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Alquimia dos Corpos e Materialidade da Alma:

Intervenções imagético-apresentativas em grupos terapêutico-


vivenciais

Santina Rodrigues

Trabalho apresentado no I Simpósio de Psicologia Analítica de C. G. Jung


do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo em 30/03/2005.

Essa semana fui acordada por um sonho. Um sonho que apresentava imagens desse encontro.
No sonho, estávamos [os pesquisadores do LEP- Laboratório de Estudos da Personalidade]
reunidos numa sala com a Laura (orientadora do grupo) que falava pra gente ir para a sala
número 1, para fazer uma espécie de preparação para esse encontro, que é o I Simpósio
Junguiano do Instituto de Psicologia da USP.

Chegava lá e via um grupo de pessoas “ensaiando” para fazer uma apresentação – era um
grupo maior do que somos na realidade, atualmente sete.

Estavam todos vestidos com roupas muito coloridas e maquiados. Parecia que cada um que ia
para o palco, precisava se apresentar ao público, através de uma dança ou gestual complexo:
faziam movimentos que subiam dos pés e das pernas, passavam pelos quadris, braços, tórax,
pescoço e cabeça – o movimento ia subindo de baixo pra cima. Parecia mesmo uma dança de
rua, tipo “break” dos anos 80! As roupas eram feitas de muitos retalhos coloridos; e junto com a
maquiagem, lembrava e fazia todos parecerem “clowns” [palavra inglesa para palhaço; termo
também associado ao sentido da experiência trágica].

Antes de subir ao palco, a pessoa tinha que ficar ali embaixo, aos pés do palco, observando e
se preparando com a vestimenta e a maquiagem para se juntar aos colegas e engrossar o
caldo.

Eu ainda estava ali - nessa espécie de anti-palco, com mais dois ou três colegas,
experimentando minha vestimenta – era uma espécie de vestido ou túnica branca de renda,
cujo desenho era todo entremeado formando pequenas flores e eu me dava conta, ao passar a
mão sobre ele que, pela textura, estava do lado avesso.

Logo depois, eu me via já vestida, mas tirava a túnica-vestido e, um pouco preocupada em me


colocar nua diante dos colegas que estavam comigo, dava um jeito de me vestir novamente,
tentando cobrir a parte superior do meu corpo. Ao vestir a túnica mais uma vez, me dei conta
que estava de novo do lado avesso - dessa vez, percebia isso pela costura lateral que estava à
mostra.
Enquanto essa tentativa de achar a roupa certa - talvez o jeito idealmente certo de estar aqui
hoje se passava, um pensamento de fundo vinha à minha mente: preciso ligar e saber se o
meu computador ficou pronto! Esse dado da realidade objetiva ficou presente o tempo todo no
sonho e me vinha à mente enquanto eu e meus colegas observávamos os outros praticando
sua dança conjunta ali no palco. Um deles comentou comigo: “essa dança deve ser bem difícil!
Olha só como tem que mexer o corpo todo!”.

A preocupação com o computador foi crescendo no sonho e eu tive que sair dali pra procurar,
numa outra sala, um telefone pra ligar para o técnico e ver se o computador já estava pronto!
Chegando lá, não tinha telefone! Lembro que antes de me retirar pra essa sala, eu pegava o
vestido-túnica-de-renda-branca na mão e me surpreendia com algumas peças de roupa íntima
que estavam ali junto dele. Voltava, então, para o pé do palco, na sala anterior e me preparava
pra me juntar ao grupo.” (fim do sonho)

Antes de fazer minhas considerações, quero citar uma passagem do Jung que nos servirá
como guia pra “ficar com esse sonho”. É uma passagem que está no livro “O Homem e seus
Símbolos”, na introdução. Nesse texto, Jung está tentando apontar as diferenças de seu
método em relação ao método da associação livre de Freud. De quebra, ele está fazendo
considerações a respeito de sua própria concepção de aparelho e funcionamento psíquico.
Vamos a ele, então:

“[...] Conclui, seguindo essa linha de raciocínio, que só o material que é parte clara e visível de
um sonho pode ser utilizado para sua interpretação. O sonho tem seus próprios limites. Sua
própria forma específica nos mostra o que a ele pertence e o que dele se afasta. Enquanto a
livre associação, numa espécie de linha em zigue-zague, nos afasta do material original do
sonho, o método que desenvolvi se assemelha mais a um movimento circunvolutório cujo
centro é a imagem do sonho. Trabalho em redor da imagem do sonho e desprezo qualquer
tentativa do sonhador para dela escapar. Inúmeras vezes, na minha atividade profissional, tive
de repetir a frase “vamos voltar ao seu sonho. O que dizia o sonho?” (p.29)

Eu optei por vir a esse encontro sem um texto formal ou arquivo preparado em datashow, como
tinha pensado em fazer a princípio. Também a idéia de apresentar fotos das peças criadas por
alguns pacientes usando o barro e o tecido - elementos que poderiam ser chamados de co-
autores em minha pesquisa – essa idéia também me abandonou, se esvaindo como um barco
que some em meio a um nevoeiro. Todas essas idéias estiveram presentes nas semanas que
antecederam o dia de hoje, enquanto ia “encubando” a forma e as idéias de apresentar, ainda
que brevemente, meu projeto de pesquisa nesse Simpósio (são só 15 minutos!!).

Acordei na segunda-feira de manhã com esse sonho que acabo de relatar e de antemão digo
que não tenho pretensão de apresentar interpretações para ele, até porque esse não é o
espaço para isso. Se me utilizo dele para iniciar minha fala hoje é por reconhecer que há uma
força nas imagens apresentadas no sonho, que se sobrepõem a qualquer outro recurso
tecnológico que eu pudesse usar e, em especial, porque as imagens me guiaram ao redor de
pelo menos duas questões fundamentais que se inter-relacionam em minha pesquisa [a
matéria-imagem e a consciência] e que são fortemente norteadas pela seguinte afirmação de
Jung:
“A psique é imagem e um imaginar. Todo conhecimento direto e imediato que se faz
em nós se dá através das imagens. Se assim não fosse, não haveria consciência nem
fenomenalidade da ocorrência. (Jung, 1989 par. 889)”

Então, eu resolvi abusar da ocorrência do sonho e compartilhar com vocês algumas idéias que
invadiram minha consciência e me levaram a imaginar coisas. Imaginar e escrever o que estou
contando pra vocês.

Acho curioso comentar também que, para quem me conhece um pouco e sabe da presença do
computador e do telefone em minha vida cotidiana, o quanto propor minha apresentação hoje
como uma coisa mais artesanal é bastante inaugural pra mim, ao mesmo tempo que é
inaugural esse encontro de psicologia analítica na USP – o primeiro em 23 anos! Costumo
apresentar minhas idéias num formato mais apolíneo ou convencional, o que é ou era mais
típico em mim até esse momento, pelo menos.

Enfim, fui acordada na segunda-feira com esse sonho, talvez porque estivesse mesmo muito
preocupada com o fato de meu computador estar quebrado há cerca de uma semana. E vocês
podem imaginar o que é ficar sob a ameaça de viver sem essa máquina nessa época de
Simpósio e de qualificação?! É mesmo de tirar o sono. Mas não os sonhos!

E eu fiquei muito impressionada com as imagens desse sonho e de novo, com a capacidade da
psique apresentar saídas para minha tensão diante da necessidade de ter um texto pronto que
pudesse ser formatado para trazer aqui hoje. E eu achei que podia vir para esse encontro sem
o computador, sem o data-show, sem o texto pronto! Até porque meu texto, o da dissertação,
ainda está no forno, está sendo cozido, ou seja, não está pronto!

O que venho contar para vocês, então, é fruto de meu percurso como pesquisadora do Instituto
de Psicologia da USP, em parceria com esse grupo de pesquisadores com os quais ando
descobrindo o que é fazer pesquisa em comunidade, ou comum-unidade, mas também
pluralidade, numa diversidade de temas e estilos que podem ser observados nas falas dos
colegas que me antecederam.

A Laura, nossa orientadora, se oferece como uma companhia um pouco diferente dos demais –
ela às vezes vai na frente, lançando luz em alguns lugares escuros que me ajudam a não me
perder. Outras vezes, ela me deixa ir sozinha, confiando que minha alma sabe um pouco do
caminho, afinal me trouxe até aqui.

Alma, um termo tão particular na psicologia analítica e por vezes mal compreendido pela
psicologia em geral, não deve ser entendido ou associado a concepções metafísicas, mas
especificamente na concepção de Jung e de James Hillman, um outro autor importante em
minha pesquisa sobre a materialidade e a atitude da consciência.
Alma se refere à uma experiência de profundidade psíquica. Alma é um evento psíquico, que
surge num encontro pessoal e particular com alguma coisa do mundo. Alma se apresenta
através de imagens, portanto, trata-se de uma perspectiva psicológica.

Imagem, outro conceito fundamental na psicologia analítica, não deve ser entendida como algo
exclusivo do campo da percepção ligada a objetos exteriores, embora inclua esse universo
sensorial. Imagem e Alma, como bem salientou Jung, andam de mãos dadas, porque a
imagem é a linguagem da psique.

Considerar a imagem nesses termos é considerar uma noção de realidade que não precisa ser
submetida aos parâmetros da realidade objetiva. Nesse caso, falamos de realidade psíquica e
é só com essa, a meu ver, que o psicólogo deve se ocupar ou preocupar. Realidade psíquica,
como concebo, especialmente a partir de minha prática clínica, não precisa ser restringida a
noções de um mundo psíquico interno, introjetado, literalmente localizável “dentro” do indivíduo.

Esse é o grande desafio de minha pesquisa – recorrer ao mundo concreto, ao “mundo lá fora” -
para usar uma “expressão feliz” de Hillman, quando retoma a noção de anima mundi ou alma
do mundo em Jung. Os objetos do mundo, diz Hillman, têm alma e querem dizer algo que vá
além “de minhas projeções, do meu mundo interno, do meu narcisismo.”

Meu objeto de pesquisa trata da inclusão e criação de objetos concretos no setting –


caracterizando o que chamo de “materialidade”, de acordo com os conceitos que aqui tento
apontar da psicologia analítica.

O conceito que também serve à noção que tento apresentar como base para “materialidade” é
a individuação, uma idéia que é muito cara à psicologia analítica; para alguns, o ponto
fundamental dessa teoria.

Segundo Jung, o processo de individuação, como o próprio nome já diz, trata de um trabalho
processual de transformação psíquica. A “lapidação”, por assim dizer, do indivíduo psicológico,
não é algo dado naturalmente, embora a noção de desenvolvimento de uma consciência
individual possa estar naturalmente presente no ser humano, uma vez que sua individualidade
já vem marcada no próprio corpo físico.

Nesses termos, a Individuação seria uma “opus contra naturam”. A individuação é fruto de
trabalho psíquico, é a opus que caracteriza a psicoterapia e demanda para isso energia e
dedicação ritualísticas. É um trabalho do ego e da consciência com as imagens e processos
inconscientes.
Partindo dessa idéia, proponho que a materialidade caracteriza-se como algo presente
naturalmente nas coisas concretas do mundo. Aliás, como recentemente nos esclareceu a
pesquisa de nosso colega, André Mendes, concreto deve ser distinguido de literal. Concreto é
aquilo que cresce junto.

Ao considerar os objetos trazidos pelos pacientes para o setting ou ao oferecer a eles um


espaço-ritual para a criação de objetos, considero que o paciente está, tal qual o alquimista,
trabalhando a psique na matéria, dando materialidade à sua psique.

Assumo, portanto, o termo materialidade para todo e qualquer material ativamente incluído ou
simplesmente presente diretamente na sessão terapêutica, desde que reconhecido em sua
alteridade. Nesse sentido, trata-se de algo concreto, com massa, volume, cheiro e tonalidade,
em estado bi ou tridimensional que provoca o corpo, a consciência, inaugurando o processo
imagético.

A materialidade, então, pode ser um material amorfo, um objeto já criado no processo


terapêutico ou ainda um objeto trazido pelo paciente para a sessão, com o qual se estabelece
uma relação particular do analisando, em diferentes momentos do processo terapêutico.

A materialidade refere-se à qualidade do que é material, portanto, é uma presença real,


reconhecida em sua natureza idiossincrática, no encontro terapêutico. Ela encerra em si
características próprias incrustradas ou encarnadas num determinado elemento ou matéria-
prima. Trata-se de uma qualidade natural engendrada em sua concretude que, “diante de” ou
“no contato com” o analisando, inaugura e permite que se desenrole uma vivência íntima do
paciente, um encontro erótico com o objeto que se oferece para uma construção inter-subjetiva
de base imaginal.

Uso esse termo e não especificamente matéria, matéria-prima ou material, justamente por
considerar já haver uma excessiva atribuição de sentidos a essas palavras, tanto no senso
comum como no especializado, não só no campo da psicologia, mas também de outras
disciplinas da área do conhecimento.

Materialidade, então, refere-se a um atributo de um elemento ou objeto concreto que “provoca”


a consciência e “convoca” o corpo de diferentes maneiras, de acordo com a natureza da
matéria que se faz presente no setting.

Esse encontro com a matéria coloca-se, a partir de minha observação e acompanhamento de


processos psicoterapêuticos, como um dos caminhos privilegiados de se “fazer alma” – na
medida que inaugura uma experiência psíquica de profundidade que se dá na emergência das
imagens concretas na matéria. A imagem é uma cena, uma aparição, uma epifania da alma e
tem algo a apresentar, sem a necessidade de referentes que a representem.
A imagem não é a pintura ou o desenho ou a escultura tomados literalmente, mas é a
concretude dessas formas e a possibilidade de manejá-las e de interagir concretamente com
elas que permite o exercício imaginal, que é constantemente intermediado e influenciado pela
materialidade.

Imaginal é a condição da alma “circum-ambular” ao redor das imagens como propõe Jung e de
criar uma relação erótica com o que brota das mãos e do corpo. Eros, aqui entendido como
uma condição de se vincular com o que toca e de se deixar tocar, flechar, por assim dizer.
Trata-se de uma atitude imaginal do ego que, poroso, permite-se penetrar e fecundar pela
matéria e pelas imagens, como sugere Hillman.

Uma parceira fundamental entra em cena, então: a consciência. Pois há que haver um ego e
há que haver uma consciência capaz de se deixar imaginar, numa atitude de abertura à
alteridade da matéria em suas diferentes manifestações elementais, como tão vasta e
poeticamente discutiu Bachelard, a partir da natureza dos diferentes elementos: água, ar, terra,
fogo.

Há que haver uma consciência capaz de se oferecer às imagens para que elas possam subir
ao palco e se apresentar fenomenicamente ao mundo. Não se trata de uma encenação, mas
de um encontro animado [com alma], das diferenças que se apresentam em diferentes
texturas, cores, gestos, tonalidades.

Talvez a imagem de meu sonho apresente à minha consciência o encontro de hoje como um
palco de aparições coloridas, texturizadas - indicando um jeito plural e ao mesmo tempo
individual, de fazer alma. Um jeito com características de “clown”, jeito de palhaço. E quem dirá
qual é o jeito certo da alma se apresentar? Não será como algo que desconcerta? Ups!
Lembrei do meu computador no conserto, que me permitiu estar aqui hoje fazendo alma de um
jeito inusitado para mim, e por isso mesmo, imaginal, vivo, presente, com a alma colocada na
concretude desse encontro, também inaugural para a psicologia junguiana e o instituto de
psicologia da USP.

Para finalizar, uma citação inspiradora de Bachelard: “dê qualidade às coisas; dê do fundo do
seu coração o poder justo aos seres agentes e o universo resplandecerá".

(BACHELARD, 1961 – A Chama de uma vela