Sei sulla pagina 1di 269

Índice

Família, Casamento, Educação

7

Prelúdio para um Casamento Morto

10

A

Difícil Arte do Casamento

14

Os Descasados

19

Incesto Emocional

22

Separação e Perícia: Advertências

25

A

Última Lembrança

Sociedade: Valores e Cultura

28

Desespero do Executivo J.S.

33

As Mulheres: O Silêncio das Inocentes

45

Duas Classes: Cultos e Incultos

47

As Constituições que Passei na Vida

53

A

Multidão Solitária

56

O

que Desejam as Pessoas?

58

Dinheiro, Nossa Atual Devoção

61

Senhores do Poder

64

Os Narcisistas Modernos

66

Os Novos Deuses Informação e Linguagem

69

“Gays”, Loucos, Ateus e Velhos

71

Televisão e Burrice

74

A

Verdade de Cada Um

77

Transtorno Médico-Psiquiátrico ou Ficção?

86

A

testemunha do Ponto de Vista Psiquiátrico

90

Quando as Palavras Mentem

92

A

Mensagem

95

Videntes: A Prostituição das Palavras

100

O

Poder do Boato

Comportamento

104

O

Dilema do Gordo: Comer ou Não Comer?

108

Diga NÃO sem se sentir Culpado

112

A

Prisão Domiciliar nas Grandes Cidades

117

Benditas sejam as Queixas

121

O Terapeuta amador

124

A Liberdade dos Jovens

129

Bichos ou Seres Humanos?

Visite nosso site! www.galenoalvarenga.com.br

3

131

Guerra, Heróis e Inocência

134

Homem: Animal Contraditório

139

Como Controlar os Acontecimentos Crendices

143

Computador e Ferradura

148

Afirmações Duvidosas

152

A

Loucura: Fabricação da Normalidade

157

AIDS: O Pânico está Solto

159

Fé: Um Poderoso Medicamento

163

A

Santa que Fala Português

Doenças e Doentes

167

Câncer: O Paciente, a Família e o Médico

174

Obsessivos e Compulsivos

178

A

Triste História dos Deprimidos

182

Tome seu Tranquilizante e Viva Feliz

184

Sono, Insônia E Pílulas

190

O

Casamento do Neurótico

193

PEDÓFILO: O Monstro de Duas Faces

195

Suicídio pela Provocação de seu Assassinato

200

Médico X Cliente

203

Confissões de uma Médica

206

A

Propósito de uma Gripe

211

Duas vertentes

214

Placebo, a Pílula Dourada

Festas populares; Lazeres

219

O

Natal de Jésus

221

Por um Natal Diferente

224

No Embalo das Últimas Férias

229

A

Boa Terapia do Carnaval

Personalidade e Neurose

235

Disque 145 para amar

238

Diante de uma Provocação

241

Os Agitados e os Sossegados

243

Solitários mas Não Isolados

246

O

Chantagista Emocional

252

O

Vasto Mundo das Drogas

Artistas e Arte

257

O Amor nas Canções Populares

265

A Pintura dos Esquizofrênicos

PARA OS LOUCOS E OS NÃO LOUCOS DESSE MUNDO

Família, Casamento, Educação

Prelúdio para um Casamento Morto

Todos nós já convivemos com casais que estão no último round de uma luta de muitos assaltos, na busca de uma separação. O que ouvimos são quase sempre as mesmas histórias, semelhantes a várias outras, ou seja, repletas de acusações mútuas, com vários lances teatrais e quase sempre enfadonhas. Nunca ouvimos do cônjuge nosso amigo um relato onde ele

se diz culpado, pois o errado é sempre o outro.

As brigas do casamento já não são mais como antigamente, quando poucas separações ocorridas eram devidas às “traições” diversas ou ao abandono do lar, geralmente por parte do homem.

Hoje elas se dão, em grande parte, pela disputa do poder. Luta-se pelo direito de dar ordens. Antigamente, o poder, quando exercido pelas mulheres, o era às escondidas, pois aceitava-se como normal os homens mandarem.

O prelúdio da separação é caracterizado por discussões contínuas, algu-

mas vezes acompanhadas de agressões físicas. Os temas debatidos, que na verdade servem de “aperitivos” para a entrada das agressões pessoais, são vários: o horário de se chegar a casa, a demora para se aprontar, o sabor ruim da comida. As diversas disputas revelam os valores anta- gônicos do casal, como as queixas quanto à escassez ou ao excesso das relações sexuais, a saída ou não de casa para fazer visitas ou passeios.

Várias condutas dos cônjuges servem para precipitar ressentimentos como: o marido fica vendo o jornal na TV, enquanto a esposa deseja conversar, a mulher quer a casa bem arranjada e o marido a suja e nem liga, um deseja ficar abraçado ao outro e este, que detesta, sente-se como estivesse assentado em espinhos.

Também os diversos projetos familiares tendem a promover brigas:

quando e onde ir nas próximas férias, onde passar os fins de semana, como educar os filhos ou os netos, qual a melhor hora de se levantar ou de se deitar, quem fará as compras.

Nos momentos finais de um casamento, tudo serve para despertar anti- patias, discussões e despertar antigas irritações transitoriamente ador- mecidas. Essas últimas surgem por motivos fúteis, tais como o modo de andar, mastigar, ir ao banheiro, dormir, roncar, dirigir, assentar-se e tossir, do outro cônjuge. E como elas ficam insuportáveis. Tudo mudou. Antes, no período do namoro e paixão, as preferências de cada um eram admiradas e encantadoras. Agora, no tempo das disputas, ela passam a ser ridículas como gostar de assobiar, soprar o café para esfriá-lo, fazer ginástica, tomar cerveja, ouvir música caipira, andar de ônibus ou fazer compras na rua dos Caetés.

Os diálogos de um casamento em fase final têm características singu- lares. Quando um cônjuge pergunta algo ao outro, ele não quer ouvir respostas objetivas ou possíveis, quer descobrir pretextos para criticar, arrumar uma briga, a partir da “deixa” dada pelo parceiro. Assim, a água retorna ao rio, reinicia-se a velha e conhecida briga interrompida por motivos alheios aos dois. Muitos desses diálogos são, de fato, metadiálo- gos, isto é, discute-se acerca dos próprios diálogos e não de algo externo à fala, como nos exemplos: “você sempre me agride” ou “você está sem- pre me acusando”. A comunicação é sobre a própria briga. Esta, quase sempre, coloca mais lenha na fogueira.

O casal lembra com saudades os velhos tempos quando havia comple- mentaridade nas conversas. Antes, quando um fazia um comentário a respeito do dia, afirmando que esse estava lindo, o companheiro, sorrin- do, concordava usando um tom de voz calmo e melodioso, achando a observação pertinente e poética. Nos prelúdios do casamento morto, a mesma declaração desencadeará uma série de agressões, muito diferen-

te dos comentários carinhosos de antigamente: “Você sempre teve um

gosto estranho, o dia hoje está horrível!” Num ambiente desses, torna-se penosa e incerta a vida a dois.

O ataque poderá surgir a qualquer momento, nenhum deles sabe quan-

do e como ele virá e essa incerteza produz insegurança e desconfiança.

As mensagens trocadas no fim do casamento são com frequência am- bíguas, como nos casos do marido que, com uma voz áspera e usando palavrões, afirma para a esposa que a ama muito, não podendo viver sem a sua companhia. Ou no caso da esposa que prepara um delicioso e requintado jantar para o aniversário do marido mas, ao mesmo tempo, mostra uma cara amarrada e de enfado na presença dele com o que está fazendo.

As tensões, ao crescerem dia após dia, levam os dois, muitas vezes, ao desespero, pois as feridas surgidas pela discussões violentas, produzem marcas que não desaparecem nunca mais. Ao mesmo tempo, a possi- bilidade de virem a se separar e terem que reiniciar uma vida longe um do outro, assusta os dois. No final de um casamento, cada um, sozinho, passa grande parte do tempo pensando acerca da vida ruim que está levando.

Alguns, depois de muitas e muitas brigas, exaustos acabam por desistir de continuar a luta: renunciam às agressões e também ao amor. Isolam- -se, cada um no seu canto, sob o mesmo teto, dormindo muitas vezes na mesma cama. Desfazem de todos os modos possíveis as comunica- ções que poderiam despertar antigas rixas. Nesses casos, aos olhos dos outros, eles passam a viver felizes para sempre. Comemoram todas as bodas possíveis e, impotentes, ficam esperando a morte os separar, pois enquanto viveram, eles não tiveram fôlego suficiente para isso.

A Difícil Arte do Casamento

Acerca do casamento todos nós podemos falar, mesmo os que nunca se casaram nem mesmo pensaram casar-se, pois tudo o que se diz é certo e ao mesmo tempo não o é. Sabemos muito acerca do casamento, porém não sabemos realmente muitas coisas. Todos nós, até os peritos em casa- mento, falham ao falar sobre este tema.

Uma pessoa se casa por dois motivos básicos: o primeiro – e a cada dia torna-se o principal – é a busca da própria satisfação e a do seu cônju- ge, através do encontro com o outro. Busca-se uma “complementação” do que lhe falta, ou seja, uma preenchimento de si mesmo. Um nutre o outro do alimento biopsicossocial. Em segundo lugar, casa-se para pro- criar, mas, diga-se de passagem, aumenta o número de casais sem filhos.

O casamento, infelizmente, contém muitos ingredientes para não dar

certo e é necessário muito esforço, habilidade e flexibilidade, para que conduza a melhores condições de vida. Vejamos alguns destes ingre- dientes frequentes em todos casamentos, variando apenas quanto ao grau: a) Passam a morar juntas duas pessoas de sexo diferente, geral- mente com suposições falsas a respeito de si mesmas. Para isso basta analisar as ideias “machistas” ou as “feministas”, para perceber os estere- ótipos imputados aos homens e às mulheres; b) Unem-se duas pessoas provenientes de organizações familiares diferentes, com atitudes, valo- res, percepções, modos de relações, ideologias e religiões diferentes. Um gosta de uma coisa que o outro detesta: um cônjuge aprecia ficar abra- çado ao outro, quando junto. Isso lhe fornece segurança e amparo. Por outro lado o outro cônjuge tem pavor desse agarramento, é como estar deitado numa cama coberta de cascalho.

A diferença entre os cônjuges é a riqueza e a miséria do casamento.

Quando quero crescer ou aprender, procuro conversar ou ler algo que

possua ideias diferentes das minhas, do contrário nada aprenderia. Bio- logicamente, há sérios riscos de casamentos entre iguais, podendo esses conduzir à hipertrofia de defeitos físicos. Do mesmo modo, cognitiva- mente, se interagirmos com iguais, poderemos, sem perceber, regredir ao ouvir e seguir opiniões e julgamentos iguais aos nossos, uma soma de nossas mazelas, pontos cegos ou condutas ingênuas. Já o casamento de pessoas diferentes, tanto no sentido estrito como no lato, pode ser um contato reparador, que nos desperta e nos faz descobrir mundos nunca imaginados.

Anteriormente a “grande família” – avós, tios, primos – vivia como um clã e seus membros interagiam uns com os outros com muita frequência. Atualmente, cada família vive quase isolada, mantendo apenas contatos esporádicos e superficiais com os parentes. Como consequência, en- quanto nossos antepassados podiam observar de perto diferentes mo- delos de vida, hoje os nossos filhos possuem, quando muito, apenas os pais, e mesmo esses muitas vezes pouco contato têm com os filhos. Nos velhos tempos os filhos presenciavam o trabalho dos pais e vivenciavam suas satisfações e insatisfações diárias. Hoje os filhos só veem o pai e mãe à noite, quando isto ocorre. Muitas crianças são educadas apenas pelas mães ou babás, sem a presença de modelos masculinos.

Os casamentos são, em grande parte dos casos, entre duas pessoas inseguras, medrosas, com pouco conhecimento de si mesmas e fazendo pouco uso de suas potencialidades, percebendo, avaliando e atuando mal nos eventos de seu mundo. Por isso, a escolha de um companheiro, não como ele é, mas como se julga, imagina e deseja que seja, baseado em suas aspirações. Espera-se, na ligação, um suporte ou direção externa que leve a alcançar uma “boa vida”, ou uma felicidade que não foi con- seguida através do esforço próprio. Julga-se que o poder de uma “vida feliz” encontra-se no outro e exige-se deste a felicidade não conseguida em si mesmo. “Só serei feliz junto a você”, “Não aguento viver sem você”.

Essas são frases comuns entre pessoas enamoradas. Nada mais falso.

Não se pensa o que um poderá fazer para ajudar o outro, pensa-se no seu oposto, ou seja, como serei ajudado já que não tenho o que dar. Está claro que após o casamento os dois percebem o que ocorreu: ambos estavam enganados. Assim, as exigências começam, pouco a pouco surgem os desgostos, as brigas, as agressões, o desespero, as ameaças e, ao mesmo tempo, a dificuldade de sair disso tudo. As agressões costu- mam ser sutilíssimas, já que os cônjuges conhecem muito bem os pontos fracos e as feridas do outro.

No casamento de pessoas mais amadurecidas, a escolha é mais bem feita, as diferenças mais respeitadas, cultivadas e até incentivadas, pois aprende-se com elas. Como não é fácil conviver com diferenças, os cônjuges amadurecidos estão sempre se modificando, utilizando novas técnicas e métodos de lidar com pequenos aborrecimentos e crises que inevitavelmente ocorrem, mas que são superados pela comunicação en- tre eles. Essa é feita de maneira clara e objetiva, sem rodeios e sem medo. Fundamentalmente, se os casais são amadurecidos, cada cônjuge con- segue reajustar-se ao novo relacionamento, criando um sistema de vida conjugal sem que este determine a extinção dos sistemas individuais.

Com o nascimento dos filhos, nova adaptação torna-se necessária, já que os cônjuges terão também de participar do sistema parental. No casa- mento de pessoas inseguras o sistema individual de cada cônjuge, que já não era claro e eficiente, vai se esvaindo no sistema conjugal e é muitas vezes enterrado para sempre, no sistema parental que poderá surgir.

Para finalizar, podemos distinguir dois tipos diferentes de casamento:

o “arranjado” e o procurado. O casamento “arranjado”, que era o pre-

dominante em épocas passadas, baseia-se na premissa básica de que “o

amor vem depois”. É o casamento de desiguais, assimétrico, onde o casal comumente tem grande número de filhos, tendo como objetivo manter

o poder social e econômico. Pouca importância é dada à relação entre os cônjuges e por isso o número de separações é pequeno.

Casamentos deste tipo ainda são frequentes nos grupos de maior poder político e econômico e em pequenas cidades do interior.

No casamento procurado, a crença básica é a de que o amor vem primei- ro e a ênfase é dada à relação entre os cônjuges que supostamente são iguais: em direitos e deveres. Geralmente são casamentos com poucos filhos e o poder econômico não é muito relevante. Casa-se para comple- mentar um ao outro e para troca de prazeres e o número de separações neste tipo de casamento é mais frequente. Estamos vivendo um período de transição com aumento do número de casamentos procurados ou livres. Mas em ambos os tipos citados, os cônjuges estão presos aos pa- drões e valores sociais mesmo quando suas escolhas são “livres”. Assim um rapaz “escolhe livremente” uma moça que tem a sua cor, cultura, valores e educação, frequenta os mesmos lugares, comunga a mesma re- ligião, o mesmo partido político e assim por diante. Ou seja, o indivíduo “escolhe” um tipo de companheira já escolhida previamente pela sua cultura, seguindo os valores que foram impressos em sua mente sem sua crítica. Poucos conseguem escapar desse domínio simbólico e descobrir outros caminhos possíveis.

Os Descasados

Após o dilema, casar ou não casar, se o indivíduo optou pelo casamento, surge um novo dilema: descasar ou não. Isto, para aqueles que têm à sua disposição, no seu mundo mental, essa opção. Alguns creem que, uma vez casados, seu casamento está “garantido”, ou seja, que não há neces- sidade do esforço de cada cônjuge para mantê-lo durante a crise que o casal atravessar. No outro extremo, encontram-se aqueles para os quais a separação constitui a principal, ou mesmo a única arma para a mais sim- ples crise. Estes últimos, diante de qualquer desavença, argumentam: “É melhor nos separarmos”, “Vou procurar o advogado” ou ainda, “Se você fizer novamente esse arroz, eu saio de casa”.

Qualquer casamento tem, inevitavelmente, inúmeras crises. Essas, bem aproveitadas, podem conduzir à produção de um casamento funcional e sadio, como meios para readaptações, que forçosamente terão de sofrer os indivíduos quando se casam.

Cada um dos cônjuges possuía, antes de se casar-se, um modelo de vida próprio, diferente do sistema conjugal formado pelo casamento. Ocor- re o mesmo quando uma pessoa que se acha desempregada, começa a trabalhar, ou vice-versa. Ela necessitará adaptar-se ao novo esquema de vida e isto é feito com algum sofrimento, apreensão e perda de conduta e valores importantes que possuía.

Busca-se no casamento uma melhoria de qualidade de vida do in- divíduo. Se isto não ocorre, o casamento fracassou e medidas devem ser tomadas para melhorá-lo ou terminá-lo, caso a melhoria não seja alcan- çada após diversas tentativas disponíveis ao casal.

Imaginemos um casal que, tendo tentado todos os recursos à sua dispo- sição e, não obtendo resultados, decida separar-se. O problema é seme-

lhante quanto ao casar ou não casar.

Antes o problema se constituía em romper um sistema de vida de soltei- ro, para passar a fazer parte de um sistema conjugal. Agora os cônjuges já comprometidos num sistema conjugal e, se tiverem filhos, também no parental, retornarão ao sistema individual após o rompimento do casamento. Mas não é fácil romper um sistema de vida e entrar em outro, quando o indivíduo já se encontra amoldado, principalmente se o

casamento durou muitos anos e, mais difícil ainda, se o casal teve muitos

e bons momentos. Não é raro que após a separação, os cônjuges, derro-

tados e amargurados, retornem à casa paterna, tornando-se novamente “filhos” e não mais “marido” ou “mulher”.

Quando acontece a separação, o casamento já estava provavelmente “doente” há muito tempo. Algumas separações iniciam-se antes mesmo do casamento ocorrer. Quando as brigas continuadas pelos mesmos temas entre namorados ou cônjuges inicia-se, cada um culpa o outro pelo ocorrido e, geralmente, recebem dos amigos e familiares – juízes parciais – uma sentença favorável. Cada um, na interpretação do respec- tivo amigo, está certo e o culpado é sempre o outro. “Como ele mudou”. “Era tão diferente quando começamos a namorar”. “Virou um monstro insuportável, notei isso ainda na lua de mel.

Cada cônjuge busca apoio nas pessoas que têm o seu próprio modelo e

isto reforça a falsa crença no “erro do outro”, aumentando e cristalizan- do as desavenças e o abismo entre o casal, onde cada um, seguido por seu exército, dá origem à guerra conjugal. Esta batalha é reforçada com

a ajuda de tropas alienígenas, isto é, advogados, psiquiatras e outros assessores.

Tudo isso ocorre em virtude de uma cegueira coletiva acerca da propa- lada ideia de “causa de um só lado”. Em toda relação, a conduta de cada um dos indivíduos é resultado de sua própria conduta e do comporta- mento do outro. Em outras palavras, se um deles muda, a conduta de

seu companheiro fatalmente mudará.

Os dois têm, em suas mãos, os lances necessários para mudar a conduta do “outro”, simplesmente agindo de maneira diferente do esperado, ou seja, em desacordo com o sistema estabelecido, desenhado, estrutura- do e compartilhado por ambos os cônjuges e não por apenas um deles. Minha mãe já há muito dizia: “Quando um não quer, dois não brigam”. Está aí, de forma simples, toda a sabedoria da causalidade circular ou do poder de ambos, em contraposição à linear, ou seja, do poder de apenas um dos indivíduos. Se sairmos do “jogo” a disputa terminará

ou, se desejarmos, fazendo uma provocação, a briga ocorrerá. Uma vez separados, a tendência normal dos descasados é a de se manterem ainda casados, seja através da continuação dos encontros ou das brigas, seja através do “casamento” com os filhos, ou até arranjando apressadamente um novo casamento. Neste último caso, o fracasso do novo casamento

é quase a regra, pois quando estamos nos afogando, qualquer “galho”

parece-nos ótimo para segurar. Um pouco mais tarde, verificamos que o “galho” salvador é fraco e não servirá para nos apoiar.

Caso o modelo mental do cônjuge não lhe permita viver só, ao procu- rar os seus familiares estará perdendo a oportunidade de “curtir” uma solidão, que, uma vez bem cultivada, poderá lhe permitir ser criativo ou recompor sua vida. O medo ao desconhecido, viver sem o cônjuge, poderá ser uma forma de crescimento individual, pois constitui um

novo modo de vida e é, talvez, o principal obstáculo à separação, quando

o casamento está se deteriorando. Outros fatores criam pressões para

a não separação: a antiga crença no compromisso “até que a morte nos

separe”, a admiração por aqueles que, mesmo vivendo mal, não ousam separar-se, o valor atribuído pela sociedade à vida conjugal, reputado como superior à vida de solteiro, a ideia de que um homem bem-sucedi- do deve estar casado, os problemas financeiros futuros, a dificuldade de educar os filhos sozinhos e, por último, o sofrimento do afastamento da família.

Esses motivos provavelmente constituem as principais barreiras contra a separação, que podem levar os cônjuges à depressão, assassinato, suicí- dio, ao surgimento de várias doenças orgânicas graves, mas também ao crescimento individual.

De qualquer modo, os primeiros meses ou anos da separação são quase

sempre dolorosos. O que fazer para escapar aos seus aspectos negativos

e alcançar os positivos? Teoricamente é simples. Todo sistema humano

é aberto e por isso transforma e é transformado pelos sistemas vizinhos.

Todo indivíduo acha-se ligado com vínculos humanos, ora mais fortes, ora mais fracos. O sistema conjugal e parental constituem, entre outros, sistemas com ligações fortes para a maioria dos humanos. Mas existem outros sistemas também fortes que o descasado poderá procurar: o de sua família, o trabalho, o lazer, os amigos, a saúde física e mental, o eco- nômico, o criativo, artístico e outros.

Rompendo-se, pela separação, o sistema conjugal e comumente o paren- tal para os homens, o indivíduo provocará uma piora na sua vida caso abandone também, ou diminua, o envolvimento com os demais sistemas como, por exemplo, afastando-se ou desinteressando-se do seu trabalho, dos amigos, família, lazer, etc. Por outro lado, se o descasado hipertro- fiar ou incrementar suas energias nos vários outros sistemas que haviam sido cortados devido ao casamento, ou ligar-se a outros sistemas grati- ficantes que não haviam ainda sido vivenciados, a separação será mais suportável, agradável e podendo, até mesmo, ser benéfica para os dois cônjuges e para os filhos.

Torna-se necessário que além da separação física, o ex-cônjuge a obte- nha também no plano psicológico. Para isto ele criará um novo “mapa” do mundo sem a inclusão do antigo cônjuge, sem esperar nada dele como a compreensão, agradecimentos, exigências, agressões, conduta moral ou imoral e assim por diante. Se possível, não mais falar bem ou mal acerca do outro cônjuge, mantendo apenas o relacionamento, caso seja preciso, estritamente necessário. Não procurar mais saber de sua

vida íntima, nem reviver as cenas agradáveis e as amargas do casamento

que terminou. Não mais tentar provar para si e para os outros quem foi

o réu e quem foi a vítima. Em resumo, para separar-se e construir bem

uma nova vida, o indivíduo necessita separar-se também psiquicamente, do contrário continuará a ser um mal casado até morrer.

Portanto, procure encontrar, ao se separar, sua própria identidade, sem

a contaminação do antigo sistema conjugal não mais existente. Adquira

sua autonomia, goze e usufrua de seus benefícios e tire de sua cabeça os antigos problemas do casamento e da separação. Em resumo: enterre um casamento morto.

Incesto Emocional

Algumas famílias escolhem – aleatoriamente – um filho, apenas um, para ser o “tutor” da família. A partir desse recrutamento os esforços desse filho não mais serão dirigidos para suas necessidades de crian-

ça, mas sim para ações adultas destinadas a unir, proteger e estabilizar

a família desajustada. Os meninos educados desse modo receberam, de

alguns psicólogos, o nome “Personalidade Atlas” – deus grego condena- do a suportar o céu nos ombros para impedi-lo de amassar a Terra.

Os estudos mostram que muitas dessas famílias são dominadas por uma mãe poderosa, egocêntrica, emocionalmente instável e pronta para xingar e explodir sob qualquer pretexto. Estas mães têm sido diagnosti- cadas pelos psiquiatras como possuidoras de um transtorno de persona- lidade ”limítrofe” (borderline), onde se inclui a irritação, impulsividade, tentativas de suicídio, autolesão, sentimento crônico de vazio, pavor de ser abandonada, além de terem um sentido da realidade diferente do das outras pessoas. Essas mães esperam, e exigem, que o resto da família aceite e apoie seu ponto de vista acerca de tudo o que ocorre à sua volta. Só ela tem razão, os outros estão sempre errados. Responde com explo- sões de ira às frustrações e decepções e, quase sempre, acusa os familia- res ou parentes de fazerem “pouco caso” dela.

É nesse ninho disfuncional que desenvolve o filho, ou filha, destinado a

suportar, apaziguar e resolver as misérias e “loucuras” ali exibidas a todo momento. Sua resposta precisa ser rápida e capaz de pôr fim às exigên- cias extravagantes da mãe egocêntrica e possessa. A culpa da vida deses- truturada e sem objetivo dos pais é colocada no infeliz e tolerante filho escolhido. Ele é forçado a participar e tomar partido nas brigas tolas dos pais: em qual programa a TV deve estar ligada, ou quanto tempo cada um deve ficar no banheiro.

O filho altruísta, nessas ocasiões, é acusado por ambos de estar tomando

o lado de um ou de outro deles. Este sofredor deverá ouvir as histórias

chatas dos pais, consolá-los com palavras vazias e adocicadas, franzir

a testa e mudar o tom de voz para demonstrar preocupação com as

queixas acerca da saúde, da estabilidade e da sobrevivência deles. Como guardião da imagem da família falida, o escolhido, ainda muito cedo, deve se engajar em atividades designadas para eliminar, camuflar ou, no mínimo, diminuir os danos exibidos pela família. Muitos desses pais

exigem sua ajuda em situações delicadas como tomar a responsabilidade em falcatruas e obrigar um dos irmãos a tomar decisões cruciais.

Geralmente a escolha é feita cedo. Pouco a pouco esse filho passa a

exercer o papel de “pai e mãe” da família, participando dos diversos pro- blemas que seriam próprios dos progenitores. Ele opina acerca do que

a mãe terá de fazer ao descobrir que o pai tem uma amante, a cuidar do

alcoolismo da mãe. Esse papel é exercido com frequência pelas crian- ças cujas mães são alcoólatras. É esse filho que vai buscar soluções para pagar as dívidas da família, opinar e decidir se os pais devem ou não se separar, ou, ainda, se devem voltar a morar juntos. Alguns pais consul- tam o filho acerca de terem ou não mais um filho, ou se seria melhor praticar um aborto. Também esse infeliz poderá dizer ao pai, inventando uma mentira, que sua mãe foi fazer compras, quando esta, de fato, estava com o namorado.

Muito cedo aprendem a cozinhar, limpar, comprar e cuidar dos irmãos mais novos, inclusive impedindo-os de ver a mãe cambalear ou des- maiar. Fazendo o papel de “mãe” da mãe, elas ajudam-na a comer, fazer sua higiene ou a ir-se deitar. Com o tempo, essa tarefa passa a ser reali- zada rotineiramente. Além de cuidar dos pais, essa criança mantém em segredo as informações negativas da família. Estas “escolhidas”, olhadas externamente, são elogiadas pelos pais, parentes e amigos, percebidas como perfeitas, cooperativas e “devotadas” aos pais. Isso as anima a con- tinuar nesse caminho ingrato.

A criança escolhida para ser o “provedor”, pode exercer também a

função de “esposo substituto” para o cônjuge desesperançado, solitário

e infeliz. Caberá a ela fornecer ao cônjuge o apoio emocional e compa-

nhia que deveria vir do outro esposo. Para alguns autores essas crianças são vítimas de “incesto emocional”, uma forma séria de abuso por ser a criança seduzida a fazer um papel familiar que não compete a ela e nem

é esperado culturalmente.

Altamente treinados para esse trabalho de ajuda, mais tarde esses “pa- cientes” preocupados e sensíveis aos problemas dos outros, não de si mesmo, provavelmente encontrarão outros exploradores e, explorados

por esses, irão ocupar posições de responsabilidade, continuando a fazer

o que aprenderam precocemente: ajudar as pessoas a qualquer preço.

Casam-se, muitas vezes, com mulheres tendo o mesmo perfil de sua mãe

e cuidam delas para sempre. Estes santos ou altruístas fanáticos, que vi-

veram orientados pelos problemas alheios e não pelos próprios, morre- rão, possivelmente infelizes e arrependidos, por não terem escolhido, há muito, um caminho diferente do trilhado.

Separação e Perícia: Advertên- cias

Fim do casamento. O juiz normalmente determina que a guarda dos filhos menores fique sob a responsabilidade da mãe destes. Este modelo de custódia dos filhos tem sido aceito sem maiores discussões, por quase todos os que se separam. Excepcionalmente, alguns cônjuges investem contra essa regra. As alegações, para tentar impedir que o cônjuge “ini- migo” fique com a custódia dos filhos, ou até mesmo faça visitas a eles, são as mais diversas. Há outras regras de custódia do filho, entre elas a “custódia compartilhada” recentemente divulgada pela mídia.

O advogado, ao ouvir as queixas apaixonadas e agressivas do cliente,

imagina ser o outro cônjuge um louco ou crápula. A descrição, fruto de percepções distorcidas, mescladas a fortes emoções, procura criar uma história plausível para impressionar o juiz, o advogado e, por que não, a si mesmo. Espera-se, com a história fantástica, justificar as ações ora adotadas, conquistar a simpatia dos amigos e, se possível, receber uma sentença favorável do juiz. Tenta-se de tudo para alcançar o pretendido, inclusive a destruição, parcial ou total, do ex-amado, que, diga-se de pas- sagem, nada mais é do que o pai ou mãe dos filhos e que será, no futuro, um provável sócio e colaborador na educação destes.

Não é raro ver o advogado ficar “decepcionado”, ao conversar com o “monstro”. Por mais que investigue, não descobre o esquisito parceiro descrito pela história contada pelo cliente enfurecido. O advogado, ao relatar a impressão favorável, muitas vezes é dispensado pelo cliente, que imagina: “Foi comprado, ou talvez conquistado?” Outras vezes, afirma:

“É fingido, parece anjo, mas na verdade é um demônio… você verá.”

O cônjuge, contaminado por emoções violentas e conflitantes, mergu-

lhado até a alma nessa briga composta de amor e ódio, tenta destruir o “inimigo” de todas as formas possíveis, acusando-o de louco, impotente ou homossexual.

Os insultos, visando a impedir que o acusado tenha direito à guarda dos filhos ou de lhes fazer visitas a esses, não terminam aí. O acusador en- furecido tem outros nomes para seu atual inimigo: alcoólatra, drogado, paranóide, incestuoso, irresponsável, pródigo e agressor físico. Já assisti a tudo, existem outras acusações mais sutis e estranhas, mas as citadas são as mais divulgadas.

Os juízes, diante das acusações acima descritas, podem pedir ajuda técnica aos psicólogos e psiquiatras para melhor fundamentarem seus pareceres. Esses profissionais, chamados a opinarem como peritos, são lançados na disputa, devendo julgar se o suposto “paciente” é, na rea- lidade, o que a acusação afirma: um louco ou coisa semelhante. Caso o “defeito” for constatado, o “réu” poderá ficar impedido da guarda dos filhos, de visitá-lo e, até mesmo, de se separar. Recebendo o diagnóstico psiquiátrico, o cônjuge, ao ser denominado “louco” e, consequentemen- te, estigmatizado pela sociedade, sofrerá as sanções da lei, inclusive, dependendo do rótulo recebido, tornar-se ”incapaz de gerir sua pessoa e seus bens”.

Em virtude das consequências sérias para a vida do “acusado”, torna-se obrigatório que os psiquiatras e psicólogos esclareçam aos magistrados, advogados e à opinião pública em geral, sua ignorância e incerteza acer- ca do comportamento humano e, como consequência, de seus diagnós- ticos e pareceres feitos com muito amor e dedicação. Só o charlatão, o inculto e o profissional desonesto afirmam ter certeza acerca dos resulta- dos de seus exames. O perito sério e competente não pode simular uma falsa impressão de segurança nos seus achados, pois esta certeza não existe em nenhuma ciência, nem nas chamadas “exatas” – hoje não tão exatas assim – muito menos na área psicológica.

O perito chamado deve verificar, com extremo cuidado – para não piorar o que já se encontra deteriorado – se o examinado tem ou não capacidade para cuidar do filho ou de se separar.

Ele é chamado para opinar sobre isto. Sua missão fundamental não é verificar se existe um transtorno e fornecer um rótulo psiquiátrico para o magistrado, mas se o problema – se existente – é crônico ou inter- mitente, sutil ou óbvio, quais estresses existem e quais podem estar favorecendo o aparecimento do quadro clínico atual, bem como era a personalidade anterior do examinado. Precisa examinar a existência ou não de outros fatores tais como: se ele tem ou não a ajuda de parentes ou amigos, se tem ou não consciência de seus problemas, se ele está seguin- do algum tratamento e qual o efeito que a doença tem tido, ou poderá ter, sobre a criança em discussão, se é que possa ter algum. O melhor guia para um comportamento futuro é o comportamento passado do indiciado.

Ao verificar a existência de sintomas e sinais é necessário examinar se estes são compreensíveis – adequados – ou não, para a situação vivi- da. Assim, a Classificação Mundial de Doenças Mentais, o CID 10, e a americana, DSM IV, trazem, como exemplos de grandes estresses, entre outros, a separação conjugal, o afastamento dos filhos, as perdas finan- ceiras, os problemas com a justiça e a mudança de domicílio. Como se vê, todos esses fatores ocorrem, em maior ou em menor grau, durante as separações conjugais.

Portanto, qualquer exame psiquiátrico realizado durante essa luta, fatalmente vai detectar sintomas e sinais psicológicos característicos de algumas doenças mentais, que não apareceriam, caso não existissem os problemas que estão sendo vivenciados no momento pelo indivíduo.

A Última Lembrança

Eu era ainda criança, quando fui acordado, naquele início de manhã do dia 18 de novembro, pelo ruído preguiçoso e monótono das gotas de chuva que, insistentes, tentavam penetrar através dos vidros da janela. Saí do meu torpor ao perceber que algo de anormal acontecia fora do quarto. Sussurros incompreensíveis alcançaram meus ouvidos. O que es- taria acontecendo? Amedrontado e curioso saí rápido do leito buscando uma resposta. Assustei-me! A casa estava cheia de parentes e vizinhos, alguns chorando, abatidos, conversando entre si.

Sem ainda decifrar o que se passava, conduziram-me rapidamente ao quarto onde ele estava acamado há meses. Meu dever, naquele momen-

to, era dar-lhe o último adeus, o abraço de despedida. Os outros irmãos

já tinham cumprido esse ritual. Confuso, aproximei-me do seu leito e

pude observar sua respiração ofegante através das contrações desorde- nadas e custosas dos músculos do tórax e do pescoço que, teimosamen- te, tentavam levar ao seu debilitado organismo um pouco de oxigênio. Percebi, com olhos de ternura e pavor, que meu pai estava se acabando. Ele agonizava.

No quarto escuro, as janelas fechadas, invadido por pessoas desesperan- çadas, pairava um terrível silêncio. Colocado diante dele, abraçamo-nos sem nada pronunciarmos. Automaticamente, ele respondeu à minha despedida já com grande dificuldade, colocando seus magros e fracos braços em torno do meu ombro de menino assustado. Sua respiração estava acabando.

Meu pai continuou lutando contra a morte até às 15 horas daquele dia. Lá fora, a chuvinha miúda e cansativa transformou-se, repentinamente,

numa violenta tempestade. Ventos fortes e nuvens escuras formaram-se.

O silêncio existente no quarto foi quebrado quando ele se despedia desse

mundo. Nesse momento, relâmpagos e trovões explodiram no ar. Em seguida caiu uma pesada chuva, bonita e triste. Emudecido no meu canto, abafado e sozinho no meio da multidão, assistia, pela primeira vez, à morte de alguém. Imaginei que meu pai estava viajando, feliz por ter a companhia da tempestade, que ele tanto amava. A partir daquele momento, minha vida mudaria para sempre sem a sua presença física.

Sociedade: Valores e Cultura

Desespero do Executivo J.S.

Os valores, muitas vezes contraditórios, contidos nas ações e nas ideias das pessoas que nos são simpáticas — nosso grupo de referência — são pouco a pouco assimilados e fixados em nossa mente, passando a consti- tuir nosso sistema de crença. Nossa conduta, no dia-a-dia, é uma procu- ra das metas que satisfazem, a curto ou a longo prazo, valores existentes nesse sistema. Na ilusão de que nossos valores são os certos, tentamos convencer nossos semelhantes a segui-los.

Pensando em valores, lembrei-me do meu amigo J. S. e do seu desabafo quando nos encontramos, numa segunda-feira, na porta do Banco do Brasil, na Faculdade de Medicina, encontro que durou mais do que eu esperava.

J. S., hoje com 57 anos, é um homem rico, dono de lojas de tecidos em BH, aposentado do Banco do Brasil, bem casado e com cinco filhos, que não lhe dão trabalho. Nascido e criado em Poço dos Perdões, chegou a BH com 18 anos incompletos, ao receber a advertência de seu pai:

— Está na hora do filho homem largar a família e viver por conta pró- pria.

Seus primeiros dias aqui foram de penúria, tendo passado até fome:

entregou marmitas, vendeu jornais, lavou carros. E conta, rindo:

— Até gigolô já fui, num período pior… mas por pouco tempo…

Pouco a pouco sua sorte foi mudando: entrou como servente do banco, passou para contínuo, caixa, gerente e assim foi subindo. O que nunca lhe faltou foi inteligência, persistência e coragem, e esta ele possui até demais.

Começou a ganhar dinheiro, economizou, empregou o que guardava com sabedoria e casou-se com sua colega de trabalho, que também era poupadora. E tudo foi dando certo.

Esse início de vida, entretanto, não foi tão ruim como parece. J. S. “era feliz e não sabia”, como me contou:

— Era um homem que sabia o que queria, e, quando tinha dúvidas, estas eram simples e fáceis de solucionar, tais como: sair ou não sair certa noite, colocar os filhos num ou noutro colégio, bater ou não neles para educá-los. É, nessa época eu decidia quase tudo sozinho ou, no máximo, com a colaboração, apenas, de minha mulher.

Ao abrir as primeiras lojas, junto com os filhos, começaram as incerte- zas e seu desespero atual. A princípio, num tom de voz calmo e seguro, contou-me que, à medida que foi enriquecendo, conheceu muito mais pessoas. Participou de encontro de casais e mais tarde coordenou alguns encontros. Entrou para a Associação Comercial, tornando-se um dos di- retores. Aceitou, com orgulho, o convite para fazer parte do Lyons Clube e, mais tarde, do Rotary. Tornou-se membro da diretoria da Associação Atlética do Banco do Brasil, frequentando inúmeras reuniões, clubes e festas promovidas por seus diversos amigos e colegas. Hoje, J. S. per- tence a mais de vinte diferentes grupos de associações, estando ligado a mais de uma centena de pessoas.

Em todos os grupos existem indivíduos que acreditam que certas con- dutas são corretas e, desse modo, pressionam J. S. a segui-las. Convence- ram-no a vestir certas roupas, antes nunca imaginadas, a morar noutro bairro, a frequentar uma igreja diferente, a ir a certas reuniões e não a outras.

Quando jovem, J. S. não pedia nem permitia que dessem palpites em sua vida. Naquela época ele conversava mais consigo mesmo, um pouco

com os amigos do banco e, ocasionalmente, com a sua mulher. Agora, envolvido e comprometido com todas essas pessoas de opiniões dife- rentes, J. S. confundia-se ao tomar as mais simples decisões. As suges- tões sobre o que fazer, diante de qualquer fato trivial, vindas de todos os lados, sufocavam-no. Ele, gesticulando, deixou escapar tal irritação, indicando que algo grave estava acontecendo:

— Eu não sabia mais se podia ou não beber cachaça, ou se devia beber

somente uísque, qual bairro seria apropriado para morar de acordo com o meu status – eu nem sabia bem qual era meu status – onde deveria passar as férias. Aconselharam-me a comprar uma casa em Guarapari, isso faz muitos anos. Depois disseram-me que lá não era um bom lugar para pessoas do meu porte, e acabei vendendo a de Guarapari e com- prando uma outra em Cabo Frio. Mais tarde foi a vez de Búzios, e agora andam falando que o chique é passar as férias em Fernando de Noronha ou na Europa. Não entendo mais nada.

— É, a vida é difícil, – respondi sem saber o que dizer.

— Mudei, para adaptar-me aos grupos, o meu modo de andar, de falar,

de comer, de pentear, enfim, de tudo, tudo mesmo! J. S. deu uma respira- da funda, limpou o suor do rosto com as costas da mão e continuou seu desabafo:

— Comecei a comer comidas desconhecidas e ruins de gosto: escargot,

strudel, fondue, tournedos, em lugar de feijão com arroz, bife e batatas fritas. Aconselharam-me um analista, um famoso da zona sul. Uma vez por semana deito-me num divã e falo para o teto tudo que me vem à cabeça, todas as minhas intimidades, ditas para um homem barbado… não sei para quê. Criticado de um lado e do outro, acabei modificando minhas técnicas sexuais aprendidas na zona boêmia de B H. Ensinaram- -me novas maneiras, mais modernas, baseadas nas ideias do casal Mas- ter e Johnson, do Relatório Hite, de Albert Ellis, Alex Confort e muitos outros, dezenas deles. E agora…

A respiração de J. S. estava ofegante. Ele não mais controlava seus pensa- mentos, que saíam aos borbotões. Pressenti que a sua confissão alcança- va o clímax. Ele deu um suspiro profundo, pigarreou, limpou, mais uma vez o suor que escorria pela sua testa e prosseguiu com sua confissão:

— Agora… essa está me enlouquecendo. Sugeriram-me que deixe mi-

nha mulher – não é a amante, não – é minha esposa, a mãe dos meus filhos, transar com outro homem. Argumentam que isso é avançado e moderno, que só os machistas vão contra isso, por desejarem ser donos das mulheres.

J. S., nesse momento, abaixou a cabeça, seus olhos brilhantes fixaram um

ponto do chão e assim permaneceu por um longo tempo. Eu, sem saber o que falar, permanecia quieto no meu canto, identificando-me com seu desespero e suas dúvidas, que são as de todos nós. Controlava-me, como

podia, para não dar mais um palpite em sua vida já tão cheia de opini-

ões.

Ele estava aprisionado num mundo de valores desencontrados, introdu- zidos sutil e lentamente. J. S. não conseguia conciliar na sua mente valo- res tão diversos, alguns oriundos do interior de Minas e outros adquiri- dos das novelas e dos intelectuais de vanguarda. Eles não se misturavam.

J. S. fitava-me, implorando mais um conselho:

— O que eu vou fazer? Estou sem saída!

Ele olha para mim triste e envergonhado por ter falado tanto, mais do que seu normal, de ter sido fraco conforme seu sistema de crenças. Sus- pirando fundo, desabafou, despedindo-se:

— Tenho pensado até no suicídio. Sinto que não sou mais o mesmo.

Não me reconheço. Deixei de ser o J. S. que conhecia e não sou mais

ninguém. Penso, às vezes, em reconstruir tudo, mas faltam-me forças e liberdade para isso, pois os amigos, sempre vigilantes, não deixam. Gos- taria de voltar a ser o que era, largar tudo que criei após minha mocida- de, pôr fogo no dinheiro maldito, abandonar os clubes e as associações, bem como os políticos, igrejas e amigos.

Assim, teria mais tempo de conversar comigo mesmo, como antigamen- te, livre de toda essa gente maldita, com seus palpites sobre tudo! Até logo…

As Mulheres: O Silêncio das Inocentes

2.2 Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor;

2.3 Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a

cabeça da igreja; (…)

2.4 De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim tam-

bém as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos.

São Paulo: Efésios, 5: 22 – 24

Infelizmente o apóstolo Paulo continua tendo muitos seguidores. Dis- cursos como os de Paulo encontram-se disseminados nas famílias, esco- las, mídias, religiões, artes e leis. Por isso, aprende-se cedo a discutível crença da inferioridade da mulher, uma afirmação sem apoio empírico. Esse tipo de julgamento desvaloriza os papeis, as condutas e o próprio gênero feminino e, uma vez ensinado e aprendido, domina a mente de todos. A separação dos seres humanos em dois grupos, masculino e feminino, por ser um fenômeno complexo, uma vez utilizada, contagia inúmeros aspectos da vida diária. A história do homem tem sido gover- nada por falsas ideias. As ideologias transformam as pessoas em vítimas ou escravas das crenças difundidas.

O aprendizado da submissão

A criança, após o nascimento, é domesticada pelos sistemas de crenças

existentes na cultura onde vive. São os pais que, por sua vez, aprenderam dos seus pais, os transmissores das ideias. Como depositários e difusores dos fundamentos do raciocínio, entre eles, os não-igualitários acerca do sexo, os pais tendem a escolher para suas filhas “meigas”, nomes suaves como Dulce, Cândida ou Felicidade. Para os meninos “rudes”, nomes de sábios, atletas ou artistas: Homero, Romário ou Fernando.

Embora na fase pré-verbal a criança ainda não seja capaz de nomear o próprio sexo, bem como o dos outros, ela aprende a diferenciá-lo, ob- servando as reações e as comunicações afetivas expressadas pelos pais, parentes e outros. Ora eles sorriem, ora fazem comentários de aprovação quando os filhos entram em atividades julgadas adequadas. Ao contrá- rio, exibem emoções indicativas de rejeição, quando as atividades são julgadas impróprias. A atitude dos pais diante dos filhos, sancionando ou reprovando uma ou outra conduta, indicam e prescrevem as condu- tas desejadas e, junto com o comportamento, as emoções a ele ligadas, agradáveis ou desagradáveis, conforme executam uma ou outra ação. Frases como: “Oh! Há um menino no quarto.”, dita por um pai vendo a filha chutar bola, serve como uma crítica para a menina, indicando-lhe não ser aquele um brinquedo adequado.

Outras atividades vão sendo executadas e testadas, gratificadas ou puni- das, conforme a categorização cultural e as emoções expressas durante sua realização. Iluminados pelo mesmo simbolismo, os quartos são decorados de forma diversa para um e outro sexo. O menino usará calça azul e a menina vestido rosa. Os cabelos têm também estilos e tamanhos capazes de distinguir um do outro. Aos poucos, o estereótipo é mate- rializado através de ações: brinquedos e materiais educacionais diferen- ciados. Para os meninos, máquinas, veículos, equipamentos de esporte e para as meninas, bonecas, mamadeiras, itens domésticos e flores. Os presentes “masculinos” devem orientá-los para futuras profissões, os “femininos” destinam-se ao aprendizado de atividades domésticas. A agressão fica bem para meninos, não para meninas e milhares de outras orientações.

Mas a construção da mulher não é tecida apenas por diferenças inocen- tes. A rotulação usada para separar o masculino do feminino carrega, disfarçadamente, significados mais profundos com respeito aos papeis, profissões e habilidades gerais. Cedo, a criança nota que pertencer a um gênero criará grandes diferenças e, para piorar, intimamente enraizado

ao conceito do permitido e do proibido, a cultura quase sempre enaltece as condutas masculinas e menospreza as femininas.

A construção da submissão

De todos os lados, sem percebermos, somos bombardeados por con- dutas-modelos – nítidas e frequentes demais – indicativas da maneira “correta” de se comportar conforme nosso gênero. Esse aprendizado, as- similado sem digerir, ao modelar a personalidade infantil carrega inter- namente inúmeros e imperceptíveis apelos à ordem masculina/feminina:

hipóteses, afirmações e modos de agir. Nas novelas e nas propagandas de TV, os estereótipos existentes afloram a todo momento, quase sem- pre engrandecendo, sem preocupação pedagógica, os papeis e valores tradicionais existentes na cultura do dia-a-dia. Os homens são mos- trados como dirigentes sérios e importantes, bem ajustados, enérgicos, habilidosos e ambiciosos. As mulheres são “usadas”, muitas vezes, para embelezar o ambiente, ou como anfitriãs, apresentadoras, animadoras, sedutoras e emotivas, sempre cuidando de alguém, ocupando posições desvalorizadas socialmente, tais como babás, donas de casa e outras.

Junto aos amigos, os estilos de conduta continuam sendo modelados e confirmados. Cada companheiro elogia ou critica o outro ao escolher a atividade apropriada ou inapropriada segundo o credo. Deve ser lem- brado que esse grupo não forma um conjunto isolado, pois encontra-se preso aos pais, à Igreja, professores e, principalmente, aos companheiros, isto é, ao grupo de referência.

As pregações da Igreja têm sido tradicionalmente marcadas por afirma- ções indicando uma “enorme diferença entre homens e mulheres”. Além da postura antifeminista explícita – condenação de mulheres por falhas à decência, sobretudo em matéria de trajes – a Igreja tem mantido e di- vulgado, do alto de sua sabedoria e poder, uma visão negativa acerca das mulheres, da feminilidade e, através dos séculos, tem inculcado, explici- tamente uma moral dominada por valores patriarcais.

Visite nosso site! www.galenoalvarenga.com.br

35

Um último problema: se, por um lado, algumas ações desempenhadas pelas mulheres são aparentemente aplaudidas e elogiadas, como o trabalho de cozinha, a costura, a limpeza, a maternidade, o ensino ou o secretariado, por outro, mais implicitamente, as mesmas atividades são depreciadas pela voz popular em geral. Nota-se que, nas entrelinhas, aparece um sentimento velado, inconsciente, sugerindo “a menor impor- tância” dessas atividades que são “trabalhos simples” e “pouco significa- tivos.” Entretanto, boa parte das atividades “masculinas” são explicita- mente elogiadas, valorizadas e cobiçadas pelo povo em geral: executivos, jogadores, pilotos, banqueiros, gerentes.

Processador cognitivo e categorização

O processador cognitivo de informações da criança vai sendo construí- do através do armazenamento de ideias e emoções ligadas aos aconteci- mentos: não só as experiências diretas vividas, mas também as sensações e observações sentidas acerca das condutas dos pais, amigos, professo- res, artistas da TV etc. A criança vai aprendendo a categorizar tanto a elas próprias, como também aos outros meninos ou meninas, retendo informações substanciais acerca das peculiaridades e papeis próprios de cada sexo. A partir dessas informações gerais, básicas, ela extrai orienta- ções concretas para sua própria conduta e crítica dos outros.

Aos poucos, a criança torna-se apta para deduzir e sentir, através de suas auto-observações e autocríticas, sentimentos de prazer e orgulho, ou de sofrimento e humilhação, por possuir, ou não, esta ou aquela caracterís- tica. Inexoravelmente ela descobre que os papeis importantes na socie- dade estão reservados para os homens, pois é fácil notar que eles são os principais dirigentes políticos, espirituais e financeiros. Além disso, na sua própria casa, quem manda e quem decide, além de ser mais respeita- do, inclusive por sua mãe, é seu pai.

Grupos Ideológicos

Visite nosso site! www.galenoalvarenga.com.br

36

Os principais grupos ideológicos de nossa sociedade, começando com os familiares, cooperam para o mesmo fim: a pregação, explícita e im- plícita, da inferioridade da mulher. Em todos os lugares, diariamente, as crianças são educadas, treinadas e ajustadas para assimilarem essas cren- ças delirantes. Os grupos inoculadores de crenças, unidos pelo discurso pró-masculino, fazem parte de uma forte e poderosa rede, avaliando e aprovando as regras da conduta. A obediência à palavra, através dos tempos, tem sido uma tendência natural do homem, tomando o mapa pelo território, a palavra pela coisa, a ideia pela realidade. As ideologias, além de doutrinárias, de explicarem dogmaticamente tudo, também assimilam os fatos observados e mesmo experimentados, fazendo-os desaparecer quando eles poderiam ser úteis para contestar e destruir a fala utilizada. De outro modo, as ideologias, para sobreviverem, preci- sam rejeitar os fatos.

As falsas suposições, ao invadirem a mente humana, contaminam, como um vírus, todo o modo de pensar e de sentir. Do mesmo modo que, para respirarmos, precisamos do oxigênio fornecido pelas plantas, para compreender o ambiente externo e o nosso próprio eu, bem como para prescrever ações e imaginar seus resultados, precisamos de símbolos, ideias e mitos, todos construídos pela cultura. Essa sopa complexa de conceitos, tanto pode fornecer o oxigênio para criarmos ideias adequa- das, como também gases tóxicos, tornando-nos incapazes de pensar adequadamente. Nosso espírito acha-se mergulhado nesse caldo espesso. Selecionamos e extraímos dele os significados para avaliar os “fatos do mundo” e, entre outros saberes, as conjeturas do que é, e do que não é, correto e valorizado para as mulheres e homens. Como consequência, nossas interpretações do meio ambiente, nossas decisões do que fazer, querendo ou não, bem ou mal, estão assentadas nas crenças semeadas, aprendidas e cultivadas, com muita fé, pela cultura onde vivemos. Como muito bem alguém se expressou: “E impossível compreender algo que seja exterior e contrário ao tecido da interpretação permitida.”

As noções transmitidas, ligadas aos fatos vivenciados, uma vez impres- sas e estruturadas passam a controlar o modo de processar informações focalizadas no momento por cada pessoa. É através dessas hipóteses aprendidas, e não comprovadas, que a mente da mulher julga a si pró- pria, as outras mulheres, os homens e as relações entre eles. Muitas vezes, privadas de outros “programas mentais” diferentes do imprimido, para decifrar o observado, a mulher irá se avaliar – e não poderia ser di- ferente – conforme regras rígidas e simples armazenadas em sua memó- ria, prontas para serem detonadas: isso é certo, aquilo é errado.

A submissão da mulher torna-se, pela educação e condicionamento continuado, não um ato de escolha consciente e livre, mas sim uma obediência às pressões exercidas por forçar internas; um poder inscrito duradouramente sob forma de esquemas de percepções, de disposições, de como admirar, respeitar, amar etc. Em consequência, automatica- mente, a pessoa torna-se sensível e reativa, ou insensível e não reativa, a certos eventos. Ela reage prontamente a um ou outro estímulo e não reage a outros.

Em qualquer lugar, em qualquer tempo, a mulher – como também o homem – pensa e age comandada pela sua memória autobiográfica. Para alguns, sua consciência, nada mais é do que o aprendido, na maioria das vezes sem o desejar, trilhões de experiências armazenadas e disponíveis são usadas no momento da avaliação e da ação. É mais fácil reagir ou escapar de uma ordem externa, do que libertar-se da “prisão perpétua”, de uma imposição que vem de dentro. Apesar de não existirem escolhas livres, pois só podemos pensar com o que temos internamente, muitos imaginam que agem de uma maneira ou de outra devido à sua “liber- dade” de escolha. Nada mais enganador, as bases do raciocínio foram semeadas por mãos alheias apesar de serem percebidas como pressões para agir de um determinado modo. Isso torna extremamente difícil, ou impossível, lutar contra essas ideias espúrias que, uma vez assimiladas e incorporadas em nossa mente, passam a fazer parte da estrutura mental do infectado, levando seu portador a não mais saber qual parte pertence

ao vírus e qual pertence a ele próprio.

O indivíduo contaminado e dominado pelas ideias alheias, passa a

defendê-las, identificando-se com a crença do invasor, mesmo quan- do os princípios assimilados atuam contra o desenvolvimento de suas potencialidades. De um modo geral, acostumadas desce cedo a conviver com esse sistema assimilador defeituoso, elas tendem a rejeitar possíveis contestações às crenças que habitam sua mente e que as escravizam, bem como toda verificação empírico-lógica apresentada externamente.

Entretanto, elas não são totalmente fechadas ao mundo exterior. Têm necessidade de alimentar-se de verificações e confirmações das crenças adquiridas, selecionando somente os elementos ou acontecimentos que

as confirmam. Para isso, os eventos são filtrados pelo assimilador men-

tal e cuidadosamente submetidos a uma peneirada, retendo apenas os resíduos possíveis de serem assimilados pelo mapa defeituoso, isto é, os fatos que confirmam a inferioridade.

Em consequência, o Eu da pessoa que executa as atividades percebidas pelo sistema de pressupostos da cultura como “inferiores” – funções pouco desejadas e de menor importância social – fatalmente irá se classificar como membro do grupo dos menos capazes, dos rejeitados e sem regalias. A maioria das mulheres, sem nem mesmo atinar para esse aprisionamento claro e visível demais, vasto e duradouro demais, imagi- nam tudo naturalmente como fazendo parte do gênero feminino bioló- gico como a altura, o tamanho dos músculos, a distribuição de pelos, o tipo de mamas, etc., características físicas sem possibilidade de serem mudadas. Imersa nesse cipoal de conceitos restritivos, a mulher ficou impedida de tentar, ou mesmo imaginar, investir em atividades conside- radas apropriadas para os homens. Derrotadas e submissas, muitas vezes acreditando pouco na sua própria capacidade, assim vive a maioria das mulheres desse planeta. Muitas, apesar de degradadas pelas afirmações tendenciosas, continuam defendendo e lutando, até à morte, pelas prer- rogativas masculinas que as dominam e as massacram.

A ilusão do privilégio masculino

O privilégio masculino não deixa de ser, em parte, enganoso. Os ho-

mens, como as mulheres, também estão dominados pelas crenças culturais a respeito do próprio sexo e do das mulheres. As regras de

como se comportar pressiona o homem a confirmar, em toda e qual- quer circunstância, as prescrições embutidas nas normas existentes a

respeito do seu gênero, isto é, de sua virilidade. O “homem verdadeiro”,

o macho, é aquele que comporta-se procurando, a todo custo, honrar

a masculinidade idealizada pelo grupo de referência pois, só assim, ele

alcançará a glória, a distinção entre seus pares e ouvirá o elogio espe-

rado com ansiedade: “este sim, é que é um homem.” A maioria não se apercebe da representação dominante na qual está inserido: ser homem implica uma maneira de andar – como se isso fosse natural – aprumar o corpo, erguer a cabeça, pisar duro, mostrar uma atitude e uma maneira de pensar e agir, bem como possuir uma ética e crença adequada ao seu sexo masculino.

A “estrutura masculina” assimilada funciona como uma pressão que

impele o homem viril para um destino que ele não escolheu. Este impul-

so invisível e astuto, sentido como inevitável, obriga seu possuidor a agir, sem raciocinar, conforme os cânones impostos e, uma vez acomodada no ninho propício, transforma-se num ente superior incorporado ao organismo. A ideia-mãe, dando crias, ou seja, formando novas opiniões correlacionadas, funciona como um destino, uma inclinação que deve ser cumprida a qualquer preço. A identidade desejada, inscrita em sua alma, só será alcançada por aquele que obedecer, cega e fielmente, a or- dem superior. A submissão à doutrina transforma-se no ideal supremo.

O sistema de exigências, torna-se um hábito, comandando a forma de

viver da pessoa.

Para provar a “masculinidade”, exibir e exercitar o comando interno da virilidade, inúmeros ritos foram instituídos pelo sistema de crenças,

Visite nosso site! www.galenoalvarenga.com.br

40

convertendo-se em atos, criando corpo: calouradas bem como outras festividades existentes entre escolares e militares. Estupros coletivos – variante da visita em grupo às casas de prostituição, comuns antigamen- te, brigas de torcidas, quebra-quebras, pichações em lugares perigosos, esportes de alto risco, assassinatos em defesa da honra, etc. A demons- tração de “coragem”, sinalizadora da virilidade, é exigida em diversos grupos masculinos: policiais e forças armadas, principalmente as corpo- rações de elite, bandos de delinquentes, trabalhadores em diversos gru- pos, etc. Em todos eles, incentiva-se o enfrentamento do perigo e critica- -se o uso da prudência. Nesses casos, a bravura e a nobreza somente são admiradas, caso a pessoa enfrente a possibilidade de sofrer acidentes.

O que mais chama a atenção em todas essas condutas próprias dos “machos”, é que elas apoiam-se, paradoxalmente, no medo de perder a autoestima e a estima dos outros, caso não consiga, ou não seja capaz, de se comportar conforme as normas impostas. O ato de “coragem” manifesta-se, provocado pelo medo, de ser tachado de covarde, mulher- zinha, efeminado ou veado, gerando insegurança na mente do acusado. Portanto, diversas condutas masculinas promovidas para demonstrar “coragem”, assentam-se no receio de ir contra a opinião generalizada do grupo, em ter que agir da forma estabelecida pelo domínio simbólico, pois só assim provará para os outros e será proclamado viril. Agindo de forma diferente poderá ser excluído do mundo dos homens fortes, sem fraquezas, dos chamados de “duros”, como certos assassinos, torturado- res, alguns patrões e professores.

Ardil para estabilizar a sociedade: Os papéis

Para que haja harmonia social, é preciso nivelar, isto é, conduzir para um ponto comum a forma de pensar das pessoas. Para que haja a repro- dução da força de trabalho há necessidade, não apenas da reprodução da qualificação profissional, mas também, e ao mesmo tempo, que haja a reprodução da submissão às regras da ordem estabelecida. Não have- ria ordem e harmonia nas ações caso não houvesse um entendimento e

Visite nosso site! www.galenoalvarenga.com.br

41

acordo com respeito à ideologia dominante: é preciso que todos compre- endem e aceitem, com naturalidade, as informações culturais simples, entre elas quem deve e pode mandar, quem deve e precisa obedecer.

Da mesma forma, para que haja “harmonia social” entre os sexos “su-

perior” e o “inferior”, torna-se necessário que os símbolos usados pelo “superior” – manipulador do domínio e da repressão (Estado, Direito

e Polícia) possam ser entendidos pelo “inferior” dominado – povo em

geral – se possível, com simplicidade e orgulho. É preciso que o discurso não-igualitário, instituído de cima para baixo por um grupo, seja assimi- lado e entendido pelo outro grupo sem restrições.

Somente se a maioria da população for contaminada pela ideologia dominante, adotando-a como fazendo parte do seu ser, haverá paz e só assim será possível a convivência pacífica entre os grupos de cima e os de baixo e vice-versa, fazendo com que cada classe cumpra as tarefas sociais a ela destinada, “livre e conscientemente”. De um lado, o grupo dos dominados, de outro, o dos dominadores e auxiliares do domínio como os administradores, os sacerdotes da ideologia dominante, os promulgadores como os funcionários encarregados da propaganda, etc.

Para existir a paz perfeita, todos devem usar, com prazer e naturalidade,

a mesma linguagem, concordar com os pontos básicos, para “o bem das

pessoa, família, povo, nação e tradição”. Além disso, os pontos contradi-

tórios ou injustos devem ser encobertos e idealizados como benéficos e justos, pois só assim o governo alcançará sua principal meta: manter a ordem social.

A ordem social não poderia ser mantida apenas com a divisão simples de um grupo superior e outro inferior. Haveria sublevação da ordem pública, caso existisse apenas a afirmação da inferioridade da mulher. Era preciso criar, além dessa “ordem”, um outro sistema de crenças, circundando o primeiro, para que as mulheres e outros estigmatizados, pudessem, não só aceitar pacificamente seu papel, mas também, “valori- zar” a inferioridade.

Com esmero e sabedoria, astutamente foram inventados sistemas de

crenças de níveis logicamente mais elevados – que englobam outros – estabelecendo a paz entre “superiores” e “inferiores”. Para isso a socieda- de dominante construiu a valorização espectral, fictícia, de atributos e papéis dos dois sexos. Maquiavelicamente, para que certas profissões ou ações pudessem ser seguidas sem revolta, até mesmo com certo orgulho

e prazer e, logicamente, não surgisse a baderna, criou-se uma ideia-cha-

ve: um novo mito, um novo domínio simbólico, ramo do sistema geral, enfatizando, com muita fé, a valorização de todo e qualquer trabalho, seja lá qual for. Essa ideia, inicialmente absurda, foi sendo divulgada e defendida pelos dirigentes e ouvidas com certa incredulidade por todos. Entretanto, aos poucos, a mentira foi se transformando em “verdade” simbólica, evidentemente, não real.

Os órgãos superiores unidos, Estado, Igreja, Lei e Escola, defenderam

e exaltaram a “verdade” nascida da ficção: “todo trabalho é nobre”. Aos

poucos, o engodo foi crescendo, passando a ter vida própria, dando troncos, ramos e folhas. Bem firme, a ficção foi se tornando cada vez mais verdadeira. Todo trabalho passou a ser elevado, glorificado, todos trabalhadores passaram a ser abençoados por Deus e, como consequên-

cia, seu executor passou a sentir orgulho de realizar, para o próprio bem,

e principalmente dos Senhores, todo e qualquer trabalho. Não faz muito tempo, o trabalho era visto como penoso e até degradante, principal- mente os chamados “trabalhos braçais”.

Agora, os tempos mudaram, o trabalho submisso, as profissões penosas

e tidas com inferiores, as atividades cansativas e sujas foram adquirindo

status de majestosas, ilustres, quase divinas para as classes “humildes” e, desse modo, aceitas com grande orgulho por seus executores. Para atiçar a mente do leitor, repito aqui frases frequentemente repetidas: “O trabalho enobrece o espírito”, “Todo trabalho é nobre e digno”, “Não há diferença entre a atividade do lixeiro e do senador” e diversos outros slogans do mesmo gênero que hipnotizaram todos nós.

Uma vez inventado, imposto e aceito o novo valor supremo, foi possível

a criação de diversas outras afirmações derivadas da premissa inicial,

tais como: “ser um bom escravo é vantajoso”, “é glorioso servir a um homem importante como o Dr. X”. Ficou fácil, para a maioria das mu- lheres, ansiosamente buscar, com orgulho, ser uma ótima funcionária de qualquer expoente, carregar às costas uma série de atividades cansativas, trabalhar 30 horas por dia para o bem da empresa, em atividades pouco ou nada valorizadas.

A mente do povo, uma vez invadida por esses conceitos, magicamente, por encanto, aquietou-se. A paz reinou nesse mundo de Deus, onde cada um trabalha em louvor à ideia dominante, não em benefício de seu próprio e singular bem-estar. Dominados por essa auréola ofuscante,

incapazes de refutá-la, com orgulho repetimos: “Ela largou os estudos e

o emprego para poder amamentar o filho.”

Cada frase desse tipo não só tranquiliza o agente e executor, como tam- bém lhe fornece, muita vezes, uma alegria e orgulho em realizar tarefas quase penosas. Acalma o dominado, adoça a boca do servidor servil.

Por outro lado, o dominador, como o pai agressivo, o mau patrão, o pro- fessor intolerante, o governo injusto, o ditador assassino, todos esses, em lugar de serem agredidos pelos subordinados, recebem obediência, hon- rarias, medalhas e gratidão dos dedicados servos, prontos para servir. Contaminado por essas ideias, começo a acreditar que alguns nasceram para mandar e outros para obedecer. Será?

Duas Classes: Cultos e Incultos

A lei proíbe a segregação racial, entretanto a segregação cultural ocorre em todo o mundo e ninguém reclama contra ela. Poucos a percebem, ou talvez não desejem vê-la. Assistimos, continuamente, à formação de grupos segregados quanto ao nível e profundidade dos conhecimen- tos adquiridos. Com este desnível, cada grupo apresenta sensibilidade diferente quanto aos estímulos e acontecimentos do mundo. A divisão intelectual separa os indivíduos de forma semelhante à existente com respeito às posses materiais.

Para indicar melhor a separação entre as castas, certas cerimônias são usadas pelos diferentes grupos. Alguns realizam reuniões ou festivida- des semanais ou mensais, fazendo uso de roupas especiais, onde apenas entram os “irmãos”, outros grupos têm sua própria imprensa, jornais

e revistas especializadas, sua linguagem e jargões como a Associação

Médica, a dos Engenheiros, do Banco do Brasil, dos Gays, das Mulheres Nuas, da Agricultura, etc. Além disso, excursões e passeios são organiza- dos e adaptados para as pessoas do grupo. Até as praias do país tem sido divididas conforme as classes: média, rica, dos artistas e dos farofeiros.

Para aumentar ainda mais a separação, cada grupo processa, assimila e expressa as informações do meio através de conhecimentos e raciocínios diferentes.

De outro modo, as premissas ou suposições básicas com que um grupo raciocina, bem como as formas de atribuir causalidade aos acontecimen- tos, diferem frontalmente entre os cultos e incultos.

Um pequeno grupo raciocina seguindo as normas da lógica formal, já

o grande grupo usa e abusa do antropomorfismo, do animismo e do

pensamento mágico para compreender e explicar os acontecimentos. O

resultado prático disso é que os incultos falham mais nas previsões dos acontecimentos. A “lógica” dos incultos, afastada das regras tradicionais, extrai conclusões esdrúxulas, liga informações que jamais estiveram associadas, como disse minha faxineira: “Maria é esperta, porque nasceu em São Paulo”.

No exercício da profissão médica nota-se facilmente essa diferença ao examinar um paciente de um grupo e outro. A maneira de descrever o aparecimento da doença, sua evolução, bem como os possíveis fatores a ela associados, ou seja, suas possíveis “causas”, são descritas de forma totalmente diversa pelos dois grupos. O “diálogo”, quando existe, en- tre essas diferentes “castas”, é quase impossível, pois um imenso vão os separa.

Não há projeto para diminuir essa divisão. Tudo indica que, com o pas- sar do tempo, o espaço entre os dois modos de pensar tende a aumentar. O prejuízo é imenso para todos. Os fatores, econômico e término de curso “superior”, não são os únicos responsáveis pela diferença. Existem pessoas ricas, outras formadas no terceiro grau, que estão culturalmente segregadas, fazendo parte do imenso grupo dos analfabetos ou semia- nalfabetos.

As Constituições que Passei na Vida

Nasci em Itabira de Mato Dentro, sendo o décimo primeiro filho de uma família de doze irmãos. Não participei, por conseguinte, da criação, elaboração e discussão do que era certo ou errado: a “Carta Magna” de minha família, a “lei” do permitido e do proibido, do “bom” e do “mau” – já há muito havia sido promulgada, não tendo contado com a minha colaboração. Eu devia respeitá-la, cooperando com o poder que emana- va de meu pai e minha mãe. Por ser criança, sem condição física, inte- lectual ou cultural, tinha de seguir as normas e, se quisesse ser aceito, deveria trabalhar para a manutenção delas.

Assim sendo, aprendi que o partido Republicano de Arthur da Silva Bernardes era o certo, e todos os políticos e seguidores daquele parti- do eram homens bons, honestos, de princípios justos e interessados no bem-estar geral.

Aprendi que devia rezar todas as noites três Ave-Marias e três Padre- -Nossos e, em momentos de maior perigo, a Salve-Rainha. Devia ir à missa aos domingos, confessar-me pelo menos uma vez ao ano e rezar algumas Ave-Marias extras às três horas da tarde da Sexta-Feira Santa, as quais, uma vez estocadas, seriam de grande valia em momentos de grande aflição. Diga-se de passagem, eu as venho usando atualmente em grande quantidade, pois têm sido frequentes os meus apuros. Felizmen- te, daquele estoque de preces ainda conto com umas boas reservas.

Aprendi que não devia roubar, mas que furtar frutas no quintal do vizi- nho, quando houvesse abundância delas, era tolerável.

Não devia maltratar certos animais, mas podia matar galinhas e sapos.

Devia matar, sem piedade, escorpiões, cobras venenosas, marimbondos

e mosquitos. Abelhas, não, louva-a-deus e andorinha, nunca.

Devia obedecer aos pais, aos professores, assim como ao governo do partido republicano, mas rebelar-me contra o governo de Vargas ou o de Benedito Valadares, pois eles eram errados e maus.

Aprendi que, à escola, à missa e ao dentista (não me lembro se ao médi- co), eu devia ir limpo e calçado. Fora daqueles “templos” eu podia – e até devia – andar descalço para economizar sapatos e usar roupas velhas e estragadas pelos mesmos motivos.

Aprendi que, nas refeições, eu podia comer um ovo, um pedaço peque- no de frango e, no pão, deveria pôr pouca manteiga de um lado só do pão. Nunca era permitido jogar comida fora, pois outros meninos não tinham o que comer, logo, isso seria um pecado.

Não devia falar mentiras em hipótese nenhuma. Mas essa regra come-

çou a ser burlada ainda cedo, depois que, no grupo “Barão de Macaú- bas”, onde estudava, fui obrigado pela professora de Religião a retirar a imagem de Cristo da sala de aula, por não ter ido à missa no domingo

e confessado contritamente a minha falta. A partir daí descobri que era

menos penoso ir contra o preceito de minha mãe – não mentir – do que suportar o castigo de d. Mercês – expulsar o Cristo da sala de aula quan- do não fosse à Missa.

Aprendi que, sendo homem, não podia chorar, fugir a uma briga, assim como achar outro homem bonito.

Aprendi que eu seria o responsável – e ninguém mais – por decisões como beber, fumar, sair de casa, “transar”, escolher uma profissão. O que não podia era ficar sem estudar ou trabalhar.

Tornei-me adolescente convivendo intimamente, num time de futebol,

com quase-favelados (naquela época não havia ainda favelas): sapateiros, capinadores de rua, “chapas”, serventes, carvoeiros, alcoólatras e até as- saltantes – embora “fichinhas” para a época atual. Seus valores e sua hie- rarquia – a sua “constituição” – eram-me estranhos, mas interessantes, pela novidade. Suas leis eram outras: defendiam a supremacia do mais forte fisicamente sobre o mais fraco, a masculinidade do que conseguisse tomar mais pinga ou transar com um maior número de prostitutas da rua Guaicurus. Eu era obrigado, às vezes, a fazer algumas concessões às leis desse grupo, outras vezes, às de minha família. Ao mesmo tempo tinha de associá-las no meu eu. Não era fácil: quebrei cabeça para con- ciliar as duas ordens e sobreviver a ambas. Escapuli desta enrascada não sendo mais fiel a uma do que a outra regra. Iniciei assim a formação de minha individualidade, fruto dessas duas escolas às vezes antagônicas, mas com muitos pontos comuns, como só agora percebo.

Estabeleci para mim uma consciência exigente, disciplinada e original, que ia impondo objetivos e promovendo meios de alcançá-los, custas- se o que custasse. Tinha que chegar aonde minha mente determinava. Corajosamente, entrei no paraíso selvagem da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais.

Nesse ambiente, que nada tinha a ver com as mesas de boteco da zona boêmia ou com minha casa, utilizavam-se palavras venenosas, porém adocicadas, ditas na maioria das vezes com gentileza hipócrita.

Imperava entre os colegas uma competição doentia, “cada um por si”:

era a lei da selva. As informações sobre textos e questões de prova eram escondidas a sete chaves por – e para – alguns “iniciados”.

Os parentes e amigos dos “poderosos”, alguns poucos escolhidos, eram visível e arrogantemente ajudados, protegidos e elogiados.

Nós, participantes da maioria sem poder econômico, de parentesco ou político, éramos rejeitados. Eu não percebia claramente que havia uma

luta pelo poder e uma tentativa dos seus detentores de não dividi-lo, mantendo-o limitado ao exercício por uma minoria.

Era ideia minha que, se seguisse as leis do bom Cristão de Itabira, eu seria tratado com respeito e dignidade na Escola, teria as oportunidades dos outros e talvez pudesse até ser admirado, já que o hábito de obede- cer a regras de grupos fazia de mim um aluno cooperativo e ajustado. Mas ali as leis eram muito diferentes e eu é que não sabia disso.

Achava que estava participando ativamente de movimentos compatíveis com os altos ideais da Faculdade, mas eu apenas podia votar, ora num, ora noutro candidato, e eram sempre os mesmos relacionados entre a minoria dominante, lutando para preservar ou aumentar os poderes adquiridos.

Sonhava que os meus interesses seriam defendidos nas diretorias, mas no fundo eles eram ignorados, pois conflitavam com os interesses dos lí- deres. Como disse, as normas impostas e garantidas pelos detentores do poder, na Faculdade, diferiam e muito da constituição vigente na família e das do grupo de companheiros.

Tendo, por fim, entendido isso, penosa e rebeldemente passei a receber, como um golpe na face, as leis dos médicos.

1º – Nunca se emocione com o sofrimento de seu paciente ou da fa- mília dele, para não atrapalhar seu trabalho ou julgamento.

2º – Trate o cliente como paciente. Saúde-o e converse com ele e seus familiares, mantendo distância, pois é ele quem precisa de você: o poder está em suas mãos.

3º – Forme seu grupo, faça parte das associações de classe, senão você estará perdido. Os fortes, além de não o protegerem, poderão destruí-lo.

4º – Use uma expressão, um andar, um vocabulário típico do médico, identifique-se com a classe, perca a espontaneidade, só assim você será entendido pelos seus pares e manterá o poder sobre seu cliente, que se sentirá inferior a você.

5º – Não seja simples: monte um consultório de luxo, em bairro nobre, de preferência com aparelhos sofisticados, mesmo que inúteis, para impressionar,

6º – Peça vários exames, use o mínimo sua própria cabeça para não cansá-la e, se possível, faça diagnósticos complicados para valorizar seu trabalho.

7º – Interne seu paciente psiquiátrico sempre que puder, pois isso dará a você “mais conforto e segurança com menos trabalho”, talvez, até mais dinheiro e mais poder.

8º – Associe-se a algum grupo teórico, de preferência entre os psica- nalistas, para com eles se sentir protegido pelo seu poder nos departa- mentos e diante do público. Através desse grupo, você poderá até rece- ber clientes dos mais poderosos, quando estes os tiverem de sobra.

Passou-se o tempo, eu não estava mais muito preso às leis da antiga família itabirana, nem do grupo de esporte e farras, mas também não conseguia compreender muito bem e introjetar as leis da Faculdade de Medicina. E não consigo até hoje. Tornei-me um solitário rebelde, mas, felizmente, sempre tive companheiros que também não comungaram com aquelas diretrizes. Lamentavelmente, um bom número de médicos seguiu e segue a sério tais leis.

Confuso, inconformado, buscando um sentido, um poder mais pessoal e não institucional, valores, liberdades individuais e mais espontaneidade, eu ingressei na Faculdade de Filosofia. Ali, nova constituição há muito tinha sido promulgada. Nova reviravolta, tanto nos meus objetivos de

vida, como nos meios para alcançá-los. Percebi que não há verdades e certezas eternas: tudo o que havia aprendido antes como certo, eram mitos, concepções do mundo. Tornei-me um doido. Percebi a subjetivi- dade da objetividade médica, a defesa constante, por uma parte da classe médica, de valores duvidosos da nossa sociedade, a hipocrisia frequente num discurso médico paternal, protetor, mas cuja intenção é manter seus próprios valores, segundo os quais o paciente deve submeter-se como animal ou coisa ao seu poder. Em resumo, percebi que, na Facul- dade de Medicina e na classe médica, uma boa parte de estudantes e profissionais defendem e preservam o conformismo e não as mudanças reais que valorizam o indivíduo como ser único.

Você também, prezado leitor, que nasceu na família Silva ou Souza, sabe o que é bom ou mau. Você também está sujeito a centenas ou milhares dessas leis, sem tê-las criado.

Elas entraram na sua vida e na sua mente sem serem criticadas ou ana- lisadas: entraram como transe hipnótico. Comece a analisá-las: veja se elas o estão ajudando, ou não, a ver melhor. As que o estão prejudican- do-o, jogue-as fora.

A Multidão Solitária

Se você não é a favor dessa ideia, lute pela contrária. Assim como os policiais devem combater os criminosos, alguém deve combater os policiais. É preciso proteger as árvores, mas é preciso, também, ter mais empregos e indústrias. Os fiscais devem fiscalizar os preços e nós te- mos que fiscalizar os fiscais. Devemos ir ao teatro e ao futebol. Mas, e o aborto? Ah! Devemos combatê-lo com rigor, mas precisamos proteger a liberdade e os direitos das mulheres de terem ou não filhos. Como agir?

Cada um acha que seu problema é o mais importante. O envolvimento com esses “ideais” fornece ao organismo um bem-estar, pois aumenta os estoques empobrecidos pelas frustrações de substâncias químicas como a serotonina, dopamina, noradrenalina, oxitocina, endorfinas e outros neuropéptides mais, todas substâncias importantes para nosso bem-estar. Devem diminuir os impostos que me atingem e aumentar os dos outros. Precisamos proteger os animais. Coitado deles! Na primeira oportunidade o defensor dessa ideia esmaga uma formiga trabalhadora e séria, aniquila um inocente pernilongo-fêmea que necessita de um pouco de sangue para que sua espécie não desapareça e pisa, sem dó nem piedade, numa barata que passeia calmamente à noite, na cozinha, em busca de uma paquera ou de um jantar de migalhas abandonadas. Combate-se com veemência a matança das raposas que comem as ma- gras galinhas do lavrador faminto. Tudo são valores! O que será melhor:

comer abóboras ou assistir à ópera, manter as florestas ou aumentar empregos?

Essas tomadas de posição por algo têm uma importante função social. Precisamos dessas discussões e devemos tomar parte nelas. Qualquer movimento social seja real ou fictício, importante ou não, agradável ou aversivo, sábio ou idiota, liberta, ainda que por momentos, o indi- víduo de seu vazio, de sua depressão, ou melhor, de sua desesperança e

desamparo com esse mundo confuso. É preciso estar envolvido! O povo procura, fora de si, uma “causa” para ser seguida, por isso são sempre bem-vindas ações governamentais ou não-governamentais para “dis- trair o povo”, para promover estoques das benditas substâncias químicas que nos põem alegres e animados, cheios de esperança com respeito a qualquer bobagem. Tudo serve para aliviar o povo do seu desengano, sofrimento e, principalmente, da ausência de objetivos próprios.

Mas para conseguirmos um alívio mais eficaz do tédio, precisamos ter companheiros, alguém que tenha a mesma fé, acredite e lute pelos mes- mos valores. Ligados a uma causa comum, os seres humanos se sentem satisfeitos, seguros e, quase sempre, entusiasmados com a própria alien- ação, bem como a dos amigos. Uma multidão perdida, uma vez reunida sob o mesmo guardachuva conceitual, descobre, irmanada, um sentido imaginário e atraente para participar, de braços dados, de qualquer jor- nada. Agarrados uns aos outros, como crianças amedrontadas se pren- dem à saia da mãe, esses indivíduos realizam seus sonhos e esquecem, provisoriamente, da miserável e chata vida do dia-a-dia. Amparados em bandeiras podres, protegidos por venerar os mesmos objetivos duvi- dosos, excitados e sem refletir, eles planejam, estabelecem e dão sentido a um programa de vida sem sentido. Passam a ter um “ideal” para lutar, brigar e até morrer.

Quem ainda não entrou para um grupo desses, não se aflija. Existem vagas em diversos clubes: entre rápido para o fã Clube de Carmen Mi- randa, colecione “souvenirs” deixados por James Dean, Michael Jack- son, participe dos estudos dos Objetos Não-Identificados, frequente o clube dos machões ou das feministas, compre depressa ingressos para o maravilhoso “show” do cantor X, o curso para “Ser Feliz” do Professor Z. Na ausência de tudo disso, faça parte do clube dos amigos de qualquer coisa. O nome não importa. Se este não for seu caso, para o bem de sua saúde mental, comece a comprar. Compre qualquer coisa: um lápis colorido, um Papai Noel, uma boneca, uma cafeteira, uma camisa do seu time ou uma arca enorme para guardar tudo. É tempo de festa. O

importante é o entusiasmo por algo e, talvez, quanto mais ridículo e es- tranho, maior efeito terá na produção de energia, de prazer e de alegria de viver. Esse é o mundo sonhado pelo homem moderno que está em construção. Ou será em desconstrução?

O que Desejam as Pessoas?

Muitas pessoas desejam não ser obesas, nem cheirar mal, ter filhos lindos e saudáveis, ter boa saúde, belos dentes e um sorriso bonito. Ter dinheiro, boas roupas, um carro possante, uma casa sem barulho, segura

e confortável. Estar cercadas de amigos e familiares, não serem feias,

amar e serem amadas, possuir coisas valiosas, ter sucesso na profissão

e no casamento. Terem uma autoestima alta, não serem passadas para

trás, fazerem viagens maravilhosas e, por fim, terem uma boa velhice e uma morte digna.

Mas as pessoas não se preocupam se seu desejo, uma vez realizado, será bom ou não para elas. Nossos desejos estão presos a valores e estes são transmitidos na infância, aprendidos sem critério do meio social ou sur- gem como reações ao ambiente. As crenças, desejos e os valores passam de uma pessoa à outra, geralmente na infância e adolescência, através do contato e aprendizagem com indivíduos “dignos de crédito”.

Cada pessoa, dependendo do seu sistema de valores, de suas premissas básicas, defende com ardor seus desejos. Assim, o “hedonista” valoriza

e quer “levar vantagem em tudo”, busca o prazer e foge do sofrimento.

O prático, adepto da ética utilitária, dá prioridade ao útil. Os seguido-

res da ética social afirmarão seguros: “tudo que melhore as condições sociais dos homens deve ser procurado em primeiro lugar”. Os fiéis da

ética religiosa evitam os pecados e procuram a conduta virtuosa reve- lada e prescrita pela religião seguida. Para os “naturalistas”, adeptos da ética do organismo, o bom é ter uma mente sã junto ao corpo forte, bonito e saudável e, assim, devemos fazer exercícios físicos, comer frutas

e legumes, evitar bebidas alcoólicas, drogas e o fumo. Os relativistas, em dúvida, pensam: “o critério do que é bom e mau depende do indivíduo e da situação onde se dá o fato, tudo é relativo”.

Os artistas, seguidores dos valores estéticos, exaltam o belo e o sublime e rejeitam o feio e o ridículo. O justiceiro, defensor incansável dos valores do que é certo, luta, com as leis ou as armas, pela justiça e punição dos “culpados”. Os adeptos da política discursam em defesa do poder, do governo e, por fim, os lógicos lutarão pela verdade, a certeza e abomi- nam o raciocínio incongruente ou falso. Existem outros valores defendi- dos com “unhas e dentes” pelos seus partidários. Todo homem valoriza mais alguma coisa do que outra e pensa que os valores do outro, quando diferentes dos seus, são mesquinhos, idiotas e absurdos.

Não existem valores objetivos. Não se pode falar que isto é melhor do que aquilo, ou é “melhor” comer chuchu do que dançar”. Não se pode comparar uma coisa com a outra, quando não há parâmetro para isso. Não há nada que seja bom para todos e mau para todos. Os governantes sofrem por isso. Os moradores da rua Maria de Souza acham que a pre- feitura deveria, prioritariamente, calçá-la, mas a comunidade do Bairro Esperança pensa ser “absurdo” não existir uma linha de ônibus para servir a região. Um grupo acha que as árvores devem ser cortadas para a construção de uma fábrica, pois esta gerará mais empregos em Santana da Misericórdia. Mas outros fazem abaixoassinado contra o corte, pois este irá perturbar o equilíbrio ecológico.

As nossas instituições sociais não possuem uma maneira fácil ou mágica de tratar os valores antagônicos e múltiplos, como se descreveu acima. Precisamos de empregos e de um bom meio ambiente. As discussões acerca do melhor, para um ou para todos, continuarão eternamente, para alegria dos defensores de qualquer uma dessas ideias.

Dinheiro, Nossa Atual Devoção

Vivemos num tempo em que nossas únicas necessidades são as coisas desnecessárias.”

Oscar Wilde

Dinheiro, nossa atual devoçãoÉ preciso gastar menos: estamos numa “economia de guerra”. Acabaram-se os nossos míseros reais. Nada de gastos com revistas e livros. Ideias novas são supérfluas, pois já temos as velhas que nos bastam. O nosso cérebro necessita apenas de glicose para manter-se vivo sem entrar em coma, assim ele poderá assistir e apreciar essa tragicomédia econômica que ora nos apresenta.

Assistimos, impotentes, à ascensão ao poder de um novo grupo de pro- fissionais, os economistas. Essa nova elite, ao tomar consciência do seu poder, passou a ditar normas acerca de salários, empregos, horários e tudo mais. Por que não dizer, de nossas vidas?

Os sábios profetas da economia são muitos. Os jornais e as TVs di- vulgam a todo momento suas profecias e eles, sem nada cobrar, acon- selham-nos a economizar mais, para o sucesso do modelo capitalista “trabalho e produção”. Os economistas conhecem melhor do que nós mesmos o que se deve fazer com o nosso dinheiro, como por exemplo:

onde guardá-lo, quando tirá-lo, em que lugar devemos passar nossas férias e se devemos ir de avião, ônibus ou a pé a Itabira ou a Tóquio. Quando devemos nos aposentar ou resgatar o Pis e Pasep, a maneira de alugar um imóvel, quando vender ou comprar ouro e dólar e até se de- vemos abandonar a profissão de engenheiro, trocando-a pela de florista. Ninguém precisa pensar, menos ainda refletir, pois existem “gênios” que pensam por nós, todos especialistas nisso ou naquilo.

Vivemos a época de ouro da economia. A cada dia, ou talvez a cada hora, são entrevistados luminares nessa ciência e estes descrevem, cada um a seu modo, a situação econômica do País, indicando, de maneira se- gura, o que deve ser feito para tirar-nos da miséria, da dívida e do caos.

Infelizmente, os ministros, assim como os ex-secretários de Estado, só conhecem as soluções econômicas adequadas para o País quando largam

os cargos, nunca durante o exercício de suas atividades. Economistas

diversos, candidatos a cargos no governo, professores, PhDs diversos e até alguns amadores iniciados no assunto criticam a política econômica com sabedoria.

O dinheiro agora é o nosso rei e talvez o nosso Deus, pois foi promovido

pelos fabricantes da cultura, de “meio” a “fim”. O dinheiro que era um instrumento utilizado para se alcançar algum objetivo, tornou-se atual sistema de valores sociais, o próprio alvo a ser atingido.

Os subprodutos do dinheiro, como os salários, gastos, etc., comandam atualmente nossas ações e intenções. Nós nos preocupamos muito com o prejuízo financeiro de um acidente e pouco, ou quase nada, com o sofrimento das pessoas envolvidas. Mortes de indivíduos são analisa- das muitas vezes com respeito ao seguro a ser recebido ou à economia

ocorrida com sua morte. Algumas religiões são fundadas em busca de dinheiro, filhos matam os pais para receber a herança e alguns se suici- dam porque suas fortunas estão se esvaindo. Assistimos a esse espetácu-

lo com naturalidade, sem espantar-nos, pois estamos julgando os fatos

com os mesmos modelos conceituais dos protagonistas das ações.

O

valor instrumental do dinheiro está ganhando a luta contra todos

os

outros valores humanos. Poucos atualmente são capazes de apreciar

outros valores – uma boa bebida ou comida, um passeio, uma visita – sem imaginar o custo em dinheiro de cada uma dessas ações. Talvez, pior ainda, a maioria das pessoas não consiga bater um bom papo ou amar alguém sem contabilizar os gastos ocorridos durante esse tempo e

que poderiam ser convertidos em produção e dinheiro, como manda o modelo econômico vigente. Prezado leitor, como psiquiatra que sou, tenho como obsessão a tendên- cia a dar conselhos, e aqui aproveito a oportunidade para opinar contra os conselhos dados por alguns economistas.

1) Ao tomar o seu café sinta o seu paladar, calor e aroma e não pense no preço do pó, da água, da energia e da mão-de-obra.

2) Ao abraçar e beijar o seu amado, ao acariciar os seus cabelos, sinta as sensações provenientes do seu rosto, lábios ou das suas mãos e, pelo me- nos naquele instante, não pense no dinheiro que está sendo gasto com o batom que desaparece ou com o penteado desfeito, pois, caso tudo dê certo, o que é o esperado, você terá outros ganhos e prazeres, que são para alguns poucos seres humanos mais importantes que o dinheiro guardado no cofre.

Senhores do Poder

Certas propagandas sedutoras conseguem fazer com que boa parte da população saia de casa para ver um determinado filme, abandone tudo para assistir a uma novela, tome banho com um certo sabonete durante anos e vista uma calça desconfortável, ou engula um fortificante sem precisar dele. Não é difícil constatar que certas crenças, introduzidas em nossa mente, comandam o nosso comportamento.

Alguns homens, por diversos motivos, forçam outros a pensarem de acordo com seus princípios e suas regras. Frequentemente, ideias pro- postas pelos poderosos se espalham e são incorporadas por um grande número de pessoas, que passam a viver sob o comando dessas crenças, na ilusão de que não há nada melhor para se fazer.

Acreditamos e copiamos muito as supostas preferências de pessoas conhecidas, principalmente se são pessoas de prestígio. Assim passamos a usar uma certa bateria em nosso carro, pois o famoso piloto disse que ela é a melhor, jogamos na loteria, pois o jogador de futebol nos incen- tivou a comprar o bilhete, passamos a morar num certo bairro, pois o grupo com o qual nos identificamos e ao qual almejamos pertencer, ali reside.

Todos nós já sofremos desenganos por aceitar a crença embutida no ditado popular “a voz do povo é a voz de Deus”. E sabemos muito bem, que uma conduta utilizada por muitos não fornece necessariamente informações corretas e garantidas acerca de uma realidade, da mesma forma que um julgamento com o qual a maioria das pessoas está de acordo, nem sempre é digno de confiança e nem ser aceito sem objeções ou dúvidas.

Todos nós temos certo receio de pensar de modo diferente de nossos

companheiros e isso nos leva a emitir opiniões quase sempre seme- lhantes às do nosso grupo. Para complicar nossa submissão às ideias coletivas, há uma tendência universal em ridicularizar os pontos de vista divergentes, ou pensamentos singulares, que são considerados pilhéria, sinal de burrice e até indício de loucura.

Uma vez expostas às pressões grupais, as pessoas tendem a pensar e

a dar opiniões de maneira convergente, isto é, iguais à de todos. Num

clima desses torna-se difícil o aparecimento de novas ideias e novas de- cisões. Assim o grupo tende a ficar em paz, mas estagnado. Com tristeza lembramos do apoio dado por quase toda a população brasileira ao en- tão candidato à presidência do país, Jânio Quadros, e outros semelhan- tes. O famigerado plano cruzado também foi amplamente louvado e deu no que deu… e não é difícil para nós lembrarmos situações semelhantes mais recentes.

Quem controla ou dirige essas oscilações de opiniões dos grupos ou das populações? Não é difícil perceber, se abrirmos os olhos, que alguns poucos, usando nomes, disfarces, truques e slogans sugestivos, são o sedutores crônicos da população. Eles controlam nosso comportamento

e até nosso modo de pensar.

De uns tempos para cá um novo grupo vem ganhando notoriedade e poder sobre as nossas ações: os tecnocratas. Este grupo é formado por alguns senhores sisudos, especialistas em técnicas e processos diversos.

Eles falam de um modo diferente do nosso e entram em contato com a população através de ordens dadas em forma de portarias e pacotes.

Os tecnocratas não bolem apenas na nossa poupança, seu campo é vasto. Através de investigações sigilosas incriminaram alguns banquei- ros, colocando-nos contra eles. Até aí nada demais. Depois foi a vez de empresários diversos, logo após atingiram os trabalhadores ligados à economia informal. Mais tarde viraram-se contra alguns médicos do

serviço público e agora, numa grande jogada, acionaram suas garras para atingir milhares de funcionários públicos federais. Quem será o próximo a ser atingido, ninguém pode adivinhar, mas suponho que seremos todos nós. Muitos escaparam, mas possivelmente por pouco tempo. Os tecnocratas conhecem, mais do que ninguém, o nosso ponto vulnerável ou pelo menos a nossa intenção muito escon- dida de, a qualquer momento, fazer uma trapaça contra o honesto governo. Os tecnocratas são nossos senhores e deles podemos esperar apenas misericórdia.

Os Narcisistas Modernos

Conta-nos o mito que quando a ninfa Eco, terrivelmente apaixonada por Narciso, correu para junto dele para abraçá-lo, este, repelindo-a, lhe disse: “Afasta-te, prefiro morrer a te deixar possuir-me”. Narciso, tendo desprezado todas as ninfas como havia repelido a ninfa Eco, não ama- va ninguém. Porém, um dia, a deusa da vingança cedeu a um pedido de uma ninfa mal-amada fazendo com que Narciso se apaixonasse por si mesmo.

Narciso, uma vez sob o encanto da deusa, foi seduzido por sua própria beleza ao ver sua imagem refletida na água. Enfeitiçado, todas as vezes que Narciso tentava abraçar e beijar sua própria imagem, esta desapare- cia na água. A lenda termina com a morte de Narciso consumido pela sua paixão.

Esta é a história do antigo Narciso. Os narcisistas modernos agem dife- rentemente. Eles cresceram em número, tanto assim que a Classificação Internacional de Doenças Mentais (CID 10) reservou um lugar especial para eles: “Transtorno da Personalidade Narcisista”.

Veja como ele foi descrito no CID 10: “o indivíduo apresenta um sen- timento grandiloquente de sua própria importância ou do seu caráter excepcional; preocupação com fantasias de êxito ilimitado; necessidade exibicionista de atenção e de admiração constantes; respostas caracte- rísticas às ameaças à sua autoestima; e perturbações no relacionamento interpessoal, como sentimento de “ter direito” a exploração inter-pessoal e ausência de empatia”.

O leitor atento identificará, entre amigos e inimigos, artistas, atletas, políticos e outros, os novos narcisistas.

As realizações dos narcisistas tendem a ser valorizadas irrealisticamen-

te nas áreas de poder, riqueza, fama e beleza. O narcisista tenta de fato

alcançar tais objetivos, mas isso é feito de modo forçado e destituído de

prazer, com uma ambição que não pode ser satisfeita. No Brasil eles são encontrados nas favelas, prisões, mansões e, com alguma frequência, nos palácios. A forma da expressão de orgulho por si mesmo é que varia de acordo com o grupo social ao qual o narcisista pertence.

A artista de TV narcisista, feia, inculta e burra fala acerca de sua beleza,

de seus dotes literários, de suas idéias políticas e do seu comportamento sexual. Recebemos deles, gratuitamente, lições do seu modo particular de encarar a realidade, que é tida, orgulhosamente, como certa.

O narcisista supõe ser ele capaz de fazer e pensar adequadamente a

respeito de tudo. Se ele foi bom letrista de música, poderá ser um bom ministro, se foi professor, poderá desempenhar bem o papel de gover- nante, se é piloto, poderá ser bom garoto propaganda, se é político, lo- gicamente, poderá ser…, sei lá, qualquer coisa!

Na plateia, certo público cativo bate palmas, urra deslumbrado e en- tusiasmado com as proezas de seu ídolo. Entretanto, outros se irritam, xingam e jogam pedras ao se sentirem impotentes diante de seu poder.

A maioria, entediada, percebe a fragilidade do narcisista escondida por

trás de sua máscara arrogante e prepotente e, indiferente às suas palavras vazias, espera, alguns até oram, para que um dia cada narcisista siga o exemplo do antigo Narciso do mito e acabe consumido pela sua paixão e não mais tome nosso precioso tempo com suas chatices e gabarolices.

Os Novos Deuses

O Deus primeiro e único não tem cara fechada, não sorri, não tem iate, não tem salário, não agride e nem tem voz. Os novos deuses falam, ges- ticulam, transam, namoram até pessoas do outro sexo, alguns cantam, outros jogam e outros correm velozmente. Muitos ganham por mês mais do que um operário ganha em toda sua vida de trabalho.

Todos os deuses são lindos, maravilhosos, ricos e jovens, conforme a avaliação dos seus seguidores. Eles são adorados pelos seus fiéis se- guidores, intocáveis e respeitados pela mídia, governo e população em geral. Os novos deuses são, graças a Deus, efêmeros. Somente alguns permanecem reinando por um tempo mais longo.

Cada um dos deuses tem suas peculiaridades, entretanto eles apresen- tam uma estrutura comum que os iguala e os identifica como produtos de uma sociedade esquisita. Assim é que eles sempre falam acerca de contratos novos, do próximo adversário que deve ser respeitado no campo, sobre os novos lançamentos, as novas representações nos palcos ou nas TVs, onde a atual é sempre superior às anteriores e mais adapta- das à sua personalidade. Outros falam sobre seu novo disco.

Mas há algo mais ainda que os une. Todos, sem exceção, adoram contar a sua vida. Estas são geralmente lindas, sofridas, cheia de coisas inter- essantes. Eles todos, diferentes dos outros moradores desse mundo, alcançaram a fama através de “muito esforço e trabalho duro”. To dos, bondosamente, ensinam o que aprenderam aos seus admiradores.

Expressam seus valores e normas de vida para a população e sobretudo sempre com alta sabedoria e segurança. Ora o discurso é acerca do seu casamento exemplar, ora da melhor maneira de transar e o melhor local para isso. Nunca faltam instruções minuciosas a respeito de como alcan-

çar a felicidade, viver uma boa vida, conquistar amigos, ter fortunas e a melhor religião a ser seguida. Em resumo, eles sabem mais do que nós mesmos o que devemos fazer para sermos felizes.

A

maioria da população escuta atentamente cada frase de seus deuses,

se

compraz e se embriaga na sua sabedoria fácil. Os novos deuses não

precisam estudar para conhecer, pois, privilegiados e iluminados que são, tornaram-se sábios através de revelações milagrosas.

Eles são procurados, entrevistados, observados e seguidos continu- amente. Os adoradores dos deuses sabem tudo acerca deles. Comentam emocionados a troca da namorada, que sempre é uma deusa ou deus, seu novo contrato, sua doença, seu filho que nasceu e assim por di- ante. Todas as notícias sobre os deuses são lidas ou escutadas com mais interesse do que as noticias chatas e conhecidas que ocorrem dentro de nossa própria família, como o desemprego do pai, a morte do irmão, a separação do avô.

Informação e Linguagem

“Gays”, Loucos, Ateus e Velhos

O leitor poderá pensar que não há relação entre os conceitos acima

citados. Há sim. Todos são pessoas estigmatizadas pela nossa sociedade. Poderíamos acrescentar outros: os negros, altos, obesos, paraplégicos,

aidéticos, leprosos, carecas, baixinhos e muitos outros.

Os gregos criaram o termo “estigma” para se referirem a sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa de extraordinário ou de ruim nos seus possuidores. Os sinais mostravam que o portador era um escravo, um criminoso ou um traidor. Uma vez portador do sinal, esta pessoa deveria ser evitada, principalmente nos locais públicos, pelos não-possuidores dos sinais. Hoje as “marcas” dos estigmatizados têm outros simbolismos.

Os homens sempre classificaram os objetos, os animais ou eles próprios. Ao categorizar, imaginamos estar reunindo indivíduos ou coisas seme-

lhantes e assim classificamos o cão, o homem, a pedra, a pulga e o pássa- ro. Para reunirmos tudo num grupo, isolamos uma ou mais característi- cas dos sujeitos observados – sem valorizar outros – e acreditamos que

as características enfatizadas indicam a semelhança. Assim feito, damos certos nomes para os membros reunidos e passamos a imaginá-los como semelhantes e os tratamos como tais.

Portanto, estigmatizar nada mais é do que classificar pessoas, selecionar certas semelhanças entre elas. Entretanto, é diferente das classificações neutras, ao imaginarmos que os indivíduos selecionados (obesos, care- cas, idosos, negros, etc.) são piores do que os selecionadores. É diferente das classificações científicas, pois aqui identificamos um atributo que é imaginado pelo rotulador como negativo.

Os cientistas não desvalorizam uma pedra por ter ou não certa dureza,

cor ou brilho. Entretanto, os preconceituosos ou estigmatizadores per- cebem a gordura em excesso, a cor da pele, a orientação sexual, a idade ou crença religiosa como negativa, ruim, não-desejada ou não-estimada. Uma vez inventado o perfil do estigmatizado, o rotulador imagina ser ele, por não possuir o fator depreciado, melhor do que a outra pessoa. Tudo muito simples.

Existem vários estigmas como os físicos (cegos, surdos, paraplégicos, etc.), de comportamento (fraco, desonesto, louco, drogado, desempre- gado, homossexual, político radical) e ainda de raça, nação e religião. Os estigmatizados, conforme o dogma dos preconceituosos, carregam traços negativos estimuladores de sua atenção. Uma vez elaborada a classificação, o classificador não mais valoriza, ou não percebe, os outros atributos da pessoa que iriam invalidar a classificação feita.

Para dar uma falsa credibilidade às ideias tendenciosas, os pre- conceituosos, demagogicamente, constroem uma teoria ou ideologia tentando dar suporte ou explicar a “inferioridade” do estigmatizado e, além disso, alertar as pessoas contra o perigo do contato com estes:

“É um louco. E os loucos são perigosos, pois não sabem o que fazem. Conheço um que matou seu pai”. “É um negro, eles são preguiçosos por natureza”. “É ateu. Os que não acreditam em Deus, têm ideias estranhas. Para eles tudo é normal, pois não temem nada”. Essas pseudoteorias, passadas de boca em boca, lamentavelmente são aceitas, compartilhadas e tidas como verdadeiras por uma grande parte da população.

Televisão e Burrice

Muitos pensam que alguns programas da televisão tornam as pessoas idiotas. Nada mais errado. A TV jamais conseguiu transformar um cão, uma pulga, uma pedra ou até mesmo um cavalo num burro. Também não imbecilizou quem não a vê. Para que um evento como esse acon- teça, é necessário que certos comportamentos existam nos dois lados. Sempre há necessidade de um certo compromisso entre as duas partes envolvidas, para que a consequência ocorra. Em outras palavras, para que haja o emburrecimento do telespectador, é necessário que haja também uma prontidão, talvez um desejo do telespectador para facilitar

a tarefa da TV. Não é possível o poder ser exercido através apenas de um lado, isto é, da TV.

Por outro lado, também sempre se acreditou que os meios de comuni- cação, principalmente a TV, têm servido de instrumento de domínio político. Antigamente acusaram certos livros como perigosos. A idéia do efeito negativo da TV sobre a mente pressupõe a existência de um telespectador de mente vazia, um folha de papel em branco, à mercê do poder da TV. Esta ideia é falsa. A “página” que assiste TV já foi marcada ou rascunhada muito antes.

Alguns falam que a TV difunde opiniões e anúncios enganadores e, por isso mesmo, gera uma consciência falsa.

Os defensores da mente dos telespectadores acreditam que a TV, ao criar um deslumbramento na pessoa, penetra subtilmente na mente do distra- ído telespectador e aí coloca o que quiser. Ora, não é bem assim.

Como é sabido, durante a história do homem, os pais, a igreja, os profes- sores, os companheiros e outros educadores difundiram condutas, ideias

e princípios na mente dos educandos, desde o nascimento. Muitos des-

ses fundamentos, que são falsos, apesar disso continuam a ser ensinados como certos. São estes princípios que formam a base da mente que per- mitem a entrada, a aceitação e a assimilação das informações vindas de fora, da TV, supostamente novas. Sem esta base adquirida geralmente no meio familiar e dos companheiros, a informação “nociva” fatalmente se- ria rejeitada. Não é fácil para ninguém se livrar de ideias errôneas postas cedo na vida, mesmo quando elas trazem sofrimento para seu possuidor.

A ideia do poder da TV sobre as pessoas utiliza um fundamento equi-

vocado. Acreditou-se que o ser humano é passivo, e não ativo, diante dos estímulos do meio, e que esses atingem uma mente sem nada. Na verdade, nossa mente filtra e seleciona nossas percepções. Todos teles- pectadores, sem exceção, têm uma participação ativa na escolha e na

interpretação do que é transmitido. Em outras palavras, a “vítima”, o telespectador, antes de ligar o aparelho de TV, já tem sua mente pron-

ta para receber as informações carregadas de mitos, crendices, desejos

e sonhos. Qualquer pessoa tem ideias e especulações mais ou menos

adequadas acerca do início do mundo, do que as pessoas estão fazendo aqui, do amor, da justiça, das relações entre as pessoas, da honestidade,

etc.

Junto a estas diversas suposições, ajuntam-se outras crenças: dos pode- res mágicos dos cristais, duendes, gnomos, santos, espíritos, almas de outro mundo e outros habitantes fantasmagóricos que estão inculcados nas mentes confusas.

Numa cabeça assim, previamente bem preparada pela educação, fun- damentada numa visão de um mundo mágico, não fica difícil, para os

embusteiros e charlatães, introduzir novelas e programas de mau gosto, discursos políticos idiotas, conselhos enganadores, condutas e tra- tamentos estranhos ou qualquer outro programa absurdamente estranho

e grosseiro.

As televisões que mostram essas programações trabalham de mãos

dadas com essas cabeças modeladas pelos pais ou outros educadores. Só

assim elas são capazes de assimilar e apreciar as bobagens ali mostradas.

A TV, portanto, nada mais faz do que manter o que foi plantado antes.

Ela nada acrescenta ou modifica à mente da maioria dos seus usuários. Seus programas são preparados, para manter como estão, as ideias e ilusões existentes na mente do pobre telespectador.

Esses encantamentos são oferecidos não só pelas TVs, mas também por outros usuários da ingenuidade humana, dos atraídos pelo mágico. Livros, geralmente os mais vendidos, relatam métodos fáceis de viver melhor, horóscopos nos mostram o futuro, talismãs nos protegem, fórmulas fáceis são oferecidas para tornarem bonitos os feios, terapias espetaculares são oferecidas para esses consumidores de sonhos. Ora, no

meio de tanta fantasia (burrice), fica fácil a TV introduzir seus produtos:

“o sabor que refresca”, “torne sua pele natural” e muito mais…

A Verdade de Cada Um

A conduta do homem é determinada pelo que ele pensa, acredita, repre- senta e prevê. Através do trabalho cognitivo, ele tenta construir para si um mundo significativo e, para isso, ele classifica e ordena uma multidão de fatos, de objetos e de pessoas, que julga conhecer em detalhes.

Os acontecimentos estão constantemente ocorrendo em torno de nós e são ordenados de acordo com diferentes concepções ou interpretações. Somos nós, conforme nosso próprio modelo mental, que organizamos, em nosso pensamento, certos acontecimentos e não outros, enfatizando alguns deles, valorizando uns mais do que os demais e criando assim sentido para fatos não organizados e sem significado. Nunca chegamos a captar a verdade “verdadeira”, pois ela é realmente criada de acordo com o momento que estamos vivendo, adequada àquela situação particular.

Com frequência, acreditamos estar de posse da verdade ao percebermos certa relação prática e funcional entre os nossos desejos e esperanças e os resultados aparentes de nossas ações. Ao estabelecermos apenas uma concepção da realidade caótica, eliminamos várias outras interpretações possíveis, e ficamos convencidos ser a nossa análise a única aceitável ou correta. Vejamos alguns exemplos: um garoto residindo na zona rural criou um modelo de diversão a partir de uma bola, um cão e algumas brincadeiras existentes em sua cidade. Um dia ele veio passear em BH e visitou um parque de diversões. Provavelmente ficou boquiaberto, con- fuso ao ver tanto brinquedo desconhecido.

Ora, o “deslumbramento” seria o oposto caso o menino estivesse acostu- mado a visitar a Disney World. Um segundo exemplo: uma adolescente de 15 anos conquista o seu primeiro namorado, um imberbe de 16 anos. Fica encantada com suas declarações de amor, com sua técnica eficiente de abraçá-la e beijá-la. Posteriormente, conhece um rapaz treinado nessa

arte com esmero. A mocinha passa a ter um novo modelo, uma nova “verdade” do que seria um “bom” namorado e reformulará o seu julga- mento inicial.

O amigo leitor poderá lembrar-se de vários exemplos pessoais: suas

preferências culinárias antigas e as de hoje. Suas escolhas passadas e as atuais quanto a música, passeios, política, literatura, programas de TV, futebol, etc. A sua concepção do mundo, com a idade tornou-se diferen-

te, seu “mapa mental”, ainda que vivendo num “território” muito seme- lhante ao antigo, não é mais o mesmo. Agora, possuindo novos valores, você percebe acontecimentos não antes notados, representa fatos ao seu redor de maneira diferente. “Enxerga” o mundo com outros “olhos”.

Muitos se contentam com uma “verdade” única, se agarram a ela e nun-

ca a abandonam, evitando, a qualquer preço, o seu questionamento e,

também, a dúvida e a incerteza que outras ideias poderiam trazer. Esses fanáticos querem manter, a todo custo, uma segurança impossível de ser conseguida nos seres humanos.

As primeiras “verdades” com as quais convivemos não são concepções

nossas, mas sim dos nossos educadores: pais, professores, companheiros

e outros. Elas nos são transmitidas, na maioria das vezes, de maneira simples, ingênua e até mesmo tola.

Uma vez inculcadas essas “verdades”, elas nos darão uma representação

do mundo semelhante à dos nossos educadores. As novas informações que nos chegam posteriormente, com frequência vêm fortalecer as ideias primitivas, pois o comum é convivermos com pessoas que pensam de modo semelhante ao nosso, lermos livros previamente censurados

e assim por diante. Psicologicamente é mais fácil manter as verdades

iniciais, pois assim não temos que repensar, jogar por terra crenças queridas e familiares, o que nos obrigaria a reformular nossa conduta ao

criarmos novos modelos mentais. Não é fácil trocar a verdade “minha mãe sempre me amou”, por “minha mãe, que frequentemente me odia-

va” ou “minha namorada só se encontra comigo” pela nova concepção “minha namorada está me traindo com outro”. Muitas vezes, apesar de todas as evidências, continuamos a adotar a crença inicial. Quase sem- pre só com algum sofrimento, até mesmo com algum sentimento de culpa, é que conseguimos mudar as “verdades” iniciais, principalmente quando as novas são totalmente diferentes das antigas.

O homem é um inventor de verdades, um conceptualizador de aconte- cimentos, um representador de uma realidade que ele nem sabe quanto de real ela tem. E como se dá essa invenção? Por capricho, raciocínio ou pressão dos fatos? Ainda não possuo essa verdade, mas gostaria muito de tê-la.

Transtorno Médico-Psiquiátrico ou Ficção?

Numa manhã quente de quarta-feira atendi em meu consultório um rapaz de quinze anos. Este, segundo seus pais, há cerca de um ano começou a ficar “esquisito”. Seu comportamento tornou-se diferente do que era na escola e em casa, não mais conseguindo estudar ou se diver- tir como antes. Começou a falar coisas desconexas e, às vezes, a fazer perguntas estranhas, dormindo mal, não terminando o que começava, tendo ações incompreensíveis como chorar e, de repente, muitas vezes, ficando agitado.

Eu, como psiquiatra, examinei o paciente de acordo com o que aprendi como médico, ou seja, olhando um aspecto do universo comportamen- tal: a conduta diferente das usuais. Examinei-o com minha “luneta” médica, focalizei certas características do comportamento e deixei de lado milhares de outras. Orientado por pistas que intencionalmente pro- curava – conforme as teorias que me vieram à mente – rotulei o rapaz de “doente mental”, mais especificamente portador de um transtorno denominado “esquizofrenia hebefrênica”.

Na entrevista com os pais, esses contaram-me, entre outros fatos, que uma psicóloga lhes disse que o rapaz era “normal”, que ele nada tinha de “errado” em sua conduta.

Fica a pergunta: Como eu e a psicóloga “enxergamos” e categorizamos um “mesmo evento” de forma tão diferente?

Uma conduta desajustada pode ser percebida de diversas formas por diferentes observadores, inclusive pelo observador possuidor do trans- torno. Existem várias maneiras de classificar um fenômeno psicossocial,

diferentes modos de perceber as relações entre um fato e outro que emergem da conduta da pessoa. Cada maneira de simbolizar tem seus seguidores.

A cultura fornece, a cada um dos seus membros, referências variadas capazes de assimilar o evento dos mais diversos modos. Na maneira de ver do psiquiatra, isto é, a conduta vista como fenômeno médico, as variantes do comportamento são analisadas, apoiadas em determinados pressupostos aceitos como “realidades” entre o modo de ver médico:

o indivíduo está sofrendo e está agindo disfuncionalmente, isto é, em desacordo ao esperado pelo grupo sociocultural do qual faz parte.

Para explicar ou entender qualquer conduta “normal” ou “anormal”,

o “rotulador”, profissional ou amador, terá que utilizar-se de um certo

padrão (esquema ou modelo) que, uma vez ligado ao fenômeno obser- vado, fornecer-lhe-á um significado ou uma compreensão. Este modelo forçosamente terá que existir previamente na mente do rotulador, fazer parte de seu conhecimento, não só estar armazenado na sua memória, mas, principalmente, estar disponível, consciente no momento, pronto para ser usado. A não existência do conhecimento que servirá de base para ser checado com o fenômeno, fornecendo-lhe a compreensão, também, a não exibição à consciência, impedirá a associação do conhe- cimento anterior assimilador com o fato que está sendo observado para ser entendido.

Para que uma pessoa se sinta mais segura com respeito às suas interpre- tações é necessário que, pelo menos parte de seu grupo de referência, profissional ou cultural, defenda e siga os mesmos pressupostos teóricos, ou seja, tenha os mesmos conhecimentos assimiladores. Ora, como sou médico, sigo as ideias compartilhadas pela maioria da comunidade cien- tífica médica psiquiatra, pois identifico-me com elas.

Voltando ao paciente: foi apoiado nesses meus “óculos”, que são os usados pelo grupo do qual faço parte, que examinei a conduta do rapaz,

comparando-a, primeiramente, com a conduta “normal” – um para- digma vago acerca de um grupo, o dos adolescentes masculinos. Pos- teriormente confrontei seu próprio comportamento anterior, de acordo com o relato dos pais, com a conduta atual diante de mim e conforme os relatos. Para o modelo que me esforço para seguir, o médico-psicológico, este rapaz, aqui denominado de “cliente”, distanciava-se dos padrões mencionados, não só dos adolescentes, como também de sua própria conduta anterior.

Uma vez constatada a existência de anomalias na conduta – sintomas e sinais próprios de um desvio comportamental – foi procurado, no subsistema de conhecimento médico-psiquiátrico, um conceito – aqui chamado de “diagnóstico”, conforme a classificação internacional de do- enças mentais – capaz de englobar essas condutas “anormais” do rapaz de maneira simplificada, fácil de ser comunicada para mim mesmo ou para outros. Foi então utilizado um símbolo verbal simples, unificador, uma abstração dos fatos concretos observados no paciente ou inferidos através dos relatos dos familiares.

A classificação, estabelecida por um grupo de psiquiatras ilustres de

todo o mundo, serve como orientação para o estabelecimento dos diag- nósticos psiquiátricos para fins oficiais, de pesquisa e para orientar o tratamento, inclusive para verificar, conforme a evolução do paciente, se ele está mais próximo do “certo”, ou do “errado”.

Normalmente o observador que percebe ou examina a conduta, nes-

se caso particular um médico assistindo a um paciente, acredita que o

observado é “real”. Essa crença apoia-se em pressupostos encaixados na doutrina do realismo filosófico: o que observo com meus órgãos dos sentidos tem existência fora da minha mente, tal como percebo. Sabe- mos que esta postura recebe, com muita razão, severas críticas de outras escolas filosóficas. Todas as nossas percepções são guiadas ou dirigidas pelas ideias ou premissas que estão armazenadas em nossa mente. Ora, essas ideias básicas ou princípios são geralmente adquiridos muito cedo.

Uma vez armazenadas, essas idéias básicas não são lembradas como foram adquiridas e também não temos acesso a elas diretamente, como através da introspecção ou de reflexões.

Sabe-se que uma grande parte de nossos pressupostos, valores mo- rais, etc. são adquiridos, para alguns, antes dos três anos, para outros, os julgamentos morais seriam aprendidos na adolescência. Agimos automaticamente usando esses pressupostos- chaves, sem conseguir criticá-los através de nossos esforços conscientes. Entretanto, são dessas premissas-conceitos não-visíveis que extraímos nossas associações entre os fatos – funcionam como elos teóricos encarregados de reunir os even- tos que observo ou que desejo compreender.

Desse modo, o percebido passa a formar um conjunto harmônico e es- truturado, fornecendo ao observador algum sentido para ele, que é dado pelo elo dos pressupostos.

Portanto, em resumo: não se podem extrair conclusões, sem existirem premissas. Nosso raciocínio funciona após ter recebido um conjunto adequado de informações iniciais, ou seja, de princípios. De posse de certas premissas, os “eventos observados” são interpretados – ligados uns aos outros – sempre através dos pressupostos básicos que utiliza- mos. Desse modo é formada uma “rede” onde outros dados podem, ou não, fazer parte. Portanto, a razão é totalmente instrumental – trabalha através dos fundamentos aceitos – ela não nos dá garantia de estarmos certos ou errados, bem como não indica onde vamos chegar. Podemos supor que certas experiências perceptivas são diretamente acessíveis a um observador. Entretanto, as proposições de observações, unindo os perceptos, nunca são percebidas, elas existem – já foram “plantadas” em nossa mente antes da observação. Devemos ter consciência de que percebemos as “coisas”, ou os “fatos”, sempre nos apoiando nelas.

Nós, os psiquiatras, na impossibilidade de termos um instrumental mais sofisticado para observarmos, continuamos a usar esse expediente para

fazer nossos diagnósticos clínicos, isto é, a linguagem do dia-a-dia para os fatos e a classificação das doença mentais.

Não temos outro mais confiável até agora, esses são nossos instrumentos de observação. Essa ferramenta interpretativa, formulada por um grupo de psiquiatras, corrigida de tempos em tempos, parece-me menos defei- tuosa do que se cada um, em cada momento, usasse sua própria ferra- menta, carregada de “pré-conceitos” científicos, acreditando, com muita fé, que está tendo “percepções imaculadas”, crença comum existente no “realismo ingênuo”. Não temos outra saída.

Para a “luneta” ou observações do psiquiatra, os vários modos de agir do rapaz são denominados sintomas e sinais, exibidos pelo pacien- te, e que têm sua origem na psique (cérebro/mente) da pessoa. Nessa localizam-se os fatores determinantes responsáveis pelas anomalias comportamentais percebidas: tipo de conduta observada, processos fisiológicos associados e somatizações, mudanças na cognição, na emo- ção e na conduta simbólica e, além disso, inventamos certos fatores que chamamos de “traços” como determinantes, desde cedo, por certo tipo de comportamento.

Entretanto, há observadores não-médicos que usam “óculos” diferentes dos psiquiatras. Eles têm outras premissas básicas, usam outras lentes. Esses não só observarão condutas diferentes, como também enfatizarão algumas delas como mais importantes – prioritárias – para manter sua ideia do mundo ou da sua cosmologia. Fatalmente não darão impor- tância às outras condutas ou outros fatos que são “valorizados” pelo psiquiatra. Para alguns psicólogos, certos religiosos e espíritas, o que o psiquiatra denomina de “transtorno psiquiátrico” pode não ser uma dis- função mental e não ter nada a ver com o cérebro/mente. Eles entendem e explicam o transtorno mental descrito por nós conforme as teorias orientadoras subjacentes existentes em suas mentes. Raciocinarão com conceitos e teorias bastante diferentes das usadas pelos médico acerca do fato, de sua evolução e, principalmente, das possíveis “causas” de-

sencadeadoras do fenômeno que está sendo examinado.

Por fim, esses valorizarão a conduta de forma diversa do psiquiatra. O que para esse é uma “doença”, para o espírita ou religioso pode ser, por exemplo, uma “possessão”, um “encosto” ou até mesmo uma “revelação”. Uma psicóloga pode chamar esse quadro de “carência afetiva”, “proble- mas de adolescente”, “ego fraco” ou outro nome semelhante. Além disso, não devemos nos esquecer que observamos um “cliente”, ou qualquer outro nome que se queira dar, num certo momento, diante de um determinado observador e, como sabemos, a conduta das pessoas muda conforme o ambiente, nesse caso em função das informações ou condu- tas do observador.

As pessoas possuem estruturas psíquicas ou cerebrais que promovem ações intencionais/racionais. Certos transtornos, mudanças ou lesões nessas estruturas provocarão mudanças nas ações. Em outras palavras,

as modificações nas estruturas físicas/biológicas, causadas por mutações

genéticas, danos no tecido cerebral, distúrbios nas substâncias químicas que aí circulam (neurotransmissores, hormônios e péptides), além das mudanças internas causadas por problemas externos do meio ambiente, principalmente o relacionado aos contatos com pessoas, irão se manifes- tar em mudanças comportamentais da pessoa, que pode caracterizar o que é chamado de transtorno psiquiátrico. Sua base, essencialmente bio- lógica, está ancorada na história evolucionária e no genoma das espécies. Entretanto, o transtorno pode e, geralmente reflete, os efeitos indiretos ou indesejáveis do meio ambiente sobre o indivíduo psicossocial. O ser humano, preso às suas características biológicas, age e reage ao meio social, promovendo continuadamente sua adaptação aos significados ou valores desse meio.

Há, portanto, bases sociobiológicas para os transtornos psiquiátricos.

A teoria social fornece as influências nascidas da cultura e dos sistemas

sociais que possibilitam o aparecimento, bem como sua forma, dos dife- rentes tipos de transtornos psiquiátricos. Muitas pesquisas nessas áreas

têm se concentrado na pobreza, na classe social, nos estressores sociais, no apoio social e diversas outras influências culturais. Todas têm suas razões.

Um sistema social global é constituído de diversos subsistemas como o legal/governamental, religioso/moral, familiar/comunal, acadêmico/ médico, crenças/costumes, etc. Existindo diversos modos de examinar a conduta, esta, uma vez desviada, pode levar os diferentes rotuladores a emitir classificações, conceitos e conclusões também diferentes, depen- dendo do subsistema utilizado para dar significado ao comportamento. O psiquiatra, estando ligado primordialmente ao subsistema médico, usará uma conceituação que a comunidade médica adota. Entretanto, sendo ele gente como o cliente e outras pessoas, – deve ser lembrado -, está ligado também a outros subsistemas, muitas vezes mais aprisiona- dos nesses últimos do que no sistema médico.

Todos esses subsistemas constituem padrões ou esquemas de referência para comparar e avaliar a conduta da pessoa a ser examinada. Os di- versos esquemas de referência de cada subsistema examinarão aspectos diferentes da conduta, usarão conceitos e teorias diversas, valorizarão mais certos atributos, isto é, operam em termos de convenções distin- tivas. Assim é que uma pessoa P pode, num certo meio social, vir a ser diagnosticada como antissocial, informalmente rotulada de diferente, desviante, infradotada ou doente.

Isto indica que P, a partir de um esquema de referência, recebeu uma identidade social formal como resultado de sua incorporação num certo subsistema social adotado por um grupo de pessoas. Este mesmo “clien- te”, se examinado através de um outro padrão ou subsistema, e uma vez interpretada por ele, poderá ser denominada de criminosa (subsistema legal/governamental), poderá também ser rotulada de “santa”, “vidente” ou “médium”, etc. Tudo dependerá das convenções existentes na base de referência adotada e usada no momento da incorporação, por cada examinador de conduta. Em resumo, um mesmo indivíduo P poderá ser

rotulado de criminoso, doente mental, sadio, santo e estranho e outros rótulos, até de “normal”.

São frequentes os conflitos entre os diversos modos de rotular dos sub- sistemas. Geralmente um rotulador não conhece o esquema usado pelo outro para rotular e, por isso, acha que ele está errado. O próprio rotula- dor geralmente não conhece as premissas implícitas no seu raciocínio e que estão sendo usadas para incorporar um certo indivíduo num sub- sistema sociocultural. Cada sistema possui não só ontologias diversas, como também epistemologias variadas conduzindo a ela.

O subsistema médico clássico, como outros subsistemas, opera com

pressuposições teóricas subjacentes diferentes das dos outros. Assim, ao examinar uma conduta, poderíamos perguntar: – Que fatores levam uma pessoa a ter o comportamento que ela está apresentando? Se ela é rotulada de “doente mental”, estamos raciocinando com hipóteses ou ex- plicações biológicas e desenvolvimentalistas para entender o transtorno.

Para o adepto do subsistema religioso, as explicações emergem de teo- rias místicas ou mágico-religiosas e, finalmente, o esquema legal/gover- namental examinará as ações do rotulado que não se enquadram no que está estabelecido pela lei.

A nossa sociedade ou governo, por diversas “razões”, tem priorizado o

esquema de referência científica, neste caso o modelo médico e não os “alternativos” como o mágico-religioso. Entretanto, os outros subsiste- mas contaminam o pensamento de todos nós, inclusive dos médicos, psicólogos, juízes, autoridades, etc. O nosso presidente, ao tomar posse, indicou um médico para ser o Ministro da Saúde. Entretanto, preso a outros esquemas, usou fitinhas de N. S. do Bonfim no pulso para “prote- gê-lo” contra maus prognósticos e submeteu-se à acupuntura para suas dores lombares. Uma mistura de crenças e de paradigmas conflitantes.

A cultura continua a utilizar-se de premissas, conceitos e teorias das

doenças e da saúde provenientes de diversas origens, algumas com ideias opostas. Ao categorizarmos um comportamento desviante, misturamos ideologias variadas acerca das doenças, fatores naturais e sobrenaturais, considerações morais, socioecológicas, sociossituacionais, como ano- malias, excentricidades, criminalidade, santidade, pecado e feitiçaria. Todas se entrelaçam na mente do indivíduo e não raras vezes nas teorias complexas do próprio médico, formando um todo compacto.

A testemunha do Ponto de Vista Psiquiátrico

Nenhuma testemunha, por mais que jure dizer a verdade, somente a ver- dade, o fará, pois sua “verdade” é um conjunto de conceitos, preconcei- tos, julgamentos, inferências, interpretações, percepções e fantasias mal ou bem elaboradas. Sabe-se que ninguém tem condições de fazer uma descrição imparcial e objetiva de um fato, mesmo de evento simples: um atropelamento por um veículo. Cada uma das testemunhas é diferente quanto à idade, sexo, inteligência, capacidade de percepção, raciocínio, julgamento e maior ou menor tendência à fantasia. Consequentemente, cada uma terá uma história, ou melhor, uma versão do acidente.

Assim, se o atropelamento foi cometido por um motorista de táxi e a tes- temunha não gostar deste profissional, ela poderá ter “enxergado” uma expressão de raiva no rosto do motorista. Um bom observador poderá perceber no rosto do motorista, por exemplo, a pupila dilatada, os lábios contraídos, tremores nas mãos, a palidez, a respiração e voz entrecorta- da, mas jamais observará “ódio”, pois esse não é percebido e sim constru- ído ou imaginado pelo observador, ou seja, o “ódio” será sua interpreta- ção ou julgamento de certos fatos que ele percebeu. Provavelmente todos os depoimentos são carregados de julgamentos ou interpretações.

Um testemunhará que o motorista estava “voando”, uma outra, simpá- tica aos taxistas, afirmará que o pedestre não teve o “devido cuidado” ao atravessar a rua, e acrescentará: ”é muito difícil dirigir no centro da cidade”.

Há outras hipóteses: uma, ao assistir ao acidente, colocará a culpa no guarda de trânsito – caso não goste deles. Outras ainda poderão culpar o governo, o calor ou o frio, conforme a temperatura do dia. Portan-

to, todos irão elaborar hipóteses pessoais para o que acabaram de ver, escutar e, principalmente, sentir. Assim agem todas as testemunhas: de casamento, de briga de marido e mulher, de acidente de trânsito ou de assassinato.

A “descrição” é, de fato, um julgamento intuitivo, automático, interpre-

tações concebidas por cada um de nós após sentirmos emoções diante do fato presenciado. Nunca é uma descrição dos fatos puros observados. Isso só acontece, em algum grau, com os cientistas nos laboratórios de pesquisas. A testemunha relata a composição que elaborou ou fantasiou, aproveitando um ou outro fato, deixando de lado diversos outros que não interessam ao descrito. Em resumo, elas fazem julgamentos do que sentiram, não do que viram, em harmonia com o que pensam de si e do mundo. A nossa mente seleciona e retém eventos do mundo conforme nossos valores ou atitudes.

Numa pesquisa, meninos de uma escola americana foram separados em duas classes: uma com preconceitos contra o negro, outra formada de alunos sem preconceitos. Para os dois grupos foi lida uma história rela- tando fatos favoráveis e desfavoráveis ao negro. Semanas após a leitura pediu-se aos alunos que relatassem o que lembravam da história.

O primeiro grupo – o que tinha preconceito – lembrava apenas de fatos

desfavoráveis aos negros.

O segundo grupo, sem preconceitos, lembrou-se tanto de fatos favorá-

veis quanto desfavoráveis.

Voltando ao acidente de trânsito, o foco de atenção das testemunhas, no momento anterior ao acidente, possivelmente era, como sempre, dirigi- do aos seus interesses do momento: um olhava a vitrine, outro refletia sobre a briga que teve com a esposa, um terceiro lia manchetes na banca de jornais, uma cuidava de crianças, etc. De repente, a paz foi quebrada por um estrondo ou visão inesperada. A atenção do pedestre/testemu-

nha é mudada bruscamente devido ao estímulo visual ou auditivo.

Mesmo se a pessoa observou a colisão no momento exato em que a

vítima foi atirada ao chão, ela não poderá dar um relato preciso do fato, pois ela não tem o treinamento adequado para observar acidentes, crimes ou brigas. Um policial habilidoso, ao presenciar um acidente, poderá ver, possivelmente melhor do que um nervoso passante sem treino. Mas mesmo este policial terá sua observação limitada, posto que naquele instante verá um acontecimento complexo, com diversos fatos antecedentes e consequentes. Por exemplo, ao presenciar um acidente,

o policial ou a testemunha não sabem se a vítima sentiu um mal súbito,

se queria matar-se ou, até mesmo, a posição do carro nos instantes que antecederam a colisão. O conjunto de fatores que levou o carro a colidir não é conhecido.

Nossa mente tende a dar uma organização lógica e compreensível a

qualquer fato. Ora, como falta treino, no caso de observação de aciden- te, e também conceitos organizadores mais científicos acerca do fato

– menos populares – para obter uma objetividade maior, sabemos que

qualquer indivíduo percebe, organiza e transforma os acontecimentos

conforme o modelo mental existente em sua mente.

Desse modo, em lugar de descrever um fato observado, a testemunha relata um fato transformado, encaixando-o no seu sistema represen- tacional já há muito organizado pelas experiências e aprendizagens anteriores. Ele dará pouco valor a fatos que não se enquadram às suas crenças e ideais básicos, por outro lado acentuará os que reforçam as ideias básicas. Se ocorresse o contrário, as pessoas iriam se modificar a todo momento e isso não ocorre.

Há uma experiência clássica, que realizei por diversas vezes na Facul- dade de Medicina da UFMG. Ela consiste em apresentar a um aluno um quadro contendo uma cena dentro de um ônibus com vários per- sonagens. Um deles é um homem de cor branca portando uma navalha

levantada em direção ao rosto de um homem negro. Pede-se ao aluno que está vendo a cena que faça uma descrição da mesma para um segun- do aluno, que vai escutar o relato sem ter visto a imagem. Esse segundo aluno depois descreve o que “ouviu” para um terceiro aluno, que entra na sala até alcançar sete alunos. Com frequência, em certo momento do relato, algum aluno transforma o ouvido: descreve a navalha na mão do homem negro e não do branco como estava sendo descrita. Assim, o escutado é transformado pela cognição ou representação pré-existente, quem ataca é o negro, não o branco.

Em resumo, o mundo que observamos é modificado pelo nosso “assimi- lador” mental. Os fatos serão sempre percebidos e organizados confor- me os valores e ideais que cada um tem no momento.

Se a testemunha não gosta de taxistas, nem de cabeludo, e por azar o motorista encaixa-se nessas características, possivelmente ele será incri- minado pelo observador.

Um acidente, um crime ou um divórcio são processos dinâmicos, con- fusos e complexos. Uma testemunha, ao observar ou ouvir, “congela” a imagem percebida dominada pela emoção provocada: essa orientará o relato. Ora, o pequeno segmento do acidente memorizado, ditado pelas suas intuições e emoções, não dará nunca a ideia do todo.

É atribuída a José Maria de Alkmim a frase “o importante não é o fato,

mas a versão”. Ele sabia o que dizia, pois o fato, a partir do momento se- guinte ao acontecimento, passará a existir apenas na memória dos espec- tadores, cada um com a sua versão. Após o acidente encerrou-se o fato.

A partir daí nascem as versões e essas passarão a existir nos processos,

nas histórias e na vida das testemunhas. Se a vítima morre, parte do fato real é enterrado com ela.

Quando as Palavras Mentem

Esse autor, com essa frase nos alerta acerca do poder das palavras, da força que têm esses sons mágicos provocadores de ações impulsivas, carregadas de ódio, alegria, tristeza ou medo. Sabemos, também, que através de palavras adequadas despertamos ou criamos crenças, valores, fantasias e desejos adormecidos que habitam nossas almas. O condutor de massas, o líder carismático e o grande pregador sempre usaram e abusaram das “palavras oportunas”, no momento certo. Somos, num cer- to grau, dóceis e fracos, sujeitos às manipulações continuadas dos mais espertos.

Em todos os tempos um grupo dominou o outro para seu benefício. Assim é que na maioria das culturas os homens jovens e brancos, sadios, ricos, saudáveis, inteligentes e cultos, exploraram as mulheres, os velhos, os negros, os pobres, os doentes, os deficientes mentais e os incultos. Este é o nosso destino: obedecer, sem refletir e sem o desejar, à vontade dos mais sagazes e com maior poder.

Os comerciantes seduzem o cidadão-alvo com promessas de férias mara- vilhosas, juventude e beleza eterna, hálito perfumado, frescor no corpo, cabelos sedosos e brilhantes, alegria irradiante ou tola, lábios sensuais, bustos e bumbuns belos e firmes.

Para quem? Para uma população sem dinheiro, de idosos, desnutridos, feios, banguelas, nanicos, carecas, despeitados e desbundados.

Já os políticos, usando as palavras adequadas e comoventes, seguindo o padrão da propaganda, oferecem-nos a justiça social, os empregos com salários altos para todos, a assistência médica de alto padrão, a proteção à criança abandonada e ao idoso, uma justiça digna para os grupos mar- ginalizados, uma alimentação abundante e barata.

Em resumo, tudo o que é desejado por todos nós. Para quem? Para uma maioria que nunca imaginou poder alcançar tais coisas, compostas dos sem-casa, pivetes, negros e brancos pobres, mulheres desempregadas ou com subempregos, crianças, analfabetos, deficientes mentais, etc., ou seja, pessoas sem oportunidades e estigmatizadas socialmente. Vivemos, ainda, sonhando com o paraíso perdido.

Os conhecidos manipuladores do povo, nos seus discursos esforçam-se como podem para estimular e conservar as crenças existentes entre a po- pulação, as normas vigentes, as prescrições de conduta e, por que não, a ignorância popular. O poder de uns se assenta, exatamente, às custas de crenças supersticiosas, na irracionalidade do povo que o impede de sair do seu estado de indigente de conhecimento e de crítica.

Mesmos os políticos chamados de mais “avançados” ou da esquerda, ce- gados pela tradição, defendem no programa de governo a melhoria dos empregos, salários, assistência à saúde, etc., mas nunca uma mudança do modo de pensar mais profundo do operário e do lavrador.

Quando se fala em melhoria do ensino, trata-se apenas de melhorar a capacidade de compreensão da leitura de instruções para que o operário saiba utilizar melhor o maquinário da empresa, para aumentar a produ- ção, a leitura de revistas e jornais que precisam ser vendidos, de propa- gandas diversas e, deste modo, haja mais consumo com mais lucro para as empresas.

A Mensagem

Anastácio é um dos donos de uma barraca de frutas do mercado muni- cipal, onde compro bananas. Ao me ver naquele sábado, foi logo dizen- do, quase gritando:

— Acabei de conhecer uma moça notável. É bonita, inteligente, estudio- sa, grã-fina e agradável… Com essa eu me caso!

Fiquei pensando acerca do que ouvi, tentando decifrar o significado de sua frase. Sabia que Anastácio sempre tirava conclusões apressadas, quando iniciava um namoro. Nessa hora, misturava os desejos com a realidade. Não conseguia formar uma ideia da namorada de Anastácio. Acho que nem ele nem eu, conseguíamos retratar adequadamente os atributos que ele julgava ter notado. Não sei como ele chegou a essas conclusões. Apoiado na sua descrição, comecei a imaginar como seria essa mulher… ”ela era notável… o que tem uma moça para ser notável? Talvez muito alta ou gorda, ou muito magra, ou nada disso”.

Continuei a imaginar a namorada de Anastácio. “ele julgou-a bonita:

lembrei-me, quem ama o feio, bonito lhe parece… Como seria seu cor- po, face, olhos, nariz, cabelos e dentes?”

Enquanto escolhia as bananas, pensava comigo mesmo. “Vivemos num mundo simbólico, onde certas coisas representam outras. Assim, dois pedaços de madeira reunidos de uma certa forma, que chamamos de cruz, podem simbolizar ou representar religiões diversas. Talvez a na- morada de Anastácio tenha olhos azuis e cabelos louros, sendo a beleza, para ele, representada por esses traços.

Mas lembrei-me que esse tipo de beleza foi o adquirido por mim, ao assistir a filmes americanos.

Voltei a refletir: “Frequentemente inferimos certas coisas de outras, isto é, criamos uma afirmação a respeito de uma situação que nos é desco- nhecida, a partir de uma conhecida. Ao sentirmos uma dor no peito, inferimos – de um modo mais simples – imaginamos que estamos tendo um enfarto. Do mesmo modo, quando a mulher ciumenta encontra uma mancha de batom na roupa do marido, ela supõe ou infere que ele a traiu. Quem sabe a namorada de Anastácio teria lido o Pequeno Prínci- pe, gostasse de poesia e isso o levou a supor ser ela muito inteligente?” Com todas essas dúvidas eu continuava a não enxergar a moça.

Prossegui, teimoso que sou, a fazer perguntas ao meu amigo e fui des- cobrindo fatos acerca de sua namorada. Fiquei sabendo ter ela 20 anos, estuda à noite num colégio estadual, cursa a 6ª série e já foi reprovada por duas ou três vezes. Não entendi bem essa parte. Como já sabia que Anastácio havia parado de estudar na 3 ª série, após perder o ano diver- sas vezes, inferi: “Ah! Por isso ele pensa que sua namorada é muito estu- diosa… Perguntando mais, fiquei sabendo que a namorada de Anastácio lhe disse que, muitas vezes, ela ficava horas e horas assentada diante dos livros abertos à sua frente, estudando seguidamente. Ele aceitou ao pé da letra essas afirmações, acreditou no que ela disse ter observado e inferi- do a respeito de si mesma.

Procurei ir mais a fundo, tentando imaginar como Anastácio chegou às conclusões acerca da “agradabilidade” existente em sua namorada. Des- cobri que nas noites dos fins de semana, ela lhe preparava um deliciosos mingau de fubá, quentinho, misturado com pedaços de queijo, igual ao que fazia sua mãe lá em Divinolância, onde ele nasceu e foi criado antes de vir para B. H. tentar a sorte. Então era isso: ela era agradável porque lhe servia mingau de fubá com queijo mineiro.

Restava examinar os motivos que o levaram a interpretá-la como grã- -fina. Isso foi mais difícil. Descobri que ela trabalha como arrumadeira numa residência na Savassi, isto mesmo, na zona Sul da cidade. E tem

mais, usa botas quando sai para passear no Parque Municipal e na Estação Rodoviária. Sua patroa tem uma loja, o patrão, que é um advo- gado famoso, possui uma Mercedes. Ela já andou nela quando foram à fazenda. No ano passado, o casal foi à Europa passear e levar alguns dólares para depositar na Suíça. Rosária, este é o nome da namorada de Anastácio, não foi com eles, como era seu desejo. Sendo de confiança, teve de ficar tomando conta da casa. Na volta, ela ganhou de presente dos patrões, uma escova de dentes, por sinal muito linda, um pente, um dentifrício, e ainda uma marmita arrumadinha, contendo uma deliciosa comida. Coitados, ficaram enjoados e não comeram nada.

Guardei, enquanto pensava, minhas bananas caturras. Paguei a Anas- tácio o que lhe devia e desejei-lhe, como é de praxe no Mercado, um bom fim de semana. Caminhei um pouco tonto, desiludido com nossa conversa incompreensível. Em nenhum momento consegui formar uma imagem clara de Rosária, por mais que tentasse. O relato ouvido a seu respeito, contada pelo namorado apaixonado, não me forneceu nenhum fato acerca de seu nariz, boca, olhos, corpo em geral. Não conseguia enxergá-la pois, durante o bate-papo havia escutado apenas inferências, julgamentos, comunicados de comunicados e interpretações superficiais.

De repente, ao parar diante do ponto dos abacaxis, ao dar a primeira dentada num pedaço, descobri, de um estalo, a mensagem que Anas- tácio tentou transmitir-me em vão e que eu não compreendi devido à minha burrice nesses assuntos.

Ele procurou comunicar-me, através de sua descrição do namoro com Rosária, que ele estava apaixonado, nada mais! Eu, tolamente, fiquei tentando decifrar, de maneira complicada, a mensagem simples contida em suas palavras, em vez de sentir as emoções expressas. Eu sempre faço isso: procuro um sentido complexo quando existem outros muito mais simples.

Videntes: A Prostituição das Palavras

Ouvi, atentamente, na TV, uma “numeróloga” descrever as caracterís- ticas comportamentais exibidas pelas pessoas, conforme o dia do mês em que nasceram. Procurei verificar se os relatos feitos para todos os indivíduos serviriam para mim. O resultado da “pesquisa” mostrou que a vidente acertou mais do que eu imaginava. Todas as descrições feitas para os nascidos em todos os dias do mês deram certas para mim.

Creio que as previsões feitas estão certas, também, para todos os leitores. Passo para vocês as afirmações da vidente, para que as comparem com suas próprias previsões: “os nascidos entre os dias 1 e 5 são teimosos, mas flexíveis para os que sabem agir com eles. Os nascidos entre os dias 6 e 10 têm um grande amor às crianças mas, às vezes, perdem a paci- ência com essas. Os nascidos entre os dias 11 e 16 são trabalhadores e persistentes, quando desejam alcançar seus objetivos. Os nascidos entre os dias 17 e 21 não gastam dinheiro facilmente, somente com pesso- as ou coisas importantes para eles. Os nascidos entre os dias 22 e 25 apaixonam-se rapidamente, mas abandonam cedo suas paixões, quando frustrados. Os nascidos entre os dias 26 e 31 são desconfiados e selecio- nam com cuidado seus amigos”.

Creio que todos os indivíduos encontrarão fatos, na sua história de vida, capazes de “provar” estas profecias. Mas se se esforçarem um pouco mais, descobrirão, também, eventos desconfirmando as previsões.

Há pesquisas mostrando que as pessoas tendem a procurar fatos que comprovam suas hipóteses e só muito raramente buscam os eventos que as desconfirmam. Assim, se não gosto de Maria, a observo, selecionan- do sua conduta negativa, visando “provar” que tinha razão. Se afirmo

que os bons vendedores são extrovertidos, seleciono esses para minha loja e não experimento os introvertidos para verificar a possibilidade de minha hipótese estar errada.

Os políticos, cartomantes, videntes e outros profissionais do mesmo ramo, que advinham com precisão o que ocorrerá no futuro, jamais cometeram erros ao realizarem suas previsões. As afirmações desses indivíduos são vagas, permitindo a entrada dos mais diversos fatos na interpretação para “provar” as previsões.

Quando um comentário sobre qualquer fato é muito geral como: “um dia vai chover em algum lugar da Terra”, ele não precisaria ser falado, por ser uma conclusão conhecida por todos. A fala que explica o geral, ou tudo, não pode ser negada. Quando um adivinho, usando búzios ou cartas, declara: “No próximo ano morrerá um político influente”, qualquer político que morrer irá se enquadrar na previsão, pois sem- pre algum político morre durante o ano e ele é influente para alguém. Afirmações como: “Haverá grandes mudanças no governo brasileiro”, “Um artista morrerá de AIDS” ou “A economia brasileira sofrerá abalos”, situam-se nesse tipo de afirmações desnecessárias. Elas são abrangentes e, ao examiná-las, automaticamente selecionamos determinados fatos ocorridos que se encaixam na previsão.

Ao observarmos as declarações da maioria das pessoas notamos que essas nada esclarecem, explicam ou acrescentam ao já sabido ou espera- do. Falar que: “nosso sistema de saúde está falido”, “o povo está passando fome”, “o brasileiro gosta de levar vantagem em tudo” e “o brasileiro deixa tudo para última hora” afirma algo que sempre ocorre, em algum lugar, num certo momento, com algumas pessoas. Mas também pode- ríamos arrumar amostragens que “não deixa nada para a última hora”, “não leva vantagem em nada”, ”tem um sistema de saúde do primeiro mundo” e “muitos brasileiros comem exageradamente”. Portanto, essas afirmações são inúteis.

As pessoas, ao se expressarem desse modo, não examinaram fatos para extrair conclusões. Elas aprenderam a conclusão pronta, não sabendo que fatos foram selecionados para contribuir para tal afirmação. Tam- bém não observaram outros aspectos da situação que poderiam ter importância, como: Qual sistema de saúde encontra-se falido? Seriam “todos os sistemas de saúde”, inclusive os que atendem as elites? A me- táfora “falido”, que significado adquirirá junto ao contexto “sistema de saúde”? Caso a afirmação fosse confirmada, o que seria impossível, ain- da continuaríamos em dúvida e perguntaríamos: “Quais e quantas foram as medidas usadas para se chegar a essa conclusão e que tipos de erros elas podem conter?

Do mesmo modo: Quais brasileiros, quantas crianças e adultos, deixam tudo para a última hora? As mulheres também? Quais? E o que seria “última hora”? No dia do vencimento, um dia antes, na última hora, minuto, etc.?

Mas as dificuldades não terminam aí. As palavras não são simplesmente símbolos que colocamos em coisas, pessoas ou em fatos para identificá- -las. Muitos dos vocábulos usados só adquirem significados no contexto onde são usados. Nesse caso, para que possamos decifrar seu significado, necessariamente devemos examinar sua relação com outros conceitos já assimilados e entendidos. Esses mais antigos na mente do indivíduo ser- virão de apoio à compreensão. A palavra, uma vez ancorada em outros conceitos aceitos e compreendidos, poderá nos fornecer um significado pleno e será assimilada pelo leitor ou ouvinte.

Entretanto, a maioria das palavras do dia-a-dia, da linguagem popular, são usadas nos mais diversos contextos, ligando-se aos mais diversos te- mas e, em cada um deles, o termo tem um significado diferente. Por isso mesmo falamos que as palavras usadas na linguagem popular são, com frequência, ambíguas, isto é, apresentam significados diversos, confor- me a frase usada. Elas “nasceram” de várias fontes e em cada uma delas adquiriram significados múltiplos.

Consequentemente, afirmações como “levar vantagem em tudo”, ou “deixar tudo para última hora” produzem confusões no ouvinte e dis- cussões sem fim: podem ser “provadas” e “negadas”, dependendo dos argumentos utilizados. Afirmações como essas não explicitaram a ori- gem das palavras-chaves como “levar”, “vantagens” e “tudo”, bem como suas ligações a outros conhecimentos aceitos. Só desse modo essas frases poderiam ter algum sentido preciso.

Examinemos algumas frases contendo a palavra “amor”. Este termo, por sinal muito repetido, evoca boas e más recordações, adquirindo signifi- cados distintos conforme os contextos onde está colocado.

Assim, ouvimos e fingimos entender frases como: “No amor o impor-

tante é a sinceridade”, “Matou por amor”,

ria é um amor de pessoa”, ‘O amor é sublime”, “As dores do amor”, “Fazer

amor”; Um amor de casa”, “Morreu por amor”, “Os pais devem educar os filhos com amor”, “É preciso ter mais amor à humanidade”, “Se tivermos mais amor, tudo será resolvido”, etc.

“A química do amor”, “Ma-

Através dessa pequena amostra o leitor poderá observar que a palavra, ou o signo “amor”, foi usada em diversos contextos, cada um muito dife- rente do outro. Ficaríamos confusos caso tentássemos decifrar o signifi- cado de “amor”, existente na frase “Morreu por amor”, através do signi- ficado que ela adquiriu na frase “Fazer amor”. Nas ciências sérias, seus conceitos principais ou “construtos” são definidos com extremo cuidado, aceitos pelos que os usam, e sempre ligados, direta ou indiretamente, a fatos existentes no mundo empírico.

Aqui pergunto: Qual ideia teria um leitor que nunca tivesse visto a pala- vra “amor”, ao examinar esta lista de afirmações? Ora, os diversos con- textos no qual a palavra foi colocada, onde ela está presa, fez com que o som ou imagem “amor” adquirisse significados totalmente diferentes. Na maioria das vezes seu sentido é difícil de ser entendido por quem emi-

tiu ou por quem recebeu a informação. A maioria das palavras de uso diário caem no mesma dificuldade de entendimento. A palavra “over” em inglês, tem mais de 90 significados diferentes. Essa complexidade de sentidos facilita a vida do charlatão, do pregador desonesto, do vigarista, de muitas psicoterapias, de advogados diversos e dos políticos.

Esses profissionais da palavra, através de uma verborreia algumas vezes ininteligível, desligada de fatos, usam com mestria, palavras produtoras de fantasias e emoções, dependendo do ouvinte. Com isso esses falan- tes conseguem ludibriar os inocentes clientes, o devoto incauto ou o fiel eleitor e vendem as ilusões desejadas.

Quando o manipulador de pessoas emite os belos sons: “família”, “edu- cação”, “saúde”, “colégio”, “lazer”, “riqueza”, “amor”, “democracia”, “liber- dade”, estas palavras são interpretadas e sentidas pelas pessoas que as ouvem de acordo com a experiência e os sonhos de cada um. Elas co- movem os que as ouvem. Mas os que as pronunciam, vivem geralmente em mundos diferentes dos seus ouvintes, compartilhando experiências diferentes. Cria-se uma comunicação próxima do zero: os vocábulos trocados são os mesmos, é certo, mas cada um os representa, em sua mente, ajustados ao seu mundo. Aprendemos, erroneamente, que para ser entendido basta falar o mesmo idioma ou as mesmas palavras. Não é bem assim…

O Poder do Boato

Na segunda feira, Frederico entrou na seção e, virando-se para a colega Inês, num tom de voz mais baixo que o normal, comentou admirado:

— Você sabe da última? Assaltaram o chefe às 6:30 da manhã de sábado. Ele estava com Raquel, aquela nova secretária. E acrescentou: – Os dois juntos numa hora dessas… só podiam estar vindo de algum motel. Você não acha?

Estava criado o boato. A ”informação” preenchia todos os ingredientes necessários para seu nascimento e divulgação: o tema interessava ao grupo que o assimilava e transmitia e, além disso, ninguém podia saber com certeza o que os dois estavam fazendo, isto é, a informação era ambígua. Também o assunto “sexo” sempre atraiu e excitou as pessoas e uma informação acerca dos dois interessava ao grupo: o chefe era anti- patizado por ser exigente e moralista, enquanto a secretária era invejada e odiada pela beleza e exuberância de seus dotes físicos e pelas regalias gozadas no serviço. O boato se caracteriza, quase sempre, por ter uma afirmação que não pode ser negada, nem confirmada.

Os políticos são vítimas frequentes desse tipo de “informação”. Chegam- -nos aos nossos ouvidos cochichos como: “Ouvi dizer que Q está tran- sando, fora de casa, com a M”, “Você sabe que W bate frequentemente em sua mulher”, “O T enxuga feito um gambá, não consegue nem tirar a roupa do corpo”, “Faz anos que P faz uso de cocaína, só fala em público sob o efeito do pó”.

A

imprensa também costuma criar e divulgar boatos. Algumas revistas

se

mantêm quase que exclusivamente divulgando as fofocas sobre a vida

dos artistas.

Certos temas são mais férteis à geração de boatos. Entre eles podemos citar os crimes estranhos, bárbaros ou de origem sexual, as curas mila- grosas, os escândalos sociais, as disputas eleitorais agressivas e as guer- ras. Uma boa parte das notícias que aparecem nas colunas sociais são rumores, que dão prazer tanto àqueles “que são notícias” como àqueles que não são.

O boato age, muitas vezes, como estimulante mental como muitas dro- gas usadas. Tenho uma amiga perita em “acordar” grupos. Presenciei em uma reunião sua habilidade: a conversa corria morna e lenta, as pausas alongavam-se. Percebendo o desânimo dos convidados, ela fez uso do remédio milagroso. Com voz baixa e lenta, como manda o figurino, começou a falar, ao mesmo tempo que olhava para um e outro do grupo. Este, que a conhecia bem, percebeu, através dos gestos teatrais, que algo de interessante estava pronto para vir à tona. Sônia iniciou, falando espaçadamente:

— Não sei se vocês conhecem a Terezinha, uma que mora no apar-

tamento 13.001, no meu prédio, casada com aquele homem moreno, bonitão. Ela tem dois ou três filhos. Ouvi dizer, de fonte fidedigna, que ela largou o marido e já se casou de novo.

Nesse ponto ela interrompeu a narração, observou sorrateiramente a expressão facial de cada um, decepcionados, já que o “furo” não era tão sensacional. Ela, usando de seu traquejo de excelente transmissora de boatos, criava a frustração propositadamente. Esperou alguns instantes e completou a informação:

— Sabem com quem ela se casou? Não sabem? Com a Ruth, uma loira, baixa, feiinha, telefonista da firma do ex-marido.

Nesse instante o grupo despertou, o boato começava a agir. Todos, exci- tados, pediam mais detalhes, ou, no mínimo, a repetição do que acaba- vam de escutar. Sônia continuava a história, calmamente, sabendo que

estava vitoriosa:

— Isso mesmo, atualmente as duas estão morando juntas, lá em Lagoa

Santa, há dois meses, numa casa de campo… Terezinha sempre gostou de ecologia. Segundo soube, as duas estão arrependidas de não terem tomado a decisão há mais tempo. Quem está incontrolável é o Arthur, seu marido.

A partir daí, todos falavam ao mesmo tempo: uns pediam minúcias do caso, outros tinham algo semelhante para contar. Outros ainda tomavam partido, defendendo ou atacando a conduta dos envolvidos, quando o marido era acusado de ser um “banana”, permitindo que sua mulher, uma sem-vergonha, o largasse com os filhos. Cada um se identificava rapidamente com os personagens, projetando neles seus recalques, frus- trações e outras mazelas.

Assisti a tudo sem dizer nada. Tive a sorte de levar Sônia em casa, pois ela estava sem condução. Rimos juntos do efeito de sua fofoca e fiz al- guns comentários. Entretanto, para meu espanto, ela me disse que o caso fora criado na hora. Exultante com o sucesso obtido, contou-me para finalizar:

— Já inventei várias histórias parecidas: não é difícil. Não existe a mo- radora do 13.001, nem o apartamento. Os personagens foram descritos de maneira vaga, que diz tudo e não diz nada. Usei uma linguagem superficial, com poucos detalhes. Com eles grande parte das pessoas se identificam.

Esse tema provoca fantasias, emoções e desejos. Despertei na mente de cada um deles seus próprios boatos, mentiras, lendas, mitos e dramas particulares. Eles excitaram-se, não com minha história, mas sim com suas histórias particulares. Essa é sempre mais excitante.

Comportamento

O Dilema do Gordo: Comer ou Não Comer?

Comer ou não comer? As mães empanturram os filhos de alimentos, enquanto isso, elas mesmas vão às academias, fazem regimes e cami- nhadas, compram o último “best-seller” para emagrecer, tomam drogas

e mais drogas para tirar o apetite, para urinar e eliminar uma boa parte dos alimentos que ingeriram. Essas mesmas mães compram para os filhos pudins, chocolates, sorvetes e mais uma infinidade de gulosei- mas. Mas elas mesmas tomam hormônios para acelerar o metabolismo, fumam e tomam café com adoçante, na esperança de ingerir menos calorias.

Ao lado dessa contradição alimentar familiar, os meios de divulgação, tais como TVs, rádios, jornais, revistas, despejam em cima do alerta e fiel consumidor os mais recentes produtos alimentícios, todos eles atra- entes, charmosos, deliciosos e de alto teor calórico. Somos, sem querer, sócios contribuintes das multinacionais, saboreando seus produtos e pagando-os a preços módicos.

Se a robusta criança tiver uma mãe muito desocupada, de modo que lhe

sobre bastante tempo para cuidar da alimentação do seu querido filho,

e

se este tiver mais algum tempinho para saborear, degustar, deglutir

e

“incorporar” as propagandas das multinacionais, a primeira fase, a

essencial da formação do futuro obeso, acha-se terminada. Seu destino provavelmente está selado e ele estará “frito”, no mundo maravilhoso dos alimentos.

Do mesmo modo que Konrad Lorenz descreveu o fenômeno da “im- pressão” – observado com as crias que ficam “marcadas”, passando a seguir o animal que estiver ao seu lado durante certos momentos dos

primeiros dias do desenvolvimento, – também a criança, criada no am- biente dos alimentos, desenvolverá percepções e valorizações hipertro- fiadas acerca de alimentos. Seu ideal passará a ser, fundamentalmente, o alimento.

Nos bate-papos informais, o obeso fatalmente fará incursões sobre a “boa mesa”. Seus pensamentos e suas conversas giram sempre em tor- no de carnes, pudins e sorvetes: “Comi uma lasanha extraordinária, você precisa ira lá. A sobremesa: um sorvete com creme e suspiro. Uma delícia!” Ele se acha preso, tanto biológica como psicologicamente, ao mundo dos alimentos, preferencialmente aqueles em que predominam os hidratos de carbono e as gorduras. Sabe-se que nosso organismo é mais atraído por alimentos saborosos e nutritivos. Assim, uma carne cheirosa e gordurosa nos atrai mais do que belas folhas da alface bem temperadas.

Costuma-se falar em obesidade quando o peso da pessoa se acha 20% acima do considerado normal para ela. Entretanto, para alguns, obeso é quem acha que é. A obesidade já teve a sua glória e seus cultores, pois fazia parte dos valores difundidos pelas classes privilegiadas. Hoje, seu prestígio está em declínio. “Malhada” pelos poderosos, passou a ser mais comum entre as mulheres de classe sócioeconômica mais baixa, por causa da alimentação dessas ser rica em hidratos de carbono.

A maioria dos autores concorda que a obesidade é consequência de

diversas causas. Parece ser mais grave quando começa na infância, mas pode surgir na adolescência, na vida adulta e até após a maturidade, quando algumas mulheres se tornam obesas após os 50 anos. Tal fato é menos frequente entre os homens.

A maior parte dos grandes obesos, uma vez iniciado um regime e ter

emagrecido alguns quilos, sente-se como se estivesse passando fome.

Em outras palavras, quando um obeso se submete ao regime e seu peso ainda não alcançou o chamado “peso normal”, biologicamente ele se

encontra como os indivíduos que estão passando fome.

Alguns autores argumentam que o peso corporal de um dado indivíduo é autorregulado, alcançando cada pessoa um nível aproximadamente constante, ou seja, um ponto fixo em torno do qual o peso oscila.

Nos obesos este ponto fixo é elevado, acima do peso constante dos “nor- mais” de desenvolvimento físico semelhante. O obeso tem um maior acúmulo de gorduras nas células, ou tem maior número dessas células, um excesso adquirido geralmente na infância. É comum apresentar os dois fatores ao mesmo tempo. Em outras palavras, tanto o teor de gor- dura como o número das células gordurosas alcança, no obeso, valores superiores aos de um indivíduo não-obeso.

Ao emagrecer sob regime, não haverá redução do número de células, mas tão somente de teor de gordura celular, o qual, portanto, ficará abaixo de seu valor normal para aquela pessoa. Consequentemente, em condições normais, isto é, sem regime, a gordura celular tende a aumen- tar até atingir seu ponto fixo, o que ocasionará novo aumento de peso. Nos obesos há uma alteração entre o “crédito” e o “débito”, de modo que neles sempre haverá uma “sobra”, se comparados à maioria dos indi- víduos. Segundo esse modelo, um indivíduo normal e que tem o seu ponto fixo em torno de 60 quilos, tenderá sempre a manter-se em torno desse peso. Caso ele enfrente situações anormais, internas ou externas, (por exemplo doenças, alimentação em excesso ou escassa), durante um certo período seu peso irá diminuir ou aumentar de acordo com a situação. Entretanto, tão logo a situação se normalize, o peso voltará a ficar em torno dos 60 quilos anteriores. O obeso, tendo o seu ponto fixo, por exemplo, em torno dos 120 quilos, tenderá a manter-se também em torno desse peso, em condições normais.

A obesidade, como qualquer problema médico, está longe de ser enten- dida em sua totalidade. Por esse modelo do “ponto fixo”, observações e experiências realizadas em animais e homens puderam ser compreendi-

das. Em cativeiro, os animais engordam ao receber uma superalimenta- ção, no entanto, quando são deixados de lado, livres, sem serem forçados àquela alimentação, retornam ao peso anterior à engorda. Diversas observações semelhantes foram feitas, principalmente com pessoas que, por diversas circunstâncias, receberam escassa quantidade de alimentos.

Essas, após o emagrecimento, retornaram ao peso do seu ponto fixo. De acordo com esse modelo, as drogas comumente usadas para combater o apetite – os anorexígenos – inicialmente fazem descer o ponto fixo do indivíduo para um nível mais baixo e só secundariamente diminuem o apetite. Lamentavelmente, após a retirada da droga, o ponto fixo se eleva novamente, aumentando o apetite e, consequentemente, o peso aumen- ta, alcançando o nível de equilíbrio anterior daquele indivíduo.

A atividade física constitui, talvez, a única técnica eficiente para aqueles indivíduos que, considerados de risco, ou seja, com ponto fixo corpo- ral elevado, manterem peso normal. A atividade física queima calorias, diminui o apetite e, por último, eleva o metabolismo basal, não só du- rante o exercício, mas também horas após este. Portanto, a pessoa ativa fisicamente está continuamente “gastando” mais calorias do que precisa para manter as funções fisiológicas do organismo em condições de não- -exercício. Por outro lado, para azar dos obesos, o regime alimentar nos indivíduos de vida sedentária baixa o metabolismo, ou seja, “economi- za” a perda de calorias. Os resultados são óbvios, à medida que o peso diminui no indivíduo de vida sedentária, a sua taxa de metabolismo cai também, com consequente estabilização do peso.

Diga NÃO sem se sentir Culpado

Quem diz sim a um pedido de aval, para não magoar o outro, pode depois amargar o pagamento da dívida. O passageiro que deixa os cen- tavos com o trocador, com medo de reclamar ou de ser ridicularizado,

está deixando algo mais além do dinheiro: pode se sentir um “fraco”, ou covarde. O consumidor que levou o sapato, por não ter coragem de dizer não ao vendedor, não o usará com prazer, mas com raiva ou desgosto.

A visita desagradável que chegou sem avisar poderia estragar a tarde de

domingo, em outro momento poderia ser até agradável.

Provavelmente, quem experimentou tais acontecimentos vai reclamar tanto de si mesmo, como dos outros. Entretanto é provável que nada faça para modificar sua conduta e influir favoravelmente no curso dos acontecimentos. Quase sempre esses nem mesmo tentaram modificar seu comportamento, visando a atingir objetivos que lhe dariam prazer, maior autoestima e também um relacionamento mais agradável com o visitante de horas indesejáveis.

As situações embaraçosas e, às vezes, humilhantes, das quais as pessoas

se queixam, são frequentes e na verdade atingem todos os seres huma- nos.

O que fazer diante de situações semelhantes àquelas que foram descritas

acima?

Resumidamente existem três maneiras de agir:

1) Aceitar as imposições, lastimar-se e queixar-se da má educação das pessoas.

2) Brigar, xingar e agredir quem tentou a manipulação.

3) Ser afirmativo, sem ser agressivo ou queixoso, defender clara e cal- mamente seus direitos.

Vamos a um exemplo: Aníbal está em uma fila, pacientemente, há vários minutos quando um homem entra, sem pedir, à sua frente. Conforme o exposto, Aníbal poderá:

1º – Nada fazer e reclamar para si mesmo ou com o companheiro do lado a respeito do abuso do intruso. Provavelmente Aníbal se sentirá irritado, envergonhado da sua passividade e com queda da sua autoesti- ma, por estar sendo enganado.

2º – Aníbal, em altos brados dirige impropérios ao furador de fila,

iniciando uma briga, o que passa a constituir um novo problema a ser resolvido. Nesse caso, possivelmente, talvez a respiração fique ofegante,

o coração bata mais depressa e, pior ainda, a discussão possa caminhar até chegar às “vias de fato”, dependendo da reação do outro.

3º – Num tom de voz firme, mas normal, Aníbal dirá ao intruso que aquilo é uma fila, que deve ser respeitada e que ele, o furador de fila,

deve sair dali e procurar seu lugar lá atrás. Nesse caso, sua ação foi exclu- sivamente para dar solução ao problema surgido e não para criar outro.

É possível que Aníbal se sinta ligeiramente emocionado, mas satisfeito

consigo mesmo, ao defender o seu direito. Posteriormente, ele se sentirá

melhor ainda.

Situação semelhante é a do passageiro que não obtém nem o troco nem

a resposta do trocador, ao passar na roleta do ônibus. O passageiro pode:

1º – Ir embora sem receber o seu troco e ficar deprimido por sua con- duta apática.

2º – Brigar com o trocador e eventualmente com o motorista, até com

algum passageiro que ache absurdo ele exigir algumas moedas de troco.

3º – Finalmente exigir uma resposta adequada do trocador, não te- mendo a pressão dele e de outros que querem passar na roleta.

Para cada uma dessas três condutas, encontra-se subentendida uma crença ou uma concepção da melhor maneira de se conviver com outras pessoas.

No primeiro caso, isto é, a passividade como tônica do comportamento, indicará uma suposição de que nunca se deve, em nenhuma situação, desagradar às pessoas. O foco da conduta está em não criar problemas no relacionamento com os outros, seja lá quem for.

No segundo caso, quando há briga, o indivíduo percebe a ação do intru- so como um abuso, uma agressão e, não imaginando outra opção, agride também. Neste caso, ele criou um segundo problema, sem resolver o primeiro.

E finalmente, no terceiro caso, quando a pessoa exprime sua opinião

firme e objetiva, sem rodeios, o centro da conduta se situa em si mesma

e não no bem-estar e manutenção da relação. Neste caso o indivíduo

acha natural alguém tentar furar a fila, como também acha adequado ele defender seu lugar e, por isso, o faz de maneira conveniente. Como não tem poder sobre a conduta dos outros, sabe que alguns agem diferente dele.

Não se pretende aqui defender como correta nenhuma das três posturas descritas. Não é raro um indivíduo ser afirmativo em um lugar e não o ser em outro. Uma pessoa pode ser firme e objetiva no seu trabalho, pas- siva em casa e agressiva no futebol de fim de semana. Também pode ser agressiva em uma ocasião, com uma determinada pessoa, e ser passiva, fraca, em outro momento, com a mesma pessoa.

Você, leitor, escolhe a melhor conduta para si, em cada momento, em cada lugar e com cada pessoa, de acordo com o seu estilo pessoal. Prova- velmente, não será conveniente sermos agressivos ou afirmativos quan- do nos defrontamos com um assaltante, de revólver em punho, exigindo o nosso dinheiro ou tênis. Neste caso, sejamos passivos e fracos, do contrário podemos tornar-nos defuntos.

A Prisão Domiciliar nas Grandes Cidades

Uma parte da população das grandes cidades encontra-se presa. A cha- mada classe média talvez nem saiba que ela própria decretou sua prisão domiciliar. Certas famílias pagaram um pouco mais caro para habitar prisões de segurança máxima, mais novas e talvez mais bonitas. Uma vez morando nelas, não podem colocar a cabeça fora ou andar tranqui- lamente pelas ruas e, em muitos locais, só podem sair de casa através da fuga. Para escapar do possível assalto, antes de sair de casa, o cidadão examina, pela câmera ou a fresta do portão, com extremo cuidado para não ser visto, se há alguém suspeito por perto. Só então ele entra no automóvel que se encontra na garagem. Estando a rua sem riscos apa- rentes, o carro bem fechado, o motorista, muito atento, aciona o “con- trolador da prisão”, abrindo, com ansiedade, o portão que vai expô-lo aos perigos da rua ameaçadora. O carro sai em disparada, escapa como pode, antes que seu proprietário seja roubado, assaltado ou assassinado.

Algumas famílias mais precavidas e privilegiadas, residentes em casas –

elas são mais perigosas – contratam vigilantes permanentes que esprei- tam, dia e noite, tanto os possíveis assaltantes, como os movimentos dos donos da casa: suas idas e vindas, a hora em que chegam e saem de casa

e também do banheiro, que hora dormem e quando acordaram à noite

para fazer pipi. Assim, consegue-se uma segurança e controle quase to- tal. Troca-se o possível e ocasional assalto, pela continuada observação e interpretação da conduta da família pelo vigia. Algumas famílias aprisio- nam-se em pequenos apartamentos cercados por grandes edifícios, onde

o sol só aparece por poucos minutos.

A ideia enfatizada pela sociedade, transmitida como conselho para to- dos os “detentos” é: “Tenha cuidado ao andar pelas ruas, principalmente

parar e caminhar devagar.

Ao sair – a não ser que desejem perder o seu suado dinheiro ou mesmo

a sua preciosa e, às vezes, inútil vida – você deverá, rapidamente, entrar numa outra prisão semelhante como cinemas, barzinhos, teatros ou lojas comerciais. Nesses há menos perigo de ser assaltado “.

Uma vez no mundo selvagem das ruas e praças, ficamos frente a frente com os perseguidores, que são diversos: os temidos pivetes, estuprado- res, trombadinhas, vendedores, assaltantes, mendigos, camelôs, malo- queiros, perguntadores suspeitos e desconhecidos que desejam contar- -nos sua vida, veículos em disparada, pregadores religiosos, objetos, cuspe e fezes lançados dos prédios, propagandistas ambulantes, seques- tradores, vigaristas, etc.

Mas há também, às vezes, perseguidores-fantasmas que habitam nossa

mente, como os assaltantes inexistentes, elevadores que vão cair, bombas que explodirão, gente nos observando ou livros com ideias estranhas escritas por pessoas que pensam diferente de nós. As grandes cidades impõem suas regras, aniquilando o indivíduo, se esse se descuidar. Qua- se sempre, sem querer, o perseguido colabora com o perseguidor, seja ele fantasma ou real. Uma boa parte dos habitantes não só se submete

à estrutura desumana das metrópoles, como, com frequência, ainda a

aplaude, engrandece e se orgulha de fazer parte dela. É difícil saber se

a nossa posição ou a nossa atitude está nos favorecendo ou se estamos ajudando o “inimigo” desconhecido. O jogo é extremamente complexo.

Torna-se cada dia mais difícil driblar todos esses obstáculos. Uma boa parte da população desistiu da luta, não mais a enfrenta, sucumbiu, presa ao jogo do adversário. Esses não mais sabem onde querem chegar, para onde vão. Encontram-se sem rumo e, como disse o gato para Alice, no livro “Alice no País das Maravilhas”: – “Se você não sabe onde quer chegar, qualquer caminho serve”.

Passando pela rodoviária, num desses fins de tarde de sexta-feira con- fusos e irritantes, observei um homem assentado numa das cadeiras da sala de embarque.

Vagarosamente ele preparava um cigarro de palha. Ao seu lado, havia uma mala amarela simples. Ele parecia estar indiferente ao tumulto à sua volta. Tive inveja dele. Não pude, na minha correria, deixar de fantasiar:

“daqui a pouco ele estará no ônibus que o levará à sua cidadezinha, tal- vez até seja Santa Maria de Itabira.

Ele terá no ônibus tempo para conversar calmamente consigo mesmo, de pensar o que quiser, fazer ou não fazer várias coisas que sua mente mandar. Talvez viva numa cidade calma, vendo, todos os dias, o verde do campo, observe vacas pastando e possa ouvir uma chuva tranquiliza- dora. Lá, bem longe daqui, poderá andar e falar com calma. Lá não há pressa, seu relógio de pulso é um enfeite, seus compromissos não têm horas rigidamente marcadas, podem ser adiados até para dias ou sema- nas depois. Na sua casa as portas e as janelas ficam abertas, à tardinha, ele e sua mulher debruçam-se no peitoril e observam os amigos passan- do, todos conhecidos, e a todos ele cumprimenta sem discriminar ricos, pobres, negros, mulheres ou crianças.

De quando em quando, poderá ir até o quintal saborear uma manga e oferecê-la, de graça, ao vizinho e amigo. Poderá sair à rua sem medo de fantasmas, parar em qualquer esquina, entrar e sair de onde desejar. Quando a noite chegar, ele dormirá tranquilo sem pensar em ladrões, sem ser incomodado por algazarras e barulho de freadas no asfalto. Ouvirá sonolento em sua cama, de quando em quando, o berro de um bezerro recém-nascido ou, mais distante, o latido dos cães. Acordará com a claridade do sol, o cantar dos galos e não com ruídos barulhentos dos ônibus, caminhões e carros.

Fui despertado do meu devaneio ao presenciar um carro, na avenida Paraná, jogando um senhor no asfalto. Meu sonho acabou… Eu me

permiti essas divagações para lembrar-me, e também, quem sabe, ao lei- tor, que talvez haja alguma maneira diferente de viver. Quis retratar um contraste. Peço desculpas por ter talvez imaginado um paraíso diante do inferno onde moramos, mas acredito que devem existir modos mais humanos para construir a difícil e trabalhosa arte de viver, além da do cárcere privado.

Parece-me que a massificação impede essa criatividade, forçando todos a serem semelhantes, normais e uniformizadas, de tal forma que a maioria das famílias, nas grandes cidades, segue um mesmo modelo.

Os mais velhos, coitados, esses quase não mais saem de casa. Suas vidas restringem-se a comer, dormir, ver TV e, principalmente, tomar de ma- nhã, à tarde e à noite grandes quantidades de comprimidos para as suas dores diversas, outras para o “coração” e para dormir. Os de meiaidade trabalham incessantemente e, nas folgas que existirem, divertem-se sem parar após se embriagarem. Os jovens, trabalhando, estudando ou não fazendo nada, seguem a última moda de qualquer ídolo fabricado e, com eles se identificando, sentem-se alguém. As crianças obedecem: as de maior poder aquisitivo estudam nos “melhores” colégios, fazem me- diocremente ginástica, dançam balé ou tocam algum instrumento. Nas folgas, assistem aos programas chatos para crianças e outros da mesma espécie. As de menor poder econômico tentam imitar, sem grande su- cesso, algumas mazelas das crianças ricas.

Talvez dentro dos cárceres privados viva uma família “feliz”. To dos estão cercados por vizinhos, colegas e companheiros que fazem as mesmas coisas, pensam do mesmo modo e têm os mesmos valores, de acordo com as classes a que eles julgam pertencer. Passeiam e tiram férias, nos locais “em voga”, conforme sua posição social. Isolados, mas unidos fisicamente, cada um desses indivíduos, nos seus apartamentos, pobres ou ricos, ou nas mansões, todos, como autômatos e sem o saber, fazem as mesmas coisas: contam as mesmas histórias, cantam a mesma letra da música, leem os livros mais vendidos e assistem e discutem, emocio-

nados, à última novela. Cada um desses espetáculos é mais comentado e mais vivido do que os fatos de suas próprias vidas, que, possivelmente, há muito se perderam. Sua consciência, excelente crítico que é, filtra e censura toda e qualquer ideia estranha que possa fazer desabar a sólida estrutura mental e ideológica construída pelo grupo que o cerca. Os que pensam, vivem e se comportam diferentemente são discriminados como tolos, jecas, bregas ou outros termos pejorativos. Assim, o equilíbrio é mantido.

Benditas sejam as Queixas

“Que calor terrível”, “Detesto esta cidade”, “Essa seleção é a pior que já vi”. Frases como essas nós ouvimos a todos os momentos e em todos os lugares. Entretanto, só raramente ouvimos o seu oposto, como “Gosto desta cidade” ou o “Brasil vai bem”, e assim por diante.

Queixar-se é um dos grandes passatempos de nossa população. É fácil, barato, familiar e acessível a qualquer um e, além disso, não exige ne- nhuma responsabilidade. Ao queixarmo-nos, sentimos piedade de nós mesmos e, quem sabe, talvez possamos ganhar, na outra vida, um lugar no céu por termos cumprido tão bem essa penitência na Terra.

A função principal da queixa parece ser apenas um hábito para preen- cher o tempo, apesar de que, à primeira vista, é difícil aceitar essa ideia. Vou tentar esclarecer: a todo momento encontramo-nos uns com os outros e temos que falar alguma coisa. A conversa, para não morrer, precisa ser continuamente inventada, pois não fica bem ficarmos calados uns diante dos outros.

Esse papo é diferente do que temos quando vamos a um banco, por exemplo, fazer um depósito ou retirar algum dinheiro. Nesse último caso há um objetivo claro, a conversa gira em torno dele e, retirado o dinheiro, encerra-se a comunicação. Uma parte de nossa conversação é formulada como no caso do banco, entretanto, mesmos nessas con- versas, diálogos paralelos são inventados para preencher e sustentar o assunto principal.

Quando, por acaso, encontramos algum conhecido, não há nada de objetivo e lógico para ser dito. O assunto fica por conta da criatividade dos envolvidos. A conversa termina quando acaba a imaginação, ou seja, quando nenhum dos dois descobre mais nada a ser falado.

É bastante comum, ao encontrarmos o antigo amigo, perguntarmos:

“Tudo bem?” e ele responde: “Tudo bem. E você, tudo bem? Nova res- posta: “Tudo bem.” Se continuar nesse papo furado, a conversa pode em- perrar e o encontro ser rapidamente desfeito. Mas poderíamos prolongar

a conversa, por exemplo: “Tudo bem nada. Hoje cedo ao levantar-me,

senti uma pontada no peito… E as queixas começam, a conversa flui, rica em dados.

O nosso modo de expressar é muito rico em palavras e frases, que

apenas servem para preencher espaços vazios. Possivelmente a maior parte de nossas conversas encaixam-se nesse tipo. Nessas, de fato, nada estamos falando no sentido objetivo ou produtivo da linguagem, apenas, prazerosamente, emitindo sons para nosso interlocutor, que faz o mes-

mo, como os meninos que estão começando a falar: eles ficam ouvindo

os sons que eles próprios pronunciam. A sons emitidos pelas crianças e

o papo furado dos adultos podem durar horas, mais ainda se estivermos num bar tomando uma cerveja.

Ora, nas conversas de todos os dias, cada indivíduo tem várias pala- vras ou frases disponíveis, prontas para serem usadas, fáceis de saírem. Quanto mais o indivíduo usa essas frases – ou apenas palavras – já arru- madas, analisadas e sem risco de serem usadas, mais elas estarão prontas para saírem para o ar, seja qual for a situação vivida. Temos também o hábito de falarmos muito mais acerca de nossos “pontos de vista” do que acerca de fatos objetivos. Em lugar de descrever alguns lances do jogo assistido, o narrador fala:

- O jogo foi ótimo, mas, na verdade, na minha opinião acho que Maria-

no devia ter entrado mais cedo. Esse técnico não presta. Entendeu? Se tivesse entrado…

Os termos, “ótimo” e “presta” são julgamentos que formam uma opinião sobre o jogo ou a conduta de um bom técnico, não é uma descrição de

eventos. Assim, quase sempre diante de qualquer acontecimento, emi- timos muito mais a nossa opinião – os achismos – acerca dos fatos, ou nossa interpretação, e pouco ou nada da nossa percepção dos mesmos e frequentemente a interpretação tem pouco a ver com os fatos ocorridos.

Provavelmente, em um grau maior ou menor, todos nós agimos assim.

Desde cedo nossos educadores, de geração em geração, fizeram queixas e mais queixas acerca de tudo e de todos, criticaram mais do que elogia- ram, assim é natural e esperado que os discípulos, aprendendo a lição, também passem a agir da mesma maneira automaticamente. Só muito raramente espera-se que um pai ou uma mãe fale que a temperatura do seu filho está normal, ou também que ele está disposto. Mas com certeza falará que o menino quebrou um copo, que está com uma febre altíssima ou, ainda, que é um desastrado, pois derramou água na mesa.

Assim, se nosso filho chora, nós o chamamos de “chorão”. Ao classificá- -lo de “chorão”, formamos uma ideia que pode ficar cristalizada acerca

dele e, possivelmente, estamos criando um “mito familiar” e, como todo mito, esse irá dirigir nossos pensamentos e condutas para o infeliz filho.

A partir daí, ele poderá ser tratado como se fosse sempre chorão e o

imaginamos como agora chorando, mas que antes não estava e, pos- sivelmente, depois também não estará. Além disso, preso ao “mito do chorão, não percebemos o choro como um fato natural, decorrente de acontecimentos que o levaram ao choro.

O termo ou rótulo “chorão”, neste caso, é uma estimativa ética e, por-

tanto, o comportamento é visto como inaceitável. Do mesmo modo os estigmas tais como “bobo”, “feio”, “gordo” e muitos outros, quase sempre são usados como juízos de valor e não para descrever fatos. Quando o modelo de pensamento, como nos exemplos, é a interpretação da reali- dade sobre a forma de queixas, a visão do mundo distorcida e preconcei- tuosa poderá ser bemvinda pela facilidade de ser expressa, sintonizada, captada e entendida pelo interlocutor, por ser este um modo usual de

conceber o mundo. Por tudo isso, viva essa conversa, as queixas, pois são esses instrumentos que mais “ligam” as pessoas umas às outras. As situações positivas, por outro lado, para serem percebidas e faladas, necessitam ser muito importantes, salientes ou acontecerem numa fre- quência muito grande: passou no concurso onde tinha 1.000 candidatos por vaga, estuda todos os dias até tarde da noite. As frases de elogios ou de percepção de fatos positivos, por serem escassamente usadas, não ficam disponíveis em nossa memória, ao contrário das negativas ou as queixas, que nos são mais familiares.

Os médicos sobrevivem em virtude das queixas dos pacientes. Os advo- gados, juízes e promotores passam a vida ouvindo queixas de um lado e outro. Políticos são eleitos prometendo resolver as queixas dos eleitores e, por fim, nós nos ligamos à maioria das pessoas através dos elos mági- cos das queixas. São elas que nos unem. Podemos concluir que uma con- versa acerca de queixas fluirá com facilidade, todos nós temos estoques disponíveis delas prontas para entrar em ação. Por tudo isso, bendita seja a queixa, a principal razão da atual estrutura social.

O Terapeuta amador

Todas as pessoas acreditam que é bom “ter um amigo em quem se possa confiar”, para contar os problemas e ouvir algumas palavras de ajuda e compreensão num momento de dificuldades. É realmente muito bom quando o ouvinte se limita a ouvir e evita dar palpites, pois conselhos ruins em momentos decisivos, podem destruir planos, vidas e trazer sofrimento. É preciso ter algum cuidado com os terapeutas de botequim.

Assim como nem todas as terapias conduzem ao sucesso, muitos con- selhos são desastrosos, apesar de todas as boas intenções contidas neles. Grande parte da conversa entre os amigos e respectivos conselhos envol- ve situações de pouca importância. Quando a indecisão se refere a uma ida ao cinema ou quanto a um restaurante, qualquer que seja o resulta- do, praticamente não haverá mudança na vida daquela pessoa.

Mas nem sempre é assim. Os conselhos são dados também para situa- ções de extrema importância para a vida de quem os recebe e, depen- dendo dos interlocutores, é seguido e pode ser fatal. A separação decidi- da com facilidade numa mesa de bar, sob o efeito liberalizante do álcool, pode ser catastrófica para a vida de quem se separou e sem nenhum prejuízo para o conselheiro. Às vezes, até com algum lucro.

Um exemplo de conselho perigoso é o tipo “deixe-o sozinho, quem fala em suicídio não se suicida”, que é dado com frequência. Nesses casos o resultado pode ser a morte, já que essa crença popular não corresponde sempre à realidade. Inúmeros outros conselhos semelhantes são dados sem avaliação dos resultados, Nesses casos, o conselho dado de graça fica caro para a pessoa.

É fácil aconselhar alguém a largar o emprego ou o namorado. Afinal, o outro sempre o fará porque quis e, portanto, sem nenhuma responsabili-

dade para o conselheiro.

O difícil é conversar com a pessoa, indicando-lhe caminhos para que

possa se ajustar melhor no trabalho, ou encontrar um relacionamento mais produtivo com seu namorado ou esposa. Uma conversa com um amigo que está disposto a ouvir com simpatia e solidariedade as queixas,

tranquiliza o queixoso na maioria dos casos. O desabafo, por si só, dian-

te de pessoa compreensiva e de confiança, traz alívio para quem fala. Por

outro lado, emitir conselhos que vão mudar a vida do amigo, sem ter informações completas acerca dos problemas e recursos para resolvê-los,

é uma atitude temerária.

É claro que quem reclama teve alguma participação no fato que o leva a

reclamar. Ninguém é somente vítima. Frequentemente, ao procurar um conselho, quem reclama busca ouvir o que queria. Um aspecto impor-

tante é o de que, quase sempre, o queixoso procura vários conselheiros

e

adota, automaticamente, a orientação mais parecida – ou igualzinha

à sua própria. Eles, nós todos, procuramos um apoio às nossas ideias

e

crenças, desse modo, os conselheiros foram, na verdade, seleciona-

dos entre os mais semelhantes ao cliente amador. Assim, o esposo ou a mocinha desencantada com o companheiro tende a buscar a ajuda da mãe ou do melhor amigo, reclamando: “É um absurdo o que ele me fez”, “Ela não podia ter me tratado daquela maneira”, “Ele devia ter-me dito”. Os terapeutas, quase sem exceção, irão escutar e comentar o ocorrido, defendendo o queixoso, dando-lhe razão, tudo isso sem examinar o con- texto e os antecedentes do fato. O consulente sai da “consulta” confiante. As frases indicam uma crença falsa acerca do poder de nossos desejos sobre a conduta das pessoa. Isso não existe. A pessoa deseja que o outro aja de modo diferente, mude, sem seus esforços.

Numa família ou numa repartição pública, alguma coisa nos grupos envolvidos determina os que terão o papel de “queixadores” e os de “terapeutas”. Esses indagam: “As minhas amigas me procuram para queixarem-se”, “Gosto muito de Cláudia, ela me entende” ou “Marília me

procura só para lamentar-se”.

Por azar, nem sempre aquilo que deseja a pessoa que busca o conselho, é

o melhor para si.

Em briga de casal, o cônjuge procura a ajuda dos familiares e amigos que percebem e integram o mesmo sistema de pensamento dele. Geralmen- te, esses não o modificam, nem tentam melhorar seu relacionamento conjugal. A queixa principal não é examinada em seus diversos detalhes,

o conselho é fornecido sem avaliar as consequências, sem examinar o

papel do queixoso no problema e sem o preparar para adaptar-se ou re- solver as situações problemáticas existentes. Desse modo, a falsa “ajuda” perpetua as desavenças.

Por último e isso pode ser grave: quem faz as confidências fica compro- metido com quem as ouve. Se o cônjuge pretende separar-se da mulher

e fala muito mal dela, fica difícil depois explicar ao conselheiro a recon- ciliação ocorrida mais tarde, como também fazer um comentário favo- rável à mulher, em presença de quem escutou os impropérios dirigidos

a ela. Por tudo isso, cuidado com os terapeutas de botequim, com os amadores.

A Liberdade dos Jovens

Muito se tem discutido acerca do problema da maior ou menor liberda- de dos jovens. Quando e como devemos dar-lhes a liberdade e em que grau essa deve ser concedida? O termo emancipação, que se assemelha à libertação, significa “aquisição da capacidade civil”, ou “libertação do pátrio poder” ou ainda “conquista de independência”. Ao falarmos deste tema, forçosamente penetramos num terreno difícil e de grande im- portância para o ser humano, que é sua liberdade e esta tem, como seus opostos, o determinismo e a coação.

Não discutirei as duas posições extremas e radicais, ou seja, determinis- mo absoluto ou liberdade total, pois creio que estes não fazem parte da conduta humana. O homem carrega pré-determinações absolutas: não pode voar, trocar de sexo e assim por diante, mas pode alcançar uma liberdade relativa como trocar de emprego, casar ou descasar, ir ao cine- ma ou ver TV e fingir trocar de sexo.

A liberdade, ainda que limitada, é conseguida ou conquistada através da decisão do indivíduo de construir a si mesmo, de acordo com seus valores. Esta construção surge através da ação. O homem não se torna livre pensando apenas, precisa agir. Ele encontra-se cercado de grandes dilemas, um deles é o determinado por duas tendências fundamentais e, em certo sentido, opostas:

1) a autoafirmação, que corresponde à autonomia individual;

2) a integração, que leva à dependência. Ao mesmo tempo existe em todos nós – desde o nascimento – uma força ou tendência no sentido de torná-lo autônomo ou livre. Essa é adquirida, em grande parte, através da outra tendência humana, a de estar ligado, integrado, a outros seres humanos, ou seja, estar dependente e não-livre.

Como escapar ao dilema de buscar a liberdade através da não-liberdade?

O menino aprende a ser livre privando-se de sua liberdade, preso ao

grupo social, geralmente o de sua família e, mais tarde, dos companhei-

ros, cônjuge, membros de igreja, etc.

A estabilidade dos organismos individuais e da sociedade, assim como

seu bem-estar, dependem basicamente do equilíbrio próprio entre essas duas tendências conflitantes e necessárias ao desenvolvimento. Durante o estado de “saúde” dos dois sistemas – individual e social – há uma rela- tiva integração entre eles: uma relativa liberdade individual e, ao mesmo tempo, um sistema familiar e social integrado, funcional e estável dina- micamente. Nesse caso, ambos os sistemas estão satisfeitos.

Durante as crises, ocorre o contrário: ambos os sistemas estão em so- frimento – “doentes” – por desequilíbrio entre suas tendências básicas. Neste caso, ou a família hipertrofiou a integração em detrimento do crescimento da individualidade de seus membros, ou o jovem exagerou sua autonomia, provocando a quebra da integração familiar, num mo- mento de sua vida no qual a ligação ainda era de vital importância.

O sistema individual do jovem é extremamente fluido, dotado de ainda

poucos recursos, sendo facilmente controlado por outros sistemas.

Quando o jovem abandona precocemente o sistema familiar, é comum ligar-se e “nutrir-se” de outros sistemas ao seu redor, que podem ser me- lhores ou piores para ele do que o anterior. O jovem poderá ligar-se ao grupo de escoteiros ou ao de assaltantes. Em nossa cultura americaniza- da, propagada pelos filmes de Hollywood e por outras influências, existe uma pressão para que as pessoas se agreguem em grupos não-familiares, em detrimento de liberdade individual. Esta “cultura” vai contra a dos

nossos antepassados, na qual a ligação familiar era a buscada e elogiada.

A agregação diminui ou elimina a autonomia individual, a orientação

interna de cada pessoa. Ao mesmo tempo ocorre a hipertrofia da “boa

relação” com o grupo, ou o “bem-estar grupal”. Culturas diferentes en- fatizam diferentes posturas: maior ênfase no indivíduo, na sua liberdade ou maior importância aos grupos familiares, políticos ou religiosos.

Os valores e as atitudes transmitidos ao jovem pela própria família funcionam assentados em regras, moldes ou padrões de conduta que são

aceitos como certos. Ensina-se o que é sério e o que não o é, o que é bom

e o que é mau, a forma apropriada de comer e a inadequada, as formas

corretas e incorretas de demonstrar carinho, quais são os amigos e os que não o são e milhares de modelos semelhantes.

Portanto, nos primeiros anos de vida, a família, que já possui os seus padrões assimilados, os impõe ao filho. À medida que o menino cresce, ele vai recebendo outros modelos ou padrões: dos amigos, dos colegas, dos professores, da imprensa, dos partidos políticos, da Igreja, etc. Pou- co a pouco desenvolve-se o padrão do indivíduo, produto da organiza- ção dada às milhares de experiências vitoriosas e de fracasso, dos vários modelos recebidos e recriados.

Aparentemente ocorre uma situação de liberdade, quando o jovem es-

colhe uma profissão, um cônjuge ou um grupo de amigos. Mas, de fato,

a “escolha livre” é determinada, em grande parte, pelos modelos rece-

bidos e incorporados, principalmente dos familiares e companheiros, e também por experiências transmitidas verbalmente por outras pessoas

e nunca experimentadas. Todas essas informações recebidas, algumas

vivenciadas, outras não, são seguidas com muita fé, quase sem contesta-

ção ou crítica. O indivíduo, frequentemente, crê que sua escolha é livre:

que ele se casou com Margarida porque quis, que é médico por vocação, porque, para ele, a medicina é a melhor profissão e é amigo de Paulo, porque Paulo é muito “boa gente”. Pura ilusão. A nossa representação do mundo, incluindo os diferentes modelos, é pobre, contém poucos dados

à nossa disposição. Conhecemos superficialmente, ou mesmo nada,

acerca de outras profissões, assim como outros modos de vida e desco- nhecemos modelos de vida de pessoas estranhas ao nosso convívio.

Além disso, os modelos pouco conhecidos não poderiam exercer atra- ção sobre nós, pois geralmente só valorizamos as experiências ditadas pelo modelo por nós aprendido. O valor que nós imputamos a alguém,

a alguma coisa, ou a alguma atividade, está já constituído e cristalizado

em torno do fim da adolescência em nossas mentes, pelos nossos “tapa- -olhos”. Assim, munidos desse “radar”, vamos organizando nossas per- cepções em torno dos nossos padrões, vamos formando a nossa estrutu- ra mental, “filtrando” aquilo que não corresponde à nossa hierarquia de

valores que foram inoculados em nossa mente.

“Sou advogado, gosto muito daquela moça, mas ela não é do meu nível, pois é balconista”. Sou branco, estudante de medicina, não fica bem para mim ir à festa com Pedro, que é negro, servente de pedreiro, apesar de ele ser o melhor do nosso time de futebol”. “Sou professor da Faculdade de Medicina, não posso frequentar tais lugares e andar com essa genti- nha sem classe, que nem se vestir sabe”. “Eles são gente simples como nós”, “Só frequento restaurantes de alto nível, não tolero falta de classe”.

Dificilmente ouvimos uma conversa descontraída ou um papo informal, onde o preconceito e a visão estreita do mundo não se revelem e possam ser identificados. Não só assistimos aos preconceitos contra o negro ou os portugueses, mas a respeito das várias classes e papéis sociais, de pro- fissões, de sexo, de idade e assim por diante. “Ele é muito jovem, nada sabe”, ou o seu oposto, “Ela está totalmente gagá”.

É extremamente difícil sair disso. Só com uma criação de um modelo

neutro, que permitisse a entrada de toda e qualquer informação, padrão esse que fornecesse para cada dado recebido um valor que fosse interes-

sante para seu possuidor.

Portanto, para nos tornarmos mais livres, é preciso usar menos os “filtros” e menos os “radares”. Usar, sim, uma “antena parabólica” para captar tudo o que pudermos, dando a cada percepção um valor mais abrangente, aumentando nossa representação ou o nosso macromodelo

do mundo.

Só assim poderíamos ficar um pouco menos presos aos grupos de pres- sões, passaríamos a ser mais orientados internamente e menos externa- mente, deixaríamos de ser seduzidos pelos líderes carismáticos e, dessa forma, quem sabe, poderíamos ser líderes de nós mesmos.

Bichos ou Seres Humanos?

Ao lidar com os meninos de rua não devemos esquecer que estamos lidando com seres humanos, cujo comportamento resulta das exigências do seu organismo biológico, de sua aprendizagem durante sua vida, dos estímulos provenientes de seu meio ambiente num determinado mo- mento, das pressões provocadas pelos grupos dos quais fazem parte e conforme os modelos que aprenderam de si e do mundo. Todos estes fatores funcionam juntos, predominando, ora mais um, ora outro.

O que diferencia os “pivetes” não-criminosos dos “pivetes” crimino-

sos são pequenas diferenças existentes em cada um dos fatores acima relacionados. Assim, um adolescente não-criminoso apresenta uma concentração de serotonina cerebral – um neurotransmissor existente no cérebro – mais elevada do que o menino criminoso. Uma criança “normal”, provavelmente, foi criada num lar mais harmonioso e seus pais eram mais bondosos e compreensíveis do que os pais – caso tenha – do menino de rua. Os pais do adolescente “normal” talvez não tenham sido alcoólatras ou dependentes de drogas. O cérebro de um recém- -nascido “normal” não sofreu danos pré, peri, ou pós-natal como pode ter ocorrido no pivete criminoso. A maioria dos meninos tem uma ideia do mundo mais realista do que a do menino de rua, principalmente da conduta das pessoas.

A família e a sociedade em geral vai, pouco a pouco, se acomodando e

assimilando a carreira do “pivete”, que ela, em grande parte, ajudou a construir. Acostumamo-nos com seus pequenos delitos e sua aprendiza- gem progressiva para crimes mais sérios. Aceitamos passivamente, sem nos alarmar, sua miséria, sua morte precoce nos acidentes de trânsito, nos espancamentos sofridos dos próprios companheiros ou por grupos de extermínio, suas doenças graves, sua desnutrição, seu tédio prove- niente de sua vida vazia e sem sentido, sua falta de higiene, o uso de

drogas, sua submissão a estupros e, por fim, sua exploração continuada pelos que se utilizam deles para a prática de roubos, de relações sexuais e até mesmo de campanhas políticas.

Lamentamos histericamente seu sofrimento com palavras semanti- camente apropriadas para as emoções negativas, mas sem que nosso coração ou pulmão mude seu ritmo normal. Assistimos nas imagens da televisão a seu sofrimento de animal abandonado, no instante da notí- cia. Após a hora marcada para “sofrermos” o problema do pivete, diante do noticiário, desligamos a TV e também nosso cérebro e o ligamos no canal das diversões. Ao exibir essa conduta de preocupação simulada, expiamos nossa responsabilidade na participação desse problema social e reforçamos a nossa imagem de cidadãos bondosos. Com isso mante- mos um falso equilíbrio e nossa autoestima elevada.

Após o “nosso sofrimento” de hora marcada, saímos com nossa família saudável e unida para jantar. Passamos pelo teatro para assistirmos a uma comédia representando o drama humano. Voltamos para casa para mais um descanso, agora das diversões do mundo fictício. Deitamo-nos para dormir numa espaçosa cama limpa, macia e confortável. Recupera- mos, desse modo, as energias perdidas pelo sofrimento do dia anterior.

Dormimos um sono tranquilo e sem culpa, como bons cristãos que somos. Enquanto dormimos, neste momento, um pivete pode estar sendo assassinado, acidentado ou estuprado numa noite fria, indiferente, sonolenta e serena como nós.

Guerra, Heróis e Inocência

Os povos sempre produziram bobos, heróis e trapaceiros. Talvez preci- semos deles. Os bobos servem para nos divertir, os heróis nos fornecem direção e segurança para as dúvidas e os trapaceiros nos fazem acreditar, por alguns momentos, em dias melhores. Uma distinção precisa entre eles não é fácil, pois as três características se misturam e se comple- tam. Todos trabalham com o povo: o herói precisa de um público para admirá-lo ou adorá-lo, o bobo necessita de risadas da plateia, e o trapa- ceiro aproveita a ingenuidade e crendice de suas vítimas.

De tempos em tempos, como ocorre agora, os heróis (ou seriam tra- paceiros?) ocupam os espaços dos jornais. Eles inoculam nas mentes inocentes, através de discursos virulentos, estimulantes para o tédio do povo. Sua fala, desprovida de argumentos, inclui, preferencialmente, sons com forte teor emocional, frases grandiosas, expressas de forma direta, simples e vaga, escondendo a complexidade dos temas discutidos.

Palavras oportunas, em grande quantidade, são disparadas contra a mente de fanáticos admiradores. Sob o efeito do discurso, cada um em seu canto, interrompe suas reflexões pessoais sobre as eternas desigual- dades e injustiças sociais, esquece sua insuportável solidão, sua vida sem atrativos e sem perspectivas de mudança. O discurso do guru, milagro- samente, lhe revela alguma razão para viver.

O líder, consciente da submissão, fraqueza e aturdimento dos lidera- dos, injeta, pouco a pouco, em suas mentes macias, a figura do inimigo fantasma. Revelado o inimigo comum, mesmo sendo cada um muito diferente do outro, os desgarrados se unem.

As palavras do líder, lançadas com sabedoria e precisão matemática, produtos de refinadas pesquisas das agências de propaganda, atingem

a mente atordoada do guerreiro em potencial, sendo que a provocação

do ódio concentra-se, inicialmente, num nome. É difícil odiar um povo, pois esse, além de não ter personalidade, não pode ser visto. O comba- tente virtual só sente e entende o concreto. Termos usados para expres-

sarmos nossa raiva de todo dia, são utilizados para identificar o inimigo:

demônio, bandido, louco, ditador, agora, terrorista. Uma vez selecionado

o monstro, estende-se a agressão para o povo da mesma raça.

Doutrinados pelo ódio ao inimigo comum, os convertidos se sentem encantados, aliviados e felizes por estarem defendendo uma causa justa e grandiosa. Extasiados, sentem nascer, no seu íntimo, um vigor e pra- zer sublime, nunca antes vivido, fruto de sua conversão a um “xiismo” qualquer. Assim, milhões de fanáticos, ligados por uma ideia comum, partem para o ritual da guerra. Nesse ponto, os objetivos escusos do líder passam a ser os mesmos dos seguidores, mais importantes que suas vidas.

Estranhamente, e como é estranha a mente humana!, esses jovens con- vertidos, antes desorientados, agora se sentem seguros e tranquilos. Suas intermináveis e dolorosas dúvidas: “o que fazer?”, ou “para onde ir?” terminam com a adesão à guerra. Na mente dos humildes seguidores despertam sonhos muito antigos de glória e de poder, inatingíveis pelos caminhos normais de sua vida. Entretanto, ao se identificar com os dis- cursos do líder, o soldado imagina-se importante, conhecido e poderoso.

Claro que ele não será famoso como foi John Smith, por exemplo, Mas ficará famoso por ter morrido como soldado do regimento importante, de um país importante. Ele imagina ser um dia famoso e forte como é seu guia idolatrado, fantasia dias melhores, paz e felicidade. Começa a sonhar com seu retorno triunfal, seu nome na imprensa, garotas belas e carinhosas ao seu redor, numa praia ensolarada, como sempre viu nos filmes sobre os heróis de guerras anteriores.

Os que já foram enganados outras vezes por diversos governantes,

esperam mais fatos e menos boatos para se decidirem. Este grupo sabe que as suas experiências são altamente diferentes das vividas pelos seus superiores. Os sons que eles pronunciam são os mesmos que todos nós pronunciamos, mas essas palavras iguais (“guerra”, “inimigo”, “ditador”, “terrorista”, “incapaz de governar o povo”, “liberdade”, “democracia” e outras), expressam experiências muito diferentes, referem-se a mundos totalmente diversos. Sadam Hussein foi “Deus” para boa parte do povo iraquiano, Bush foi apoiado pela maioria do Congresso e por grande parte do povo americano nas votações. Nós, brasileiros, já elegemos Jânio, a nossa Câmara já aprovou, sem votos contra, o governo de Costa e Silva, Médici e outros. Stalin foi herói na Rússia e Hitler, na Alemanha. Com o passar dos anos, com mais informações e menor número de ver- sões, a história poderá ser transformada em novas verdades.

Já assistimos a esse “filme” e já conhecemos o perdedor – o povo dos dois lados – e os vencedores, os governantes de algumas nações e cer- tos empresários que, como sempre, aproveitam a situação. Essa é a sua atividade.

Infelizmente os heróis ou trapaceiros voltaram, discursando como sem- pre, conduzindo para a guerra, ou para diversos caminhos estranhos aos nossos, um rebanho de jovens inocentes. Seriam os tolos?

Vidas e vidas continuam sendo eliminadas, sem ao menos perguntar aos crentes seus valores e objetivos. Impõem-nos, em troca do nada, expe- lindo palavras vazias, seus objetivos sórdidos. De tempos em tempos, uma multidão de ovelhas puras e mansas caminha, antes da hora, para o outro mundo, conduzida por pastores incapazes, imbecis ou loucos.

Homem: Animal Contraditório

O homem é um animal “fora de série”, estranho e desadaptado. Somos

isolados, mas vivemos altamente ligados uns aos outros. Temos uma parte da mente que pensa, às vezes com alguma lógica, e ao mesmo tem- po, uma outra parte da cabeça presa ao organismo – glândulas, órgãos, músculos – reage instintiva e automaticamente aos estímulos, portanto, somos irracionais em diversas ocasiões. Às vezes somos bondosos, ofe- recemos muito de nós mesmos em benefício de nosso irmão, em outros, o assaltamos, o estupramos ou o matamos. Oscilamos, passando de um modo de viver cheio de alegria, esperança e fé, para o mais completo desespero e ódio. Buscamos ansiosamente a ajuda médica por pequenos problemas de saúde e, muitas vezes, menosprezando a própria vida, nos suicidamos.

Trabalhamos duramente para conseguirmos recursos visando obter casa, comida e segurança. Entretanto, ao atingirmos o desejado, passamos a comer exageradamente, acumulamos dinheiro desnecessário e arrisca- mos nossa vida em atividades perigosas como lazer. Fazemos guerras, para conseguirmos a paz. Lutamos contra os poderosos e quando esta- mos no poder, quase sempre atuamos de todas as formas, no sentido de eliminar os de menor poder. Criticamos violentamente os torturadores

e, na primeira oportunidade, passamos a agir como eles. Buscamos de

todas as formas possíveis uma companhia, e quando a conquistamos, a achamos aborrecida e vamos atrás de outra.

Censuramos a censura, quando ela é extirpada, cada grupo ideológico reclama seu retorno. Como equilibrar-se numa “zorra” dessas? Esses pensamentos me ocorreram ao lembrar-me de Cícero.

Conheço-o há longos anos, acho mesmo que desde criança. O nosso convívio sempre foi muito íntimo e isso permitiu obter muitas informa-

ções a seu respeito, como, até mesmo, elaborar algumas teorias acerca de sua vida. Apesar dessa proximidade, na maior parte das vezes eu não o entendo e, quando suponho compreendê-lo, vejo que falhei.

Cícero é um pesquisador sério da natureza. Lê muito, presta atenção a

tudo e armazenou, ao longo dos anos, vastos conhecimentos científicos

e históricos do mundo e do homem. Entretanto seu “radar” é muito

abrangente e pouco seletivo. Desse modo ele captou também crenças infundadas, superstições diversas, ideias religiosas emitidas por qual- quer seita moderna e, além disso, aceita inúmeras “verdades” do senso comum. A cabeça do Cícero virou uma verdadeira salada, contendo informações desordenadas, contraditórias e pouco plausíveis. Todas elas seguidas e defendidas com o mesmo vigor e entusiasmo. O resultado tem sido drástico. Diante de tantas informações niveladas em termos de valor, algumas sérias, outras nem tanto, ele foi arrastado para uma profissão que lhe é imprópria, escolheu amigos inadequados ou incom- petentes, casou-se com uma mulher que não lhe assentava e criou seus filhos na falsa esperança que boas intenções são suficientes para condu- zir a uma boa educação.

Mas Cícero é um homem bravo, valente e teimoso. Ele continua con- fiante no “mapa” desajustado e confuso existente em sua mente e vai em frente.

É claro que o “território” onde ele está pisando é bastante diferente do

“mapa” existente em sua representação mental. Portanto, quando ele está deitado em sua cama, pensando que tudo vai bem, ao levantar-se e ao agir, ele é obrigado a perceber que o “mapa” que representa seu mundo

é um, o mundo real é outro. Assim, meu grande amigo, frequentemente

lamenta-se para si ou para os outros: “Sou um desastrado, um sem sorte, tudo que tento dá errado”.

O modelo que construiu de si mesmo e do mundo, nesse caso, foi acrescido de mais uma crendice: “Sou um sem sorte”. Assim Cícero gasta

parte de seu precioso tempo lastimando-se, utilizando pouco seus recur- sos e potencialidades. Por tudo isso, ele fracassa em diversas atividades, perde a oportunidade de obter várias satisfações e exibe ressentimento e infelicidade.

Cícero não se emenda, pois, por mais que ele transgrida as leis da na-

tureza e da sociedade, ele não modifica seu modo de pensar e agir, isto

é, não aprende com a experiência vivida. Ele é, como disse, um sujeito

contraditório, em certas ocasiões Cícero só cuida de si. Nessas ocasiões, ao ser importunado, agride, xinga ou, no mínimo, não ajuda ninguém. Outras vezes, porém, gasta seu tempo, que é curto, ajudando, ouvindo lamentações aborrecidas dos outros, até mesmo de pessoas que mal co- nhece ou que sabe que não gostam dele. Durante essa fase, ele empresta dinheiro, procura emprego e aconselha pacientemente os pedintes.

A maneira de pensar de Cícero também é estranha. Ele é economis-

ta, seu raciocínio é lógico, tanto no serviço como nos aspectos de sua vida relacionados à sua área de trabalho. Eu diria até que “lá” ele pensa matematicamente. Não há imprecisão ou ideias preconceituosas.

De cada premissa elaborada, sempre bem postada, ele deduz conclusões com proposições que não contêm nenhuma dúvida, exibindo clareza de pensamento produzido por uma razão lúcida e expresso sem palavras ambíguas.

Pois bem, o racional Cícero, ao abordar outros problemas humanos fora do seu domínio estrito, se lambuza todo. Quando abordava os temas do dia-a-dia, na política ele é brizolista, em religião, ele abraçou as ideias do Boff, no amor… bem não posso revelar, e até no futebol, onde sua pai- xão é o Atlético, ele se torna, de repente, um perfeito animal irracional. Toda sua bela lógica mental é transformada em palpites, preconceitos, desejos, fé cega, superstições, incoerências uma após outras, deduções apressadas, hipóteses duvidosas e não comprovadas e assim por diante, de modo a envergonhar qualquer tratado elementar de lógica. Nesses

momentos, o Cícero torna-se outro ser, um não humano, carregado de emoção, impulsivo, não sabendo mais argumentar e nem ouvir argumentos de seu opositor. Levanta a voz, enfurece-se, desafia, às vezes parte até para as “vias de fato”.

Eu, que já conheço essas reações, o perdoo. Mas é comum ele brigar até comigo, grande amigo seu, quando se torna irracional. Depois, mais tar- de, arrependido, ele retorna com a sua outra mente e eu o aceito como sempre.

Cícero não me surpreende só nesses aspectos. Olho-o com tristeza, lamentando comigo mesmo como pode uma pessoa que tem uma bela inteligência, experiência, crítica e cultura ser tão preso às regras, sem nunca duvidar delas, agindo como um cordeiro às suas imposições.

Levanta-se sempre à mesma hora, vai para o serviço, pelo mesmo cami- nho, nunca falta a este, chega no mesmo horário, deixa o carro no mes- mo lugar. Repete no trabalho, maquinal e automaticamente, as mesmas atividades, os mesmos gestos, sorrisos, expressões e conversas, usando frases apropriadas para cada pessoa. Nada é criado, nada é diferente. Parece haver dentro dele um medo à espontaneidade, um pavor em ser diferente, um culto à mesmice. Seu “computador mental” é dominado no serviço, no lazer, em tudo, uma programação repetitiva e monótona. Mas, já disse que o Cícero espanta-me.

Surpreendo-me com ele, em nossas tertúlias ocasionais, principalmente após alguns cervejas bem geladas, que descem devagar. Nesses momen- tos aparece um novo programa no seu “computador mental”. Cícero torna-se um indivíduo prático, criativo e com propósitos individuais. Critica com sabedoria e elegância todos os modelos humanos existentes que paralisam o ser humano.