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Contos Sarau Literário

ALTA FANTASIA
ALTA
FANTASIA

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Milena Cherubim

Profecia

Por Charles William

“Profecias estúpidas”, gritou Yaros, corda do arco retesada, após perceber que o dragão recém-despertado não podia ser vencido.

Ele era o culpado, e agora tudo que existe deixaria de existir pela sua imprudência. Foram dados todos os avisos, todos os alertas. Mas a inconsequência típica de um jovem aventureiro cegou-o. Agora era tarde. Milhões morreriam.

Sua culpa. Apenas sua.

***

Junto aos fiéis companheiros Palayn (o mago gago, maluco e careca), Dyyr (bárbaro imenso e descerebrado) e Yanelya (feiticeira exótica e sensual), invadiram o Templo Perdido de Schyardalaranthala. Tinham passado as últimas semanas arquitetando detalhes, aperfeiçoando estratégias, reunindo recursos e ignorando advertências de que “um mal ancestral habitava o local e, se fosse despertado, o mundo seria destruído”. Sacerdotes, bardos, velhos loucos em tavernas sem parede e até anjos em sonhos tentaram dissuadi-los da idéia do ataque àquele templo em ruínas. Todos falharam.

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“Bobagens!”, gritava Yaros, frente aos alertas. “Não cheguei onde cheguei, me intimidando diante de profecias”, respondia Yanelya. “Dyyr mata! Dyyr não perdoa!”, o bárbaro respondia quando questionado. “A experiência nos ensina a não acreditar em profecias. Nem em mulheres. Nem em homens-lagarto” Palayn dizia.

Discursos afiados na ponta da língua, lâminas afiadas nas mãos, avançaram. O povo do reino rezou a todos os deuses que conheciam (alguns até inventados) para que tudo não terminasse como já se sabia que terminaria. Contava-se que o Templo Perdido era onde repousavam as almas de guerreiros ancestrais que se sacrificaram para deter um cruel dragão vermelho que aterrorizava a região há séculos. Seriam, de acordo com o que se comentava, os espíritos desses guerreiros que impediam que o dragão voltasse à vida. A profecia dava conta de que, se o templo fosse profanado de alguma forma, o selo que separava o mundo dos mortos do mundo dos vivos seria rompido, fazendo o dragão voltar a vida. Ou qualquer coisa assim. Afinal, Yaros e seus amigos nunca deram importância a essas “crendices idiotas típicas de gente ignorante”. E os quatro continuaram avançando.

Câmara após câmara, sala após sala, desafio após desafio. Nada os detinha, nada os intimidava, nada sugeria que a “profecia estúpida” pudesse se cumprir. Toda a sorte de monstros, inimigos e armadilhas foram sobrepujados. Parecia que a vitória era uma questão de tempo. Logo chegariam ao último aposento do Templo, onde encontrariam tesouros, jóias e artefatos mágicos de poder impensável.

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Mas o destino decidiu pregar uma peça neles.

***

Do chão de terra batida levantaram-se grotescas caricaturas de seres humanos. Presos no horrendo hiato que separa a vida e a morte, tinham aparência humanóide, poder de demônios e sede de sangue de feras.

Nas faces embrutecidas, cicatrizes profundas, cavidades oculares reluzindo com malévolas luzes vermelhas. Chifres pontudos, lábios salivando ferocidade em meio a dentes bestiais e gritos de desespero.

Os corpos eram um amontoado de carne apodrecida e ensangüentada entrelaçado a ossos gosmentos. Os “pedaços” de carne que faltavam em várias partes do tronco eram preenchidos por pedaços de couro rasgado que um dia mereceram ser chamados de “armaduras”. Nas mãos cheias de dedos faltantes, armas poderosas. Espadas, machados, maças, lanças e muitas outras. Caminhavam lentamente, em morosidade tétrica, arrastando seus pés pelo chão e perdendo dedos pelo caminho.

Dyyr avançou com o imenso martelo de batalha e golpeou. Partes desencontradas dos cadáveres voavam em todas as direções, mas eram prontamente substituídas. Yanelya lançava mão de poderosas conjurações ofensivas apenas para ver os que caíam derrotados levantarem instantes depois. Palayn

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balbuciava coisas sem nexo e disparava bolas de fogo a esmo. Uma delas atingiu a ele mesmo, tirando sua vida.

Poucos minutos de confronto foram suficientes para que Yaros entendesse que não havia chance de vitória. Virou-se e tentou fugir. Atravessou longos corredores, escapou de armadilhas, perdeu-se nos trechos labirínticos do local, até conseguir voltar à superfície.

Menos de uma hora depois, enquanto ainda resfolegava, viu o covil explodir. De longe, identificou os corpos de seus colegas sendo devorados pelos zumbis, e estes sendo dizimados pelas chamas da criatura que despertara.

Era o dragão.

***

Retesava a corda e disparava flechas em movimentos ininterruptos, sem resultado. As pessoas corriam. E o dragão cuspia fogo, destruindo cidades, incendiando vidas e sonhos. “Profecias estúpidas”, Yaros esbravejou, ao ver o algoz vir em sua direção.

Aquele seria o fim.

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DARK FANTASY
DARK
FANTASY

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Híbrida

Por Vanessa Bosso

Com a visão ainda deturpada, Alex caminhava, em meio aos escombros da cidade aniquilada.

A destruição era iminente, só os tolos não enxergavam os

fatos.

Chegando ao prédio em ruínas, Alex arrebentou a porta com dois chutes violentos. Não reconheceu quase nada do que, um dia, havia sido sua morada.

Subiu, cautelosamente, os poucos degraus que permaneceram intactos. Em alguns momentos, precisava saltar ou se arrastar pelas paredes abaladas.

A estrutura do prédio não aguentaria por muito mais tempo, precisava ser rápida.

precisou

arrebentar a porta, já que esta não existia mais.

Chegou

ao

treze,

seu

número

da

sorte.

Não

O

chão rangeu debaixo de seus pés.

O

incêndio havia transformado em cinzas todos os seus

sonhos. Não havia qualquer resquício de sua passagem por este mundo.

Um vendaval, sem aviso, começou a carregar para fora todas as conquistas de uma vida. As cinzas levantavam-se do chão numa sinfonia pesarosa e punitiva.

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O que os humanos haviam feito? Teria sido essa a melhor

alternativa?

escombros.

Aproximou-se e logo viu do que se tratava.

A caixinha de música, apesar de destruída externamente,

conservara o espelho interno e a pequena bailarina cor de rosa.

Alex aproximou o espelho da face. Já não reconhecia mais a imagem que via.

Seus olhos, agora esverdeados, ladravam como dois cães ferozes. A mutação logo estaria completa.

Lembrava-se das abduções como se tivessem acontecido ontem. Os intermináveis testes eram a mais horrenda lembrança dos momentos de pavor.

Notou

um

brilho

pulsar

no

meio

dos

Somente

em

sua

última

abdução,

pôde

conhecer

os

pavorosos seres que a sequestravam há mais de vinte anos.

Em

sua

mente,

ouviu

os

granidos

tomarem

forma

e

entendeu, perfeitamente, o que eles lhe diziam:

 

Dentro

de

três

dias,

a

guerra

terá

início.

Nós,

os

reptilianos, sairemos vitoriosos. E vocês, híbridos, tomarão parte desse novo mundo ao nosso lado.

- Por que precisam de mim?

- Nossa raça está morrendo. A raça humana foi a única que passou nos testes. Vocês, híbridos, darão continuidade ao nosso povo, nossa cultura. E a Terra, enfim, será nossa.

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Alex foi devolvida para a superfície, após essa revelação. Três dias depois, as naves reptilianas invadiam os céus do planeta.

A guerra territorial tinha início.

Os humanos que se alistaram foram aniquilados, sem piedade. Cidades foram invadidas e o cheiro de morte pairava no ar. O sangue escorria pelas paredes e pelo asfalto das cidades destruídas.

Dois meses depois, a decisão havia sido tomada.

Todo o arsenal atômico já estava preparado. Em sua mente, Alex podia ouvir os reptilianos - era exatamente o que desejavam.

Não havia como avisar os governantes de que esta era uma atitude extrema e estúpida. Os reptilianos se alimentavam de energia atômica. Alex, mesmo sem ter completado a mutação, não sofreria qualquer dano.

decisão

atômica. O fim aconteceria sob o fogo ardente e impiedoso.

A

raça

humana

colheria

o

apocalipse

após

a

E foi exatamente assim que aconteceu.

Dias de pavor tomaram conta do planeta azul. O horror estava por todos os lados. Oceanos, rios e lagos morreram em poucos dias. A vegetação já não existia mais. Cidades estraçalhadas e corpos carbonizados eram a visão do paraíso para os reptilianos.

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Milena Cherubim

Estavam tão enlouquecidos com a vitória, que não ouviram os pensamentos de Alex.

A garota tinha um trunfo.

Lembrando-se das palavras do cinzento, morador da intra- terra, Alex pegou o estranho objeto de dentro da caixinha de música.

Tudo sobre o que tinham conversado, ele garantiu, que os reptilianos não teriam acesso. Foi no verão passado, em Arequipa.

Alex foi abduzida, mas, dessa vez tinha sido bem diferente.

O ser cinzento apresentou-se como pertencente a primeira

raça do planeta Terra. Morava em um lugar chamado intra- terra, bem próximo do centro fumegante do planeta. Explicou

que já sabia das intenções dos reptilianos e que Alex seria transformada em um híbrido humano-alienígena.

O ser lhe passou um estranho objeto pulsante e foi categórico ao dizer: “Faça uso desse objeto apenas quando a guerra atômica tiver destruído toda a superfície do planeta. Quando o fizer, você estará livre do encargo híbrido a que foi submetida.”

Alex entendeu o que isso queria dizer: ela morreria.

O objeto pulsava em suas mãos. Era possível notar vários

pontos luminosos escapando do que parecia ser um cristal de quartzo.

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Todos os que conhecia estavam mortos. Todos os que amava haviam perecido. Seus olhos já mudavam de cor e sua pele começava a se transformar de forma escamosa.

O momento era agora.

Alex seguiu as instruções do ser cinzento e engoliu o estranho objeto pulsante. Não demorou muito para sentir seus efeitos devastadores.

Pôde ver, através dos olhos de sua mente, os reptilianos caírem, um a um. Viu terror nos olhos daqueles seres odiosos. Sentiu um misto de prazer e vingança no aflorar de um sorriso.

Foi a última a cair.

E quando isso aconteceu, o paraíso se abriu diante de seus

olhos, para o início de uma nova vida.

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LOUCURAS DO COTIDIANO
LOUCURAS
DO
COTIDIANO

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Crônicas do barro/macaxeira

Por Israel Duarte

O sistema público de transporte do Recife, e da sua região metropolitana, se baseia no uso de terminais integrados de passageiros, geralmente chamados de integrações. Você paga uma passagem ou ao embarcar em um ônibus ou ao entrar diretamente em uma integração -seja ela de ônibus ou metrô ou mista- e ganha o direito de pegar qualquer ônibus durante o tempo que agüentar desde que só desça nas integrações.

Dentre as principais integrações do Recife temos a da Macaxeira, que centraliza num espaço minúsculo uma tuia de pobres que vêem da parte norte da região metropolitana do Recife, e a do Barro, que centraliza num espaço imenso uma quantidade absurda de pobres que vêem da parte sul e oeste da tal região metropolitana. Ligando-as temos duas linhas: 207- Barro/Macaxeira (BR101) e 202-Barro/Macaxeira (Várzea) .

Lá pelo ano de 2003 havia um garotinho que todos os dias, fizesse chuva ou sol, estava na macaxeira fila do BR. Cara de sono, calça jeans, bolsa enorme nas costas, camisa azul marinho, sapato branco. As pessoas se matavam pra furar a fila, mas o nosso garotinho a obedecia fervorosamente. Não era raro chegar atrasado à escola por conta disso. Mas ele sempre entrava no ônibus com direito a escolher onde sentar e sempre, sempre buscava um lugar no lado direito, o lado do cobrador,

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com acesso a janela. Acho que ele gostava do vento, não sei. A viagem era longa e a paisagem não era das mais belas, mas o povo dentro do ônibus fazia aquilo valer à pena. Quase sempre havia algo novo para se olhar e quando não havia, os habituais passageiros do Barro/Macaxeira já roubavam atenção do pensativo garotinho.

Havia “o pregador”, sempre usando um terno risca de giz surrado, na mão direita uma bíblia preta e na mão esquerda apoiador que fica preso ao teto do ônibus. Ele gritava, cantava, falava que quase tudo era pecado, que Deus não estava feliz com o nosso comportamento e que o fim estava próximo, bem próximo. O garotinho não gostava dele. Havia a garotinha que vendia confeitos e pipocas e repetia o seu texto duas vezes, uma pro pessoal da frente do ônibus e outra pro pessoal de trás. O garotinho secretamente achava que ela era bonita, achava que se ela tivesse tido a sorte de nascer em uma família rica, seria uma modelo. E ainda havia o barbudo fedorento, que sempre aparentava estar de ressaca.

O nosso garotinho chegava sempre sorrindo na escola. Estudava, almoçava, estudava pela tarde também e no começinho da noite tomava o caminho de volta. O ônibus continuava apertado, as pessoas continuavam tentando furar a fila, mas o nosso garotinho não fazia questão de ir sentado, apenas queria chegar em casa logo. E vez ou outra ele tinha a sorte de encontrar uma figura que era capaz de fazer esquecê-lo o aperto e calor daquela condução deplorável. Era um homem negro de uns trinta e poucos anos de idade, barba sempre por fazer e que sempre carregava uma pequena bolsa debaixo do

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braço. Ele seria um cara normal, não fosse o fato de possuir a maior risada do mundo. Sem sombra de dúvidas era a maior e mais bela risada do mundo. Ele começava a rir com alguma bobagem corriqueira e não conseguia mais parar. Houve um dia que ele riu de uma integração a outra. Todos ao seu redor absorviam um pouco da felicidade que saiam daquele cara. Era uma verdadeira benção para aquele povo sofrido e cansado.

Mas o tempo passou. Estamos em 2010. O pregador não é mais o mesmo. O novo pregador grita muito mais e fala cuspindo. O antigo pregador, se ainda pregar, prega no presídio. Dizem que um dia ele se cansou de pregar e foi pra casa mais cedo e quando chegou casa viu sua mulher com um “irmão” da mesma igreja dele. Ele pegou uma faca de pão na cozinha e desferiu doze facadas contra o irmão e trinta e sete contra a sua esposa. Tomou banho e foi a bar esquina onde bebeu cana até a polícia chegar.

A garotinha dos confeitos teve um caso com o garoto que vendia picolés. Ela ficou grávida e ele não ficou…por perto, fugiu. Ela continuou vendendo confeitos até seu filho nascer. Quando ele nasceu, ela passou a pedir “ajuda”, o nosso

garotinho sempre ajudava. Seu filho cresceu e já consegui pedir

a tal ajuda sozinho na integração do Barro, enquanto ela tenta algo nos ônibus da vida. O cara da maior risada do mundo ainda possuí uma bela risada, mas nem de longe se parece com

a de sete anos atrás. No passado a sua era tão grande que

saltava dele para todos que estavam ao seu redor, hoje ele mal

tem alegria pra si mesmo. Seus olhos parecem estar sempre vazios e seu corpo cansado.

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E o nosso garotinho deixou de ser um garotinho. Ele terminou o ensino médio, se fez técnico, trabalhou, passou no vestibular, começou a utilizar o Várzea (202) que passa em frente a universidade, desistiu da universidade, deixou de usar o 202, passou no vestibular de novo, voltou a utilizar o 202 e está perto de se tornar engenheiro. A verdade é que ele tornou- se um homem de olhar distante, que não mais sente prazer em observar as pessoas ao se redor. Ele acha que isso só traz tristeza e por isso está sempre pensando algo distante. Vez ou outra ele olha pros garotinhos da nova geração… e fica pensando o que os garotinhos de hoje vêem quando olham pra ele e pensa no que eles dirão quando chegar a vez deles pegar o Várzea.

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Contos – Sarau Literário HISTÓRIAS ORIGINAIS 18

HISTÓRIAS

ORIGINAIS

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Milena Cherubim

Objetivo de Existência

Por Mariana Travieso Bassi

Olha, eu me considero um cara racional, sempre tirei notas boas em exatas, e com 18 anos entrei no curso de Engenharia Mecânica da Poli. Por isso nunca, eu juro, nunca conseguiria contar isso se não tivesse visto com meus próprios olhos. Acho que minha cabeça não seria capaz de tamanha proeza.

Bom, foi nas últimas férias da facul. Uns amigos meus têm apartamento no nordeste e me ofereceram o lugar pra passar um tempinho. É claro que eu aceitei. Ia ficar sozinho, mas tudo bem: na praia sempre tem gatinhas solteiras que gostam de conhecer gente nova e sair para beber cerveja.

Assim que cheguei, conversando com o porteiro do prédio, descobri que lá perto tinha uns “lugares bunitos mesmo, senhô. Sim sim, tá assim cheio de turixta bunita”. Isso bastou para me convencer. No dia seguinte, depois de correr na orla pra tirar um pouco do branco paulistano, peguei o bugue e fui, vento no rosto e música alta, deixando para trás o mar verde, passando por uma estrada com casas mais humildes e fábricas de material de construção, e logo chegando no bar com vista para o rio, onde o sol se punha “do jeito mais bunito do mundo”.

Ainda faltava algum tempo pro tal espetáculo, e eu tava afim de dar uma olhada na flora local, então peguei uma

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cerveja e fui para a feirinha de artesanato que permeava o lugar: ambiente prefeito para começar uma boa conversa.

Portas e manequins, roupas e calçados. Nada interessante ainda. Tomei mais um gole da latinha que já estava ficando quente, e vi duas moças entrando em uma lojinha à frente. Terminei a cerveja e entrei na loja, fazendo cara de turista inocente, olhei os enfeites, e elas, e os enfeites. Cumprimentei as duas, que responderam sorridentes.

Antes que eu pudesse puxar conversa, meu olhar foi dirigido pela mão da menor, que apontava para uma boneca:

do tamanho do meu antebraço, na forma de uma mulher negra, de olhos fechados e vestido verde decotado. Nossa, aquilo me pegou de jeito.

Não sei qual encanto tinha aquela escultura, que o meu campo de atenção foi todo reduzido àquele pedaço de argila moldada. Agachei para olhar mais de perto aquela expressão indescritível. Acho que fiquei um bom tempo ali, já que minhas pernas começaram a formigar, e a conversa animada das duas moças saiu pela porta e desapareceu.

- Pode pegar pra olhar melhor se quiser, moço. a dona da loja, uma senhora loira simpática, se aproximou.

Levantei, meio zonzo.

- Han

E

tive

que

parar

um

segundo

para

organizar

meus

pensamentos, no fim saindo um patético “posso?”

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- Claro. ela mesma pegou a estátua, e a colocou em cima

do balcão, no fundo da pequena loja abarrotada de esculturas

de todos os tipos. Mas nenhuma que me chamasse a atenção

essa daqui é única. Meu irmão, que compra as

esculturas de um amigo dele, disse que essa é de uma linha

ela sorriu meio

sem graça não sei muito bem. Não entendi direito o que meu irmão falou.

especial, acho que tem a ver com o material

como

- Aham

- Por isso é um pouquinho mais cara.

- Aceita cartão?

Com a carteira já fora do bolso, minha cabeça estava tomada pela necessidade de levar essa preciosidade para casa. Não conseguiria ir embora de lá sem ela. Sem olhar pra ela mais uma vez. Mais várias vezes.

Paguei, esperei ansioso a senhora embrulhar a minha preciosidade vai que quebra? e peguei a sacola com todo o cuidado do mundo. Eu já não estava me reconhecendo. Mas quem se importava?

Voltei, as lojinhas um pouco mais cheias, e fui até o bar assistir o por do sol, mas nada mais me interessava. Minhas mãos ansiavam por abrir aquele pacote de plástico e jornal.

Bugue, borrões passando ao lado, uma ou outra palavra trocada e finalmente apartamento. Acertei minha dívida e voei para dentro, dando um oi apressado para o porteiro que tentou

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puxar assunto, mas antes que ele pudesse terminar sua frase, eu já estava no meu andar.

Abri a porta um pouco trêmulo. Uma parte do meu cérebro me perguntava o que estava acontecendo comigo, outra parte

gritava por ver a negra mais uma vez. Tentar decifrar aquela

expressão

descobrir qual o encanto que ela havia colocado

em mim

ou simplesmente a admirar, sem pensar em mais

nada. Vaguei pela sala jogando papel e plástico no chão. E, com

todo o cuidado, apoiei-a na prateleira ao lado da tevê.

Meus olhos se encheram com sua figura. Linda

E de repente, meu coração parou, um calafrio subiu das minhas costas até meu pescoço, e eu gelei: ela havia se mexido.

Não, eu não estava variando. Ela tinha se mexido mesmo. E como se isso não bastasse, ela abriu os olhos, aquelas pupilas pretas me fitando intensamente, e de seus lábios grossos saiu uma voz rouca, sensual, mas muito triste:

- E agora, seu moço? Eu fui feita pra ser um enfeite de loja e atrair os cliente. Agora que eu não sou mais isso, que que eu vou ser? pausa, um olhar significativo penetrou em meu ser - Me diz, seu moço. Que que eu vou fazer agora?

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SERES FANTÁSTICOS EM ENTREVISTA DE EMPREGO

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Procura-se funcionário para serralheria, de preferência não lendário

Por Lipe Ralf

Como está difícil achar bons funcionários hoje em dia! Não existe um só de confiança. Bem que minha mãe dizia, estude para ter um emprego bom. Mas quem me dera ter escutado-a; passei todo o tempo na escola brincando. Mas sofro as conseqüências até hoje, minha falta de estudos só me ajudou a conseguir um emprego na serralheria perto da minha casa. Recentemente foi promovido, conforme diz o meu patrão para “desempregador”, o que consiste em avaliar os desempenhos dos funcionários e se algum deles estiver fazendo o serviço errado, o demitia. Tirando o fato que era odiado por todos, até que o salário era bom.

Mas desde a última demissão, não acho um (a) candidato (a) que me pareça competente. Para vocês perceberem, a primeira candidata se chamava Mulen Sien Caibeça. Estranhei um pouco esse nome, pois já o li em algum lugar. Ela foi super simpática, mas na hora de ver seus antecedentes criminais, descobri que ela já havia incendiado várias florestas. Quando a mesma retornou para saber o resultado da entrevista, a cabeça dela começo a pegar fogo, e seu corpo aparentou o de uma mula. Eu devia estar louco. Mas logo voltou ao normal. Não comentei nada com ela, mas parecia real.

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O próximo candidato tinha apenas uma perna e toda sua roupa era vermelha. O único problema era para ele se locomover, pois tinha que ficar pulando com a sua única perna. Não o contratei por isso, pode parecer preconceito, mas não precisamos de funcionários “defeituosos”.

A próxima candidata era super linda. Foi nadadora profissional, mas agora quer trabalhar. Único problema, é que ela só pode trabalhar perto de lago, ou rio.

Mas depois destes candidatos apareceu o perfeito. Este era de cabelos ruivos, olhar confiante e diziase amante da

natureza. Seu currículo estava praticamente perfeito. Mas ao nascer, seus pés se entortaram fora isso era perfeito. Contratei-

o.

Nos primeiros dias se deu bem com os outros funcionários. Mas conforme o passar do tempo, os funcionários começaram a reclamar dele. Ele emitia um som agudo, provocando muita dor nos ouvidos. Bando de chorões perdendo o emprego por causa disso. Fui tirar satisfações com ele, mas ao se aproximar entendi o que diziam. A dor era angustiante, me deixava tonto. Sai daquele lugar correndo, e nunca mais voltei. Aquela serralheria estava falida.

Após esse grande incidente, me lembrei de onde conhecia aqueles candidatos. Quem diria que o folclore ganhou vida.

- Mais uma serralheria fechada em Curupira! Quando é que vamos parar?

- Quando deixarem de destruírem a natureza, Saci.

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