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PELO CAMINHO DO GUERREIRO

ANA CATAN
ANA CATAN
Não há figura mais fascinante e, ao mesmo tempo, tão controvertida
quanto Carlos Castaneda. Para alguns, um ficcionista mentiroso que inventou,
até, Don Juan; para outros, o bruxo mais desenvolvido do planeta. O mistério
que envolve sua pessoa e o segredo sobre sua idade, o local de seu nascimento
e sua vida pessoal fazem desse homem uma figura quase mítica.
Em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, em novembro de 1993,
ele nos conta mais detalhes de seu relacionamento com Don Juan e ficamos
sabendo que ele esteve no Brasil. O que teria Castaneda vindo fazer aqui no
país? Terá algum discípulo por aqui? Quem seria esse escolhido?
Pelo caminho do guerreiro responde a várias perguntas e revela que
Castaneda
PELO CAMINHO DO GUERREIRO
editora
SARAIVA

1ª edição — 1993
ISBN 85-02-01319-X
Copyright © 1993 by Ana Catan
Copyright desta publicação © by Saraiva S.A. Livreiros Editores Todos os
direitos reservados.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIPI (Câmara
Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Catan, Ana
Pelo caminho do guerreiro / Ana Catan. — 1. ed. — São Paulo : Saraiva,
1993.
ISBN 85-02-01319-X
1. Castañeda, Carlos, 1925- 2. Catan, Ana 3. Ciências ocultas 4.
Parapsicologia I. Título.

93-2851 CDD-133.092
editora SARAIVA
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1. Parapsicólogos : Biografia e obra133.092
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SUMÁRIO

Dedicatória, 7 Agradecimentos, 9 Prólogo, 11


PARTE I - O ESTRANHO

Primeira visita - julho de 1989


O encontro, 17 Madre "Ana" de Calcutá, 32 Ensinando Castaneda, 44
Neuras, 50 A despedida, 55 Cartas, 64 O telefonema, 70

Segunda visita - outubro de 1989


A "verdade", 77 O envelope pardo, 85 A lição, 90 Intermezzo, 96 Kum
Nye, 99

Terceira visita - maio de 1991


Um homem diferente, 105 Uma voz na neblina, 120 "You do something
to me", 128 Perdida nas dúvidas, 143

PARTE II - DESCOBERTAS 147


Recapitulando, 149
Nei mezzo dei camin, 156
As provas, 160
A lição de implacabilidade, 168
PARTE III - MÉXICO 175
"Encontro marcado", 177 No caminho do guerreiro, 180 A ponte, 186 O
sósia, 191
A morte da guerreira, 196

PARTE IV - MORTE E RENASCIMENTO 199


"Lições de abismo", 201 O ponto do não retorno, 207

EPÍLOGO 211
Nasce uma guerreira, 213
Este Livro é dedicado a você, Cesar, com a esperança de que um dia eu
possa retribuir toda a ajuda que você me deu.
AGRADECIMENTOS

A você, Tuim, porque o seu amor salvou a minha vida.


Aos Lamas Gangchen Rimpoche e Chagdud Rimpoche por sua constante
presença ao meu lado.
A Raquel, minha mãe postiça, pelo amor incondicional e a paciência de
me ouvir por horas e horas.
Ao meu amigo de todos os momentos, Ulisses, pela força e a sabedoria.
A Malu, pelas mensagens e a amizade de irmã.
A Joana, pela sensibilidade, carinho e maestria com que me conduziu
pelos meandros da minha alma.
Ao Dr. José Roberto, pela precisão com que curou o meu corpo, ao longo
de consultas intermináveis e telefonemas fora de hora.
A Cristina e Arnaldo, pelas longas horas de terapia.
E meus agradecimentos especiais a Jorge, pelo tratamento carinhoso e por
ter me apresentado a Alfredo. A Alfredo, esteja onde estiver, por ter me
apresentado à Jennifer. E a Jennifer, enfim, por ter enviado minha carta a
Carlos Castaneda.
PREFÁCIO
O trabalho realizado pelos livros de Carlos Castañeda, que vêm sendo
lançados sistematicamente desde 1968, tem cumprido muitas funções de,
vamos dizer assim, interesse público. Uma delas, que não há de ser das menos
importantes, é a de nos restituir ao senso autêntico e sagrado do mistério que
há em todas as coisas. O mundo em que vivemos é também, ou antes de mais
nada, uma maneira particular de focalizar — ou seja: organizar — nossa
consciência. Essa maneira, de inegável eficiência prática, mas limitada, tende a
reduzir toda experiência ao conhecido, ao familiar, certamente por medo do
desconhecido. A expansão da consciência exige o rompimento desses limites e
a disposição, própria do "guerreiro", como diz Castañeda, de encarar o
desconhecido, o mistério.
O livro de Ana Catan desafia frontalmente o senso comum, cristalizado
sobre a redução da consciência ao conhecido. O conforto pretensamente
realista em que a mente comum se acomoda ao familiar recusa possibilidades
que julga demasiado insólitas. Entretanto, esta é justamente a primeira virtude
da narrativa de Ana Catan: ela exige a aceitação do postulado essencial, do
qual estamos sempre tentando fugir, de que o mistério puro e simples envolve
todas as coisas.
Por que Castañeda veio ao Brasil, incógnito, para instruir Ana Catan na
doutrina esotérica cujos fundamentos são do conhecimento dos leitores de
seus livros? Quais os motivos, as circunstâncias e, mais particularmente, as
forças que o levaram a fazer tal coisa? A possibilidade de responder a
perguntas como essas justifica toda atenção que se conceder à aventura
narrada neste livro.
A transmissão da doutrina através de uma relação amorosa é uma
novidade que os leitores de Castañeda certamente saberão apreciar. Mas, além
disso, este relato romântico e perspicaz também poderá atrair novos
interessados na visão da realidade originalmente exposta pelo Don Juan de
Castañeda. A importância dessa visão começa a ser reafirmada pelos
desdobramentos que ela vem suscitando. O fato de que um desses
desdobramentos tenha se manifestado entre nós, no Brasil, sugere que eles
não têm fronteiras.
E possível que alguns ponham em dúvida a autenticidade do relato de Ana
Catan. Mas esta é a regra. Muitos também põem em dúvida a autenticidade do
relato de Castañeda, sustentando que Don Juan, por exemplo, não passa de
um personagem de ficção. Na perspectiva da própria tradição tolteca,
entretanto, essa questão é demasiado grosseira porque não considera as
dimensões mais sutis e misteriosas da idéia de "realidade". Ana Catan vem nos
mostrar mais uma vez, seguindo seu mestre, que a "realidade" não é apenas o
que pensamos que ela é.

Luiz Carlos Maciel Rio de Janeiro, 25 de outubro de 1993


PRÓLOGO

Entrego minha vida ao Poder que rege meu destino; Não me prendo a
nada, para nada ter que defender; Não tenho pensamentos, para assim poder
ver; Já não sinto medo, para lembrar-me quem sou; E assim, serena e
desprendida, A Águia me deixará alcançar a Liberdade!
Carlos Castañeda
PARTE I

O ESTRANHO
Quando o discípulo está pronto, o mestre sempre aparece.

Ditado esotérico

Passei muitos anos procurando um objetivo para a minha vida. Estudei a


Cabala, o Tao, a Teosofia, o Budismo e a Bíblia. Todos se aproximavam, mas
não preenchiam as minhas aspirações. Vim a descobrir o que queria somente
quando li "O Presente da Águia", de Carlos Castañeda: o meu caminho era o
Caminho do Guerreiro!
Eu estava apaixonada por esta idéia quando conheci Cesar, um homem
estranho, muito estranho. Era forte e belo; violento e terno; mentiroso e
honesto. Quando mentia, deixava claro que estava mentindo. Quando eu
reclamava, dizia:
- Você me obriga a mentir.
Não tinha endereço, telefone e não me dizia seu nome verdadeiro. Porém,
ao mesmo tempo, inspirava respeito e um tipo desconhecido de confiança.
Era um homem poderoso.
Tivemos um relacionamento complexo e simples. Complexo, porque me
deixou completamente sem controle. Em questão de segundos, eu me sentia
jogada do mais puro amor ao mais completo pânico. Simples, porque ele
ditava as regras e eu seguia.
Havia uma força que me levava para ele, apesar da minha vontade. Não
era amor, não como eu estava acostumada. Eu não queria me casar com ele,
nem ao menos ser sua namorada, mas não podia sequer pensar na
possibilidade de perdê-lo. Eu o amava e temia; odiava e ansiava por sua
presença.

Cada visita sua revolucionou a minha vida. Com a precisão de um


caçador, ele destruiu minhas máscaras e desnudou minhas fragilidades. Cada
encontro foi uma lição. Cada partida, uma catarse. Cada catarse, um passo a
mais no difícil caminho de descobrir a verdade.
Desde o princípio do nosso relacionamento, uma suspeita me atormentou.
Uma suspeita que começou como uma leve sombra, mas tomou corpo, forma,
cheiro e cor. A inquietante, terrível, assustadora e maravilhosa suspeita que o
Cesar fosse o Carlos Castaneda.
Foi essa suspeita que me levou ao autoconhecimento. Para descobrir
quem era ele, fui obrigada a recapitular não somente nossos encontros, mas
cada emoção e cada pensamento, por mais fugidios que tivessem sido. Para
conhecer a origem dessas emoções e pensamentos, tive que varrer todos os
compartimentos da minha alma e descobrir, então, uma rede intrincada de
sentimentos conflitantes. E, para acabar com a guerra que se instalou dentro
de mim, precisei também, e essa foi a parte mais difícil, enfrentar o medo, o
verdadeiro terror de que as minhas supeitas tivessem fundamento.
PRIMEIRA VISITA

Julho de 1989
Só a leve esperança em toda a vida Disfarça a pena de viver, mais nada,
Nem é mais a existência resumida Que uma grande esperança malograda
O eterno sonho da alma desterrada, Sonho que a traz ansiosa e
embevecida É uma hora feliz, sempre adiada, E que não chega nunca em toda
a vida.
Esta felicidade que sonhamos Árvore milagrosa, e que supomos Toda
arriada de dourados pomos,
Existe sim, mas nós não a alcançamos. Porque está sempre apenas onde a
pomos, E nunca a pomos onde nós estamos!
Vicente de Carvalho

O ENCONTRO

A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida.


Vinícius de Moraes

Tudo começou num dia igual aos outros. Não. Um pouquinho diferente.
Era a última semana de férias e Claudia chegaria à noite, no vôo das sete. No
mais, uma sexta-feira comum.
No fim da tarde, deixei o carro no estacionamento da Praça da República
e tomei o ônibus direto para Cumbica. Não precisei esperar muito para vê-la
chegar, acompanhada pelo comissário. A nossa passagem de volta era para o
ônibus das oito e meia e nos sentamos no banco frio para esperar.
Claudia estava eufórica. Fora sua primeira viagem sozinha e ela não parava
de falar do namorado, dos amigos e de todos os passeios que fizera.
Eu estava me divertindo com as histórias de minha filha quando algo
chamou a minha atenção. Não foi um barulho ou uma voz. Não foi uma
sombra ou um vulto. Talvez tenha sido uma luz, não sei. Levantei a cabeça e
lá estava ele, sorrindo para mim.
No início a imagem parecia difusa e tudo que pude ver foi o vulto de um
homem. Parecia conhecido. Bem conhecido, até. Devia ter um metro e setenta
de altura, cabelos lisos, muito negros. O corpo musculoso dava a impressão
de ser forte e elástico. A pele morena fazia sobressair os dentes claros e um
par de luminosos olhos azuis. Vestia um terno azul-marinho que não lhe caía
bem, a gravata vermelha estava torta e a camisa amarfanhada, mas, no
conjunto, era um homem bem atraente.
Sorriu e caminhou na minha direção fazendo gestos que davam a entender
que me procurara por todo o aeroporto. Senti uma alegria esfuziante e já
estava quase abrindo os braços para recebê-lo quando me dei conta que não o
conhecia. Aquela recepção não podia ser para mim. Um pouquinho
decepcionada, olhei para os lados procurando a felizarda que o receberia, mas
não havia ninguém. Claudia e eu estávamos sós. Senti uma onda inesperada de
medo e abracei minha filha para protegê-la.
O estranho se aproximou devagar, parou tão longe dela quanto possível e
perguntou polidamente:
- Este lugar está ocupado?
A voz era grave e modulada. Parecia bem-educado. Respondi que estava
livre e, com gestos lentos, limpou o banco com o jornal. Depois, sentou-se ao
meu lado e passou os olhos por mim, como se estivesse examinando os meus
contornos. Sorriu. O sorriso iluminou todo seu rosto:
- Sou um homem de muita sorte!... - Fez uma pausa longa. - Você é uma
mulher muito impressionante!
Parecia tão decidido a me conquistar que achei graça e até me preparei
para rir. Porém, um suave arrepio percorreu a minha pele. Tive a sensação de
estar sendo embrulhada numa teia de aranha e o riso morreu antes de nascer.
Foi ele que quebrou o silêncio:
- Você mora em São Paulo?
- Moro, e você?
- Eu sou peruano.
Novamente um silêncio incômodo. Procurei uma forma de sair daquela
sensação de peixe na rede e perguntei seu nome:
- Cesar.
Não perguntou o meu. Permaneceu em silêncio, pesquisando alguma
coisa nos meus olhos. Fiquei sem jeito e me apresentei assim mesmo:
- Eu sou Ana. Ana Catan.
- Hum Hum.
O jeito que ele assentiu com a cabeça, o seu tom de voz, a expressão do
seu rosto... sei lá... davam a entender que ele já me conhecia... já nos tínhamos
encontrado antes... mas, analisando bem, eu nunca o tinha visto... ou tinha?...
Aquele sorriso fazia pensar em alguém que eu me esforcei, mas não consegui
descobrir quem era.
- Você conhece o Luiz Falcon, de Lima?
- Não.
Foi impressão minha ou ele me chamou de mi amor! Não sei. A
intimidade do seu sorriso foi demais para mim. Era como se ele tivesse
desistido das preliminares por ter certeza que eu cairia na sua conversa. E,
para um homem tão sensual como aquele, o assunto só podia ser um: sexo.
Subitamente, percebi que o banco era muito duro. Senti o corpo dolorido
e fiquei estranhamente agitada. Cruzei e descruzei as pernas várias vezes, sem
encontrar uma posição confortável, e, não sei se irritada ou envergonhada
com aquela sensação, falei sem pensar:
- Não vi nenhum avião chegando do Peru agora.
- Eu estou vindo de La Paz... de Assunção.
- De La Paz ou de Assunção?
A minha pergunta deve tê-lo divertido muito, pois ele se sacudiu todo, de
tanto rir, mas não se explicou. Tentei perguntar novamente. Imediatamente o
riso se interrompeu. Os olhos se tornaram duros. E, sem dizer uma única
palavra, o homem deixou claro que aquele era um assunto proibido.
Perdi o jeito e dei uma risadinha amarela para esconder o meu mal-estar.
Ele não demonstrou perceber. Manteve os olhos franzidos, escrutinando
alguma outra coisa em todos os milímetros do meu rosto, do meu corpo e do
espaço à minha volta. Depois de um longo silêncio, disse com voz grave:
- Você é uma mulher muito forte!
Tive a impressão dolorosa e, ao mesmo tempo, agradável que aquele
homem tinha lido a história da minha vida nas linhas do meu rosto. Mais do
que isso. Senti que o seu olhar desnudara a minha alma e que aquele estranho
conhecia as minhas emoções e sentimentos mais profundos. Fiquei tão
perplexa que não consegui responder.
- Seus cabelos... a sua força está nos seus cabelos.
Sorriu de novo e percebi que seu sorriso me era realmente familiar.
Perguntei se eu também lhe parecia conhecida, mas a sua única resposta foi
um olhar esgazeado. Tive, então, a sensação de estar sendo suavemente
coberta por um véu claro e quase ouvi um ruído longínquo que me lembrava
alguma coisa... e, então, tive certeza que nos conhecíamos... não podia
lembrar-me onde ou quando, mas éramos íntimos, bem íntimos... eu o amava
há muito, muito tempo!
Fiquei abismada e depois muito aflita. Esforcei-me para lembrar onde o
tinha visto e seu rosto desapareceu, lentamente, atrás de uma cortina de luz.
Houve um momento em que pensei estar vendo somente o seu sorriso como
o Gato de "Alice no País das Maravilhas". Havia algo muito divertido em tudo
aquilo e senti uma onda esfuziante de alegria.
Devagar, como um filme em câmara lenta, meus olhos voltaram ao foco.
Percebi que seus lábios se moviam e precisei me esforçar para escutar a sua
voz. O esforço clareou a minha mente e toda esta percepção se desvaneceu.
Em uma fração de segundos, ele voltou a ser um estranho dizendo coisas
estranhas:
- Não importa de onde nos conhecemos, mi amor, o importante é que
estamos juntos agora!
Fiquei literalmente boquiaberta! A tentação de acreditar naquele amor à
primeira vista foi bem grande e, para afastá-la, disse a mim mesma que ele não
passava de um conquistador barato. Devia estar matando o tempo até o
ônibus chegar.
Nem bem terminei de formular o pensamento, o homem se levantou.
Dobrou o jornal metodicamente e me convidou:
- Vamos?
- Aonde?
- Para o ônibus, ora.
Triste e ao mesmo tempo aliviada por vê-lo partir, expliquei que a minha
passagem era para as oito e meia. Imediatamente ele voltou a sentar ao meu
lado, suspirando. Esperaria para ir comigo.
- Você vai ter que comprar outra passagem, eles não aceitam troca.
- Não se preocupe, eu dou um jeito.
Novamente aquele ar infantil. Parecia tão alegre e seguro que percebi a
brincadeira: a passagem estava certa desde o início. Ele só estava fingindo!
Sorri e sua mão tocou a minha de leve. Desconfiei que estava prestes a me
apaixonar e tive a sensação que ele sabia o que estava acontecendo.
***

Nosso ônibus chegou. Entramos. Ele esperou Claudia se acomodar e


sentou-se ao meu lado. Longe dela. Intuí que percebera a minha desconfiança
e estava deixando claro que não havia por que temer. Parecia um homem
muito sério e me recriminei por ter duvidado dele.
Procurei um assunto que pudesse impressioná-lo. Sou Professora
Universitária e conheço Literatura, Filosofia, Política, Psicologia e, até,
Informática, mas não consegui coordenar meus pensamentos. Não foi a
minha voz que titubeou e sim a minha mente que ficou bloqueada. Havia uma
teia invisível me impedindo de pensar. Foi a primeira vez na minha vida em
que fiquei sem saber o que dizer e foi ele que quebrou o silêncio:
- Eu sou muito interessado em assuntos esotéricos... você conhece
alguém que trabalhe com Cristais?
Senti meu corpo relaxar e uma brisa suave soltar as amarras que me
prendiam. Comecei a rir, feliz com a coincidência. Não fazia muito tempo, eu
tivera uma experiência muito linda. Permanecera horas olhando uma vela
através de um cristal de quartzo e vira uma cidade inteira de gnomos. Não me
parecia um fato importante, mas, quando percebi seu interesse, exagerei:
- Trabalho com cristais há muito tempo!
- Ho Ho Ho - riu ele, como Papai Noel. - Então, vamos ter muito que
conversar!
A felicidade de saber que ia vê-lo de novo foi empanada pelo medo.
Disfarçadamente olhei sua mão: usava um anel largo e uma fina aliança. Era
casado. Minha razão me advertiu que aquele homem estava de passagem pela
cidade e logo iria embora. Pensei em perguntar até quando ficaria no Brasil,
mas tive certeza que a resposta seria mentirosa.
- Qual é seu sobrenome?
Com gestos seguros, tirou um cartão de visitas do bolso do paletó: Cesar
Pagliardi. O "I" final fora corrigido à mão e a desculpa de que não tivera
tempo para mandar fazer outro cartão não me convenceu. O nome devia ser
falso. Confesso que achei excitante.
A empresa, de nome americano, tinha um endereço em Lima e outro em
Miami, ambos com fax e número de telefone. Perguntei se trabalhava com
comércio exterior.
- É - respondeu em voz baixa -, mais ou menos.
- Como "mais ou menos"?
- É um tipo especial de comércio exterior.
- Mas o que você comercializa?
- Peças - foi sua resposta lacônica, antes de mudar de assunto. - Você não
tem cartão de visitas?
Tinha. Mas as minhas mãos tremiam tanto que eu não conseguia pegá-lo
na bolsa. Deduzi que estava com medo de não vê-lo nunca mais e me obriguei
a não perguntar quando ele telefonaria. Com a cabeça rodando, ouvi sua voz
longínqua reclamar que sua mala se extraviara. Por causa disso, explicou, teria
que voltar ao aeroporto no dia seguinte. Só então me dei conta que ele não
trazia bagagem. Seu sorriso foi quase um pedido de desculpas:
- Não é uma mala grande... eu pensava ficar somente 1 ou 2 dias... mas,
agora que nos encontramos...
Levantou os ombros e sorriu largamente, indicando que o encontro
comigo teria alterado todos os seus planos. Continuei muda, sem conseguir
acreditar nas suas palavras.
Não me lembro do que conversamos depois. O tempo voou e levei um
susto quando percebi que o ônibus tinha chegado a São Paulo.
Na despedida, suas mãos prenderam as minhas com força e senti uma
súbita vontade de chorar.
***

Enquanto minha filha telefonava para as amigas, contando as peripécias


das férias, perambulei pela casa extraordinariamente ansiosa. Não queria me
apaixonar, mas sabia que já estava fisgada. Senti muito medo. Aquele homem
não era brincadeira... se eu permitisse, entraria com tal força na minha vida
que eu nunca mais o esqueceria!
Meu estômago se contraiu de medo e pensei que seria melhor se ele não
me procurasse. Nem bem terminei de pensar, senti uma agitação interna e
soube que ele estava tentando falar comigo. Suando frio, pedi à Claudia que
liberasse o telefone. Assim que ela desligou, ele chamou:
- Puxa! Que difícil é ligar para a sua casa!
Tentei explicar que era Claudia contando das férias, mas não consegui.
Desta vez foi a minha garganta que ficou fora de controle. Ele continuou:
- Escuta. - A voz dele parecia um trovão. - Eu estou me sentindo
violentamente atraído... - Fez uma pausa para se controlar e a voz se tornou
mais baixa. - Você também?
Foi um ataque tão rápido que minhas defesas rolaram água abaixo. Antes
que eu percebesse o que estava fazendo, confessei que sim, eu também estava
apaixonada. Suspiro de alívio. Sentira muito medo, mas agora estava tranqüilo.
Eu não. O medo era tão grande quanto a paixão. Atordoada, ouvi sua voz
perguntar se poderia me encontrar naquela mesma noite. Não. Eu precisava
de tempo para me controlar. Respondi que não seria possível deixar minha
filha sozinha, justo no dia em que chegara de férias. Amanhã? Sim. Amanhã
eu já estaria mais calma. Ofereci-me para ir buscá-lo no hotel. Ótimo. Às oito
e meia, então? Não sei se tive medo ou a esperança que ele não comparecesse.
Durante toda a noite, seu rosto silencioso velou o meu sono e alguém me
disse que eu precisava tomar cuidado, pois ele era alcoólatra.
***

Acordei ansiosa, mas feliz. Preocupei-me com o que usaria aquela noite e
fiz algo que nunca fizera antes: comprei caviar e salmão para ele.
À noite, fui buscá-lo. Hospedava-se num hotel horroroso, de baixíssima
categoria, na pior zona do centro da cidade. Irritada e com medo decidi não
esperar. Se ele não estivesse na porta, eu iria embora. Estava. Esperava por
mim, sentado na portaria.
Entrou no carro de uma forma estranha, como se a porta fosse muito
baixa e sorriu pedindo desculpas pelo transtorno. Sabia que o hotel não era
bom, mas já fazia muito tempo que o freqüentava
- fez um gesto de quem relembra a juventude - e lá todos o conheciam.
Depois, com aquele ar extasiado, comentou que eu estava muito bonita, linda
mesmo e a raiva passou.
Fomos a um restaurante de luxo que eu não tinha o hábito de freqüentar.
Sentou-se à minha esquerda na mesa do bar, pediu uma bebida muito forte e
riu do meu suco de laranja. Assim que o garçom saiu, tomou minhas mãos:
- Você sonhou comigo esta noite?
- Sonhei. Alguém me dizia que você é alcoólatra. O rosto dele se
iluminou:
- Que impressionante... Sabe que eu fui alcoólatra mesmo?
- Sentou-se na ponta da cadeira. - O que é você?... uma feiticeira?...
- E agora. Não é mais?
- Não, mi amor, deixei o vício.
Não acreditei. Todos os meus sinais de alarme estavam soando e só podia
ser por causa da bebida. Dei uma risadinha de mofa, para mostrar que não me
deixara enganar, porém ele se inclinou na minha direção, olhando-me como se
eu fosse uma extraterrestre e perguntou com a voz cheia de curiosidade:
- Quem é você?... Como soube que eu fui alcoólatra?... Você é sempre
assim intuitiva?
Vaidosa e contente com o elogio, contei, uma a uma, minhas
premonições. Fiquei surpresa e desconfiada do seu interesse. Ele parecia achar
que o fato de eu ter adivinhado o dia da morte do meu avô ou ter sabido o
que meu irmão estava sentindo a quilômetros de distância era muito mais
importante do que todos os meus diplomas e posição social. Rebusquei a
minha memória à procura de algo que o mantivesse interessado e lembrei uma
coisa estranha que aconteceu comigo em 1984.
***
Naquela época, a minha asma tinha piorado e eu andava tendo crises
muito sérias. Meu marido costumava me socorrer, mas naquela noite, justo na
crise mais violenta de toda a minha vida, não consegui despertá-lo. Ofegante
com o esforço de me sentar sozinha, procurei o equipamento de inalação, só
para descobrir que estava guardado em algum lugar inacessível. O medo
fechou mais ainda meus pulmões. A minha respiração ficou por um fio.
Desesperada, ainda tentei chamar João Carlos e meu peito paralisou de
vez. A vista escureceu. Meu coração começou a ratear e tive então a plena
consciência de que ia morrer. Foi uma percepção total, que não deixou a
menor sombra de dúvida: era o fim!
Soube, então, com aquele saber completo dos moribundos, que o medo
só aumentaria a dor e a dificuldade daquele momento. Que para não sofrer eu
precisava me soltar e deixar que a morte me levasse, em paz. Despedi-me,
mentalmente, da minha filha, afastei o medo e esperei.
Não sei o que aconteceu. Lembro de ter sentido uma vibração muito
suave no ar, no topo da minha cabeça e, de repente, eu estava no alto, no teto
do quarto.
Não havia som, mas meus ouvidos vibravam como se uma música
maravilhosa os estivesse estimulando. Uma luz clara e radiosa, como o brilho
da Lua Cheia, iluminava todo o ambiente, trazendo um sentimento de inefável
felicidade. De onde estava, podia ver meu marido, minha filha e meu corpo no
mesmo lugar em que eu o havia deixado. Não senti medo ou preocupação.
Foi um momento de pura paz.
Como se fosse um sonho, vi João Carlos levantar depressa da cama e
pegar o tubo de oxigênio. Notei, sem me abalar, a pressa com que ele
preparou o remédio e correu para colocar a máscara no meu nariz. Mais uma
vez, não sei o que aconteceu. Quando abri os olhos encontrei o rosto ansioso
de meu marido. Cara a cara comigo.
No dia seguinte, deduzimos que eu tivera uma experiência de morte e
retornara à vida. Nunca mais mencionamos o fato e eu o esquecera
completamente.
***

- Rodei o mundo inteiro procurando uma mulher como você, mi amor...


o mundo inteiro!
O brilho dos seus olhos me deixou desconfiada. Aquele cara estava me
fazendo de boba. Claro! Ninguém ficaria tão impressionado com um relato
destes. Burra! Eu não passava de uma rematada idiota. Jurei que não contaria
mais nada!
Mantendo o mesmo sorriso terno, sem dar mostras de perceber minha
ofensa, perguntou se eu ainda estava casada. Não. Suspirou aliviado. "Que
bom!" Machista. Ele podia ser casado, eu não... Devia ter uma amante em
cada País.
- Você acredita em amor à primeira vista?
Desconfiança. Aquele homem faria amor comigo, depois desapareceria
sem deixar rastros... ou não? Mas mentir para ele parecia impossível e tive que
ser honesta. Sim. Só o amor à primeira vista era verdadeiro. O resto não era
amor, era conveniência. Respondeu exatamente o que eu esperava:
- Você acha que é isso que está acontecendo conosco? Tive vontade de
contestar "comigo, sim... conosco, não". Ele não estava apaixonado, eu sim.
Eu tremia, suava, tinha crises de medo e de paixão, enquanto ele permanecia
inalterado, impassível como uma rocha.
Lembrei-me de um desenho em que Tom procura uma bruxa para vencer
Jerry. O dia estava lindo e o céu azul em toda a cena, menos na casa da bruxa,
onde uma nuvem negra provocava uma violenta tempestade. A tempestade
estava somente sobre a minha cabeça. Como acreditar no seu amor?... e, ao
mesmo tempo, como duvidar do seu interesse, das suas palavras, do seu
olhar?
Tentei ser evasiva. Seus olhos continuaram fixos em mim, esperando uma
resposta. Senti, mais uma vez, que ele sabia o que se passava comigo e criei
coragem. Confirmei com voz rouca. Seu beijo incendiou meu corpo e fechou
de medo minha garganta. Nunca encontrara um homem assim, forte e
misterioso.
- Eu também nunca encontrei uma mulher como você, Ana... Nunca.
Ele parecia estar respondendo aos meus pensamentos. Teria eu falado
sem perceber?
Pediu outra bebida com ar de grande conhecedor e perguntou de marcas e
aguardentes que eu nunca ouvira falar. Este intervalo desanuviou o ambiente e
percebi que não agüentava mais ser o centro das atenções. Quem diria! Aquele
homem estava operando um milagre.
- Agora é a sua vez, Cesar, quero saber de você. Inclinou a cadeira para
trás e respondeu com ar jocoso que era um sujeito comum. Não tinha nada
para contar. Dei risada. Sabia que estava tentando escapar e reclamei meus
direitos.
- O que você quer saber?
Não queria confessar, mas aquela aliança estava me incomodando. Sem
coragem de perguntar se era casado, usei um subterfúgio:
- Você tem filhos?
- Tenho - Sorriu divertido, percebendo meu jogo. - Quatro filhos
homens.
- Não tem filhas mulheres?
Fez um gesto com a mão que tanto podia significar que elas não existiam
quanto que não importavam. Reagi contra a tentação de discutir o machismo e
continuei:
- Seus filhos vivem com você?
- Não! - O sorriso aumentou tanto que me ofendeu. O desgraçado estava
se divertindo às minhas custas. - Eles já são adultos... cada um vive em um
lugar.
Irritada com as suas evasivas, decidi ir direto ao assunto:
- Você é casado?
- Claro que não, mi amor\ Apontei a aliança.
- Sou viúvo do primeiro casamento e divorciado do segundo.
- Ninguém usa aliança depois que se divorcia.
- E que eu engordei e elas ficaram presas.
Tive um brusco acesso de raiva. Aquele cara não tinha nem meio quilo de
gordura sobressalente!
Sem pensar, puxei sua mão esquerda com violência e tentei arrancar os
anéis. Não saíram, claro.
A raiva passou subitamente e percebi que estava fazendo um papel
ridículo. Senti uma onda de vergonha queimar o meu rosto e pensei que devia
tê-lo machucado. Levantei os olhos. O sorriso continuava inalterado.
Decididamente era um homem muito estranho!
***

- Qual a sua profissão?


- Engenheiro de pesca.
- O que você faz como engenheiro de pesca?
- Eu não exerço a profissão.
- Então, que profissão você exerce?
- Eu viajo muito.
Desisti. Não cheguei a formular o pensamento, mas uma parte de mim
achou que ele devia ser contrabandista. Mais um dos tantos estrangeiros que
traziam computadores para o Brasil, burlando a reserva de mercado.
Fiquei muito tempo em silêncio, sem conseguir pensar com clareza. De
repente, percebi que ele continuava com os olhos postos em mim,
aguardando. Mudei de assunto e perguntei a sua idade. Respondeu com outra
pergunta:
- Quantos anos você acha que eu tenho?
Examinei seu rosto. Parecia ao mesmo tempo muito jovem e muito velho.
Podia ter qualquer idade entre trinta e sessenta anos. Segui a minha intuição:
- Cinqüenta e quatro.
- Tanto assim, Ana?... - Ele parecia realmente surpreso. -Está querendo
me ofender? - O sorriso desmentia suas palavras. -Eu só tenho quarenta e
quatro anos. - Fez uma pausa dramática e perguntou: - Sou muito velho para
você?
- Claro que não, seu bobo... mas acho que você tem cinqüenta e quatro
mesmo.
- Faz alguma diferença?
Não, claro que não fazia. Mas perceber que ele tinha vergonha da idade
fez com que eu me sentisse mais segura... eu devia ser uns vinte anos mais
jovem que ele... que bom... assim ele não me abandonaria nunca.
- Eu nunca vou deixar você, Ana - jurou com voz emocionada -, nunca!
Fiquei feliz com a coincidência e mais uma vez nos beijamos em público.
E assim, paulatinamente, ele foi minando as minhas defesas.
***

Continuamos a conversar. Eu estava confusa, dividida mesmo. Sua


admiração era tão genuína quanto impossível de entender. Ele não parecia se
impressionar com elegância, cultura, ou inteligência e sim com alguma outra
coisa que eu não era capaz de descobrir. As suas palavras de amor pareciam
teatrais e exageradas, porém o brilho dos seus olhos deixava claro que o seu
interesse era verdadeiro. Senti que havia algo muito sério na sua maneira de
brincar comigo e uma verdade estranha naquelas palavras mentirosas.
Porém, o que me deixou realmente desarvorada foi perceber que ele tinha
o total comando da situação. Eu era o barco e ele a tempestade. Uma simples
palavra sua provocava explosões em mim. Amor, raiva, paixão, confiança,
desconfiança, atração, medo. E ele, inabalável.
- E você, Ana, quantas vezes se casou?
- Duas vezes.
Ele pareceu surpreso:
- Você... tão bonita... e foi abandonada duas vezes? Novamente a onda
de raiva tomou conta de mim. Pensei que além de machista, ele era muito
burro e não conhecia mulheres modernas. Controlei a minha voz ao
responder:
- Não, Cesar. EJI é que os abandonei.
A minha resposta o intrigou. Expliquei que nunca quisera me casar e ele
continuou sem entender. Então, por que me casara? Eu tinha uma explicação
preparada: meus dois maridos eram fracos e precisavam muito de mim. O
segundo, eu tinha certeza, teria se matado se eu não aceitasse seu pedido. O
sorriso desapareceu:
- É tão fácil assim chantagear você, Ana?
- Se é, Cesar, é o meu maior defeito. Posso enfrentar chefes, autoridades
e policiais, mas acabo sempre sendo vítima dos "coitadinhos".
Mais uma vez, ele reagiu com exagero. Balançou a cabeça depressa,
passando a mão no queixo, como se estivesse muito chocado e exclamou com
ar de preocupação:
- Nós precisamos resolver este problema!
Achei graça no "nós" e comentei que aquele era um problema que só eu
poderia resolver e, afinal de contas, nem era tão sério assim. Na verdade, eu
conhecia muitas mulheres que agiam como eu.
- Você está enganada, mi amor... - suspirou com tristeza. -Este é um
problema muito sério, muito sério mesmo... você precisa de ajuda!
Senti que ele falava a verdade e a sua preocupação me enterneceu. Era o
primeiro homem que me oferecia auxílio, em lugar de pedir. Mas... o que ele
poderia fazer?
- Você não pode me ajudar, Cesar... - respondi com a voz embargada de
autopiedade. - Ninguém pode!
Ele pareceu emocionado, condoído mesmo, com a minha fragilidade.
Sorriu ternamente. Puxou-me para junto de si e, dizendo frases ininteligíveis
de consolo, levou-me ao cume da paixão. - Ah! mi amor, que pecado... -
passou a mão no meu rosto - ...que difícil deve ser para ti - nos meus cabelos -
...te voy a ensenar, querida... - beijou minha boca - ...a ser implacable, mi amor - e
tocou levemente meus seios.
Senti meu corpo queimar de desejo. Ahhhh... que homem!
***

- Me fale do Peru, Cesar... é bonito?


- Ah!... É lindo... Cuzco, então, é uma maravilha!... Um dia iremos juntos
até lá... Cuzco é tão bonito quanto o México... Como? Você não conhece o
México?!
Envergonhada, confessei que não.
- Você precisa ir, Ana... tenho certeza que vai adorar... o México tem
tudo a ver com você... tudo!
De repente, senti o ambiente pesado e comecei a sufocar. Achei que
tinham desligado o ar-condicionado e só então me dei conta que o restaurante
era muito escuro. Angustiada de vontade de sair dali e sem coragem de
confessar meu mal-estar, perguntei com ar de "mulher boazinha":
- Você não prefere ir para um lugar mais alegre?
Com ar satisfeito, respondeu que estava apreciando muito o ambiente e,
para provar, estirou-se com prazer na cadeira e deu um sorriso tão largo que
cheguei a estranhar. Eu não tinha percebido que ele estava tão contente.
Porém, o meu mal-estar falou mais alto e acabei confessando que precisava
sair dali o mais rápido possível. Antes de responder, ele sorriu e, mais uma
vez, desconfiei que estava se divertindo às minhas custas:
- Se você quer sair daqui, então eu concordo.
Frisou o "você" para deixar claro que era ele que estava fazendo a minha
vontade. Eu podia escolher o lugar.
Fomos para uma cantina menos luxuosa, porém mais alegre, com comida
pendurada no teto e música italiana. Não tão aliviada quanto esperava me
sentir, mas, de qualquer forma, menos sufocada, propus que comêssemos
macarrão e tomássemos vinho tinto. Enquanto o jantar não vinha, ele
perguntou, com um ligeiro tom de reprovação na voz:
- Você deixou sua filha sozinha em casa?
Senti uma crítica velada na pergunta e imediatamente me defendi:
- Não!... Claudia foi dormir na casa de uma amiga.
Sua reação foi instantânea. Soltou uma risada que era quase um grito. Um
"AH" seco e alto. Sentou-se na ponta da cadeira, pronto para dar o bote e
atacou:
- Então você está sozinha?
Havia tanta violência na sua alegria que, apesar do salmão e do caviar, tive
medo. Tentei não responder, mas ele cravou os olhos no meu rosto e esperou:
- Estou.
O sorriso que se espalhou pelo seu rosto não escondeu a violência dos
seus sentimentos. Ainda na ponta da cadeira e o corpo contraído, disse com
tom de urgência na voz:
- Eu quero conhecer a sua casa. - Olhou-me diretamente nos olhos. —
Quero conhecer você!
Senti outro calafrio na espinha. Teria ele usado o verbo "conhecer" no
sentido bíblico? Evitei pensar no assunto e terminei o meu jantar. Os músicos
voltaram à nossa mesa para oferecer outra canção, mas ele os afastou com um
gesto e propôs:
- Vamos já para a sua casa, Ana... Quero estar sozinho com você!
Não seria o primeiro homem a estar sozinho comigo em casa, mas o
medo me paralisou e não consegui responder. Seu rosto endureceu e ele
ordenou com voz firme: Vamos!
E eu fui!
Entrei no apartamento, aturdida e curiosa. Como seria fazer amor com
aquele homem estranho?
Mal acabei de fechar a porta e, ainda na sala, ele me abraçou com
violência. Senti a força do seu corpo contra o meu e a pressão das suas mãos
nas minhas costas. Por um momento, pensei que fosse rasgar a minha blusa e
tive outra crise de medo. Fiquei sem ar. Senti a cabeça girar e aquele mesmo
véu de bruma me envolver. Cambaleei.
Ele percebeu e se afastou, mas ficou preparado para me amparar:
- Você está bem?
Como não tenho o hábito de tomar bebidas alcoólicas acreditei que o
vinho me fizera mal. Devagarzinho, ele me ajudou a deitar no chão e me
abraçou:
- Rodei o mundo inteiro atrás de uma mulher como você, mi amor.
Procurei você em mil mulheres, Ana... Em mil mulheres!
A paixão que senti foi avassaladora. Soube, naquele momento, que aquele
homem modificaria toda a minha vida. Podia ser casado, índio e violento, mas
era o meu homem!
***

Ficamos juntos todo o domingo. Não lembro o que fizemos. Sei que
comemos o salmão, o caviar e creio que fizemos amor muito tempo. O dia
passou sem eu sentir. De repente já era noite e ele tinha que ir ao aeroporto
buscar as malas.
Depois que ele partiu, percebi que estava absolutamente exausta. Não era
só cansaço, era uma espécie de estupor que me impedia de pensar.
MADRE "ANA" DE CALCUTÁ

Nunca sentimos pena dos outros, o que sentimos é pena de nós mesmos
na pele do outro.

Don Juan

Na 2a feira eu já estava completamente louca de amor. Tão louca que tive


medo de não vê-lo nunca mais. Assim, quando ele telefonou, morrendo de
saudades, fiquei contentíssima e marcamos um encontro para a noite. Não, ele
não queria que eu fosse buscá-lo. Seria perigoso. Preferia que eu ficasse longe
do hotel e daquela gente.
Passei o dia sem trabalhar direito. Às 9 da noite, corri para recebê-lo, mas
estanquei na porta. Ele me esperava absorto, com a expressão mais dura e
hostil que jamais vi no rosto de alguém. Dava até para sentir a nuvem de ódio
ao seu redor. Murmurei um boa-noite e, ao ouvir a minha voz, ele sorriu.
Fiquei fascinada com a transformação que a minha presença provocou.
Como num filme em câmara lenta, o sorriso foi aumentando e os vincos do
rosto, desaparecendo. A pele se tornou mais corada, os olhos mais brilhantes,
a expressão mais suave. Em questão de segundos ele tinha rejuvenescido 30
anos!
Tive a sensação de ser duas pessoas ao mesmo tempo: uma que ficou feliz
com a clara demonstração do seu amor por mim e outra, subterrânea, que
aplaudiu o teatro. Mas ele ainda não tinha terminado. Com expressão de puro
êxtase, tomou minhas mãos e disse com voz enlevada:
- Como é bom ver você!
Entrou em casa contando que tinha ido novamente ao aeroporto buscar
um amigo. Ficara horas esperando e ah! como estava cansado! Comentei,
rindo, que eu nunca vira alguém ir tantas vezes ao aeroporto, mas ele deu de
ombros com ar resignado:
- Não importa, mi amor. A sua casa é como um ninho para onde eu
volto depois de estar com aquela gente... -me faz uma massagem?
- Claro que sim, mas você não quer tomar um banho antes?
- Não, mi amor... - Deu um sorriso infantil e completou: -Tenho medo
de água!
Soltei uma gargalhada, julgando que era brincadeira e ele, com o rosto
subitamente sério, confirmou: - Eu tenho medo de água, sim, Ana .- Olhou-
me nos olhos para mostrar que estava dizendo a verdade. - Muito!
Meus preconceitos ocidentais irromperam todos de uma vez. Sentindo
uma raiva inexplicável, disse a mim mesma que aquele homem não passava de
um índio sujo e perigoso. E que eu tinha que me livrar dele o mais rápido
possível.
Sem dar mostras de ter percebido meus sentimentos, deitou-se no chão e
comecei a massageá-lo. Enquanto minhas mãos passeavam pelo corpo quente
e oleoso, minha cabeça procurava uma forma de me livrar daquela paixão
angustiante.
"Preciso dominá-lo" - pensava eu. - "Tenho que fazer com que se
apaixone perdidamente por mim. Vou ser boazinha e compreensiva como
uma gueixa até que ele caia na rede e então... zapt! Estarei livre para todo o
sempre, amém."
- Ahhhh... minha feiticeira... - Sua voz interrompeu minhas conjecturas. -
Estou completamente dominado por você... - suspirou. - Pode fazer de mim o
que quiser!
Não. Eu não notei que ele estava respondendo aos meus pensamentos!
Tudo que posso me lembrar é de uma onda de medo que toldou meu
raciocínio.
- Vou sentir falta da sua massagem, mi amor... muita! Minha emoção
despencou imediatamente da raiva para uma angústia profunda. Senti um
medo atroz que aquela fosse a nossa última noite e perguntei, rouca de
ansiedade:
- Quando você vai embora?
Sorriu e abriu os braços para me receber, enquanto dizia:
- Eu estarei aqui enquanto você me quiser, mi amor. Apesar do seu ar
apaixonado, continuei me sentindo ameaçada. Ele agia como se tivesse certeza
que eu o mandaria embora.
- Quero ficar com você para sempre, Cesar.
- Então, mi amor, nós ficaremos juntos por toda a eternidade!
Eternidade... feiticeira... devia ser o sangue índio que o levava a falar assim.
No dia seguinte, fomos para a praia, assim que ele voltou do aeroporto. O
tal amigo já tinha ido embora.
Não me lembrava de tê-lo visto partir à noite e, para falar a verdade, tinha
dúvidas se ele voltaria a aparecer. Por isso, quando o vi chegar pela manhã, de
tênis e agasalho esportivo, pronto para viajar, dei um suspiro de alívio.
- Puxa vida!... Como você está alegre hoje, mi amor! Descemos a serra do
mar rindo e contando casos. No meio do caminho, paramos para apreciar a
paisagem, trocar alguns beijos e comer pamonha. Lembro de ter descido do
carro contente e ter voltado exausta, como se meu corpo tivesse se tornado
subitamente escuro e pesado.
- Você se importa de dirigir? Não estou me sentindo bem.
- Não posso, mi amor... estou sem documentos.
- Não faz mal.
- Faz sim, Ana... de repente a polícia aparece e eu não quero chamar a
atenção... Você compreende, não é?
Claro que eu compreendia. Aquele cara era um rematado egoísta que,
mesmo percebendo o meu estado, se recusava a colaborar!
Fui remoendo minha raiva durante todo o resto do caminho e cheguei à
praia entorpecida de cansaço e irritação.
- Nossa! Nunca demorei tanto para fazer esta viagem!... Que horas serão?
- Não sei, mi amor. Eu também não uso relógio.
- Eu uso... só que não sei onde está... você se importa se eu for dormir
um pouco? Estou literalmente exausta!
- Ah, mi amor... Justo agora?
O seu desaponto era tão flagrante que não pude deixar de dar risada.
Expliquei que já não podia mais me agüentar e fui dormir.
Não consegui. Deitado ao meu lado, ele não desistiu enquanto não
fizemos amor. Nunca tinha visto um homem tão egoísta!
- Você me ama, Ana?... Diga que me ama... diga!
- Você sabe que eu amo, Cesar... só que eu estou precisando dormir.
- Agora não... diga que me ama só mais uma vez.
Disse que o amava e me virei para o lado, mas o cabra da peste não parou
quieto, Saltou na cama como uma criança, fez amor comigo várias vezes e não
parou de falar nem um minuto. Deixou tão claro que precisava da minha
atenção que acabei me sentindo contente. A minha estratégia estava dando
certo!
- Mi amor!... - pediu com voz infantil. - Vamos passear um pouquinho?
Senti uma pontada de raiva e, por um instante, desconfiei que era de
propósito... Besteira! A troco de que, ele teria prazer em me deixar exausta?
Era carência mesmo. Mais nada.
- Estou muito cansada, Cesar.
- É que estou morrendo de fome.
- Já?!... Que horas são?
- Quase oito da noite.
- Puxa vida! Então eu dormi sem perceber! Desculpe.
Novamente aquela risada feliz e divertida, mas nenhuma resposta.
Sentindo a alma leve e o corpo moído, levantei-me com esforço e saímos para
jantar.
No caminho, paramos para ver o sol se pôr no mar. Sentamos na areia
seca enquanto a água pegava fogo e ele comentou com voz grave:
- Esta hora do dia é muito importante para mim!
Não sei o que me deu. Justo eu que queria parecer boazinha para
conquistá-lo, dei um pulo e, com um estranho sentimento de raiva, exigi que
fôssemos comer imediatamente. Fiz de conta que não notei a má vontade
com que ele se levantou e fui direto para a calçada esperá-lo.
Caminhamos pela cidade deserta até o único restaurante aberto.
Entramos. O gerente nos recebeu como se fôssemos velhos amigos:
- Nossa! Nunca vi duas pessoas tão felizes. Realmente, apesar de
entorpecida, eu me sentia feliz!
***

Pedimos peixe e vinho branco, para brindar o nosso amor. Vinho, outra
vez! Devia ser por isso que eu andava tão cansada. Tinha tomado mais álcool
naquela semana do que em todos os outros dias da minha vida.
Sobre a mesa, havia dois cartões do restaurante. Escrevi um "eu te amo"
bem grande num deles e disse rindo que era para quando ele se sentisse
carente. Depois, pedi que me fizesse uma dedicatória no outro. Ficou
subitamente sério:
- Não gosto de escrever, Ana.
- Só algumas palavras, meu amor... pra gente guardar de lembrança.
Concordou com voz grave e ficou pensativo. Parou com a caneta no ar.
Achei que estava procurando palavras pouco comprometedoras. Depois de
muito tempo, escreveu uma longa frase. Parou de novo com a caneta no ar.
Fez que ia assinar, mas desistiu. Titubeou várias vezes. Por fim, tomou uma
decisão e assinou!
Claro que a estas alturas, eu já estava morrendo de curiosidade. Antes que
ele me entregasse, tomei o cartão de suas mãos e li afoitamente: "Espero que
estes momentos sumen el no retorno de las nuestras vidas".
Bonita. Séria demais para aquele momento de festa, mas eu não podia
negar que era bonita. Filosófica, até.
Não entendi a assinatura. Apesar de começar com um "c" bem grande e
ter cinco letras não parecia o nome Cesar. O lugar do "s" e do "a" estavam
trocados e o final podia ser um "t" ou um "i", mas nunca um "r".
Eu estava certa desde o início: o nome era falso mesmo! Em algum lugar
da minha mente formou-se uma idéia assustadora. Em outro, a imagem de
uma esposa rica e possessiva.
- Você cometeu um ato falho, Cesar... pensou, pensou e acabou
escrevendo outro nome.
- Que importa, mi amor? - perguntou com ar sério. - O importante é o
que está escrito! - Fez uma pausa. - Você sabe o que significa o Ponto do Não
Retorno?
Respondi que não era difícil de imaginar, mas ele não me deu atenção:
- É o momento da nossa vida onde tudo que conhecemos perde o
significado. - Examinou meu rosto para ver se eu estava entendendo. - O
ponto de onde não se pode retornar porque o passado deixa de existir. - A
voz foi tomada pela emoção e ele repetiu mais alto. — Deixa de existir,
entende?
"Depois do Ponto do Não Retorno, tudo que nos resta é seguir adiante. -
Ficou exasperado ao me ver sorrir. - Isso não é brincadeira, Ana, é muito
sério! - Respirou fundo para se controlar e continuou com voz grave. -
Espero que estes momentos provoquem uma mudança radical na sua vida... -
Seus olhos perfuraram os meus. - Você concorda?"
- Só na minha?
- Eu estou falando sério, Ana. - Seu rosto endureceu. - Concorda que
esta nossa relação provoque uma ruptura tão forte na sua vida que você nunca
mais será a mesma?
Tive a impressão de que se não concordasse ele me abandonaria ali
mesmo, para sempre. Estive a ponto de assentir só para não perdê-lo, mas
seus olhos fixos em mim me obrigaram a refletir.
Pensei na minha vida tão atribulada e tão vazia de significado. No meu
trabalho, meus amores e em todas as minhas cabeçadas à procura da
felicidade. Revi a minha luta por me tornar uma pessoa melhor e respondi do
fundo do coração:
- Concordo.
Só então ele relaxou. Sorriu aquele sorriso doce e alegre que só ele sabia
dar e selou a nossa promessa com um beijo.
- Ah... mi amor... você não vai se arrepender... vai ser muito bom. Muito
bom, mesmo!
***
- Posso tirar uma foto deste casal tão lindo? - A voz do gerente parecia
vir de outro mundo.
- Nããããããão... - disse o Cesar. - Nós não precisamos de fotos... vamos
ficar juntos para sempre!
- Ah... eu quero sim... por favor, querido, deixa vá?
- Está bem - concordou a contragosto. - Já que você insiste. Passou o
braço pelos meus ombros, olhou com segurança para a câmara e só relaxou
depois do click.
Semanas mais tarde, quando ele já tinha ido embora, voltei para buscar
esta foto, mas o rolo de filme tinha desaparecido.
* **

Na manhã seguinte, saímos para passear. Ele parecia temeroso e


assustado, pedindo a cada instante um beijo ou uma jura de amor. Havia um
quê de fragilidade na sua aparência, uma doçura desconhecida na sua voz que
me deixaram desarmada. Sim, eu o amava. Muito!
Fomos caminhando de mãos dadas até à beira-mar. Quando propus que
nadássemos juntos, confessou com ar infantil que não trouxera maio. Não sei
se tive pena ou fiquei decepcionada. Eu estava louca de vontade de nadar!
- A praia está vazia... você pode nadar sem roupa.
- Nãããão, mi amor... - O ar de fragilidade aumentou. - Pode ir. Eu fico
aqui, observando.
Tinha um ar tão envergonhado que soltei uma gargalhada. Não podia
acreditar que ele fosse tão tímido!
- Deixa de ser bobo, Cesar... não tem ninguém aqui!
Com o ar contrafeito, tirou a roupa de uma só vez, ficou de cuecas e
correu tão depressa para a água que não tive tempo de acompanhá-lo. Deu
quatro ou cinco braçadas desengonçadas e voltou correndo sem molhar a
cabeça. Parecia assustado, quando vestiu a calça por cima da cueca molhada,
com medo que alguém o visse.
Eu estava encantada com toda aquela fragilidade. Era como se ele tivesse
finalmente confiado em mim e mostrado que, embaixo da máscara de homem
mau, havia o verdadeiro Cesar. Um Cesar doce, terno e tímido. Ah! Que
ternura senti naquele momento!
Antes de voltarmos para São Paulo, olhou ao redor e disse com ar
sonhador que gostaria de viver naquele lugar, para sempre... deu um longo
suspiro... Só nós dois... longe de tudo e de todos... principalmente daquela
gente!
Porém, antes que eu respondesse, sua expressão mudou para um ar de
ferocidade impotente:
- Aquela gente não permite abandono. Nunca!
Senti um arrepio de medo. Quem seria "aquela gente" de que ele tanto
falava? A imagem de um grupo vivendo nas montanhas de algum país latino
se formou lá no fundo da minha mente, mas foi tão assustadora que a afastei.
No seu lugar, coloquei a esposa rabugenta, uma casa grande, abarrotada de
móveis e quatro filhos mimados. Eu podia até vê-lo, infeliz e bem vestido,
presidindo um daqueles jantares enfadonhos. Pobre Cesar. Tão cheio de vida,
sendo obrigado a viver de forma tão idiota!
De repente, tudo fez sentido! De um lado, uma família tradicional e
castradora. De outro, o Cesar que eu acabara de descobrir. Aquele homem
que se obrigara a entrar na água de cuecas simplesmente porque eu me rira
dele. O marido medroso que evitava fotos e escondia o próprio nome. O
amante ansioso que pedia que eu repetisse mil vezes que o amava. E,
finalmente, matei a charada: o Cesar era um fraco!
Atrás da força física e de toda aquela violência havia um covarde. Um
preso ansiando pela liberdade. Um homem desesperado, precisando que uma
mulher forte o ajudasse.
Eu, claro!
***

Era o papel perfeito para mim. A minha forma pessoal de evitar o


abandono era escolher pessoas dependentes que precisassem de alguém para
sobreviver.
Então, eu me tornava uma mistura de mãe, amiga e terapeuta. A grande
conselheira, mestra e orientadora capaz de ajudar o covarde a se tornar
corajoso, o alcoólatra a parar de beber, o mau pai a educar bem seus filhos.
Claro que, quando o homem passava a depender de mim, começávamos a nos
odiar e quando sobrevinha a separação eu ficava cheia de raiva e pena de mim
mesma por ter sido tão boazinha. Mas uma nova relação começava e eu
voltava a agir como salvadora.
Com o Cesar tudo acontecia ao contrário. Ele era carinhoso, freqüente e
interessado, mas não era meu. Era como uma borboleta que eu pudesse ver,
admirar, sentir o perfume e o toque das asas, sem conseguir pegar para a
minha coleção.
Ajudá-lo a mudar de vida colocaria tudo nos eixos outra vez. Eu estaria no
papel em que sempre estivera e, de quebra, não teria que escolher entre ser
amante de um homem casado ou ficar sozinha de novo.
* **

Mas naquela época eu não tinha consciência do que fazia e, enquanto


dirigia de volta para São Paulo, a minha alegria era contagiante. Madre "Ana"
de Calcutá ia salvar mais um infeliz!
Dirigi cantando. O céu estava azul-contente e desfiei canções de Garoto,
Luiz Gonzaga, Chico Buarque, Tom Jobim, além de, claro, "Prece ao Vento",
a "nossa" música.
A minha alegria desapareceu quando percebi que ele estava desgostoso
com alguma coisa. Imediatamente, recriminei o egoísmo que me levara a
cantar sem parar e pedi uma canção peruana. Com ar envergonhado, ele
confessou que não conhecia nenhuma.
- Você é índio?! - Estranhei.
- Tenho um avô índio... - Olhou fixamente para mim. - Você tem algum
preconceito? - Mas antes que eu respondesse emendou:
- Não... você gosta, não é verdade? - Soltou uma risada galhofeira.
- Você acha os índios sensuais.
Ofendida, repliquei que admirava muito a cultura indígena. Com ar de
descrença, ele perguntou o que uma mulher da cidade grande podia saber a
respeito dos índios.
- Conheço os livros de Carlos Castañeda. Você sabe quem é? A sua
resposta foi um gesto de "deixa pra lá" e deduzi que não conhecia, mas tinha
vergonha de confessar. Era um homem de pouca cultura e eu não devia
humilhá-lo.
Ficamos em silêncio por um tempo. Aproveitei para pensar nas prováveis
causas dele ter se tornado um covarde. Depois de muito esforço cheguei a
uma brilhante conclusão: a culpa era da sua mãe!
- Como foi a sua infância, Cesar?
- Tive muitos problemas com a minha mãe.
Eu estava certa. Quem precisa de Freud, tendo Ana Catan ao seu lado?...
Agora era só esperar que as palavras jorrassem. Tentei ajudar:
- Ela ainda vive?
- Vive... - Ele fez um gesto ambíguo com a cabeça. - Mas eu não a vejo. -
Fechou a cara. - Não gosto de falar nisso.
O paciente não estava colaborando, mas não desanimei. Esperei um
pouco e ataquei outro tema. Tentei o pai, tinha morrido. Divórcio? Ainda não
era o momento de falar daquele assunto. Amigos? Nenhum, só "aquela
gente".
- Do que morreu a sua primeira mulher?
- Foi tão rápido, Ana, que eu nem sei como aconteceu.
- Que idade ela tinha?
- Ela era muito jovem. - A voz dele não se alterou, mas tive a impressão
que era uma recordação dolorosa. - Muito jovem mesmo.
- Você gostava muito dela?
Ele respondeu com voz tranqüila:
- Eu a amava.
A singeleza da resposta me emocionou profundamente. Toquei sua mão
de leve murmurando que ele devia ter sofrido muito.
- Não. - Manteve o mesmo tom de voz. - Eu sabia que ela estava indo
para um lugar melhor.
Fiquei atônita! Era uma resposta absolutamente religiosa. A mesma que as
freiras da minha escola utilizaram quando eu era pequena e minha mãe
morreu. Levei um susto tão grande que quase bati o carro:
- Nossa! - comentei com voz alterada. - Eu não sabia que você era tão
religioso!
- Isso não é religião, Ana. - Soltou uma gargalhada velhaca. - É a
realidade da vida.
Aquela gargalhada agressiva, tão contrária aos sentimentos que ele acabara
de expressar, me deixou sumamente irritada. Aquele homem era uma
incógnita mesmo!
- Qual o seu nome?
- Eu já disse, é Cesar.
Precisei me controlar para não expulsá-lo do carro. Dra. Ana não podia
perder a calma.
- Por que é que você mente tanto?
- Você me obriga a mentir, Ana.
Desta vez perdi o controle. Senti uma raiva tão forte que precisei me
segurar no guidom.
- Quero saber o seu nome inteiro, porra!
- Cesar Pagliardi - respondeu com voz calma. - Cesar Ricardo Pagliardi
Reyes.
Parecia tão alheio à minha explosão que fiquei com vergonha. Passados
alguns segundos, perguntei mais calma:
- Mas você usa outro nome, não usa?
- Uso.
- E qual é?
Ele pensou muito tempo, decidindo se deveria ou não me dizer a verdade
e, por fim, meneou a cabeça:
- Você não está preparada, Ana... teria muito medo... e este medo seria
perigoso para nós dois.
Senti um soco no estômago e calei a boca. Todos os meus sinais de alarme
soaram ao mesmo tempo. Uma centena de imagens assustadoras passou pela
minha cabeça. Uma dezena de vozes começou a falar. Teciam as mais
perigosas conjecturas. Faziam as mais sórdidas acusações. Mas eu não queria
ouvir. Não queria saber. Só queria fugir o mais depressa possível. Escapar de
tudo aquilo. Voltar a me sentir alegre.
O alarido aumentou, as vozes falavam mais e mais alto. Quanto mais elas
falavam, mais eu corria. Meu corpo estava tenso. O pé pisava fundo no
acelerador. O carro voava. Minha cabeça, também. De repente ele deu um
grito.
Não foi um grito comum. Foi um urro. Não. Foi um som metálico. Um
ruído não humano. Um torpedo sonoro. Não sei explicar. Minha vista se
embaralhou e tive a impressão que o pára-brisa do automóvel se estilhaçara.
Enfiei o pé no breque. Todas as vozes se calaram ao mesmo tempo. Parei de
pensar. O som continuou. Parecia que não ia parar nunca. Entrou pela minha
pele e se espalhou pelo meu corpo. Era frio. Meu sangue paralisou nas veias.
A cabeça ficou cheia de estrelas. Senti que ia explodir.
Então, ele começou a cantar:
"Allá en Rancho Grande Allá donde vivia Havia una rancherita Que alegre me decia
Que alegre me decia".
Repetiu a mesma estrofe várias vezes, enquanto os pedaços do meu corpo
voltaram a se juntar. A vista clareou. A mente, também. Ufa, que alívio! Ele
estava cantando. Só cantando. Eu é que andava com os nervos à flor da pele
por causa da paixão. Afastei o grito da lembrança e emendei o estribilho.
"Yo voy hacer los calzones Igual que usan los rancheros Yo los comiezo de laña Y los
termino en cuero".
Imediatamente, ele fechou a cara e parou de cantar. Parecia ofendido e
irritado comigo. A ansiedade voltou a dar um nó no meu estômago e, para
fingir que tudo estava bem, fiz um comentário bobo:
- Você é peruano e só conhece canções mexicanas!
Ele pareceu assustado e fechou a cara mais ainda. Só então percebi o
significado das minhas palavras. Ele mentira sobre a sua nacionalidade e eu o
pegara em flagrante. Burra! Não devia ter demonstrado. Estúpida! Eu o
assustara.
Tentei uma conversa banal, mas ele nem se deu ao trabalho de responder.
Manteve o rosto virado para a janela, sem me dirigir um único olhar, uma
única palavra. Fiquei doente de ansiedade e fui recriminando a minha
estupidez durante toda a viagem.
Ao chegar, eu estava à beira de um ataque de nervos. Quando ele desceu
do carro dizendo que tinha um compromisso e precisava sair correndo, entrei
em pânico. Tive certeza que estava farto da minha presença e não queria mais
me ver. Com a voz embargada pelo choro, perguntei:
- Vamos nos ver hoje à noite?
- Não sei.
- Você me telefona?
- Talvez - respondeu com ar de enfado. - Se for possível. Senti um
desespero alucinante por ter estragado tudo, mas não fui capaz de descobrir
onde estava o meu erro. Agoniada, entrei em casa e me joguei na cama.
***

Não sei em que momento daquele dia angustiante pensei no Caminho do


Guerreiro como uma solução para nós dois. Não foi um pensamento claro,
foi só a sombra de uma idéia. Eu precisava ajudá-lo a mudar de vida e o
Caminho do Guerreiro parecia a única opção, a única possibilidade. Se pelo
menos eu tivesse a oportunidade de vê-lo de novo...
Passei horas aterrorizada com a hipótese do Cesar nunca mais aparecer,
assim, quando ele telefonou à noite, dizendo que não poderia vir, implorei,
chorando desesperadamente, que ele me permitisse vê-lo, pelo menos mais
uma vez.
Sua surpresa foi genuína. Soltou uma risada musical e respondeu
carinhosamente que naquela noite precisava ir até o aeroporto, mas no dia
seguinte nos veríamos. Só então me dei conta que ele estava calmo e
apaixonado como sempre. Nada acontecera. Fora tudo uma confusão
provocada pela minha estúpida ansiedade. Ele me amava!
Pensando comigo mesma que eu precisava controlar a minha fantasia,
desliguei o telefone contente.
Dormi um sono profundo, sem sonhos.
ENSINANDO CASTAÑEDA

Há quatro tipos de pessoas: as que aprendem, mas não ensinam; as que


ensinam, mas não aprendem; as que não aprendem nem ensinam e as que
conseguem executar as duas coisas. Somente estas encontram a iluminação.
Ensinamentos do Budismo Tibetano
Passei a 5a feira me sentindo estranha. O corpo fatigado e a cabeça
entupida de pensamentos caóticos me diziam que eu devia me livrar daquele
homem, o mais rápido possível, mas a paixão me impedia. A sensação era de
estar me atirando num abismo, de livre e espontânea vontade.
A noite, ele chegou muito nervoso. Fora ao aeroporto buscar uma
encomenda e não conseguira encontrá-la. Parecia preocupado.
- E um assunto muito sério, mi amor, posso fazer uma ligação?
Concordei e ele correu para o telefone, como se não pudesse perder um
minuto. Achei que devia deixá-lo sozinho e me ofereci para sair da sala.
- Não, mi amor... eu preciso de você ao meu lado.
Havia um quê na sua atitude, um brilho no seu olhar, uma sombra de
sorriso... sei lá. Algo acendeu minha intuição. Aquele telefonema era uma
farsa!
- Não está aí com você???... - Ele parecia nervoso mesmo. -Puta que o
pariu!!!... Então deve ter acontecido alguma coisa!
Desligou com tanta força que o aparelho quase se espatifou. Ligou para
outra pessoa:
- Como?!!! A encomenda também não está aí?... - Socou uma mão na
outra. - Você acha que "eles" a encontraram?... - Respirou fundo. - Está bem,
eu vou tentar.
Fez uma série de tentativas. Nada. Ao cabo de três ligações já estava
histérico. Deu duas ou três voltas pela sala, murmurando que estava perdido.
Foi tão convincente que, mesmo sem ter certeza, ofereci minha ajuda.
- Não há nada que você possa fazer por mim, mi amor. -Sorriu
tristemente. - Nada!
Deu mais algumas voltas frenéticas pela sala e, de repente, estancou,
batendo a mão na testa. Burro! Esquecera-se do Firmino!... Talvez ainda
estivesse em tempo!... Murmurou algo que poderia ser uma prece ou um
palavrão e, rapidamente, fez outra ligação. Não estava? Para onde fora?
Desesperado, rabiscou uma anotação rápida, desligou com presteza e girou o
disco com violência enquanto me perguntava:
- Posso deixar o número do seu telefone para ser chamado mais tarde?
Tive a imediata sensação de ter sido encurralada! Não fui capaz de admitir
que não queria o meu telefone nas mãos dos seus amigos, nem tive coragem
de negar um pedido tão simples.
Enquanto os meus pensamentos se chocavam, ele aguardava com o fone
na mão e os olhos angustiados postos em mim. Não havia tempo para
análises. Eu tinha que me decidir imediatamente!
Acho que foi o desespero que me fez encontrar a saída. Uma saída
elegante, que tirou a responsabilidade das minhas mãos:
- Você é quem sabe, Cesar, se você acha que deve...
Ele titubeou um instante e captei um lampejo de admiração no seu olhar.
Depois, desligou o telefone com ar pensativo e concluiu:
- Não vou mais me preocupar com isso, mi amor... me faz uma
massagem?
***

Sou uma pessoa de reações retardadas. Não estranhei o fato do assunto


perder subitamente a importância, nem prestei atenção ao olhar de admiração
que eu tinha captado. Levei mais de dois anos para perceber que toda aquela
encenação fora um teste.
***

Enquanto ele se deitava no chão, confessei o medo intenso que sentira no


outro dia. Medo que ele me abandonasse. Que nunca mais quisesse me ver.
- Você acha que eu ia ser tão louco?! - Sorriu cheio de alegria. - Você
percebe a sorte que eu tive ao te encontrar?
- Eu é que tive, Cesar... E muito mais fácil encontrar uma mulher como
eu do que um homem como você.
- Não!... Você está muito enganada!... A sorte foi minha! -Bateu no peito.
- Minha!... - Levantou-se de um salto. - Por sua causa, agora eu posso ser
livre... LIVRE, entendeu bem? - Deu uma volta na sala. - Você é o meu
passaporte para a Liberdade, Ana! - repetiu exaltado. - O meu passaporte para
a Liberdade!... -Abriu os braços como se fosse levantar vôo. - Se não fosse por
você - estancou de repente - ...eu teria ficado preso!... - Deu um sorriso triste.
- Amarrado, mesmo!... - suspirou. - Se não nos tivéssemos encontrado -
meneou a cabeça -, tudo estaria perdido!... - suspirou profundamente e
concluiu com voz dramática. - A minha morte teria sido horrível!...
E, antes que eu tivesse tempo para entender aquela explosão, deitou-se ao
meu lado e ordenou:
- Agora me faz uma massagem.
Senti sua presença perto de mim, mas não consegui vê-lo. Havia uma
nuvem negra bem na frente dos meus olhos. Enquanto minhas mãos sentiam
a oleosidade da sua pele, meus pensamentos se perdiam naquele imenso
buraco negro. Dentro dele, uma palavra, uma idéia ou um sentimento, sei lá.
Alguma coisa tremendamente assustadora. Eu estava correndo perigo!
Meu corpo ficou todo escuro. As mãos, frenéticas. Os pensa-mentos, um
breu. Tive a sensação de ter sido tragada e quando minha voz falou, não
parecia minha. Era uma voz longínqua e cavernosa. Saiu da minha boca, mas
não foi comandada por mim. Falou como se não me pertencesse. Eu só soube
o que estava dizendo no momento em que foi dito:
- Você não tem medo do que está fazendo?
- Uhhh, se tenho, mi amor\... - Contorceu-se no chão. - Fico apavorado
só de pensar no que estou fazendo!
- Você não pode morrer?
As contorções pararam. A voz adquiriu um tom sofredor:
- Posso sim, mi amor... - suspirou longa e profundamente -, posso
morrer a qualquer momento!
A frase ecoou muito tempo dentro da minha cabeça, até eu perceber o seu
significado. Fiquei aterrorizada! Não sei se tive medo de perdê-lo ou de
alguma coisa pior. As paredes do poço se fecharam e procurei
desesperadamente uma saída. Não me lembro de ter tomado a decisão, mas
quando dei por mim estava falando de Carlos Castaneda.
Imediatamente ele interrompeu a massagem e sentou-se, cheio de
curiosidade. Parecia realmente interessado e seu interesse aliviou minha
tensão. Se eu parasse de falar, ele pedia que continuasse e quando eu não sabia
como explicar alguma coisa, ele me ajudava. Cheguei a desconfiar que
conhecia o assunto:
- Eu conheço o Caminho do Guerreiro do Zen-Budismo... E uma coisa
muito difícil, mi amor... nossa!... Não é para gente comum.
- Claro que é, Cesar... as pessoas ficam incomuns depois que entram no
Caminho do Guerreiro, não antes.
Ele pareceu gostar dessa minha resposta e deitou-se outra vez. Voltei a
massageá-lo, mas não parei de conversar. O poço negro tinha desaparecido, se
não completamente, o suficiente para eu poder respirar, e o único
pensamento, o único assunto que não me fazia mal era aquele que estávamos
conversando: Carlos Castaneda.
De repente, uma idéia em bloco apareceu na minha cabeça. Uma idéia
compacta, que chegou completa e foi corroborada pela sensação das minhas
mãos. Uma verdade tão óbvia que não pude entender como tinha deixado
passar. Ouvi minha voz dizer:
- Você é um homem muito poderoso, Cesar!
- Eu sei.
A simplicidade da resposta me deixou desarvorada. Tive a sensação de
estar com um imenso tesouro nas mãos sem saber o que fazer com ele.
- Por que você leva esta vida?
- Porque eu escolhi, Ana... e não quero mudar.
- Você não gostaria de ser igual ao Carlos Castaneda?
- Claro que gostaria - o sorriso dele era cativante.
- Então, por que não quer seguir o Caminho do Guerreiro? Ele deu uma
risada positivamente indecente, espreguiçou-se devagar, dizendo:
- Ahhhh, mi amor... eu sou muuuuuito preguiçoso...
A recusa dele me deixou insuportavelmente ansiosa. Comecei a falar
muito depressa. Senti que a minha vida dependia dele seguir o Caminho do
Guerreiro e tentei suborná-lo com promessas de poder e aventuras. Ele foi
inflexível: não queria mudar!
A ansiedade aumentou e comecei a mentir descaradamente. Inventei
histórias de como nós dois poderíamos ser felizes juntos trilhando o Caminho
do Guerreiro. Só assim o nosso amor seria completo.
Eu podia ver a descrença nos seus olhos que passeavam por todo o meu
corpo e tentei desesperadamente convencê-lo. Quando terminei, ele
perguntou em tom de dúvida:
- Você tem certeza que o Caminho do Guerreiro é para duas pessoas
seguirem juntas?
Por um instante, desconfiei que meus conhecimentos estavam sendo
testados, mas logo afastei a idéia e continuei a mentir:
- Claro! Carlos Castaneda também tem uma companheira! A dúvida
desapareceu de seu olhar e ele perguntou peremptoriamente:
- Quem?
Mais uma vez, me senti encurralada. Se eu dissesse que era Carol, a mulher
nagual, teria que contar que ela o deixara sozinho. Decidi continuar mentindo:
- La Gorda.
Com as sobrancelhas erguidas, ele quase deu um sorriso, mas não
contestou. Expliquei:
- Eu me identifico muito com ela... acho que somos iguais. Seu corpo
estremeceu e com uma expressão de surpresa no rosto ele gritou um nãããããão
longo e sentido e, por alguns segundos, tive certeza que ele sabia quem era La
Gorda... que a conhecia pessoalmente... que tinham discutido... mas, então, a
bruma... o túnel... o esquecimento... o esforço para entender o que ele dizia... e
o som da sua voz longínqua chegando devagar:
- Você parece muito entusiasmada.
A minha visão voltando lentamente ao foco... O vulto do Cesar parecendo
o de uma sentinela... e a minha voz respondendo sem que eu soubesse como:
- Eu quero seguir o Caminho do Guerreiro!
- Este é um caminho muito difícil, Ana... - falou gravemente. - Como é
que você espera vencer as dificuldades?
- Não sei, Cesar... estou disposta a tudo... - A sentinela aguardando. -
Não me importo de morrer na tentativa. O que eu não posso é pensar em
outro tipo de vida... - A sala voltou a ficar iluminada. - Espero que você não
me faça desistir.
- Você não precisa se preocupar, mi amor. - O sorriso resplandecente. -
Vou fazer tudo que puder para ajudar você!
Disse a mim mesma que o cara era muito pretensioso. O que ele pensava
que podia fazer?
- Quem pode saber, Ana?
De repente percebi que estava exausta e me deitei ao seu lado. Perguntei
as horas. Cinco da manhã. Puxa vida! Eu estive falando todo esse tempo? A
resposta foi outra gargalhada musical.
NEURAS
Escondidos dentro de nós estão não só os nossos medos e confusões,
mas também as nossas aspirações e sentimentos mais profundos.

Tarthang Tulku

No dia seguinte, 6a feira, eu estava completamente aturdida. Entupida,


mesmo. Uma espécie de cansaço físico-mental-emocional até então
desconhecido me impedia de pensar com clareza.
Com o corpo pesado e a cabeça girando senti que podia desmoronar de
um momento para o outro e, pela primeira vez, desejei que ele fosse embora.
Porém, quando ele telefonou dizendo que talvez não pudesse vir, fiquei
arrependida.
- Eu tenho que resolver aquele problema de ontem... você lembra? Ainda
não fiz nada e não posso perder mais tempo... se eu for hoje, mi amor, não
poderei ir amanhã.
Eu não suportava ficar sozinha no sábado à noite. Tinha a impressão que
o mundo inteiro estava se divertindo nos cinemas e restaurantes e eu era o
único ser humano sem par nesta terra. Confessei minha fraqueza. Ele deu
risada e disse em tom compreensivo que tentaria vir tanto na 6a feira como no
sábado, mas não fiquei satisfeita:
- Você entendeu bem? Se for para ser uma só noite, prefiro que seja
amanhã.
- Entendi sim, mi amor.
- Eu te amo, Cesar.
- Eu sei, Ana... e preciso muito do seu amor... estou fazendo todo o
possível para ficar com você para sempre!
Às 8 da noite ele telefonou informando que viria. Fiquei preocupada com
o sábado:
- Mas você vai poder vir amanhã?
- Vou, sim, Ana - deu risada. - Que preocupação mais tola! Chegou às
nove em ponto. Ainda na porta, me abraçou com força e senti algo duro na
sua cintura. Tentei abrir seu paletó, mas ele não me permitiu. Percebi, então,
que era um revólver. Não sei o que chegou primeiro, medo ou raiva. Sei que
comecei a gritar autoritariamente:
- Não permito armas na minha casa!
Em lugar de pedir desculpas, como eu esperava, ele me encarou de frente
e perguntou com voz tranqüila:
- Quer que eu vá embora?
Não foi uma ameaça. Foi uma pergunta simples e direta. Ele não parecia
ofendido ou irritado, ao contrário, a sua expressão era de descaso. Para ele
tanto fazia. Podia passar para a sala ou girar o corpo e sair da minha vida para
sempre. Dependia de mim.
Havia uma força tão grande na sua atitude que fiquei gelada de medo.
Meneei a cabeça e abri a porta, sem conseguir responder. Calmamente, ele foi
até o quarto e voltou sem o paletó.
Voltou e me encontrou no mesmo lugar, estatelada e ainda sem fala.
Sorrindo, como se aquela fosse uma cena corriqueira, ele me deitou no chão,
com muito cuidado, e fez amor comigo. Tratou-me com tal ternura que pela
primeira vez acreditei que o seu amor não era fingimento ou brincadeira. Era
amor de verdade. Um amor que iluminava todo o ambiente. Tive um
momento de profunda alegria, mas ele se afastou, sobressaltado:
- Eu não posso me entregar ao amor, Ana... seria perigoso... - Empurrou
alguma coisa com as mãos, como se estivesse afastando o ar em frente ao seu
coração. - Poderia me tirar do meu caminho.
Uma idéia completamente louca surgiu lá no recôndito do meu ser: "eu
posso tirar o Carlos Castaneda do caminho", mas não tive tempo de fixá-la,
pois ele continuou a falar:
- Seria perigoso para você também!
Sentindo-me visceralmente ameaçada, não somente por suas palavras, mas
por algo que não fui capaz de identificar, recomecei a ensinar:
- Todos os seres humanos vêm de uma quantidade de energia padrão
chamada Mônada. O processo de criação é semelhante ao do óvulo
fecundado. A Mônada divide-se duas vezes, uma por meiose, outra por
mitose. A divisão por meiose separa a maior parte das energias femininas das
masculinas. A divisão por mitose divide cada uma destas metades em duas
partes iguais. As quatro partes resultantes se transformam em quatro pessoas:
dois homens e duas mulheres.
"A necessidade que sentimos de encontrar parceiros é decorrente da
procura dos nossos 'irmãos', aqueles que vieram da nossa mesma Mônada."
"Algumas mônadas, porém, dividem-se somente uma vez, por meiose,
gerando um único casal. Estes seres que possuem a energia equivalente à de
duas pessoas são denominados naguais. Cada Mônada gera um homem nagual
e uma mulher nagual. Carlos Castaneda é um homem nagual."
"Se o Ser nagual tiver a sorte de encontrar um Mestre, aprenderá a utilizar
esta quantidade extra de energia de várias formas. A mais impressionante
delas, a meu ver, é o fenômeno da ubiqüidade."
"O Mestre divide a energia do nagual em dois blocos. O nagual dividido é
capaz de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Carlos Castaneda, por
exemplo, poderia estar aqui comigo e, ao mesmo tempo, no México,
trabalhando com seu grupo."
Contente por ter conseguido explicar algo tão difícil, esperei alguma
reação favorável, mas ele não demonstrou nenhum interesse. Continuou no
chão deitado de bruços, calado.
Frustrada e ansiosa por prender a sua atenção, falei, sem pensar:
- Você é um homem nagual, Cesar... e eu sou a sua mulher nagual.
Sua reação foi instantânea. Sentou-se com tal rapidez que senti que,
finalmente, o conquistara. Seus olhos brilhavam:
- Você acredita mesmo nisso?
Fiquei imediatamente dividida. Uma parte de mim queria levar a conversa
na brincadeira. A outra sentiu que se concordasse estaria assumindo um
compromisso muito sério. O medo empanou meu raciocínio. Venceu a
primeira e confirmei sem acreditar:
- Acredito.
Não consegui enganá-lo. Lentamente, seus olhos perderam o brilho e o
rosto adquiriu uma expressão levemente divertida. Afastando uma sombra
imaginária com a mão, ele foi irônico:
- Você é muito tola, Ana... o que este homem escreve não passa de ficção
científica!
Aquela parte obscura do meu ser teve a sensação de ter perdido uma
magnífica oportunidade. A parte mais superficial teve uma crise de raiva.
Comecei a gritar que Castaneda era de uma honestidade sem limites. Que seus
livros relatavam somente a verdade. E que eu tinha certeza que tudo aquilo
era possível.
Sem me interromper, ele esperou que eu terminasse e depois respondeu
com um muxoxo de desprezo:
- Como é que você pode ter certeza?... Ninguém sabe quem é este
homem!
Eu não podia contra-argumentar. A minha fé inabalável naquela verdade
estranha não era suficiente. Eu precisava de provas. E não havia. Senti que
estava desmoronando e tive uma violenta crise de choro.
Foi um choro tão sentido que ele se enterneceu. Cheio de doçura, me
aconchegou no colo e me consolou como se eu fosse uma criança:
- Não chore, mi amor... - Passou a mão nos meus cabelos. -Você vai ser
uma feiticeira... uma poderosa feiticeira.
Recomeçamos a fazer amor. De repente, senti que ele estava me
empurrando para um buraco infinito e aterrorizador. A escuridão sem fim!
Lutei para me livrar do seu abraço e, quando consegui, gritei:
- Você me atirou no nagual!...'0
Corri para o banheiro e me meti embaixo da água fria. O banho me fez
voltar ao normal. Por que é que eu dissera uma besteira tão grande? Me atirar
no nagual... imagina! Tola. Eu não passava de uma grande idiota. Saí do banho
envergonhada e voltei ansiosa para me desculpar:
- Você está bem?
- Estou sim, Cesar, mas me desculpe... não sei por que disse uma besteira
tão grande!
Não pareceu me ouvir. Franziu os olhos e moveu lentamente a cabeça,
como se estivesse me examinando. Depois de muito tempo, proferiu:
- Você fez muito bem em tomar um banho de água fria!

(1) Segundo Don Juan, o Universo se divide em Tonal e Nagual. Tonal é


o mundo de todo dia. Nagual é o infinito mundo desconhecido.
Deitei ao seu lado e meu último pensamento, antes de adormecer no chão
da sala, foi: "Por que ele pensa que pode me dar conselhos?".
A DESPEDIDA

E assim o Homem de Conhecimento se deparou com o primeiro dos seus


inimigos naturais: o medo. Um inimigo terrível, traiçoeiro e difícil de vencer.
Permanece oculto em todas as voltas do caminho, rondando, à espreita.

Don Juan

Sábado à noite, saímos para comemorar uma semana de amor. Uma


semana... outro absurdo! A sensação era de que estávamos juntos havia muito
tempo. Meu corpo estava exausto como se eu estivesse há anos sem dormir...
mas o calendário dizia que era só uma semana mesmo.
Para agradá-lo, escolhi um restaurante de comida natural, onde ele poderia
saciar a sua paixão por vegetais, hierbas, como dizia. Na entrada, duas fileiras
de plantas ladeavam uma escada larga de quatro ou cinco degraus que levava
até à porta. A iluminação de um pequeno jardim lateral fazia um belo jogo de
luz e sombras, tornando a fachada do restaurante quase um cenário de teatro.
Subi aquelas escadas lutando contra uma angústia tão forte como
incompreensível. Havia um adeus no ar. Adeus que não tinha sido
pronunciado, mas estava em todos os seus gestos. Em todos os meus
pensamentos.
Ainda tentei me convencer que era só a minha maldita insegurança, mas
ele sentou-se ao meu lado e tomou as minhas mãos com ar pesaroso:
- Não deixe de se cuidar, mi amor - suspirou. - Por mim.
Minha cabeça se encheu de bruma e tive a dolorosa sensação que aquela
frase era a continuação de uma outra conversa onde a nossa despedida já tinha
sido discutida e acertada. Mas a angústia que ameaçou explodir meu coração
foi tão forte que me recusei a acreditar. Era aquele medo estúpido de ser
abandonada que me fazia sentir assim. Só podia ser.
Fingindo uma alegria que estava longe de sentir, comentei que passara o
dia inteiro sem comer e emendei com um convite para voltar à "nossa" praia...
mas ele me interrompeu docemente:
- Chegou a hora de você usar a sua força.
- Por quê?
- Você sabe.
- Você vai embora?
- Você sabe que sim.
- Você disse que nunca iria embora, Cesar... nunca.
- Eu sei, mi amor... eu fiquei aqui por sua causa - fungou. -Era para ser
uma viagem de um dia, mas depois que tive a sorte de te encontrar... ah!...
você não imagina quanto eu procurei uma mulher como você, Ana...
- Então, por que não fica comigo?
- Se eu pudesse levar uma vida regular, seguramente seria com você, mi
amor... - falou com seriedade. - Você é a mulher perfeita para mim! - suspirou
tristemente. - Mas não é possível.
Não acreditei. Apesar da tristeza da sua voz, achei que entre a família e eu,
ele estava escolhendo a esposa, os filhos e os jantares enfadonhos.
- Eu não tenho ninguém, Ana... vivo só. - Tive a sensação de que ele
estava respondendo aos meus pensamentos. - Você não imagina o tamanho
da minha solidão... é terrível! - Os olhos postos em mim. - Pensei que seria
possível partilhar minha vida com você ... cheguei até a sonhar com isso... mas
agora sei que não é assim - suspirou com resignação. - Tenho que continuar
sozinho!
Senti uma raiva súbita. Aquele cachorro, além de me dar o fora,
desmerecia a minha inteligência. Devia era estar com medo que eu fizesse um
escândalo. Covarde! Por que não confessava de uma vez que eu tinha sido
somente uma brincadeira e nada mais?
- Você iria embora comigo?
A pergunta me pegou tão desprevenida que quase dei um pulo. Aquela
proposta desmentia minhas mais sérias convicções. Um calor gostoso nasceu
no meu peito, mas imediatamente eu soube, com uma certeza dolorida e
segura, que não aceitaria.
- Aonde nós iríamos morar?
- Podemos ir para o Chile. Você gostaria?
- Não posso, Cesar. O governo chileno não permitiria a minha entrada...
você sabe que eu sou comunista.
Fiquei pasma com a minha mentira. Posso ser de esquerda, mas nunca fui
comunista. Nada me impedia de ir ao Chile!
Balançando a cabeça compreensivamente, ele procurou outra solução.
Antes que dissesse qualquer coisa, tive certeza que me proporia outra ditadura
de direita:
- Que tal o Paraguai? - Não esperou minha resposta e sorriu. - Não. Lá
também não é possível... Você teria algum problema com a Bolívia?
Enquanto procurava uma desculpa convincente, senti que ele desfiaria,
um a um, todos os países do mundo menos o Brasil. E que eu continuaria
negando e negando, como se aquele diálogo tivesse sido ensaiado.
- Eu não posso abandonar minha filha.
- Ela vem conosco.
- O pai não permitiria.
Outra mentira. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo
comigo. Eu o amava e queria ser sua companheira, então, por que as
mentiras?
- Nós podemos morar em Foz do Iguaçu.
- Eu não posso sair de São Paulo.
- Se você quiser, eu fico morando lá e você vai me encontrar nos fins de
semana.
Não sei o que foi que me impediu de aceitar. Tudo que posso me lembrar
é da sensação de estar sendo coagida a negar. A cada nova proposta, uma
sensação estranha, uma espécie de pressão, me levava a recusar. Tentei mudar
as regras do jogo:
- Por que você não fica em São Paulo?
- Não consegui me inserir no trabalho, mi amor... tenho procurado, você
mesma viu. Todos esses dias estive à procura de algo para fazer - balançou a
cabeça -, mas não consegui nada... nada!
- Eu posso ajudar... é só você me dizer que tipo de emprego está
procurando que eu falo com os meus amigos. Conheço gente muito
importante.
Ele sorriu com ar paternal e, como se eu fosse uma criança que não
entende uma conversa de adultos, explicou:
- Você não entendeu, mi amor... para trabalhar aqui eu preciso me filiar a
um grupo... algo assim parecido com a Máfia... -Fez um gesto de desagrado. -
E eu não gosto deles.
Bruma. Ruído de uma corneta tocando no meu ouvido. Pedi que ele
repetisse suas últimas palavras: Máfia... Você sabe o que é, não sabe? Não, eu
não sabia. Não conseguia entender. Havia um vácuo entre eu e ele. Minha
cabeça tinha parado de funcionar. Não sei o que disse, nem o que senti.
Quando a comida chegou, não consegui comer.
- Você disse que estava morrendo de fome, mi amor... por que não
come?
Tive, outra vez, a sensação fortuita de que ele estava se divertindo às
minhas custas e a raiva, uma raiva escura e profunda, me deixou sem ar.
De repente me dei conta que não agüentava mais aquele restaurante!
Pensei em sair de lá o mais rápido possível, mas ele já estava comendo e não
tive coragem de interromper.
E com que prazer ele comia! Cada garfada era um ritual. Cada mastigada,
uma longa festa. Sem pronunciar uma palavra, mas sem tirar os olhos de mim,
ele saboreou cada milímetro de beterraba, vagem, agrião...
De repente me dei conta que ele estava fazendo de propósito. Quanto
mais ansiosa eu ficava, mais devagar aquele cachorro comia.
Doente de raiva, decidi calar a boca. Se ele pensava que ia dar o braço a
torcer, estava muito enganado! Por pior que fosse o meu mal-estar, eu não ia
pedir para ir embora. Continuaria firme até o fim.
E, com um ar ligeiramente malicioso, ele continuou comendo. Saboreou
cada folha de alface como se fosse um manjar. Separou, um a um, cada
galhinho de brócolis, antes de enfiá-los na boca. Triturou cada cenoura até
que se transformasse em suco.
Quando, enfim, ele terminou, no prato não havia nem uma migalha.
Tenho a impressão que ele mastigou até os caroços de azeitona!
Contente por ter conseguido vencer a parada, dei um suspiro de alívio e já
estava quase propondo que saíssemos dali quando ele perguntou com voz
alegre:
- Você não quer sobremesa?
- Não.
- Mas eu quero!
Fez o gesto de chamar o garçom e percebi que, se eu não cedesse, ele
pediria uma melancia inteira e comeria até as sementes... uma a uma...
devagarinho.
Sufocada de raiva e de angústia, desisti de lutar e confessei que precisava ir
embora, pois estava me sentindo mal.
- Por que você não me avisou, mi amor"? - Fez um gesto brusco para o
garçom. - Eu teria comido mais depressa!
Não respondi. Sabia que não adiantaria. Com o estômago dando voltas,
avisei que o esperaria lá fora. E, antes que o garçom atendesse ao seu
chamado, eu já estava correndo para a porta.
O mal-estar desapareceu assim que cheguei ao ar livre. Que alívio! Respirei
fundo e a noite cálida me encheu de alegria. Desci os degraus que levavam até
à calçada, cheia de contentamento e esperei. A Lua Cheia brilhava.
Finalmente ele chegou. Deu uma parada na porta, no alto da escada
escura, enquanto procurava alguma coisa nos bolsos. Devia ser a carteira, pois
voltou rapidamente para dentro, parecendo preocupado. Reapareceu no
instante seguinte, mais calmo. Olhou para a esquerda e para a direita. Não me
viu. Perguntou alguma coisa ao porteiro. O homem apontou para dentro do
restaurante. Seu corpo tomou a atitude de quem espera.
Tentei fazer um sinal para que ele viesse ao meu encontro, mas meu braço
não se moveu. Fiquei observando a cena. Me sentia hipnotizada.
Parado na zona de penumbra daquela fachada fantasmagórica, ele parecia
um ator, prestes a entrar no palco. Alguma coisa estava para acontecer.
Com gestos lentos, o vulto pôs alguma coisa na boca. Esquecida que ele
não fumava, achei que era um cigarro e continuei a observar.
Sempre esperando por mim, ele caminhou distraído e parou exatamente
embaixo da lâmpada do jardim. Fiquei sem ar! Era realmente um homem
belíssimo!
A luz que incendiava o corpo deixava o rosto na penumbra, dando mais
ainda a impressão de força e mistério. Assim iluminado aquele homem forte e
musculoso parecia um guerreiro Inca!
Como se estivesse num palco, ele girou devagar e olhou diretamente para
mim. Seus olhos brilhavam como olhos de gato. Meu couro cabeludo ficou
todo arrepiado e não consegui mais pensar.
De uma só vez, a imagem voltou ao foco e consegui ver o que ele trazia
no canto da boca. Não era um cigarro. Era um palito de dente. Um reles e
vulgar palito de dente!
Neste exato momento, ele pareceu perceber a minha presença. Desceu as
escadas sorridente, comentando algo a respeito de eu estar no banheiro. E,
sempre com o palito no canto da boca, passou o braço pelos meus ombros e
foi me agarrando até o carro.
***

Aquele brilho de Lua Cheia iluminou o meu quarto a noite inteira,


enquanto fazíamos amor. Feliz e, ao mesmo tempo, angustiada, implorei que
ele não fosse embora:
- Não vá embora, Cesar... por favor não me deixe.
- Não sei o que fazer, mi amor.
- A gente dá um jeito.
- Está bem... pode deixar, mi amor. - Beijou a minha boca. - Só irei
embora quando você mandar.
- Jura?
Não respondeu. Ele nunca fazia juramentos.
- Eu te amo, Cesar.
- Que bom... eu preciso muito do seu amor!
- Eu também preciso do seu... você me ama?
- Você já sabe a resposta, Ana.
De repente uma pontinha de luz clareou a minha razão e me dei conta que
ele nunca dissera que me amava.
- Diga que me ama.
- Não preciso dizer, Ana, você já sabe.
- Mas eu quero ouvir.
Ele hesitou antes de responder e estive a ponto de perceber o seu jogo,
mas ele voltou atrás:
- Eu te amo.
Mais tranqüila, pedi a ele que no momento do orgasmo imaginasse uma
luz branca vindo dele para mim. Em silêncio, ele concordou e quando
terminamos senti um calor estranho dentro do meu útero.
Levei meses para perceber que aquele foi o seu primeiro orgasmo comigo.
***

No domingo, a magia tinha acabado. Despertei angustiada, sem vontade


de levantar da cama. Não conseguia me lembrar do que acontecera durante o
jantar, mas sabia que tinha sido algo importante. Não, não era a despedida, ele
tinha voltado atrás. Era algo pior, muito pior.
Passei o dia ruminando e, de repente, todas as peças se juntaram: O nome
falso, as pessoas que ele chamava de "aquela gente", o revólver na cintura, o
hotel vagabundo, as múltiplas viagens ao aeroporto - e uma certeza horrorosa
explodiu dentro da minha cabeça: Cesar era traficante de cocaína!
Ainda tentei me convencer que não era verdade, mas então me lembrei do
palito. O desgraçado daquele palito de dentes que ele saiu mascando do
"nosso" restaurante... Que guerreiro Inca que nada! Aquele homem moreno,
de terno escuro e palito no canto da boca parecia mesmo era com Al Capone!
Não vou usar adjetivos para a minha dor. Não há. Foi um negrume que
me envolveu e ameaçou me devorar enquanto uma sucessão de imagens
violentas passou pelos meus olhos. Cenas de filme. Manchetes de jornal.
Irmão matando irmão. Marido matando a esposa. O cavalo morto sobre a
cama. Sangue. A Máfia e o Narcotráfico. A Máfia na América Latina. A Máfia
no Brasil. A Máfia não perdoa.
Senti que estava afundando e reagi com violência. Aquele filho da puta
não ia me vencer! Retesei o corpo e prometi a mim mesma que me livraria
dele, custasse o que custasse.
***

Acordei moída de tanto lutar contra o medo. No fim da tarde ele


telefonou para o meu trabalho, cheio de mi amor e alegria na voz.
- Que saudades, mi amor... a que horas vamos nos ver hoje? Meu amor
por ele era tão grande que por um instante cheguei
a titubear, mas a lembrança do palito me deu forças para manter a decisão.
Com voz trêmula, informei que tinha um compromisso.
- Não faz mal, mi amor... depois eu posso ir para a sua casa.
- Vai terminar muito tarde, Cesar.
- Que pena, mi amor... eu estou com tanta saudade!... Nos veremos
amanhã, então?
- Não.
Ficamos ambos em silêncio por um longo tempo. De repente ele falou
com voz dura e decidida, enquanto a minha parecia um sopro:
- Entendi, Ana... entendi perfeitamente... você não precisa se preocupar...
eu vou embora... é isso que você quer?
- É.
- Está bem, mi amor... vai ser difícil, mas vou fazer a sua vontade... - A
voz se adoçou. - Nunca vou esquecer você, Ana... nunca!
Desliguei o telefone sentindo um misto de alívio e tristeza. Passei o resto
da tarde trabalhando freneticamente e no início da noite fui visitar uma
cartomante.
Sem que eu dissesse uma única palavra, a mulher contou detalhes das duas
últimas semanas e terminou dizendo que eu fizera bem ao me afastar dele. Era
um homem perigoso.
***

Voltei para casa me sentindo forte e corajosa. Não seria a primeira vez que
eu lutaria contra uma paixão. Nem a última. Teria alguns dias de sofrimento
intenso, claro, e depois encontraria um novo homem. Sempre fora assim.
Só que desta vez foi diferente. Na hora do jantar meu estômago parecia
um triturador. Às nove da noite, estava suando frio. Às nove e meia, tive uma
crise de pânico.
De repente, vi que meu futuro sem ele seria um vácuo perpétuo e me
arrependi amargamente. Como eu podia ser tão estúpida? Terminar a relação
mais importante da minha vida por causa de um preconceito tolo. Burra!
Tremendo de medo que ele não me quisesse atender, telefonei para o
hotel. A telefonista informou que a conta tinha sido fechada. Não acreditei e
liguei outra vez. Disseram, então, que ele tinha saído para jantar, mas voltaria.
Devo ter ligado a cada dez minutos e a cada vez ouvi uma desculpa diferente:
tinha ido para Bolívia, Mato Grosso, Juiz de Fora, Peru. Jantar no restaurante
da esquina, comprar jornal, encontrar amigos. Voltaria. Não voltaria. Tinha
fechado a conta. Não tinha.
Passei toda a noite chorando e ligando para ele. Às oito da manhã
consegui encontrá-lo. Com a voz embargada pela tristeza confessei que estava
sofrendo muito.
- Eu também, mi amor... fiquei muito triste ao perceber que você não me
queria mais.
- É que eu fiquei assustada... Você me perdoa?
- Mas você tem razão, mi amor... eu sou um homem muito violento
mesmo.
- Não faz mal, Cesar... eu te amo.
- Isso me conforta, Ana, preciso muito do seu amor.
Pedi que ele viesse me ver, mas não era mais possível, mi amor, a viagem
já está acertada e "eles" estão me esperando... e você sabe, com aquela gente
não é possível brincar. Não, não chore, por favor. Eu vou acertar tudo para
ficar com você para sempre... você me espera?
- Espero, meu amor... vou esperar você a vida inteira!
CARTAS

Os quatro sofrimentos secundários são: Não conseguirmos o que


desejamos; não desejarmos o que conseguimos; estar longe de quem se deseja
estar perto e estar perto de quem se deseja estar longe.

Buda

Os primeiros dias foram de conflito e confusão. Minha cabeça fervia. Os


pensamentos passavam em tal velocidade que pareciam borrados. A cada
segundo, minhas emoções faziam um círculo completo do amor ao ódio,
passando pela raiva, o ressentimento e o medo de nunca mais vê-lo. Eu queria
parar. Mas, quando conseguia interromper esse círculo que me exauria, dava
de cara com o terror.
O terror era uma nuvem negra que encobria o meu raciocínio e torturava
a minha alma. Não tinha causa concreta. Vinha de uma sensação alucinante de
estar à mercê de uma força poderosa, muito maior do que eu. Não era a Máfia
que me assustava. Nem a despedida. Era a dolorosa desconfiança de que o
Cesar me ludibriara. Que todo aquele episódio fora uma farsa que, mais do
que me machucar, me aterrorizava. Eu me sentia frágil e encurralada.
Escrevi uma longa e angustiada carta e não sei quantas vezes liguei para o
Peru sem conseguir encontrá-lo. Não me lembro de nenhum pensamento
coerente, nem de ter procurado uma saída. Tudo que posso me lembrar é a
sensação de estar presa numa gruta escura e apavorante.
***

No terceiro dia, a idéia de escrever para o Carlos Castaneda emergiu das


profundezas da minha mente. Não foi um pensamento comum. Parecia mais
um comando antigo, muito antigo mesmo. Quase uma ordem.
Não parei para pensar se devia obedecer. Não me ocorreu que Carlos
Castaneda, talvez, nem recebesse aquela carta e, para falar a verdade, não
estava a par do mistério que encobria a sua pessoa. Simplesmente, levantei o
telefone e, em menos de dez minutos, consegui o endereço de alguém que o
conhecia.
Foi só quando me sentei na escrivaninha que percebi o absurdo daquela
empreitada. Escrever o que para aquele homem? Contar do Cesar? Pedir que
ele decifrasse o enigma? Ridículo! Melhor guardar aquele endereço e deixar a
carta para mais tarde. Foi o primeiro momento de lucidez em três dias.
Não durou muito. No fim da tarde, comecei a suar frio e meu estômago
virou uma bola dura e indigesta. Uma sirene tocava nos meus ouvidos e
comecei a chorar. Sem saber o porquê, achei que o Cesar estava correndo
perigo.
Como um autômato, acendi uma vela e parei no quarto escuro, na frente
do espelho.
Lentamente, minhas feições foram desaparecendo. Derreteram
devagarinho como se fossem de cera. No seu lugar surgiu um homem loiro
que não ficou muito tempo. Depois, uma sucessão de imagens sem nexo e
então, no canto direito do espelho, surgiram três homens pequenos e
ameaçadores. Um deles tinha olhos verdes que escorriam como água e uma
palavra surgiu ao seu lado: "FACÍNORA".
Sempre sem saber por que estava agindo de uma forma tão estranha,
estendi as mãos para a frente. Comecei a tremer. Meus dedos irradiavam luz e
calor.
As imagens ficaram embaçadas. Quando dei por mim, já os três vultos
tinham sumido e agora havia um moreno alto. Parecia muito forte e tranqüilo.
Escondido atrás dele, o vulto de outro homem, mais baixo, que eu não podia
ver, mas senti que era o Cesar. O homem alto sorria e uma luz clara iluminou
o ambiente. As imagens desapareceram.
Acendi a luz e, sem pensar, escrevi febrilmente: "Caro Carlos Castaneda,
não sei exatamente por que estou escrevendo. Já li três livros seus: 'O Poder
do Silêncio', 'O Fogo Interior' e 'O Presente da Águia' e gostaria muito de
seguir o Caminho do Guerreiro...". Seguia o meu nome, endereço e número
de telefone.
***

A noite foi uma sucessão de imagens do Cesar. O seu rosto sorridente


ocupava todo o quadro do meu sonho. Mantínhamos um diálogo estranho.
Não era bem um diálogo. Era uma comunicação, onde ele captava os meus
sentimentos e enviava as respostas:
- Você fez muito bem em me escrever.
Acho surpreendente que a minha carta tenha chegado em suas mãos em
menos de duas horas e ele responde aos meus pensamentos:
- Aqui o tempo é diferente.
Mesmo adormecida, tento clarear as idéias e percebo que estou fazendo
uma confusão dos diabos. A carta que acabei de enviar foi para o Carlos
Castaneda, não para o Cesar! Ele devia estar se referindo à outra. Aquela de
três dias atrás.
- Não - ele responde no sonho. - Estou falando desta mesmo. Da carta
em que você pede para seguir o Caminho do Guerreiro.
O susto me desperta. Sem saber como, me dou conta que no meu sonho
andei confundindo as duas cartas. Adormeço de novo e ele reaparece:
- Vou aceitar o seu pedido. Você pode seguir o Caminho do Guerreiro!
Agora sim, acordo apavorada! Sento na cama para afastar o pesadelo e
percebo que não estou misturando as cartas. Estou fazendo uma coisa muito
pior: estou confundindo o Cesar com o Carlos Castaneda!
O caos se instala na minha cabeça! Não consigo pensar com clareza. Sinto
duas partes brigando dentro de mim. Uma, superficial e sonora, diz em alto e
bom som que estou louca.
A outra não chega a ser exatamente uma voz. E um conhecimento sem
som. Um vazio. Um buraco negro. Uma sombra ameaçadora e persistente. A
imagem profunda e obscura do Cesar falando como se fosse o Castaneda.
Não consigo vê-la, nem afastá-la de vez e não sei exatamente por que me
sinto tão aterrorizada. Tenho somente a sensação de estar sendo ameaçada
por um poço escuro. Um poço assustadoramente escuro.
Preciso fugir dele. Tenho que escapar desta sombra que me ameaça. Apelo
para a fantasia. Imagino um Cesar sorridente e apaixonado, negando que
esteja metido com a Máfia. Divago em imagens de nós dois escondidos em
alguma montanha do Peru. Fazendo amor ao ar livre. Passeando na "nossa"
praia... mas a imagem do Cesar-Castaneda continua a me perseguir.
Analiso meus sentimentos. Devo estar desesperada de amor! É a saudade
que me faz sofrer assim. Só pode ser!
Ligo para o Peru. Ninguém responde. Claro, só tenho o telefone do
escritório. Por que será? O poço envia outra mensagem sem som. Diz que eu
sei muito bem por quê. Não é um pensamento, é antes um sentimento, uma
reação visceral. Seu sentido me sufoca.
Concluo que preciso encarar a realidade. Por medo de que o Cesar seja
realmente um traficante de cocaína, estou criando uma fantasia sem sentido.
Respiro fundo e admito que estou metida com um criminoso. Não
estamos no Peru, mas na Bolívia. Colômbia? Medellín!
Olha eu fazendo amor com o Pablo Escobar!
Tento dormir de novo e o Cesar-Castaneda volta a aparecer.
Mudo de tática. Já que a minha cabeça insiste em pensar no Castaneda, é
com ele que vou fantasiar. Vou imaginar um homem bem diferente do Cesar:
Castaneda é um homem bem alto (e o Cesar não passa de um metro e
setenta)... tem a tez escura... o Cesar também, mas a do Castaneda é mais
escura... bem escura... mais escura ainda... amulatado... não, um negro. Isso! O
tal do avô índio era africano e Carlos Castaneda, um mulato escuro, parecido
com o Pelé.
Corro para o espelho, em busca de uma confirmação. Quando a imagem
parecida com o Pelé surgir, o meu sofrimento terminará.
Imploro a Castaneda que me deixe vê-lo, pelo menos uma vez, mas só
vejo as figuras de sempre. Vou ficando cada vez mais desesperada. As
lágrimas empanam a minha visão. Tudo fica cinza.
Então, o Cesar aparece! Vem sorrindo, o desgraçado, como se estivesse se
divertindo com o meu sofrimento.
Sinto um ódio intenso daquele monstro. Fora, assassino! Saia já daqui!
Começo a soluçar, mas ele continua rindo e rindo. Faz gestos que pedem
calma e quanto mais ele tenta me tranqüilizar, mais angustiada eu fico. Aos
poucos, ele desiste e vai desaparecendo devagar, sempre com aquele sorriso
malicioso nos lábios.
Não sei o que fazer. Pressinto que o Cesar não deixará Castaneda
aparecer, mas não posso desistir. Não tenho coragem de enfrentar a minha
cama e todos aqueles sonhos.
Penso em Jesus, na minha mãe, na minha avó e em todas as pessoas
mortas que poderiam me socorrer e, de repente, dou um grito:
- Alguém me ajude, pelo amor de Deus!
Então, no canto inferior direito do espelho, surge, de repente, um velho
índio. Aparenta ter mais de cem anos. A pele é toda coberta de rugas. Usa um
gorro preto enfiado até o meio da testa e me faz lembrar um velho grego que
conheci na ilha de Santorini.
A visão do índio me acalma. Rapidamente, minha ansiedade desaparece.
Como nunca consegui conversar com as figuras do espelho, permaneço em
silêncio, observando a sua imagem.
Apesar do excesso de rugas, seu rosto me transmite uma sensação de
beleza. De paz e amor. Sinto que tenho um amigo e fico grata àquele
velhinho.
Penso nele como o velho grego, mesmo sabendo que é outra pessoa. Me
pergunto como é que um homem tão simples conseguiu a proeza de me
encontrar em circunstâncias tão especiais e, pela primeira vez na vida, ouço a
voz de uma imagem no espelho:
- Eu não sou quem você está pensando... sou o Don Juan. Dentro da
minha cabeça, as vozes recomeçam a falar. Agora não são só duas, são
centenas. Dizem que sou um poço de vaidade. Um poço de egoísmo. Alguém
me ameaça. Outra ri. Não sei quem diz que sou indigna. Todo mundo berra
seus argumentos: Por que Don Juan viria falar justamente comigo? Quem eu
penso que sou? Não passo de uma idiota, uma merda de pessoa, um poço de
vaidade mesmo. Burra! Cretina! Devo estar ficando louca por acreditar numa
coisa dessas!
Com a cabeça em tumulto, não sei o que fazer. Quero obedecer às vozes,
mas alguma coisa me mantém parada na frente do espelho. É um ímã. A
figura do velhinho não é só simpática. É magnetizante.
Percebo que seus lábios se movem e tento escutar. As vozes não
permitem. Os lábios do velhinho continuam a se mover e sinto que estou
perdendo alguma coisa importante. Com raiva de tantas acusações, faço um
esforço para atravessar a cortina de som e, de repente, ouço uma voz
masculina, muito clara, calma e pausada:
- Não importa quem eu sou e sim o que tenho a dizer. O tumulto cessa
completamente. Enfim, consigo escutar:
- Este homem - a imagem do Cesar aparece e desaparece na minha frente
- este homem precisa de ajuda e só você pode ajudá-lo. Esta é a sua última
chance. Ele não sabe, mas precisa mais de você do que você dele. Ele está
preso às palavras de um velho índio e precisa descobrir a verdade. Por favor,
não deixe de ajudá-lo. Esta é a última oportunidade que ele tem!
Sinto que estou sendo sugada para dentro do espelho e perco
completamente a noção de tempo.
Quando o índio desapareceu, eu estava exausta. Minha cabeça voltou a
funcionar normalmente e, com ela, as velhas recriminações. Só a minha
vaidade doentia poderia me fazer acreditar que Don Juan apareceria para
mim... e ainda por cima pedindo que eu ajudasse o Cesar... Imagine se Don
Juan iria se preocupar com um traficante de cocaína! Melhor ir dormir e
esquecer toda essa bobagem.
Pela manhã, acordei com a sensação de ter passado a noite inteira
conversando com o velhinho. Disse a mim mesma que a minha fantasia tinha
saído dos limites e que eu precisava' me controlar. Mas, na noite seguinte,
mais uma vez, o velhinho apareceu. E veio na outra também. E na outra. E
em todas as noites daquela semana.
Todas as manhãs, eu despertava com uma quase lembrança. Lembrança
de um sonho estranho, onde um velhinho estranho dizia coisas estranhas
sobre o Cesar. Era uma sensação horrorosa que me levava sempre à mesma
conclusão: tinha alguma coisa errada comigo.
O espectro da esquizofrenia chegava cada vez mais perto!
Depois de duas semanas, cheguei à conclusão que estava muito doente e
decidi procurar um médico.
O TELEFONEMA
Até agora eu vos falei por parábolas, mas vem o tempo em que eu não vos
falarei já por parábolas mas abertamente.
Jesus

Com o auxílio da Medicina Antroposófica, recuperei lentamente as forças.


Não contei a ninguém o que tinha se passado, nem falei do Cesar.
Nunca mais pensei no velho índio. Às vezes me recordava da sua imagem
no espelho e de algumas frases soltas, mas achava que tudo era fantasia.
Loucura da minha cabeça.
Devagarinho, à custa de muito lutar, consegui empurrar para o alçapão da
memória não só as nossas conversas, como as minhas suspeitas, as fantasias e
o terror daqueles dias sombrios. Do Cesar, ficaram somente o sorriso terno, a
saudade e a certeza do tráfico de cocaína.
Tinha certeza que nunca mais o veria. Quando a saudade batia forte, eu
tentava uma ligação para o Peru, mas, depois de algumas tentativas vãs, deduzi
que ele devia ser casado e seria melhor esquecê-lo.
Em outubro, eu já podia ter momentos de calma desde que não pensasse
nele. Era uma espécie de só-dói-quando-eu-rio, longe da verdadeira
tranqüilidade, mas muito melhor do que eu estivera no passado.
Foi então que o Carlos Castañeda me telefonou!
***

Ulisses, meu amigo, me fazia uma visita, quando o telefone tocou. Não
cheguei a formular o pensamento, mas a imagem do
Cesar emergiu lá do fundo do alçapão, onde estivera aprisionada. Atendi o
telefone com voz rouca e o ruído de ligação internacional acelerou meu
coração: Era ele!
Não era. Um homem com sotaque estrangeiro, mas voz abafada, diferente
da possante voz do Cesar, perguntou por mim e quando me apresentei disse:
- Habla Carlos Castaneda.
- Quem?!!!
- Carlos Castaneda.
Não acreditei. Só podia ser trote... brincadeira de alguém...
- Carlos Castaneda?! - Minha garganta, sim, acreditou. A voz estava
estridente.
- Sim, eu mesmo.
Quem faria uma brincadeira destas?... As duas únicas pessoas que sabiam
da minha carta eram Ulisses e Raquel. Gente séria. Além do mais, Ulisses
estava comigo naquele momento e Raquel é uma senhora da idade da minha
mãe. Não. Nenhum dos dois seria tão maldoso.
- Carlos Castaneda, o escritor?!
- Bom - deu uma risadinha -, acho que você pode me considerar um
escritor.
Os pensamentos sumiram da minha cabeça e fiquei sem saber o que dizer.
Nem me lembrei de cumprimentá-lo. Foi ele que quebrou o silêncio:
- Eu vivo no deserto de Chihuahua, Ana... lá não tem água, luz, telefone
ou correio... - falava de forma tranqüila e pausada, como se estivesse dando
tempo para eu me recuperar. - Não recebo correspondência... as cartas são
enviadas para o meu Procurador e não para mim...
Eu queria dizer alguma coisa, nem que fosse um simples "sei, sei", mas
continuei muda.
- Acontece que eu precisei vir a Los Angeles... e quando estava na porta
do prédio encontrei a pessoa que levava a sua carta e a recebi em mãos...
entendi que era um augúrio e resolvi telefonar.
Parou de falar e esperou. Procurei alguma coisa para dizer, mas a minha
cabeça era um amontoado de vozes. Era como se eu estivesse numa sala cheia
de crianças barulhentas, sem forças para me fazer ouvir. Havia, também, uma
voz masculina, alta e forte, que me dizia ser aquela uma ligação internacional e
eu devia ser concisa. Fiquei mais ansiosa ainda.
Novamente, foi ele que salvou a situação. Perguntou a minha idade,
profissão, estado civil, as línguas que falo e quantos filhos tenho. Foram
perguntas fáceis de responder que me devolveram pelo menos um pouco de
calma. Quando ele se calou, falei a primeira coisa que me veio à cabeça:
- Aonde você nasceu?
- Sou brasileiro, Ana... nasci no Juqueri!!!
E soltou uma gargalhada tão divertida que desmentiu suas palavras. Só
podia ser mentira mesmo. Ao contrário do que muita gente pensa, Juqueri é
um manicômio, não uma cidade. É o hospital de loucos do Estado de São
Paulo, na cidade de Franco da Rocha.<2>
- E você nunca mais veio ao Brasil?
Não entendi sua resposta. Foi qualquer coisa a respeito de viajar muito.
Talvez não tivesse tido tempo. Continuei com perguntas pessoais:
- Quantos anos você tem?
- Muitos, Ana - deu uma risada curta Ho Ho Ho. - Muitos! Por alguma
razão inexplicável, a sua risada me assustou. Meu coração voltou a bater fora
do ritmo. Não consegui mais falar e desta vez ele não me ajudou. Ficou em
silêncio enquanto eu lutava contra a bruma que empastelava meus
pensamentos. Então, sem tomar qualquer decisão, ouvi minha voz fazer um
pedido:
- Castañeda, eu quero seguir o Caminho do Guerreiro! Recriminei-me
imediatamente pela pretensão e achei até que ia levar uma bronca. Não levei.
O silêncio me corroeu de ansiedade. Finalmente, com voz séria e pausada,
Castañeda respondeu:
- Você conseguiu que a sua carta chegasse às minhas mãos, Ana... -
pausa. - É uma mulher muito poderosa... - pensou mais um pouco e concluiu:
- Acabei de decidir: vou visitar você!
Corte. Um pano escuro caiu à minha frente e as vozes se calaram.
Esforcei-me para pensar e uma outra voz, desta vez feminina, apareceu, cheia
de adulações. Disse que eu devia convidar o Castañeda para se hospedar na
minha casa e assim matar meus amigos de inveja. Não parei para pensar no
que estava fazendo. Obedeci:
- Se você quiser, pode se hospedar na minha casa.
Silêncio novamente. Senti que ele percebera a razão do convite e, agora
sim, estava chocado. Pensei em pedir desculpas, mas não tive coragem.
Aguardei. Depois de outro intervalo interminável, ele deixou em aberto:
- Pode ser... eu telefono quando chegar.
- Quando será?
- Dentro dos próximos trinta dias.
- Até lá, você não quer me escrever uma carta?
- Não, Ana - soltou uma gargalhada gostosa. - Eu não gosto de escrever!
Novamente, a sua gargalhada me fez mal. Não era uma risada agressiva ou
maliciosa, mas me deixou desatinada. Minha voz atravessou a parede de
bruma que toldava meu raciocínio:
- Se você não vier ao Brasil... eu vou a Chihuahua.
- Pode vir, Ana... será bem-vinda.
Houve uma interferência muito forte e pensei que a linha tinha sido
cortada. Perguntei o que estava acontecendo e ele respondeu que eu não me
preocupasse. Pediu que eu anotasse o nome e endereço do tal Procurador e,
por fim, perguntou:
- Você quer saber mais alguma coisa?
Revirei minha cabeça à procura de alguma pergunta, mas não, Castañeda,
obrigada. Já sei tudo que queria.
- Tem certeza que não quer me perguntar mais nada?
A voz estava diferente. Parecia mais grave e mais possante. Senti uma
onda de medo. Respondi mais depressa do que gostaria:
- Quero sim. Preciso dos nomes dos seus livros, na ordem correta.
- Dos meus livros?!... - Havia um toque de surpresa na sua voz. - Você
tem certeza que é só isso que quer saber?
- Tenho, sim... Você está esperando que eu pergunte alguma coisa em
especial?
- Nada, Ana... - suspirou. - Deixa pra lá. Enumerou os livros, despediu-se
e desligou.(3)
***

Fiquei feliz e vaidosa, mas, no fundo, continuei duvidando. Não podia


acreditar que o Castañeda tivesse realmente me telefonado.
Minhas dúvidas só desapareceram no dia seguinte, quando descobri o
motivo da interferência na linha: um terremoto quase destruíra a cidade de
Los Angeles exatamente durante a nossa conversa.
Só então senti o impacto do telefonema. A frase "você é muito poderosa"
ficou ecoando na minha cabeça, como uma ameaça!
SEGUNDA VISITA

Outubro de 1989

Tudo é vaidade neste mundo vão. Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada. E
mal desponta em nós a madrugada, Vem logo a noite nos encher o coração.
Até o amor nos mente esta canção Que o nosso peito ri à gargalhada, Flor
que é nascida e logo desfolhada, Pétalas que se pisam pelo chão!...
Beijos de amor! Para quê? Tristes vaidades! Sonhos que logo são
realidades, Que nos deixam a alma como morta!
Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!...
Florbela Espanca

A"VERDADE"

En este mundo de dolor Nada es verdad ni es mentira Todo está en el color Del cristal
con que se mira.

Francisco Campoamor

Na 3ª feira seguinte, dia 24 de outubro, novamente às oito e meia da noite,


a cena se repetiu. Ulisses me visitava e discutíamos sobre a conversa com
Castaneda quando o telefone tocou.
- Atende logo que deve ser ele de novo - disse meu amigo. Corri para
atender, pronta para ouvir a voz do meu ídolo, mas levei outro susto: era o
Cesar! Estava na cidade e queria me ver.
De uma só vez, todas as suspeitas pularam do alçapão. Diziam que não
podia ser apenas coincidência que o Cesar viesse ao Brasil exatamente no
período que o Castaneda dissera que viria.
Mas as vozes... ah! Aquelas malditas vozes argumentavam que eu já
conhecia o Cesar antes de enviar a carta para o Castaneda. Que eu estava
fantasiando de novo. Que se não tomasse cuidado acabaria internada num
manicômio.
O buraco negro voltou a me ameaçar.
Enquanto eu discutia comigo mesma, ele falou sem parar. Meus ouvidos
registravam a algaravia, mas não consegui entender nem uma palavra. Então,
de repente, me dei conta que ele estava quieto, esperando uma resposta.
Precisei pedir que repetisse:
- Estou dizendo que o meu hotel está lotado e eu queria saber se você
pode me hospedar.
É ele! Gritavam as suspeitas. Você se propôs a hospedá-lo!...
Não é, gritavam as vozes da razão, você está sendo presunçosa!... Minha
cabeça parecia uma sala de leilão com as partes gritando cada vez mais alto.
Para ganhar tempo, comecei a inventar uma longa desculpa que incluía
Claudia e toda a minha família, mas ele me interrompeu com voz ríspida:
- Eu preciso saber agora!
Venceu a razão: era coincidência, mesmo. Castaneda não seria tão grosso
assim!
Imediatamente, esqueci as suspeitas e a raiva tomou conta de mim. Esse
cara era muito ousado. Ter coragem de pedir hospedagem depois de tudo que
aconteceu!
- Escuta, você desaparece, não responde minhas cartas, não telefona e
chega aqui querendo se hospedar na minha casa? Aqui não é hotel!
- Ah, mi amor, eu não gosto de escrever e onde eu estava não tinha
telefone.
Titubeei. Havia ou não uma nova coincidência? Incapaz de decidir, pensei,
em uma fração de segundo, que não correria o risco de reatar uma relação
afetiva com um possível criminoso, mas antes de afastá-lo completamente
precisava ter certeza que ele não era o Castaneda. Para manter o meio-termo,
convidei-o para almoçar, no dia seguinte.
- Pode ser... eu telefono amanhã. A ansiedade não me deixou dormir.
***

Na 4a feira, eu estava pisando em brasas. Já tinha conseguido empurrar


todas as suspeitas para o alçapão outra vez e não pensava mais nele como
Castaneda, mas, assim mesmo, ardia de vontade de vê-lo. Minha razão dizia
que eu não devia recomeçar o namoro. Meu corpo sabia que não teria forças
para recusar.
Passei a manhã ao lado do telefone, esperando uma ligação que não veio e
consumi a minha tarde com medo que ele estivesse ofendido. Por fim, às onze
da noite, desisti de esperar e, jurando que nunca mais o veria, fui me deitar.
Já passava da meia-noite quando ele telefonou. Contou uma longa história
de como tinha ficado preso por motivos de trabalho e perguntou se podia vir
para a minha casa. Não permiti que a minha voz revelasse meu estado
emocional e respondi que não seria possível. Já era muito tarde e eu estava
dormindo.
- Não faz mal, mi amor - a voz melosa -, nós podemos dormir juntos.
- Não, Cesar... me telefona amanhã.
- Você está chateada comigo? - Não esperou a minha resposta. - Eu
estava trabalhando, mi amor... juro!
Continuou tentando me convencer. Chegou até a jurar que não havia
mulheres na tal da reunião. E, antes que eu explicasse que não era uma
questão de ciúmes, chamou um amigo para confirmar.
- Dona Ana - disse o amigo -, é verdade. Não tinha nenhuma mulher...
nós estávamos na feira do Anhembi... Só homens. Pode acreditar!
- Eu sei, não se preocupe, é que eu estou com sono - continuei delicada,
mas firme. - Por favor, acompanhe o Cesar até o hotel... ele é estrangeiro,
você sabe.
- Pode deixar. Vou passar o telefone para ele... mas, olha, a gente estava
trabalhando mesmo!
Cesar voltou ao telefone, mas não foi possível conversar. Estávamos os
dois irritados. Ele, porque eu não cedera. Eu, porque ele me obrigara a falar
com o tal amigo.
- Que coisa mais ridícula, Cesar!... Você não precisava fazer um papel tão
feio!
Discutimos mais um pouco e ele acabou batendo o telefone na minha
cara. Não me importei e adormeci contente com o meu auto-controle.
***

Passamos a 5a feira medindo forças. Nenhum dos dois procurou o outro.


Na 6a feira, ele cedeu:
- Não sei nem por que estou telefonando. - Parecia muito irado. - Tinha
jurado não procurar você, nunca mais!
Fiquei tão contente ao perceber que ele também estivera esperando o meu
telefonema que toda a raiva desapareceu. Continuei discutindo, mas a minha
resistência já estava quebrada. Mais calmo, ele propôs um encontro para
aquela noite. Impus uma condição:
- Você precisa ser honesto comigo quanto ao seu trabalho.
- Por quê?
- Para eu poder decidir se continuo com você ou não.
- Você está certa, mi amor... - suspirou. - Está bem, eu prometo que
conto tudo.
Alguma coisa se revolveu na minha mente e fiz um pedido que não
pretendia e não sabia por que estava fazendo:
- Você precisa vir sem alianças, Cesar... por causa da Claudia.
- Ah, mi amor - a voz cheia de arrependimento -, eu não pensei neste
problema... me desculpe... Prometo que vou tirar... nem que eu tenha que
cortar o dedo.
Dei risada do exagero e desliguei o telefone satisfeita: o homem estava
apaixonado mesmo.
***

Chegou às 9 da noite, sorridente e sem alianças. Parecia mais frágil e mais


jovem do que eu me lembrava. Mais violento e mais sujo e mais humilde
também. Não se importou quando fugi de seu abraço e passou pela porta
pedindo:
- Me faz uma massagem?... Estou muito tenso.
- Você não quer tomar um banho primeiro? - perguntei "boazinha". -
Faz a massagem ficar melhor.
- Ah não, mi amor... - pediu com ar infantil. - Você sabe que eu não
gosto!
Bastou isso para eu ficar irritada. Sem vontade de discutir, apontei o
banheiro e ordenei: Já p'ro banho! Cabisbaixo, ele ainda tentou me convencer,
mas acabou obedecendo. Mamãe Ana é fogo!
Quando fiquei sozinha, fiz algo que não planejara e nunca acreditei que
seria capaz: vasculhei o bolso do seu paletó!
Procurei pelo passaporte ou documento de identidade, mas só encontrei
alguns papéis rabiscados e uma carteirinha obviamente falsa, com o nome de
Cesar Pagliardi.
Estava lendo a bendita carteirinha quando ouvi seus passos de volta. Com
o coração aos saltos, devolvi os papéis rapidamente para o bolso e tentei
assumir uma postura tranqüila. Foi em vão. Quando me sentei ao seu lado no
chão, tremia dos pés à cabeça.
Bem que eu tentei fazer a massagem, mas a ansiedade era tanta que só de
tocar o seu corpo fiquei enjoada. Achei que era por causa da carteirinha.
- Desculpe, Cesar... mas não estou me sentindo bem. Ficou
imediatamente em pé, dizendo que não tinha importância e, antes que eu
conseguisse me levantar, já estava sentado no seu lugar predileto.
- Fale-me de você, mi amor, como passou estes dois meses?
- Não passei muito bem, não - confessei. - Cheguei a ficar doente de
saudade de você.
Estava pronta para contar em detalhes todo o meu sofrimento ou pelo
menos a parte que eu conseguia lembrar, mas, em lugar de me abraçar, como
eu esperava, perguntou com voz casual:
- Sim? E que mais?
Fiquei tão chocada com a insensibilidade daquele homem que mudei de
assunto.
- Tive uma experiência estranha, na frente do espelho, logo depois que
você foi embora.
- É mesmo? Conte-me tudo, mi amor.
Eu queria contar da conversa com o velhinho, porém, sem que eu
soubesse o porquê, antes de mencionar o velho índio, preferi relatar a cena
dos três homens perigosos.
- Por acaso, você passou por um perigo muito grande logo que saiu
daqui?
- Eu estou sempre correndo perigo, mi amor... mas por que você está
perguntando?
- Porque uma noite, eu senti...
Ele pareceu muito interessado. Pediu que eu descrevesse cada um dos
facínoras e apertou os lábios quando mencionei o homem de olhos de água.
Descreveu o amigo alto, antes de mim, e por fim concluiu, exaltado:
- Você me salvou, mi amor! - disse com voz exagerada. -Eu estava na
Bolívia e fui traído! - Parecia um ator de má qualidade. - A única pessoa que
podia me salvar era aquele homem, mas ele devia estar a quilômetros de
distância... - suspirou forte -Sabe que depois ele me contou que não sabia por
que tinha resolvido mudar seus planos?... - Me abraçou com exagero e repetiu
teatralmente: - Você me salvou!
Todo aquele exagero só podia ter um objetivo: escapar da nossa conversa.
Ah... ele ia ver só:
- Chega, Cesar... - Ele parou de rir imediatamente. - Quero saber qual é o
seu trabalho.
- Agora não, mi amor... vamos deixar para mais tarde...
- Agora!
- Seria perigoso, mi amor... muito perigoso.
- Não importa... mais perigoso seria não saber.
Pensei que tinha lavrado um tento e que finalmente ele me confessaria a
verdade, mas ele perguntou com ar truculento:
- O que você acha que eu faço?
Fiquei encurralada. Todas as evidências levavam a crer que ele era
traficante de cocaína, mas como fazer uma acusação destas?
Cheguei à conclusão que a melhor forma seria inventar uma bobagem
qualquer e obrigá-lo a me corrigir. Aí, então, ele teria que contar a verdade.
Porém - a minha cabeça pensava a mil por hora -, eu tinha que escolher
uma profissão perigosa, senão ele acabaria mentindo outra vez. Uma profissão
até pior que traficante de cocaína. Prostituto? Cafetão?... Já sei:
- Assassino profissional.
A sua expressão demonstrou tal surpresa que por um instante achei que ia
escutar uma gargalhada. Mas não. Seu rosto foi endurecendo devagar até
parecer uma escultura de pedra e no lugar da negativa que eu esperava, ouvi
uma pergunta severa:
- E se for verdade?
Lutei contra a bruma que ameaçou toldar meus pensamentos. Ele só
podia estar me testando, claro. Era pouco provável que eu acertasse por acaso.
Comecei a dar risada, mas ele me interrompeu com a expressão muito séria:
- E então?
Eu não podia deixar o medo tomar conta de mim. Não podia mais uma
vez perder o controle da situação. Decidi entrar na brincadeira e fingir que
acreditava. Encarei-o sorridente e desafiadora:
- Fico com você do mesmo jeito.
Captei um olhar confuso de quem não sabe o que é que está acontecendo
e achei que ele tinha percebido a minha mentira. Tentei convencê-lo:
- Nunca vamos nos separar.
Durante alguns segundos, seus olhos continuaram perplexos e seu corpo,
tenso. De repente, seu olhar se iluminou e ele sorriu, completamente relaxado.
Achei que tinha conseguido enganá-lo e tive a ousadia de passar-lhe uma
reprimenda:
- Você não devia duvidar assim do meu amor, Cesar.
- Que tolo eu sou, mi amor - concordou, rindo de felicidade. - Eu não
devia desconfiar de você!... - Riu mais ainda. - Mas como é que eu podia
imaginar? - Os olhos ficaram molhados. - Eu nunca pensei... - Soltou uma
gargalhada. - Você... você... você tem toda razão... - Limpou uma lágrima do
rosto. - Eu não devia duvidar do seu amor!
Havia alguma coisa estranha no ar... estava lá, eu podia sentir! Toda aquela
alegria... todo aquele escarcéu... eu quase sabia o que era... Tentei me lembrar,
mas, de novo, a bruma... o túnel... a imagem do Cesar, fora de foco... seus
lábios se movendo devagar e o esforço para escutar o que ele dizia:
- Então amanhã vou trazer minhas coisas para cá. - Estava muito sério. -
Venho morar com você.
Não consegui entender como tínhamos chegado àquela conclusão, mas
concordei. Correspondi ao seu abraço com a sensação de estar sendo lograda.
***

Antes de dormir, ele perguntou se eu fizera alguma bruxaria para trazê-lo


de volta. Dei risada: Claro que não! Ele pareceu ofendido:
- Não queria que eu voltasse?
Respondi confiante que sim, queria, mas que ele voltasse porque me
amava e não por bruxaria. Ao que ele, parecendo um pouco envergonhado,
confessou com ar compungido:
- Eu fiz.
Fiquei tão emocionada quanto curiosa e quis saber como tinha sido o
feitiço. Descreveu primeiro uma complicadíssima cerimônia Vudu, com
bonecos, cabeleiras e agulhas e terminou confessando que mais tarde se
arrependera. Perguntei por que e seu rosto se tornou muito sério:
- Porque eu não conseguia esquecer você.
Não se importou com a minha risada e continuou. Voltara ao bruxo, mas
o feitiço era irrevogável. Só havia uma forma de livrá-lo da minha lembrança.
Claro que eu quis saber qual era. Abaixou a cabeça e disse em voz baixa:
- Matando você.
Senti meu corpo ficar gelado e não consegui mais pensar. Estava quase
entrando em pânico quando ele me abraçou, sorrindo:
- Você não precisa se preocupar, mi amor, eu nunca lhe faria mal.
Adormeci tranqüila, mas acordei no meio da noite. Dei de cara com seu
rosto, olhando fixamente para mim. Seu olhar era uma mistura de amor, medo
e vulnerabilidade. To.ita de sono, perguntei o que se passava e ouvi-o dizer
que não podia perder o meu amor. Disse que não se preocupasse com
bobagens e aconcheguei-o no meu peito.
O ENVELOPE PARDO
Ah... o que este cara tem me consumido a mim e a tudo que eu quis com
seus olhinhos infantis como os olhos de um bandido.
Caetano Veloso

Pela manhã, meu corpo estava dolorido. Depois que o Cesar saiu para
buscar suas roupas, voltei a dormir, mas não descansei. Na confusão que eu
própria criara, meti no alçapão não somente as suspeitas, mas a minha
capacidade de raciocínio e a minha intuição. Sobraram somente o amor e a
angústia.
Ao meio-dia ele voltou mais contente ainda, trazendo uma maleta velha e
um envelope pardo. Com expressão de cumplicidade no rosto e na voz, pediu:
- Guarda isso para mim - e frisou: - Longe da Claudia. Meu estômago
reconheceu o conteúdo antes da minha razão.
Fiquei enjoada. Tomei, então, o envelope entre os dedos e percebi que era
uma arma. Levei um susto tão grande que quase a deixei cair no chão.
- O que é isso? - Minha voz estava rouca. - Um revólver?
Ele assentiu com a cabeça e, fazendo sinal de silêncio, apontou com o
queixo para Claudia. Eu queria perguntar para que servia aquela arma, mas a
resposta era óbvia: "para trabalhar". Senti a cabeça girar e, por um momento,
quase acreditei. Mas o pânico que sobreveio foi tão forte que voltei à minha
abençoada incredulidade. Fingindo que estava curiosa, pedi com voz de
criança sapeca:
- Posso ver? Eu nunca vi um revólver!
E dando pulinhos de alegria tentei abrir o envelope, mas ele foi mais
rápido. Tirou-o das minhas mãos e o levou para o quarto.
***

Enquanto rememoro a habilidade com que ele me conduziu para a


armadilha, percebo que se eu tivesse escolhido a profissão de traficante de
cocaína, em vez do pacote em forma de arma, ele teria trazido um saquinho
de talco.
Agora, parece divertido, mas naquele momento foi atroz!
***

- Estou morto de fome, mi amor... e com vontade de comer uma carne


bem sangrenta.
Como pude esquecer que ele preferia legumes e verduras? Aquela carne
sangrenta soou tão ameaçadora que preferi não pensar no assunto. Tomei o
braço que ele me oferecia e fomos até a churrascaria mais próxima.
Fui caminhando ao seu lado, com a cabeça cheia de bruma e a sensação de
estar vivendo um filme. A Rosa Púrpura do Cairo em plena cidade de São
Paulo. Nada era real. Nada, além do meu imenso amor por ele. Meu Deus,
como eu amava aquele homem! Amava o seu sorriso cândido, a pele morena,
a ternura do seu olhar, a força do seu corpo, a beleza das suas mãos, o tom
grave da sua voz. Adorava aquela risada sincopada: HO HO HO.
Escolhemos uma mesa na varanda. A bruma não empanou a felicidade
que senti ao vê-lo sentado à minha frente, sorridente e iluminado. Meu
coração quase se estilhaçou quando, com a expressão mais feliz que jamais vi
no rosto de um homem, ele estendeu as mãos sobre a mesa, tomou as minhas
e disse:
- Tive tanto medo, mi amor... Pensei que você me abandonaria se
soubesse a verdade.
Sorri e renovei minhas juras de amor. A comida chegou e a voracidade
com que ele devorou aquela carne sangrenta foi assustadora e levemente
divertida. Conversamos muito e contei do tele-fonema do Carlos Castaneda:
- Ele telefonou para você?!... - Fez um muxoxo. - Puxa, que importância.
Seu sorriso de mofa me desestimulou. Sua admiração fingida deixou claro
que, para ele, Carlos Castaneda era tão importante quanto o pipoqueiro da
esquina. Sequer me lembrei que um dia eu confundira os dois.
Antes de sair, o assassino tomou novamente as minhas mãos e pediu
compreensão:
- Se eu precisar fazer mal a algum amigo seu, mi amor, não poderei
evitar.
- Que amigos? - perguntei sem entender.
- Seus amigos comunistas, Ana... eu trabalho para a CIA! Não era filme,
era livro. Nós dois éramos personagens de
"Nosso Homem em Havana" .
Saí do restaurante completamente aparvalhada. A ternura e a alegria do
Cesar eram tão genuínas que eu não podia duvidar: ele me amava, como eu
nunca fora amada antes!
***

Durante toda a minha vida, o amor fora a minha única crença, a única
esperança de felicidade. A certeza que o verdadeiro AMOR, com todas as
letras maiúsculas, me redimiria de todos os pecados e curaria todos os meus
males sustentara minha vontade de viver, nos momentos sombrios, e enchera
meus dias de esperança.
Agora eu tinha o amor com que sempre sonhara, mas, em lugar da
felicidade que julgara sentir, estava à beira do colapso. Para sobreviver eu
precisava duvidar. E duvidava.
Às vezes, quando ele estava distraído, seu rosto se tornava pétreo e eu
sentia um terror surdo da sua força, da firmeza das suas decisões, do seu
poder sobre mim. Porém, bastava eu me aproximar para que aquele sorriso
maravilhoso iluminasse nós dois:
- Diz que me ama.
- Eu te amo, Cesar.
- Que bom, Ana! Eu preciso muito do seu amor.
Não. Não era a sua profissão que me afligia, era o engodo, a sensação de
que havia um propósito escondido para todo aquele teatro. O medo daquela
brincadeira que não tinha fim!
No fim da tarde, desatei num choro sentido. Com toda a ternura do
mundo, ele me aconchegou no colo e me acarinhou docemente. Se pudesse,
me diziam seus olhos, ele evitaria o meu sofrimento.
- Por que você não acaba com isso, Cesar?
- Não posso, mi amor.
- Todo este sofrimento. Para quê?
- Estou fazendo por nós dois, mi amor... por nós dois!
Aquela foi a noite mais emocionante da minha vida. Lembro da ternura
com que ele me conduziu para o quarto e da delicadeza com que me possuiu.
Lembro também, e esta lembrança até hoje me enternece, quando ele, sem
que eu pedisse, se permitiu um orgasmo. Não foi um orgasmo comum. Foi
um êxtase. Um prazer tão intenso que todo seu corpo ficou cheio de luz. E
assim, luminoso e extasiado, ele se aconchegou no meu peito como uma
criança e adormeceu em silêncio.
***

Mas, no dia seguinte, ainda com a boca cheia de beijos, ele acordou
pedindo uma informação:
- Mi amor, você sabe onde eu posso comprar munição para o meu
revólver?
Não permiti que a minha voz se alterasse quando confessei que não, não
sabia. Não tinha a menor idéia. Com um suspiro profundo ele comentou que
então teria que usar a faca. Não gostava de armas brancas porque faziam
muita sujeira, mas se não tivesse outra alternativa...
Lutando para manter intacta a minha incredulidade perguntei, sorrindo,
como ele usaria a faca. A mão levantada na minha direção, apunhalou o ar
num gesto rápido e violento. Procurava acertar no coração ou na axila para
que a pessoa sofresse o mínimo possível... Uma vez precisara esfaquear um
homem mais de vinte vezes - balançou a cabeça tristemente e apoiou-se no
meu ombro com ar sofredor. Fora uma experiência terrível!... Mas, antes que
eu pudesse metabolizar as suas palavras, antes mesmo que eu pudesse duvidar
delas, murmurou:
- Eu preciso muito do seu amor, Ana... você me ama?
***

Foram horas de ternura e desespero, de medo e paixão. Eu preciso de


você, Ana. Queria ser um homem melhor para merecer o seu amor... Uma vez
o revólver não funcionou e precisei quebrar o pescoço da vítima... você não
imagina como sofri... você me ama?
Sim. Eu o amava. Amava com desespero e dor, mas amava. Não podia
viver sem ele. Abraçamo-nos cheios de ansiedade e fizemos amor como se
todo o bando de Al Capone estivesse esperando atrás da porta.
A LIÇÃO

Hay que endurecerse pero sin jamás perder la ternura.

Che Guevara

- Você me ensina a limpar revólver?


Eram 6 horas da tarde do domingo e eu me sentia física e
emocionalmente exausta. Continuava achando que tudo não passava de farsa,
mas a bruma tinha se tornado tão densa que eu não sabia mais como sair
daquela situação absurda. Não percebi que quem me obrigava a manter a farsa
era o medo de que tudo fosse verdade.
- Você me ensina a limpar revólver?
Ele pareceu muito espantado com o meu pedido. Com os olhos franzidos,
como quem não acredita no que está ouvindo, pediu que eu me explicasse:
- Para que você quer aprender a limpar revólver?
- Para ser uma boa companheira. - O show não podia parar.
- Preciso aprender a cuidar de suas coisas. Você me ensina?
- Você quer aprender... - Balançou a cabeça com ar de absoluta
incredulidade. - Ensino sim, Ana... vou ensinar muitas coisas...
- Sua expressão tornou-se dura. - Você nunca mais vai esquecer a lição!
Senti um arrepio de medo. Aquela resposta estava muito próxima de uma
ameaça... ou não? Tentei entender suas palavras, mas o meu raciocínio estava
mais empanado do que nunca e tudo que pude perceber foi seu rosto terno e
apaixonado como sempre.
Como uma criança desamparada, pedi que ele me abraçasse e deitei a
cabeça no seu ombro. Enquanto me aconchegava, seu olhar se esgazeou e
senti que ele tomara uma decisão muito violenta. Perguntei do que se tratava,
mas era assunto de trabalho.
Às 9 da noite, ele começou a lição: pousou o braço nos meus ombros e,
com sorrisos e tapinhas amistosos, informou que precisava dormir cedo, pois
no dia seguinte teria que trabalhar. Satisfeita como uma esposa em lua-de-mel,
sorri e perguntei qual era o seu compromisso. Com a fisionomia subitamente
endurecida ele respondeu que eu sabia muito bem qual era o seu tipo de
"trabalho".
Deu uma ênfase tão especial à palavra trabalho, que meu estômago se
contraiu. Tive a sensação de que alguma coisa se rasgava na minha frente e,
naquele momento, tive certeza de que ele era mesmo um assassino
profissional!
Em estado de choque, levantei-me cambaleando e fui com ele até o
quarto. Não fui capaz de me deitar e fiquei paralisada ao lado da cama,
tentando recuperar as dúvidas. Lentamente, ele tirou a roupa, entrou na cama,
se cobriu e só então percebeu que eu estava lá. Olhou com estranheza para
mim e perguntou solícito:
- Você está se sentindo mal? - Depois sorriu com ternura e falou
docemente: - Vem se deitar, vem? Eu cuido de você.
Eu queria aceitar. Queria me convencer que tudo era farsa e me deitar ao
seu lado, mas minhas pernas não me obedeceram. Sentindo que estava pálida
e com vontade de chorar, balbuciei:
- O seu trabalho é no Peru, não é?
Ele não pareceu perceber o meu estado. Sorrindo, explicou pacientemente
que podia trabalhar em qualquer lugar, bastava que tivesse um contrato.
Depois, alisou meu travesseiro e, com voz carinhosa, pediu que eu me deitasse
ao seu lado.
A palavra contrato ficou ressoando dentro da minha cabeça como uma
bomba-relógio. As lágrimas explodiram.
- O que está acontecendo, mi amor!
Balancei a cabeça chorando, incapaz de responder e ele pareceu muito
confuso. De repente, deu um salto e sentou-se na cama, com a expressão de
quem acabou de fazer uma terrível descoberta:
- Ana... - exclamou com voz consternada. - Você disse que me aceitava...
estava mentindo para mim?
Senti uma raiva imensa e quis gritar que nós dois estávamos mentindo...
mas já não tinha certeza de nada. Murmurei uma desculpa:
- É que eu pensei que seu trabalho fosse só no Peru! Parecendo aliviado,
ele se recostou outra vez e informou com voz tranqüila que viera ao Brasil
para trabalhar. Amanhã mesmo, executaria o que fora combinado.
Com a cabeça explodindo de pensamentos conflitantes, lembrei que
estávamos às vésperas das eleições para Presidente e que o Cesar trabalhava
para a CIA. Numa fração de segundo, imaginei as manchetes de jornal
contando o assassinato de Lula, o povo exigindo justiça e a polícia chegando à
minha casa.
Lutei contra a onda de pânico que me invadiu. Gritei que ele não tinha o
direito de se meter na política do meu país, mas ele deu de ombros e
respondeu com um trejeito de desprezo:
- Que me interessa a política, Ana... eu preciso trabalhar! A raiva me deu
uma espécie de segurança e tentei manter a discussão no âmbito político.
Comecei a falar da terrível ditadura que assolara o Brasil nos últimos vinte e
cinco anos, mas ele me interrompeu, aos gritos:
- Que me importa o que acontece com o Brasil, PORRA!... eu quero é
dinheiro!... - Fez um visível esforço para se controlar e continuou com voz
enjoativa: - Eu gosto das coisas boas da vida, Ana. E as coisas boas custam
caro, sabia? - Deu um sorriso asqueroso. - Eu não posso passar a minha vida
inteira fechado dentro de um escritório!
O pânico ergueu-se como uma onda de maremoto. Lutando
desesperadamente para não me afogar, fervi minha cabeça à procura de uma
saída. De repente, encontrei a solução: Eu pagaria a mesma quantia para ele
não matar ninguém. Claro! Era uma solução formidável.
Perguntei quanto ele ganharia por aquele "contrato" e a resposta veio num
tom puramente profissional:
- É um contrato de dez mil dólares.
Eu estava tão desesperada que imaginei um cofre abarrotado de notas de
dólares. Respirei fundo e procurei manter o mesmo tom profissional ao fazer
a minha oferta:
- Eu pago os dez mil dólares para você desistir.
Por uma fração de segundo, ele pareceu surpreso, talvez até encurralado.
Sentou-se na cama e girou os olhos ao redor do meu corpo, como se estivesse
tentando descobrir se eu falava a verdade. De repente, a imagem do cofre
abarrotado desapareceu e percebi que se ele aceitasse eu não teria como
cumprir o prometido.
- Você não tem essa grana, Ana... - disse com um muxoxo de desprezo. -
Está mentindo... - E voltou a se deitar.
Tentei argumentar que eu podia vender o carro, a casa da praia ou as
minha jóias, mas ele não pareceu convencido. Utilizei meu último argumento:
- Eu tenho crédito, Cesar, posso pedir dinheiro emprestado no banco.
A sua reação foi de uma violência incrível. Deu um salto e ficou de quatro,
como um leão enjaulado, enquanto, com o rosto tingido de vermelho, gritava
com toda a força dos seus pulmões:
- PUTA QUE PARIU!!! - Parecia que ia saltar sobre mim. -VOCÊ
PENSA QUE EU SOU HOMEM DE RECEBER DINHEIRO DE
MULHER?!!... - Bateu com força no peito. - EU SOU MACHO,
ENTENDEU BEM?... - Levantou a cabeça orgulhosamente.
- NA MINHA CASA QUEM PAGA AS CONTAS SOU EU!
O absurdo da situação embaralhou de vez meu raciocínio. Matar não era
vergonhoso, receber dinheiro de mulher, sim. Era ridículo!... Não, não podia
ser verdade. Ele estava fazendo aquilo por pura maldade. Por que estava
sendo tão cruel? Podia fingir pelo menos. Tentar me enganar. Dizer que tinha
desistido... mas, não, ele estava me obrigando a sofrer. Perguntei, chorando:
- Por que você está fazendo isso comigo, Cesar, por quê?
- Não estou fazendo nada, Ana... eu sou o que sou... você queria que eu
mentisse?
Era isso! Sem perceber, ele mesmo me dera a solução: eu não queria mais
saber a verdade! Informaria que ele podia fazer o que quisesse, desde que não
me envolvesse. Eu o amaria e o aceitaria sem perguntas e, principalmente, sem
respostas.
Com os olhos grudados em mim, ele parecia acompanhar todos os meus
pensamentos. Porém, antes que eu conseguisse verbalizar a minha decisão,
suspirou e completou com ar desiludido:
- Eu confiei em você, Ana... confiei que você me aceitaria, amaria e seria
discreta... agora... - Balançou a cabeça tristemente.
- Não sei, não.
Senti um soco no estômago. De repente, o chão se abriu e percebi que
havia uma ameaça implícita nas suas palavras. Eu sabia demais! Fora burra o
suficiente para pedir a verdade e agora representava um perigo para ele...
Lembrei-me que na sexta-feira eu tinha acordado no meio da noite e dado
de cara com seu rosto desperto e angustiado... Era isso!... ele ia esperar que eu
dormisse e então... não, eu estava exagerando... bastava mostrar que ele não
corria perigo... fingir que ainda o amava, só aquela noite... pela manhã eu o
mandaria embora:
- Não precisa ter medo de mim, Cesar... eu te amo!
Não o convenci. Com os olhos chispando violência e o rosto cheio de
desprezo, ele gritou com voz cortante:
- Não?! - Apontou o dedo, acusador. - Olha o seu estado, mulher!
As lágrimas toldaram a minha visão. Numa tentativa desesperada, jurei
que nunca o trairia. Sem se deixar convencer, ele continuou balançando a
cabeça de um lado para o outro... de um lado para o outro... Aquele
movimento era a minha condenação. Eu estava perdida!
Lutei contra o torpor que tomou conta de mim e, de algum lugar, brotou a
percepção que ele não me ameaçara de verdade. Não dissera que pretendia me
matar. Eu é que estava exagerando, como sempre. Senti meu corpo começar a
relaxar e minha mente se tornar mais clara.
Foi então que ele deu o golpe de misericórdia: Com os olhos postos em
mim e a voz fria como uma faca, concluiu:
- Eu não tenho outra saída, Ana... - suspirou. - Vou ter que acabar com
você!
O choque foi tão grande que não consegui mais pensar. Não procurei
fugir ou sair do quarto. Não gritei nem pedi socorro. Fiquei paralisada. As
imagens desapareceram da minha frente. Tive a sensação de estar
atravessando uma cortina de gelo e percebi, abismada, que não sentia mais
medo.
Esperei pelo pânico retardado. Não veio. Procurei um grito de pavor. Não
havia. Lágrimas? Meus olhos estavam secos. Tudo que eu consegui sentir foi
um enorme cansaço e uma total indiferença pelo que estava para me
acontecer.
Devagar, sem pensar e sem dizer uma palavra, troquei de roupa e me
deitei ao seu lado. Sua mão segurou a minha com força, num gesto que eu não
sabia se era de apoio ou de ameaça, mas que eu não me preocupei em
descobrir. Dormi profundamente.
***

Pela manhã despertei aturdida, mas aliviada. Tinha a sensação de ter


escapado de um grande perigo e meu único pensamento, minha única
preocupação, era dar o fora naquele criminoso sem correr risco de vida.
Passei o dia inteiro elaborando um plano e, quando ele telefonou no fim
da tarde, expliquei que o amava muito, mas não tinha forças para viver ao seu
lado.
- Não precisa se preocupar, Cesar... comigo o seu segredo está bem
guardado.
- Ai, mi amor... - reclamou com voz chorosa. - Que difícil vai ser viver
sem você!
- Para mim também, meu querido... Você é e sempre será o grande amor
da minha vida... o problema é que não tenho estrutura para viver assim.
- Você tem razão, mi amor. Sou um homem muito violento e
autodestrutivo - suspirou. - Mas não se preocupe... Vou desaparecer para
sempre... Será melhor para você.
- Muda de vida, Cesar... - implorei chorando. - Se você deixar esta vida,
nós poderemos ficar juntos!
- E muito tarde, mi amor... eu já não tenho mais tempo... -e,
aproveitando-se do meu momento de fraqueza, emendou: - Eu queria fazer
um último pedido antes de me afastar para sempre.
- Qual?
- Queria ver você pela última vez... - implorou com voz doce. - Posso?...
Não precisa ser na sua casa.
Senti um calafrio de medo. E se ele não tivesse desistido de me matar? E
se ficasse de tocaia me esperando na esquina e quando eu chegasse... Não!
- Seria muito doloroso, meu amor... é melhor a gente se
despedir por telefone mesmo.
Sua resposta foi acompanhada de um suspiro longo e sofrido. Sim, eu
tinha razão... seria mais doloroso ainda...
- Eu nunca vou esquecer você, Ana... nunca! Você foi a mulher mais
importante da minha vida. Adeus.
Desliguei o telefone e ouvi um estalo seco na base do meu pescoço. Uma
luz clara iluminou o ambiente e descobri, surpresa, que o dia estava lindo.
INTERMEZZO

As três fontes do sofrimento humano são: a Ignorância, o Apego e a


Aversão.
Buda

Passei os dias seguintes numa espécie de limbo. Não conseguia sofrer ou


chorar. Não estava feliz ou contente, nem triste ou desiludida. Estava morta.
Minha única esperança era a chegada de Castaneda.
Castaneda! Só ele poderia provocar uma mudança tão drástica na minha
vida que todo o passado, incluindo o Cesar, perderia a importância. Só ele
faria de mim uma outra pessoa. Calma. Tranqüila. Poderosa.
Novembro terminou e Castaneda não veio. Aceitei, então, um novo
emprego e tentei fazer outro grupo de amigos. Não consegui. Alguma coisa
estava quebrada dentro de mim. Eu podia rir e brincar com as pessoas, mas
não conseguia me aproximar de verdade. Havia uma barreira entre eu e o
resto do mundo. Uma barreira que atendia pelo nome de Cesar.
Não era possível esquecê-lo. Bastava um momento de descuido para sua
imagem calma e sorridente aparecer à minha direita, mexendo os lábios sem
som, como se estivesse dentro de uma redoma de vidro. Aterrorizada com
aquela espreita, cheguei à conclusão que tinha sido enfeitiçada. Aquele homem
usara de bruxaria para me prender a ele.
Lembrei do Vodu que ele fizera e pedi a Raquel que me levasse a um Pai-
de-Santo. Nenhum feitiço me prendia, ao contrário, o preto velho informou
que minha aura estava perfeitamente limpa e muito cheia de luz. Para esquecer
o Cesar, eu deveria acender uma vela com seu nome gravado e deixá-la fora
do meu quarto para queimar até o fim.
Não deu resultado. Durante a noite ele povoava os meus sonhos, durante
o dia continuava à espreita. E, nas três vezes que estive fora do Brasil,
encontrei, ao voltar, o mesmo recado na secretária eletrônica:
- Ana? Habla Cesar, passei por aqui, mas você não estava.
A certeza de que ele viera propositadamente quando eu não podia recebê-
lo provocava uma mistura surda de medo e raiva. Era uma dor que ameaçava
explodir meu peito. Uma vez, tentei encontrá-lo no hotel e fiquei sabendo que
as suas malas continuavam lá, mas fazia muito tempo que não aparecia.
Para acalmar a dor que as lembranças me provocavam, lia os livros de
Carlos Castaneda todas as noites, até cair no sono. Cada vez que relia um
livro, aprendia uma coisa nova e cada novo aprendizado aumentava o meu
desejo de seguir o Caminho do Guerreiro.
Em maio - sete meses depois do telefonema - decidi partir em busca do
meu sonho e fui sozinha para o México.
***

Fiquei fascinada com a cidade do México. Não é só linda, é vibrante. Lá,


até as ruínas têm vida. E que lindas as ruínas! Que beleza os monumentos, os
prédios, as avenidas, as pessoas. Tudo!
Escolhi um hotel perto do Paseo de la Reforma e fiz meus planos.
Passaria alguns dias na capital para conhecer os lugares que Castaneda
mencionava nos seus livros e, mais ou menos no início da semana, voaria até
Chihuahua. Depois... quem sabe o que aconteceria?
Na sexta-feira, fui ao mercado de la Lagunilla. No sábado, passei a manhã
no mercado de Sonora. No domingo, meu amigo Gabriel me levou a Tula,
onde me senti muito mal. A segunda-feira me pegou no Museo de
Antropologia e a terça...
Os dias foram passando e eu não parava de seguir os passos de Castaneda.
Caminhei pelo Paseo de la Reforma, entrei na famosa agência de viagens onde
Don Juan o "empurrou" até outra dimensão, passei na Praça Garibaldi, no
Jardim Avenida e cheguei até a sentar na mesma mesa onde ele recebeu a lição
sobre o Tonal.
Conheci uma senhora de Nuevo Leon, Carmenzita, e com ela ainda fiz
compras e passeios turísticos. Também comi tortillas, encilladas e doces
estranhos. Visitei os museus de arte, assisti uma apresentação de balé e
comprei todos os livros do Castaneda em espanhol. Em suma, fiz de tudo,
menos ir a Chihuahua!
Foi só no oitavo dia que admiti que estava com medo. E, só depois de
voltar para o Brasil, descobri a razão. Não era medo do Caminho do
Guerreiro. Não era medo de morrer ou de não voltar para casa. Era o medo
inconfessado e inconfessável de chegar na casa de Castaneda e encontrar o
Cesar!
KUM NYE

Quem conhece a outrem, é ilustrado Quem conhece a si mesmo, é sábio


O que conquista a outrem, tem força muscular
O que conquista a si mesmo, é Poderoso.

Lao Tse

Ter desistido do Castaneda quando estive tão próxima de alcançá-lo me


lançou num profundo estado de depressão. Mais uma vez, eu permitira que o
Cesar me afastasse do caminho. Será que eu nunca conseguiria esquecê-lo?
Preocupada com o que parecia ser uma paranóia completa, decidi
procurar ajuda. Terapia não resolveria o meu problema, pois eu não era capaz
de contar o que sentia. Eu precisava de alguma coisa que me ajudasse a entrar
dentro de mim, onde as palavras não alcançam. Escolhi o Kum Nye.
Tive a sorte de encontrar uma professora maravilhosa e, durante dezoito
meses, o Kum Nye foi o objetivo principal da minha vida. Os exercícios de
conscientização me mostraram que sob a capa de força, alegria e generosidade
havia uma Ana tímida, medrosa, desamparada, triste, ciumenta, insegura,
orgulhosa, possessiva, invejosa e colérica.
Descobri que nunca tinha amado ninguém de verdade. O que eu chamava
de amor era uma mistura de expectativas e fantasias de um dia me sentir
amparada e forte. Tinha provocado muito sofrimento em mim, e nos outros,
pelo prazer da conquista, do domínio e da posse. Mais nada. Enfim, eu era a
única culpada da minha infelicidade.
Mas, se o Kum Nye me mostrou a verdade, também me mostrou o
caminho da cura. Através da meditação descobri que guardava dentro de mim
toda espécie de emoções e sentimentos. Havia os que eu utilizava com
freqüência e aqueles que eu jamais soubera conectar. Era como a caixa de jóias
que herdei da minha mãe, da qual eu só escolhia o colar de pérolas, pois as
outras eu não sabia quando usar.
Aprendi que o objetivo das Iniciações é nos ensinar a usar estes
sentimentos "esquecidos" dentro de nós. Durante a Iniciação, eles vêm à tona
e, assim, passam a fazer parte das nossas reações conhecidas. Fiz iniciações
para aprender a sentir amor, paz, compaixão e, até, ira.
Tornei-me Budista e meu Buda era Jesus. Gostava de me sentar na
posição de lótus e, devagarinho, me transformar n'Ele. Imaginava meus
músculos se tornando vigorosos, minha pele mais elástica e meu corpo mais
forte. A angústia desaparecia e uma calma translúcida tomava conta de mim.
Desapareceu o buraco que, durante toda a minha vida, senti dentro do
peito. Entendi, finalmente, o significado do Sagrado Coração de Jesus: o
buraco no peito é a falta de conexão com o nosso mestre interior. E o mestre
exterior, seja ele Jesus, Buda, um padre, um lama ou um índio, é a forma que
utilizamos para entrar em contato com o nosso coração.
Meu corpo foi mudando. Não engordei ou emagreci, só fiquei diferente.
Mais harmônica e vigorosa. Parei de adoecer. Um dia percebi que não
precisava mais fingir. Era forte mesmo!
A imagem do Cesar foi se diluindo. Não chegou a sumir completamente,
mas deixou de me machucar. Sem analisar com profundidade, percebi que ele
me encurralara. Criara uma situação insustentável para que eu o afastasse e
desaparecera sem deixar rastros. Cheguei à conclusão que talvez ele fosse
mesmo o Carlos Castaneda e toda aquela encenação fora um teste. Um teste
no qual eu fora reprovada por medo, burrice e vaidade.
A tristeza que senti por ter perdido uma oportunidade tão fantástica foi
profunda, mas aceitei meu destino. Seria uma Budista anônima. Seguiria o
Caminho do Guerreiro não mais para atingir a total iluminação, impossível de
alcançar sozinha, mas pelo prazer de trilhar aquele caminho.
Joguei fora o cartão de visitas e uma peça de roupa que ele esquecera. E
guardei o cartão do restaurante como recordação.
***

Um domingo, fui passar o dia no campo com as crianças. Sem perceber o


que estava fazendo, dirigi na direção oposta e fui parar no centro da cidade.
Sem destino, entrei em uma rua estreita. Na primeira esquina havia um
vendedor de uvas. Parei o carro e perguntei o preço. Não pretendia comprá-
las e não sabia por que tinha parado. O homem levantou a cabeça e disse um
valor absurdo. Fiquei tão ansiosa que liguei o carro e parti com violência.
Só percebi que fazia muito tempo que estávamos em silêncio, quando
Claudia falou:
- Aquele homem parecia o Cesar.
Não tive coragem de voltar àquela esquina para verificar, mas tinha
certeza: o tal homem não era parecido, era o próprio Cesar!
TERCEIRA VISITA

Maio de 1991

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada E triste, e triste e fatigado eu vinha.


Tinhas a alma de sonhos povoada, E a alma de sonhos povoada eu tinha...
E paramos de súbito na estrada Da vida: longos anos, presa à minha A tua
mão, a vista deslumbrada Tive da luz que teu olhar continha.
Hoje, segues de novo... Na partida Nem o pranto os teus olhos umedece
Nem te comove a dor da despedida.
E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

Olavo Bilac

UM HOMEM DIFERENTE
A arte do guerreiro é equilibrar
o terror de ser homem com a maravilha de
ser homem.
Don Juan

A terceira visita do Cesar aconteceu em maio de 1991, depois de um ano e


meio de separação. Foi Claudia quem recebeu o recado. Ele estava para vir ao
Brasil nos próximos dias e me telefonaria quando chegasse.
- Mentira dele, mãe... - Claudia parecia afogueada. - Não era ligação
internacional coisa nenhuma... ele já está aqui mesmo... tenho certeza!
Achei graça ao pensar que ele não conseguia enganar nem uma criança e
estava a ponto de soltar uma gargalhada quando o riso morreu na minha
garganta. Fora fácil demais perceber a mentira! Ele podia fazer coisa melhor.
Bem melhor, aliás! Claro que ele queria que eu percebesse... mas por quê?
Quem seria, afinal, aquele homem e o que desejava de mim?
Durante três dias, a ansiedade deu um nó no meu estômago. Não
conseguia me decidir se ele era o Castaneda ou um assassino profissional. Se
eu devia aceitar sua visita, ou afastá-lo para sempre. Se me apaixonaria. Se
seria assassinada...
No terceiro dia percebi que não havia respostas para estas perguntas. Não
naquele momento. Para descobrir a verdade, eu precisava encontrá-lo. E, se
não quisesse me arriscar, tinha que ficar sem saber.
Sentei na posição de ioga e fiz uma longa meditação. Imaginei uma luz
branca, muito suave, entrando pelo alto da minha cabeça e quando fiquei bem
relaxada, procurei a força na minha "Caixinha de jóias". Estava lá, junto com a
confiança e a serenidade. Rezei em voz alta:
- Jesus, que ele só me procure se for para o meu bem.
A luz branca se tornou mais brilhante e eu soube que não precisava temer.
Se o Cesar me procurasse, poderia encontrá-lo sem medo.
***

No fim da tarde, ele telefonou:


- Ana, mi amor. Habla Cesar... - Parecia estar se divertindo à grande. -
Você ainda se lembra de mim?
Eu estava surpreendentemente calma quando respondi que sim, me
lembrava muito bem. Fez questão de saber como eu estava e tudo que tinha
se passado comigo nos últimos dezoito meses.
- Conte-me tudo - pediu.
Não era possível contar tudo. Não por telefone e depois de tanto tempo
de ausência. Contei somente que tinha ido ao México:
- E você gostou?
- Muito, Cesar... Você tinha razão, o México é muito bonito.
- Encontrou o que pretendia?
- Não... Não fui até Chihuahua.
Conversamos mais um pouco e combinamos um jantar para o dia
seguinte.
***

Almocei com Ulisses. Tinha elaborado um plano e precisava de ajuda.


Ulisses, meu companheiro de luta, além de meu padrinho na Rosa-Cruz, é
homem sério e ponderado. A pessoa ideal para me ajudar naquele momento.
Nos encontramos ao meio-dia. Do Cesar ele só conhecia o nome, e
precisei contar tudo, do primeiro ao último encontro.
Meu amigo ouviu em silêncio, ficou pensativo por muito tempo e, depois,
tentou raciocinar comigo.- Argumentou que marginais andam em grupo ou
com guarda-costas e o Cesar estava sempre sozinho. Lembrou-me que eu
nunca vira seu revólver, somente suspeitara da sua existência. E,
principalmente, percebeu que ele nunca afirmara ser assassino profissional,
mas simplesmente perguntara o que eu faria se fosse verdade.
- Ele tem este hábito mesmo, Uli. Sempre responde uma pergunta com
outra pergunta.
- Em que momento você começou a desconfiar que o Cesar era o Carlos
Castaneda?
Não consegui responder. Um dia percebi que a idéia estava na minha
cabeça havia muito tempo. Quais as semelhanças entre os dois? Poucas: um
avô índio, uma esposa que morreu muito jovem, uma outra de quem se
separou (que poderia ser La Gorda) e a total ausência de história pessoal. O
resto podia ser intuição ou fantasia.
Contra esta teoria havia, porém, um fato importante: eu conhecera o
Cesar antes de escrever para o Carlos Castaneda.
Ulisses pediu que eu tentasse me lembrar como foi que me decidi a
escrever a tal carta. Novamente, não havia resposta. Da mesma forma, um dia
percebera que era uma idéia antiga e sem pensar a executara. Não teria sido
"plantada" por ele? Não sei, Ulisses, não sei.
Por outro lado, Castaneda prometera me visitar e não viera. Promessas
não cumpridas não combinam com um homem do seu porte. Ulisses parecia
disposto a acreditar que o Cesar era se não o próprio Carlos Castaneda, um
enviado. Pediu-me a sua descrição física.
- Um metro e setenta de altura. Cabelos pretos e lisos. Pele morena, de
quem tem um pouco de sangue índio. Corpo perfeito, sem uma gota de
gordura a mais. E forte.
- E a sua aparência, como é?
- Quando o conheci, era o próprio mafioso. Chegou até a sair de um
restaurante mascando palito no canto da boca. Havia algo na sua forma de
andar, sentar e fazer amor que demonstrava muita força e autoridade. Além
do terno azul-marinho, possuía um agasalho americano muito bonito. Seus
sapatos brilhavam de graxa e havia algo na sua gravata que parecia
extravagante, mas não posso me lembrar o que era.
"... na segunda, aparentava uma fragilidade que eu ainda não notara. Usava
ainda terno azul-marinho, camisa branca e gravata vermelha, mas a roupa
estava velha e puída. Os sapatos sujos e desbeiçados. Dava a impressão de ser
muito pobre e, além de inseguro, extremamente violento."
- Bom, e qual é o seu plano?
- Nós vamos jantar fora esta noite. Queria que você estivesse no
restaurante, Uli. Não sei se vou poder apresentá-lo, mas, se não der, amanhã
você me dá suas impressões.
- Esta noite eu tenho um compromisso... pode ser amanhã?
- Eu dou um jeito.
Voltei para casa satisfeita. As seis da tarde, ele telefonou, desmarcando o
jantar. Estava em uma reunião que se prolongaria até muito tarde.
Infelizmente, amanhã iria embora e não, Ana, não poderemos nos ver desta
vez... quem sabe na próxima? Tive a estranha sensação de estar sendo
castigada pelo meu plano e meu coração ficou apertado de arrependimento.
- Fale-me de você, mi amor... eu sempre posso vê-la, mas não consigo
ouvir sua voz.
- Eu estou muito mudada, Cesar... Não sou capaz de explicar... me sinto
muito diferente de quando nos conhecemos.
- Deu para notar, mi amor... até a sua voz está diferente. Depois, com
voz emocionada, comentou que talvez fosse melhor mesmo que não nos
víssemos. Sofrera muito com a nossa separação, Ana, e esta despedida seria
mais dolorosa ainda. Eu fiquei doente quando você partiu, Cesar. Eu sei, Ana,
eu sei. Adeus mi amor. Adeus.
***

Na 5a feira à noite, ele telefonou. Não tinha conseguido se desvencilhar


dos compromissos e ainda estava pela cidade. Aliás, estava próximo à minha
casa... Podia passar para me cumprimentar? Alguma parte de mim percebeu
que ele estava me dando outra chance, mas nunca mais, nunca mais mesmo,
eu deveria tentar enganá-lo.
Sem muito alarde e controlando a ansiedade, preparei-me para recebê-lo.
Raquel me aconselhara a observar cada detalhe da sua roupa e do seu corpo e
eu estava decidida a prestar muita atenção. Examinaria sua altura, cor da pele,
roupa, unhas, cabelo... tudo.
***

Foi com o coração aos saltos que abri a porta às nove da noite. Apesar de
ter me preparado, o impacto da sua presença foi muito forte. Sem dúvida, era
um homem impressionante!
Sorrindo, cheio de alegria, sem aquela doçura pegajosa do passado, tentou
me beijar. Não permiti. Estava decidida a manter nossa relação no nível de
velhos amantes. Mais nada.
Ele não pareceu ofendido, ao contrário, sorriu e foi entrando como se
fosse da casa. Sentou-se no lugar de sempre e fez um gesto para que eu me
sentasse ao seu lado. Eu estava tão intimidada e ele tão solto que parecia que
eu era a visita e ele o anfitrião. Quando me sentei no outro sofá, deu uma
risada gostosa e perguntou:
- Você está com medo de mim?
Fiquei mais ressabiada ainda. Ele agia como se aquela cena horrorosa do
passado não tivesse acontecido ou fosse apenas uma brincadeira sem
importância.
- Não precisa ter medo de mim, Ana, eu não mordo!
E, para provar que estava dizendo a verdade, levantou-se e veio para o
meu lado. Ficamos os dois quietos no sofá, até que ele sussurrou com voz
emocionada:
- Você me salvou...
Não sabia do que ele estava falando e também não perguntei.
- Lembra aquela vez em que você me salvou? Pois é, aconteceu outra
vez.
Estranhei pois, por alguma razão, eu nunca mais voltara ao espelho. Não
sabia bem por que, mas tinha desistido de fazer contato com ele ou com
qualquer outra pessoa. Tampouco me lembrava de algum sonho parecido com
salvamento. Devia ser outra mentira.
Continuei em silêncio, sentindo uma raiva surda e sem a menor vontade
de continuar com aquele papo idiota, mas ele olhou longa-mente para o nada,
com ar de quem está tentando recordar, e contou uma estranha história:
- Fui escalar uma montanha no Peru, perto de Machu Pichu - começou
com voz pausada. - Uma montanha que eu escalo sempre e conheço muito
bem - pausa. - Naquele dia quis variar um pouco e saí à procura de uma trilha
nova. - Fez um gesto indicando mudança de direção. - Andei muitas horas
sem perceber o tempo passar e, quando dei por mim, não sabia onde estava -
suspirou. -Tentei voltar ao caminho antigo, mas não consegui. Eu estava
perdido!
"Fiquei bem preocupado. A noite estava caindo e eu precisava encontrar
uma saída antes que escurecesse de vez. Corri como um louco de um lado
para outro até perceber que estava andando em círculos. Fiquei puto da vida.
Com o resto de sol que ainda havia, consegui calcular os pontos cardeais e fui
para o norte."
"Depois de muito tempo, cheguei a um lugar assustador -suspiro. - Um
paredão surpreendente de tão íngreme!... Uma muralha completamente
vertical! - Fez um gesto brusco com a mão, cortando o ar de cima a baixo. -
Um lugar muito impressionante."
Franziu os olhos e analisou a minha reação para ver se eu tinha entendido.
Continuou:
"Fiquei apavorado! Sabia que se eu tentasse voltar a noite cerrada me
pegaria no meio do caminho. Se tentasse subir sem cordas, a escalada seria
muito perigosa. Fiquei indeciso, sem saber que rumo tomar, quando deu um
pé-de-vento e vi que ia chover. Eu estava fodido! - Deu uma olhadinha rápida
para ver como eu reagia ao seu palavrão. - Se o temporal me pegasse, aí sim
era morte certa! Não havia outro remédio... eu tinha que seguir em frente!
Aaaai... você não imagina como foi difícil!... Aquela parede além de vertical era
lisa e escorregadia. Foi terrível!"
Fez uma pausa dramática. Seu corpo estava tenso como se ele estivesse
escalando a montanha naquele momento. Minha pele se arrepiou.
"Eu precisava caminhar devagar para ter certeza que a pedra onde eu ia
apoiar o pé não estava solta e cada passada demorava uma eternidade. - Deu
outro suspiro fundo. - De repente já era noite e eu ainda estava lá... - pausa. -
Fui tateando no escuro, tentando não me deixar vencer pelo medo, mas,
quando senti as primeiras gotas de chuva no meu rosto, perdi o controle...
Fiquei apavorado, mi amor."
"Desisti de qualquer cuidado. Tudo que eu queria era sair dali o mais
rápido possível. Fui subindo aquele paredão parecendo uma aranha, quando,
de repente, meu pé. resvalou..."
Deu um tranco com o corpo e ficou imóvel, como se estivesse para cair.
Eu estava hipnotizada pela sua atuação. Tinha a impressão de estar vendo
toda a cena: A trilha, o paredão, a escalada, as gotas de chuva, o pé resvalando,
o Cesar pendurado.
"Ainda tentei me agarrar em alguma coisa, mas a minha mão escorregou e
percebi que ia cair... - Soltou o corpo como se estivesse caindo e senti um frio
no estômago. - Meu último pensamento foi para você. No auge do desespero,
gritei seu nome, num pedido de socorro."
Pausa. Desta vez ele sorriu para mim, como se eu fosse uma estrela e
tomou minhas mãos.
"Não sei explicar como aconteceu, de repente você chegou pelo ar -
suspiro de alívio. - Suas mãos estavam cheias de luz... Você não imagina que
beleza de imagem!... De cada dedo seu, saía um filamento brilhante. Foi tão
lindo que esqueci o medo."
"Então você empurrou as minhas costas e me colocou no lugar. Quando
consegui me segurar, olhei para trás, mas você já tinha ido embora... Tudo que
consegui ver foi o reflexo do seu vulto brilhante na pedra... Foi muito
impressionante... uma visão muito linda!..."
Continuou com os olhos fixos em mim para ver se eu tinha entendido.
Havia uma mensagem oblíqua naquela história. Mensagem que eu não podia
entender, só podia sentir.
- Fiquei tão impressionado com isso tudo que quando voltei para casa fui
procurar um bruxo. Ele disse que você é uma pessoa muito cheia de luz...
aquele outro bruxo também disse a mesma coisa... por quê?
Parecia tão atordoado que acreditei na sua inocência.
- Não sei, Cesar... uma vez eu encontrei um Lama Tibetano que disse a
mesma coisa e, quando eu perguntei o que significava ser luminosa, deu de
ombros e disse que eu precisava descobrir sozinha.
Enquanto conversávamos sobre Lamas e Pais-de-Santos, ele se levantou,
deu alguns passos pela sala e voltou para o sofá pequeno:
- Vem p'ra cá, vem... - pediu rindo. - É mais confortável... - O sorriso
aumentou ao ver que eu continuava indecisa. - Não precisa ter medo de mim!
Parecia prestes a cair na gargalhada e, para não ser motivo de chacota, saí
de onde estava e me sentei ao seu lado.
- E você, Ana, o que conta de novo?
Eu tinha tanta coisa para contar. Tanta! Queria falar das modificações que
tinham acontecido dentro de mim, dos meus novos sentimentos, de como eu
me sentia mais forte e diferente, mas tudo que consegui foi comentar que me
tornara Budista. Tentei explicar a importância do Budismo na minha vida e as
descobertas que eu fizera no Kum Nye, mas as palavras morreram na minha
garganta.
- Não consigo, Cesar... já é difícil explicar em português, imagina em
espanhol.
- Pode falar português, Ana, eu entendo perfeitamente.
Foi um oferecimento singelo. Algo que deveria ter me deixado contente,
mas que, ao invés disso, me deixou profundamente ameaçada. Não aceitei.
Preferia continuar no espanhol. Era menos íntimo. Menos assustador.
De repente, tive a sensação de que ele estivera falando em português
comigo o tempo todo e eu nem chegara a notar. Sem saber por que, me senti
à beira do pânico. Só me acalmei quando ouvi aquela mistura de línguas que
ele costumava utilizar:
- Nunca deixei de piensar em você, Ana... Nunca. Às veces, eu conseguia
veer a sua imagem, pero não podia escuchar tu voz.
Foi quando percebi que o mesmo acontecia comigo. Com freqüência,
passava a noite inteira com a sensação de estar ao seu lado, mas pela manhã
não era capaz de me lembrar do sonho.
- Uma vez consegui vir até aqui - contou com voz tranqüila. - Você
estava fazendo amor com outro homem.
- Sentiu ciúmes?
- Não, Ana, sei que você me ama.
Fiquei atônita. Ele não parecia vaidoso ou arrogante. Não estava jogando
com as palavras ou com as minhas emoções. Estava fazendo uma constatação
simples da mesma forma e com a mesma convicção que poderia ter usado
para dizer: "sei que esta camisa é branca".
Não respondi. Não tentei sequer analisar meus sentimentos. Tive o
ímpeto de perguntar se ele também me amava, mas tampouco tive coragem.
Fosse qual fosse a resposta, eu preferia não saber.
- Quase me casei com este homem, Cesar.
- Por quê?
***

Só hoje eu tenho a resposta para esta pergunta. Foi na época em que eu


estava tentando desesperadamente esquecer o Cesar e todo o rebuliço que ele
causara na minha vida. Aquele homem se apaixonara por mim e eu aceitara o
seu amor como um lenitivo, um adiamento. Uma fuga temporária, já que ele
estava de passagem pelo Brasil.
Tinha prometido a mim mesma que me prepararia para encarar a verdade
e, quando ele partisse, estaria pronta para o confronto final. Porém, ele
mudara seus planos e me pedira em casamento e eu, imediatamente, deixara
de lado as minhas boas intenções.
Não durou nem trinta dias.
Mas naquela época eu não sabia o que me levara a dar um passo tão
estúpido e usei a desculpa de sempre. Estava explicando que o homem
precisava muito de mim, por diversas e variadas razões, quando o Cesar se
levantou bruscamente do sofá e me interrompeu, com voz cortante:
- Então foi uma história igual às outras?
Havia algo tão ameaçador naquela pergunta que imediatamente desisti de
mentir. Não. Não fora igual... Havia muitas diferenças. Em primeiro lugar eu
não me casara, depois... depois... havia uma diferença enorme, vital mesmo,
que eu tentei, mas não consegui pôr em palavras. Repeti somente que estava
muito mudada, muito diferente de quando ele me conhecera.
Sem insistir, ele deu alguns passos pela sala e voltou sorrindo para o meu
lado. Sentou-se na ponta do sofá, comentando que sentira muito a minha falta
e perguntou de chofre:
- O que você faria se eu a pedisse em casamento?
Havia um ar de preocupação no seu rosto que me fez pensar que aquilo
não era um pedido e sim um teste. Ele parecia mais interessado em saber a
minha resposta do que em casar comigo.
- Acho que eu ficaria contente e concordaria... mas três meses depois
estaria arrependida e cheia de raiva.
- Está certo, Ana. - A voz denotava alegria. - Você é o tipo de mulher
que precisa viver em liberdade! - Olhou para o meu rosto ansioso e ficou em
dúvida outra vez:
- Você gostaria de viver no campo?
- É o meu sonho.
- E por que não vai?
Havia algo estranho naquela conversa. Em 89 eu comentara que seria
impossível viver no campo sem um homem ao lado. E, agora, essa impressão
de estar sendo testada. Tive medo de errar.
- Porque eu preciso terminar de criar a Claudia.
Finalmente ele desistiu. Não sei se ficou satisfeito ou se percebeu que eu
estava procurando as respostas corretas. Recostou-se no sofá, com aquela
expressão divertida, e comentou:
- Você está muito bem, Ana...
- Gostou do meu novo penteado?
- Você sabe que gosto muito dos seus cabelos, Ana... são a prova da sua
força.
Não soube o que dizer, por isso continuei em silêncio. Acho que de todos
os feitos do Cesar, o maior foi conseguir calar a minha boca! Ele também se
calou e aproveitei o intervalo para fazer o meu exame.
Como sempre, trajava terno azul-marinho, camisa branca e gravata
vermelha, mas o terno era de pura lã e a gravata de seda. As unhas estavam
limpas e curtas, o cabelo bem aparado. Os sapatos não brilhavam como da
primeira vez, nem estavam desbeiçados e sujos como na segunda. A meia de
lã preta deixava descoberta uma parte do tornozelo moreno. Os pés pareciam
incomodados e percebi que ele não gostava de andar calçado. Os olhos eram
castanho-escuros mesmo.
Enquanto era examinado, o objeto da pesquisa permaneceu imóvel como
uma estátua. Depois, virou-se para mim e foi sua vez. Passou várias vezes os
olhos por todo meu corpo, examinando meus contornos, e continuou em
silêncio.
Tive, então, uma sensação esquisita. Por um instante o tempo perdeu o
sentido, e todo aquele ano e meio de separação pareceu ter durado um mês.
- Viu? - Sorriu alegremente. - Eu disse que voltaria dentro de um mês... e
voltei.
Sem me dar conta de que ele estava refletindo o meu pensa-mento, fiquei
muito irritada com a ousadia:
- Como só um mês, Cesar. - Precisei controlar a minha voz.
- Faz um ano e meio que você foi embora!
- Pra você, Ana... para mim faz só um mês!
- Um ano e meio. - gritei, perdendo as estribeiras. - E você nem ao
menos me telefonou!
- Mas eu telefonei sim, mi amor... - disse com voz tranqüila.
- Você é que não estava em casa... - emendou outra pergunta: -Com que
freqüência você gostaria de me ver?
Pensei muito antes de responder. Não queria o compromisso de vê-lo
todos os fins de semana, mas tampouco queria que desaparecesse por outro
ano e meio.
- Um fim de semana a cada dois meses".
- Só?!!! - Deu uma risada debochada. - Está bem. Eu virei a cada dois
meses.
- Dois meses dos meus ou dos seus?
Não houve resposta. Fizemos outro intervalo silencioso que me deixou
muito relaxada. Só então me dei conta que não sentia mais medo dele.
- Você perdeu o medo de mim.
- Estou muito diferente, Cesar... não fui capaz de te explicar, mas a
verdade é que me sinto quase outra pessoa.
- Já percebi, Ana... você está muito melhor. O que você tem feito?
- Muita coisa... aliás... fiz uma loucura que você nem imagina.
- Qual?
- Tomei o ayuascal
Esperei um elogio ou, pelo menos, um sorriso cúmplice, mas a sua reação
foi completamente diferente. Estremeceu, como se tivesse levado um choque,
e saltou do sofá, exclamando com voz áspera:
- O ayuascal Eu não soube disso!
Achei graça e disse rindo que ele não poderia ter sabido, pois não estava
comigo, mas ele não se acalmou. Ficou andando de um lado para o outro na
sala, esmurrando a própria mão e murmurando:
- Eu devia ter sabido... eu devia ter imaginado...
Depois de várias voltas, sentou-se na ponta do sofá e pediu um relato
detalhado.
***

A primeira dose não surtiu nenhum efeito importante, somente um


amortecimento na língua. A segunda me deixou um pouco tonta, mas não me
impediu de cantar e dançar com o grupo. A terceira provocou ânsias de
vômito tão fortes que precisei ir para o terraço, ou vomitório, como eles
dizem.
Meu corpo formigava. Minhas pernas foram ficando amortecidas até que
desapareceram de uma vez. Fiquei literalmente apavorada e com a sensação de
ter cometido um erro fatal. Tudo que eu queria era anular o efeito da droga e
sair dali o mais rápido possível.
Chorando, me agarrei no parapeito e tentei vomitar. Não consegui. Fiquei
lá, apoiada nos cotovelos, sem saber o que fazer, pensando nas horas que
faltavam para a cerimônia terminar. Olhei ao redor.
A floresta da Tijuca cintilava, iluminada por uma neblina verde-
fosforescente. As árvores pareciam pessoas e eu podia jurar que estavam
tentando me acalmar. De repente, alguma coisa chamou a minha atenção.
À minha esquerda, no meio da floresta, um gnomo de gorro vermelho
acenava para mim. Era um anãozinho alegre, vestido com roupas bem
coloridas. Outros anõezinhos apareceram, sentados à volta de uma mesa
grande, cheia de comida e bebida. O gnomo de gorro vermelho me convidou
a participar do banquete e todos aplaudiram. Tive a impressão que estavam
cantando e contando piadas, mas, apesar de ter muita vontade de ir até eles,
não aceitei o convite.
Súbito, surgiu, à minha direita, um muro de fumaça preta. Teria no
máximo um metro e vinte, e, por alguma razão inconcebível, aquela fumaça
densa e escura me pareceu muito ameaçadora.
Não havia pensamentos dentro da minha cabeça ou, pelo menos, não
havia palavras. Só uma voz muda que me explicava as coisas e orientava as
minhas decisões. Foi ela que me aconselhou a não aceitar os convites dos
gnomos e foi ela também que me disse que um dia eu teria que atravessar o
muro de fumaça, mas que ainda não era o momento.
De repente, percebi que estava chorando. Não sei se estive chorando o
tempo todo ou se voltei a chorar naquele momento. Uma moça fardada veio
perguntar se eu precisava de alguma coisa. Eu sabia que era uma moça de
verdade e, ao mesmo tempo, achava que era um gnomo. Tentei explicar o que
estava acontecendo. A minha voz não saiu. Ou melhor, saiu, mas não era um
som, era uma bola pegajosa que não cabia na minha boca. A moça me
aconselhou:
- Não adianta lutar, Ana... ninguém pode vencer o ayuasca... relaxe e se
deixe levar.
Eu não queria obedecer, mas soltei o parapeito e me sentei no chão,
chorando descontroladamente. Alguém arrumou a minha saia para que
minhas pernas não ficassem expostas e, sempre chorando sem parar, fechei os
olhos. Queria dormir um pouquinho.
Assim que meus olhos se fecharam, percebi que estava dentro de um
barco voador. Era um barco pequeno, como um bote, mas muito veloz.
No início tive medo, mas percebi que, para interromper a viagem, bastava
abrir os olhos. De olhos fechados, voei por um céu ensolarado, por uma noite
cheia de estrelas e passei por objetos redondos, como pequenos planetas. De
olhos abertos, via o grupo cantando e entoando os salmos.
Fechei os olhos outra vez e me vi num planeta estranho, todo coberto de
areia. A alguns metros de mim, um profeta de barba e túnica branca, parecido
com Jesus, fazia meditação. Parei intimidada, e só me aproximei depois que
ele me convidou. Sentei-me a seus pés e tivemos uma conversa muda, feita de
pedaços da minha vida. Rostos de pessoas e cenas esparsas que passaram
rapidamente diante dos meus olhos.
Subitamente, tive a clara percepção que o meu maior problema, aquilo que
mais me atrapalhava e me fazia sofrer, era a minha mania de manter o
controle sobre tudo que estava à minha volta. Outra sucessão de cenas passou
pela minha cabeça. Cenas de brigas e discussões, onde eu estava sempre
tentando controlar as pessoas e assim acabava ficando sozinha. Foi uma
percepção dolorosa que me deixou profundamente deprimida.
Abri os olhos e comecei a tremer de frio. Nem com a ajuda de muitos
cobertores, consegui parar de tremer. Então me levaram para um quartinho
escuro e adormeci no chão.
Não sei quanto tempo se passou até que uma moça me convidou a voltar
ao salão. A cerimônia estava prestes a terminar. Eram sete horas da manhã.
Doze horas tinham se passado.
***
Cesar ouviu em absoluto silêncio. Aprovou com a cabeça o fato de eu não
ter ido ao encontro dos gnomos e sorriu quando contei as viagens. Só
demonstrou admiração quando mencionei o profeta:
- Falou com você?! E o que ele disse?
Não consegui explicar. Aquela conversa muda não podia ser transformada
em palavras.
- Não faz mal, eu sei que é difícil mesmo.
Depois, retomou seu ar reprovador e perguntou o sabor, a consistência e
o cheiro da bebida. Por fim, concordou:
- Está certo, era mesmo o ayuasca.
Levantou-se e voltou a caminhar pela sala passando a mão com força pelo
queixo. Parecia preocupado. Mais do que isso. Agia como se estivesse
procurando uma forma de me salvar. Perguntei o que estava acontecendo.
Não respondeu. Continuou andando de um lado para o outro e, de repente,
perguntou onde eu tinha encontrado a beberagem.
Expliquei que existem duas seitas no Brasil que tomam o ayuasca
regularmente e ele quase ficou louco! Sua irritação era surpreendente. Cada
palavra minha aumentava a sua raiva e a velocidade dos seus passos. Apesar
disso, ainda quis saber o nome destas seitas, quantas pessoas participaram e
como é o ritual.
- Éramos umas duzentas pessoas. Homens de um lado. Mulheres do
outro. O ritual exige que todos permaneçam em pé, dançando e cantando
salmos e não se pode recusar o ayuasca, não importa quantas vezes seja
oferecido.
- E quem decide o momento de tomar?
- O chefe da seita, creio eu.
- Quantas doses foram oferecidas?
- Quatro.
- E você tomou todas?
- Não. Só fingi que tomei a quarta.
- Menos mal... e os outros tomaram?
- Claro, Cesar... eles estão acostumados.
- Acostumados?!... - O rosto ficou vermelho de raiva. - Que absurdo!
Comentei que ele estava muito estranho, mas não me deu atenção e
continuou com o interrogatório.
- Com que freqüência eles tomam?
- Duas vezes por mês.
Aí ele explodiu. Alterado pela raiva e a preocupação, parou na minha
frente e, gesticulando nervosamente, começou a gritar:
- Esses caras estão completamente loucos!... O ayuasca não pode ser
tomado com esta freqüência... - bufou, deu mais uma volta na sala e voltou a
gritar: - E ainda por cima no meio de muita gente... é muito perigoso,
entendeu bem?... o ayuasca é MUITO PERIGOSO! - Deu mais três voltas,
socando as mãos. - Você devia ter tomado sozinha com o seu guia - e repetiu
com violência -, somente você e o seu guia!... - Tentou se controlar, mas o
rosto continuou roxo. - Você tomaria o ayuasca, e o seu guia ficaria olhando,
sem tomar a bebida. - Olhou-me nos olhos. - Ele tinha que estar pronto para
ajudar se fosse necessário. - Parou um pouco, controlou o tom da voz e
concluiu dramaticamente: - Você podia ter morrido!
Depois, sacudiu a cabeça, sentou-se ao meu lado e ficou mudo.
***

Não me lembro o que aconteceu em seguida. Creio que ficamos mais uma
vez em silêncio, até ele perguntar por que eu não fora a Chihuahua. Naquele
momento, a idéia de ele ser o Castañeda pareceu tão absurda que precisei
inventar uma desculpa.
- Tive medo que acontecesse outro terremoto.
- O quê? Terremoto?!

- É isso mesmo, Cesar... quando o Castañeda me telefonou não houve


aquele terremoto em Los Angeles?... Pois é... fiquei com medo que
acontecesse de novo!
- Que bobagem! Você não precisa ter medo, Ana, é uma mulher muito
forte! - Fez uma pausa pensativa e continuou: -Talvez ainda não fosse o
momento certo, mas da próxima vez não deixe de ir... Chihuahua é lindíssima.
A raiva foi uma descarga elétrica que varou meu corpo de cima a baixo.
Passou tão depressa que não tive tempo de analisá-la.
- Você nunca me disse que conhecia Chihuahua! Respondeu com as
mãos num gesto ambíguo e mudou de assunto. Não me lembro o que
conversamos. Talvez tenhamos feito mais um intervalo, não sei. Depois de
algum tempo, ele pousou as mãos nos meus ombros e me puxou para perto.
Continuei resistindo.
- Você não quer fazer amor comigo?
- Não, Cesar, depois você vai embora e quem sofre sou eu.
- Eu também sofri muito com a nossa separação, mi amor... você não
imagina quanto!
Não acreditei. Se ele tivesse sofrido tanto, teria aparecido antes. Sorrindo
do meu argumento, replicou que tivera muitos problemas, mas não deixara de
pensar em mim. Depois me puxou para perto e me beijou.
Não consegui impedir. Não porque ele tenha me forçado e sim porque
meu corpo não reagiu ao meu comando.
Não demorou muito para ele convidar:
- Vamos para o seu quarto?
- Não sei, Cesar... melhor não.
- Ah, mi amor, por favor... - pediu com uma voz tristonha e musical -,
pela última vez!
Não pensei no significado das suas palavras. Simplesmente, levantei do
sofá e o acompanhei.
UMA VOZ NA NEBLINA

Ouço a voz do meu amado. Ei-lo que vem, saltando sobre os montes,
atravessando os outeiros.

Cântico dos Cânticos

No dia seguinte, 6a feira, fomos jantar num restaurante japonês. Apesar de


sentir o raciocínio ligeiramente empanado, eu estava mais lúcida do que nas
outras vezes em que estivemos juntos. Aproveitei um momento de descuido e
chamei-o da mesma forma que Don Juan chamava o Castaneda.
- Carlitos?
Passou pelos seus olhos um brilho divertido, antes que ele abaixasse a
cabeça dissimulando o sorriso. Esperei uma confissão, mas o que escutei foi
uma gargalhada irônica e ofensiva.
Imediatamente, percebi que estava fazendo um papel ridículo. Que
estupidez a minha... claro que ele não podia ser o Castaneda... eu estava
fantasiando outra vez!
Envergonhada, soltei uma gargalhada para dissimular meu mal-estar e
notei um quê de surpresa no seu rosto.
- Do que você está rindo?
- De nada, Cesar... é que pensei uma besteira.
Não perguntou mais nada. Ficou me examinando com os olhos franzidos
por muito tempo. Quando terminou, parecia curioso e um pouquinho
divertido.
De repente, me perguntou, com um falso tom de ofensa na voz:
- Você tem dúvidas que o Carlos Castaneda seja um homem muito
poderoso?
Bruma. Por que ele estava falando daquela maneira? Por que fingia estar
ofendido? Respondi temerosa que não, não tinha a menor sombra de dúvida.
Satisfeito, ele concordou com a cabeça e soltou outra gargalhada.
Levei algum tempo para entender, mas, de repente, tudo se esclareceu: ele
estava brincando comigo! Percebera a minha desconfiança e estava fingindo
ser o Castaneda. Uma onda de alívio me invadiu. Era só uma brincadeira!
Não percebi naquele momento, mas o alívio que senti foi incomensurável.
Seus olhos continuavam postos em mim. Parecia tão interessado nas
minhas reações que, pela primeira vez, admiti que poderia ser um enviado.
Sim, um enviado, alguém que um dia - sabe Deus quando - me levaria ao
chefe. Alegremente perguntei:
- Quem é você?... Pablito?... Nestor?... Benigno?
Sua alegria era contagiosa. Com outra gargalhada musical, disse que não
gostava de responder perguntas. Achei que estava imitando o mestre e me
senti contente.
A surpresa não abandonava seu rosto. Não chegava a ser um sorriso, era
mais uma expressão boquiaberta. Sempre com o olhos postos em mim,
perguntou de chofre:
- O que você faria se o Castaneda aparecesse aqui? Achei que ele estava
preparando o caminho para dizer que
Castaneda finalmente viria e falei a primeira coisa que me veio à cabeça:
- Não o reconheceria, claro.
- E se ele dissesse - aprumou o corpo e impostou a voz: - "Eu sou o
Carlos Castaneda". - voltou ao normal e perguntou: - O que você faria?
Lá estava ele outra vez tentando me enganar!!! Dei risada, mas respondi
com honestidade:
- Perguntaria qual é a minha missão.
- E se ele dissesse - empostou a voz, de novo - "venha comigo"?
- Eu iria, agora mesmo.
Sorriu satisfeito e continuou a comer. Eu não. Meu apetite tinha
desaparecido. Foi então que me lembrei dos mexicanos que conheci quando
era menina.
***

O primeiro casal surgiu quando eu tinha seis anos de idade. Não me


lembro bem do homem, mas a mulher era bonita, tranqüila e afetuosa.
Costumava me pegar no colo e abraçar com muito carinho. Visitaram minha
casa todas as tardes, durante um mês, mais ou menos.
Minha mãe era muito nervosa e costumava me espancar com violência,
em geral, sem razão aparente. Eu vivia apavorada e insegura e o amor daquela
mexicana morena foi como um bálsamo na minha alma de criança. Eu a
amava tanto que uma tarde pedi a ela que se tornasse minha mãe. A sua
resposta foi um abraço apertado e um sim. Se eu quisesse, me disse em
segredo, ela me levaria embora dali, naquele dia mesmo.
Fiquei decepcionada. A vida com a minha mãe podia ser um inferno, mas
eu tinha verdadeira adoração pelo meu pai e não queria abandoná-lo. Pedi que
ela ficasse morando na minha casa.
- Você sabe muito bem que isso é impossível.
Foi a primeira vez que alguém falou comigo como se eu fosse adulta e eu
soube naquele momento que não poderia enganá-la e fingir que não entendia.
Desatei a chorar. Ela me segurou pelos braços e continuou a falar. Não me
lembro bem de suas palavras, mas ainda guardo a sensação de força e
confiança que senti enquanto ela me aconselhava. E, apesar de tão pequena,
sei que foi ela que me deu forças para vencer a destrutividade da minha mãe.
***

Dez anos mais tarde, conheci três diretores de uma empresa mexicana.
Tinham vindo negociar um contrato, no Brasil, com a empresa onde meu pai
trabalhava. Estavam sempre passeando por São Paulo e, por alguma razão que
eu desconhecia, faziam questão da minha presença. Meu pai, ansioso por
fechar o contrato, me levou a todas as festas e jantares que a minha idade
permitia.
Dois deles eram casados e vieram com suas esposas, uma delas muito
bonita. O outro, que parecia bem mais velho, era viúvo e estava só. O grupo
representava o presidente da empresa que, segundo eles, não gostava de
aparecer. Não me lembro particularmente de nenhum.
Uma noite, durante um jantar de comemoração ao contrato que seria
assinado no dia seguinte, eles me convidaram para ir ao México. Eu morria de
vontade de fazer uma viagem internacional e queria aceitar, mas senti o corpo
pesado e, sem saber por que, recusei.
Todos começaram a falar ao mesmo tempo. Tentaram me convencer,
dizendo que o México era lindo e eu não me arrependeria. A esposa bonita
comentou que tinha um filho "perfeito para mim" e senti muita vontade de
conhecê-lo. Apesar disso, tive a sensação de que nunca mais conseguiria me
desgrudar daquela cadeira e minha voz continuou a dizer não.
A minha recusa deixou meu pai irritado e ele estava a ponto de me obrigar
quando o viúvo fez um gesto estranho, não sei se com a cabeça ou com as
mãos, e todos, incluindo meu pai, se calaram. Fez-se um silêncio incômodo.
Quando meu corpo voltou ao normal, fiquei arrependida e não fui capaz
de entender por que não aceitara viajar. O jantar terminou sem novidades e
voltamos para casa mais cedo do que o esperado.
No dia seguinte, ao saber que o grupo tinha deixado o Brasil sem assinar o
contrato, tive uma crise de choro, acompanhada de um estranhíssimo
sentimento de culpa.
***
Nunca consegui entender minha reação e, naquela noite, achei que o Cesar
poderia me ajudar. Por isso, enquanto ele devorava o peixe cru, sem medo da
epidemia de cólera, comecei a contar:
- Quando eu tinha seis anos de idade... Imediatamente, ele parou de
comer e olhou para mim com o cenho franzido. Dava a impressão de ter se
lembrado de algo importante:
- Nesta época você foi... não, não é possível... será?... não, você devia ser
muito criança...
Fiquei tão animada com aquela quase recordação que esqueci os
mexicanos. O presente era muito mais importante:
- Foi aonde?
Aguardei sua resposta tremendo de ansiedade e quando ele desistiu, tentei
forçá-lo a falar.
- Não. Não é possível que fosse você... a nossa diferença de idade é
muito grande... - suspirou. - Naquela época você era pequena demais... talvez
nem tivesse nascido!
Foi então que suspeitei que ele fosse um aprendiz. Não um enviado, mas
alguém como eu. Cheio de suspeitas também. Tateando. Vai ver a gente até já
tinha se encontrado em outro estado de consciência... Isso mesmo!... Desde a
primeira vez no aeroporto, ele me pareceu conhecido!...
Minha fantasia voou. Cesar e eu seríamos dois companheiros, como
Castañeda e La Gorda. Estávamos nos encontrando agora, depois de um
longo aprendizado, no estado de consciência intensificada!
Fiquei tão contente com esta hipótese que nem percebi que ele me
desviara do assunto dos mexicanos. Quando dei por mim, ele estava me
observando inquiridoramente.
- No que você estava pensando?
- Acho que nós dois estamos sendo treinados juntos. Pensei que ele
também ficaria satisfeito, mas seu rosto se tornou pétreo e os olhos, frios.
Com a voz dura e pausada, proferiu o que me pareceu uma sentença de morte:
- Você sabe muito bem que está sendo treinada para outro homem!
Senti um medo espantoso. Havia uma ameaça implícita no que ele estava
dizendo. Eu não podia entender, só podia sentir.
- Mas eu quero você!
Minha voz soou tão estranha que tive impressão de ter gritado. Lutando
para controlar as lágrimas, implorei que ele ficasse comigo.
Não deu atenção às minhas palavras. Manteve os olhos fixos em mim com
aquela expressão férrea que tanto me assustava e, quando falou, foi com voz
severa:
- Você sabe muito bem que eu sou somente uma fase que você precisa
ultrapassar.
Meu corpo parecia um bloco de gelo. A testa porejava de suor. Com voz
estridente, perguntei por que ele dissera isso. Ele pareceu surpreso e com o
mesmo ar terno de todo o jantar perguntou "isso, o quê?".
- Que você é uma fase que eu tenho que ultrapassar.
- Eu não disse isso.
Não insisti, mas sabia que ele tinha dito. Tive, ao mesmo tempo, a
sensação de que esta cena não me era estranha, mas não fui capaz de
identificar de onde a conhecia.
***

O pânico desapareceu, de repente, e, quando o jantar terminou, eu já


estava calma. Tinha a sensação de estar bêbada, de tão relaxada.
Sorrindo alegremente ele comentou que na próxima vez que viesse ao
Brasil, gostaria de voltar àquele restaurante e fiquei imensamente feliz por
saber que haveria uma próxima vez.
Antes de sairmos ele informou que não poderia me encontrar no dia
seguinte. Tive certeza que estava testando a minha antiga neurose do sábado à
noite e respondi que eu tampouco estaria livre. Teria que buscar minha filha e
duas amigas à meia-noite no teatro e depois todas dormiriam na minha casa.
Ele sorriu com ternura aprovando a minha resposta:
- Então, nos veremos no domingo.
Fiquei contente e, pela primeira vez, não tive medo que ele faltasse.
***

No caminho para a minha casa, ele tocou minhas costas e senti uma
espécie de tontura. Pensei que talvez o meu estado de consciência tivesse sido
alterado, mas estava sem relógio para conferir.
Chegamos. Antes que eu me sentasse no sofá da sala, ele foi direto para o
quarto. Tirou a roupa com tal velocidade que já estava nu quando cheguei na
porta. Aquela urgência me assustou e fiz todo o possível para evitar uma
relação sexual. Não adiantou. Não sei se ele não percebeu ou dissimulou
muito bem, o fato é que assim que me deitei ao seu lado, seu abraço me
sufocou.
Foi uma relação tão crua e desagradável que tive a sensação de estar sendo
punida. Com destreza ele me girou para todos os lados e, de repente, eu estava
de bruços.
Fiquei literalmente aterrorizada com aquela posição. Foi um terror surdo
que escureceu minha visão e toldou meus pensamentos.
Incapaz de me virar, não porque ele estivesse me prendendo, mas por
alguma razão incompreensível, implorei com voz infantil:
- Tenho medo, Cesar!
- Não precisa ter medo, mi amor...
- Por favor!
- Por favor digo eu, mi amor - a voz autoritária. - Diga que sim!
Não sei o que me impeliu a concordar. Foi uma sensação de impotência,
como se aquilo fosse tão inexorável quanto a morte. Com a sensação de estar
caminhando para o cadafalso, assenti com voz sumida.
Sempre com aquela expressão de urgência no rosto, ele pulou
desastradamente em cima de mim. Perdeu o equilíbrio e, para não cair,
apoiou-se nas minhas costas. Pedi que me deixasse respirar, mas ele não me
escutou. Parecia louco de paixão. Na iminência de uma crise de asma, fiz um
esforço muito grande e levantei o tórax. Com as mãos entre as minhas
omoplatas, ele me empurrou de volta. Parecia de propósito. A asma bloqueou
meus pulmões. Uma cortina de fumaça cobriu meus olhos e tive a sensação de
estar perdendo a consciência. Lembrei-me que não era a primeira vez que
aquilo acontecia, mas não consegui descobrir quando ou onde foram as outras
vezes. Uma onda de raiva profunda me sacudiu e senti uma força que não
sabia possuir. Com um safanão violento, atirei-o no chão.
Só então ele pareceu perceber o meu mal-estar. Levantou-se surpreso do
tapete e desculpou-se com voz mansa. Não tinha se dado conta que estava me
machucando. Com ar arrependido e cheio de palavras de autocensura, pediu
para deitar-se, outra vez, ao meu lado. Concordei, mas a minha raiva era tão
grande que fiquei de costas. Senti sua mão acariciar suavemente as minhas
omoplatas e, achando que era um pedido de desculpas, comentei que era um
carinho muito agradável. Adormeci.
Acordei aos gritos, no meio da noite. Não eram gritos comuns. Eram
urros de pavor. Não me lembro de ter gritado assim antes. Uma luz muito
clara cegava meus olhos e eu não sabia onde estava. Lutei para acordar
completamente e recuperar a razão, mas a luz era mais forte do que eu. Fiz
um esforço brutal para encontrar uma explicação plausível para o que estava
acontecendo e então me lembrei de Claudia.
Claudia! Eu me esquecera de ir buscá-la. Tinha marcado um encontro à
meia-noite e a deixara na rua com as amigas. Eu podia imaginá-las, três jovens
paradas na esquina da Brigadeiro Luiz Antonio, abraçadas, morrendo de
medo. Talvez tenha perguntado as horas ou talvez tenha adivinhado. Quatro
horas da manhã. Fiquei desesperada. Como eu podia ser tão egoísta?
Sabia que estava gritando como nunca gritara na vida, mas não conseguia
escutar a minha voz. Tentei me levantar e meu corpo pareceu pesado. Sem
conseguir enxergar por causa da luz que me cegava, reuni todas as minhas
forças e saí da cama. Não consegui ficar em pé. Minhas pernas não me
agüentaram e caí de joelhos. Fiquei ali, ao pé da cama, gritando por socorro.
Devo ter gritado muitas vezes, até perceber uma vibração no ar. Uma
vibração estranha que parecia o prenúncio de um som. Olhei para frente. A
luz continuou me cegando, então percebi que era ela que produzia o som. Era
uma luz sonora.
Encantada com aquela beleza, parei de gritar para ouvi-la. Parecia o
ribombar de um trovão longínquo. Um trovão brilhante. Esforcei-me para
entender o que dizia e percebi um vulto. Estendi as mãos e pedi ajuda. O
trovão ribombou outra vez e, ainda que não tenha escutado suas palavras,
entendi o que me perguntara:
- O que aconteceu?
- Esqueci de ir buscar a Claudia!
A luz respondeu algo que, apesar de não conseguir entender, me
tranqüilizou e ficou reverberando. O som foi tomando forma, a luz foi
tomando forma, o vulto foi tomando forma. Era o Cesar.
Ouvi claramente a sua voz, dizendo sons sem sentido.
- É-a-ma-nhã-que-vo-cê-de-ve-ir-bus-cá-la.
As sílabas ficaram ecoando nos meus ouvidos e percebi que ele as estava
repetindo. Agradecida, esforcei-me por entender. As sílabas foram se
agrupando devagar até que finalmente formaram uma frase completa:
- E amanhã que você deve ir buscá-la.
Eu conhecia todas aquelas palavras, mas era incapaz de entender o seu
significado. Ele as repetiu várias vezes, até minha mente clarear. Só então
percebi o meu engano. Eu devia ir buscá-la no dia seguinte!
O alívio que senti foi tão grande que comecei a rir e não me preocupei em
perguntar o que acontecera. Levantei-me sem esforço e me deitei confortada.
Dormi tão profundamente que não o vi partir.
"YOU DO SOMETHING TO ME"

Atingimos então a grande barreira do pensamento. Temos que lidar com


os conceitos de espaço e tempo, antes que ambos existissem, com o
significado que lhes atribuímos na nossa vida cotidiana. Perante tal questão,
sinto-me como se houvesse sido impelido através de uma grande barreira de
neblina, onde desaparece o mundo familiar.

Sir Bernard Lowell

Levantei contente e disposta a sair para a feira, porém não consegui ficar
em pé, nem dez minutos. Uma súbita exaustão tomou conta de mim e voltei a
dormir. Sonhei que conversava com um homem de voz mansa e ar de profeta.
Passei o dia modorrando e só no meio da tarde foi que me lembrei de ter
feito um escândalo durante a noite. Fora uma cena e tanto! Eu tinha gritado
como uma louca com medo de ter esquecido as meninas na rua e o Cesar
tinha me despertado. Coitado! Devia ter levado um bruta susto!
Passei a tarde um pouquinho envergonhada e, quando ele telefonou, pedi
desculpas:
- Do que você está falando, mi amor!
- Do escândalo de ontem, Cesar, você não se lembra? Silêncio do outro
lado da linha. Nem um som. Nem uma palavra. Por um instante, senti que, ele
estava surpreso. Não. Mais do que surpreso. Chocado, mesmo. Parecia
esperar outra coisa de mim, outra reação.
- Cesar?...
Subitamente ele prorrompeu em gargalhada. Brincou comigo dizendo que
precisara da ajuda de um psiquiatra para se refazer do susto e depois mudou a
voz para um tom preocupado:
- Você está bem?
Tentei explicar o que acontecera, e ele disse que eu não me preocupasse.
Fora uma noite muito boa... muito boa mesmo!
- Você gostou do restaurante japonês?
- Aquela parte também foi boa, mi amor.
- E do que mais você gostou?
- De tudo, mi amor... foi uma noite inesquecível... e para você também,
você vai ver.
Confirmou o nosso encontro para o dia seguinte e suspirei aliviada. No
fundo estava com medo que ele não quisesse mais me ver.
* **

O domingo foi um horror. O dia todo lutando contra a angústia que


ameaçava me engolir. Uma dor pavorosa parada aqui, a dois passos de mim,
de unhas em riste. Pronta para me atacar.
Era a despedida, claro. Só podia ser isso, aquela seria nossa última noite.
Burra! Tinha me deixado levar pela paixão, de novo, e estava sofrendo tanto
quanto na primeira vez. Será que eu nunca ia aprender?
- Vou, sim! - jurei para mim mesma. - Nunca mais vou sofrer por causa
daquele filho da puta!
E, decidida a vencer a dor, passei o dia fora de São Paulo.
* **

Ao chegar em casa, mais calma, escrevi uma carta contando todas as


minhas perplexidades. Falei dos meus medos e das minhas fantasias, mas
sobretudo do meu estranho amor por ele.
Depois, tentei imaginar um programa para aquela noite. Alguma coisa que
nos tirasse de casa e aliviasse o meu sufoco. Não encontrei. De alguma forma
eu sabia que ele não aceitaria passear. O fim da tarde foi todo dedicado a lutar
contra a ansiedade.
- Será que ele vai me dar o cano?
Não. Pontual como sempre, a campainha soou às nove. Esqueci minhas
promessas e corri alegremente para atendê-lo. Ah... o abraço que ele me deu!...
Foi lindo!... Abraço de um homem cheio de saudades... cheio de amor... cheio
de carícias... e com um objeto duro preso na cintura!
- Você está armado? - A raiva explodindo na voz.
- Eu sempre ando armado.
Tive um lapso de pânico e tentei abrir seu paletó para ver o revólver, mas
ele deu risada e o pânico passou sem eu saber como. Percebi seu olhar
indagador e intrigado e, logo depois, sua risada alegre e aprovadora.
Sentou-se com a intimidade de sempre, e eu fiquei em pé, ao seu lado,
sem saber o que fazer. Acendi um cigarro com mãos trêmulas:
- Você não tinha parado de fumar?
- Tinha, mas agora não estou agüentando.
- Não fume, mi amor...
- Você pensa que é fácil?
- Claro que é!
- Você já fumou?
- Muito. Fumava três maços por dia.
- E como conseguiu parar?
Levantou os ombros, murmurando que tinha sido de uma hora para a
outra e pediu que eu me sentasse ao seu lado. Queria conversar sobre a minha
reação da 6a feira. Parecia preocupado.
Mais uma vez pedi desculpas pelo escândalo com a esperança que ele
ficasse chocado outra vez e assim eu pudesse descobrir alguma coisa... alguma
coisa que estava na ponta da língua... era quase clara... quase óbvia. Ele não
me escutou. Passando a mão no queixo, como era seu hábito quando estava
preocupado, disse com voz muito séria:
- Você não está preparada para se separar da Claudia. Senti meu
estômago se contrair de medo, como se aquela frase fosse uma ameaça direta.
- Do que você está falando?
- Que você não está preparada para se separar da Claudia... - fez uma
pausa curta - quando ela se casar.
- Não é isso, Cesar... - O alívio me fez sorrir. - É que ontem nós
conversamos sobre o que eu faria se o Castaneda aparecesse, lembra? E eu
disse que iria com ele para o México. Pois é... acho que é para isso que ainda
não estou preparada.
Achei que tinha me safado bem da acusação. Esperei um sorriso ou um
pedido de desculpas, mas, contra todas as minhas expectativas, ele pareceu
mais preocupado, ainda.
- Que pena, mi amor... que pena!
Tive vontade de rir. Antes que eu pudesse perguntar o porquê daquela
reação estapafúrdia, minha cabeça parou de funcionar. Fiquei lá, não sei por
quanto tempo, incapaz de qualquer interpretação, enquanto ele torcia as mãos,
cabisbaixo, murmurando palavras ininteligíveis de planos desfeitos.
Meus olhos registraram a tensão das suas costas e a força com que ele
apertava as próprias mãos, sem que eu sentisse sequer curiosidade ou
preocupação. Só voltei a raciocinar quando ele deu um suspiro profundo e
ergueu a cabeça. Não havia dor ou tristeza naquele suspiro.
- A sua filha está precisando muito de você, Ana. Imediatamente, meus
pensamentos voltaram e com eles uma raiva ensurdecedora. Não fui capaz de
entender por que me senti tão ameaçada e, apesar de saber que, realmente,
havia alguma coisa errada com Claudia, me recusei a continuar a conversa.
Permaneci num silêncio obstinado e ele não me forçou, ao contrário,
recostou-se no sofá e mudou de assunto:
- Como você passou o domingo?
Com a mesma velocidade que veio, a raiva passou. Varri da lembrança a
confusão dos últimos minutos e comentei que tinha escrito uma carta.
- Tinha me esquecido, Cesar... Espera um pouquinho que eu já vou
pegar.
- Não precisa, mi amor.
- Como não? É para você!
Apanhei a carta, voando, na esperança de que ele a lesse imediatamente,
mas que nada!... O grosso tirou o papel das minhas mãos e deixou-o em cima
da mesa sem fazer qualquer comentário. Fiquei ao mesmo tempo ofendida e
excitada. Parecia uma atitude íntima, conhecida mesmo, esperada até. Onde eu
já tinha visto uma cena parecida? Ah, que besteira!...
- Você não vai ler?! Puxa vida! É tão importante... por favor, leia... é bem
curtinha.
Pegou a folha de cima da mesa e passou os olhos rapidamente pelo papel.
Leitura dinâmica, nada. Era falta de interesse mesmo!
- Você deve escrever sempre, Ana, escrever é muito bom.
Disse isso com voz grave, parecendo muito sério e compenetrado.
Ocorreu-me o pensamento fugidio que ele sabia do que estava falando, pois
escrevera todas as suas experiências. Porém, antes que eu me desse conta do
que tinha pensado, recebi um beijo apaixonado e esqueci de me lembrar.
Retribuí o beijo com alegria e propus:
- Vamos até à nossa praia amanhã?
- Um dia nós voltaremos lá, Ana, mas ainda não é o momento.
- Então vamos ao México juntos?
- Ainda é muito cedo para isso também.
Tranqüila com tantas demonstrações de que haveria uma próxima vez, me
preparei para retribuir o novo beijo que nascia na sua boca, mas parei no meio
do caminho. Não era um beijo.
Devagar, ele estendeu os lábios até o limite máximo, como se pretendesse
beijar alguma coisa intangível. Ficou assim nesta posição por um longo
momento, até que começou a relaxar imperceptivelmente. Dava a impressão
de controlar cada fibra do rosto. Depois, começou a sorrir. Primeiro a sombra
de um sorriso. Logo um sorriso aberto que foi se alargando, alargando até a
cara ficar toda arreganhada. Fez mais uma pausa comprida e voltou mais
lentamente ainda à posição normal.
Quando tudo terminou, ele estava relaxado e eu muda. Não fui capaz de
entender por que aquele gesto me deixou tão perplexa. Foi ele que quebrou o
silêncio:
- Conte-me sobre seu último namorado, Ana...
- Está com ciúmes agora?
Soltou uma gargalhada divertida e deu de ombros sem se importar com as
minhas palavras:
- Por que é que não deu certo?
Manteve os olhos postos em mim, enquanto eu procurava uma resposta
convincente. A minha primeira vontade foi contar o quanto aquele sujeito era
desagradável, chato e egocêntrico, mas percebi a tempo que assim ficaria ainda
mais difícil explicar por que aceitara seu pedido. Revi uma a uma todas as
nossas intermináveis discussões e naquele momento cheguei à conclusão que
o nosso maior problema tinha sido o excesso de ciúmes.
- Não, Ana, você não é ciumenta.
Eu não sabia, na época, que "pegava" os sentimentos dos outros. Na
verdade, não sabia sequer que isto era possível. No decorrer da minha vida,
senti ciúmes de homens ciumentos, raiva de pessoas coléricas e tristezas
inexplicadas ao lado de pessoas tristes, mas nunca me dei conta que podia
sentir o sentimento alheio.
- Deixa p'ra lá, mi amor... o importante é que agora estamos juntos... eu
teria sofrido muito se você tivesse se casado.
Disse e esqueceu o assunto. Me abraçou com força, brincou com a minha
cachorra, comentando que ela era muito inteligente, uma cachorra muito
especial mesmo, fez piadas indecentes mescladas com uma centena de
palavrões, voltou a me beijar várias vezes, relaxado e satisfeito, e, de repente,
deu um tapa na testa:
- Puta merda!... Esqueci uma coisa importante... posso usar o telefone?
- Claro... está lá em cima do bar.
Levantou-se. Pegou o aparelho e sentou-se ao meu lado, outra vez, cheio
de sorrisos. Ligou para um certo Jacques e chamou-o de mi amor. Tratou-o
com carinho e alegria. Sim, estava no Brasil. Não, estava em uma reunião
demorada. Amanhã mesmo iria embora. É uma pena mesmo... Verdade?...
Conte-me tudo!
Escutou pacientemente por um longo tempo, sacudindo a cabeça de vez
em quando.
- Onde você está morando?
Repetiu o nome do bairro e apontou com o queixo na direção. Era
próximo da minha casa e tive certeza que procuraria esta pessoa quando
"fosse embora" para mim. Sufoquei um começo de sofrimento e tentei não
me preocupar. Quando ele desligou, comentei em tom de brincadeira:
- Nunca mais vou acreditar quando você disser que está em uma reunião.
Intrigado, ele observou o meu rosto, meu corpo, o espaço à minha volta.
De repente, soltou uma gargalhada e emendou com uma pergunta em tom de
alegre cumplicidade:
- E o Castaneda, mulher, afinal apareceu?
Foi a primeira vez que ele me chamou de mulher e gostei do tratamento.
Tentei esconder minha decepção ao confessar que não, Castaneda não viera
me visitar.
- Já desisti, Cesar. Acho que o Caminho do Guerreiro não é pra mim,
mesmo.
Captei uma rápida apreensão no seu olhar, antes que ele se levantasse e
fosse até à estante. Devagar, escolheu um livro, abriu e começou a folhear. De
repente, sem olhar para mim, perguntou, com ar displicente:
- Sabe aquele meu amigo?
- Qual?
- Aquele que conhece o Castaneda?
Foi como se um machado me tivesse partido ao meio! Jorrou de dentro de
mim uma raiva imensa. Aquele desgraçado tinha um amigo que conhecia o
Castaneda e nunca me dissera. Filho da puta!
Meu sangue ferveu. Pulei do sofá e gritei com as mãos na cintura, em pose
de cobrança:
- Você tem um amigo que conhece o Carlos Castaneda? -Quase dei um
soco nele. - E nunca me disse?
Lentamente, ele tirou os olhos do livro e respondeu com calma. "Claro
que disse, Ana... mais de uma vez." Parecia tão tranqüilo e seguro que titubeei.
Teria mesmo dito? Não. Eu não poderia ter esquecido. Aquele canalha estava
tentando me enganar.
- Cesar - eu tentei me controlar -, quando nos conhecemos, você nem
sabia quem era o Carlos Castaneda!
- Ah, isso foi antes. - E sacudiu a mão para trás. - Depois eu lhe contei
que o conhecia.
A frase explodiu dentro da minha cabeça e minha vista escureceu
completamente. Fiquei paralisada com o esforço de entender suas últimas
palavras. Quando minha voz finalmente reapareceu, parecia um trovão:
- Você conhece o Carlos Castaneda? - ordenei. - Diga!... Você conhece
pessoalmente o Carlos Castaneda ou tem um amigo que o conhece?
Ele folheou o livro até o fim e só então respondeu com ar de enfado que
eu sabia muito bem que ele tinha um amigo que conhecia o Castaneda. Aquela
demora me deixou alucinada.
- Claro que não sei, porra, você nunca disse.
- Disse, sim, Ana... vai ver que você se esqueceu.
Fiquei possessa. A raiva eriçou meus cabelos. Ele estava farto de saber que
eu jamais esqueceria algo tão importante. Chamei-o de idiota, mas ele
permaneceu inalterado.
De repente, percebi que estava sendo grosseira, enquanto ele continuava
calmo e educado como sempre. Arrependida, respirei fundo até controlar a
voz:
- Onde vive seu amigo?
Ele fechou o livro e perguntou com ar de estranheza:
- Que amigo?
Não sei como dominei a nova onda de cólera que me invadiu. Tentei
descobrir se ele estava sendo sarcástico, mas não consegui raciocinar com
clareza.
- O tal que conhece o Castaneda.
- Ele é alemão.
- Eles se conhecem bem ou só se viram uma vez?
- Eles se vêem com muita freqüência.
Fiquei bem animada e perguntei se o tal amigo entregaria uma carta
minha. "Creio que sim", respondeu, sacudindo os ombros, sem muito
interesse. Fiquei mais contente ainda e pedi o endereço.
- Pode me dar a carta que eu a entregarei.
- Você vai para a Alemanha?
- Nós vamos nos encontrar.
- Onde?
- Por aí. - Apontou com o nariz para o alto e repetiu: -Por aí.
Fiquei profundamente decepcionada e desisti de escrever. Sentei-me, mas
ele continuou em pé no mesmo lugar:
- Por que você diz Carlos Castaneda e não Carlos Castanheda?
- Porque o correto é Castaneda mesmo.
- É que a letra "ñ" só existe em espanhol.
Novamente a irritação tomou conta de mim. Em pé e exaltada,
argumentei que comprara todos os livros no México e a grafia era a mesma,
mas ele continuou meneando a cabeça, sem se deixar convencer.
- Além disso - gritei -, ele mesmo disse Carlos Castaneda no telefone
aquela vez.
Suas sobrancelhas se levantaram e ele aprovou com a cabeça:
- Está certo, Ana... isso mesmo!
Parecia tão satisfeito que a minha razão começou a sair daquele torpor de
Bela adormecida e tentou pensar. Por que aquele ar satisfeito? Com que
direito ele me aprovava? Como é que podia saber o que o Castaneda me
dissera ao telefone?
Não havia as vozes de sempre na minha cabeça. Só a razão crescendo na
desconfiança de que talvez ele estivesse me dando uma dica... um sinal...
talvez, afinal de contas, eu não fosse tão louca... bem que ele podia ser o
Carlos Castaneda... e, pela primeira vez, pensei em perguntar. Será que eu teria
coragem? Não. Sim. Não.
Enquanto eu lutava contra a vergonha de fazer uma pergunta tão louca,
ele permaneceu em pé na minha frente, olhando para mim em silêncio.
Porém, no momento em que finalmente me decidi e tomei ar para falar, me
interrompeu com voz grave:
- Você não deve pensar que eu seja o Carlos Castañeda, Ana... seria um
erro... e um erro perigoso.
Por alguma razão, o fato dele negar aumentou a minha desconfiança e,
por um instante, tive certeza que ele estava mentindo. Porém, ouvi uma
gargalhada estranha e me esqueci do que estava pensando.
Sem comentários, ele voltou a sentar ao meu lado e fizemos um longo e
silencioso intervalo.
***

De repente, percebi que fazia muito tempo que eu estava olhando para o
chão. Muito tempo mesmo. Levantei a cabeça para puxar assunto e fiquei
completamente paralisada. Seu rosto tinha uma expressão assustadora.
Sentado ereto no sofá, com o corpo petrificado, ele parecia uma estátua
esculpida em pedra. Todos os seus músculos estavam rígidos. Não havia
respiração ou qualquer tipo de pulsação nele. Só uma força tremenda.
Sem mover um músculo e mantendo os dentes cerrados, ele girou o corpo
devagar e me encarou. Senti meu sangue se congelar. Seus olhos emitiam uma
intensa luz amarela. Uma luz maldosa e fulgurante que me atravessou a alma e
me inundou de terror. Imediatamente, desviei o rosto e voltei a olhar para o
chão. Quando finalmente consegui erguer os olhos, ele já estava no seu estado
normal e varri a cena da lembrança.
- Vamos para o seu quarto?
Sua voz não conseguiu me tirar totalmente daquela sensação de devaneio.
Minha cabeça continuava cheia de bruma e não consegui entender suas
palavras. Quando dei por mim, ele já tinha saído da sala e estava parado no
corredor. Encontrei-o em frente à estante com um livro na mão. Parecia
muito satisfeito:
- Você seguiu meu conselho, Ana... é bom saber que você foi procurar a
Antroposofia.
Senti tanta raiva dele naquele momento que a bruma desapareceu
imediatamente. Na verdade eu não sabia por que tinha procurado a
Antroposofia, mas não podia aceitar que tivesse sido por sua causa.
- Que conselho seu, que nada, Cesar... você nunca me falou da
Antroposofia!
- Você não se lembra, mi amor!... Falei sim... Recomendei os livros do
Rudolf Steiner e até comentei que essa gente está fazendo um trabalho muito
sério...
- Deixe de ser idiota - explodi. - Eu conheço a Antroposofia há mais de
dez anos!
E, antes que ele dissesse mais alguma coisa, empinei o nariz e saí pisando
duro. Como sempre, ele não respondeu. Foi andando, devagar, até o quarto,
parou ao lado da cama e tirou o paletó com cuidado como se estivesse
envolvendo alguma coisa. Lembrei-me do revólver e, naquele exato momento,
soube que não havia arma alguma. A raiva passou, e, quando ele se deitou ao
meu lado, eu já estava alegre, de novo.
- Estou com muita dor no joelho, mi amor, me faz uma massagem?
Seu corpo estava quente e a pele oleosa. Enquanto fazia a massagem,
tentei me transformar em Jesus, mas não fui bem-sucedida. Parei no meio do
caminho, metade homem, metade mulher. Seus olhos me acompanharam,
como se ele pudesse ver a modificação que estava ocorrendo dentro de mim
e, mesmo depois que a massagem terminou, continuaram intrigados.
- Passou a dor?
- Sim, mi amor - disse com voz exagerada -, estou ótimo. Disse e me
puxou para perto, pronto para me abraçar. Mas como eu não queria fazer
amor, comecei a conversar:
- Quantos anos você tem?
- Cinqüenta.
Soltou uma gargalhada divertida, deixando claro que estava mentindo e
repetiu: Cinqüenta.
- Fala a verdade, quantos anos você tem?
- Já disse na última vez, Ana, cinqüenta e oito anos.
- Então responda rápido: em que ano você nasceu?
Com ar de troça ele fingiu que estava contando nos dedos e disse:
- 1925... não, 1935!
- Então você teria cinqüenta e cinco ou sessenta e cinco, Cesar, não
cinqüenta e oito.
Soltou outra gargalhada e não respondeu. Tive uma estranha sensação de
vitória. De alguma forma, o fato dele ser tão mais velho parecia uma doce
vingança. Seus olhos acompanhavam todos os meus sentimentos e ele parecia
estar se divertindo muito. Depois, fez um ar de falso bravo e perguntou
solenemente:
- Quantos anos você pensa que o Castañeda tem?
Que bonitinho! Comparando-se com o Castañeda para que eu não o
achasse muito velho para mim!... Evitei comentar que o Castañeda podia ter a
idade que fosse, pois era um mestre, não um homem para paquerar, e
respondi:
- Uns sessenta.
- Está certo, Ana... então, por que você pergunta?
- Quero saber a sua idade, Cesar, não a dele... Em que dia você faz anos?
Respondeu tão depressa que não consegui entender se era dois ou doze de
outubro, palavras muito semelhantes em espanhol. Dei risada e pedi que
repetisse, mas, com a fisionomia subitamente endurecida, ele se recusou.
Depois, como se tivesse ficado subitamente muito bravo, falou baixinho, com
o maxilar cerrado:
- Deixe de besteiras, Ana!
O tom de voz não admitia réplica. Senti um medo imenso daquela força e
imediatamente me levantei da cama. Três minutos depois, já tinha esquecido a
cena e voltei do banheiro cantando:

"You do something to me
Something that simply mystifies me
Tell me what should it be
You have the power to hypnotize me
Let me live in your spell
Do that voodoo that you do so well
For you do something to me
That nobody else can do."

- Está muito bom, Ana... muito bom mesmo. Canta outra vez?
Repeti a canção e logo começamos a fazer amor. Rapidamente, toda a
minha alegria desapareceu. Tentei alcançar o orgasmo, mas, de alguma forma,
ele conseguiu evitar. Fiquei enjoada de ansiedade. A ansiedade se transformou
em angústia. A angústia em irritação. A irritação em fadiga. Parecia que fazia
horas que estávamos lutando.
De repente, ele me soltou. Sentou-se ao meu lado, naquela pose de
sentinela, e ordenou com voz autoritária:
- Vira de bruços!
Imediatamente comecei a chorar - Eu não quero, mi amor... por favor.
- Não aceito um não como resposta.
- Por que você insiste?
- Você sabe muito bem por que.
- Não sei, não.
- Claro que sabe, Ana!
- Então vamos deixar p'ra depois.
- Para que adiar? - A voz dura. - Você sabe que tem que acontecer... não
adianta fugir.
Parecia tão determinado que desisti de argumentar. Febril, ele se deitou
sobre mim e se apoiou nas minhas costas. Tentei dizer "assim eu não posso
respirar", mas não foi possível. Procurei, então, mudar de posição e a pressão
aumentou. Era mesmo de propósito. A lembrança de que um dia ele pensara
em me matar me levou à beira do pânico e perdi um minuto precioso. Com
muito esforço, consegui erguer o dorso. Ele me empurrou de volta com
violência. Desesperada, tentei jogá-lo no chão, como da outra vez. Ele
prendeu as minhas pernas. Não admiti que estava vencida e procurei usar os
cotovelos. Sem tirar as mãos das minhas costas, ele imobilizou meus braços.
Comecei a me debater freneticamente. Então ele soltou todo seu peso em
cima dos meus pulmões.
Senti que ia explodir e parei de respirar. Uma nuvem de fumaça me
envolveu e desapareceu. Tive a vaga sensação de estar em um lugar amarelo,
onde havia um homem de túnica e barba branca. Tentei forçar a respiração.
Meus pulmões estavam bloqueados. Fiquei desesperada. O desespero me deu
uma força imensa. Com um impulso violento livrei-me dele e vi, como se
fosse uma tela de cinema, eu mesma sendo impelida através de uma cortina de
fumaça e caindo no chão do mundo.
A partir deste momento, as minhas lembranças são bastante confusas.
Lembro de ter corrido para o banheiro, onde tive uma crise de choro
convulso. A raiva que eu sentia era tão grande que, enquanto chorava, eu
esmurrava a porta e gritava todos os palavrões que conhecia. Lembro,
também, da sensação de estar impedida de voltar para o quarto. Não por
medo, mas por sentir que "ele" não queria que eu voltasse. Esta sensação me
deu mais raiva ainda e não sei quanto tempo chorei e esmurrei aquela porta,
até me sentir tão cansada que não podia mais levantar o braço. Só então saí do
banheiro e me joguei pesadamente na cama.
Porém, em algum momento que não sei se foi anterior ou posterior a esta
cena, lembro também de estar em pé ao seu lado, próxima à janela. Uma luz
estranha me envolvia e, apesar de não poder enxergar, podia ouvir a sua voz:
- Diga que me ama, Ana.
Não era um pedido, e sim uma ordem. Não obedeci. Não foi por raiva, foi
por birra mesmo.
- Diga que me ama, Ana, por favor.
Percebi que era importante e, quanto mais ele repetia, mais eu me decidia
a ficar calada.
- Vamos, Ana, não temos muito tempo... se você não falar, vai estragar
tudo!
Havia um tom de urgência tão grande em sua voz que mudei de idéia.
Tentei falar, mas a luz que me envolvia parecia uma parede de massa de pão e
desisti.
- Vamos, Ana... não desista... você precisa falar... é muito importante...
força, mulher... agora... diga que me ama...
Senti uma bola crescer no meu estômago, e a massa de pão ao meu redor
vibrou de maneira estranha.
- Eu te amo. - A minha voz parecia um eco.
- Muito bem... repita.
- Eu te amo.
- De novo... vamos!
- Eu te amo.
- Mais uma vez, rápido!
- Eu te amo. - A cada vez que eu repetia, minha mente clareava.
- Mais alto, mi amor, mais forte.
Fiz um esforço para a voz sair bem forte e quando gritei "Eu te amo", o
rosto do Cesar apareceu sorrindo na minha frente.
- Perfeito, mi amor... perfeito... você é ótima!... - Estendeu o braço na
minha direção. - Esta vez foi bem melhor do que a outra.
Não sabia do que ele estava falando e não queria saber. Caminhei devagar
até à cama e adormeci.
***

Acordei às 5 da manhã enquanto ele se vestia apressado. A cabeça girava:


- Vou com você até a porta.
- Não precisa, mi amor... Fica na cama.
Não. Aquela seria a nossa despedida e eu precisava aproveitar todos os
momentos. Tentei me levantar e fiquei ofegante com o esforço. Então, ainda
com a mente empanada e sem me dar conta do que estava fazendo, lutei
contra uma força interna que tentava me impedir e repeti o que ouvira do
velhinho, há tanto tempo atrás, no espelho:
- Você está preso às palavras de um velho índio e precisa se libertar.
A risada que quase apareceu em seus lábios foi substituída por um
engasgo. Seu rosto adquiriu um ar carrancudo. Sua voz se tornou severa:
- Não tenho tempo para conversas. Estou atrasado.
Fiquei imediatamente arrependida das minhas palavras e saltei da cama
para acompanhá-lo. Minha cachorrinha, Cleópatra, levantou-se também e foi
atrás de nós. Ao vê-la, ele pareceu esquecer a pressa. Fixou nela os olhos
pensativos e comentou com voz grave:
- Esta cachorra esteve conosco em todos os lugares. Todos! Parecia algo
tão banal e corriqueiro que não prestei atenção.
Estava acostumada a vê-la atrás de mim, onde quer que eu fosse.
Quando chegamos no vestíbulo, a minha ansiedade era tão grande que
não consegui me controlar. Mesmo sabendo que não devia fazê-lo, pedi que
ele ficasse pelo menos mais um dia. A sua resposta foi um "talvez"
acompanhado de um muxoxo de desagrado. Faria o possível.
Não era verdade. Tive a dolorosa certeza que ele continuaria no Brasil,
porém não viria mais à minha casa. Tive também a sensação de que ele estava
muito decepcionado comigo.
Lutando para controlar o choro, perguntei quando nos veríamos de novo.
O seu rosto se contorceu de raiva e ele respondeu em tom de acusação:
- Você sabe muito bem a resposta, Ana, por que pergunta? Fiquei tão
chocada que não soube o que dizer. Antes que eu tivesse tempo de me
refazer, comecei a me dobrar. E isso mesmo. Uma força muito forte puxou o
meu corpo para baixo e comecei a cair, como se o meu peito estivesse sendo
atraído pela força da gravidade. Lembro de ver o tapete se aproximando e só
então me dar conta que ia me estatelar no chão.
Numa fração de segundo, deduzi que a única forma de evitar a queda era
me ajoelhar. Rapidamente, dobrei os joelhos e fiquei na posição de noivo que
pede a noiva em casamento. Envergonhada por aquela estranha posição, fiz
de conta que tinha abaixado para amarrar seus sapatos.
Por alguma razão, eu não podia olhar para cima. Mesmo assim, tive
certeza que ele ia tentar me impedir. Com presteza, agarrei os cordões e, antes
que ele pudesse tirar o pé, dei um laço rápido. Tive um instantâneo
sentimento de vitória que durou muito pouco. Uma onda de desaprovação
veio lá de cima e senti, ainda que não pudesse levantar a cabeça para conferir,
que ele estava ofendido com a minha atitude.
Seus pés se moveram, ansiosos para partir. Angustiada e em pânico, fiquei
em pé num pulo e tentei abraçá-lo. Com ar enfastiado, ele se virou e
desapareceu tão rapidamente que não tive tempo de vê-lo passar pela porta!
Soltei um grito de pavor.
PERDIDA NAS DÚVIDAS

O que será, que será? Que dá dentro da gente que não devia? Que
desacata a gente à revelia? Que é feito uma aguardente que não sacia?
Chico Buarque

O dia seguinte me encontra infeliz e angustiada. Só o Chico Buarque para


contar o que sinto. É uma agonia que me queima por dentro, me perturba o
sono e me faz chorar. Um desejo que não tem remédio. Uma tristeza que não
tem tamanho.
Ulisses tenta me ajudar. Procura me fazer lembrar tudo que aconteceu.
Não posso. Minha memória está empanada. Lembro somente alguns
fragmentos. Conto do revólver escondido.
- Criminosos não andam com a arma na cintura - argumenta. -
Escondem no tornozelo ou nas costas. Ele só estava testando o seu medo.
- Por que ele viria aqui só para me treinar?
- E por que você pensa que é a única? Ele não tem amigos aqui? Não
costuma telefonar para alguém quando está na sua casa?
- Só uma vez...
- Para quem?
Meu estômago se contorce e me dou conta que aquele telefonema foi para
uma mulher, não para um homem. Não era Jacques, era Jackie! Minha voz
treme ao relatar a cena:
- Viu? - Meu amigo tinha um ar de vitória. - Ele estava testando você de
novo. Desta vez, os seus ciúmes. Ele só pode ser o Carlos Castaneda!
Desato num choro sentido. O Cesar não pode ter me enganado desse
jeito!... Não é possível que tudo tenha sido mentira... todos seus beijos, todos
nossos momentos de amor!
- O que está acontecendo, Ana?
- Não sei - respondo enxugando as lágrimas. - Acho que tive uma crise
de ciúmes.
- Eu acho que você está é com medo.
- Medo de quê?
- Que ele seja mesmo o Carlos Castañeda.
- Imagina, Uli - Já estou tranqüila de novo. - Isso seria impossível!
***
Desperto no meio da noite com um sonho estranho: Cesar e eu envoltos
por uma luz dourada. Tocando as auras das nossas mãos. Um sentimento
muito forte de doçura e amor. Um tipo especial de amor, sem paixão. A
estranheza não estava no conteúdo, mas na forma do sonho. Era muito nítido
e com cores fortes. Parecia mais um filme que um sonho.
Pela manhã, vou trabalhar. No carro, pergunto a verdade ao meu corpo.
Penso: "O Cesar É o Carlos Castañeda". Meu corpo se acalma. Então, penso:
"O Cesar NÃO É o Carlos Castañeda". Sinto muita agitação e mal-estar.
Não posso acreditar na resposta e, ao mesmo tempo, já não tenho mais
condições de enfrentar meus alunos. Dou meia-volta com o carro e vou para
casa. Mais tarde, inventarei uma desculpa qualquer.
Passo a tarde encolhida no sofá, incapaz de interpretar meus sentimentos.
Não é desespero, agonia ou depressão. É uma sensação de perda de algo que
nunca foi meu. Uma tristeza dolorida e profunda que me deixa suspensa no
infinito.
Na noite seguinte, outro filme: além do Cesar, estavam mais dois homens
e uma mulher. Um dos homens era só um vulto e a mulher me pareceu
conhecida. Tinha uns 55 anos, cabelo negro e pele morena. Faziam de conta
que não tinham percebido a minha presença, mas eu sabia que estavam
fingindo. Falavam de uma viagem que todos fariam e, enquanto conversavam,
me olhavam de esguelha, observando as minhas reações. Soube, então, que se
começasse a sofrer com a despedida, eu nunca mais os veria. Não adiantava
fingir que não estava sofrendo. Eles saberiam que era fingimento. Eu tinha
mesmo era que controlar a dor.
Lutei para me sentir bem. Quando consegui, senti que tinha sido aceita
pelo grupo. Então, os outros saíram e fiquei sozinha com o Cesar e o "vulto".
O "vulto" de cabelo negro era alto e forte. Estava de costas para mim e
tudo que pude observar foi que trajava um terno cinza muito bem cortado.
Não cheguei a ver seu rosto. Quando pensei que íamos conversar, ele saiu da
sala sem se virar. Então, o Cesar e eu ficamos sós e tentamos fazer amor, mas
não foi possível.
***

A angústia cresce a cada momento. Para piorar, Claudia está cada vez mais
nervosa e me agride constantemente. Percebo que ela está sendo jogada
contra mim. Não tem nada a ver com o Cesar. Minha filha está nas mãos de
uma pessoa paranóica e revoltada. Cheia de remorso por não ter lhe dado
atenção, tento uma conversa franca. Já é muito tarde. Claudia está cega de
ódio por mim.
O terceiro dia nasce em meio a ofensas e discussões. No meio da tarde,
decido seguir o conselho de Joana e escrevo uma carta ao Lama, implorando a
sua ajuda. Vou até o correio e envio a carta para a Índia. Na volta, Claudia está
pior.
Sento ao seu lado na cama e ela se vira contra mim, cheia de um furor
histérico. De repente, tenho a sensação de estar assistindo a cena, parada na
soleira da porta. Vejo minha filha de joelhos, me atacando, e eu mesma,
sentada ao seu lado, completamente imóvel.
Assustada, vou para o meu quarto e me atiro na cama aos prantos.
De repente, alguma coisa chama a minha atenção. Alguém está abrindo a
porta. Penso que é Claudia, querendo fazer as pazes e me viro para recebê-la.
Não consigo entender o que está acontecendo: na porta do meu quarto, está
um homem vestido de blusa dourada e manto vermelho. Parece conhecido,
mas não consigo identificá-lo. O homem entra, devagarinho, seguido por uma
fila de vultos diáfanos. Não sei quem são.
Os vultos entram deslizando e chegam até a beira da minha cama. Só
então os reconheço: é o mesmo Lama para quem eu acabei de escrever! Vem
acompanhado pelos meus parentes mortos.
Agora posso identificá-los, um a um. Vejo minha avó, alguns tios e uma
tia que me foi muito querida!
Formam um círculo ao meu redor e começam a fazer um som muito
relaxante. O som, que se parece à sílaba OM, entra pela minha pele e toma
conta de mim. Relaxo. Minha tia faz carinho na minha cabeça e diz palavras
inaudíveis de consolo. Tranqüila, adormeço profundamente.
***

Acordo sabendo exatamente o que devo fazer. Assumo a responsabilidade


de proteger a minha filha e encontro forças para enfrentar o inimigo. Porém,
continuo sem entender o significado daquela visita.
Dois dias mais tarde, Ulisses descobre a explicação num livro sobre
Xamanismo: Segundo os índios peruanos, uma pessoa só pode se tornar um
Xamã depois que seus parentes mortos se compadecem do seu sofrimento.
Confusa com tantas experiências estranhas, decido seguir o conselho do
Cesar e escrever tudo que aconteceu desde o dia em que nos conhecemos!
PARTE II

DESCOBERTAS

Até agora eu não me conhecia. Julgava que era Eu e eu não era Aquela
que em meus versos descrevera Tão clara como a fonte e como o dia.
Mas que eu não era Eu, não o sabia E, mesmo que soubesse, o não
dissera... Olhos fitos em rútila quimera Andava atrás de mim... e não me via!

Andava a procurar-me - pobre louca -E achei o meu olhar no teu olhar, E


a minha boca sobre a tua boca!
E esta ânsia de viver, que nada acalma, É a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!
Florbela Espanca "Eu"

RECAPITULANDO

We are such stuff as dreams are made of.

Shakespeare

Pensei que seria fácil recapitular, pois tenho excelente memória, mas
estava enganada. As recordações eram caóticas, desconexas e havia grandes
lapsos de tempo entre elas. Para me orientar, fiz primeiro uma agenda diária
com os fatos mais marcantes. Em seguida, preenchi cada dia com tudo que eu
podia colocar em ordem cronológica, ainda que houvesse muitos "buracos".
Por outro lado, criei um arquivo de recordações esparsas. Cenas inteiras ou
truncadas, que eu não sabia bem quando tinham acontecido.
Enquanto rememorava, novas recordações foram surgindo. Algumas
explicavam as minhas lembranças, outras tornavam tudo mais complicado. Eu
sentia que havia um mundo dentro de mim e precisava de tempo e dedicação
para descobri-lo. Abandonei o meu trabalho e passei a escrever diariamente.
Sentada na frente do meu computador, trabalhei dez, doze e, até, dezoito
horas por dia. As lembranças explodiam com tal velocidade que eu precisava
armazená-las de qualquer jeito e depois reescrevê-las de forma organizada.
Devo ter repetido uma centena de vezes cada descrição até poder concatená-
las.
Quando consegui o primeiro relato coerente, eu mesma não podia
acreditar: parecia um livro do Carlos Castañeda! A mesma sensação de estar
sendo ludibriada, as conversas trancadas, o pânico inexplicado, as visões, os
jogos, os testes, os lapsos de tempo.
Pensei que eu estava me deixando influenciar pelo estilo e reescrevi
algumas cenas. A semelhança continuou. Argumentei comigo mesma que um
mestre como Carlos Castañeda jamais faria amor com uma discípula. Faria?
Encontrei a resposta no único livro que fala do treinamento de mulheres,
"O Segundo Círculo do Poder". São poucas linhas que informam que somos
treinadas durante a menstruação, quando então o nagual toca nossos corpos -
"sem qualquer vergonha" - até que consigamos abrir a fresta entre os dois
mundos. O mesmo livro chama La Gorda de "a mulher do Don Juan".
Eu tinha que confessar: estava menstruada nas três vezes que o Cesar me
visitara! Além disso, por alguma razão que eu ignorava, só conseguia me
lembrar de dois orgasmos seus. No primeiro, eu sentira um calor queimar o
meu útero. No segundo, tive a impressão que ele estava todo iluminado.
Criei, então, um outro banco de dados, onde armazenei todas as
"coincidências" entre o Cesar e quatro pessoas importantes: Don Juan, Nagual
Julian, Don Genaro e o próprio Carlos Castaneda.
As semelhanças com Don Juan estavam na forma de me tratar: a falta de
interesse pela minha vida pessoal; o olhar fixo, esperando que eu percebesse
alguma coisa; a mania de ficar avaliando as minhas reações; as súbitas e
inexplicáveis gargalhadas; a desaprovação por eu ter tomado o ayuasca; os
testes com as minhas emoções; o gesto estranho com os lábios e um jeito
especial para adivinhar o que eu estava pensando.
As semelhanças com o Nagual Julian estavam nas características de
personalidade: a violência, a má vontade em explicar seus atos, a sensualidade,
a facilidade para alterar a aparência e o jeito exagerado e meio teatral de falar
de amor.
Já as semelhanças com Don Genaro se resumiam ao medo que ele me
provocava e a alguns gestos estranhos e abruptos.
As coincidências com Carlos Castaneda eram pouco esclarecedoras:
ambos tinham um metro e setenta de altura. Castaneda podia ser peruano.
Cesar falava inglês fluentemente; tinha vindo no período que Castaneda
dissera que viria; não gostava de falar da sua vida pessoal; sabia que escrever
sobre a própria vida ajuda a organizar as idéias e era capaz de me provocar
muito medo, às vezes, com um simples olhar.
Os pontos contra eram em menor quantidade, porém muito fortes: em
primeiro lugar, ele não agia como um Mestre. Não me dava aulas. Não falava
sobre as maravilhas do Universo. Ao contrário, parecia mais interessado em
aprender do que em ensinar. Não tinha o dom da palavra, nem a alegria de
Don Juan. Era taciturno e violento e mesmo aquele sorriso doce era falso, eu
podia perceber. Tinha me dado alguns conselhos esparsos, é verdade, mas
eram muito simples: "Andar faz muito bem à saúde", "Você fez muito bem
em tomar um banho de água fria", "Você deve escrever tudo o que
aconteceu... é a melhor forma de organizar as idéias". Qualquer pessoa
poderia dar conselhos assim.
Em segundo, tinha vindo antes que eu enviasse a carta. Terceiro, nunca
tinha me dado um soco nas costas e, portanto, não tinha alterado o meu
ponto de aglutinação.<8) Quarto: tinha negado, verbalmente, ser o Castaneda.
Além do mais, eu não podia esquecer que os excessos da minha fantasia,
um dia, tinham me levado a acreditar que ele era contrabandista, mafioso,
traficante de cocaína e, até, assassino profissional!
Foi em junho que o "vento" veio me buscar. Eu estava meio acordada,
quando ouvi um ruído estranho e depois senti que havia uma sombra sibilante
bem na minha frente. Uma presença amiga.
Veio chegando devagarinho e parou. Levei algum tempo até perceber que
ela esperava o meu consentimento. Sem saber o que aconteceria, concordei.
Senti meu peito ser sugado, como se o que tivesse entrado pela janela fosse
um imenso desentupidor de pia. Então senti meu coração girar como uma
maçaneta dentro do peito e, devagarinho, bem devagarinho mesmo, fui saindo
do meu corpo.
A minha primeira sensação foi de estar parada no ar, a uns trinta
centímetros da cama. Depois, percebi que não. Eu estava indo em direção à
janela, lentamente, mas estava.
Aquela lentidão me era muito desagradável e desejei chegar rapidamente,
lá fora. E, no instante seguinte, eu já estava flutuando na rua, a uns 15 metros
do chão.
Novamente, o "vento" esperou e fiquei planando no ar, até me dar conta
que era eu quem devia decidir o rumo da viagem. Meu primeiro pensamento
foi ver o Cesar, mas imediatamente soube que assim a experiência terminaria.
Decidi, então, visitar Ulisses.
(8) Ponto de aglutinação é o ponto da nossa aura em que as energias do
universo se alinham com as nossas energias internas, provocando a percepção.
No ser humano, localiza-se na região entre as omoplatas e, se essa posição é
alterada, nós passamos a perceber outras realidades ou outros mundos. Don
Juan costumava alterar a posição do ponto de aglutinação de Castaneda com
um "formidável soco nas costas".
Comecei a voar. A paisagem lá embaixo passava em altíssima velocidade e
não fui capaz de saber onde estava. De repente, a terra se converteu em mar e
me lembrei que Ulisses tinha um apartamento na praia. Talvez eu estivesse
indo para lá. Aguardei curiosa.
A paisagem mudou. Agora eu estava sobrevoando uma cidade praiana. A
velocidade diminuiu bruscamente e pousei numa rua escura, em frente a um
prédio pequeno.
Assim que pensei "como farei para chegar até ele?", fui parar no andar do
apartamento. A porta estava trancada. Atravessei a parede. À minha direita,
uma varanda, à minha frente, um corredor. Havia brinquedos de praia
espalhados no chão. Caminhei devagar. Passei pelo banheiro e pelo quarto das
crianças. Um dos meninos levantou a cabeça sonolento e me olhou assustado.
Tive a impressão que me vira. Antes que ele gritasse, dei mais dois passos e
parei na porta do quarto de Ulisses. Sua mulher cantava no banheiro e ele
dormia, sentado numa poltrona. Entrei devagar e fiquei bem na sua frente.
Meu amigo não acordou, mas abriu os olhos e falou comigo: - Ana! - E
sua mulher gritou do banheiro: - O que você disse, querido?
Levei um susto tão grande que quando dei por mim já estava no meu
quarto outra vez.
Na 2a feira, Ulisses confirmou os móveis, a planta do aparta-mento e o
seu hábito de dormir na poltrona. Porém, não havia viajado naquele fim de
semana.
***

No início de julho, outro Lama tibetano veio visitar São Paulo e fomos
todos fazer um retiro fora da cidade.
Nos intervalos dos ensinamentos - que chegavam a durar 12 horas por dia
- saíamos para esticar as pernas e tomar um pouco daquele Sol de inverno. Os
dias estavam bonitos por lá. Todos. Mas nenhum amanheceu tão belo quanto
a terça-feira.
Nunca vou esquecer a beleza daquele dia especial: sob o Sol dourado, a
paisagem cintilava. O mundo parecia coberto por uma teia de ouro fino. O ar
refletia o dourado em todas as suas moléculas. As árvores brilhavam. O céu
parecia vivo de tão azul.

(9) Gompa é a sala de orações e ensinamentos no budismo tibetano.

Eu deveria ter ido ouvir os ensinamentos, claro, mas não consegui. Em


algum ponto do caminho entre o dormitório e o Gompa0>, minhas pernas
tomaram a decisão e me levaram a passear. Foram elas que decidiram. Eu só
as obedeci.
Entrei numa alameda florida, sentindo a grama macia e o cheiro de terra
molhada. Subi uma suave colina verde-esmeralda, perfumada de flores. E me
sentei ao pé de uma árvore sussurrante. Havia uma quietude no ar ou dentro
de mim que tornava a paisagem quase irreal de tão bela. Meus sentidos se
aguçaram.
O azul do céu veio chegando para perto de mim. Entrou pelos meus
olhos, meus ouvidos, meu nariz, minha pele e minha boca. E, de repente, eu
fazia parte da paisagem. Parte da Natureza. Eu, Ana Catan, era a própria
Natureza!
Acima da minha cabeça, a cúpula azul celeste descia suave-mente até
encontrar o esmeralda da relva. As árvores faziam o arremate. Então, de
forma súbita e inexplicável, eu me senti dentro do mundo. Envolvida e
protegida por ele.
Minha percepção se expandiu e eu vi que eu estava no Gompa, sim. No
mais perfeito Gompa que existe: a Terra!
Não sei quanto tempo fiquei lá, em silêncio, sentindo a extraordinária
harmonia da Natureza. Sei que, quando decidi me levantar, meu corpo parecia
macio e meus gestos suaves.
Devagarinho, apoiei as mãos no chão e fiquei de quatro, como um animal.
Não sei explicar como, subitamente senti que era um animal. Não foi uma
transformação gradual. Foi instantânea. Uma fera grande, com orelhas
redondas, pêlos curtos e brilhantes. Um cachorro feroz ou uma pantera, não
sei. Uma fera negra! Senti meus pêlos balançando ao vento, cheiros
desconhecidos e um gosto estranho na boca.
Tive a curiosidade de olhar a minha sombra no chão... era a sombra de um
animal! Uivei. E meu uivo ecoou por todo o vale. Cheia de paz. Levantei
devagarinho e fui para o Gompa.
***
Quando o retiro terminou, descobri que havia uma ordem dentro de mim,
um comando antigo, sem eco e sem recordações. Não sei de onde veio. Não
sei quem o deu. Uma ordem bem difícil de obedecer: eu tinha que ficar
setenta semanas sem fazer amor.
Achei que era um tempo muito longo e tive medo de não conseguir.
Tentei regatear comigo mesma, mas não foi possível. Eram setenta semanas...
no mínimo!
Cansada da viagem e sem saber se aceitaria um compromisso tão longo e
difícil, adormeci.
Adormeci e tive o pesadelo de sempre.
Apesar de ter passado metade da minha vida evitando janelas, terraços e
teleféricos, costumava despertar no meio da noite gritando de pavor. O
pesadelo começava quando eu já estava em algum lugar muito alto e instável.
Podia ser um fio estendido entre dois prédios, um par de pernas de pau ou
simplesmente um pulo.
Nunca sentia medo no início do sonho. Ao contrário, até gostava de
saltar, cada vez mais alto, ou de brincar no céu azul. Então, de repente, me
dava conta que estava lá em cima. Se era um fio, estava no meio do caminho.
Se era um par de pernas de pau, não sabia descer. Se era um salto, ficava
parada no ar. Então começava a gritar e despertava.
Naquela noite, quando o pesadelo recomeçou, eu me lembrei que estava
sonhando. O medo passou imediatamente e senti uma alegria estonteante.
Pensei, então, que, já que era um sonho mesmo, eu podia voar. Sem medo,
mergulhei no ar e saí voando por aí. Foi a maior sensação de felicidade que
tive até hoje. Voei até o Rio de Janeiro e desci na calçada de Copacabana. O
céu estava azul como naquela tarde do Retiro e soube, então, que sempre que
eu quisesse voar no sonho, bastaria resgatar aquele azul.
E, pela manhã, assumi o solene compromisso de ficar sem fazer amor até
novembro de 92.
* **

A minha solidão aumentava a cada dia. Ninguém podia entender o que


estava acontecendo comigo. "Você está jogando fora uma carreira brilhante",
diziam todos. "Por quê?" E tudo que eu podia dizer era que precisava de um
tempo. Tempo para pensar. Para pôr minhas idéias em ordem.
Meus clientes desapareceram. De todos os meus amigos, só Ulisses e
Raquel continuaram a me procurar, mas eles tinham sua vida, sua família e seu
trabalho.
Fiquei sozinha com meu computador e minhas lembranças!
* **

Os sonhos se repetiam. Uma noite era o Lama que vinha conversar


comigo. Na outra, o Cesar. Na terceira, eu saía a "viajar" por mundos
desconhecidos. E foi assim que um dia fui parar no espaço entre as linhas
paralelas.(10)
Sem poder respirar fundo ou pensar com coerência, soltei o corpo e parei
de me preocupar. Pensei numa forma de voltar para casa e soube, outra vez
sem som, que eu precisava deitar e dormir. Parecia uma empreitada impossível
para quem não podia sequer abrir os olhos e perguntei como conseguiria fazê-
lo. Enrolando-me, claro. Devagar, muito devagar mesmo, me enrolei como
um caracol e deitei num banco de jardim, exausta com o esforço.
Fechei os olhos e desejei ardentemente voltar para casa. Acho que nunca
desejei nada com tanta força como naquele dia. Esperei. Fiz até uma oração
para conseguir voltar e quando abri os olhos já tinha voltado ao meu lindo e
querido quartinho!
***
(10) Lugar fora deste mundo que, segundo Castañeda, é amarelo-limão.

No dia seguinte, minha razão argumentou que o espaço entre as linhas


paralelas é amarelo-limão e não cor de areia e outra parte de mim respondeu
que, um dia, eu teria a explicação para aquela diferença.
NEL MEZZO DEL CAMIN
Quem não sabe o que procura não compreende o que encontra.

Ditado popular

É difícil explicar o meu estado emocional durante aquele período. A cada


nova experiência, eu ficava mais e mais atordoada. Não podia aceitar que o
Cesar fosse o Castaneda e não encontrava outra explicação para tantos
acontecimentos estranhos. O meu nível de ansiedade chegou a tal ponto que
eu tinha crises de choro, enquanto escrevia. E, quanto mais aumentavam as
minhas suspeitas, mais eu desejava estar enganada.
Para piorar, minha razão me advertia e massacrava. Eu estava sendo
presunçosa, vaidosa e ridícula. Se o Cesar fosse mesmo o Carlos Castaneda, eu
seria uma discípula e a troco de que ele escolheria a mim? Justo eu? Uma
mulher comum, meio passada na idade, com dificuldades de relacionamento e
tão complicada? Besteira! Eu não passava de uma Ana Catan qualquer,
tentando sobreviver às minhas próprias burrices.
Agora eu sei que uma disputa estava sendo travada dentro de mim. De um
lado, minha razão tentando manter seu mundo limitado, porém seguro. Do
outro, minha intuição tinindo pelas experiências com o Cesar. Minha razão se
agarrava às dúvidas para manter o seu mundo. Minha intuição não podia
rebater os argumentos, mas me obrigava a seguir pesquisando.
Minha razão perguntava: Se o Castaneda tinha me telefonado, por que não
se apresentaria com o seu próprio nome? E, mesmo que não se apresentasse,
por que me faria sofrer tanto com aquela história de ser mafioso, traficante de
cocaína e assassino profissional? E ainda que houvesse uma justificativa, por
que ele teria negado a verdade? Eu me lembrava muito bem da sua expressão
séria quando disse "Você não deve pensar que eu seja o Carlos Castaneda,
Ana, seria um erro... e um erro perigoso".
E apesar de tantas dúvidas, minha intuição dizia que as respostas estavam
dentro de mim. Que eu devia continuar recapitulando. Que eu não podia
deixar de procurar a verdade.
Não era fácil conviver com essa dualidade. Ter a alma dividida entre duas
idéias tão diferentes provoca distúrbios no corpo e eu vivia doente. Não era
nada sério, mas num dia eu tinha dor de cabeça, no outro, crises de asma e, no
terceiro, meus músculos ficavam tão enrijecidos que eu tinha dificuldade para
andar. Com freqüência, ouvia um ruído estranho, parecido com uma corrente
elétrica, ou sentia uma descarga nas costas, como se um raio tivesse passado
por mim.
***

Os meses voavam e eu não parava de escrever. Não era vontade, era


compulsão. Escrever era meu único alívio. A única forma possível de
organizar meus conhecimentos e minhas emoções. O único caminho para
descobrir o que estava acontecendo comigo. E eu escrevia. Meu Deus, como
escrevia! Enchi mais da metade do meu disco rígido com lembranças do
passado, descrições do presente e indagações sobre o futuro.
Todas as manhãs eu ligava o computador, relia o meu roteiro e escolhia
uma cena qualquer. Então, enquanto digitava, eu atravessava uma tênue
barreira de tule fino e, de repente, não estava mais relembrando e, sim,
revivendo. Podia sentir as mesmas e variadas emoções, ao mesmo tempo que
descrevia, velozmente, tudo que se passava. Na frente do computador, o
tempo era tão diferente que cheguei a trabalhar dezesseis horas seguidas, sem
perceber. Houve até uma vez em que resolvi dar uma parada para o jantar e
descobri que já era a hora do café da manhã do dia seguinte.
Não sei quantas vezes repassei todos os encontros, do primeiro ao último,
e a cada vez uma nova recordação se abria. Era como um conjunto de bolhas
que estouravam, aqui e acolá, revelando um mundo imenso e completamente
novo. E o que começava com uma única frase podia se transformar em
páginas e páginas de lembranças.
Eu ficava tão agitada que, antes de dormir, precisava ler para me acalmar.
Repassava um a um os livros de Carlos Castañeda, do primeiro ao último, e
novamente do primeiro ao último, num círculo sem fim. Marcava as
coincidências com tinta amarela e, no dia seguinte, as armazenava no banco de
dados.
***

As peças do quebra-cabeça foram se encaixando sozinhas. Não era só


quando eu estava escrevendo. Podia acontecer a qualquer hora: no meio de
uma conversa, de um passeio, de um almoço ou à noite antes de entrar em
sono profundo. Coisas pequenas. Peças esparsas. A gargalhada do Cesar, por
exemplo, era igual à que o Castañeda dera no telefone. A forma que ele
passara a pronunciar o meu nome, na terceira visita, também. E ainda havia o
tal amigo que conhecia Castañeda, que ele ia encontrar "por aí, aquela raiva
explícita por La Gorda...
Nunca desejei tanto que o Cesar aparecesse como naqueles dias! Queria
que ele viesse e abrisse o jogo comigo. Que me explicasse tudo. Que tirasse de
mim aquela suspeita angustiante.
Dia após dia, eu despertava cheia de esperança. Noite após noite, eu
adormecia cheia de decepção.
Então, uma noite, apesar de saber que não devia fazê-lo, decidi tentar um
contato através do espelho.
Não parei para pensar no perigo. Para ser honesta, não parei nem mesmo
para perceber o medo que estava sentindo. Simplesmente, apaguei a luz,
acendi uma vela, deitei e fiquei olhando o reflexo da chama.
Rapidamente, a cortina de bruma apareceu, trazendo vultos pequenos e
disformes. Cleópatra saiu do seu lugar, embaixo da minha cama, e ficou em pé
ao meu lado. Devagarinho, a bruma se condensou e foi tomando a forma de
um vulto escuro, quase preto. Cleópatra ficou em posição de ataque com os
pêlos eriçados. Meu coração disparou, mas não admiti que estava com medo.
A bruma se tornou mais e mais densa. Era um vulto masculino. Cleópatra
começou a latir. O vulto foi se tornando visível. Os latidos se transformaram
em uivos.
Eu estava lutando, bravamente, contra o pânico quando o telefone tocou.
Quase tive um enfarte!
Os toques se repetiram, enquanto meu quarto girava e o coração saltava
pela boca. O relógio marcava duas da manhã. Quem, senão o Cesar, poderia
estar me telefonando àquela hora? Atendi, esperando ouvir a sua voz, mas era
engano.
O ar estava limpo outra vez. Cleópatra voltou a dormir. As batidas do
meu coração ressoavam no céu da boca, nos olhos e no tampo da minha
cabeça.
AS PROVAS

Não há nada oculto que não venha a saber-se, não há nada escondido que
não venha a descobrir-se.

Jesus

Depois disso, Cleópatra nunca mais me deixou sozinha. Deitava-se aos


meus pés e de repente se punha em posição de guarda, farejando o ar como se
estivesse pressentindo algum perigo invisível. Andava diferente aquela
cachorrinha. Parecia mais adulta. Mais sábia mesmo. Às vezes, vinha para o
meu colo com os olhos cheios de mensagens que eu não podia entender.
Parecia saber mais do que eu, muito mais.
Passei a brincar comigo mesma que ela era uma guerreira do meu grupo.
Se o próprio Don Juan dissera que as árvores e os animais da sua casa
também eram guerreiros do seu grupo, por que Cleópatra não podia ser do
meu?
Era para ser só uma brincadeira, claro, mas então me lembrei que o Cesar
estava sempre elogiando a inteligência, a sensibilidade e a facilidade de
aprender de Cleópatra. Levei um susto ao perceber que aquele comentário
banal que ele fizera na última noite, "Esta cachorra esteve sempre conosco,
em todos os lugares", podia não ter sido tão banal assim. E fiquei coberta de
suor frio ao pensar que, talvez, Cleópatra nos tivesse acompanhado àquele
lugar amarelo, atrás da parede de fumaça.
O terror que senti foi tão grande que preferi deixar o assunto em
suspenso. Se tudo fosse verdade, se a minha mais louca fantasia se tornasse
realidade e o Cesar fosse mesmo o Carlos Castaneda, então eu pensaria em
Cleópatra. Antes não. Nesse momento eu preferia rir da minha suspeita: Ana
Catan e uma cachorra vira-lata! Belo par de guerreiras!
Foi mais ou menos por esta época que comecei a pensar no meu grupo
(11). Não que eu já estivesse convencida, mas se fosse verdade, pensava com
meus botões, eu não podia ser a única.
Procurei naquele hotel vagabundo o endereço de algum amigo do Cesar,
mas eles não conheciam ninguém.
Fui, então, até o bairro onde morava a tal Jackie, aquela para quem ele
telefonara. Bati em todas as casas que me chamaram a atenção, mas não havia
nenhuma Jackie ou Jacqueline. Fiz um esforço para lembrar o nome do tal
amigo que ele pusera no telefone, mas não foi possível.
Numa tentativa desesperada, liguei para alguns números ao léu e perguntei
se conheciam Cesar Pagliardi. Nada. Ninguém o conhecia.
De repente, desisti. Percebi que em lugar de procurar casa por casa em
São Paulo, seria mais fácil descobrir as respostas dentro de mim. E lá fui eu,
mais uma vez, repassar todos os encontros, todas as conversas, todos os
pensamentos.
Foi então que comecei a encontrar as provas que abalaram as minhas
proteções racionais.
***

A primeira vez que a minha razão balançou de verdade foi quando percebi
que, mesmo sem me dar um soco nas costas, o Cesar tinha apertado o meu
ponto de aglutinação!
Eu não tinha parado para pensar nas duas crises de pânico que me
atacaram durante a terceira visita. Não que eu as tivesse esquecido, mas
sempre costumava deixá-las para depois, na hora da re-capitulação. Alguma
coisa me impedia de analisá-las com profundidade. Então uma noite me
lembrei de todos os detalhes:

(11) Segundo Castaneda, os discípulos de um mesmo Mestre vivem


juntos, formando "O novo grupo do Nagual".

A cena começava quando ele me pedia para virar de bruços. Não era o
pedido gentil de um homem apaixonado. Ao contrário: era uma ordem seca e
brusca, que não admitia desobediência.
Alguma coisa naquela ordem me dava a sensação de estar prestes a ser
empurrada para um abismo e sempre, aos prantos, eu implorava que ele não
fizesse aquilo comigo.
Ele não cedia. Permanecia sentado como um chefe índio e com voz dura
argumentava que, mais cedo ou mais tarde, eu teria que enfrentar aquela
situação. De nada adiantaria fugir. E como no fundo eu sabia que ele tinha
razão, acabava obedecendo.
Mas, ao contrário da aberração sexual que eu temia, ele, fingindo um ardor
e uma falta de jeito nunca antes demonstrados, perdia o equilíbrio e se apoiava
nas minhas costas. Na primeira vez, eu consegui derrubá-lo. Na segunda, ele
me deixou completamente imobilizada. Prendeu meus braços e pernas e
depois soltou todo o peso do seu corpo entre as minhas omoplatas até
esvaziar os meus pulmões.
E, então, a parede de bruma, a sensação de estar fora do mundo, o
homem de barba, os gritos de medo, a luz que me cegava...
Eu não podia mais ter dúvidas: ele tinha empurrado o meu ponto de
aglutinação!!!
* **
A minha primeira reação a esta descoberta extraordinária foi de pura
alegria. O mistério estava resolvido!021 Cesar e Carlos Castañeda eram a
mesma pessoa, e eu, Ana Catan, uma discípula do seu grupo!
Dormi contente. Acordei irritada. Aquele desgraçado tinha brincado com
os meus sentimentos. Fizera com que eu me apaixonasse, só para me atrair
para a armadilha, e eu, burra, tinha caído como um patinho!
Na hora do almoço, estava morrendo de vergonha pelas minhas "aulas".
No meio da tarde, tive uma crise de choro porque ele não me amava. E, antes
de dormir, já estava cheia de dúvidas outra vez!
* **

Na segunda vez, o abalo foi maior.


(12) Somente um nagual consegue mover o ponto de aglutinação de outra
pessoa.
Eu tinha passado quinze dias tentando me convencer que o meu ponto de
aglutinação não tinha sido alterado quando descobri o segundo nome de
Castañeda: Cesar!
Era uma noite de inverno e eu estava lendo "Uma Estranha Realidade".
Por volta das duas da manhã, o livro acabou e, como eu não queria dormir,
nem sair da cama quentinha, fiquei folheando as páginas de propaganda.
Foi então que achei uma frase que me deixou gelada. Dizia: "Quem será
esta estranha figura, Carlos CESAR Arana Castaneda?...".
O nome CESAR saltou do papel direto para os meus olhos! Quase fiquei
louca! Nunca tinha lido aquelas páginas e nunca soubera que o Castaneda se
chamava Cesar.
Lembrei, então, que uma vez, durante a primeira visita, ele me perguntou:
- Qual é o nome completo do Carlos Castaneda?
- O nome completo é este mesmo: Carlos Castaneda.
- E o sobrenome da mãe dele, qual é?
- Carlos Castaneda é um pseudônimo, Cesar, por que teria outro
sobrenome?
Sem fazer qualquer comentário, ele se levantou do sofá, foi até à estante e
começou a folhear os livros. Irritada com a sua teimosia, falei asperamente:
- Não seja teimoso, Cesar... eu já li esses livros mais de 10 vezes e nunca
vi outro nome que não fosse Carlos Castaneda.
Ele não respondeu. Pesquisou livro a livro até o fim e voltou para o meu
lado. Não entendi o porquê do seu ar satisfeito... ...É que eu nunca tinha lido
as propagandas!
***

Minhas emoções repetiram todo o percurso de alegria, raiva, vergonha e


angústia, mas, mesmo assim, as dúvidas continuaram a me azucrinar. Podia ser
tudo coincidência, uma grande e inexplicável coincidência.
Ulisses percebeu que eu precisava de tempo e desistiu de tentar me
convencer. Raquel continuou me confortando com seu amor de mãe, sem
emitir opiniões. E Joana, sempre Joana, continuou a me levar pelos meandros
da minha alma.
O meu tempo se dividia entre o computador, as sessões de Kum Nye e as
experiências que não paravam de acontecer.
Às vezes, meu peito expirava o ar completamente, até os pulmões se
esvaziarem sozinhos. Eu ficava muito assustada e tentava evitar, mas era algo
fora do meu controle. Outras vezes, alguma parte do meu corpo tremia de
forma estranha, como se fosse autônoma, ou uma forte pressão subia do meu
peito e fazia latejar o céu da boca, os olhos e o tampo da minha cabeça e,
então, eu via meu chacra coronário cheio de pequenos piões luminosos.
Meu metabolismo estava alterado. Eu podia alternar dias sem fome com
verdadeiras orgias de comida. Despertava alegre e bem-disposta para,
repentinamente, me tornar irritadiça e rabugenta. Algumas noites dormia
profundamente. Outras passava completa-mente em claro. Vivia exausta e não
conseguia parar de escrever. Ia direto do computador para a cama e da cama
para o computador. Só me sentia viva quando estava rememorando.
As semanas passavam velozes, sempre trazendo novas peças para o meu
quebra-cabeça particular. Ora eu me lembrava de uma frase, ora sonhava que
estávamos num lugar amarelo. Teve até uma vez em que ele ditava e eu
escrevia. Além de tudo, a sua imagem sorridente estava sempre ao meu lado.
As coincidências se acumulavam: Cesar e Castaneda tinham a mesma
risada de Papai Noel, o mesmo medo de água e uma indefinida relação de
nascimento com o Peru. Ambos pareciam despidos de amor-próprio.
Castaneda também ficara assustado quando vira um brilho amarelo nos olhos
de Don Juan. Cesar podia ser implacável como um nagual. Nenhum dos dois
gostava de queijo. Cesar até se rira uma vez em que lhe ofereci um pedaço de
provolone.
Além disso, havia o grito. Aquele urro tenebroso na volta da praia. Como
pude esquecê-lo? Aquele som metálico podia ser o grito do nagual.
E mais: ele usava palavras dúbias que, pensando bem, podiam ter outro
significado: "Um grupo parecido com a Máfia" não precisa ser
necessariamente a própria Máfia. "Preciso do seu amor" não era uma
declaração do amor dele por mim. "O que você faria se eu a pedisse em
casamento" não era um pedido.
E, como se não bastasse, ele sempre parecia saber o que eu estava
pensando ou sentindo.
***

Não sei explicar como pude continuar duvidando, mas o fato é que
consegui. Não eram dúvidas exatamente, era mais uma total incapacidade de
aceitar os fatos. Para cada prova, eu tinha um argumento. Para cada nova
percepção, uma desculpa.
Continuei escrevendo, claro, mas assim que deixava o computador
ocupava a minha cabeça com outros assuntos. Deixei de "viajar" durante a
noite e descobri uma posição muito confortável para dormir: De costas, com
os joelhos sobre um travesseiro, um rolo sob o pescoço e as duas mãos na
barriga. Aprendi a controlar a sensação de frio e calor simplesmente
modificando a posição das mãos.
Foi um período de descanso, que me preparou para mais um choque: A
terrível descoberta de que o Cesar podia aparecer e desaparecer no ar.
Foi assim no primeiro dia, quando ele surgiu no aeroporto. Apareceu tão
subitamente que a minha primeira lembrança era uma imagem difusa. Eu
abraçara Claudia, não para protegê-la, como pensei no momento, mas para me
segurar. Minha razão se assustara com algo que não podia compreender.
E na última despedida, quando ele simplesmente desapareceu diante dos
meus olhos e, sem saber por que, soltei um grito de pavor. A porta da escada
estava fechada e o elevador não estava no meu andar!
Desta vez não houve crise de raiva e sim de angústia. Existe um mundo de
diferença entre acreditar na teoria da materialização e saber que uma pessoa
que conhecemos no nosso dia-a-dia, um homem que beijou a nossa boca e
com quem fizemos amor, seja capaz de fazê-lo. Sem conseguir dormir
profundamente, passei a noite naquele estado intermediário entre o sono e a
vigília.
Não sei o que aconteceu. De repente cruzei uma área escura e do outro
lado encontrei o Cesar e mais quatro mulheres.
Uma luz alaranjada como o Sol Poente iluminava a cena. Estávamos numa
varanda larga, coberta com um colmo de palha e chão de terra batida. Todos
pareciam muito contentes de me ver.
O grupo se aproximou sorrindo e ficou à minha volta com o Cesar bem à
minha frente. Não tive nenhuma reação. Não senti alegria, saudade ou medo.
Fiquei lá parada, esperando que ele fizesse alguma coisa, mas quando ele falou
não consegui escutar. Desta vez era eu que estava numa redoma.

(13) Carmenzita é a senhora que conheci no México em 1990.

Movendo os lábios, devagar, ele repetiu o que dissera. Continuei na


mesma. O grupo tentou ajudar. Uma mulher parecida com Carmenzita(13)
chamou a minha atenção. Observei os movimentos dos seus lábios, sem
conseguir interpretá-los. Sacudi a cabeça numa lenta negativa. Irritadíssimo,
Cesar saltou sobre mim e tive impressão que ia quebrar a redoma. Foi o grupo
que o tranqüilizou.
Todos começaram a saltar e gesticular ao mesmo tempo. Havia algo de
muito engraçado naquela cena muda e comecei a rir. Pude sentir a reprovação
conjunta de todos, pois os movimentos cessaram abruptamente. Pensei,
então, que o assunto era sério. Gravemente, todos concordaram com a cabeça
e voltaram a gesticular. Mesmo depois que o Cesar desistiu e se afastou, as,
mulheres continuaram tentando. Foi em vão. Não consegui entender.
A preocupação das mulheres me deixou muito ansiosa e pensei que eu era
uma perfeita idiota por não conseguir algo tão simples. Imediatamente, todas
elas se acalmaram e, sorrindo para mim, alisaram a redoma, com expressões
carinhosas. Desconfiei, então, que elas podiam entender meus pensamentos e
tentei pensar uma pergunta: Era verdade que podiam me entender? Todas as
cabeças balançaram confirmando e o Cesar voltou correndo para perto de
mim.
Perguntei, então, o que queriam. As mulheres recomeçaram a gesticular.
Ele foi correndo para dentro da casa e voltou com um livro. Dava a impressão
de não poder perder nem um segundo. Sempre com pressa, colocou o livro na
minha frente e sacudiu com violência. Abriu, mostrou as páginas impressas,
fechou e apontou para a capa. Recomeçou a sacudir e repetiu várias vezes os
mesmos gestos, sempre olhando para mim para ver se eu tinha entendido.
Aflita com a ansiedade que ele demonstrava, perguntei se ele queria que eu
lesse algum livro seu. Não. O gesto era claro. Outro autor então? Não. Fiz
várias perguntas cretinas, até ter a idéia de pensar: "Devo publicar um livro?".
Imediatamente todos eles começaram a fazer gestos afirmativos e de aplauso,
sorrindo muito. "Que livro?" E a resposta veio pelo ar: as suas recordações.
***

Ao acordar no dia seguinte, decidi que era um sonho e não uma


mensagem. Argumentei comigo mesma que eu estava sendo vaidosa,
presunçosa e tola. Decidi esperar. Se fosse uma ordem, que viesse
pessoalmente.
Sentei-me à frente do computador para continuar o meu diário e, sem
tomar uma decisão racional, modifiquei os nomes e retirei quase tudo que se
referia à minha vida pessoal. Só no fim da tarde foi que me dei conta que
estava transformando as minhas recordações em livro.
Meu corpo obedeceu antes da minha razão.
A LIÇÃO DE IMPLACABILIDADE

Para um guerreiro, a implacabilidade não é crueldade, e sim o oposto da


autopiedade ou auto-estima. Implacabilidade é sobriedade.

Don Juan

Transformar minhas recordações em livro deixou mais clara, ainda, a


semelhança entre as minhas experiências e as de Carlos Castañeda. Como falar
de meus sentimentos, senão com palavras como pavor, angústia e ansiedade?
Como descrever as bruscas atitudes do Cesar, senão com "de repente",
"subitamente" ou "inesperadamente"? E aquela sensação de ser duas pessoas,
uma a favor, outra contra tudo aquilo, era ou não era uma briga entre a minha
razão e a minha intuição? Sem contar aquele estranho olhar... aqueles olhos
amarelos... eu podia até me negar a utilizar o termo justo... mas a única forma
de descrevê-lo com honestidade seria dizer que eram os olhos no nagual.
Não. Não era influência de estilo. Era a absoluta impossibilidade de usar
palavras diferentes!
As dúvidas começaram a ceder. Em lugar delas, uma quase certeza. E um
medo atroz.
As vozes da minha cabeça deixaram de fazer perguntas. Agora, estavam
sempre inventando um pretexto para me fazer desistir. Não me deixavam
dormir. Um dia, falavam da vergonha que eu passaria se o Castañeda me
desmentisse. No outro, da solidão do Caminho do Guerreiro. Num terceiro,
das minhas responsabilidades de mãe, profissional e dona de casa. Dos meus
sonhos de encontrar o grande amor. Das dificuldades de um relacionamento
com o Cesar. Pela manhã, sugeriam que eu procurasse um emprego,
encontrasse um namorado e jogasse fora o livro.
Uma parte de mim achava que as vozes estavam certas, mas a outra,
aquela que desejava procurar a verdade, não se deixava convencer. Em lugar
de discutir, dirigia minhas mãos sobre o teclado e fazia brotar mais uma
centena de recordações.
Até que um dia, em agosto, algo em mim se rompeu e me dei conta que
não gostava mais do Cesar.
Foi um dia estranho, aquele. Estranho, porque foi o único dia comum de
uma época conturbada. Era um sábado e, em lugar de ficar trabalhando, fui
passear com minha filha. Depois, à tarde, me sentei no sofá para ler.
Estava lá, folheando uma revista sem atenção, quando senti alguma coisa
se soltar. Alguma coisa que saiu de dentro de mim e me deixou livre.
Foi uma sensação tão agradável que deixei a leitura de lado para desfrutá-
la. Descobri, então, que não sentia mais nada pelo Cesar. Não me importava
mais com o seu verdadeiro nome. Não o amava mais. Não queria mais saber
dele. Na verdade, não queria nem seguir o Caminho do Guerreiro!
Naquele momento, a hipótese de abdicar do amor, da família, dos amigos
e ir viver no México, para me tornar uma guerreira, me pareceu muito boba e
sem finalidade. Serviria, somente, para me tornar dura e fria como ele. E isso
eu não queria. Não poderia aceitar.
Não eram pensamentos novos. Eram idéias antigas que tinham se tornado
vivas e cheias de sentimento.
Satisfeita, voltei a folhear a revista, quando, subitamente, me dei conta
que, em alguma outra dimensão, nós estávamos tendo uma violenta discussão.
A imagem do Cesar, brigando comigo, apareceu numa tela à minha direita,
como se fosse um filme. Não era uma lembrança. Estava ocorrendo naquele
exato momento.
Ele estava realmente furioso. Aos gritos, me chamou de estúpida, covarde,
burra. Parecia possesso quando disse que eu mesma tinha escolhido aquele
caminho e não era mais possível voltar atrás. Não acreditei. Se fosse verdade,
ele não ficaria tão nervoso. Segura das minhas possibilidades, mantive a minha
decisão. Não queria mais e pronto!
Mais irritado, ainda, ele ameaçou controlar a minha vontade. Disse que
podia me obrigar, da mesma maneira que me obrigara a ajoelhar, a fazer amor
ou a virar de bruços. Não me convenceu. De alguma forma, eu sabia que sem
o meu consentimento ele não poderia me tocar. E a minha resposta era não.
Definitivamente não.
Desolado, ele se virou para ir embora e a tela desapareceu.
***

A tarde terminou tranqüila. Muito contente com a minha decisão de


abandonar toda aquela confusão, resolvi ir a uma festa na casa de amigos. A
primeira, em mais de um ano.
Lá pelas oito e meia, desci para a garagem. Assim que saí do elevador,
ouvi os passos de Cleópatra atrás de mim. Achei que ela tinha se esgueirado
pela porta e descido comigo sem que eu me desse conta e me virei para levá-la
de volta. Não a encontrei. Dei mais dois passos e voltei a ouvir o mesmo
ruído. Procurei-a, de novo, em todos os cantos. Nada. Eu estava sozinha
naquela garagem escura. Senti um frio cortar minhas costas.
Continuei meu caminho. O ruído de passos atrás de mim. "Alguém"
estava querendo me assustar. Eu sabia muito bem quem era. E sabia, também,
que, se me deixasse dominar pelo medo, estaria perdida.
Com toda a calma do mundo, caminhei até à minha vaga, sem olhar para
trás.
Fechei a porta bem depressa assim que entrei no carro. Não queria que
"ninguém" entrasse comigo. Girei a chave no contato. O motor ligou e,
imediatamente, morreu. Girei de novo. Nada. Tentei outras vezes. O carro
não fazia nenhum ruído. Parecia uma carroceria sem motor.
Lembrei-me da ameaça de algumas horas atrás. O filho da puta não tinha
desistido! Tinha fingido ir embora e deixara para me assustar mais tarde!
Tentava me coagir pelo medo. Mas eu não ia ceder! Não ia permitir que ele
me apavorasse!
Decidida a resolver o problema, chamei o zelador e pedi que empurrasse o
carro. Claro que não adiantou. O motor estava morto mesmo. Devia ser o
platinado, disse o homem, antes de voltar ao seu posto.
"Ele podia ter sido mais criativo", pensei com meus botões, "esta idéia foi
do Don Juan"(14). Só de pensar nisso, meu estômago ficou enjoado e a minha
testa porejou de suor. O carro de Castañeda só voltara a funcionar quando
Don Juan assim o decidira. E agora? O que é que eu devia fazer? Claro estava
que, se eu subisse para o apartamento, ele me seguiria e continuaria a me
atormentar. Só havia uma solução: enfrentá-lo!
Lutando para manter a calma, bati com força no banco ao lado do meu e
gritei com raiva:
- Pode aparecer, Cesar. Brigue comigo como homem. Eu não tenho
medo!
Esperei e esperei. Ninguém apareceu. Senti, então, uma aragem fresca à
minha volta e girei a chave no contato de novo. O carro pegou normalmente!
* **

No dia seguinte, tudo voltou ao normal. O problema do carro era sujeira


no carburador. O Cesar não era o Carlos Castañeda. E eu já queria seguir o
Caminho do Guerreiro outra vez!
* **
Voltei a escrever. Os dias passavam sem que eu me desse conta do tempo.
Comia mal, dormia pouco e tomava litros de Coca cola para me manter
acordada. Até que, uma noite, tive uma tremenda dor de cabeça.
Não foi uma enxaqueca comum, foi uma dor tão forte, tão violenta que
me deixou na cama por vários dias. O cérebro latejava. O corpo ardia de
febre. O tampo da minha cabeça explodia numa infinidade de pontos
luminosos e eu não podia suportar a luz. Houve um momento em que o
sofrimento foi tão grande que tive a sensação de estar cruzando a barreira do
inferno. Maria e Claudia tentaram me socorrer, mas o brilho de seus corpos só
aumentava a minha dor e pedi para ficar sozinha.
Levei dois dias para me sentir melhor e mais de um ano para me dar conta
que tive naquela noite a minha primeira experiência em ver(14).
* **

Três dias depois, e ainda abalada pela dor, vi entrar uma sombra brilhante
pela veneziana. Uma sombra negra, cheia de pontinhos dourados, destacou-se,
cresceu e parou bem na minha frente. Não senti medo, ao contrário, respirei
com muito cuidado para que ela não se afastasse.

(14) Don Juan fez algo parecido com Carlos Castañeda.

(15) Diferente do ver comum, é a capacidade de enxergar as energias do


Universo.

A luz negra-dourada cresceu devagar e preencheu todo o ambiente.


Desapareceram os móveis, o quarto, o prédio, o mundo. Não havia mais nada,
além de nós duas. Eu e a luz.
Com toda delicadeza, ela começou a me possuir. Entrou pelo topo da
minha cabeça e me preencheu inteirinha, até os pés. Perdi o peso e comecei a
flutuar. A me separar da luz do Universo, somente uma membrana
transparente. O tênue invólucro do meu corpo. Sempre com delicadeza,
comecei, ou a luz começou, a rompê-lo. Retiramos primeiro a parte de cima
como se eu fosse uma bomboneira de cristal. Depois, a parte de baixo. E,
então, não havia mais eu e o resto. Só um universo de luzes douradas.
Fiquei lá, desfrutando o prazer de me sentir mesclada com o Universo, e
ouvi uma voz masculina, grave e pausada, sussurrar:
- Você está conhecendo o princípio da não dualidade.
Não me lembro de ter adormecido. Lembro, sim, que despertei exausta e
passei o dia enrodilhada no sofá. De vez em quando, chorava sem saber por
quê. Um choro mansinho, liso, quase infantil.
***

Uma semana antes do dia 2 de outubro, mandei um cartão de aniversário


para o Cesar, aos cuidados do procurador do Carlos Castaneda. Era uma
forma de comunicar que eu já sabia a verdade e ele podia aparecer. Depois,
voltei para casa e para o meu livro.
Repassei, mais uma vez, todos os nossos encontros e, de repente, uma luz
muito forte clareou a minha mente. Não estou usando uma figura de
linguagem. Tive, mesmo, a sensação de um clarão de luz que me iluminou e
juntou as peças do quebra-cabeça. Finalmente, pude entender o que aconteceu
em 1989: O Cesar me deu uma fantástica lição de implacabilidade!<16)
De acordo com as regras, ele primeiro me avisou que o faria. Avisou-me,
aliás, na primeira noite, quando perguntou dos meus dois casamentos e,
acariciando-me com paixão, se propôs a me ajudar:
- Ah! mi amor, que pecado... que difícil deve ser, para ti... te voy a ensenar,
querida... a ser implacable, mi amor.
Depois, jogou com todos os meus defeitos. Fez-se de fraco para que eu
me decidisse a ajudá-lo. Foi terno e maravilhoso para que eu me apaixonasse.
Usou minhas fantasias e preconceitos para me fazer crer que era um homem
perigoso. E, por fim, me encurralou entre a ânsia de amar e o medo de ser
assassinada. Lenta e inexoravelmente, ele alimentou minhas emoções até que
explodissem de forma tão violenta que terminei por deixar de senti-las. Aquele
alheamento era o lugar da não piedade.
E, só então, pude perceber a maestria com que ele me conduziu para a
armadilha. Como o Nagual Julian, ele foi histriônico, conquistador, divertido e
exagerado, mas em nenhum momento deixou de ser implacável, esperto,
paciente e doce!

(16) Lição de Implacabilidade é a forma de ensinar o discípulo a deixar de


sentir pena de si mesmo. Esta posição do ponto de aglutinação chama-se
Lugar da Não Piedade.
PARTE III

MÉXICO

Dezembro de 1991
Vejo-te só a ti no azul dos céus, Olhando a nuvem d'oiro que flutua. Oh
minha perfeição que criou Deus. E que num dia lindo fez-me tua.

Nos vultos que diviso pela rua, Que cruzam os seus passos com os meus,
Minha boca tem fome só da tua, Meus olhos têm sede só dos teus.

Sombra da tua sombra, doce e calma. És a grande quimera da minh'alma.


E, sem viver, ando a viver contigo.

Deixa-me andar assim no teu caminho. Por toda a vida, Amor,


devagarinho. Até a Morte me levar contigo.

Florbela Espanca

ENCONTRO MARCADO
Nós somos tão misteriosos e assombrosos quanto este mundo insondável.
Por isso, quem sabe do que você será capaz?
Don Juan

Ainda durante o mês de setembro, recebi um convite para voltar ao


trabalho. Eu estava sem dinheiro e pretendia aceitar, mas recusei, com a
desculpa de que precisava estar livre para ir ao México. A idéia permaneceu na
minha cabeça e descobri que não era uma desculpa e sim uma ordem: quando
recebesse o sinal, deveria partir.
Sem dinheiro para a viagem, não me preocupei em descobrir se era
intuição ou fantasia. Não poderia ir e pronto. Porém, durante o mês de
outubro surgiu um comprador para o meu apartamento. Levei um choque ao
perceber que, apesar de não ter a menor vontade de deixar o lar onde vivera
por quase vinte anos, eu aceitaria a oferta. Tentei reagir contra o que me
pareceu uma coação, mas não foi possível. Assinei o contrato.
No dia do pagamento, recebi uma carta de Carmenzita. Convidava-me
para sua casa, em Nuevo Leon, norte do México. Seria o sinal? Não. Não
podia ser. O sinal deveria informar onde seria o encontro. Certo?
Não. Eu precisava encontrar o lugar de onde Castaneda saltou para o
abismo.
De onde viera esta idéia absurda? Só podia ser fantasia. A pedido de Don
Juan, os livros não informam a sua real localização. Descrevem somente um
impressionante conjunto de montanhas escarpadas e verticais de mais de dois
mil metros de altura com a singularidade de ter o chão forrado de coníferas.

Noite após noite, o pensamento se repetiu. Dia após dia, eu o afastei.


Minhas duas partes voltaram a brigar:
- Eu preciso encontrar o lugar de onde o Castañeda saltou para o
abismo...
- LOUCURA!...
- Foi uma ordem...
- PRESUNÇÃO!...
- Parto em dezembro...
- VAIDADE!...
- Passarei o reveillon com Carmenzita...
- TIRAR FÉRIAS, AGORA?...
- Por favor, senhorita, qual o preço da passagem para o México?...
- DESPERDÍCIO! Novembro terminou angustiado!
* **

Incapaz de meditar por causa da ansiedade. De acatar a ordem, por causa


das dúvidas. E de desistir, por causa de alguma força desconhecida, optei por
adiar a decisão. Viajaria em janeiro... fevereiro... julho...
Não. Eu precisava estar naquele lugar no dia onze de janeiro... Não seria
dezessete?... Onze... Fevereiro, talvez?... Janeiro... De que ano?... Onze de
janeiro de 1992.
Impossível. Eu precisaria de pelo menos um mês para descobrir o tal
lugar. Suspirei aliviada. Não iria!
* **

No início de dezembro, despertei com uma voz dentro da minha cabeça.


Era masculina e falou no ouvido direito. Disse, pausadamente, que, se eu não
fosse ao México, meu livro não seria publicado. Tonta de sono, decidi ligar a
televisão para fazer um teste. Se a palavra "México" fosse pronunciada nos
primeiros três minutos, então sim, eu deveria viajar.
Em menos de três minutos, Chris Griscom informava ao Jô Soares que
possuía uma casa no Novo México.
Minha razão argumentou que o Novo México é nos Estados Unidos e
pediu outro teste: que o jornal do dia seguinte ostentasse alguma manchete
sobre o México.
As 8 horas da manhã, fui informada que a inflação no México baixara a
catorze por cento.
Com o coração aos saltos, telefonei para a agência de viagens e reservei
lugar no avião. Porém, no dia de pagar a passagem, tive uma crise nervosa.
Irritada e aos prantos decidi jogar dados. Se o resultado da soma fosse quatro,
eu viajaria. Se não, desistiria de uma vez daquela loucura. Atirei-os com raiva
no chão e olhei devagarinho.
Deu quatro.
***

Antes de partir, fiz meu testamento e estipulei um tutor para minha filha.
Talvez fosse uma viagem sem volta!
No último momento, Cleópatra lançou-me um olhar triste e compungido.
Senti que nunca mais a veria. Era um olhar de adeus.
NO CAMINHO DO GUERREIRO

Para mim só existe percorrer os caminhos com coração. Qualquer


caminho, desde que tenha coração.
Don Juan

O vôo foi um tormento. Vinte e três horas lutando contra o pânico, o


medo e a ansiedade. Chegamos à Cidade do México às sete da manhã do dia
28 de dezembro, domingo. Eu dispunha de duas semanas para encontrar o
lugar.
Saí para caminhar, pois, apesar do cansaço, não conseguiria dormir. Nas
bancas, as manchetes informavam que Chihuahua estava em estado de
calamidade pública por causa do excesso de frio. Comprei o jornal e me sentei
na Glorieta dei Angel. O número de mortos chegara a quinze e a polícia pedia
que as viagens turísticas fossem suspensas. Fiquei, ao mesmo tempo, triste e
aliviada. Não iria a Chihuahua.
Caminhei até à feira de moedas onde o Don Juan encontrara o Castaneda.
Não consegui desfrutar o passeio, pois estava muito cansada. Assim, desisti da
feira e fui visitar Gabriel. Levei duas horas para encontrar a sua casa, nos
arredores da cidade, somente para ser informada que ele estava fora do
México.
Luzia, a moça que me recebeu, estava hospedada na casa do meu amigo e
convidou-me para um chá. Teria uns trinta e poucos anos e parecia muito
contente com a minha presença. Achou uma pena que eu não fosse a
Chihuahua, pois fazia-se por lá um passeio muito bonito, chamado a Barranca
dei Cobre. Como eu não estava interessada em visitar minas antigas, pedi
informações sobre bruxos e feiticeiros. Segundo ela, não havia nenhum em
Chihuahua. Todos viviam em Vera Cruz, o estado mais místico da república.
Informou, também, que em Zacateca houvera recentemente uma convenção
mundial de bruxos. Gostei tanto daquela moça que convidei-a para jantar
comigo no dia seguinte.
De volta ao hotel, telefonei para os meus amigos contando da minha
chegada. Recebi dois convites para a passagem de ano. Um em Nuevo Leon,
com Carmenzita, outro em Colima, no Pacífico.
Adormeci com os nomes dos estados ecoando na cabeça: Zacateca,
Nuevo Leon, Colima, Oaxaca... Acordei cansada e pesei as possibilidades.
Minha preferência era o estado de Zacateca; Don Juan vivera em Oaxaca;
Nuevo Leon é o mais próximo a Chihuahua e Colima é uma praia lindíssima.
Lutei o dia inteiro contra a indecisão e acabei, mais uma vez, decidindo na
sorte. Escrevi o nome de cada estado em uma tira de papel e tirei uma ao
acaso. Nuevo Leon.
Quando Luzia chegou para me visitar, informei que partiria no dia
seguinte. Conversamos muito e, sem saber por que, relatei toda a história do
Cesar. Descobri que ela também admirava Carlos Castaneda e conhecia todos
os seus livros.
***

Cheguei em Monterrey, capital de Nuevo Leon, dia 31, ao meio-dia. Logo


mais, às duas da tarde, alcancei a pequena cidade onde vivia Carmenzita.
Gostei de sua casa, despojada, porém espaçosa, com muitos quartos e poucos
móveis. Seus filhos tinham vindo de várias regiões do México para as festas de
fim de ano. Um deles deixara Chihuahua antes do Natal. Não era exagero dos
jornais, Chihuahua estava soterrada de neve mesmo.
Passei uma semana naquela casa, conhecendo os hábitos e costumes do
norte do México. É uma gente austera e trabalhadora. Simpáticos também,
apesar de muito preconceituosos para o padrão brasileiro. Minha amiga,
então, nem se fala, Luterana convicta, acreditava sinceramente que só ela e
seus companheiros tinham descoberto o caminho da verdade.
Entretanto, o mais impressionante foi descobrir que Carmenzita, soubesse
ou não, era uma perfeita mulher do norte: bonita, sensível, romântica, religiosa
e tão vaidosa que não informava sequer a idade dos filhos, para que ninguém
pudesse calcular a sua. Apesar de querer muito a seus netos, evitava confessar
que já se tornara avó.
Viúva há muito tempo, desejava ardentemente casar-se outra vez, mas
ainda não encontrara ninguém "à sua altura". Contava longas histórias de
como despertara a admiração e a inveja das pessoas e, nesses momentos,
aparentava 20 anos de idade; porém, qualquer menção à sua idade ou qualquer
ameaça à sua posição "superior" a transformava em uma velha, irada,
enrugada e desagradável. Parecia uma lição ao vivo de como a vaidade
envelhece e faz mal às pessoas.
Era tão perfeita para o papel que suspeitei que estivesse praticando a arte
da espreita.07' Nos filmes que passavam em alta velocidade dentro dos meus
sonhos, a presença de Carmenzita - ou de alguém muito parecido com ela -
era um fato constante. Além de tudo, ela refletia tão soberbamente o meu
próprio sentimento de superioridade que a hipótese dela estar me ensinando
não era de todo absurda. Porém, se ela fosse uma guerreira, eu jamais poderia
desmascará-la e optei por agir como se não tivesse notado.
Conhecera um estranho homem que lhe trouxera muito sofrimento, razão
pela qual pedira a minha ajuda. Antes que ela o descrevesse, desconfiei que
este homem fosse o Cesar, tentando arrebanhar a mulher do Norte.081
Minhas suspeitas cresceram quando fiquei sabendo que ele dizia ter sangue
tolteca.091
Imediatamente, comecei a falar de Carlos Castaneda. Dogmática e
preconceituosa, Carmenzita foi peremptória: não permitia conversas sobre
bruxaria. Não me importei e continuei falando.
Durante os sete dias que passei naquela casa, percebi que despertava nela
emoções tão conflitantes como as que o Cesar despertara em mim. Chegou a
escrever um poema, falando da nossa amizade imorredoura e, no dia seguinte,
quase me expulsou de sua casa pela blasfêmia de misturar Buda com Jesus
Cristo.
Além das nossas conversas, minhas noites naquela casa foram preenchidas
por mapas, planos e indecisão. A cada vez, eu imaginava uma solução
diferente: iria a Chihuahua, Zacateca, Oaxaca,
Colima, Vera Cruz. Viajaria de ônibus, carro, avião. Continuaria sozinha.
Convidaria alguém.
Finalmente, cansada de tanto pensar, resolvi voltar à cidade do México e
aguardar algum sinal. Marquei a passagem para a 3a feira, 7 de janeiro.
Carmenzita me levaria de carro até a casa de um conhecido, Mário, que por
sua vez me levaria ao aeroporto, em Monterrey.
Na última tarde, fomos escalar um morro pequeno, perto da aldeia. A
beleza do dia e o azul do céu nos fizeram bem. Quando chegamos ao topo,
sentindo a alma leve de alegria, levantei os braços e dei um grito muito forte:
Cesaaaaaaar!
Como se estivesse atendendo ao meu chamado, apareceu um corvo! Veio
do Norte, voando solitário, fez um círculo perfeito sobre a minha cabeça e
desapareceu na mesma direção. Sentindo, no fundo da minha alma, que aquele
corvo era o Cesar, desci o morro e segui para o Norte, até uma colônia muito
pobre. Ninguém ouvira falar em Carlos Castaneda.
Ao voltar, minha amiga e eu passamos por uma festa de casamento.
Carmenzita explicou ao pai do noivo que eu era estrangeira e fomos
convidadas a participar. Fiquei encantada ao ver homens com imensos
chapéus bordados e mulheres de vestidos cheios de enfeites dançando a
Cumbia.
Já era tarde da noite e fazia muito tempo que Carmenzita fora dormir
quando sua filha telefonou de Chihuahua: A nevasca terminara, o tempo
estava bom e a temperatura subira a oito graus positivos.
Entendi que era o sinal que faltava e decidi alterar meus planos. Iria a
Chihuahua!
***

Encontrei Mário às 11 da manhã e partimos para Monterrey. Como o


avião para Chihuahua só sairia à noite, fomos almoçar em um restaurante
típico, com comidas expostas em mesas fartas e bem decoradas. Nos servimos
e sentamos para comer.
A minha agitação era tremenda. Chihuahua é o maior estado do México e
eu não tinha a menor idéia do que deveria fazer por lá. Mário descreveu-me os
poucos pontos turísticos da capital e depois perguntou se eu pretendia ir à
Barranca dei Cobre. Neguei. Se eu me interessasse por minas, visitaria Serra
Pelada.
- Você está enganada, Ana... A Barranca del Cobre é uma estrada de
ferro... - disse sorrindo. - Tem este nome porque os espanhóis acreditavam
que havia cobre naquelas montanhas, mas isso já faz muito tempo...
- E não é uma mina?
- Não!... É uma estrada que vai de Chihuahua até o Pacífico... é um
passeio lindíssimo!... O trem atravessa as montanhas de Sierra Madre e passa
por despenhadeiros de mais de dois mil metros de altura... - Fez um gesto de
corte. - Completamente verticais.
Enquanto ele falava, senti meu estômago enjoar e fiquei zonza. Sem
entender por que estava me sentindo tão mal, esforcei-me para atravessar a
bruma que me impedia de ouvir suas palavras:
- ...É um passeio impressionante! Um conjunto de montanhas
completamente verticais... pode imaginar? Paredões de mais de dois mil
metros de altura... perpendiculares... e o fundo coberto de coníferas?...
Um lampejo de luz interrompeu meus pensamentos. Levei uma fração de
segundo para perceber o que estava acontecendo: Mário estava usando as
mesmas palavras que eu conhecia. O lugar que eu procurava era a Barranca
dei Cobrei
***
Cheguei a Chihuahua tarde demais para passear. Enquanto desarrumava as
malas, comecei a duvidar se deveria realmente tomar aquele trem. Tive um
momento de incerteza e, de repente, percebi com clareza que, mais uma vez,
eu estava utilizando a dúvida como escudo. Desde o telefonema de Carlos
Castaneda, em mil novecentos e oitenta e nove, eu soubera que deveria ir a
Chihuahua. Partira do Brasil com esta certeza, mas chegara ao México e
começara a duvidar. Luzia me falara da Barranca dei Cobre no dia da minha
chegada. Só que eu me aproveitara da nevasca para encobrir o medo, o
verdadeiro pavor de, finalmente, chegar aonde era esperada!
Sentei-me na posição de lótus e afastei as dúvidas do meu coração.
Conheci, então, toda a extensão do meu medo. O medo atroz e pungente de
que aquela fosse a minha última viagem.
Fiz uma oração silenciosa e entreguei-me à minha sorte. No lugar da
confusão, surgiu a paz. Fosse qual fosse o meu destino, eu estava preparada
para cumpri-lo!
***

Embarquei às 7 horas da manhã, trazendo sobre a camisa a gravata


vermelha de seda que o Cesar esquecera na minha casa. Aquela gravata era um
presente. Um amuleto para me dar coragem.
A viagem foi maravilhosa. Atravessamos a orla do deserto de Chihuahua,
coberta com uma vegetação rasteira e amarela. Cruzamos aldeias, plantações
de maçãs, estradas de terra, um imenso lago e começamos a subir, a Sierra
Madre. Uma chuva fina tornava a paisagem um pouco irreal. As montanhas
vermelhas elevando-se até o céu pareciam vísceras sangrentas. Aquele lugar é
o estômago do mundo!
O trem passou por lugares altíssimos sem que eu sentisse medo. Sabia que
chegaria ao meu destino. Havia centenas de montanhas despencando lá de
cima como paredões imensos e assustadores e, por um momento, pensei que,
nem em mil anos, eu poderia descobrir o local exato que estava procurando.
Perguntei ao guarda do trem quantos hotéis existem na Barranca dei
Cobre. Três. Aonde pára o trem? Em todos.
Antes de entrar em depressão, pensei que a mesma força poderosa que me
permitira chegar até aquele ponto - tenha ela o nome de Deus, Poder, Buda,
Jesus ou Águia -, aquela força não me permitiria falhar.
A angústia desapareceu e a viagem voltou a ser maravilhosa.
***
Chegamos ao hotel às duas da tarde, embaixo da mesma chuva fina e
muita neblina. Estávamos no ponto mais alto da cadeia, exatamente à beira do
despenhadeiro. A sala de visitas do hotel possui paredes de vidro e em dias de
bom tempo é possível ver as montanhas. Porém, naquele momento, só
conseguíamos ver a neblina. Uma neblina cinza e tão densa que dava a
impressão que ia arrebentar os vidros.
Depois do almoço, começou a nevar. Apesar de não poder sair para
procurar o local do salto, não fiquei preocupada. Percebi, então, que estava
em um estado especial de ânimo. Uma espécie de desprendimento muito
confortante.
Hóspedes de todos os lugares do mundo se reuniram em torno da lareira e
passamos o tempo conversando alegremente. Foi uma noite divertida e
agradável.
Era o dia dez de janeiro e eu estava em Paz!
A PONTE

Sou como um vale, numa tarde fria Quando as almas dos sinos, de uma
em uma No soluçoso adeus da Ave Maria, Expiram longamente pela bruma.
Olavo Bilac

Dia onze de janeiro, despertei com uma sensação de suavidade. Meu


corpo parecia uma pluma, enquanto andei pelo quarto para me preparar.
Queria estar bem bonita para aquele dia. Depois do banho, vesti uma calça
azul, camisa branca e a gravata vermelha do Cesar. Perfeito!
O caminho até a sede parecia feito de nuvens, tão macios estavam os
meus pés. O tempo tinha piorado. A neblina se tornara mais densa ainda e
havia um prenúncio de neve. Lá dentro, a lareira aconchegava a sala, e o café
da manhã foi muito demorado.
Às dez e meia, sentei-me em frente à lareira. À minha esquerda uma
parede de vidro, entupida de neblina. À minha volta, o grupo de hóspedes.
Falava-se muito, em línguas diferentes.
Alguém se levantou para atiçar o fogo e perguntei as horas: onze em
ponto. Uma mulher comentou que aquela era uma hora especial, e que no
mundo inteiro as pessoas estavam rezando. O grupo silenciou por um
instante, e aproveitei para meditar.
Rapidamente, todos voltaram a conversar. Enquanto escutava o
burburinho de vozes crescer, senti que afundava, maciamente, dentro de mim.
Um calor escuro e aconchegante me envolveu, e adormeci.
Abri os olhos alguns minutos depois, com a cabeça voltada para o lado
esquerdo. Não havia uma gota sequer de neblina e, pela parede de vidro, pude,
então, ver a montanha, vizinha ao hotel.
O topo, em forma de escada, caía perpendicularmente por uns cem
metros e voltava a ser horizontal, formando um imenso degrau, à beira do
despenhadeiro.
Meu coração vibrou de amor por aquela montanha. Um amor cheio de
nostalgia, de quem conhecia muito bem aquele lugar. Então, antes que eu
pudesse formular qualquer pensamento, ouvi a mesma voz masculina dizer,
pausadamente, no meu ouvido direito:
- Este é o ponto de onde o Castañeda pulou no abismo.
Fui inundada por uma onda de perfeita felicidade. Soube, então, o que eu
sempre soubera: fora chamada para assistir a alguma coisa naquele local.
Alguma coisa muito linda e pungente que aconteceria bem na hora do pôr-do-
sol. E, se o tempo piorasse, eu poderia assistir dali mesmo, sentada naquela
cadeira!
A voz se calou e despertei completamente. Alguém perguntou se eu
dormira bem e disse que sim, apesar de pouco tempo. Todos caíram na
gargalhada, e perguntei por quê. Era meio-dia e meia. Eu dormira por noventa
minutos!
***

Rapidamente a neblina voltou a encobrir a paisagem. Senti que ela se


recolhera por um instante, somente para que eu pudesse identificar o lugar.
Alguém reclamou do tempo, e ouvi minha voz comentar que amanhã o céu
estaria limpo.
Depois do almoço, sentei-me com uma mexicana muito simpática.
Falamos de medicina natural e caminhos esotéricos. Apesar do mau tempo, o
grupo saiu para passear e nos convidou. Não aceitei, e a moça preferiu
continuar conversando comigo. Ficamos as duas sozinhas no hotel, num bate-
papo animado, até que, de repente, senti uma pontada no intestino. Foi um
mal-estar tão grande e tão súbito que não pude controlar. Expliquei que
precisava deixá-la só por um instante. Prometi que voltaria logo.
Dei uma passada rápida no quarto, preocupada por ter deixado a
mexicana sozinha, e saí com a intenção de voltar para a sede pelo caminho
interno, por causa da chuva. Não sei o que aconteceu. Meu corpo girou na
direção contrária e dirigiu-se para o belvedere. Pensei na moça e tentei alterar
meus passos. Não consegui. Meus pés tinham vida própria e sabiam o que
deviam fazer.
Sempre me recriminando por causa da moça, dei a volta na sede e parei
numa reentrância à beira do despenhadeiro. A tal montanha, exatamente à
minha frente. Observei seu perfil recortado e o degrau, parecendo um platô.
Soube, então, que a hora tinha chegado. Pensei em procurar um lugar mais
abrigado e descobri que não podia me mover. Meu corpo tinha parado de
funcionar. Só os olhos estavam vivos.
Os pensamentos se embaralharam na minha cabeça. Falavam da chuva e
de documentos molhados dentro da minha bolsa aberta. Fiquei
insuportavelmente ansiosa ao pensar que meu passaporte se molharia, mas
não pude comandar as minhas mãos. Então, "A Voz" sussurrou no meu
ouvido direito: "Esqueça a bolsa". Os pensamentos morreram. A ansiedade
desapareceu. E olhei para frente.
Na densa neblina, nuvens formavam figuras de rostos masculinos. Meu
pescoço girou para a direita, lentamente. Meus olhos vasculharam as nuvens.
Sem formular qualquer pensamento, "soube" que estava procurando uma
ponte. Achei que devia procurar uma ponte colorida e cheia de anjinhos, mas
vasculhei as nuvens, sem encontrá-la.
Meu pescoço girava, por vontade própria, da esquerda para a direita. Meus
olhos vagavam pelo céu enevoado sem se deter em nada. Então, de repente,
quase ouvi um som. Pode ter sido um vupt ou um zapt, não sei. Sem pensar,
endireitei a cabeça - ou ela se endireitou sozinha - e olhei para frente.
Saindo da ponta do platô, havia uma linha preta, muito reta e muito dura.
Passava sobre o vale e se perdia na neblina, como se tivesse sido desenhada
com régua. Minha visão ficou em túnel, e vi que era uma passarela de metal
negro. Não tinha corrimão. Senti no meu estômago a frieza e a extraordinária
dureza daquela ponte.
Parado no platô, bem na entrada da passarela, um grupo de minúsculos
vultos negros se preparava para fazer a travessia. Seriam uns quatro ou cinco,
não mais, obviamente liderados por um deles. Dava para perceber a alegria e a
emoção de todos.
Devagarinho, o líder subiu na ponte e foi deslizando como se estivesse
numa esteira rolante. Ordenadamente, os outros seguiram atrás. O perfil da
fila indiana deslizou sem pressa, até que o líder chegou bem à minha frente e
parou. A fila parou também.
Com toda suavidade, o vulto virou-se para mim e acenou um largo adeus.
Meu coração ficou apertado.
Sem saber por que, pois não podia pensar, tive vontade de me livrar
daquela visão e disse a mim mesma que não faria o papel ridículo de dizer
adeus à neblina. Mas a voz sussurrou alguma coisa. Minha cabeça girou para a
direita e voltou rapidamente para frente. Só tive tempo de ver que a minha
mão acenava!
Um desejo surgiu lá no fundo do meu coração. Desejo de ver aquele vulto
de perto. Ver o seu rosto. Nem que fosse pela última vez.
Então, e por um breve instante, o vulto atravessou a distância que nos
separava e pude ver o seu rosto: Era o Cesar!
Suas feições resplandeciam de felicidade. O sorriso parecia de ouro. Os
olhos brilhavam. Fitou-me com ternura e moveu os lábios devagar, numa
mensagem muda de amor, carinho e coragem. Uma mensagem que foi direto
para o meu coração.
A paisagem começou a mudar. Lentamente, a neblina se condensou e
tomou a forma de um gigantesco túnel. Havia uma estrada, também. Uma
estrada clara e sinuosa. Partia da minha esquerda, fazia uma curva suave, bem
à minha frente, seguia em linha reta e se perdia no túnel.
Na ponta da estrada, surgiu um carro branco e antigo. Veio deslizando
macio, passou por mim com delicadeza e se afastou, devagar. No banco de
trás, duas mulheres, sorridentes, acenavam. Uma delas parecia-se com Luzia.
A outra, percebi depois, com Carmenzita.
Do lado oposto, vindo na minha direção, um pequeno carro negro se
aproximava. Era bem menor que o branco e mais antigo, também. Quando os
dois se cruzaram as mulheres o apontaram freneticamente, mas não lhes
prestei atenção. O carro branco estava indo embora!
Chegando na boca do túnel, o alvoroço das mulheres aumentou. Agitadas,
as duas acenavam alegremente e sorriam de felicidade. Só naquele momento
me dei conta que estava sendo abandonada e, numa súplica muda, pedi que
me levassem, também. Senti, mais do que vi, as duas perguntando ao
motorista. O homem de cabelos escuros negou, sem nem ao menos olhar para
trás. As duas continuaram acenando e acenando até que o carro branco
desapareceu na neblina.
O túnel permaneceu à minha frente, vazio. Irremediavelmente vazio! Senti
o coração explodir, e do meu peito brotou um chamado triste: Cesaaaaaaaaaar!
Então, o corvo apareceu! Veio do alto do céu, à minha direita, e desceu
em linha reta até o fundo do despenhadeiro. Depois, voltou devagarinho e fez
uma curva harmoniosa. Desfilou, lentamente, na frente dos meus olhos e
sumiu atrás de uma rocha. Foi um vôo magnífico!
Um sentimento pungente de felicidade triste me invadiu por completo.
Uma chama vermelha começou a jorrar do meu peito. Senti uma necessidade
premente de cantar, e a minha voz, sem que eu soubesse o porquê, começou a
entoar a Ave Maria de Somma.
Ave Maria Gratia Plena. Dominus Tecum... Dominus Tecum Benedicta tu in
Mulieribus Benedicta tu in Mulieribus...
A neblina se condensou, mais ainda. Agora, à minha frente, só havia um
imenso tapete de nuvens brancas. Uma mulher caminhou suavemente até o
centro e se ajoelhou. Parecia a Virgem Maria.
Depois dela, mais algumas se aproximaram e se ajoelharam também.
Depois mais outras e outras mais. Não paravam de chegar, vindas de todas as
direções. Legiões de mulheres que, de branco, ocuparam todo o espaço, se
ajoelharam e cantaram comigo.
Nossas vozes se uniram, cresceram e se amalgamaram. De repente, não
havia mais vozes, só um som perfeito. A música da Natureza. O Som do
Universo.
Não sei quanto durou. Foi um momento eterno!
***

Quando a música terminou, o eco perdurou por muito tempo. O som foi
se esvaindo, lentamente, escorrendo pela paisagem, levando as nuvens, as
mulheres, a neblina.
Só então, comecei a despertar. Percebi meu coração parado, esforçando-se
por voltar a bater. A primeira pancada foi forte, muito forte. As seguintes,
rápidas e descompassadas.
Com dificuldade, tentei mexer os dedos das mãos. Estavam rijos. Todo
meu corpo estava petrificado.
Foi se aquecendo devagar. Primeiro as mãos. Depois, os braços, os pés, o
pescoço e todos os membros. Por último, minha visão clareou, e descobri,
surpresa, que estava coberta de neve!
O SÓSIA

Nunca chegarei a Ixtlan. No entanto, em meus sentimentos... em meus


sentimentos... às vezes acho que estou apenas a um passo de alcançá-la.
Don Genaro

Um grito me despertou no meio da noite. No meu sonho, uma enfermeira


de olhos sanguinolentos pretendia me matar. Fazia-se de minha amiga, mas eu
percebera suas intenções.
Estávamos as duas fechadas, numa sala branca. Toda branca. Pensei em
fugir, mas a mulher teria me impedido. Eu precisava enganá-la. Fingir que
acreditava na sua amizade e deixá-la chegar perto. Mas aquela estranha era
capaz de ver a minha aura. Fingir não bastava. Eu tinha que me sentir
tranqüila.
Sem tirar os olhos de mim, ela preparou uma injeção. Depois, de seringa
em riste, se aproximou de mim, com palavras de falsa amizade.
Antes que ela conseguisse me tocar, eu a empurrei. Não com as mãos.
Empurrei-a com um grito que saiu do fundo das minhas entranhas.
Fora este grito que me despertara.
Olhei em volta. Sombras negras esvoaçavam pelo quarto. Medo. Percebi
que estava tremendo de medo.
Acendi a luz e só consegui adormecer de novo quando o dia clareou.
***

Pela manhã, o gerente do hotel nos levou a passear. O dia estava bonito, e
fui caminhando ao léu, sem me preocupar com o nosso destino.
Fomos todos conversando, alegremente, pela estrada. Saltamos umas
pedras. Atravessamos um matagal. E cruzamos um riacho. Então,
subitamente, me senti cansada. Não foi um cansaço comum, foi como se meu
corpo tivesse se tornado terrivelmente pesado!
Sem condições para continuar, pedi a um argentino que me ajudasse a
atravessar o riacho de volta. Do outro lado da água. voltei a me sentir bem.
***

Na hora do almoço, Sandro, o argentino, veio falar comigo. Perguntou da


minha saúde e comentou que eu perdera um lindo passeio. Depois, emendou
com uma longa história sobre a sua viagem:
- Não sei como vim parar aqui... Estava com meus amigos na Baja
Califórnia, à beira do Pacífico, praticando surf e, de repente, decidi ir
embora... assim, sem mais nem menos.
"Pensava em ir para os Estados Unidos, mas passou um carro me
oferecendo carona para Los Mochis, e aceitei... Lá chegando, descobri que
havia um trem e o tomei."
- E por que desceu justamente neste hotel?
- Não sei. Achei que era aqui que eu tinha que descer! Seria coincidência
ou aquele rapaz também viera por causa do
Cesar? Eu tinha que arriscar. Perguntei se conhecia Cesar Pagliardi. Não.
Nunca ouvira falar. E os livros de Castaneda? Todos. Era um profundo
admirador seu. Na verdade, confessou com ar travesso, procurava seguir
todos seus ensinamentos. Não tive mais dúvidas. Com o coração aos saltos,
contei toda a visão do dia anterior.
Sandro agitou-se de tal forma que precisei acalmá-lo. Descontrolado,
pediu provas de que aquele era o lugar correto. Não ficou satisfeito com a
minha convicção e chamou o gerente do hotel:
- Você conhece o Carlos Castaneda?
- Claro - disse o gerente. - Ele está sempre por aqui! Percebi o quanto eu
fora burra! Perguntara aos índios do local
e a todas as faxineiras, mas nem pensara em perguntar ao gerente.
- E você sabe de onde foi que ele saltou para o abismo? -perguntou meu
amigo, desconfiado.
- Claro que sei! - O gerente apontou o platô. - Foi lá.
Sandro ficou aflitíssimo! Quase me carregou para fora. Queria que eu
indicasse o local da ponte, do túnel, das virgens e, pulando de contente, tirou
fotos. Muitas fotos. Estava seguro que eu assistira a um momento histórico.
Aproveitei para olhar a paisagem:
Era realmente uma paisagem esplêndida! O vale à nossa frente cintilava e,
onde antes houvera o túnel, o Sol se refletia na montanha, formando uma
gruta dourada. Sandro apontou para aquela beleza:
- Olhe - meu amigo apontou para a gruta -, é um presente do Cesar para
você!
Talvez fosse. Mas eu não podia suportar mais experiência nenhuma!
Sentindo que ia desmoronar, virei o rosto e voltei para a sede.
***
Hora de partir. Os dois trens chegaram ao mesmo tempo, e todos os
hóspedes, incluindo Sandro, voltariam para Chihuahua. Eu era a única a
continuar até o Pacífico. A única... e já estava cansada daquela solidão!
- Vou com vocês, Sandro... não quero mais ficar sozinha.
- Ai que bom, Ana... a gente pode ir junto até Los Angeles, topa?
- Talvez.
Peguei a mala com todos meus agasalhos e acompanhei o grupo até a
estrada de ferro. Porém, no momento de embarcar, voltei atrás e, sem pensar,
tomei o trem para Los Mochis.
Foi uma viagem agradável. O dia bonito, apesar de frio, deixou todos os
passageiros contentes. Na parada seguinte, entrou um grupo de turistas
fazendo enorme alarido. Traziam chapéus, cerâmicas e toda a sorte de
lembranças vendidas pelos índios. Alguém reclamou do frio:
- Puxa vida!... Acho que vamos congelar!
Era um senhor baixinho e sorridente. Sem saber por que, ofereci-lhe o
meu jorongoS20) Imediatamente, o homem sentou-se à minha frente e puxou
conversa. Observei-o. Devia ter um metro e meio de altura, gordinho e
entroncado, mas o rosto... era o rosto do Cesar!

(20) Poncho usado pelos índios do norte do México.


A mesma expressão de alegria. O mesmo cabelo preto. O mesmo
penteado. A mesma pele morena e lisinha. O mesmo formato de rosto, de
sobrancelha, de boca, de nariz. Tudo! E, como se não bastasse, vestia terno
azul-marinho, camisa branca e gravata vermelha!
Fiquei na dúvida. Seria o Cesar capaz de aparentar vinte centímetros a
menos? Ou será que eu estava fantasiando de novo? Entabulei uma conversa:
- Como é seu nome?
- Juan. E o seu?
- Ana... O senhor mora por aqui?
- Sim - Olhou pela janela. - Aqui pertinho.
- Estou procurando uma pessoa que também vive por estas bandas. Um
tal de Cesar Pagliardi. Conhece?
- Não. - Sorriu o sorriso do Cesar. - Por aqui vive muita gente!
E agora? Devia fazer uma pergunta direta? Não. Se fosse ele mesmo e não
quisesse ser reconhecido, poderia se assustar. E, se não fosse, eu faria papel de
tola.
- O senhor nasceu aqui mesmo?
- Sim. E você?
- Brasil.
- Brasil?! Puxa vida! Você está bem longe de casa!... Aonde pretende ir?
- Vou primeiro à Mazatlan. Depois não sei ainda...
- Devia ir a Manzanilla... é uma praia belíssima!
- O senhor está indo para lá?
- Agora não... mas costumo ir com freqüência.
Estaria marcando um encontro comigo? Só tinha um jeito de descobrir:
perguntar diretamente. E era o que eu ia fazer, quando o homem se levantou:
- E aqui que eu desço.
Fiquei tremendamente angustiada. Senti um desespero frio e quase
implorei que, pelo amor de Deus, não me deixasse sozinha. Com a voz
embargada, tentei demovê-lo:
- Mas você acabou de subir no trem!
Levantou os ombros e saltou correndo, com um sorridente "até breve".
Estava decidido. Depois de Mazatlan eu iria a Manzanilla e pronto! Se
aquele homem fosse o Cesar, eu descobriria. Se não fosse, conheceria uma
praia bonita.
Só quando me instalei no hotel, em Mazatlan, foi que me dei conta do
tamanho do meu cansaço. Era tão grande que não dava vontade de sair.
Desarrumei as malas, pedi uma refeição no quarto e fui dormir, antes das
nove da noite.
Acordei à beira do pânico. Desta vez sem me lembrar do sonho. Luz. Eu
precisava de luz. Meu quarto estava cheio de sombras. Estavam em todos os
cantos. Em todos os espelhos. Embaixo da cama. Em cima dos armários.
Pela manhã, estava mais cansada ainda. Chovia, e eu me sentia só. Muito
só. Me agarrava à idéia de que o Cesar era o mexicano do trem e, ao mesmo
tempo, não tinha coragem de ir até Manzanilla para confirmar... E se não
fosse? O que seria da minha vida?... Melhor não pensar nisso agora...
No meio da tarde, descobri uma massagista parecida com Joana. Contente
com a semelhança, pedi um horário duplo e voltei relaxada para o quarto.
Deitei. Em algum lugar da minha mente, a imagem de Claudia apareceu.
Chorava. Chorava muito, a coitadinha. Parecia desesperada.
Continuou chorando e chamando por mim durante a noite inteira.
Durante todo o dia seguinte. Eu podia ouvir sua voz dizendo que alguém
tinha morrido. Mas quem?... Uma pessoa muito próxima, muito querida.
Repassei um a um os meus parentes. Não admiti naquele momento, mas o
que realmente me apavorou foi a possibilidade de ter sido dada como
morta.(21)
Sem coragem de ligar para o Brasil, preferi desistir de Manzanilla e voltar
para a cidade do México.
(21) Don Juan foi dado como morto e dizia que todo guerreiro deve agir
assim.
A MORTE DA GUERREIRA

Esperei, meu caro, que esta hora viesse algum dia. Ansiei por ela. Agora
que ela veio, deixa que eu me vá... ...Adeus, cabana. Adeus, rio. Adeus, Sidarta!

Hermann Hesse

Não encontrei Luzia no aeroporto e fui para o hotel de sempre. Telefonei


para Nuevo Leon e Carmenzita me informou que Claudia ligara chorando,
perguntando por mim. Quem teria morrido? Será meu pai... meu pai não, meu
Deus... meu pai não!
- Claudia, meu amor, é mamãe... o que aconteceu?
- É a Cleópatra, mãe... ela morreu!
Dá para imaginar minha alegria? Precisei disfarçar o alívio que senti para
não magoar minha filhota. Consolei-a como pude e desliguei o telefone
contente.
De repente, uma percepção caiu sobre a minha cabeça. Um bloco escuro e
pesado, que me deixou completamente atordoada. Dentro do bloco, cenas de
um filme de terror: as minhas desconfianças sobre Cleo ser uma guerreira. Seu
olhar de até nunca na hora da despedida. E, principalmente, as enigmáticas
palavras do Cesar, "Esta cachorra esteve conosco em todos os lugares"... "E
uma cachorra muito inteligente... muito especial".
Só naquele momento percebi a importância de Cleópatra na minha vida!
Ela era uma guerreira e eu a tinha perdido! Mas o mais terrível, o que
provocou uma dor sem limites, foi pensar que o Cesar tinha ido embora deste
mundo. Tinha ido embora e, para que eu tivesse certeza da sua partida, levara
junto a minha cachorra.122'
Senti uma dor profunda. Um sofrimento pior do que a morte. O Cesar
tinha ido embora! Tinha me deixado sozinha, sem nunca conversar
abertamente comigo. Todos tinham me abandonado. Só! Eu estava
irremediavelmente só neste mundo!
Uma onda de pavor tomou conta de mim! E o pavor se converteu em
ódio. Um ódio atroz de todo aquele sofrimento, de toda aquela dor. Ódio do
Cesar. Da injustiça. Da perda da minha cachorra. E de toda aquela loucura.
- Vou esquecer tudo isso! - Jurei a mim mesma, em voz alta, no auge da
fúria. - Vou esquecer todo este pesadelo! Juro por Deus que nunca mais vou
sofrer tanto! Nunca!
Comecei a fazer planos: assim que eu chegasse a São Paulo, arrumaria um
emprego. Alguma coisa bem absorvente, que me ocupasse a cabeça o dia
inteiro. Arranjaria um novo grupo de amigos, um namorado e até me casaria,
de novo, se fosse preciso.
A decisão me acalmou. Levantei da cama, disposta a fazer o turismo que
ainda não tinha feito quando outra idéia caiu como rocha sobre a minha
cabeça. E, desta vez, uma rocha bem pesada.
Eu não podia mais voltar atrás... tinha vendido minha alma ao diabo!... Na
busca da iluminação, encontrara o demônio e fora ludibriada por ele! Como
Fausto, eu vendera minha alma em troca de poder... e estava condenada ao
inferno!...
Senti o chão se abrir e tive a vertiginosa sensação de cair num poço sem
fundo. Foi o mais doloroso momento de toda a minha vida!
Não sei por quanto tempo gritei e me debati, sem ter a menor idéia de
onde estava. Até que, de repente, "a Voz", aquela bendita voz masculina,
pediu que eu me controlasse.
Não foi fácil. Precisei repetir centenas de vezes o Mantra OM MANÍ
PEMME HUM para poder me levantar do chão e outra centena para andar
até o chuveiro. Cantei o mesmo Mantra embaixo da água fria e, por mais uma
ou duas horas, na posição de yoga.
Quando, finalmente, Luzia chegou, eu já estava mais calma. Com a
sensação de estar contando um sonho, contei tudo o que se passara naqueles
longos quinze dias. Chorei muito, Luzia bebeu demais e acabamos
adormecendo.

(22) Ir embora deste mundo é o objetivo final do Caminho do Guerreiro.


Se eu não fosse tão egoísta, teria ficado feliz. O Guerreiro que consegue seu
objetivo, vai embora deste mundo, mas não morre.
***

Na manhã de 5a feira, percebi que Luzia é a mulher do Oeste. Não foi


uma dedução lógica, nem um pensamento duvidoso. Foi uma percepção clara
e objetiva. Perguntei com qual das mulheres de Don Juan ela mais se
identificava. Zoila. Alguma vez pensara seriamente em seguir o Caminho do
Guerreiro? Muitas. Eu estava certa!
Passamos o resto do dia fazendo planos: iríamos a Oaxaca descobrir a
casa, a praça e o banco de Don Juan. Depois viajaríamos até Manzanilla e, se
possível, até Sonora.
De repente, Luzia desistiu. Achou que tudo não passava de fantasia e,
assustada com o peso da responsabilidade, deixou o hotel.
Sozinha, senti uma saudade imensa da minha cachorrinha, do seu carinho,
das suas brincadeiras e tive outra crise de choro. Sem certeza se estava
chorando por ela ou pelo Cesar, perguntei em voz alta, desconsolada: "Por
que você me abandonou? Por quê?".
Então, a imagem de Cleópatra apareceu à minha frente. Seus pêlos
brilhavam como se fossem de prata e sua voz calma preencheu todo o
ambiente:
- Você não está me deixando ir embora.
Só então percebi a enormidade do meu egoísmo. O Budismo ensina que
jamais devemos chorar um morto, pois assim estamos dificultando a sua
viagem. Controlei as lágrimas e disse em voz alta:
- Pode ir, meu amor. Eu amei você e sei que você me amou. Vá em paz.
Sua missão está cumprida. OM MANÍ PEMME HUM.
Continuei a repetir o Mantra, enquanto Cleópatra cresceu e tomou a
forma levemente conhecida de uma mulher. Tinha cabelos negros e a pele
clara. Sorrindo, a imagem começou a subir, sem se desfazer, e sua voz falou,
dentro da minha cabeça:
- Deus te abençoe, minha filha!
No dia seguinte, sentindo que, se não saísse imediatamente do México,
aquela terra nunca mais me deixaria partir, tomei o avião e voltei para casa.
PARTE IV

MORTE E RENASCIMENTO

Não me digas adeus, ó sombra amiga Abranda mais o ritmo dos teus
passos Sente o perfume da paixão antiga, Dos nossos bons e cândidos
abraços!
Sou a dona dos místicos cansaços,
A fantástica e estranha rapariga
Que um dia ficou presa nos teus braços...
Não vá, ainda, ó sombra amiga!
Teu amor fez de mim um lago triste Quantas ondas a rir, que não ouviste
Quanta canção de ondina lá no fundo!
Espera... espera... ó minha sombra amada Vê que p'ra além de mim não há
mais nada E nunca mais me encontras neste mundo!
Florbela Espanca

LIÇÕES DE ABISMO
Nada do que eu jamais fizera, nada do que eu imaginara, podia sequer
comparar-se à angustia e à solidão daquele momento.

Carlos Castañeda

Não sou capaz de descrever meus sentimentos, quando cheguei a São


Paulo. Era uma sensação de ter estado fora do mundo, ou de ter sido
arrastada por um furacão. Tudo parecia irreal. Inconsistente, como o tecido
dos sonhos.
Às vezes, eu precisava olhar meu passaporte para confirmar que realmente
tinha viajado, ou ler o meu diário para ter certeza de que não inventara aquela
cena na neblina.
Meu corpo parecia gasoso. Minha alma, vigiada. As sombras continuavam
ao meu redor. Palavras voavam pela minha cabeça, sem formar um
pensamento completo. Ponte... neblina... sozinha... herdeira...
E eu chorava. Chorava a morte de Cléo. A chuva ininterrupta que
acinzentava a cidade. A ausência de Claudia, ainda no acampamento. Qualquer
coisa, menos pensar nas coincidências(23). Menos acreditar que o Cesar me
deixara só!
(23) No decorrer dos oito livros, Don Juan faz muitas metáforas sobre o
momento de Castañeda deixar este mundo. Fala de uma ponte na neblina, de
que ele iria embora guiando um automóvel e de uma música maravilhosa na
hora de partir.

Quando conseguia pensar, argumentava comigo mesma que ele não podia
ter ido embora. Não agora, que eu sabia quem ele era. Não agora, que o meu
treinamento tinha começado. O discípulo tem que estar preparado para ficar
sozinho. E eu ainda não estava. Não podia estar. Não queria estar!
"Afinal" - argumentava eu com a minha imagem no espelho cheio de
sombras "ele prometeu ir comigo a três lugares: México, a nossa praia e voltar
ao restaurante japonês".
- Gostei muito daqui, mi amor! - dissera ele naquele dia, eu me lembrava
muito bem. - Na próxima vez que eu vier, voltaremos a este restaurante.
Então, qual o significado daquela cena na neblina? E do automóvel
branco? E das virgens? Onde está a resposta, meu Deus? Como saber a
verdade?
E, no sétimo dia, a Voz me respondeu:
- Reescreva o livro inteiro. Desta vez mantendo o enfoque em você, não
no Cesar. Só assim você encontrará as respostas.
Começou, assim, a terceira fase da minha recapitulação.
***

Agora, conhecimentos difusos começavam a fluir para mim. Vinham


chegando transparentes, e ficavam boiando na minha cabeça, até que eu
conseguisse transformá-los em palavras. Pareciam pensamentos meus, mas
vinham carregados de uma certeza que os meus próprios pensamentos não
possuem.
Fui percebendo, devagarinho, que desde o primeiro encontro, em algum
lugar inacessível da minha mente, havia uma sensação de estar com o
Castaneda. Não era um pensamento. Nem uma voz. Era como se minhas
vísceras tentassem se comunicar comigo.
E, junto com estas percepções, encontrei, dentro de mim mesma, um
conjunto sólido de informações sobre o Cesar, sobre o mundo e sobre a
minha forma de agir.
Não sei se alguém me explicou ou se descobri sozinha que Castaneda só é
Mestre através de seus livros. Pessoalmente, ele é, e será sempre, o
Benfeitor.(24) E, como Benfeitor, sua função não é explicar, mas nos fazer
vivenciar a estranha e assustadora realidade do Universo.
O meu grande erro foi achar que ele deveria ser uma continuação de Don
Juan. Esperava dele a mesma paciência para explicar o inexplicável, a mesma
forma paternal de ensinar e, confesso, nunca me preocupei - ainda que tenha
lido uma dezena de vezes - com as suas semelhanças com o Nagual Julian.(25)
Precisei sentir na pele as conseqüências dos nossos encontros e reler todas as
descrições do Benfeitor de Don Juan, para me dar conta do quanto eles são
parecidos.
Tampouco dei atenção ao fato de que todo discípulo precisa ser enganado
no início do treinamento. Não porque achasse que comigo as coisas seriam
diferentes, mas, porque, no fundo, no fundo, nunca acreditei que o Caminho
do Guerreiro fosse para qualquer um.
Quando minha intuição começou a desconfiar, a outra parte de mim -
aquela que eu pensava ser o meu eu completo - se recusou a ser convencida.
O Caminho do Guerreiro era assustador demais para ela. Por isso, tive uma
crise de raiva cada vez que ele me deu uma dica a respeito da sua verdadeira
identidade.
Foi assim quando ele me falou do medo de água, do nome que eu não
estava preparada para saber, da esposa que morreu jovem, do amigo que
conhecia Castaneda, das belezas de Chihuahua, da Medicina Antroposófica e,
principalmente, quando apertou minhas costas, deixando claro que estava
alterando o meu ponto de aglutinação.
Aliás, uma vez ele me perguntou se as traduções dos livros de Castaneda
eram boas. Parecia bem preocupado, e a sua preocupação me deixou
irritadíssima. Fiquei tão ofendida que não só me recusei a responder, como fui
pisando duro para o meu quarto e demorei uns quinze minutos para voltar.
E se reagi com tanta violência a uma simples dica, imagino qual teria sido
a minha reação ao ser apresentada a Carlos Castaneda: Provavelmente, tentaria
uma discussão intelectual e, não importa qual fosse a sua reação, acabaria
provando para mim mesma que ele não passava de um rematado idiota.
Por outro lado, na ânsia de me sentir amada, eu era presa fácil para uma
conquista afetiva. Assim, ele entrou na minha vida, pela única porta que eu
tinha deixado aberta: o amor. Não o Amor verdadeiro, mas aquilo que eu
costumava chamar de amor.

(25) Nagual Julian foi o Benfeitor de Don Juan.


Não sei por que ele tentou me convencer que era traficante de cocaína,
mas imagino: em primeiro lugar, o crime organizado era uma excelente
justificativa para o medo que eu sentia ao seu lado. Medo este, deduzo, fruto
das experiências que ele me levou a ter, fora deste mundo.
Em segundo, eu achava que pagaria qualquer preço para ter o homem
certo ao meu lado. No meu antigo entender, a paixão justificava qualquer
loucura. Qualquer risco. E precisei achar que ele queria me matar para deixar
de pensar assim.
Nunca vou deixar de admirar a agilidade com que ele mudou seus planos
quando inventei a história do assassino profissional, nem de me extasiar com a
forma precisa, inteligente e cuidadosa com que ele me conduziu à
implacabilidade.
E fácil perceber que a minha lição teria sido menos violenta, se eu não
tivesse abafado meus sentimentos. E imagino que ele próprio tenha se
admirado com a minha resistência. Pelo menos é assim que, hoje em dia,
interpreto seus olhares interrogativos.
Aliás, minha razão ofereceu uma resistência tão grande que mesmo
durante a terceira visita - quando ele deixou de me enganar - eu procurei
outras justificativas. E, em vez do tráfico de cocaína ou o assassinato de Lula,
achei que estava com medo da despedida, da violência do seu desejo sexual,
ou por ter esquecido minha filha na rua.
Mas como ele sabia que estes argumentos não sobreviveriam a uma
análise ponderada, ao perceber que eu estava pronta, me deixou sozinha, com
a missão de recapitular. A partir de então, aquela porção desconhecida da
minha mente começou a lutar para convencer minha razão.
Acredito que esta seja a parte mais difícil de qualquer treina-mento. Na
luta que se desenrola, a nossa razão, que sempre se esforça para manter o
mundo dentro dos limites do conhecido, deve ser convencida aos poucos.
Passo a passo. Caso contrário, a luta se transformará em guerra. Uma guerra
que, segundo Don Juan, deve ser evitada a todo custo, pois pode ser mortal.
Por isso a frase "Você não deve pensa" que eu seja o Carlos Castaneda,
Ana... seria um erro... e um erro perigoso" significa somente que se naquela
época eu soubesse que estava sendo treinada, minha razão teria encontrado
argumentos muito mais fortes do que presunção, burrice e vaidade, e talvez eu
tivesse morrido!
Este homem não é fantástico?!
***
Sei agora que bastava a sua presença para alterar a posição do meu ponto
de aglutinação. Ele só apertou minhas costas com tanta violência para que, um
dia, a minha razão se desse conta do que tinha acontecido.
Sei, também, que sou mais confiável no estado de consciência
intensificada do que no estado normal de consciência e que, pelo menos uma
vez, ele alterou a posição do meu ponto de aglutinação para verificar se eu
estava dizendo a verdade.
Foi durante a terceira visita, quando comentei que o meu dinheiro estava
acabando. Não me lembro como chegamos a esta conversa, mas lembro que
ele pareceu assustado e exclamou:
- Puta merda! Eu pensei que você fosse sustentada pelo seu pai!
- Imagina, Cesar! Sempre vivi do meu trabalho. Só que de um tempo
para cá, não sei por que, não tenho conseguido trabalhar direito... Estava
vivendo do que eu tinha guardado, mas agora o dinheiro acabou!
Seus olhos descrentes passearam pelo meu rosto para verificar se eu dizia
a verdade ou estava, mais uma vez, me fazendo de coitadinha. Então, ele fez
um gesto. Não sei bem o que foi, mas tive a sensação de que uma parede
branca tinha sido puxada na minha frente. E, por um breve instante, eu soube
que o meu estado de consciência tinha sido alterado, mas logo esqueci o que
sabia.
E, claro está que, naquele dia, ele me aconselhou a vender o apartamento!
***

Tenho também uma estranha lembrança. Uma conversa fora deste


mundo, onde ele me falou do tempo.
Estávamos flutuando em algum lugar desconhecido, observando objetos
voadores que passavam por nós, como astros, quando ele chamou a minha
atenção para um planeta azul.
- Aquela é a Terra? - perguntei curiosa.
- Aquele é o tempo, Ana.
- Mas não é o planeta Terra?
- É. Mas é o tempo também.
- Quer dizer que o tempo só existe na Terra? Como isso é possível?
- Não dá para explicar, Ana.
- E quando voltarmos podemos escolher qualquer época da História?
- Você ainda não tem poder para isso, Ana... mas é possível sim... Um dia
você vai entender.
***
Mais ou menos por esta época, encontrei o cartão do restaurante. Aquele
mesmo velho cartão, onde, um dia, ainda durante a primeira visita, ele me
fizera uma dedicatória.
Emocionada ao perceber que afinal não me livrara de todas as
recordações, guardei-o na carteira, ao lado dos meus documentos, para tê-lo
sempre perto de mim. E, quando a solidão era muito grande, quando o medo,
a saudade ou a angústia vinham me ameaçar, eu relia aquela linda dedicatória:
"Espero que estes momentos sumen el no retorno de las nuestras vidas".
Até que uma vez, em lugar de cair na dedicatória, meus olhos deram com
a assinatura... Que estranho... tive a impressão de ter lido "Ccast"!...
Achei graça na minha fantasia e olhei outra vez. Parecia "Ccast", mas
devia ser a luz... o dia estava acabando.
Acendi todas as luzes e analisei: O mais importante era a inicial. Um "C"
tão grande que tornava o resto quase apagado. Seguiam-se quatro letras tão
pequenas e mal escritas que eu nunca lhes prestara atenção. Mas, olhando
bem, eu podia ver que não eram "e s a r" como sempre imaginei, e sim "cas t".
Era Ccast, mesmo!!!
De repente, toda a recordação daquele jantar na praia voltou à tona:
Ele parecia indeciso. Depois de escrever a dedicatória, titubeou tanto que
achei que era medo de colocar seu nome verdadeiro por causa da esposa.
Depois, tomou uma decisão súbita e assinou.
Eu até tentara investigar a verdade, mas, quando ele me perguntou se eu
aceitava que aqueles momentos provocassem uma mudança radical na minha
vida, esqueci minhas preocupações e simplesmente concordei.
Tanto tempo procurando uma prova e tinha uma guardada comigo, na
minha carteira!
- Ccast, você não se cansa de zombar de mim?!!!
O PONTO DO NÃO RETORNO

Don Juan e Don Genaro recuaram e pareceram fundir-se com as trevas.


Pablito segurou meu antebraço e nós nos despedimos. Aí um impulso
estranho, uma força, me fez correr com ele para a borda norte do platô. Senti
que o braço me segurava. Depois, fiquei só.

Carlos Castaneda

Como num jogo de armar, todas as atitudes do Cesar, todos os seus


gestos, todas as suas palavras se agruparam e formaram uma unidade
completa. Tudo passou a fazer sentido. Um sentido grande e assustador: Eu
era uma discípula. Estava sendo treinada!
Lá do fundo do abismo, um monstro de tentáculos grandes tentava me
agarrar, mas eu fugia. Olhava os detalhes, não o todo. Admitia a veracidade
das provas sem me deixar mobilizar por elas. Não era a mocinha do filme. Era
o espectador.
Sei que parece estranho, mas só vim a realizar o significado completo de
todas estas lembranças, durante o mês de maio.
Até aquele momento, cada recordação era um fato consumado. Peças de
um quebra-cabeça que não exigia grandes explicações. Então, uma tarde, me
dei conta que a minha consciência tinha sido manipulada!
De repente, realizei que havia um ser humano com total poder sobre mim.
Um homem que, com um simples gesto, um olhar ou um não-sei-quê, fazia de
mim uma marionete. Uma escrava! Por sua causa, eu tinha vendido o
apartamento, tinha viajado ao México e sabe Deus o que mais não teria feito!
Fiquei apavorada! Contei e recontei todas as vezes que a parede de bruma
tinha empastelado meus pensamentos e cheguei à conclusão que o Cesar,
aquele "monstro", podia ter me levado a executar qualquer coisa. Qualquer
ação escabrosa!
Para piorar, a lembrança daquela conversa através do espelho passou a ter
um significado fortíssimo: o velho índio devia ser, mesmo, o Don Juan... Eu
andava conversando com os mortos!
A boca do abismo se tornou maior, mas não foi ainda desta vez que ele
me engoliu.
***
Durante as seções de Kum Nye, quando entrava em meditação profunda,
eu podia ver esse abismo. Era uma fenda negra que separava meus dois lados,
esquerdo e direito. Uma faixa escura de três ou quatro dedos de largura
correndo vertical bem à minha frente. Essa fenda me aterrorizava, e para fugir
dela eu desistia do relaxamento.
Porém, durante o mês de maio, esta fenda passou a me perseguir,
constantemente. Aparecia durante o sono, na hora do trabalho e até quando
eu estava jantando com a minha filha. Cada vez que ela surgia, eu tinha a
sensação horrorosa de estar sendo partida ao meio e a minha primeira idéia, a
minha única reação, era abdicar de tudo. Renunciar ao Caminho do Guerreiro.
Nunca me perguntei se isso era possível. Na minha cegueira, acreditava
piamente que a escolha dependia somente da minha decisão.
Foi então que, em uma noite de junho, atingi o Ponto do Não, Retorno.
***

Para mim, o Ponto do Não Retorno veio na forma de uma recordação. A


mais terrível. Aquela que destruiu todos os meus pontos de referência. Foi o
último empurrão. Depois dela, eu só tinha duas alternativas: o Caminho do
Guerreiro ou a morte.
Até aquele momento eu sentia que o Cesar tinha abalado a minha
estrutura, não o meu âmago. Já tinha perdido as máscaras, o emprego, amigos,
dinheiro e estava na iminência de perder minha filha, mas continuava a
acreditar que o meu EU, o Eu daquela mulher que existia dentro de mim,
continuava intacto.
Esse engano quase me custou a vida. Ao descobrir a verdade, fui
definitivamente engolida pelo abismo. Entrei numa depressão tão profunda
que fiquei doente. Muito doente. A ameaça de ficar eternamente presa nas
malhas da angústia me obrigou a lutar. A luta mudou a minha concepção do
mundo. E quando por fim saí vencedora, já tinha me tornado uma Guerreira!
Tudo começou quando organizei a mais importante das recordações. Uma
lembrança daquele domingo, último dia da terceira visita: Eu não sabia a
ordem exata de duas cenas. Em uma, eu golpeava raivosamente a porta do
banheiro, falando palavrões. Na outra, estava no quarto rodeada por uma luz
pesada, declarando o meu amor. E nada me preparou. Nada podia ter me
preparado para o impacto da última descoberta: As duas cenas foram
simultâneas!
Estive em dois lugares, ao mesmo tempo: no banheiro, com a porta
trancada, dando vazão à minha raiva, e no quarto, ao lado da cama, dizendo
que o amava.
O Cesar me dividiu!
EPÍLOGO

Será assim, amiga: um certo dia Estando nós a contemplar o poente


Sentiremos no rosto, de repente, O beijo leve de uma aragem fria.
Tu me olharás silenciosamente.
Eu te olharei, também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia,
Para a porta de treva, aberta em frente.

Ao transpor as fronteiras do Segredo, Eu, calmo, te direi: - não tenhas


medo E tu, tranqüila, me dirás: sê forte.

E, como dois antigos namorados, Noturnamente tristes e enlaçados, Nós


entraremos nos jardins da morte.

Vinícius de Moraes

NASCE UMA GUERREIRA


Um Guerreiro sabe que espera e sabe o que espera: Ele espera a
Liberdade.
Don Juan
Foi assim que tudo aconteceu. Por mais inverossímil que possa parecer,
essa história é verdadeira e não há um fato sequer que tenha sido alterado ou
romanceado.
Quase quatro anos se passaram desde a primeira visita. E, nestes anos,
cresci mais do que se cresce em uma existência inteira! O medo, a raiva, a
angústia e a insegurança deixaram de ser sombras fantasmagóricas e passaram
a ser o que realmente são: inimigos contra os quais terei que lutar durante toda
a minha vida.
É uma luta árdua. Uma guerra que me obriga a utilizar todas as armas:
meditação, Kum Nye, autocontrole, exercícios físicos e, principalmente, a
vontade. A vontade sólida e indestrutível de continuar no Caminho do
Guerreiro!
As conversas com Don Juan emergem aos poucos na minha lembrança.
Por causa delas, sei que o Cesar ainda está vivo, mas não sei se voltará a
aparecer.
- Vou fazer o possível para que ele venha mais uma vez -disse ele, em 89
-, depois que tudo acabar.
- Tudo o quê?
- Você vai passar por um período muito difícil, minha filha. Negro,
mesmo. Mas vai encontrar a luz.
- Quanto tempo isso vai durar? - perguntei ansiosa.
- Uns quatro anos.
- Quer dizer que só vou ver o Cesar de novo em 1993?
- Não! - O velhinho sorriu. - Logo, logo ele vai aparecer de novo. Vai
aparecer duas vezes, ainda. E você vai desejar que ele nunca tivesse voltado.
- Duvido... mas por que é que ele só pretende me ver duas vezes?
- Ele pretende vir quantas vezes você precisar. Eu é que estou dizendo
que serão só duas... O trabalho com você será rápido... Depois é que vou ter
que intervir.
- Por quê?
- É assim que ele costuma agir. É a forma que ele tem de cumprir a sua
missão.
- Que missão?
- A de espalhar o Conhecimento para o maior número possível de
pessoas. É uma missão bem difícil. Mas ele está conseguindo. É por isso que
ele escreve tantos livros. Ele não gosta de escrever, você sabe, mas escreve
para cumprir sua missão.
- E pessoalmente ele não ensina ninguém?
- Como não? Ele está ensinando você, não está?
- Não sei. Não me lembro de nenhum ensinamento dele. Na verdade,
quem sempre fala quando estamos juntos sou seu.
- É que ele tem outro jeito de ensinar. O seu é falando. O dele é calado.
Mas ele está ensinando você, sim... um dia você vai perceber.
- Mas, se ele está me ensinando, por que pretende me abandonar depois?
- Porque tem muita gente precisando de ajuda. E ele está se esforçando,
ao máximo, para ajudar a todos.
- Eu posso fingir que ainda preciso de ajuda.
- Nem tente. Você não conseguiria enganá-lo e, aí sim, ele desapareceria
de vez!
- Ele visita todo mundo?
- Não. Isso seria impossível. Ele escolhe as pessoas.
- E por que ele me escolheu?
- É simples, muito simples mesmo: você o chamou e ele veio.
- Mas por que ele não atende o chamado de outros? Existe tanta gente
que arde de vontade de conhecê-lo!
- Porque estes não o chamaram de verdade. Para os que real-mente
desejam a sua presença, ele sempre aparece. Ele é um homem bom, meio
violento, mas bom.
- E por que o senhor quer que ele volte, depois de ter terminado a minha
lição?
- Porque seria bom para ele... mas não deixe que a sua vida se estrague na
espera. A obrigação de todo ser humano é ser feliz, o mais feliz que puder. A
Felicidade aqui em cima é tão grande, tão completa, que se não estivermos
acostumados com a "pequena" felicidade explodiremos ao encontrar a grande.
- Mas o senhor disse que eu vou passar por um período de muito
sofrimento!
- Vai. Mas é que você não sabe ser feliz. Pouca gente sabe.
- Não dá para o senhor evitar que eu sofra tanto?
- Não. Nada nem ninguém pode alterar o destino! Tudo que eu posso
fazer é ver o que vai acontecer. Mais nada. - Sorriu, e o seu sorriso lembrou-
me o do Cesar. - Mas não se preocupe. Quando tudo terminar, você saberá
que valeu a pena. Ele é um homem muito bom!
- O senhor gosta muito dele, não é?
- Ele é como um filho para mim!
Pareceu emocionado com a própria confissão e, depois de algum tempo,
emendou:
- Por isso, quero que ele volte a ver você.
- E o senhor acha que vai dar certo?
- Vou fazer tudo que estiver ao meu alcance.
***

Tem dias que acredito que o velhinho vai conseguir. Fico imaginando o
momento de atender o telefone e ouvir aquela voz grave dizendo:
- Habla Cesar, mi amor! Como estás?
Gosto de pensar que vou surpreendê-lo com as conversas de Don Juan.
Gosto de imaginar a sua gargalhada musical, ao me ouvir contar as peripécias
dos últimos dois anos. Gosto, também, e muito, de relembrar o seu sorriso
doce e os nossos momentos de ternura. E, na minha fantasia, fazemos juntos
uma viagem ao México, voltamos mais uma vez à "nossa" praia e jantamos, de
novo, naquele gostoso restaurante japonês.
Em outros dias, porém, sou invadida por uma pungente sensação de
nostalgia. Uma saudade indefinida de algo que ainda está por vir. Saudade do
meu futuro. Saudade da minha morte!
Nesses momentos, o mundo parece coberto por uma teia dourada de luz e
sinto que a felicidade está lá. Do outro lado da ponte. E que ele esperará por
mim. Pronto para me ajudar quando for a minha vez de entrar na neblina!
Ana Catan Dezembro de 1992

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