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Ricardo Antunes, Os sentidos do trabalho, São Paulo, Boitempo, 2000

Juliana Marília Colli Doutoranda em Ciências Sociais pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp

OlivroOssentidosdotrabalhodeRicardoAntunesapresenta,antesde

tudo,umaamplapesquisasobreasmetamorfosesnoprocessodeconstituiçãodo

capitalismocontemporâneo,apartirdasmudançasestruturaiseconjunturaisque

ocorremnomundodotrabalhoesuasconseqüênciasmaisimediatasparaaclasse

trabalhadora.

Comoumaespéciedesíntesedepensamento,emummomentodepro-

fundamaturidadeintelectualdoautor,aobrarepresentaumlouvávelempreendi-

mentoque,comêxito,buscounareleituradosconceitosdeMarxaschavespara

oentendimentodomododeproduçãocapitalistacontemporâneo.

Semprejuízoalgumdaanáliseteórica,pautadaemautoresmarxistasde

pesonacontemporaneidade,taiscomoLukácseMeszáros,ojáconhecido

posicionamentocríticodeAntunessefazpresenteemtodaaobra.Maisumdos

méritosdoautorque,naatualconjunturaondeaideologianeoliberal,aparente-

mente,parecetornarqualqueranálisecríticaacadêmicaobsoleta,demonstrao

vigordesuaanálisebaseadaemdadosempíricosenaprópriateoria.Resultadisto

aapreensãodoprocessodeimplantaçãodoneoliberalismopormeiodoEstado

burguês,comoummecanismoideológicoeverdadeiroguardiãodosprocessosde

introduçãodaspráticasdereestruturaçãoprodutivapara“administrar”ummo-

mentodeprofundacrise,“depressedcontinuum”(Meszáros)comcaracterísticas

crônicaseestruturais,geradasnasprópriasentranhasdascontradiçõesdocapital.

Asmudançasnomundodotrabalhorefletem,paraAntunes,umadimen-

sãofenomênicaqueseapresentasobaformadareestruturaçãoprodutivaem

suasmúltiplasvariantesconcretas(materialeideológica)nosistemadeprodução

dasnecessidadessociaiseauto-reproduçãodocapital.Destadimensãoemerge

umaspectoestrutural,dacrisedocapitalqueresultanoconjuntoderespostas

maisimediatasàlógicadestrutivadocapitaleseusefeitosnefastosparaometabo-

lismosocial.

Comobemmostraoautor,asexperiênciasdealgumasempresasdoReino

outubrooutubrooutubrooutubrooutubro ----- 139139139139139

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Unidocaracterizamumcertodescompassoentreos“ideais”demodernidade,

apresentadospeloprocessodereestruturaçãoprodutiva,earealidadeprodutiva,

140140140140140 ----- outubrooutubrooutubrooutubrooutubro

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quecontamuitasvezescomtraçostradicionais.Estacontradiçãoevidenciaqueo

processodeexpansãodasnovastécnicasdeproduçãoeflexibilizaçãodotrabalho

assumecontornossingularesnarealidadedosdiversospaíses,nãosendopossível

umageneralizaçãoanalíticadesuasaplicações.Umbomexemplodestaadequa-

çãodocapitalàssuasbasesmateriaisdeproduçãoéareestruturaçãoprodutivano Brasilquecombinaemseuprocessoelementostradicionaisdofordismo com as novastécnicasdeproduçãoflexível. Todasessasformasparticularesdetécnicasegestãoorganizacionaldo

processodetrabalho,nestecontexto,trazemcomoconseqüênciasimediataspara

aclassetrabalhadoraasuaheterogeneização,complexificaçãoefragmentação,e

comoacentuabemoautor,aprecarizaçãoeaintensificaçãodotrabalho,gerando

umaespéciedecombinaçãodeformasdesubordinaçãorealqueseapropriade

elementosdasubordinaçãoformaldotrabalhoaocapital.

Assim,oautoravançaemumconceitoqueécaroaomarxismo,odeclasse

social,procurandodar-lhevidaevigênciateóricacontemporâneaatravésdaex-

pressão“classe-que-vive-do-trabalho”.Eessabuscaemapreenderdialeticamente

asparticularidadesdasnovasformassociaisderelaçõesdetrabalholevaoautora

afirmaracentralidadedotrabalho.

Otrabalhosocialhoje,complexificado,socialmentecombinadoeintensifi-

cadonosseusritmoseprocessos,secolocacomoesferacentraldasociedade

enquantoprocessoquecriavalor.E,aindaqueotrabalhovivoestejadiminuindo,

atravésdareduçãodeseutempofísicoedotrabalhomanualdireto,dadosapre-

sentadospeloautormostraanecessidadedecontínuarecorrênciadocapitala

formasdetrabalhoprecarizadaseintensificadas,tambémempaísesdesenvolvi-

dos,oquedenotaumaverdadeirasuperexploraçãodotrabalho,elementoeste vitalparaarealizaçãodocicloprodutivodocapital. A centralidade do trabalho se faz enquanto elemento fundante e estruturantedoprocessodesociabilizaçãohumana,dotandoavidadesentidoe

realizaçãooquenasprópriaspalavrasdeAntunes:“étotalmentediferentededizer

queumavidacheiadesentidoseresumeexclusivamenteaotrabalho”.Nabusca

deumavidacheiadesentido,aatividadelaborativa,queestámuitopróximada

criaçãoartística,transforma-seemelementohumanizador.

Masaafirmaçãodacentralidadedotrabalhonometabolismosocietalregi-

dopelalógicadocapitalemsuaformaestranhada(Entfremdung)transforma-se

emnegação.Estadimensãodenegatividadedotrabalhoimpedeosentidode

plenarealizaçãodasubjetividadehumanaporqueinvertearelaçãodepossee

domíniodascondiçõessociaisdotrabalho;quemproduznãodecideoqueepara

quemseproduz.

Muitosugestivaétambémaconexãoanalíticaentretrabalhoeliberdadede

ondeseextraique,anecessidadedequeumavidaplenadesentidoapartirdo

trabalhoimpõe,comocondiçãosinequanon,asuperaçãodasociedadequeé

regidapelalógicadocapital,semoquenãohádomíniodosindivíduossobrea

organizaçãosocial,nãohátempolivreenãoháauto-realizaçãohumana.

Olivrotambémapresentaumapêndiceque,noessencial,abordatemase

questõesreiterandoeconfirmandoastesesapresentadasdemodomaisextensivo

noscapítulosdolivro.Efinalizandooapêndiceoautorabordaoportunamente,de

modomaisdireto,oprocessodasmudançasocorridasnasrelaçõessociaisde

produçãonaparticularidadedocapitalismobrasileiro.

FicaevidentequeaobradeAntunes,alémdeseapresentarcomouma

instigantereflexãoteóricadefôlegoquebuscaapreenderosnovoselementos

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umaanálisesociológica,mantendopresenteemtodaasuareflexãocontornos

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interdisciplinaresoquepermitiuaoautornotáveisavançosteóricos.

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sãoontológicadointeriordavidacotidianadasociedade,deondetambémemer- HHHHH

gemascontradiçõesepólosderesistênciassociaisaestalógicadestrutivado

capital.Antunesdeixatransparecerqueosproblemasdefundoestruturaispresen-

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constituintesdometabolismosocietalcapitalista,representamuitomaisdoque

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Destemodo,aanáliseganhaumcontornoespecial,aoconsideraradimen-

outubrooutubrooutubrooutubrooutubro ----- 141141141141141

tesnometabolismosocietaldocapitaldevemcontarcomumpensamentocrítico

queleveaumaprática,nãodistantedareflexãoteórica,compreendendoaneces-

sidadedeumfirmeposicionamentoafavordaclasse-que-vive-do-trabalhoesuge-

rindoumasociedadepara“alémdocapital”.

Reinaldo Gonçalves, Globalização e desnacionalização, São Paulo, Paz e Terra, 1999

Romildo Raposo Fernandes Professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro

OeconomistaReinaldoGonçalvesproporciona-nosumaanáliseprecisa

sobreoprocessodedesnacionalizaçãorecentedaeconomiabrasileira.Oautor

efetuaumminuciosotrabalhodelevantamentodedados,baseadonosrelató-

riosdoBancoCentralenaimprensa,paraformularumasériedetabelasque

desmistificamapretensarelaçãoentreaentradadecapitalestrangeirodiretoe

odesenvolvimentoeconômicoesocial.Aidéia-chavedeGlobalizaçãoe

142142142142142 ----- outubrooutubrooutubrooutubrooutubro

Desnacionalizaçãoéa“vulnerabilidade”daeconomiabrasileiracomoresultado dapolíticaeconômicaadotadapelogovernoFernandoHenriqueCardosoa

partirde1995.

Apesardoautorcentrarsuaanálisenasegundametadedadécadade90,

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ReinaldoGonçalvesfazumpequenohistóricosobreaentradadecapitaisestran-

geirosnopaíseconcluiqueaatualexpansãodosfluxosdeinvestimentoexterno,

frutodasestratégiasnacionaisliberalizantes,resultaramnumretrocesso,umretor-

noàsituaçãoexistentenopaísnofinaldoséculoXIX,quandooBrasiltinhauma

estruturaeconômica“sobremaneiradependente”docapitalestrangeiro.Aseme-

lhançaestende-seaodiscurso,oargumentoéomesmodos“liberalões”doséculo

XIX-amodernização.

Estediscursoédesmascaradopeloautoraodemonstrarqueaentradade

capitaisfoiestimuladaporpolíticaseestratégiasequivocadas,pelo“bomnegócio”

dasprivatizações,pelapolíticadejurosaltosresponsávelpeladeterioraçãodas

contaspúblicas.Aconcentraçãoeconômicaeadesnacionalizaçãonãoforam

compensadosporumbomdesempenhoeconômico,pelocontrário,odesempe-

nhodaeconomiabrasileiranoperíodofoimedíocre.Senãohouveocrescimento econômicoesperado,poroutroladoocorreuuma“fragilização”doaparelhodo Estado.Aatualtrajetóriadeinstabilidadeecriseédecorrentedaestratégiade liberalizaçãoadotadapelogovernoFHC.Paraoautor,houveumamudançana “correlaçãodeforças”, oEstadoNacionaltevereduzidaasuacapacidadede

resistênciaàspressõesexternas,houveumaumentoda“vulnerabilidade”.A“inser-

çãopassiva”noprocessodeglobalizaçãoeconômicalevouaocomprometimento da“soberanianacional”. QuandoReinaldoGonçalvesquestionaa“inserçãopassiva”noprocessode globalização,podemosdeduzirqueoautorpressupõeserpossíveluma“inserção soberana”nesteprocesso.Estaanáliseécondizentecomaperspectivaestratégica doautor.Em1998,ReinaldoGonçalvescolaboroucomaobraOpçãoBrasileira 1

quedelineiaumprojetonacional-desenvolvimentistaparaoBrasil.Porisso,quando

oautorserefereacrisenoBrasil,expostaapartirdacrisedoMéxicode1994,não

analiseestacriseenquantoumacrisedosistemacapitalista.Damesmaforma,ao

tratararelaçãocomocapitalestrangeiro,nãoalocalizanomarcodarelação

imperialista.Compreende-seentãoaposiçãodoautoremrelaçãoaoingressode

capitalestrangeiro,quesegundoele“trata-se,unicamentedeumaquestãoprag-

mática,queseenfrentacomcritériosdedesempenho,controles,políticasemedi-

das”,pois“oinvestimentoexternodiretotantocriaproblemasquantooportunida-

des”.Oautordefendeumapolíticaregulatóriasobreaentradadocapitalestrangei-

roparaqueestatenhaumimpactopositivo.

1

Cesar

Benjamin

e

outros,

A

Opção

Brasileira,

Rio

de

Janeiro,

Contraponto,

1998.

Apesardestelimiteoriundodacrençadoautornapossibilidadedereformar

outubrooutubrooutubrooutubrooutubro ----- 143143143143143

ocapitalismo,olivroécategóricoaomostrarocrescimentodosfluxosdeinvestimen-

toexternoeoavançodasempresasdecapitalestrangeironaeconomiabrasileiraa

partirde1995,experimentando,assim,umapenetraçãodocapitalinternacional

nuncavistonahistóriadoBrasil.Parailustrarasconseqüênciasdesteprocessooautor

analisaosprocessosdefusõeseaquisições,easprivatizações.Asestratégiasde

liberalizaçãocomercial,financeira,cambialeprodutivainiciadasnoGovernoFernando

Collor,mantidasnoGovernoItamareaprofundadaspeloGovernoFernandoHenrique

produziramavulnerabilidadeexternaquecomooautorbemdescreve“fazcomque

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crisescambiaisprovoquemcriseseconômicasesociais,queacabamsetransforman- EEEEE

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efeitosdapolíticaeconômicaneoliberal,atravésdaglobalização,sobreaseconomias

semi-coloniaiscomoanossa.“GlobalizaçãoeDesnacionalização”éleituraindispen- AAAAA

sávelparaquemquerumamaiorcompreensãosobreoprocessodedependênciaao

capitalinternacionalnosúltimoscincoanos.

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GlobalizaçãoeDesnacionalizaçãoéumimportantesubsídioparademonstraros

estásendocolocadoemchequeatéporsetoresdaprópriaburguesia,olivro

doemcrisespolíticaseinstitucionais”.Nummomentoemqueomodeloneoliberal

Flávio Bezerra de Farias, O Estado capitalista contemporâneo, São Paulo, Cortez, 1999

Martha Roldán

Oavançosócio-econômiconeoliberalnaperiferialatino-americanadurante

osanos90foiacompanhadadediscursosgeralmenteprovenientesde“usinas

semânticas”norte-americanasqueoutorgamumasignificaçãoinexorávelepositi-

vaao“desenvolvimento”queproviriadaaplicaçãodomodeloeconômico

auspiciado.Cadaumdelesdefine,também,naprogressãohistórica,asfunçõese

intervençõesdoEstado-naçãoreceptorquegestionaatransiçãoemdistintos“mo-

mentos”deemergênciaouconsolidaçãorelativadeaquelemesmomodelo.Não

surpreendeentãoqueaatualdisputadomercadoregionaldoSulentreeconomias

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daTríadesetraduzaemnovasrodadasderepresentaçõesdocrescimentoneoliberal

edotipodegestação“apropriada”doEstado-nação-coordenaçãorotativadeum

blocoperiférico?–derivadasde“usinas”contendorascomcrescenteparticipação

européiaeoriental.

Nestecontextoderenovada“batalhadesignificações”olivrodeBezerrade

Fariasresultaparticularmenteoportunoebem-vindo.Anecessidadederefutação

teórico-políticadasposiçõesneoliberais,dequalquerorigem,éimperiosa.Oautor

aceitaodesafioenfocandoaoEstadocapitalistacontemporâneo(ouda

“modernidadeemvigor’)daperspectivadométodomarxianoeaplicandosuas

premissasàanálisedocamposócio-liberaldasteoriasdaregulação.

OprojetodeBezerradeFariasimplica,portanto,umduploexercício:de

integraçãoorgânicateórico-político-metodológicamarxianaeseuposteriorteste

aocasoconcretodaevoluçãodopensamentoregulatório.Referir-me-eiaambos

aspectos,comênfasenoCapítulo1,deespecialvaliaaooferecerelementosanalí-

ticospertinentesàcríticadeoutrasvisõesdoEstadocapitalistaeinspirarestudosde

campoafinsnofuturo.

Aprimeirapartedoexercícioimplicaoresgate/reelaboraçãodenoçõesda

economiapolíticacríticaedeseumétodoparaaanálisedoEstadocapitalista.Paraisso

argüi(“Introdução”)quejánaobradosclássicosdomarxismoexistiaminstrumentos

metodológicosparaumateoriacomunistadoEstadoeexpressõeseavançosimpor-

tantesparadefinirestacategoriacomototalidadecontraditória(p.12).Advogaentão

umretornoaessasfonteseàutilizaçãodaepistemologiaeaontologiadosersocial constitutivadométodomarxiano,métodonecessárioparaumaabordagemcríticae

revolucionáriadoEstadoda“modernidadeemvigor”contemporânea.(p.14).

Comtalobjetivotraçano“Capítulo1”umitineráriocomplexocomtrês

itenschave:AsmúltiplasdeterminaçõesdoEstado,AnaturezadoEstadoeO

papeldoEstado.Noprimeirodelerepassadiversasdefiniçõesinstitucionalistase

formalistasdoEstado(Rawls,eKelsen,entreoutros)alegandoquesãodefeituosas

jáqueescondemarelaçãoorgânicaentreEstadoecapital.Ignoram,portanto,as

múltiplasdeterminaçõesespecificamentecapitalistasdesteEstado,situaçãoparti-

cularmentepatentenocasodasvisionesregulacionistasqueseexploramno“Ca-

pítulo3”.MasqualéarelaçãoentreEstadoecapital?Apartirdaperspectiva

ontológica,BezerradeFariasrespondequeexisteprimaziadocapitalsobreoEsta-

do,jáquesupõequeesseprimeiroelemento(abase,oser,aprodução,emrelação

àsuperestrutura,aconsciênciaeacirculação)podeexistir,mesmoqueosegundo sejaabstraído.Oinverso,porém,éimpossível,precisamenteporrazõesontológicas

(p.26).Mas,esclareceoautor,nãosetratadeumprincípioapriori.Quandose

estudaumaspectoparticulardaforma-Estadoparaentendersuanaturezacapita-

listaexisteumarelaçãodecausaeefeito.Masseseestudaessaforma-Estadopara

entenderseupapelnaeconomiacapitalistaoEstadoécausaeocapitaléefeito.

Portanto,adeterminaçãoemúltimainstânciapelaeconomiaepelatécnicase

reduzaumaquestãometodológica.Oqueimportaéareciprocidadenarelação

orgânicaentreEstadoecapital.(p.26)

Éentão,nocontextodeumaformaçãoeconômicaesocialdada,quese

captaoconjuntodosaspectosdoEstadocomosersocialehistóricoesuasrela-

çõesdinâmicasapartirdalutadeclasses(suaessênciasocial)cujoeixoéadivisão

capitalistadotrabalho(suaessênciamaterial),divisãoquecontemplasimultanea-

menteaspectostécnicos,espaciais,internacionais,sexuaiseétnicos,entre

outros.(Grifonosso,nota8,p.63).ÉcrucialdistinguirestaessênciadoEstadodas

formasespecificasemqueseapresentaemummomentodadocomoaparência,

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parágrafoseguinte).“Emsuma”pensa,“averdadesobreoEstadosópodeser

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estabelecidanamedidaemqueseapreendemasrelaçõesefetivasentretodosseus

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umatotalidadeconcreta,complexaecontraditória”(grifosnossos,p.27).Aconse- AAAAA

qüênciadedesconhecerariquezadedeterminaçõesdofenômenoestatalprovoca falsosdebatesoupolêmicasestéreis,queépossívelevitarquandosedistinguesua

naturezadeseupapel,suaformadesuafunção.(p.27).

EstadistinçãoseexploraemAnaturezadoEstado,secçãoemqueoautor mergulhaemprofundidadenastemáticasdosilogismo,daestrutura,dofetichismo, dagenealogia,dasfisco-finanças,edateleologiadoEstado.Doisaspectos,ameu juízo,resultamdeespecialrelevânciaparaqualquerestudosobreaproblemática

Sul-americana.EmprimeirolugarosilogismodoEstado(p.28).OEstado,argüi,é

ummovimentodetotalizaçãoedeconcretizaçãoquesesituanotempoeno

espaço;éumsilogismoquesecompõedetrêstermos,ousilogismos,correspon-

dentesatrêsníveisdepercepçãodocapitalismo.Aforma-Estado(generalidades)

noníveldomododeprodução(nocontextodeumaformaçãosocioeconômica

capitalista).AformadeEstado(particularidades)pertinenteaotipoderegimede

acumulação(nocentroounaperiferia,baseadanotaylorismoounofordismo)ea

FormadoEstado(singularidades)referenteaumprocessodadodeacumulação

(naFrancia,noBrasil).Portantosósepodeapreendero“grandesilogismo”do

Estado”aoconsiderarcadaumadascategorias:forma-Estado,formadeEstadoe

formadoEstadocomomediadorasentreasduasoutras.

Éimportantedistinguirentreossilogismosafimdeevitarconfusõesna

análise.Comefeito,aforma-Estadoéumaabstraçãoqueapreendeosaspectos

geraisdofenômenoestatalnocapitalismo,portantonãoexplicatodasasconjun-

turasestatais,comsituaçãodiversanotempoenoespaço,comseustraçosespe-

cíficos(p.29).Aforma-Estadoemgeral,sóexisteporintermédiodasespecificidades

comoformadeEstadoouformadoEstado.Emsíntese,“oEstadoéumaforma

socialquesofrevariaçõestemporaiseespaciais.Nãosetratadeumvaloruniversal,

)obedecealeisquetrazemamarcada

deumidealabstrato(

umsersocial,situadonotempoenoespaço;éricoemdeterminações;trata-sede

aspectos,suaspotenciasesuastendências.OEstadorepresentativomodernoé

genealogia,fetichismo,silogismo,teleologia.(aspectosqueoautordesenvolveno

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)Pelocontrário,(

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história,emarticulaçãoorgânicacomasformasassumidaspelosersocialnapro-

dução,reproduçãoecrisedocapitalismo.’(pp.29-30).

UmsegundoaspectoconcerneaAteleologíadoEstado(pp.37-39)eà

políticarevolucionária.DadoquefazemosreferênciaaoEstadocapitalista,equea

relaçãoEstado-capitaléorgânica,omovimentorevolucionáriodeveserdirigidocon-

traambos.(p.36),orientadoasuperaraextraçãodamaisvaliaeadivisãodotrabalho

queasustenta,superandoascondiçõesobjetivasquedãolugaràlutadeclassese

permitindooutracontinuaçãodahistóriahumana.(p.37)Adiferençadasocialde-

mocraciaqueconsideraseuêxitosemaextinçãodocapitalismo,BezerradeFarias

observaasuperaçãodesteúltimoemummovimentoqueseinicianaunidadeda

consciênciadeclasseedalutadosoprimidoseexplorados.Daíaimportânciade

mantervivaautopiaconcretadocomunismocomtodasuavirtualidadeanti-sistêmica,

afimdesuperarasrelaçõesquecondenamaoserhumanocomoserexploradoe

oprimido.tantonocapitalismoavançadocomoperiférico.(p.39)

Porúltimo,sobOpapeldoEstadooautorenfatizaqueaaçãodoEstado capitalista–comoumtodoorgânico,complexoecontraditório–éumavariávelno

tempoenoespaçoenasformasdesuaintervençãonaeconomia.(p.40)Esta

elaboraçãolhepermitemostrarcomo,emgeral,osenfoquesemtermosde regulaçãoseocupamdafunçãodoEstado,nãodaformadeste;vêmregulações nascircunstânciasemqueocorremmediaçõesdascontradiçõesdasociedade burguesa,ealémdissoconfundemanaturezaespacialdaforma-Estadodesua açãosobreoespaçoevice-versa.Adinâmicadofordismo,explica,estáalimentada porcontradiçõesdeclasse,easmediaçõesdoEstado(sobreamoeda,aforçade trabalho)assumemnovasformas,masnãoeliminaanaturezadaopressãoeda

exploraçãocapitalistas(p.41).

Destemodo,nafasedemundializaçãodocapital(Cf.Chesnais),opapel

espacialdoEstadosuperaoquadronacionalelocal,enquanto,simultanea-

mente,ossistemasprodutivosdominadospermanecemlocalizadoseopro-

gressodesuasformasprodutivassofrearaizdesuaexcessiva“financeirização’.

Trata-sedeoutraexperiênciadedesenvolvimentodesigualecombinadono

qualoEstadoassumedoispapeisdistintos:Oprimeiro,sobreoconjuntodo

territórionaexpansãonoespaçodasrelaçõescapitalistasdominantes(divisão

capitalistadotrabalho).OsegundoserefereaopapeldoEstadosobreas

partesdesseterritório,issoé,àarticulaçãoespacialdetodasasrelaçõesprodu-

tivasexistentesemumaformaçãoeconômicaesocialdada.(divisãoregionaldo trabalho).Comoconseqüência,asaçõesparaaarticulaçãodosespaços globalizadosedosespaçoslocaisnãolevamàsuperaçãododesenvolvimento desigualecombinado,esimàglobalizaçãoqueaumentaasubmissãodos

processosdetrabalhoperiféricosaosprocessosdevalorizaçãocentrais(p.44);

umjuízoimportanteparaaanálisedassignificaçõesoutorgadasaosnovos

fluxosdecapitalemdireçãoàperiferiaSul-americana.

Nos“Capítulos2e3”BezerradeFariasconduzaoexercíciodetestedo

aparelhoteóricoconceitualpreviamentedesenvolvido.O“Capitulo2”seoferece

comocontribuiçãoàcríticadoEstadocapitalista´pós-moderno”esecentrano

lapsoposterioràslutasdomaiofrancêsde1968,períodonoqualseafiançamas

tendênciasdemundializaçãodocapitalqueseestendeatéopresente.Aquioautor

dialoga/polemizaemdoisparágrafos.OadventodoEstadopós-modernoeO

adventodanovadinâmicarevolucionária.Noprimeirodelesaprofunda-secritica-

mentenajustificaçãofilosóficadaetapaemsuasduasvertentes:areferenteao “Estadoenxuto”(Nozick),semvínculocomlutasdeclasses:eaconcernenteao “Estadoforte”(Rawls,entreoutros)quesustentaapossibilidadedesubsunçãodo espaçosocialdentrodesuaordem.Cabedestacar,emespecial,aabordagemda

evoluçãodopensamentodeRawls,desdesuaobrade1971–naqualoproblema

consistiaemtransformaraocapitalismoliberalnosentidodeuma“utopiarealista”,

deumasociedadeordenadasegundoajustiça–àde1987,naqualoproblema

radicariaemestabiliza-lo,superandooconflito,naperspectivapluralistadoconsen-

soporsobreposição–paradesembocarnotextode1993noqualformulao

“principiodadiferença’.(p.48).Apartirdeesteúltimopode-sedefiniraformade

relaçãocontratualpós-modernacomoestratégiaparaevitarorisco,colocando KeynesparaalémdeKeynes.Emoposiçãoaoprincípiodademandaefetiva,prima agora,noprincípiodadiferença,arazãopolíticaoupráticaquetemprimazia

ontológicasobrearazãomoralouteleológica.(p.49).

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Daíentão–pensaBezerradeFariasemumparágrafomuitopertinenteà

discussãolatino-americana–aintervençãoestatalpassadaregulaçãoedo

disciplinamentoatéàpacificaçãoeocontroledosfatoresdeproduçãoe,portanto,

àquestãosocialsetransformaemumaquestãodepolícia.Deacordocomomito

domercadolivreeeterno,oEstadopós-modernopassaaserumsimplesatordas

atividadesmercantis,encarregadodefunçõesderepressãoedecontrole.Através

desuaaçãonomercado,debilitaaspolíticaspúblicasindustriais,tecnológicase

sociais.Mas,também,atuasobreomercadoparaaregulamentaçãodaordem,

dosincentivosedainformação.Nosdoisaspectosdefendeasupremaciadacircu-

laçãosobreaprodução(p.51.)

NosegundoparágrafoBezerradeFariasabordaoadventodanovadinâmi-

carevolucionárianoprocessohistóricoobjetivodasuperaçãodocapitalismocon-

temporâneo,naperspectivadautopiaconcretadocomunismo(p.52).Rechaça

entãoopensamentopós-modernoinspiradoemRawlseseucaráterinexorável,

quefazumaapologiadeumaconfiguraçãoestataldada,nãopercebendoanova

dinâmicaestruturantedoprocessoatualdemundialização(p.52).Oautorbrasilei-

ro,pelocontrário,insistenoqualpode-seresistirànovaordemmundial.Noresto

daseção(pp.53-61)passaráafundamentar–atravésdaconsideraçãodosproble-

masestruturais,efisco-financeirosdoEstadopós-moderno,edeseusaspectos

fetichistas,eteleológicos,emsuasdimensõessistêmicaseanti-sistêmicas–uma

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novadinâmicarevolucionáriaqueabreumaperspectivadetransformaçãodemo-

cráticadasformasestataisexistentes,lutaquetemlugaremumnovoespaço

mundialabarcandoasolidariedadeuniversaldosoprimidosequeexcluiqualquer

tipodeadesãoaosimperativosdacompetitividadeneoliberal.(p.61)

Querodestacaraqui,emparticular,aanálisedoautorsobreasituaçãona

periferia(em“OsproblemasestruturaisdoEstadopós-moderno”)esuaposturade

quealutadeclassesnãodesaparecenestanovaeraacausadapretendidavitóriada

técnicaedaciênciasobreoutroscandidatosamotordahistória.Comasmudan-

çasnadivisãocapitalistadotrabalhoalutadeclassesassumenovasformas,dife-

renciando-seegeneralizando-senoespaçomundial.Temlugarumaperfeiçoa-

mentodoimperialismo,cujoprocessodeconcentraçãoecentralizaçãodocapital

tendeaarticular-secomumadireçãopolíticamundialresultandonageneralização

dodesenvolvimentodesigualeacrescenteexclusãodaperiferiaatravésdosefeitos

perversosdaaplicaçãoforçadadepolíticasneoliberais.(p.53).

Concomitantemente,aspráticasgovernamentaismundiaisquerepresen-

tamosinteressesdeempresastransnacionaisedeinstituiçõesfinanceiraspassam

aregularaeconomiainternacional.Amundializaçãodocapital,emvezderetornar

aomitodomercadoauto-regulável,manifesta-seatravésdoplanejamentoe

interaçõescomerciaisgerenciadascentralmentedentrodeumaestruturade

globalizaçãoliberal,projetadasparaasnecessidadesdepoderedelucro,subsidia-

daseapoiadasporinsidiosasintervençõesestatais.Destemodo,“aliberalização

dosintercâmbiosdebensefluxosdecapitaisnãoprovocaadispersãoea

descentralizaçãodopodermasque,pelocontrario,anormalizaçãotecnocrática

supranacionaltendeaexcluiralegitimaçãodemocráticanacional”(p.54).permitin-

doconstatarqueasobrevivênciadoEstado-naçãonaresoluçãoreformistadacrise atualdependedareproduçãodemecanismosdeexclusão,derepressão,ede

integralismosreligiososouideológicos.(p.55).

No“Capítulo3”BezerradeFariaslevaacaboumacríticadevastadorado

conjuntodasabordagensemtermosderegulaçãoemtrêsparágrafos:Osfinsdo

EstadodeGramsciaosregulacionistas,OsfinsdoEstadonoregulacionismo´po-

lítico”eOsfinsdoEstadonoregulacionismo“tecnocrático’.Noprimeirodeles

distingueentreregulacionistas“políticos”e“tecnocráticos’.(p.65).Paraos“políti-

cos’,osocialismoprovemdereformasaocapitalismoconjuntamentecomações

estataisecontrataiscadavezmaisdemocráticas.(Cf.LipietzeTheret)Paraos

segundosacriseconsisteemumaperdadedinamismotípicadaexistênciabur-

guesamoderna,quepodeserestendidaatodaacondiçãohumana,incluindo

trabalhadoresmassificados,quesedeixamlevarpassivamentepeladerrotabur-

guesa.Contudotambémexisteacertezadeummundoparaalémda“sociedade

salarial”noqualotrabalhadormassificadopodetransformar-seemserativona

dinâmicadoprogressosocialeatravésdecompromissosecontratos.Omotorda

histórianãoéalutadeclasses,masatécnica.(Cf.BoeereSaillard).

ApartirdeumainteressantereleituradeGramsci(CadernosdoCárcere)o

autordebateequestionaemseguidaossupostosteóricosemetodológicosdas

duasvertentesemsuaprogressãohistóricadesdeasignificaçãodocrescimento

duranteos“30gloriosos”àsuaelaboraçãonaeraneoliberal.(pp.69-75).Emparti-

cular,rechaçaoesquecimentodaslutasdesenvolvidasduranteoprimeiroperíodo,

lutasquequestionarãoasrelaçõesdeproduçãocapitalistaesuareprodução,ea

confiançanasuperaçãodacrisecontemporâneaatravésdenovoscontratose

compromissos,agora“pós-fordistas”(Cf.Aglietta),quecontudonãosoluciona-

ramamassificaçãododesemprego(p.72-74).

NosegundoparágrafoadiscussãosetransladaaostextosdeTheret,Lipietz,

eGorz.Ascríticasqueresultamdasposiçõesregulacionistasnãoajuízamnemao

trabalhoemsimesmo,nemàscondiçõescapitalistasdeprodução.Pelocontrário,

defendemapenasumprojetodesociedadebaseadano“tempoliberadodetraba-

lho’,desconectadadaconquistade“aliberaçãodotrabalho’.(p.83).Outratemática

importanteilustradanestestextoséarelaçãoentreEstado-naçãoeglobalização,

queanunciariaaopacidadeouextinçãodoprimeiro.BezerradeFariasrechaçaesta

conclusãoinsistindonanecessidadedeestabelecerasmutaçõeshistoricamente

determinadasdadivisãocapitalistadotrabalho,queservedeeixoàlutadeclasses,

paralogoapreenderascondiçõesnaprópriaessênciadoEstado-nação.Comoa

globalizaçãonãoimpedequeessascontradiçõesencontremsuasmediaçõeses-

pecíficas,precisamenteatravésdoEstado-nação,nãohámotivoparaqueeste

deixedeexistir.(p.88).

No terceiro parágrafo o autor aborda o pensamento da vertente regulacionista´tecnocrática’.Segundoeleassinala,estesautoresadjudicamas origensdacrisedofordismo(oregimedeacumulaçãodopós-guerra)àperdada

eficiênciadaformadominantedaorganizaçãodotrabalho,edasoberanianacio-

nalacausadaglobalização.Mas,comaobtençãodeumnovoprogressotécnico,

aumentaráumavezmaisaprodutividadeeapazsocialgarantidapeloscompro-

missospós-fordistas.Estaviragemhistóricapodeassegurar-sepordistintasvias:

pelapassagemauma´sociedadesalarial’;(Cf.AgliettaeBender);pelaciênciae

sistemasdeinovação;pelasubstituiçãodosistemaprodutivofordistapelopós-

fordista;comnovoscompromissossociaisearegulaçãodocapitalfinanceiro.

Contudo,argüicomironiaBezerradeFarias,aidéiadequeaevoluçãodosistema

técnicopodeemúltimainstânciaresolveracriseemumasociedadesalarial,resulta

tãoingênuacomoacreditarembruxas.(p.95).Estaideologiaignoraarelação

entreciênciaetécnicacomavalorizaçãocapitalista,eportantoanecessidadede

reorientaressaatividadecientíficaetécnicaemumsentidoanti-sistêmico(p.96).

Emsuma,concluiocientistabrasileiro,nãoépossívelcompreenderastrans-

formaçõesqueestãoocorrendonaessênciadoEstadodopós-fordismosem

apreenderaformaespecíficadalutadeclassesquegiraemtornoàdivisãointerna-

cionaldotrabalhonaeradamundialização.(p.100).Estadinâmicaimplicauma

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reestruturaçãoeconômicaeumanovahierarquiaglobalerequerpolíticasnacio-

naispositivascomobjetivossimultâneostransnacionais.Portantoamargemde

manobradoreformismoregulacionistaéestreitaporquenadaindicaqueosEsta-

dosdoGrupodos7hajamrestabelecidoseucontrolesobreosmercadosfinancei-

ros,submetendo-osaumaregulaçãoestrita,umadassoluçõesaportadaspelos

autoresdessavertente(p.101).

Atítulodepalavrasfinaisdestaresenhacorrespondeenfatizarqueotexto inovador,profundo,emuitopolêmicodeBezerradeFarias,comotodaobradirigida

apessoasque“queirampensarporsimesmas”(p.13)limpaocaminhoteóricoda

investigaçãodosprocessosdemundializaçãonoseiodaregulaçãodosullatino-

americano.Simultaneamentepodeler-secomocódigoparaacederanovasper-

guntasesclarecedorasdepráticaspolíticasrelevantesaocaminhodaemancipação

denossospovos.

Carlos Nelson Coutinho, Gramsci, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1999

Ana Maria Alvarenga

Gramsci:CadernosdoCárcere,vol.1,publicaçãodeCarlosNelson

Coutinhoeoutrosautores,lançadopelaCivilizaçãoBrasileiraem1999,veioacom-

panhadodeumanovaedição,revistaeampliada, daobraGramsci:umestudo

deseupensamentopolítico.Estaéconsideradaumaimportantereferênciano

Brasilsobreosestudosgramscianosporcaracterizar-seemumasíntesedaobra

evidadesteautor.

NaorganizaçãodaobraobservamosumaprioridadeaosestudosdosCa-

dernosdoCárcere,porém,CarlosNelsonCoutinhonãodispensaaapresentação daformaçãodeGramsciantesdoCárcere,assimcomoaaplicaçãodascategorias desenvolvidasporesteparaarealidadebrasileira. Aprimeirapartedolivroanalisaaformaçãoeaparticipaçãopolíticade GramsciantesdoCárcere.Elaédivididaemtrêsfasestemporais:aprimeira,de 1910a1918,queanalisaaformaçãojuvenil; asegunda,de1919a1920, tratandoespecificamentesobreademocraciaoperáriaeosconselhosdefábrica;

eaúltima,de1921a1926,caracterizadaporCarlosNelsonCoutinhocomo

“transiçãoparaamaturidade”.EstatransiçãocompreendeoestudodeGramsci

emrelaçãoàfundaçãodoPartidoComunistaInternacionaleoenfrentamento

comofascismo,assimcomoocombateaosectarismoeàsprimeirasaproxima-

çõesdoconceitodeHegemonia.

AsinfluênciasdeCroceeGentile,filósofosneohegelianos,aposturade

GramscinoPartidoSocialistaItaliano(PSI)emcríticaàcorrentemaximalistaeà

reformista,aparticipaçãopolíticanafundaçãodoPartidoComunistaInternaci-

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internacionalearecuperaçãodeelementosdialéticosdomarxismoautêntico;

fazempartedaformaçãodojovemGramsci,constituídainicialmentederela- SSSSS

çõescontraditóriasqueirãoadquirindoformaeconsistênciapolíticaeteórica

aopassardosanos.

ParaCarlosNelsonCoutinho,oquemarcaatransiçãodojovemGramsci

paraamaturidadesãoprincipalmenteadistinçãoentreoOcidenteeoOrienteeas

primeirasformulaçõesdoconceitodehegemonia,quelevaráoreferidoautorà

consideraçãodanecessidadedeestratégiaspolíticasdiferenciadasaospaísesin-

dustrializadosàconquistadosocialismo. AsegundapartedolivroanalisadiretamenteosCadernosdoCárcere,ou seja,aobradamaturidadedeGramsci,procurandooautorrelacionarascategorias deGramsciàrealidadebrasileira.Umeloqueseevidenciaprincipalmentenoúltimo capítulo.Osítensdesenvolvidospeloautorsão:observaçõesmetodológicassobre osCadernosdoCárcere,teoria ampliadadeEstado,aestratégiasocialistano “Ocidente”,oPartidocomoIntelectualColetivo,auniversalidadedeGramsci,epor fim,ascategoriasdeGramsciàrealidadebrasileira. SegundoCarlosNelsonCoutinho,apósaprisão,comodistanciamentoda

práxispolíticaimediata,épossívelperceberumaprofundamentoteóricosistemati-

zadonosescritosdeGramsci,proporcionandoassimauniversalidadedeseus

textos.OsCadernoscaracterizam-secomoumestudocríticoquediferenciaestra-

tégiasrevolucionáriasparaoOcidenteeoOriente,sendoestescompreendidos

nãocomosituaçõesgeográficas,massim,comodiferentestiposdeformação

econômicosocial,emfunção,sobretudo,aopesoquenelespossuiasociedade

civilemrelaçãoaoEstado.

OautorargumentaqueGramscisuperaMarx,EngelseLenin,dentrode

umalógicahistóricodialética,vistoqueascondiçõeshistóricasconcretasapresen-

tam-seemumnovoestágiodedesenvolvimento.SegundoCarlosNelsonCoutinho,

partindodoabstratoaoconcreto,Gramscidesenvolveummovimentoderenova-

çãodialéticados“clássicos”noterrenodaTeoriaPolítica.Elesuperaoeconomicismo

daSegundaInternacionalenãosetornaumpoliticista.

Otermo“política”éutilizadoporGramsciemdoissentidos:umamploe

umrestrito.Nosentidoamplo,políticacomosinônimodecatarse,enosentido

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onal(PCI),ainspiraçãodiretadeLeninemrelaçãoàrupturacomasegunda

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restrito,como“conjuntodepráticaseobjetivaçõesquesereferemdiretamente aoEstado,àsrelaçõesdepoderentregovernantesegovernados” 1 (p.93). SãoapresentadosnosCadernoselementosessenciaisdeumaautêntica

ontologiadapráxispolíticaedesenvolvidassistematicamenteanálisessobreatota-

lidadesocial,ondepolíticaeeconomiafazempartedeumtodo. CarlosNelsonCoutinhoafirmaque,emboraGramscinãocoloqueapolítica acimadaeconomia,éapartirdofocodapráxispolíticaqueeleelaboraasreflexões filosóficas.Noqueenvolvequestõescomoateoriadoconhecimentoeaontologiada natureza,estefocodeanáliselevaGramsciacairemalgumasposiçõesidealistas. UmdosprincipaispontosdiscutidossobreGramsciéoconceitodeEstado, quesediferenciarádasformulaçõesdosmarxistasclássicos. OconceitodeEstadodesenvolvidoporGramscicomportaduasesferas:a sociedadecivileasociedadepolítica.Nestasduasesferas,segundoCarlosNelson Coutinho,hádiferençasnafunçãoqueexercemnaorganizaçãodavidasocialena articulaçãoereproduçãodasrelaçõesdepoder.Oautorcitaduaspassagensde Gramsci:aprimeiraafirmaqueasduasesferas–sociedadepolíticaesociedadecivil

–formam“oEstado(nosignificadointegral:ditadura+hegemonia)”(p.127),ea

segundadefinindooEstadocomo“sociedadepolítica+sociedadecivil,istoé,

hegemoniaescudadanacoerção”(Idem).

Nessesentido,asformulaçõesdeGramsciacercadaconstruçãodosocia-

lismoirãoenvolvernovoselementos,comoahegemonia.Acondiçãoparauma

classealcançaremanter-senopodernassociedadesOcidentaiséqueelaseja

anteriormentedirigente(hegemônica).

SegundoCarlosNelsonCoutinho,paraGramsci,aextinçãodoEstadoCa-

pitalistasignificaodesaparecimentoprogressivodosmecanismosdecoerção,ou

seja,areabsorçãodasociedadepolíticanasociedadecivil.Então,aestratégiasoci-

alistanoOcidentedevebalizar-senaguerradeposiçãoenaconquistadahegemonia.

AteoriaampliadadoEstadopermiteumacríticaàteoriada“revolução

permanente”,sendoestaconsideradaumafórmulaparadeterminadoperíodo

histórico,noqualnãoexistiamaindaorganizaçõesnasociedadecivilcomopartidos

demassaesindicatos.

Colocam-seaídoispontosdesenvolvidosporGramscieresgatadosporCarlos

NelsonCoutinho:a“guerradeposição”comoestratégiaparaarevoluçãono‘Oci-

dente’,e,oproblemaconstitucional.Segundooautor,Gramscipropunhaalutapela

1 “Pode-se empregar a expressão ‘catarse’ para indicar a passagem do momento mera- mente econômico (ou egoístico passional) ao momento ético político, isto é, a elaboração superior da estrutura em superestrutura na consci~encia dos homens. Isto significa, tam-

bém, a passagem do ‘objetivo ao subjetivo’ e da ‘necessidade à liberdade’.” Antonio Gramsci,

Cadernos do cárcere, edição Carlos Nelson Coutinho, Marco Aurélio Nogueira e Luiz Sérgio Henriques, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1999, v. 1, p. 314.

Constituintecaracterizandoestacomoumaoportunidadedepromoveraliançase

fazerpolítica,e,conquistarposiçõesnalutapelahegemonianaclasseoperária.A

Constituinte,é,portanto,consideradaummeioparaaconquistadahegemonia.

Opartidocomovontadecoletivaécolocadoemevidêncianosestudos

carceráriosdeGramsci.OresgatefeitoeanalisadoporCarlosNelsonCoutinho

demonstraqueopartidoaparececomoumaobjetivaçãofundamentaldo“momen-

tocatártico”,ouseja,umorganismouniversalizante,ondesupera-seosresíduos

corporativistasdaclasseoperáriaecontribuiparaaformaçãodeumavontadecole-

tiva.Nessesentido,passamosdosujeitoatomizado,coorporativoaosujeitocoletivo. Acapacidade/possibilidadedopartidoelaborardemodohomogêneoe sistemáticoumavontadecoletivanacional-popular,capazdeconstruirumnovo “blocohistórico”,nãoépossívelsemcondiçõesobjetivas.Portanto,parasoluções revolucionáriasfaz-seprecisoasomadevontadecoletivaecondiçõesobjetivas SegundoCarlosNelsonCoutinho,“Gramscireencontraacorretadialética

entreobjetividadeesubjetividade,entreespontaneidadeeconsciência”(p.172).

Porisso,épossívelevidenciarrepetidasvezesfrasescomo:“reformaintelectuale

moral”,“batalhacultural”,“formaçãodeumanovacultura”,“difusão cultural” citadasnasíntesedeCarlosNelsonCoutinho.

Opartidoéorganizadocombaseemtrêsgrupos:um,dehomensco-

muns,quepossuemascaracterísticasdeseremdisciplinadosefiéisaospressupos-

tos;umsegundogrupoqueorganizaecentraliza;eporfim,umintermediárioque

fazaligaçãoentreosdoisprimeiros.

NaperspectivadeGramsci,noCentralismoDemocráticodefendidopelo autor,ostrêsgrupossupradescritosdevemcircularpermanentementeassimcomo deve-seelevaraoníveldanovalegalidadeaconsciênciadasmassasatrasadas;e, deveseropartidonãoummeroexecutante,masumdeliberador.Nãoocorrendo isto,háoriscodeumcentralismoburocrático. UmoutrofatoimportanteevidenciadoporCarlosNelsonCoutinhoéa necessidadeapontadaporGramsci deperceberopartidocomoum‘organismo’ incompleto,jáqueaprópriarealidadenãoécompletaetododesenvolvimentocria novastarefasefunções.

ParaCarlosNelsonCoutinho,ateoriaampliadadeEstadoeateoriaproces-

sualderevoluçãosocialista(revoluçãopassiva),constituemumpontodeinflexão

nahistóriadopensamentomarxista.Porém,suauniversalidadenãosupõeuma

teoriapronta,acabada,comrespostasparaoprocessorevolucionário,massim,

emumaanálisedialéticasituadahistoricamente.

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AlgumasnoçõesforamdesenvolvidasdeformaembrionáriaporGramsci,

portanto,cabeaosmarxistasqueneleseinspiramduastarefasbásicas:“1.concre-

tizarsuasformulaçõesteóricasgeraisaplicando-as’àprópriaépocahistóricaeà

própriarealidadenacional;2.Continuarodesenvolvimentoteóricodosconceitos

deEstadoedeRevoluçãosocialista”.(p.187)

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AoanalisarbrevementePoulantzas:aestratégia“socialistademocrática”,

CarlosNelsonafirma:“AuniversalidadedeGramsci,(

nadanofatodequesuaproblemáticateóricaservecomopontodepartidaneces-

sárioparaasprincipaisemaissignificativastentativascontemporâneasderenova-

çãodateoriapolíticamarxista”.(p.188).

Na“aplicação”dascategoriasdeGramsciàrealidadebrasileira,oautor (CarlosNelsonCoutinho),retomaosconceitosde“revoluçãopassiva”ede“Estado ampliado”.Segundoele,épossívelanalisarasrelaçõesdemudançasnoBrasilapartirda teoriadarevoluçãopassiva.Estaforneceimportantesindicaçõesparaacompreensão dosprocessosdemodernizaçãoconservadoraquecaracterizamahistóriadoBrasil. Oconceitode“Estadoampliado”forneceelementosparaacompreensão dasituaçãoatualeindicaçõesparauma“estratégiademocráticaparaalutapelo

socialismonoBrasil”(p.196).

Oautorafirmaqueatransformaçãocapitalistatevelugargraçasaacordos

dasclasseseconomicamentedominantes“comaexclusãodasforçaspopularese

autilizaçãopermanentedosaparelhosrepressivosedeintervençãoeconômicado

Estado”(p.196).

Osprocessosde“revolução”noBrasilforam“revoluçõespeloalto”,impli-

candoapresençadedoismomentos:oderestauraçãoerenovação.Arestauração

caracterizou-secomoumareaçãoàpossibilidadedeumatransformaçãoefetivaa

)expressa-seantesdemais

movimentossociaisorganizadoscapazesdecolocaremriscoosistemacapitalista.

Arenovaçãoocorreuvistoque,paraamanutençãodadireçãopolítica-ideológica,

foinecessárioquemuitasdemandaspopularesfossemassimiladasecolocadasem

práticapelasvelhascamadasdominantes.Umexemplocitadopeloautoréadita-

duradeVargas.SegundoCarlosNelson,duranteoEstadoNovopromoveu-se

umaaceleradaindustrialização,assimcomoforampromulgadasleistrabalhistas.

Outrasquestõesimportantessãoabordadaspeloautor,comoporexem-

plo,ofatodoEstadobrasileirotersubstituídoasclassessociaisemsuaformação

protagonistadosprocessosdetransformaçãoeodeassumiratarefade“dirigir”

politicamenteasprópriasclasseseconomicamentedominantes;assimcomoa

importânciadalegitimaçãocarismáticaqueteveinícionocursodaditadurade

Vargasenasformaspopulistasdegoverno,quealcançaramrelativosucessono

processodelegitimaçãonadireçãopolítica.

EmboraodesenvolvimentodoEstadobrasileirodemonstrecaracterísticas

dedesequilíbrioentreasociedadecivileasociedadepolítica,oautorafirmaque,

“pelasviastrasnversasdarevoluçãopassivaoBrasiltornou-seumasociedade‘oci-

dental’,maduraparatransformaçõessubstanciais”(p.218).

Nessesentido,baseadonateoriadeEstadoAmpliadoenaguerradeposições,

oautortraçacomoimportanteobjetivodasforçaspopularesaconquistadahegemonia.

SegundoCarlosNelson,“opensamentodeGramsciécapazdefornecer

sugestõesnãosomenteparaainterpretaçãodonossopassado,medianteoscon-

ceitosde‘revoluçãopassiva’ede‘transformismo’,mastambémparaaanálisede nossopresente,atravésdanoçãode‘Estadoampliado’;epodetambémcontribuir paraaelaboraçãodeumaestratégiadelutapelademocraciaepelosocialismo,

concebidacomo‘guerradeposição’”(p.219).

Percebemos,assimcomoGramscieCarlosNelson,anecessidade,noBrasil, daconquistadeunidadenaclassetrabalhadora,vistoque,assimcomoafirma

PerryAnderson(1986),nossoobjetivonãoéfazervítimas,masdereunirtodasas

massasexploradasparaacriaçãodoumanovaestruturasocial:dosocialismo. Porém,nãopodemosnegarqueoaparelhoarmadoé umelementoper- manenteinimigodetodarevolução.Portanto,concordamoscomaafirmaçãode PerryAnderson:“Trotskyentendeuissocomprecisão:Ostrabalhadoresdevem antecipadamentetomartodasasmedidasparacolocarossoldadosdoladodo povopormeiodeumaagitaçãoprévia 2 ;mas,aomesmotempo,elesdevemprever queaogovernovaisersempredeixadoumnúmerosuficientedesoldadosseguros ousemi-segurosparatentarreprimirainsurreição,desortequeaquestãose resolverá,emúltimainstância,porumconflitoarmado”.(Idem:73) 3

Aqui

nossa).

2

3 Perry

acrescentaríamos

a

formação

moral

e

intelectual

proposta

por

Gramsci

(observação

Anderson,

“As

antinomias

de

Gramsci”,

in

Crítica

Marxista,

1,

1986,

p.

73.

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Valquíria Padilha, Tempo livre e capitalismo: um par imperfeito, Campinas, Alínea, 2000

Márcia Fantinatti Jornalista e doutoranda em Ciências Sociais pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp

Numaépocadegrandesapreensõesemtornodocrescimentodopercentual

dedesempregados,entreamplasparcelasdosassalariadosemdiversospaíses,são

muitasasquestõespertinentescolocadaspelotextodeValquíriaPadilha,emTem-

polivreecapitalismo:umparimperfeito.

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Entreosobjetivosquenorteiamotrabalho,encontra-seanunciadaahipó-

tesecentral:“pareceimprovávelqueohomempossatransformaroseutempolivre

emmomentosquepropiciemumaautênticaindividualidade,namedidaemque

eleestáinseridonasociedadecapitalista,cujalógicadevalorizaçãodocapitalprivi-

legiaoprodutivismoeoconsumismodesenfreados,emdetrimentodasefetivas

necessidadeshumanasesociais”(p.17).

Deinício,éreiteradaanecessidadedeter-sebempresentequalaracionalidade queregeosistemacapitalistacomopressupostoparaconsideraçõesarespeitodas autênticaspossibilidadeselimitesparaqueostrabalhadoresvivenciemotempolivre. Posicionando-sejuntoaosqueafirmamqueotrabalhopermanececentral nasociedadeatual,aautorapontuaqueexistiriaumaredução,porém,nãouma eliminaçãodosignificadodotrabalhocoletivonaproduçãodevaloresdetroca.As classestrabalhadorasestãosetransformando,nãoseextinguindo.Essaampla heterogeneidadequeoraascaracteriza-eque,diga-se,nãoseconfiguracomo umanovidade:ossetoresassalariadosjamaisformaramumconjuntohomogêneo -nãoautorizariaafirmarqueotrabalhoacabou 1 .

Emseguida,põe-seaproblematizarqualseria,afinal,arelaçãoentretraba-

lhoetempolivre,contrapondo-seaosqueemplacamtesesque,demodooramais

difuso,oramaisclaro,contémaidéiadequeaprópriasociedadedeconsumo

realizariaaliberdade.Ouditodiferentemente,o“reinodanecessidade”seriasupe-

radodentrodoslimitesdoprópriocapitalismo.

Assim,enfrentapolêmicasdesencadeadasporautorescomoA.Gorz,J.

Habermas,K.Offe,entreoutros,oquefazapresentandoreflexõesqueguardamafinida-

desexpressascomopensamentodeI.MészároseR.Antunes;soma-se,dessamaneira,

aosqueconsideramqueaconstruçãodeumanovasociedade,comumtempolivrecom

maissentido,somenteseriapossívelapartirdeumaclararupturacomocapitalismo.

Principalmentecomoresultadododesenvolvimentotecnológico,daautomação,o

tempodetrabalhotenderiaaserreduzido,fazendocomqueotempolivreseampliasse.Na

ânsiadeapresentarumdimensionamentoparaasnovassituações–ou,antes,expectativas,

queseapresentamapartirdaí,abundamtesesmalfundamentadase/ousuperficiais.

Entreosequívocosmaisfrequentes,aassociaçãoentretempolivreade-

sempregooualazer.Sãoutilizadostermoscomotempolivre,tempoliberado,

tempodisponível,lazereóciocomosepossuíssemomesmosignificado.

1 Muito diferente do alardeado pelas visões predominantes, a aceleração do desenvolvimento científico e tecnológico não tem trazido como conseqüência a elevação geral das condições de realização do trabalho. A esse propósito, não é demais lembrar que o trabalho infantil, em países como a Índia - para não mencionar regiões do próprio Brasil -, continua representando um alto percentual dentre a população economicamente ativa. E que formas diversas de trabalho penoso e/ou precário se multiplicam, mesmo nos ditos países de capitalismo avançado, com especial atenção ao trabalho relegado aos imigrantes ilegais nos Estados Unidos.

Simples,porémausentedasconcepçõesexpressaspelopensamentosoci- outubrooutubrooutubrooutubrooutubro ----- 157157157157157

ológicodominante,aidéiadequeodesempregocorresponderiaaumtempo

desocupado-equeissonãocorrespondeaumaopçãodotrabalhador-portanto,

aelesereferircomo“tempolivre”,presta-seaintermináveisconfusõesconceituais.

Paradesfazerimprecisões,aautorabuscaapresentarasdiferentesconcep-

çõesdetempolivreapresentadasporumamploconjuntodeautores.

Aofazeressadiferenciação,alémdepossibilitarumacríticacontundenteaos

autoresquetratamindistintamentetempoliberadopeladiminuiçãodajornadade

trabalhoetempolivreemfunçãododesemprego,mostraque,comodecorrência

dessadiferença,aproblemáticadotempolivrenãosecolocadamesmamaneirapara

ostrabalhadores,ouseja,paraosqueestãoempregadoseosdesempregados.

Aindaqueseevidencieumatendênciadeaumentodotempolivreem

funçãodastransformaçõestecnológicas,issonãoeqüivaleaadmitirqueessaten-

dênciasedesenvolvadeummodohomogêneo,indiferenteàsclassessociais.Pelo

contrário,opresentelivronosdáadimensãodequeénecessáriolevaremcontaa

heterogeneidadedoníveldeparticipaçãodosindivíduosematividadesdelazer,

antesmesmodeusarindiferentementeaexpressão“lazer”.

Aautoraadverteparaqueinúmerasconcepçõesdelazeredetempolivre

seriam,nolimite,conservadoras,umavezqueassentar-se-iamsobreumasocieda-

detidasupostamentecomohomogênea,equilibradaesemcontradições.E,julgo

oportunoacrescentar:algunsautoresconstróemsuasconcepçõessobrefimdo

trabalhotambémsoboefeitodesseequívoco,oqueeqüivale,sobretudo,a

desconsiderarsolenementeasdiferençasdeclasses.

Destacatambémqueaconcepçãodecertosautoresqueprofessamapossibi-

lidadedelazercomliberdadesobocapitalismo,nadafazalémdepropagarcrenças românticasquantoaotempolivre.Aspectosessenciaisdasociedadedeconsumo desaparecem,sãosubestimadosnessetipodeanálise. Éignoradoofatodeque consumotambémpodesetransformaremformadelazer–éexpressivo,nesse

sentido,oexemplodosshoppingscenters–etambémqueoprópriolazersetransfor-

maemmercadoriadeconsumo.Sãoestasalgumasdasreflexõesqueaautoranos

convidaarealizar,concluindoque,comoocapitalismoabrangedemodototalavidado

homem,nemmesmoo“tempolivre”escapaàsubordinaçãoàlógicadocapital.

Aorealizarumbrevepercursohistóricopelasformasdeincentivoàprática

delazer,aautoramostracomosedãoasestratégiaspatronaisdedomesticação

dostrabalhadores,atravésdaorganizaçãodotempodelazer.

Fazendoverque,desdeasfórmulasadotadasporregimesfascistasenazistasà

criaçãodeclubesligadosdiretamenteàsempresas,exprime-seumanoçãocomum:a

dolazercomoremédioparaosconflitosentrecapitaletrabalho.Visa-seoadestramen-

todotrabalhador,aolongodotemporeservadoaoseudescansoerecreação.

“Aempresaqueofereceserviçosdelazeraosseustrabalhadoresacabapor

aprofundaroseualcanceemoutrasesferasdavidadosindivíduos,comosehou-

RRRRR

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158158158158158 ----- outubrooutubrooutubrooutubrooutubro

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vesseumacerta“invasãoinstitucional”nocotidianooperário.Ofuncionário,mui-

tasvezes,sevêsemescolhaeseentregaàprogramaçãoquelheéoferecidapela

empresaparaocuparseutempoliberadoeparanãodeixardeparticiparintegral-

mentedas‘ofertas’desuaempresa”(p.65).

Olazerapareceria,então,comofavor,oucomopresentequeas“boas

empresas”ofertariamaostrabalhadores.

Aargumentaçãocortantevemferirostãoemmodaprogramasdeapoio

aosesportesnasindústriasefirmas,ouaindaasaulasde“aeróbica”emmeioao

expediente,adotadoscomalardeporalgumasempresas.

Porfim,peloexposto,pensamosterdestacadoqueoprincipalméritode

Tempolivreecapitalismo:umparimperfeitoconsisteemapresentar-paraum

conjuntodequestõesquenãoénovoenemsimples-reflexõesinteressantes,

originais,quevalemapenaserlidas.

Masgostaríamostambémderegistraralgumasoutrasobservações,sobre

aspectosquejulgamosquepodemsermaisaproveitadosparaampliaroescopoda

presenteanáliseteórica.

Terminamosaleituracomcertaansiedadeporummaiordesenvolvimento

dealgumasexpressõeseidéias-muitoenfatizadasaolongodoscapítulos,porém,

apenasbrevementedesenvolvidas.

Demodoresumido,suscitamasseguintesindagações:Oquepermite

afirmarqueaperdadotrabalhoacarretariaaperdado“sentidofundamentalda

vida”?Quaisseriamas“efetivasnecessidadeshumanasesociais”?Aqueaautora

quersereferirquandomencionaanecessidadedebuscadeuma“autênticaindivi-

dualidade”?Lembramosquetaisexpressõespodemtersignificadosdiferentese

atécontraditórios,dependendodopontodevistaconsiderado.

Tambémgostaríamosdeverindicações,traduzidasemtermosmaisespecí-

ficos,sobrequaisaspossibilidadesderealizaçãodotempolivremais“plenode

significados”dohomem“paraalémdocapitalismo”–umavezque,aolongode

todootexto,procuradeixarclaroqueissonãosedariasobocapitalismo.

Aofazermostaisconsiderações,longedeapontarpossíveislacunasnotexto,o

quequeremoséprovocaroaprofundamentodasreflexõessobreotemaproposto.

Sabemosqueéprecisomobilizarumamploroldeestudos–quenãose

esgotamnaanálisesociológica–parapodercontribuirmaisefetivamenteparaelabora-

çõesteóricasdessamonta,ouseja,sobreasformasderealização/libertaçãohumana.

Assim,nomesmoinstanteemqueformulamosestasindagações,admiti-

mosqueasrespostasaelasnãosãofáceis,tampoucodefinitivas:masqueexata-

menteporessarazãodevemapresentar-secomoumdesafiopermanenteparaos

pesquisadoresoriginais,rigorososecríticos.