Sei sulla pagina 1di 4

É hora de refletir sobre o futuro da Medicina Dentária em Portugal

12.Outubro.2011

o futuro da Medicina Dentária em Portugal 12.Outubro.2011 Afonso Pinhão Ferreira Professor Catedrático da U. Porto

Afonso Pinhão Ferreira

Professor Catedrático da U. Porto e Diretor da FMDUP

Em jeito de avaliação, devo dizer que o percurso da medicina dentária nos derradeiros trinta de cinco anos pode ser considerado globalmente positivo, apesar de, pessoalmente, considerar que nem tudo tenha sido no sentido do progresso.

A pretérita Escola Superior de Medicina Dentária do Porto (1976-1989), agora Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto (desde 1989) foi, na realidade, o embrião da formação pedagógica e cientificamente estruturada do nosso mister. Enquanto estudante, tive a fortuna de ter pertencido a um dos primeiros cursos, o que aliado à minha vivência socioprofissional nos campos clínico, pedagógico e científico, me permite ter hoje uma visão abrangente da medicina dentária desde o seu nascimento até à atualidade.

Classifico a evolução da medicina dentária em três fases distintas, que identifico e qualifico como:

das

Escolas Superiores de Medicina Dentária do Porto e de Lisboa em 1976 até cerca de 1986, altura em que a afirmação profissional dos novos médicos dentistas se fez sentir na sociedade, com a cada vez mais pública qualificação dos serviços promotores da saúde oral, naquela época notoriamente exíguos e desadequados à realidade social. Os médicos dentistas detinham já uma educação talhada de feição europeísta em moldes mais modernos, com ensino básico e clínico vocacionado de raiz e pedagogicamente preparado para a prevenção, para a terapêutica e para a reabilitação oral;

a fase

formativa

e

profissionalizante que

ocorreu

desde

a

fundação

posteriormente sucedeu um novo período, não menos importante que aquele, que denomino por fase curricular e académica, a qual decorreu entre 1986 e 1996, onde, numa sequência lógica, os responsáveis diretos pelo ensino da profissão e muitos dos bem sucedidos médicos dentistas assumiram o academismo como parte integrante do desenvolvimento socioprofissional. Foi a integração das Escolas Superiores nas Universidades, o objetivar de carreiras universitárias, os consequentes doutoramentos, o resultante preenchimento de vagas, enfim, a competitividade geradora de ganhadores de prestígio na classe. De tal forma e com tal intensidade se concretizou esta mudança, que, em muito pouco tempo, não restavam vagas para tantos notáveis, o que se tornou de todo em todo inaceitável. Foi então que este facto, aliado a um conjunto de argumentações que as circunstâncias e não só, fizeram questão de conjugar e enumerar com oportunidade, levaram à proliferação excessiva de locais de ensino da medicina dentária, a maior parte delas com corpos docentes verdadeiramente duvidosos do ponto de vista da qualidade. Dentro dessas argumentações poderia citar a então gritante falta de médicos dentistas no mercado de trabalho, a dificuldade sentida pelos jovens para cursar nas faculdades de medicina, a afirmação proliferativa do ensino privado no desregrado mercado livre, o facto de ser mais fácil usufruir do título de professor do que a sujeição à incomodidade das provas públicas da carreira académica, o aceitar inequívoco que prevalece a letra "money makes the world go around" sobre qualquer atitude prudente da mais que previsível pletora.

por fim surge entre 1996 e 2006, a fase da especialização, onde o ensino superior público em primeiro lugar e o privado bem depois, disponibilizaram formação pós-graduada, inicialmente como consequência, tão imaginável quanto coerente, do aumento da massa curricular dos corpos docentes, mas também e um pouco depois, como forma de amenizar o cada vez mais precário ensino pré-graduado com a diminuição exponencial do ratio docente/discente pelo excesso de estudantes (diga-se income financeiro). Paralelamente a Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) oficializa as especialidades de Ortodontia e Cirurgia Oral em 1999. Na verdade, a afirmação do ensino pós-graduado nos estabelecimentos de ensino superior e a oficialização das especialidades médico dentárias pela OMD possibilitou ao médico dentista um aporte adicional formativo, minorar uma eventual deficiente formação, acentuar uma diferenciação curricular no mercado de trabalho, responder às diversas necessidades de tratamento, tendo em conta o grau de educação e a capacidade financeira dos diversos estratos sociais e obter saídas profissionais, nomeadamente no ensino.

para finalizar, é importante afirmar que de 2006 para cá deixou de haver uma fase que se possa sequer classificar. A medicina dentária vive o seu pior momento, com excesso de instituições formativas e demasiados cursos de saúde oral. Ao futuro médico dentista, após ter feito um curso de preparação para cursar outros cursos, sobra a ameaça do desemprego e o futuro sem amanhã. Com efeito, a tutela não assumiu nem assume a necessidade de intervir na construção de mecanismos de controlo do desmedido descontrolo do mercado livre, nomeadamente no que concerne ao excesso de oferta de ensino. De facto, o curso de medicina dentária caracteriza-se, entre outras coisas, como uma formação eminentemente técnica e com especificidades muito próprias, o que lhe confere uma feição redutora em termos de ocupação laboral na sociedade. Os dirigentes e responsáveis deveriam ter garantido o controlo do número de profissionais para que a procura de serviços promotores de saúde oral fosse sempre superior relativamente à oferta de quem os presta. Na minha opinião, não deveriam ter autorizado a abertura sistemática de novos

estabelecimentos de ensino, geradora de desempregados e de cidadãos infelizes, sem a possibilidade de trabalhar na área em que se formaram. Acerca desta problemática, a grande pluralidade dos intervenientes na atividade institucional e educativa, reconhece a existência de desmedidos locais de ensino e de cursos atinentes à saúde oral, de excessivos formandos e, por consequência, um fruto incomestível, o qual se traduz num ensino de paladar amargo. É sabido que sempre critiquei de forma ininterrupta a abertura de mais escolas, nunca pactuei com tal conjuntura e que sempre tive essa conceção. Aliás, denunciei-a incansavelmente e, mais presentemente, contrariando inclusivamente o "Contrato-programa do MCTES com a U. Porto", bem como a própria legislação relativa ao ensino universitário público concernente às áreas de saúde, propus para o próximo ano letivo uma redução de vagas para o primeiro ano. Irónico é verificar como pessoas que ocuparam lugares de alto-relevo político na profissão advoguem agora as guerras e as cautelas, as discórdias e as prudências que o conforto do poder não aconselhou no devido tempo ("em política lembre-se o que convém e esqueça- se o que já não interessa"). Estrategicamente não tomaram as decisões incómodas quando lhes competia, para agora as sugerirem, em conselhos que ninguém encomendou e cuja oportunidade é censurável no plano ético.

Torna-se então imperativo aos atuais líderes e gestores da classe assumir, de uma vez por todas, posições inequívocas de salvaguarda da qualidade e do prestígio da medicina dentária e dos seus diretos profissionais, atuais e futuros. Malogradamente, penso que essas posições, para serem deveras eficazes, necessitam assumir-se como ações a curto prazo e deveriam obedecer às seguintes diretrizes:

1. Assumir o problema do excesso de oferta no ensino médico dentário como grave dificuldade com abrangência nacional;

2. Criar as condições à concertação para a implementação das ações reguladoras do ensino da saúde oral:

a. O que, dado o previsível choque de interesses entre os setores público e privado, é aconselhável ser ora da OMD;

b. Elaboração de documento para conhecimento da situação atual, relativamente ao número de estabelecimento de ensino, número de possíveis formandos, número de desempregados, cálculo do número de médicos dentistas em situação de trabalho precário e a laborar no

estrangeiro, etc.

c. Criar uma lista de assuntos a debater (eventuais ações a implementar):

i.

Encerramento de faculdades e/ou institutos de medicina dentária;

ii.

Aproveitamento físico em termos de rentabilização das estruturas clínicas das instituições fechadas ao ensino;

iii.

Aplicação de numerus clausus;

iv.

Adequação de todos os cursos às necessidades atuais do mercado de trabalho;

v.

Racionalização das especialidades médico dentárias;

vi.

Regulação da oferta formativa exterior aos estabelecimentos de

vii.

ensino superior; Cronograma.

3. Organização de um Fórum sobre o problema, exigindo a participação do Secretário de Estado do Ensino Superior, do Bastonário da OMD, Diretores de

todas as Instituições de Ensino Superior Públicas e Privadas da Medicina Dentária.

4.

A confeção de um documento final, estratégico e objetivado entre a Ordem dos Médicos Dentistas, o Governo de Portugal e todas as instituições de ensino público e privado;

5. Divulgação do documento perante a classe médico dentária;

6. Cumprimento das ações delineadas com a supervisão de uma Comissão nomeada pelo Governo.

Na certeza das dificuldades, mas na esperança que as reflexões não caiam em saco roto,

O Diretor da FMDUP,

Afonso Pinhão Ferreira