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PDL Projeto Democratização da Leitura

PDL – Projeto Democratização da Leitura Apresenta:
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PDL – Projeto Democratização da Leitura CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Bellairs, John, -1991 A carta, a bruxa e o anel / John Bellairs; tradução de Alves Calado; ilustrações de Ana Maria Moura. -2* ed. - Rio de Janeiro: Record, 2006. il.; Tradução de: The letter, the witch and the ring ISBN 85-01-06076-3 1. Literatura infanto-juvenil. I. Alves-Calado, Ivanir, 1953- . II. Moura, Ana Maria. III. Título. CDD - 028.5 CDU - 087.5

Título original em inglês:

THE LETTER, THE WITCH AND THE RING

Copyright © John Bellairs, 1976 Publicado em acordo com o autor, a/c BAROR INTERNATIONAL, INC., Armonk, New York, USA. Ilustrações de Ana Maria Moura

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, no todo ou em parte, através de quaisquer meios sem a prévia autorização por escrito da editora.

Direitos exclusivos desta tradução reservados pela EDITORA RECORD LTDA. Rua Argentina, 171 - Rio de Janeiro, RJ - 20921-380 - Tel.: 2585-2000 que se reserva a propriedade literária desta tradução Impresso no Brasil ISBN 85-01-06076-3 PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL Caixa Postal 23.052 Rio de Janeiro, RJ - 20922-970

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Para meu filho Frank

PDL – Projeto Democratização da Leitura Para meu filho Frank

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO UM — Não, não, não,
John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO UM — Não, não, não,

CAPÍTULO UM

Não, não, não, NÃO! Eu não vou usar esse uniforme idiota!

Rose Rita Pottinger estava parada no meio do quarto. Vestia apenas a roupa de baixo, olhando

furiosa para a mãe, que segurava nos braços um uniforme de escoteira recém-passado.

Bom, então o que eu vou fazer com isso? - perguntou a Sra. Pottinger, cansada.

Jogue fora! - gritou Rose Rita. Em seguida arrancou o uniforme das mãos da mãe e jogou no

chão. Agora seus olhos estavam cheios de lágrimas. O rosto parecia quente e vermelho. Leve isso e

vista em algum espantalho! Estou dizendo de uma vez por todas, mamãe, eu não vou ser escoteira, e não

vou ao Acampamento Kitch-itti-Kippi neste verão assar marshmallows e cantar cantiguinhas alegres, vou

passar toda essa porcaria de verão jogando uma bola de tênis na parede do lado de fora da casa até ficar

tão enjoada e

tão enjoada e

- Rose Rita desmoronou. Pôs as mãos no rosto e chorou.

A Sra. Pottinger passou o braço em volta de Rose Rita e a ajudou a sentar-se na cama.

Pronto, pronto - disse ela, dando tapinhas no ombro da filha. Não é tão ruim assim

Rose Rita tirou as mãos do rosto. Arrancou os óculos e ficou olhando lacrimosa para a mãe.

Ah, é sim, mamãe. É muito pior do que parece. É medonho! Eu queria passar o verão com

Lewis e me divertir, e agora ele vai para aquele acampamento de escoteiros idiota. Vai ficar lá até as aulas

começarem de novo, e eu estou presa aqui nesta cidade idiota sem nada para fazer e sem ninguém com

quem me divertir.

A Sra. Pottinger suspirou.

Bom, talvez você arranje outro namorado.

Rose Rita pôs os óculos de novo e lançou um olhar maligno para a mãe.

Mamãe, quantas vezes tenho de dizer? Lewis não é meu namorado, ele é meu melhor amigo, como

Marie Gallagher era antigamente. Não sei por que tem de ser diferente só porque ele é um garoto e eu

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

sou uma garota.

A Sra. Pottinger deu um sorriso paciente.

sou uma garota. A Sra. Pottinger deu um sorriso paciente. — Bom, minha querida, é diferente,

Bom, minha querida, é diferente, e essa é uma coisa que você precisa entender. Agora Lewis

está com doze anos, e você com treze. Nós duas teremos uma conversinha sobre isso. Rose Rita se virou para o outro lado e ficou olhando uma mosca que zumbia na tela da janela.

Ah, mamãe, eu não quero ter uma conversinha. Pelo menos não agora. Só quero que a senhora me deixe em paz.

A Sra. Pottinger encolheu os ombros e se levantou.

Muito bem. Como quiser. A propósito, o que você vai dar ao Lewis como presente de

despedida?

Eu comprei um genuíno Kit de Fogueira Oficial dos Escoteiros disse Rose Rita, carrancuda.

E sabe de uma coisa? Espero que ele ponha fogo no corpo e tenha queimaduras de terceiro grau.

Ora, Rose Rita. Você sabe muito bem que não quer nada disso.

Não quero, é? Bom, deixe-me dizer uma coisa, mamãe

Vejo você mais tarde, Rose Rita - interrompeu a mãe. A Sra. Pottinger não queria outro dos ataques de mau humor da filha. Tinha medo de ela própria perder as estribeiras.

A Sra. Pottinger se levantou e saiu do quarto, fechando a porta. Rose Rita ficou sozinha. Jogou-se

na cama e chorou. Chorou um bom tempo, mas em vez de se sentir melhor depois de chorar, sentiu-se pior. Levantou-se e olhou o quarto em volta, procurando algo que pudesse animá-la. Talvez pudesse pegar seu bastão e uma bola e ir até o campo de atletismo, treinar um pouco. Isso geralmente fazia com que ela se

sentisse melhor. Abriu a porta do armário e imediatamente sentiu outra onda de tristeza. Ali, pendurado, abandonado num prego, estava seu gorro preto. Tinha usado o gorro durante anos, mas agora ele parecia idiota. Durante meio ano o gorro preto estivera pendurado no armário, juntando poeira. Agora, por algum motivo, a visão fez Rose Rita irromper em lágrimas de novo.

O que havia de errado com ela? Daria tudo para saber. Talvez tivesse algo a ver com os treze anos.

Agora era uma adolescente, e não mais uma criança. No outono seguinte entraria na sétima série. A sétima e a oitava série eram os últimos anos do ensino fundamental. A garotada destas séries estudavam num edifício de pedra preta perto da escola de ensino médio. Eles tinham armários nos corredores como a garotada do ensino médio, e até mesmo tinham um ginásio de esportes onde faziam bailes nos sábados à noite. Mas Rose Rita não queria ir aos bailes. Não queria namorar - nem com Lewis nem com ninguém. Só queria continuar sendo uma menina. Queria jogar beisebol, subir em árvores e construir miniaturas de navios com Lewis. Tinha tanta vontade de ir para a sétima série quanto de ir ao dentista.

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Rose Rita fechou a porta do

Rose Rita fechou a porta do armário e se virou para o outro lado. Ao fazer isso, por acaso se viu no espelho. Viu uma garota alta, magra e sem graça, com cabelo preto liso e óculos. Eu deveria ter nascido homem, pensou. Os garotos sem graça não tinham tantos problemas quanto as garotas sem graça. Além disso os garotos podiam ir aos acampamentos de escoteiros, e as garotas não. Os garotos podiam se juntar para jogar bola e ninguém achava estranho. Os garotos não tinham de usar meias de náilon, saias pregueadas e blusas engomadas na igreja aos domingos. Na visão de Rose Rita, os garotos é que viviam. Mas ela havia nascido menina, e não tinha muito o que fazer a respeito. Foi até o aquário e deu comida ao peixe dourado. Começou a assobiar e dançou um pouco pelo quarto. Do lado de fora fazia um dia lindo. O sol estava luminoso. Pessoas molhavam os gramados e crianças andavam de bicicleta. Talvez, se não pensasse nos seus problemas, eles fossem embora. Talvez acabasse sendo um bom verão, afinal de contas. Naquela noite Rose Rita foi à festa de despedida de Lewis. Na verdade não queria ir, mas achou que precisava. Lewis ainda era seu melhor amigo, mesmo que a estivesse deixando na mão ao ir para o acampamento, e ela não queria magoá-lo. Lewis morava numa casa grande na rua Alta. Morava com seu tio Jonathan, que era um feiticeiro. E a vizinha, a Sra. Zimmermann, era uma feiticeira. Jonathan e a Sra. Zimmermann não andavam por aí com mantos pretos e balançando varas mágicas, mas sabiam fazer magia. Rose Rita achava que a Sra. Zimmermann conhecia mais magia do que Jonathan, mas ela não ficava se mostrando tanto. A festa daquela noite acabou sendo tão divertida que Rose Rita esqueceu os problemas. Até esqueceu que deveria estar furiosa com Lewis. A Sra. Zimmermann ensinou a Lewis e Rose Rita dois novos jogos de cartas (Klaberjass e besigue, o jogo favorito de Winston Churchill) e Jonathan fez uma de suas ilusões mágicas, levando todo mundo a pensar que estava andando no fundo do Atlântico vestido com escafandros. Visitaram alguns galeões afundados e os destroços do Titanic, e até mesmo viram uma briga de polvos. Depois o show terminou, e estava na hora da limonada com biscoitos de chocolate. Todo mundo foi para a varanda da frente, comeu, bebeu, brincou no balanço, riu e falou até bem tarde. Depois da festa, por volta da meia-noite, Rose Rita estava sentada na cozinha da Sra. Zimmermann. Ia passar a noite na casa dela, uma coisa que sempre gostava de fazer. A Sra. Zimmermann era como uma segunda mãe. Rose Rita sentia-se capaz de conversar sobre praticamente tudo com ela. Agora estava sentada à mesa da cozinha, comendo o último biscoito de chocolate e olhando a Sra. Zimmermann diante do fogão, vestida com a camisola de verão, roxa. Estava esquentando um pouco de leite numa panelinha. A Sra. Zimmermann sempre bebia leite quente para se acalmar depois das festas. Odiava o gosto daquilo, mas era o único modo de conseguir dormir.

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel — Tremenda festa, hein, Rosie? -
John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel — Tremenda festa, hein, Rosie? -

Tremenda festa, hein, Rosie? - disse ela, mexendo o leite.

É. Foi sim.

Você sabe - disse a Sra. Zimmermann lentamente. Eu nem queria que houvesse uma festa. Rose Rita ficou espantada.

Não queria?

Não. Estava com medo de que você ficasse magoada. Quero dizer, ainda mais do que já

estava

porque Lewis a abandonou.

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Rose Rita não tinha contado à

Rose Rita não tinha contado à Sra. Zimmermann como se sentia com a ida de Lewis. Estava espantada ao ver como ela a entendia. Talvez por ser uma feiticeira.

A Sra. Zimmermann testou a temperatura do leite com o dedo. Depois pôs numa caneca decorada

com florezinhas roxas. Sentou-se diante de Rose Rita e tomou um gole.

Argh! - disse a Sra. Zimmermann, fazendo careta. Acho que da próxima vez vou tomar um

sonífero. Mas voltando ao que estávamos falando. Você está bem chateada com o Lewis, não é? Rose Rita olhou para a mesa.

É, claro que estou. Se eu não gostasse tanto da senhora e do tio Jonathan, acho que não teria

vindo.

A Sra. Zimmermann deu um risinho.

Não parecia que você e ele estavam às mil maravilhas esta noite. Você tem alguma idéia do

motivo de ele estar indo ao acampamento? Rose Rita mastigou o biscoito e pensou.

Bom - disse por fim, acho que ele está cansado de ficar comigo, por isso quer ser um grande

escoteiro, ou coisa do tipo.

Você só está certa pela metade. Isto é, ele quer ser escoteiro. Mas não está cansado de ser seu

amigo. Acho que Lewis gostaria muito de que você pudesse ir ao acampamento com ele. Rose Rita piscou para afastar as lágrimas.

É mesmo?

A Sra. Zimmermann confirmou com a cabeça.

É, e vou lhe dizer outra coisa. Ele mal pode esperar para voltar e contar todas as coisas fantásticas que aprendeu a fazer. Rose Rita ficou confusa.

Não entendo. Tudo parece confuso. Ele gosta de mim, e por isso vai embora para poder contar como foi divertido eu não estar por perto.

A Sra. Zimmermann gargalhou.

Bom, quando você coloca a coisa assim, minha cara, ela realmente parece confusa. E eu admito

que tudo está confuso na cabeça de Lewis. Ele quer aprender a dar nós, a remar e caminhar no mato, e quer voltar e contar, para que você ache que ele é um garoto de verdade e goste dele ainda mais do que agora.

Eu gosto dele como ele é. Que coisa idiota é essa de ser um garoto de verdade?

A Sra. Zimmermann se recostou e suspirou. Havia uma comprida caixa de prata sobre a mesa. Ela

pegou a caixa e abriu. Dentro havia uma fileira de charutos marrons.

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

Você se importa se eu fumar?

A Carta, a bruxa e o anel — Você se importa se eu fumar? — Não.

Não. - Rose Rita já tinha visto a Sra. Zimmermann fumando charuto antes. A princípio tinha

ficado surpresa, mas acabou se acostumando. Enquanto olhava, a Sra. Zimmermann mordeu a ponta do

charuto e cuspiu num cesto de lixo. Depois estalou os dedos e um fósforo surgiu do nada. Quando o charuto estava aceso, a Sra. Zimmermann lançou o fósforo ao ar, e ele desapareceu.

Economiza cinzeiros - disse ela, rindo. Em seguida deu algumas baforadas. A fumaça foi para a

janela aberta, em espirais graciosas. Houve um silêncio. Finalmente a Sra. Zimmermann falou de novo:

Eu sei que é difícil para você entender, Rose Rita. É sempre difícil entender por que alguém está fazendo algo que nos magoa. Mas pense em como Lewis é; ele é um garoto gordo e tímido que está sempre com o nariz enfiado num livro. Não é bom nos esportes, e tem medo praticamente de tudo. Bom. E olhe para você. Você é um verdadeiro moleque. Consegue subir em árvores, corre rápido, e um dia desses, quando eu estava olhando, mandou a bola para fora do campo naquele jogo de softball feminino. Você faz todas as coisas que Lewis não consegue fazer. Agora vê por que ele está indo ao acampamento? Rose Rita não podia acreditar no que estava pensando.

Para ser como eu?

A Sra. Zimmermann confirmou com a cabeça.

Exatamente. Para ser como você, para que você goste mais dele. Claro, há outros motivos. Por

exemplo, ele quer ser como os outros garotos. Quer ser normal. A maioria dos garotos inteligentes quer.

- Ela deu um riso sem graça e jogou as cinzas do charuto na pia. Rose Rita parecia triste.

Se ele tivesse me pedido, eu teria ensinado um monte de coisas.

Não adianta. Ele não pode aprender com uma garota, isso iria ferir seu orgulho. Mas olhe, esta conversa não tem sentido. Lewis vai para o acampamento amanhã. E você está presa aqui em Nova

Zebedee sem ter o que fazer. Bom, por acaso um dia desses eu recebi uma carta surpreendente. Era do meu falecido primo Oley. Eu já falei dele? Rose Rita pensou um segundo.

Ah, não, acho que não.

Eu achava que não tinha falado. Bom, Oley era um velho estranho, mas Rose Rita interrompeu.

— Sra. Zimmermann, a senhora disse “falecido”. Ele

Sim, acho que Oley foi para o Paraíso. Ele me escreveu uma carta enquanto estava morrendo,

e bom, por que eu não pego a carta e mostro a você? Ela vai lhe dar uma idéia do tipo de pessoa que

- A Sra. Zimmermann assentiu, triste.

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel ele era. A Sra. Zimmermann se

ele era. A Sra. Zimmermann se levantou e foi para o andar de cima. Durante um tempo Rose Rita a ouviu batendo gavetas e remexendo papéis em seu grande escritório desarrumado. Quando ela desceu, entregou a Rose Rita um papel amarrotado e com vários buracos. Havia algo escrito no papel, mas a letra era muito torta e trêmula. A tinta havia se derramado em vários lugares. Esta carta veio junto com um punhado de documentos para eu assinar - disse a Sra. Zimmermann. É um negócio estranho, e não sei o que pensar a respeito. De qualquer modo, aí está a carta. É uma bagunça, mas dá para ler. Ah, a propósito, Oley escrevia com uma pena daquelas antigas quando achava que tinha algo importante a dizer. Por isso acabou fazendo esses buracos no papel. Vá em frente. Leia. Rose Rita pegou a carta. Ela dizia:

21 de maio de 1950

Cara Florence,

Esta pode ser a última carta que eu escrevo. Caí doente de súbito na semana passada, e não entendo, porque nunca tive um dia doente em toda a vida até agora. Não acredito em médicos, como você sabe, e estive tentando me curar sozinho. Comprei alguns remédios na farmácia aqui perto, mas não ajudaram nem um pouco. Então, como dizem, parece que vou bater as botas. Na verdade, quando você receber esta carta, eu estarei morto, já que deixei instruções para que ela fosse mandada junto com meu testamento, para o caso de eu vestir o paletó de madeira, como dizem. Bom, agora vamos aos negócios. Eu lhe deixo minha fazenda. Você é minha única parente, e eu sempre gostei de você, mesmo sabendo que você nunca ligou muito para mim. De qualquer modo, o que passou, passou. A fazenda é sua, e espero que goste dela. E aqui vai uma observação final muito importante. Você se lembra da Campina da Batalha? Bom, eu estava cavando lá um dia desses e encontrei um anel mágico. Sei que você acha que estou brincando, mas quando segurar aquilo e experimentar, vai saber que eu estava certo. Eu não contei a ninguém sobre o anel, a não ser uma vizinha aqui de perto. Talvez eu esteja com a cabeça meio mole, mas sei o que sei, e acho que o anel é mágico. Eu tranquei o anel na gaveta de baixo, à esquerda, na minha escrivaninha, e vou pedir que meu advogado mande a chave para você, junto com a chave da porta da casa. Acho que é só isso que tenho a dizer por enquanto. Com sorte verei você algum dia, e se não vir, bem, vejo-a na cidade dos pés juntos, como dizem, ha, ha, ha.

Seu primo Oley Gunderson

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel — Uau! — disse Rose Rita,

Uau! disse Rose Rita, enquanto devolvia a carta para a Sra. Zimmermann. Que carta

estranha!

É. - A Sra. Zimmermann balançou a cabeça, triste. É uma carta estranha vinda de uma

pessoa bem estranha. Pobre Oley! Ele passou a vida inteira naquela fazenda. Completamente sozinho. Sem família, sem amigos, sem vizinhos, sem nada. Acho que isso deve ter afetado a cabeça dele. Rose Rita ficou pasma.

A Sra. Zimmermann suspirou.

Sim, querida. Lamento desapontá-la com relação ao anel mágico, mas Oley acertou quando

disse que estava com a cabeça meio mole. Acho que ele inventava coisas para tornar a vida mais

interessante. Essa parte sobre a Campina da Batalha vem de nossa infância. Um pouco de faz-de-conta que ele guardou. O problema é que guardou por tanto tempo que passou a acreditar que era verdade.

Não estou entendendo - disse Rose Rita.

É tudo muito simples. Veja bem, quando eu era menina, costumava ir muito à fazenda de Oley.

O pai dele, Sven, era vivo na época. Era um sujeito muito generoso, e vivia convidando primos e tias

para ficar durante longos períodos. Oley e eu brincávamos juntos, e num verão nós encontramos umas pontas de flechas de índios numa campina perto de um riacho que passa atrás de uma casa da fazenda. Bom, você sabe como são as crianças. A partir dessa pequena descoberta nós inventamos uma história sobre aquele ter sido um lugar onde aconteceu uma batalha entre alguns colonos e um bando de índios. Nós até demos nomes a alguns índios e pioneiros envolvidos na batalha, e demos o nome de Campina

da Batalha ao pequeno campo onde brincávamos. Eu tinha esquecido tudo sobre a Campina da Batalha

até que Oley me mandou esta carta.

Rose Rita ficou muito desapontada.

Tem certeza de que a parte sobre o anel não é verdade? Quero dizer, algumas vezes até as pessoas malucas dizem a verdade. Dizem mesmo, a senhora sabe.

A Sra. Zimmermann deu um sorriso simpático.

Sinto muito, querida, mas acho que sei mais sobre Oley Gunderson do que você. Ele era

completamente biruta, doido de pedra. Mas, biruta ou não, ele me deixou sua fazenda, e não há outros parentes para contestar o testamento argumentando insanidade. Portanto eu vou lá dar uma olhada na fazenda e assinar uns papéis. A fazenda fica perto de Petoskey, na beira da Península Inferior, de forma

que depois de cuidar da papelada, vou pegar a balsa até a Península Superior e rodar todo aquele lugar de carro. Eu não faço uma longa viagem de carro desde que terminou o racionamento de gasolina, e acabei

de comprar um carro novo. Estou louca para ir. Você gostaria de ir comigo? Rose Rita ficou felicíssima. Sentia vontade de pular por cima da mesa e abraçar a Sra.

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Zimmermann. Mas então lhe veio um

Zimmermann. Mas então lhe veio um pensamento perturbador.

A senhora acha que meus pais vão deixar?

A Sra. Zimmermann deu seu sorriso mais comercial e competente.

Está tudo combinado. Eu liguei para a sua mãe há dois dias para ver se ela deixava. Ela disse que achava uma boa idéia. Nós decidimos guardar a notícia para fazer uma surpresa a você. Agora havia lágrimas nos olhos de Rose Rita.

Puxa, Sra. Zimmermann, muito obrigada. Muitíssimo obrigada.

Nem fale nisso, querida. - A Sra. Zimmermann olhou para o relógio da cozinha. Acho que é

melhor nós irmos para a cama se quisermos estar em forma amanhã. Jonathan e Lewis vêm aqui tomar o

café. Depois Lewis vai para o acampamento, e nós vamos para as vastidões de Michigan. - Ela se levantou e apagou o charuto na pia. Foi até a sala e começou a apagar as luzes. Quando voltou à cozinha, encontrou Rose Rita ainda sentada à mesa com a cabeça apoiada nas mãos. Havia um ar sonhador em seu rosto.

Ainda pensando em anéis mágicos, não é? - A Sra. Zimmermann deu um riso suave e um

tapinha nas costas da garota. Rose Rita, Rose Rita - disse ela, balançando a cabeça. O seu problema é que você acha que a magia vai brotar das rachaduras na calçada, como dentes-de-leão. A

propósito, eu já lhe disse? Eu não tenho mais um guarda-chuva mágico. Rose Rita se virou e encarou a Sra. Zimmermann, incrédula. Não?

Não. Como você lembra, o velho foi destruído numa batalha com um espírito maligno. Está

totalmente acabado. Quanto ao novo, o que Jonathan me deu de presente de Natal, eu não pude fazer

nada com ele. Ainda sou uma feiticeira, claro. Posso fazer fósforos brotarem do ar. Mas para os tipos de

magia mais sérios, mais poderosos nada.

Rose Rita se sentiu péssima. Tinha visto o guarda-chuva mágico da Sra. Zimmermann em ação. Na maior parte do tempo ele só parecia um guarda-chuva preto e velho, mas quando a Sra. Zimmermann dizia certas palavras, ele se transformava num cajado alto, com uma esfera de cristal no topo, uma esfera com uma estrela púrpura queimando dentro. Era a fonte de todos os maiores poderes da Sra. Zimmermann. E agora não existia mais. De uma vez por todas.

bom, acho que estou de volta às divisões de base. Não posso fazer

Não

não há nada que a senhora possa fazer, Sra. Zimmermann?

Acho que não, querida. Agora não passo de uma mágica de salão, como Jonathan, e terei de me

virar assim. Sinto muito. Agora, subindo para a cama. Temos um longo dia de viagem pela frente. Rose Rita subiu a escada, sonolenta. Ia dormir no quarto de hóspedes. Era um cômodo muito

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel agradável, e, como a maioria dos

agradável, e, como a maioria dos cômodos da casa da Sra. Zimmermann, estava cheio de coisas roxas. O papel de parede era coberto de pequenos buquês de violetas, e o penico no canto era feito de porcelana Crown Derby roxa. Em cima da cômoda havia a pintura de uma sala em que quase tudo era roxo. A pintura era assinada por “H. Matisse”. Tinha sido dada à Sra. Zimmermann pelo famoso pintor francês durante a visita dela a Paris logo antes da Primeira Guerra Mundial. Rose Rita recostou no travesseiro. A lua pairava acima da casa de Jonathan e lançava uma luz prateada sobre as torrinhas, os espigões e os telhados íngremes. Rose Rita sentia-se sonolenta e estranha. Guarda-chuvas mágicos e anéis mágicos perseguiam uns aos outros em sua cabeça. Pensou na carta de Oley. E se houvesse um anel mágico lá, trancado na escrivaninha dele? Sem dúvida seria empolgante. Rose Rita suspirou e se virou de lado. A Sra. Zimmermann era uma pessoa inteligente. Geralmente sabia do que estava falando, e provavelmente estava certa sobre aquele anel antigo. Toda a história era uma bobagem. Mas, enquanto caía no sono, Rose Rita não podia deixar de pensar em como seria legal se a carta de Oley estivesse dizendo a verdade.

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO DOIS Na manhã seguinte a
John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO DOIS Na manhã seguinte a

CAPÍTULO DOIS

Na manhã seguinte a Sra. Zimmermann fez bolinhos para o café. Assim que estava tirando a

travessa do forno, a porta dos fundos se abriu e Jonathan entrou com Lewis. Lewis estava rechonchudo

e de cara redonda. Usava o uniforme de escoteiro novo em folha e um lenço vermelho vivo com o

emblema dos escoteiros americanos atrás. Seu cabelo estava muito bem partido e engomado com óleo

Raiz Selvagem. Atrás vinha Jonathan. Jonathan sempre parecia o mesmo, fosse inverno ou verão: barba

ruiva, cachimbo na boca, calças marrons, camisa azul, colete vermelho.

Oi, Ameixa Seca! - disse Jonathan, animado. Esses bolinhos já estão prontos?

O primeiro lote está, Barba Estranha - respondeu bruscamente a Sra. Zimmermann, enquanto

largava a pesada travessa de ferro sobre a mesa. Só vou fazer duas travessas. Você acha que consegue

comer só quatro bolinhas?

Vou ter sorte se conseguir um, do jeito que você agarra todos, Bruxa Velha. Cuidado com o

garfo dela, Lewis. Ela me deu uma garfada bem aqui na mão, na semana passada.

Jonathan e a Sra. Zimmermann continuaram trocando insultos até o desjejum estar pronto.

Depois, junto com Lewis e Rose Rita, sentaram-se para o trabalho silencioso de comer. A princípio

Lewis não ousava encarar Rose Rita - ainda se sentia mal por deixá-la na mão. Mas então notou que ela

estava com um ar muito cheio de si. Jonathan também notou.

Ah, tudo bem! - disse Jonathan, quando sentiu que não conseguia mais suportar o suspense.

Qual é o grande segredo? Rose Rita está parecendo um gato que comeu um canário, cheia de penas na

boca.

Ah, não é grande coisa - disse Rose Rita. Eu só vou explorar uma velha fazenda abandonada

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel com a Sra. Zimmermann. Dizem que

com a Sra. Zimmermann. Dizem que a fazenda é assombrada, e há um anel mágico escondido em algum ponto da casa. Foi posto lá por um louco que se enforcou no celeiro. Lewis e Jonathan ficaram boquiabertos. Rose Rita estava enfeitando um pouco a verdade. Era um

de seus defeitos. Geralmente ela era muito verídica mas, quando a ocasião pedia, podia aparecer com as coisas mais espantosas. A Sra. Zimmermann lançou um olhar azedo para Rose Rita.

Você deveria escrever livros - disse secamente. Depois virou-se para Lewis e Jonathan.

Apesar do que minha amiga aqui afirma, eu não estou administrando uma agência de turismo para o Dia das Bruxas. Meu primo Oley, você se lembra dele Jonathan, morreu, e me deixou sua fazenda. Eu vou

ver o lugar e passear um pouco de carro, e pedi a Rose Rita para ir comigo. Sinto muito se não contei isso tudo antes Jonathan, mas tive medo de que você abrisse o bico com Lewis. Sabe como você é bom em guardar segredos. Jonathan fez uma careta para a Sra. Zimmermann, mas ela o ignorou.

Bom! - disse ela, recostando-se e dando um sorriso largo para Rose Rita e Lewis. Agora

vocês dois têm o que fazer neste verão, e é assim que deve ser!

É - disse Lewis, carrancudo. Estava começando a imaginar se, afinal de contas, Rose Rita não

estava ficando com a melhor opção. Depois do café Lewis e Rose Rita se ofereceram para lavar os pratos. A Sra. Zimmermann subiu ao seu escritório e trouxe a carta de Oley para Jonathan ver. Ele leu pensativamente enquanto Rose Rita lavava os pratos e Lewis enxugava. A Sra. Zimmermann ficou sentada à mesa da cozinha, cantarolando e fumando um charuto. Quando terminou de ler a carta, Jonathan a entregou de volta à Sra. Zimmermann sem dizer nada. Mas ficou pensando. Alguns minutos depois levantou-se e foi até a sua casa. Tirou o grande carro preto, deu marcha a ré e o deixou perto do meio-fio. O banco de trás estava cheio das coisas de escoteiro de Lewis: saco de dormir, mochila, manual do escoteiro, sapatos de caminhada e uma caixa de aveia Quaker cheia da especialidade da Sra. Zimmermann - biscoitos de chocolate. Rose Rita e a Sra. Zimmermann ficaram na calçada. Jonathan estava ao volante, e Lewis ao lado. Bom, adeus e bon voyage, e coisa e tal - disse a Sra. Zimmermann. Divirta-se no

acampamento, Lewis.

Obrigado, Sra. Zimmermann - disse Lewis, acenando de volta.

Vocês duas se divirtam também nas vastidões de Michigan - disse Jonathan. Ah, a propósito, Florence.

Sim. O que é?

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel — Só isso: eu acho que

Só isso: eu acho que você deveria verificar a escrivaninha de Oley para ver se realmente há alguma coisa escondida lá. Nunca se sabe.

A Sra. Zimmermann gargalhou.

Se eu achar um anel mágico, mando para você pelo correio. Mas se eu fosse você, não

prenderia o fôlego até ele chegar. Você conheceu Oley, Jonathan. Sabe como ele tinha um parafuso a

menos. Jonathan tirou o cachimbo da boca e olhou direto para a Sra. Zimmermann.

É, eu sei tudo sobre Oley, mas mesmo assim achei que deveria avisar.

Claro, eu vou ter cuidado - disse a Sra. Zimmermann despreocupada. Realmente não sentia que houvesse com que se preocupar. Houve mais despedidas e acenos, e então Jonathan saiu com o carro. A Sra. Zimmermann mandou Rose Rita correr para casa e fazer as malas enquanto ela ia arrumar suas coisas.

Rose Rita disparou morro abaixo até sua casa. Agora estava realmente empolgada, e impaciente para ir logo. Mas assim que estava abrindo a porta da frente, ouviu o pai dizer:

Bom, gostaria que da próxima vez você me consultasse antes de deixar nossa filha flanar com a maluca da cidade. Pelo amor de Deus, Louise, você não tem nenhuma

A Sra. Pottinger o interrompeu.

A Sra. Zimmermann não é a maluca da cidade - disse com firmeza. É uma pessoa

responsável que tem sido boa amiga de Rose Rita.

Responsável, ha! Ela fuma charuto e anda com aquele não-sei-das-quantas, o barbudo cheio da

grana. O que faz truques de mágica, você sabe o nome dele

Sim, claro que sei. E acho que depois de sua filha ter sido a melhor amiga do sobrinho do não-

sei-das-quantas durante um ano inteiro, o mínimo que você podia saber era o nome dele. Mas ainda não

entendo por que

E a coisa continuou assim. O Sr. e a Sra. Pottinger estavam discutindo na cozinha, atrás de uma

porta fechada. Mas o Sr. Pottinger tinha uma voz alta, mesmo quando estava falando normalmente, e a Sra. Pottinger estava falando alto para se igualar a ele. Rose Rita ficou um momento ali parada, ouvindo. Sabia por experiências passadas que não seria bom se intrometer. Subiu na ponta dos pés até o andar de cima e começou a fazer as malas. Na valise preta e gasta que usava para viajar Rose Rita jogou roupa de baixo, camisas, jeans, escova de dentes, pasta de dentes e qualquer coisa que achasse que ia precisar. Era fantástico não ter de colocar vestidos, blusas e saias na mala. A Sra. Zimmermann nunca a obrigava a se enfeitar - deixava-a usar o que quisesse. Rose Rita teve um súbito sentimento de desamparo quando se lembrou de que não poderia

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel ser um moleque para sempre. Saias

ser um moleque para sempre. Saias e meias de náilon, batom e pó de arroz, namoros e bailes era tudo o que esperava por ela nos últimos anos do ensino fundamental. Não seria ótimo se ela fosse realmente um garoto? Então poderia Ouviu uma buzina do lado de fora. Tinha de ser a Sra. Zimmermann. Fechou o zíper da valise e desceu correndo com ela. Quando saiu à porta da frente, encontrou a mãe ali, sorrindo. Seu pai tinha sumido, de modo que aparentemente a tempestade havia terminado. A Sra. Zimmermann estava na rua, ao volante de um Plymouth 1950 novo em folha. Era um carro alto e curto, e tinha um porta-malas meio

corcunda. Uma tira cromada dividia o pára-brisa em dois, e as pequenas letras quadradas na lateral do carro diziam CRANBROOK - era o nome daquele modelo específico. O carro era de um verde vivo. A Sra. Zimmermann ficou com raiva disso, porque tinha encomendado marrom, mas ficou com preguiça de devolver.

Oi, Rose Rita! Oi, Louise! - gritou a Sra. Zimmermann, acenando para as duas. Está um

bom dia para viajar, não é?

Está sim - disse a Sra. Pottinger, sorrindo. Estava genuinamente feliz porque Rose Rita podia

viajar com a Sra. Zimmermann. O trabalho do Sr. Pottinger obrigava a família a ficar o verão inteiro em

Nova Zebedee, e a Sra. Pottinger tinha alguma idéia de como a filha ficaria solitária sem Lewis. Felizmente a Sra. Pottinger não sabia nada sobre as habilidades mágicas da Sra. Zimmermann, e não dava bola para os boatos que ouvia. Rose Rita deu um beijo na bochecha da mãe.

Tchau, mamãe. Vejo você daqui a duas semanas.

Certo. Divirta-se. Mande um cartão postal quando chegar a Petoskey.

Eu mando.

Rose Rita desceu a escada da varanda correndo, jogou a valise no banco de trás e deu a volta para subir no banco da frente ao lado da Sra. Zimmermann. A Sra. Zimmermann engrenou o carro e as duas seguiram pela rua da Mansão. A viagem tinha começado. Pegaram a estrada, que seguia direto para o norte através das Grand Rapids. Era um belo dia ensolarado. Os postes telefônicos, as árvores e os anúncios de todos os tipos de produtos passavam à toda. Nos campos, tratores trabalhavam, máquinas com nomes como John Deere, Minneapolis-Moline e

International Harvester. Eram pintadas de cores fortes: azul, verde, vermelho e amarelo. De vez em quando a Sra. Zimmermann tinha de ir para o acostamento para deixar que um trator com uma grande lâmina de corte passasse. Quando chegaram a Big Rapids, a Sra. Zimmermann e Rose Rita almoçaram numa lanchonete. Havia uma máquina de fliperama no canto, e a Sra. Zimmermann insistiu em jogar. Ela era uma jogadora

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel de fliperama de primeira. Sabia mexer

de fliperama de primeira. Sabia mexer com as alavancas, e - depois de jogar numa máquina específica durante um tempo - sabia o quanto podia bater nas laterais e em cima sem fazer o letreiro TILT se acender. Quando terminou tinha ganho trinta e cinco partidas grátis. Em seguida deixou a máquina para os outros fregueses, que estavam olhando boquiabertos. Nunca tinham visto uma senhora jogar fliperama. Depois do almoço a Sra. Zimmermann foi a um supermercado e uma padaria. Estava planejando um piquenique na fazenda, quando chegassem, na hora do jantar. Na grande bolsa térmica que estava no

porta-malas colocou salame, salsichão, latas de presuntada, sorvete de baunilha, uma garrafa de leite, três de refrigerante e um vidro de picles. Num cesto de piquenique pôs dois pães e um bolo de chocolate. Comprou um pouco de gelo picado e colocou na bolsa, para que a comida não estragasse. Estava um dia quente. O termômetro pelo qual passaram na saída da cidade indicava trinta e dois graus.

A Sra. Zimmermann disse a Rose Rita que agora iriam direto até a fazenda, sem parar. Enquanto

seguiam cada vez mais para o norte, os morros começaram a ficar mais altos. Em alguns deles parecia que o carro não conseguiria chegar ao final, mas era engraçado como pareciam ficar planos à medida que o carro subia. Agora, à sua volta, Rose Rita via pinheiros. O cheiro fresco e maravilhoso entrava pelas janelas do carro. Estavam se aproximando das vastas florestas do norte de Michigan. No fim daquela tarde Rose Rita e a Sra. Zimmermann estavam seguindo devagar por uma estrada de terra, ouvindo a previsão do tempo no rádio do carro. Sem aviso, o carro começou a diminuir a velocidade. Até parar. A Sra. Zimmermann virou a chave e apertou o acelerador. Só conseguiu o rr-rr do

motor de arranque tentando virar o motor principal. Mas não pegava. Depois de umas quinze tentativas

ela se recostou e xingou baixinho entre os dentes. Depois, por acaso, olhou para o marcador de gasolina.

Ah, não diga! - gemeu ela. Inclinou-se para a frente e começou a bater com a testa no volante.

O que foi? - perguntou Rose Rita.

A Sra. Zimmermann ficou sentada com uma expressão de desgosto.

Ah, não é grande coisa. Nós só estamos sem gasolina, só isso. Eu ia encher o tanque naquele lugar onde compramos o gelo em Big Rapids, mas esqueci. Rose Rita pôs a mão na boca.

Ah, não!

Ah, sim. Mas eu sei onde estamos. Só a alguns quilômetros da fazenda. Se você estivesse com

energia, nós poderíamos largar o carro e ir a pé. Mas nem precisamos fazer isso. Há um posto de gasolina logo adiante. Pelo menos havia.

A Sra. Zimmermann e Rose Rita saíram do carro e começaram a andar. O sol já estava quase se

pondo. Nuvens de mosquitos minúsculos pairavam no ar, e as longas sombras das árvores atravessavam

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel a estrada. Pequenos retalhos de luz

a estrada. Pequenos retalhos de luz vermelha podiam ser vistos aqui e ali em meio às árvores. As duas

viajantes subiam e desciam morros, chutando poeira branca. A Sra. Zimmermann era uma boa andarilha,

e Rose Rita também. Chegaram ao posto quando o sol estava baixando. A mercearia Bigger’s era rodeada em três lados por uma escura floresta de pinheiros. A loja era apenas uma pequena casa de madeira com uma grande janela de vidro na frente. Através da janela dava para ver fileiras de mercadorias e um balcão com caixa registradora no fundo. Algumas letras verdes na janela tinham escrito antigamente a palavra SALADA, mas agora só diziam ADA. Como muitas mercearias da área rural, a Bigger’s também era posto de gasolina. Na frente havia duas bombas vermelhas, e perto delas um letreiro branco com um cavalo alado. O cavalo também estava no enfeite

circular em cima de cada bomba. Num quintal cheio de mato ao lado da loja havia um galinheiro. O galinheiro era cercado, mas não havia nenhuma galinha à vista. O teto de papel alcatroado do galinheiro estava caído de um dos lados, e a bacia d’agua tinha uma grossa espuma verde em cima.

Bom, aqui estamos - disse a Sra. Zimmermann, enxugando a testa. Agora, se pudermos

fazer Gert sair e nos atender, estamos feitas. Rose Rita ficou surpresa.

A senhora conhece a pessoa que cuida dessa loja? - A Sra. Zimmermann suspirou.

É, acho que conheço. Eu não venho aqui há um bocado de tempo, mas Gert Bigger cuidava

dessa loja quando eu vim visitar Oley da última vez. Isso foi há uns cinco anos. Talvez ela ainda esteja aí, talvez não. Veremos.

À medida que chegavam perto da loja, Rose Rita e a Sra. Zimmermann perceberam um pequeno

cachorro preto deitado nos degraus da frente. Assim que viu as duas, ele se levantou e começou a latir. Rose Rita teve medo de que ele as mordesse, mas a Sra. Zimmermann estava calma. Ela foi até os degraus, pôs as mãos nos quadris e gritou:

Saia! - O cão ficou onde estava e latiu mais alto. Finalmente, quando a Sra. Zimmermann estava se preparando para dar um bom pontapé no cachorro, ele pulou de lado e saiu correndo para uns arbustos no fim do quintal.

Cachorro idiota - grunhiu a Sra. Zimmermann. Ela subiu os degraus e abriu a porta da loja.

A sineta fez dling-dling. As luzes da loja estavam acesas, mas não havia ninguém atrás do balcão.

Minutos se passaram enquanto a Sra. Zimmermann e Rose Rita ficaram esperando. Finalmente

começaram a ouvir alguns sons no fundo da loja. Uma porta se abriu rangendo, e Gert Bigger entrou. Era uma mulher grande e ossuda, com um vestido que parecia um saco, e tinha um rosto raivoso. Quando viu a Sra. Zimmermann, ficou espantada.

Ah, é você! Você não aparece aqui há um bom tempo. Bom, o que quer?

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Gert Bigger parecia tão maligna que

Gert Bigger parecia tão maligna que Rose Rita imaginou se ela teria algo contra a Sra. Zimmermann. A Sra. Zimmermann respondeu em voz calma:

Só quero um pouco de gasolina, se não for muito incômodo. Nós ficamos sem, logo ali atrás na

estrada.

Só um minuto - disse Gert, rispidamente.

Ela marchou pelo corredor principal da loja e saiu pela porta, batendo-a.

Nossa, que velha chata! - disse Rose Rita. A Sra. Zimmermann balançou a cabeça, triste.

É, ela fica pior a cada vez que eu vejo. Venha, vamos pegar a gasolina e ir embora daqui.

Depois de muita agitação e xingamentos, Gert Bigger encontrou uma lata de cinco galões e encheu

de gasolina. Rose Rita gostava do cheiro de gasolina, e gostava de ver os números girando na bomba. Quando os números pararam, Gert desligou a bomba e anunciou o preço. Era exatamente o dobro do que a bomba marcava.

A Sra. Zimmermann olhou séria para a mulher. Estava tentando deduzir se Gert estava brincando.

Você está de piada, Gertie? Olhe aquele número ali.

Não é piada, querida. Pague ou ande até a fazenda. - E acrescentou, numa voz cheia de zombaria: É meu preço especial para os amigos. A Sra. Zimmermann parou um minuto, imaginando o que fazer. Rose Rita esperava que ela balançasse a mão e transformasse Gert Bigger num sapo ou coisa do tipo. Por fim a Sra. Zimmermann deu um suspiro fundo e abriu a carteira.

Pronto! Que isto lhe faça bem. Agora venha, Rose Rita, vamos voltar ao carro.

Certo.

A Sra. Zimmermann pegou a lata de gasolina e as duas começaram a andar pela estrada. Depois de

terem virado a primeira curva, Rose Rita falou:

Qual é o problema com aquela dona? Por que ela está furiosa com a senhora?

Ela é furiosa com todo mundo, Rosie. Furiosa com o mundo. Eu a conheci quando era nova,

quando eu vinha passar o verão na velha fazenda. Na verdade, num verão, quando eu tinha dezoito anos, ela e eu brigamos por causa de um namorado, um sujeito chamado Mordecai Hunks. Eu ganhei a briga, mas ele e eu não nos demos bem por muito tempo. Nós terminamos no fim do verão. Não sei com

quem ele se casou.

Gertie ficou furiosa porque você roubou o namorado dela?

A Sra. Zimmermann deu um risinho e balançou a cabeça.

Pode apostar que sim! E sabe de uma coisa? Ela ainda está furiosa! Aquela mulher é especialista

em guardar rancor. Ela se lembra de coisas que as pessoas disseram há anos e anos, e está sempre

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel planejando se vingar de alguém. Mas

planejando se vingar de alguém. Mas devo dizer que nunca a vi agir como hoje. O que terá dado nela? - A Sra. Zimmermann parou no meio da estrada e se virou. Olhou na direção da loja de Gert Bigger e coçou o queixo. Parecia estar pensando. Depois, dando de ombros, virou-se e foi na direção do carro.

Já estava escuro. Grilos cricrilavam no mato à beira da estrada, e um coelho atravessou correndo o

caminho das duas e desapareceu nos arbustos do outro lado. Quando a Sra. Zimmermann e Rose Rita finalmente voltaram ao carro, ele estava parado ao luar, esperando-as pacientemente. Rose Rita tinha passado a pensar no carro como uma pessoa de verdade. Para começar, ele tinha uma cara. Os olhos

espiavam fixos, como os das vacas, mas a boca parecia de um peixe - lamentosa e com lábios grossos. A expressão era triste, mas digna.

O Plymouth é um bom carro, não é? - perguntou Rose Rita.

Sim, acho que tenho de admitir que é. - A Sra. Zimmermann coçou o queixo, pensativa. Para um carro verde, até que não é tão mau.

Nós podemos dar um nome a ele? - disse Rose Rita subitamente.

A Sra. Zimmermann ficou espantada.

Nome? Bem, sim, acho que sim. Que tipo de nome você gostaria de dar?

Bessie. - Rose Rita tinha conhecido uma vaca chamada Bessie. Achava que Bessie seria um

bom nome para esse carro de olhar paciente.

A Sra. Zimmermann pôs os cinco galões de gasolina em Bessie. Quando virou a chave na ignição,

o carro deu a partida imediatamente. Rose Rita aplaudiu. Estavam a caminho de novo. Quando chegaram à loja da Sra. Bigger, a Sra. Zimmermann parou apenas o suficiente para deixar

a lata vazia perto das bombas. Enquanto o carro seguia em direção à fazenda, Rose Rita percebeu que a floresta que havia atrás da loja de Gert Bigger continuava pela estrada.

É uma floresta bem grande, não é, Sra. Zimmermann? - disse ela, apontando para a direita.

É. É uma floresta estadual, e, como você diz, bem grande. Ela vai até a fazenda do Oley e

depois segue um bom pedaço para o norte. É um lugar bonito, mas eu odiaria me perder nela. Você poderia ficar andando durante dias, e ninguém iria encontrá-la. Seguiram. Rose Rita começou a imaginar como seria a fazenda de Oley. Estivera devaneando sobre a fazenda durante a viagem, e já possuía na mente uma idéia bem clara de como o lugar deveria ser. Será que era realmente assim? Ela veria num minuto. Subiram alguns morros, desceram alguns morros, fizeram algumas curvas, depois desceram por uma estrada estreita e esburacada encoberta por árvores. E ali, de repente, estava a velha fazenda do Oley. Não se parecia com o que Rose Rita tinha imaginado, mas era interessante. O celeiro era comprido

e pintado de branco. Como Bessie, ele tinha um rosto: duas janelas para os olhos e uma porta alta

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel servindo de boca. Perto do celeiro

servindo de boca. Perto do celeiro ficava a casa. Era simples e quadrada, com uma torrinha em cima. O

lugar parecia totalmente deserto. O capim crescia alto no quintal da frente, e a caixa de correio estava enferrujando. Uma das janelas do celeiro estava quebrada. Enquanto Rose Rita olhava, um pássaro entrou voando pelo buraco. À distância, a floresta podia ser vista. A Sra. Zimmermann foi com o carro diretamente à porta do celeiro e parou. Saiu e depois, com a ajuda de Rose Rita, empurrou para trás a porta pesada. Um leve cheiro de esterco e feno pairava no ar frio. Havia duas fileiras compridas de baias para o gado (ambas vazias) e no alto Rose Rita pôde ver o feno empilhado. Algumas placas de carro antigas estavam pregadas às traves que suportavam o depósito de feno. Quando Rose Rita olhou, viu que tinham datas como 1917 e 1932. Em meio aos caibros do telhado a forma de um pássaro voou de um lado para o outro, e voltou. Rose Rita e a Sra. Zimmermann ficaram ali em silêncio, sob o teto alto. Era quase como estar numa igreja. Foi a Sra. Zimmermann quem finalmente quebrou o feitiço.

Bom, venha. Vamos pegar a cesta de piquenique e a bolsa térmica e destrancar a casa. Eu estou morrendo de fome.

Eu também.

Mas quando a Sra. Zimmermann abriu a porta da frente da casa e acendeu as luzes, levou um choque. Era como se um redemoinho tivesse passado ali dentro. As coisas estavam espalhadas por toda parte. Gavetas tinham sido tiradas das cômodas e dos armários, e o conteúdo jogado no chão. Quadros tinham sido tirados das paredes, e todos os livros de uma pequena estante no saguão da frente tinham

sido arrancados.

- Ela se virou para Rose

Rita. As duas estavam pensando a mesma coisa. Rose Rita seguiu a Sra. Zimmermann até a sala que Oley Gunderson usava como escritório. Encostada numa das paredes havia uma enorme escrivaninha de tampo corrediço. O tampo estava aberto, e todos os escaninhos estavam vazios. Havia marcas de dedos no pó da superfície da escrivaninha, e os lápis tinham sido espalhados. Todas as gavetas tinham sido arrancadas e o conteúdo espalhado no chão. A madeira em volta do lugar onde estivera a gaveta de baixo, à esquerda, estava lascada e quebrada - aparentemente era a única que ficava trancada. Perto da escrivaninha havia uma gaveta com a frente bastante arrebentada, e na gaveta havia uma caixa de relógio Benrus forrada de couro preto. A Sra. Zimmermann se ajoelhou e pegou a caixa de relógio. Quando abriu, encontrou uma pequena caixa quadrada, de guardar anel, forrada de veludo azul. Sem dizer palavra, abriu a caixa azul e olhou dentro. Rose Rita se inclinou por cima do ombro dela, para ver.

Santo Deus - disse a Sra. Zimmermann. O que você acha que

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel A metade de baixo da caixa

A metade de baixo da caixa tinha uma almofada preta com uma fenda. A fenda parecia ter sido alargada, como se alguma coisa grande demais tivesse sido enfiada na caixa. Mas, o que quer que fosse, tinha sumido.

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO TRÊS A Sra. Zimmermann se
John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO TRÊS A Sra. Zimmermann se

CAPÍTULO TRÊS

A Sra. Zimmermann se ajoelhou no chão atulhado, olhando para a caixa vazia. De repente,

gargalhou.

Há! Essa foi uma boa peça pregada no ladrão, quem quer que ele tenha sido!

Rose Rita estava perplexa.

Não entendo o que a senhora quer dizer.

A Sra. Zimmermann se levantou e limpou a poeira do vestido. Jogou a caixa na gaveta, com um

jeito de desprezo.

É tudo muito simples, minha querida. Não está vendo? Oley deve ter falado daquela história

ridícula sobre um anel mágico. Alguém deve ter acreditado nele e achado que havia alguma coisa valiosa escondida aqui na casa. Afinal de contas, não é preciso pensar que um anel é mágico para querer roubá- lo. Geralmente os anéis são feitos de metais preciosos, como ouro e prata, e alguns têm diamantes, rubis e coisas do tipo. Depois que o Oley morreu, alguém deve ter invadido a casa. Posso imaginar o que encontrou! Provavelmente uma velha arruela de torneira. Bom, poderia ter sido pior. Poderiam ter

incendiado o lugar. Mas a casa está uma bagunça, e nós vamos ter de dar um jeito. Então

A Sra. Zimmermann continuou falando enquanto ajeitava a escrivaninha de Oley, colocando os

lápis na jarra de lápis e as borrachas nos escaninhos. Quem ela acha que está enganando, afinal?, pensou Rose Rita. Pelo modo como a Sra. Zimmermann estava agindo dava para ver que era só um disfarce. A garota tinha visto a mão da Sra. Zimmermann tremer enquanto abria a caixinha. Tinha visto como ela ficou pálida. Então realmente existe um anel mágico, disse Rose Rita a si mesma. Como será ele?

Também imaginou quem o havia apanhado, e o que iria fazer com ele. Tinha entrado num mistério de verdade, e estava tão empolgada com aquilo tudo que nem ficou amedrontada. Era quase meia-noite quando Rose Rita e a Sra. Zimmermann finalmente se sentaram para comer. Puseram a refeição na mesa da cozinha e pegaram alguns pratos empoeirados e talheres azinhavrados no armário sobre a pia. Depois disso estava na hora de dormir. Havia dois quartos contíguos no topo da

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel escada, cada um com sua cama

escada, cada um com sua cama de carvalho escuro. As duas remexeram num armário no fim do corredor e encontraram alguns lençóis. Os lençóis estavam com cheiro de mofo, mas limpos. Elas fizeram as camas e se deram boa noite. Rose Rita demorou a dormir. Era uma noite quente e abafada, sem um sopro de vento. As cortinas na janela aberta estavam imóveis. Ela ficou se revirando, mas não houve jeito. Finalmente

sentou-se e acendeu o abajur na mesinha-de-cabeceira. Procurou em sua valise o exemplar de A ilha do tesouro que tinha trazido, e ajeitou o travesseiro no encosto da cama. E agora, onde havia parado? Ah, claro. Aqui estava. Long John Silver tinha capturado Jim, e eles e os piratas estavam procurando o tesouro do capitão Flint. Era uma parte empolgante do livro. Jim estava com uma corda amarrada na cintura e sendo arrastado pela areia por Silver, que caminhava num passo balançado com sua muleta Toc, toc, toc. Enquanto lia, Rose Rita começou a perceber um som. A princípio achou que era na sua cabeça. Freqüentemente imaginava visões, sons e cheiros quando estava lendo, e agora talvez estivesse

imaginando o som da muleta de Long John Silver. Tap, tap, tap, tap

e, de qualquer modo, uma muleta não faria barulho na

areia. Só faria A cabeça de Rose Rita tombou para a frente. O livro caiu da sua mão. Quando percebeu o que estava acontecendo, sacudiu-se violentamente. Que idiota eu sou em cair no sono, pensou a princípio, mas então se lembrou de que estivera lendo para tentar dormir. Acho que funcionou, pensou com um riso. Toc, toc, toc. Ali estava aquele som de novo. De onde vinha? Certamente não estava na sua cabeça.

Vinha do quarto ao lado. E então Rose Rita soube o que era o som. Era a Sra. Zimmermann batendo com seu anel em alguma coisa. A Sra. Zimmermann tinha um anel com uma pedra grande. A pedra era roxa, porque a Sra. Zimmermann adorava coisas roxas. Não era um anel mágico, era só uma bijuteria da qual a Sra. Zimmermann gostava. Tinha comprado em Coney Island. Usava-o o tempo todo, e sempre que estava pensando alguma coisa, pensando com intensidade, batia o anel em qualquer coisa que houvesse por perto, cadeiras, mesas ou estantes. A porta entre os dois quartos estava fechada, mas Rose Rita podia ver, com a mente, uma imagem clara da Sra. Zimmermann acordada, olhando o teto e batendo o anel contra o lado da cama. Em que estaria pensando? No anel, provavelmente - no outro anel, o roubado. Rose Rita realmente queria ir conversar todo o assunto com ela, mas sabia que não era a coisa certa a fazer. A Sra. Zimmermann iria se fechar como uma ostra se Rose Rita tentasse falar sobre o anel mágico de Oley Gunderson. Encolheu os ombros e suspirou. Não havia nada a fazer, e de qualquer modo ela estava quase dormindo. Afofou o travesseiro, apagou a luz e se espreguiçou. Num instante estava ressonando

uma moeda batendo no tampo de uma mesa

mais parecia

mas não parecia isso

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel pacificamente. Na manhã seguinte, bem cedinho,

pacificamente. Na manhã seguinte, bem cedinho, as duas juntaram suas coisas, trancaram a casa e foram para Petoskey. Tomaram o café da manhã numa lanchonete lá e foram ver o advogado de Oley. Depois foram para o estreito. Naquela tarde atravessaram o estreito de Mackinac numa balsa para carros chamada A Cidade de Escanaba. O céu estava cinzento, e chovia. A balsa balançava nas águas agitadas do estreito. À direita a Sra. Zimmermann e Rose Rita mal podiam ver a ilha Mackinac, numa mancha turva. O sol estava saindo quando A Cidade de Escanaba chegou a St. Ignace. Estavam agora na Península Superior de Michigan, e teriam duas semanas inteiras para explorá-la. A viagem começou bem. Viram as Cataratas de Tahquamenon e seguiram pela margem do Lago Superior. Viram as Montanhas Pictured e tiraram fotos uma da outra. Passaram por oceanos de pinheiros e pararam para olhar riachos que eram vermelhos por causa da quantidade de ferro na água. Visitaram povoados com nomes estranhos, como Ishpeming, Germfask e Ontonagon. À noite ficavam em pousadas para turistas. A Sra. Zimmermann odiava os novos hotéis que brotavam em toda parte, mas adorava as pousadas de turistas. Casas brancas e antigas em ruas sombreadas, casas com varandas cercadas de tela, janelas verdes e treliças cheias de flores. A Sra. Zimmermann e Rose Rita passavam a noite numa pousada e se sentavam na varanda jogando xadrez ou baralho, tomando chá gelado enquanto os grilos cricrilavam do lado de fora. Algumas vezes havia um rádio no quarto de Rose Rita. Se houvesse, ela escutava os jogos noturnos dos Tigers de Detroit até adormecer. E então, café da manhã numa lanchonete ou restaurante, e depois era voltar para a estrada. No quarto dia da viagem aconteceu uma coisa estranha. Era noite. Rose Rita e a Sra. Zimmermann estavam andando pela rua principal de uma cidadezinha. O sol estava se pondo no fim da rua, e uma luz quente e alaranjada pairava sobre tudo. Tinham jantado e estavam só esticando as pernas depois de um longo dia viajando. Rose Rita estava pronta para ir para a pousada, mas a Sra. Zimmermann havia parado para olhar a vitrine de um brechó. Ela adorava procurar coisas em brechós. Era capaz de passar horas remexendo todo tipo de lixo, e algumas vezes tinha de ser arrastada para fora à força. Enquanto estava junto à vitrine, a Sra. Zimmermann percebeu que a loja estava aberta. Eram nove horas da noite, mas os donos dos brechós costumam manter as lojas abertas até mais tarde. Havia cadeiras antigas com estofados de veludo gasto e estantes com alguns livros, e antigas mesas de jantar com uma quantidade incrível de bagulhos em cima. A Sra. Zimmermann parou diante de uma dessas mesas. Pegou um conjunto de saleiro e pimenteiro na forma de uma luva e uma bola de beisebol. A bola era o saleiro. O que você acha disso para o seu quarto, Rose Rita? perguntou ela, dando um risinho.

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Rose Rita disse que adorava. Gostava

Rose Rita disse que adorava. Gostava de tudo que tivesse a ver com beisebol.

Puxa, eu posso ficar com isso para botar na minha mesa, Sra. Zimmermann? Acho bonitinho.

Certo - disse a Sra. Zimmermann, ainda rindo. Ela pagou os vinte e cinco centavos pelo conjunto e continuou remexendo. Perto de uma tigela empoeirada cheia de botões de madrepérola havia uma pilha de fotografias velhas. Eram todas montadas em papelão grosso, e, pelas roupas das pessoas

nas fotos, deviam ser bem antigas. Cantarolando, a Sra. Zimmermann folheou a pilha. De repente ficou boquiaberta. Rose Rita, que estava parada ali perto, virou-se e olhou para a Sra. Zimmermann. O rosto dela estava pálido, e a mão que segurava a fotografia estava tremendo.

O que foi, Sra. Zimmermann?

Venha

venha aqui, Rose Rita, e olhe isso.

Rose Rita foi para perto e olhou para a foto que ela estava segurando. Mostrava uma mulher num vestido antigo, que ia até o chão. Estava parada junto à margem de um rio, e segurava um remo de canoa. Atrás dela havia uma canoa perto da margem. Um homem de paletó listrado estava sentado de pernas cruzadas perto da canoa. Tinha um bigode de pontas viradas e estava tocando banjo. O homem parecia bonito, mas era impossível dizer como era a mulher. Alguém tinha raspado o rosto dela com uma faca ou uma lâmina de barbear.

mas era impossível dizer como era a mulher. Alguém tinha raspado o rosto dela com uma

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Rose Rita ainda não sabia o

Rose Rita ainda não sabia o que incomodava a Sra. Zimmermann. Mas enquanto ficou ali

pensando, a Sra. Zimmermann virou a foto. Na parte de trás havia as seguintes palavras escritas: Florence e Mordecai. Verão, 1905.

Minha nossa! - exclamou Rose Rita. Essa foto é sua?

A Sra. Zimmermann assentiu.

É. Ou melhor, era, até que alguém

Como é que uma foto sua veio parar aqui, Sra. Zimmermann? A senhora morava aqui?

Não. Eu nunca estive antes nesta cidade. Tudo isso é

fez isso. - Ela engoliu em seco.

bem, é muito estranho.

A voz da Sra. Zimmermann tremeu enquanto ela falava. Rose Rita podia ver claramente que ela

estava perturbada. A Sra. Zimmermann era o tipo de pessoa que geralmente dava a sensação de estar com tudo sob controle. Era uma figura calma e sensata. De modo que quando ficava perturbada, dava para ver que havia um motivo.

A Sra. Zimmermann comprou a fotografia com o velho da loja e a levou para a pousada. No

caminho explicou a Rose Rita que feiticeiras e feiticeiros mutilavam fotos assim quando queriam se livrar de alguém. Algumas vezes deixavam água pingar na foto até o rosto sumir; ou então raspavam o rosto com uma faca. De qualquer modo, era como fazer uma boneca de cera baseada em alguém e enfiar

alfinetes nela. Era um modo de assassinar uma pessoa usando magia. Os olhos de Rose Rita se arregalaram.

Quer dizer que alguém está tentando fazer alguma coisa com a senhora?

A Sra. Zimmermann deu um riso nervoso.

danificada,

bom é só uma coincidência engraçada. Mas quando você mexe com magia como eu, fica com idéias na cabeça. Quero dizer, algumas vezes a gente precisa ter cuidado. Rose Rita piscou.

Não, não acho. Todo esse negócio de encontrar a minha foto aqui, e encontrá-la

Não estou entendendo.

Quero dizer que eu vou queimar a foto - respondeu rapidamente a Sra. Zimmermann. Bom,

eu prefiro não falar mais nisso, se você não se importar. Mais tarde Rose Rita estava deitada na cama, tentando dormir. A Sra. Zimmermann estava lá embaixo, na sala de hóspedes, lendo - pelo menos era o que deveria estar fazendo. Seguindo uma intuição, Rose Rita levantou e foi até a janela. Lembrou-se de que tinha visto um incinerador no quintal dos fundos. De fato, lá estava a Sra. Zimmermann, parada junto ao incinerador. Alguma coisa estava queimando com um brilho fraco e vermelho no fundo da gaiola do incinerador. A Sra. Zimmermann ficou curvada, olhando. A luz vermelha tremulou em seu rosto. Rose Rita sentiu medo. Voltou para a

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel cama e tentou dormir, mas a

cama e tentou dormir, mas a imagem da amiga parada ali junto à fogueira, como uma bruxa numa história antiga, ficou voltando à sua mente. O que estava acontecendo?

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO QUATRO Na manhã seguinte, na
John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO QUATRO Na manhã seguinte, na

CAPÍTULO QUATRO

Na manhã seguinte, na hora do café, Rose Rita tentou fazer com que a Sra. Zimmermann falasse da fotografia, mas ela disse, em tom curto e grosso, para cuidar da sua vida. Isso, claro, deixou Rose Rita mais curiosa do que nunca, mas sua curiosidade não estava levando a lugar nenhum. O mistério teria de continuar sendo mistério, pelo menos por enquanto. Alguns dias mais tarde as duas estavam numa cidade perto da fronteira com o estado de Wisconsin. De novo tinham se hospedado numa pousada para passar a noite. Rose Rita foi colocar alguns cartões no correio, e no caminho de volta, por acaso, passou pelo ginásio esportivo de uma escola, onde um baile de sábado estava acontecendo, numa animação total. A noite era quente, e as portas do ginásio estavam abertas. Rose Rita parou um minuto na porta e olhou os jovens que se moviam lentamente pela pista de dança. Uma grande bola coberta de espelhinhos girava no alto, lançando moedas de luz nas pessoas que dançavam embaixo. O salão era fracamente iluminado com luz azul e vermelha. Rose Rita ficou olhando. Era realmente uma cena linda, e ela ficou imaginando que talvez fosse divertido ir a bailes. Mas então viu algumas garotas paradas perto das paredes. Ninguém dançava com elas. Só estavam ali paradas, olhando. Não parecia que estivessem se divertindo.

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Uma onda de tristeza varreu Rose

Uma onda de tristeza varreu Rose Rita. Sentiu lágrimas ardendo nos olhos. Será que no ano

seguinte ela estaria como aquelas garotas, tomando chá de cadeira? Seria melhor subir num trem de carga

e ir para a Califórnia, ser uma viajante clandestina. Será que deixavam garotas serem viajantes

clandestinas nos trens? Pensando bem, nunca tinha ouvido falar de garotas que fizessem isso. As garotas

só ficavam com o pior! Nem isso podiam ser.

Rose Rita sentiu raiva durante todo o caminho de volta. Subiu batendo os pés com força nos degraus da pousada e bateu a porta de tela ao entrar. Ali, na varanda, estava a Sra. Zimmermann, jogando paciência. Assim que viu Rose Rita, ela soube que havia algo errado.

Qual é o problema, querida? O mundo está muito pesado para você?

Está - disse Rose Rita, carrancuda. Posso sentar e conversar com a senhora?

Claro que sim. - A Sra. Zimmermann juntou as cartas num monte. De qualquer modo, esse jogo estava muito chato. O que está preocupando você?

Rose Rita sentou-se num balanço, ficou se balançando um tempo e depois disse de repente:

Se eu continuar amiga de Lewis, vou ter de namorar com ele, ir a bailes e coisas assim?

A Sra. Zimmermann ficou um pouco espantada. Olhou para o espaço um minuto e pensou.

Não - disse devagar, enquanto balançava para trás e para a frente. Não, não acho que você

tenha de fazer isso. Se não quiser. Você gosta de Lewis como amigo, e não porque ele apareceu na sua porta com um buquê de flores. Acho que a coisa talvez continue assim.

Puxa, a senhora é fantástica, Sra. Zimmermann! - disse Rose Rita, rindo. Gostaria que a

senhora conversasse com a minha mãe. Ela acha que eu e Lewis vamos nos casar no ano que vem, ou alguma coisa assim.

A Sra. Zimmermann fez uma cara azeda.

Se eu conversasse com a sua mãe, só faria as coisas piorarem, e não melhorarem - disse, enquanto começava outro jogo de paciência. Sua mãe não iria gostar muito se eu começasse a me

intrometer nos negócios da sua família. Além disso, talvez ela esteja certa. Em noventa e oito por cento dos casos uma amizade como a sua com Lewis acaba ou então se transforma num namoro. Talvez você descubra no ano que vem que você e Lewis vão tomar caminhos diferentes.

Mas eu não quero que isso aconteça - disse Rose Rita, teimosa. Eu gosto de Lewis. Gosto um bocado dele. Só quero que as coisas continuem como estão.

Ah, mas esse é o problema! As coisas não continuam como estão. Elas vivem mudando. Você

está mudando, e Lewis também. Quem sabe o que você e ele vão estar pensando daqui a seis meses, ou

daqui a um ano? Rose Rita pensou um pouco.

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel — É - disse finalmente. —

É - disse finalmente. Mas e se eu e Lewis só decidirmos ser amigos pelo resto da vida? E se eu não me casar, nunca? As pessoas vão pensar que eu sou uma solteirona? A Sra. Zimmermann pegou o baralho e começou a embaralhar lentamente. Bom - disse ela, pensativa , algumas pessoas diriam que já faz alguns anos que eu levo uma vida de solteirona. Quero dizer, desde que o meu marido morreu. A maioria das mulheres teria se casado de novo, o mais rapidamente possível, mas quando Honus morreu, eu decidi tentar a vida de solteira - ou de viúva, chame como quiser - por um tempo. E sabe de uma coisa? Não é tão ruim. Claro, ajuda se a gente tem amigos como Jonathan. Mas o que estou tentando dizer é que não há um modo que seja o melhor para fazer as coisas. Eu era feliz quando era casada, e estou feliz como viúva. De modo que você deve tentar diferentes coisas. Veja do que você gosta mais. Há pessoas, claro, que só podem fazer uma coisa, que só podem funcionar num tipo de situação. Mas eu acho que são pessoas bastante tristes, e eu odiaria pensar que você é uma delas.

num tipo de situação. Mas eu acho que são pessoas bastante tristes, e eu odiaria pensar

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel A Sra. Zimmermann parou de falar

A Sra. Zimmermann parou de falar e olhou para o espaço. Rose Rita ficou ali sentada, com a boca

aberta, esperando que ela dissesse mais. Mas ela ficou quieta. E quando se virou e viu o modo ansioso como Rose Rita a encarava, gargalhou.

Acabei com o meu sermão - disse ela, dando um risinho. E se você acha que eu vou dar

uma receita pronta para a sua vida, está maluca. Ande. Que tal uma ou duas partidinhas de cribbage antes

da hora de dormir?

Topo - disse Rose Rita, rindo.

A Sra. Zimmermann pegou seu tabuleiro de cribbage, e ela e Rose Rita jogaram até a hora de ir para

a cama. Depois subiram. Como sempre, havia dois quartos contíguos, um para Rose Rita e outro para a Sra. Zimmermann. Rose Rita lavou o rosto e escovou os dentes. Jogou-se na cama e dormiu praticamente antes de encostar no travesseiro. Mais tarde, por volta das duas da madrugada, Rose Rita acordou. Acordou com o sentimento de que havia algo errado. Muito errado. Mas quando se sentou e olhou em volta, o quarto parecia absolutamente pacífico. O reflexo da lua flutuava no espelho sobre a cômoda, e a luz da rua do lado de fora lançava um quebra-cabeça em preto e branco na porta do armário. As roupas de Rose Rita estavam muito bem empilhadas perto da cama. Então o que havia de errado? Bom, alguma coisa. Dava para sentir. Sentia-se tensa e agitada, e podia ouvir o coração batendo depressa. Lentamente afastou o lençol e saiu da cama. Demorou vários minutos, mas finalmente juntou coragem para ir até o armário e abrir a porta. Havia um monte de cabides embolados. Rose Rita soltou

um gritinho nervoso e pulou para trás. Não havia ninguém no armário. Deu um suspiro de alívio. Agora estava começando a se sentir idiota. Estava se comportando como uma daquelas velhas que olham debaixo da cama toda noite antes de apagar a luz. Mas quando estava para voltar à cama, ouviu um barulho. Vinha do quarto ao lado, e quando ela o ouviu, todo o

medo voltou correndo. Ah, qual é, sussurrou consigo mesma. Não seja tão medrosa! Mas não conseguia voltar para a cama. Tinha de ir olhar.

A porta entre o quarto da Sra. Zimmermann e o de Rose Rita estava aberta. Rose Rita foi na ponta

dos pés até lá e encostou a mão na maçaneta. Empurrou, e a porta se mexeu lentamente para dentro. Rose Rita congelou. Havia alguém parado perto da cama da Sra. Zimmermann. Durante um longo segundo a garota ficou olhando arregalada e rígida de terror. De repente deu um grito e saltou para dentro do quarto. A porta bateu contra a parede, e de algum modo a mão de Rose Rita encontrou o interruptor. A lâmpada no teto se acendeu, e a Sra. Zimmermann se sentou, descabelada e piscando. Mas não havia ninguém parado junto à cama. Absolutamente ninguém.

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO CINCO A Sra. Zimmermann esfregou
John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO CINCO A Sra. Zimmermann esfregou

CAPÍTULO CINCO

A Sra. Zimmermann esfregou os olhos. Em volta dela estavam as cobertas amarfanhadas, e ao pé

da cama estava Rose Rita, perplexa.

Santo Deus, Rose Rita! Isso é algum jogo novo? Afinal o que você está fazendo aqui?

A cabeça de Rose Rita estava num redemoinho. Começou a imaginar se não estaria ficando louca.

Tinha certeza, certeza absoluta, de que tinha visto alguém perto da cabeceira da cama da Sra. Zimmermann.

Puxa, desculpe, Sra. Zimmermann. Eu sinto muito, de verdade! Pensei que tinha visto alguém aqui dentro.

A Sra. Zimmermann inclinou a cabeça para um dos lados e deu um leve sorriso.

Querida, você esteve lendo muitos romances de Nancy Drew. O que você provavelmente viu

foi o meu vestido nesta cadeira. A janela está aberta, e ele devia estar balançando ao vento. Agora volte para a cama, pelo amor de Deus! Nós duas precisamos descansar se queremos passear por toda a Península Superior amanhã. Rose Rita olhou para a cadeira perto da cama. Um vestido roxo estava pendurado nas costas da cadeira. A noite estava quente e imóvel. Nenhum sopro de vento. Rose Rita não via como poderia ter confundido o vestido na cadeira com alguém andando pelo quarto. Mas o que tinha visto? Não sabia. Perplexa e envergonhada, recuou para a porta.

B

A Sra. Zimmermann deu um sorriso gentil. Em seguida encolheu os ombros.

boa noite, Sra. Zimmermann - gaguejou. Eu

eu sinto muito ter acordado a senhora.

Tudo bem, Rosie. Não faz mal. Eu já tive uns pesadelos bem ruins na minha vida. Bom, eu

lembro de um que

Vou dormir. - Rose Rita apagou a luz e voltou para o seu quarto. Deitou-se na cama, mas não

dormiu. Pôs as mãos atrás da cabeça e ficou olhando o teto. Estava preocupada. Primeiro tinha sido aquela fotografia, e agora isso. Alguma coisa estava acontecendo, mas não conseguia imaginar o que

não importa. Conto outra hora. Agora boa noite, e durma bem.

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel fosse. E havia aquele negócio da

fosse. E havia aquele negócio da invasão na fazenda de Oley, e a caixa do anel vazia. Será que tinha alguma coisa a ver com o que tinha acontecido esta noite? Pensou e pensou, mas não conseguiu nenhuma resposta. Era como ter duas ou três peças de um quebra-cabeça grande e complicado. As peças não faziam nenhum sentido sozinhas. Rose Rita achou que a Sra. Zimmermann devia estar tão preocupada quanto ela. Na verdade, provavelmente estava mais preocupada, já que as coisas estranhas estavam acontecendo com ela. Claro, a Sra. Zimmermann nunca daria a entender que estava preocupada. Ela estava sempre pronta a ajudar as outras pessoas, mas guardava seus problemas para si. Era o jeito dela. Rose Rita mordeu o lábio. Sentia-se impotente. E tinha uma forte sensação de que alguma coisa realmente ruim ia acontecer logo. O quê? Era outra coisa que ela não sabia. No dia seguinte, à tarde, estavam viajando por uma estrada esburacada a uns trinta quilômetros da cidade de Ironwood. Estavam havia cerca de uma hora nessa estrada, e agora já se preparavam para voltar. A Sra. Zimmermann queria que Rose Rita visse uma mina de cobre abandonada que tinha

pertencido a um amigo da família dela. A cada curva na estrada esperava vê-la. Mas a mina não apareceu, e a Sra. Zimmermann estava ficando desencorajada.

A estrada era simplesmente medonha. Bessie balançava tanto que Rose Rita se sentia dentro de um

liqüidificador. De vez em quando o carro batia num buraco, ou uma pedra voava e acertava a parte de baixo com um som que parecia um sino abafado. E era outro dia calorento. O suor descia pelo rosto de Rose Rita, e seus olhos ficavam embaçados o tempo todo. Mosquitos entravam e saíam pela janela do carro. Tentavam picar os braços de Rose Rita, e ela ficou dando tapas até os braços arderem.

Finalmente a Sra. Zimmermann pisou no freio. Desligou o motor e disse:

Ah, deixa para lá! Eu queria mostrar aquela mina, mas devia ser em outra estrada. É melhor

voltarmos se quisermos

Ah, meu Deus!

A Sra. Zimmermann segurou com força o volante e se dobrou ao meio. Seus dedos estavam

brancos debaixo da pele, e o rosto retorcido de dor. Ela apertou a barriga.

Meu

Deus! - ofegou. Eu

nunca

- Ela franziu o rosto e fechou os olhos. Quando pôde

falar de novo, sua voz não passava de um sussurro. Rose Rita? Rose Rita estava aterrorizada. Ficou sentada na beira do banco olhando a Sra. Zimmermann.

Sim, Sra. Zimmermann? O que

A Sra. Zimmermann conseguiu dar um sorriso frágil.

Não, eu não estou bem. Acho que estou com apendicite.

qual é o problema? O que aconteceu? A senhora está bem?

Ah, meu Deus! - Quando Rose Rita estava na quarta série, um garoto da sua turma tinha

morrido de apendicite. Os pais acharam que ele só tinha uma dor de estômago, até que era tarde demais. Então o apêndice se rompeu e ele morreu. Rose Rita ficou em pânico. Ah, meu Deus! - disse de

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel novo. — Sra. Zimmermann, o que

novo. Sra. Zimmermann, o que nós vamos fazer?

Ah, não, por favor,

não! - Ela se curvou de novo, retorcendo-se de dor. Lágrimas escorriam pelo seu rosto, e ela mordeu o

- ofegou a Sra. Zimmermann, quando

conseguiu falar de novo é que eu acho que não vou conseguir dirigir.

Rose Rita ficou perfeitamente imóvel e olhou para o painel. Quando falou, seus lábios mal se moveram.

lábio com tanta força que sangrou. O único problema

Nós

nós precisamos ir a um hospital rapidamente. O único problema é

Eu

A Sra. Zimmermann fechou os olhos enquanto outra onda de dor varria seu corpo.

eu acho que posso, Sra. Zimmermann.

O

o que você disse?

Eu disse que talvez consiga dirigir. Eu aprendi. - Rose Rita não estava dizendo exatamente a

verdade.

Cerca de um ano antes tinha ido visitar um primo que morava numa fazenda perto de Nova Zebedee. Ele tinha quatorze anos, e sabia dirigir trator. Rose Rita o havia chateado até ele finalmente concordar em lhe ensinar a trocar as marchas e usar e embreagem. Ensinou num velho carro arruinado que ficava num campo perto da casa da fazenda, e depois de ter mostrado o essencial, Rose Rita treinou sozinha até decorar as posições das marchas. Mas na verdade nunca estivera atrás do volante de um carro em movimento, ou mesmo de um carro com o motor ligado.

A Sra. Zimmermann não disse nada. Mas fez um gesto para Rose Rita sair do carro. Quando ela

fez isso, a Sra. Zimmermann se arrastou por cima do banco até onde Rose Rita estivera, e se encostou na porta, com a mão na barriga. Rose Rita rodeou o carro e se sentou no banco do motorista. Fechou a porta e ficou ali, olhando para o volante. Estava com medo, mas uma voz dentro dela dizia: ande. Você tem de fazer isso. Ela não pode, está doente demais. Anda, Rose Rita. Rose Rita se arrastou para a frente até estar sentada na beira do banco. Teria levantado o banco mais, mas teve medo de machucar a Sra. Zimmermann. Felizmente era alta para os treze anos, e tinha crescido um bocado no ano anterior. Seus pés alcançavam os pedais. Apertou o acelerador cautelosamente. Será que realmente podia fazer isso? Bom, precisaria tentar.

A Sra. Zimmermann tinha deixado o carro em primeira. Mas não era possível ligar um carro que

estava em primeira, precisava estar em ponto morto. Pelo menos fora o que Rose Rita tinha ouvido o primo dizer. Cuidadosamente apertou a embreagem e colocou a alavanca em ponto morto. Virou a chave, e o carro deu partida imediatamente. Agora, com o pé direito no acelerador e o esquerdo na embreagem, apertou a alavanca para a frente e para baixo. Lentamente começou a tirar o pé da embreagem, como tinha aprendido. O carro estremeceu, e o

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel motor morreu. soltar a embreagem —

motor morreu.

soltar a

embreagem

Certo. - Rose Rita estava tensa e tremendo inteira. Pôs o carro em ponto morto e ligou de

novo. Dessa vez, quando soltou a embreagem, realmente apertou o acelerador. O carro deu um pulo

para a frente e parou de novo. Aparentemente apertar demais o acelerador era tão ruim quanto apertar de menos. Rose Rita se virou para perguntar à Sra. Zimmermann o que fazer agora, mas ela havia desmaiado. Agora estava por conta própria. Trincou os dentes. Estava ficando furiosa.

Certo, vamos tentar de novo - falou em voz baixa e firme. Tentou, e de novo o motor morreu.

Morreu da vez seguinte também. Mas na outra, de algum modo, ela conseguiu soltar a embreagem e

apertar o acelerador na medida certa. O carro se moveu lentamente.

Isso, Bessie! gritou ela. Gritou tão alto que a Sra. Zimmermann abriu os olhos. Ela piscou e deu um sorriso frágil quando viu que o carro estava se movendo.

Você

precisa

apertar o

acelerador - ofegou a Sra. Zimmermann. Quando

aperte o acelerador.

Muito bem, Rosie! sussurrou ela. Depois tombou de lado e perdeu a consciência de novo.

De algum modo Rose Rita conseguiu virar o carro e colocá-lo de novo na direção de Ironwood. Agora estava escuro, e ela precisou acender os faróis. A estrada estava totalmente deserta. Sem fazendas, sem casas. Rose Rita se lembrou de um barraco arruinado pelo qual tinham passado, mas não parecia provável que alguém morasse ali. Não. A não ser que um carro passasse por acaso, não havia ajuda até

que chegassem à estrada asfaltada, de duas pistas, que levava a Ironwood. Engoliu em seco. Se pudesse manter o carro em movimento, talvez tudo desse certo. Olhou rapidamente para a Sra. Zimmermann. Ela estava tombada contra a porta. Seus olhos estavam fechados, e de vez em quando ela dava um gemido fraco. Rose Rita trincou os dentes e prosseguiu. Bessie se arrastava morro acima e morro abaixo, passando sobre calombos e pedras, entrando e saindo dos buracos. Os faróis fracos se estendiam para a noite. Mariposas e outros insetos noturnos passavam rapidamente. Rose Rita sentia como se estivesse dirigindo num túnel comprido e escuro. Pinheiros sombrios ladeavam a estrada. Pareciam pressionar até que Rose Rita se sentiu meio esmagada. Uma coruja uivou em algum lugar na floresta. Rose Rita sentiu-se sozinha e cheia de pavor. Queria dirigir rápido para sair daquele lugar medonho, mas estava com medo. A estrada era muito esburacada e ela tinha medo de aumentar a velocidade. Era apavorante ter um carro grande e pesado sob seu controle. A cada vez que o veículo batia num buraco, o volante se sacudia violentamente para a esquerda ou para a direita. Mas, de algum modo, a cada vez Rose Rita conseguia endireitá-lo. Ah, por favor, rezava, leve a gente até lá, Bessie. Por favor, leve a gente antes que a Sra. Zimmermann morra. Por favor

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Rose Rita não teve certeza de
John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Rose Rita não teve certeza de

Rose Rita não teve certeza de quando, mas depois de ter dirigido por um bom tempo na estrada escura e tortuosa, começou a ter a sensação de que havia mais alguém no carro com as duas. Não sabia por que tinha essa sensação, mas estava ali, e era muito persistente. Ficava olhando para o retrovisor, mas não via nada. Depois de um tempo a sensação ficou tão enlouquecedora que Rose Rita parou o carro. Pôs em ponto morto, puxou o freio de mão e, enquanto o carro chacoalhava, acendeu a luz do teto e olhou nervosamente para o banco de trás. Estava vazio. Rose Rita apagou a luz, engrenou o carro e seguiu. Mas o sentimento ficava voltando, e ela descobriu que era necessária muita força de vontade para impedir os olhos de ficarem indo para o retrovisor. O carro estava fazendo uma curva fechada quando ela olhou por acaso, e viu, refletida no espelho, a sombra de uma cabeça e dois olhos brilhantes. Gritou e girou o volante violentamente para a esquerda. Com um barulho de pneus, Bessie saiu da estrada e mergulhou por um barranco íngreme. O carro se sacudia loucamente, e o corpo inerte da Sra.

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Zimmermann bateu primeiro contra a porta,

Zimmermann bateu primeiro contra a porta, e depois escorregou sobre o banco até bater em Rose Rita. Em pânico, a garota agarrou o volante e tentou encontrar o freio com o pé, mas ficava errando o lugar. Seguiram descendo pela escuridão. Agora havia um som chiado e estalado do lado de fora do carro, e um cheiro estranho. No redemoinho febril de seu cérebro Rose Rita se pegou pensando: que cheiro é esse? Os estalos e o chiado ficaram mais altos, e finalmente Rose Rita achou o freio. Seu corpo se sacudiu para a frente, e a cabeça bateu no pára-brisa. Ela apagou.

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO SEIS Rose Rita sonhou que
John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO SEIS Rose Rita sonhou que

CAPÍTULO SEIS

Rose Rita sonhou que estava agarrada num pedaço de madeira flutuando no mar. Alguém estava

lhe dizendo:

Você está bem? Você está bem?

Essa é uma coisa idiota para se dizer, pensou ela. Depois abriu os olhos e descobriu que estava

sentada ao volante de Bessie. Havia um policial ao lado do carro. Ele enfiou a mão pela janela e tocou-a

gentilmente.

Você está bem, moça?

Rose Rita balançou a cabeça, grogue. Tocou a testa e sentiu um calombo inchando.

Estou, acho que sim, a não ser o galo na minha cabeça. Eu

meu Deus! O que aconteceu? -

Ela olhou em volta, e viu que o carro estava agarrado em alguns arbustos de junípero. Junípero! Esse era

o cheiro! A luz do dia escorria através das janelas empoeiradas. E ali, ao seu lado, estava a Sra.

Zimmermann. Estava dormindo. Ou será que estava

?

Rose Rita estendeu a mão e começou a sacudir o ombro da Sra. Zimmermann.

Acorde, Sra. Zimmermann! - soluçou. Ah, por favor! Acorde, acorde

Rose Rita sentiu a mão firme do policial em seu braço.

É melhor não fazer isso, moça. Você não sabe se ela quebrou algum osso. Uma ambulância

está vindo, e eles vão examiná-la antes de tentar mexer com ela. O que aconteceu? Você dormiu ao

volante?

Rose Rita balançou a cabeça.

Eu estava tentando levar a Sra. Zimmermann de volta para o hospital, porque ela ficou doente

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel de repente. Fiquei apavorada e o

de repente. Fiquei apavorada e o carro saiu da estrada. Eu só tenho treze anos, e não tenho carteira de motorista. O senhor vai me pôr na cadeia?

O policial deu um sorriso triste para Rose Rita.

Não, senhora. Pelo menos não desta vez. Mas acho que você não foi muito inteligente em dirigir o carro, mesmo sendo uma emergência e coisa e tal. Você podia acabar morrendo. Na verdade, se esses arbustos não estivessem aqui, você teria morrido. E sua amiga também. Mas ela está respirando bem. Eu olhei há um minuto. Só precisamos ficar firmes até a ambulância chegar. Pouco depois uma grande ambulância branca, com uma cruz vermelha na lateral, parou na estrada perto do carro da polícia. Dois homens de uniforme branco saíram e desceram o barranco. Traziam uma maca. Quando chegaram ao carro, a Sra. Zimmermann estava voltando a si. Os dois homens a examinaram, e quando tiveram certeza de que ela podia ser transportada, tiraram-na com cuidado do carro e a deitaram na maca. E subiram devagar o morro, levando-a. Depois de a colocarem em segurança na ambulância, voltaram para ver Rose Rita. Ela estava um pouco arranhada e abalada, mas só isso. Subiu o morro sem ajuda e entrou na parte de trás da ambulância com a Sra. Zimmermann. E foram embora, com a sirene gritando, em direção a Ironwood.

A Sra. Zimmermann passou os três dias seguintes no hospital em Ironwood. A dor misteriosa não

voltou, e os médicos informaram que não podia ser apendicite, porque era do lado errado. A Sra. Zimmermann estava perplexa e com medo. De algum modo era pior não saber a causa da dor, e a idéia de que pudesse voltar a qualquer momento bastava para deixá-la muito nervosa. Era como viver com uma bomba que poderia explodir ou não. Assim, por mais que desgostasse da idéia, a Sra. Zimmermann ficou na cama enquanto os médicos do hospital faziam uma série de exames. Enfermeiras enfiavam seringas nela e tiravam sangue. Davam remédios de gosto horrendo e faziam anotações em prontuários. Ela tirou raios X e foi posta na frente e dentro de todo tipo de máquinas de ficção científica. Doutores passavam de vez em quando para conversar, mas não falavam nada que ela quisesse saber. Enquanto isso Rose Rita se tornou hóspede do hospital. A Sra. Zimmermann explicou a situação aos doutores, e mostrou sua apólice de seguro (que sempre levava na bolsa, para qualquer eventualidade), e a apólice dizia claramente que ela tinha direito a um quarto particular. O quarto

particular tinha duas camas, e Rose Rita ficou dormindo numa delas. Jogava cartas e xadrez com a Sra. Zimmermann e ouvia os jogos noturnos com ela, pelo rádio. Por acaso os White Sox estavam jogando em Detroit, e a Sra. Zimmermann era fã dos White Sox porque tinha morado em Chicago. Assim as duas se divertiam torcendo para lados opostos, e até discutiam um bocado, ainda que não muito a sério. Algumas vezes, quando se chateava de ficar no quarto do hospital, Rose Rita saía e andava pela

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel cidade de Ironwood. Ia à biblioteca

cidade de Ironwood. Ia à biblioteca pública e foi ao cinema na tarde de sábado. Algumas vezes apenas

explorava. Perdeu-se uma ou duas vezes, mas as pessoas eram gentis, e ela sempre conseguia encontrar o caminho de volta para o hospital. Na tarde do terceiro dia em que a Sra. Zimmermann ficou no hospital, Rose Rita passou por acaso num terreno baldio onde alguns garotos estavam jogando bola uns para os outros. Estavam se cansando daquilo, mas não tinham gente suficiente para formar times e armar uma partida. Quando viram Rose Rita, perguntaram se ela queria jogar.

Claro que quero! - gritou ela. Mas o time que ficar comigo vai ter de deixar eu fazer os

lançamentos. Os garotos se entreolharam um minuto, mas depois de uma consulta apressada decidiram que Rose Rita poderia lançar. Rose Rita adorava jogar beisebol, e realmente gostava demais de ser lançadora. Era a única garota da escola que podia lançar uma bola de softball em curva. Tinha todo tipo de jogadas diferentes. Sua bola lançada por baixo era famosa - tão famosa que ela geralmente tinha de ser persuadida a não usá-la com rebatedores fracos, para que não errassem o tempo todo. Assim Rose Rita terminou jogando softball com um punhado de garotos que ela nunca tinha visto antes. Fez um bocado de pontos, e conseguiu pegar um bocado de bolas difíceis com a mão sem luva. Fez lançamentos, e lançou muito bem até que por acaso tirou da jogada um garoto grande com cabelo à escovinha. Ele achava que era um bom jogador, e não gostou de ser tirado por uma garota. Por isso começou a incomodar Rose Rita. Fez todo tipo de coisas: ficava chamando-a de Quatro Olhos, e sempre

que o time dela ocupava o campo, passava por ela, dava um empurrão com força e dizia numa voz maldosa: “Epa, desculpe, minha senhora!” Finalmente, quase no fim do jogo, Rose Rita rebateu uma bola longa que parecia boa para cobrir três bases. Mas quando ela mergulhou na terceira, de cabeça, ali estava o grandalhão de cabelo à escovinha, e ele estava com a bola na mão. Ele poderia tê-la acertado no ombro, no braço ou nas costas, mas enfiou a bola direto na boca de Rose Rita. Doeu de verdade. O jogo parou enquanto ela se recuperava. Verificou os dentes da frente para se certificar de que não estavam soltos, e cautelosamente esfregou o lábio superior, que estava inchado. Sentiu vontade de chorar, mas lutou contra a vontade. Depois de alguns minutos, continuou jogando. Na nona rodada, quando o garoto de cabelo à escovinha estava lançando pelo outro time, Rose Rita rebateu, fez um home run e ganhou o jogo para o seu time. Quando ela atravessou a base, todos os garotos do seu lado se juntaram em volta e gritaram “Muito bem, Rose Rita!” três vezes. Isso realmente fez com que ela se sentisse ótima. Mas então percebeu que o cara que a estivera xingando estava parado no montinho do lançador, olhando-a com cara de mau.

Ei, Quatro Olhos! gritou ele. Você acha que é muito boa, não é?

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel — É, acho sim - gritou

É, acho sim - gritou Rose Rita de volta. O que você acha?

Não acho grande coisa. Ei, Quatro Olhos, o que você sabe sobre beisebol?

Muito mais do que você.

Ah, é? Então prove.

O que você quer dizer com prove?

Quero dizer: vamos disputar para ver quem sabe mais sobre beisebol, certo? Que tal? Está com

medo? Tá com medo, é? Rose Rita riu. Era uma chance boa demais para deixar escapar. Por acaso ela era totalmente maluca por beisebol. Sabia todo tipo de fatos sobre o esporte, como o total de pontos feitos por Ty Cobb e o número registrado de triple plays sem assistência. Sabia até sobre o grande recorde de Smead Jolley: quatro erros numa única bola jogada. Assim achou que daria àquele garoto metido uma surra no jogo dos fatos sobre beisebol e se vingaria dos xingamentos. Todo mundo se reuniu em volta para ver a disputa. Um dos outros garotos, um louro de olhos aquosos que falava pelo nariz, foi escolhido para pensar nas perguntas. A princípio foi uma batalha bastante difícil. Por acaso o valentão era bastante bom nos fatos sobre beisebol. Sabia quem eram os reis das bolas rebatidas para fora do estádio, e quem era o vencedor do último thirty-game, e um monte de outras coisas. Mas Rose Rita sabia as coisas que o valentão sabia, de modo que se tornou uma disputa tensa que prosseguiu por algum tempo, sem que nenhum dos dois conseguisse ganhar. No fim Rose Rita venceu porque sabia que Bill Wambsganss, dos Indians de Cleveland, tinha feito o único triple play sem

assistência durante um jogo da Série Mundial. O valentão teve a primeira chance de responder à

pergunta, mas não soube a resposta. Então foi a vez de Rose Rita, e ela soube imediatamente. Vários garotos gritaram: “Muito bem, Rose Rita!” e um deles até correu para apertar sua mão. O valentão só ficou com a cara vermelha. Olhou sério para ela. Se antes estava com raiva, agora estava furioso.

Você se acha muito esperta, não é? - rosnou ele.

É - disse Rose Rita, feliz.

O valentão pôs a mão nos lábios e a encarou nos olhos.

Bom, quer saber o que eu acho? Acho que você é uma garota muito estranha, é isso que eu

acho. Uma garota estranha de-mais. Foi uma observação estúpida, mas feriu Rose Rita. Feriu como se fosse um tapa no rosto. Para espanto de todo mundo, ela irrompeu em lágrimas e saiu correndo do campo. Você é uma garota muito estranha. Rose Rita tinha ouvido pessoas dizerem isso antes, e o que era pior, ela mesma se achava assim. Freqüentemente tinha pensado se realmente havia algo errado com ela. Agia como um garoto, mas era

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel uma garota. Seu melhor amigo era

uma garota. Seu melhor amigo era um garoto, mas a maioria das garotas que ela conhecia tinha garotas como melhores amigas. Não queria namorar, ainda que algumas garotas que ela conhecia já tivessem começado a namorar e tivessem lhe dito como era divertido. Uma garota estranha - Rose Rita não conseguia tirar as palavras da cabeça. Parou numa esquina. Pegou o lenço e enxugou os olhos, e depois assoou o nariz. Pelo modo

como as pessoas olhavam, ela achou que realmente devia estar uma lástima. Agora sentia raiva de si mesma, sentia raiva porque tinha deixado aquele garoto idiota pegar no seu pé daquele jeito. Enquanto caminhava, disse a si mesma que tinha muitas coisas com as quais podia se sentir bem: praticamente tinha ganho o jogo sozinha para o time, e tinha ganho a disputa sobre os fatos do beisebol, apesar do que aconteceu depois. Começou a assobiar, e depois de dois ou três quarteirões assobiando sentiu-se melhor. Decidiu voltar ao hospital, só para ver o que estava acontecendo. Quando entrou no quarto da Sra. Zimmermann, entrou no meio de uma discussão. A Sra. Zimmermann estava sentada na cama, e estava batendo boca com um médico jovem, de aparência preocupada.

Mas Sra. Zimmermann - implorou o médico , a senhora está arriscando tremendamente a sua saúde! Se nós tivéssemos mais um ou dois dias, poderíamos descobrir

A Sra. Zimmermann o interrompeu com ar de desprezo:

Ah, claro! Se eu ficasse aqui um ano, e se ficasse muito, muito paradinha, acabaria com feridas

de tanto permanecer deitada, e então vocês saberiam o que fazer com elas, não é? Bom, sinto muito. Eu

já desperdicei tempo demais. Amanhã de manhã Rose Rita e eu vamos pôr o pé na estrada. Vocês não passam de um punhado de charlatães, como a maioria dos médicos.

Ora, Sra. Zimmermann, eu fico chateado com isso. Nós tentamos muito ser gentis com a

senhora, e também tentamos descobrir o motivo da sua dor. Só porque todos os exames deram negativo

não é razão para O médico continuou, e então a Sra. Zimmermann interrompeu de novo. Rose Rita sentou-se numa poltrona e se escondeu atrás de um exemplar do Jornal do Lar. Esperava que eles não a percebessem. A discussão continuou durante um tempo, o doutor implorava, e a Sra. Zimmermann estava mais mal-educada e insultuosa do que Rose Rita jamais tinha visto. No fim a Sra. Zimmermann venceu. O médico concordou com que ela saísse na manhã seguinte, se quisesse.

A Sra. Zimmermann ficou olhando o médico pegar sua prancheta, o estetoscópio e a maleta de

remédios. Quando ele tinha saído e fechado a porta, ela levantou a mão e fez um gesto para Rose Rita se

aproximar da cama.

Rose Rita, nós estamos com um problema.

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Hein?

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel — Hein? — Eu disse que

Eu disse que nós estamos com um problema. Eu mandei meu vestido para ser lavado a seco.

Você sabe qual, o vestido que eu estava usando quando senti a dor. O mesmo vestido que estava

pendurado na cadeira da minha cama na noite em que você pensou ter visto alguma coisa no quarto. Lembra? Rose Rita assentiu.

Bom, o vestido voltou hoje, e olhe o que veio junto.

A Sra. Zimmermann abriu uma gaveta na mesa que ficava ao lado da cama. Pegou um pequeno

envelope de papel pardo e esvaziou o conteúdo na mão de Rose Rita. Rose Rita olhou e viu um pequeno alfinete de segurança dourado e uma tirinha de papel. Havia algo escrito em tinta vermelha no papel, mas ela não conseguiu ler.

O que é?

É um feitiço. O pessoal da lavanderia achou preso do lado de dentro do meu vestido. Não se

preocupe, não pode fazer mal a você. Essas coisas só funcionam para uma pessoa de cada vez.

A senhora

a senhora quer dizer

Sim, querida. Aquela tirinha de papel causou as dores que eu senti na outra noite. - A Sra.

Zimmermann deu um riso triste. Imagino o que o Dr. Espertinho aqui diria se eu lhe contasse isso! A

propósito, desculpe eu ter sido tão má com ele, mas tinha de ser, para que ele nos deixasse ir. Rose Rita estava amedrontada. Pôs a tira de papel e o alfinete sobre a mesa e recuou.

Sra. Zimmermann, o que nós vamos fazer?

Não sei, Rose Rita, simplesmente não sei. Alguém está me perseguindo, isso é claro. Mas quem

é, ou por que está fazendo isso, eu simplesmente não sei. Tenho algumas idéias, mas preferia não contar agora, se você não se importar. Eu disse tudo isso porque não quero que você se sinta culpada por ter saído da estrada naquela noite. Você tinha todo o direito de estar com medo. A coisa que você viu no

banco de trás

bem, não estava na sua cabeça. Era real. Rose Rita estremeceu.

O

o que era aquilo?

Eu preferiria não falar mais nada agora. Mas vou lhe dizer o seguinte: nós temos de ir para casa, e temos de ir depressa. Eu preciso pegar meu exemplar do Malleus Maleficarum.

O quê?

O Malleus Maleficarum. É um livro que foi escrito há muito tempo por um monge. O título significa O Martelo das feiticeiras. Isto é, o livro é uma arma para ser usada contra os ataques dos que mexem com magia negra. Nele há uma quantidade de feitiços que serão úteis para mim. Eu deveria tê- los decorado há muito tempo, mas não decorei. Por isso preciso do livro, e não é o tipo de coisa que a gente acha numa biblioteca pública. Nós vamos para casa amanhã cedinho, e eu achei que deveria lhe

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel contar por quê. Não queria assustá-la,

contar por quê. Não queria assustá-la, mas achei que você ficaria ainda mais assustada se eu continuasse sendo misteriosa. Rose Rita apontou para a tira de papel.

O que a senhora vai fazer com isso?

Olhe. - A Sra. Zimmermann pegou uma caixa de fósforos na gaveta ao lado da mesa. Pôs o

papel no cinzeiro e o acendeu. Enquanto ele queimava, ela fez o sinal-da-cruz sobre o cinzeiro e murmurou uma oração estranha. Rose Rita ficou olhando, fascinada. Sentia medo, mas também sentia empolgação, como se de repente tivesse sido arrancada de sua vida normal e lançada numa aventura. Naquela noite Rose Rita ajudou a Sra. Zimmermann a fazer as malas. Também arrumou suas coisas. A Sra. Zimmermann disse que Bessie estava no estacionamento atrás do hospital. Um reboque havia tirado o carro dos arbustos de junípero, e os mecânicos de uma garagem local tinham feito uma

revisão. Ela estava abastecida e lubrificada, e pronta para viajar. Uma enfermeira apareceu com alguns papéis para a Sra. Zimmermann assinar. O médico fez mais uma visita e disse (com bastante frieza) que esperava que a Sra. Zimmermann fizesse uma boa viagem de volta. Tudo estava pronto. Rose Rita e a Sra. Zimmermann foram para a cama e tentaram dormir um pouco. A princípio Rose Rita estava agitada demais para dormir, mas por volta da meia-noite caiu no sono. Então, antes que soubesse o que estava acontecendo, acordou de novo. A Sra. Zimmermann estava parada junto à sua cama. Estava sacudindo-a e apontando uma lanterna para os seus olhos.

Ande, Rose Rita! Acorde! - sussurrou a Sra. Zimmermann. Nós precisamos ir! Agora!

Rose Rita sacudiu a cabeça e esfregou os olhos. Procurou os óculos e colocou no rosto.

O que

Acorde, eu disse! Nós vamos para a fazenda. Agora. Temos de ir.

Rose Rita se sentiu totalmente confusa.

Para a fazenda? Mas eu achei que a senhora tinha dito

Não importa o que eu disse. Vista-se e venha atrás de mim. Nós vamos voltar à fazenda para

qual é o problema?

para pegar uma coisa que eu deixei lá. Venha! Mexa-se! - Ela sacudiu Rose Rita de novo, com força, e apontou a luz para os seus olhos. Rose Rita nunca tinha visto a Sra. Zimmermann agir assim antes. Sua voz estava áspera, e as ações eram rudes e quase brutais. Era quase como se alguma coisa tivesse entrado

dentro do corpo dela. E esse negócio de ir para a fazenda, em vez de ir direto para casa como tinham planejado, o que significava?

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Enquanto Rose Rita se vestia, a
John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Enquanto Rose Rita se vestia, a

Enquanto Rose Rita se vestia, a Sra. Zimmermann ficou ali parada, rígida e imóvel, atrás do clarão branco da lanterna. Rose Rita não podia ver o rosto dela, e não tinha certeza de que queria ver. Quando estava vestida, pegou a valise e foi atrás da Sra. Zimmermann. As duas foram na ponta dos pés até a porta, abriram uma fresta e espiaram pelo corredor comprido. No final havia uma enfermeira sentada e cochilando atrás de uma mesa. Um relógio elétrico zumbia na parede acima da cabeça dela. Todo o hospital parecia adormecido. Bom - disse a Sra. Zimmermann, e foi na frente, pelo corredor, até uma escada. A escada levava ao estacionamento atrás do hospital. Ali, à luz da lua, estava Bessie, o Plymouth verde, olhando para a frente com paciência, como sempre. Rose Rita pôs a bagagem no porta-malas. A Sra. Zimmermann deu partida no carro e as duas foram embora. Foi uma viagem longa e empoeirada, o dia inteiro, atravessando toda a extensão da Península

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Superior. Para Rose Rita foi como

Superior. Para Rose Rita foi como um pesadelo. Geralmente a Sra. Zimmermann era divertida durante as

viagens. Ria, brincava e cantava, e falava sem parar. Quando a garota insistia muito, ela até fazia alguns truques de magia, como produzir fósforos do nada ou lançar a voz para o mato na beira da estrada. Mas agora, enquanto viajavam lado a lado, ela estava quieta. Parecia pensar em alguma coisa, mas não queria dizer o que era. E a Sra. Zimmermann estava nervosa - muito nervosa. Olhava agitada de um lado para o outro, e algumas vezes ficava tão trêmula que quase saía com o carro da estrada. Rose Rita ficou ali parada, rígida no canto perto da porta, com as mãos suadas do lado do corpo. Não sabia o que fazer nem o que dizer.

O sol estava descendo sobre o estreito de Mackinac, e Bessie entrou no estacionamento do cais da

balsa em St. Ignace. Uma barca tinha acabado de sair, e a Sra. Zimmermann e Rose Rita tiveram de esperar durante uma hora pela próxima. Esperaram em silêncio, nenhuma das duas disse uma palavra o tempo todo. Rose Rita foi comprar alguns sanduíches. Foi idéia sua - a Sra. Zimmermann não tinha

parado para almoçar. Mas finalmente a barca chegou. Chamava-se Grand Traverse Bay. O céu estava escuro, e a lua subia sobre o estreito, quando a Sra. Zimmermann dirigiu Bessie pela prancha bamba e desceu no porão escuro e cheio de ecos da embarcação. Quando o carro estava estacionado e as travas tinham sido postas nas rodas, Rose Rita começou a sair, mas então descobriu que a Sra. Zimmermann estava parada, imóvel atrás do volante.

Sra. Zimmermann? - chamou ela, nervosa. A senhora não vem?

A Sra. Zimmermann estremeceu de leve e balançou a cabeça. Olhou para Rose Rita como se

nunca a tivesse visto antes.

Vir? Ah

sim. Sim, claro. Já vou com você.

Ela saiu do carro e, como uma sonâmbula, subiu a escada até o convés. Teria sido uma bela travessia. A lua brilhava, prateando o convés e a água ondulada do estreito. Rose Rita tentou fazer a Sra. Zimmermann caminhar com ela pelo convés, mas a velha não quis. Ficou sentada rígida num banco, olhando para os sapatos. Rose Rita estava amedrontada. Isso não era mais uma aventura. Ela queria, queria de todo o coração, que as duas não tivessem vindo nessa viagem. Queria que estivessem de volta em Nova Zebedee. Talvez, se estivessem em casa, o tio Jonathan, ou o doutor Humphries, ou alguém, poderia descobrir o que havia de errado com a Sra. Zimmermann e a fizesse agir de seu modo antigo. Rose Rita achava que não podia fazer nada pela Sra. Zimmermann. Sentia-se totalmente desamparada. Só podia ficar junto. Ficar junto e esperar. Cerca de uma hora depois as duas estavam no carro, seguindo pela estrada de cascalho que levava à fazenda de Oley Gunderson. Passaram pela loja de Gert Bigger e viram que estava fechada. Havia uma luz minúscula acesa na varanda.

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Rose Rita não pôde agüentar mais.

Rose Rita não pôde agüentar mais.

Sra. Zimmermann - disse bruscamente. Por que nós estamos indo à fazenda? O que está

acontecendo? A princípio a Sra. Zimmermann ficou quieta. Depois disse, numa voz lenta e opaca:

Não sei por quê. Há alguma coisa que eu tenho de fazer lá, mas não consigo lembrar o que é.

Seguiram. O cascalho estalava e pulava debaixo dos pneus do carro, e algumas vezes galhos compridos e cheios de folhas chicoteavam as portas ou o teto. Então começou a chover. Grandes gotas começaram a bater no pára-brisa, e Rose Rita ouviu o ribombar de um trovão. Clarões dos relâmpagos saltavam na frente do carro. Agora estavam na fazenda. Enquanto chegavam ao pátio, um clarão forte iluminou a frente do celeiro, mostrando as duas janelas que olhavam fixamente e a porta que era uma boca bocejando. Era como uma boca monstruosa, aberta para engolir as duas. Como estava chovendo do lado de fora, Rose Rita e a Sra. Zimmermann entraram na casa passando pelo comprido caminho coberto que a ligava ao celeiro. Mas quando destrancaram a porta e tentaram acender as luzes, nada aconteceu. A Sra. Zimmermann tinha esquecido de pagar as contas de luz atrasadas de Oley, e a eletricidade tinha sido cortada depois da primeira visita delas. Depois de remexer num armário, ela achou um lampião de querosene. Acendeu-o e pôs sobre a mesa da cozinha. Rose Rita abriu o cesto de piquenique e as duas se sentaram para comer os sanduíches que ela havia comprado. Comeram em silêncio. À luz amarela e enfumaçada o rosto da Sra. Zimmermann parecia cansado e abatido. Além disso ela parecia tensa, muito tensa, como se esperasse algo acontecer. Rose Rita olhava nervosa por cima do ombro. Para além do círculo de luz amigável do lampião a casa estava em sombras. A escada era um poço de escuridão. Rose Rita percebeu, com uma sensação súbita de enjôo, que teria de subir aquela escada para ir dormir. Não queria ir dormir. Não queria ficar mais um minuto na casa de Oley. Queria enfiar a Sra. Zimmermann no carro e obrigá-la a voltar para Nova Zebedee, mesmo que tivessem de viajar a noite inteira. Mas não disse nada. Não fez nenhum movimento. Qualquer que fosse o feitiço lançado sobre a Sra. Zimmermann, ele pairava sobre Rose Rita também. Ela se sentia totalmente sem forças. Lá fora caía um aguaceiro. A varanda da frente tinha telhado de zinco, e o som da chuva batendo nele era um estrondo constante. Por fim, com um esforço, Rose Rita empurrou a cadeira para trás.

Levantou-se.

acho que a gente devia ir para a cama, Sra. Zimmermann - disse rouca. Sua voz

estava fraca e parecia vir lá do fundo.

e pensar um pouco. - A voz da Sra. Zimmermann

era dura e mecânica, e inacreditavelmente cansada. Quase parecia que ela estava falando dormindo.

Eu acho que

Vá você, Rose Rita. Eu quero ficar aqui e

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Rose Rita recuou com medo. Pegou

Rose Rita recuou com medo. Pegou sua valise, sua lanterna e se virou para a escada. Enquanto subia, com a lanterna na mão, sua sombra e a sombra do corrimão dançavam loucamente na parede ao lado. Na metade da subida Rose Rita parou e olhou para baixo. Ali estava a Sra. Zimmermann no círculo

de luz amarela. Suas mãos estavam cruzadas sobre a mesa, e ela olhava direto à frente. Rose Rita estava sentindo que, se a chamasse, não teria resposta. Engoliu em seco e continuou subindo. O quarto com a cama de nogueira preta estava como Rose Rita o tinha deixado. Começou a puxar

a colcha, mas parou na metade. Parou porque tinha ouvido um barulho lá embaixo. Um barulho só, e

pequeno. Toc. O som do anel da Sra. Zimmermann. Depois o som se repetiu, três vezes. Toc

som era lento e mecânico, como o tique-taque de um relógio grande. Rose Rita ficou parada, segurando

a lanterna. Ouviu o som e tentou imaginar o que significava. De repente uma porta bateu. Rose Rita deu um gritinho e girou. Saiu correndo do quarto e desceu a escada. No patamar, congelou. Ali estava a mesa, com o lampião aceso. Ali estava a bolsa da Sra. Zimmermann, e a caixa de charutos. A porta da frente estava aberta. Batia suavemente ao vento. A Sra. Zimmermann tinha sumido.

toc. O

toc

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO SETE Rose Rita ficou parada
John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO SETE Rose Rita ficou parada

CAPÍTULO SETE

Rose Rita ficou parada na varanda da casa da fazenda. A lanterna estava pendurada numa das mãos e fazia um poço de luz aos seus pés. Jorros de chuva caíam sobre os sapatos, e os raios iluminavam as árvores que se sacudiam feito loucas do outro lado da estrada. Trovões soavam. Rose Rita ficou perplexa. Sentia-se como se estivesse andando enquanto dormia. A Sra. Zimmermann tinha ido embora. Mas para onde, e por quê? O que tinha acontecido com ela? Pondo as mãos em concha sobre a boca, gritou: Sra. Zimmermann! Sra. Zimmermann! - mas não obteve resposta. Lentamente desceu os degraus, balançando a lanterna na frente do corpo. Na parte de baixo parou e olhou em volta. Se a Sra. Zimmermann tivesse saído pela porta da frente e descido os degraus, deveria ser fácil descobrir que caminho havia tomado. O quintal da frente era cheio de grama alta, e Rose Rita e a Sra. Zimmermann não tinham pisado nela ao chegar, porque tinham vindo pelo caminho coberto. Agora, enquanto movimentava a lanterna, Rose Rita viu um pequeno trecho de grama amassada na base da pequena escada. Mas nenhum caminho se afastava dali, em nenhuma direção. Era como se a Sra. Zimmermann tivesse evaporado. O pânico tomou conta de Rose Rita. Gritando “Sra. Zimmermann!” a plenos pulmões, foi pelo capim molhado até chegar à estrada. Olhou à direita. Olhou à esquerda. Nada além de escuridão e chuva. Rose Rita caiu de joelhos numa poça e começou a chorar. Cobriu o rosto com as mãos e soluçou. A chuva fria desabava sobre ela e a encharcou até os ossos.

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Depois de um longo tempo se

Depois de um longo tempo se levantou. Como uma pessoa bêbada, meio cega pelas lágrimas, voltou à casa. Mas parou na varanda. Não queria voltar àquela casa. Não agora, no escuro. Com um tremor, virou-se. Mas aonde poderia ir? Bessie. Pensou em Bessie lá no celeiro. O celeiro era um lugar escuro e assustador, como a casa, mas Bessie era uma criatura amigável. Agora Rose Rita realmente pensava no carro como uma pessoa viva. Podia dormir no carro. Ele não iria machucá-la - iria protegê-la. Inspirou fundo, estremecendo, apertou os punhos e começou a ir para o celeiro. A chuva a golpeava o tempo todo. O som da grande porta se abrindo ecoou no teto alto do celeiro. Ali estava Bessie, esperando. Rose Rita deu um tapinha no capô e subiu no banco de trás. Trancou todas as portas. Depois se deitou e tentou dormir, mas não adiantou. Estava tensa demais. A noite toda Rose Rita ficou ali, molhada, apavorada, cansada e sozinha. Uma ou duas vezes sentou-se de repente quando pensou ter visto um rosto junto à janela do carro. Mas estava tudo na sua imaginação - não havia ninguém ali. Enquanto estava olhando para o teto do carro e ouvindo a tempestade, Rose Rita pensava. A Sra. Zimmermann tinha desaparecido. Desaparecido como se por mágica. Na verdade não havia um “como se”. O desaparecimento da Sra. Zimmermann tinha sido causado por magia. Repassou a seqüência de acontecimentos: primeiro tinha havido a estranha carta de Oley sobre um anel mágico, e depois a caixa do anel vazia. Depois veio a fotografia mutilada, e a sombra que Rose Rita vira se movendo no quarto da Sra. Zimmermann naquela noite. Depois as dores horríveis e a tira de papel, e o modo estranho como a Sra. Zimmermann tinha se comportado na viagem de volta à fazenda. Mas qual era a chave para entender aquilo tudo? Será que era o anel? Será que alguém estava com ele, e tinha-o usado para fazer coisas com a Sra. Zimmermann? Parecia uma explicação razoável. Mas uma explicação razoável não iria adiantar grande coisa. A Sra. Zimmermann tinha desaparecido, e Rose Rita não sabia aonde ir para encontrá-la. Talvez ela estivesse morta. E quanto ao anel mágico, se essa coisa

bom, Rose Rita não sabia quem estava com ele, e não tinha a menor idéia do que faria se

existisse

soubesse. De modo que a coisa não tinha saída. Pensou assim, em círculos intermináveis, durante a noite inteira, enquanto os trovões ribombavam acima e os raios iluminavam de vez em quando as janelas empoeiradas do celeiro. Finalmente a manhã chegou. Rose Rita saiu à luz do sol e encontrou tudo brilhando, fresco e verde. Melros se fartavam com as frutinhas de uma árvore torta no quintal. Rose Rita sentiu um jorro súbito de alegria, mas então se lembrou da Sra. Zimmermann, e irrompeu em lágrimas de novo. Não, disse com firmeza a si mesma, piscando para conter as lágrimas e afastando o cabelo dos olhos. Você não vai chorar. Isso não adianta nada, sua idiota. Você precisa fazer alguma coisa! Mas o quê? Estava ali, sozinha, a quatrocentos e cinqüenta quilômetros de casa. Por um instante

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel louco pensou que deveria dirigir Bessie

louco pensou que deveria dirigir Bessie até Nova Zebedee. Afinal de contas tinha dirigido o carro durante um tempinho, naquela estrada perto de Ironwood. Mas estava com medo. Com medo de ser apanhada por um policial, de ter um acidente. Além disso, ir para casa não ajudaria a encontrar a Sra. Zimmermann. Precisava pensar em outra

coisa.

Sentou-se nos degraus da frente, pôs a cabeça nas mãos e pensou mais um pouco. Será que deveria telefonar para os pais e pedir que viessem pegá-la? Dava para ouvir o que seu pai diria: “Está vendo, Louise, é isso que acontece quando você deixa Rose Rita andar por aí com gente maluca! A bruxa velha voou numa vassoura e deixou Rose Rita lá para apodrecer. Bom, talvez da próxima vez em que pensar

em deixar sua filha ir flanar com uma desmiolada você

não sem a Sra. Zimmermann. Pensou mais um pouco. Revirou o cérebro. Cruzou e descruzou as pernas, mordeu os lábios e fumegou. Ela era uma verdadeira lutadora, e não iria abandonar a Sra. Zimmermann. Não se houvesse algo a fazer. Pulou e estalou os dedos. Claro! Que idiota tinha sido! Por que não tinha pensado nisso antes? Havia aquele livro, o tal Marreta Não Sei das Quantas, ou sei lá como ela o chamou. O livro que a Sra. Zimmermann ia pegar em casa quando mudou de idéia - ou alguém mudou para ela. Mas Rose Rita não tinha o livro. Nem sabia onde podia conseguir um exemplar. Sentou-se de novo. Pensou em livros mágicos durante um tempo. Fileiras deles, arrumados em prateleiras, livros com capas de couro e letras retorcidas nas lombadas. Era isso! Jonathan tinha livros mágicos. Tinha uma coleção inteira. E mais, ele tinha a chave da casa da Sra. Zimmermann. Se não encontrasse o tal Marreta das Candongas, podia ir à casa dela e pegar na estante da Sra. Zimmermann. Além disso Jonathan tinha conhecimento de magia, porque também era feiticeiro. Rose Rita poderia contar a ele o que tinha acontecido, e ele não pensaria que ela havia perdido as estribeiras. O bom e velho Jonathan! Ele saberia o que fazer. Rose Rita se levantou e entrou na casa. Havia um velho telefone de manivela na parede da cozinha. Ela tirou o fone do gancho e deu algumas voltas na manivela. A sineta dentro da caixa tocou, mas a linha estava muda. A Sra. Zimmermann tinha esquecido de pagar a conta de eletricidade de Oley, e também tinha esquecido de pagar a conta telefônica. Desligou o telefone e ficou ali parada, sentindo-se deprimida. Mas então lembrou da loja de Gert Bigger. Provavelmente lá havia um telefone que ela pudesse usar. Rose Rita não queria encontrar de novo aquela velha chata que tinha enganado a Sra. Zimmermann na noite em que as duas ficaram sem gasolina, mas não via outro modo. A loja de Gert Bigger ficava a apenas alguns quilômetros de distância. Ela teria de caminhar até lá para conseguir ajuda.

Rose Rita encolheu. Não queria encarar o pai,

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Saiu. O dia já estava quente,

Saiu. O dia já estava quente, mesmo sendo cedo, e a estrada estava cheia de poeira. Subia vapor da sua roupa, que ainda estava úmida da noite. Imaginou se iria pegar um resfriado, mas não imaginou com muita força. Pegar um resfriado era a menor de suas preocupações naquele momento. A loja de Gert Bigger ficava mais longe do que Rose Rita tinha imaginado. Moscas zumbiam em volta quando ela passou por uma curva e viu a loja que parecia tremular ao calor. Parecia exatamente como tinha visto da última vez. Mas, à medida que se aproximava, Rose Rita percebeu uma diferença. Havia uma galinha no galinheiro. Só uma. Uma galinha branca e de aparência cansada. Assim que viu Rose Rita, a galinha começou a cacarejar agitada e a correr de um lado para o outro. Rose Rita sorriu. Ela tivera uma galinha branca como bicho de estimação, havia muito tempo. Chamava-se Henny Penny. Aquela pobre galinha solitária a fez lembrar-se dela. Rose Rita imaginou por que a galinha estava tão agitada, e então percebeu um toco num canto do quintal. Parecia que a velha Henny Penny ia para a panela daqui a pouco. Coitada, pensou a garota. Provavelmente acha que eu estou vindo cortar a sua cabeça. Rose Rita se virou e começou a subir a escada da loja, mas ao fazer isso quase pisou num pequeno cachorro preto. Era o mesmo que rinha latido para ela e a Sra. Zimmermann da outra vez. Devia estar encolhido na sombra, porque Rose Rita podia ter jurado que os degraus estavam vazios quando tinha olhado um segundo antes. Imitando a Sra. Zimmermann, ela recuou o pé como se fosse chutar o bicho, e, como antes, ele correu para os arbustos e desapareceu. Rose Rita subiu a escada. Abriu a porta e olhou para dentro. Lá estava Gert Bigger, ajoelhada no chão. Estava pegando caixas de cereal e colocando numa prateleira.

Bom - disse ela, olhando mal-humorada. O que você quer?

eu preciso dar um telefonema. - A voz de Rose Rita estava trêmula, e ela sentiu medo de

começar a chorar.

Precisa, é? Bom, é melhor ter algum dinheiro. Há um telefone público ali na parede. - Gert

Bigger apontou para um telefone preto e arranhado no final do balcão. Rose Rita enfiou a mão no bolso e pegou uma moeda de dez centavos e algumas de um centavo. Teria de ligar a cobrar. Enquanto ia na direção do telefone, teve consciência de que Gert Bigger a estava vigiando. Tentou imaginar por quê. Ah, bem, pensou, ela só é enxerida. Pôs as moedas em cima de uma pequena prateleira na frente do telefone e leu o papel amarelo com instruções. Para um telefonema a cobrar teria de discar 0 para a telefonista. Pôs o dedo no buraco do 0 e estava começando a discar quando viu, com o canto do olho, que Gert Bigger continuava olhando para ela. Tinha parado de trabalhar e estava ajoelhada ali no meio do corredor, espiando.

Eu

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Rose Rita parou. Tirou o dedo

Rose Rita parou. Tirou o dedo e deixou o disco voltar para o lugar. Acabara de ter um pensamento

estranho: e se Gert Bigger tivesse feito alguma coisa com a Sra. Zimmermann? Ela era ressentida contra a Sra. Zimmermann - disso Rose Rita sabia. E morava perto da fazenda de Oley. Poderia ter invadido a fazenda para roubar o anel mágico depois da morte dele. Era uma idéia maluca, e Rose Rita sabia que era. Mas mesmo assim ficou pensando se ela teria algo a ver. Virou-se, e seu olhar encontrou o de Gert Bigger.

Qual é o problema agora? - rosnou a velha. Esqueceu o número que deveria discar?

não importa - gaguejou Rose Rita. Em seguida virou-se

para o telefone. Isso é idiota, disse a si mesma. Aquela velha chata não é uma bruxa. Não tem nenhum

anel mágico. Pare de bancar a detetive, dê essa droga de telefonema e acabe com isso! Rose Rita discou o 0 e foi atendida pela telefonista. Disse a ela que queria fazer uma ligação a cobrar para Nova Zebedee, em Michigan, para o Sr. Jonathan Barnavelt. O número dele era 865. Rose

Rita esperou. Ouviu alguns vagos estalos, e então escutou o zumbido que significava que a telefonista estava ligando para o telefone de Jonathan. Bzz. Bzz. Bzz.

Ah

é, quero dizer, não, senhora, é

Desculpe - disse a telefonista mas ninguém atende. Será que você

Por favor, tente um pouco mais. Por favor, senhora. É uma emergência.

Muito bem. - Os toques continuaram. Enquanto esperava, o olhar de Rose Rita começou a

percorrer o lugar. Na parede ao lado do telefone viu uma velha fotografia numa moldura preta. Era a foto de um homem com terno fora de moda. Tinha um bigode de pontas reviradas

Rose Rita congelou. Sabia quem era o homem. Era o mesmo da foto que a Sra. Zimmermann tinha encontrado no brechó. E agora lembrou-se do nome dele: Mordecai. Mordecai Hunks. Era o

homem pelo qual a Sra. Zimmermann e Gert Bigger tinham brigado havia muito, muito tempo. Ele era o motivo do ódio de Gert Bigger pela Sra. Zimmermann, de seu antigo ressentimento. Tudo estava começando a se encaixar. Rose Rita virou a cabeça ligeiramente e olhou para a Sra. Bigger. Mas naquele momento uma buzina tocou do lado de fora. Alguém queria gasolina. Gert Bigger deu um suspiro descontente, levantou-se com movimentos pesados e foi para a porta.

Desculpe, senhorita - disse a telefonista , mas não posso continuar tentando. Poderia ligar mais tarde? Rose Rita levou um susto. Tinha esquecido do telefonema.

Ah

certo - murmurou. Eu

vou tentar mais tarde. Obrigada.

Desligou o telefone e olhou rapidamente em volta. Agora era a sua chance. Atrás do balcão havia uma porta coberta por uma pesada cortina marrom. Olhou de novo na direção da frente da loja. Através

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel do vidro da janela pôde ver

do vidro da janela pôde ver Gert Bigger bombeando gasolina. E então viu outro carro parando do outro lado das bombas. A bruxa velha provavelmente ficaria lá durante um tempo. Rose Rita respirou fundo, puxou a cortina para o lado e passou pela porta. Viu-se numa salinha feiosa, com paredes verde-claras. Havia um calendário de uma empresa de carvão na parede e uma lâmpada pendurada do teto. Um pequeno cofre de ferro ficava num canto, e encostada na parede comprida havia uma escrivaninha estreita, com prateleiras. Na escrivaninha havia um borrador verde desbotado com colunas de números somados. Arrumados ao lado do borrador havia um vidro de tinta Parker, uma pilha de penas de madeira com pontas de metal enferrujado, uma borracha marrom e vários lápis bem apontados. Do outro lado do borrador havia um livro de contabilidade com capa de papelão verde. A data 1950 estava impressa na capa. Não havia nada ali que parecesse mágico. O coração de Rose Rita se encolheu. Ela se sentiu idiota fazendo o que estava fazendo. Mas espere um minuto. O que era aquilo? Rose Rita se ajoelhou. Debaixo da escrivaninha havia uma prateleira, e nela havia mais livros de contabilidade com capa verde. Pareciam-se com o que estava sobre a escrivaninha, só que estavam empoeirados e tinham datas diferentes. 1949,1948, e ia recuando assim.

que estava sobre a escrivaninha, só que estavam empoeirados e tinham datas diferentes. 1949,1948, e ia

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Rose Rita abriu um. Apenas monótonas

Rose Rita abriu um. Apenas monótonas colunas de números. Débitos, créditos, recibos e coisas do tipo. Já ia colocar o livro de volta quando percebeu uma coisa se projetando do meio. Puxou e descobriu que era um papel dobrado. Quando abriu o papel, encontrou um desenho a lápis. Era assim:

abriu o papel, encontrou um desenho a lápis. Era assim: Rose Rita segurou o papel com

Rose Rita segurou o papel com as mãos trêmulas. Podia sentir o coração batendo mais rápido. Ela não era feiticeira, mas sabia o que era aquilo, porque uma vez tinha dado uma olhada, sob supervisão atenta, nos livros de magia do tio Jonathan. O desenho era um pentaclo mágico, um daqueles feitiços que as feiticeiras e os feiticeiros usam quando querem que coisas ruins aconteçam. Rose Rita ficou olhando o desenho. Olhou durante tanto tempo que não ouviu o barulho baixo da sineta quando a porta da frente da loja foi aberta em silêncio e fechada com cuidado. Uma tábua estalou atrás dela. De repente a cortina foi puxada para o lado, e Rose Rita se virou, encontrando Gert Bigger parada junto dela. Muito bem! O que você acha que está fazendo? Hein?

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO OITO Rose Rita ficou ali,
John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO OITO Rose Rita ficou ali,

CAPÍTULO OITO

Rose Rita ficou ali, ajoelhada no chão, olhando para o rosto raivoso de Gert Bigger. Em suas mãos trêmulas ainda estava o pedaço de papel com o desenho estranho. Gert Bigger entrou na salinha e fechou a cortina. Eu perguntei, moça, o que você acha que está fazendo? Há uma lei contra invasão de

propriedade alheia, você sabe, e existem reformatórios para garotas que roubam coisas. Você gostaria que seus pais soubessem o que você está fazendo? Hein? Gostaria? Rose Rita abriu a boca para falar, mas a única coisa que saiu foi:

Eu

eu

por favor

eu não queria

Gert Bigger deu um passo à frente. Abaixou-se e arrancou o papel dos dedos entorpecidos de Rose Rita. O silêncio caiu enquanto a velha ficava ali, olhando para o papel e para Rose Rita, e de volta

para o papel. Parecia estar tentando chegar a uma decisão.

Naquele momento a sineta da porta da frente tocou, e uma voz gritou:

Ei, Gertie! Você está aí?

Gert Bigger se virou e xingou entre os dentes. Rose Rita deu um pulo e atravessou rapidamente a

abertura da cortina. Correu pelo corredor principal da loja, passando pelo rosto surpreso de uma mulher de meia-idade que segurava uma sacola de compras. A porta fez bam atrás dela. Rose Rita desceu os degraus correndo e atravessou a estrada. Corria às cegas, e podia ouvir que estava chorando enquanto corria. Atravessou o canto de um milharal, pisoteando as plantas verdes e retorcidas. Seus pés encontraram um caminho de grama verde que seguia pela borda do milharal e subia até o topo de um

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel morro baixo. Rose Rita subiu, correu

morro baixo. Rose Rita subiu, correu o máximo possível, até desmoronar debaixo de um olmo que crescia perto de uma pedra de topo achatado. Ficou ali chorando durante muito tempo. Estava cansada, com fome, apavorada e sozinha. Não comia nada desde a noite anterior, e quase não tinha dormido. A princípio tinha medo de que Gert Bigger viesse atrás dela. A qualquer momento a mão da velha estaria em seu ombro.

A qualquer momento a mão da velha estaria em seu ombro. Mas Gert Bigger não apareceu.

Mas Gert Bigger não apareceu. Rose Rita continuou chorando, mas podia sentir o corpo

com absolutamente nada. Era uma sensação

começando a relaxar. Agora não se importava com nada

deliciosa. Aos poucos sua mente começou a vaguear. Era tão bom ficar ali na sombra mas seria ainda melhor estar em casa. Em

tão, tão bom

casa Seus olhos se fecharam. Uma brisa suave atravessou o milharal, e à distância uma mosca zumbia

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel preguiçosa. Rose Rita balançou a cabeça,

preguiçosa. Rose Rita balançou a cabeça, lutando fracamente contra a sonolência. Estava tentando

pensar em alguma coisa. O que era? Não descobriu, porque em alguns minutos estava caída no sono.

Ei, você, acorde! É melhor acordar! Não sabe que é ruim dormir no chão molhado? Você pode

pegar uma gripe. Ande, acorde. Rose Rita acordou ouvindo essa voz preocupada e insistente. Balançou a cabeça e olhou para cima. Só viu um borrão. Então se lembrou dos óculos. Depois de procurar um pouco no capim em volta, encontrou-os e colocou. Quando olhou para cima, viu uma garota mais ou menos da sua idade. Estava usando uma camisa xadrez de manga curta, jeans e botas do exército enlameadas. A garota tinha cabelos louros e lisos que caíam dos dois lados da cabeça. O rosto era meio comprido e tinha uma expressão

triste. As sobrancelhas escuras se curvaram em linhas de preocupação. Rose Rita pensou que tinha visto aquele rosto em algum lugar. Mas onde? Quando se lembrou, quase riu. A garota se parecia com o valete de paus.

Oi - disse a garota. Puxa, que bom que você acordou! Ninguém lhe disse que é ruim dormir

no chão molhado? Choveu a noite passada, você sabe.

É, eu sei. - Rose Rita se levantou e estendeu a mão. Eu sou Rose Rita Pottinger. Qual é o seu nome?

Agatha Sipes. Mas me chamam de Aggie. Eu moro ali, naquele morro. Esta fazenda é do meu pai. Por sinal, foi você quem pisoteou aqueles pés de milho lá embaixo? Rose Rita assentiu tristemente.

É, fui eu. Desculpe, mas eu estava chorando tanto que não olhei para onde ia.

A garota pareceu preocupada.

Você não deveria fazer isso. Os fazendeiros trabalham duro para ganhar a vida. - E acrescentou, num tom menos severo: Por que estava chorando?

Rose Rita abriu a boca, mas então hesitou. Queria contar seus problemas a alguém, mas queria que acreditassem.

Minha amiga, a Sra. Zimmermann, desapareceu, e eu não sei onde posso encontrá-la. Nós

estávamos numa fazenda mais adiante na estrada, e ela saiu correndo pela porta da frente e desapareceu.

A garota esfregou o queixo e pareceu cheia de sabedoria.

Ah, aposto que sei o que aconteceu. Ela provavelmente foi andar na floresta e se perdeu.

Acontece com um monte de gente aqui no verão. Vamos até a minha casa, e vamos ligar para o departamento do xerife, e eles vão mandar gente para procurá-la. Eles vão encontrar a sua amiga. Rose Rita pensou no círculo de grama pisoteada na frente da casa da fazenda. Do círculo não saía nenhum rastro, Não adiantava. Ela teria de contar a verdade e se arriscar às conseqüências.

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

você acredita em magia? A garota pareceu espantada.

Hein?

Eu perguntei se você acredita em magia.

Quer dizer, fantasmas, bruxas, feitiços e coisas assim?

É.

Você

fantasmas, bruxas, feitiços e coisas assim? — É. Você Agatha deu um riso tímido. — Acredito.

Agatha deu um riso tímido. Acredito. Sei que a gente não deve acreditar, mas não consigo. - E acrescentou, em voz

preocupada: Algumas vezes eu acho que há um fantasma no porão da nossa casa, mas mamãe diz que é só o vento à noite. Você não acha que existe um fantasma no nosso porão, acha?

Como é que eu vou saber? - respondeu Rose Rita, irritada. Ei, quer saber o que aconteceu com a Sra. Zimmermann ou não?

Claro que quero. Quero mesmo. Conte tudo.

Rose Rita e Agatha Sipes sentaram-se no capim debaixo do olmo. A barriga de Rose Rita roncou, e ela se lembrou de que não comia desde a noite anterior. Estava com uma fome terrível. Mas queria contar a história, e Agatha parecia ansiosa por ouvir. Rose Rita começou. Contou a história inteira, desde a misteriosa carta de Oley e a caixa do anel vazia, passando pelas coisas estranhas que vinham acontecendo com ela e a Sra. Zimmermann ultimamente. Quando chegou à parte sobre o desaparecimento da Sra. Zimmermann, os olhos de Agatha se arregalaram. E quando ela descreveu o entrevero com a Sra. Bigger, os olhos de Agatha se arregalaram ainda mais e ela ficou de

boca aberta. Olhou nervosa na direção da loja de Gert Bigger.

Meu Deus! É um espanto ela ainda não ter matado você. E sabe de uma coisa? Aposto que foi ela quem fez sua amiga desaparecer. Rose Rita olhou estranhamente para Agatha.

Você

Claro que sim. Ela é uma feiticeira. Agora foi a vez de Rose Rita ficar pasma.

Hein? Como você sabe?

você sabe alguma coisa sobre ela? Quero dizer, sobre a Sra. Bigger.

Como eu sei? Sei porque no ano passado eu trabalhei na biblioteca de Ellis Corners, e ela ia e

pegava todos os livros sobre magia que nós tínhamos, é assim que eu sei. Alguns deles estavam na Sala de Referência, e ela não podia levar para casa, por isso ficava lá durante horas, lendo. Eu perguntei sobre ela à Sra. Bryer, a bibliotecária, e a Sra. Bryer disse que a Sra. Bigger fazia isso há anos. Disse que ela era sócia de todas as bibliotecas da região, e que pegava todos os livros de magia que encontrava. A Sra. Bryer diz que ela lê os livros e cabo a rabo, e nunca devolve enquanto a biblioteca não começa a cobrar. Isso não é esquisito?

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel — É, claro que é. -

É, claro que é. - Rose Rita sentia-se estranha. Estava muito empolgada, porque sua intuição

tinha se mostrado correta. Pelo menos achava que sim. Mas ao mesmo tempo sentia-se desamparada e com medo. Se a Sra. Bigger realmente era uma bruxa, o que ela e Aggie poderiam fazer?

Levantou-se e ficou andando de um lado para o outro. Depois sentou-se na pedra de topo chato e afundou em pensamentos. Aggie ficou parada perto, parecendo desconfortável. Balançava nervosamente de um pé para o outro, e franzia as sobrancelhas do modo mais preocupado até então.

Eu disse alguma coisa errada, Rose Rita? - perguntou ela, depois de vários minutos em silêncio. Se disse, desculpe, desculpe mesmo. Rose Rita se sacudiu saindo do transe e levantou os olhos.

Não, Aggie, você não disse nada errado. Sério. Mas eu simplesmente não sei o que fazer. Se

você está certa, e se a velha Sra. Bigger é uma bruxa, e se ela fez alguma coisa com a Sra. Zimmermann,

então

bom, o que nós podemos fazer? Quero dizer, só nós duas.

Não sei.

Nem eu.

Mais silêncio. Silêncio por uns bons cinco minutos. Depois Aggie falou de novo.

Ei, eu sei o que vamos fazer. Vamos à minha casa comer alguma coisa. Minha mãe sempre faz

muita comida, porque nossa família é grande, e tenho certeza de que vai ter o bastante para você. Venha. Depois do almoço talvez a gente descubra o que fazer. Não dá para pensar direito com a barriga vazia. Pelo menos é o que meu pai diz. Rose Rita ficou relutante, mas realmente não tinha uma idéia melhor. No caminho para sua casa Aggie falou sem parar. Falou de coisas com as quais estava preocupada, como hidrofobia, tétano, choque elétrico e maionese que ficou muito tempo fora da geladeira. Mas Rose Rita só ouvia pela metade. Ainda estava pensando, tentando decidir o que fazer. Será que deveria parar de bancar a detetive e ligar para os pais virem pegá-la? Não. Rose Rita era teimosa, e ainda achava que poderia encontrar a Sra. Zimmermann sem a ajuda dos pais. O que Aggie tinha falado sobre a Sra. Bigger e os livros de magia a deixara com mais certeza do que nunca de que a Sra. Zimmermann tinha sido levada por algum tipo de bruxaria. Então Rose Rita voltou à idéia de ligar para Jonathan. Faria isso assim que chegasse à casa de Aggie. Com a mente acelerada, tentava imaginar o próximo passo. O que deveria dizer à Sra. Sipes sobre

o que tinha acontecido? Estavam à vista da casa quando Rose Rita agarrou o braço de Aggie.

Espere um minuto, Aggie.

Por quê? Qual é o problema?

Nós temos de pensar numa história para a sua mãe. Eu não posso contar a ela o que contei a

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel você. Ela vai pensar que eu

você. Ela vai pensar que eu sou maluca. Não posso nem dizer o meu nome de verdade, porque ela vai querer ligar para os meus pais, e eu não quero que ela faça isso. Aggie franziu a testa.

Acho que você não deveria mentir para a minha mãe. Não é bom mentir, e, de qualquer modo,

acho que você seria apanhada. Minha mãe é bem esperta. Ela vai descobrir num minuto. Quando as pessoas discordavam de Rose Rita, geralmente ela ficava furiosa. Mas nesse caso ficou duplamente furiosa, porque tinha orgulho de sua capacidade de criar álibis e desculpas. Inventar

desculpas é difícil, e não é a mesma coisa que contar mentiras. Você precisa inventar uma história na qual as pessoas acreditem. E Rose Rita era realmente capaz disso - na maior parte das vezes. Ela olhou irritada para Aggie.

A sua mãe não é a pessoa mais inteligente do mundo, eu aposto. E de qualquer modo, eu sou boa em inventar coisas. Nós só precisamos sentar e imaginar uma história. Então nós duas

memorizamos, para que não haja nenhuma incoerência. Foi a vez de Aggie ficar chateada.

Ah, é? O que nós vamos dizer a ela? Esta é a minha nova amiga, Rose Rita, que acabou de cair de um disco voador?

Não, boba. Nós não vamos contar uma coisa dessas. Vamos dizer alguma coisa que ela ache

verdadeira. E então nós telefonamos para o tio Jonathan e pedimos para ele dizer que tipo de feitiço podemos fazer para obrigar a Sra. Bigger a contar o que fez com a Sra. Zimmermann. Certo?

Aggie mordeu o lábio e franziu a testa. Respirou fundo e disse:

Ah, certo. Mas se nós formos apanhadas, eu vou dizer que foi culpa sua. Não vou levar uma

bronca porque você acha legal mentir para as pessoas. Rose Rita trincou os dentes. Eu não acho legal mentir. Mas nós precisamos, só isso. Agora ande. Nós vamos dizer o seguinte Um sino começou a tocar. Uma sineta aguda e estridente chamando as pessoas para o almoço na fazenda dos Sipes. Aggie começou a se adiantar, mas Rose Rita agarrou seu braço e a arrastou para um arbusto. Pôs os lábios junto da orelha dela e começou a sussurrar.

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO NOVE A fazenda dos Sipes
John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO NOVE A fazenda dos Sipes

CAPÍTULO NOVE

A fazenda dos Sipes era grande e branca, com uma varanda larga, cercada de tela. Arbustos de espiréia cresciam perto da varanda, e havia peônias no quintal da frente. Uma grande macieira crescia num dos lados da casa, e num dos galhos havia um pneu de trator pendurado numa corda. Havia coisas de crianças espalhadas no quintal. Bastões de beisebol, bicicletas, velocípedes, quebra-cabeças, caminhõezinhos e metralhadoras de plástico. Coisas assim. Mas quando Aggie abriu a porta da frente, Rose Rita ficou espantada ao ver como a casa era arrumada e limpa por dentro. Todas as madeiras brilhavam, e havia panos bordados ou de crochê nas mesas, nos baús e nas prateleiras. Havia um tapete florido na escada e um relógio de prateleira tiquetaqueando no saguão. Havia um cheiro agradável de comida no ar. Aggie levou Rose Rita direto à cozinha e a apresentou à mãe. A Sra. Sipes tinha o mesmo rosto comprido e as sobrancelhas preocupadas da filha, mas parecia bastante amigável. Ela limpou no avental as mãos cheias de farinha e cumprimentou Rose Rita calorosamente.

Oi! Prazer em conhecê-la! Eu estava pensando por que Aggie demorava tanto. Toquei o sino

do almoço umas cinco vezes, e tinha praticamente desistido dela. Como você disse que é o seu nome?

Rose Rita hesitou, só um segundo.

Ah, Rosemary. Rosemary Potts.

Que nome lindo! Oi, Rosemary! Como vai? Você está visitando essa região? Acho que nunca vi você antes. Rose Rita se remexeu desconfortável.

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

Ah, não, a senhora não viu

porque eu só estou aqui de férias com

a senhora não viu porque eu só estou aqui de férias com com a Sra. Zimmermann.

com a Sra. Zimmermann.

- Rose Rita fez uma pausa. Ela é amiga da minha família, uma grande amiga - acrescentou rapidamente.

E - acrescentou Aggie. A Sra. Não Sei das Quantas é muito amiga da família de Rose

Rosemary, de verdade. Só que a Sra

a Sra

Zimmermann - disse Rose Rita, dando um olhar irado para Aggie.

Ah, sim. A Sra. Zimmermann. Bom, o velho Oley, a senhora conheceu ele, mamãe, ele deixou

a fazenda para a Sra. Zimmermann, e ela e Rosemary vieram dar uma olhada, e ontem à noite a Sra. Zimmermann entrou na floresta atrás da fazenda e desapareceu.

É - disse Rose Rita. Eu acho que ela se perdeu. Pelo menos não estou conseguindo achá-la

em lugar nenhum, e estou ficando com medo. Rose Rita prendeu o fôlego. Será que a Sra. Sipes acreditaria na história?

Ah, Rosemary! - exclamou a Sra. Sipes, abraçando-a. Que coisa horrível! Olhe, vou lhe dizer

o que fazer. Vou telefonar para o xerife e ele vai mandar alguns homens para lá, agora mesmo, para

procurá-la. Houve uma pessoa que se perdeu na floresta no ano passado, e eles a encontraram antes que se ferisse. Não se preocupe. Sua amiga vai ficar bem. Por dentro Rose Rita soltou um suspiro de alívio. Odiava ter de mentir sobre o desaparecimento da Sra. Zimmermann, e (na verdade) estava morrendo de preocupação. Mas não sabia o que a Sra. Sipes diria se ela contasse que a Sra. Zimmermann tinha desaparecido no ar. Mais tarde, depois do telefonema para o departamento do xerife, Rose Rita estava sentada diante de uma comprida mesa de refeições com Aggie e mais sete crianças, além da Sra. Sipes. Rose Rita ocupou a cabeceira, no lugar onde costumava ficar o Sr. Sipes. O Sr. Sipes estava fora, ia passar a noite em Petoskey, a negócios. Rose Rita olhou em volta da mesa. Era uma família de aparência preocupada. Todos tinham rostos compridos e sobrancelhas erguidas. Havia crianças altas e baixas, cinco meninos e duas meninas (contando Aggie) e um bebê numa cadeira alta. Sobre a mesa havia uma grande bandeja com carne em conserva, batatas, cebolas e cenouras, e havia mais legumes e bolinhos em duas bandejas fumegantes. Havia uma tábua de corte com pão recém-assado e duas grandes jarras de leite. A Sra. Sipes fez uma

oração agradecendo e então todo mundo mergulhou na comida.

Deixe Rosemary se servir primeiro - disse a Sra. Sipes. Ela é nossa convidada, vocês sabem. Rose Rita levou um segundo para reconhecer seu novo nome. Na verdade levou um susto quanto alguém empurrou uma tigela com purê de cenoura em sua direção.

obrigada - murmurou, e se serviu. Mais tarde, quando todo mundo tinha se servido, a

Ah

é

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Sra. Sipes disse em voz alta

Sra. Sipes disse em voz alta e clara:

Crianças, acho que devem saber que a Rosemary teve um acidente. A amiga com quem ela

estava viajando se perdeu na floresta, e nós estamos tentando encontrá-la. Mandamos a patrulha do

xerife para fazer as buscas.

Eu acho que qualquer pessoa que se perca naquela floresta deve ser idiota - disse um garoto alto, de cabelos pretos e encaracolados.

Leonard! - disse a Sra. Sipes em voz chocada. Pode parar com isso imediatamente! - Em

seguida ela se virou para Rose Rita e deu um sorriso simpático. Peço desculpas pelo meu filho mal- educado. Diga, Rosemary, de onde você vem?

Nova Zebedee. É uma cidadezinha perto da parte de baixo do estado. Provavelmente a

senhora nunca ouviu falar. Acho que sei onde é - disse a Sra. Sipes. Bom. Eu acho que é melhor nós avisarmos aos seus pais. Eles vão querer saber o que aconteceu. Qual é o nome do seu pai?

Rose Rita olhou para a toalha da mesa. Estendeu o lábio inferior e pareceu o mais triste possível.

Meus pais morreram. Os dois. Eu moro com o meu tio Jonathan. Ele é meu guardião legal, e o

nome dele é Jonathan Barnavelt, e mora na rua Alta, n° 100. A Sra. Sipes pareceu preocupada e triste.

Santo Deus, pobre menina! Quantos infortúnios! Primeiros seus pais morrem, e agora acontece isso com você. Diga, querida. Como aconteceu?

Rose Rita piscou.

Como aconteceu o quê?

Como seus pais morreram? Desculpe eu puxar um assunto tão triste nesse momento, mas não

pude deixar de imaginar o que teria acontecido. Rose Rita fez uma pausa. Havia um brilho malicioso em seu olhar. Ela estava começando a gostar da mentira. A princípio tinha sentido medo de ser descoberta, mas agora que a Sra. Sipes tinha engolido tanto a história da amiga perdida na floresta quanto a da orfandade - para não falar do nome falso - Rose Rita começou a pensar que ela engoliria qualquer coisa. E por dentro estava rindo de sua inteligência ao ter inventado a parte sobre Jonathan ser seu guardião. Essa era boa, porque lhe permitiria telefonar para

Jonathan e descobrir o que queria saber, sem mais delongas. Tinha pensado em dizer apenas que seus

pais tinham morrido num acidente de carro, mas agora decidiu tentar uma coisa mais interessante. Não faria mal.

Meus pais foram mortos de um modo estranho. Veja bem, meu pai era guarda florestal.

Costumava andar muito no mato para verificar se não havia incêndios, esse tipo de coisa. Bom, um dia

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel ele encontrou um dique de castores,

ele encontrou um dique de castores, e era um dique bem estranho - todo bagunçado e estragado. Meu

pai nunca tinha visto um dique de castor assim, nunca mesmo, e ficou imaginando por que tinha ficado daquele jeito. Bom, o que ele não sabia era que o dique tinha sido construído por um castor com hidrofobia. E então meu pai levou minha mãe para olhar o dique, e o castor mordeu os dois, e eles morreram. Silêncio. Silêncio mortal. Então a irmã de Aggie deu um risinho, e um dos garotos gargalhou.

Nossa - disse Leonard numa voz alta e sarcástica. Eu achava que se um castor estivesse hidrófobo ele simplesmente ia correr para o mato e morrer. Você não acha, Ted?

É - disse o garoto que estava sentado ao lado de Leonard. Nunca ouvi falar de ninguém

mordido por um castor com raiva. E, de qualquer modo, se foi isso que aconteceu de verdade, como você ficou sabendo? Se seus pais foram mordidos e morreram, eles não iriam contar nada, não é? Rose Rita pôde sentir o rosto ficando vermelho. Todo mundo estava olhando para ela, e ela se sentiu como se estivesse sem roupa nenhuma. Olhou intensamente para o prato e murmurou:

Era um tipo de raiva muito rara.

Mais silêncio. Mais olhares fixos. Finalmente a Sra. Sipes pigarreou e disse:

Rosemary, acho que é melhor você vir comigo um minuto, se não se importa. E Aggie, é

melhor vir também. Aggie se levantou e seguiu Rose Rita para fora da sala. Com a Sra. Sipes na frente, a pequena procissão macambúzia subiu a escada e entrou num quarto na frente da casa. Rose Rita e Aggie

sentaram-se lado a lado na cama, e a Sra. Sipes fechou a porta sem fazer barulho.

Bom - disse ela, cruzando os braços e olhando séria para Rose Rita. Eu já ouvi histórias

incríveis na minha vida, mas esta merece um prêmio. Eu achei que tinha alguma coisa estranha na

história de você ser órfã, mas

balançou a cabeça.

a propósito, esse é o seu nome de verdade? Rose Rita

Rosemary

Não, senhora - disse em voz lacrimosa. É Rose Rita.

A Sra. Sipes deu um leve sorrisinho.

Bom, pelo menos é bem parecido. Agora escute, Rose Rita - disse ela, olhando-a direto nos

olhos , se você está com algum tipo de problema, eu gostaria de ajudá-la. Não sei o que a levou a inventar aquela história ridícula sobre o castor, mas você precisa mentir melhor se quer crescer e ser uma trambiqueira, ou o que quer que você deseje ser. Agora, você acha que poderia me contar honestamente e com sinceridade o que aconteceu e por que você está aqui? Rose Rita deu um olhar funesto para a Sra. Sipes. Imaginou o que ela diria se lhe contasse sobre o trecho de grama pisoteada sem rastros que levassem a lugar nenhum.

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel — Eu lhe disse, Sra. Sipes

Eu lhe disse, Sra. Sipes - disse Rose Rita, teimosamente. Eu disse que minha amiga, a Sra. Zimmermann, se perdeu, e não sei onde ela está. Juro por Deus.

A Sra. Sipes suspirou.

Bom, minha cara, eu acho que essa parte da sua história pode ser verdadeira. Mas nunca ouvi

uma mentira tão atroz quanto aquela história do castor, realmente nunca ouvi! Mordidos por um castor

hidrófobo, imagine! E agora você me diz que seu nome de verdade é Rose Rita. Certo, vamos ter mais um pouco da verdade. Seus pais estão mortos ou vivos?

Meus pais estão vivos - disse Rose Rita, numa voz opaca e desesperançada. E eles se

chamam George e Louise Pottinger, e moram na rua da Mansão n° 39 em Nova Zebedee, Michigan. E

eu sou filha deles. Realmente sou. Honestamente. Juro por Deus, quero cair mortinha se não for verdade.

A Sra. Sipes deu um sorriso simpático para Rose Rita.

Pronto. Não é mais fácil dizer a verdade? - Não muito, pensou Rose Rita, mas não falou nada.

A Sra. Sipes suspirou de novo e balançou a cabeça.

Não entendo você, Rose Rita. Honestamente não entendo. Se é verdade que você estava

viajando com uma amiga da sua família, chamada Sra. Zimmermann

É verdade sim - disse Rose Rita, interrompendo. A bolsa dela ainda está na mesa da cozinha

naquela casa velha e suja, e provavelmente a carteira de motorista e um monte de outras coisas dela estão

lá dentro. Pronto. - Ela cruzou os braços e olhou ferozmente para a Sra. Sipes.

Muito bem - disse a Sra. Sipes calmamente. Como eu estava dizendo, se essa parte da sua história é verdadeira, por que tentou esconder a identidade dos seus pais?

Uma resposta brotou na cabeça de Rose Rita, uma resposta que era em parte verdadeira.

Porque o meu pai não gosta da Sra. Zimmermann. Ele acha que ela é maluca, e se ela aparecer viva, meu pai nunca mais vai deixar eu ir a lugar nenhum com a Sra. Zimmermann de novo.

Ah, acho que você está sendo bastante dura com o seu pai. Eu não o conheço, claro, mas é

difícil acreditar que ele acharia a Sra. Zimmermann maluca só porque ela se perdeu na floresta. Um monte de gente se perde todos os dias. É, pensou Rose Rita, mas se ele descobrisse que a Sra. Zimmermann era uma feiticeira, sem dúvida iria subir nas paredes. Além disso ele não pode nos ajudar. O tio Jonathan é o único que pode. Rose Rita se retorceu impaciente e enfiou o calcanhar no tapete. Estava se sentindo uma prisioneira. Se ao menos a Sra. Sipes se afastasse para ela poder ligar para o tio Jonathan e descobrir o que fazer com a Sra. Bigger! Ele poderia lhe dar uma fórmula mágica, e tudo ficaria bem. Era tudo muito frustrante. Era quase como estar com as mãos perto de alguma coisa e alguém bater nas suas mãos sempre que você

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel tenta pegar. Ela precisava daquele livro,

tenta pegar. Ela precisava daquele livro, do livro de magia com nome engraçado. Mas não podia fazer nada enquanto a Sra. Sipes não a deixasse sozinha. Enquanto Rose Rita ficava ali fervendo por dentro, a Sra. Sipes arengou sobre responsabilidade e honestidade, e sobre como os pais são os melhores amigos se a gente lhes der uma chance. Quando Rose Rita se virou para ela, ela estava dizendo:

por isso eu acho que o que temos de fazer agora é ligar para os seus pais e dizer o que

aconteceu. Eles vão querer saber que você está bem. Depois eu vou de carro até a fazenda Gunderson para ver se está tudo bem. Você provavelmente deixou a casa aberta, e há pessoas que podem entrar e pegar coisas, você sabe. Depois disso só podemos esperar. - A Sra. Sipes foi sentar-se na cama perto de Rose Rita. Em seguida passou o braço por seus ombros. Desculpe ter sido tão dura com você, Rose Rita - disse em voz suave. Eu sei que você deve estar muito perturbada pelo que aconteceu com sua amiga. Mas a polícia está lá agora, revirando a floresta. Tenho certeza de que vão encontrá-la. Grande chance, pensou Rose Rita, mas de novo ficou quieta. Se ao menos a Sra. Sipes entrasse no carro e fosse até a fazenda e a deixasse em paz! Vá embora, Sra. Sipes! Vá embora. Mas primeiro Rose Rita teve de ligar para os pais. Não havia como se livrar disso. As três desceram e a garota ligou para casa. A Sra. Pottinger atendeu, e de novo Rose Rita recitou a história sobre como a Sra. Zimmermann havia desaparecido da fazenda Gunderson no meio da noite e provavelmente tinha se perdido na floresta. A Sra. Pottinger era o tipo de pessoa que se alterava facilmente, e quando soube do desaparecimento da Sra. Zimmermann, realmente ficou abalada. Mas

disse para Rose Rita não se preocupar, que ela e o Sr. Pottinger iriam pegá-la assim que pudessem, e insistiu em que Rose Rita ligasse para ela assim que houvesse alguma novidade sobre a Sra.

Zimmermann. Então a Sra. Sipes pegou o telefone e deu instruções sobre como chegar à fazenda Sipes. Depois disso a Sra. Pottinger falou mais alguns minutos com Rose Rita, e desligou. E então depois de mais um tempo, a Sra. Sipes entrou no carro e foi na direção da fazenda Gunderson. Rose Rita ficou na janela da frente, olhando, até o carro da Sra. Sipes desaparecer num morro. Aggie estava perto dela, com a habitual expressão preocupada.

O que você vai fazer agora? - perguntou Aggie.

Vou ligar neste momento para o tio de Lewis, Jonathan. Se ele não souber o que fazer com a

velha Sra. Bigger, ninguém sabe! - Rose Rita sentiu-se empolgada. Já se imaginava armada com um feitiço e enfrentando a Sra. Bigger. Foi ao saguão e pegou o telefone. Olhou nervosa em volta, para se certificar de que nenhum dos irmãos de Aggie estivesse à vista. Aggie ficou ao seu lado, esperando ansiosa, enquanto ela pedia à telefonista:

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel — Quero falar com Nova Zebedee,

Quero falar com Nova Zebedee, Michigan, número 865, por favor, telefonista. Residência do

Sr. Jonathan Barnavelt. Ligação a cobrar. Rose Rita e Aggie esperaram. Podiam ouvir a telefonista ligando para o número de Jonathan. Bzz.

Bzz. Bzz. Oito vezes ela deixou tocar, depois falou, naquela voz cantarolada que Rose Rita conhecia muito bem:

Desculpe, mas não atendem. Poderia ligar mais tarde?

Sim - respondeu Rose Rita, numa voz opaca e desesperançada. Eu ligo depois. Obrigada. -

Em seguida desligou e sentou-se no banco ao lado da mesinha do telefone. Que droga! - disse com raiva. Que droga sem tamanho! Agora, o que nós vamos fazer?

Talvez eles encontrem a Sra. Zimmermann na floresta - disse Aggie, com esperança. Estava

tendo dificuldades para manter as mentiras de Rose Rita separadas da história verdadeira, em sua cabeça.

Rose Rita só olhou para ela.

Vamos tentar de novo - murmurou. Em alguma hora ele vai ter de estar em casa.

Tentou mais três vezes em dez minutos, mas a cada vez o resultado era o mesmo. Depois de um tempo a Sra. Sipes voltou. Estava felicíssima, porque tinha encontrado a bolsa da Sra. Zimmermann na mesa da cozinha da casa de Oley, e na bolsa tinha encontrado a carteira de motorista da Sra. Zimmermann, as chaves do carro e um bocado de outros documentos. Finalmente estava convencida de que Rose Rita dizia a verdade. Rose Rita ficou feliz por ela estar convencida. Agora, se ao menos a Sra. Sipes fosse para algum canto distante da fazenda, para ela tentar ligar para Jonathan de novo! Mas a Sra. Sipes ficou em casa o resto do dia. Rose Rita se balançou no balanço da varanda, jogou bola com Aggie e a ajudou a dar comida para as vacas e lavagem para os porcos. Quando não estava fazendo mais nada, roía as unhas. Por que a Sra. Sipes não sai? Havia só um telefone na casa, e como estava numa mesa no saguão, não era uma coisa privativa. A Sra. Sipes não era do tipo que iria ficar em cima de Rose Rita enquanto ela telefonava, mas poderia estar na sala ao lado, e o que faria se ouvisse Rose Rita perguntando a Jonathan qual seria o feitiço para libertar a Sra. Zimmermann dos encantos de Gert Bigger? Não, ela teria de estar sozinha para dar um telefonema desses, Rose Rita sabia disso. Esperou pela chance, que nunca veio. Naquela noite, enquanto Rose Rita e Aggie ajudavam a Sra. Sipes a preparar o jantar, o telefone

tocou. Era a Sra. Pottinger. Parecia que o carro deles tinha quebrado na estrada. Havia alguma coisa errada com o veículo. O que quer que fosse, eles só poderiam chegar na manhã seguinte. Havia alguma notícia da Sra. Zimmermann? Não, não havia. A Sra. Pottinger disse que eles lamentavam o atraso, mas não havia como evitar. Chegariam quando conseguissem consertar o carro. Rose Rita sentia-se como um prisioneiro cuja execução tivesse sido adiada. Agora teria mais tempo

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel para tentar falar com o tio

para tentar falar com o tio Jonathan!

Ah, ande, tio Jonathan! - rezava baixinho. Da próxima vez esteja em casa! Por favor esteja em casa! Por favor!

Rose Rita passou o fim da tarde jogando jogos de tabuleiro com Aggie e alguns irmãos dela. Antes que percebesse, estava na hora de ir para a cama. Tomou banho, coisa de que precisava tremendamente,

e pôs um pijama limpo tirado de sua valise, que a Sra. Sipes tinha trazido da casa da fazenda. Quando

Rose Rita estava limpa, a Sra. Sipes disse que ela dormiria na cama extra do quarto de Aggie. O quarto de Aggie era todo cheio de frufrus e babados, totalmente rosa, um quarto comum de menina. Havia um grande urso de pelúcia na cadeira de balanço no canto, e uma penteadeira com espelho redondo e alguns frascos de perfume. Mesmo sendo uma menina de fazenda que usava jeans boa parte do tempo, Aggie parecia feliz em ser garota. Disse que estava ansiosa para ir para os últimos anos do ensino fundamental,

e por namoros, bailes e coisas do tipo. Disse que era um alívio tirar algumas vezes os jeans e as botas que

cheiravam a esterco e ir a um baile. Rose Rita imaginou se estaria pensando assim no próximo outono. Enquanto isso, tinha outras coisas em mente. Naquela noite ficou acordada, ouvindo os sons da casa, seu coração batia rapidamente, e ela se sentia muito nervosa. A família Sipes foi para a cama às dez, porque tinham de estar acordados às seis da manhã para fazer suas tarefas. Não eram permitidas exceções. E considerando o fato de que havia oito filhos, a casa se aquietou bastante depressa. Às dez e meia era possível ouvir um alfinete cair no corredor.

Você está acordada, Rose Rita? - sibilou Aggie.

Claro que estou, sua boba. Eu vou descer daqui a pouco e tentar ligar de novo para o tio

Jonathan.

Quer que eu vá com você?

Não. Se nós duas formos vamos fazer barulho demais. Fique fria e espere.

Certo.

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Minutos se passaram. Quando Rose Rita
John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Minutos se passaram. Quando Rose Rita

Minutos se passaram. Quando Rose Rita finalmente teve certeza de que todos estavam adormecidos, saiu da cama e desceu na ponta dos pés até o telefone. Havia um armário embutido no corredor perto do telefone, e felizmente o fio era comprido. Rose Rita levou o telefone para o armário, fechou a porta e se agachou entre os casacos. Sussurrando o mais alto que ousou, pediu para a telefonista ligar para o número de Jonathan de novo. De novo ela tentou. Dez vezes, quinze, vinte vezes. Não adiantava. Ele não estava - provavelmente ia passar a noite fora de casa. Rose Rita desligou o telefone e recolocou na mesa. Voltou na ponta dos pés até o quarto de Aggie. Como foi? Não adiantou. Talvez ele tenha ido visitar a irmã em Osee Five Hills. Ele faz isso de vez em quando, e eu não sei o número dela. Nem sei o nome dela. Ah, droga, o que nós vamos fazer?

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

Não sei.

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel — Não sei. Rose Rita segurou

Rose Rita segurou a cabeça com as duas mãos e tentou pensar. Se pudesse sacudir alguns pensamentos para fora da cabeça, daria um jeito. Tinha de haver um modo, tinha de haver

Aggie?

Shhh. Não tão alto. Mamãe vai escutar. Rose Rita tentou sussurrar mais baixo.

Certo. Desculpe. Ei, Aggie, escute. A Sra. Bigger mora na loja dela? Quero dizer, nos fundos, ou em cima?

Não. Ela mora a uns três quilômetros estrada abaixo, numa casinha afastada da estrada. Por

que quer saber?

Aggie - disse Rose Rita num sussurro agitado , gostaria de me ajudar a invadir a loja da Sra. Bigger? Esta noite?

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO DEZ Assim que viu qual
John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO DEZ Assim que viu qual

CAPÍTULO DEZ

Assim que viu qual era o plano de Rose Rita, Aggie tentou recuar. Pensou em mil motivos para não ir à loja da Sra. Bigger, naquela noite ou em qualquer outra. Elas poderiam ser apanhadas e mandadas para um reformatório. A mãe de Aggie iria pegá-las, expulsá-las e contar aos pais de Rose Rita. A Sra. Bigger poderia estar lá, escondida num armário, esperando as duas. A loja estaria trancada, e elas não conseguiriam entrar. Poderiam ser mordidas pelo cachorro da Sra. Bigger. E assim por diante. Mas Rose Rita não ficou impressionada com os argumentos. Só conhecia Aggie há pouco tempo, mas já sabia que ela vivia preocupada sem motivo. As pessoas preocupadas sem motivo sempre imaginam que coisas terríveis vão acontecer. Imaginam perigos onde os perigos não existem. Lewis era preocupado sem motivos, e vivia hesitando com tudo. Naquele momento Aggie estava agindo como Lewis. Para Rose Rita tudo parecia claro. A Sra. Bigger era uma bruxa, e vivia lendo livros de magia. Provavelmente tinha um exemplar do Marreta Não-sei-das-quantas, o livro que Rose Rita precisava ter para salvar a Sra. Zimmermann. Poderia estar na casa dela, ou em algum lugar na loja. Era muito provável que estivesse na loja, já que ela passava muito tempo lá e provavelmente lia enquanto trabalhava. Afinal de contas, argumentou, ela havia encontrado aquele feitiço enfiado num dos livros de contabilidade de Gert Bigger. Bom, se tinha encontrado isso, talvez encontrasse outras coisas. Rose Rita ignorou os furos em sua argumentação. Não queria vê-los. Já estava começando a ser levada pela idéia de enfrentar a bruxa em seu covil. Imaginava-se armada com um grande livro no qual lia estranhos encantamentos sérios, palavras mágicas que iriam pôr a Sra. Bigger de joelhos e obrigá-la a trazer a Sra.

do lugar para onde quer que a tivesse mandado. Claro que Rose Rita pensou

Zimmermann de volta de

que a Sra. Bigger podia ter usado magia para matar a Sra. Zimmermann. Bom, pensou séria, se ela fez isso, eu a obrigarei trazer a Sra. Zimmermann de volta - de volta dos mortos. E se não puder fazer isso,

vou obrigá-la a pagar pelo que fez. Uma raiva tremenda estava crescendo na mente de Rose Rita, uma raiva indignada. Odiava a mulher grandalhona e mal-educada e que vivia falando palavrões, mentiras e

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel grosseira. Daria um jeito nela, e

grosseira. Daria um jeito nela, e de uma vez por todas. Mas enquanto isso tinha de persuadir Aggie a

concordar com o plano. Não era fácil. Argumentou e insistiu, mas Aggie era uma garota teimosa - quase tão teimosa quanto Rose Rita. E Aggie era especialmente teimosa quando estava com medo.

Certo, Aggie - disse Rose Rita, cruzando os braços e olhando-a furiosa. Se é assim que você é, eu vou sozinha! Aggie pareceu magoada.

Está falando sério? Verdade? - Rose Rita assentiu, carrancuda.

É. Tente me impedir.

Na verdade Aggie poderia ter impedido Rose Rita facilmente, e Rose Rita sabia. Ela só precisava

gritar, e a Sra. Sipes, que tinha sono muito leve, viria pelo corredor perguntando que confusão era aquela. Mas Aggie não gritou. Na verdade queria participar da aventura. Por outro lado, estava com medo.

Venha, Aggie. Nós não vamos ser apanhadas, eu prometo. E se pusermos as mãos num

exemplar do livro de que eu falei, podemos dar um jeito na velha Sra. Bigger. Você gostaria disso, não gostaria? A testa de Aggie se franziu. As sobrancelhas ficaram tão preocupadas que quase se encontraram.

Puxa, ainda não sei, Rose Rita. Você tem certeza de que o tal livro vai estar lá?

Claro que não tenho certeza, bobona. Mas não vamos descobrir se ficarmos aqui a noite inteira. Venha, Aggie. Por favor! Aggie estava insegura.

Bom, como nós vamos entrar? As portas e as janelas vão estar trancadas.

A gente pensa nisso quando chegar lá. Talvez a gente tenha de quebrar uma janela, ou alguma coisa assim.

Vai fazer muito barulho. E você pode se cortar com o vidro.

Então nós arrombamos a fechadura. As pessoas fazem isso o tempo todo nos filmes.

Isso não é um filme, é a vida real. Você sabe arrombar uma fechadura? Hein? Sabe? Aposto

que não. Rose Rita se sentiu totalmente exasperada.

Olha, Aggie, se a gente chegar lá e não descobrir um modo de entrar, a gente pode desistir e vir

para casa. Certo? E se houver um jeito de entrar, você nem precisa entrar comigo. Pode ficar do lado de fora, vigiando. Venha, Aggie. Eu realmente preciso de você. Que tal? Hein? Aggie coçou a cabeça e pareceu insegura.

Promete que eu não vou ter de entrar com você? E que, se a gente não puder entrar, a gente

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

volta direto para cá? Rose Rita fez uma cruz no peito, com o dedo.

para cá? Rose Rita fez uma cruz no peito, com o dedo. — Prometo. Juro por

Prometo. Juro por Deus.

Certo. Espere que eu vou pegar minha lanterna. Nós vamos precisar dela.

No maior silêncio possível, Rose Rita e Aggie se vestiram e calçaram os tênis. Aggie pegou uma lanterna comprida no armário e remexeu na gaveta da cômoda até encontrar um velho canivete de escoteiro. Tinha um cabo de plástico enrugado, e dentro de uma pequena bolha de vidro no cabo do

canivete havia uma bússola. Aggie realmente não sabia por que estava levando aquilo, mas achava que poderia ser útil. Quando estavam prontas, as duas foram na ponta dos pés até a porta do quarto. Aggie ia na frente. Cuidadosamente abriu a porta, só uma fresta, e olhou para fora.

Certo! - sussurrou. Venha atrás de mim.

As duas seguiram pelo corredor e desceram a escada. Andavam com pés leves através de cômodos

iluminados pelo luar, até chegarem à porta dos fundos. A porta dos fundos estava aberta porque era uma noite quente, e a porta de tela não estava trancada. As duas saíram, fechando suavemente a porta.

Uau! - Rose Rita respirou fundo. Essa parte foi fácil.

Aggie deu um sorriso tímido.

É. Eu já fiz isso antes. Eu costumava caçar rãs com meu irmão ali no riacho, mas mamãe pegou

a gente e deu uma bronca. Desde então eu não saio à noite. Venha. Aggie e Rose Rita começaram a andar por uma estradinha esburacada que seguia entre dois campos arados. Pularam uma cerca e correram por uma trilha coberta de capim, paralela à estrada principal. Rose Rita viu imediatamente que estavam indo pelo caminho por onde tinham vindo na véspera, quando Aggie a encontrou dormindo perto do milharal. Agora o milharal estava à esquerda, farfalhando suavemente à brisa da noite. As estrelas se apinhavam no céu, e grilos cricrilavam no capim alto.

Em pouco tempo as garotas passavam pelo lugar onde haviam se conhecido. Ali estavam o olmo e

a pedra de topo liso. As duas vinham conversando empolgadas, mas agora ficaram quietas. Não estavam longe da loja da Sra. Bigger. No fim da estrada de cascalho elas pararam. Ali estava a mercearia de Gert Bigger, fechada para a

noite. Uma lâmpada amarela iluminava a porta da frente, e pelas janelas de vidro as duas puderam ver uma outra lâmpada nos fundos da loja. O letreiro com o cavalo alado vermelho rangia suavemente ao vento, e as duas bombas de gasolina pareciam soldados montando guarda.

Aqui estamos - sussurrou Aggie.

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel — É. - Rose Rita sentiu

É. - Rose Rita sentiu algo se apertando no estômago. Talvez fosse um plano idiota. Já ia

perguntar se Aggie estava realmente a fim de continuar, mas engoliu os medos e atravessou a estrada. Aggie foi atrás, olhando em volta nervosamente.

Parece estar tudo bem - disse Aggie quando as duas chegaram ao outro lado da estrada. O carro dela sempre fica parado ali quando ela está na loja, e agora não está.

Bom! Você acha que a gente deveria experimentar a porta da frente?

Bom, se quiser, você pode tentar. Mas tenho certeza de que vai estar trancada.

Rose Rita subiu os degraus e sacudiu a porta. Estava trancada. Ela deu de ombros e desceu de novo correndo.

Venha, Aggie. Ainda temos muitas opções. A noite está tão quente que ela pode ter deixado

uma janela aberta. Vamos ver as janelas. - Rose Rita podia sentir a coragem e o otimismo habitual

voltando. Tudo ficaria bem. Achariam um jeito de entrar. Aparentemente o otimismo de Rose Rita era contagioso. Aggie se animou e ficou confiante - para

ela.

Ei, é uma boa idéia! Certo, vamos ver.

Enquanto passavam pelo lado da loja, as garotas ouviram um som alto. Ali, atrás da cerca, estava aquela pobre galinha branca e desenxabida. Parecia ainda mais fraca e em pior estado do que quando Rose Rita tinha visto na véspera. A velha Gertie deveria alimentá-la, pensou Rose Rita. Como antes, a galinha estava muito agitada. Corria de um lado para o outro junto da cerca, cacarejando e batendo as

asas.

Ah, fique quieta! - sibilou Rose Rita. Nós não vamos cortar a sua cabeça! Fique calma, pelo amor de Deus! As duas garotas começaram a inspecionar as janelas na lateral da casa. As do primeiro andar

estavam fechadas, e era provável que todas estivessem trancadas também. Só para se certificar, Rose Rita subiu num caixote de laranja e experimentou empurrar uma das janelas. Ela não se mexia um centímetro.

Que droga! - grunhiu enquanto descia do caixote.

Ah, não desista ainda! - disse Aggie. Nós não experimentamos

Epa! Cuidado!

Rose Rita girou a tempo de ver um carro passando. Os faróis percorreram a lateral da loja e

sumiram. Se o motorista estivesse prestando atenção, teria visto duas figuras paradas junto da loja. Mas aparentemente não tinha percebido. Rose Rita sentiu-se exposta, como se fosse um peixe num aquário. Sentiu o perigo do que estava fazendo.

Venha - falou puxando nervosamente o braço de Aggie. Vamos ver nos fundos.

As duas foram para a parte de trás da loja. A pequena galinha branca, que jamais tinha parado de

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel cacarejar desde que elas haviam chegado,

cacarejar desde que elas haviam chegado, continuou assim até que as duas desapareceram no canto da construção. Rose Rita ficou feliz quando ela finalmente se calou. Aquilo estava começando a deixá-la nervosa. As duas garotas experimentaram a porta dos fundos. Estava trancada. Depois recuaram e examinaram a parede de trás da casa. As janelas do primeiro andar tinham grossas grades de ferro - provavelmente eram as janelas do depósito, onde as mercadorias eram guardadas. Havia uma janela no segundo andar, e - Rose Rita recuou para ter certeza - sim, estava aberta! Não escancarada, mas com uma fresta.

Uau! - disse Rose Rita, apontando. Está vendo aquilo?

Aggie ficou em dúvida.

Estou, mas não sei como nós poderíamos passar por uma fresta daquelas.

Eu não vou passar pela fresta, idiota! Aquela fresta significa que a janela não está trancada. Então, se eu subir lá, posso abrir.

Como você vai fazer isso? - Rose Rita olhou em volta.

Ainda não sei. Vejamos se há alguma coisa em que eu possa subir.

Rose Rita e Aggie examinaram o quintal dos fundos da loja de Gert Bigger durante um tempo, mas não encontraram nenhuma escada. Havia um telheiro de ferramentas, mas estava trancado com cadeado. Rose Rita voltou à janela e ficou olhando, como se fosse uma coruja. Coçou o queixo. Havia uma macieira perto da loja, e um dos galhos quase tocava o parapeito da janela que ela queria. Mas Rose Rita era experiente em subir em árvores, e sabia que o galho começaria a se curvar assim que ela tentasse subir nele. Quando chegasse perto do fim do galho ele estaria curvado até embaixo. De modo que não adiantava. Por outro lado havia uma treliça pregada à lateral da casa. Subia até perto da janela. Se ela pudesse subir na treliça, talvez pudesse agarrar o parapeito e se alçar. Valia a tentativa. Respirou fundo e flexionou as mãos. Foi até a treliça. Estava coberta por uma trepadeira espinhenta, mas havia lugares, aqui e ali, onde era possível colocar as mãos. Pôs um pé numa ripa e uma das mãos em outra. Apoiou o peso na treliça e ficou parada, para ver o que acontecia. Pregos guincharam e a treliça começou a se soltar da parede.

Não parece bom - disse Aggie, torcendo a boca numa expressão muito preocupada. Se você

subir mais, vai quebrar o pescoço. Rose Rita ficou quieta. A treliça ainda estava presa à parede, por isso ela pôs o outro pé mais acima. Depois o outro, e outra mão. Com um barulho alto, estalando, guinchando, a treliça se inclinou preguiçosa para o lado. Pregos e pedaços de madeira quebrada caíram no chão. Rose Rita se livrou dos

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel destroços e pousou de pé. Aggie,

destroços e pousou de pé. Aggie, com um gritinho, largou o canivete no capim e correu para perto de

Rose Rita. Encontrou-a ali parada, chupando o corte num polegar e olhando cheia de ódio para a treliça arruinada.

Droga de espinhos! - grunhiu ela.

Puxa, ela vai ficar fula da vida! - disse Aggie. Quero dizer, a Sra. Bigger.

Rose Rita não estava escutando. Estava imaginado se poderia escalar a lateral da casa. O segundo andar não era muito alto, e as tábuas brancas pareciam que dariam apoio para as mãos. Tentou, mas

escorregou para baixo. Tentou de novo, com o mesmo resultado. Ficou ali parada, ofegando e vermelha. Pela primeira vez duvidou da sensatez de seu plano.

Vamos para casa - falou amarga. Sentia as lágrimas ardendo nos olhos.

Você já vai desistir? - perguntou Aggie. Puxa, não acho boa idéia. Nós ainda não olhamos

do outro lado da loja. Rose Rita estremeceu e olhou para Aggie. Ela estava certa! Rose Rita estivera tão envolvida no

problema da janela do andar de cima que tinha se esquecido do outro lado da casa, o lado que ainda não tinham verificado. A esperança e o otimismo voltaram.

Certo. Vamos olhar - disse, rindo.

Do outro lado da loja havia arbustos densos crescendo perto das janelas, mas havia um pequeno túnel entre eles, por onde era possível passar se você se encolhesse um pouco. Rose Rita e Aggie se abaixaram e passaram debaixo dos arbustos. Olharam para cima e viram que as janelas desse lado tinham grades e cadeados, como as de trás. Mas perto do chão havia uma entrada para o porão. Daquelas antigas, com duas portas de madeira inclinadas. Aggie apontou a lanterna para a porta. Havia um par de elos de metal onde as portas se encontravam. Obviamente se destinavam a um cadeado, mas não havia cadeado. A porta estava destrancada. Cautelosamente Rose Rita pegou a alça de uma das pesadas portas de madeira. Levantou-a, e um cheiro de terra e mofo subiu às suas narinas. Era como o hálito de uma tumba. Rose Rita estremeceu e recuou. Soltou a porta. Ela caiu com um barulho alto. Aggie lançou-lhe um olhar apavorado. O que foi, Rose Rita? Você viu alguma coisa? Rose Rita passou uma das mãos pela testa.

Sentia-se tonta.

só fiquei com medo. Não sei por quê, mas fiquei. Acho que sou

uma medrosa, só isso. Engraçado, não é? - disse Aggie, enquanto olhava para a porta. Todas aquelas barras e trancas e tudo mais, e ela deixa isso aqui aberto. É estranho.

Eu

não, não vi, Aggie, só

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel — É. Talvez ela ache que

É. Talvez ela ache que ninguém vai xeretar debaixo desses arbustos.

Rose Rita percebia que essa era uma explicação muito fraca, mas era a única em que podia pensar. Havia alguma coisa muito estranha naquela porta aberta. Ela simplesmente não conseguia deduzir. De repente pensou uma coisa. Pegou de novo a porta do porão e abriu inteiramente. Abriu o outro painel também. Depois pegou a lanterna com Aggie e entrou na abertura escura. No fundo de um

curto lance de degraus de pedra encontrou uma porta preta com uma janelinha coberta de teias de aranha. Pôs a mão na maçaneta de porcelana e viu que estava surpreendentemente fria. Virou a maçaneta e empurrou cautelosamente. A princípio achou que a porta estivesse trancada, mas quando empurrou comj mais força ela se abriu com um rangido alto e perplexo. Dentro do porão estava uma escuridão de breu. Rose Rita passou o facho da lanterna e viu formas vagas acocoradas no escuro.

Você está bem? - gritou Aggie nervosamente.

É, eu

Não fique muito tempo.

Não se preocupe, não vou ficar. Vejo você depois.

Certo.

acho que sim. Olhe, Aggie. Fique aí, de vigia. Eu vou entrar e dar uma olhada.

Rose Rita se virou e apontou a lanterna para cima. Lá estava Aggie, com sua expressão preocupada. Estava acenando levemente. Rose Rita engoliu em seco e pensou na Sra. Zimmermann. Virou-se e entrou.

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Enquanto atravessava o frio chão de
John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Enquanto atravessava o frio chão de

Enquanto atravessava o frio chão de pedra, olhava nervosamente de um lado para o outro. Num canto havia uma fornalha. Com os braços de metal erguidos, parecia uma espécie de monstro. Perto havia um freezer que fez Rose Rita pensar num túmulo. Riu nervosa. Por que tudo parecia tão assustador? Aquele era um porão perfeitamente comum. Não havia nenhum fantasma ou monstro. Continuou andando. Num canto distante do porão encontrou uma escada de madeira. Subiu lentamente. Os degraus estalavam debaixo dos seus pés. No topo havia uma porta. Ela abriu e olhou para fora. Estava na loja. Havia mercadorias empilhadas em fileiras sombrias. Latas, garrafas, frascos, meio iluminados pela fraca lâmpada acesa acima da caixa registradora. Do lado de fora da janela da frente passou um carro.

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Rose Rita podia ouvir um relógio

Rose Rita podia ouvir um relógio tiquetaqueando devagar, mas não podia vê-lo. Atravessou a sala e abriu uma porta. Ali havia uma escada para o segundo andar. Começou a subir. Na metade da escada Rose Rita viu uma coisa que a fez parar: um quadro pendurado com a frente virada para a parede. Curiosa, ela o virou. O quadro mostrava um santo com auréola. Ele estava segurando uma cruz e olhando para o céu com olhos grandes e místicos. Rapidamente Rose Rita virou o quadro de novo para a parede. Um tremor violento passou por seu corpo. Por que tinha ficado com tanto medo? Não sabia. Quando tinha se acalmado, continuou a subir. No topo da escada havia um corredor em forma de L, e na metade dele uma porta. Havia uma chave na porta. Ela virou-a, e a porta se abriu. Rose Rita circulou o facho da lanterna, e descobriu que estava num quarto pequeno. Havia um interruptor perto da porta. A mão de Rose Rita foi na direção dele, mas então ela parou. Seria uma coisa ruim acender a luz? Olhou para a janela. Era a única no quarto, a janela que ela havia tentando alcançar subindo pela treliça. A janela dava para a massa escura de árvores atrás da loja. Gert Bigger estava a quilômetros de distância. Se eu acender a luz, pensou Rose Rita, as pessoas vão achar que a velha Gertie está aqui em cima contando o dinheiro. Apertou o interruptor e começou a olhar em volta.

Era um quarto muito comum. A única coisa estranha era que parecia que alguém morava ali, mas ocorreu a Rose Rita que talvez Gert Bigger ficasse ali durante o inverno, ou nas noites em que o tempo estivesse tão ruim que fosse impossível ir para casa. Num canto havia uma pequena cama de ferro. Era pintada de verde, e as florezinhas de ferro fundido nas barras da cabeceira tinham toques de rosa. Perto havia um armário sem porta. Vestidos comuns pendiam nos cabides, e no chão havia meias de náilon emboladas, perto de um par de sapatos pretos, de senhora. Havia uma prateleira no armário, e alguma coisa parecida com um cobertor dobrado em cima dela. Nada de incomum. Atravessou o quarto e examinou a penteadeira. Havia um espelho em cima, e na frente do espelho uma coleção de frascos. Loção Jergen’s, Noxzema, loção Pond’s, um grande vidro azul de perfume Evening in Paris. Sobre o centro de mesa, de linho branco, havia uma pinça, pentes e escovas, pedaços de lenço de papel e pequenos cachos de cabelos castanhos escuros. Havia também uma caixa de lenços de papel. Rose Rita se virou e olhou o quarto. Haveria mais alguma coisa ali? Sim. Sobre uma mesa baixa perto da cama estava um livro grande. Um livro grande e pesado com capa de couro trabalhado. As páginas tinham bordas douradas, e havia complicados desenhos dourados na lombada e na capa. Um marcador vermelho e manchado se projetava do livro. Rose Rita podia ouvir o próprio coração batendo. Engoliu em seco. Seria esse? Chegou mais perto

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel e virou a capa grossa. Ficou

e virou a capa grossa. Ficou desanimada. Não era o livro que ela queria. Era algo chamado Uma

enciclopédia de antiguidades judaicas, do Reverendo Merriwether Burchard, D.D., D. Lit. Bem, pelo menos era algum tipo de livro. Rose Rita começou a folheá-lo. O livro era impresso em colunas duplas com letras pretas minúsculas, e cheio de gravuras escuras

e misteriosas. Segundo as legendas, as imagens mostravam o Templo de Salomão, a Arca da Aliança, a

Pia de Bronze, o Candelabro de Sete Braços e coisas assim. Rose Rita sabia o que eram algumas das imagens. Havia gravuras assim na Bíblia de sua avó. Bocejou. Parecia um livro bastante chato. Olhou em volta e suspirou. Certamente aquilo ali não era o antro de uma feiticeira. Talvez estivesse errada quanto a Gert Bigger ser bruxa. Rose Rita percebeu, com o coração apertado, que sua teoria sobre a bruxa se baseava em muitas suposições. A Sra. Bigger podia ter uma foto de Mordecai Hunks na parede, mas o que isso provava? Quanto à foto que a Sra. Zimmermann tinha encontrado, poderia ser apenas coincidência. E quanto ao estranho desenho e aos estranhos hábitos de leitura da Sra. Bigger, bom, ela podia ser uma daquelas pessoas que querem ser feiticeiras. Uma vez a Sra. Zimmermann tinha dito a Rose Rita que havia muita gente que adoraria ter poderes mágicos, ainda que não houvesse uma chance em um milhão de consegui-los. Pessoas assim leriam livros de magia na esperança de ser mágicos, não é? Bom, não é? Começou a imaginar se não tinha cometido um erro terrível. Algumas coisas estranhas aconteceram com ela e a Sra. Zimmermann, mas isso não significava que a velha Sra. Bigger tivesse feito com que acontecessem. Pegou a lanterna na cama e estava para descer quando ouviu um barulho. Um

leve som raspado na porta do quarto. O terror agarrou Rose Rita por um instante, e então ela se lembrou de uma coisa que a fez rir. A Sra. Bigger tinha um cachorro. Um pequeno cachorro preto. Provavelmente ela o havia trancado dentro da loja para passar a noite. Com um suspiro de alívio, Rose Rita abriu a porta. Era mesmo o cachorro. Ele trotou pelo quarto e pulou na cama. Rose Rita sorriu e se virou para a porta. Mas parou de novo, porque o cachorro tinha feito um som muito estranho. Um som que parecia um ser humano tossindo. Algumas vezes os animais fazem sons humanos. Os gritos dos gatos, em certas ocasiões, parecem o choro de um bebê. Rose Rita sabia disso, mas mesmo assim o som a fez parar. Os pêlos na sua nuca se eriçaram. Ela se virou lentamente. Ali, na cama, estava sentada Gert Bigger. Sua boca brutal parecia fixa no sorriso mais maligno.

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John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO ONZE Rose Rita estava no
John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO ONZE Rose Rita estava no

CAPÍTULO ONZE

Rose Rita estava no escuro. Sentiu uma leve pressão nos olhos e soube que havia algo cobrindo-

os, mas não sabia o que era. Teria levantado a mão para descobrir os olhos, mas não pôde. Suas mãos

estavam cruzadas sobre o peito e, mesmo podendo senti-las, ela não podia movê-las. Não podia mover

nenhuma parte do corpo, nem podia falar, mas podia ouvir e sentir. Enquanto estava ali parada, uma

mosca - parecia uma mosca - pousou na sua testa e andou por todo o seu nariz antes de sair zumbindo.

Onde ela estava? Provavelmente no quarto acima da loja de Gert Bigger. Parecia que estava

deitada numa cama, pelo menos. E havia um cobertor, ou algo parecido com um cobertor, em cima de

seu corpo. Era pesado, e o quarto estava quente e imóvel. Minúsculos riachos de suor desciam pelo seu

corpo. Por que não conseguia se mexer? Estava paralisada, ou o que seria? Então lhe voltou, como um

pesadelo, o terror que tinha sentido ao ver Gert Bigger sentada na cama, olhando-a com ar de zombaria.

Ela devia ter desmaiado, porque não conseguia lembrar nada depois disso.

Ouviu o estalo de uma fechadura. Uma porta se abriu. Passos pesados atravessaram o quarto e

pararam perto da sua cabeça. Uma cadeira rangeu.

Bem, bem, bem. E como você está, Srta. Enxerida? Hein? Não quer falar comigo? Isso não é

educado. Você sabe, sou eu quem deveria me sentir ofendida pelo modo como você invadiu isso aqui e

remexeu em tudo. Você não estava tentando descobrir se eu era uma feiticeira? Bom, pode relaxar. Eu

sou.

Gert Bigger riu, e não foi o tipo de riso que se esperaria de uma mulher grandalhona como ela. Era

um risinho agudo e minúsculo. Rose Rita pensou que parecia a gargalhada de uma pessoa louca.

Sim, senhora - prosseguiu Gert Bigger. Tudo começou quando aquele velho idiota do

Gunderson passou aqui uma noite. Ele era meio maluco, e começou a falar de um anel mágico que tinha

encontrado na fazenda. Bom, a princípio eu só achei que ele estava de besteira, mas depois comecei a

pensar: e se fosse verdade? Veja bem, eu sempre quis ser capaz de fazer magia. Estudei um bocado.

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Bom, depois que o velho Oley

Bom, depois que o velho Oley bateu as botas, eu invadi a casa dele e procurei até encontrar o anel. Agora ele está no meu dedo. Você leu naquele livro o que o tal de Burchard falou sobre ele? É tudo verdade, veja bem, cada palavra. Aqui, deixe-me ler para você. Rose Rita ouviu o som de dedos folheando as páginas de um livro.

Aqui está, onde eu pus o marcador. Você deve ter visto quando estava xeretando, ainda que

algumas vezes gente enxerida como você não veja o que está bem debaixo do nariz. - Ela deu um risinho

Nenhum relato das antiguidades judaicas seria completo sem

mencionar o lendário anel do rei Salomão. Segundo o grande historiador Flavius Josephus, o rei Salomão possuía um anel mágico que lhe permitia fazer muitas coisas maravilhosas. O anel lhe dava o poder de teleportação, isto é, a capacidade de ir de um lugar a outro sem ser visto. Conferia-lhe a capacidade da feitiçaria e da adivinhação, e lhe permitia humilhar os inimigos transformando-os em animais inferiores. Desse modo, dizem, o rei Salomão derrotou o rei dos hititas, quando o transformou num boi. O anel também permitia que Salomão mudasse sua própria forma à vontade - dizem que a preferida por ele era a de um pequeno cachorro preto, em cuja forma ele espionava os inimigos e descobria muitos segredos. Mas o maior poder do anel era o que Salomão, o mais sábio dos homens, jamais quis usar. Se o dono quisesse, o anel poderia dar vida longa e grande beleza. Mas para obter esse dom o usuário precisava invocar o demônio chamado Asmodeu. Talvez seja por isso que Salomão se recusou a usar esse poder do anel. Porque, pelo que nos foi dito, aquele que invoca o demônio ” O livro se fechou com força.

Já chega, reverendo - murmurou Gert Bigger. Bom, aí está você, Srta. Enxerida. Não é

interessante? Mas vou dizer o mais interessante de tudo. Você veio aqui exatamente na hora certa, veio mesmo. Eu ia fazer alguma coisa com você quando a peguei xeretando na minha saleta dos fundos, mas mais tarde falei comigo mesmo: ela vai voltar! E você realmente voltou, voltou, voltou mesmo! - Gert Bigger soltou um riso agudo. Eu deixei aberto o cadeado do porão, e você entrou direitinho, sua pequena idiota. Bom, você vai descobrir como é se meter com bruxas. Florence descobriu, e eu ainda não terminei com ela, ainda falta muito. - Ela fez uma pausa e soltou um som desagradável, como uma cusparada. Tfff! Ah, eu sabia muito bem, sabia muito bem o que ela queria quando apareceu aqui, fingindo que estava sem gasolina! Eu sabia sobre ela e toda aquela macaqueação de magia dela, aquele diploma de faculdade e coisa e tal, e disse a mim mesma: ela está atrás do anel! Fiquei muito preocupada, porque não sabia como lidar direito com o anel, a não ser pelo truque do cachorro preto. Bom, depois que vocês foram para o norte eu aprendi. Mandei uma fotografia para lá, e fui eu quem você viu no quarto de Florence. Além disso eu apareci no banco de trás do carro de vocês por alguns segundos. Matei você de susto, não foi? - Ela deu um riso estridente. Depois, após outra pausa, continuou num

de novo. — Pronta? Aqui está.”

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel tom mais sombrio: — Bom, diversão

tom mais sombrio: Bom, diversão é diversão, mas eu cansei de brincar. Eu tenho Florence, e vou dar um jeito nela de uma vez por todas, de modo que ela nunca consiga pegar o meu anel, nunca! Claro - acrescentou ela , eu tenho um ressentimento especial porque ela arrasou minha vida. Se eu e Mordy tivéssemos nos casado, minha vida teria sido melhor. O velho com quem casei me batia. Você não sabe como é isso. Não sabe mesmo. - A voz de Gert Bigger ficou embargada. Será que estava chorando? Não dava para Rose Rita saber. Gert Bigger continuou arengando em sua voz dura e raivosa. Explicou que tinha posto Rose Rita sob um feitiço de morte. Quando amanhecesse ela morreria. Encontrariam seu corpo rodeado pela parafernália da magia de Gert Bigger. Mas Gert Bigger teria ido embora. Na verdade não existiria mais Gert Bigger, porque ela seria uma jovem linda. Tinha tudo planejado: iria embora para outro lugar e mudaria de nome. Tinha sacado todo o seu dinheiro do banco - estava no cofre do andar de baixo. Com um novo nome e uma nova vida ela poderia começar a compensar as coisas horríveis que tinham lhe acontecido. E antes de ir embora acertaria as contas com a Sra. Zimmermann, de uma vez por todas. Assim que terminou de falar, Gert Bigger saiu do quarto e trancou a porta. Rose Rita ficou olhando desesperançada para a escuridão ao redor. Pensou em Aggie. Aggie era sua única esperança. Rose Rita não tinha idéia de quanto tempo havia se passado desde que tinha deixado Aggie perto da porta do porão. Esperava que Gert Bigger não a tivesse capturado também. Rezou, ainda que sua boca permanecesse fechada e nenhum som saísse. Por favor, Deus, ajude Aggie a me encontrar. Talvez ela consiga ajuda antes de ser tarde demais. Um longo tempo se passou. Pelo menos pareceu um longo tempo, ainda que Rose Rita não tivesse como saber quanto. Seu relógio ainda estava no pulso, tiquetaqueando, mas não lhe adiantava. Como saberia quando fosse amanhecer? Saberia quando estivesse morta. Tic-tic-tic-tic. Rose Rita pôde sentir o corpo entorpecendo. Não podia sentir mais as mãos nem o peito. Teve uma visão horrível de si mesma como uma cabeça cortada, sobre um travesseiro. Era um pensamento tão medonho que ela tentou se livrar dele, mas continuava voltando. Por favor, Deus, mande Aggie, mande alguém. Tic-tic-tic-tic. Tr-rrr-rrrim. Uma campainha estava tocando. Tocou várias vezes, e então Rose Rita ouviu o tilintar do sininho em cima da porta da loja. Depois disso não ouviu mais nada. Silêncio. Mais tempo se passou. Então Rose Rita ouviu a fechadura do quarto estalar. Passos, e o estalo de uma cadeira quando uma pessoa pesada se sentou.

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel — Minha nossa, é preciso todo
John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel — Minha nossa, é preciso todo

Minha nossa, é preciso todo tipo de coisa para fazer um mundo! - disse Gert Bigger. Com quem você acha que eu estive falando? Adivinhe. Desiste? Com a Sra. Sipes, que mora aqui perto. Ela e a

Aggie, eu acho que é o nome. As duas estavam abaladas porque Aggie disse que eu seqüestrei

você. Imagine! - Gert Bigger deu um risinho. Elas até trouxeram um policial junto para revistar a loja. Bom, eu conheço os meus direitos. Ele não tinha um mandado de busca, e eu falei isso a ele. Eu falei: eu sei os meus direitos e você não pode entrar, e não, eu não sei nada sobre nenhuma garotinha! E pronto! Imagine o desplante deles, vindo assim! - Gert Bigger gargalhou de novo. A cadeira estalou enquanto ela balançava para trás e para a frente, gargalhando. A minúscula chama de esperança se apagou na mente de

filha

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Rose Rita. Ela ia morrer, e

Rose Rita. Ela ia morrer, e não havia nada que ninguém pudesse fazer a respeito.

Gert Bigger saiu do quarto, e houve um outro longo silêncio escuro. Rose Rita continuava ouvindo sons baixos, mas não podia deduzir o que eram. Finalmente a porta se abriu de novo, rangendo, e ela ouviu Gert Bigger andando pelo quarto. Estava murmurando sozinha, e houve o som de gavetas abrindo e fechando. A bruxa estava fazendo as malas, preparando-se para ir embora. Depois do que pareceu um longo tempo, Rose Rita ouviu os sons de uma mala sendo fechada. Gert Bigger foi até a cadeira perto da cabeceira da cama e se sentou de novo.

Como está indo? Hein? Já está sentindo alguma coisa? Esse feitiço vem aos poucos, pelo que

dizem. Mas só termina ao amanhecer, e ainda falta muito. Certo, agora. Eu estou pronta para ir. Ainda

não cuidei de Florence, mas acho que farei isso na saída. Quero que ela veja como eu vou ficar depois de

ter me transformado. E sabe de uma coisa? Vendo como você está tão boazinha e quieta, vou deixar que você veja meu pequeno número de mudança. Bom, claro que de certa forma estou brincando, porque

não posso deixar realmente que você me veja. Eu teria de tirar essas coisas dos seus olhos, e isso quebraria o feitiço, e nós não podemos deixar que isso aconteça, não é? Não, senhora. Mas eu digo o que vou fazer. Vou ficar sentada nesta cadeira e invocar o velho Asmodeu, e você poderá ouvir a voz dele. Que tal? Vejamos agora, o que é que eu faço? Ah, sim Gert Bigger bateu palmas três vezes e disse numa voz autoritária:

Mande Asmodeu a mim! Agora!

A princípio nada aconteceu. Depois, lentamente, Rose Rita começou a sentir a presença de uma

coisa maligna. A sensação voltou ao seu corpo. Sua carne estava coberta de arrepios, e ela sentiu frio. O

ar ficou denso, e era difícil respirar. Na escuridão uma voz áspera e cheia de sussurros falou:

Quem invoca Asmodeu?

Eu invoco. Estou usando o anel do rei Salomão, e quero mudar de forma. Quero ser jovem e

linda, e quero viver mil anos. - Gert acrescentou rapidamente: Mas não quero envelhecer. Quero ficar jovem o tempo todo.

Assim seja - disse a voz sussurrante.

Assim que a voz sussurrante parou de falar, Rose Rita ouviu um som fraco. Era como alguém largando uma moeda no chão. Depois houve um som parecido com um vento forte rugindo no quarto.

O cômodo estremeceu, como se o chão debaixo da casa estivesse se sacudindo. Rose Rita ouviu todo

tipo de estalos e sons chacoalhantes. A cama tremeu, e a coisa que estava sobre seus olhos caiu. Ela se sentou e balançou a cabeça, grogue. Olhou em volta. Onde estavam seus óculos? O que Gert Bigger tinha feito com eles? Tateou na mesinha-de-cabeceira e os encontrou. Colocou-os e olhou em volta. Gert Bigger tinha sumido. Rose Rita não tinha ouvido quando ela saiu, e a chave estava do lado de

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel dentro da porta. Na cama, ao

dentro da porta. Na cama, ao lado, Rose Rita viu dois dólares de prata. Deviam ser as coisas que estavam sobre seus olhos. E ela descobriu que estava deitada sob um grosso cobertor de lã. O cobertor tinha uma borda branca e uma grande cruz branca no meio. Rose Rita sabia o que era. Tinha ido a um enterro na igreja católica de Nova Zebedee, e tinha visto um caixão coberto com um cobertor exatamente assim. Com um tremor violento jogou a coisa para longe e se sentou. Sentiu-se enjoada, como se tivesse ficado de cama, com gripe, durante duas semanas. Quando tentou se levantar, sentou-se de novo subitamente. O suor descia pelo rosto. Enquanto olhava tonta em volta, ocorreu-lhe imaginar o que tinha acontecido com a Sra. Bigger. Provavelmente tivera o desejo concedido, e estava em Holywood, vivendo com Lana Turner, Esther Williams e todo aquele pessoal. Rose Rita não sabia, e não se importava. Estava tonta, e não conseguia parar de tremer. Sua cabeça parecia leve como um cesto de vime. Por fim, com um esforço, forçou-se a ficar de pé. De repente se lembrou de alguma coisa, uma coisa que a havia deixado perplexa. Aquele som, como uma moeda caindo no chão. O que era? Ficou de quatro e olhou debaixo da cama. E naquele momento ouviu, vindo de baixo, batidas terríveis. A campainha tocou umas oito vezes, e uma voz abafada gritou:

Abra! Abra em nome da lei!

Eles estavam de volta! Aggie, sua mãe e os policiais! Rose Rita olhou para a porta. E se a Sra. Bigger tivesse deixado o anel? Não seria fantástico descer a escada e encontrar Aggie tendo no punho fechado o anel do rei Salomão? Rose Rita se curvou e tateou a poeira debaixo da cama. Ali estava! Estendeu a mão e pôs a ponta do dedo no meio do anel. Puxou o anel e o fechou dentro do punho.

bem, estranha.

Sentiu-se orgulhosa, amarga e com raiva, com raiva das pessoas que tinham vindo arrastá-la para a sua vida antiga. Certo, Sra. Bigger trovejou a voz. Nós vamos contar até dez e arrombamos a porta!

Um

Rose Rita se levantou e olhou ferozmente para a porta do quarto. A expressão em seu rosto era tão cheia de ódio que ela nem se parecia consigo mesma. Havia uma luz selvagem em seus olhos. Então eles estavam vindo para levá-la! Bom, teriam de pegá-la primeiro. Correu até a porta e a destrancou. Com o anel ainda dentro da mão, partiu pelo corredor. Na extremidade do corredor havia uma porta

entreaberta, e ela podia ver uma escada para baixo. Não era a escada por onde tinha subido, era outra, dando nos fundos da casa. Correu para ela.

E com isso aconteceu uma coisa. Um tremor atravessou seu corpo, e ela se sentiu

Seis

sete

Desceu a escada correndo. Embaixo havia uma porta com tranca e corrente. Furiosa, mas sem largar o anel por um segundo, Rose Rita abriu a tranca e os trincos.

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel — Dez! Houve um barulho alto

Dez! Houve um barulho alto e uma balbúrdia de vozes gritando. No meio daquilo tudo Rose Rita ouviu Aggie gritando: Rose Rita, você está bem? Rose Rita hesitou. Olhou depressa para a frente da loja, de onde vinha todo o barulho. Depois seu rosto se endureceu, e ela apertou o anel com mais força. Virou-se e correu, passando pelo telheiro de ferramentas e pelo varal de roupas, em direção à escura massa de árvores que chegavam perto do quintal dos fundos de Gert Bigger. A sombra dos pinheiros pareceu se expandir e engoli-la.

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO DOZE Rose Rita corria pela
John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel CAPÍTULO DOZE Rose Rita corria pela

CAPÍTULO DOZE

Rose Rita corria pela floresta, os pés batendo no chão com força. Retalhos da paisagem passavam para trás, galhos e tocos, cogumelos cobrindo troncos escuros. Corria por um caminho tortuoso coberto de agulhas de pinheiro marrons, um caminho que entrava cada vez mais na floresta. Algumas vezes caía ou batia com os tornozelos num toco, mas a cada vez se levantava e continuava correndo. Cada vez mais rápido. Galhos chicoteavam seu rosto e os braços, deixando marcas vermelhas, mas a dor dos cortes só fazia com que ela corresse mais rápido. Enquanto corria sua mente ia se enchendo de um emaranhado de pensamentos. Imagens saltavam à frente, como clarões de relâmpagos. Rose Rita as via com tanta clareza como se estivessem pintadas no ar. Viu o garoto de cabelo à escovinha que gritara: “Você é uma garota muito estranha!” Viu as garotas paradas perto da parede no baile de sábado à noite. Viu o prédio preto, da escola da sétima série, para onde teria de ir no outono seguinte. Viu garotas em vestidos elegantes, garotas que usavam meias de náilon, batom e rímel, perguntando-lhe: “Qual é o seu problema? Não quer namorar? Namorar é divertido!” Enquanto corria, achou que podia ouvir alguém atrás, gritando o seu nome. A voz era fraca e distante, mas ela tinha certeza de ter ouvido o chamado uma ou duas vezes. Não, ofegou Rose Rita. Você não vai me pegar. Eu já estou cheia disso. Já estou cheia, e vou ter o que eu quero Rose Rita continuou correndo às tontas pela escura floresta de pinheiros. Deixou o caminho para trás e meio escorregou, meio correu descendo um barranco íngreme. O barranco era coberto de agulhas de pinheiro, e as agulhas de pinheiro são escorregadias. Ela perdeu o apoio e caiu, virando cambalhota.

John Bellairs A Carta, a bruxa e o anel

John Bellairs – A Carta, a bruxa e o anel Rolou e rolou. Quando chegou embaixo,

Rolou e rolou. Quando chegou embaixo, atordoada, enjoada e trêmula, a primeira coisa que fez foi se

certificar de que estava com o anel. Ali estava ele, ainda apertado na mão. Rose Rita abriu a mão apenas o suficiente para garantir que o anel estava em segurança. Depois fechou-a com força, levantou-se com dificuldade e começou a correr de novo. Havia dentro de sua cabeça uma coisa que continuava impelindo-a, uma coisa implacável e mecânica, como um pistão. Continue, continue, dizia a coisa. Continue em frente, continue em frente, continue em frente Atravessou um pequeno riacho e começou a subir o barranco do outro lado. Mas o barranco era íngreme, e era difícil subir com uma das mãos fechada. Rose Rita parou, ofegando, na metade da subida. Por que não colocar o anel? Abriu a mão e ficou olhando estupidamente boquiaberta para o objeto pesado. Era grande demais cairia do seu dedo. Que tal colocar no bolso? Não, poderia haver um buraco no bolso. Ele poderia ser perdido. Tinha de saber que ele estava ali o tempo todo. Rose Rita fechou a mão e subiu, apenas com a ajuda da outra. Era boa em subir, e havia raízes aqui e ali que podiam ser usadas como se fossem degraus. Continuou subindo. Quando chegou ao topo, parou para recuperar o fôlego.

Rose Rita! Rose Rita! Pare!

Rose Rita girou. Quem era? Era uma voz que ela conhecia. Estava a ponto de voltar quando

aquele pistão em sua cabeça começou de novo. Continue, continue, vamos, vamos, vamos. Rose Rita olhou furiosa para trás, para o outro lado do riacho. Havia uma raiva insana em seus olhos.

Venha me pegar! - rosnou ela entre os dentes. Em seguida virou-se e correu.

Mergulhou cada vez mais na floresta. Mas agora suas pernas estavam começando a enfraquecer. Pareciam de borracha. Ter ficado sob aquele feitiço na cama de Gert Bigger a havia enfraquecido, como aconteceria depois de uma longa doença. O lado de sua cintura doía, e quando ela tentava recuperar o fôlego, bolhas aquosas ficavam estourando na sua boca. Estava encharcada de suor, e os óculos estavam

embaçados. Queria parar, mas o pistão insistente não deixava. Forçou-a até que, finalmente, ela chegou a uma pequena clareira. Rose Rita caiu de joelhos e olhou em volta. Onde estava? O que estava fazendo?