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Contratransferênciaempsicoterapiapsicanalítica decriança:aemergênciadainfânciadoanalista (1)

ChristopherBonovitz,PsyD (2)

P rovavelmenteamaioriadosterapeutas (3) quetratamdecrian- çasjásedeparoucomreminiscências,recordaçõesememórias

desuasprópriasinfâncias.Àsvezes,estasreflexõessãobre-

ves,passandovagamentepornossamente,muitasvezesdespercebi-

das.Contudo,emoutrasocasiões,umaimagem,umcheiro,uma

experiênciacinéticaousomáticatransportaoterapeutadevoltaauma

memóriaespecíficadesuainfância.Estasexcursõespodemnospegar

desurpresa,fazendonosentraremcontatocommemóriasquenós

podemosnãoterdadomuitaatençãoporumbomtempo.Emalguns

casos,estasrecordaçõesdainfânciatrazemcomelasumaexperiência

denósmesmoscomocrianças,permitindo-nosrevisarumestadode

selfquepossaterficadodormenteatéentãoeagoraserexperimentado

novamentedentrodeumcontextorelacionaldeumdeterminadopa-

cientecriança.

Masoquevemàtonaaopassarmosporessasreminiscênciasda

infância?Oquefazercomnossasassociaçõesdaprópriainfância?

Queutilidadeelastem,seéqueexistealguma?Comousá-las,ounão

usá-lascomrelaçãoaopaciente?Estaslembrançasparticularestor-

nam-separtedenossoprópriodiálogoíntimo,vistastãoseparadasdo

paciente,ounósasconsideramosentrelaçadascomasconfigurações

1 TraduçãoparaoportuguêsporJoseTolentinoRosa.Umaversãoanteriordestecapí-

tulofoiapresentadacomopartedaserieColoquiosobreCriançanoWilliamAlanson

WhiteInstitute,patrocinadopelaSociedadeFriedaFromm-Reichmann,Outonode

2007.

2 AcorrespondênciareferenteaestecapítulodeveserendereçadaaChristopherBono-

vitz,PsyD,IndependentPractice,119WaverlyPlace,GroundFloor,NewYork,NY

10011.E-mail:chrisfb@nyc.rr.com

3 Aspalavrasterapeutaeanalistaserãousadasaolongodotextocomosinônimos.

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ChristopherBonovitz

relacionadasdopacienteeocampodatransferência/contratransferên-

cia?Nestecapítulo,euexaminareiaquelesmomentosousituaçõesem queoanalistafazocontatocommemóriaseexperiênciasdainfância.

DamesmaformaqueFreud(1912-1958)descreveuemsuadescoberta

datransferênciaqueaatuaçãodoanalistarevivelembrançasesenti-

mentosesquecidosoudissociadosemrelaçãoàsfigurasparentais,eu

tambémacreditoqueascriançasestimulammemóriasdasexperiên-

ciasdainfânciadopróprioanalista.Alembrançadasrecordaçõesda

infânciadoanalistanãoénecessariamenteumabarreiraouumsinal

depatologia,comoseacreditavaanteriormente,masé,emalguns

casos,umafontevitalquepodefacilitareaprofundarpotencialmente

otrabalhoanalítico.Aquiofocoestánaquelassituaçõesemquea

lembrançainesperadadainfânciadoanalistanasalalúdicapodeser

usadaparaelucidarocampodatransferência/contratransferência.

Emboraasfantasiasdoanalista,asassociaçõesdecenas,aconte-

cimentoseossentimentosrelacionadosàinfânciasejamàsvezesuma

distraçãodolorosaquepodeinterferirnotratamentoháoutrasocasiões

emqueestasmemóriaspodemproporcionaraoanalistaaoportuni-

dadedenãoapenasentraremcontatocomsuaprópriapartecriança,

mastambém,posteriormente,simbolizarestesestadosmentaiseusá-

losnaexploraçãodamentedeseupequenopaciente.Naslembranças

dainfânciadoanalista,elepodeusarsuasprópriasrecordaçõespara

acessareentendermelhorosconflitosdacriança,seusrelacionamen-

toseseumundointerno.Euacreditoqueoestímuloeusodaslem-

branças da infância do analista é algumas vezes um processo

necessário,atéessencial,quemantémopassadovivonopresente.

Permiteumareorganizaçãomentalemdesenvolvimentodentrodo

analistaepotencialmenteumanovaexperiênciaparaeleemrelação

aopaciente(Wolstein,1959;Loewald,1960).Ou,emoutraspalavras,

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paraqueopacientemudeoanalistadeveráseenxergardeumanova

maneira(SlavineKriegman,1998).

Perspectiva no desenvolvimento da contratransferência com crianças

Emlinhasgerais,osteóricosnocampodapsicoterapiaedapsica-

nálisedacriançadebateramaolongodosanosatéquepontoacon-

tratransferência do analista tem utilidade e alguns dos riscos associadosàmesma.Deumaformageral,parecequesetemescrito

maissobreacontratransferênciacomospacientesadolescentesdo

quecomospacientesinfantis(AkereteStockhamer,1965;Friend,

1972;Giovacchini,1973;Levy-Warren,1996).Marshall(1979)que

vêasreaçõesdoanalistacomopotencialmenteúteis,sugerequehá

umanegligênciadacontratransferêncianocampoinfantil,conside-

randoumreflexo“deproblemasdacontratransferência”entreoste-

rapeutasquetratamcrianças.Algunsanalistasviramestesproblemas

dacontratransferência,tãocomentadosnopassado,apenascomobar-

reirasouobstáculosaotratamento,nãocomopotencialmenteúteisno

movimentoentreosimpassesounasencenaçõestumultuadasnatrans-

ferência/contratransferência(Szurek,1950;Slavson,1952;Corday,

1967).Similarmente,Bornstein(1948)andBick(1962)advertem

sobreaintensidadedasreaçõesdoterapeutaquandoacriançagera

umatensãonoanalista.Destepontodevista,oterapeutaévulnerável

aumaextremaansiedadeeculpaesersusceptívelaumaatuaçãocom

acriança.

Entretanto,houvetambém,umnúmerodeanalistasdecriançasque

endossaramaidéiaqueacontratransferênciapodeserútilefacilita-

dora(Ekstein,Wallersteinetal.,1959;Brandell,1992).Psicanalistas

kleinianoscontemporâneoscomoAlvarez(1983)eFerro(1999)falam

dacontratransferênciacomcriançasemtermosdeidentificaçãopro-

jetiva.ApoiadanotratamentodeBion,queéresponsávelpor“iden-

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ChristopherBonovitz

tificaçãoprojetivainterpessoal”enfatizaaimportânciaderecebere

conterprojeções.

ParaAnneAlvarez,conterorecebidoenvolvetransformarapro-

jeçãoeentãoeficazmentecomunicá-ladevoltaaopacientesoba

formadeumainterpretação.Afalhanoconterémanifestadaemuma

interpretaçãoprematuradandoaprojeçãodevoltaaopacienteantes

sersuficientementemodificado.OobjetodeestudodeAntoninoFerro

éarelaçãotransferência/contratransferência,ouo“campobipessoal”

emqueacontratransferênciadoanalistaévistaprimordialmentecomo

umafantasiainconscienteinduzidapelopaciente.Ferroindicaqueo

analistapodealgumasvezesprecisarsevoltarparaacomunicaçãodo

pacienteparaentendermelhorsuaprópriacontratransferência.Ealém

doskleinianos,emseusférteisescritossobrecontratransferência,Win-

nicott(1949)escreveusobreanecessidadedoanalistadepoderodiar

seupaciente,detoleraresuportaristo.ParaWinnicott,ódioeraa

mesmacoisaqueamoreeraessencialmentedesenvolvidopelobebê

aosentiródiodamãeparasesentirverdadeiramenteamado.

Analistasinterpessoaiserelacionaisenfatizamreaçõesintensas

entreterapeutasinfantiseautilidadedasreaçõescontratransferenciais.

Emvárioscasos,estesanalistasdefendemaexpressãodiretadacon-

tratransferência(Colm,1955;Green,1971;Shafran,1992;Gaines,

1995).Altman,Briggs,Frankel,GenslerePantone(2002)falamsobre

contratransferênciaemtermosdeencenaçõesemcadaatodoanalista

epaciente,oudescartarosparadigmasrelacionaisdopaciente.Aqui,

oanalistaésomenteumvelhoobjetoparaopaciente,mastambém

vistopotencialmentecomoumnovoobjetobom.

Aidéiaqueahistóriadoanalistanãopodesersomenterevivida,

mastambémremodeladaetransformadaatravésdarelaçãoanalítica

comacriança,temsuaanalogianadíadepais-criança.Omodelopais-

criança(Fraiberg,Adelsonetal.,1975;Lieberman,1992;Stern,1995)

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econtribuiçõesdepsicanalistaskleinianoscontemporâneos(Klauber,

1991)ofereceumaestruturateóricaondeosmundosrepresentacionais

dopaiedobebêestejaminteragindodentrodamesmaesferaeestejam

interpenetrandoatravésdasidentificaçõesprojetivaseintrojetivas

(Stern,1995;Pantone,2000;Altman,2002;Bonovitz,2006).Asre-

presentaçõesdopaisãoremodeladas,comoobjetointernodoself,

atravésdaexperiênciarealcomopai,eosrelacionamentoseeventos

infantisdopaisãoreexaminadoscomumnovoolhar.

Emboraelenãoestivessesereferindoespecificamenteapacientes

crianças,Jacobs(1991)escreveudeformaeloqüenteedetalhada-

mentesobreousodesuasexperiênciasdainfâncianocontextodas encenaçõesdetransferência/contratransferência,memóriasqueele efetivamenteutilizaparaexpandirsuaconsciênciadosaspectosmais sutisdesuasprópriasreações.

NalinguagemdeOgden(1994),duranteodecorrerdaanálise,a

experiênciadoanalistaéintersubjetivamentegerada,transformada

pelointerjogodasrespectivassubjetividadesdoanalistaedopaciente.

Aintersubjetividademencionadaaquicomoemoutrospontosao

longodotextorefereaodesenvolvimentodacapacidadeparareco-

nhecimento,oreconhecimentodooutrotãosimultaneamentesepa-

rado, mas já conectado, existindo fora do self com os próprios

sentimentosepensamentos(verBenjamin,1990).NatradiçãodeWin-

nicott(1971),Benjamin(1990)descreveintersubjetividadecomoa

implicaçãoda“transiçãodorelacionamento(intrapsíquico)dousodo

objeto,continuandoumrelacionamentocomumoutroqueéperce-

bidoobjetivamentecomoexistenteforadoself,umaentidadecom

seuprópriodireito”(p.192).Oqueeuestoudescrevendocomolem-

brançadasexperiênciasdeinfânciadoanalistanãoémeramentea

descobertadealgoquetenhasidoenterrado,masqueestasexperiên-

ciasganharamnovosignificadonocontextointersubjetivodotrabalho

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terapêuticocomcriança.ParaBenjamin(1990),intersubjetividadeen-

volveacapacidadeparasuportaratensãoentrearelaçãocomooutro

comoumobjetoprodutodavidaintrapsíquicaearelaçãocomooutro

comosujeito(outroqueexisteforadoself).

Variedadesdecontratransferênciacomcriançascomparadascom

adultos

Contratransferência,comoeuusoaqui,refereàrespostatotaldo

analistaaopaciente(todosospensamentosesentimentos),conscientes einconscientes.Atotalidadedasreaçõesdoanalistaéincutidacom osprópriosconflitospessoaiseasrelaçõesdeobjetointernalizadas, bemcomoémodeladapelocontextoparticulare“pelorelacionamento

real”comopaciente(TanseyeBurke,1989).

Reminiscênciasdaprópriainfânciadoanalistaeoconvíviocom

osestadosdeselfdacriançacomopassadoéapenasumdosmuitos

tiposdecontratransferênciacomcriança.Alémdereverversõesdesi

mesmocomocriança,oanalistatambémpodeacessarasprópriasex-

periênciascomoirmão,pai,avô,ouamigocomojovempaciente.Por

exemplo,reconhecendominhaprópriacontratransferênciaemalguns

casostrouxe-medevoltaalgunsrelacionamentosqueenvolviampre-

dominantementejogos.ParaSullivan(1953),estasamizades,queele

nomeoudeintimidades,sãopartescríticasenecessáriasdodesenvol-

vimentoinfantil.Acriançaoupré-adolescentepodecomeçaravera

simesmoatravésdosolhosdeseuamigodeumamaneiradiferente

comparadaaopassadoe,portanto,podesetornarmaiscapazdeinte-

graraspectospreviamentedesaprovadoresdesimesmo(Brown,

1995).Similarmente,oterapeuta,atravésdotrabalhocomacriança,

podeserlembradodetaisintimidadeseterachancedereintegrarestes

aspectosdissociadosdesuaprópriainfância.

Nasituaçãoanalíticacomopacientecriançahámuitasvezescon-

tatonossetoressensorial,somáticoefísicodaexperiência.Enquanto,

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comcerteza,odiscursofazpartedojogo,éacompanhadoporexpe-

riênciaselaboradasdemaneirasensório-somáticacomo:ruídosaltos

ebaixos,sussurros,gritos,odoresdearrotosepeidos,escondendo-se

sobamobília,usarecontorcerseucorpoparadesempenharouence-

narumpapeldeumpersonagem,eassimpordiante.Oselffísico

maiordoterapeutaemrelaçãoaoselfmenordacriançaéajustado

numanegociaçãoprogressivadafisicidadeeseuimpactorecíproco.

Duranteojogodefantasiaouformasouformasmaisconcretasde

brincarcomocurtosjogosdefutebolamericanoefutebol,osrespec-

tivoscorposdacriançaedoterapeutaestãomuitopróximoseatéoca-

sionalmente em contato, às vezes trombando um com o outro,

colidindoumcomooutronomeiodojogo,fazendopartedacelebra-

çãodogol(high-five)4ouformasmaisextremasdeexpressãofísica

porpartedacriançaoudeumpacientemaisperturbadotalcomocus-

pir,morderebater.

Oterapeutatemaresponsabilidadedezelarpelasegurançafísica

dacriança,tentandomanterabalançaentreo“jogar”eorastrodaco-

municaçãonãoverbalquetomalugarnaesferafísica.Ossentimentos

geradosnoterapeutanãosãoapenascontextualizadospelocampoda

transferência/contratransferênciaatécertomomentocomacriança,

mastambémpelospaisdacriança,família,culturapsicanalítica,e

pelaamplasociedade.

Talcomoocorrecomospacientesadultos,oanalistadecriança

podeexperimentarumavariedadedeafetosnacontratransferênciain-

cluindoamor,ódio,tédio,afeição,desprezo,ternura,culpa,excitação,

eaborrecimento.Entretanto,comoaconteceentreofísicodeumapes-

soagrande(terapeuta)eodeumapessoapequena(criança),ainten-

sidadedevariaçãodessessentimentos,eospensamentoseimagens

queosacompanham,émoldadaedãosentidopelosimplesfatodeo

analistaserumadultoeopacienteserumacriança.Paraoanalistade

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criançatersentimentosdeamorouódiopelopacientecriança,éuma

experiênciabemdiferentedoquesentiressasmesmasemoçõescom

umpacienteadulto.

Osentidoderesponsabilidadepaterna,aproteçãoeapreocupação

emofenderouprejudicar,émaisfortecomumpacientecriançacom-

paradocomumadulto.Apreocupaçãodoterapeutaemexplorarin-

voluntariamenteumacriança,apartirdesuasnecessidadesnarcísicas

(doanalista),temopotencialdeinterferirnaextensãoemqueotera-

peutapermiteasimesmoaforçatotaldeseussentimentosecultivar

umespaçointernoparaafloraremsuasfantasias.Dependendodana-

turezaedaintensidadedaexperiênciaemocionaldoterapeuta,osu-

peregodoterapeutaanalíticopodelimitá-lodecontatarestesestados

mentaiseafetivos.Seomedoeaansiedadeprevalecerem,podeim-

pediraexploraçãointimaeinterferircomseuusodacontratransfe-

rênciaparaesclarecerasdimensõesmaissutisevariadasdainteração.

Independentedos“reais”interessesepreocupaçõesdoanalista,

quetodoanalistadecriançapodesimpatizarcomelas,omodocomo

oterapeutausaacontratransferênciacomumpacienteaindacriança

diferedopacienteadulto.Nãosãoapenasalinguagemeafalaos

meiosprimáriosdecomunicaçãoparaumadulto,masascapacidades

cadavezmaisdesenvolvidas,cognitivas,intelectuaisesimbólicase,

portanto,conduzindoaumaexploraçãomaisdiretaecolaborativa.

Comacriança,aocontráriodosadultos,oanalistanãopodeconfiar

muitonalinguagemnemnaesferasimbólica;comooanalistacomu-

nicasuacontratransferênciacomacriançaécompletamentediferente

secomparadacomumadultoemconseqüênciadashabilidadescog-

nitivaspoucodesenvolvidasnacriança.Aidadecronológicaedede-

senvolvimentodacriança(entremuitosoutrosfatores),assimcomo

tudooqueocorreemummomentoclínicoespecífico,influenciaráas

palavrasqueusamos,nossotomdevoz,eemqueproporçãonósin-

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terpretamosouoferecemosobservaçõesincluindoametáforadobrin-

carouforadela.

Comumolharparaainesperadachegadadasmemóriasdainfância

doanalista,otipodecontratransferênciaqueéoassuntodestecapí-

tulo,euestoutrabalhandoforadasuposiçãodequeestasmemórias

nãoestãoapenasrevelandoahistóriadoanalista,maspodeesclarecer

algunsaspectosdocamporelacionalquedeoutramaneiraestariafora

daconsciência.Ofatodequeamemóriasurgecomopacienteainda

criançainfluencianecessariamenteaexperiênciadesuamemóriatal

comoamesmamemória,seissoocorrercomumpacienteadulto,seria

umaexperiênciadiferente.Aidentificaçãodoanalistacomacriança

eorelacionamentoinconscientedacriançacomamemóriadoanalista

contextualizaaexperiênciadoanalista.

Aprópriamemóriapodenãosólançarluzemalgosobreoanalista

eopacienterespectivamente,mastambémainteraçãodelesecomo

cadauméimpactadopelooutro.Oanalistapodesilenciosamente

“olhar”parasuamemóriaesuasassociaçõesajudandoageraruma

observação,empáticaobservação,ouinterpretação.Ou,parecidoa

umpacienteadulto,oterapeutapodeenvolveracriançaaajudá-lo

(terapeuta)afazersentidoeentendermelhorsuaprópriaexperiência

afetiva.Emlinhasgerais,ousodacontratransferênciadoanalistatem

opotencialparaabrirumespaçoreflexivoemqueacriançapodeco-

meçarasondaramentedooutroechegaraconheceraspectosdele

mesmoatravésdeoutrasexperiênciaspróprias–aolharparaele

mesmocomoumobjetoatravésdosolhosdoanalista.

Aculpadoanalistaem“apenasbrincar”

Naludoterapiacomcrianças,acriançausaoespaçodojogoea

relaçãocomoanalistacomoumveículoatravésdoqualencenasuas

fantasias,desejos,eenredosrelacionaistecidosdentrodomundoin-

ternoeexternodacriança.Brincar,comoFrankel(1998)propõe,é

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ChristopherBonovitz

um“meiodeaproximarumaparteproblemáticadenósmesmos,algo

emnósqueaindanãoaceitamostotalmente.Etentarencontrarum

lugarparaissoemnossasvidas.Atravésdobrincar,nósaintegramos

emnossasprópriasexperiênciaseemnossosrelacionamentosinter-

pessoais”(p.152).Nobrincar,asrepresentaçõesdacriançadepessoas

significativasnasuavidanãoapenasasfazemconheceraspersona-

gensdabrincadeira,masobrincarapresentaàcriançaaoportunidade

dedirigireremodelarestasrepresentações,entretantotransformando oalcanceperceptivodacriança.Obrincaréumcomponenteessencial

daaçãoterapêutica(Neubauer,1987;CoheneSolnit,1993;Slade,

1994;Birch,1997;Ablon,2001;Bonovitz,2004).

Emrelaçãoaoprópriobrincar,outrotipodecontratransferência

comcriançasqueacompanhafreqüentementeaemergênciadasme-

móriasdainfânciadoanalistaéaculpaqueoanalistaexperimenta

quandoestáenvolvidonabrincadeira.Ébastantecomumouvirdete-

rapeutasdecriançaadmitirsentirculpapor“nãofazernadaalémde

brincarcomacriança”.Osterapeutasdecriançasentemculpaespe-

cialmentenaquelassituaçõesondeasexperiênciasdebrincardotera-

peutasãoagradáveis.Háosentimentodequesepoderiafazeralgo

maisdoquepodiaserconsiderado“verdadeirotrabalho”,fazendoob-

servaçõeseinterpretaçõesastuciosas.Oprazer,aexcitaçãoeaalegria

queumterapeutapodeàsvezesexperimentaraobrincarcomacriança

levaoterapeutaadiscutiroqueeleouelaestá“fazendo”exatamente,

questionandosuatécnicaeseuvínculocomacriança.Alémdisso,o

superegodoanalistapodecontribuirparaosentimentoqueoanalista

nãopodeestargostandodabrincadeiratantoquantoeleouelaestá

gostando.Istoémotivoparapreocupação.Emboradepoisdeumare-

flexãooterapeutapossacertamentecomeçaraverque,defato,está

acontecendomuitomaisdoque“apenasbrincar”.Overdadeirobrin-

cardasaladeanálisepoderapidamentesetornarumesforçocompli-

Contratransferênciaeaemergênciadainfânciadoanalista

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cado.

Enquantootipodeculpaqueeuestoudescrevendoforalgoqueo

terapeutadecriançaexperimentaumavezououtra,oaprofundamento

denossacompreensãonocontextodatransferência/contratransferên-

ciapodeenvolverarelaçãohistóricadoterapeutaeprogredirarelação

comobrincar.Obrincardopacientecriançapodeaflorarumasérie

desentimentoseconflitosarraigadosnoanalistadetalformaquea

relaçãodoanalistacomobrincarsetornaumapartecríticadatroca

diádica,impregnandooatocompartilhadodebrincarcomumasérie

complexadesignificados.

Perdido“nofimdomundo”:recrutandoaajudadacriançapara

entenderacontratransferênciadoanalista

Angus,ummeninoencorpadodenoveanos,erafanáticoporfute-

bol.Elegeralmentevinhaàssuassessõesvestidocomacamisetado

seutimefavoritoeprontoparajogar5.Nossaspartidascomeçavam

comaescolhadotime–França,Brasil,EstadosUnidoseassimpor

diante–eumjogadorfavoritocujaidentidadenósassumíamosna-

queledia.Comotempo,nósdesenvolvemosumritualpreparando

minhasalaparaojogo:movendoamobíliaaoredorepreparandoos

gols.Angussentiaorgulhodesuahabilidadenofutebolefreqüente-

mentecomeçavaojogocomumbreverelatosobreseutimeatualde

futeboleseudesempenhonoultimofimdesemana.Eleeramuito

sensívelefrágil,contudo,contraditoriamente,determinadoeteimoso.

Eleraramentedesistia,masbatalhavaparavencer.Ganhareratudo

ou,poroutrolado,perdererasentidocomo“ofimdomundo”,efazia

acompetiçãotomarproporçõesdevidaoumorte.Eletinhaumapre-

coceirmãmaisvelhaquenãocometianenhumerroaosolhosdeseus

paise,portanto,Angusviviaàsombradela,comosentimentodeque

tudooqueelefaziadealgumamaneiraeranada.

Angusconsideravaasimesmocomoum“pessimista”comuma

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insinuaçãodeorgulho.Paraeleum“pessimista”eraalguémquepre-

feriapensarsobrecoisasquenãofuncionavamcomointuitodeau-

mentarsuasesperanças.Estaatitudemanifestadaemnossosjogosde

futebolemquetodootempoeueralíder,logonoiníciodojogo,ele

anunciavaqueeuprovavelmenteganhariaojogo.Emboradissesse

istonumtomdevozderrotista,eledefatonãojogavaatoalha,mas

emtrocapersistiaaindamais.Eu,domeulado,procurava“permitir“

semplanejarfazê-loconscientemente.Euenrolavanãojogandotão

intensamente,quetornavamuitofácilparaAnguspontuar.Emres-

postaàsuaansiedadesobreaminhapossibilidadedevencerojogo,

eumetorneiseuprotetoreerravaemepreocupavaqueeupudesse

machucá-loseeucontinuassejogandoforteeganhasseojogo.Ás

vezeseutinhaafantasiaqueelebatiasuacabeçanopeitorildajanela,

outropeçasseequebrasseseudente.Apesardetersidoumafantasia,

oquepodeteralimentadoistoéqueemalgumasocasiões,elereal-

mentesemachucoudeverdade,apenaslevemente.Nestasocasiões,

elepareciacombinarseumachucadoeeusentiaculpa,comoseeuti-

vessearremessadocommuitaforça.Eueragrandeeeleerapequeno,

entãoeutinhaqueolharisso.Desnecessáriodizercomoessepadrão

detransferência/contratransferênciatornou-semaisacentuadoentre

nós,euacabavaperdendomuitosdenossosjogos.

UmadascaracterísticasdafamíliadeAngusemergiunocontexto

destesjogosdefutebol,assimcomomeuconflitocomovencer.Ini-

cialmenteelefoiencaminhadoparatratamentodevidoaseusataques

debirrasombriosduranteosquaiselepodiachorarhistericamente,e

entãosevoltavaparaelemesmosemcomunicaçãoporlongosperío-

dosdetempo,àsvezespordiversashoras.Quandonesteestadomen-

tal,elesesentiaperseguidoporqualquerpessoaaoseuredor.Havia

apenasumarealidadenestetipodesituação,eeraasuaversão.Nada

queseuspaisdissessemotiravadisso,eelesgeralmenteficavamde

Contratransferênciaeaemergênciadainfânciadoanalista

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ladosesentindosemesperançaeincrivelmentefrustrados.Angussen-

tia-sechateadoportersidoinjustiçado.

Emboraessesataquesdebirratornaram-semenosfreqüentescom

opassardotempo,eeleconseguiaserecuperarcadavezmaisrapi-

damentedodesapontamentooudaindiferençapercebida,seuspais

permaneciammuitoajustados,paraasdeixasemAnguscomosinais

queeledeviaserumaespiraldescendente-respiraçãoprofunda,uma

expressãofacialparticular,ouumrápidopiscardeolhoscomoseele

fossechorar.Semprequeossentimentosdeexasperaçãosurgiamsua

mãeouseupaiosconvertiamemacomodação,procurandodesespe-

radamentepormeiosdeacalmá-loantesqueeleseabalasse.Estetipo

dereaçãodapartedospaisdavaaAngusumtremendosentimentode

poder,queelemanejavaparasuavantagem,tornando-seexigentee

insistente.Reciprocamente,aacomodaçãodeseuspais,particular-

mentesuamãe,podiareforçarneleumsentimentodefragilidade.A

mãeeopai,cansadosdasconstantesbrigasdevidoaseusrespectivos

conflitosemtornodaagressão,retratavamnorostooaparecimento

dastensões.

VoltandoàsminhasfantasiasdeAngusficarmachucado,eucome-

ceiaficarmaiscientedecomominhaproteçãoaeleeanecessidade

dedissiparoseumedodaperdapoderiaserelacionaraomeurepúdio,

oudissociação,demeusprópriossentimentosagressivosencobertos.

EuestavacommedodemachucarAngus?Euestavaassustadocom

meuprópriopoderemrelaçãoaele?Euestavatentandoprevenirum

desastredeixando-oficarcalmoevencer?

Emborahouvesseevidenciaquenessaspoucasocasiõesemqueeu

venciqueAngus,defato,fossecapazdemanipularminhavitória,de

algumaformaistonãoerasuficienteparametranqüilizar.

Nossosrespectivosestilosdecaráterinterpessoaltornam-seevi-

dentespelomodocomocadaumdenósjogava.Anguseraumbom

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goleiro,significandoqueeleeravigilanteesecretamenteguardava

seugol,ficandodifícilparaeupontuar.Quandonaliderança,eleera

habilidosoemdecifrarminhasestratégias,eajustavaseujogoade-

quadamente.UmajogadafavoritadeAnguseraficarcomabolaatrás

deumacadeiragrande,usando-acomodefesacontramim,eeutinha

queesperarenquantoelesemovessedeumladooudeoutro,ouar-

riscarumtiroabertoemmeugol.Quandoojogoestavaempatadoou

seeletinhaumapequenavantagem,eleprocuravaummomentode

suspensãoatrásdacadeira.Eledescreviaestelugarcomoo“céu”,

porqueelenãoera“perturbado”quandoficavaali.

Eucomeceiaencontrarminhas“tãofaladas”melhorasnacompe-

tiçãocomafamíliadeAngus.Euhaviamelembradodaquelesmuitos

exemplosquando,emcompetiçãocomumacriança,euprocuravade-

sistirquandoestavaganhando.Eracomoseeudecidissepermitirque

alguémvencessenomeulugar.Eraseguroporalgumarazão.Refle-

xõessobremeuprópriorelacionamentocomcompetiçãonocontexto

dofutebolcomAngusmeconduziramameuamigodeinfânciaStep-

hen,umaamizadeaolongodotempoemqueeutinhaaidadede

Angus.NomeiodemeusjogoscomAngus,eumetorneicadavez

maiscientedasemelhançaentremeuescritórioeoporãodeestiloin-

glêsdacasademeuamigoStephenondeocorrerammuitosjogos.

Minhasmemóriasnesteexemploforamorganizadasemtornode

nossacompetiçãoatlética(futebol,futebolamericanoebeisebol),tudo

nesteespaçoapertado,estreito.Nestesjogos,ascoisassetornaram

animadascomcadaumdenóscompetindoferozmentecomooutro

paraganharcomose“tudoestivessenalinha”.Stephen,queeramais

corajosodoqueeunaqueletempo,estavamaisdispostoajogarseu

corpoparaoladoporcausadoavançodabola,oubloqueandoogol.

Umaparteinevitáveldessesjogosenvolveuumououtrodenóspa-

randoojogoparadiscutiruma“chamada”,disputadejogo,oupara

Contratransferênciaeaemergênciadainfânciadoanalista

147

renegociarospapéis.Enquantoamaiorpartedotempoestesargu-

mentoseraresolvidos,haviapoucasocasiõesemquenossaescalada

aumasérialuta,resultouemumdenósficandomuitobravoeentão

deixandoojogo.Eurecordeiosentimentomaistarde,preocupado

queStepheneeunãopudemosmaiscontinuarsendoamigos.Oque

tinhasentidotãoimportanteparamimduranteojogolevouaumaan-

siedadeopressivasobreaperdademeuamigo.Eugostavadesuaami-

zade.Eraomundoparamim,eeucertamentenãoqueriafazernada

paracomprometê-la.

Comminhamentejogandoparaessasmemóriasmomentâneas,

aindaqueinsignificantes,deminhaamizadecomStephen,eufiquei

curiososobreaameaçadeperdaqueeuexperimenteiemrespostaàs

nossasanimadasdisputasnãoresolvidas.Confusocomtodoessere-

lato,masgradualmenteconvencidodesuarelevânciaporcausade

suarecorrênciaemmeusprópriospensamentos,atécertopontoeude-

cidirecrutaraajudadeAngusparaentenderoqueestavaacontecendo

entrenósdois.

Nestasessãoemparticular,eutenteitrazer-lheminhasobservações

donossojogo,umjogoque,fielàregra,eleganhoudepoisdeeuli-

derartodootempo,desdeoinício.Eulhefaleialgosobreoefeitode

“euperceboquealgumasvezesquandotenhoavantagemeucomeço

adecair,atéopontoemquevocêcomeçaajogarmelhoreganhao

momento.Euduvidosevocêtemalgumasidéiassobreoporquêisso

acontece”.Inicialmente,eleolhouparamimcomosedissesse,“Como

eupossosaber?”Eupersisti,afirmando,“Eupensoquevocêtemal-

gunspalpitessobreisto”.Ummomentodepoiselediz,“euficobravo

quandocomeçoaperder,eissodeixavocêassustado.”Eupergunto

comoelepodedizerqueeuestavaassustado.Eleretruca,“Vocêestava

assustadocomoasoutraspessoas.Euviemseurostoenomodode

jogar;vocêparoudejogarforte.”Haviaindíciosdedesapontamento

148

ChristopherBonovitz

emsuavoz.

EupauseiaquieconsidereioqueAngusmedissera.Euestava,de

fato,assustadocomsuaraiva?Eraamudançanomeujogoqueele

referiracomoumaversãodeabandono?Elesentiuraivademimpor

desistirdenossaintensacompetição,algoquelhefoiinterrompidano

meiodocaminho?Insegurosobretudoisso,euperguntei-lheporque

eleachavaqueeumeassusteicomele.Elerespondeu,“Talvezporque

eugostodeserperfeito,evocêpensaquememachucarásevocêga-

nhar.”EufiqueisurpresocomoinsightdeAngussobreseuspróprios

conflitosnarcísicos,assimcomocomasveementesobservaçõesde

minhasreaçõessobreapercepçãodesuafragilidade.Eulhedisseque

penseiqueeleestavaacimadealgomuitoimportante,equeoqueele

disseeusentiqueeradiretoparamim.

Porqueeuprocureitomarcuidadocomigomesmo?Quemeuestava

protegendodeminhaagressão,euouAngus?Paraligarassessõesse-

guintesperiodicamente,asimpressõesdeAngusmelevaramdevolta

àminhaamizadecomStephen.Euvolteiaosentimentoqueeutrope-

çaraantes:meuinteressenaperdadomeuamigocomeleacompa-

nhandonossosargumentos,meumedoquenósnãoconseguíssemos

resolvernossadisputa.Curiosamenteestemeu“velho”sentimento

conduziu-meapensamentossobrelealdadeepromessasqueeramtão

essenciaisparameusamigosnaqueletempo.OqueAngustinhame

ajudadoaentenderatravésdesuasimpressõessobreminhadecaída

emnossosjogosfoiapossibilidadequeelesentiuqueeudeclinavaem

minha“promessa”dejogar,ejogarojogointeiro.Emboraelepudesse

verporqueeudesistia,eletambémmelembravaqueeuoaceitarapor

sermenosmaleáveldoqueelerealmentepodiaser.Elemedeixava

saberqueeunãoficarianecessariamentetãoassustadocomsuaraiva.

Elepoderiatomá-la,ounomínimoeupoderiadarmaisumachance.

Eucomeceiavermaisclaramenteaconexãoentreminharenuncia,

Contratransferênciaeaemergênciadainfânciadoanalista

149

minhaintensacompetitividadeeminhapreocupaçãocomafragilidade

deAngus,umasituaçãonãotãoparecidacomaocorridaentreAngus

esuamãe.Tornando-memaisinteiradodasinteraçõesentreAnguse

suamãe,eupudevercomoelapodia,algumasvezes,muitorapida-

mente,desembaraçar-sedelequandoelasentiaqueeleestavaalcan-

çandoolimiardesuafrustração.Contudo,eraseudesembaraço,como

omeu,quedeixavaAnguscomumacoleçãodesentimentosparacom

elemesmo.

Marcandoestepadrãoparanósnojogo,quandoissonãodesapa-

receuimediatamente,nóspudemosidentificá-lomaisprontamente

juntosedeixarabertoparaumaexploraçãofutura.Angusnãosóes-

timulouereavivouminhasmemórias,maselastambémprovaramser

umcaminhoútilparaaprofundarminhacompreensãoparaoque

transpirounasalacomele.Esteeratambémumexemploqueeure-

crutaraAngusesuasimpressõesparaajudaraverterluznasmudanças

emmimdurantenossosjogos.Fazendoassim,elefoimemostrando

aspectosdeminhaparticipaçãoeseuimpactonele,queeunãotinha

aclaradointeiramente.Trabalhandoatravésdaminhacontratransfe-

rência,nãoapenasenvolvidoemexaminarminhasreaçõesnocon-

textodomundointerpessoaldeAngus,mastambémamplamente

simbolizadominhaamizadedainfânciaesuasrelaçõescommeus

sentimentossobrecompetição,agressãoeperda.

Conclusões

Eutenteimostrarcomessavinhetaclínicacomoascenas,memó-

riaseestadosmentaisemergiramespontaneamentenocontextodevá-

riasconfiguraçõesdetransferência/contratransferência.Asmemórias

dainfânciadoanalista,emergindodentrodastrocasdiádicascoma

criança,sãoreanimadaseconstruídasemconjuntocomacriança.Há

umainteraçãocontínua,fluida,entreaencenaçãopresentenatrans-

ferência/contratransferêncianotratamentoeasexcursõesaopassado

150

ChristopherBonovitz

doanalista,cadaumadandoformaeseassociandoaoutrosignificado.

Asmemóriasdoterapeutanãosãoredescobertas,sãocomopacotes

esquecidosaseremencontradoscomoumaantiguidadeenterrada,as

cenasdainfânciasãorecriadaseentãotransformadasduranteocurso

dotratamento.

Emalgunscasos,comoilustradocomAngus,revisitandoperiodica-

menteasexperiênciasinfantisdoanalistaemmomentosdiferentesno

tratamento,deslocasuaperspectivaneles,permitindoaoterapeutaentrar

emcontatocomsentimentosepensamentossobreelesqueatéentão

nãotinhamentradoemcontato.pensamentossobreelesqueatéentão

nãotinhamentradoemcontato.Trabalharcomcontratransferênciaen-

volvedesenvolveracapacidadedeprimeiroreconheceretolerá-la,e

entãousá-laativamente,aocontráriodeabandoná-lacomoauto-absor-

çãoou,similarmente,comonãorelacionadoeconseqüentementealgo

aseevitadoouexcluídodotrabalhocomapacientecriança.

Osaspectosdainfânciadoanalistaemergeminevitavelmentecom

opacientecriança.Acontratransferênciadoanalistacomrelaçãoà

suaprópriainfânciaécríticaemmanterestasexperiênciasvivasno

analista,enopresentepassadonomomento.Acontratransferênciado

analistaéessencialparasuacompreensãodavidaemocionalemental

dacriança,assimcomoadoanalista.Desenvolvendomaneirasdeusar

acontratransferênciatem-seopotencialparafacilitaraanálise,ela-

borandoimpasseseencenaçõesseguidas.

Emumanotafinal,aoescreverestecapítulo,eudescobriminhas

lembrançasdainfânciaqueemergiramcomalgunspacientescrianças

nãosótinhamavercomminhasnecessidadesnãoalcançadas,con-

flitosnãoresolvidoseperdasnainfância,mastambémforamrevigo-

radospelaoportunidadeapresentadadereveraspectosdeminha

infância.Comoapalavra“oportunidade”sugere,euacreditoquea

possibilidadederevivenciarmemórias,associaçõesefantasiasemer-

Contratransferênciaeaemergênciadainfânciadoanalista

151

gemforadonossopassadoerecriadascomacriançapodenosajudar

areconhecera“outracriança”nasaladeanáliseconosco.

Resumo

Oautorfocaemumtipoespecíficodecontratransferênciacomcrian-

ças–asexperiênciasememóriasdainfânciadoterapeuta-queemer-

gemnapsicoterapiadecriança.Orelembrardestasrecordaçõesda

infânciadoanalistanãoéumabarreiraouumsinaldepatologiacomo

seacreditavaanteriormente,masemalgunscasoséumafontevital

quepodefacilitareaprofundarpotencialmenteotrabalhoanalítico.

Amemóriadoanalistaeasconsequentesfantasias,experiênciasfísi-

casesensoriais,eestadosafetivosnocontextodamemóriadeinfân-

cia,podemforneceraoanalistaaoportunidadedefazernãoapenaso

contatocomseu“self”comoumacriança,mastambémfacilitara

simbolizaçãodestesestadosmentaiseusá-losnaexploraçãodamente

dopacientecriança.Atravésdastrocasintersubjetivascomopaciente,

asmemóriasdainfânciadoanalistadãoumnovosignificadoaocon-

textodotrabalhoterapêuticocomopacientecriança.Oautorressalta

asingularidadedacontratransferênciacomcriançasemcomparação

comadultos.Umavinhetaclínicaéapresentadacomdetalhes,orga-

nizadosemtornodeumalembrançadainfânciadoanalistaecomo

elepodeusá-lanocampodatransferência/contratransferência.

Descritores:psicoterapiadacriança,contratransferência,encenação,

brincar,memória.

152

ChristopherBonovitz

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