possui existência física, o imaterial), a composição dos acervos, as competências dos usuários no uso e apropriação dos acervos, até as diferentes camadas de significação criadas com a intervenção profissional e os instrumentos de descrição e classificação. Na Museologia, tal passagem pode ser caracterizada com a mudança do objeto “museu” para a “musealidade” ou a “musealização” (STRÁNSKÝ apud DELOCHE, 2002); na Arquivologia com o conceito de “arquivalia” ou o de “arquivo total” (SILVA et al, 1998); e na Biblioteconomia com o próprio conceito de “informação” (como vem sendo feito desde a década de 1980, quando as pós-graduações em Biblioteconomia começaram a mudar sua denominação para CI).

A CI aparece, então, como campo profícuo para os avanços reivindicados pela evolução

das várias teorias desenvolvidas e para fazer dialogarem dentro dela as três áreas. Além disso, constituindo-se desde o início como ciência, é capaz de proporcionar o efetivo espaço de reflexão e problematização, buscando superar o caráter eminentemente prático, de aplicação de regras, que as disciplinas de arquivo, biblioteca e museu trazem de sua origem.

O conceito de informação também é relevante, mas, para que ele propicie essa integração, é

preciso retornar à própria origem do termo, que, conforme Capurro (2008), remonta aos conceitos gregos de eidos (ideia) e morphé (forma), significando “dar forma a algo”. Informação, portanto, se inscreve no âmbito da ação humana sobre o mundo (“in-formar”), apreendendo-o por meio do simbólico, nomeando e classificando os objetos que conhece (objetos da natureza), criando objetos que passa a utilizar (instrumentos com diversas finalidades), produzindo registros que constituem novos objetos (textos impressos, visuais, sonoros) e criando ainda registros destes registros (catálogos, índices, inventários, etc).

Informação é portanto um conceito que perpassa todo esse processo. Tem origem na produção de

Informação é portanto um conceito que perpassa todo esse processo. Tem origem na produção de registros materiais e se prolonga nas atividades humanas (arquivísticas, biblioteconômicas, museológicas) sobre esses registros. Mas é ainda mais ampla do que isso, é tudo aquilo que envolve essa ação humana a partir do primeiro registro, do primeiro ato de “in-formar”. Parte da ação humana comum, cotidiana, de apreender o mundo e produzir registros materiais desse processo, chega às instituições e procedimentos técnicos criados especificamente para intervir junto a estes registros e os ultrapassa nos mais diversos usos, fluxos, apropriações, contextos. Dada sua amplitude, surge com grande potencial de tratar os variados processos arquivísticos, biblioteconômicos e museológicos como sendo muito mais do que os procedimentos técnicos definidos pelo paradigma custodial/tecnicista. Ao fazer isso, potencializa também uma parcial dissolução das rígidas fronteiras disciplinares (sem perda de identidade e de especificidade de cada uma) em benefício de reflexões teóricas e aplicações práticas mais ricas – como demonstram, entre outros, os recentes exemplos de construção da Europeana (um amplo sistema digital que constitui ao mesmo tempo um arquivo, uma biblioteca e um museu de acervos da cultura europeia) ou a fusão do Arquivo Nacional e da Biblioteca Nacional no Canadá. A CI, sem se impor sobre as três áreas, aberta às especificidades e contribuições de cada uma, pode proporcionar o diálogo necessário para a construção de um conhecimento científico que não se reduz ao estudo e à prática das instituições que cada área contempla. A CI pode possibilitar que as três áreas sejam mais do que “a ciência do arquivo”, “a ciência da biblioteca” e “a ciência do museu” – e ainda se enriqueçam mutuamente.

Abstract: The aim of this paper is to present the findings of a research about the possibilities of epistemological integration of Archival Science, Library Science and Museum Studies in the Information Science. To this end, it reviews the origin and evolution of the three theoretical areas, and identified a custody and technical paradigm and theories that point to overcome. Next, it explores the origin and evolution of Information Science, proposing that the concept of information as studied recently can foster the advancement of theoretical perspectives in three areas and enable their epistemological integration.

Keywords: Information Science; Archival Science; Library Science; Museum Studies. REFERÊNCIAS

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COMUNICAÇÃO ORAL O CAMPO DA INFORMAÇÃO Angelica Alves Marques Resumo: Esta comunicação apresenta, a partir

COMUNICAÇÃO

ORAL

O CAMPO DA INFORMAÇÃO

Angelica Alves Marques

Resumo: Esta comunicação apresenta, a partir de uma revisão bibliográfica e análise documental, o histórico de algumas iniciativas internacionais e nacionais voltadas para a harmonização do ensino das disciplinas da informação. Partindo da definição de campo científico de Bourdieu e de jurisdição no sistema de profissões de Abbott, a Arquivologia, Biblioteconomia, Museologia, Documentação e Ciência da Informação são entendidas como disciplinas independentes que têm por objeto a gênese, organização, comunicação e recuperação da informação. Objetiva apreender as convergências e peculiaridades dessas disciplinas, especialmente da Arquivologia, para o delineamento do campo da informação, entendido como o espaço de alianças e conflitos entre essas disciplinas. Defende a autonomia da Arquivologia como disciplina científica, sem, contudo, perder de vista suas relações extradisciplinares e seus diálogos com as demais disciplinas que lhe são próximas.

Palavras-chave: Arquivologia. Biblioteconomia. Museologia. Ciência da Informação.

1 INTRODUÇÃO Há alguns anos, buscamos compreender a trajetória da Arquivologia como disciplina no Brasil, a partir do estudo das suas práticas, da história dos arquivos, dos cursos de graduação, das associações de arquivistas e da configuração atual da área, ou seja, dos quadros docentes dos cursos, das pesquisas desenvolvidas na graduação e na pós-graduação com temas arquivísticos e, de certa forma, da sua epistemologia. Desenvolvida em três fases (projeto de iniciação científica, dissertação e tese), o último estágio da pesquisa voltou-se para a investigação das interlocuções entre a Arquivologia internacional e a nacional, tendo em vista o desenvolvimento da disciplina no Brasil. Evidentemente, o estudo tangenciou a trajetória de outras disciplinas que têm por objeto a informação e que, institucionalmente, compartilham o mesmo espaço acadêmico dos cursos de Arquivologia, comungando, inclusive, objetos de pesquisa. Desse modo, parte da tese dedicou-se à apreensão dos marcos históricos da Museologia, da Biblioteconomia, da Documentação e da Ciência da Informação (CI). Embora outras disciplinas também tenham por objeto a informação, restringimo-nos a essas quatro áreas (como afins à Arquivologia), considerando a sua vinculação academicoinstitucional. Identificamos aspectos comuns que facilitam os seus diálogos e que, em parte, justificam tal vinculação e, também, pontos específicos que as individualizam.

Afinal, a Arquivologia teria uma identidade disciplinar própria? Ou sua identidade limitar-se-ia às suas aplicações

Afinal, a Arquivologia teria uma identidade disciplinar própria? Ou sua identidade limitar-se-ia às suas aplicações e, consequentemente, poderia ser considerada Ciência da Informação ou uma das Ciências da Informação? Se existem profissões e, mais recentemente, disciplinas que estão envolvidas com a gênese, organização, comunicação e recuperação de documentos/informações, os paradigmas da Arquivologia alinhar-se-iam àqueles dessas disciplinas no campo da informação? Inspirados e inquietados por essas questões, ainda que não objetivemos respondê-las, retomamos, mediante uma revisão de literatura e análise documental, o histórico de algumas iniciativas internacionais e nacionais voltadas para a harmonização do ensino das disciplinas da informação, ponto de partida para a conjugação das suas convergências e especificidades, além de estímulo para o delineamento do campo da informação, apresentado nesta comunicação.

2 EM BUSCA DE PONTOS COMUNS As preocupações em torno das relações de cooperação entre as disciplinas que têm por objeto

a gênese, organização, comunicação e recuperação da informação são sistematizadas em 1934, por

Paul Otlet, no Traité de Documentation (OTLET, 1934). A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) as valida com a criação do International Council on Archives (ICA), em 1948; com a aproximação entre a Fédération Internationale de Documentation

(FID) e a International Federation of Library Associations (IFLA); e com a realização da Conferência Intergovernamental sobre a Planificação das Infraestruturas de Documentação, que marca um “pacto” entre as bibliotecas e os arquivos (MATOS; CUNHA, 2003). No relatório apresentado à IFLA e à FID, acerca do inquérito sobre a formação profissional dos bibliotecários e documentalistas, Suzanne Briet retoma o problema dessa formação, lembrando

o papel dos arquivistas, bibliotecários e curadores de museus como especialistas na preservação e

divulgação dos acervos (UNESCO, 1951). A partir da década de 1960, são realizados alguns eventos internacionais com foco na integração dos serviços de documentação, bibliotecas e arquivos: em Quito (Equador, 1966), Colombo (Sri Lanka, 1967), Kampala (Uganda, 1970) e Cairo (Egito, 1974). Nessa perspectiva, são também feitas consultas sobre a planificação, os métodos aplicáveis e a formação de pessoal desses serviços – Paris, 1972, 1973 e 1974 (CONFERENCE INTERGOUVERNEMENTALE SUR LA PLANIFICATION DES INFRASTRUCTURES NATIONALES EN MATIÈRE DE DOCUMENTATION, DE BIBLIOTHÈQUES ET D’ARCHIVES, 1974). Em 1972 é realizado, em Washington, o Seminário Interamericano de Integração dos Serviços de Informação de Arquivos, Bibliotecas e Centros de Documentação na América Latina e no Caribe,

no âmbito da UNESCO, da Organização dos Estados Americanos (OEA), do Departamento de Estado e Comissão Nacional dos Estados Unidos para a UNESCO, da American Library Association e do Council on Library Resources. Foram declarados os princípios, as conclusões e as recomendações aos governos dos países americanos, considerando-se a responsabilidade do Estado em promover o

acesso à informação (ARQUIVO NACIONAL, 1974). Para facilitar a permuta e a transferência internacional de

acesso à informação (ARQUIVO NACIONAL, 1974). Para facilitar a permuta e a transferência internacional de informação, é criado, em 1973, o UNESCO’s World Scientific Information Programme (UNISIST) no âmbito da UNESCO (CARNEIRO,

1977).

Alinhado às propostas dessas iniciativas, nos anos 1970, o movimento pela integração das instituições voltadas para a organização e disponibilização de documentos (inicialmente os arquivos,

as bibliotecas e os institutos/centros de documentação) se fortalece, liderado pela UNESCO, no sentido de “estabelecer uma forma mais eficaz e flexível, base da cooperação e assistência em apoio aos esforços dessas organizações” (INTERGOVERNMENTAL CONFERENCE ON THE PLANNING OF NATIONAL DOCUMENTATION, LIBRARY AND ARCHIVES INFRASTRUCTURES, 1974, p. 28, tradução nossa). Exemplo desse esforço é a realização da Intergovernmental Conference on the Planining of National Documentation, Library and Archives Infrastructures, em Paris, no ano de 1974, com o objetivo de proporcionar o compartilhamento de experiências sobre o planejamento coordenado de bibliotecas e arquivos (INTERGOVERNMENTAL CONFERENCE ON THE PLANNING OF NATIONAL DOCUMENTATION, LIBRARY AND ARCHIVES INFRASTRUCTURES, 1974, p. 2, tradução nossa).

O Brasil participa desse evento, no qual é proposto o National Information System (NATIS),

como um sistema relacionado às ações da UNESCO voltadas para o entrosamento entre os arquivos e bibliotecas nas infraestruturas nacionais (CARNEIRO, 1977). “O conceito NATIS objetiva ação nacional e internacional como base para uma estrutura geral que abrangerá todos os serviços, que

proporcionarão assim informação a todos os setores da comunidade e a todas as categorias de usuários” (ARQUIVO NACIONAL, 1976a, p. 16). Nesse sentido, o mesmo documento inclui os arquivos nos serviços de comunicação.

O ICA, por sua vez, reconhece a necessidade de organização das estruturas de arquivos e de

gestão de documentos como responsabilidade do Governo e se coloca à disposição da UNESCO para colaborar em seus esforços para a execução do Programa (ARQUIVO NACIONAL, 1976b). Em relação aos arquivos, as preocupações centram-se na gestão dos documentos administrativos, intermediários (com destaque para a avaliação) e nos arquivos nacionais, além da microfilmagem e autenticação de documentos (CONFERENCE INTERGOUVERNEMENTALE SUR LA PLANIFICATION DES INFRASTRUCTURES NATIONALES EN MATIÈRE DE DOCUMENTATION, DE BIBLIOTHÈQUES ET D’ARCHIVES, 1974). Embora a reunião de especialistas para estudar a aplicação desse Sistema no Brasil (Rio de Janeiro, 1975) tenha cogitado apenas os problemas relacionados às bibliotecas (ASSOCIAÇÃO DOS ARQUIVISTAS BRASILEIROS, 1977a), parte da justificativa de criação do Sistema Nacional de Arquivos brasileiro é amparada na recomendação dessa Conferência, isto é, “num Sistema Nacional de Documentação, Bibliotecas e Arquivos, ao qual caiba o comando normativo da política arquivística

no País” (ARQUIVO NACIONAL, 1975a, p. 2). É importante ressaltar que o Brasil participa dessa

no País” (ARQUIVO NACIONAL, 1975a, p. 2). É importante ressaltar que o Brasil participa dessa Conferência como estado-membro, representado por seu embaixador e delegado na UNESCO, pelo então diretor do Arquivo Nacional, pelo ministro dos Negócios Exteriores e pelos consultores técnicos do Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação (IBBD) e do Ministério das Minas e Energia (CONFERENCE INTERGOUVERNEMENTALE SUR LA PLANIFICATION DES INFRASTRUCTURES NATIONALES EN MATIÈRE DE DOCUMENTATION, DE BIBLIOTHÈQUES ET D’ARCHIVES,

1975).

Tendo em vista um tronco comum para o ensino de Documentação, Biblioteconomia e Arquivologia, é apresentado o seguinte quadro:

Quadro 1: Proposta de tronco comum nos estudos de documentalistas, bibliotecários e arquivistas

 

Documentação

Biblioteconomia

Arquivologia

Fundamentos (histórico, desenvolvimento, evolução dos conceitos)

Sociologia da informação História da Informação Científica Teoria da comunicação Métodos de pesquisa

A biblioteca na sociedade História das bibliotecas e educação a esse respeito Legislação relativa às bibliotecas Estudos de usuários Métodos de pesquisa

Organização administrativa (passado e presente): geografia histórica História dos arquivos Legislação relativa aos arquivos Teoria da Arquivologia Métodos de pesquisa

     

Formas de documentação:

Formas de documentação:

dossiês, registros, manuscritos, cartas, material audiovisual, dossiês legíveis por máquinas, etc. Categorias de dossiês:

públicos, privados, notariais, etc. Sistemas de registro (organização dos arquivos intermediários)

Materiais

Formas de documentação:

periódicos, relatórios, novas mídias, bases de dados Serviços de informação

publicações, livros, periódicos, novas mídias Ferramentas bibliográficas História das artes do livro

Métodos Indexação, resumos analíticos, análise de conteúdo, armazenamento, linguagens documentárias e

Métodos

Indexação, resumos analíticos, análise de conteúdo, armazenamento, linguagens documentárias e sistemas de pesquisa documentária Organização de bases de dados Difusão de informação Serviços destinados aos usuários

Processos de consulta Organização do conhecimento Indexação, resumos analíticos, análise de conteúdo Serviços de leitores Análise sistêmica

Gestão de dossiês e depósitos intermediários Triagem Classificação e inventário, instrumentos de pesquisa Operações e serviços destinados aos usuários

(organização,

interpretação,

avaliação e

utilização dos

materiais)

Gestão (fixação de objetivos e métodos)

Gestão e administração Pessoal Aspectos jurídicos Planificação de sistemas

Gestão e administração Pessoal Tipos de operações Organização de sistemas

Gestão e administração Pessoal Aspectos jurídicos Organização e planificação de sistemas

   

Aplicações

 

Aplicações

informáticas

Aplicações informáticas Reprografia Conservação e restauração

Tecnologia

informáticas

Reprografia

Reprografia

Conservação e

restauração

 

Fonte: adaptação do quadro apresentado na Conférence Intergouvernementale sur la Planification des Infrastructures Nationales en matière de Documentation, de Bibliothèques et d’archives (1974, tradução nossa).

A partir desse quadro, há a recomendação de uma formação regular comum, complementada com cursos de aperfeiçoamento, atualização e reciclagem, reforçada pelo movimento para a harmonização das formações nessas áreas de informação, que ganha fôlego com a multiplicação dos estudos e dos encontros (COUTURE; MARTINEAU; DUCHARME, 1999). Em 1976, a UNESCO ratifica essa proposta de harmonização por meio do General Information Programme (PGI). Depois disso, ocorre o Seminaire International sur les stratégies pour le devélopment des archives dans le Tiers Monde, organizado pelo ICA em cooperação com a UNESCO (Berlim, 1979), que, a partir de uma terminologia geopolítica, reconhece a importância da integração parcial das disciplinas e dos profissionais do domínio da informação e documentação. Sintonizado a essas preocupações, o IV Congresso Brasileiro de Arquivologia (CBA) – Rio de Janeiro, 1979 – contemplaria, nas sessões plenárias, a integração dos arquivos nos centros de informação (ARQUIVO NACIONAL, 1980).

No mesmo ano é realizada a Reunión d’experts sur l’harmonisation des programmes de formation en

No mesmo ano é realizada a Reunión d’experts sur l’harmonisation des programmes de formation en matière d’archives (Paris, 1979), com o fim de se estudar os programas de formação em Arquivologia e as suas relações com os programas de formação teórica e prática em Biblioteconomia e CI. Além dessa reunião, a UNESCO, por meio do programa Records and Archives Management Program (RAMP), realiza uma consulta junto aos especialistas da área (também em Paris, 1979), com o objetivo de melhorar a gestão de documentos (além da sua preservação como herança cultural). As recomendações decorrentes dessa consulta voltam-se para a implementação de políticas e planos, normas e padrões, infraestrutura de desenvolvimento, formação e treinamento de profissionais (EXPERT CONSULTATION ON THE DEVELOPMENT OF A RECORDS AND ARCHIVES MANAGEMENT PROGRAMME (RAMP) WITHIN THE FRAMEWORK OF THE GENERAL INFORMATION PROGRAMME, 1979). Esses estudos também recebem a atenção dos profissionais e estudiosos da Biblioteconomia, que discutem o tema num seminário da IFLA (Filipinas, 1980). A relevância dos arquivos é, então, reconhecida:

Os arquivos públicos, cuidadosamente conservados, são o instrumento indispensável para administração de uma comunidade. Por sua vez, consignam a gestão dos assuntos públicos e a facilitam, ao mesmo tempo que descrevem as vicissitudes da história humana; por conseguinte, são de interesse para pesquisadores e administradores. Quer sejam secretos ou públicos, constituem um patrimônio e uma propriedade por cuja existência pública inalienável e imprescritível, em geral, zela o Estado. (RIGTH REPORT ON SUCCESSION OF STATES IN RESPECT OF MATTERS OTHER THAN TREATICES, 1976, p. 35).

Em 1980, a FID, o ICA e a IFLA se reúnem na Itália para definir as ações e os programas comuns viáveis. Essas instituições voltam a se reunir em Viena (1983) em torno do tema Gestion des professions de l’information: incidences sur l’enseignement et la formation, quando discutem questões teóricas e práticas que o perpassam (WASSERMAN, 1984). Nessa mesma perspectiva, a UNESCO organiza, em Paris, o Colloque International sur l’harmonisation des programmes d’enseignement et de formation en Sciences de l’Information, Bibliotheconomie et Archivistique (1984a; 1984b), que, como o próprio nome indica, focaliza a integração do ensino dessas áreas, em nível nacional e regional, considerando que os seus serviços têm em comum a aquisição, preservação e comunicação da informação registrada e, em graus variados, a análise e difusão das informações contidas em seus fundos e coleções. São, também, consideradas suas peculiaridades, determinadas, em grande medida, pela origem e natureza dos materiais tratados. Dentre as vantagens dessa integração estariam: os benefícios econômicos, a redução de barreiras psicológicas e sociais entre os grupos, a preparação dos estudantes para um mercado flexível, a implementação de uma base tecnológica comum às três disciplinas e o fortalecimento

do status representativo das profissões diante do Governo (TEES 5 apud MENDES, 1992, p. 16).

do status representativo das profissões diante do Governo (TEES 5 apud MENDES, 1992, p. 16). Em relação a esse evento, cabe-nos destacar, ainda, a presença da Profª Susana Mueller, então chefe do Departamento de Biblioteconomia da Universidade de Brasília (UnB), representando o Brasil no âmbito dessas preocupações (COLLOQUE INTERNATIONAL SUR L’HARMONISATION DES PROGRAMMESD’ENSEIGNEMENTETDEFORMATIONENSCIENCESDEL’INFORMATION, BIBLIOTHECONOMIE ET ARCHIVISTIQUE, 1984b). Ao relatar as discussões e conclusões do evento, Mueller reflete sobre uma possível reunião

em um só conselho profissional [de] todos esses setores envolvidos com serviços de informação, resguardadas a identidade e a especialidade de cada um, mas todos colaborando para uma mesma causa – a aquisição, preservação, organização e difusão de material informacional em vários formatos e suportes. (MUELLER, 1984, p. 164).

Complementarmente, é realizado o Colóquio Internacional sobre Harmonização de Programas de Ensino e Treinamento de Pessoal de Biblioteca, Informação e Arquivo no ano de 1987, em Londres (MENDES, 1992). Esses eventos propiciam a elaboração de alguns documentos que sintetizam suas preocupações em torno da harmonização das profissões e disciplinas da informação e propõem programas comuns nesse sentido. Por todas as iniciativas descritas, podemos perceber que a atuação da UNESCO, desde a sua criação em 1946, sempre foi de grande relevância para o desenvolvimento, a organização, a padronização, o estudo e a reflexão das disciplinas da informação. Devemos lembrar que, além dessas ações, e mais especificamente em relação à valorização dos arquivos, a instituição, já no seu primeiro programa, propõe um projeto de criação, em cada estado membro, de um centro de informação sobre os seus arquivos. A criação do ICA, o mais importante órgão de cooperação internacional da área, também ocorre no seu âmbito. Outro exemplo das relevantes contribuições da UNESCO é o fundo internacional para o desenvolvimento de arquivos, na tentativa de auxiliar os países em desenvolvimento a adotar sistemas nacionais de arquivos eficazes (INTERNATIONAL COUNCIL ON ARCHIVES, 1974). No Brasil, desde 1923 já existiam preocupações explícitas quanto à necessidade de cooperação entre os profissionais de arquivos, bibliotecas e museus: naquele ano, a Biblioteca Nacional e o Museu Histórico Nacional abrem inscrições para o Curso Técnico, comum a essas duas instituições e ao AN (CASTRO, 2000). No plano politicoinstitucional, a agência brasileira de fomento que faz a classificação das áreas do conhecimento com finalidades práticas, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), já contemplava a CI, desde 1976, como uma subárea da Comunicação na sua

5 TEES, Miriam. Harmonisation of education and training programmes for library, information and archival personnel: a repport of the colloquium held in London, 9-15 August 1987. IFLA Journal, v. 14, n. 3, p. 243-246, 1988.

Tabela de Áreas do Conhecimento (TAC). Nessa classificação, a CI tinha duas especialidades: 1) os

Tabela de Áreas do Conhecimento (TAC). Nessa classificação, a CI tinha duas especialidades: 1) os Sistemas da Informação e 2) a Biblioteconomia e Documentação (CONSELHO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO, 1978a). Na TAC de 1984, a CI aparece como área, denominada “Ciência da Informação, Biblioteconomia e Arquivologia”. Já na TAC em vigor 6 , a CI compõe, com outras áreas, a grande área das Ciências Sociais Aplicadas e tem como subáreas, a Teoria da Informação, a Biblioteconomia e a Arquivologia (FERNANDEZ, 2008). Essa classificação demonstra a emancipação da CI no campo científico e o seu “domínio” sobre as subáreas que a compõem. Além disso, parece ir ao encontro da proposta internacional de conceber a Ciência da Informação no plural, de forma a agregar as áreas que têm por objeto a informação. Em 2005, o CNPq, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)

e a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) compõem uma comissão especial de estudos para propor uma nova TAC 7 . Considerando a defasagem da tabela em vigor e a “forte tendência de interdisciplinaridade das áreas do conhecimento”, essa comissão deveria, em sintonia com as tendências internacionais e com a comunidade científica, estudar as profissões com base na Organização Internacional do Trabalho (OIT), mapear os problemas das grandes áreas e definir as bases epistemológicas para a nova tabela. Em decorrência dos trabalhos da comissão, o CNPq propõe

uma classificação que diferencia, nitidamente, a Arquivologia da CI. No entanto, essa proposta ainda não foi aprovada 8 , embora a comissão tenha previsto a conclusão dos trabalhos para dezembro do mesmo ano 9 . Nas universidades, já observamos a concretização de algumas iniciativas quanto à integração

da Arquivologia, da Biblioteconomia e da Museologia na CI: a Universidade Federal de Minas Gerais

(UFMG), a UnB e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) começaram a estudar e a implementar (no caso da UFMG) a integração dos currículos dos três cursos no escopo mais amplo da CI (ARAÚJO; MARQUES; VANZ, 2011). 3 PARTICULARIDADES DA ARQUIVOLOGIA Um dos principais autores que constituíram nossos referenciais teóricos foi Pierre Bourdieu, segundo o qual

O campo científico é sempre o lugar de uma luta, mais ou menos desigual, entre agentes desigualmente dotados de capital específico e, portanto, desigualmente capazes de se apropriarem do produto do trabalho científico que o conjunto dos concorrentes produz pela sua colaboração objetiva ao colocarem em ação o conjunto dos meios de produção científica disponíveis. (BOURDIEU, 1983a, p. 136).

6 As informações quanto à atual TAC encontram-se disponíveis em: <http://www.memoria.cnpq.br/areas/cee/proposta.htm>. Acesso em 19 jul. 2011.

7 Portaria conjunta do CNPq, CAPES e FINEP, de 2 de março de 2005.

8 Informações disponíveis em: <http://www.memoria.cnpq.br/areas/cee/proposta.htm>. Acesso em 19 jul/2011.

9 Memória da 2ª reunião da comissão especial de estudos das áreas do conhecimento realizada no Rio de Janeiro, na sede da Academia Brasileira de Ciências, nos dias 30 e 31 de maio de 2005.

Considerando a luta concorrencial que perpassa o campo científico, buscamos situar e compreender a formação

Considerando a luta concorrencial que perpassa o campo científico, buscamos situar e compreender a formação e configuração da Arquivologia no âmbito das disciplinas da informação que comungam paradigmas comuns em torno da gênese, organização, comunicação e recuperação da informação. Para compreender as relações entre essas disciplinas, retomamos, novamente, Bourdieu (2001). Para ele, a noção de campo científico contempla, simultaneamente, a unidade existente na ciência e as diversas posições que as diferentes disciplinas ocupam no espaço, isto é, sua hierarquização. O que acontece no campo depende dessas posições e este pode ser descrito como um conjunto de campos locais (disciplinas), que têm em comum interesses e princípios mínimos. Assim vamos, num primeiro momento, ao encontro do campo científico e profissional da CI, entendido, mais especificamente, como subcampo, entrecruzado com os daquelas disciplinas que lhe são próximas e que também lidam com a informação (a Arquivologia, a Biblioteconomia, a Documentação e a Museologia); e, num segundo momento, do campo da informação, que congrega essas disciplinas, numa abordagem mais ampla. Nesse sentido, não distinguimos os (sub)campos definidos por essas disciplinas (o que exigiria um estudo epistemológico mais profundo), mas procuramos entender suas relações de parceria, cooperação e conflitos, como profissões que passaram por processos de profissionalização e institucionalização até conquistarem seu espaço e estatuto científico. O estudo de Abbott (1988) mostrou-se valioso na apresentação e análise da história das profissões, sua formação em sistemas na sua busca por “jurisdição no sistema de profissões”. O autor considera as influências de forças internas e externas ao sistema de profissões, ideia que parece ser compatível com a proposta de campo transcientífico de Knorr-Cetina (1981) 10 e com Bourdieu (1983a), quanto às lutas internas ao campo científico. A partir das reflexões desses autores, pudemos compreender a trajetória da profissão de arquivista e a sua formação acadêmica. Observamos que a concentração dos documentos em arquivos centrais a partir do século XVI demandou profissionais especializados para gerir as grandes massas documentais acumuladas. Silva et al (1999) explicam que, a partir daí, a profissão de arquivista começa a ser regulamentada, com normas que, em alguns casos, já contemplariam os postulados da disciplina que desenvolver-se-ia mais tarde. A partir do século XVII, Duchein lembra que:

Como as administrações locais e centrais multiplicaram e se tornaram mais especializadas, sua produção de registros cresceu em importância. Tornou-se necessário criar sistemas de conservação, arranjo, descrição e gestão geral em larga escala para as novas massas de pergaminhos e papéis. Gradualmente, a profissão de arquivista tornou-se reconhecida como uma atividade distinta, exigindo um savoir-faire especializado. (DUCHEIN, 1992, p. 16, tradução nossa).

É assim que a profissão de arquivista, uma prática tão antiga, passa por distintas configurações de

10 ParaPara aa autora,autora, oo campocampo transcientífitranscientíficoco “remete“remete aa redesredes dede relacionamentosrelacionamentos simbólicossimbólicos queque emem princípioprincípio vãovão alémalém dosdos limiteslimites dede umauma

comunidade científica ou do campo científico” (KNORR-CETINA, 1981, p. 81-82, tradução nossa).

acordo com as mudanças ocorridas, sobretudo a partir do século XIX: a criação dos grandes

acordo com as mudanças ocorridas, sobretudo a partir do século XIX: a criação dos grandes depósitos

dos arquivos nacionais, que desprezavam o Princípio da Proveniência 11 em nome de uma centralização;

o aumento da produção e acumulação de documentos, agravado com o aparecimento da fotografia que

favoreceu a multiplicação das cópias; o surgimento dos documentos eletrônicos e os desafios quanto ao seu acesso (DUCHEIN, 1993). Segundo o mesmo autor, uma das consequências dessa evolução foi

a crescente especialização e autonomia dos arquivistas, com a criação de instituições cada vez mais

especializadas e de escolas de formação em vários países a partir da segunda metade daquele século, além da maior sensibilização em torno dos princípios básicos da Arquivologia (DUCHEIN, 1992). Couture, Ducharme e Rousseau (1988) lembram que é um pouco mais tarde, na primeira metade do século XX, que estão as bases da profissionalização do pessoal da Arquivologia:

Tributária de um estatuto de ciência auxiliar que lhe fora atribuído pela História positivista do século dezenove, a Arquivologia tradicional, submissa às pressões exercidas pela criação massiva de documentos pelas administrações, teve de inventar novos métodos e pensar novas intervenções para canalizar e racionalizar o fluxo incessante. (COUTURE; DUCHARME; ROUSSEAU, 1988, p. 51, tradução nossa).

A área então se divide em dois segmentos: um para atender às demandas administrativas, mais

voltadas para a gestão de documentos; e outro para dar conta das demandas de pesquisas históricas.

Essa divisão apresenta-se de forma mais clara nos Estados Unidos, embora a partir da Segunda Guerra Mundial tenha se repercutido no mundo.

À frente da especialização da profissão do arquivista estariam, grosso modo, duas correntes

de formação: 1) aquela liderada pelos países europeus, fiéis aos arquivos históricos, cuja formação dá-se independentemente da Biblioteconomia; 2) e aquela de fora da Europa, que tende a conceber a formação do arquivista mais próxima à do profissional da informação (principalmente do bibliotecário/ documentalista). Para Duchein (1993), essas correntes, aparentemente antagônicas, sintetizam de forma complementar dois papéis dos arquivos, como conservadores da memória histórica e como elementos da informação corrente.

Essa constatação parece ir ao encontro das reflexões canadenses, difundidas sobretudo a partir dos anos 1980 por meio da proposta da “Arquivística Integrada”, quando se verifica uma tendência

geral de valorizar os arquivos como recursos de informação vitais nas instituições. Decorrentes dessa valorização, são verificadas lacunas na organização de documentos administrativos, que, segundo Couture, Ducharme e Rousseau (1988), aguçariam os problemas de identidade da área. Entretanto, esses estudiosos lembram que, se por um lado as associações profissionais distinguiam os arquivos em dois segmentos, as instituições e a legislação arquivística não o faziam. Essa tendência de integração da Arquivologia tradicional com a gestão de documentos configuraria

a natureza da profissão do arquivista. Nessa perspectiva, a Arquivologia, por meio de um programa

11 “Princípio“Princípio básicobásico dada arquivologiaarquivologia segundosegundo oo qualqual oo arquivoarquivo produzidoproduzido porpor umauma entidadeentidade coletiva,coletiva, pessoapessoa ouou famíliafamília nãonão devedeve serser

misturado aos de outras entidades produtoras” (ARQUIVO NACIONAL, 2005, p. 136).

centrado na missão institucional e integrado à sua política de gestão da informação, passa a

centrado na missão institucional e integrado à sua política de gestão da informação, passa a contribuir, de forma particular, para a organização de documentos. É nesse sentido que os autores defendem a perspectiva integrada da área, bem como suas definições internas estratégicas e suas alianças com outras disciplinas. De fato, a informação orgânica registrada, objeto do olhar arquivístico, embora não seja a única definidora das decisões tomadas pelas instituições, contribui valiosamente para tal, como afirma Moreno:

Considerando-se que a informação estratégica é aquela capaz de apoiar às principais atividades de uma organização; é essencial para a tomada de decisão, reduzindo incerteza;

e a informação arquivística, por sua vez, também apresenta características similares, então

é possível afirmar que as informações estratégicas ou gerenciais amplamente utilizadas

pelos administradores para a tomada de decisão nas organizações, sejam elas públicas ou privadas, podem ter uma parcela significativa de informações com característica e natureza arquivística. (MORENO, 2007, p. 9).

A configuração integrada da Arquivologia (considerando o valor administrativo e o valor histórico dos arquivos), como uma das mais recentes tendências, além de propiciar a unidade das intervenções arquivísticas nos documentos, a articulação e estruturação das atividades arquivísticas sob uma política organizacional, de forma a ampliar a definição de arquivo, permite, segundo os canadenses, uma imagem mais forte da área e, consequentemente, o seu reconhecimento social (COUTURE; DUCHARME; ROUSSEAU, 1988). Se, ao longo da sua trajetória, aArquivologia teve contribuições relevantes da História na formação dos seus profissionais, estas não foram exclusivas: como afirmam esses autores, outros elementos de formação lhe foram indispensáveis, como aqueles oriundos da Administração, Informática, CI e outras disciplinas especializadas que auxiliam a área na organização de tipos específicos de arquivos. Há que se acrescentar, ainda, que as percepções acerca da profissão de arquivista variam conforme o país ou região. Assim, as diferenças se dão em razão da tradição arquivística nacional, mais ou menos próxima da História ou da CI (MARÉCHAL; EICHENLAUB 12 apud LIMON, 1999-2000). Ao analisar a trajetória da área, observamos que, se por um lado, a prática arquivística é antiga, por outro, a formação especializada, ou seja, a profissionalização, consolida-se a partir das escolas europeias do século XIX e dos cursos universitários (de graduação e pós-graduação) que se espalham no mundo ao longo do século XX (LIMON, 1999-2000). A partir desse século e, sobretudo a partir das duas guerras mundiais, a formação em Arquivologia desenvolve-se em razão das demandas das instituições arquivísticas e do mundo do trabalho, preocupadas com a gestão de grandes volumes documentais. É nessa perspectiva que Schaeffer afirma que “O campo arquivístico hoje é, como o foi nas suas origens, uma profissão de praticantes” (SCHAEFFER, 1994, p. 32). Essa afirmação pode, em parte,

12 MARÉCHAL,MARÉCHAL, Michel;Michel; EICHENLAUB,EICHENLAUB, Jean-Luc.Jean-Luc. LaLa formationformation desdes archivistsarchivists enen Europe.Europe. In:In: Les archives françaises à la veille de

l’intégration européene: actes du XXXIe Congrès National des Archives Français, 1990. Paris: Archives Nationales, 1992.

justificar o viés técnico assumido pela área, que na maioria dos países resume-se nas demandas

justificar o viés técnico assumido pela área, que na maioria dos países resume-se nas demandas por classificação, avaliação e descrição documental. Evidentemente, esse viés abriga necessidades e desafios teóricos e metodológicos, que, mesmo vagarosamente, têm se desenvolvido assimetricamente no mundo, sobretudo a partir do século XIX. Schaeffer complementa que é, a partir da base teórica, que o arquivista

pode avaliar os documentos e disponibilizá-los ao pesquisador ou ao administrador, conforme os interesses de cada um. E é assim que esse profissional pode distinguir-se dos demais que lhe cercam no campo da informação: com a regulamentação da profissão, acompanhada da formação profissional. Todavia, o autor lembra que, diferentemente das profissões consolidadas há mais tempo, a Arquivologia não tem uma tradição que associe formação universitária com a profissionalização. Como vimos, essa associação acontece tardiamente e acaba desencadeando um distanciamento entre a teoria e a prática. Esse distanciamento, por sua vez, retoma as questões iniciais, demandando uma aproximação entre as duas vertentes, como novamente pontua Schaeffer (1994, p. 27): mesmo no âmbito da formação acadêmica, não se deve dispensar a prática. Vale lembrar que a prática arquivística ocorre em instituições variadas e em situações de compartilhamento de experiências com diversos profissionais, sendo frequentes as relações com os demais profissionais da informação. 4 O CAMPO DA INFORMAÇÃO: CONSIDERAÇÕES FINAIS A proposta do CNPq de separação da CI e da Arquivologia nos instiga à reflexão. Talvez, a nova concepção dessa disciplina como uma área do conhecimento, independente da CI e diretamente ligada à nova grande área Ciências Socialmente Aplicáveis – ainda que seja questionável esta última denominação –, dê um novo rumo à configuração científica da Arquivologia no Brasil. Afinal, como

que não seja uma estratégia política de investimento

afirma Bourdieu, “Não há ‘escolha’ científica [

objetivamente orientada para a maximização do lucro propriamente científico, isto é, a obtenção do reconhecimento dos pares-concorrentes” (BOURDIEU, 1983a, p. 126-127). Delsalle (1998), por sua vez, nos lembra que a especificidade e autonomia da Arquivologia em relação a outras áreas aparecem nuançadas nos diferentes países. Embora não exista consenso entre os estudiosos das disciplinas da informação sobre a definição de fronteiras entre essas disciplinas, reconhecemos suas relações extradisciplinares, permeadas por encontros e desencontros. Todavia, gostaríamos de destacar suas particularidades, considerando:

]

• suas trajetórias (no caso dos arquivos, bibliotecas e museus, desde a Antiguidade, como espaços voltados para a guarda de documentos, a preservação da memória e, em alguns casos, como locais reservados para o estudo que, mais tarde, teriam suas práticas estudadas por disciplinas que tornar-se-iam científicas e regulamentadas por leis que demarcariam a jurisdição das diferentes profissões – arquivistas, bibliotecários e museólogos);

• seus objetos, que têm naturezas e objetivos distintos e, consequentemente, organização diferenciada segundo métodos específicos. Nessa perspectiva, devemos realçar que, embora os arquivos tenham funções culturais e sociais, sua produção/acumulação é orgânica, isto é,

decorre das atividades de uma instituição ou pessoa e, portanto, os documentos de arquivo devem

decorre das atividades de uma instituição ou pessoa e, portanto, os documentos de arquivo devem ser classificados, avaliados, descritos, conservados/preservados e difundidos tendo- se em vista a manutenção de informações relativas ao seu contexto de criação.

Mediante a combinação desses aspectos, defendemos a autonomia da Arquivologia como disciplina. A profissão de arquivista desenvolveu-se ao longo do tempo nas diversas sociedades, na medida em que evoluía a concepção da natureza dos documentos que deveriam ser conservados e o tipo de informação que se procurava. Sua especialização diante de outras profissões parte de uma origem mais ou menos indistinta entre as profissões de notário, ajudante de notário, escrivão, bibliotecário e documentalista. Aos poucos, as regras vão se formando, ligadas às práticas administrativas próprias de cada instituição e de cada país. A partir do século XIX, os estudiosos e profissionais da área começam a redigir obras sobre a sua prática, na tentativa de consolidar os princípios gerais 13 . No final daquele século, as técnicas de gestão de arquivos começam a dar espaço a um corpo teórico, aparecendo os grandes manuais que consubstanciariam as bases teóricas da Arquivologia (DUCHEIN, 1993). Dos primeiros registros humanos formadores dos arquivos até a inserção da Arquivologia nas universidades e sua atual configuração como campo científico-transcientífico-discursivo, verificamos discursos mais ou menos homogêneos/articulados, perpassados por habitus (BOURDIEU, 1983b; 2001) 14 decorrentes de contingências históricas, que, por sua vez, passaram a caracterizar paradigmas, modelos, correntes, tradições e tendências do pensamento arquivístico internacional. Há, portanto, que se considerar a amplitude e a complexidade do objeto (informação) nos seus desdobramentos comuns e específicos, bem como as iniciativas de diálogo e cooperação entre as disciplinas da informação (ver ações da UNESCO nesse sentido) e as tentativas de delimitação de fronteiras profissionais e científicas (legislação de regulamentação das profissões e tabelas de áreas do conhecimento). Conjugando esses fatores, podemos observar que, por um lado, as características gerais do objeto propiciam a interação das diferentes profissões e disciplinas; por outro, seus traços específicos as individualizam. Considerando seus pontos comuns e singulares, propomos, então, uma abordagem que não hierarquize a Documentação, a CI, a Biblioteconomia, a Museologia e a Arquivologia, mas que combine suas particularidades, respeitando suas trajetórias, práticas e avanços científicos. Assim, com base em Bourdieu, acreditamos que as disciplinas que têm por objeto a informação constituem, a partir da sua busca por autonomia científica, um campo comum, espaço de parcerias, mas também de conflitos. Nessa perspectiva, o campo da informação é entendido como o campo científico e profissional que abriga as disciplinas que têm por objeto a gênese, organização, comunicação e disponibilização da informação. Nele, estão entrecruzadas as trajetórias da Arquivologia, Biblioteconomia, Museologia,

13 SegundoSegundo FonsecaFonseca (2004),(2004), algunsalguns estudiososestudiosos afiafirmamrmam queque essasessas obrasobras datamdatam dodo séculoséculo XVI.XVI.

14 Ao explicitar a noção de habitus, o pesquisador articula passado (reprodução de estruturas objetivas) e futuro (objetivos contemplados num projeto): a estrutura objetiva que define as condições sociais de sua produção é conjugada com as condições de exercício desse habitus como transcendental histórico”, no qual ele está a priori, como estrutura estruturada e produzida por toda uma série de aprendizagens comuns ou individuais (BOURDIEU, 2001).

Documentação e, mais recentemente, da CI, como (sub/inter)campos simultaneamente parceiros, cooperativos, conflitantes,

Documentação e, mais recentemente, da CI, como (sub/inter)campos simultaneamente parceiros, cooperativos, conflitantes, relativamente comuns e singulares. Assim como o faríamos com a biblioteca, o museu, o centro de informação/documentação, podemos apreender o singular papel do arquivo no contexto organizacional: na contribuição do documento arquivístico como prova que apoia a administração e auxilia a preservação da memória 15 . Ou seja, o documento de arquivo é prova porque é produzido, recebido e acumulado no desenvolvimento das atividades de uma instituição/pessoa e, portanto, permite o registro da sua memória como processo. É dessa forma que se dá a construção do conhecimento pela preservação não fragmentada dos registros de memória, que Derrida (1997) chama de “blocos mágicos do passado” 16 . É como informação orgânica registrada que o documento de arquivo contribui, singularmente, para a gestão da informação nas organizações: como um auto-retrato institucional, não completo, mas único. Evidentemente, a exemplo de Couture, Ducharme e Rousseau (1988), vislumbramos relações de parceria, cooperação (e por quê não de conflito?) entre a Arquivologia e essas disciplinas, sem, contudo, concebê-las como de subordinação desta a qualquer outra área. Afinal, a interdisciplinaridade (e suas variações) parece ser uma característica intrínseca à Arquivologia, considerando que os arquivos são decorrentes de atividades institucionais e pessoais diversas.

Abstract: This communication presents, beginning with a bibliographical review and a documental analysis, the history of some international and national initiatives aimed at harmonizing the teaching of information disciplines. Starting with Bordieu’s definition of scientific field and Abbott’s definition of jurisdiction in the system of professions, Archival Science, Library Science, Museology, Documentation and Information Science are understood as independent disciplines that purport information genesis, organization, communication, and retrieval. The goal hereunder is to apprehend the convergences and peculiarities of these disciplines, especially of Archival Science, for outlining the information field, seen as the space for alliances and conflicts among these disciplines. This work also supports the autonomy of Archival Science as scientific discipline, without, notwithstanding, disregarding its extra-disciplinary relations and its dialogues with the other proximate disciplines.

Keywords: Archival Science. Library Science. Museology. Information Science.

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ARAUJO, CarlosAlberto Ávila; MARQUES,AngelicaAlves da Cunha; VANZ, SamileAndréa Souza.

15 ÉÉ válidoválido lembrarlembrar queque oo valorvalor dede provaprova dá-se,dá-se, sobretudo,sobretudo, pelapela conjugaçãoconjugação dasdas característicascaracterísticas dodo documentodocumento apontadasapontadas porpor DurantiDuranti

(1994) no contexto da organização: imparcialidade, autenticidade, naturalidade, interrelacionamento e unicidade.

16 ReferênciaReferência dede DerridaDerrida àà maneiramaneira pelapela qualqual FreudFreud pensavapensava representarrepresentar aa suasua memória,memória, istoisto é,é, porpor meiomeio dosdos seusseus escritos.escritos.

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COMUNICAÇÃO ORAL O IMPERATIVO MIMÉTICO: A FILOSOFIA DA INFORMAÇÃO E O CAMINHO DA QUINTA IMITAÇÃO

COMUNICAÇÃO

ORAL

O IMPERATIVO MIMÉTICO: A FILOSOFIA DA INFORMAÇÃO E O CAMINHO DA QUINTA IMITAÇÃO

Gustavo Silva Saldanha

RESUMO O texto desenvolve uma análise filosófica do conceito de mimese inserido na filosofia da organização dos saberes como uma unidade fundamental para o pensamento histórico da Ciência da Informação. É revisada a noção de mimese no contexto da Antiguidade, demarcando a rejeição à imitação manifestada por Platão e a abordagem aristotélica sobre as representações. Os fundamentos dos estudos informacionais são revisados a partir da presença determinante deste conceito em sua formalização. Três abordagens são investigadas neste contexto: Gutenberg e a prensa; Otlet e o livro; Bush e o Memex. O trabalho conclui demarcando a dupla significação de uma fundamentação mimética para o campo, a saber, representação e educação.

Palavras-chave: Filosofia da Ciência da Informação – Epistemologia - Filosofia da Informação - Mimese

1 INTRODUÇÃO Remota, a preocupação com o discurso sobre a mimese atravessa os séculos e pode ser observada como uma das questões que conferem vida à própria reflexão filosófica em seus primórdios. É sobre a abordagem da imitação que Platão se debruça para distinguir o mundo inteligível do mundo corruptível – no léxico de Lovejoy (2005), outra-mundanidade e esta-mundanidade, respectivamente. No campo informacional, esta reflexão se apresenta não apenas como objeto importante, mas, muita das vezes, como espaço privilegiado de produção de um domínio distinto. A condição da mimese no contexto de formalização de discursos institucionalizados em terminologias que abrangem as noções de bibliologia, de bibliografia, de biblioteconomia, de documentação e de ciência da informação, pode ser tomada como, no mínimo, fundamental em nosso discurso epistemológico. Recentemente, Floridi (2002), ao discutir uma “filosofia da informação”, aponta que é possível reconstituir a “história do conceito informação” muito antes de seu significante se tornar legitimado. Em seu olhar, é “perfeitamente legítimo” falar em uma “filosofia da informação” no passado, antes da “revolução informacional”. Em nossa visão, esta genealogia conceitual toca diretamente na mimese como unidade estrutural da organização dos saberes – OS. Percebendo o surgimento dos traços semânticos da CI enquanto arte de um organizador de saberes, surgida na Antiguidade, quando aparecem os primeiros instrumentos que transcendem a

prática irreflexiva, como o catálogo, o reconhecimento do conceito de mimese nos estudos da informação

prática irreflexiva, como o catálogo, o reconhecimento do conceito de mimese nos estudos da informação pode ser interligado ao próprio leit motiv da travessia da história das ideias acerca da noção e da instrumentalização da informação enquanto um meta-discurso – a meta-informação que leva ao meta-conhecimento transversal da OS (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 1996). Temos aqui a

“questão do registro” – de onde deriva a “questão do livro” – como essencial para o fazer/refletir do artífice da OS. Sob, para e pelo conceito de mimese, a prática meta-informacional se desenvolve, ganhando a formalização de “ciência” nos séculos XIX e XX. Explicitamente aplicado em disciplinas fundacionais da CI, como Reprografia, Preservação, Catalogação, Classificação, Recuperação da Informação – RI - e Comunicação Científica, o conceito pode ser, na verdade, observado como uma sombra que perpassa a linha de atuação da prática da OS. De uma maneira mais clara, este conceito é fundamental quando chegamos até a noção de informação elaborada na epistemologia da CI a partir dos anos 1960. À primeira vista, a questão que se coloca ao campo está envolvida com a noção de cópia, que se desdobra em setores cruciais do desenvolvimento do discurso científico da CI, como acesso, direitos autorais, tecnologia da informação, censura, e, naturalmente, preservação. Ao tratar de mimese, tratamos, desde Aristóteles, de aprendizagem – apropriação de significado esta que recai em toda tentativa novecentista de formalização de uma ciência para a informação, principalmente em sua face cognitiva. No entanto, o desenvolvimento do discurso da OS acompanha um percurso que desdobra- se em uma cadeia de compreensão da mimese iniciada por Platão em diálogos como Górgias, Fedro

e Sofista, tendo continuidade na República. Esta cadeia conduz à constituição da meta-informação

como objeto da epistemologia da CI, representada em ferramentas como tesauros e ontologias, em práticas como o mencionado serviço de referência e os estudos de usuários, em conceitos como informação e conhecimento. Procuramos aqui demonstrar que a reflexão sobre a mimese é um terreno fértil de discussão, capaz de ampliar as possibilidades de interpretação de nossas análises histórica, teórica e prática. Mais do que isto, afirmamos a relevância do conceito para a própria filosofia da CI, identificando-o como motor diferencial para reflexão da filosofia da informação. Nosso percurso observa a seguinte linha de reflexão: a) reconhecimento da conceituação platônica de mimese e da revisão aristotélica do conceito; b) identificação da mimese nos fundamentos da OS; c) análise da presença de um imperativo mimético na sedimentação dos estudos informacionais. Seguimos neste estudo a trilha filosófica aberta pela meta-reflexão de Nitecki (1995) sobre

a filosofia da OS. O epistemólogo aponta que, apesar de reduzida, a reflexão filosófica no campo permite a identificação de algumas influências estruturais. Dentre elas, o autor reconhece filósofos

ocidentais como Francis Bacon e Karl Popper. No entanto, apesar da longa tradição profissional, o coração do campo, para o autor, está ainda fundado na influência da metafísica de Platão, por um lado, e na abordagem empírica de Aristóteles. É a partir de uma análise interpretativa entre ambos, que procuramos construir nossa argumentação.

2 O IMITADO PELO IMITADOR Podemos destacar a mimese como tema estrutural para a Filosofia,

2 O IMITADO PELO IMITADOR Podemos destacar a mimese como tema estrutural para a Filosofia, como também para inúmeros saberes deste oriundo, como Ciência Política, História, Literatura e Psicanálise. A tradução da noção de mimese do grego para as línguas latinas pode apresentar os significados de imitação, representação, reprodução, dentre outros. Na Grécia platônica, reconhecemos este conceito aplicado

à ideia de representação artística, ou seja, no discurso sobre a arte. A estrutura do olhar de Platão sobre

a mimese está na crítica da noção a partir da acusação de falsidade – a mimese como conceito que

se apresenta como negação da verdade. Encontramos um ponto de vista que toma a imitação como recurso negativo, abrindo margens para a interpretação dos “povos imitadores” como inferiores aos “povos que negam a imitação”. Contra a mimese o pensamento ocidental viria se constituir, separando “ser” e “imagem do ser”. Entre Platão e Aristóteles, há, porém, um distanciamento claro sobre a noção. Se, por um lado, encontramos

sua condenação, por outro, em Aristóteles, reconhecemos a readmissão do conceito no debate filosófico –

ou sua afirmação como elemento potencial para a reflexão que se afirma verdadeira. Aristóteles reabilita

a mimese afastada da relação com o conhecimento lançada por seu mestre. O estagirita determina uma

relação fundamental para compreensão das representações na atualidade: a aproximação entre mimese e

aprendizagem. Menos atento ao que deve ou não ser imitado – postura platônica -, Aristóteles pergunta-se pela capacidade mimética presente no homem – “pelo mimeisthai no qual se enraíza a poietiké, entendida como criação de uma obra artística”. (GAGNEBIN, 1993, p. 70) Platão, na tentativa de cura da cidade, postula a doutrina de negação da poesia de caráter mimético (PLATÃO, 595a, 2008, p. 449). Para o filósofo da Academia, os imitadores que atuam sob

a estratégia da mimese são destruidores da inteligência dos ouvintes. Para conceituar a expressão

mimética, Platão recorre ao clássico exemplo da cama (PLATÃO, 596a-597b , 2008, p. 450-453). Há uma ideia de cama, atualizada pelo artífice que, baseado nesta ideia, produz o móvel doméstico. Temos também, como um “fabricante” de “camas”, o pintor. Porém, este não realiza a verdade da cama a partir da ideia, mas da cópia da ideia, ou seja, da cama do artífice. Assim, ele atua pelas aparências. Nesta cadeia mimética, há três formas de cama: a “natural” (o conceito), a do artífice e aquela do pintor. Esta última, dista da “verdadeira cama” – a “cama natural” – no mínimo três pontos (PLATÃO, 597d , 2008, p. 454). É sob esta avaliação que Platão conclui que a arte de imitar está longe da verdade e que o criador de representações, o imitador, nada entende, e apenas reconhece/ reproduz aparências.

No Fedro, Platão (2000) emprega a ironia, na abertura do diálogo, para criticar a imitação em uma dupla significação: tanto na capacidade de reprodução oral dos discursos, como na capacidade mais distante ainda da verdade do discurso escrito – imitar a imitação do manuscrito. Na cadeia de distribuição da alma divina detalhada no diálogo, ocupa apenas o sexto patamar o poeta – este, tomado como construtor de imitações. A visão contrária à mimese é sintetizada ao final do diálogo, quando Fedro é interpelado, afirmando que aquele que expõe suas regras por escrito conduzirá um outro ouvinte a tomar o escrito como verdade, atribuindo, em um futuro cada vez mais afastado do “conhecimento verdadeiro”, valor

maior ao escrito que às “essências” que estariam em sua forma. À palavra escrita, sinônimo

maior ao escrito que às “essências” que estariam em sua forma. À palavra escrita, sinônimo do discurso morto, opor-se-ia a palavra viva, fruto do discurso inserido na dialética. Está evidenciada no diálogo a preocupação platônica com os riscos de uma memória ampliada, artificial, capaz de transportar os discursos no tempo. No Sofista, esta racionalidade que se interpõe contrária à mimese é afirmada como uma “demiurgia das imagens” (VERNANT, 2010, p. 53): a mimese nada mais é que uma fabricação (poíesis) de imagens (éidolon).

Segundo Aristóteles, “o imitar é congênito no homem (e nisso difere dos outros viventes, pois, de todos, é ele o mais imitador, e, por imitação, aprende as primeiras noções) e os homens se comprazem no imitado” (ARISTÓTELES, 1966, p. 71). Segundo o estagirita,

o poeta é imitador, como o pintor ou qualquer outro [

destes três objetos: coisas quais eram ou quais são, quais os outros dizem que são ou quais parecem, ou quais deveriam ser. Tais coisas, porém, ele as representa mediante uma elocução que compreende palavras estrangeiras e metáforas, e que, além disso, comporta múltiplas alterações, que efetivamente consentimos ao poeta. (ARISTÓTELES, 1966, p. 99)

por isso, sua imitação incidirá num

];

A Poética, entre os gregos, representava a arte produtiva, ou, arte que produz imagens, ou, ainda, ciência da produção. Tratava-se, pois, da “arte da imitação das coisas sensíveis ou dos acontecimentos que se desenrolam no mundo sensível, constituindo, antes, a recusa de ultrapassar a aparência sensível em direção à realidade e aos valores” (ABBAGNANO, p. 426, 2000). Em sua Poética, Aristóteles não se preocupa com a questão moral da “reprodução do modelo”, mas atenta para a faculdade de reproduzir, característica essencial do homem. Para Gagnebin (1993, p. 71), duas inovações elementares na Poética de Aristóteles referentes à mimese são destacáveis:

a) a mímesis faz parte da natureza humana, caracteriza em particular o aprendizado humano.

b) ao descrever esse ganho de conhecimento, Aristóteles insiste na sua característica de

“reconhecimento”. Os homens olham para as imagens e reconhecem nelas uma representação da realidade; dizem: “esse é tal”. A atividade intelectual aqui remete ao logos, mas não repousa sobre uma relação de causa e efeito; enraíza-se muito mais no reconhecimento de “semelhanças”. (GAGNEBIN, 1993, p. 71)

]; [

O caminho da representação à aprendizagem aberto por Aristóteles em sua reflexão sobre a mimese intensifica as possibilidades de reflexão do conceito no âmbito da OS. Em resumo, a partir do olhar aristotélico sobre os efeitos da mimese, podemos chegar aos seguintes apontamentos: a) a mimese pressupõe aprendizagem; b) a mimese pressupõe reconhecer a imitação enquanto forma – eidos - que também leva ao conhecimento; c) a mimese é uma ferramenta para classificar o mundo, pois possibilita perceber as semelhanças; d) a mimese é fonte de prazer (é um jogo).

3 A IMITAÇÃO DO MUNDO IMITADO

A partir da breve exploração do conceito de mimese, podemos conceber uma genealogia de sua aplicação na filosofia da CI. Fragmentos de gestos históricos na Antiguidade e no período medieval podem desvelar a relação entre mimese e OS como experiência intrínseca de uma arte distinta.

Naquilo que nos é mais claro no Ocidente no âmbito da OS, encontramos o significado

Naquilo que nos é mais claro no Ocidente no âmbito da OS, encontramos o significado da Biblioteca da Alexandria como um centro clássico de cópia & exegese (reprodução de meta-informação) e educação. Por sua vez, o conjunto de regras que orientavam a prática da cópia de manuscritos – ars scribendi - no Medievo, esta cópia desenvolvida em um ambiente próprio de reprodução – a scholae scribendi -, em si já sustenta a fundamentação de uma escola mimética em curso no passado. Não representa, pois, uma coincidência a identificação de “crises” nos regimes epistemológicos do campo quando as transformações técnicas impulsionam saberes miméticos como as artes reprográficas. As galáxias “de Gutenberg” e “da Internet”, para utilizarmos as noções comuns de McLuhan e Castells, podem ser identificadas como frutos de grandes crises da OS, exigindo diferentes modelos de teorização para uma prática remota. Diferentes são os territórios histórico-teóricos da OS que permitem uma reflexão sobre a questão. Correlacionadas com estas “galáxias”, a presença de Johannes Gutenberg, Paul Otlet e Vannevar Bush na contextualização das transformações na prática do organizador dos saberes foi, neste momento, identificada para a análise do conceito de mimese e a construção epistemológica da OS.

3.1 A mimese gutenbergiana: o mundo engolido por um só livro A edição prensada da Bíblia como manifestação primeira da nova técnica de reprodução de artefatos no século XV coincide com a síntese do Medievo realizada pela Baixa Idade Média:

encontro do “Platão poeta” e do “Aristóteles físico”. É contemporâneo a este fato, o aparecimento das universidades e a demanda de novas “classes” como a de professores e a de alunos por cópias de documentos para o ensino e a aprendizagem. Encontramos ainda neste contexto a apropriação aristotélica de Santo Tomás de Aquino e a grande recepção do estagirita no ocidente. De um modo geral, principalmente a partir desta última evidência, temos aqui a transformação do olhar do homem sob a mimese. A manifestação da prensa de Gutenberg permite-nos encontrar o indício final da reabilitação aristotélica da noção de mimese, demarcada na imitação que abarca as demais imitações do mundo: o livro. Antes disso, a reprodução manuscrita dos textos de Aristóteles nos séculos anteriores ao XV revela mais do que uma (re)apropriação filosófica e uma demanda filológica: com a “chegada” do estagirita ao Ocidente e a leitura tomista sobre a empiria, o homem se abre para um reconhecimento gradual da mimese. Neste sentido, as imitações começam a serem tomadas como expressões não mais nocivas ao saber. A partir do início da era da reprodutibilidade bibliográfica, demarcada pelo Renascimento, instaura-se a vigência de um regime de pensamento que se debruçará sobre a imagem, não para negá-la, mas para buscar nela possibilidades de apreensão crítica e de transformação do homem. A mimese agora é também reconhecimento, educação, prazer. Dentre diferentes avaliações – como as análises sociológicas, políticas, bibliológicas -, a invenção da prensa está atrelada a uma profunda travessia filosófica, demarcada por esta recepção aristotélica dois séculos antes da adaptação de Gutenberg. Acompanha a apropriação do livro a afirmação da mimese como pressuposto da OS. Os

elementos desdobrados da Poética de Aristóteles são recuperados, principalmente, as relações mimese-aprendizagem,

elementos desdobrados da Poética de Aristóteles são recuperados, principalmente, as relações mimese-aprendizagem, mimese-classificação e, principalmente, mimese-conhecimento. Merece esta última uma caracterização pormenorizada, mesmo que impossível de ser explorada neste espaço. Destacamos a relação confusa, por vezes, entre informação (representação) e conhecimento (tomado ora como abstração, ora como compartilhamento) que se dá na categorização conceitual do léxico epistemológico da CI. Esta relação, por vezes tratada como naturalista, pode ser identificada na reflexão sobre a mimese como conceito fundacional do itinerário das ideias bibliológicas. É através do reconhecimento da mimese como fragmento da filosofia da OS que podemos perceber as razões que ocasionaram a afirmação que a representação (a imitação) é uma espécie de “tradução” do conhecimento, e com ele se assemelha, ainda que com o mesmo não se identifique – mais verossimilhança, menos identidade. A prática da reprodução dos textos nos fins da Idade Média, ainda no contexto pré-Gutenberg, o início da leitura silenciosa – como se fosse possível adquirir conhecimento através do contato com um livro, questão que, no platonismo do Fedro e do Sofista, poderia ser interpretada como absurdo -, uma declarada obra de Bibliofilia, de Richard de Bury, e uma das primeiras grandes obras de Bibliografia, de Conrad Gesner -, demarcam, em tese, não apenas o reconhecimento da mimese como ferramenta para responder às demandas da passagem do Medievo para a Modernidade, mas também a reapropriação afirmativa do conceito como parte da estrutura de um saber que inicia os passos de sua autonomia: uma epistemologia para OS lança os primeiros marcos de sua formalização. Com a invenção consagrada no nome de Gutenberg, estabelece-se a compreensão de que a mimese é sustentáculo de uma “razão bibliográfica” e que a OS depende da mesma: tem-na como um dever e, mais do que isto, um imperativo. Poucas categorias profissionais, como lembra Peter Burke (2002), seriam tão diretamente atingidas pela prensa como aquela do organizador dos saberes. E esta crise pode ser tomada como a definitiva margem para um auto-reconhecimento: só existe este artífice em um mundo sustentado pela racionalidade mimética; e um mundo sustentado pela racionalidade mimética não existe sem esta arte. O século XIX, que abrigará a formalização dos primeiros cursos de Biblioteconomia e o surgimento da Documentação, será diretamente movido por este imperativo.

3.2 A mimese otletiana: o livro-signo e a máquina bibliológica A partir dos fins do oitocentos, junto do desdobramento técnico oriundo da invenção da prensa, Paul Otlet percebe nas novas tecnologias algo que está fundado na filosofia da OS: sua potência mimética. A principal virtualidade bibliológica estaria na capacidade irrestrita de reprodutibilidade. Orientado pela mimese, Otlet concebia as possibilidades de construção da paz mundial baseada no progresso proporcionado pela ciência positivista: a concepção mimética otletiana vai da reprodução de fichas à aplicação de tecnologias como telégrafo para a organização e a transmissão da informação intensivamente imitada. Diferentes autores apontam como diferença entre a Documentação otletiana e outros discursos interessados na organização dos saberes entre o século XIX e o século XX sua preocupação com

a tecnologia que potencializaria o fluxo informacional e com os sistemas sociais de produção e

a tecnologia que potencializaria o fluxo informacional e com os sistemas sociais de produção e de

disseminação dos conteúdos. Registra-se, pois, uma ênfase na “integração utilitarista da tecnologia e

da técnica para fins sociais específicos” (DAY, 2001, p. 10). A hipérbole consagrada do olhar sobre a mimese em seu caráter de representação icônica pode ser encontrada em Shera & Cleveland (1977). Encontramos aqui a Documentação significada, por vezes, como a prática de desenvolvimento e de uso do microfilme, ferramenta mimética compacta fundamental para a história da OS. Especificamente, o conceito de livro estabelece a relação direta entre o pensamento documentalista e a mimese. Para Otlet, o livro é tanto um objeto físico como um conceito cultural que se estabelece como forma de um conhecimento positivo – um “reflexo natural” do mundo social traduzido nos “fatos”, sendo, por isto, uma encarnação concreta da história. Segundo Day (2010, p. 10), o livro otletiano deveria ser nada mais do que uma reprodução, um sumário, ou, ainda, uma síntese de tudo de melhor que a humanidade pudesse produzir. Ao conceituar o livro como recipiente do conhecimento, o documentalista belga postula a passagem da mimese do conhecimento para a mimese do artefato – sua razão icônica. Esta imagem é determinada a partir de três modelos: o livro como organismo; o livro como modalidade dinâmica de energia; o livro como máquina de (re) produção. (DAY, 2001, p. 13) Interessa-nos aqui objetivamente o terceiro modelo de reconhecimento da noção de livro. Através dele, Otlet estabelece uma “função mimética” original para o livro. Em outras palavras,

o livro, mimese “por excelência” (na medida que trata-se de uma “assinatura do conhecimento”),

atua, por sua vez, como um engenho de imitações. A visão otletiana do livro como organismo aberto confere ao significado do artefato bibliográfico uma noção múltipla e inovadora, ainda que a própria história já tenha significado esta condição de sentido do livro. Ao voltar-se para a “relação todo-parte orgânica das funções do livro” (DAY, 2001, p. 14), Otlet percebe neste artefato um organismo auto- suficiente. A visão otletiana tem simultaneamente uma integração com o pensamento de Platão sobre

a mimese (uma física da OS emanada de uma metafísica do livro) e as possibilidades atentadas por Aristóteles em sua apropriação do conceito. Na visão do advogado belga, o livro representa a materialização objetiva do pensamento, este, já uma espécie de imitação. Em suas palavras, a cadeia platônica da mimese é descrita no imaginário otletiano: “como o pensamento é uma imagem das coisas, o livro aí está para proporcionar uma reprodução, uma cópia do mundo, tendo este como modelo” (OTLET, 1996, p. 425). Uma epistemologia documentalista tem, desta maneira, sustentação objetiva no conceito de mimese.

De fato, três grandes resultados ou leis bibliográficas dominam o enorme crescimento dos documentos do nosso tempo: a) existe, graças aos livros, um desdobramento dos espíritos, o ‘duplo da humanidade’ (‘doble da la humanidad’); b) esta ‘duplicação documental’ (‘doble documental’) restará cada vez mais distanciada de seus criadores, os escritores. Em seguida, ela atua distante de seus criadores e produz um efeito em extensão, que permite a acumulação dos dados escritos, e em profundidade, através do desenvolvimento cada vez maior da abstração e da generalização das ideias que são possibilitadas pelo documento;

c) por todas as direções, a condição humana é modificada. (OTLET, 1996, p. 425, tradução

c) por todas as direções, a condição humana é modificada. (OTLET, 1996, p. 425, tradução nossa, grifo nosso)

Day (2001, p. 14) nos chama a atenção para o fato de que o conceito de livro de Otlet aponta menos para o objeto, e mais para suas possíveis relações. Desta maneira, munido de uma complexa noção de rede – reséau -, o documentalista volta-se para o potencial criado pelos nós existentes entre todos os “acidentes” do livro, como códices, bibliografias, coleções de museu, ou seja, tudo aquilo que ganha a configuração de registro devido a algum processo de apropriação. A conclusão da razão mimética como sustentáculo de uma filosofia bibliológica está descrita na visão do “livro como a própria extensão do livro”: um livro não é um livro, mas o complexo de desdobramentos que a ideia de livro pode conter em um só conceito-matéria que se pressupõe livro. Isto fica claro na noção proposta de documento como substituto do significante livro. O documento tanto pode figurar-se como “o” livro – em seu modelo códice -, como pode ser tomado como a capa deste livro, ou sua folha de rosto, um de seus capítulos ou uma de suas páginas, um parágrafo, ou ainda, apenas, uma palavra que, dentro daquele contexto, pode representar outro documento, passível de conduzir um leitor a, inspirado, produzir todo um novo livro. A rede interna produzida por este emaranhado é, em si, um outro documento, um outro livro, que se desdobra em interpretações múltiplas. O livro otletiano é, pois, estruturalmente, uma máquina mimética - uma máquina que, na visão do criador do Mundaneum, conserva uma força intelectual em permanente expansão/replicação.

O mecanismo do livro permite que sejam formadas as reservas das forças intelectuais: é um acumulador. Enquanto uma externalização do cérebro, ele se desenvolve em detrimento de si próprio, como os instrumentos se desenvolvem em detrimento do corpo. Em seu desenvolvimento, o homem, em vez de adquirir novos sentidos, novos órgãos (por exemplo, três olhos, seis orelhas, quatro narizes), percebe o desenvolvimento de seu cérebro por abstração, esta pelo signo, e o signo pelo livro. (OTLET, 1996, p. 426, tradução nossa, grifo nosso)

Como partes de um processo, o conceito otletiano de livro aponta para uma característica fundada na mimese: a repetição. A ideia da repetição aparece em Otlet, segundo Day (2001), não como a possibilidade de duplicação de um resultado único, mas como um princípio que toma o repetir como amplificação – esta, conduz à expansão universal do conhecimento. Esta expansão sugere “que há uma mudança de escala para a natureza e valor do conhecimento”. Para Otlet, “os textos são tanto veículos como incorporações de repetição dinâmica, levando a uma expansão do conhecimento e também uma mudança na forma do conhecimento”. (DAY, 2001, p. 14) Nesta dinâmica, o livro-signo de Paul Otlet pressupõe a máquina-livro: a máquina mimética que se funda como prolongamento do homem – a imitação da imitação da imitação.

Análogo a um organismo que está sendo analisado em termos da sua agência no âmbito de um sistema ecológico, o livro-máquina está ligado a outros livros e outras “máquinas” orgânicas, formando conjuntos sistêmicos na conservação e transformação de energia mental ao longo da história. Otlet explica no Traité de que as máquinas são extensões [prolongement] do corpo humano. (DAY, 201, p. 18, tradução nossa, grifo nosso)

É relevante perceber que esta ideia da máquina mimética em Otlet se irrompe como uma

É relevante perceber que esta ideia da máquina mimética em Otlet se irrompe como uma das principais metáforas do século XX, ligada principalmente a três conceitos: rede, tecnologia e comunicação. Importante também é perceber que estas três noções estão enraizadas em uma epistemologia informacional de cunho fisicalista que conceberia o neologismo “ciência da informação”, respectivamente vinculadas às ideias de interdisciplinaridade, recuperação da informação e comunicação científica. A metáfora está diretamente relacionada, ainda, a uma formulação matemática para a informação, manifestada em termos objetivos no projeto comunicacional de Vannevar Bush, que realimenta a apropriação da mimese na OS.

3.3 A mimese bushiana: o Memex e a hiperimitação da grande máquina mimética À visão conceitual de Paul Otlet de uma máquina bibliológica na constituição de uma cadeia mimética se soma o projeto de Vannevar Bush, dentro do Governo dos Estados Unidos no contexto da 2 a Guerra Mundial. Seu conhecido conceito de Memex, explorado no artigo “As we may think”, estabelece outro foco sobre a ideia da máquina mimética, agora orientada para as possibilidades de um fluxo ainda mais dinâmico que aquele arquitetado por Otlet e possibilitado séculos atrás pela prensa. Afora as diferentes abordagens críticas sobre a verdadeira contribuição do projeto de Bush para o futuro da engenharia das telecomunicações, que atravessam as noções de hipertexto e de Internet chegando até Tim Berners-Lee, discutidas em Houston & Harmon (2007), e as análises comparativas, como a de Eugene Garfield (1968), entre o projeto bushiano e aquele de H. G. Wells - o World Brain -, importa-nos aqui os traços filosóficos deixados sobre a reflexão conceitual da mimese na OS. Estão presentes na visão de Bush as noções de memória ampliada e de extensão do homem, vinculadas ao pensamento de Otlet e lançadas como pontos de inflexão a partir da invenção da prensa no âmbito do que chamamos hoje de filosofia da informação. Bush propôs o desenvolvimento de um certo mecanismo que teria a capacidade de relacionar documentos pré-existentes com outros conjuntos de documentos gerados tanto particularmente como por terceiros. O foco estava na procura pela otimização da informação científica dentro de bibliotecas especializadas – em outras palavras, apresentava-se aqui a semente de uma disciplina específica do discurso da CI, que aparecerá em sua primeira face no currículo de Farradane, em 1958, duas décadas depois, ou seja, a RI no âmbito da comunicação científica. (HOUSTON; HARMON, 2007) Bush preocupava-se com o atraso nas possibilidades de acesso à informação decorrido dos esquemas tradicionais adotados pelas bibliotecas. Em sua visão, a incapacidade humana de acessar um documento estava diretamente ligada aos entraves dos sistemas de indexação então em vigência. Um problema crucial o incomodava: a linearidade como percurso necessário para obtenção de um determinado dado nos sistemas bibliográficos, oferecido, por exemplo, pela ordem alfabética (BUSH, 1945). O Memex – a máquina anti-platônica de extensão da memória – era centrado na experiência individual de um pesquisador e em seu processo cognitivo de busca e de percepção da informação. Bush procurava (re)constituir o processo de RI a partir da imitação da prática do pesquisador, ou seja, a partir da “busca por associações”. Estas associações, diferentemente de um processamento

linear, permitiria ao especialista de uma determinada área do conhecimento chegar até a informação procurada

linear, permitiria ao especialista de uma determinada área do conhecimento chegar até a informação procurada sem necessitar percorrer longos canais de informação. (HOUSTON; HARMON, 2007). Utilizando uma noção “positiva” da mimese, Bush buscava reconhecer a mente humana em sua experiência de raciocínio no processo de seleção da informação, inaugurando, em parte, um profícuo debate no terreno dos estudos cognitivos da informação na OS. Se a mente funciona por meio de associações, é através de uma mimese mecanizada que chegaremos até a recuperação “ideal” dos dados disponíveis na massa de publicações científicas.

O homem não pode sonhar em duplicar este processo artificialmente, mas certamente

Não se pode contar com a mesma velocidade e

flexibilidade associativa da mente humana, mas podemos supera-la, decididamente, em relação à permanência e clareza dos elementos recuperados dos acervos. Consideraremos

um dispositivo futuro de uso individual que é uma espécie de arquivo-biblioteca mecanizado.

Já que é importante um nome, o chamarei de MEMEX. Um MEMEX é um dispositivo

que permitirá a uma pessoa armazenar todos os seus livros, arquivos, e comunicações, e

que poderá ser consultado com grande velocidade e flexibilidade. Na verdade, seria um suplemento ampliado [enlarged] e particular de sua memória. (BUSH, 1945, tradução nossa, grifo nosso)

deve ser capaz de aprender com ele. [

]

Orientado para uma procura de “amplificação” da memória humana, seguindo o percurso contrário de Platão e seguindo as margens abertas por Aristóteles, o projeto de Vannevar Bush, guardadas as nuances de tempo, espaço e foco, postula-se como complemento ao conceito de livro oriundo de Paul Otlet. Ambas as visões se aproximam e se interpenetram em uma instância: a compreensão da mimese como noção fundamental para o desenvolvimento da OS. Outras aproximações podem ser aqui observadas: há, por exemplo, em Otlet e em Bush, uma perspectiva civilizatória e progressista, verificadamente de cunho positivista, que toma o Livro e o Memex como ferramentas para a “evolução” do homem. Preocupa-nos aqui a relação com o profícuo conceito de mimese no discurso da CI. Ao atentar para os estudos cognitivos em seu processo de associação de ideias, a proposta mecânica de Bush (1945) concentra-se no uso da imitação como possibilidade de desenvolvimento do homem e, principalmente, a otimização e a evolução dos sistemas de recuperação de informação. É esta visão do associativismo cognitivo que deflagra a hipérbole das comparações do pesquisador como pai e/ou grande inspirador dos sistemas multimídia, da Internet, dos hiperlinks, da Web e das bibliotecas digitais. Conceito fundamental dentro da ideia de Memex é oriundo da noção de “replicador”. A “principal função” do projeto de Bush seria replicar – no sentido de reproduzir – a mente humana, permitindo com que todo o conhecimento edificado pelo homem não se perdesse na impossibilidade de armazenamento. O Memex seria capaz de imitar e, a partir da imitação, ampliar a mente humana, expandida em ferramentas de replicação (HOUSTON, HARMON, 2007). No entanto, os princípios miméticos do projeto do Memex estão fundados ainda naquilo que o fim do século XX passou a tratar como fundamental para o desenvolvimento humano, inspirado na Web: a produção coletiva e aberta do conhecimento. Esta co- produção leva Bush a apontar uma “total liberdade” do usuário para alimentar o Memex, determinando possíveis atalhos para localização da informação. Seria facultativo a ele, indica Bush (1945), inserir

comentários/notas no sistema. Soma-se a isto, a possibilidade de uma indexação associativa e instantânea. Esta,

comentários/notas no sistema. Soma-se a isto, a possibilidade de uma indexação associativa e instantânea. Esta, tomada por Bush como “característica essencial” do Memex, representaria a grande inovação - a possibilidade de relacionar dois elementos diferentes entre si por usuários distintos. À medida que procura o item desejado, o usuário, na visão antecipada de Bush (1945), criaria atalhos, que poderiam se associar com um conjunto indefinido de novos elementos. Vannevar Bush, desta maneira, repassa para o usuário o papel de reprodutor/construtor mimético e colaborador direto da infra-estrutura de organização dos saberes de uma estação local, de um município, de um estado, de um país. “A princípio, ele usa uma enciclopédia para encontrar um breve, mas interessante artigo. Depois, nos registros de História, ele encontra algo interessante para relacionar com o material encontrado na enciclopédia. E continua criando atalhos com vários itens” (BUSH, 1945, tradução nossa). Sua visão é mais ampla e chega a postular um futuro com o novo ofício na OS:

Haverá a nova profissão de criador de atalhos, pessoas que terão a tarefa de estabelecer atalhos entre o enorme volume de registros correspondentes. Para os discípulos de qualquer mestre, o legado dele passará a ser não apenas suas contribuições ao acervo mundial, mas também as bases que sustentarão seus discípulos. Presumivelmente o espírito humano se elevaria se fosse capaz de rever o obscuro passado e analisar mais completamente e objetivamente os problemas atuais. Ele edificou uma civilização tão complexa, que agora precisa mecanizar inteiramente seus registros caso almeje levar a uma conclusão lógica seus experimentos, ao invés de meramente bloquear-se por estar sobrecarregando sua limitada memória. Sua vida poderia ser desfrutada melhor se ele pudesse ter o privilégio de esquecer as múltiplas coisas que não necessitasse imediatamente às mãos, com a certeza de poder encontra-las quando fosse preciso. (BUSH, 1945, tradução nossa, grifo nosso)

A proposta de Vannevar Bush estará relacionada com a Teoria Matemática da Comunicação, partindo de uma visão da informação como um dígito, capaz de ser operacionalizada. Ambas as abordagens, o Memex e a teoria de Shannon e Weaver, são sustentáculos para a epistemologia fundacional da CI. Ambas permitem, ao mesmo tempo, estabelecer em definitivo a importância do conceito de mimese para o pensamento na OS, como a seguir procuramos demonstrar a partir de uma síntese entre a genealogia de nossas ideias e de nossas práticas, que levou o campo a se apresentar como uma escola da quinta imitação.

4 A ESCOLA DA QUINTA IMITAÇÃO E A ÉTICA DO MÍMEMA Ao tomar a CI como um campo aplicado da filosofia da informação – ou uma filosofia aplicada da informação -, Luciano Floridi (2002) estabelece que a epistemologia da OS circula em torno do conceito de informação. Este, por sua vez, aponta-nos uma vinculação objetiva à ideia de representação. O epistemólogo reconhece que nosso saber original não está no conhecimento em si – via platônica de conceituação da verdade -, mas nas fontes de informação que podem levar até este possível conhecimento. Quando postula a visão de que a Filosofia da Informação deve percorrer três destinos – a saber, constituição e modelização de ambientes de informação, ciclos de vida da

informação e computação – Floridi (2002, p.46) assume que o objeto principal da filosofia da

informação e computação – Floridi (2002, p.46) assume que o objeto principal da filosofia da CI é

a informação não em seu sentido forte, significativo e verdadeiro, mas em um sentido tratado como

fraco e específico, oriundo do sentido dos dados gravados (documentos). A visão filosófica floridiana aproxima-se das abordagens de Otlet e Bush, e da própria construção moderna da noção de registro duplicado de informação a partir da invenção da prensa. No entanto, apesar do olhar empirista sobre a aplicação do conceito informação realizado pela CI, Floridi busca uma filosofia tradicional - o foco no conceito, para além do sujeito - estabelecendo a informação como unidade metafísica, que transcende a própria prática profissional. Desta unidade é que pode ser reconhecida a aplicabilidade – a funcionalidade – da práxis do profissional da informação. O epistemólogo esclarece isto ao contrapor sua visão à Epistemologia Social de Jesse Shera, esta, mais focada no sujeito, e menos no conceito. De certo modo, a visão de Floridi permite-nos integrar idealismo platônico – “existe” uma filosofia da informação – e empirismo aristotélico – a CI fundamenta-se como uma “filosofia aplicada da informação”. Retomando, para o filósofo da Academia, a prática do registro pode ser tomada como a representação (imitação da linguagem) da representação (imitação do pensamento) da representação (imitação do mundo inteligível). Explicitada de outra forma, poderíamos conceber a cadeia mimética da seguinte maneira:

Mundo inteligível/Outramundanidade (o “grau zero da imitação”)

Mundos miméticos/Estamundanidade (espaço das imitações)

o

Mundo do pensamento – estados mentais (1 a imitação);.

o

Mundo da linguagem oral – discursos (2 a imitação);

o

Mundo das inscrições da linguagem - ícones (3 a imitação);

o

Mundo das cópias dos ícones – reproduções (4 a imitação);

o

Mundo das meta-linguagens – meta-representações (5 a imitação).

Na leitura platônica, o livro-signo de Otlet é aquele ausente de ser – a imitação icônica, ou das imagens gestadas em representação plana. Não responde pela essência do conhecimento, não guarda

a forma da sabedoria e se reproduz, como a imagem poética ou plástica, de maneira inconsciente.

Enquanto cópia, apresenta-se como 3 a imitação, um artefato que é gerado entre o pensamento que se dá pela linguagem e a linguagem que o manifesta. No entanto, a mimese da prática da OS vai ao extremo de determinar um quinto momento imitativo como fundacional em sua constituição: o mundo das metalinguagens, que ocupa-se em construir representações das representações, ou apenas, as meta-informações – onde se encontram a prática e o produto das linguagens documentárias – que se sedimentam como o objeto, o meta-conhecimento, da CI (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 1996). Em outras palavras, trata-se de um domínio científico que não só toma a representação como imagem do conhecimento, como a aborda como objeto-conhecimento. Inaugura-se na filosofia da OS uma escola de reprodutibilidade muito antes da Idade Moderna,

uma vez determinada a mimese como nuclear para a constituição desta arte. Funda-se uma agenda

uma vez determinada a mimese como nuclear para a constituição desta arte. Funda-se uma agenda de pesquisa, orientada em seu núcleo, em linhas gerais, para a

a) preservação do “ícone original” (3 a imitação) – representada por disciplinas como Biblioteconomia de Obras Raras, Arqueologia, Conservação;

b) reprodução do “ícone original” (4 a imitação) – representada por disciplinas como Reprografia, Recuperação da Informação, Bibliotecas digitais;

c) microdescrição do “ícone original” em meta-linguagens (5 a imitação) – representada por disciplinas como Classificação, Indexação e Catalogação.

Esta agenda se sedimenta no século XX como campo científico orientado pela/para mimese, travestida no conceito de informação. Apesar de dialogar permanentemente com a 1 a imitação – os estados mentais – e a 2 a imitação – os discursos -, o principal foco desta epistemologia está no trânsito entre a terceira, quarta e quinta imitações. Em outras palavras, a mimese se torna um imperativo:

trata-se de um dever do organizador dos sabres não apenas cuidar da cadeia mimética, mas também construir ferramentas passíveis de amplificação desta cadeia. O conhecimento é por vezes tomado aqui como sinônimo do próprio saber representado, tamanha a dimensão do imperativo que se estabelece como ética primeira da relação entre indivíduo e objeto nos estudos informacionais. A quinta imitação, significada por metodologias/produtos como tesauros e ontologias, construtos de uma cadeia mimética circular e aberta, sintetiza um ideal permanente do organizador dos saberes:

simultaneamente mimetizar e educar pela mimese. A partir da apreensão de domínios lingüísticos em comunidades discursivas especializadas, ou apenas “línguas de especialidade”, o artífice da OS manipula mímemas de mímemas – imitações do produto da arte de imitar (VERNANT, 2010) -, ou, ainda, meta-mímemas, expressões distantes de uma verdade essencialista de viés platônico, e mais próximas de uma verossimilhança contextual de viés aristotélico, que toma a poesia (construção) como ciência. Trata-se de um fazer que estabelece a relação preponderante com a ética que se sustenta na imagem como juízo bom, e explora nela as possibilidades do bom enquanto ferramenta de auto- replicação imagética. Antes de se perguntar se a imagem existe, se ela responde pela verdade, o organizador dos saberes já, sob um imperativo mimético, atualiza sua arte na replicação da imagem, procurando fundar nela as semelhanças possíveis, por contextos de significação, com o conhecimento. Este artífice, em linhas gerais, procura insistentemente demonstrar que o mímema, independente de ser ou não bom em essência, pode ser bom em ato.

5 OS DESTINOS DO IMPERATIVO MIMÉTICO

Apesar de seu destino voltar-se para a 5 a imitação, tomando por base a cadeia mimética platônica,

é na tentativa de um deslocamento da 3 a imitação – artefatos – para a 2 a - discursos – e desta para a

1 a imitação – pensamento -, que reconhecemos a produção da epistemologia da OS no século XX,

principalmente aquela que procura demarcar a cientificidade de uma ciência para a informação nos

anos 1960. Cabe-nos aqui reconhecer que a CI não conseguiu escapar – se era este

anos 1960. Cabe-nos aqui reconhecer que a CI não conseguiu escapar – se era este o seu intuito – da chamada 3 a imitação. Mesmo quando se propõe a encarar a informação a partir da linguagem – paradigma social, enfoque pragmático, 2 a imitação - e/ou a partir da cognição – paradigma cognitivo, enfoque semântico, 1 a imitação ou ainda concepção tradicional de conhecimento como conteúdo de estados mentais (FURNER, 2004) - os estudos informacionais se debruçam sobre a informação como uma entidade objetiva - conhecimento como algo que é registrado ou que é apresentado em um sentido objetivo, externo, público (FURNER, 2004). Cabe ao epistemólogo da CI, pois, não apenas reconhecer este imperativo, mas, sem dúvida, principalmente munido das leituras contemporâneas da informação, de cunho pragmatista e pós-estruturalista, por exemplo, criticá-lo – a crítica do mímema como fazer epistemológico da CI. A prática histórica do organizador dos saberes pode ser reconhecida, pois, nesta revisão, como a de um imitador que coleciona e produz imitações. Em outras palavras, este artífice atua com meta-mímemas. O mímema apresenta-se como seu objeto primeiro. Sua crença no saber está no

reconhecimento de que, o que existe, antes, é a crença de que há a “crença na imitação” – donde provém seu ofício/mistério. E que esta imitação pode também ser conhecimento, prazer, jogo, educação. Disciplinas comuns na formalização dos currículos das escolas de Biblioteconomia, Documentação

e Ciência da Informação entre o oitocentos e novecentos, como Introdução à cultura histórica e

sociológica, Introdução à cultura filosófica e artística; Paleografia (que envolvia o estudo geral da origem dos alfabetos, da paleografia greco-latina, medieval, portuguesa e dos documentos nacionais até século XIX), Direitos Autorais, Reprografia, Recuperação da Informação, Comunicação Científica, Biblioteca digital são elementos conceituais que se estabelecem na fronteira de reconhecimento da mimese e de construção de uma virtude no organizador dos saberes que deve perceber a imitação como fundamental, mas também como questão-problema. Como observação final, cabe-nos destacar o horizonte mais distante que, por hora, pode atingir nossa reflexão: a CI, em sua experiência histórica, pode ser determinada como um espaço discursivo dos mais remotos e dos mais profícuos de conciliação entre mimese e saber, traduzida, no discurso novecentista do campo, pela aproximação entre as noções de informação (um outro nome do mímema)

e conhecimento. Por vezes, esta conciliação ganha uma análise naturalista – a informação leva ao

conhecimento -, afastada de uma argumentação que é, em sua base, anti-essencialista: aquela que reconhece a mimese como solo desta relação. Nitecky (1995) observou esta aproximação comum no discurso filosófico do campo entre a CI e o conceito de conhecimento, assim como Chaim Zins (2006) apontou como objeto estrutural do campo o mesmo conceito. Logo, muito distante da essência, tratamos aqui das imagens, a partir da (re)produção permanente de metalinguagens. Cumpre-nos, finalmente, estabelecer uma distinção importante: a mimese, para o organizador dos saberes, não é o conhecimento; no entanto, para este organizador, entre os homens, o conhecimento é fundamentalmente potencializado pela relação mimética estabelecida como ferramenta de representação e de educação.

ABSTRACT This paper investigates the concept of mimesis in the knowledge organization’ philosophy in the

ABSTRACT This paper investigates the concept of mimesis in the knowledge organization’ philosophy in the context of Information Science from the philosophical analyses. The argumentation presents the mimesis’s concept in archaic philosophy between Plato e Aristotle. The view point of the article indicates the relevance of the mimesis for the epistemology e the history of Information Science. For the discussion, three approaches are presented: Gutenberg and the press; Otlet and the book; Bush and the Memex. The work concludes with indication of the double signification of mimesis for the knowledge organization: representation and education.

Key-words: Philosophy of Information Science – Epistemology - Philosophy of information – Mimesis

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COMUNICAÇÃO ORAL. RUÍDO, PERTURBAÇÃO E INFORMAÇÃO: NOTAS PARA UMA TEORIA CRÍTICA DOS SISTEMAS AUTOPOIÉTICOS.

COMUNICAÇÃO

ORAL.

RUÍDO, PERTURBAÇÃO E INFORMAÇÃO: NOTAS PARA UMA TEORIA CRÍTICA DOS SISTEMAS AUTOPOIÉTICOS.

Antonio Saturnino Braga

Resumo. Neste artigo, recorremos ao comentário de Dretske sobre a teoria matemática da comunicação para perseguir três objetivos. Primeiro, defender a hipótese de que o conceito de informação oriundo desta teoria pode ser associado a uma interpretação segundo a qual o processo informacional tem caráter circular e envolve três sentidos do conceito complementar de ruído: dado informacionalmente irrelevante, dado incorreto e perturbação. Segundo, defender a hipótese de que, ao ser visto como processo circular, o processo informacional pode ser associado ao conceito luhmanniano de sistemas sociais autopoiéticos. Terceiro, defender a hipótese de que o conceito de perturbação permite encaixar o conceito de autopoiese no quadro lógico-conceitual de uma teoria crítica: no caso, uma teoria crítica dos sistemas informacionais de tendência autopoiética. Palavras-chave: Informação, Ruído, Perturbação, Autopoiese, Teoria Crítica.

Abstract. In this article, I turn to Dretske’s commentary on the mathematical theory of communication to pursue three goals. First, to defend the hypothesis that the concept of information derived from this theory may be associated with an interpretation according to which the informational process is circular and involves three senses of the complementary concept of noise: informationally irrelevant datum, incorrect datum and perturbation. Secondly, to defend the hypothesis that, when seen as a circular process, the informational process can be associated with the luhmannian concept of autopoietic social systems. Thirdly, to support the hypothesis that the concept of perturbation allows to fit the concept of autopoiesis in the logical framework of a critical theory: in this case, a critical theory of the informational systems of autopoietic tendency.

Keywords: Information, Noise, Perturbation, Autopoiesis, Critical Theory.

1 A TEORIA MATEMÁTICA DA COMUNICAÇÃO E O CARÁTER CIRCULAR DO PROCESSO INFORMACIONAL.

No primeiro capítulo de seu livro Knowledge & the Flow of Information (DRETSKE 1981, p.3- 39), Fred Dretske faz uma apresentação bastante elucidativa da teoria matemática da comunicação,

associada ao trabalho pioneiro de Claude Shannon (SHANNON & WEAVER 1949). A característica mais interessante

associada ao trabalho pioneiro de Claude Shannon (SHANNON & WEAVER 1949). A característica mais interessante da exposição de Dretske é o fato de ela ser relativamente independente dos aspectos mais técnicos do trabalho de Shannon, preocupando-se preferencialmente com o esclarecimento das intuições e conceitos fundamentais da teoria da informação a que ele dá origem. Com base na exposição de Dretske, pode-se afirmar que, na teoria matemática da comunicação, informação tem dois sentidos fundamentais, intimamente relacionados: redução da incerteza e ocorrência de uma novidade (Dretske usa o termo “surpresa”, em vez de novidade, mas suas explicações evidenciam claramente que este último termo também pode ser usado. Para nossos propósitos, ele é mais conveniente, e por isso vamos preferi-lo). Para esclarecer essas idéias, recorrerei ao exemplo que o próprio Dretske apresenta. Neste exemplo, o processo informacional é situado no contexto das relações humanas e sociais, e esta característica irá definir esta primeira seção de nosso artigo. Oito empregados encontram-se numa situação em que um deles deve ser selecionado para desempenhar uma desagradável tarefa determinada pelo chefe. Os empregados decidem efetuar a escolha por meio de um procedimento de sorteio do tipo cara ou coroa. Ao final do procedimento, um deles é selecionado, Herman, cujo nome é escrito num memorando imediatamente enviado ao escritório do chefe.

Antes da seleção efetuada pelos funcionários, as oito possibilidades iniciais (oito funcionários podendo ser selecionados) equivaliam a uma certa incerteza; mais precisamente, equivaliam a uma certa quantidade de incerteza (se houvesse inicialmente maior número de possibilidades, a incerteza seria proporcionalmente maior). De modo correspondente, a redução dessas oito possibilidades iniciais à possibilidade efetivamente selecionada (no nosso exemplo, a possibilidade selecionada foi Herman) equivale a uma certa redução da incerteza; mais precisamente, equivale a uma certa quantidade de redução da incerteza (se houvesse inicialmente maior número de possibilidades, a redução da incerteza seria proporcionalmente maior). Por fim, o evento no qual se consubstancia a redução da incerteza (Herman sendo selecionado) representa uma novidade – entendida, nesse caso, em termos essencialmente quantitativos, como um evento que se define pela quantidade de redução de incerteza que ele representa. E a informação é, justamente, a novidade. Tal como apresentada até aqui, a informação ainda não é a indicação de qual foi, exatamente, a possibilidade selecionada; informação é, simplesmente, o fato de que uma possibilidade foi selecionada dentre um conjunto de possibilidades iniciais: trata-se da quantidade de redução de incerteza associada à seleção de uma possibilidade (se a possibilidade realizada tivesse sido Maria em vez de Herman, a quantidade de informação seria a mesma). Do ponto de vista da teoria matemática da comunicação, o passo fundamental consiste na formulação de um procedimento para a determinação dessa quantidade visada no conceito de informação. E o procedimento adotado é o das decisões binárias: a quantidade de redução de incerteza gerada pela seleção de uma possibilidade equivale ao número de decisões binárias envolvidas na redução das possibilidades iniciais à possibilidade efetivamente realizada. No nosso exemplo, teríamos o seguinte processo na fonte de geração da informação. Os oito empregados

(oito possibilidades) inicialmente se dividem em dois grupos de quatro, jogando a moeda para efetuar

(oito possibilidades) inicialmente se dividem em dois grupos de quatro, jogando a moeda para efetuar uma primeira decisão binária. Os quatro empregados restantes se dividem em dois grupos de dois, e, após uma segunda decisão binária, os dois empregados restantes se submetem a uma terceira

e última decisão binária, de modo a finalmente selecionar a novidade na qual se consubstancia a

redução da incerteza. Como o processo envolve três decisões ou escolhas binárias, ele gera três bits de informação: cada decisão binária equivale a um bit de informação (supondo que a cada etapa do processo as possibilidades em jogo são igualmente prováveis). Até agora, limitamo-nos à consideração do que sucedeu na sala dos empregados (situação- fonte), e desconsideramos o fato de que a novidade ali ocorrida pode ser tomada como uma indicação

que vai ser utilizada por um usuário em outra situação, a sala do chefe (situação-recepção). Em outras palavras, desconsideramos o fato de que a informação pode ser considerada como uma indicação de qual foi, precisamente, a possibilidade realizada, a ser utilizada por um usuário (da informação) na situação-recepção. Este aspecto até aqui negligenciado corresponde ao conteúdo semântico da informação. Para ser utilizada por um usuário na situação-recepção, a informação precisa ser transmitida da situação-fonte para a situação-recepção. A teoria matemática da comunicação focaliza este processo de transmissão de um ponto de vista essencialmente quantitativo, concebendo a confiabilidade do mesmo em termos de minimização das perdas na quantidade de informação transmitida da fonte. Mais precisamente, o que caracteriza a teoria em tela é a preocupação com a eficiência no processo de transmissão, sendo que a eficiência nela aparece como uma espécie de combinação e equilíbrio entre a fidelidade e a economia: por um lado, fidelidade ao que ocorreu na situação-fonte, evitando qualquer perda na informação gerada (no vocabulário da teoria, evitando “equivocação”), e, por outro lado, economia nos sinais através dos quais se dá a transmissão à situação-recepção, evitando o que

a teoria chama de redundância. Na teoria matemática da comunicação, a fidelidade à situação-fonte

é elaborada em termos essencialmente quantitativos: se não há perda quantitativa da informação

gerada, ou se a perda é minimizada na maior medida possível, pressupõe-se que a mensagem recebida na situação-recepção seja confiável, ou seja, pressupõe-se que tenha sido preservado o conteúdo informacional do sinal emitido na situação-fonte. Ao conceber a confiabilidade da informação em termos essencialmente quantitativos, a teoria matemática da informação negligencia os aspectos semânticos do processo informacional: em vez de preocupar-se com o significado da mensagem para o usuário na situação-recepção, a teoria visa

a minimização da perda puramente quantitativa da informação gerada na situação-fonte. Pode-se

por outro lado afirmar que, embora negligencie os aspectos semânticos, a teoria matemática não

é incompatível com eles. Ao contrário, o esforço de Dretske consiste justamente em encaminhar a

discussão semântica a partir da visada essencialmente quantitativa da teorização de Shannon. Isso só é possível porque Dretske se enquadra no movimento de naturalização da semântica, que procura depurar os conceitos de significado e verdade de todas as associações com noções irredutivelmente

mentalistas, como representação, razões para crer e justificação (destacando que, neste contexto, mente se opõe

mentalistas, como representação, razões para crer e justificação (destacando que, neste contexto, mente se opõe a cérebro). Entretanto, assim como Dretske recorre a Shannon para desenvolver seu projeto de uma semântica naturalizada, podemos continuar recorrendo a Dretske para desenvolver

a questão da conexão entre o conceito de informação e, por outro lado, aspectos irredutivelmente

semânticos e pragmáticos da dinâmica dos sistemas sociais. O processo informacional constitui-se a partir de duas relações. Em primeiro lugar, a relação entre, por um lado, um conjunto de possibilidades iniciais, e, por outro lado, uma novidade, ou seja, um evento cuja emergência equivale à realização ou seleção de uma dessas possibilidades. Em segundo lugar, a relação entre, por um lado, situação-fonte, como situação na qual emerge ou ocorre a novidade constitutiva do processo informacional, e, por outro lado, situação-recepção, como situação na qual se dá o conhecimento e utilização (assimilação, processamento) dessa novidade, na medida mesmo em que há uma necessidade ou interesse nessa utilização. A partir dessas duas relações, pode- se afirmar que a informação é, essencialmente, indicação de uma novidade para um usuário, ou seja, alguém que vai de algum modo assimilar e utilizar essa novidade. Mas o papel da relação entre situação-fonte e situação-recepção na constituição do processo

informacional vai além dessa conexão (de resto essencial) entre indicação de uma novidade e utilização dessa indicação. Para elaborar esse tópico, precisamos do conceito de ruído; para obtê-lo, retornemos ao exemplo acima referido. No exemplo, o memorando com o nome Herman representa, justamente, uma indicação da novidade ocorrida na situação-fonte, para um usuário, o chefe, que vai utilizar essa indicação nas atividades que lhe são próprias. O memorando representa uma mensagem – outro nome que se dá à informação como indicação a ser utilizada na situação-recepção. Mais precisamente, tomada como mensagem, a informação é a indicação precisa e fiel, na situação-recepção, da novidade ocorrida em outra situação, a situação-fonte. O aparecimento, no escritório do chefe, do memorando com o nome Herman é um evento que deve ser tomado, não tanto como novidade em sentido estrito, mas antes como mensagem, ou seja, indicação precisa e fiel da novidade ocorrida em outra situação,

a situação-fonte. Considerada como mensagem, a informação é tomada como novidade oriunda da

situação-fonte. Suponhamos agora que a pessoa encarregada de levar o memorando até o escritório do chefe perca o envelope no meio do caminho, e resolva proceder por conta própria a outro processo de eliminação de possibilidades, do qual resulta a novidade Maria, que é então codificada em papel timbrado e envelope-padrão que o encarregado de transmissão tinha de reserva. Ora, o aparecimento, no escritório do chefe, do memorando com o nome Maria, pode ser tomado, estritamente, como novidade. Tomado estritamente como novidade, tal evento tem não apenas a mesma quantidade de

informação (quantidade de redução da incerteza) que teria o evento do memorando com o nome Herman, mas a mesma natureza de indicação para um usuário, ou utilizável pelo usuário. Mas o aparecimento, no escritório do chefe, do memorando com o nome Maria, pode ser tomado também como mensagem, ou seja, indicação precisa e fiel da novidade oriunda da sala dos

funcionários. Na verdade, no tipo de processo informacional ilustrado pelo exemplo com que estamos trabalhando,

funcionários. Na verdade, no tipo de processo informacional ilustrado pelo exemplo com que estamos trabalhando, é dessa forma que ele é usualmente tomado. Ora, tomado como mensagem, tal evento é informacionalmente nulo: ele é puro ruído. Ele não carrega nenhuma informação (indicação precisa da possibilidade realizada) sobre a situação-fonte; ele carrega uma indicação sobre a novidade ocorrida numa situação externa à situação-fonte, no caso o canal de transmissão, mas, justamente por isso, ele é puro ruído. O que caracteriza a informação como mensagem é o fato de ela ser dependente e fiel em relação à novidade ocorrida na situação-fonte. De acordo com Dretske (DRETSKE 1981, p.15-16), a mensagem é uma expressão da dependência e fidelidade da situação-recepção em relação à situação-fonte. Para este autor, do ponto de vista das exigências contidas no conceito de mensagem, pode-se afirmar o seguinte. Se há mensagem sobre um determinado tópico, qualquer novidade sobre esse tópico ocorrida na situação- recepção é totalmente dependente e fiel em relação à novidade sobre o mesmo previamente ocorrida na situação-fonte: por um lado, não há na situação-recepção, garantidamente, nenhuma perda da novidade gerada na situação-fonte (não há equivocação); por outro lado, não há na situação-recepção, garantidamente, nenhuma novidade nova, ou seja, independente em relação à novidade previamente gerada na situação-fonte (não há ruído). A ênfase de Dretske recai sobre a dependência da situação-recepção em relação à situação- fonte. Mas algumas observações que ele faz a respeito das noções de equivocação e ruído permitem direcionar seu comentário no sentido de uma ênfase oposta. Nesta elaboração, a informação passa a aparecer, não apenas como novidade para um usuário, mas, antes disso, como novidade possibilitada pelo interesse e foco do usuário situado na situação-recepção – visão que vai além dos comentários de Dretske, para enfatizar uma dependência informacional oposta à que ele enfatiza, a saber, a dependência da situação-fonte (como situação na qual ocorre a geração das novidades para o usuário) em relação à situação-recepção (como situação na qual se dá não apenas o uso das informações pelo usuário, mas, antes disso, o foco e interesse do usuário). Nesta elaboração, o processo informacional passa a aparecer como um processo essencialmente circular: a partir da focalização efetuada pelo usuário na situação-recepção, geram-se na situação-fonte as novidades que podem ser assimiladas e usadas pelo mesmo usuário na situação-recepção. Nessa elaboração por assim dizer não-dretskiana dos comentários de Dretske sobre a teoria matemática da informação, o conceito de ruído vai ganhar outros sentidos, relativamente distantes do sentido original, mas que terão grande importância na seqüência deste trabalho. Comecemos com algumas observações que o próprio Dretske faz a respeito das noções de equivocação e ruído (DRETSKE 1981, p.19-21). Ele admite que muitas informações (eventos que equivalem a “eliminação de possibilidades”, e que nesse sentido equivalem a novidades) geradas na situação-fonte podem não chegar à situação-recepção, sem que isso implique equivocação no sentido mais estrito do termo. Por exemplo, o lugar e posição que cada um dos funcionários assume na sala dos funcionários no momento do processo de seleção – eventos na situação-fonte – podem tecnicamente ser tomados

como novidades (havia possibilidades alternativas, cada um deles poderia ter assumido lugares e/ou posições diferentes,

como novidades (havia possibilidades alternativas, cada um deles poderia ter assumido lugares e/ou posições diferentes, e por isso o lugar e posição efetivamente assumidos por cada um deles representam eliminação de possibilidades, ou seja, novidade). Essas novidades não são sinalizadas no memorando com o nome do funcionário selecionado; essas novidades, portanto, não chegam à situação-recepção, elas são informação perdida, ou seja, no sentido amplo do termo elas constituem equivocação. Mas este sentido amplo distingue-se do sentido mais estrito do termo, segundo o qual equivocação consiste em perda apenas daquela informação que se liga ao ponto focalizado no processo informacional, a qual pode ser chamada de informação relevante – a equivocação relevante é, então, a informação relevante que é perdida. Do mesmo modo, há muitas novidades ocorridas na situação-recepção que não são oriundas ou dependentes dos eventos ocorridos na situação-fonte, mas que nem por isso constituem ruído no sentido mais estrito do termo. Por exemplo, o lugar da sala do chefe (situação-recepção) em que o encarregado da transmissão coloca o memorando é uma novidade, pois havia várias possibilidades alternativas, e o evento de ele colocar o envelope em um determinado lugar equivale à realização de uma determinada possibilidade dentre um conjunto de possibilidades iniciais. Esta novidade na situação-recepção não é oriunda nem dependente dos eventos ocorridos na situação-fonte; ou seja, no sentido amplo do termo ela é mero ruído. Mas este sentido amplo distingue-se do sentido mais estrito do termo, segundo o qual ruído – o ruído relevante – consiste apenas naquela informação independente que se liga ao ponto focalizado no processo informacional. As observações de Dretske levam então à seguinte constatação. É a focalização efetuada pelo usuário na situação-recepção que permite distinguir a informação relevante da irrelevante; é essa operação de focalização, conseqüentemente, que permite distinguir a equivocação relevante da irrelevante, assim como o ruído relevante do irrelevante. Mas tais observações ainda podem ser radicalizadas, levando nesse caso às seguintes afirmações. O que a focalização do usuário permite não é apenas a distinção entre informação relevante e irrelevante, mas, mais radicalmente, a própria identificação da informação como dado operacionalmente utilizável no processo informacional. No limite, a informação irrelevante é informação potencial mas inidentificável, indisponível, inutilizável. Com efeito, sem a focalização do usuário a situação-fonte retrocede à dimensão de continuum caótico de infinitas possibilidades, no qual não é possível identificar qualquer conjunto de possibilidades iniciais, nem, conseqüentemente, qualquer evento realizador de uma possibilidade identificada, ou seja, qualquer evento redutor de incerteza – em outras palavras, nesse continuum não é possível identificar qualquer novidade, qualquer informação. Cabem aqui as observações feitas por Floridi sobre a noção de entropia informacional (FLORIDI 2005, p.22-25). Na teoria matemática da comunicação, a entropia informacional designa a quantidade de incerteza própria da situação-fonte, que representa ao mesmo tempo o potencial informacional presente na situação-fonte. Maior entropia equivale a maior incerteza na situação-fonte, equivale, portanto, a maior potencial informacional nessa situação. Mas a entropia máxima corresponde ao

continuum caótico das infinitas possibilidades, no qual a incerteza é tão grande que qualquer evento

continuum caótico das infinitas possibilidades, no qual a incerteza é tão grande que qualquer evento

redutor da incerteza se torna inidentificável. Nesse caso, embora a informação potencial seja máxima,

a informação é indisponível, inutilizável.

E aqui podemos introduzir um novo conceito de ruído. No continuum caótico de infinitas

possibilidades, embora a informação potencial seja máxima, só há ruído, no sentido de informação operacionalmente indisponível e inutilizável. A transformação da informação potencial em informação disponível e utilizável exige uma operação de observação que, ao focalizar e com isso constituir um âmbito de possibilidades relevantes, permite identificar eventos realizadores de possibilidades

relevantes, ou seja, permite identificar novidades, informações – como dito acima, o adjetivo relevante aposto à informação é em última instância redundante, porque a informação irrelevante em última instância ainda não é informação, quer dizer, ainda não é informação disponível e utilizável, mas é mero potencial informacional, mero ruído (no segundo sentido de ruído).

O elemento gerado pela operação de focalização do usuário pode também ser intitulado de

quadro de expectativas, equivalendo a um quadro das possibilidades relevantes. É somente nesse quadro que a incerteza se torna solo da informação utilizável. Sem esse quadro de expectativas, ou fora dele, só há ruído, mero potencial informacional, que ainda não é informação. Suponhamos que haja um grão de poeira colado ao memorando que chega ao escritório do chefe. No processo informacional que estamos focalizando, este dado representa uma informação inidentificável, ou seja, uma informação absolutamente alheia ao quadro de expectativas constitutivo do processo. E aqui importa distinguir duas dimensões da operação de identificação da informação. A primeira é a dimensão física: nos processos informacionais propriamente humanos, esta dimensão é constituída pelas capacidades sensoriais dos homens, eventualmente amplificadas por instrumentos como lentes, microscópios, etc. Nesta primeira dimensão, o grão de poeira é identificável – talvez seja preciso uma poderosa lente, mas, se o quadro de expectativas incluir a possibilidade de um grão de poeira colado ao envelope (podemos pensar no quadro de expectativas de um detetive), esta necessidade em princípio não impede a identificação da informação. A segunda dimensão refere-se, justamente, ao quadro de expectativas: mesmo que se trate de uma mancha de tinta facilmente identificável do ponto

de vista físico, se o quadro de expectativas não incluir essa possibilidade, a mancha permanece sendo, do ponto de vista informacional, uma informação não identificada: um dado fisicamente identificado, mas informacionalmente inutilizável e, nesse sentido, inidentificável como informação. Assim,

a informação propriamente dita, quer dizer, a informação disponível e utilizável, entendida como

nutriente de que se sustenta o processo informacional, sempre se situa entre o ruído (mero potencial informacional, anterior a qualquer operação de focalização) e, por outro lado, a uniformidade, que ocorre quando o quadro de expectativas se estreita tanto que chega a abolir a incerteza (o “podia ser diferente”), sem a qual não há informação. Distinguimos acima dois sentidos de ruído. O ruído apareceu, em primeiro lugar, como dado relevante que não é oriundo ou dependente da fonte informacionalmente estruturada pela focalização

do usuário na situação-recepção. Neste primeiro sentido, o ruído é o dado incorreto, enganador. Exemplo

do usuário na situação-recepção. Neste primeiro sentido, o ruído é o dado incorreto, enganador. Exemplo desse tipo de ruído é a novidade “Maria” (memorando com o nome Maria) oriunda da pessoa encarregada da transmissão – em vez de oriunda da sala dos funcionários como situação-fonte. A preocupação com a correção ou incorreção dos dados situa-se na dimensão semântica do processo informacional: até que ponto os dados recebidos correspondem fielmente às informações geradas na fonte? Em outras palavras, até que ponto os dados recebidos respondem corretamente à pergunta embutida no quadro de expectativas do usuário da informação? Ruído apareceu, em segundo lugar, como mero potencial informacional, quer dizer, informação

potencial mas inidentificável, indisponível, inutilizável. Nesse sentido, ruído é aquilo que Floridi chama de “dedomena” (dado em grego. Ver FLORIDI 2005, p.6-7): dados informacionalmente inidentificáveis e inacessíveis, por serem anteriores à focalização constitutiva do processo informacional (operação que Floridi elabora sob o conceito de “nível de abstração”. Ver FLORIDI 2005, p.7 e p.27-28). Ilustração desse tipo de ruído é o grão de poeira colado ao memorando que chega à sala do chefe. Neste segundo sentido, por designar uma informação meramente potencial, a noção de ruído é independente da questão da origem, e também da correção ou incorreção. Somente

a partir da focalização do detetive, que transforma esse evento (o grão de poeira que podia não estar

lá), transplantando-o da categoria de informação meramente potencial para a categoria de informação disponível e utilizável, pode surgir a questão sobre a origem dessa novidade – é ela mensagem da

situação-fonte estruturada pela focalização do detetive, ou mero ruído (no primeiro sentido)? Equivale ela a um dado correto e confiável ou a um dado enganador (ruído no primeiro sentido)? Imaginemos agora um outro evento. No memorando que chega ao escritório do chefe, abaixo do nome Herman, aparece a seguinte frase: “repudiamos essa tarefa e esse procedimento da empresa”. É fácil perceber a diferença entre este dado e, por outro lado, o dado Herman inscrito no memorando

– ou mesmo o dado (enganador) Maria. Neste último caso, tanto o dado correto quanto o incorreto se

encaixam perfeitamente no quadro de expectativas do usuário da informação. No caso da frase, em contrapartida, o dado recebido é relativamente alheio ao quadro de expectativas; - mas só relativamente, uma vez que, se o compararmos à mancha de tinta no envelope do memorando, perceberemos que a frase não é tão alheia ao quadro quanto a mancha o é. E aqui podemos introduzir um terceiro sentido de ruído. Se a mancha é ruído no sentido de dado informacionalmente inidentificável e, portanto, irrelevante; se o nome Maria é ruído no sentido de dado incorreto, ou seja, dado que não responde corretamente à pergunta embutida no quadro de expectativas do usuário da informação, a frase acima imaginada é ruído no sentido de dado que, apesar de relativamente alheio ao quadro de expectativas do usuário da informação, é ainda assim relevante para o mesmo – trata-se de um dado perturbador,

uma “perturbação”, usando este termo para indicar um meio-termo entre o dado irrelevante e, por outro lado, a informação como dado que, por encaixar-se perfeitamente no quadro de expectativas constitutivo do processo informacional, é imediatamente utilizável nas operações próprias do mesmo. É importante destacar que se trata aqui de um sentido distinto daquele que o termo “perturbação”

exibe na teoria dos sistemas autopoiéticos, na qual, usado como sinônimo de “irritação” (LUHMANN 1995,

exibe na teoria dos sistemas autopoiéticos, na qual, usado como sinônimo de “irritação” (LUHMANN 1995, p.138; MATURANA & VARELA 1984, p.107-116), tende a ser identificado à informação em sentido estrito. A justificativa para este uso será apresentada mais à frente. Enquanto o dado enganador é um ruído que se situa na dimensão semântica do processo informacional, a perturbação representa uma forma de ruído que se situa na dimensão pragmática do mesmo. No caso da perturbação, o que está em jogo não é o significado unívoco que o dado ganha a partir do quadro de expectativas que o usuário aplica à realidade em sentido amplo, mas a interpretação que se deve dar a um dado que perturba o quadro de expectativas do usuário, e que diz respeito, não à relação do usuário com a realidade por ele interpelada, mas à sua relação com outros sujeitos, outros quadros de expectativa, outros processos e sistemas informacionais (sobre a crescente importância que a dimensão pragmática tem adquirido nos estudos da informação, ver CAPURRO & HJORLAND 2003).

2 A PERTURBAÇÃO E OS SISTEMAS INFORMACIONAIS DE TENDÊNCIA AUTOPOIÉTICA.

A partir do que foi visto na seção 1, pode-se afirmar o seguinte. Embora a informação por um lado consista na seleção de uma possibilidade, ela por outro lado só existe, pelo menos quando considerada como informação relevante, a partir de uma seleção prévia, anterior à seleção que propriamente a constitui como novidade, que é a seleção do âmbito das possibilidades relevantes.

Trata-se de proceder, no continuum caótico das infinitas possibilidades, a uma seleção e focalização do âmbito das possibilidades relevantes. Assim, o que origina e caracteriza qualquer processo ou sistema informacional é um ato primordial de diferenciação: no continuum caótico das infinitas possibilidades, estabelece-se uma distinção entre o âmbito das possibilidades relevantes e, por outro lado, o restante das possibilidades, que constituem o espaço dos dados informacionalmente irrelevantes. Nesta segunda seção do trabalho, tentaremos relacionar este ato primordial de diferenciação ao quadro conceitual da teoria dos sistemas autopoiéticos, tal como exposta nos trabalhos de Maturana

e

Varela (MATURANA & VARELA 1984) e, principalmente, Niklas Luhmann (LUHMANN 1984

e

LUHMANN 1995). Mais precisamente, tentaremos elaborar uma conexão lógico-conceitual entre

teoria da informação, tal como exposta na primeira seção, e a teoria dos sistemas autopoiéticos, tal como exposta nos trabalhos desses autores, principalmente Luhmann. Na verdade, ao contrário do que ocorre em Maturana e Varela, em Luhmann tal conexão é explicitamente afirmada em diversas passagens da obra (ver, por exemplo, LUHMANN 1984, p.67-68 e LUHMANN 1995, p.140-142); o

a

que tentaremos fazer é, simplesmente, aproveitar os resultados obtidos na seção anterior para traduzir

a conexão afirmada por Luhmann. Por outro lado, com relação às críticas de Maturana e Varela ao conceito de informação (ver, por exemplo, MATURANA & VARELA 1984, pp. 188 e 218), pode-se afirmar o seguinte. Tais

críticas decorrem de uma interpretação representacionista da informação, segundo a qual informação equivaleria a

críticas decorrem de uma interpretação representacionista da informação, segundo a qual informação equivaleria a uma instrução externa que se impõe ao receptor (passivo), determinando as respostas que ocorrerão neste, ou seja, (in)formando-o e modelando-o. Trata-se de uma interpretação que não leva em conta o caráter circular do processo informacional. Se se leva em consideração este caráter circular, o conceito de informação se ajusta perfeitamente ao projeto geral de Maturana e Varela (ver MATURANA & VARELA 1984, p. 146-154): elaborar uma terceira via entre o representacionismo (formação/modelagem do receptor por instruções oriundas e dependentes apenas do ambiente externo) e o solipsismo (total independência das respostas do receptor em relação a qualquer entidade externa). Com efeito, conforme se esclarecerá logo a seguir, o caráter circular do processo informacional revela justamente que, embora as atividades de autoprodução que ocorrem no sistema autopoiético (tomado como situação-recepção) sejam dependentes das novidades ocorridas no seu ambiente (descartando assim o solipsismo), tais novidades são por outro lado dependentes de operações de observação e focalização efetuadas pelo próprio sistema, através das quais eventos meramente externos são transformados em eventos operativamente utilizáveis na dinâmica autopoiética do sistema (descartando assim o representacionismo). Com relação à estrutura e limites da nossa argumentação, é importante enfatizar o seguinte. Tendo em vista nossos propósitos, não começaremos com a definição de autopoiese apresentada pelos autores com que iremos trabalhar, nem a discutiremos no restante do artigo. Partiremos de uma noção bastante vaga e genérica, segundo a qual autopoiese é a autoprodução de certos tipos de sistema, e tentaremos fazer com que o conteúdo e sentido dessa noção venham à tona a partir da elaboração dos conceitos e intuições da teoria da informação apresentados na seção anterior. Tampouco abordaremos as diferenças entre os três tipos de sistemas autopoiéticos que Luhmann admite, a saber, sistemas biológicos, sistemas psíquicos e sistemas sociais (para uma boa apresentação dessa questão e da teoria de Luhmann em geral, ver MOELLER 2006 e SEIDL 2005). No presente artigo, trata-se apenas de apresentar um quadro geral do conceito de autopoiese, em associação com os conceitos e intuições da teoria da informação apresentados na seção anterior. O quadro geral faz abstração das especificid