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DEPENDÊNCIA QUÍMICA PREVENÇÃO AO USO DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS Telmo Mota Ronzani

DEPENDÊNCIA

QUÍMICA

DEPENDÊNCIA QUÍMICA PREVENÇÃO AO USO DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS Telmo Mota Ronzani
DEPENDÊNCIA QUÍMICA PREVENÇÃO AO USO DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS Telmo Mota Ronzani

PREVENÇÃO AO USO DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS

Telmo Mota Ronzani

DEPENDÊNCIA QUÍMICA PREVENÇÃO AO USO DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS Telmo Mota Ronzani
DEPENDÊNCIA QUÍMICA PREVENÇÃO AO USO DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS Telmo Mota Ronzani
PREVENÇÃO AO USO DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS Telmo Mota Ronzani Departamento de Psicologia Universidade

PREVENÇÃO AO USO DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS Telmo Mota Ronzani Departamento de Psicologia

Universidade Federal de Juiz de Fora

Apresentação

Objetivos

Introdução

Unidade I

SUMÁRIO

1.1 Previnir é preciso?

1.2 Prevenção como sistema

1.3 Álcool e outras drogas: prevenir é preciso?

1.4 Prevenção para quem? Tipos e níveis de prevenção

Unidade II

2.1 Fatores de risco e de proteção

2.2 Trabalhando com fatores de risco e de proteção em diferentes contextos

Unidade III

3.1 Intervenções breves para o uso de álcool e outras drogas

Unidade IV

4.1 Orientações gerais sobre a implementação de ações de prevenção ao uso de álcool

e outras drogas

4.2 Prevenção e políticas públicas

4.3 Concluindo: a prevenção como sistema

Referências

Apresentação Prezado(a) aluno(a), neste capítulo, você vai ter a oportunidade de saber um pouco mais

Apresentação

Prezado(a) aluno(a), neste capítulo, você vai ter a oportunidade de saber um pouco mais sobre a importância da prevenção ao uso de drogas. A prevenção tem sido considerada como uma das principais ações para a solução desse problema de saúde pública. Os levantamentos nacionais têm demonstrado que o início do uso está sendo observado cada vez mais cedo entre os jovens. Esse fato nos leva a pensar que as consequências desse uso e os indicadores de dependência sejam um dado preocupante para o futuro. Como estratégia de real mudança dessa situação, a prevenção nos parece a mais indicada e o que pode de fato mudar a situação do consumo de drogas na sociedade. Algumas ações são tradicionalmente propostas, porém com impactos diferenciados e, muitas vezes, sem impacto algum. Por essa razão, é importante conhecermos um pouco mais sobre o que tem sido proposto na área e o que as pesquisas de avaliação apontam como ações mais promissoras. Portanto, neste capítulo, iniciamos definindo o que é prevenção e como ela foi sendo desenvolvida para condições de saúde em geral, por meio de campanhas e na perspectiva de “combate” e “guerra” contra as causas de uma determinada doença. Essa perspectiva influenciou também a área de álcool e drogas e as perspectivas individualizadas e moralizadas de prevenção acabaram por ganhar força nessa área. A seguir, apresentaremos novas perspectivas de prevenção, voltadas para uma ação mais ampliada e, na perspectiva sistêmica, com diferentes níveis e tipos. Finalizando o capítulo, apresentaremos o que tem sido feito na área em diferentes contextos: família, escola, comunidade e serviços de saúde. Na prevenção individual, apresentamos ainda a técnica de intervenções breves, apontada como promissora pela literatura atual. A partir desse panorama geral sobre o tema prevenção, esperamos que você tenha condições de planejar de uma forma mais adequada as ações de prevenção ao uso de álcool e outras drogas no seu serviço e em sua comunidade. Procuraremos mostrar por meio de algumas evidências que: prevenir é melhor que remediar!! Bom proveito!!!

Objetivos - Definir e contextualizar a prevenção do uso de álcool e outras drogas. -

Objetivos

- Definir e contextualizar a prevenção do uso de álcool e outras drogas.

- Apresentar a perspectiva de prevenção sistêmica.

- Definir os tipos e níveis de prevenção.

- Conhecer os fatores de risco e de proteção para o uso de álcool e outras drogas.

- Apresentar perspectivas de atividades de prevenção em diversos contextos.

1 Introdução

Inicialmente, cabe-nos iniciar o capítulo com algumas definições básicas e aspectos gerais envolvidos na prevenção. Poderíamos dizer que o conceito e as atividades de prevenção nas sociedades modernas “nasceram” a partir da urbanização da sociedade e da mudança da organização do trabalho. Essas características levaram as sociedades a se tornarem mais complexas, havendo o aparecimento de problemas sociais em maiores escalas, dentre eles algumas epidemias. Em função dessas epidemias que geraram problemas para a sociedade em geral, houve

a necessidade de respostas coordenadas dos governos para o controle de algumas doenças, das quais se descobriram os fatores etiológicos, ou causas, que deveriam ser combatidos. Nesse aspecto, o primeiro conceito de prevenção tem como foco:

Evitar que uma enfermidade incida por meio do combate e/ou isolamento de agente etiológico”. Talfoco,então,évoltadoinicialmenteparaaprevençãodedoençasinfecto-contagiosas, como tuberculose e varíola, dentre outros, que se baseavam em grandes campanhas de saúde as quais tinham como estratégia a “guerra” contra uma doença específica, com ações de isolamento e combate do agente causador da doença. Acontece que, com a mudança do estilo de vida e da organização das sociedades modernas, outras condições de saúde ficam mais evidentes. Geralmente, tais condições não apresentavam um único causador ou ainda não se sabia claramente qual a causa daquelas condições. Apesar de tradicionalmente o primeiro enfoque ainda ser evidente e utilizado, procuramos ampliar as ações de prevenção, relacionando alguns conceitos chaves, como fatores de risco e de prevenção e vulnerabilidade, discutidos aprofundadamente mais adiante no texto. No momento, cabe-nos afirmar que existe uma tentativa de ampliação de ações de prevenção em função da complexidade de alguns problemas de saúde, como o uso de álcool

e outras drogas, por exemplo. Porém, ainda observamos que algumas estratégias do primeiro

aspecto da saúde ainda estão muito presentes nas nossas ações de prevenção, as quais levam

aspecto da saúde ainda estão muito presentes nas nossas ações de prevenção, as quais levam

a uma dificuldade de lidar com problemas como o uso de álcool e outras drogas. Dentre eles,

destacam-se:

- relevância no “campanhismo” isolado em detrimento de ações mais amplas e

contínuas;

- práticas que enfocam mais o indivíduo do que o contexto ou uma visão sistêmica.

- ênfase na guerra ao problema às drogas e muitas vezes uma confusão de guerra aos usuários de drogas. A seguir, aprofundaremos alguns pontos da evolução e dos problemas de prevenção ao uso de álcool e drogas.

Unidade I

1.1- Prevenir é preciso?

No campo da saúde, o ditado popular de que “prevenir é melhor do que remediar”

nunca foi tão defendido e pesquisado. Isso se torna ainda mais evidente no campo de álcool

e outras drogas, no qual as pesquisas de Laranjeira e Romano (2004) mostram que ações de

prevenção apresentam melhor relação custo-efetividade do que ações curativas. Em todo o mundo, observa-se que ações de prevenção ao uso de álcool e outras drogas ganham força,

pois os tratamentos atuais para pessoas que já se tornaram dependentes são pouco eficazes

e apresentam baixo impacto para a mudança dos problemas associados ao uso e prevalência

de dependência. De maneira geral, as estratégias de prevenção são de suma importância para vários problemas de saúde. Essa importância se baseia no chamado paradoxo da prevenção:

essa noção está baseada no fato de que o número de pessoas que podem ter risco de algum dano à saúde é maior do que as pessoas que já apresentam algum problema. Dessa forma, em termos de saúde pública, as ações preventivas passam a ter suma relevância para a população geral.

Apesar das evidências a favor de trabalhos preventivos, alguns problemas são comuns para a efetivação dessas ações. A seguir, destacamos algumas questões e críticas fundamentais sobre a prevenção.

Crítica ao preventivismo prescritivo e ao preventivismo individual

Muitas vezes, existe uma confusão na realização de ações preventivas, as quais desconsideram o contexto das ações e a complexidade que está envolvida ao trabalharmos

no sentido de evitar que problemas ou danos ocorram nos indivíduos ou grupos e que

no sentido de evitar que problemas ou danos ocorram nos indivíduos ou grupos e que haja uma consequente melhora na qualidade de vida. Dentre tais equívocos, está o que se chama de “preventivismo”, que, de maneira geral, seria uma visão limitada e extremamente focada para que o “agente causador da doença” seja isolado a qualquer custo e na qual se desconsidera todo um contexto em que tais problemas estão envolvidos. Destacam-se neste texto dois tipos de preventivismo, a saber: o primeiro deles seria o “preventivismo prescritivo”, uma postura do profissional de saúde de meramente prescrever, como um medicamento, uma lista de “bons comportamentos” que geralmente é imposta ao indivíduo, sem considerar o contexto ou os casos particulares. Dentro dessa noção, define-se que existem “bons” e “maus” comportamentos e que, caso aquele indivíduo não adira a essa prescrição, então ele é colocado como fraco ou não-cooperativo ao modelo preventivo. Um segundo tipo seria o “preventivismo individual”, relacionado ao primeiro e que coloca toda a carga de responsabilidade das práticas preventivas no indivíduo e desconsidera que os comportamentos também estão implicados em todo um sistema que envolve fatores de risco, proteção e vulnerabilidades. Nessa perspectiva, quando uma ação preventiva não se efetiva, geralmente a “culpa” é atribuída ao indivíduo que não foi capaz de enfrentar o problema de forma adequada. Em ambas as abordagens, está implícita a questão da moralização e estigmatização a indivíduos ou grupos, as quais têm alcance e resultados limitados e devem ser revistas pelos profissionais de saúde.

a indivíduos ou grupos, as quais têm alcance e resultados limitados e devem ser revistas pelos
1.2- Prevenção como sistema Como alternativa à abordagem preventivista, está o entendimento da prevenção como

1.2- Prevenção como sistema

Como alternativa à abordagem preventivista, está o entendimento da prevenção como parte de um sistema mais amplo e com uma visão mais compreensiva sobre determinado problema. Dentro desse enfoque, toda condição de saúde deve ser vista dentro de uma perspectiva biopsicossocial que atua de forma complexa e interativa. Abaixo, dois exemplo da ideia de prevenção como sistema:

Abaixo, dois exemplo da ideia de prevenção como sistema: Fonte: Rouquayrol e Almeida Filho, 2003. Outro

Fonte: Rouquayrol e Almeida Filho, 2003.

Outro aspecto a ser considerado é que, como sistema, deve-se pensar em ações preventivas voltadas ao indivíduo e em ações preventivas voltadas ao ambiente, porém sempre pensadas de forma complementar. Diferentemente do preventivismo, o foco sistêmico considera o contexto e é pensado muito mais para adaptações de intervenções mais adequadas a cada caso, e não para a “culpabilização” do indivíduo. No campo de álcool e outras drogas, Laranjeira e Romano (2004) observaram que as estratégias de prevenção baseadas no ambiente e no contexto são mais efetivas do que as baseadas apenas no indivíduo.

1.3- Álcool e outras drogas: prevenir é preciso? Como vimos anteriormente, a perspectiva sistêmica de

1.3- Álcool e outras drogas: prevenir é preciso?

Como vimos anteriormente, a perspectiva sistêmica de prevenção parece ser a mais adequada com tentativas de demonstração disso há alguns anos. A questão que nos resta discutir é saber se a prevenção deve ser feita, se ela é importante no campo de álcool e outras drogas e quais são as principais perspectivas. Primeiramente, é preciso discutir se o tema álcool e outras drogas é algo que merece atenção com ações coordenadas de políticas públicas que se iniciam com a prevenção e vai até o tratamento. Ao abordarmos o tema “políticas públicas” sobre determinado problema ou tema, é preciso considerar alguns pontos principais: o primeiro recorre ao fato de que uma política se torna pública quando determinado assunto ou tema é de interesse público ou afeta as relações entre as pessoas que fazem parte de uma determinada sociedade. Ocorre, então, uma ação coletiva, em que diversos atores ou segmentos sociais devem participar da formulação dessa política. Como consequência do primeiro fator para a definição da política, esse tema deve ser prioritário para os grupos envolvidos e os objetivos devem ser compartilhados para que as ações sejam implementadas dentro das políticas propostas. Portanto, para a formulação de uma política pública, quatro aspectos principais devem ser considerados:

1) deve ser compartilhada entre os atores ou grupos sociais; 2) o problema deve ser considerado como um problema “público”; 3) deve haver uma definição clara dos objetivos a serem alcançados por essa política; 4) devem ser planejadas estratégias de ação e avaliação da efetividade dessas políticas. Com relação à definição de políticas públicas sobre álcool e outras drogas, sabe-se que o uso de substâncias psicoativas traz grandes consequências negativas para a sociedade. Por exemplo, os resultados do estudo sobre o peso global de problemas relacionados ao consumo de álcool e outras drogas são muito elevados em todo o mundo (WHO, 2004). Em alguns países, esses problemas ainda são agravados pela falta de políticas claras ou do controle da venda ou consumo de substâncias psicoativas, sendo praticamente inexistentes os programas de controle social para atenuação do impacto mórbido do consumo de bebidas alcoólicas.

Com relação à definição de grupos que seriam beneficiados com políticas públicas

sobre álcool e outras drogas, poderíamos dizer que o uso de substâncias psicoativas está,

muitas vezes, associado tanto aos jovens quanto às pessoas mais velhas. O padrão de uso

tende a se correlacionar com os diferentes estágios da vida do indivíduo, assim como com

as normas sociais e as crenças vigentes. Apesar do abuso de substâncias ser um problema

as normas sociais e as crenças vigentes. Apesar do abuso de substâncias ser um problema mais evidente entre adultos jovens, as crenças e os comportamentos a respeito das drogas são aprendidos desde muito cedo, podendo ser reforçados pelo grupo familiar, amigos, mensagens midiáticas etc. Existem outras evidências para se considerar o uso de álcool e outras drogas como um dos grandes problemas de saúde pública no mundo. No Brasil, em média são consumidos anualmente 6 litros de álcool puro per capita (RONZANI, 2005). Além da quantidade de álcool ingerido, o padrão de consumo pode levar a diversos problemas de saúde devido ao uso de altas doses numa mesma ocasião (padrão binge). Todavia, apesar de sua importância e eficiência comprovadas, existem diversos problemas para a efetivação das estratégias preventivas no Brasil. Fatores como formação, crenças e atitudes dos profissionais de saúde e da priorização das políticas de prevenção são fundamentais para a efetivação de algumas ações. Além disso, a diferença entre a estrutura e a organização dos serviços está associada ao grau de envolvimento dos profissionais em práticas de prevenção. Tais obstáculos são relacionados não somente a profissionais, mas também aos usuários e aos sistemas de saúde e educacionais. Existem evidências crescentes de que as estratégias de prevenção dependerão do contexto em que tais ações são planejadas. O sucesso da efetivação de estratégias de prevenção está relacionado principalmente à definição da população a ser atendida, à infraestrutura adequada, às políticas de prevenção evidentes, às determinadas características de culturas organizacionais e às atitudes dos profissionais e gestores sobre o tema. As políticas de controle e prevenção do uso de drogas têm apresentado bons resultados com relação à diminuição da quantidade e à mudança de padrão de uso da população. Uma das medidas propostas é a diminuição da disponibilidade (como taxação, restrição de acesso de bebidas a menores, campanhas na mídia de massa, restrição de propagandas, controle do beber e dirigir etc.). Tal medida apresenta custos e efetividades diferenciados. Outra estratégia de ação enfoca a mudança de atitudes da população e de outros profissionais envolvidos na questão. Todavia, para que as estratégias de mudança de atitudes sejam efetivas, é preciso que haja políticas de saúde coerentes com tais princípios e uma ação conjunta da mídia, população geral e serviços de saúde.

Além disso, não se pode deixar de considerar o papel das indústrias produtoras de

bebidas alcoólicas e de tabaco, que influenciam o comportamento dos indivíduos a partir

da mídia, bem como a economia dos países. Como medida de contrapeso ao poder das

indústrias e da mídia com relação ao consumo de bebidas alcoólicas e tabaco, são planejadas

as contrapropagandas de consumo, que têm impacto limitado e travam uma disputa desigual

contra as propagandas das indústrias que investem milhões de reais em propagandas de

extrema qualidade.

Outra perspectiva tem sido o controle ou a proibição das propagandas de álcool e tabaco

Outra perspectiva tem sido o controle ou a proibição das propagandas de álcool e tabaco nos meios de comunicação. Essa perspectiva baseia-se no princípio de que as atitudes negativas sobre determinado comportamento social seriam formadas pelo contexto e pelo meio em que os indivíduos estão inseridos. Os meios de comunicação, portanto, seriam formadores de opinião de massa relevantes, sendo fonte de informação e determinante de crenças e atitudes sobre certo assunto. Ao longo da história, a opinião pública deixa de ser difundida pelo encontro direto entre pessoas ou grupos e a mídia de massa se torna o mediador e divulgador de ideias sobre determinados eventos. Tal mudança se deve principalmente à urbanização e modernização das sociedades. Assim, a imprensa veio caracterizar-se definitivamente enquanto principal agente da opinião, tendo seu alcance e poder de influência aumentados. Para que as políticas de prevenção ao uso de álcool e drogas sejam efetivas e apresentem legitimidade, é preciso haver apoio amplo da sociedade e percepção de que tais ações trarão consequências positivas para a população. Como tais ações em curto prazo são de difícil visualização, é fundamental que se estabeleçam políticas que já tenham demonstrado evidência de resultados positivos. Em se tratando de políticas de prevenção, as escolas são um ambiente estratégico para ações de prevenção, pois nelas se concentram os jovens em situação de risco para possíveis problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas. Porém, a avaliação de algumas práticas tradicionais de prevenção ao uso de álcool e outras drogas nas escolas demonstrou que tais ações apresentam pouca efetividade e alto custo (Laranjeira e Romano, 2004). Especificamente, as campanhas educativas e simples palestras informativas, além de não apresentarem resultados em termos de prevenção do uso, muitas vezes, podem aumentar o uso de substâncias. Porém, algumas propostas promissoras em termos de impacto sobre o uso entre jovens apresentam abordagens mais compreensivas e de mudanças de crenças e atitudes dos alunos com relação ao uso de álcool e drogas, enfatizando principalmente as potencialidades

locais dos estudantes, respeitando as características culturais de cada grupo e fortalecendo

o sentimento de resiliência dos jovens. Sobre esse ponto, vamos discutir especificamente

algumas propostas de ações preventivas voltadas aos jovens.

1.4- Prevenção para quem? Tipos e níveis de prevenção

Uma vez que chegamos à conclusão pelos argumentos apresentados acima que

prevenir é preciso e que o consumo de álcool e outras drogas é um problema de saúde

pública que merece uma resposta articulada e integrada, cabe-nos indagar para qual grupo as ações

pública que merece uma resposta articulada e integrada, cabe-nos indagar para qual grupo as ações preventivas devem ser direcionadas. Essa pergunta reporta-nos a uma questão crucial quando trabalhamos com prevenção, ressaltando que não existe um único tipo de prevenção e que é preciso pensar qual público vamos trabalhar para não cometermos equívocos por não fazermos um planejamento prévio. Como já apresentado anteriormente, em termos gerais, temos a prevenção voltada ao ambiente e a prevenção voltada para grupos específicos. Ações voltadas para o ambiente têm o objetivo de atuar em nível populacional que tenha um impacto em grandes grupos e sociedades, independente do padrão de consumo de drogas. Podemos colocar como ações voltadas para o ambiente a restrição de propaganda de bebidas alcoólicas, a proibição de venda para determinadas faixas etárias e a restrição de dirigir sob efeito de álcool. Como se pode observar, essas ações podem prevenir problemas tanto para quem usa quanto para quem não usa a substância, por exemplo, prevenção de acidentes de trânsito, sendo a vítima usuária ou não. As ações preventivas voltadas para grupos específicos já seriam aquelas planejadas para indivíduos ou grupos específicos de acordo com determinadas características. É necessário ressaltar que os dois tipos apresentam sua importância e deveriam ser implementados conjuntamente para maior impacto das ações. Outro aspecto a ser considerado é que para ambos os tipos de prevenção existem diferentes tipos de prevenção para diferentes tipos de indivíduos e grupos. Esses tipos de prevenção e definição de grupos a serem trabalhados é o que define a ação preventiva mais adequada.

Os tipos de prevenção atualmente citados pela literatura e aplicados no campo de

álcool e outras drogas são:

- Prevenção Primária ou Universal: voltada para indivíduos ou grupos que ainda não

experimentaram a droga ou são abstinentes. Nesses casos, o objetivo da ação é evitar a experimentação da substância.

- Prevenção Secundária ou Seletiva: voltada para indivíduos ou grupos que já fazem uso

inicial da substância. O objetivo é fazer com que o indivíduo diminua ou pare de consumir a

substância, ou ainda prevenir os possíveis danos associados ao consumo.

- Prevenção Terciária ou Indicada: voltada para indivíduos que já fazem consumo pesado

ou são dependentes. A ação indicada para esse grupo é trabalhar na diminuição ou parada do

consumo e prevenir os danos associados ao quadro clínico do usuário.

Unidade II 2.1- Fatores de risco e de proteção Ao trabalharmos na área de prevenção,
Unidade II 2.1- Fatores de risco e de proteção Ao trabalharmos na área de prevenção,
Unidade II 2.1- Fatores de risco e de proteção Ao trabalharmos na área de prevenção,

Unidade II

2.1- Fatores de risco e de proteção

Ao trabalharmos na área de prevenção, dois conceitos são fundamentais: os fatores de risco e os fatores de proteção. As investigações realizadas nas últimas décadas por Babor (2003) têm procurado definir como começa e se desenvolve o consumo, o abuso e a dependência de substâncias. Existem alguns fatores que colocam pessoas e grupos em

maior propensão ao consumo. Essa maior propensão poderia, de forma geral, ser chamada

fatores de risco. Por outro lado, existem características pessoais ou sociais que diminuem a

probabilidade ou protegem as pessoas do consumo ou abuso de drogas, chamados fatores de

proteção. No campo de álcool e drogas, é importante notar que esses fatores, sejam de risco

ou de proteção, não devem ser vistos como características isoladas e estanques e precisam ser

ou de proteção, não devem ser vistos como características isoladas e estanques e precisam ser avaliados num determinado contexto e com relação a várias situações de vulnerabilidade. Mesmo que algumas pessoas ou grupos tenham fatores de risco para o consumo, não quer dizer que necessariamente elas usarão a substância ou se tornarão abusadores ou dependentes. Isso dependerá da conjunção de diversos fatores de risco, proteção ou situações contextuais. Os fatores de risco e de proteção podem afetar as pessoas em diferentes fases da vida. Vale ressaltar que fatores de risco em determinada fase da vida podem se tornar de proteção e que esses últimos nem sempre terão uma característica positiva. A relevância de se conhecer tais fatores é que eles podem ser informações importantes, pois as ações preventivas podem agir no sentido de diminuir os fatores de risco e fortalecer os fatores de proteção para o consumo de drogas. Essas ações podem ser realizadas em diferentes situações, como em trabalhos com crianças em situação de vulnerabilidade social, intervenções familiares, escolas e comunidade. Alguns programas preventivos se baseiam no conhecimento desses fatores, em especial em intervenções precoces no sentido de fortalecer os fatores de proteção. Os fatores de risco podem influenciar o uso de drogas de diversas maneiras. Quanto mais exposto aos fatores de risco, maior a probabilidade de consumo, sendo que alguns fatores podem ter mais peso que outros em determinadas fases da vida. Um exemplo é a pressão dos amigos para uso na fase da adolescência. Outros são considerados fortes fatores de proteção nessa fase de desenvolvimento, como o monitoramento dos pais nas atividades diárias dos filhos. Alguns fatores de risco para o uso de drogas já conhecidos são:

Quadro 1 – Fatores de risco para o uso de drogas

Fatores pessoais

Fatores interpessoais

Fatores ambientais

Predisposição genética

Falta de apoio familiar

Disponibilidade de drogas

Transtornos de personalidade

Pressão do grupo

Pobreza

Mau desempenho escolar

Violência doméstica

Falta de políticas sobre drogas

Comportamento agressivo na infância

 

Normas e atitudes sociais favoráveis ao uso

Baixa autoestima

   

Alguns fatores de proteção ao uso de drogas são:

Quadro 2 – Fatores de proteção para o uso de drogas Fatores Pessoais Fatores interpessoais

Quadro 2 – Fatores de proteção para o uso de drogas

Fatores Pessoais

Fatores interpessoais

Fatores ambientais

Capacidade de enfrentamento de situações adversas

Monitoramento familiar

Implementação de ações preventivas na escola

Competência acadêmica

 

Condições econômicas e sociais favoráveis

Religiosidade

 

Suporte e rede social adequados

Conhecimento sobre efeito e consequências do consumo

   

2.2- Trabalhando com fatores de risco e de proteção em diferentes contextos

As atividades de prevenção voltadas para o foco nesses dois fatores podem ser trabalhados em diversos ambientes: familiares, escolares e comunitários. O objetivo desses programas é fortalecer ou criar novos fatores de proteção e reduzir os fatores de risco. Como apontado anteriormente, existem diversos tipos e níveis de prevenção. A intervenção, portanto, e os trabalhos com os fatores de risco e proteção devem considerar tais níveis. A seguir, apresentamos algumas ações preventivas em diferentes ambientes.

Prevenção na família

A família se configura como um dos principais ambientes para ações preventivas, por ser considerada um importante elo entre o indivíduo e a sociedade. Ela é um fator de proteção fundamental ao consumo de drogas. A família é considerada como fonte de aprendizagem

e de interação social importante, em especial na infância. O trabalho preventivo na família

pode ser feito pelo fortalecimento e melhoria da comunicação entre pais e filhos, com o

maior monitoramento familiar, definição de regras claras e coerentes e outras ações de

melhoria de qualidade de relacionamento familiar. As pesquisas já demonstram os benefícios

do monitoramento familiar com relação às atividades dos filhos como fator de proteção

ao uso de drogas. Esse monitoramento não deve ser confundido com a postura autoritária dos

ao uso de drogas. Esse monitoramento não deve ser confundido com a postura autoritária dos pais, e, sim, de acompanhamentos efetivos de atividades, conhecimento dos amigos, de estabelecimento de regras claras, pelo diálogo franco sobre os problemas e preocupações dos filhos. Algumas características dos pais são definidas como fatores de risco:

- falta de suporte parental,

- uso de drogas pelos próprios pais e irmãos,

- atitudes permissivas dos pais perante o consumo e

- incapacidade dos pais de controlar os filhos.

Como características protetivas dos pais com relação aos filhos, destacam-se:

- sentimento de que os pais compreendem os problemas dos filhos,

- relação afetiva entre pais e filhos,

- monitoramento dos pais com relação às atividades dos filhos e

- definição de regras claras e definidas.

Prevenção nas escolas

Quando se fala em prevenção, o ambiente escolar é um dos mais lembrados e com maior relato de experiências, pois é um lugar privilegiado onde se concentram jovens de diferentes faixas etárias e características; portanto, um local estratégico para a prevenção. De uma forma geral, os programas preventivos nas escolas se concentram em habilidades sociais e acadêmicas das crianças e jovens, incluindo atividades de melhoria de qualidade de relacionamento social, autocontrole para lidar com problemas e habilidades para recusar a substância caso seja oferecida.

Levando em consideração que a escola também é parte da comunidade, as ações

devem ser pensadas de forma mais ampla e de maneira intersetorial, envolvendo, por

exemplo, as áreas de assistência social e saúde, família e outros setores da comunidade local.

Além disso, devem estar integrados com outros programas da escola, como fracasso escolar,

comportamento sexual de risco e violência, dentre outros. De uma forma geral, os programas preventivos em escolas procuram modificar as crenças, as atitudes e os comportamentos dos adolescentes com relação ao consumo de álcool e outras drogas ou trabalhar com as habilidades sociais gerais e a autoestima.

Sabe-se que os enfoques de prevenção na escola foram mudando ao longo do tempo.

Nas décadas de 1970 e 1980, a abordagem era basicamente pautada no fornecimento de informação

Nas décadas de 1970 e 1980, a abordagem era basicamente pautada no fornecimento de informação e ensinava aos estudantes os efeitos e os perigos do uso de drogas. Tal

abordagem, apesar de ainda ser bastante frequente, não tem se mostrado efetiva. Apesar de ainda poderem melhorar o conhecimento e modificar as atitudes frente ao álcool, o cigarro

e o uso de drogas, o uso real de substância permanece inalterado. Além da limitação dessa

abordagem para prevenção ao uso de drogas entre os jovens, as pesquisas de Babor (2003) demonstram que, do contrário, pode haver aumento de consumo e experimentação após a atividade informativa, como palestras. Tais informações, muitas vezes, podem servir como um despertar da curiosidade do jovem pelo efeito da substância.

Outra abordagem bastante comum é a prevenção baseada na “pedagogia do terror”, que tem como objetivo informar os danos que as drogas levam às vidas das pessoas, porém de forma radical e extrema, “amedrontando” o jovem e muitas vezes vinculando

o consumo a um fatalismo e a uma conotação moral. A literatura demonstra que, além de

não apresentar evidências dessa abordagem, muitos jovens usuários iniciais se afastam por não se identificarem com a abordagem ou ainda por se sentirem estigmatizados. Deve-se considerar que a estigmatização vinculada ao modelo moral de prevenção pode se tornar mais um problema relacionado ao consumo da droga e dificulta uma intervenção mais adequada que previna consequências mais graves e realistas do consumo.

Outras abordagens de prevenção na escola mais comuns estão apresentadas abaixo:

Quadro 3 – Descrição de modelos preventivos e objetivos

Modelo

Objetivo

Conhecimento científico

Propõe o fortalecimento de informações de modo imparcial e científico. A partir das informações, os jovens poderiam tomar decisões conscientes e bem fundamentadas sobre as drogas.

Educação afetiva

Parte da observação de que os jovens mais bem estruturados e menos vulneráveis, do ponto de vista psicológico, estão menos sujeitos a abusar de drogas.

Oferta de alternativas

Trata-se da oferta de desafios, prazeres e realizações proporcionadas por outros meios que não incluam o consumo de drogas.

Educação para a saúde

Põe a educação a serviço de uma vida saudável

Educação normativa A preocupação recai na formação integral do jovem, não apenas na prevenção do

Educação normativa

A preocupação recai na formação integral do jovem, não apenas na prevenção do uso de drogas.

Fonte: SENAD, 2006a.

A seguir, apresentamos quadro que demonstra as evidências de algumas abordagens nas escolas:

Quadro 4 – Evidências das abordagens de prevenção

Abordagem

Evidências

Conhecimento

Há algumas evidências de que os programas estritamente

Científico

informativos modificam as atitudes e crenças. Não há evidências

Educação Afetiva

de que tais programas reduzam ou previnam o consumo de álcool pelos jovens. Há alguma evidência de que esses programas possam ter um efeito inverso do desejado e encorajem Não há evidências o consumo de que de álcool esses programas entre alguns reduzam jovens. ou

Oferta de

previnam o consumo de álcool por jovens.

Alternativas

Não há evidências de que esses programas reduzam ou previnam o consumo de álcool por jovens.

Habilidades para Resistir à Pressão ao Consumo de Drogas

Educação Normativa Os estudos relatam mudanças significativas nas normas

Mudanças comportamentais podem ser pequenas e de curta duração, sem sessões de “incentivo” regulares. Há algumas evidências conflitantes sobre a efetividade.

percebidas e mudanças comportamentais, variando de pequenas a moderadas.

Fonte: Babor et al., 2003.

Como alternativa às abordagens e à ineficácia de várias propostas apresentadas, procura-se pensar em ações de prevenção na escola numa perspectiva ampliada e que sejam considerados os aspectos mais complexos. A partir daí, ações baseadas em princípios da influência social. Tais programas procuram trabalhar especificamente atitudes e crenças

sobre álcool e outras drogas, no sentido de estimular pensamento crítico quanto ao consumo,

buscando abordar as consequências sociais de curto prazo e imediatas. Essa perspectiva

baseia-se na premissa de que o uso de drogas pelo adolescente é mais uma consequência

das influências sociais mais sutis do que das pressões diretas para o consumo. Muitos

programas contemporâneos aplicados nas escolas incluem tanto a educação normativa como o treinamento de habilidades.

programas contemporâneos aplicados nas escolas incluem tanto a educação normativa como o treinamento de habilidades.

Sobre o primeiro, os objetivos principais são:

- corrigir a tendência dos estudantes a superestimar a quantidade de consumo por seus pares;

- modificar o nível aceitável de consumo por seus pares.

A aplicação dessa técnica implica basicamente em atividades nas quais os professores fornecem informações obtidas por meio de levantamentos epidemiológicos ou pesquisas com as taxas de prevalência real, conduzindo a discussão em aula para o uso apropriado e inapropriado do álcool. A avaliação do modelo por pesquisas demonstra resultados consistentes, em especial para a redução significativa de embriaguez entre jovens que participaram do programa. Outros modelos de educação normativa têm apresentado resultados significativos na mudança de comportamento de consumo de substâncias entre jovens.

O Treino de Habilidade de Vida tem sido também proposto e apoiado como proposta promissora para prevenção na escola ou na comunidade, inclusive pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O Ensino de Habilidades de Vida apresenta 10 princípios básicos a serem trabalhados entre os jovens:

1) Tomada de Decisão: a capacidade do jovem de identificar, analisar e tomar decisões em situações específicas. 2) Resolução de Problemas: capacidade do jovem em enfrentar situações de risco de forma produtiva e construtiva. 3) Pensamento Crítico: estímulo de um pensamento crítico que leva a uma mudança de uma situação de forma reflexiva e construtiva. 4) Pensamento Criativo: capacidade de utilizar as experiências da vida para ter saídas e pensamentos que levem a situações novas no dia-a-dia.

5) Comunicação Eficaz: capacidade de expressar os sentimentos de forma clara e objetiva

para que os outros entendam o sentimento vivenciado pelo jovem para uma resolução

adequada de determinado problema.

6) Relacionamento Interpessoal: capacidade de fortalecer relacionamentos importantes e

romper com outros relacionamentos de forma eficaz.

7) Autoconhecimento: conhecimento e aceitação das limitações e fortalecimento das

potencialidades.

8) Empatia : habilidade de compreender o outro e aceitar as diferenças de forma adequada.

8) Empatia: habilidade de compreender o outro e aceitar as diferenças de forma adequada. 9) Lidar com as Emoções: capacidade de reconhecer as próprias emoções e as dos outros. 10) Lidar com o Estresse: reconhecimento das situações estressantes e identificação dos fatores que podem diminuí-los.

É importante ressaltar que o Ensino de Habilidades de Vida deve ser entendido num plano coletivo, no qual o desenvolvimento das habilidades individuais está relacionado ao contexto e ao grupo. Nesse sentido, é fundamental que as escolas definam tal programa dentro de uma perspectiva geral, envolvendo professores e família. Dessa forma, a prevenção do uso de álcool e outras drogas está inserida na promoção de saúde geral dos jovens, principalmente pela via do fortalecimento dos fatores positivos. Ou seja, destacam-se a saúde e as potencialidades (individuais e culturais) ao invés de se procurarem as deficiências desse grupo.

Prevenção na comunidade

Os programas comunitários geralmente são executados por organizações sociais, religiosas e governamentais com os objetivos de melhorar as normas, ações e legislação sobre drogas e de aumentar a participação social sobre tal problema. As ações são direcionadas em diferentes ambientes, como escolas, trabalho, serviços de saúde, instituições religiosas e meios de comunicação. Tais ações são direcionadas mais a ambientes e grupos do que a indivíduos especificamente e têm apresentado bons resultados em termos de efetividade na mudança de normas e crenças da comunidade. As ações comunitárias incluem ações de definições e fortalecimento de políticas públicas locais que reforçam e regulamentam ações preventivas com impactos nos grupos e populações. Nesse aspecto, os meios de comunicação se tornam estratégicos para as ações na comunidade. Algumas ações propostas nas comunidades envolvem vários setores e atuam com foco no indivíduo ou nos grupos, trabalhando no âmbito familiar, escolar ou comunitário. Alguns exemplos de ações comunitárias são aquelas voltadas para prevenir ou retardar o início do consumo de álcool entre os adolescentes na comunidade, com o desenvolvimento

de uma série de habilidades de resistência, tais como crítica das informações veiculadas pela

mídia e sessões de educação normativa, em especial com os grupos de adolescentes. Além

disso, procura-se atuar no fortalecimento e aprovação de políticas e leis em âmbito local. As

ações comunitárias apresentam impacto na redução do consumo de álcool de forma mais

efetiva do que as ações em escolas, por exemplo. Porém, uma perspectiva que integre as

intervenções familiares, escolares e da comunidade parece ser a mais promissora. As iniciativas comunitárias propostas

intervenções familiares, escolares e da comunidade parece ser a mais promissora.

As iniciativas comunitárias propostas como efetivas são aquelas relacionadas às mudanças políticas ou reguladoras, do cumprimento das mesmas e da organização da comunidade. Embora as técnicas educativas e de persuasão possam ser parte desses pacotes de prevenção, é possível que a política de regulamentação e seu cumprimento sejam responsáveis pela maior parte dos efeitos observados.

Um outro componente fundamental para a prevenção comunitária são os meios de comunicação. Observamos que existem propagandas “pró” consumo de álcool com estratégias sofisticadas e com alto investimento financeiro. É clara a disparidade de qualidade e investimento financeiro ao compararmos as campanhas publicitárias que incentivam o consumo e as contrapropagandas com as perspectivas da saúde pública e de segurança que são apresentadas nos meios de comunicação de massa. Algumas fontes que podem ser utilizadas como prevenção nos meios de comunicação são a televisão, o rádio, os outdoors, os artigos em revistas e jornais, as notícias ou histórias ilustrativas na televisão e no rádio. Embora seja esperado que esses comunicados tenham um efeito direto sobre a população alvo, isso raramente acontece. Os comunicados de utilidade pública ou as propagandas “contra as drogas” a que assistimos, apesar de bem intencionadas, têm impacto limitado e ineficaz frente às mensagens de alta qualidade pró-consumo de álcool, que aparecem com muito mais frequência como propaganda paga nos meios de comunicação de massa.

Ainda assim, a utilização dos meios de comunicação deve ser considerada como meio relevante de difusão e conscientização da população sobre os problemas associados ao consumo, podendo ter impacto para a população. Para tanto, é importante se pensar em estratégias mais adequadas de persuasão e de comunicação mais eficazes para públicos específicos.

Algumas formas de contrapropaganda envolvem a disseminação das informações sobre o produto, seus efeitos e a indústria que o promove, a fim de diminuir seu apelo e uso. Os meios mais comuns são:

- inclusão de rótulos de advertência na embalagem do produto,

- esforços de esclarecimento nos meios de comunicação para aumentar a consciência do

público sobre as táticas de propaganda de uma indústria e

- mensagens de prevenção em revistas e na televisão.

Na comparação numérica entre as propagandas pró e anticonsumo, elas são

desproporcionais na grande maioria dos países e raramente as contrapropagandas são vistas

na televisão. Em função de tal disparidade, tem-se proposto que as ações de regulação de

na televisão. Em função de tal disparidade, tem-se proposto que as ações de regulação de propagandas de bebidas alcoólicas, com a restrição de horários de veiculação, por exemplo, parecem ser mais efetivas do que o investimento nas contrapropagandas.

Uma outra perspectiva com relação aos meios de comunicação inclui esforços para a formação de crianças a resistir aos apelos persuasivos da propaganda de álcool e que procurem formar a comunidade numa postura crítica frente às propagandas.

Um conceito importante ao se trabalhar com prevenção na comunidade é a resiliência comunitária. Esse conceito foi desenvolvido a partir de estudos e pesquisas com resiliência, que seria a capacidade de reagir e enfrentar de forma positiva as situações de adversidade e vulnerabilidade. Houve uma evolução desse conceito, tornando-se mais dinâmico e contextual, podendo ser relacionada como fator de proteção para o uso de drogas.Aresiliência comunitária parte da perspectiva de que grupos e comunidades também enfrentam as adversidades e se recuperam em direção do bem-estar. Algumas estratégias de fortalecimento da resiliência comunitária podem ser desenvolvida e tem como pilares norteadores:

- fortalecimento da autoestima coletiva,

- valorização e fortalecimento da identidade cultural e

- desenvolvimento da capacidade crítica e questionadora dos eventos sociais.

A partir do trabalho de fortalecimento da resiliência comunitária com grupos e regiões específicas, tais pessoas podem desenvolver formas de proteção e estar menos vulneráveis a situações de risco, como o uso de álcool e outras drogas, por exemplo.

Unidade III

3.1- Intervenções breves para o uso de álcool e outras drogas

Há mais de 20 anos, Babor et al. (2003), apoiados pela Organização Mundial de Saúde, vêm procurando desenvolver e testar técnicas de prevenção secundária, tendo em vista a evidente necessidade destas para o uso de risco de bebidas alcoólicas e drogas em serviços de saúde. Em diversas partes do mundo, existe um interesse crescente de pesquisadores e gestores de saúde na implementação de tais ações.

A preocupação para se trabalhar com o uso de risco se baseia na questão de que,

além dos problemas associados ao consumo, o uso de drogas aumenta significativamente

as chances de outros problemas de saúde, sendo comum entre pacientes que frequentam os

serviços de saúde e ainda não são abusadores ou dependentes. Dependendo da região, durante o

serviços de saúde e ainda não são abusadores ou dependentes. Dependendo da região, durante

o período de um ano, entre 60 e 75% da população procuram algum tipo de atendimento em

serviços de saúde. No Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2004), 50% da população brasileira procuraram algum serviço de saúde no último ano, sendo 41,8% em nível de Atenção Primária à Saúde. Assim sendo, torna-se evidente o potencial desse tipo de serviço para a ampliação de ações de prevenção secundária para o uso de risco de álcool e outras drogas. Por essa razão,

a

detecção precoce dos problemas relacionados ao uso tem sido de grande importância para

o

desenvolvimento de abordagens específicas, evitando, assim, o agravamento do quadro

de saúde física e mental do usuário. A partir de tais constatações, observa-se um crescente número de pesquisas com relação ao uso de risco de drogas, principalmente com relação ao desenvolvimento de instrumentos de triagem.

Uma importante ferramenta para se definirem estratégias de prevenção secundária são os instrumentos de triagem. Esses instrumentos visam detectar problemas de saúde ou

fatores de risco em estágios iniciais, antes que eles causem problemas. As justificativas para

o uso de instrumentos de triagem nos serviços de saúde são:

- a condição é um problema que afeta significativamente a saúde ou a comunidade;

- existem tratamentos aceitáveis ou intervenções disponíveis para pacientes que apresentem escores positivos;

- a identificação e a intervenção precoce levam a resultados melhores do que quando os pacientes são tratados em estágios posteriores;

- existe um teste de triagem satisfatório, que é aceito pelos pacientes;

- o teste de triagem pode ser disponibilizado a custos razoáveis.

A utilização de instrumentos de triagem preenche todos os critérios citados acima e é recomendada para todos os pacientes a partir da adolescência. Atualmente, os principais instrumentos de triagem para o uso de álcool são o AUDIT (Alcohol Use Disorders Identification Test) (ver Quadro 5) e o ASSIST (Alcohol, Smoking and Substance Involvement Screening Test). O primeiro é um instrumento de autorretrato, composto por 10 perguntas, desenvolvido para identificar vários padrões de uso de álcool:

.

Zona I: abstinência ou baixo risco;

.

Zona II: uso de risco;

.

Zona III: uso nocivo;

Ele é de fácil aplicação e correção e com validação transcultural. Esse instrumento é utilizado

Ele é de fácil aplicação e correção e com validação transcultural. Esse instrumento é utilizado para ações de prevenção realizadas em serviços de diferentes níveis de saúde e contextos.

Quadro 5 – Alcohol Use Identification Disorders Test (AUDIT)

1.

Com que frequência você toma bebidas

6.

Quantas vezes, ao longo dos ú1timos

alcoólicas a ?

12

meses, você precisou beber pela manhã

(0) Nunca [vá para as questões 9-10] (1) Mensalmente ou menos (2) De 2 a 4 vezes por mês (3) De 2 a 3 vezes por semana (4) 4 ou mais vezes por semana

para se sentir bem ao longo do dia após ter bebido bastante no dia anterior f ? (0) Nunca (1) Menos do que uma vez ao mês (2) Mensalmente

(3) Semanalmente (4) Todos ou quase todos os dias

2. Nas ocasiões em que bebe, quantas doses você consome tipicamente ao beber b ?

7.

12

Quantas vezes, ao longo dos ú1timos

meses, você se sentiu culpado ou com

(0)

1 ou 2 3 ou 4 5 ou 6 7, 8 ou 9

remorso depois de ter bebido? (0) Nunca (1) Menos do que uma vez ao mês (2) Mensalmente (3) Semanalmente (4) Todos ou quase todos os dias

(1)

(2)

(3)

(4) 10 ou mais

3.

Com que frequência você toma “cinco ou

8. Quantas vezes, ao longo dos ú1timos 12

mais doses” de uma vez c ? (0) Nunca (1) Menos do que uma vez ao mês (2) Mensalmente (3) Semanalmente (4) Todos ou quase todos os dias

meses, você foi incapaz g de lembrar do que aconteceu devido à bebida? (0) Nunca

(1)

Menos do que uma vez ao mês

(2) Mensalmente (3) Semanalmente (4) Todos ou quase todos os dias

Se a soma das questões 2 e 3 for 0, avance para as questões 9 e 10

4.

Quantas vezes, ao longo dos ú1timos 12

9.

Alguma vez na vida você já causou

meses, você achou que não conseguiria parar de beber uma vez tendo começado d ? (0) Nunca (1) Menos do que uma vez ao mês (2) Mensalmente (3) Semanalmente (4) Todos ou quase todos os dias

ferimentos ou prejuízos h a você mesmo ou à outra pessoa após ter bebido ? (0) Não (2) Sim, mas não nos últimos 12 meses (4) Sim, nos últimos 12 meses

5. Quantas vezes, ao longo dos ú1timos 12 meses , você, por causa do álcool,

5. Quantas vezes, ao longo dos ú1timos 12 meses, você, por causa do álcool, não conseguiu fazer o que era esperado de você e ? (0) Nunca (1) Menos do que uma vez ao mês (2) Mensalmente (3) Semanalmente (4) Todos ou quase todos os dias

10. Alguma vez na vida algum parente, amigo, médico ou outro profissional da saúde já se preocupou com o fato de você beber ou sugeriu que você parasse? (0) Não (2) Sim, mas não nos últimos 12 meses (4) Sim, nos últimos 12 meses

O ASSIST foi desenvolvido para triagem do uso de substâncias psicoativas. O ASSIST tem as mesmas características do AUDIT, porém avalia não só o uso de álcool, mas também o de outras drogas. O instrumento é composto por 8 perguntas direcionadas para avaliação do padrão de uso de diversas substâncias e com resultados semelhantes ao AUDIT. A partir das somas dos escores das perguntas 2 a 7, tem-se a classificação do nível de consumo de drogas a seguir:

Quadro 6 – Classificação de níveis de risco, baseado nos escores do AUDIT

Escore

Álcool

Escore

Outras substâncias

0-10

Baixo risco

0-3

Baixo risco

11-26

Risco

4-26

Risco

moderado

moderado

27 ou mais

Provável

27 ou mais

Provável

dependência

dependência

Quando associados às técnicas de intervenção breve, os instrumentos de triagem facilitam a aproximação inicial e permitem um retorno objetivo para o paciente, possibilitando, assim, a introdução dos procedimentos de intervenção breve e a motivação para a mudança.

A Intervenção Breve (IB) é uma técnica baseada na entrevista motivacional, que

objetiva a motivação da mudança de comportamentos a partir da avaliação e intervenção de

acordo com as fases de prontidão para a mudança (pré-contemplação, contemplação, ação e

manutenção). A IB pode ser utilizada por diferentes profissionais, despendendo pouco tempo,

tanto no atendimento quanto no número de sessões necessárias para finalizar o processo.

De forma geral, a intervenção breve apresenta um enfoque educativo e motivacional

dos pacientes para a redução do uso de álcool. É caracterizada pela sua curta duração,

podendo variar de 5 a 60 minutos e ser conduzida em sessão única ou em poucas (entre uma

e três) sessões.

Para a prevenção secundária, geralmente as intervenções não são direcionadas para pessoas com problemas graves

Para a prevenção secundária, geralmente as intervenções não são direcionadas para pessoas com problemas graves de dependência; entretanto, elas podem ser uma ferramenta útil para a intervenção com pessoas com uso nocivo ou de risco de substâncias psicoativas ou ainda encorajar as pessoas com dependência a aceitarem o encaminhamento para o tratamento especializado. O objetivo da IB na atenção primária é promover a percepção do paciente de que seu uso da substância está colocando-o em risco e encorajá-lo a reduzir ou deixar o uso a partir de estratégias e metas construídas entre o profissional e o paciente. Uma das técnicas de IB utilizadas é baseada no método FRAMES, que é composto por seis princípios básicos:

1) Feedback (Retorno): uma devolução de informação objetiva sobre o padrão de uso de substância do paciente. Este retorno (feedback) pode ser oferecido, por exemplo, apresentando ao paciente seu resultado do AUDIT ou ASSIST. O retorno é um passo importante para promover a percepção do nível de uso e iniciar o processo motivacional.

2) Responsability (Responsabilidade): é proposta a adoção de uma postura de não-confrontação do profissional e sinalização ao paciente sobre sua responsabilidade com relação ao seu uso de álcool e ao processo de mudança de comportamento.

3) Advice (Aconselhamento): orientações claras e objetivas sobre os problemas que o paciente apresenta ou possa vir a apresentar e sua possível relação com outros problemas de saúde.

4) Menu de Estratégias: é a identificação de situações de risco para o uso da substância, definição de metas com relação ao uso (diminuição ou abstinência) e estratégias para se alcançar tais metas.

5) Empatia: é proposta a adoção de uma postura empática e acolhedora, mas ao mesmo tempo segura e objetiva na relação com o paciente, a fim de promover maior aceitação do aconselhamento.

6) Self-efficacy (Autoeficácia): é uma proposta de promoção de sentimento de segurança e autoestima em relação ao problema. A forma de aplicação do método FRAMES depende do nível de motivação dos pacientes para a mudança de comportamento. O objetivo é sempre provocar uma mudança na prontidão para a mudança de comportamento do paciente. É importante notar que a IB, apesar de desenvolvida especificamente para a mudança do padrão de uso de substâncias psicoativas, pode ser utilizada como técnica de mudança de vários outros comportamentos.

Estudos anteriores sugerem que a efetividade da IB e seu desempenho possam ser superiores aos

Estudos anteriores sugerem que a efetividade da IB e seu desempenho possam ser superiores aos de outras intervenções que demandam maior tempo. Além disso, a IB é apontada como uma técnica eficiente, levando em conta os resultados obtidos e o baixo custo para sua execução. A utilização de apenas 5 a 10 minutos da consulta de rotina para aconselhamento dos usuários de risco de álcool por profissionais de saúde consegue reduzir o consumo médio em 20-30%. Algumas propostas de triagem associadas a ações de intervenções breves vêm sendo propostas e avaliadas em todo o mundo. A articulação de técnicas de triagem e intervenção breve pode também auxiliar na organização do sistema de referência para pessoas que já desenvolveram um transtorno por uso de álcool. Algumas experiências inovadoras já têm sido implementadas há alguns anos em algumas regiões do país, como Minas Gerais, São Paulo e Paraná, demonstrando ser uma estratégia possível desde que haja envolvimento de diversos setores.

Unidade IV

4.1- Orientações gerais sobre a implementação de ações de prevenção ao uso de álcool e outras drogas

Um ponto crucial para se implementar ações de prevenção é um planejamento prévio, estabelecendo objetivos e metas claras, com as seguintes perguntas norteadoras:

- para quem a ação deve ser dirigida?

- Como essa ação será desenvolvida?

- Onde será realizada?

- Quais os objetivos e metas a serem alcançados?

- Quais os recursos humanos, financeiros e de infraestrutura eu necessito e disponho para a realização da minha ação?

O planejamento deve ainda ser constantemente avaliado e readequado de acordo com as metas e resultados alcançados. A seguir, alguns princípios gerais para a prevenção do uso de álcool e outras

drogas:

- idealmente, todos os três níveis de prevenção devem ser implementados e estar articulados entre si. - As práticas preventivas devem enfocar muito mais os fatores de proteção do que focar os

fatores de risco. - Os programas preventivos devem enfocar diversos tipos de substâncias, incluindo as

fatores de risco.

- Os programas preventivos devem enfocar diversos tipos de substâncias, incluindo as drogas lícitas como álcool e tabaco.

- Programas de prevenção devem incluir habilidades para negar o uso quando oferecidas,

fortalecendo o indivíduo na perspectiva de não usar a droga, aumentando as habilidades

de vida e sociais em conjunto com o fortalecimento de atitudes contrárias ao consumo de drogas.

-

Programas preventivos voltados para adolescentes devem envolver estratégias integrativas

e

ampliadas, e não somente atividades didáticas.

- Programas de prevenção devem envolver pais, cuidadores e família e considerar o ambiente no contexto da prevenção.

- Programas de prevenção com enfoque familiar apresentam maior impacto do que o foco somente no jovem ou somente nos pais.

- Intervenções comunitárias, como restrição de acesso ao álcool, tabaco e outras drogas, campanhas na mídia e políticas públicas, apresentam maior impacto quando a escola e família estão envolvidas.

- Programas comunitários devem reforçar as normas que restrinjam o abuso de drogas em

diversos contextos e grupos, como família, escolas e comunidade.

- As ações preventivas devem ser pensadas e desenvolvidas a partir de contextos e problemas específicos de consumo, devendo ser culturalmente apropriadas.

4.2- Prevenção e políticas públicas

No Brasil, apesar de alguns avanços em termos de políticas públicas sobre o uso de álcool e outras drogas, na área da prevenção, ainda são apresentadas algumas confusões de definição de prioridades e investimentos. Todavia, algumas ações em nível local (nos municípios) podem e devem ser realizadas, podendo apresentar melhores resultados comparados a algumas perspectivas de ação em nível nacional.

Por isso, o nível local deve definir sua política própria sobre álcool e outras drogas e

envolver, de forma integrada, vários setores da administração, como Secretaria de Educação,

Secretaria de Saúde, Secretaria de Ação Social, Conselhos Locais, Associações de Bairros,

Setores Não-governamentais (como os Alcoólicos Anônimos, por exemplo), Poder

Legislativo, Poder Judiciário e Poder Executivo.

É importante considerar que, apesar de algumas ações de prevenção serem bastante

divulgadas e praticadas, elas nem sempre apresentam evidências de impacto. Por isso, antes

da definição de ações e políticas de prevenção, é preciso conhecer a real possibilidade de

da definição de ações e políticas de prevenção, é preciso conhecer a real possibilidade de

mudança de tais ações. Alguns modelos de prevenção já foram estudados em termos de

efetividade, como apresentado abaixo.

Quadro 7 – Taxas de Efetividade das intervenções ou políticas

 

Efetividade

Suporte Científico

Custo-Efetividade

Programas de Serviço Social

Baixa

Baixo

Baixo

Programas com grávidas

Baixa

Baixo

Baixo

Programas

de

Saúde

do

Média

Baixo

Baixo

Trabalhador

 

Aconselhamento breve em serviços de atenção primária

Alta

Alto

Médio

Aconselhamento breve em serviços de emergência

Média

Médio

Médio

Cursos

ou

Palestras

em

Sem

Baixo

Baixo

Escolas

Comprovação

Trabalho com Comunidades

Média

Médio

Baixo

Teste do bafômetro

 

Alta

Médio

Baixo

Fonte: Anderson e Baumberg (2006).

A implementação de políticas adequadas a cada contexto e já avaliadas anteriormente é de fundamental importância para o sucesso delas. É imprescindível que, antes da definição de políticas sobre álcool e outras drogas, sejam avaliados a efetividade, o suporte científico e a relação custo-benefício. Além disso, deve-se fazer uma constante avaliação da proposta realizada para possíveis ajustes ou mudanças de tais políticas. As políticas sobre álcool e outras drogas ainda são polêmicas e de difícil implantação. Muitas vezes, a tomada de decisão sobre ações de prevenção esbarra em questões de preconceitos e estigmas sobre o uso ou usuários de álcool e outras drogas. Com relação às estratégias de disseminação de triagem e intervenção breve nos serviços de saúde, a ênfase na mudança de atitudes, articulada ao fortalecimento de políticas públicas, e não somente à qualificação técnica dos profissionais, parece ser a perspectiva mais aceitável e promissora atualmente. Para tanto, torna-se útil o modelo de avaliação e implementação das políticas públicas de saúde propostas por Collins (2005), que sugere oito passos de avaliação:

1) definir o contexto;

2) definir o problema;

3) pesquisar evidências sobre políticas e/ou ações anteriores;

4) considerar diferentes opções de ação;

5) presumir os resultados esperados;

6) aplicar critérios de avaliação; 7) avaliar os resultados alcançados; 8) tomar decisões. Apesar de

6) aplicar critérios de avaliação; 7) avaliar os resultados alcançados; 8) tomar decisões.

Apesar de esse modelo ser de simples sistematização, ele é de extrema complexidade. O primeiro passo muitas vezes não é valorizado por muitos gestores e acadêmicos.Aavaliação da história dos locais é fundamental para a definição de estratégias mais adequadas. Inseridas nesse contexto e história estão as crenças e atitudes compartilhadas por determinados seguimentos da sociedade, que irão facilitar ou criar barreiras para a implantação de determinadas políticas. Como consequência da desconsideração desse passo, muitas ações são simplesmente transpostas de outros países, sem considerar o contexto e a aplicabilidade das propostas.

4.3- Concluindo: a prevenção como sistema

Como podemos observar neste capítulo, a prevenção envolve aspectos amplos e complexos que não devem ser restritos aos indivíduos. Além disso, existem diversos níveis e tipos de prevenção em diferentes setores de aplicação. Ao considerarmos o uso de álcool e drogas, a questão se torna ainda mais complexa. Por isso, devemos considerar que trabalhar com a prevenção de álcool e outras drogas é uma ação muito complexa para nos restringirmos ao setor de educação ou da saúde somente. É preciso pensar a prevenção como uma ação sistêmica e que deve criar uma rede de ação em diversos setores da sociedade. Abaixo, um pequeno exemplo de quais setores estão direta ou indiretamente envolvidos na questão do uso de álcool e outras drogas e no pensamento da necessidade de criação de redes de ação de prevenção.

questão do uso de álcool e outras drogas e no pensamento da necessidade de criação de
Sabemos que trabalhar com prevenção é um grande desafio. Sabemos ainda que não é uma

Sabemos que trabalhar com prevenção é um grande desafio. Sabemos ainda que não é uma tarefa simples e que exige conhecimento, cautela e um trabalho em rede. Porém, sabe-se que a prevenção é o caminho a ser trilhado para a real redução do impacto que o consumo de álcool e outras drogas traz para pessoas, famílias, grupos e sociedades. Por essa razão, devemos fortalecer cada vez mais tais ações e pensar em estratégias que sejam de fato efetivas.

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Fundação de Apoio à Universidade Federal de São João del-Rei - FAUF SECRETARIA DE ESTADO
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SECRETARIA DE ESTADO DE ESPORTE E DA JUVENTUDE
SUBSECRETARIA DE POLÍTICAS ANTIDROGAS