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A Nova Ordem Mundial

POLÍTICA EXTERNA - VOL. 1 - Nº 1 - JUNHO 1992 fonte: www.relnet.com.br (acessado em setembro de 2005)

A Nova Ordem Mundial

Helio Jaguaribe Helio Jaguaribe é Secretário de Ciência e Tecnologia.

O sistema mundial criado com a Segunda Guerra sofreu profundas alterações nos

últimos decênios e principalmente nos últimos três anos. Há provavelmente, entre os estudiosos do assunto, amplo consenso de que o mundo atual caracteriza-se sobretudo por cinco aspectos — alguns herdados de períodos anteriores, outros muito recentes: 1. o colapso do comunismo mundial; 2. o advento de sociedades pós-industriais; 3. a formação de megamercados; 4. o agravamento do desnível entre o Norte e o Sul; e 5. a inexistência de uma

administração racional para os principais interesses coletivos da humanidade.

O colapso do comunismo

Do ponto de vista da estratégia, o fato mais importante ocorrido no mundo, nas últimas décadas, foi o colapso do comunismo internacional, cuja causa imediata foram as reformas instituídas por Gorbatchov desde a segunda metade dos anos 80, e cuja causa mais profunda foi a longa crise sofrida pelo regime na União Soviética e no Leste europeu. A experiência comunista, embora a um custo humano intolerável, conseguiu, no espaço decorrido entre a Revolução Russa e a Segunda Guerra Mundial, converter uma sociedade agrária em industrial e conseguiu também, depois da fabricação da primeira bomba atômica soviética, em 1948, e do bem-sucedido lançamento do Sputnik, em 1957, levar a União Soviética à paridade estratégica com os Estados Unidos. As reformas de Gorbatchov, com todas as suas inúmeras conseqüências, foram determinadas, em essência, pelo fato de os novos líderes do país reconhecerem que o regime esgotara, desde a época de Kruchov, nos anos 60, e de modo irreparável a partir dos anos 80, suas potencialidades e sua legitimidade. Apesar do êxito na implantação de um vasto parque de indústria pesada e de uma das duas máquinas de guerra mais poderosas do mundo, o sistema burocrático e totalitário não conseguiu criar os incentivos necessários à maioria das atividades. Um abismo cada vez maior separava o aparelho militar de suas bases sociais e econômicas de apoio, impossibilitando cada vez mais a própria manutenção. As reformas de Gorbatchov foram uma tentativa lúcida, porém atrasada, de evitar o completo colapso da economia e a desintegração da sociedade soviética, lançando mão dos últimos recursos materiais e institucionais do país a fim de reorientá-lo nos rumos de uma democracia social moderna. Ainda não se sabe se será possível evitar a desintegração do país, embora Mikhail Gorbatchov tenha conseguido, desde que chegou ao poder, em 1985, manter basicamente sob seu controle o rumo dos acontecimentos. De qualquer forma, mais cedo ou mais tarde surgirá um país moderno e democrático, cuja atuação no cenário mundial será importante, e que provavelmente contará com um número menor de repúblicas confederadas. Antes de isso acontecer, essas reformas já desencadearam a desintegração do sistema-satélite do Leste europeu e

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neutralizaram a possibilidade de a União Soviética continuar atuando como superpotência mundial, como antes fazia. Em conseqüência, os Estados Unidos assumiram o papel de única superpotência ainda atuante.

O comunismo não europeu Até mesmo uma referência sucinta ao colapso do comunismo mundial requer um breve esclarecimento quanto à situação dos países comunistas não-europeus. A desintegração do modelo comunista, na Europa, abalou a validade desse sistema em todo o mundo. Contudo, fora da Europa a situação dos regimes comunistas difere muito, segundo se considere o caso cubano, num extremo, e no outro extremo o modelo chinês. Em Cuba, assim como na Coréia do Norte, temos regimes que sobrevivem unicamente pela força e obstinação de seus líderes. É muito difícil acreditar que sobrevivam por muito tempo. A situação da China é bem diferente. O comunismo foi usado como força motivadora

e máquina institucional para pôr em movimento a experiência mais extraordinária

de nosso tempo, no sentido de superação do subdesenvolvimento. Em poucas décadas, e partindo de um quadro de fome crônica, miséria social e absoluta carência de noções de agricultura, a experiência chinesa foi capaz de dar alimento, moradia, emprego, educação, saneamento público, assistência médica e proteção jurídica a 1,2 bilhão de pessoas, quase a quarta parte da humanidade. Sob a liderança de Deng Xiaoping, o comunismo chinês se tornou, para todos os fins práticos, um autoritarismo desenvolvimentista esclarecido. Um equivalente, chinês e contemporâneo, do autoritarismo esclarecido do século XVIII. Como qualquer regime, de modo geral, e especialmente como todos os regimes autoritários, o modelo chinês recente tem muitos defeitos. Porém, nas condições

da China, só esse tipo de autoritarismo esclarecido seria capaz, considerando-se

o nível de desenvolvimento já alcançado na primeira fase do regime, de conduzir

esse mesmo regime à instauração gradual da economia de mercado, como vem sendo

feito com sucesso. A manutenção de tal autoritarismo impediu que se manifestassem na China os problemas que tiveram efeito tão grave na União Soviética, pois este país foi levado a abandonar o autoritarismo antes de concluir suas reformas econômicas.

Sociedades pós-industriais Outra faceta contemporânea da maior importância é o surgimento de sociedades

pós-industriais. A nova revolução tecnológica, baseada numa física einsteiniana

e na física dos quanta, na biologia molecular e em vários outros progressos

científicos, está criando uma nova sociedade terciária e informacional, cuja produtividade vem aumentando extraordinariamente graças aos inúmeros usos de aparelhos microeletrônicos e outros. Isso criou, em relação às sociedades simplesmente industrializadas, uma defasagem comparável à que separava essas sociedades das sociedades agrárias. O Japão e os Estados Unidos lideram o processo, seguidos por alguns países europeus. O papel decisivo que a tecnologia veio a desempenhar, como fator produtivo mais importante, teve inúmeras conseqüências; uma das menos previstas e interessantes, que se observa com freqüência cada vez maior, é a mercantilização do conhecimento. Desde a Renascença, e especialmente durante o Iluminismo, o conhecimento era visto como um bem comum da humanidade. As ciências constituíam um campo aberto a todos os pesquisadores. As principais universidades dos

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Estados Unidos, da Europa e do Japão abriam-se a candidatos qualificados do mundo inteiro e ministravam a seus alunos o melhor ensino em todos os campos acadêmicos. Agora, quando a ciência aplicada tornou-se fonte de inovações tecnológicas, o conhecimento aplicado tornou-se o ativo econômico mais valioso e é cada vez mais protegido por sigilo jurídico, e não mais controlado pelas principais universidades, mas sim pelos laboratórios das grandes empresas multinacionais, em benefício próprio. Quando as sociedades adiantadas se converteram em sociedades pós-industriais, aumentou muito a distância que as separa das sociedades subdesenvolvidas. Chegar ao nível de sociedade pós-industrial ficou muito mais difícil, devido às patentes e ao sigilo que protegem as inovações tecnológicas.

Megamercados As exigências de competitividade econômica, estreitamente ligadas ao surgimento das sociedades pós-industriais, deram margem à formação de megamercados regionais. A começar pela Comunidade Européia que se tornará um sistema fechado em 1993, amplia-se a tendência de se criar enormes mercados comuns. Estados Unidos e Canadá — e o México, que já manifesta intenção de participar — estão formando um mercado comum norte-americano. Na Ásia, o Japão faz acordos para a instauração de um amplo sistema econômico, que o próprio Japão lideraria. Em escala bem menor, os países mais meridionais da América do Sul criaram o Mercosul, que os integra em um mercado comum do Cone Sul. Os megamercados organizam-se por sob um discurso liberal. A ampliação das fronteiras de mercados antes nacionais, mediante a formação de sistemas econômicos multinacionais, é apontada como um meio de obter, com economia de escala, mais produtividade e capacitação para pesquisa e desenvolvimento. Com isso se reduzem custos e preços e se melhora a qualidade dos produtos, em benefício tanto dos membros quanto dos não-membros desses mercados. Mas na verdade, como bem demonstra a Comunidade Européia, o liberalismo é uma política de exportação para os megamercados, uma vez que se lança mão de instrumentos neomercantilistas de protecionismo contra não-membros competitivos, em benefício da produção e do emprego dos países membros. Os megamercados, ainda que não pratiquem ativamente políticas protecionistas, incrementam bastante o comércio intramercado, em detrimento do livre comércio internacional. Sendo assim, é possível que países isolados venham a sofrer restrições.

Desnível entre Norte e Sul O desnível entre o Norte e o Sul é, como se sabe, um fato histórico relativamente recente. Em todas as sociedades civilizadas do mundo, o nível básico de vida foi o mesmo, até a Renascença. A revolução mercantilista veio criar diferenças em favor dos países que se dedicaram ao comércio mundial e ao colonialismo. Com a Revolução Industrial, as sociedades industriais passaram a ter, em relação às sociedades que permaneceram agrárias, vantagens cada vez mais aceleradas. A nova Revolução Industrial, como já se fez notar, multiplica essa vantagem, por um fator altíssimo, em benefício das sociedades pós-industriais. O desnível Norte-Sul, que não cessa de se agravar, não é apenas moralmente inaceitável, mas também constitui fator de crescente desestabilização da ordem

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mundial. No nível normativo e axiológico, uma social-democracia próspera não poderá preservar seus valores e instituições caso constitua uma ilha, no Norte, de pessoas instruídas e ricas, uma ilha cercada por bilhões de seres humanos miseráveis e sem instrução. No nível de vida atual, é inviável a coexistência de duas sociedades, em um planeta unificado pela comunicação instantânea e por uma interdependência econômica e tecnológica que não cessa de se estreitar. Os mesmos fatores que levaram as elites do Norte a estenderem à massa de suas populações níveis mais elevados de instrução, renda e participação levarão o Norte a incorporar seu proletariado do Sul. Mas esse processo, assim como seu precedente histórico, levará muito tempo. Quanto mais tempo levar, piores desafios imporá a uma ordem mundial estável. No tocante ao provável subdesenvolvimento futuro dos países do Sul, é importante reconhecer que é diferente, em cada um desses países, a capacidade endógena de superar o próprio subdesenvolvimento. Provavelmente, só os países com níveis muito favoráveis de viabilidade nacional conseguirão, e mesmo assim por um processo longo, a sedimentação interna indispensável à superação endógena do próprio subdesenvolvimento. A China, na Ásia, e o Brasil, na América Latina, são bons exemplos. O desenvolvimento da maioria dos países subdesenvolvidos, em especial os africanos, exigirá uma substancial ajuda externa e um contexto internacional bastante favorável. As atuais condições internacionais, com o constante agravamento do desnível Norte-Sul, não apontam para essa direção.

Interesses coletivos

O extraordinário desenvolvimento da tecnologia neste século, e principalmente

nas últimas décadas, não só submeteu o mundo, de várias maneiras, a pressões cujos efeitos desestabilizaram cada vez mais o equilíbrio dos vários sistemas globais, como criou necessidades coletivas que precisam ser administradas de modo racional e justo.

O sistema ecológico do planeta sofre o grave desafio dos múltiplos efeitos da

civilização industrial, e perde rapidamente sua capacidade de auto-recuperação.

A sobrevivência do homem, como espécie, se vê seriamente ameaçada, em futuro não

muito distante, por deteriorações ecológicas irreversíveis. Os sistemas globais de comunicações, transportes, informação, nutrição, saúde, manutenção da paz, cumprimento da lei — sistemas que dizem respeito ao mundo todo — não podem ser administrados racionalmente pela ação isolada de Estados nacionais. Além disso, a maioria desses Estados não tem condições de contribuir significativamente para esse fim. Apenas formas racionais e justas de administração internacional poderão cuidar desses problemas e atender aos principais interesses coletivos da humanidade. As Nações Unidas foram criadas para desempenhar essa função e instituíram agências especializadas para atender a várias dessas exigências. Contudo, seu instrumental não dispõe nem de meios materiais nem de poder político para dar conta da tarefa. Por um lado, até bem pouco tempo atrás, a Organização esteve paralisada pelo confronto Leste-Oeste. Por outro lado, as grandes potências ainda não conferiram à ONU os meios e a autonomia que lhe permitiriam gerir de modo racional e justo os interesses coletivos da humanidade. Na verdade, além de muitos países não estarem pagando em dia suas pequenas contribuições à ONU (os atrasos montam a mais de US$ 670 milhões), os Estados Unidos são o maior devedor.

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II

Tendências a longo prazo Observando-se as tendências históricas de longo prazo, percebem-se indícios irrefutáveis de que existe — ainda que de modo não-linear e descontínuo — progresso cumulativo na expansão da liberdade e no respeito pelos direitos humanos. Isso não implica, necessariamente, uma visão "progressista" da história apesar de eu, pessoalmente, concordar com as opiniões de Kant e também, excetuando-se sua metafísica, com a maioria das concepções históricas de Hegel. Deve-se reconhecer, contudo, que a liberdade humana, tanto em suas dimensões públicas quanto particulares, ampliou-se em âmbito e abrangência, desde os antigos Impérios Orientais, passando pela Grécia e pela Roma clássicas, pela Idade Média e as monarquias centralizadas dos séculos XVII e XVIII, até nossos dias. Aristóteles justificou a escravidão, e o sistema escravagista se manteve, num país como o Brasil, até 1888. Mas, em nosso século, esse simples conceito tornou-se universalmente inaceitável. O progresso da liberdade, na história, se fez acompanhar pela redução de desigualdades, tanto no nível conceptual quanto no prático. É fato que a redução das desigualdades sociais só se concretizou nos limites dos países desenvolvidos. Em várias sociedades subdesenvolvidas as desigualdades foram agravadas pela deterioração generalizada das condições econômicas, como ocorreu ao longo da última década. Por outro lado, acentuaram-se as desigualdades entre

o

Primeiro Mundo e o Terceiro, depois que se ampliou a distância entre o Norte e

o

Sul. Mesmo assim, pode-se observar na história uma tendência a longo prazo,

não-linear e descontínua, no sentido de desigualdades menores. Nas atuais condições, as tendências de longo prazo no sentido da liberdade e da igualdade fazem surgir, para todos os estratos sociais, uma generalização de padrões de vida razoáveis — seja como processo em curso, no caso de países desenvolvidos, seja como tendência ampla, no caso dos demais países. No primeiro caso, as diferenças nas rendas auferidas com o trabalho (excluídos os ganhos de capital) caíram para um coeficiente de 1 para 20. De modo geral, o mundo passa por um processo de rápida modernização. E modernização significa, em última análise, um aumento de racionalidade operacional, em âmbito e abrangência. O processo traz consigo a ampliação de oportunidades e opções para um número cada vez maior de seres humanos. Paralelamente à modernização — e como conseqüência, em última instância, dos efeitos suicidas inevitáveis dos modernos armamentos nucleares — tornam-se

inviáveis as guerras de grandes dimensões. O fim da Guerra Fria — mesmo levando-se em conta a crise interna da União Soviética — deveu-se principalmente ao fato de ambas as superpotências terem reconhecido a impossibilidade técnica de "vencerem" um conflito nuclear de grandes proporções. As tendências já mencionadas não excluem a existência, em nosso tempo, de áreas conturbadas já extensas e que poderão vir a ampliar-se. Os avanços obtidos no sentido de liberdade, igualdade e bem-estar elevaram também, embora por via

indireta, os índices de anomia, vício de drogas e criminalidade no mundo. Contudo, sem levar em conta os possíveis efeitos das referidas áreas conturbadas sobre a vida coletiva, percebe-se na esfera pública, tanto no nível nacional quanto no internacional, sinais evidentes de receptividade a uma ordem racional

e justa que a regulamente.

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A ordem mundial Uma ordem mundial estável, racional e justa supõe a existência de um sistema de normas e procedimentos — um sistema realista, justo e capaz de ser cumprido, que permita a administração eficaz dos principais interesses coletivos da humanidade. O ensaio de Kant sobre a paz perpétua contém muitos dos elementos necessários a essa ordem mundial. Generalizando-se mais a questão, é preciso acrescentar às reflexões de Kant uma ênfase maior às exigências realistas. Não obstante as já mencionadas tendências de longo prazo no sentido da liberdade e da igualdade, qualquer acordo viável para o estabelecimento de uma ordem mundial estável tem de levar em conta as atuais realidades do poderio mundial em sua acepção mais ampla: militar, econômica, tecnológica, cultural e demográfica. O espaço para a justiça social é aferido pelas hierarquias de poder, nacionais e internacionais. Dentro das condições já citadas, a problemática da ordem mundial apresenta hoje duas dimensões. Uma delas concerne às principais questões de conteúdo, que requerem regulamentação internacional. A outra concerne a sistema institucional de fato, capaz de regulamentar, administrar e fazer cumprir a ordem mundial racional e justa. São amplamente reconhecidas, em princípio, as questões que mais requerem regulamentação internacional. O mundo precisa de um sistema racional e justo para promover o desenvolvimento sustentável, tomando medidas de proteção ecológica. O mundo precisa de paz global e regional, o que exige uma solução aceitável para muitos conflitos étnicos ainda existentes, para disputas de fronteiras, desavenças relativas a minorias e outras questões desse tipo. O mundo precisa de regimes adequados à regulamentação internacional das comunicações, dos transportes, da informação, da saúde, da nutrição, do saneamento, da educação e da tecnologia, bem como das oscilações e transferências de capital e mão-de-obra. Com relação a essas questões básicas, o que está em jogo não é o reconhecimento de uma necessária regulamentação internacional, mas sim o modo de implementá-la e de compatibilizar os conflitos de interesses. já existe expressivo consenso quanto aos valores e normas básicas que deve observar a regulamentação de tais questões. Deve ser algo que se aproxime do núcleo de um sistema jurídico capaz de moldar a legislação internacional necessária. Falta, porém, essencialmente, um sistema internacional que se encarregue da regulamentação e da administração gerais dos principais interesses coletivos do mundo. Isso nos leva à segunda dimensão, a que já nos referimos, relativa ao sistema institucional capaz de regulamentar, administrar e fazer cumprir, de forma realista, uma ordem mundial estável, racional e justa. No tocante a esse sistema institucional, é grande o consenso internacional de que a Organização das Nações Unidas constitui seu núcleo mais adequado. Mas registram-se discórdias, seja quanto ao processo decisório no seio da ONU, seja quanto à natureza e ao âmbito dos poderes e recursos a serem delegados pelos Estados nacionais às Nações Unidas, sobretudo no concernente ao âmbito e aos limites de sua jurisdição internacional, que suplantaria a jurisdição daqueles Estados nacionais. Dentro da primeira faixa de problemas, é questão crucial a composição do organismo ou dos organismos aos quais caberia a autoridade quanto às decisões

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internacionais que teriam de ser cumpridas. É amplamente reconhecido, por todos os motivos, que o princípio de "cada país, um voto" não se aplica nas atuais condições do mundo. Como, então, determinar que países terão poder de voto como

no caso do Conselho de Segurança — e que países terão apenas direito a expressar opiniões, como na Assembléia Geral? Como justificar, decorrido um quarto de século, a manutenção do poder de veto em mãos dos cinco Estados vencedores da Segunda Guerra, quando a atual hierarquia do poder mundial apresenta, para dizer

o mínimo, uma configuração tão diferente?

Dentro da segunda faixa de problemas, a questão crucial na atual situação é o poder que detêm, nacionalmente, os países fortes, ante a evidente necessidade de internacionalizar, de modo que possam ser cumpridas, a regulamentação e a administração dos principais interesses da humanidade. Fugiria ao âmbito deste estudo a tentativa de apontar soluções para esses problemas, que aliás, por sua própria natureza, só poderiam ser abordados por métodos puramente teóricos. Até mesmo para sua formulação teórica seria preciso submeter a discussão de tais problemas a negociações internacionais que envolvem relações de poder e níveis de comprometimento nacional. No entanto, é possível e aconselhável analisar o tipo de acordos internacionais que provavelmente aliariam uma abordagem racional e justa desses problemas a hipóteses bastante realistas quanto à distribuição internacional do poder. Quanto a esse aspecto, eu sugeriria que há bons indícios históricos de que o regime de poder adotado pela República Romana, em sua fase inicial, é um modelo adequado à atual regulamentação da ordem internacional. Os conflitos civis dos anos 494 e 493 criaram em Roma uma situação que punha em confronto plebeus e patrícios — estes, dotados de recursos pessoais, instrução, experiência e disponibilidade de tempo para governar o país; aqueles, os que de fato levavam à prática todas as atividades, sem voz nas decisões e submetidos a condições sociais injustas. A solução do conflito foi o compromisso de manter em mãos dos patrícios a direção do Estado, concedendo porém aos representantes da plebe, os tribunos, poder de veto sobre as decisões dos patrícios. O modelo da República Romana dá indícios interessantes quanto à possibilidade de harmonizar as realidades do poder e os vastos interesses da humanidade numa abordagem realista de regulamentações racionais e justas da ordem mundial. Procedendo-se a ajustes no regime decisório da ONU, ficaria reservada às grandes potências — supondo-se uma revisão realista e periódica dessa categoria de países — uma atuação decisiva nos organismos governamentais da Organização, como

o Conselho de Segurança; e caberia à Assembléia Geral, paralelamente a suas

funções deliberativas, o poder de veto, por significativa maioria, a decisões

que contrariassem os interesses de grande número de países ou povos.

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Pax Americana Como já se sugeriu neste estudo, muitos indícios históricos apontam para um aumento cumulativo, embora não linear nem contínuo, do âmbito e abrangência da liberdade e da igualdade. Essas tendências de longo prazo indicam o advento de uma nova ordem mundial, em um mundo que se moderniza aceleradamente e que cada vez mais se conscientiza da absoluta necessidade de regulamentar intencionalmente, de modo racional e justo, os principais interesses coletivos da humanidade. Uma ordem mundial que precisa ser estável e que, para tanto,

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precisa ser racional e justa, dentro de condições realistas.

A transição do mundo bipolarizado, criado pela Segunda Guerra Mundial, para uma

nova ordem mundial multipolarizada, que começa a surgir, processa-se hoje no

contexto de uma Pax Americana relativamente monopolarizada, condicionada por várias restrições. Convertidos em única superpotência atuante, graças ao colapso do comunismo internacional e aos problemas internos da União Soviética, os Estados Unidos possuem algumas das condições necessárias ao exercício da hegemonia mundial, mas também estão sujeitos a várias limitações, sendo as mais sérias no plano interno, ligadas às dificuldades econômicas e ao pouco apoio popular para sua atuação internacional. Altos déficits anuais, fiscais e comerciais, que já chegam a ser da ordem de centenas de bilhões de dólares — o déficit fiscal era de cerca de US$ 129 bilhões em 1989 e a dívida externa norte-americana, da ordem de US$ 600 bilhões —, impedem os Estados de financiar, com recursos próprios, ações internacionais onerosas. Por outro lado, os cidadãos americanos, embora se alegrem com o crescente prestígio internacional de seu país e com seu papel de liderança mundial, não estão em condições de suportar novos sacrifícios, seja em termos de impostos, seja de vidas humanas, para custear as atividades externas americanas. De outra perspectiva, como nação líder do Ocidente, os Estados Unidos têm de levar em conta os europeus e os japoneses. Como potência com amplos interesses internacionais, precisam manter uma posição de razoável equilíbrio em conflitos regionais sérios, como o do Oriente Médio e do subcontinente indiano. Desse primado mundial sujeito a tais limitações resulta uma Pax Americana relativamente condicionada. A Guerra do Golfo bem o ilustra. Os Estados Unidos

se revelaram a única potência com capacidade e decisão para empreender

imediatamente uma ação política e militar eficaz contra a anexação do Kuwait pelas tropas de Saddam Hussein. Mas tiveram que agir dentro dos ditames do Conselho de Segurança, em estreita conexão com o G-7 e seu considerável apoio financeiro (US$ 40 bilhões) e em aliança com o máximo de países árabes que conseguiram mobilizar. Dentro das limitações já mencionadas, a Pax Americana tende a ser temporária. Não pode propiciar a ordem estável, racional e justa de que o mundo precisa. Tende a orientar-se para a consolidação monopolarizada de um sistema mundial liderado pelos Estados Unidos, ou então para um mundo multipolarizado institucionalizado, gerido por uma Organização das Nações Unidas renovada e investida de mais poder. Ambas as possibilidades estão em aberto, mas há fortes indícios de que a segunda alternativa prevalecerá.

Dificilmente uma Pax Americana condicionada se manterá por muito tempo, mas é

preciso reconhecer que pode levar alguns anos a provável instauração de uma nova ordem mundial multipolarizada, gerida pelas Nações Unidas. Os europeus se vêem a braços com a tarefa complexa de dar à Comunidade coerência operacional satisfatória, tanto sob o aspecto econômico quanto sob o político — tarefa que

se complica pelas ocorrências no Leste europeu e pela pressão dos países que

abandonaram o comunismo, no sentido de se filiarem à Comunidade Européia. Os

japoneses, por sua vez, têm de encontrar no mundo um papel compatível com sua supercompetitividade econômica e tecnológica, e estão sujeitos a várias limitações, devido a seu etnocentrismo ainda não superado e à excessiva dependência de mercados externos, que os enfraquece.

O período de transição, que durante alguns anos corresponderá à Pax Americana

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condicionada, traz grandes riscos para o mundo. Os americanos conseguiram formular e pôr em prática uma estratégia global de oposição ao poder soviético. Mas ainda não foram capazes de formular, e muito menos de pôr em prática, um projeto global, racional e justo para o mundo. No nível global, sob a égide da Pax Americana, continuarão a merecer uma abordagem pouco adequada os principais

interesses coletivos da humanidade, que reclamam com urgência uma regulamentação

e uma administração racionais e justas. Existe, entre outras ameaças, o perigo

crescente de deteriorações ecológicas sérias, talvez irreversíveis. Por outro lado, o fato de uma potência em relativo declínio, como hoje os Estados Unidos, não estar sujeita a controles externos razoáveis provavelmente a induzirá a comportamentos abusivos para com parceiros mais fracos. É o que mostra a experiência histórica. É o que indicam, também, as intervenções americanas em Granada e no Panamá.

Uma ordem mundial provisória Será possível minimizar os riscos que o mundo corre, como já vimos, durante o período de transição e na vigência da Pax Americana condicionada? Só é possível responder afirmativamente a essa pergunta caso sejam atendidas algumas condições básicas. Estão em questão, essencialmente, o estabelecimento e o respeito a condições que, dentro e fora dos Estados Unidos, atuem em direção a uma ordem mundial racional e justa e evitem a prática de atos de violência arbitrária ou de ingerência em assuntos de outros países.

Um setor muito importante da opinião pública norte-americana, que como tendência representa a opinião majoritária, mostra-se favorável ao estabelecimento de uma ordem mundial racional e justa. Esse setor pressiona o governo no sentido oposto ao das intervenções arbitrárias dos Estados Unidos em outros países. É possível, de várias maneiras, fortalecer essa importante corrente da opinião pública.

É também possível, por outro lado, mobilizar — nos países da OCDE, no Terceiro

Mundo e na União Soviética — o apoio da opinião pública e dos governos, nesse mesmo sentido. Mas é necessário, em ambos os casos, organizar um sistema de coordenação, que conte com o apoio de alguns países de importância estratégica, atue dentro e fora da Organização das Nações Unidas e em estreita cooperação com setores norte-americanos esclarecidos, para aperfeiçoar o sistema mundial, manter a paz e evitar intervenções arbitrárias de alguns países em outros. Para tanto, pode ser decisivo o papel que têm a desempenhar a Comunidade Européia, o Japão, a União Soviética e países importantes do Terceiro Mundo, como China, índia, Brasil e os países latino-americanos em geral. A China e o

Brasil, dentre os países do Terceiro Mundo, estão em situação especialmente boa

e se prestam bem ao desempenho desse papel, e mesmo a dar os primeiros passos

nesse rumo. Ambos são a principal potência de suas regiões. O desenvolvimento rápido de ambos tem como requisito necessário a instauração de uma ordem mundial

estável, racional e justa, ela própria intrinsecamente válida. Ambos precisam de bem mais acesso internacional a recursos financeiros e tecnológicos. E por fim, os dois países dispõem de um aparelho governamental e de um sistema diplomático em condições de desempenhar as tarefas que tal finalidade impõe.

É necessária e possível uma ordem mundial provisória aceitável, durante os anos

de transição do antigo mundo bipolarizado para uma nova ordem mundial multipolarizada, estável, racional e justa. É requisito indispensável para evitar que a Pax Americana relativamente condicionada propicie comportamentos

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internacionais abusivos, ou leve a uma colaboração insuficiente, dentro e fora da Organização das Nações Unidas, às ações coletivas imprescindíveis ao mundo. Isso é possível, desde que seja fruto dos esforços conjuntos de um grupo expressivo de países, com o apoio de setores esclarecidos dos Estados Unidos.

Tradução: Maria Inês Rolim Voltar

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