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Arquiteto
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SP
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Iniciada por Rudolf Steiner no início deste século, a Arquitetura Antroposófica tem um
parentesco com o termo Arquitetura Orgânica, um conceito hoje utilizado no mundo
todo. Rudolf Steiner atuou como arquiteto em uma época em que artistas plásticos,
principalmente na Europa e nos Estados Unidos, buscavam uma expressão nova para
suas produções. Inicialmente, nos anos 20 deste século, com a obra do primeiro
Goetheanum em Dornach, ele desenvolveu um conceito arquitetônico amplo,
expressando a organicidade do volume do edifício, e obtendo, desta forma, uma
linguagem artística incomum para a arquitetura da época. Se comparada com o grande
leque que atualmente classifica a Arquitetura Orgânica, quais seriam as características
desta proposta antroposófica?

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Muitos arquitetos buscam a expressão orgânica na arquitetura. Esse conceito está


relacionado ao termo organismo. Chamamos m m tudo que tem vida, desde os
seres mais primitivos unicelulares, através dos vegetais e animais, até a complexidade
do ser humano. O que é um organismo? Quando podemos denominar algo como sendo
um organismo? Quando possui vida, quando está em processo, ou seja, cresce e se mexe
por força própria. Tanto o crescer como o mexer podem ser enquadrados em um único
conceito - movimento. A   

  procura sua expressão nesta
característica da vida - o movimento. Existe, porém, um relacionamento mais íntimo
entre a Arquitetura Orgânica e a vida. Como se caracterizam as formas de um
organismo? Se observarmos um cristal de rocha, por exemplo, uma composição de
planos, arestas e superfícies lapidadas, podemos perceber nítidas diferenças entre suas
formas, se comparadas com um vegetal. Em vez de planos retos, o vegetal mostra uma
composição de convexidades e concavidades unidas e emendadas por curvas. Essas
formas são inerentes à vida. Mas o que é vida? Um seixo de rio também possui formas
redondas. Estas são resultantes do desgaste sofrido no percurso no leito do rio e da
erosão contínua da água. É uma ação externa na superfície da pedra. No organismo
vivo, a ação do processo que origina as formas que o caracterizam é interna. Um
processo, seja ele externo ou interno, sempre se manifesta no tempo. O tempo é um
fator fundamental na formação do ser vivo. Mas o ser vivo também precisa da matéria
para sua estruturação. O que é a matéria? Em sua essência, ela é superfície. A
composição e configuração de suas superfícies determinam um espaço. A matéria é
inerente ao espaço. Tempo e espaço formam o alicerce para a manifestação da vida. Já
vimos anteriormente, no exemplo do seixo de rio, que a incidência do tempo na matéria,
no espaço, é externa, de fora para dentro. Invertendo este processo de ação, a incidência
do tempo no espaço de dentro para fora, leva-nos ao conceito de vida. O entrelaçar de
tempo e espaço de dentro para fora tem como resultado a vida. A tentativa do arquiteto
que se identifica com a Arquitetura Orgânica é buscar na sua forma de expressão a
integração de tempo e espaço. O resultado é o movimento, é o dinamismo na
composição dos espaços. Ao usuário, esta arquitetura propicia o bem estar e questões
relacionadas à vida, apoiando e incentivando os processos vitais.

De um outro ponto de vista, ainda temos a questão estrutural do organismo. No


organismo vivo podemos distinguir características estruturais que não encontramos no
reino mineral. Podemos subdividir o vegetal em membros distintos um do outro: a raiz,
o caule e a folha. A raiz, uma das extremidades do vegetal, prende-se à terra
apresentando características formais diferentes da folha, voltada para cima, direcionada
à luz. Algo semelhante encontramos no reino animal com a seqüência formal de cabeça,
tronco e membros. Esta diferenciação estrutural do organismo vivo não se manifesta no
reino mineral. A Arquitetura Orgânica, observada em detalhes, apresenta-se com
elementos de características formais distintas, como frente, meio e fundo. De outro
ângulo, distinguem-se as lateralidades ou a expressão formal da base da obra, em
contraste com a sua cobertura. Resumindo, poderíamos concluir: a questão ligada ao
fenômeno ³vida´ e a estruturação que caracteriza um organismo vivo, definem este
primeiro tema da Arquitetura Orgânica.

     


  

No início deste século, a integração das artes plásticas era um tema que preocupava
muitos artistas, como pintores, escultores e arquitetos. Rudolf Steiner, em sua grande
obra, o primeiro Goetheanum, fez do edifício uma obra de arte total. Arquitetos,
escultores e pintores participaram no desenvolvimento do projeto e na execução dessa
obra: um auditório e palco, destinado às atividades da Sociedade Antroposófica em
Dornach, na Suíça. Rudolf Steiner enfatizou, em várias apresentações de seus projetos e
em palestras, que a arquitetura é a ³mãe´ de todas as artes, pois sem ela jamais teríamos
condições para abrigar a arte da pintura ou objetos de escultura, e tampouco teríamos o
espaço necessário para a manifestação da arte, da música e dança. Nestas condições, um
partido projetual pode ser elaborado utilizando-se da rica linguagem que cada segmento
da arte consagrou separadamente no decorrer dos tempos. Com a integração das artes, a
obra adquire um brilho especial quanto à sua expressão. Rudolf Steiner falou neste
contexto da obra u, que se comunica com o usuário.

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Esta sim é uma busca exclusiva da Arquitetura Antroposófica. Rudolf Steiner, quando
jovem, pesquisou durante vários anos os trabalhos científicos de Goethe, principalmente
aqueles que tratam da metamorfose das plantas. Goethe observou no vegetal,
independente da espécie e família, um princípio formal próprio de cada planta. Ele
observou que o contorno, a forma da folha da planta dá origem à forma das pétalas da
flor, à forma da semente, à forma do broto e assim por diante. A seqüência de formas
entre as diferentes fases de crescimento do vegetal são características exclusivas
daquela planta. Baseado nestes estudos, Rudolf Steiner chegou à idéia do princípio da
metamorfose da forma. Em suas obras arquitetônicas, podemos distinguir a
metamorfose da expressão formal do detalhe e dos elementos esculturais, a
metamorfose dos espaços na planta baixa e a metamorfose dos volumes no contexto
urbanístico. A seqüência das formas dos elementos arquitetônicos parte de um princípio
formal único, evidenciando um relacionamento mútuo entre parte e todo.
Assim, podemos observar no primeiro Goetheanum, parentescos entre a formas que
compõem as janelas e portas, e estas, por sua vez, têm semelhanças com elementos da
cobertura e do telhado, assegurando através da transformação em seqüência, a
familiaridade entre os detalhes.

Na Arquitetura Antroposófica, vinculada à metamorfose da forma, podemos ainda


constatar um partido formal que expressa, nos detalhes, a ação das forças em
conseqüência das cargas do material. Existe nesse contexto uma inversão quanto à
expressão artística, se comparada com a arquitetura moderna contemporânea. Toda obra
arquitetônica está sujeita a cargas resultantes do peso próprio do material, da ação de
vento e chuva, do deslocamento de pessoas, entre outras. Em elementos estruturais
como pilares e vigas, por exemplo, a arquitetura moderna utiliza-se de materiais
específicos, de acordo com o tipo de força empregada no sistema. Na predominância de
forças de tração, o material aplicado é o aço ou o ferro, com uma área pequena de
sustentação. Em situações onde há a predominância de forças de pressão, o material
aplicado é a pedra ou o concreto, com áreas grandes de sustentação. Na Arquitetura
Antroposófica, no entanto, busca-se expressar o que realmente ocorre dentro do material
quando sujeito a forças externas. Onde, na estrutura, atuam forças de tração, com a
tendência de separação no material, busca-se uma expressão de união com o acúmulo de
matéria. Em conseqüência, onde, na estrutura, atuam forças de pressão, o material é
pressionado, mas o esforço nele é de separação. Neste caso, a expressão é esbelta, é
refinada.

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Este tema refere-se à busca da compreensão, cada vez mais aprimorada, da atuação da
expressão arquitetônica na alma do ser humano. É uma característica quase que
exclusiva da Arquitetura Antroposófica. A questão da relação entre a qualidade do
espaço e sua função, ou seja, a atividade nela exercida, foi amplamente debatida nos
primórdios da arte moderna. Atualmente, os arquitetos em geral reduziram a função do
espaço ao tamanho necessário, à iluminação e ventilação necessárias, enfim,
exclusivamente aos elementos mensuráveis, deixando de lado a qualidade intrínseca do
ambiente arquitetônico. Não se distingue mais a diferença entre uma sala de aula de
uma escola do primeiro grau e um escritório de um prédio comercial. Ambos os espaços
têm sua composição baseada no retângulo ou no quadrado, com paredes paralelas e
ângulos retos. Na Arquitetura Antroposófica, podemos observar a busca de uma relação
da qualidade do ambiente com a atividade desempenhada no referido espaço. Esta
preocupação evidencia a consciência da qualidade do espaço, pois sabe-se que
independente da forma, seja ela ortogonal ou orgânica, toda composição exerce uma
influência no usuário. Mas como podemos conhecer e nos aprofundar quanto à
influência do espaço na alma humana? Rudolf Steiner tomou como partido para o
auditório do segundo Goetheanum o trapézio como forma de espaço em planta baixa.
As paredes laterais divergem em direção ao palco e convergem no sentido contrário. Até
então, a forma destes espaços era retangular ou, no caso do primeiro Goetheanum,
circular. A forma do auditório do segundo Goetheanum está intimamente ligada ao
conteúdo antroposófico. Rudolf Steiner pouco falou desta forma trapezoidal,
mencionando apenas que o conceito de liberdade expresso na dupla cúpula do primeiro
Goetheanum está intrínseco na forma do auditório novo. Pesquisas posteriores mostram
que não só a liberdade, mas também questões relacionadas à individualidade do ser
humano estão presentes na forma trapezoidal. Se imaginarmos o interior do espaço,
direcionado ao palco, com as paredes laterais divergindo, afastando-se uma da outra,
poderemos sentir a liberdade que este movimento lateral propicia. Essa abertura em
direção ao palco não coloca o espetáculo realizado como imposição. As paredes laterais
divergem e abrangem fora do ambiente um espaço que aumenta e cresce quanto mais
nos distanciamos do ponto de observação. Esse gesto abrange o mundo, e dentro do
espaço oferece ao espectador a liberdade para a concentração ou a dispersão. Em
conseqüência, a partir do palco, o palestrante ou o ator estarão situados num espaço
cujas paredes laterais convergem, e fora do ambiente afluem a um único ponto. O ponto
é uma unidade distinta e, representando o indiviso, diz respeito a uma só pessoa, à
individualidade. Do palco, em direção à platéia, podemos sentir o apelo no gesto das
paredes laterais para alcançar, para atender a individualidade presente no auditório. O
espectador, voltado ao palco, tem como pano de fundo as paredes convergentes. Esse
gesto faz reconhecer as qualidades peculiares e genuínas da pessoa, apelam ao indiviso,
fortalecendo a atitude e a postura da individualidade que está voltada ao espaço que
abrange o mundo. Podemos concluir que o trapézio é um espaço que coloca a pessoa
entre o indiviso e o abrangente. Ele apóia o fortalecimento e a consciência da
individualidade, apela ao autoconhecimento, mas sempre resguardando plena liberdade.

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"É uma característica da alma humana expandir-se, alastrar-se, desabrochar-se em todas


as direções. A maneira de se desabrochar, a maneira como ela deseja alastrar o seu ser
no cosmo tem como resultado a forma arquitetônica." (Rudolf Steiner)

Historicamente, sempre existiu um relacionamento entre as artes plásticas e as fases do


desenvolvimento da alma humana. Desse relacionamento, três momentos se destacam
na História. Na Antiga Grécia, época da construção dos templos, deparamo-nos com um
pensar imaginativo, um pensar mitológico. Uma observação de um fenômeno natural
desencadeava imagens na alma. A matéria era vivenciada como uma ilusão; a imagem,
resultado de uma observação, era vivenciada como uma realidade. A alma humana era
repleta de imagens, sentia-se parte do mundo espiritual. Nessa época, foram construídos
os templos gregos com proporções harmônicas, simplicidade geométrica e composições
arquitetônicas exclusivamente ortogonais. As paredes que os compõem são paralelas,
os ângulos sempre retos. As colunas enfileiradas são paralelas entre si. Dos espaços
maiores para os menores, podemos observar uma composição de retângulos e
quadrados. Eram obras ricas, não só quanto à sua arquitetura e proporções de elementos,
mas também quanto aos detalhes esculturais e pinturas de afrescos. O povo, no entanto,
não tinha acesso ao templo, era um espaço exclusivo para os sacerdotes que, dentro
dele, colocavam-se em condição de fazer contato com o mundo espiritual. Este espaço
de pureza arquitetônica quase cristalina fez desabrochar, incentivou e apoiou um
processo na alma humana que levou o Homem a um pensar cada vez mais lógico. A
matéria toma lugar da realidade; a imagem é ilusão. É o primórdio da Lógica, da
Filosofia e da Ciência com Platão e Aristóteles. O templo tinha a função de apoiar este
processo de materialização no pensar, que desencadeou, mais tarde, o pensar
intelectualizado e racional. A alma abriu-se para a realidade terrena e, com isto, separa-
se de sua origem espiritual.

Passados muitos séculos, após o mistério do Gólgota em torno do ano 900 ao 1.200,
vemo-nos frente à época da construção das grandes catedrais. Primeiro as catedrais
romanas, posteriormente as catedrais góticas. A alma humana evoluiu no sentido de
separação do mundo espiritual. A partir daqui ela se relaciona separadamente com os
dois mundos. A natureza é o acesso ao mundo material e a religião é o vínculo com o
mundo espiritual. Dá-se a necessidade de se construir a "Casa de Deus" ± a catedral, e é
especificamente dentro destes espaços que o povo evoca o mundo espiritual. Quais eram
as características arquitetônicas desta época? A planta baixa da catedral é de geometria
ortogonal, com elementos em forma de círculos no espaço destinado ao altar. A nave da
catedral, espaço para a permanência do povo, tem paredes paralelas, sendo marcantes as
proporções no sentido vertical. Das dimensões de altura resulta a monumentalidade,
propiciando a devoção ao mundo espiritual. A catedral marca a separação definitiva
entre espírito e matéria. Dentro da catedral, a devoção; fora dela, o trabalho na terra, a
matéria. O pensar conquista a ciência e torna-se cada vez mais intelectual.

O próximo passo nos leva à atualidade: o pensar humano conquistou a lógica e com ela
o pensar racional, e materializado, com controle praticamente absoluto das ciências
naturais, resultando na separação, cada vez mais evidente, dos conteúdos relacionados
ao mundo espiritual. A religião hoje, com um significado superficial, tornou-se um
resíduo de algo que teve seu ápice na época das construções das catedrais. Restringe-se,
na maioria das situações, a um veículo que pode proporcionar saúde, alegria e riqueza.
Sua devoção decaiu, limitando-se à busca de satisfações materiais.

Hoje, porém, uma pergunta se torna cada vez mais premente: como podemos conseguir
acesso ao conteúdo que está por trás da matéria, da forma, da idéia, da vida, sem perder
a conquista do pensar lógico e racional? O vínculo com o mundo espiritual não está
perdido. Neste ponto é importante reconhecermos a grande conquista da alma humana
no decorrer do tempo: o fortalecimento da individualidade. Quando na antiga Grécia,
com o pensar mitológico, predominava algo que poderíamos chamar de consciência
grupal, iniciava-se juntamente com a lógica no pensar, a consciência presente do ente
único. Na época da construção das catedrais, esta consciência individual já tinha sido
conquistada, mas o ato religioso, na devoção ao mundo espiritual, acontecia na união
das preces, com o povo unido na catedral. Hoje, estamos sós, somos indivíduos e cabe a
cada um a própria decisão de como relacionar-se com o mundo espiritual. Uma decisão
individual importa que deva ser tomada em liberdade. Esta fase, no desenvolvimento da
alma humana, nos leva à construção do espaço em forma de trapézio, que teve sua
realização inédita com o projeto de Rudolf Steiner para o segundo Goetheanum em
Dornach. Na época da Antiga Grécia, a alma humana precisou de um espaço que
fortalecesse as tendências abstratas e cristalizantes no pensar. O Templo Grego
despertou na alma o pensar lógico. A Catedral, por sua vez, foi um marco que
identificou a separação do mundo espiritual, na religião, do mundo material, no pensar
lógico e racional. O trapézio estabelece o limiar para o pensar vivo, para a consciência
do ente individual, a consciência do eu. Aplicado como planta-baixa para uma forma de
espaço, o trapézio pode ser considerado um marco na consagração do
autoconhecimento, respeitando a liberdade da individualidade em questão. Esta é a
função genuína da Arquitetura Antroposófica: proporcionar e incrementar à alma
humana, que se encontra no auge da fase materialista, um novo despertar no mundo
espiritual.