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REVISTA BRASILEIRA DE

ESTUDOS
publicação da associação nacional de pós-graduação

URBANOS
e pesquisa em planejamento urbano e regional

E REGIONAIS ISSN 1517-4115


REVISTA BRASILEIRA DE ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS
Publicação semestral da ANPUR
Número 4, maio de 2001

ISSN 1517-4115
EDITORA RESPONSÁVEL
Norma Lacerda (UFPE)
EDITORA ASSISTENTE
Lúcia Leitão (UFPE)
COMISSÃO EDITORIAL
Ana Clara Torres Ribeiro (UFRJ), Marco Aurélio Filgueiras Gomes (UFBA), Maria Adélia de Souza (Unicamp),
Maria Cristina Leme (USP), Naia de Oliveira (FEE/RS), Roberto Monte-Mór (UFMG)
CONSELHO EDITORIAL
Ana Fernandes (UFBA), Carlos Bernardo Vainer (UFRJ), Carlos Roberto M. de Andrade (USP/São Carlos),
Circe Maria da Gama Monteiro (UFPE), Clélio Campolina Diniz (UFMG), Flávio Magalhães Villaça (USP),
Frank Svensson (UnB), Frederico de Holanda (UnB), Jan Bitoun (UFPE), Lícia Valladares (IUPERJ),
Marcus André B. C. de Melo (UFPE), Marta Ferreira Santos Farah (FGV/SP), Martim Smolka (UFRJ),
Maurício Abreu (UFRJ), Milton Santos (USP), Tania Bacelar (UFPE), Tânia Fischer (UFBA),
Wilson Cano (Unicamp), Wrana Panizzi (UFRGS)
PROJETO GRÁFICO
João Baptista da Costa Aguiar
COORDENAÇÃO E EDITORAÇÃO
Ana Basaglia
REVISÃO
Margarida Michel, Sharing English (inglês),
Fernanda Spinelli (revisão final)
FOTOLITOS
Join Bureau de Editoração
IMPRESSÃO
GraphBox Caran

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais. A.3, n.4.


2001. – : Associação Nacional de Pós-Graduação e
Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional; editora
responsável Norma Lacerda : A Associação, 2001.
v.

Semestral.
ISSN 1517-4115
O nº 1 foi publicado em maio de 1999.

1. Estudos Urbanos e Regionais. I. ANPUR (Associação


Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento
Urbano e Regional). II. Lacerda, Norma.

711.4(05) CDU (2. Ed.) UFPE


711.405 CDD (21.Ed.) BC-2001-098
REVISTA BRASILEIRA DE

ESTUDOS
publicação da associação nacional de pós-graduação

URBANOS
e pesquisa em planejamento urbano e regional

E REGIONAIS
S U M Á R I O

ARTIGOS 71 EVOLUÇÃO URBANA E DEMOGRÁFICA DO ENVE-


LHECIMENTO EM BELO HORIZONTE – Frederico Poley
9 A (R E )C ONSTRUÇÃO DE M ITOS S OBRE A Martins Ferreira
I N (S USTENTABILIDADE D O (N O ) E SPAÇO U RBANO
– Marília Steinberger 83 DE VILA OPERÁRIA A CIDADE-COMPANHIA: AS
AGLOMERAÇÕES CRIADAS POR EMPRESAS NO VOCA-
BULÁRIO ESPECIALIZADO E VERNACULAR – Telma de
33 AVANÇOS E LIMITES NA HISTORIOGRAFIA DA LE-
Barros Correia
GISLAÇÃO URBANÍSTICA NO BRASIL – Sarah Feldman

RESENHAS
49 REFLEXÕES SOBRE A HIPERPERIFERIA: NOVAS E
VELHAS FACES DA POBREZA NO ENTORNO MUNICI- 101 A cidade do pensamenrto único: desmanchando
PAL – Haroldo da Gama Torres e Eduardo Cesar consensos, de Otília Arantes, Carlos Vainer e Ermínia
Marques Maricato – por Fernanda Sánchez
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA
EM PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL – ANPUR

PRESIDENTE
Maria Flora Gonçalves (Nesur/Unicamp)
SECRETÁRIA EXECUTIVA
Yvonne Mautner (FAU/USP)
DIRETORES
Cássio Frederico Camargo Rolim (UFPR)
Geraldo Magela Costa (UFMG)
Henri Acselrad (UFRJ)
CONSELHO FISCAL
Décio Rigatti (UFRGS)
Esterzilda Berenstein de Azevedo (UFBA)
Frederico Rosa Borges de Holanda (UnB)

Esta publicação contou com o apoio


do Lincoln Institute of Land Policy
EDITORIAL
Com este quarto número, a Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regio-
nais reafirma seu compromisso com a construção de um espaço editorial pró-
prio, capaz de abrigar a diversidade de pensamento que caracteriza a Anpur.
Nesse sentido, os artigos publicados revelam a feição da comunidade que lhes
dá origem: a um só tempo específico e abrangente.
O trabalho de Marília Steinberger, que ora se publica, registra a emergên-
cia, ainda na década de 90, do meio ambiente urbano como área de investiga-
ção que constrói e reconstrói mitos sobre a sustentabilidade ou insustentabilidade
do espaço urbano. A autora parte da identificação do marco institucional para,
em seguida, especular como, no âmbito desta área, surgem os três pares de con-
ceitos: ambiente/meio ambiente, desenvolvimento sustentável/sustentabilida-
de e território/urbanização. Esses conceitos fundamentam os três principais
focos de análise do texto que autora desenvolve: qualidade ambiental, instru-
mento de gestão ambiental e conflito de interesses entre atores.
Sarah Feldman, em texto instigante, traz uma importante contribuição
para a história da legislação urbanística no Brasil. De natureza analítica, o ar-
tigo de Feldman aborda dois aspectos que se configuram como lacunas na histo-
riografia da legislação: o lugar ocupado pelas normas, a partir do momento em que
idéias e práticas urbanísticas têm um espaço institucionalizado na administração
pública, e o lugar dos pressupostos modernistas na legislação brasileira.
Aplicando o Sistema de Informações Geográficas (SIG) ao planejamento ur-
bano, Haroldo da Gama Torres e Eduardo Cesar Marques analisam os diferen-
ciais de condições de vida em Mauá, município periférico da Região Metro-
politana de São Paulo, permitindo identificar uma periferia mais heterogênea,
diferente daquela comumente descrita pela literatura. Tal constatação os im-
pulsiona a interrogar sobre os conteúdos sociais das periferias das metrópoles.
Repercussões importantes para o planejamento das cidades, em conse-
qüência das mudanças socioculturais recentes na sociedade brasileira contem-
porânea, podem ser deduzidas do texto desenvolvido por Frederico Poley, que
aborda a questão do envelhecimento da população em Belo Horizonte e suas
implicações no modo de habitar.
De vila operária a cidade-companhia: as aglomerações criadas por empre-
sas, no vocabulário especializado, é o tema do texto no qual Telma de Barros
Correia discute as diversas denominações dadas a um capítulo importante e
pouco conhecido da urbanização brasileira. O trabalho se constrói a partir da
discussão das diversas denominações dadas a esse fenômeno e o contexto no
qual são utilizadas.
Integra, ainda, este número a resenha do livro A cidade do pensamento
único – desmanchando consensos, de Otília Arantes, Carlos Vainer e Ermínia
Maricato, elaborada por Fernanda Sánchez.
Finalmente, comunicamos que, com este número, deixamos a função de
editores da Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais. Mais uma tarefa

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E D I T O R I A L

executada, mais uma experiência de vida. Agradecemos a confiança deposita-


da pela diretoria da Anpur, especialmente à sua presidente, Flora Gonçalves,
que nos convidou para dar continuidade a este projeto editorial, as contribui-
ções dos colegas integrantes da Comissão Editorial, bem como o trabalho de to-
dos aqueles que direta e indiretamente se fizeram presentes nos três últimos
números. Passamos o bastão para os colegas baianos Marco Aurélio Filgueiras
Gomes e Susana Moura, com a certeza de que novos passos serão galgados.

NORMA LACERDA
Editora Responsável

LÚCIA LEITÃO
Editora Assistente

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A RTIGOS
A (RE)CONSTRUÇÃO DE MITOS
SOBRE A (IN)SUSTENTABILIDADE DO(NO) ESPAÇO URBANO

MARÍLIA STEINBERGER

R E S U M O O trabalho parte de uma leitura do conhecimento produzido sobre meio


ambiente, no âmbito dos Encontros da Anpur dos anos 90, para discutir a emergência do meio
ambiente urbano como área de investigação que constrói e reconstrói mitos sobre a sustentabi-
lidade ou insustentabilidade do espaço urbano. Para tanto, numa primeira seção, são anali-
sados documentos que constituem o marco institucional da área e realiza-se um breve resgate
de marcos teórico-conceituais estabelecidos em algumas disciplinas, sugerindo que eles devem
ser desconstruídos, para que o meio ambiente urbano seja apreendido com um olhar baseado
em uma racionalidade não-instrumental. Na seção seguinte, são discutidos os focos social-
histórico e político-espacial de três pares de noções/conceitos: ambiente/meio ambiente, desen-
volvimento sustentável/sustentabilidade e território/urbanização, para se chegar a um enten-
dimento sobre sustentabilidade urbana. Tais focos orientam as questões centrais que perpassam
a área: qualidade ambiental urbana, instrumentos de gestão ambiental e conflito de interesses
entre os atores. À guisa de conclusão, mostra-se que, embora a maioria dos discursos sobre o
meio ambiente urbano considere o espaço urbano como insustentável, há caminhos que apon-
tam para uma definição da área.

PALAVRAS -CHAVE Meio ambiente; sustentabilidade; espaço urbano.

INTRODUÇÃO

Em 1999, o Encontro Nacional da Anpur definiu “Desenvolvimento Urbano Sus-


tentável: que Qualidade e para Quem?” como uma das áreas temáticas, no âmbito da qual
foram apresentados dezesseis trabalhos. De fato, o tema meio ambiente já vinha sendo
discutido nos encontros anteriores: em 1993, numa subseção intitulada “O Nexo Meio
Ambiente – Planejamento Territorial em Questão”, contou com quatro trabalhos; em 1995,
na seção “Urbanização, Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente”, esse número passou
para oito; e em 1997, englobado no subtema “Meio Ambiente, Saneamento e Impactos de
Grandes Projetos”, atingiu onze. Diante desse quadro, é digno de registro o crescente inte-
resse dos planejadores/pesquisadores urbanos e regionais por esse tema ao longo dos anos 90.
Considerando que a idéia aqui é apontar rumos, decidiu-se analisar todos os textos
discutidos nos encontros citados, não para elaborar um balanço, mas para descobrir co-
mo vem ocorrendo o processo de produção do conhecimento sobre o tema no Brasil, su-
pondo que a Anpur é um fórum representativo do mesmo.
Na leitura dos trabalhos, observou-se que esse processo nem obedeceu a uma linha
de pensamento única nem a um roteiro lógico capaz de indicar que os pesquisadores es-
tavam indo em direção a um compromisso com posturas fechadas. A produção foi errá-
tica, o que, longe de causar preocupação, caracteriza uma área de investigação nova, di-
nâmica e não consolidada, mas em busca de uma identidade.

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Portanto, não se pode dizer que as discussões sobre a insustentabilidade da cidade


estejam ultrapassadas, porque alguns discursos mais recentes proclamam sua sustentabili-
dade. Embora essa afirmação demonstre a expectativa de um grupo de estudiosos, ela não
reflete o estado da arte do conhecimento produzido. Parece mais adequado dizer que há
uma coexistência conflituosa de abordagens.
Admitir essa coexistência significa reconhecer que os pesquisadores vêm trilhando
dois caminhos para discutir a sustentabilidade urbana. Há os que partem da insustenta-
bilidade da cidade para propor soluções a fim de torná-la sustentável. Ao mesmo tempo,
há os defensores da sustentabilidade da cidade de per si, olhada com a lente positiva que
privilegia os distintos significados do estar aglomerado. No embate entre esses dois cami-
nhos, constata-se um ponto de contato importante: falar de (in)sustentabilidade urbana
não quer dizer falar só de cidade. De fato, boa parte dos trabalhos elaborados envolve ter-
ritórios urbanos diferenciados.
Com base nessa constatação, aqui se tomou uma segunda decisão: adotar como re-
ferência o espaço urbano, pois esse pode comportar territórios maiores ou menores do que
os limites da cidade. Maiores, quando o espaço urbano se espraia e se confunde com o re-
gional ou com o rural e adquire contornos geográfico-administrativos, como o de uma
bacia hidrográfica, uma região metropolitana ou um município; menores, quando o es-
paço urbano se relaciona a um bairro, uma comunidade, um assentamento habitacional
ou uma “tribo”. Por essa razão, sugere-se que o “mote” da perseguida sustentabilidade não
seja a cidade, mas sim o espaço urbano, entendido como resultante desse mosaico de ter-
ritórios que está em constante mutação. Assim, não existe o ser sustentável mas o estar
sustentável, tão-somente como um estado temporário de determinados territórios que
contêm e estão contidos em um meio ambiente predominantemente urbano.
Face a isso, o título escolhido para este artigo tem o intuito de ressaltar que o obje-
to da referida produção de conhecimento é o meio ambiente urbano, o qual vem sendo
esboçado a partir desses vários tipos de territórios analíticos, onde é possível observar a
construção e a reconstrução de mitos sobre a (in)sustentabilidade no(do) espaço urbano,
como será visto adiante.
Isso não quer dizer deixar de lado a expressão “desenvolvimento urbano sustentável”.
Ao contrário, significa compreender que ela é composta por três elementos-chave: desen-
volvimento como objetivo macro, finalístico e permanente; sustentável como objetivo
meio, adjetivo de um estado temporário, e espaço urbano (conteúdo e continente do
meio ambiente) como objeto de gestão.
Nesse sentido, presume-se que existe meio ambiente no espaço urbano e, portanto,
o meio ambiente urbano é um objeto de uma complexidade tal que comporta uma área
1 Essa área está inserida de investigação.1 Como suporte a essa idéia, serão extraídos recortes dos textos dos vários
em um processo de produ-
ção do conhecimento mais
autores consultados para buscar os argumentos da identidade da área e, assim, chegar a
amplo, que não se restringe uma definição dela, calcada em uma racionalidade própria, conduzida por um novo olhar.
ao Brasil, pois os autores
consultados se valem tanto Esse olhar, que ora se propõe, foi ensejado pela leitura dos trabalhos, mas não toma ne-
da literatura nacional como nhum deles no seu todo.
internacional.
Com esse propósito, primeiramente, serão apresentados os marcos que embasam a
área para, em seguida, identificar as questões e propostas que a perpassam e, à guisa de
conclusão, mostrar alguns de seus discursos próprios. Três indagações nortearão o pano
de fundo da discussão:
• a partir de quando e em que bases o meio ambiente urbano surgiu como uma área
de investigação?

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• há discursos específicos sobre o meio ambiente urbano ou uma mera transposição e


adaptação de discursos de disciplinas que têm dado suporte às áreas de meio ambiente
e de planejamento urbano?
• está sendo repensado o espaço urbano por intermédio do meio ambiente?

O MEIO AMBIENTE URBANO


COMO UMA ÁREA DE INVESTIGAÇÃO

Para mostrar que o meio ambiente urbano é, de fato, uma área de investigação, se-
rão utilizados dois enfoques. O primeiro refere-se à identificação de um marco institucio-
nal, supondo que, de certa maneira, ele equivale a um reconhecimento oficial da existên-
cia da área. O segundo respalda-se no debate em torno da desconstrução de mitos
construídos em marcos teórico-conceituais estabelecidos, passo inicial e revelador da
emergência de uma nova área.

A IDENTIFICAÇÃO DE UM MARCO INSTITUCIONAL

Na Conferência de Estocolmo, em 1972, a delegação brasileira defendeu a tese de


que a proteção ao meio ambiente era um objetivo secundário para os países em via
de desenvolvimento, pois entrava em conflito com o crescimento econômico. Essa tese
foi derrotada, razão pela qual consta que a criação da Secretaria Especial de Meio Am-
biente, em 1973, obedeceu a uma “necessidade diplomática de corrigir a imagem negati-
va do Brasil a nível internacional” (Manosowski,1989, apud Sá et al.,1995:278).
Nesse mesmo ano, foi cunhado o termo “ecodesenvolvimento”, ao se propor uma
atuação voltada para um uso mais cuidadoso dos recursos naturais nas áreas rurais do Ter-
ceiro Mundo. Com a Declaração de Cocoyoc, assinada no México, em 1974, essa mes-
ma preocupação se estendeu às cidades.
Daí por diante, várias decisões relativas ao meio ambiente foram tomadas no Brasil.
Algumas delas, ligadas ao espaço urbano, como a edição do capítulo de Política Urbana e
Meio Ambiente no II PND, em 1974, e a Lei de Zoneamento Industrial em Áreas Críti-
cas, de 1979 (dirigida, principalmente, às regiões metropolitanas). Entretanto, tais deci-
sões ainda não representavam uma ampla conscientização quanto à importância do meio
ambiente urbano. Eram fatos isolados.
Há quem considere a Constituição de 1988 o primeiro marco do surgimento do
meio ambiente urbano como uma área de investigação, no Brasil. Isso porque o seu tex-
to contém duas inovações relacionadas à área: a inclusão da função social da propriedade
entre os princípios gerais da ordem econômica, e a possibilidade de qualquer cidadão fis-
calizar bens ambientais, históricos e culturais. Entretanto, embora admitindo o avanço
dessas inserções constitucionais, outros autores advogam que a Carta Magna é vaga quan-
to às questões ambientais urbanas, pois apenas concede aos municípios, aos Estados e à
União o poder de legislar, concorrentemente, sobre o assunto (Marques da Silva,1999:4).
Na verdade, a área de meio ambiente urbano ganhou força, no Brasil e no mundo,
a partir do Fórum Global das ONGs, que se realizou paralelamente à Conferência das Na-
ções Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Eco 92), quando se explicitou
que a questão ambiental era também uma questão urbana. Numa conferência em que a
tônica central foram as questões ambientais de cunho global, a preocupação com o meio

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ambiente urbano foi introduzida pelo Fórum Brasileiro de Reforma Urbana e expressada,
formalmente, no “Tratado sobre a questão urbana: por cidades, vilas e povoados, justos,
democráticos e sustentáveis” (1994).
Os signatários desse Tratado buscavam contribuir para o avanço dos movimentos so-
ciais e para a construção de uma vida digna nas cidades por meio da ampliação dos direi-
tos de seus habitantes, mudança na gestão e na qualidade da vida urbana; construção de
um meio ambiente a ser desfrutado pelas atuais e futuras gerações. Definiam que “o ur-
bano se redimensiona como centro das atividades humanas e como ponto focal de pro-
cessos políticos e econômicos. As cidades tornam-se centros de gestão e de acumulação do
capital, organizados em escala planetária, núcleos de comando de uma vasta rede que in-
2 Em continuidade às dis- tegra o urbano e o rural. Essa dimensão territorial expressa uma crescente integração das
cussões que já vinham ocor-
rendo desde o fim dos anos
problemáticas rurais, urbanas e meio ambientais” (HIC/Fococ, 1992:87).
70, sobre a então denomi- Essa postura foi inovadora, dado que o Relatório do Brasil para a Eco-92 havia ado-
nada Lei de Desenvolvimen-
to Urbano. tado uma outra direção ao relacionar duas causas da crise ambiental com o modelo de de-
senvolvimento: a pobreza e o mau uso da riqueza. Nesse contexto, o meio ambiente ur-
3 Outras diretrizes também
relacionadas ao meio am- bano foi inserido a partir da identificação de problemas: “Por um lado a pobreza das
biente urbano são: ordena- cidades … que se confunde com a degradação ambiental. Por outro lado … os problemas
ção e controle do uso do
solo, de forma a evitar a po- causados pela concentração das atividades econômicas … nas localidades urbanas.”
luição e a degradação am-
biental; adoção de padrões
(Cima, 1991:60).
de produção e consumo de Também no início da década de 1990, foi proposto, no âmbito do Congresso Na-
bens e serviços e de expan-
são urbana compatíveis
cional, um projeto de lei conhecido como Estatuto da Cidade.2 Embora ainda não trans-
com os limites da sustenta- formado em lei, sua tramitação encontra-se em estágio avançado, uma vez que não há dú-
bilidade ambiental, social e
econômica do município e vidas sobre a importância de sua finalidade: “Fixar parâmetros para a aplicação do
do território sob sua área de capítulo da política urbana da Constituição Federal, definindo princípios e objetivos, di-
influência; proteção, preser-
vação e recuperação do retrizes de ação e instrumentos de gestão urbana a serem utilizados, principalmente, pelo
meio ambiente natural e Poder Público Municipal” (Relatório do PL 5788/90 e seus apensos).
construído, e regularização
fundiária e urbanização de No que tange ao meio ambiente urbano, acompanhando a crescente importância
áreas ocupadas por popu-
lação de baixa renda, me-
que a área foi ganhando no decorrer da década, recentemente foram introduzidas, no Pro-
diante o estabelecimento de jeto do Estatuto, algumas orientações relevantes nos capítulos que tratam das diretrizes da
normas especiais de urbani-
zação, uso e ocupação do
política urbana e seus instrumentos. Com relação às diretrizes, cumpre destacar:
solo e edificação, conside- • garantia do direito a cidades sustentáveis, entendido como direito à terra urbana, à mo-
radas a situação socioeco-
nômica da população e as radia, ao saneamento ambiental, à infra-estrutura urbana, ao transporte e serviços pú-
normas ambientais. blicos, ao trabalho e ao lazer, para as presentes e futuras gerações;
4 Além disso, nos demais • planejamento do desenvolvimento das cidades, da distribuição espacial da população e
instrumentos (Parcelamen- das atividades econômicas do município e do território sob sua área de influência, de
to, Direito de Preempção,
Operações Urbanas Consor- modo a evitar e corrigir as distorções do crescimento urbano e seus efeitos negativos so-
ciadas, Transferência do Di-
reito de Construir e Estudo
bre o meio ambiente; e
de Impacto de Vizinhança), • audiência do Poder Público municipal e da população interessada nos processos de im-
há uma clara referência à
sua aplicação para manter
plantação de empreendimentos ou atividades com efeitos potencialmente negativos so-
ou criar áreas de interesse bre o meio ambiente natural ou construído.3
ambiental e para reforçar o
respeito à legislação am- Entre os instrumentos, dois são especificamente dirigidos ao meio ambiente urbano,
biental vigente. Vale ressal- a saber, o Zoneamento Ambiental e o Estudo Prévio de Impacto Ambiental.4
tar, ainda, que a obrigatorie-
dade de elaborar planos Por fim, o documento “Cidades Sustentáveis da Agenda 21 Brasileira” (MMA/PNUD,
diretores foi estendida para 1999) pode ser considerado como a mais recente contribuição para se construir um mar-
municípios inseridos na área
de influência de empreendi- co institucional da área de meio ambiente urbano. Seu objetivo é oferecer propostas para
mentos e atividades com
significativo impacto am-
introduzir a dimensão ambiental nas políticas urbanas vigentes ou que venham a ser ado-
biental regional ou nacional. tadas. Dentre as premissas que o nortearam, merece destaque a denominada crescer sem

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M A R Í L I A S T E I N B E R G E R

destruir, por traduzir que o desenvolvimento sustentável das cidades implica, ao mesmo
tempo, o crescimento dos fatores positivos da sustentabilidade urbana e a diminuição dos
impactos ambientais, sociais e econômicos indesejáveis no espaço urbano. O documento
parte de diagnósticos setoriais a fim de identificar os pontos de estrangulamento mais crí-
ticos para o desenvolvimento urbano sustentável. Com base neles, conclui que a cidade
brasileira do século XXI poderá ser o palco de uma vida urbana enriquecida, desde que se
operem as necessárias transformações dos padrões insustentáveis de produção e consumo
que resultam na degradação dos recursos naturais e econômicos do País, afetando as con-
dições de vida da população nas cidades.5 5 Para se atingir tal anseio,
definem-se quatro estraté-
Além desses documentos, Rodrigues (1998) lembra que os trabalhos apresentados gias prioritárias: aperfeiçoar
nas conferências nacionais e internacionais preparatórias para o Habitat II (Istambul, a regulação do uso e ocupa-
ção do solo urbano; promo-
1997), embora centrados na habitação, sugeriam um (re)pensar sobre o meio ambien- ver o desenvolvimento insti-
te urbano, não como mera retórica, mas em torno de questões concretas, tais como a tucional e o fortalecimento
da capacidade de planeja-
qualidade de vida, a infra-estrutura e os equipamentos de consumo coletivo e a cidada- mento e gestão democráti-
nia urbana. ca da cidade; promover mu-
danças nos padrões de
Esse conjunto de documentos compõe o marco de referência institucional da área produção e consumo da ci-
dade, reduzindo custos e
de meio ambiente urbano no Brasil, uma vez que significa uma oficialização da sua desperdícios e fomentando
importância, por parte de entidades governamentais e não-governamentais brasileiras o desenvolvimento de tecno-
logias urbanas sustentáveis,
e internacionais. e estimular a aplicação de
Sobre o seu conteúdo, é preciso ressaltar que o corte analítico adotado em pratica- instrumentos econômicos
no gerenciamento dos re-
mente todos eles faz aflorar o principal ponto de conflito na área: a discussão entre meio cursos naturais visando à
ambiente natural e meio ambiente urbano. Há uma convergência de posicionamentos so- sustentabilidade urbana.

bre a insustentabilidade do espaço urbano, calcado em diagnósticos que identificam pro-


blemas e pontos de estrangulamento a serem superados na busca da sustentabilidade.

A DESCONSTRUÇÃO DE MITOS EM MARCOS TEÓRICO-CONCEITUAIS ESTABELECIDOS

Como discutir se há sustentabilidade do meio ambiente gerado em um espaço, o ur-


bano, que vem sendo considerado insustentável? Essa pergunta carrega uma contradição
enganosa, ao colocar em oposição meio ambiente e urbano, pois considera o meio am-
biente apenas como natural. Para responder a ela, é preciso desconstruir os mitos cons-
truídos no seio das principais disciplinas, que não só deram origem a essa falsa oposição,
como também, paradoxalmente, à própria existência da área, a saber: Ecologia, Geogra-
fia, Sociologia, Economia e Urbanismo.
Da Ecologia vieram as teorias biocêntricas que surgiram como resposta à idéia de
plasticidade na natureza, cujas bases conceituais, fundadas na razão verdadeira e univer-
sal do Iluminismo no século XVIII, tinham como certa a constante reconstrução da rela-
ção entre o homem e seu ambiente natural (Teixeira & Bessa,1997). Ao negar a comple-
xidade da natureza e admitir o homem como seu senhor absoluto, essa premissa
transformou-se no pilar das teorias antropocêntricas. Veio também o conceito de capaci-
dade de suporte dos recursos naturais para mostrar os limites da natureza que não devem
ser extrapolados pelas atividades antrópicas. Vieram também as transposições da teoria de
sistemas em direção ao equilíbrio dos ecossistemas.
Da Geografia vieram três correntes de pensamento que são marcos obrigatórios pa-
ra os estudiosos do meio ambiente, uma vez que seu ideário ainda faz parte de várias teo-
rias contemporâneas. A primeira estava associada ao determinismo ambiental do final do
século XIX e serviu de base para a definição de região natural. Em contraposição a essa

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A ( R E ) C O N S T R U Ç Ã O D E M I T O S

perspectiva, na década de 1920 nasceu a visão possibilista, que não focalizava a natureza
como determinante do comportamento humano, mas como fornecedora de possibilida-
des para o homem modificá-la. Preconizava que o homem, com sua cultura, criava uma
paisagem e um gênero de vida peculiares em cada porção do território, dotando-a de per-
sonalidade. Assim surgiu o conceito de região geográfica ou região-paisagem (Go-
mes,1995). Outras correntes se sucederam, como a da Geografia crítica, que se apropriou
dos ensinamentos marxistas sobre a natureza.
Da Sociologia veio a linha de pesquisa desenvolvida pela Escola de Chicago, princi-
palmente no período de 1915 a 1940. Embora iniciada em 1902, com base na obra de
Simmel que comparava a cidade a um organismo vivo, foi nesse intervalo que se produ-
ziram as principais contribuições: a de Park, que considerava a cidade como obra da na-
tureza humana e como habitat natural da sociedade civilizada; a de Wirth, que via o ur-
banismo como um modo de vida baseado numa ordem ecológica; e a de Wolman, que
discutia as necessidades metabólicas das cidades.
Da Economia vieram teorias que tratavam a natureza como um recurso a ser explo-
rado, como um fator ou meio de produção para gerar crescimento independentemente do
tipo de uso que se fizesse dos recursos naturais, na certeza de que a tecnologia seria a gran-
de saída. A natureza não apresentava custos. Existia para ser dominada e valorizada. Isso
levou alguns críticos a se referirem à economia de rapina ou economia destrutiva. Impe-
rava um modelo de desenvolvimento baseado na exploração ilimitada dos recursos natu-
rais que, ao mesmo tempo, privilegiava a questionável idéia de que “uma diminuição da
percentagem de população do setor primário deve ser considerada como um sinal de de-
senvolvimento econômico viável e permanente” (Alier & Schlupmann, 1991:307). Em
contrapartida, no início da década de 1970 alguns estudiosos propunham manter taxas
elevadas de crescimento para financiar políticas ambientais, enquanto outros propunham
a redução do crescimento, e até mesmo o crescimento zero. Também veio da Economia a
conhecida visão castastrofista da escassez de Malthus, que previa um desequilíbrio entre
o crescimento da população e a produção de alimentos, e foi resgatada nos últimos anos
pela corrente do neomalthusianismo.
Do Urbanismo veio o movimento modernista do século XX, que buscava estabelecer
uma nova relação entre arquitetura e o meio ambiente, e entre a cidade e a natureza, mas
não logrou êxito, pois prevaleceu a estética da arquitetura moderna que, em geral, condu-
ziu a uma dissociação entre edificação e natureza. Arquitetos e urbanistas dessa corrente de-
dicaram pouco tempo às questões ambientais e à paisagem natural (Marques da Silva, 1999).
Todos os aportes teóricos citados, independentemente da disciplina a que estejam li-
gados, têm como pano de fundo a discussão das formas de apropriação da natureza pelo
homem, em torno da qual foram sendo construídos mitos como: os limites da natureza;
o equilíbrio ecossistêmico; a capacidade de o homem modelar a natureza; a tecnologia co-
mo regeneradora da degradação da natureza e solução da escassez; e a racionalidade do
modernismo. Aqui, sugere-se que tais mitos precisam ser desconstruídos, porque são os
responsáveis por gerar a oposição entre meio ambiente e urbano e, assim, “engessar” o es-
paço urbano à idéia de uma insustentabilidade permanente. Essa idéia se baseia na pre-
missa de que o homem urbano, ao desrespeitar os limites da natureza, sempre cria um es-
paço urbano desequilibrado, pois as soluções tecnológicas e modernistas não dão conta de
reverter esse quadro ou o fazem de maneira paliativa.
A desconstrução inicia-se tomando emprestadas as idéias de Marx Weber, pois o de-
bate sobre os assuntos ambientais na teoria social está embutido nos processos de racio-

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nalização ocidental analisados por ele há cerca de 80 anos. Embora não tenha examinado
esse assunto, ele mostrou a existência de uma relação paradoxal entre racionalidade e ir-
racionalidade, que ajuda no entendimento do conflito entre racionalidade instrumental e
racionalidade de valor expressa nas imagens divergentes da relação social versus natural
(Teixeira & Bessa, 1997).
Continua quando se indaga se a noção de meio ambiente abrange apenas aquilo que
Kant denominou de “mundo das coisas”, mundo físico, ou se, no seu interior, cabe o
mundo das representações, o mundo das formas. Ou ainda, se é uma questão na qual pre-
valecem os “nexos utilitários”, emergentes a partir da revolução tecnológica, ou, se admi-
tem nexos de significações. Sahlins (1979) considera que “toda ação humana é mediada
por um projeto cultural que ordena a experiência prática para além da simples logística
utilitária” (apud Silva, 1999:2).
Nesse sentido, propõe-se que a desconstrução aqui sugerida6 passe pela própria des- 6 Não se pretende, no âmbi-
to deste artigo, realizar a re-
construção da racionalidade instrumental embutida no arcabouço teórico-conceitual de ferida desconstrução, mas
cada uma das disciplinas que tratam a relação homem-natureza como uma apropriação tão somente apontar a sua
necessidade e identificar al-
utilitária; passe também pela desconstrução do planejamento como o maior símbolo des- guns autores cujas idéias
se tipo de racionalidade e, mais especificamente, do planejamento urbano. Acredita-se permitem agregar argumen-
tos nessa direção.
que somente assim será possível perceber um espaço urbano que, dotado de uma racio-
nalidade própria, desobediente e resistente às prescrições do planejamento, se supera e
reinventa formas de (con)vivência, razão pela qual ora é emblemático da irracionalidade
máxima de apropriação da natureza pela sociedade, ora de uma outra racionalidade. Por-
tanto, o espaço urbano, para alguns, torna-se o símbolo da irracionalidade e, para outros,
ao contrário, de uma racionalidade específica. O que diferencia essa (ir)racionalidade?
Costa (1999) ressalta que, no campo dos estudos ambientais, a dimensão espacial ur-
bana é subestimada e até mesmo negada como não-ambiental. Há uma hostilidade do
movimento ambientalista para com a existência das cidades. Para entendê-la, é preciso re-
tornar à origem das preocupações urbana e ambiental. A urbana surgiu com a generaliza-
ção do capitalismo ocidental urbano-industrial e a consolidação de um projeto de moder-
nidade. A ambiental surgiu das reações às características negativas da organização
territorial associada a esse projeto. Embora essa argumentação seja utilizada para mostrar
a oposição entre meio ambiente e espaço urbano, na verdade, ela aponta que ambas as
posturas estão prisioneiras de uma mesma racionalidade instrumental, o que confirma a
necessidade, antes levantada, de se perceber uma outra racionalidade.
Racionalidade que envolve a urgência de quebrar o preconceito dos ecologistas so-
bre a insustentabilidade dos centros urbanos e a sua crença de que só existem soluções sus-
tentáveis para pequena escala (Costa Filho & Sattler, 1999). Racionalidade que leva à ne-
cessidade de os economistas compreenderem que as externalidades não são apenas
econômicas mas também ambientais, ou seja, além do intercâmbio economicamente de-
sigual, é preciso computar o intercâmbio ecologicamente desigual (Alier & Schlupmann,
1991). Racionalidade que conduz os geógrafos a buscarem a natureza escondida no urba-
no ou cada vez mais oculta no processo de produção e reprodução do espaço urbano (Ro-
drigues, 1998). Racionalidade que faz os urbanistas reconhecerem que o meio ambiente
natural, quando substituído por espaços urbanos, dá lugar a uma ação antrópica, que cria
novas relações e subverte a ordem biológica reguladora da sociedade/natureza, lançando
as bases para uma nova ecologia humana (Alva, 1997). Por fim, a racionalidade destaca-
da por Santos (1994), em que a cidade está fadada a ser tanto o teatro dos conflitos cres-
centes, como o lugar geográfico e político da possibilidade de soluções.

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A ( R E ) C O N S T R U Ç Ã O D E M I T O S

Além disso, o entendimento de uma outra racionalidade no(do) espaço urbano in-
clui admitir que o tema ambiental evidencia a crise da ciência moderna, porque envolve
muitas disciplinas e, portanto, tem um caráter transdisciplinar. Essa complexidade fica
mais clara ainda quando se trata do meio ambiente urbano, onde a multiplicidade de
áreas do conhecimento empenhadas na apreensão do universo urbano favorece uma visão
mais holística da interação do espaço social construído e do seu suporte natural (Mota
Silva & Shimbo, 1999).
Com base nesses recortes do pensamento, argumenta-se, aqui, que a expressão meio
ambiente urbano, longe de conter uma contradição, traz a possibilidade de um novo olhar
que não é nem ambiental nem urbano isoladamente, mas carrega contradições inerentes
ao espaço urbano que definem sua (in)sustentabilidade de acordo com a racionalidade
adotada. Esse olhar leva a considerar o meio ambiente urbano como uma área de investi-
gação que trabalha com várias disciplinas, mas precisa necessariamente desconstruir os
mitos criados no seio de cada uma delas, para elaborar discursos verdadeiramente inova-
dores que abandonem a racionalidade instrumental e, conseqüentemente, a insustentabi-
lidade presente na maioria das vertentes teórico-conceituais apontadas.
Para tanto, é fundamental verificar em que bases vem ocorrendo o processo de ela-
boração de discursos específicos para a área de meio ambiente urbano. Trata-se de um
processo tortuoso e repleto de questionamentos que começam pelo modismo, passam pe-
la transformação da questão social urbana em questão ecológica e vão até a perda de iden-
tidade da questão urbana.
A visão de Hogan (1995), sobre os problemas urbanos de outrora serem vistos co-
mo os problemas ambientais de agora, é emblemática do modismo: “antes da questão am-
biental aparecer com a força e a centralidade que tem hoje, esses problemas já estavam nas
agendas dos planejadores urbanos e autoridades municipais. A transformação destes pro-
blemas de gestão urbana em sinais de saturação ecossistêmica é um marco do ambienta-
lismo contemporâneo. Porém sua identificação como problema e a intervenção do poder
público se deram há muito tempo” (apud Ribeiro et al., 1999:10).
Esse tipo de visão coloca em dúvida se o meio ambiente urbano é uma nova área de
investigação, uma vez que sugere estar havendo apenas a adoção de um novo “rótulo” para
tratar os mesmos problemas. De fato, muitos trabalhos, se considerados em sua temática
central – a exemplo dos de Pecchio (1993) e Câmara (1997), que tratam, respectivamente,
da ocupação em áreas degradadas e em encostas deslizantes – poderiam ser enquadrados co-
mo exemplos dessa afirmação. Entretanto, defende-se aqui que existe uma sensível diferen-
ça de abordagem entre analisar um problema urbano de per si e inseri-lo em uma proble-
mática ambiental urbana. Além disso, mesmo admitindo que problemas urbanos como os
acima referidos não são novos, é preciso observar que eles sempre impactaram o meio am-
biente urbano, embora isso não fosse uma preocupação consciente dos antigos gestores.
Há, portanto, uma diferença não só de abordagem mas de contexto. Acrescente-se o fato
de alguns autores considerarem que os problemas urbanos, vistos sob a óptica do meio am-
biente, podem gerar uma nova agenda de questões: qualidade de vida, iniqüidades sociais,
cidades globais, tensão entre o local e o global (Ultramarini & Pereira, 1999).
Um segundo tipo de questionamento é trazido por Topalov (1986): a emergência de
um novo paradigma, em que o meio ambiente passa a ser o tema central em torno do qual
todos os discursos e projetos sociais devem ser reformulados para serem legítimos. Segun-
do ele, a questão social urbana transformou-se em questão ecológica ou ambiental, ocor-
rendo uma substituição de paradigmas – o ecocêntrico tomando lugar do sociocêntrico.

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Embora nesse enfoque não haja um questionamento do meio ambiente urbano co-
mo área de investigação, pois aparentemente se reconhece a (con)fusão entre questões ur-
banas e ambientais, essa é vista segundo uma abordagem que admite como possível a
substituição de ambiental por social. Portanto, vê-se exclusão quando deveria haver inte-
gração. Por essa razão, Ultramarini & Pereira (1999) mostram que a cidade pode ser en-
tendida como um ambiente construído ou como um conjunto de espaços construídos
que assentam sobre um suporte natural preexistente, progressivamente transformado se-
gundo determinadas lógicas que apresentam uma distribuição dinâmica de usos e fun-
ções. Nessa concepção, segundo eles, discutir o ambiente urbano supõe considerá-lo co-
mo espaço e suporte natural transformados pelas práticas dos agentes, as quais definem
aqueles usos e funções.
Por fim, Costa (1999) traz à tona o questionamento relacionado à perda de impor-
tância da questão urbana, como tema de interesse da “critical social theory” contemporâ-
nea, pois questões como raça, gênero e diversidade cultural assumiram a dianteira. Supõe-
se que nos anos 70 havia uma densa área de estudos sobre o urbano7 e que nos anos 80 7 Cujas teorias mais embe-
máticas foram as de Cas-
continuou como palco e gerador dos movimentos sociais, mas hoje essa nitidez não é mais tells, Topalov, Lipietz, Har-
possível, embora o mundo seja cada vez mais urbano, pois, ao generalizar-se, deixou de vey e Lojkine.

ser um objeto de investigação em si mesmo.8 Se isso fosse verdade, como mostra a pró- 8 Em apoio a essa argumen-
pria autora, a dimensão ambiental da análise urbana ficaria restrita a redutos mais técni- tação, a autora cita Castells
(1996), que considera a
cos (legais ou sanitários, como lixo, água e poluição), ou às práticas políticas e análises de busca da identidade como o
movimentos sociais em torno de conflitos ambientais nas áreas urbanas. Além disso, falar princípio organizador da so-
ciedade atual e, em decor-
da problemática socioambiental urbana soaria apenas como uma “roupagem da moda pa- rência disso, os estudos cul-
turais mais precisos do que
ra nossas velhas questões sociais (e urbanas). No entanto, definir e tratar conjuntamente os urbanos para agrupar
os dilemas sociais e ambientais constitui uma necessidade” (idem:5). identidades.

A mesma autora, ao apontar outras análises que se direcionam para uma redefinição
do objeto dos estudos urbanos, encarrega-se de destruir o próprio questionamento. Lem-
brando Smith (1984), ressalta a importância atual dos processos sociais urbanos (cultu-
rais e ambientais) que traduzem diferentes formas de sociabilidade e novos usos para os
espaços. Cita visões mais progressistas do planejamento, como a de Soja (1997), que pro-
põe uma teoria pós-moderna do planejamento, uma reestruturação ontológica que enco-
raje a desordem da diferença e novas (práticas) políticas culturais que vão além das defi-
nições binárias em termos de gênero, raça ou classe. Para ela, a expressão meio ambiente
urbano sintetiza as dimensões físicas (naturais e construídas) do espaço urbano, dimen-
sões de ambiência e possibilidades de convivência e de conflito, associadas às práticas da
vida urbana e a melhores condições de vida, seja no sentido da cidadania, seja da quali-
dade de vida urbana.
Do que foi dito anteriormente, é possível observar que não se pode olhar o meio am-
biente urbano com os olhos de ontem, quando não se tinha consciência da sua existên-
cia, tampouco separar o urbano do ambiental. Nesse sentido, nem o espaço urbano nem
o meio ambiente isoladamente são substratos do meio ambiente urbano, pois o meio am-
biente urbano é uma outra “coisa” que precisa ser vista com um novo olhar.
Os questionamentos apresentados mostram que há resistências em reconhecer o
meio ambiente urbano como área de investigação, embora indiquem abordagens que po-
dem conduzir a esse novo olhar. Tais abordagens vêm-se dirigindo para uma desconstru-
ção de mitos sobre a insustentabilidade do espaço urbano e, ao fazê-lo, podem gerar uma
definição de meio ambiente urbano. Antes, porém, é preciso conhecer com base em que
conceitos e em torno de quais questões e propostas essa definição se baseia.

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AGENDA DE QUESTÕES E PROPOSTAS SOBRE A


(IN)SUSTENTABILIDADE DO ESPAÇO URBANO

Para identificar se as questões e propostas que compõem a agenda da área de investi-


gação do meio ambiente urbano dão respaldo ao novo olhar acima sugerido, é importan-
te mostrar o entendimento que alguns planejadores/pesquisadores têm sobre três pares de
conceitos e noções: ambiente/meio ambiente, desenvolvimento sustentável/sustentabili-
dade e território/urbanização. Tal entendimento é fundamental para se chegar à idéia de
sustentabilidade urbana. Ao longo das últimas décadas, esses conceitos/noções ganharam
várias acepções e sua presença é uma constante em discursos governamentais, não-gover-
namentais e acadêmicos.

CONCEITOS E NOÇÕES BÁSICAS

Em princípio, parece que ambiente e meio ambiente são equivalentes, uma vez que
têm sido usados indistintamente. Entretanto, Vargas (1999) seleciona autores que se re-
ferem especificamente a ambiente. Para a Comunidade Européia, é o “conjunto dos ele-
mentos naturais que, na complexidade de suas relações, constituem o marco, o meio e as
condições de vida do homem”. Para Regales (1997), “o ambiente é um sistema global for-
mado por dois subsistemas: o meio geográfico e o habitat. No meio geográfico inclui-se
o meio físico, composto dos elementos naturais existentes na Terra e que fornecem recur-
sos para o exercício das atividades humanas. O meio físico oferece dificuldades e riscos,
recebe a marca da criatividade e das inovações culturais, convertendo-se em suporte hu-
manizado. Desse suporte individualiza-se o habitat, que seria o conjunto de assentamen-
tos rurais e urbanos, o tecido construído, onde o homem tem exercido historicamente as
funções de relação e interação com o meio geográfico e a natureza, ou meio físico”. Por
fim, o histórico da palavra ambiente que, segundo Cuter (1985), “teve significado inicial
como uma representação simbólica de ambiente construído, onde três dimensões se apre-
sentam: a social (renda, educação, saúde, segurança), a ambiental (clima, aspectos físicos,
nível de poluição) e a perceptiva (bem-estar e condições de vida)” (apud Vargas:7-8).
Por outro lado, referindo-se à noção de meio ambiente, Silva (1999) considera que
ela vem sendo entendida segundo um determinado recorte histórico-social, razão pela
qual não pode ser aceita como uma concepção dada, senão como uma construção. De fa-
to, desde 1993 Vainer perguntava: Qual é o meio ambiente que queremos planejar? De
que meio ambiente estamos falando? Para ele, “o conceito de meio ambiente ancora-se
num subjetivismo, cuja superação exige entender que o meio ambiente não é uma reali-
dade empírica, mas sim uma construção social”. Nessa linha de reflexão, diz: “a questão
ambiental deixa de ser vista como produto de uma relação entre o Homem … e a Natu-
reza … para situar-se no campo das relações que diferentes grupos entretecem no espaço
social, bem como das diferentes estratégias que elaboram com vista ao embate pela apro-
priação, controle e uso de território e recursos territorializados” (Vainer, 1993:556-7).
Os entendimentos acima, longe de esgotarem o significado dessas noções/concei-
tos, trazem, ao contrário, cada vez mais indagações que vão surgindo de novos enfo-
ques. Assim, por exemplo: “Considera-se o meio ambiente, o ambiente, a natureza, co-
mo um bem comum. Embora apropriado em parcelas, sob a forma de mercadorias,
bem comum é um bem de uso coletivo mesmo que apropriado privadamente?” (Rodri-
gues, 1998:57).

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O reconhecimento de que a cada novo enfoque se acrescentam mais reflexões pode


ser lido como uma falta de identidade sobre o entendimento de ambiente e meio ambien-
te. Entretanto, nesses aparentes desencontros defende-se a possibilidade de uma leitura de
encontros, porque o foco sócio-histórico aparece, explícito ou implícito, como um elo ca-
paz de amarrar essas idéias. A ausência de predeterminação do que seja ambiente e meio
ambiente é, portanto, a marca não de uma incapacidade de chegar a uma definição úni-
ca e consagrada, mas de uma certeza de que ela não deve ser encontrada, posto que não
existe. Ou, como diriam Lacorte & Barbosa (1995), contrapõe a impossibilidade de uma
teoria geral (abstrata) do meio ambiente à possibilidade de demarcar seu campo específi-
co a partir de uma construção social, historicamente datada.
Quanto ao desenvolvimento sustentável/sustentabilidade ambiental, vale destacar
não somente algumas acepções em meio a muitas, mas apenas a polêmica instalada entre
aqueles que acreditam na (im)possibilidade de uma relação mais equilibrada entre econo-
mia, sociedade e meio ambiente, ante o modelo capitalista prevalecente. Carvalho (1991)
identifica “duas matrizes discursivas que interpretam o acontecimento ecológico: a das
instituições governamentais e intergovernamentais, que propõem estratégias ecológicas
compatíveis com o desenvolvimento industrial capitalista, e a dos movimentos ecológi-
cos, que propõem modos não-predatórios de produção e uma outra ética de relações en-
tre os homens” (apud Rodrigues, 1998:87-8).
No relatório “Nosso Futuro Comum” (1997), entendeu-se que a sustentabilidade
deve ser abordada como um horizonte norteador de condutas, isto é, deve ser encarada
como um processo permanente e não um fim tangível a ser alcançado e preservado a to-
do custo. Seguindo esse preceito, o documento “Cidades Sustentáveis da Agenda 21 Bra-
sileira” advoga que a noção de sustentabilidade, enunciada como uma qualidade, vai fir-
mar-se como o novo paradigma do desenvolvimento humano. Tal capacidade de a tudo
referir-se, imprimindo a todos os processos uma qualidade que os torna diferentes do que
eram antes, faz que a sustentabilidade possa ser afirmada como um paradigma. Para tan-
to, parte de duas noções-chave: sustentabilidade ampliada e sustentabilidade progressiva.9
Tais noções se apóiam em quatro dimensões básicas identificadas no conceito de susten- 9 A sustentabilidade amplia-
da realiza o encontro políti-
tabilidade: a ética, que considera a vida da própria espécie humana e dos demais seres; a co entre a agenda ambiental
temporal, que estabelece a necessidade do planejamento a longo prazo; a social, que bus- e a agenda social ao enun-
ciar a indissociabilidade en-
ca o pluralismo político e menos desigualdade; e a prática, que propõe a mudança de há- tre fatores sociais e ambien-
bitos de consumo e de comportamento (MMA/PNUD, 1999). tais e a necessidade de
enfrentar a degradação do
Nessa mesma linha, Costa considera que “houve um avanço significativo ao se afir- meio ambiente junto com o
mar que não há desenvolvimento que não seja sustentável … Nesse sentido, a noção de problema da pobreza. A sus-
tentabilidade progressiva é
sustentabilidade ambiental corresponde a uma dimensão a ser incorporada à própria no- vista como um processo a
ser construído paulatina-
ção de desenvolvimento e não um conceito diferente do anterior. O conceito de desen- mente e capaz de romper o
volvimento sustentável vem-se transformando num enorme guarda-chuva capaz de abri- círculo vicioso da produção
excludente e implantar um
gar uma variada gama de propostas inovadoras que caminham na direção de maior círculo virtuoso.
justiça social, de melhoria da qualidade de vida, de ambientes mais dignos e saudáveis,
de compromisso com o futuro” (Costa, 1999:7). A despeito disso, ela cita Harvey, para
quem todo esse debate é sobre a preservação de uma ordem específica e não acerca da
natureza em si.
De fato, outros autores admitem que “a chamada ao desenvolvimento sustentável re-
presenta apenas o debate sobre o modelo de desenvolvimento que se pretende e que se
quer de fato alcançar”. Viola (1996) enumera três posições sobre os locus privilegiados de
um novo desenvolvimento social e ambientalmente sustentável: a estatista, a comunitária

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e a de mercado; as duas primeiras priorizariam a eqüidade, e a última, a eficiência (apud


Teixeira & Bessa, 1997:1883).
Ao contrário, adotando uma postura crítica, há quem admita a existência de uma
oposição entre os conceitos de desenvolvimento e sustentabilidade, pois, enquanto o úl-
timo é fruto de um movimento histórico recente, altamente questionador da sociedade
industrial, o primeiro é o conceito-síntese de uma sociedade cujo modelo mostra seu es-
gotamento ( MMA/PNUD, 1999).
Ainda na linha crítica, Layrargues (1997) argumenta que “o desenvolvimento sus-
tentável adota uma concepção que generaliza os fatos, omitindo o contexto histórico e
criando um homem abstrato, desprovido de identidades sociais, econômicas e culturais.
Essa conduta retiraria o componente ideológico da questão ambiental” (apud Mota Silva
& Shimbo, 1999:9).
Corroborando essa postura, há autores que apontam para a fragmentação do concei-
to de desenvolvimento sustentável. Assim: “Em muitos trabalhos se fala de desenvolvi-
mento sustentável agrícola, pecuário, florestal ou urbano, como se cada um destes setores
da economia e da sociedade pudesse manejar-se individualmente. Isso significa que … se
pode aplicar uma política de desenvolvimento sustentável agrária e não às cidades? … O
desenvolvimento sustentável deve ser, necessariamente, um conceito que abarca todas as
facetas do desenvolvimento, gerando na prática sistemas de manejo específicos em cada
setor, porém não para que esse setor seja sustentável e sim para que contribua a que o to-
do seja” (Reboratti, 1998:8).
Por fim, Rodrigues (1998) considera que o conceito de desenvolvimento sustentável
parece jogar uma cortina de fumaça sobre as contradições, pois não reflete alterações no
modelo dominante. Para ela, falta visão de classes e visão espacial na proposta de uma so-
ciedade sustentável, cuja aplicação prática só pode ser exeqüível se concretizada no espaço.
Há, portanto, autores que acreditam no desenvolvimento sustentável/sustentabilida-
de como um paradigma inovador, outros que o consideram apenas um ponto-chave no
debate atual e, por fim, os que possuem uma visão mais crítica e alertam para aspectos
não contemplados ou para uma utilização distorcida do mesmo. Aqui, não cabe discutir
esses posicionamentos. Cabe constatar a dimensão política que perpassa todos eles e ques-
tionar a que meio ambiente, em termos espaciais, estão se referindo. Esse questionamen-
to introduz outro par de conceitos: território/urbanização, e traz à tona a relação do es-
10 Para Acselrad (1997), paço urbano com a questão ambiental.10
essa relação se tem dado
por duas vias: mudanças in-
Segundo Acselrad (1997), para que a noção de sustentabilidade faça parte dos pro-
crementais em problemáti- jetos de atores sociais territorializados, é preciso caracterizar o contexto sociopolítico em
cas convencionais ou crítica
aos limites dessas. Enquan- que emerge o seu discurso. Discorrendo sobre os caminhos desse debate, ele chega a uma
to na primeira a queda da indagação: “haveria brechas para um desenvolvimento apoiado na diversidade das formas
qualidade ambiental se as-
socia aos desequilíbrios re- sociais e dos recursos territorializados – um novo princípio ordenador do espaço?” Para
gionais como um outro tipo ele, “espaço, território, meio ambiente são objetos das lutas sociais aos quais os atores so-
de externalidade negativa
do crescimento econômico, ciais atribuem distintos sentidos”. Argumenta que se trata de “uma disputa entre diferen-
a segunda incorpora a di-
mensão ambiental ao estu-
tes projetos sociais territorializados … de evidenciar as perspectivas dos sujeitos sociais
do dos processos sociais que procuram dar às distintas configurações sócio-espaciais sentidos diversos daqueles im-
do espaço e, assim, atribui
múltiplas significações so-
postos pelo regime de acumulação dominante – movimentos contra-hegemônicos – con-
ciais aos territórios. cepção de sustentabilidade abriga pactos políticos” (Acselrad, 1997:1919-20).
Para Friedmann, “o território coincide com o espaço de vida … a territorialidade
existe a todas as escalas, da maior à menor, e somos simultaneamente cidadãos de várias
comunidades territoriais … a territorialidade é uma das mais importantes fontes das

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ligações humanas: cria uma comunidade, ligando o presente ao passado como fundo de
memórias comuns (História) e ao futuro como um destino comum; a territorialidade ali-
menta uma ética de cuidados e preocupações pelos concidadãos e pelo ambiente que par-
tilhamos com eles” (Friedmann, 1996:143-4).
A simultaneidade dos cidadãos em várias comunidades territoriais que Friedmann
ressalta é a base da reflexão de Monte-Mór & Costa (1997), que se propõem a repensar
o conceito de urbanização, dado que ele contraria inúmeras situações contemporâneas, a
exemplo dos trabalhadores rurais moradores de periferias urbanas.11 Para eles, uma nova 11 Para Monte-Mór & Costa
(1997), o conceito de urba-
definição de urbanização deve incluir diferentes níveis de urbanidade e ruralidade, bus- nização refere-se a um
cando privilegiar seus impactos antrópicos sobre o meio ambiente. processo de assentamento
humano, espacialmente con-
Os três pares de conceitos acima apresentados são como raízes para se entender o centrado em unidades de
que é sustentabilidade urbana. Isso equivaleria a dizer que, em princípio, todas as afir- complexidade variável: cida-
des, vilas, megalópoles, po-
mações, as ambigüidades e as críticas, antes ressaltadas, estariam sendo transpostas para voados etc. Tal processo im-
cá. Levaria, portanto, a indagar se a sustentabilidade urbana é tão simplesmente um con- plica formas de inserção
econômica não diretamente
ceito/noção derivado dos anteriores, ou possui uma identidade própria. Ou a indagar, ligadas ao trabalho da terra
ou à exploração de recursos
ainda, se o adjetivo urbana imprime uma leitura à sustentabilidade específica e isolada naturais, ambas associadas
de outras “sustentabilidades”. ao ciclo da natureza. Por
oposição, atividades indus-
Parece que a sustentabilidade urbana cobre, em grande parte, as lacunas e os ques- triais e terciárias são tidas
tionamentos apontados, principalmente porque é intrinsecamente espacial e encerra as como essencialmente urba-
nas. O mesmo tipo de argu-
contradições sociais que se exacerbam no espaço urbano. Entretanto, essas características mento, na sua vertente an-
não significam que ela pode ser vista isoladamente nem prescindir de um planejamento. tropológico-sociológica,
associa urbanização a um
Ao contrário, cada vez mais se trabalha a idéia de planejar a sustentabilidade urbana além determinado modo de vida,
dos limites da cidade. no qual se confundem variá-
veis como: valores, compor-
É a característica paradigmática da sustentabilidade que dá suporte à possibilidade tamentos, atitudes indivi-
duais e coletivas, acesso à
de uma sustentabilidade urbana, admitindo que o desenvolvimento urbano possa ocorrer informação, bens e servi-
em bases sustentáveis (MMA/PNUD, 1999). Essa possibilidade carrega ideais de interven- ços, estilos de vida, (busca
de) formas de morar, traba-
ção urbana via planejamento. Meyer (1997) acredita que, a despeito da crise do planeja- lhar e locomover-se, um
mento, ele ainda é a principal ferramenta para se atingirem os ideais de sustentabilidade sem-número de atividades
associadas ao não-trabalho,
urbana. Afirma que essa crise não pode confundir-se com a idéia de fracasso e fim da cul- capacidade ou risco de ex-
tura do planejamento urbano, e sim induzir a um momento de reflexão e reformulação posição a mudanças que se
processam velozmente...
que passa a integrar e redefinir o lugar que devem ocupar as questões ambientais dentro Esse modo de vida não é ne-
do quadro da gestão urbana. Essa premissa deixa implícita a necessidade de se refletir so- cessariamente único no
tempo e no espaço, mas é
bre o tipo de planejamento a ser adotado. Nesse sentido, o mesmo autor ressalta que uma certamente diferenciado da-
quele associado à vida rural.
das mais evidentes questões para o desenvolvimento sustentável é que ele requer a presen-
ça e a negociação das várias formas de capital: financeiro, natural, tecnológico, cultural, e
físico (apud Ribeiro et al., 1999).
Assim, a sustentabilidade urbana decorre da não-submissão das políticas aos interes-
ses do capital privado. Decorre, ainda, da contextualização dessas políticas a um espaço
geográfico que transcende os limites da cidade. Esse é o pensamento daqueles que vêm
desmitificando o sucesso do modelo de Curitiba, como capital humana, ecológica e tec-
nológica, mostrando que seu planejamento não levou em conta os vários agentes envol-
vidos nem o entorno e a região metropolitana em geral (Moura et al., 1999).
Outros autores também se referem, explicitamente, à transcendência dos limites da
cidade. Vargas (1995), analisando o Plano Diretor de Cubatão, destaca que suas propos-
tas se dirigiram a dois níveis de intervenção: o regional e o local. Referindo-se ao Zo-
neamento Econômico-Ecológico (ZEE), Steinberger (1997) aponta para a importância
de se perceber o território urbano-regional e não o urbano e regional separados, e Kohls-

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dorf & Romero (1997) ressaltam que a abordagem ambiental do ZEE em regiões urba-
nizadas deveria contemplar a integração de vários tipos de unidades ambientais: urba-
nas, periurbanas e rurais. Monte-Mór & Costa (1997) identificam a coexistência de vá-
rias formas de urbanização na Região do Vale do Piracicaba mineiro, a exemplo de
cidades de porte médio, povoados rurais, distritos em fase de emancipação e transferên-
cia para outros municípios, núcleos estagnados, áreas urbanas conurbadas e uma área
metropolitana em consolidação.
Além disso, há autores que ressaltam essa transcendência no âmbito teórico. Para
Breheny (1992), “o debate recente sobre a cidade ecologicamente sustentável tem o mé-
rito de reunir questões urbanas e regionais até então compartimentadas” (apud Costa,
1999:10). Para Tudela (1997), a cidade consiste em um “complexo intercâmbio de ma-
téria, energia e informação que a entidade urbana estabelece com territórios por vezes
bastante distantes” (apud Ultramarini & Pereira, 1999:5).
Essa seleção de noções/conceitos básicos permite identificar um rumo bastante fér-
til de convergência sobre sustentabilidade urbana, baseada em uma outra racionalidade
não-instrumental: os focos sócio-histórico e político-espacial. Tais focos começam a apa-
recer na discussão de ambiente/meio ambiente. Ganham mais nitidez nos posicionamen-
tos críticos sobre desenvolvimento sustentável/sustentabilidade, e nas abordagens de ter-
ritório/urbanização, quando incorporam a dimensão política e as preocupações espaciais.

QUESTÕES CENTRAIS E PROPOSTAS DELAS DECORRENTES

Na leitura do conjunto dos trabalhos apresentados nos Encontros da Anpur dos


anos 90, constata-se um número significativo de textos sobre impactos urbanos e regio-
nais de grandes projetos dos setores elétrico, industrial, de saneamento e habitação, nos
quais são discutidas propostas para dirimir os conflitos entre os atores. Outro grupo de
autores, também significativo, aborda a qualidade de vida, em suas várias acepções. Per-
cebe-se, ainda, que boa parte dos autores centra suas análises em estudos de caso volta-
dos para a aplicação de instrumentos de gestão, oferecendo contribuições sobre como se
pode atingir a sustentabilidade urbana. São poucos aqueles que se ativeram a uma abor-
dagem eminentemente teórica, embora, em quase todos os trabalhos, exista um embasa-
12 Conforme foi dito na In- mento teórico-conceitual.12
trodução, o objetivo deste
artigo não é realizar um ba-
Dada a amplitude das questões envolvidas na área de meio ambiente urbano, alguns
lanço do conhecimento pro- autores, como Metzger (1994), sugerem agrupar a produção científica em uma tipologia:
duzido nos Encontros da An-
pur dos anos 90, razão pela • a natureza dentro da cidade (natureza biológica; pedaços de natureza – áreas verdes; e
qual não serão elaboradas elementos físico-naturais – hidrologia, pedologia e climatologia urbana);
tabelas sobre a tipologia
dos 39 trabalhos analisa- • os riscos de morar na cidade (biológicos – proliferação de bactérias; físico-químicos –
dos. poluição do ar e da água; tecnológicos – poluição industrial; morfo-climáticos e natu-
rais; de saúde; e de violência e segurança); e
• a gestão da cidade (políticas de abastecimento de água, de drenagem e de dejetos urba-
nos; o planejamento do uso do solo, os transportes e o crescimento urbano; e os aspec-
tos políticos, econômicos, sociais e físicos da formulação de políticas públicas de gestão
da cidade, incluindo os atores e a democratização da gestão).
A despeito de a contribuição de Metzger ser fundamental para mostrar a abrangência
da área de meio ambiente urbano, observa-se que a maioria dos trabalhos produzidos no
âmbito da Anpur mesclou esses grupos. Embora o ponto de partida seja, de fato, as ques-
tões da natureza e risco, via de regra também se chega à gestão da cidade. Há, portanto,

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um modelo misto de apresentação de trabalhos, demonstrando que os planejadores/pes-


quisadores brasileiros têm sempre em mente a inquietude da busca de soluções. Assim, en-
tre as questões examinadas, três despontam como centrais, porque servem de base para re-
construir e desconstruir mitos sobre o espaço urbano: a qualidade ambiental da vida
urbana, os instrumentos de gestão ambiental e o conflito de interesses entre os atores.13 13 Além dessas três ques-
tões, não se pode deixar de
A qualidade ambiental da vida urbana é, geralmente, rotulada como qualidade de vi- fazer referência a outras pe-
da, qualidade de serviços ou qualidade ambiental. A preocupação dos pesquisadores com lo caráter de inovação e de
destruição de certos mitos:
essa questão aparece não só na discussão do significado de qualidade mas, principalmen- planejamento por análise de
te, na sua mensuração, tomando por base a farta literatura já existente sobre o assunto. desempenho (Silva et al.,
1999), cidades compactas
Portanto, a maioria das propostas se dirigem à identificação de parâmetros e à definição (Costa, 1999), cidade ecolo-
de indicadores e modelos. gicamente sustentável (Ama-
ro, 1999), cidades conser-
A idéia de qualidade em contraposição à de quantidade, segundo Bernal (1994), vadoras de energia (Meier,
1981, apud Friedmann,
nasceu no mundo da empresa privada, nos anos 50. Concebida, inicialmente, como ap- 1996), “good practices” (Ul-
tidão dos produtos em relação aos usos, passou a significar satisfação de necessidades e ho- tramarini & Pereira, 1999),
ecourbanismo (Marques da
je é entendida como atendimento a certas especificações. Por outro lado, o mundo dos Silva,1999) e política de
serviços públicos, de acordo com Chevalier (1987), apresenta uma dimensão ideológica “city marketing” (Vargas,
1995; Moura,1999).
que constitui o denominado “mito legitimante”, base do Estado do Bem-Estar Social,
em que o acesso e o padrão de qualidade dos serviços deve ser igual para todos. Nesse
mundo, ao contrário do anterior, não há clientes que realizam uma demanda ativa, mas
usuários que realizam uma demanda passiva (apud Brito, 1997).
Nos dias de hoje, com a agonia do Estado do Bem-Estar e a força da privatização,
em tese só haveria clientes. Nesse sentido, a tendência é de que, cada vez mais, a qualida-
de ambiental seja avaliada por critérios econômicos que medem o desempenho dos servi-
ços. Kohlsdorf & Romero (1997), cientes dessa imposição, propõem que critérios simbó-
licos, expressivos e culturais passem a ser contemplados por meio de análises bioclimáticas
e de percepção ambiental. Na mesma direção, Ultramarini & Pereira (1999) consideram
que a definição de um padrão de qualidade ambiental sempre esbarra na dificuldade de
se estabelecer uma neutralidade, pois os indicadores estão impregnados de valores socio-
culturais, políticos e econômicos da sociedade ou da instituição que os determinou. Par-
tindo dessa constatação, propõem que a discussão sobre qualidade de vida não deve ser
feita à revelia das percepções e experiências da população envolvida.
A despeito disso e reconhecendo essas dificuldades, alguns pesquisadores, a exemplo
de Filho et al. (1999) propõem uma metodologia para a construção de indicadores por
meio de modelos. Eles estão conscientes de que a mensuração da qualidade de vida é uma
atitude pretenciosa e eivada de subjetivismo, porque o conceito de felicidade e bem-estar
físico e psíquico não se submete a quantificação. Entretanto, consideram que existem al-
guns parâmetros pacificamente aceitos, como acesso à educação, saneamento básico, 14 Realizam uma revisão bi-
equipamentos de lazer, habitação e nível de renda.14 Vargas (1999), em busca de uma de- bliográfica de autores que
vêm tratando o assunto, en-
finição de qualidade ambiental urbana, também lança mão de vários autores15 para che- tre os quais Jansen (1959),
gar a uma listagem de quatro aspectos principais: espacial (bem-estar, desenho urbano, re- Schneider & Simons (1971),
Smith (1977), Ben-Chieh Liu
ferenciais, uso e ocupação do solo); biológico (saúde física, saúde mental, segurança); (1978), Clark & Wilson
social (organização, realização pessoal, contatos, atividades, realização profissional, acesso (1994), Lemos (1995) e
Krafta (1997).
e opções), e econômico (oportunidades, produtividade, diversidade).
Esses esforços, pela extensa lista de autores consultados e variáveis envolvidas, pare- 15 Tais como Lynch (1960),
Maslow (1966), William &
cem demonstrar que a questão da qualidade de vida, tornada mais complexa nos anos re- Deak (1970), Dalkey (1972),
Comune & Campino (1980),
centes com a introdução da dimensão ambiental, está longe de ser solucionada via mode- Chiavenato (1988) e Belgio-
los e definições, por mais amplos que sejam. Por que não se render à evidência de que as joso (1992).

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receitas gerais faliram e que cada território e cada lugar é um caso a ser definido pela po-
pulação envolvida, com o auxílio dos planejadores? A esse respeito, Rypkema diz que o
caráter do ambiente construído está diretamente relacionado não só com a força das co-
munidades como também com a qualidade do lugar (apud Pereira Costa,1999).
A segunda questão central, levantada nos trabalhos da Anpur, está ligada aos instru-
16 Embora a palavra ges- mentos de gestão16 ambiental. Em geral, é apresentada sob a forma de críticas relativas à
tão tenha vários signifi-
cados, um dos mais fre-
distorção no uso dos instrumentos ou à insuficiência dos mesmos. De Angelis (1999) or-
qüentemente utilizados é o ganizou um quadro de instrumentos de gestão ambiental, entre os quais incluiu os urba-
adotado pelo Plano Diretor
da Cidade de Recife: “Pro- nísticos, os econômicos, os educacionais e os informativos. Estudou mais detidamente os
cesso que envolve o planeja- urbanísticos17 e os econômicos.18
mento … a mediação … a
regulação … e a interven- Em relação aos urbanísticos, a inserção do viés ambiental no planejamento urbano
ção com base na pluralida- tem ocorrido por meio da aplicação de leis federais, como a 6.766/79, e dos planos di-
de de interesses negocia-
dos entre os agentes” (apud retores municipais que, recentemente, passaram a conter capítulos sobre o meio ambien-
Vergara, 1995:311).
te. A despeito disso, constata-se que a generalidade no tratamento da questão ambiental
17 Plano diretor, zoneamen- é uma característica das legislações municipais, embora haja algumas exceções19 (Ribei-
to de uso do solo e parcela-
mento do solo urbano.
ro et al., 1999). Em decorrência disso, os instrumentos urbanísticos não têm dado con-
ta de resolver os problemas de desqualificação ambiental que geram exclusão espacial e
18 Mercados de direitos de
utilização ou direitos ambien- risco de vida.20
tais negociáveis, taxas e ta- No que se refere aos instrumentos econômicos, segundo Acselrad, manuais acadê-
rifas, auxílios financeiros.
micos e organismos multilaterais insistem na superioridade dos instrumentos de mercado
19 O Zoneamento Ambien- para combater a degradação ambiental. Apoiados no paradigma econômico neoclássico
tal de Ribeirão Preto, o Rela-
tório de Impacto Ambiental da alocação eficiente dos recursos, propõem instrumentos de internalização dos custos
Urbano de Londrina, o Siste-
ma de Avaliação de Desem-
ambientais, partindo da noção de externalidade como um fenômeno extra-econômico.
penho Urbano de Porto Ale- Sugerem que a degradação do meio ambiente resulta de brechas de mercado por onde a
gre, o Índice de Qualidade
de Vida Urbana de Belo Ho-
alocação dos recursos se afasta de uma situação ótima: “Internalizar é portanto … traves-
rizonte e os Estudos de Im- tir um problema de poder em um problema de eficiência alocativa”. Como diz Lerner
pacto de Vizinhança de São
Paulo. (1972), “esta solução consistiria em transformar o conflito – um problema político – em
uma transação econômica; e uma transação econômica é um problema político resolvi-
20 Segundo Câmara (1997),
a exclusão espacial é enten- do”. Na opinião de Acselrad, “o que se faz necessário é a explicitação política dos confli-
dida como exclusão – das tos … como lembra Przeworski (1993), pois no processo de construção democrática o
áreas ocupadas ilegalmente
por populações pobres – problema não se reduz ao confronto do mercado contra o Estado, mas concerne em iden-
dos processos formais de
urbanização ou de planeja-
tificar mecanismos institucionais específicos capazes de oferecer a determinados agentes
mento. Por outro lado, o ris- econômicos, incluindo o Estado, incentivos e informação que os levem a se conduzir de
co de expulsão com possibi-
lidade de perda total dos
uma maneira coletivamente racional” (Acselrad, 1995:274-5).
bens duramente adquiridos Outro instrumento usado com fins econômicos, embora de caráter preventivo, é o
e o risco à saúde resultante
da ausência de saneamento Estudo de Impacto Ambiental, baseado em avaliações que lançam mão de métodos bastan-
tornaram-se problemas me- te conhecidos, mas severamente criticados.21 Alguns autores avaliam que as metodologias
nores diante do risco de
vida, ameaçada pelos desli- dos estudos ambientais de usinas hidrelétricas funcionam como um instrumento de ma-
zamentos de terra ou desa- nipulação das questões sociais. Argumentam que a noção de impacto despreza as condi-
bamento da própria moradia.
ções em que as populações se apropriam do território e dos recursos naturais, bem como
21 Como o da matriz de in-
teração causa/efeito (matriz
as formas pelas quais constroem seu mundo social e as representações acerca dele (Lacor-
de Leopold). Sobre as críti- te & Barbosa, 1995).
cas, ver Ron Bisset & Wil-
liam Kennedy (apud Sá et
Por fim, seguindo as tendências atuais em termos de planejamento participativo e
al.:1995:). estratégico, os trabalhos da Anpur sobre a terceira questão central – o conflito de interes-
22 Via educação ambiental, ses entre os atores – estão permeados por propostas de conscientizar22 e organizar os di-
entre outras propostas. versos segmentos da sociedade visando a uma participação mais coletiva. Nessa linha,
Lassonde (1996) afirma que o surgimento da questão ética nos debates contemporâneos

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provém do fato de que estamos num ponto da história em que “os homens podem ser in-
dividualmente inocentes e coletivamente responsáveis, todos vítimas e culpados ao mes-
mo tempo” (apud Vargas, 1999:1).
Em termos mundiais, a emergência do movimento de conscientização ambiental co-
meçou na década de 1960, mas o marco foi a Conferência de Estocolmo, em 1972, que
gerou o lançamento do Programa Internacional de Educação Ambiental, em 1975. Nele,
a educação ambiental foi definida como “uma dimensão dada ao conteúdo e à prática da
educação orientada para a resolução dos problemas concretos do ambiente, através de en-
foques interdisciplinares e de uma participação ativa e responsável de cada indivíduo e da
coletividade” (Silva, 1999:4).
Pecchio (1995) constata que amplas camadas da sociedade urbana não relacionam
seus problemas cotidianos ao meio ambiente urbano, pois ainda não perceberam seu pa-
pel como agentes de mudança da própria realidade. Nesse sentido, considera que o pro-
cesso de politização do meio ambiente, no Brasil, passou por dois estágios: o meio am-
biente como matéria de intervenção estatal institucionalizada, desde os anos 70 até finais
dos 80, e a partir daí a valorização do papel político dos agentes sociais. Poley (1993)
acrescenta que o primeiro estágio foi marcado pela presença de movimentos apolíticos de
denúncia da degradação ambiental e de comunidades alternativas rurais, e que somente
com a Eco-92 ocorreu uma politização explícita do meio ambiente, por meio da denomi-
nada “opção ecopolítica”. Para ele, “o movimento ecológico se estrutura diante de dois fa-
tos principais: a degradação social e a degradação ambiental”.23 23 Nesse contexto, afirma
que “as questões ambien-
Essa politização do meio ambiente tem trazido à tona uma série de conflitos de in- tais enfrentadas pelos eco-
teresses. Alguns casos foram objeto de análise por pesquisadores da Anpur, que denun- logistas do primeiro e tercei-
ro mundos são de natureza
ciam os artifícios, os argumentos e as estratégias utilizados pelos vários atores envolvidos similar, mas as questões so-
no jogo de poder. O gerenciamento dos recursos hídricos da represa Billings, em São Pau- ciais são radicalmente dife-
renciadas" (Poley, 1993:
lo, revela a força da aliança do governo do Estado com os industriais contra os governos 535).
locais e os ambientalistas, ao usar o expediente da negociação em separado com base em
uma decisão técnica (Pacheco, 1993). A utilização da estratégia de “atuação responsável”,
no pólo petroquímico de Camaçari, para enfrentar o desgaste da imagem empresarial de-
vido à poluição que coloca em risco a segurança industrial e a saúde da população, é um
exemplo da fraqueza das lutas dos trabalhadores e das comunidades urbanas, dado o seu
baixo nível de organização (Borges & Franco, 1997). Nessa mesma linha, o comprome-
timento de propostas, como a do “selo verde”, no caso da indústria siderúrgica de Minas
Gerais, cuja imagem negativa pode acarretar perda de mercado, aparece sob a forma de
resistência das empresas em negociar termos de compromisso, contestar multas e exercer
pressões políticas acobertadas pelo governo do estado (Torres et al., 1997). A relação en-
tre empresários e pescadores artesanais organizados em torno do problema de despolui-
ção da baía de Guanabara, analisada segundo a responsabilidade social do empresariado
e sob o postulado da ecologia com justiça, mostra a pouca disposição deste último para
uma mudança além da mudança conservadora (Teixeira & Bessa, 1997). A desvaloriza-
ção das práticas culturais territorializadas de grupos sociais locais organizados, em detri-
mento de estratégias despolitizadoras dos governos federal e estadual, no caso da implan-
tação da usina hidrelétrica de Tucuruí, mostra a redução utilitária do meio ambiente
(Silva, 1999). A semelhança dos problemas de saneamento entre o Rio de Janeiro e Bra-
sília, capitais implantadas em sítios escolhidos por razões de Estado, aponta o conflito en-
tre soluções técnicas e políticas (Carvalho & Romero, 1999). Por fim, no caso da implan-
tação da usina de Serra Mesa, ainda não se estabeleceu um conflito em torno dos possíveis

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efeitos perversos (redefinição e extinção de espaços), porque há um clima otimista por


parte da população que tem grandes expectativas sobre o aproveitamento econômico do
lago para lazer e turismo (Guedes & Natal, 1997).
Embora nem todos esses casos se refiram especificamente ao espaço urbano, na
maioria deles atores urbanos estão envolvidos. Além disso, sugere-se aqui que o espaço ur-
bano é, por excelência, o locus para a discussão de conflitos ambientais, uma vez que ne-
le estão congregados e representados interesses territoriais distintos.
As abordagens apresentadas sobre cada uma das questões centrais vêm contribuindo
para reconstruir os mitos estabelecidos sobre a insustentabilidade do espaço urbano do
que para desconstruí-los. Assim, quando se diz que a qualidade ambiental da vida urba-
na é ruim, que os instrumentos de gestão são insuficientes ou precários para tornar o espa-
ço urbano sustentável e se admite que os conflitos de interesses são insuperáveis, está-se
contribuindo para alimentar mitos já existentes, reconstruindo-os. Entretanto, quando
se propõe inserir a participação e o significado de qualidade ambiental para cada comu-
nidade, explicitar os conflitos dos instrumentos de gestão, ao invés de minimizá-los, e
politizar o meio ambiente, caminha-se no sentido de iniciar uma desconstrução de mitos.

UMA DEFINIÇÃO DE MEIO AMBIENTE URBANO


A PARTIR DE DISCURSOS PRÓPRIOS E DE UM REPENSAR SOBRE O ESPAÇO URBANO

A recente disseminação de questões e propostas construídas em torno da busca da


sustentabilidade urbana vem gerando uma demanda de discursos próprios sobre o meio
ambiente urbano como área de investigação.
Reboratti (1998) mostra que os pesquisadores têm chegado ao tema ambiental, ana-
lisando-o de muitas formas: “Todos reunidos ao redor de uma temática comum, porém
fragmentada e deformada pela adoção de escalas territoriais, temporais e disciplinares di-
ferentes, que vão do local ao global, do individual ao coletivo, do estritamente atual ao
que sucedeu no fundo da história”. Paralelamente, ele considera que o aparecimento do
tema ambiental nas análises urbanas se insere de um modo diferente, pois não se trata de
um ambiente “natural”, mas de um ambiente altamente artificializado e degradado. Para
ele “a cidade é … uma grande produtora de degradação ambiental, já que concentra emis-
são de gases, produção de resíduos de todo tipo, líquidos e sólidos, hiperconsumo de água
e escassa capacidade para regenerá-la, destruição da flora e da fauna, geração de altos ní-
veis de contaminação sonora” (Reboratti, 1998:3,5).
Embora essa afirmação possa ser chocante porque visualiza o espaço urbano como
insustentável, ela é a justificativa de praticamente todos os discursos que vão em busca da
sustentabilidade. As cinco matrizes discursivas, que se remetem à sustentabilidade do ter-
ritório (que incluem o urbano), apontadas por Acselrad (1997), se bem que bastante di-
ferenciadas nas propostas, estão todas impregnadas de um temor efetivo ou potencial da
degradação ambiental. Assim, está a matriz da busca da eficiência combatendo o desper-
dício, a matriz do respeito à escala que advoga limites ao crescimento econômico, a ma-
triz do reconhecimento da desigualdade social e da pobreza a ser reduzida com eqüidade,
e também a da crença na auto-suficiência das comunidades tradicionais e a da observân-
cia de uma ética baseada na conduta humana com deveres e obrigações. O mesmo pode
ser dito quando, dois anos depois, ele identifica três matrizes discursivas teóricas de
sustentabilidade urbana que correspondem a representações distintas da cidade: a re-
presentação tecnomaterial da cidade sustentável, que inclui modelos de racionalidade

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ecoenergética e de equilíbrio metabólico; a cidade como espaço da qualidade de vida que


inclui modelos de pureza, de cidadania e de patrimônio, e a cidade como o espaço de le-
gitimação das políticas urbanas (Acselrad, 1999).
Assim, discursos não faltam, mas a linha divisória entre a (in)sustentabilidade neles
inserida é mais tênue do que parece. Analisando esses discursos, observa-se que há várias
leituras de (in)sustentabilidade do espaço urbano, ou seja, para cada discurso uma leitu-
ra, razão pela qual alguns autores falam de sustentabilidades. Além disso, embora aqui se
esteja propondo uma desconstrução de mitos, verifica-se que a maioria dos discursos so-
bre o meio ambiente urbano se apropria dos marcos teórico-conceituais estabelecidos, re-
construindo-os em cima dos mesmos mitos.
Alguns pesquisadores, preocupados com esse tipo de visão, consideram que ocorreu
a propagação de uma mentalidade patológica sobre o meio ambiente urbano, desde que
“a maioria das referências sobre a relação meio ambiente/meio urbano estão obnubiladas
pelo estigma dos malefícios urbanos e suas conseqüências sobre a degradação do meio am-
biente” (Steinberger, 1995:326). Noutras palavras, é fundamental rever os discursos que
tomam o espaço urbano como “espaço morto”, revisando o próprio modelo territorial ur-
bano para buscar alternativas que garantam maior integração entre o espaço natural e o
espaço social (Monte-Mór, 1994).
Nesse sentido, os discursos de sustentabilidade, em geral, estão presos a diagnósti-
cos de insustentabilidade. Entretanto, pode-se encontrar discursos de dois tipos: os que
fazem uma mera transposição de mitos apoiados na racionalidade instrumental, ou seja,
os reconstruídos em cima de discursos antigos que correspondem praticamente a reedi-
ções – e existem as formulações mais recentes que, de fato, desconstroem mitos para ela-
borar discursos novos. Estes últimos serão a base de uma nova definição de meio am-
biente urbano.
Acselrad (1997) considera que a apreensão das condições sociais de apropriação do
território pelos discursos ambientais passa por duas questões: a construção de uma pro-
blemática ambiental liberta do determinismo ecológico e do reducionismo biológico e os
diferentes tipos de racionalidade que articulam a reprodução social à reprodução da base
material do desenvolvimento. Com relação à primeira, alinha cinco frentes de discussão:
desmaterializar o meio ambiente, desnaturalizar o meio ambiente, compreender as práti-
cas de poder sobre recursos territorializados, criticar a Sociologia do meio ambiente como
subdisciplina da Sociologia das técnicas e liberar a problemática ecológica dos limites do
paradigma da escassez. Quanto à segunda, ele identifica uma racionalidade ligada à con-
servação social e outra à transformação social. Esta última entende que a ação do homem
no mundo é mediatizada por um projeto cultural que ordena a experiência prática para
além da simples lógica utilitária e comporta projetos de mudança social na direção de va-
lores como eqüidade, democracia, diversidade cultural, auto-suficiência, ética.
Na mesma linha, outros autores também se referem a propostas alternativas que con-
sideram importante uma visão histórica e interdisciplinar e interagem preocupações da
ecologia com análises sociopolíticas, passando pela Geografia, pelo Direito e pela Filosofia.
A denominada “crítica socioambiental urbana”, que privilegia a análise da questão ambien-
tal urbana como expressão do atual estágio do capitalismo, discute os grandes condicio-
nantes que estão por trás, quais sejam, a racionalidade instrumental e a interpretação me-
canicista da natureza (Cidade, 1995). Outras abordagens favorecem a “convergência entre
o social, o urbano e o ambiental: análises das práticas e movimentos que se articulam em
torno dos conflitos socioambientais; a história ambiental que vem contribuindo para

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romper as fronteiras analíticas convencionais do tipo urbano – rural, construído – intoca-


do, social – natural, privilegiando narrativas interdisciplinares e possibilitando uma (re)in-
terpretação da produção e apropriação de nossos espaços” (Costa, 1999:14).
Esses novos discursos vêm gerando alguns enunciados sobre o que se entende por
meio ambiente urbano: meio ambiente urbano enquanto espaço e suporte natural apro-
priados no cotidiano da população (Ultramarini & Pereira, 1999); meio ambiente urba-
no como um espaço que possui uma dinâmica ambiental própria e única, resultante da
interação entre o ambiente natural e o ambiente construído, cuja harmonia é intrínseca e
não extrínseca (Steinberger, 1995). Meio ambiente urbano compreende o conjunto de
edificações, sua história e memória, seus espaços segregados, a infra-estrutura e os equi-
pamentos de consumo coletivos (Rodrigues, 1998). O meio ambiente urbano não pode
ser um sistema em que os elementos funcionem ou não funcionem, mas um produto, um
resultado de qualquer coisa que se assemelhe a relações sociais implicando materialidade,
aplicando-se nas coisas reais e virtuais (Metzger, 1994).
Mostrou-se antes que meio ambiente urbano é uma outra “coisa”. Coisa que resulta
do sistema de objetos e ações que Milton Santos propõe na sua obra A natureza do espaço
(1996) e leva a propor que o espaço urbano, ao gerar um meio ambiente urbano artifi-
cial, amálgama do natural, do construído e até mesmo do virtual, tenha uma leitura de
sustentabilidade que é fruto de uma racionalidade não-instrumental.
Marília Steinberger, eco-
nomista, é professora do Portanto, o meio ambiente urbano como área de investigação não substitui nem se
Departamento de Geografia
da Universidade de Brasília.
sobrepõe ao planejamento urbano e regional, mas deve ser cada vez mais incorporado a
E-mail: rtlia@solar.com.br ele, o que, de certa maneira, permite um repensar sobre o espaço urbano.

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A B S T R A C T The work is based on a study of knowledge concerning the environ-


ment, within the scope of the 1990s ANPUR Meetings, which discussed the emergence of the
urban environment as a field of inquiry that constructs and reconstructs myths concerning the
sustainability or unsustainability of urban space. To this end, the first section analyses docu-
ments which constitute the institutional imprint of the field, followed by a brief recollection of
theoretical-conceptual landmarks established in some disciplines. It is suggested that these be
deconstructed, so that the urban environment may be understood through a perspective based
on a non-instrumental rationality. In the following section, the socio-historical and politico-
spatial focuses of three pairs of notions/concepts are discussed: ambient-environment, sustaina-
ble development-sustainability and territory-urbanization, in order to arrive at an understan-
ding of urban sustainability. Such focuses guide the central issues that are related to the field:
urban environmental quality, instruments of environmental management and the conflict of

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 31


A ( R E ) C O N S T R U Ç Ã O D E M I T O S

interests among actors. In conclusion it is shown that, although most of the discourse on the
urban environment considers urban space to be unsustainable, there are paths that point to a
definition of the field.

K E Y W O R D S Environment; sustainability; urban space.

32 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001


AVANÇOS E LIMITES
NA HISTORIOGRAFIA DA LEGISLAÇÃO URBANÍSTICA NO BRASIL

SARAH FELDMAN

R E S U M O Este trabalho tem por objetivo analisar a produção recente no campo da


história da legislação urbanística no Brasil, procurando detectar avanços e limites para a re-
flexão sobre desenvolvimento urbano e práticas urbanísticas. O texto organiza-se em três eixos
analíticos. Em primeiro lugar, procura-se situar os trabalhos no processo de disseminação de es-
tudos da história urbana no Brasil, vinculando-os ao movimento de ampliação do território
da história que ocorre na Europa e nos Estados Unidos, a partir dos anos 60, com a chamada
História Nova. Em segundo, baseado em um panorama da produção recente, são detectadas as
vertentes dominantes e emergentes nos trabalhos sobre legislação. Em terceiro, são discutidos
dois aspectos que se configuram como lacunas na historiografia da legislação: o lugar ocupado
pelas normas, a partir do momento em que idéias e práticas urbanísticas têm um espaço ins-
titucionalizado na administração pública; e o lugar dos pressupostos modernistas na legislação
brasileira, visto que o movimento modernista formula a proposta de um novo sistema legal pa-
ra o urbanismo.

PALAVRAS -CHAVE Legislação urbanística; história; movimento moderno.

HISTÓRIA NOVA, HISTÓRIA URBANA


E HISTÓRIA DA LEGISLAÇÃO URBANÍSTICA

A partir dos anos 80, um número crescente de pesquisas vem-se direcionando para
a construção da historiografia das cidades brasileiras, estabelecendo um marco temporal
em relação à escassa produção anterior nessa área. Um elemento a destacar – determinan-
te para uma avaliação do estado da arte desse conjunto de trabalhos – é seu caráter mul-
tidisciplinar, uma vez que vêm sendo elaboradas, majoritariamente, por arquitetos, urba-
nistas, planejadores, geógrafos e outros profissionais vinculados à questão urbana. Nesse
sentido, a produção em curso pode ser inscrita no processo de ampliação do território da
história que, desde os anos 60, se dissemina na Europa e nos Estados Unidos, a partir do
movimento que tem origem no grupo de historiadores ligados à revista Annales d’Histoire
Économique et Sociale, surgida em 1929, na França, como reação aos paradigmas do his-
torismo desenvolvido no século XIX.1 1 O grupo ficou conhecido
como École des Annales. A
O objetivo fundamental do grupo é, desde o início, combater os rígidos limites co- revista teve quatro denomi-
locados pela visão do historismo, que tem no historiador alemão Leopold von Ranke sua nações: Annales d’Histoire
Économique et Sociale
maior expressão. À história baseada unicamente nos grandes acontecimentos e nas fontes (1929-39); Annales d’Histoire
documentais oficiais, restrita à política e feita somente por historiadores profissionaliza- Sociale (1939-42, 1945);
Mélanges d’Histoire Sociale
dos, contrapõem a aproximação da história a outras disciplinas e a ampliação dos objetos (1942-44) ; Annales: Écono-
mies, Sociétés, Civilisations
da história e do campo de fontes documentais. (1946).
Nessa busca de ampliação do território da história e da interdisciplinaridade está im-
plícito o questionamento à especialização do historiador, que resultou da institucionaliza-

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 33


A V A N Ç O S E L I M I T E S N A H I S T O R I O G R A F I A

ção acadêmica da visão rankeana, e a afirmação da idéia de que tudo tem história, tudo
tem um passado que pode ser reconstruído, não se reconhecendo, portanto, a existência
de uma história com H maiúsculo. Assim, em contraposição a uma história referenciada
em fatos que, nas palavras de Braudel, não passam de “espumas nas ondas do mar da his-
2 Braudel, F. 1959:49. tória”, propõem a “história total”.2 Os fatos não existem isoladamente, mas constituem
um tecido, têm uma organização na qual desempenham o papel de causa, fins, acasos etc.,
3 Veyne, P., 1971:43. e cabe ao historiador “reencontrar essa organização”.3 Em termos metodológicos, a dire-
triz principal diz respeito à ampliação das fontes: não apenas escritas, mas também orais,
imagéticas, estatísticas, etnográficas etc. A explicação histórica deve, nessa perspectiva,
dar-se pela variedade de questionamentos que se revelam mediante o reconhecimento de
4 Burke, P., 1991:15. “vozes variadas e opostas”, e não pelo ideal de uma voz oficial da história.4
Somente a partir dos anos 60, a interdisciplinaridade proclamada desde os anos 20
se realiza, diluindo-se os rígidos limites entre o território da história e algumas áreas das
ciências humanas. Nos anos 70, o movimento passa a denominar-se Nova História, dis-
semina-se pela Europa e Estados Unidos, e os historiadores a ele vinculados ampliam seu
espaço nas instituições acadêmicas e conquistam o acesso às editoras e à mídia.
Várias questões vêm sendo levantadas quanto aos rumos tomados pelo movimento
dos Annales, as quais não cabem ser desenvolvidas no âmbito deste texto. A própria ex-
pressão Nova História vem sendo questionada, uma vez que nunca foram abandonados
5 Burke, P. op. cit.; Borges, os princípios elaborados no início do século.5 Há um debate em torno das relações dos
V. P., 1980; Ribeiro, R. J. et
al., 1994; entre outros.
historiadores com o materialismo histórico, as quais oscilam entre o reconhecimento de
Marx como um precursor de muitas de suas idéias e a negação do método e dos concei-
tos marxistas. A vinculação dos historiadores à Academia também é questionada: o mo-
vimento, que se inicia marcado pelo inconformismo, pela negação da ortodoxia acadêmi-
ca, acaba, segundo alguns autores, por entrar no jogo intramuros da Academia, e os
procedimentos considerados revolucionários convertem-se “em simples instrumentos pa-
6 Ribeiro, R. J., op. cit.:13. ra legitimação de trabalhos que graças a eles se inscrevem acadêmica e editorialmente”. 6
Outra questão levantada refere-se ao fato de a chamada Nova História ser conside-
rada um movimento de disseminação de práticas e idéias relativas à historiografia, e so-
mente se constituir como uma “escola” no período em que é liderado por Fernand Brau-
del, quando novos conceitos são elaborados, conformando uma concepção de história.7 A
7 Burke, P., 1990:12. principal contribuição da Nova História ao pensamento e à prática da história seria, por-
tanto, a introdução, por Braudel, de uma nova dimensão da história, que diz respeito à
apreensão das forças profundas da história que só se deixam apreender e só atuam no tem-
po longo. Braudel decompõe a história em três planos escalonados, distinguindo tempo
histórico/tempo geográfico, tempo social e tempo individual. A eles correspondem, res-
pectivamente, as estruturas, as conjunturas, os acontecimentos. O tempo das estruturas é
a longa duração, a quase imobilidade, uma vez que as estruturas permanecem constantes
durante um tempo longo ou só evoluem de maneira imperceptível. O tempo das conjun-
turas são flutuações de dimensões diversas, oscilações cíclicas que se manifestam no con-
texto das estruturas. Os acontecimentos são engendrados pelas estruturas e conjunturas,
8 Braudel, F., op. cit.:44-54. são as rupturas ou o restabelecimento de equilíbrios.8
Mas em meio a todos os questionamentos, há uma concordância quanto à contri-
buição do grupo na expansão do campo da história, bem como na descoberta de novas
fontes e novos métodos para explorá-las.
Sua importância está não apenas na dilatação do território da história como também do
historiador, abrangendo temas e grupos sociais negligenciados pelos historiadores tradicionais.

34 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001


S A R A H F E L D M A N

Como parte de tal processo, a história urbana desenvolve-se a partir da história so-
cial e, no panorama internacional, os anos 60 constituem um momento relevante, pois
inicia-se a busca de demarcação de seus conteúdos.9 Um pressuposto que se impõe é as- 9 Sobre o debate em torno
da história urbana nos anos
sumir um ponto de ruptura no processo de constituição da cidade, enfatizando, dessa 60, consultar Handlin, O. e
maneira, uma abordagem problematizada da urbe. Essa abordagem contrapõe-se à abor- Burchard, J., 1963.

dagem dominante na história da cidade, desde o século XIX, que tem como pressuposto
teórico a noção de crescimento evolutivo ou de desenvolvimento, “que faz com que a(s)
cidade(s) seja(m) considerada(s) um fato histórico, sempre o mesmo, um fenômeno cu-
jas transformações (materialidade e função) constituem o objeto de pesquisa dos estu- 10 Bresciani, M. S.
diosos”.10 Nesse sentido, considera-se a cidade do século XIX um momento de ruptura 1992:11.
no processo de urbanização e privilegia-se o estudo da cidade associada à idéia de mo-
dernidade. Nessa perspectiva, a cidade moderna é considerada essencialmente diferen-
te, não podendo, portanto, ser abordada como mera descendente dos núcleos urbanos
do passado.11 11 Handlin, O., 1963. In:
Handlin, O., Burchard, J.,
De modo geral, numa grande categoria denominada “história urbana”, passam a en- op. cit.; Bresciani, M. S., op.
quadrar-se todos os estudos que tenham a cidade como locus, ocorrendo uma não-distin- cit.

ção entre o que é peculiar ao desenvolvimento da cidade e aquilo que diz respeito à cul-
tura de forma geral. As posições em torno dessa questão são diversas, com autores que
consideram difícil, ainda hoje, demarcar o que é um trabalho de história urbana, autores
que apregoam um campo específico para a história do urbanismo, e autores que enten-
dem a história urbana como o estudo da forma urbana como resultante de complexas for-
ças sociais, psicológicas e econômicas.12 12 De Decca., E., 1991:9,
e os textos de Tunnard, C.
Em The History of Urban and Regional Planning – an annotated bibliography, publi- “A note on the pursuit of city
cado em 1981, Anthony Sutcliffe faz um balanço dos trabalhos elaborados, em sua gran- planning history”, e de Sum-
merson, S. J., “Urban forms”,
de maioria, na Europa e Estados Unidos. Em suas conclusões, podem-se observar algu- in: Handlin, O., Burchard, J.,
mas semelhanças com a condição atual da história urbana no Brasil, principalmente em op. cit.

relação ao universo de pesquisas vinculadas às idéias e às práticas urbanísticas, tanto no


que se refere ao perfil dos pesquisadores, como no que se refere aos limites na utilização
de recursos teórico-metodológicos. Cabe destacar que a maioria absoluta dos trabalhos le-
vantados por Sutcliffe são elaborados no período pós-60, o que confirma esse momento
como um marco na expansão da área.
O autor mostra que a maioria dos trabalhos são elaborados por profissionais de di-
ferentes áreas, mas vinculados à prática do planejamento urbano, e identifica uma imatu-
ridade na historiografia do planejamento, a qual se manifesta sob vários aspectos: há, por
um lado, a necessidade de se estabelecer um “pedigree histórico” para reforçar a identida-
de da profissão e, por outro, a busca das origens para explicar as frustrações devidas às li-
mitações atuais do planejamento. Para Sutcliffe, a não-formação acadêmica dos autores
na área de história faz que grande parte dos trabalhos não passem de catalogações de leis
ou biografias de planejadores, que não estabelecem relações com seus períodos, ou, ain-
da, estudos de planos de cidades que não se explicam pelos processos urbanos mais gerais.
Ao mesmo tempo que detecta tais limites, Sutcliffe afirma que a historiografia realizada
por profissionais atuantes e oriundos de todas as áreas das ciências sociais é de fundamen-
tal importância, uma vez que a vitalidade da história do urbanismo está, justamente, no
duplo vínculo com prática e teoria.
Semelhantes questões nos dizem respeito. A carência de teorização e discussão
conceitual e metodológica da história já foi apontada na análise de um universo limita-
do da produção brasileira, elaborada por Filgueiras & Fernandes (1998). Vivemos um

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 35


A V A N Ç O S E L I M I T E S N A H I S T O R I O G R A F I A

momento em que, a uma apropriação documental – uma verdadeira “saída dos armários”
de relatórios, material iconográfico, planos, relatórios etc. – corresponde uma não-apro-
priação metodológico-conceitual da disciplina história, que se expressa, por um lado, na
quantidade de pesquisas voltadas para a criação de bancos de dados e, por outro, no nú-
mero significativo de trabalhos que se restringem a descrever cronologicamente planos,
leis, relatórios etc.
Deve-se considerar que os trabalhos, no Brasil, além de sinalizarem a vitalidade de
um campo temático multidisciplinar, constituem uma busca de ampliação de parâmetros
teóricos e metodológicos para se transpor os limites interpretativos colocados pela pro-
nunciada influência do referencial marxista – desenvolvido, sobretudo, pela sociologia
13 Sobre as referências francesa dos anos 70 –, o qual vinha marcando as pesquisas brasileiras.13 Assim, paralela-
aos trabalhos nos anos 70,
ver Leme, M. C., Pacheco,
mente ao esquadrinhamento das fontes documentais, que vem permitindo iluminar todo
R., 1989. “A questão fundiá- um universo de constituição da engenharia, arquitetura e urbanismo brasileiros que per-
ria, imobiliária e os serviços
urbanos: conceitos e refe- manecia oculto, os trabalhos de história urbana refletem o deslocamento das interpreta-
rências teóricas em teses e ções fundamentadas exclusivamente em determinantes econômicos, em que as questões
dissertações recentes”. Es-
paço e Debates, São Paulo, fundiária, imobiliária e de serviços urbanos foram privilegiadas na explicação dos proces-
nº 28, p.101-117. sos de estruturação urbana, para a incorporação de aspectos estético-culturais. Se, nos
anos 70, os marcos teórico-conceituais em suas várias vertentes eram em grande parte ex-
plicitados ou reconhecíveis, nos trabalhos elaborados pós-80, com exceção daqueles vin-
culados à linha foucaultiana, tais questões vêm sendo minimizadas.
Nesse panorama, a legislação urbanística – aqui entendida como o conjunto de re-
gulamentações referentes ao parcelamento, uso e ocupação do solo e às edificações – não
foge à regra, com a agravante de não estar recebendo a devida atenção dos pesquisadores,
embora seja o elemento constitutivo da disciplina do urbanismo mais desenvolvido, no
Brasil, nas últimas cinco décadas. São poucos os trabalhos que vêm procurando inserir a
legislação como fato histórico no interior de uma história-problema, no sentido aponta-
do por Veyne (1971). Ainda que a referência à legislação esteja presente na maior parte
dos estudos sobre o urbanismo no Brasil, a legislação é, de certa forma, naturalizada e,
com raras exceções, ultrapassa o caráter de identificação das leis por meio da listagem e
descrição de seus conteúdos.
Neste trabalho, procuramos levantar alguns pontos para a discussão dos caminhos,
abordagens e métodos em curso na historiografia da legislação urbanística. O papel assu-
mido pela legislação no urbanismo brasileiro constitui um campo nebuloso e pouco ex-
plorado. Nos setores de urbanismo das administrações municipais no Brasil, prevalece, há
meio século, uma abordagem legalista, ou seja, a legislação é colocada como uma meta
em si, e não como um instrumento, dentre outros, para atingir determinadas metas de
desenvolvimento urbano. Se no período da Primeira República, quando começam a es-
truturar-se, nas administrações públicas, as seções de obras que evoluem para seções de
urbanismo, a elaboração e execução dos planos de melhoramentos e, posteriormente, dos
chamados planos de conjunto, impõem-se como atividade privilegiada de urbanistas
oriundos dos cursos de Engenharia. A partir dos anos 40, ocorre um nítido deslocamen-
to da esfera de atuação desses órgãos. Constrói-se um novo saber urbanístico – uma no-
va visão de atuação do Estado ante as novas formas de apropriação do espaço urbano – e
os denominados órgãos de planejamento passam a atuar, fundamentalmente, como ór-
gãos normativos. A tal mudança corresponde uma nova estrutura organizacional do setor,
assim como a construção de um novo perfil do urbanista – o profissional generalista, com
predominância de profissionais egressos dos cursos de arquitetura. É nesse momento que

36 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001


S A R A H F E L D M A N

se dá uma fissura entre arquitetura e urbanismo: planejar passa a constituir-se como ati-
vidade desligada de projetar, e o zoneamento – abrangente ao conjunto da cidade e arti-
culador de um conjunto de parâmetros urbanísticos em zonas funcionais – consolida-se
como o principal instrumento de planejamento.

O LUGAR DA LEGISLAÇÃO NA
HISTORIOGRAFIA DO URBANISMO NO BRASIL

No período anterior à década de oitenta, dois trabalhos destacam-se pela abordagem


da legislação urbanística: a tese para concurso de cátedra na Escola Politécnica da Univer-
sidade de São Paulo, de Francisco de Paula Andrade, de 1966, e o livro de Nestor Gou-
lart Reis Filho, de 1968. Embora Andrade coloque que não visa a “história”, seu trabalho
pode ser considerado pioneiro, pois fornece um quadro abrangente da legislação brasilei-
ra, desde o Império até a primeira metade do século XX, apontando suas relações com a
legislação urbana portuguesa. Reis Filho, ao estudar a evolução urbana do Brasil nos sé-
culos XVI e XVII, aponta os princípios reguladores e as instituições responsáveis por sua im-
plementação, no âmbito da política urbanizadora no Brasil-colônia.
Da análise dos trabalhos publicados em livros, anais de encontros e seminários, dis-
sertações de mestrado e teses de doutorado, no período pós-80, podem ser identificadas
três vertentes dominantes nas pesquisas voltadas para a historiografia da legislação urba-
nística no Brasil. Uma primeira vertente enfoca os aspectos normativos referentes à pro-
priedade fundiária, emanados pelo poder eclesiástico até a promulgação da Lei de Terras,
em 1850, quando a terra adquire o estatuto de mercadoria. Os trabalhos de Marx (1991),
Fridman & Ramos (1992) e Fridman (1994) mostram como entre o regime jurídico do
sistema de sesmarias do período colonial e a separação entre Igreja e Estado estrutura-se
a propriedade fundiária no Brasil. Da distribuição gratuita de terras, passa-se à aquisição
onerosa, o que define os limites da propriedade em favor do interesse público. Marx (op.
cit.) mostra, de forma minuciosa, como persistem, por décadas, os privilégios dos gran-
des detentores de terra e os procedimentos do antigo sistema de distribuição de terras, e
como, de forma tímida, os municípios se adaptam à nova realidade político-administra-
tiva, a partir da lei de 1850 e sua regulamentação em 1854, mediante a prática dos lotea-
mentos e dos códigos de posturas, atos e resoluções.
Esses trabalhos permitem detectar a constituição de um sistema legal em torno da
propriedade privada – da exigência da escritura pública de compra e venda (1855) à cria-
ção do imposto predial (1878) e taxação de terrenos não-construídos em freguesias urba-
nas centrais (1897) – e como, já em fins do século XIX, se pode estabelecer uma relação
entre tais medidas e o processo de valorização imobiliária e fundiária. Além disso, apon-
tam que, juntamente com o aparato legal, ocorre uma estruturação da administração e
novas funções se constituem no quadro administrativo municipal.
A segunda vertente caracteriza-se por estudos que têm como marco temporal a Pri-
meira República, nos quais prevalece a interpretação da legislação como instrumento de
dominação e normatização da vida das classes populares e de atividades que se incluem
na esfera das ilegalidades urbanas, referenciadas nos pressupostos higienistas (Rolnik,
1983; Feldman, 1987; Lira, 1991; Marins, 1998). Nesses trabalhos, a lógica disciplina-
dora de um urbanismo saneador – expressão de um projeto político de intervenção do
Estado na questão social nas cidades – é desvendada, tanto nas formas de habitação

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(Rolnik, 1983; Lira, 1991; Marins, 1998) como nos territórios de prostituição (Feld-
man, 1987). A questão da segregação espacial, por meio da análise das primeiras nor-
mas que extrapolam a construção de edifícios contidas nos Códigos de Posturas aprova-
dos na última década do século XIX, em inúmeras cidades, constitui o eixo direcionador
de tais análises.
Uma terceira vertente caracteriza-se pela precedência de estudos voltados para os
efeitos, repercussões e impactos no espaço urbano com a aplicação da legislação, os quais
têm como referência a escala assumida pela expansão das cidades brasileiras mediante es-
tratégias de solução da moradia à margem da legislação: loteamentos clandestinos, corti-
ços e favelas. Nessa vertente, podem ser discriminados estudos centrados na inefetividade
da lei (Grostein, 1987; Rolnik, 1996; Nery Junior, 1998); estudos que enfatizam a rela-
ção entre a legislação e a valorização imobiliária (Souza, 1994; Somekh, 1996), e estudos
que, com uma visão panorâmica da legislação, apontam seus efeitos no processo de pla-
nejamento (Rezende,1997) e na configuração da paisagem urbana (Medina, 1997).
14 Sobre o zoneamento: No âmbito da questão da inefetividade da legislação, segundo os procedimentos ins-
Wilderode, D., 1995. “Ope-
rações interligadas: Quem tituídos de aprovação e fiscalização de loteamentos e da relação poder público/loteador,
ganha?” Anais do VI Enan- Grostein (1987) mostra que se consolida uma prática de desobediência consentida e per-
pur, Brasília, 1995; Azeve-
do, D. T., 1993, O jogo das manente anistia a situações produzidas fora das normas. Rolnik (1997) entende a inefi-
Interligadas, Dissertação de
Mestrado, São Paulo, FGV;
cácia da legislação em regular a produção da cidade como a verdadeira fonte de seu suces-
Wakisaka, T., 1990. Zonea- so político, financeiro e cultural, num contexto urbano de concentração de riqueza e
mento de uso, ocupação do
solo e produção do espaço
poder. A lei age, segundo a autora, como delimitadora das fronteiras do poder, conferin-
urbano em São Paulo, Dis- do significados e gerando noções de civilidade e cidadania, mesmo quando não é capaz
sertação de Mestrado, São
Paulo, FAU/USP; entre ou- de determinar a forma final da cidade. A relação entre legislação e valorização imobiliária
tros. Sobre instrumentos é analisada por meio do estudo do processo de verticalização, entendido como resultante
pós-Constituição de 1988:
IPPUR/UFRJ, 1994. Questão de uma estratégia de valorização de múltiplas frações do capital (Souza, 1994) e como re-
urbana, desigualdades so- sultado da multiplicação do solo urbano possibilitada pelo elevador (Somekh, 1996). Nu-
ciais e políticas públicas:
avaliação do Programa Na- ma perspectiva não-historiográfica, estudos sobre os efeitos dos instrumentos normativos
cional de Reforma Urbana,
Relatório de Pesquisa; Ribei-
vêm sendo realizados em torno de aspectos específicos da legislação, principalmente no
ro, A. C. T., 1994. “Reforma que se refere ao zoneamento e aos instrumentos pós-Constituição de 1988.14
urbana nos limites da mo-
dernização”, Espaço e De-
Esse conjunto de trabalhos representa o início de um processo de construção de uma
bates, n.37, São Paulo, história da legislação urbanística brasileira e de compreensão do papel que vem desempe-
Neru; Alfonsin, B., 1997,
“Instrumentos e experiên- nhando no desenvolvimento de algumas cidades brasileiras. De modo geral, destacam seu
cias de regularização fundiá- caráter elitista, resultante do diálogo exclusivo entre os órgãos responsáveis por sua elabo-
ria em áreas urbanas”,
Anais do VII Enanpur, Recife, ração e os setores mais poderosos da sociedade, e seu uso como instrumento de segrega-
p.1571-1579; entre outros. ção espacial. Há, por vezes, uma supervalorização do papel da legislação na conformação
do espaço urbano, o que acarreta que, por meio da legislação, se cristalizem modelos in-
15 Machado, R. et al.,
1978. Danação da norma –
terpretativos genéricos.
medicina social e constitui- As linhas dominantes permitem não só detectar recortes temporais privilegiados pe-
ção da psiquiatria no Brasil,
Rio de Janeiro, Graal; Freire
las pesquisas bem como o nível de aprofundamento da reflexão. O período da Primeira
Costa, J., 1979. Ordem mé- República, no que se refere à perspectiva higienista de controle do espaço urbano, é o
dica e norma familiar, Rio
de Janeiro, Graal; Sevcen- mais profundamente estudado e desvendado. Uma explicação plausível para tal predo-
ko, N., 1984. A revolta da minância é o fato de a questão higienista ter sido amplamente estudada por diferentes
vacina, São Paulo, Brasilien-
se; Costa, N. do R., 1987. disciplinas e o papel da legislação, claramente situado no campo de um projeto político
“A Questão sanitária e a ci- e social.15 Nesse sentido, os trabalhos ultrapassam a identificação das leis e penetram nos
dade”, Espaço e Debates,
n.22, p.24; Chaloub, S., modelos habitacionais resultantes do ideário higienista, no qual a norma é apenas um
1996. A cidade febril, São
Paulo, Companhia das Le-
dos instrumentos de concretização (Rolnik, 1983; Lira, 1991), nas instituições criadas
tras; entre outros. para a gestão dos territórios e nos procedimentos de aplicação das normas, seja na esfe-

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S A R A H F E L D M A N

ra da habitação operária, com a Inspectoria de Hygiene de Pernambuco (Lira, 1991), se-


ja na esfera dos territórios de prostituição, com a Delegacia de Costumes, em São Paulo
(Feldman, 1987).
A legislação desse período, embora envolva questões espaciais, não contém um cla-
ro conteúdo urbanístico, e estabelece-se como legislação sanitária. Para os períodos pos-
teriores, quando se constitui uma legislação urbanística stricto sensu, a lógica de constru-
ção – dos conceitos às instituições e processos de elaboração e aprovação – ainda se
mantém como um campo pouco explorado. Uma vertente emergente de pesquisa vem
atuando na perspectiva de desvendar os processos de construção de instrumentos urbanís-
ticos, e não apenas seus efeitos, mediante a análise das referências urbanísticas neles con-
tidas e dos setores e instituições envolvidos em sua formulação e aplicação, na esfera do
Executivo e do Legislativo. (Souza, 1994; Grostein, 1987; Feldman, 1996, 1997, 1998;
Campos, 1996, 1998). No entanto, a produção é fragmentada, com recortes temporais e
espaciais restritos, além de se deter em aspectos específicos da legislação. De fato, há uma
concentração de trabalhos sobre São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, o que, como nos de-
mais estudos de história urbana, não permite delinear um panorama abrangente da ques-
tão, nem discriminar particularidades regionais.

O LUGAR DA LEGISLAÇÃO
NO URBANISMO BRASILEIRO

Uma das questões fundamentais que permanecem pouco elaboradas na historiogra-


fia da legislação urbanística no Brasil se refere ao lugar ocupado pelas normas, a partir do
momento em que idéias e práticas urbanísticas são institucionalizadas na administração
pública. Uma hipótese que levantamos é a de que, a partir dos anos 40, se consolida uma
visão legalista do urbanismo brasileiro. Ao processo de declínio da importância do plano
como instrumento de intervenção no espaço urbano corresponde a ascensão da legislação
como instrumento por excelência do planejamento. Como mostramos em pesquisa reali-
zada sobre a cidade de São Paulo, no final da década de 1940, inicia-se um processo em que
o zoneamento passa a ocupar o lugar do plano e, em pesquisa em desenvolvimento, pode-
mos avaliar essa mudança em escala nacional, e não apenas nos grandes centros urbanos.
Tal processo não é fortuito, e dá-se como parte da introdução, no Brasil, de novos
princípios de administração pública, desde os anos 30, numa perspectiva da administra-
ção desvinculada da política e do planejamento como técnicas de administração, basea-
dos na teoria administrativa americana da Scientific Management School. Num estudo so-
bre a reforma do serviço civil no Brasil, no período de 1945 a 1964, Graham (1968)
mostra que a introdução dessa abordagem na administração pública no período anterior
a 1930 articula-se a uma tradição legalista brasileira, originária dos vínculos com os prin-
cípios administrativos da França e Portugal, herdados, por sua vez, da tradição romana.
A visão legalista consiste no enfoque da lei como uma meta em si, e não como um
instrumento, entre outros, para se atingir metas, o que leva à preferência por leis anteci-
patórias em lugar da experimentação, e à crença de que nada pode ser assumido sem pré-
via legislação ou regulação. A ênfase na lei é, segundo Graham, vista como um ideal, ao
invés de algo a ser aplicado a circunstâncias presentes com o máximo de precisão. Para o
autor, uma expressão da experiência legal no Brasil é a ênfase e valorização da codifica-
ção das leis.

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Os trabalhos de Reis Filho (1968) e Delson (1979) apontam o rigor no estabelecimen-


to de padrões para a construção de cidades, no Brasil, pelos portugueses, desde o século
XVIII, mas em que medida a visão legalista se introduz desde as primeiras regulamentações
do solo urbano e os matizes que assume ao longo dos séculos XIX e XX representam um cam-
po a ser investigado. O simples arrolamento das leis promulgadas não revela o processo, uma
vez que a legislação urbanística é parte de um aparato que constitui o sistema legal (ou Es-
tado legal), variável de país a país, e que repercute nas abordagens de urbanismo e planeja-
mento urbano. O sistema legal não é apenas um conjunto de normas, mas parte constituin-
te do Estado. Portanto o “Estado legal” é a parte do Estado personificada num sistema legal,
que penetra e estrutura a sociedade, fornecendo um elemento básico de previsibilidade e es-
tabilidade às relações sociais, e pressupõe não apenas a promulgação de leis, mas formas de
16 O’Donnell, 1998. aplicação, caráter público, independência do judiciário etc.16 Talvez se pudesse admitir, nu-
ma perspectiva braudeliana, que o sistema legal constitui um elemento de longa duração.
A legislação urbanística é, portanto, parte de um determinado sistema legal e de um
determinado modelo de gestão que se apóiam em determinada teoria administrativa. Pa-
ra se entender o papel que a legislação urbanística assume em cada momento do proces-
so de desenvolvimento urbano no Brasil, é necessário desvendar a lógica do sistema legal
vigente, assim como as teorias administrativas que informam as estratégias de gestão. É
necessário, também, resgatar as instituições que, em cada momento, participaram da for-
mulação e/ou assumiram as funções de aplicação e fiscalização das normas urbanísticas.
Por fim, é necessário desvendar os procedimentos adotados, considerando que teorias ad-
ministrativas engendram modelos institucionais que originam práticas que, por sua vez,
se articulam a práticas herdadas de outros momentos. Do ponto de vista das instituições,
da organização e dos procedimentos adotados na implementação das leis, alguns traba-
lhos oferecem uma contribuição relevante, uma vez que utilizam como fontes de pesqui-
sa processos de aprovação das próprias leis, de loteamentos e de edificações (Grostein,
1987; Feldman, 1989, 1996; Simões, 1990; Lira, 1991). Tais fontes de pesquisa permi-
tem, por meio de uma leitura menos genérica, entender a legislação como um processo
não-linear, mas como o resultado de embates técnicos e políticos e, ao mesmo tempo, des-
vendar que relação se estabelece entre cidadão e Estado.
O estudo sistemático das instituições que compõem o sistema legal e os respectivos
procedimentos são um caminho, também, para se desvendar o avesso da visão legalista
brasileira – a inefetividade das leis –, em cada momento. Se admitirmos que a lei, “em seu
conteúdo e em sua aplicação, é basicamente (como é o Estado do qual ela faz parte) uma
condensação dinâmica de relações de poder, não apenas uma técnica racionalizada para
17 O’Donnell, op.cit., p.54. ordenar as relações sociais”,17 instituições e procedimentos engendram, em cada momen-
to, diferentes conceitos de controle. Assim, a legislação urbanística, como parte do siste-
ma legal de uma sociedade capitalista enquanto tal, estrutura e garante relações espaciais
que são intrinsicamente desiguais, mas os limites entre o legal e o ilegal variam no tem-
po. São socialmente construídos.

O LUGAR DOS PRESSUPOSTOS


MODERNISTAS NA LEGISLAÇÃO URBANÍSTICA

Um dos aspectos privilegiados nos trabalhos de história urbana produzidos a partir


dos anos 80 vem sendo a influência das referências internacionais nas idéias e práticas ur-

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banísticas desenvolvidas no Brasil. De modo geral, esses trabalhos vêm mostrando que,
na concepção dos planos elaborados até 1930, dos quais uma parcela significativa – entre
planos de melhoramentos, de embelezamento e de conjunto – chegou a ser executada,
prevaleceu a influência européia. Os anos 30 aparecem como um momento de transição,
em que as influências européias começam a mesclar-se a princípios do urbanismo ameri-
cano, por meio das parkways, zoneamento, e das versões americanas das cidades-jardins
de Howard, como o princípio das unidades de vizinhança de Radburn. Nas experiên-
cias de cidade novas, a partir dos anos 30, começam a ser introduzidos princípios moder-
nistas, que se realizam de forma acabada em Brasília.
Se nos planos as referências internacionais são facilmente demarcadas, seja pelos tra-
çados propostos, seja por explicitações de seus autores em relatórios, textos, memoriais, o
mesmo não ocorre em relação à legislação. A legislação é cumulativa. Novas formas de con-
trole com as mais diversas referências são constantemente incorporadas, como peças legais
parciais, artigos, num processo contínuo de reformulações, exclusões e acréscimos, que não
alteram, necessariamente, nem o sistema legal, nem as instituições e seus procedimentos.
Os estudos mostram que os padrões reguladores portugueses se estabeleceram nas
cidades e vilas do Brasil Colônia, e a legislação sanitária do urbanismo higienista de fi-
nais do século XIX utiliza as referências inglesas e francesas. As normas de controle de ali-
nhamento e nivelamento das vias, assim como a localização de atividades consideradas
nocivas ao meio urbano, as condições de higiene e salubridade das edificações e do espa-
ço público, utilizando princípios de controle e disciplina formulados nas cidades euro-
péias, são consolidadas nos chamados Códigos de Posturas Municipais, tornados obriga-
tórios no final do século XIX. A partir do término dos anos 20, nos chamados Códigos
de Obras, permanecem os princípios higienistas europeus, e são identificados princípios
da legislação americana, como é o caso, em São Paulo, dos padrões de arranha-céus. A
partir dos anos 30, a referência americana se impõe, principalmente na adoção do zonea-
mento, o qual é incorporado à totalidade da cidade nos Códigos de Obras do Recife, em
1936, e do Rio de Janeiro, em 1937, e em leis parciais em São Paulo, a partir de 1931.18 18 Sobre a influência ame-
ricana na legislação em São
A partir dos anos 30, passam a ser incorporados, também, princípios elaborados no âm- Paulo, ver Feldman, S., 1997.
bito do movimento moderno.
Podem-se identificar três correntes do pensamento urbanístico, entre as que são re-
ferência para o urbanismo no Brasil, que formulam concepções de legislação: o urbanis-
mo higienista, que estabelece uma legislação sanitária; o urbanismo americano dos anos
20, que reelabora o zoneamento alemão; e o movimento modernista, que se contrapõe à
legislação de princípios higienistas vigente na Europa dos anos 20. Segundo Ebenezer
Howard, embora princípios reguladores estejam implícitos na proposta espacial de
cidades-jardins, não chegam a propor uma concepção de lei.
As leis sanitárias e o zoneamento americano vêm recebendo a atenção da maioria dos
pesquisadores voltados para a historiografia da legislação urbanística no Brasil (Rolnik,
1983; Lira, 1991; Souza, 1994; Feldman, 1996; Somekh, 1997; Nery Junior, 1998; Ma-
rins, 1998), e as formas como tais referências foram e são absorvidas pela legislação urba-
nística brasileira estão sendo desvendadas. Em relação às propostas modernistas, o único
documento que vem sendo utilizado como referência é a Carta de Atenas, fundamental-
mente no que se refere ao zoneamento funcional.
A análise dos textos produzidos pelos arquitetos vinculados ao movimento moder-
nista no âmbito dos CIAMs (Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna) revela
que a legislação é colocada como um aspecto fundamental, e suas propostas nesse campo

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 41


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vão muito além do zoneamento funcional e da Carta de Atenas. Os arquitetos desenvol-


veram uma verdadeira concepção de legislação urbanística que tem como eixo principal
o questionamento, em múltiplos aspectos, do sistema regulador do urbanismo higienista.
A referência à legislação vigente nos anos 20, notadamente na França e na Alemanha, co-
mo entrave ao “desenvolvimento da arquitetura”, segundo os pressupostos do movimen-
to moderno – soluções para o espaço mínimo para viver, com uma boa iluminação, com
plantas livres e flexíveis, com disponibilidade de espaço exterior livre com a construção
verticalizada, e viabilizar a produção em série, a “standardização”, a racionalização e a eco-
nomia, que implicam a utilização de novos materiais e novos métodos de construção – é
recorrente nos textos.
Os arquitetos vinculados ao movimento modernista apontam, antes de mais nada, a
necessidade de se distinguir dois níveis da legislação: o nível urbanístico, que deve tratar
dos limites do indivíduo frente à comunidade e dos indivíduos entre si, e o nível da cons-
trução e da habitabilidade, que deve assegurar certo grau de qualidade aos edifícios. É no
III CIAM, realizado em 1930, em Bruxelas, que se explicita com maior clareza a relação pre-
tendida entre arquitetura e urbanismo. Corbusier propõe que se formulem, juntamente
com o sistema urbano adequado à época maquinista, novas leis que devem conter o re-
membramento de terrenos – “verdadeira revolução na noção sagrada de propriedade”, a
fim de garantir a melhoria do alcance coletivo, as construções em altura reunidas sobre
pequena superfície edificada, enormes espaços livres, supressão de pátios e corredores,
construções sobre pilotis, e tetos-jardins. Gropius propõe que, ao invés do limite de altu-
ra dos edifícios, se utilize o limite da densidade populacional, ou seja, propõe que se re-
gule a relação entre superfície de moradia/volume edificável/superfície edificável, argu-
mentando que as condições higiênicas e econômicas se tornam mais vantajosas.
É importante destacar que a crítica ao controle de altura envolve aspectos econômi-
co-distributivos (otimização possível por meio de construções laminares), aspectos técni-
cos (viabilidade de utilização de estruturas em aço ou concreto armado) e, ainda, aspec-
tos formais. Em relação a estes últimos, preconiza a simultaneidade de diferentes
tipologias habitacionais em um único complexo edificado, integrado, por sua vez, a ser-
viços ligados à moradia. Nesse sentido, propõe a identificação entre a tipologia da mora-
dia e a tipologia do edifício, o que permitiria a concretização de volumetrias diferencia-
das ou repetidas num mesmo conjunto.
Em segundo lugar, destaca a necessidade de a regulamentação assegurar a responsa-
bilidade técnica e social dos produtores das moradias, como também abarcar a res-
ponsabilidade da economia do produto. Nesse sentido, as leis devem considerar as inova-
ções nos métodos construtivos, nos conhecimentos higiênicos, nas novas formas de vida
propostas pelos arquitetos, sem ignorar as circunstâncias econômicas.
Em terceiro, aponta para a necessidade de flexibilidade da legislação e preconiza a
maior participação das entidades de engenheiros e arquitetos no processo de elaboração e
aplicação das leis. Assim, excetuando-se as leis que limitam o direito de propriedade, as
normas edificatórias não deveriam passar de normas gerais e deveriam permitir a maior
liberdade possível na definição do programa da habitação, para o cumprimento das ne-
cessidades sociais e higiênicas e para a escolha de materiais e sistemas construtivos.
Em quarto, limita o papel do Estado ao controle da qualidade do produto. Com o
mercado livre e com o sistema de produção capitalista, o promotor, o construtor e o usuá-
rio podem tornar-se pessoas totalmente independentes. Então, cabe ao Estado proteger os
particulares com normas edificatórias contra a ação de especialistas não-qualificados que

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S A R A H F E L D M A N

ofereçam moradias de baixa qualidade. Caso o Estado não assuma tal postura, os arqui-
tetos colocam a alternativa da auto-ajuda, estabelecendo-se a relação direta entre o habi-
tante como usuário e o construtor como produtor. O nível de qualidade da moradia pas-
sa a ser assunto exclusivo de ambos, e a regulamentação estatal, dessa maneira, passaria a
ser supérflua, com o passar do tempo.
Finalmente, preconiza que os arquitetos contem não apenas com a ajuda de diver-
sos setores da ciência e da indústria, como também com a colaboração dos usuários, ao
invés de se guiarem apenas pelas leis. Assim, os arquitetos poderão entrar em cena como
competidores da construção especulativa de moradias e, ao mesmo tempo, poderão libe-
rar a construção de moradias dos entraves de uma regulamentação anti-social. Considera
que o padrão de moradia ideal imposto por uma visão estritamente legalista se mostrou
economicamente inviável nas circunstâncias do pós-guerra e, conseqüentemente, as ações
voltadas para a categoria de moradias mais baratas passam a efetivar-se sem que a legisla-
ção se responsabilize por elas. Para o estabelecimento de normas ideais, considera impres-
cindível que o Estado garanta também seu cumprimento econômico em todas as situa-
ções, como ocorre com outros tipos de normas.
Na Carta de Atenas, as considerações sobre a legislação como instrumento para fi-
xar as condições da habitação moderna são uma constante. Nesse documento, que reúne
grande parte do repertório da arquitetura modernista, além de incorporar soluções urba-
nísticas que já vinham sendo utilizadas em cidades européias e americanas, Corbusier
(1941) preconiza a “urgência de regulamentar, por um meio legal, a disposição de todo
solo útil para equilibrar as necessidades vitais do indivíduo em harmonia com as necessi-
dades coletivas”. Essa postura de Corbusier – inovadora em relação à legislação – já esta-
va presente em sua intervenção no III CIAM, em 1930, quando afirma que o objetivo do
Congresso, realizado em torno do tema “Métodos Construtivos Racionales. Casas Bajas,
Medias y Altas”, é chegar a uma modificação da legislação municipal em diversas cidades
do mundo. As propostas modernistas, segundo o arquiteto, não admitem uma mudança
parcial da legislação, mas exigem que se estabeleça um conjunto de novas regras, que de-
vem partir do reagrupamento do solo – “único caminho que conduz ao urbanismo” –, 19 A intervenção de Le Cor-
busier no III CIAM foi “La par-
uma vez que a propriedade subdividida, o caráter inalienável da propriedade, condena celación del suelo em las
“toda tentativa de melhorias coletivas”.19 ciudades”, In: Aymonino,
1973.
Na verdade, as propostas modernistas para a legislação podem ser interpretadas como
a proposta de um novo sistema legal, e algumas questões permanecem no debate atual so- 20 No II Congresso Interna-
cional de Arquitetura Moder-
bre a legislação urbanística no Brasil, embora não se explicite tal vínculo. Suas propostas na, realizado em Frankfurt
envolvem aspectos formais para a tradução das soluções de edifícios e para a organização am Main, em 1929, a legis-
lação foi objeto de uma das
do espaço urbano, além de questões técnicas, mas também aspectos econômicos e sociais quatro exposições que dire-
cionaram as discussões. Os
que se realizam no processo de elaboração e decisão sobre a aplicação das leis, e que pres- temas foram “Ordenanzas
supõem a redefinição das relações entre o Estado e os demais atores envolvidos na constru- edificatorias y vivienda mini-
ma”, apresentado por Hans
ção das cidades. Além disso, num evidente propósito de deslocar médicos e engenheiros Schmidt; “Los fundamentos
deste campo de atuação, o papel atribuído aos arquitetos e suas associações é destacado.20 sociológicos da la vivienda
mínima (para la población
O estudo, ainda em processo, de como esse elenco de questões relativas à regulamen- obrera de la ciudad)”, apre-
tação foi assimilado, no Brasil, pelos responsáveis pela elaboração das leis, por arquitetos sentado por Walter Gropius;
“Analisis de los elementos
e engenheiros responsáveis por projetos de cidades novas e de habitações econômicas, vem fundamentales en el proble-
demonstrando que se dá de forma bastante limitada. No âmbito dos debates em torno da ma de la vivienda mínima”,
por Le Corbusier e Pierre
legislação, a partir dos anos 30, as concepções modernistas têm repercussão significativa. Jeanneret, e “La organiza-
ción de la vivienda mínima”,
Em congressos e periódicos de entidades de arquitetos e engenheiros, a reivindicação por mu- apresentado por Victor Bour-
danças nos códigos de obras com o intuito de atenderem a um novo tempo é recorrente. geois (Aymonino, op.cit.).

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 43


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A simplificação das leis, a maleabilidade para se atender aos materiais e técnicas modernas
de construção, a incorporação de setores da sociedade para a redação das leis conjunta-
21 Destacam-se nesses mente com técnicos são questões enfocadas por engenheiros, arquitetos e urbanistas.21
debates, entre outros, o en-
genheiro Alexandre de Albu-
Nos anos 30, esboça-se na legislação de uso e ocupação do solo uma ruptura com a
querque, presidente do concepção centrada na edificação e fortemente marcada pela visão higienista que se ini-
Congresso de Habitação de
1931, e Armando de Go- cia com os Códigos de Posturas do final do século XIX. Essa ruptura se dá, fundamental-
doy, engenheiro da Direto- mente, com a introdução de elementos reguladores de abrangência urbanística e de uma
ria de Engenharia do Distri-
to Federal. visão de urbanismo que se justifica explicitamente em termos econômicos. Parte dessa
mudança se verifica com a introdução do zoneamento abrangente no conjunto da cida-
de, seguindo o modelo adotado no início do século em Nova York, e não do zoneamen-
to proposto por Le Corbusier. Este só se efetivará em 1960, com a aprovação das “Nor-
22 Decreto nº 7 de mas para Construção em Brasília”.22
12/06/1960.
Nas demais cidades brasileiras – novas ou existentes, os códigos de obras assimilarão
dos modernistas, num primeiro momento, os princípios de ocupação do lote que relacio-
nam altura de edifícios e solo livre, e, posteriormente, padrões de ocupação para grandes
conjuntos residenciais, com a definição de espaços coletivos, ruas exclusivas para pedes-
tres etc. Ambas as estratégias evoluem para um processo de gradativa mudança dos teci-
dos urbanos existentes e podem ser interpretadas como formas de reagrupamento do so-
lo. Essa é, sem dúvida, a mais significativa influência do ideário modernista que se realiza
mediante mecanismos reguladores do uso e ocupação do solo.
A análise das referências modernistas na legislação urbanística, assim como de outras
referências que formularam concepções de legislação, exigem a identificação das estraté-
gias utilizadas para as transferências. O foco da pesquisa sobre legislação unicamente no
enunciado das leis vem-se mostrando insuficiente. Tomando Brasília como exemplo, po-
de-se observar que a legislação aprovada logo após a inauguração da capital absorveu os
princípios formais das propostas modernistas, e foi, sem dúvida, formulada por arquite-
tos, uma vez que a categoria vem, há décadas, assumindo a função de legisladores, no Bra-
sil. No entanto, a peça legal de 1960 foi, assim como grande parte da legislação urbanís-
tica no Brasil, aprovada por decreto, ou seja, ocorrem mudanças que atendem aos
requisitos formais, os arquitetos conquistam um espaço como formuladores de leis, mas
tudo isso se incorpora ao sistema legal preexistente no Brasil.
O estudo da legislação sob a ótica modernista torna evidente a necessidade de se dis-
cutir a questão metodológica para interpretar as permanências e mudanças na legislação
urbanística. Um caminho possível talvez esteja na identificação dos tempos propostos por
Sarah Feldman, arquiteta, Braudel: discriminar o que permanece constante durante um tempo longo, evoluindo de
é professora do Departa-
mento de Arquitetura e Ur- maneira imperceptível; o que flutua, oscila de forma cíclica, e o que não passa de aconte-
banismo da Universidade de
São Paulo.
cimento, representando rupturas ou restabelecimento de equilíbrios. Talvez seja esse um
E-mail: sarahfel@sc.usp.br dos caminhos para se entender o passado e formular propostas para o presente.

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ABSTRACT This paper analyses recent developments in the history of Brazilian urban legis-
lation, pointing out the progress made and limits faced, as a basis for reflection in the debate
on urban development and planning practice.The analysis is divided into three parts. The first

46 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001


S A R A H F E L D M A N

relates the dissemination of urban historical research in Brazil to the expansion of the field of
history which began in the 1960s with the "New History" movement in Europe and the Uni-
ted States. The second part sets out the dominant and emerging approaches to urban legisla-
tion. Finally, there is a discussion of two aspects that are seen as gaps in the history of urban
legislation: the role of norms, as the ideas and practices of urban planning become institutio-
nalised within public administration, and the influences of modernist ideas on Brazilian ur-
ban legislation, taking into account that the modern movement proposes a new legal system for
urban planning.

KEYWORDS Urban legislation; history; modernist movement.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 47


REFLEXÕES SOBRE
A HIPERPERIFERIA:
NOVAS E VELHAS FACES DA POBREZA NO ENTORNO MUNICIPAL

HAROLDO DA GAMA TORRES


EDUARDO CESAR MARQUES

R E S U M O O objetivo do trabalho é apresentar os principais resultados analíticos de


uma aplicação de Sistemas de Informação Geográfica ao planejamento urbano. O trabalho
centra-se na apresentação de diversas cartografias exploratórias relacionadas a variáveis demo-
gráficas, de risco urbano e de acesso a políticas públicas. Os resultados apontam para a super-
posição, em determinados setores censitários do município, de condições de extrema pobreza e
risco urbanos, indicando a presença de fortes efeitos cumulativos de riscos urbanos e precarie-
dade socioeconômica. Essa cumulatividade parece ser mais grave do que a indicada pela lite-
ratura: identificamos uma periferia mais heterogênea do que se considera comumente, incluin-
do espaços bem servidos e inseridos na malha urbana, e outros cuja população está submetida
a condições talvez mais adversas do que a das periferias das décadas passadas.

P A L A V R A S - C H A V E Espaço urbano; condições de vida; periferia; população


e meio ambiente; risco ambiental; segregação socioespacial.

INTRODUÇÃO

Este trabalho apresenta os resultados de um projeto desenvolvido pelo Cebrap para


a Secretaria de Planejamento e Meio Ambiente da Prefeitura de Mauá. O projeto tinha
por objetivo elaborar aplicações de geoprocessamento, a partir de cartografias existentes
naquela Secretaria e outras construídas pelo Cebrap. O presente artigo utiliza os resulta-
dos de três estudos desenvolvidos para descrever os diferenciais de condições de vida em
um município periférico da Região Metropolitana de São Paulo – Mauá, assim como le-
vantar algumas hipóteses em relação aos novos conteúdos sociais das periferias metropo-
litanas brasileiras nos dias de hoje.
1 Embora a literatura seja
Os espaços periféricos metropolitanos foram tratados, ao longo das décadas de 1970 e muito vasta e diversificada,
1980, como regiões habitadas por população operária, inserida muito precariamente na estru- servem como exemplo: Bon-
duki & Rolnik (1982), Chin-
tura de renda e ocupações, que autoconstruía suas casas em terrenos ocupados ou localizados nelli (1980), Lima (1980),
em loteamentos clandestinos/irregulares, tinha acesso muito difícil a equipamentos e servi- Maricato (1982), Santos
(1975, 1982 e 1985).
ços urbanos e tendia a gastar uma parte significativa de seu tempo livre em longas viagens em
transportes públicos de má qualidade.1 Essas condições seriam responsáveis pelas insuficientes 2 Novamente as referências
são inúmeras e nem sempre
(difíceis) condições de vida e saúde encontradas nas periferias metropolitanas naquele momen- compatíveis. Entre elas in-
to. O diagnóstico dessa situação foi o ponto de partida de uma ampla e diversificada litera- cluem-se trabalhos como os
de Kowarick (1979), Moy-
tura que enfocou desde a construção das identidades sociais dos bairros de baixa renda e suas sés (1982), Jacobi (1989),
Santos & Bronstein (1978),
formas de organização e ação coletivas, até estudos de cunho mais analítico, que tentaram Santos (1980) e Brasileiro
determinar as formas características de produção das metrópoles brasileiras e suas periferias.2 (1976).

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 49


R E F L E X Õ E S S O B R E A H I P E R P E R I F E R I A

A publicação dos indicadores sociais referentes ao Censo de 1991 produziu intenso


debate, uma vez que esses indicadores mostravam uma substancial melhoria nas condi-
ções de vida metropolitana e entravam em flagrante contradição com a caracterização da
3 Faria (1992), Guimarães & década de 1980 como a “década perdida” dos indicadores sociais e econômicos.3 A partir
Tavares (1994), Silva (1992),
Torres (1997a). Em parte,
de então, inúmeros estudos têm demonstrado a existência de significativos investimentos
esses resultados já eram in- públicos em casos específicos nas áreas metropolitanas brasileiras, assim como a realiza-
dicados por estudos anterio-
res, como Simões & Ortiz ção de programas e ações governamentais orientados para os espaços periféricos.4 Outros
(1988) e mesmo antes, estudos têm demonstrado os impactos do aumento da presença do Estado no urbano, não
Monteiro (1982).
apenas sobre as condições de vida e saúde até das regiões mais precárias (Marques & Na-
4 No caso da infra-estrutura jar, 1995), como também sobre as práticas da população de baixa renda atendida por pro-
urbana, ver Watson (1992),
Bueno (2000), Marques gramas específicos (D’Alessandro, 1999). Essa nova realidade demonstra a necessidade de
(1996, 1998, 2000) e Mar-
ques & Bichir (2001), entre
se construir um novo quadro conceitual para a análise das condições de pobreza urbana
outros. e metropolitana, assim como da conformação de formas de segregação socioespacial nas
5 Como realizado por Vetter
principais metrópoles brasileiras diferentes daquelas já descritas pela literatura.5 São diver-
(1975 e 1981), Vetter & sas as questões analíticas a enfrentar, mas entre elas se destaca a importância de precisar,
Massena (1981), Vetter et
al. (1979; 1981). São raros nessa nova realidade, qual a importância das periferias como recorte analítico ou, coloca-
os estudos recentes que se do de outra forma, quais os conteúdos sociais dos espaços periféricos, hoje, e como eles
têm colocado essa tarefa,
entre eles podemos citar Na- se articulam com os descritos anteriormente.
jar (1998) e Torres (1997b). Não é, nem de longe, o objetivo deste artigo dar conta dessa questão. Acreditamos
que esse tema constitui uma agenda de pesquisa, que apenas poderá ser devidamente tra-
tada se for assumida como tarefa intelectual (e talvez política) coletiva, como ocorreu an-
teriormente com as “periferias da espoliação urbana”. Porém, acreditamos poder contri-
buir para esse debate ao demonstrar a continuidade da presença de significativos
diferenciais de condições de vida na periferia da região metropolitana mais importante do
País. Os investimentos realizados nas últimas décadas elevaram as condições médias da
infra-estrutura das periferias, reduzindo em muitos casos os diferenciais entre elas e as re-
giões habitadas pelas camadas mais ricas da população. Essa expansão tornou a compreen-
são do fenômeno da segregação espacial na cidade menos dependente da presença ou au-
sência de equipamentos e serviços, e mais associada à qualidade, à freqüência e aos
padrões de atendimento diferenciados entre as diversas regiões.
Os resultados do presente estudo contribuem exatamente nesse ponto, demonstran-
do empiricamente a presença, nos dias de hoje, de importantes diferenciais de vida e aten-
dimento por serviços, que se superpõem de maneira perversa às condições de fragilização
social e urbana, reforçando cumulativamente os riscos a que está submetida a população
de baixa renda. Em alguns casos, essas condições são ainda mais graves do que as indica-
das pela Sociologia urbana, sugerindo que as periferias metropolitanas hoje seriam ainda
mais heterogênenas do que são comumente consideradas, incluindo espaços já bem ser-
vidos e inseridos na malha urbana, e outros cuja população está submetida cotidianamen-
te a condições ainda mais adversas do que as vivenciadas nas décadas de 1970 e 1980. A
lei das médias esconderia, sob padrões de atendimento muito melhorados, extrema pau-
perização, péssimas condições sociais e exposição cumulativa a diversos tipos de risco. Tal
conjunto de questões nos levaria a levantar a hipótese da existência de uma espécie de hi-
perperiferia espalhada entre as periferias crescentemente integradas em termos urbanos.
Assim, longe de esgotar a questão, o estudo reafirma a relevância da análise das con-
dições de vida na periferia, embora indique a necessidade da construção de um novo ar-
cabouço conceitual, bem como um novo conjunto de técnicas e indicadores. As poten-
cialidades dos sistemas de informação geográfica, nesse sentido, são óbvias e promissoras.

50 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001


H A RO L D O D A G . TO R R E S , E D U A R D O C . M A RQ U E S

Este trabalho é composto por quatro partes, além desta introdução e da conclusão.
Na próxima seção, apresentamos algumas questões metodológicas relativas ao estudo. Na
terceira parte, descrevemos e discutimos a distribuição dos riscos ambientais no municí-
pio, enfocando duas questões: áreas inundáveis e regiões de alta declividade. A seguir,
discutimos os diferenciais de atendimento em um dos principais equipamentos urbanos,
assim como o que podemos esperar da dinâmica dessa situação nos próximos anos. Por
fim, fechamos o artigo resumindo os principais pontos levantados e apresentando nos-
sas conclusões.

METODOLOGIA

Inicialmente, realizamos a compatibilização das cartografias básicas do município de


Mauá existentes na prefeitura, com o objetivo de integrá-las a um sistema de informações
geográficas. A primeira cartografia dizia respeito à organização das bases de dados dos se-
tores censitários. O município de Mauá já dispunha de um notável acervo de bases de
dados em formato eletrônico, incluindo uma primeira versão desse mapa de setores e do
mapa de quadras, o que facilitou significativamente os trabalhos realizados.
A lógica geral da tarefa que se seguiu foi a de examinar o perfil socioeconômico das
áreas portadoras de problemas ambientais (localizadas ao longo de áreas de inundação, su-
jeitas a deslizamentos, abastecidas por boosters etc). Para tanto, foram usados alguns recur-
sos disponíveis nos Sistemas de Informação Geográfica, destacando:
• a representação das áreas de risco ambiental mediante faixas definidas por critérios ar-
bitrários. Por exemplo, definimos como área de risco de inundações uma faixa de 150 m
em torno dos trechos do sistema viário sujeitos a inundação. Apesar de esse critério ser
arbitrário, por meio dele estamos propondo uma estratégia de definição de área de ris-
co, onde tal tipo de critério de grau de risco possa ser definido diretamente pelo poder
público e pelas populações das áreas afetadas;
• após a construção desses novos layers relativos a áreas de risco, lançamos mão do re-
curso de sobreposição de cartografias (overlayer). Esse recurso permite atribuir às no-
vas áreas dados dos setores censitários que lhe são superpostos. Semelhante procedi-
mento implica atribuir, por exemplo, a população de um determinado setor a uma
determinada área de inundação à proporção que a área do setor participa da área de
inundação. A principal vantagem de tal procedimento é a caracterização precisa das
áreas sujeitas a risco. A principal desvantagem advém da possibilidade de erro na esti-
mativa populacional derivada de perfis heterogêneos de distribuição espacial da popu-
lação dentro daquele setor. Considerando a pequena dimensão dos setores censitários,
entretanto, podemos prever erros bastante reduzidos no conjunto das análises;
• a seleção dos setores censitários que estavam em contato (“that touch or contain”, se-
gundo a linguagem do software utilizado) com as ocorrências de risco consideradas
(proximidade de cursos d’água, áreas sujeitas a inundação, alta declividade etc.). Tal
procedimento tem a vantagem de ser bastante intuitivo, bem como manter inaltera-
do o recorte dos setores censitários. Sua desvantagem é incluir na categoria de risco
toda a população do setor censitário, mesmo que ela esteja no extremo oposto ao lo-
cal da ocorrência. Conceitualmente, o procedimento é indicado para o tratamento de
riscos distribuídos por áreas territoriais significativas, assim como para unidades es-
paciais reduzidas.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 51


R E F L E X Õ E S S O B R E A H I P E R P E R I F E R I A

Por meio desses procedimentos, podemos não apenas visualizar graficamente a su-
perposição de diversos fenômenos em mapas, mas estimar quantitativamente as popula-
ções submetidas a cada tipo de situação urbana, bem como as suas características sociais
e econômicas. Entendemos que, embora simplificados, os procedimentos adotados per-
mitiram uma visão bastante abrangente dos padrões espaciais das áreas com grande acú-
mulo de problemas socioambientais, como as favelas, por exemplo. Buscamos tratar tal ti-
po de área de modo especial, de maneira a evidenciar sua especificidade e os principais
padrões de segregação nela existentes. Para tanto, utilizamos a classificação dos setores de
habitação subnormal do Censo de 1991 e da Contagem Populacional de 1996, ambos do
IBGE, única fonte existente compatível com as demais informações utilizadas no estudo.

ANÁLISE DO RISCO AMBIENTAL

A hiperperiferia pode ser caracterizada, de modo preliminar, por aquelas áreas de


periferia que, ao lado das características mais típicas destes locais – pior acesso à infra-
estrutura, menor renda da população, maiores percursos para o trabalho, etc. –, apresen-
tam condições adicionais de exclusão urbana. Assim, o estudo das áreas de risco ambien-
tal podem ter um sentido estratégico: evidencia de modo dramático, em alguns casos, a
sobreposição cumulativa dos ricos ambientais a diversas formas de desigualdades sociais
e residenciais.
Para caracterizar semelhantes desigualdades, buscamos a comparação das condições
socioeconômicas das áreas de risco e não-risco, definidas segundo um sistema de informa-
ções geográficas. Nessa comparação, utilizamos variáveis censitárias clássicas, tais como
renda, escolaridade, condições do domicílio, origem migratória, estrutura etária etc. De-
talhamos esses elementos a seguir.

RISCO POR OCUPAÇÃO DE ÁREAS INUNDÁVEIS

No Mapa 1, apresentamos os locais submetidos à ocorrência constante de inun-


dações, assim como delimitamos as regiões contíguas a essas a uma distância de 150 m.
Essa cartografia foi obtida por meio do método descrito na seção anterior: a construção
de uma overlayer e a definição de um conjunto de variáveis socioeconômicas para a área
construída exclusivamente a partir da proximidade das áreas de inundação.
Como se pode observar, as principais áreas de inundação localizam-se entre o Cen-
tro e o Norte do município, ocupando em grande parte a região ao longo do sistema hí-
drico de grande porte existente no local. Essa região acompanha o córrego Corumbé,
desde perto de sua nascente, junto ao complexo de setores subnormais localizados ao
Norte do município (favela do Macuco), até o seu ponto de desagüe no rio Tamandua-
teí, um dos principais da Região Metropolitana de São Paulo. Trata-se de uma área bas-
6 No Mapa 2 apresentamos
tante acidentada em termos topográficos, com os cursos d’água correndo em vales estrei-
dados relativos à topografia. tos, facilmente inundáveis.6

52 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001


H A RO L D O D A G . TO R R E S , E D U A R D O C . M A RQ U E S

Mapa 1 – Trechos do sistema viário atingidos com freqüência por inundações.

Fonte: IBGE, Prefeitura do Município de Mauá, SP.

Ao longo desse curso d’água e a montante desse local, observam-se alguns outros
pontos sujeitos ao mesmo tipo de problema. A Oeste dessas áreas, existe uma outra região
de freqüentes problemas, localizada no rio Tamanduateí, a jusante, próxima ao complexo
das favelas do Oratório (em formato de losango, junto à área Centro-Oeste do municí-
pio). Três outros pontos isolados também apresentam problemas, no rio Tamanduateí, a
jusante, e no Sul do município, no córrego da Serraria, a Oeste, e no córrego Capitão
João, ao Centro.
De fato, observa-se no Mapa 1 a superposição de áreas de inundação com trechos de
áreas subnormais (favelas). Como podemos observar, os núcleos favelados no complexo
do Macuco (ao Norte) são quase todos contíguos às áreas inundáveis. No complexo do
Oratório (no Centro-Oeste do município), a maior parte das favelas não se localiza na
área de influência de pontos de inundação, embora eles também aí ocorram. Como am-
bas as favelas estão localizadas em áreas de alta declividade, as áreas inundáveis correspon-
dem aos trechos mais baixos. A rigor, a proporção de domicílios subnormais em áreas
inundáveis (20,9%) é superior à média municipal (15,0%), indicando que a população
favelada está mais sujeita a esse tipo de risco (Tabela 1).

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 53


R E F L E X Õ E S S O B R E A H I P E R P E R I F E R I A

Tabela 1 – Informações sociodemográficas dos setores censitários, localização em relação


à área de inundação, Mauá, 1991-1996.
Variável Valores absolutos Valores relativos
Áreas Áreas Áreas Áreas
inundáveis não-inundáveis inundáveis não-inundáveis
1991 1996 Taxa 1991 1996 Taxa 1991 1996 1991 1996
População total 28.419 32752 2,88 266.579 310.105 3,07 - 100 100 100
0 a 4 anos 3.439 3472 0,19 29.987 31.725 1,13 12,10 10,60 11,25 10,23
5 a 14 anos 6.746 7271 1,51 62.071 66.078 1,26 23,74 22,20 23,28 21,31
15 a 59 anos 17.218 20472 3,52 163.870 196.014 3,65 60,59 62,51 61,47 63,21
60 anos e mais 1.174 1456 4,41 11.863 14.925 4,70 4,13 4,45 4,45 4,81
Chefes (*) 6.860 8243 3,74 64.563 78.322 3,94 100 100 100 100
Sem instrução ou
< 1 ano de estudo 1.107 839 -5,40 8.699 7.231 -3,63 16,14 10,18 13,47 9,23

1-3 anos de estudo 1.165 1454 4,53 11.247 13.233 3,31 16,98 17,64 17,42 16,90
4-7 a. de estudo 3.197 3768 3,34 29.515 35.245 3,61 46,61 45,72 45,71 45,00
8-10 a. de estudo 919 1435 9,32 9.319 13.412 7,55 13,40 17,41 14,43 17,12
11-14 a. de estudo 405 632 9,30 4.638 7.489 10,06 5,90 7,66 7,18 9,56
15 e + a. de estudo 66 115 11,7 1.146 1.712 8,36 0,96 1,39 1,78 2,19
Chefe não residente
em 1991 774 - - 7.652 - - 100 - 100

Origem Reg. Norte 15 - - 120 - - 1,95 - 1,57


Nordeste 272 - - 2.463 - - 35,09 - 32,18
Sudeste (fora SP) 33 - - 377 - - 4,28 - 4,93
Est. São Paulo 431 - - 4.332 - - 55,68 - 56,61
Sul e Centro-Oeste 20 - - 301 - - 2,63 - 3,93
Exterior 1 - - 19 - - 0,16 - 0,25
Domicílios 6.933 8259 3,56 65.192 78.593 3,81 100 100 100 100
Domicílio
subnormal 1.211 1723 7,31 7.721 11.276 7,87 17,47 20,86 11,84 14,35

Casa de cômodos 12 - - 164 - - 0,17 - 0,25 -


Água rede geral 6.456 - - 61.349 - - 93,11 - 94,11 -
Esgoto rede geral 4.113 - - 43.782 - - 59,33 - 67,16 -
Domicílio próprio 4.629 - - 44.043 - - 66,77 - 67,56 -
Domicílio alugado 1.470 - - 13.488 - - 21,20 - 20,69 -
Domicílio cedido 726 - - 6.626 - - 10,47 - 10,16 -
Outro domicílio 35 - - 406 - - 0,51 - 0,62 -
Lixo coletado 6.276 - - 60.734 - - 90,52 - 93,16 -
Lixo em curso d’água 3.76 - - 1.009 - - 5,43 - 1,55 -
Chefe renda 0-2 sm 1.874 - - 16.712 - - 27,03 - 25,64 -
Ch. renda 2-5 sm 2.919 - - 27.219 - - 42,10 - 41,75 -
Ch. renda 5-10 sm 1.195 - - 12.803 - - 17,24 - 19,64 -
Ch. renda 10-20sm 214 - - 2.949 - - 3,09 - 4,52 -
Ch. 20 sm e + 31 - - 492 - - 0,44 - 0,76 -
Sem rendimento 578 - - 4.133 - - 8,33 - 6,34 -
Sem declaração 20 - - 284 - - 0,28 - 0,44 -

Fonte: IBGE, 1991 e 1996, e Prefeitura do Município de Mauá.


Notas: (*) Inclui apenas os chefes para os quais existe informação sobre educação.

54 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001


H A RO L D O D A G . TO R R E S , E D U A R D O C . M A RQ U E S

As áreas inundáveis correspondiam ao local de moradia de cerca de 33 mil habitan-


tes, em 1996. De forma geral, a população habitante das áreas sujeitas a inundações fre-
qüentes tem uma estrutura etária similar à do restante do município. O perfil migratório
dos chefes também não apresenta diferenças em relação ao do conjunto do município. So-
bre a instrução dos chefes de famílias nessa condição, podemos dizer que as áreas inundá-
veis tinham uma proporção levemente mais alta de indivíduos com baixíssima escola-
ridade, em relação às áreas não-inundáveis, tanto em 1991 quanto em 1996, embora a
taxa de crescimento da instrução dessa faixa de chefes tenha sido menor do que a do
restante do município no período intercensitário.
Em outras palavras, ao contrário do que foi apontado por outros estudos relativos à
Zona Leste da cidade de São Paulo (Torres, 1997b), podemos dizer que as áreas sujeitas
a risco de inundação abrigam uma população bastante similar à do restante do município
de Mauá. A proporção de favelados nessa condição é superior à do conjunto do municí-
pio, mas a similaridade dos indicadores socioeconômicos leva a crer que se trata, em sua
maioria, dos grupos sociais de melhores condições sociais, entre os favelados. O mesmo
não se aplica às áreas de alta declividade.

RISCO POR OCUPAÇÃO DE ÁREAS DE ALTA DECLIVIDADE

O município de Mauá apresenta uma expressiva área de seu território com alta de-
clividade. Consideramos como definição de área de altas as declividades iguais ou supe-
riores a 50%. Essas áreas apresentam condições extremas de inadequação da ocupação,
visto que, segundo a Lei federal 6.766/79, que regulamentava o parcelamento do solo até
período bastante recente, declividades superiores a 35% só poderiam ser permitidas em
condições excepcionais. Utilizamos a delimitação de tais áreas como uma primeira apro-
ximação às áreas potenciais de risco de encosta. A delimitação mais precisa das áreas de
risco de deslizamento com objetivos normativos dependeria da confirmação e do apro-
fundamento dos resultados apresentados aqui por meio de laudos geotécnicos e vistorias
nas áreas.
O Mapa 2 apresenta a delimitação de tais áreas no município. Como podemos ob-
servar, as áreas incluem duas pequenas manchas a Sudoeste e Leste, assim como uma ex-
tensa área ocupando quase a totalidade do Norte do município. Em seu conjunto, as áreas
envolviam uma população de cerca de 53.000 habitantes em 1996, ou cerca de 17% do
total. Essa população cresceu a uma taxa anual de 8,1% entre os censos, muito superior
à das áreas de baixa declividade (2,3%).
As três áreas delimitam situações e vulnerabilidades muito diferentes, não apenas pe-
la extensão territorial alcançada, como também pelo padrão de ocupação e urbanização
de cada uma delas. O Mapa 3 apresenta a delimitação das mesmas áreas sobre o sistema
viário do município, incluindo ruas pavimentadas, de terra e vielas. Como podemos ver,
as áreas a Sudoeste e a Leste apresentam ocupação muito escassa, sendo a primeira incluí-
da na Zona de Desenvolvimento Econômico (destinada primordialmente a atividades in-
dustriais), e a segunda localizando-se no interior da área de mananciais do município. É
a grande mancha ao Norte do município, ao contrário, que sobressai pela intensa ocupa-
ção, apresentando destacada importância sob os pontos de vista urbanístico e social para
essa área de risco.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 55


R E F L E X Õ E S S O B R E A H I P E R P E R I F E R I A

Mapa 2 – Localização das áreas de alta declividade em Mauá.

Fonte: Prefeitura do Município de Mauá, SP.

Mapa 3 – Áreas de alta declividade e Sistema Viário em Mauá.

Fonte: Prefeitura do Município de Mauá, SP.

A Tabela 2 apresenta, de forma comparativa, as informações socioeconômicas da po-


pulação habitante das áreas de alta e baixa declividades do município de Mauá. A produ-
ção desse conjunto de informações partiu da utilização do segundo procedimento descri-

56 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001


H A RO L D O D A G . TO R R E S , E D U A R D O C . M A RQ U E S

to na Metodologia (seção 2), qual seja: a construção de uma nova camada (layer) de in-
formação a partir da layer de curvas de nível (área de alta declividade) e a estimativa da
população dessa nova layer, tomando como base a população moradora de cada um dos
setores que a compõe, de maneira proporcional à participação desses setores na área total
da região de alta declividade.
Como podemos ver na Tabela 2, a população moradora das áreas de alta declivida-
de apresenta um padrão de escolaridade muito inferior à das demais áreas do município.
Em 1996, por exemplo, a proporção de chefes de família sem instrução ou com até três
anos de estudo era de 23,2% nas áreas de baixa declividade, mas nas áreas de alta declivi-
dade essa proporção chegava a impressionantes 42,4%. Além disso – e essa é uma in-
formação realmente importante –, as proporções de chefes sem nenhuma escolaridade
caiu nas áreas de baixa declividade entre 1991 e 1996, mas cresceu a taxas muito signi-
ficativas nas áreas de alta declividade, indicando que tais áreas estão recebendo um inusi-
tado fluxo migratório de analfabetos.7 7 A proporção de analfabe-
tos tem caído em quase to-
Essa precariedade socioeconômica pode ser confirmada pelas informações referentes das as áreas do território
ao rendimento dos chefes de família, que infelizmente estavam disponíveis apenas para o nacional, refletindo a substi-
tuição natural das gerações
ano de 1991. Como podemos observar, a proporção de chefes nas duas faixas inferiores mais idosas (e com maior
de renda – sem rendimento e com renda de até dois salários mínimos – era muito supe- proporção de analfabetos)
por novas gerações mais
rior nas áreas de alta declividade do que nas áreas de baixa declividade: 9,5% e 31,4% escolarizadas. O que parece
contra 6,2% e 25,1%, respectivamente. inusitado, no caso das
áreas de alta declividade de
Finalmente, vale também registrar que a população dessas áreas cresceu, entre 1991 Mauá, tem a ver com o fato
de se tratar – simultanea-
e 1996, a uma taxa bem superior à referente aos habitantes de áreas de baixa declividade: mente – de áreas com ele-
8,1% contra 2,3%. As informações relativas à migração recente dos chefes de família in- vada e crescente proporção
de analfabetos e pequena
dicam, nas áreas de alta declividade, uma significativa onda de migrantes recentes, parti- proporção de idosos.
cularmente aqueles oriundos de Estados nordestinos. As áreas de baixa declividade rece-
beriam, proporcionalmente, uma quantidade maior de chefes migrantes recentes de
outras cidades do Estado de São Paulo.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 57


R E F L E X Õ E S S O B R E A H I P E R P E R I F E R I A

Tabela 2 – Informações sociodemográficas de Mauá, segundo declividade dos locais de


moradia, 1991-1996.
Variável Valores absolutos Valores relativos
Alta Baixa Alta Baixa
declividade declividade declividade declividade
1991 1996 Taxa 1991 1996 Taxa 1991 1996 1991 1996
População total 35.614 52.486 8,06 259.384 290.371 2,28 100 100 100 100
0 a 4 anos 4.843 6.991 7,62 28.583 28.206 -0,26 13,60 13,32 11,02 9,71
5 a 14 anos 9.563 12.797 6,00 59.254 60.552 0,43 26,85 24,38 22,84 20,85
15 a 59 anos 20.479 31.282 8,84 160.609 185.204 2,89 57,50 59,60 61,92 63,78
60 anos e mais 1.055 1.487 7,11 11.982 14.894 4,45 2,96 2,83 4,62 5,13
Chefes (*) 8.142 13.881 11,25 63.281 72.684 2,81 100 100 100 100
Sem instrução ou
< 1 ano de estudo 1.570 2.991 13,76 8.236 5079 -9,21 19,29 21,55 13,01 6,99

1-3 anos de estudo 1.784 2.883 10,08 10.628 11.804 2,12 21,91 20,77 16,80 16,24
4-7 anos de estudo 3.702 5.927 9,87 29.010 33.086 2,66 45,46 42,70 45,84 45,52
8-10 anos de estudo 805 1.541 13,88 9.433 13.306 7,12 9,88 11,10 14,91 18,31
11-14 a. de estudo 255 493 14,08 4.788 7.628 9,76 3,13 3,55 7,57 10,50
15 e + a. de estudo 26 46 11,81 1.186 1.781 8,48 0,33 0,33 1,87 2,45
Chefe não residente
em 1991 1.832 - - 6.594 - - 100 - 100

Origem Reg. Norte 22 - - 113 - - 1,22 - 1,71


Nordeste 768 - - 1.966 - - 41,90 - 29,82
Sudeste (fora SP) 86 - - 324 - - 4,68 - 4,92
Est. São Paulo 890 - - 3.873 - - 48,57 - 58,74
Sul e C.-Oeste 64 - - 257 - - 3,49 - 3,90
Exterior 1 - - 19 - - 0,05 - 0,29
Domicílios 8.165 12.294 8,53 63.960 74.558 3,11 100 100 100 100
Domicílio
subnormal 3.942 5.657 7,49 4.990 7.342 8,03 48,28 46,01 7,80 9,85

Casa de cômodos 4 - - 172 - - 0,05 - 0,27 -


Água rede geral 6.546 - - 61.259 - - 80,17 - 95,78 -
Esgoto rede geral 3.407 - - 44.488 - - 41,73 - 69,56 -
Domicílio próprio 6.623 - - 42.049 - - 81,11 - 65,74 -
Domicílio alugado 958 - - 14.000 - - 11,73 - 21,89 -
Domicílio cedido 493 - - 6.859 - - 6,04 - 10,72 -
Outro domicílio 68 - - 373 - - 0,83 - 0,58 -
Lixo coletado 6.454 - - 60.556 - - 79,05 - 94,68 -
Lixo em curso d'água461 - - 924 - - 5,64 - 1,45 -
Chefe renda 0-2 sm 2.562 - - 16.024 - - 31,38 - 25,05 -
Chefe renda 2-5 sm 3.571 - - 26.567 - - 43,74 - 41,54 -
Chefe renda 5-10 sm1.054 - - 12.944 - - 12,91 - 20,24 -
Ch. renda 10-20 sm 132 - - 3.031 - - 1,62 - 4,74 -
Ch. 20 sm e + 23 - - 500 - - 0,28 - 0,78 -
Sem rendimento 773 - - 3.938 - - 9,47 - 6,16 -
Sem declaração 27 - - 277 - - 0,33 - 0,43 -

Fonte: : IBGE, 1991 e 1996, e Prefeitura do Município de Mauá.


Notas: (*) Inclui apenas os chefes para os quais existe informação sobre educação.

58 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001


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Em termos quantitativos, a Tabela 2 nos mostra que as áreas de alta declividade eram
ocupadas, em sua grande parte, por favelas: entre 1991 e 1996, 48,3% e 46,0% de seus
domicílios, respectivamente, eram localizados em setores subnormais, enquanto 7,8% e
10,0% dos domicílios das áreas de baixa declividade, respectivamente, localizavam-se em
favelas, segundo a definição do IBGE. De fato, grande parte das favelas dos dois agrupa-
mentos ao Norte e a Centro-Oeste do município, apresentados no Mapa 1, localiza-se em
áreas de alta declividade. A quase totalidade do complexo do Macuco, ao Norte, apresen-
ta declividades muito altas, e no Complexo do Oratório, a Centro-Oeste, grande parte
dos setores subnormais localizam-se em áreas de alta declividade.
As condições de infra-estrutura das áreas de alta declividade também eram bastante
inferiores às áreas de baixa declividade, em 1991, tanto em abastecimento de água (cober-
tura de 80,2% contra 95,8%) e esgotamento sanitário (atendimento de 41,7% contra
69,6%), quanto em limpeza urbana (cobertura de 79,1% contra 94,7%). Ainda segundo
as informações censitárias, a população afirmava que lançava seu lixo em cursos d’água
em uma proporção mais de quatro vezes superior aos habitantes de áreas de baixa decli-
vidade (cerca de 5,6% contra 1,5%). Vale acrescentar que, entre os Censos, o número de
domicílios em áreas de alta declividade seguiu a tendência do município, e também cres-
ceu a uma taxa anual superior à do crescimento populacional: 8,53% ao ano dos domi-
cílios e 8,06% de crescimento populacional.

ÁREAS DE RISCO E ABASTECIMENTO DE ÁGUA

As informações fornecidas pela autarquia municipal responsável pelo abastecimento


de água, Sama, indicam que o abastecimento de água no município é bastante precário,
além de muito diferenciado segundo as regiões da cidade. A água consumida é originária
de dois mananciais localizados a Sudeste da Região Metropolitana de São Paulo, da Esta-
ção de Tratamento de Água Taiaçupeba (Sistema Alto Tietê) e da Estação do Rio Claro.
Como podemos ver no Mapa 4, que apresenta as principais adutoras e equipamentos que
atendem o município de Mauá, a água proveniente das estações de tratamento chega à ci-
dade através de duas grandes adutoras, a primeira de 1.800 mm e a segunda de 2.500 mm
(vazões médias de 950 l/s e 3.150 l/s, respectivamente). A adutora do Rio Claro, após cru-
zar o município de Mauá, continua em direção à Zona Leste de São Paulo.
A deficiência do abastecimento pode ser observada em inúmeras escalas. Em primei-
ro lugar e com caráter mais geral, a vazão aduzida ao município é inferior à necessária ao
atendimento em boas condições da população, mesmo se não considerarmos o consumo
industrial, que no caso de Mauá é significativo. Segundo as informações disponibilizadas
pela prefeitura, as vazões média e máxima aduzidas para o município são de 1.010 l/s e
1.340 l/s, respectivamente. Se considerarmos como 1,5 e 1,25 os coeficientes de variação,
em relação à média, da hora e do dia de maior consumo (K1 e K2), assim como um con-
sumo per capita de 250 l/hab./dia, teríamos uma vazão máxima necessária de 1.855 l/s
para atender a população municipal que, em 1996, era de 342.000 habitantes.
As vazões máxima e média existentes, portanto, são insuficientes para fazer frente ao
consumo domiciliar da cidade. Considerando a vazão máxima existente, o consumo per
capita seria de 180 l/hab./dia em 1996, e muito inferior a isso se levássemos em conta o
consumo das indústrias. A Tabela 3, a seguir, apresenta a oferta per capita se levarmos em
conta o crescimento populacional, utilizando estimativas da Fundação Seade, mantendo

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 59


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Mapa 4 – Principais equipamentos e adutoras.

Fonte: Prefeitura do Município de Mauá, SP.

constante a oferta de água e sem considerar o consumo industrial. Como podemos ver, a
situação, que já não é confortável, tende a se tornar insustentável em um período de tem-
po inferior a dez anos.
A oferta total de água não é a única informação preocupante na caracterização ge-
ral do abastecimento. O problema de oferta poderia ser mitigado pela presença de uma
capacidade de reservação elevada que permitisse regularizar o consumo diário. Entretan-
to, não é isso que se observa, considerando-se os números fornecidos pela Sama. A reser-
vação total do município é de 44.000 m3, distribuída pelos cinco reservatórios apresen-
tados no Mapa 4: Vila Magini I e II (7.000 m3), Jardim Zaira I e II (7.000 m3) e Mauá
(30.000 m3).

Tabela 3 – Oferta per capita média de água nas próximas duas décadas.

Ano 1996 2000 2005 2010 2015 2020


Consumo per capita (l/hab./dia) 180 162 145 130 121 113
Fonte: Fundação Seade e Sama.

A reservação deveria ser pelo menos igual à regularização da vazão na hora de maior
consumo do dia de maior consumo. Esse volume não leva em conta as reservações neces-
sárias para vazões de incêndio e para o atendimento à demanda durante um determinado
período para a realização de reparos (usualmente considerado como igual a 3 dias). En-
tretanto, se o município dispusesse dessa reservação, a vazão aduzida atual seria capaz de
atender a toda a população do município, já que a vazão média atual é superior à vazão
média necessária para o abastecimento (1.010 l/s contra 990 l/s), já descontadas as varia-
ções diária e anual.

60 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001


H A RO L D O D A G . TO R R E S , E D U A R D O C . M A RQ U E S

Entretanto, a reservação existente é muito inferior à necessária para enfrentar a re-


gularização das vazões. Considerando apenas a demanda de regularização, teríamos um
volume igual a pelo menos 73.000 m3, quase o dobro do existente. O resultado é que a
escassez de água é alocada nas diferentes regiões da cidade pela gestão do sistema e pelas
cotas respectivas dos bairros, sendo as regiões localizadas em cotas mais altas as mais pe-
nalizadas pelo abastecimento.
De forma geral, a solução encontrada pela concessionária parece ter sido a instala-
ção de boosters junto às regiões de adução mais difícil, localizadas nos pontos mais altos.
Esse tipo de solução representa um abastecimento de pior qualidade.8 Como podemos 8 Os boosters são bombas
colocadas diretamente na
ver no Mapa 4, a cidade dispõe de 14 boosters. Alguns deles estão associados ao abasteci- rede de abastecimento. Um
mento de áreas localizadas em cota superior à dos reservatórios, como nas oito unidades sistema de abastecimento
funcionando em perfeitas
ao Norte e no Centro do município, mas outros aparentemente estão posicionados para condições conta com aduto-
permitir o abastecimento de regiões em ponta de linha, muito longe dos reservatórios ou ras que levam a água até os
reservatórios localizados
das adutoras, como é o caso dos seis boosters localizados na porção Sul do município. nos pontos mais altos da ci-
O Mapa 5 apresenta a localização dos boosters e respectivas áreas de atendimen- dade. A partir desses reser-
vatórios, o abastecimento
to. Como podemos observar, uma pequena área do município é abastecida dessa for- se dá apenas por gravidade.
Dessa forma, não há re-
ma. Como veremos mais adiante, graças à alta densidade dessas áreas, uma parcela giões não abastecidas pela
muito mais significativa da população, considerando-se a área total ocupada, habita sua cota, e em cada ponto
da rede a pressão é aproxi-
essas áreas. madamente constante, o
que reduz as perdas, permi-
te uma operação planejada
Mapa 5 – Boosters e áreas abastecidas por eles. do sistema e garante condi-
ções de pressão até mesmo
nas pontas da rede. Os
boosters são uma solução
paliativa quando a pressão
da água não permite o abas-
tecimento no final da rede e
nos pontos altos, e quando
há bairros com ocupação
em cota superior à do reser-
vatório. Nesse caso, a pres-
são na rede não é constante
(e depende do consumo de
quem já foi abastecido), as
perdas são muito maiores,
não estão garantidas as
condições de abastecimen-
to a todos durante todo o
tempo, e a ocorrência de
problemas de operação é
mais freqüente.

Fonte: Prefeitura do Município de Mauá, SP.

Considerando as já citadas insuficiências de oferta de água e a baixa capacidade dos


reservatórios de realizar a regularização das vazões, essas regiões são as principais candida-
tas a receber menos água e a participar com maior freqüência de rodízios de operação. Va-
le também destacar os problemas derivados do atendimento intermitente causado por pa-
radas na operação e por rodízios no atendimento. Cada vez que o abastecimento é

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 61


R E F L E X Õ E S S O B R E A H I P E R P E R I F E R I A

interrompido, são criadas pressões negativas no interior das tubulações, gerando uma ten-
dência à sucção da água do lençol freático, de valas ou córregos por onde passe a tubula-
ção para o seu interior. Quando o abastecimento é restabelecido, essa água se mistura à
de abastecimento, sendo consumida. Portanto, regiões submetidas a esse tipo de abaste-
cimento sofrem com a contaminação freqüente da água de consumo.
Ao compararmos o Mapa 5 com o Mapa 1, podemos perceber a superposição entre
áreas abastecidas por boosters e as áreas faveladas, mostrando como esse tipo de assenta-
mento está mais sujeito a um abastecimento de qualidade inferior. De fato, a quase tota-
lidade dos setores classificados como subnormais no complexo de favelas do Macuco apre-
senta pelo menos uma parte de sua área abastecida por boosters. A Oeste, uma parte menor
do Complexo do Oratório também é abastecida dessa forma, embora nesse caso a exten-
são comprometida seja relativamente menor. A maior parte das favelas dispersas pela ci-
dade, que, como já vimos, tendem a alojar uma população de melhores condições socioe-
conômicas, é abastecida de maneira convencional.
A Tabela 4 traz algumas informações socioeconômicas sobre os grupos populacio-
nais habitantes de áreas atendidas por boosters e de forma convencional, construídos por
meio de um overlayer. Os dados mostram uma clara segregação do atendimento pela si-
tuação socioeconômica.
Como podemos ver, as áreas atendidas por boosters abrigavam apenas 7,6% da po-
pulação de Mauá, em 1996. Essa população apresentava crescimento demográfico mais
elevado (6,7% contra 2,6% a.a.) e uma maior proporção de população jovem. A instru-
ção dos chefes de família era inferior à das áreas atendidas de forma convencional, tanto
em 1991 quanto em 1996.
Nas áreas de booster, os domicílios subnormais representavam quase um terço do to-
tal, enquanto no restante do município alcançavam cerca de 13%. Além disso, nas pri-
meiras, os domicílios favelados apresentavam taxas de crescimento mais elevadas do que
no restante do município (10,3% contra 7,4% a.a.). O atendimento por serviços também
era inferior nas áreas de booster, com 88% de cobertura de água por rede geral com cana-
lização interna, 57,3% de esgotamento em rede geral com sanitário interno e 87% do li-
xo coletado, contra 94,4%; 67,0% e 93,3%, respectivamente, no restante do município.
É interessante observarmos que a distribuição do rendimento médio mensal dos chefes de
família era bastante similar nos dois tipos de área, exceto pelos indivíduos sem rendimen-
to, mais presentes nas áreas de booster do que nas áreas de abastecimento convencional.
Esses dados gerais sobre o abastecimento nos informam sobre as condições de aten-
dimento potencial à demanda pelo serviço, mas não nos indicam quais áreas são realmen-
te abastecidas. As informações fornecidas pela Sama não nos permitem determinar os ín-
dices de cobertura, tampouco os dados levantados na contagem populacional de 1996.
Assim, a única fonte de informações sobre cobertura de que dispomos, presentemente,
são os dados coletados pelo Censo de 1991.

62 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001


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Tabela 4 – Informações sociodemográficas das áreas abastecidas por boosters, Mauá, 1991-
1996.
Variável Valores absolutos Valores relativos
Booster Normal Booster Normal
1991 1996 Taxa 1991 1996 Taxa 1991 1996 1991 1996
População total 18.774 26.186 6,88 277.594 315.227 2,58 100 100 100 100
0 a 4 anos 2.345 3.110 5,81 31.081 32.087 0,64 12,49 11,88 11,20 10,18
5 a 14 anos 4.757 6.126 5,19 64.060 67.223 0,97 25,34 23,39 23,08 21,33
15 a 59 anos 11.031 16.074 7,82 170.057 200.412 3,34 58,76 61,38 61,26 63,58
60 anos e mais 641 876 6,47 12.396 15.505 4,58 3,41 3,35 4,47 4,92
Chefes (*) 4.320 6.319 7,90 67.103 80.246 3,64 100 100 100 100
Sem instrução ou
< 1 ano de estudo 741 652 -2,53 9.065 7.418 -3,93 17,16 10,32 13,51 9,24

1-3 anos de estudo 749 1.318 11,9 11.663 13.369 2,77 17,33 20,86 17,38 16,66
4-7 a. de estudo 1.944 2.984 8,96 30.768 36.029 3,21 44,99 47,23 45,85 44,90
8-10 a. de estudo 657 934 7,28 9.581 13.913 7,75 15,21 14,77 14,28 17,34
11-14 a. de estudo 200 392 14,4 4.843 7.729 9,80 4,62 6,21 7,22 9,63
15 e + a. de estudo 30 39 5,54 1.182 1.788 8,63 0,69 0,62 1,76 2,23
Chefe não residente
em 1991 937 - 7.489 - - 100 - 100

Origem Reg. Norte 16 - 119 - - 1,74 - 1,59


Nordeste 340 - 2.394 - - 36,23 - 31,97
Sudeste (fora SP) 39 - 371 - - 4,19 - 4,95
Est. São Paulo 503 - 4.260 - - 53,70 - 56,88
Sul e C.-Oeste 38 - 283 - - 4,03 - 3,78
Exterior 1 - 19 - - 0,07 - 0,26
Domicílios 4.332 6.344 7,93 67.793 80.508 3,50 100 100 100 100
Domicílio
subnormal 1.272 2.076 10,29 7.660 10.923 7,36 29,36 32,72 11,30 13,57

Casa de cômodos 1 - 175 - - 0,02 - 0,26 -


Água rede geral 3.796 - 64.009 - - 87,62 - 94,42 -
Esgoto rede geral 2.480 - 45.415 - - 57,25 - 66,99 -
Domicílio próprio 3.218 - 45.454 - - 74,28 - 67,05 -
Domicílio alugado 664 - 14.294 - - 15,33 - 21,08 -
Domicílio cedido 409 - 6.943 - - 9,44 - 10,24 -
Outro domicílio 438 - 3 - - 10,11 - 0,00 -
Lixo coletado 3.782 - 63.228 - - 87,30 - 93,27 -
Lixo em curso d’água 72 - 1.313 - - 1,66 - 1,94 -
Chefe renda 0-2 sm 1.099 - 17.487 - - 25,37 - 25,79 -
Chefe renda 2-5 sm 1.797 - 28.341 - - 41,48 - 41,81 -
Chefe renda 5-10 sm 807 - 13.191 - - 18,64 - 19,46 -
Ch. renda 10-20 sm 155 - 3.008 - - 3,58 - 4,44 -
Ch. 20 sm e + 21 - 502 - - 0,48 - 0,74 -
Sem rendimento 427 - 4.284 - - 9,85 - 6,32 -
Sem declaração 13 - 291 - - 0,31 - 0,43 -
Fonte: IBGE, 1991 e 1996, e Prefeitura do Município de Mauá.
Notas: (*) Inclui apenas os chefes para os quais existe informação sobre educação.

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A PRESSÃO DA DEMANDA

Segundo os últimos dados censitários disponíveis, a distribuição das coberturas de


água (e também de esgoto) indicava, em 1991, um padrão de atendimento de médio pa-
ra ruim, com grande heterogeneidade interna, tanto em termos de qualidade quanto de
quantidade, entre as áreas habitadas pelos grupos populacionais de melhor e pior condi-
ção socioeconômica (Torres & Marques, 1999). Como não dispomos de informações
mais recentes sobre as coberturas, podemos apenas especular a respeito das alterações
ocorridas no período recente. O Mapa 6 apresenta informações a esse respeito, indican-
do o acréscimo de domicílios por setor censitário entre 1991 e 1996, dado que indica a
pressão da demanda adicional exercida no período sobre os serviços de saneamento.

Mapa 6 – Acréscimo absoluto no número de domicílios, 1991-1996.

Fonte: IBGE, 1991 e 1996.

Como podemos ver, as áreas de maior aumento se localizam a Leste do município,


na franja da área de mananciais, e ao Sul, junto à divisa com o município de Ribeirão Pi-
res. Além dessas áreas, encontramos alguns setores da área de mananciais (a Leste do mu-
nicípio) e grande parte dos setores no Norte do município, junto à divisa com o municí-
pio de São Paulo. Conjuntamente, essas apresentaram, no período, o maior crescimento
de demanda por serviços em Mauá.
Ao compararmos o Mapa 6 com o Mapa 1, que contém informações relativas à lo-
calização de favelas, constatamos que o complexo de favelas do Macuco, ao Norte do mu-
nicípio, apresenta a maior pressão da demanda em favelas, seguido de alguns setores do
Complexo do Oratório, especialmente daqueles localizados em seu Centro e em suas ver-
tentes Leste e Norte. As favelas dispersas tendem a apresentar um número menor de no-
vos domicílios, fruto principalmente das menores dimensões dos setores que as compõem

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H A RO L D O D A G . TO R R E S , E D U A R D O C . M A RQ U E S

(trata-se de informação sobre o número absoluto de novos domicílios, e não de propor-


ções relativas).
A Oeste do município e ao longo da área central, encontramos as áreas com mais
significativo decréscimo no número de domicílios. As informações não permitem deter-
minar se essa queda se reverteu em melhoria das coberturas, especialmente por se tratar
de áreas já razoavelmente cobertas em 1991. A maioria das áreas de grande pressão da de-
manda coincide com os setores com as piores condições de atendimento do município –
particularmente aquelas atendidas por boosters, como é o caso dos complexos de favelas
do Macuco e do Oratório. Considerando os dados topográficos e de risco ambiental apre-
sentados, é plausível que a situação das coberturas, e particularmente a questão da quali-
dade média do atendimento, possa ter-se deteriorado ainda mais desde então, aumentan-
do a já grande segregação socioespacial do atendimento.

CONCLUSÃO
O conceito de periferia metropolitana, tal como desenvolvido originalmente, diz
respeito ao encontro da geometria/forma urbana – as áreas na franja da metrópole – com
conteúdos sociológicos particulares. As periferias da década de 1970 seriam os espaços
mais externos da metrópole, relativamente homogêneos, habitados por população de bai-
xa renda, cuja sobrevivência em condições precárias estava associada à venda continuada
de sua força de trabalho.
Esses conteúdos modificaram-se de maneira dramática. O silêncio recente da litera-
tura sobre o tema sugere talvez que, ao menos para uma parte da produção acadêmica, a
melhora das condições de vida nas últimas décadas teria transformado as periferias em
amplos espaços de classe média baixa, com características similares às dos subúrbios ca-
riocas da Central e ao início da Zona Leste paulistana. Os dados apresentados ao longo
deste artigo nos levam a discordar frontalmente dessa percepção, indicando a existência
de espaços heterogêneos e extremamente diferenciados.
A heterogeneidade desses espaços talvez já estivesse presente nos anos 1970, mas co-
loca-se hoje de forma evidente. A melhora das condições de vida de uma parte expressiva
da periferia, acompanhada de espaços extremamente precários, indica a existência de um
grande degrau urbano (e social), mesmo em espaços considerados periféricos, como o mu-
nicípio de Mauá.
As características dos grupos sociais localizados nesses espaços, que denominamos de
hiperperiféricos, também não se parecem com os conteúdos sociais da população operá-
ria, ou do exército industrial de reserva típicos das periferias dos anos 1970. Embora essa
dimensão deva ser objeto de análises específicas profundas, parece-nos estar diante de uma
população “excluída” ou fragilmente integrada ao sistema econômico, mesmo que de for-
ma “marginal”, para fazermos eco aos termos de um debate importante para aquelas ou-
tras periferias (Kowarick, 1975). Se a maior parte da população das atuais periferias está
mais integrada, portanto, os grupos sociais habitantes das hiperperiferias aparentemente
passaram da “dependência à irrelevância”, para usarmos as palavras de Castells (1991).
Em termos concretos, existiam na Região Metropolitana de São Paulo, em 1998,
aproximadamente 1,7 milhão de pessoas (10% da população) com rendimento familiar in-
ferior a dois salários mínimos – R$ 302,00 –, de acordo com a PNAD-IBGE. Isso correspon-
de a uma renda per capita inferior a R$ 2,50 por dia, para uma família com quatro pessoas.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 65


R E F L E X Õ E S S O B R E A H I P E R P E R I F E R I A

Em tal contexto, é evidente que as áreas de periferia mais tradicional, e mesmo as favelas
mais consolidadas, constituem locais cujos custos de moradia são proibitivos para esse gru-
po. Essa grande população miserável é obrigada a habitar as franjas e interstícios urbanos
mais precários. Nesse sentido, a existência de áreas de risco ambiental com péssimos indi-
cadores sociais e sanitários (no caso de Mauá, especialmente em áreas de alta declividade)
mostra que há, claramente, uma periferia da periferia. Essa hiperperiferia implica a con-
densação e o acúmulo num espaço menor de riscos sociais, residenciais e ambientais de di-
versas origens, genericamente atribuídos ao contexto periférico mais abrangente.
Assim, os riscos ambientais e sociais são desigualmente distribuídos (ou os primei-
ros são distribuídos sobre os segundos), criando um círculo perverso de pobreza e péssi-
mas condições de vida em locais específicos (mas nem por isso numericamente desprezí-
veis). A isso se somam condições praticamente nulas de mobilidade social ascendente.
Essas condições, talvez ainda mais graves que as descritas nas “periferias da espoliação ur-
bana”, são cercadas por condições médias relativamente elevadas para os padrões periféri-
cos tradicionais, indicando um padrão de segregação mais complexo, mais difícil de con-
ceituar e medir, mas nem por isso menos injusto.
São inúmeros os mecanismos que levam a tal situação, desde o mercado de terras
que torna as áreas de risco ambiental (próximas a lixões, sujeitas a inundações e desmo-
ronamentos etc.) as únicas acessíveis a grupos de baixíssima renda, até as ações do poder
público e de produtores privados do urbano, passando pelos padrões mais gerais de trans-
formação dos mercados de trabalho. De um ponto de vista estritamente sociológico, a
emergência da hiperperiferia parece ter a ver com o aumento da heterogeneidade social
paulistana, num contexto de queda sistemática da participação do emprego industrial, au-
mento do número de trabalhadores autônomos e sem carteira assinada, bem como de au-
mento dos trabalhadores do sexo feminino e de ocupados no setor de serviços. Neste con-
texto, a desigualdade de rendimentos aumenta, mesmo naqueles momentos em que a
renda média apresenta algum crescimento, como na segunda metade dos anos 1990
(Marques & Torres, 2000).
No caso de Mauá, as ações do poder público, até onde pudemos notar (Torres &
Marques, 1999), têm em geral tentado enfrentar tais situações, conseguindo alcançar re-
sultados razoáveis em políticas como saúde e educação. No caso dessas políticas, analisa-
das pelo estudo original mas não incluídas aqui, a penetração espacial (e social, segundo
nosso critério) das políticas é significativa, embora novamente as populações de menor
Haroldo da Gama Torres, renda tenham menor acesso a vagas em séries mais elevadas e freqüentem escolas com
cientista social, é assessor
da Fundação Seade e pes- classes mais cheias, no caso da educação. No caso da saúde, esses grupos sociais deslocam-
quisador do Cebrap. se por maiores distâncias para ter acesso não apenas a unidades mais especializadas, o que
E-mail: hgtorres@uol.com.br
Eduardo Cesar Marques, seria justificável considerando-se o caráter hierarquizado do sistema de saúde, mas tam-
cientista social, é pesquisa- bém a unidades básicas. A diferença de acesso nesses dois casos, entretanto, é bem infe-
dor da Fapesp no Cebrap e
professor do Departamento rior à verificada no atendimento por infra-estrutura (e na sua qualidade) e no acesso à ci-
de Ciência Política da Uni-
versidade de São Paulo.
dade, indicando que, nas políticas propriamente urbanas, as prefeituras e os governos
E-mail: ecmarq@uol.com.br estaduais ainda têm muito a realizar.

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R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 69


R E F L E X Õ E S S O B R E A H I P E R P E R I F E R I A

A B S T R A C T The aim of this article is to present the main analytical findings of the
application of GIS techniques to urban planning in Mauá, São Paulo. The paper is centre on
several types of exploratory cartography related to demography, urban risk and accessibility to
public policies in the 1990s. In certain census sectors of the municipality, the results show a su-
perimposition of extreme poverty and urban risk conditions, pointing to the existence of very
strong cumulative effects of urban risk and precarious socio-economic conditions. This cumu-
lative effect seems to be more important than that indicated by the academic literature: a much
more heterogeneous urban periphery than is commonly considered was identified, including
areas that are very well served and included in social and urban terms, as well as others in
which the population is submitted to more adverse conditions than those that characterised the
metropolitan peripheries of previous decades.

K E Y W O R D S Urban space; living conditions; urban periphery; population and en-


vironment environmental risk; socio-spatial segregation.

70 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001


EVOLUÇÃO URBANA
E DEMOGRÁFICA
DO ENVELHECIMENTO EM BELO HORIZONTE

FREDERICO POLEY MARTINS FERREIRA

R E S U M O Este trabalho tem como tema a análise do processo de envelhecimento da


população do município de Belo Horizonte e sua evolução no espaço urbano da cidade. Des-
se modo, são utilizadas as chamadas Unidades de Planejamento como subdivisões do muni-
cípio (em número de 81), nas quais são comparadas as diferentes proporções da população
acima de sessenta anos, no município, em 1991, com a evolução da ocupação da cidade em
diferentes anos.

PALAVRAS -CHAVE Envelhecimento; localização; evolução; Belo Horizonte.

INTRODUÇÃO

Nos últimos trinta anos, o Brasil tem passado por profundas mudanças em seu pa-
drão demográfico, as quais ocorrem, principalmente, como conseqüência do declínio da
fecundidade. Esse é um processo irreversível e não-conjuntural, que deve ser considera-
do a curto, médio e longo prazos.
As transformações na estrutura e na distribuição da população têm um impacto
considerável nas demandas por serviços e na formulação de políticas públicas. Sendo o
Brasil um país urbano, as cidades acabam refletindo de forma explícita todas essas trans-
formações e, logicamente, seus efeitos.
As metrópoles brasileiras podem ser consideradas um locus privilegiado para a
análise da transformação das variáveis demográficas e suas conseqüências no País e
nos domicílios.
Assim, para se ter uma idéia, as oito maiores áreas metropolitanas (São Paulo, Rio
de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Salvador, Fortaleza e Curitiba), que
apresentaram uma rápida expansão populacional durante as décadas de 1960 e 1970 pas-
saram a ter, em conjunto, um crescimento anual abaixo da média nacional, especialmen-
te a partir da década de 1980. Isso é o resultado da redução dos fluxos migratórios e do
profundo controle da fecundidade que as mulheres, nessas áreas, passaram a exercer. Tal
diminuição na taxa de crescimento populacional é ainda mais marcante quando se leva
em conta apenas o município sede de cada uma dessas regiões metropolitanas.
A Tabela 1 dá um exemplo da rapidez com que essas mudanças estão ocorrendo, es-
pecialmente no que se refere ao padrão de formação de domicílios, em três grandes me-
trópoles: Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 71


E V O L U Ç Ã O U R B A N A E D E M O G R Á F I C A

Tabela 1 – Relação habitante/domicílio, 1970/96.

Cidade Relação habitante/domicílio


1970 1980 1991 1996
Rio de Janeiro 4,5 3,9 3,5 3,2
São Paulo 4,7 4,0 3,7 3,4
Belo Horizonte 5,4 4,6 4,0 3,7
Fonte: IBGE, Censos Demográficos 1970, 1980, 1991 e 1996.

Uma das conseqüências dessas mudanças é que, no nível intra-urbano das grandes
cidades, também são observadas novas transformações.
Historicamente, as cidades têm-se estruturado de forma a possuir um centro demo-
graficamente populoso, bem equipado com infra-estrutura urbana, onde normalmente
residiam as classes mais ricas e se localizavam os melhores serviços, e uma periferia ocu-
pada por uma população de renda mais baixa, apresentando, além de densidades domici-
liares elevadas, péssimas condições ambientais, sanitárias e habitacionais.
Em Belo Horizonte, semelhante configuração também é comum. O padrão de for-
mação e localização das famílias deu-se a partir da construção dos domicílios mais abas-
tados, especialmente dos funcionários públicos mais graduados, que se transferiram de
Ouro Preto (antiga capital do Estado de Minas Gerais) para a área compreendida pelo
atual centro urbano (área interna da avenida do Contorno), caracterizada como zona de
ocupação dos domicílios unifamiliares. Ao mesmo tempo, as classes mais pobres de tra-
balhadores e os domicílios coletivos, que recebiam, especialmente, trabalhadores e mi-
grantes pobres, localizavam-se na parte exterior da Avenida.
De acordo com o texto elaborado pela Plambel (1979, p.51):

Na perspectiva de organização da mudança de Capital, necessário se fazia a presença de


um operariado qualificado, destinado aos futuros trabalhos de construção civil, sem o qual
não se poderia concretizar a mudança.
Esses trabalhadores não se distinguem – a não ser pela profissão – dos migrantes rurais
já encontrados. Foram instalados nas áreas próximas da zona urbana, apesar de serem consi-
deradas então como rurais. Assiste-se, assim, a um processo de assimilação relativamente rá-
pido dos “núcleos agrícolas” à zona suburbana da capital, o que confirma a hipótese do maior
povoamento do que a produção de alimentos, oficialmente proclamada. Com efeito, o nú-
cleo de Carlos Prates, situado na área próxima à Vila Operária – Barro Preto e Calafate, cu-
jo processo de ocupação é simultâneo à construção da cidade e ao Prado Mineiro – nunca
chegou a adquirir as características de núcleo agrícola, apesar de sua incorporação oficial à
cidade só ocorrer em 1911.

No final do século XIX, o modelo urbanístico adotado na construção da nova capi-


tal condenava a existência de habitações coletivas na cidade, identificando os espaços es-
treitos e de alta densidade, característicos dessas habitações, como impeditivos de se de-
senvolver uma vida familiar saudável e equilibrada, condição essencial para o progresso
civilizado da cidade. Além da definição das moradias que deveriam ocupar as partes mais
nobres da urbe, os espaços públicos passam a ser reservados exclusivamente para a circu-
lação, com calçadas largas, destinadas especialmente aos passeios a pé. Todas as formas de
ocupação espacial que não correspondessem ao modelo de casa unifamiliar, isolada ao

72 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001


F R E D E R I C O P O L E Y M A R T I N S F E R R E I R A

máximo no lote, e à limpeza das ruas, eram rejeitadas. Esse padrão implicitamente rejei-
tava os diferentes arranjos familiares que fugissem à idéia de família nuclear patriarcal.
Nesse processo, as classes populares acabavam tornando-se duplamente segregadas –
pelo padrão de convivência e pelos espaços que poderiam freqüentar e morar –, esse
espaço, em Belo Horizonte, foi claramente definido, entre as partes internas e externas da
avenida do Contorno.
No aspecto social, vale lembrar que Belo Horizonte recebeu um grande contingen-
te de trabalhadores migrantes no período de sua construção, estando entre eles, além da
própria mão-de-obra nacional, ex-escravos (a Abolição foi em 1888 e Belo Horizonte foi
inaugurada apenas dez anos após, em 1898) e imigrantes, principalmente italianos, con-
vocados para edificar a nova capital. Na maioria das vezes, essa população não seguia os
padrões considerados desejados de formação familiar e domiciliar, residindo em cortiços
e favelas, sendo provavelmente comum o amasiar-se (viver junto), mulheres chefiando
domicílios etc.
Barreto (1996, p. 519), ao descrever as primeiras aglomerações pobres no período de
fundação da cidade, observa que:

A Estação de Minas era um precário barracão de tábuas coberto de zinco, plantado no


meio de uma esplanada que estava sendo preparada. Atrás dela, pelo alto da colina, acima da
projetada Rua Sapucaí ia-se adensando uma povoação de cafuas e barracões de zinco, a que
o povo denominava Favela ou Alto da Estação ou Morro da Estação. Denominava-se Favela
por ser muito semelhante ao morro de igual nome existente no Rio de Janeiro.
Tal aquele bairro improvisado, onde morava a gente operária, existia igualmente o Lei-
tão, outro aglomerado humano de gente pobre, em rumo oeste do arraial. Esses dois bairros
mescladíssimos e turbulentos, sobretudo à noite e nos dias de descanso, puseram à prova de
fogo a energia e o valor do subdelegado …

CARACTERIZAÇÃO DEMOGRÁFICA

Nos anos que seguem à sua fundação, Belo Horizonte torna-se um importante nú-
cleo ferroviário e, principalmente, um centro burocrático-administrativo. A população,
nesses primeiros anos de existência, crescia lentamente, especialmente se se considera o
crescimento das outras capitais provinciais. Isso era reforçado pelo pequeno parque indus-
trial, cuja importância real no município era quase insignificante. Assim, a cidade tinha
um crescimento lento, aglomerando uma pequena classe média, composta, principalmen-
te, de funcionários públicos (Moraes,1998, p. 63).
Belo Horizonte só passa a perceber um crescimento mais intenso durante as décadas
de 1930-1940, quando se instala em suas imediações um parque industrial dinâmico (Ci-
dade Industrial). A partir desse período, o núcleo urbano começa a receber sucessivas levas
de imigrantes, que aceleram o crescimento populacional e modificam substancialmente sua
estrutura demográfica e espacial. Por receber uma grande quantidade de imigrantes, nor-
malmente em idade de trabalho, a estrutura etária da população era basicamente jovem.
Tal processo se estende até os anos 70, quando algumas mudanças demográficas se
tornam mais visíveis, especialmente as relacionadas à queda da fecundidade e à diminui-
ção das taxas migratórias para a cidade, o que tem como conseqüência a diminuição das
taxas de crescimento e o início de um processo de envelhecimento populacional.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 73


E V O L U Ç Ã O U R B A N A E D E M O G R Á F I C A

Assim, entre 1970 e 1980, o município cresceu a uma taxa de 3,73% ao ano; en-
tre 1980 e 1991, a uma taxa de 1,20% ao ano; e, finalmente, entre 1991 e 1996, a uma
taxa de 0,7% ao ano, alcançando, em 1996, uma população de, aproximadamente,
2.091.770 habitantes.
Como resultado desse processo, o padrão de formação e localização dos domicílios
parece modificar-se. O número de domicílios na área central de Belo Horizonte tem caí-
do sistematicamente. Além disso, a proporção de pessoas que moram sozinhas, de domi-
cílios não-familiares e de domicílios com apenas um casal está também aumentando. Ao
mesmo tempo, novas características físicas do domicílio parecem surgir, como, por exem-
plo, um aumento no número de domicílios com apenas um dormitório, o surgimento e
construção de apart-hotéis e o aparecimento de condomínios fechados.
Analisando a Tabela 2, observa-se que o crescimento total do número de domicí-
lios ocupados em Belo Horizonte foi, durante a década de 1980, de, aproximadamente
2,5% ao ano e, entre 1991 e 1996, de 2,2% ao ano. A população de Belo Horizonte cres-
ceu a uma taxa de 1,2% ao ano e 0,7% no período 1991-1996, demonstrando um des-
compasso crescente no incremento das duas variáveis. É interessante notar que a conse-
qüência mais imediata desse fenômeno é a queda da relação habitante por domicílio, que
1 O município de Belo Hori- mantém uma tendência crescente de queda à medida que o tempo passa.1
zonte está subdividido politi-
camente em nove Adminis-
Quando se analisa esse processo em nível interno do município, nota-se que, na
trações Regionais e 81 década de 1980, as Regionais que apresentaram um maior crescimento, tanto em nú-
unidades de planejamento
(UPs). Essas divisões po- mero de domicílios quanto em número de habitantes, foram Venda Nova, Barreiro e
dem ser observadas nos Norte, que se destacam, seguidas pelas Regionais Pampulha e Nordeste, indicando a di-
mapas anexos.
reção da expansão da malha urbana do município durante a década. Por outro lado, as
Regionais mais populosas, como a Centro-Sul, a Noroeste e a Leste, apresentaram uma
desaceleração do seu crescimento, sendo que a Regional Leste chegou a ter perda lí-
quida de população.
Entre 1991 e 1996, todas as demais Regionais apresentaram um declínio no seu rit-
mo de crescimento, e, além da Regional Leste, que continua perdendo população em um
ritmo menos acelerado, a Regional Noroeste também passa a essa condição, nesse último
período. Quanto à taxa de crescimento do número de domicílios, as Regionais Centro-
Sul, Noroeste, Pampulha e Norte foram as que apresentaram uma taxa de crescimento su-
perior entre 1991-1996. Em relação aos anos de 1980-1991, as demais diminuíram o rit-
mo de expansão do número de domicílios ocupados. Ao mesmo tempo, todas as
Regionais apresentaram um decréscimo na relação habitante/domicílio, e, proporcional-
mente, a Regional Centro-Sul foi a que apresentou um maior decréscimo nessa relação.
Um outro dado relevante é o desequilíbrio da composição demográfica por sexo
(vide Tabela 3). Isso se deve, basicamente, à maior imigração feminina, bastante comum
em todas as cidades de grande porte da América Latina. Analisando a razão de sexos por
regional, observa-se que a Regional Centro-Sul é a que apresenta, em ambos os períodos
analisados, a razão mais baixa, e a Regional Barreiro, a mais alta. Entre 1991 e 1996,
constata-se que a razão de sexos aumentou (maior proporção de homens residindo) nas
Regionais Centro-Sul, Oeste e Venda Nova, havendo uma diminuição nas demais, e, no
município todo, a razão de sexo permaneceu praticamente a mesma, havendo um pe-
queno decréscimo.
A maior proporção de mulheres residentes, aliada a uma expectativa de vida maior
que a masculina, caracterizam, num futuro próximo, que a população idosa de Belo Ho-
rizonte, principalmente nas idades mais avançadas, será basicamente feminina.

74 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001


R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001

F R E D E R I C O
Tabela 2 – Distribuição da população e dos domicílios ocupados de Belo Horizonte por Regional, 1980-1996.

Regional* Domicílios Tx/cresc. População Res. Tx/cresc. Pop./Dom.

1980 1991 1996 80-91 91-96 1980 1991 1996 80-91 91-96 91 96

P O L E Y
Barreiro 31,700 51,359 58,896 4.48 2.78 154,743 220,872 237,046 3.29 1.42 4.3 4.0
Centro-Sul 56,399 70,138 77,607 2.00 2.04 238,971 249,862 256,661 0.41 0.54 3.6 3.3
Leste 57,791 64,964 67,457 1.07 0.76 261,626 254,035 243,302 -0.27 -0.86 3.9 3.6
Nordeste 45,674 61,158 65,718 2.69 1.45 211,138 247,774 251,126 1.47 0.27 4.1 3.8
Noroeste 74,826 86,401 92,541 1.32 1.38 337,765 339,002 336,230 0.03 -0.16 3.9 3.6

M A R T I N S
Norte 23,288 35,860 44,516 4.00 4.42 114,585 150,877 175,604 2.53 3.08 4.2 3.9
Oeste 50,080 62,296 68,340 2.00 1.87 235,650 249,059 252,345 0.50 0.26 4.0 3.7
Pampulha 16,695 25,638 31,518 3.98 4.22 80,284 106,330 120,865 2.59 2.60 4.1 3.8
Venda Nova 26,849 45,497 54,345 4.91 3.62 133,730 198,442 218,192 3.65 1.92 4.4 4.0

Total 383,302 503,311 560,938 2.51 2.19 1,768,492 2,016,253 2,091,371 1.20 0.73 4.0 3.7

F E R R E I R A
Fonte: IBGE, Censos Demográficos, 1980, 1991,1996.
75
E V O L U Ç Ã O U R B A N A E D E M O G R Á F I C A

Tabela 3 – Razão de sexos por administrações regionais, 1991-1996.

Regional 1991 1996 Dif.


Barreiro 0.9721 0.9627 -0.0095
Centro-Sul 0.7917 0.8151 0.0234
Leste 0.8709 0.8634 -0.0075
Nordeste 0.9066 0.8981 -0.0085
Noroeste 0.8935 0.8895 -0.0040
Oeste 0.8939 0.8970 0.0031
Pampulha 0.9320 0.9217 -0.0103
Norte 0.9484 0.9442 -0.0043
Venda Nova 0.9493 0.9511 0.0017
Belo Horizonte 0.8986 0.8984 -0.0002
Fonte: Censos Demográficos, IBGE, 1991 e 1996.

O ENVELHECIMENTO DA POPULAÇÃO

Ao se analisar o envelhecimento populacional, o primeiro fato que deve ser conside-


rado é a definição de “idoso”. Normalmente, tal definição possui um grande componente
subjetivo e é influenciada por vários fatores que abarcam, além do critério cronológico, o
envelhecimento biológico, psicológico e social. Em geral, são considerados idosos, numa
determinada sociedade, aqueles que, depois de terem passado pelas fases de crescimento
e maturidade, entram numa etapa de alteração de seus papéis sociais, com diminuição de
sua capacidade produtiva e relativa dependência para o desempenho de suas atividades
diárias. Na dificuldade de avaliar a perda de autonomia pessoal e diante da necessidade de
delimitar a população idosa, optou-se aqui pelo critério cronológico. Assim, de acordo
com a Organização das Nações Unidas, são consideradas idosas as pessoas com sessenta
anos ou mais, especificamente nos países em desenvolvimento, como o Brasil.
Ao se considerar o envelhecimento da população, nota-se que o indivíduo envelhe-
ce à medida que sua idade aumenta. Já uma população envelhece de acordo com o au-
mento da idade média do conjunto das pessoas que a compõe. Na realidade, pode-se con-
siderar que a idade média da população aumenta quando aumenta sua proporção de
idosos (Moreira,1997, p.77).
2 Dados de fecundidade e O rápido processo de Transição Demográfica pode fornecer elementos importantes
migração calculados e gen- para a compreensão das mudanças na estrutura etária da população. Especificamente, as
tilmente cedidos por André
Brás Goelguer. modificações da fecundidade desempenham um papel crucial no envelhecimento, tendo
3 De acordo com estimati-
também a mortalidade e a migração participações importantes, porém secundárias.
vas indiretas, o saldo mi- Em Belo Horizonte, assim como no resto do País, observa-se uma rápida queda das
gratório de Belo Horizonte
entre 1980 e 1990 foi de
taxas de fecundidade, iniciada por volta dos anos 60.
-106064, e entre 1991 e Para se ter uma idéia, a Taxa de Fecundidade Total do município, em 1980, situava-
1996 de -42128, respecti-
vamente com uma Taxa Lí- se em torno de 3,12 filhos por mulher. Em 1991, esta mesma taxa alcança o valor de 1,91
quida de Migração de -0,50 filho por mulher, abaixo, portanto, do nível de reposição da população.2
e -0,39. Como, normalmen-
te a migração é seletiva Mesmo não se calculando os efeitos da migração3 no processo de envelhecimento, a
por idades (basicamente maior parte desse fenômeno pelo qual o município tem passado se deve à queda da fe-
os jovens migram), esse fa-
to também estaria contri- cundidade, sem dúvida.
buindo marginalmente para
o envelhecimento de Belo
Quanto aos impactos do aumento da esperança de vida no envelhecimento, em um
Horizonte. primeiro momento, uma redução da mortalidade, especialmente nas populações de

76 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001


F R E D E R I C O P O L E Y M A R T I N S F E R R E I R A

fecundidade mais alta, rejuvenesce a estrutura etária da população. Os ganhos na esperan-


ça de vida, nesse caso, são especialmente pela redução da mortalidade infantil, sem mo-
dificar a participação dos idosos. Assim, Moreira (1997, p. 80) observa que:

Fica claro, também que, dentro do espectro de níveis de fecundidade e mortalidade con-
siderados como historicamente vivenciados pela humanidade, o processo de envelhecimento
populacional, seja o mesmo definido pelo topo, pela base ou pela idade média da população,
resulta quase que exclusivamente da queda da fecundidade. As mudanças nos níveis de mor-
talidade, dentro deste intervalo de níveis, têm apenas um impacto marginal sobre a estrutu-
ra etária.

Porém, quando os níveis de fecundidade já estão relativamente baixos e não existe


folga para maiores quedas, o efeito do envelhecimento pela queda da mortalidade, espe-
cialmente das populações adultas, torna-se mais visível. Assim, é o aumento da sobrevi-
vência da população idosa que determina o envelhecimento populacional. Tal fenômeno
é característico de vários países desenvolvidos e parece ser determinante para o envelheci-
mento de Belo Horizonte, em um futuro próximo.
Analisando o envelhecimento brasileiro em nível regional, Bercovich (1992, p.41)
sintetiza de forma interessante esse processo:

A distribuição espacial é produto da interação entre os componentes da dinâmica demo-


gráfica. A queda da fecundidade contribui para um aumento da participação relativa da po-
pulação idosa, ocasionada pela diminuição da proporção de crianças. Ao se processar regio-
nalmente com tempos e intensidades diferentes — como no caso do Brasil —
aprofundam-se os diferenciais regionais das proporções de população idosa. As variações de
mortalidade também afetam a proporção de idosos, mas, dependendo do padrão, podem in-
fluenciar em sentidos opostos. A migração, que é seletiva por faixa etária e sexo, afeta consi-
deravelmente a estrutura etária regional, seja aumentando a proporção de idosos nas regiões
de emigração e diminuindo-a nos centros de atração, seja alterando as razões de masculi-
nidade das regiões envolvidas.

Em Belo Horizonte, a Tabela 4 fornece a evolução percentual da população com


sessenta anos ou mais, bem como a diferença percentual entre os decênios até 1991 e o
qüinqüênio 1991-1996.

Tabela 4 – Proporção de população maior de 60 anos em Belo Horizonte, 1970-1996.

Ano (%) > 60 anos Anos Dif.


1996 8,29 1996-91 1,03
1991 7,26 1991-80 1,86
1980 5,40 1980-70 0,83
1970 4,57
Fonte: IBGE, Censos Demográficos 1970, 1980, 1991 e 1996.

Pode-se observar que, se entre as décadas de 1970 e 1980 houve um aumento de


0,83% na proporção da população maior de sessenta anos, entre 1980 e 1991 essa di-
ferença passa para 1,83%. Já na metade da década de 1990, o crescimento foi de 1,03%

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 77


E V O L U Ç Ã O U R B A N A E D E M O G R Á F I C A

em relação a 1991. Isso demonstra que a população de Belo Horizonte envelhece em


um ritmo crescente e acelerado.
Quando se analisa o processo de envelhecimento em nível interno do município,
observa-se que ele não se dá de forma homogênea no território. Existem áreas, em Belo
Horizonte, nas quais a estrutura etária de seus moradores é mais elevada que em outras.
A proporção da população com mais de 65 anos de idade por Regional já fornece al-
guns elementos para essa análise (vide Tabela 5).
É importante salientar que, quando se analisam aspectos demográficos como a es-
trutura etária em diferentes subdivisões espaciais em nível intra-urbano, a migração, ou
melhor dizendo, a mobilidade das famílias para diferentes domicílios em áreas e bairros
distintos passa a ter um papel fundamental no envelhecimento populacional de uma área,
além da própria queda da fecundidade.

Tabela 5 – Proporção de população maior de 65 anos por Regionais, 1991-1996.

Regional (%)> 65 anos 1991 (%)> 65 anos 1996 Cresc. Relativo*


(a) (b) (c)
Barreiro 2,70 3,39 25,56
Centro-Sul 7,67 8,71 13,56
Leste 5,02 6,83 36,06
Nordeste 4,38 5,25 19,86
Norte 3,23 3,87 19,81
Noroeste 4,71 6,43 36,52
Oeste 4,63 5,63 21,60
Pampulha 3,72 4,65 25,00
Venda Nova 2,92 3,57 22,26
Fonte: SMPL, 1999.
*c = (b – a)/a

Assim, analisando os anos de 1991 e 1996, observa-se um aumento da proporção


de idosos em todas as Regionais. A Regional Centro-Sul, tanto em 1991 como em 1996,
foi a que apresentou a maior proporção de população acima de 65 anos, seguida pelas
Regionais Leste e Noroeste, que mantêm suas posições nas duas datas analisadas. A Re-
gional Leste foi a que teve maior aumento de suas taxas, 1,81% a mais em 1996 em re-
lação a 1991, seguida pelas Regionais Noroeste, Centro-Sul e Pampulha. Quando se
analisa o aumento relativo da proporção de idosos (representado pela coluna c), pode-
se observar algumas tendências. A Regional Centro-Sul, que abriga a maior proporção
de idosos, foi, por outro lado, a que teve, relativamente, o menor crescimento de sua
proporção de idosos. As Regionais Leste e Noroeste, por sua vez, são as áreas cuja pro-
porção de idosos tem aumentado mais rapidamente. Áreas como Venda Nova, Barreiro
e Pampulha (normalmente “Regionais” de ocupação populacional mais recente), mes-
mo apresentando as menores proporções de idosos da cidade, têm um ritmo de cresci-
mento dessa proporção superior a Regionais como: Norte, Nordeste e Oeste. Parece ha-
ver, na área do município, uma tendência à homogeneização das proporções de pessoas
idosas residentes. Percebe-se, então, que áreas com menores proporções de idosos pos-
suem um ritmo de envelhecimento mais intenso, e áreas com maiores proporções, um
ritmo menor.

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F R E D E R I C O P O L E Y M A R T I N S F E R R E I R A

Para os domicílios, uma das conseqüências mais imediatas do envelhecimento seria


a mudança na proporção dos diferentes arranjos domiciliares, especialmente aqueles com
menor número de moradores (por exemplo, aumento dos domicílios unipessoais), domi-
cílios chefiados por mulheres idosas etc.
No caso de envelhecimento por aumento da esperança de vida (o chamado envelhe-
cimento pelo topo), considera-se que, numa mesma família, podem conviver três gerações
ou mais, podendo haver um aumento do número dos chamados domicílios estendidos. Por
outro lado, o aumento na expectativa de vida pode alongar a duração dos casamentos, es-
tendendo também o tempo de um potencial conflito marital com a ruptura de casais.

HIPÓTESES QUANTO À LOCALIZAÇÃO

É interessante observar que exatamente as áreas de ocupação mais antiga são aque-
las que possuem uma maior proporção de moradores idosos, como é o caso da Região
Centro-Sul. Áreas de ocupação mais recente, como Venda Nova, Barreiro e Norte, apre-
sentam uma menor percentagem de pessoas mais velhas. Esse processo pode ser mais bem
verificado nos mapas anexos (vide Mapas Evolução Urbana e Distribuição da População
Idosa). O número de domicílios com pessoas idosas decresce do centro da cidade (nor-
malmente área mais antiga) para a periferia ou áreas de ocupação mais recente.
Por outro lado, comparando-se as distribuições das populações idosas e da popula-
ção menor de cinco anos, dentro do município de Belo Horizonte (vide Mapas), obser-
va-se que as áreas centrais, que concentram a maior percentagem de pessoas idosas, são
também as áreas com a menor proporção de crianças menores de cinco anos. Isso indica,
provavelmente, a existência de um “gradiente” de complexidade4 entre os domicílios, que 4 Por nível de complexidade
domiciliar entende-se a
ocorre dos mais simples, na área da cidade, mais central, aos mais complexos nas áreas maior diversidade de pes-
mais distantes. Essa é uma hipótese a ser investigada. soas morando no mesmo
domicílio. Assim, um domicí-
Uma outra hipótese, que também poderia ser aventada, seria o fato de que as famí- lio unipessoal é “menos”
lias envelhecem com seus domicílios e, assim, as áreas de ocupação mais antiga também complexo do que um que
abriga somente um casal,
possuiriam, relativamente, uma maior percentagem de pessoas idosas. que é menos complexo do
Lee (1994) observa que devido ao fato de uma população de uma determinada re- que um domicílio composto
por casal e filhos e um pa-
gião ou área ser mais velha, ser dona do imóvel e ser moradora antiga, as chances de que rente etc.
elas se mudem para um novo endereço são menores do que em áreas cujos moradores não
apresentam as mesmas características.
Por outro lado, Rossi (1955) enfatiza os fatores relacionados a mudanças no ciclo de
vida como os determinantes da decisão de se mudar. Nessa perspectiva, mudanças no ci-
clo de vida, no tamanho, na composição por idades e no nível socioeconômico dos do-
micílios criam problemas com a atual residência, influenciando a demanda por diferentes
tipos de moradia e levando à mudança.
Nesse sentido, as taxas de mobilidade alcançam seu máximo nos primeiros anos da
idade adulta. A procura por emprego, o casamento e a transição nos estudos engendram
mudanças nas residências. Por outro lado, a presença de crianças no domicílio tende a de-
ter a mobilidade. Provavelmente, as crianças fazem que as famílias se mantenham em suas
casas e na sua vizinhança.
Quanto às mudanças devido ao aumento do número de pessoas no domicílio, Do-
ling (1976), analisando as estatísticas de moradores nas cidades norte-americanas, observa
que o típico casal recém-unido demanda, inicialmente, uma pequena residência em regiões

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 79


E V O L U Ç Ã O U R B A N A E D E M O G R Á F I C A

de alta densidade, próximas ao centro da cidade. As análises estatísticas, nas quais tal afir-
mação se baseou, também mostram, normalmente, que, com a idade e o aumento do ta-
manho da família, aumenta a demanda por espaço. Assim, essas famílias acabam por de-
5 Ao contrário dos subúr- mandar residências nos subúrbios5 (mais espaço). Quando o tamanho da família diminui
bios brasileiros, essas áreas
nas cidades americanas são
e os filhos se tornam adultos e saem das casas dos pais, haveria, na maioria das vezes, um
ocupadas pelas classes mé- retorno às pequenas habitações, junto a altas densidades e próximas ao centro urbano. Nes-
dias e altas, que demandam
grandes espaços para suas se caso, o acesso aos diferentes tipos de serviços, como proximidade de restaurantes, farmá-
residências. cias, serviços médicos e lazer, poderia ser um importante fator para a escolha da residência.
No caso específico dos idosos, Mutchler e Burr (1991) observam que a escolha de
onde e com quem viver pode ser complexa. Por exemplo, quando uma mulher se torna
idosa, suas obrigações na família, provavelmente, são alteradas pela perda de seu marido
ou pela saída dos filhos. Tais mudanças são imediatamente percebidas em seus arranjos de
vida. Mesmo se ela não se move fisicamente para outra casa, a composição do domicílio
à sua volta se modifica. Por outro lado, ela pode deparar-se com novas restrições, especial-
mente econômicas, que fazem que certos tipos de arranjos domiciliares sejam mais raros
ou mais comuns, levando até mesmo à mudança de moradia. Semelhantes características
e recursos, em combinação, ajudam a determinar as chances de se manter um domicílio
unipessoal, ceder a chefia do domicílio, mudar de casa ou entrar em uma instituição,
como um asilo.
No entanto, é possível que o aumento da riqueza domiciliar também esteja correla-
cionado com estágios do ciclo de vida. No caso das famílias, pode ser que esse fator assu-
ma uma grande importância na explicação das relações de mudança de domicílios. Assim,
se as famílias, nos sucessivos estágios do ciclo de vida, ocupam grandes casas, independen-
temente de sua localização e, se nos últimos estágios do ciclo de vida, não se observa um
retorno a casas menores, isso pode ser reflexo do aumento do poder de compra. Seria um
caso de aumento da riqueza com o envelhecimento, permitindo a aquisição de residên-
cias maiores e melhores.
Em Belo Horizonte, a análise indica ser pouco provável que os idosos de maior ren-
da estejam se mudando para casas maiores, mais afastadas do centro urbano, no caso. Em
certas áreas da cidade, especialmente as adjacentes ao centro (com grande acessibilidade e
oferta de serviços modernos), tem-se observado a construção de prédios de apartamentos
de luxo, flats e apart-hotéis voltados especialmente para pequenas famílias ou pessoas que
moram sozinhas e de alta renda (é o caso das regiões de Lourdes, Barro Preto e Savassi,
que apresentam elevadas proporções de idosos).
Por outro lado, o que parece ocorrer quanto aos reflexos das mudanças característi-
cas do ciclo de vida no espaço é que as áreas mais antigas abrigariam famílias cujo ciclo
de vida se encontra em estágios mais avançados (filhos já saíram de casa, morte de um dos
cônjuges, presença de chefes idosos etc). Quando o ciclo familiar chega ao fim, especial-
mente nas áreas mais antigas, parece ocorrer, além da dissolução da família, a dissolução
da unidade domiciliar com a mudança de seu uso.6 Seria esse o caso da área mais central
6 Muitas casas antigas no de Belo Horizonte, que nos últimos anos vem perdendo moradores (PBH, 1995).
centro de Belo Horizonte
têm cedido lugar a grandes
prédios de uso comercial e
de serviços. Por outro la-
do, prédios residenciais CONCLUSÕES
mais antigos no centro
têm-se deteriorado ou mu-
dado de uso. Este trabalho procurou reunir aspectos relativos às mudanças demográficas com ele-
mentos da evolução da ocupação do espaço urbano em Belo Horizonte.

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F R E D E R I C O P O L E Y M A R T I N S F E R R E I R A

Sem dúvida, um processo de síntese não é tarefa simples, especialmente no que se


refere aos marcos teóricos, em que boa parte das formulações foram desenvolvidas no es-
trangeiro e sem a devida análise crítica do contexto brasileiro. No entanto, algumas ob-
servações já podem ser feitas quanto ao desenvolvimento conjunto da análise intra-urba-
na e da demografia.
Ao contrário das análises que levam em consideração unidades espaciais mais agre-
gadas, como regiões, Estados ou mesmo países, baseadas fundamentalmente no agregado
de indivíduos, parece que a unidade de análise, por excelência, no nível urbano, é o do-
micílio. Nesse sentido, o domicílio, além de ser uma expressão física da satisfação de al-
gumas necessidades dos indivíduos, também indica carências, características que possuem
reflexos diretos em sua localização espacial (o endereço).
Um outro aspecto é a falta de instrumentos para se avaliar o impacto das mudan-
ças demográficas nos domicílios. Normalmente, as técnicas disponíveis privilegiam a
mensuração e a análise da modificação de atributos do indivíduo (como, por exemplo,
a fecundidade, a esperança de vida, o status migratório etc.), não se considerando as mu-
danças da família/domicílio de forma geral. Por isso, como no caso do processo de en- Frederico Poley Martins
velhecimento, foi necessário fazer uma caracterização demográfica genérica dos indiví- Ferreira, demógrafo, in-
tegra o Observatório de Po-
duos para, posteriormente, empreender-se uma análise do domicílio, o que de uma líticas Públicas da Região
Metropolitana de Belo Hori-
maneira ou de outra, representa o locus privilegiado de decisão sobre as distintas locali- zonte.
zações dentro da cidade. E-mail: poley@cedeplar.ufmg.br

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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rizonte, Fundação João Pinheiro/Seplan, 1996.
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VILLAÇA, F. Espaço intra-urbano no Brasil. São Paulo: Studio Nobel, 1998.

A B S T R A C T This paper analyses the ageing process of the population of Belo Hori-
zonte. In assessing past trends, this study compares the proportion of over-60s in 1991 with the
urban development process of the city in different years. The study uses the division of the city
area into “Planning Units” for data processing purposes.

K E Y W O R D S Ageing; location; evolution; Belo Horizonte.

82 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001


DE VILA OPERÁRIA
A CIDADE-COMPANHIA:
AS AGLOMERAÇÕES CRIADAS POR EMPRESAS
NO VOCABULÁRIO ESPECIALIZADO E VERNACULAR

TELMA DE BARROS CORREIA

R E S U M O A criação, por empresas, de aglomerações para abrigar seus funcionários é


um capítulo importante e pouco conhecido da urbanização brasileira. Vila operária, fazenda,
usina, bairro proletário, núcleo urbano, núcleo industrial, núcleo residencial, núcleo fabril,
cidade operária, cidade-companhia, cidade-empresa e cidade nova são algumas das designa-
ções que esses lugares têm recebido no Brasil, dependendo de suas características quanto a ta-
manho, forma, localização e condição político-administrativa, do tipo de atividade à qual es-
tão ligadas e do momento em que surgem. Este trabalho discute essas diferentes denominações,
investigando quando são introduzidas e o contexto em que são utilizadas. Tal abordagem não
visa apenas fazer um mapeamento do vocabulário empregado para designar esses lugares, mas
partir das diversas denominações para investigar o estatuto dessas aglomerações na urbaniza-
ção brasileira.

PALAVRAS -CHAVE Cidade; habitação; empresa; vocabulário especializado e


vernacular.

INTRODUÇÃO

No Brasil, a partir da segunda metade do século XIX, difundiu-se largamente a prá-


tica da construção, por empresas, de moradias para seus operários em cidades ou em lo-
calidades rurais. Tal prática deu origem a comunidades habitadas principalmente por em-
pregados de uma única companhia que possuía parte substancial do mercado imobiliário
e das casas e com, freqüência, também detinha o controle sobre os equipamentos e servi-
ços coletivos. No território nacional, esses assentamentos estavam ligados sobretudo a in-
dústrias têxteis, de papel, empresas de mineração, usinas de açúcar e frigoríficos.
Nas referências internacionais, esses lugares surgem com várias designações, como
company town, industrial village, cité ouvrière e cottage system. Em um estudo sobre a cons-
tituição e a forma de tais lugares nos Estados Unidos, a pesquisadora Margaret Crawford
usa o termo company town como uma forma genérica, enfatizando, entretanto, como ao
longo da trajetória da industrialização americana uma série de mudanças na indústria e
na geografia gerou uma sucessão de tipos de company town: a mill village, a corporate city,
o lumber camp, a mining town, o industrial suburb e a satellite city.
No Brasil, do mesmo modo, esses lugares têm sido nomeados de várias formas. Vi-
la operária, fazenda, usina, bairro proletário, núcleo urbano, núcleo residencial, núcleo fa-
bril, cidade operária, cidade-companhia, cidade-empresa e cidade nova são algumas das

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 83


D E V I L A O P E R Á R I A A C I D A D E - C O M P A N H I A

designações que essas aglomerações têm recebido entre nós, dependendo de suas caracte-
rísticas quanto a tamanho, forma, localização e condição político-administrativa, do tipo
de atividade à qual estão ligadas e do momento histórico em que surgem.
Este trabalho trata das diferentes formas de nomear tais lugares, discutindo o mo-
mento em que são introduzidas e investigando o contexto em que são utilizadas na lin-
guagem vernacular e na literatura especializada. Busca analisar como as denominações se
modificam, em relação às transformações ocorridas nesses lugares ao longo dos anos e aos
modos específicos de apreendê-los. Investiga não apenas as alterações nos termos empre-
gados, como as variações no sentido e no uso de um mesmo termo. Sob o último aspec-
to, mostra como uma mesma designação tem sido aplicada a situações diferentes, na bus-
ca de estabelecer relações positivas ou negativas entre coisas desiguais. Tal abordagem não
visa apenas fazer um mapeamento do vocabulário empregado para designar esses lugares,
mas partir das diversas denominações para investigar o estatuto dessas aglomerações na
urbanização brasileira. Em tal sentido, tratará também dos debates travados sobre a cate-
goria urbana de algumas dessas aglomerações e, em conseqüência, das discussões em tor-
no das palavras julgadas mais adequadas para designá-las.

DE VILA OPERÁRIA A BAIRRO PROLETÁRIO

Originalmente usado no Brasil para nomear um grupo de moradias destinadas a


operários de um mesmo empreendimento fabril, o termo “vila operária” logo seria esten-
dido para designar grupos de casas modestas semelhantes produzidas por outros agentes.
Sob a denominação “vila operária”, eram reunidas no país, até os anos trinta, as experiên-
cias mais diversas: conjuntos construídos por empresas imobiliárias para aluguel ou ven-
da a proletários urbanos, por empresas ferroviárias para seus funcionários, por indústrias,
minas, frigoríficos e usinas para seus operários, técnicos e administradores, e pelo Estado.
Posteriormente, o termo “conjunto habitacional” se difunde, tanto em referência às mo-
radias em blocos de apartamento, quanto às casas unifamiliares.
Nas primeiras décadas do século XX, as “vilas operárias” surgiam como modelo pri-
vilegiado de reforma da habitação do pobre urbano, a qual era apontada como um dos
problemas centrais da cidade. As “vilas operárias” definiam-se como um padrão de mora-
dia popular oposto à favela, ao mocambo e ao cortiço, supondo ordem, higiene e decên-
cia. O termo sugeria casas salubres e dotadas de ordem espacial interna, que se distinguia
da falta de higiene, de espaço e de conforto atribuída às casas dos pobres urbanos. Tam-
bém sugeria casas de famílias de trabalhadores estáveis, em oposição às misturas entre es-
tes últimos e os indivíduos afastados dos empregos regulares (autônomos, vadios, prosti-
tutas etc.), favorecidas pelas formas de moradia e relações de vizinhança nas habitações
coletivas e em moradias precárias.
A difusão do termo “vila operária” para designar tais grupos de casas, à medida que
ele é estendido dos empreendimentos fabris para aqueles realizados por empreendedores
imobiliários e pelo Estado, revela a grande aceitação do modelo pelas elites. O uso de uma
mesma designação aplicada a situações diferentes buscava estabelecer relações positivas
entre coisas desiguais. Procurando incorporar os significados positivos associados aos pro-
jetos habitacionais fabris do início do século, o Estado não apenas se inspira nesses pro-
jetos, como toma emprestado o nome “vila operária” ou “vila” para suas primeiras reali-
zações no campo da moradia. Os exemplos do uso dessa designação podem ser localizados

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T E L M A D E B A R R O S C O R R E I A

desde iniciativas pioneiras, como a da Fundação A Casa Operária, instituída pelo Gover-
no do Estado de Pernambuco, que edificou em 1924, no Recife, a Vila Operária Paz e
Trabalho. Nos anos quarenta, essa forma de nomear os grupos de moradias persiste nos
institutos de aposentadorias e pensões. Um exemplo é a Vila Operária Previdência cons-
truída pelo Ipase, no Rio de Janeiro, cujo projeto reunia casas e blocos de apartamentos
destinados a aluguel e venda.
No que diz respeito às habitações construídas por indústrias para seus operários, o
termo “vila operária” era utilizado simultaneamente para designar grupos de casas cons-
truídos no centro e nos subúrbios afastados das cidades, ou em localidades rurais.
O termo surge para designar aglomerações isoladas no campo, como, por exemplo,
em um projeto de construção de uma grande metalúrgica em Frutal, publicado em 1920,
no qual há menção à construção de uma “villa operaria” com 2.500 casas. Camaragibe é
referida como uma “villa operária” na fala de conferencistas do Congresso Católico, ocor-
rido em 1902, e em um boletim da Companhia Industrial Pernambucana para a Exposi-
ção Nacional de 1908, quando contava com 123 casas, dois alojamentos para solteiros,
duas escolas, armazém, padaria, consultório médico e Círculo Operário.
No caso de grupos de moradias edificadas em cidades por empresas para seus operá-
rios, encontram-se referências à denominação “vila operária” desde o século XIX. Em
1895, matéria sobre a Companhia Empório Industrial do Norte, publicada na Gazeta de
Notícias, referia-se à “villa operária” que estava sendo erguida pela empresa em Salvador e
que já contava, na ocasião, com 258 casas, escola, creche, armazém, casas de banho e res-
taurante. Em 1922, fazia-se referência à “villa operária” – com 10 casas – da Companhia
Fiação e Tecidos Porto-Alegrense.
Tal designação continuou a ser empregada de forma indistinta ao longo do século XX.
Em 1939, por exemplo, matérias na imprensa pernambucana denominavam “villa operá-
ria” os conjuntos de moradias feitas por indústrias para seus operários, fossem eles localiza-
dos dentro ou na periferia de cidades, ou em localidades isoladas. Mencionava-se a “villa
operária” da Tecelagem de Seda e Algodão de Pernambuco, localizada no centro do Reci-
fe; a da Companhia de Fiação e Tecidos de Pernambuco S.A., situada no bairro da Torre;
a do Cotonifício Othon Bezerra de Mello S.A. e a da Fábrica da Tacaruna, localizadas na
periferia da cidade. Os conjuntos situados próximos a pequenas cidades do interior eram
tratados da mesma forma: fazia-se referência à “villa operária” da Companhia Industrial
Fiação e Tecidos Goyanna, na cidade de Goiana; à da Fiação e Tecelagem de Timbaúba, em
Timbaúba; à da Companhia Industrial Pirapama, em Escada, e à do Cotonifício José Ru-
fino, na cidade do Cabo. Paulista, na época já convertida em município autônomo, era
chamada de cidade, enquanto suas casas eram apresentadas como “trecho da villa operária”
da Companhia de Tecidos Paulista. Os núcleos residenciais situados em meio a proprieda-
des rurais de indústrias também eram tratados da mesma forma: mencionava-se a “villa
operária” da Societé Cotonnière Belge-Brésilienne, em Moreno, e a da Companhia Indus-
trial Pernambucana, em Camaragibe. Do mesmo modo, a aglomeração com mais de 700
casas, escolas, áreas para esportes, cinema etc., criada pela Companhia União Industrial, era
referida, em matéria da revista Cidade Mauricéa de 1940, como uma “vila operária”.
Semelhante tratamento generalizante contribui para ocultar as enormes diferenças
na forma de gestão dos moradores de casas construídas por indústrias em cidades existen-
tes e em localidades isoladas no campo, nas quais a fábrica cria uma “cidade” nova e tem
condições de gerir a vida do lugar com grande autonomia. Alguns autores nacionais dão
conta dessas diferenças, designando o último caso de “vilas cidadelas” ou “vilas casernas”.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 85


D E V I L A O P E R Á R I A A C I D A D E - C O M P A N H I A

Tanto no vocabulário especializado como no vernacular, o termo “vila operária” foi


o mais freqüente para nomear grupos de casas erguidas por fábricas desde o século XIX.
Poucos autores, entretanto, empenharam-se em explicitar o sentido dessa designação tão
amplamente utilizada. E quando tentaram, alguns não conseguiram evitar uma definição
genérica. Foi o caso, por exemplo, de José Agostinho dos Reis que, no Congresso Católi-
co ocorrido no Recife, em 1908, definia as vilas operárias como uma “reunião de famí-
lias, embora vivendo em suas casas independentes, mas reunidas pelos laços dos interes-
ses de ordem moral e material” (Reis, 1908). Os “interesses” referidos podem ser
entendidos como aqueles decorrentes de uma mesma classe social, como é o caso dos mo-
radores de conjuntos de casas feitos por fábricas para seus operários. Entretanto, nesses
casos, era freqüente haver junto às moradias destinadas aos operários casas melhores, des-
tinadas a funcionários que ocupavam postos de direção na empresa e, em alguns casos,
também ao proprietário da empresa.
Na imprensa, durante as décadas de 1940, 1950 e 1960, há muitas referências a “vi-
las operárias”: à “Vila Operária” da Companhia União Mercantil; à da Fiação Tecelagem
e Estamparia Ypiranga; à da Companhia Industrial de Cataguases; à da Cia. Valença In-
dustrial; às “vilas operárias” da Companhia Brasileira de Indústrias Metalúrgicas. Tal for-
ma de nomear surge, principalmente, referida a casos que reúnem um número não mui-
to grande de casas. Há, por exemplo, alusão, em 1955, à “Vila Operária” da Hering, com
52 casas, em Bom Retiro (Blumenau).
No caso de grupos de casas construídos por fábricas em cidades, observa-se que,
além de “vilas operárias”, podiam ser chamados – a partir da década de 1930 – de “bair-
ro proletário”. Em tal caso, a última designação pretendia indicar uma mudança de esca-
la. Assim, o engenheiro Baptista de Oliveira, em 1938, referia-se às “pequenas vilas ope-
rárias” de Juiz de Fora e a um “bairro proletário modelo” que estava sendo projetado pela
Companhia Industrial Mineira para seus operários. O autor, em 1939, reportava-se ao
mesmo empreendimento como um “bairro popular”, enquanto mencionava outras “vilas
populares” criadas por fábricas na cidade.
O uso dos termos “bairro proletário”, “bairro popular” e “vilas populares”, por ou-
tro lado, denuncia o desprestígio da forma “vila operária” a partir da década de 1930. Es-
se desprestígio evidencia o desgaste de um modelo apresentado no início do século como
capaz de contribuir de forma decisiva para a solução da questão da reprodução operária,
em termos de melhoria da saúde, de reforma moral e de fortalecimento dos laços fami-
liares. Mostrou-se não apenas incapaz de corresponder a essas expectativas, como de se
generaliza e atingir uma parcela predominante da força de trabalho. Assim, o modelo lo-
go revelaria suas contradições, ao construir uma reputação de restringir fortemente a li-
berdade individual e familiar e ao se revelar um mecanismo suplementar de subordina-
ção e exploração do trabalhador pelo patrão, desencadeando conflitos e contribuindo
para o agravamento das lutas sociais. Os núcleos fabris revelaram-se palco de importan-
tes lutas trabalhistas e foram alvo de denúncias sobre as condições de vida dos seus mo-
radores e sobre os conflitos sociais que neles tinham lugar. Não é à toa que lugares como
Paulista, em Pernambuco, e Nova Lima, em Minas Gerais, notabilizaram-se pela força de
seu movimento sindical e pelo elevado grau de politização de sua população, tendo sido
o local de sucessivas greves e constituindo-se em importantes bases eleitorais dos partidos
de esquerda.
Esse desprestígio do modelo e do termo “vila operária” também se evidencia na eli-
minação da palavra “operária” do nome de algumas vilas. Em todo o país, generaliza-se o

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T E L M A D E B A R R O S C O R R E I A

uso da palavra “vila” para nomear conjuntos de casas, em geral idênticas, dispostas ao lon-
go de rua ou de largo e que, muitas vezes, não tinham o caráter de logradouro público.
Exemplos nesse sentido podem ser localizados no Recife, no início da década de 1940,
com a Vila Iolanda, da Fábrica Iolanda, e a Vila Santa Luzia, da Companhia de Fiação e
Tecidos de Pernambuco. Um outro exemplo são os conjuntos de casas, edificados após a
Segunda Guerra pela Companhia Vale do Rio Doce em Itabira para seus operários, bati-
zados com nomes como Vila Piedade, Vila América e, já na década de 1960, Vila Paciên-
cia e Vila Coração de Jesus. No mesmo sentido, coloca-se o caso da Companhia Indus-
trial de Juta Taubaté que, em 1937, construiu a Vila Fabril de Juta e, em 1944, a Vila São
Geraldo. Essa forma surge também em núcleos erguidos por fábricas em localidades ru-
rais nas décadas de 1940 e 1950, e que se conservaram com dimensões reduzidas, como
a Vila Poty e a Vila Araripe, ambas em Pernambuco.
No caso de moradias edificadas por ferrovias, utilizou-se a designação “vila ferroviá-
ria”. O termo “vila” ocorre igualmente em alguns empreendimentos residenciais compos-
tos por casas unifamiliares criados pelos institutos de aposentadoria e pensões, nas déca-
das de 1930 e 1940, como a Villa Waldemar Falcão, criada pelo Instituto de
Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transporte e Cargas na Ilha do Governa-
dor; a Vila Comary e a Vila 3 de Outubro, construídas pelo Ipase. No Recife, foi criada
a Vila dos Comerciários, a Vila do Ipasep e a Vila do Hipódromo. O termo ainda foi apli-
cado nessa cidade para os grupos de casas destinadas a oficiais das forças armadas: Vila
dos Aprendizes de Marinheiro, Vila Ana Maria e Vila de Socorro. Também aglomerações
criadas por empresas de mineração e de geração de eletricidade adotam tal forma de de-
signação. Alguns exemplos são a Vila Cachoeirinha da Mineração Oriente Novo S. A., a
Vila Amazonas e a Vila da Serra do Navio, ambas da Indústria e Comércio de Minérios
S.A., a Vila de Cana Brava, da Sama, a Vila Residencial de Tucuruí, da Eletronorte.
Em outros casos – mais freqüentes a partir da década de 1940 –, a palavra “vila” tam-
bém desaparece. O grupo de casas construído pela Companhia Taubaté Industrial para
seus operários entre 1945 e 1947, por exemplo, foi batizado de “Jardim CTI”. O termo
“conjunto residencial”, que vinha sendo amplamente utilizado para designar empreendi-
mentos promovidos pelo Estado e pelos institutos de aposentadoria e pensões na década
de 1950, começa igualmente a ser estendido aos grupos de casas criados por indústrias.1 1 Em 1943, Attílio Correia
Lima referia-se ao empreen-
Em 1959, por exemplo, matéria em revista referia-se aos conjuntos residenciais da Usina dimento da Várzea do Car-
Amália, em Santa Rosa de Viterbo. mo, promovido pelo IAPI em
São Paulo, como “um núcleo
A substituição da palavra “vila” pela “conjunto” explica-se, parcialmente, pelo des- residencial operário”. Na dé-
prestígio crescente das vilas entre a população, diante do desgaste que o modelo sofre ao cada de 1950, entretanto, é
generalizado o termo “con-
construir uma reputação de lugar onde a liberdade individual e familiar é restrita. Tal re- junto residencial” para de-
putação atinge as diferentes modalidades de vila, relacionando-se ao controle da fábrica signar os empreendimentos
habitacionais do IAPI com-
sobre o cotidiano das famílias operárias; a ingerência dos vizinhos na vida doméstica dos postos por blocos de apar-
tamentos ou por blocos e
moradores de vilas erguidas por empresas construtoras; a disciplina rigorosa que preside casas. Exemplos neste sen-
às vilas militares. Por outro lado, tal substituição revela também mudanças de conteúdo tido são o Conjunto Residen-
cial da Penha no Rio; o Con-
e forma. O termo “conjunto habitacional” sugere uma alteração de escala, de forma e de junto Residencial Salgado
inserção na cidade. Sob o último aspecto, pressupõe uma área de uso residencial social- Filho junto à Fábrica Nacio-
nal de Motores; o Conjunto
mente homogênea, inserida num espaço urbano penetrado por uma divisão funcional. Residencial do Passo da
Enquanto o termo “vila operária” tem uma conotação social, moral e sanitária, o termo Areia em Porto Alegre.

“conjunto habitacional” vai mais além, incorporando a esses três atributos a noção de um
uso exclusivamente residencial (habitação e comércio e serviços locais), numa leitura da
cidade presidida por critérios funcionais.

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D E V I L A O P E R Á R I A A C I D A D E - C O M P A N H I A

A FAZENDA OU A VILA OPERÁRIA DA FAZENDA?

Embora a forma “vila operária” fosse amplamente usada no século XIX e nas primei-
ras décadas do século XX, ela não era a única empregada para nomear grupos de moradias
erguidas por empresas para seus funcionários. Naquele primeiro momento de difusão da
grande indústria no Brasil, esses grupos de casas, quando em localidades rurais, foram
muitas vezes referidos como “povoado” ou “vila” – indicando sua população reduzida e
sua subordinação política a uma cidade, sede de um município – ou como “fazenda” –,
indicando o vínculo agrário do empreendimento industrial.
Em 1903, o Indicador Geral do Estado de Alagoas tratava Fernão Velho – uma aglo-
meração, criada pela fábrica União Mercantil, que na ocasião contava com trinta casas e
11 quartos – como um povoado. Por outro lado, as mais de cem casas de Rio Largo – eri-
gida pela fábrica Progresso Industrial – eram qualificadas de “uma linda villa operaria”.
Nesse caso, a distinção entre povoado e vila operária parece decorrer da dimensão do lu-
gar e do padrão construtivo das moradias. Atitude semelhante pode ser observada no
“Álbum de Pernambuco”, publicado em 1919, onde as casas para trabalhadores construí-
das nas usinas de açúcar só são referidas como “villa operária” quando “perfeitamente
hygienicas”, como no caso das vilas destinadas aos operários da fábrica na Usina União.
Em outros casos, fala-se no “correr de casas da Usina Bamburril”, ou nas “casas isoladas
em fila” da Usina Alliança.
São significativos os exemplos nos quais a implantação de uma grande empresa – fá-
brica e mineradora – em uma antiga fazenda não impede que o lugar continue a ser qua-
lificado como uma fazenda. As terras da Companhia Morro Velho, em Nova Lima – in-
cluindo as áreas residenciais e de mineração –, eram referidos no século XIX como
“Fazenda Morro Velho” e “Fazenda Raposos”. Só em 1891, quando foi promovido de fre-
guesia a vila, o local da sede da Morro Velho passou a se chamar Vila Nova Lima. O nú-
cleo constituído, em fins do século XIX, pela Fábrica de Tecidos Santanense e por algu-
mas casas para seus operários, era conhecido como “Fazenda Cachoeira” ou como
“arraial”. “Fazenda Cachoeira” era também a denominação do local onde funcionava, des-
de 1877, a Fábrica de Tecidos Cachoeira – hoje município de Inimutaba –, a qual, desde
sua fundação, contava com “casinhas” para operários no seu entorno. Tal foi ainda o ca-
so do núcleo formado pela Fábrica Cachoeira Grande e pelas residências de seus empre-
gados a partir do final do século XIX, o qual era chamado de “Fazenda Cachoeira Gran-
de”. Matéria no Auxiliador da Indústria Nacional, de 1886, indicava que a “Fábrica de
Tecidos Brazil Industrial” estava situada na “Fazenda Macacos”, e contava com cerca de
oitenta casas para operários, além de enfermaria, escola e capela. O engenheiro Baptista
de Oliveira, em 1939, trata da Fábrica São João Evangelista, instalada em local denomi-
nado “Fazenda Floresta”, onde estaria sendo projetada uma “villa operaria”. Nesses casos,
a instalação da fábrica e a construção de moradias para seus operários não alteram – em
um primeiro momento – o entendimento do local como uma fazenda.
Foi o caso, igualmente, do núcleo habitacional criado, a partir 1912, pelo industrial
Delmiro Gouveia junto à sua fábrica de linhas de costura localizada junto a Pedra, um pe-
queno povoado no sertão de Alagoas. Entre os seus moradores e contemporâneos, o nú-
cleo residencial era referido como “Fazenda Rio Branco”, “Fazenda da Pedra”, “Vila Ope-
rária da Fazenda Rio Branco”, ou simplesmente como “a Pedra”, enquanto a povoação
preexistente – localizada junto à estação ferroviária – era chamada “Pedra Velha” ou “cida-
de livre”. Alguns contemporâneos destinguiam os dois lugares com as expressões “dentro

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T E L M A D E B A R R O S C O R R E I A

do arame” – em alusão à cerca que contornava o núcleo residencial e de produção fabril


– e “fora do arame”. É curioso observar como, embora o núcleo habitacional criado pela
fábrica fosse maior que a “Pedra Velha” – contando em 1917 com cerca de 250 casas, cha-
farizes, lavanderias e banheiros coletivos, loja, padaria, farmácia, feira semanal, escolas,
médico e dentista, cinema, pista de patinação, banda de música, posto do Correio e Te-
légrafo –, a denominação “cidade” lhe era negada e empregada em relação à última. Nes-
te caso, a condição fundiária do lugar e a autonomia dos habitantes parecem ser os ele-
mentos determinantes da designação. O núcleo da fábrica – pertencente à empresa e com
cotidiano controlado rigorosamente pelo industrial – permanecia uma fazenda ou uma vi-
la operária de fazenda, enquanto a Pedra Velha, embora um minúsculo povoado, era pro-
movido a “cidade”. A noção de cidade, no caso, prende-se ao caráter de um lugar cujo
acesso é livre, onde por princípio todos podem morar e circular, e cuja administração, leis
e justiça são públicas.

CIDADE OPERÁRIA,
CIDADE-EMPRESA E CIDADE-COMPANHIA
Várias aglomerações criadas por empresas têm sido referidas como “cidade operária”,
“cidade-empresa”, “cidade-companhia” ou “cidade nova”. O termo “cidade operária” co-
meça a ser utilizado no Brasil para designar essas aglomerações, sobretudo a partir da dé-
cada de 1930. Está associado a uma mudança de escala desses lugares, tanto decorrente
do crescimento de alguns e de sua emancipação e conversão em sedes de municípios,
quanto do surgimento de novos lugares com grandes dimensões, alguns decorrentes de
iniciativas governamentais.
Em 1912, Alfredo Cusano referia-se a “Maria Zélia” – núcleo residencial criado por
fábrica têxtil na periferia de São Paulo e dotado de 196 moradias, creche, escolas, arma-
zém, restaurante, teatro, igreja, salão de festas – como uma “pequena cidade operária”.
Foi, entretanto, a partir dos anos trinta, que tal designação se tornou mais usual. Assim,
no concurso promovido, em 1935, pela Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira para o
plano urbano de Monlevade, alguns participantes – como Ângelo Murgel e Lincoln Con-
tinentino – tratam como uma “cidade operária” a aglomeração prevista para contar ini-
cialmente com cerca de 300 casas, área para comércio, igreja, escola, clube, cinema e ar-
mazém de consumo. Mais atento às implicações que o nome “cidade” comporta, outro
concorrente, Lúcio Costa, opta por denominá-la “villa de Monlevade”.
No projeto elaborado por Attílio Correia Lima para Volta Redonda, e na maioria dos
documentos da CSN da década de 1940, o núcleo urbano que estava sendo planejado
junto à primeira siderúrgica brasileira é denominado de “cidade operária”. Tal designação
certamente decorria das dimensões previstas para o lugar que, inicialmente, deveria con-
tar com quatro mil casas e cerca de vinte mil moradores, além de ser dotado de equipa-
mentos e infra-estrutura urbana. A povoação preexistente de Santo Antônio é referida co-
mo “cidade antiga”. Os grupos de casas em Volta Redonda, diferenciados segundo a
posição do morador na hierarquia fabril, por sua vez eram chamados “vilas”: Vila Con-
forto e Vila Santa Cecília.
A aglomeração a ser criada pela Fábrica Nacional de Motores junto às suas instala-
ções em Duque de Caxias também é mencionada como “cidade operária” no parecer ela-
borado por Attílio Correia Lima, em 1943. Nesse mesmo ano, faz-se referência a uma “ci-
dade operária” em construção em Campos, pela Companhia de Cimento Portland Paraíso.

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Há casos em que o termo “vila operária” é aplicado a parte da aglomeração. Em Ca-


sa de Pedra, fundada pela CSN a partir de 1946, havia a chamada “Vila Rica”, onde mo-
ravam os engenheiros e administradores, e a “Vila Operária”, onde residiam os operários.
Matérias no jornal O Lingote, da CSN, referem-se à Casa de Pedra – que chegou a contar
com cerca de 500 casas, além de cinema, clube, hospital, escolas, igreja e comércio – ora
como uma “cidade operária”, ora como uma “vila operária”.
Ipatinga, criada a partir de 1956 e prevendo uma população inicial de cerca de 37
mil pessoas, foi denominada “cidade” desde o primeiro momento, enquanto os conjun-
tos de moradias nela edificados pela Usiminas eram chamados de “núcleos residenciais”.
A ambigüidade que preside ao estatuto de alguns desses lugares faz que um mesmo
local possa ser referido com diferentes nomeações. O fato é explicitado de forma exem-
plar pelo caso de Monte Alegre, empreendimento da Klabin no Paraná, implantado nu-
ma área de cerca de 200 mil hectares, incluindo uma grande fábrica de papel, um setor
florestal responsável pela extração e reflorestamento de madeira, uma estação de trata-
mento de água, oficinas mecânica e elétrica, fábrica de cloro e soda cáustica, usina hidre-
létrica, usina termoelétrica, mineração de carvão, represa, serrarias, olarias, estradas,
culturas agrícolas e vários núcleos residenciais com casas, infra-estrutura urbana e equipa-
mentos coletivos. Um dos núcleos – Lagoa – tinha hotel, escola, clube, capela e armazém.
Harmonia, construído a partir de 1943 junto às instalações fabris, era o maior dos nú-
cleos, reunindo, além de moradias, hotéis, pensões, igreja, hospital, escolas, armazém,
cinema, clubes, padaria e um pequeno comércio local. Foram criados ainda Mauá – um
assentamento junto à usina de eletricidade – e vários acampamentos florestais e colônias
agrícolas. Numa história das indústrias Klabin do Paraná, publicada pela própria empre-
sa em 1953, a área é chamada “Fazenda Monte Alegre” e as três aglomerações maiores –
Harmonia, Lagoa e Mauá – são referidas como “vilas”. No livro Monte Alegre, Cidade
Papel, escrito por Hellê Vellozo e publicado em 1974, o lugar é tratado ora como uma “fa-
zenda industrial”, ora como uma “cidade”. Já Karl Zappert, em matéria publicada em
1949, referia-se a Monte Alegre como uma “grande fazenda e cidade industrial”.

VILA OU CIDADE?

Um acirrado debate ocorreu a partir dos anos 30, quando algumas das aglomerações
criadas por empresas foram emancipadas, convertidas em sedes de municípios e começa-
ram a ser designadas como “cidades”. Tal designação foi objeto de controvérsias. O con-
trole das fábricas sobre a vida econômica e política local e, sobretudo, o monopólio sobre
a propriedade imobiliária que elas continuavam a deter, suscitaram um questionamento
acerca do estatuto das novas cidades.
Com efeito, considerar aglomerações com tais características como cidades significa,
em muitos casos, desprezar elementos essenciais ao estatuto de uma cidade. Vários crité-
rios podem ser utilizados para se definir uma cidade: uma aglomeração com, no mínimo,
quatro mil habitantes; uma aglomeração com população não-rural – não comprometida
com trabalhos agrícolas; um lugar que é sede de bispado ou da administração civil; um
lugar que garante autonomia individual e coletiva aos seus moradores. Uma aglomeração
isolada, fundada por empresa, dificilmente reúne todos esses atributos: pode atingir mais
de quatro mil moradores, sua população pode estar envolvida com atividades urbanas,
pode ser sede de um município, mas dificilmente oferece autonomia a seus moradores.

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As designações “cidade operária” e “cidade-empresa” buscam responder às especifici-


dades dessas “cidades”. No primeiro caso, a particularidade é buscada em sua população
composta predominantemente por operários; no segundo, enfatizam-se os estreitos vín-
culos entre a aglomeração e a empresa que detém a propriedade de grande parte ou da to-
talidade dos imóveis do lugar e que emprega a maioria de sua população. Ambas as de-
signações, entretanto, não superam o impasse de atribuir o estatuto de cidade a um lugar
privado, destituído das condições e atributos indispensáveis a uma verdadeira vida urbana.
Em torno da pertinência, ou não, da palavra “cidade” para nomear uma aglomera-
ção criada e gerida por fábrica, desenvolveu-se, nos anos 40, um acirrado debate em Pau-
lista. Nesse debate, mobilizou-se o conceito de “cidade incompleta”, ou que precisa ser li-
bertada. Nas falas de sindicalistas e de políticos de esquerda ou opositores dos industriais
de Paulista, o lugar recebia com freqüência a denominação de “feudo”. A idéia de cidade
só é incorporada sem restrições a Paulista depois que a fábrica perde o monopólio fundiá-
rio e o controle político sobre a cidade.
O Grupo Lundgren criou dois importantes núcleos residenciais junto às suas fábri-
cas têxteis: Paulista, fundada em área rural situada no município de Olinda, em Pernam-
buco, e Rio Tinto, criada em antigo engenho, na Paraíba. Ambos atingiram dimensões
surpreendentes para aglomerações de tal natureza: Paulista chegou a contar com cerca de
seis mil casas, e Rio Tinto com cerca de três mil. O censo de 1950 indica Rio Tinto co-
mo a terceira maior cidade da Paraíba, com uma população de 18.774 pessoas. Na oca-
sião, a cidade de Paulista contava com 21.243 habitantes. Coerente com a tendência ge-
ral desse tipo de assentamento, ambas assumiram um caráter fortemente autárquico.
Paulista tinha fábricas têxteis, porto e ferrovia particulares, matas, cerâmica, atividades
agrícolas, serviço próprio de abastecimento d’água e energia elétrica, moradias, igreja, fei-
ra, parque, cinema, clínica, teatro, escola, clube e campos de futebol. Em Rio Tinto, a em-
presa também comandava um amplo conjunto de atividades produtivas e relacionadas à
reprodução dos trabalhadores: havia fábricas têxteis, porto, usina termoelétrica, matas, ati-
vidades agrícolas, ferrovia privada, fábrica de tijolos, serraria, oficina mecânica, fundição,
hotel, escolas, hospital, padaria, farmácia, clubes, cinema, feira e armazém de víveres.
Após esforços empreendidos pelos industriais junto ao governo estadual no sentido
de desmembrar de Olinda o distrito de Paulista, o lugar foi convertido em município,
em 1928. A empresa também pleiteou e obteve a conversão de Rio Tinto em município, em
1956. O interesse na criação desses municípios parece estar na possibilidade que seria
oferecida à indústria de controlar a administração de um município totalmente encrava-
do em suas terras e instrumentalizá-la aos seus interesses. Em Paulista, tal situação come-
çou a se modificar nos anos 40, quando se difunde a noção de que os chamados “feudos”
dos Lundgrens em Pernambuco e na Paraíba estariam convertendo-se em ameaça à segu-
rança nacional.
Paulista foi um dos primeiros municípios atingidos por artigo da Constituição do
Estado de Pernambuco de 1947 – originado de uma articulação do governador Agame-
non Magalhães (PSD) com deputados de esquerda – que estabeleceu que “as sedes dos Mu-
nicípios e Distritos não podem ser localizadas em terras encravadas em propriedades per-
tencentes a pessoas físicas ou jurídicas de direito privado, salvo quando patrimônio de
instituições religiosas ou beneficentes”. Com base em tal disposição, a prefeitura local de-
sapropriou posteriormente 50 hectares nos quais surgiu, nos anos 50, o chamado “bairro
livre”. Em 1949, Torres Galvão – deputado, pastor presbiteriano e ex-presidente do Sin-
dicato dos Operários de Paulista – justificava tal decisão alegando que:

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 91


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a principal característica de uma cidade é justamente a liberdade na mais ampla acepção do


termo: liberdade religiosa, liberdade política, liberdade de comércio e liberdade de construção;
e todos nós sabemos que estas liberdades não existem para uma população como a de Paulis-
ta, que vive sob o guarde férreo de uma empresa industrial, que, além de senhora da terra, é
ainda proprietária de todas as casas que formam a cidade (Apud, Leite Lopes, 1988, p. 507).

As investidas de alguns governantes estaduais e municipais no sentido de restringir


o poder dos industriais sobre Paulista deram origem a conflitos que se arrastaram por al-
guns anos, tendo havido por parte do prefeito Geraldo Alves, ligado à fábrica, tentativa
de anular o decreto de desapropriação, malograda pela oposição da Câmara de Vereado-
res. Em Rio Tinto, ao contrário, a fábrica conseguiu manter o monopólio das terras. As
pretensões de criar uma espécie de “cidade livre”, que constavam em projeto de um ve-
reador local, viram-se frustradas pela oposição da empresa.
O questionamento da condição de cidades a sedes de municípios encravadas em ter-
ras de um único proprietário, e que se conformaram de aglomerações criadas para abrigar
funcionários de uma mesma empresa, não esteve restrito ao caso de Paulista. Nova Lima,
em Minas Gerais, era definida por Roberto Costa, em 1955, como uma “cidade-latifún-
dio” e como um “feudo”, baseado no fato de a Companhia Morro Velho ser proprietária
de 495 quilômetros quadrados de terras contínuas, que representavam mais de 80% das
áreas dos municípios de Nova Lima e Raposos, cujos moradores dependiam direta ou in-
diretamente das atividades da empresa de mineração.
Em alguns casos, os termos “cidade” ou “vila” são atribuídos a aglomerações criadas
por indústrias em razão do tamanho e da condição político-administrativa; em outros ca-
sos, em decorrência do tipo de ocupação de sua população. Um exemplo disso é Galópo-
lis – vinculada à indústria têxtil – que é tratada em obra de 1950, escrita por Duminien-
se Paranhos Antunes, como uma vila, considerando-se sua dimensão e o fato de ser a sede
do terceiro distrito de Caxias do Sul. Da mesma forma, até 1979 – quando se converte em
bairro dessa cidade –, o lugar era referido na imprensa local como uma vila. Em 1948, por
outro lado, o geógrafo Orlando Valverde referia-se a Galópolis como um “núcleo urbano”
e acrescentava que “pela sua função Galópolis é … uma cidade, pois sua população traba-
lha, na maioria, dentro do próprio núcleo, na fábrica de tecidos” (Valverde, 1948, p. 46).
Essa discussão sobre o estatuto urbano de “cidades” pertencentes a empresas é incor-
porada ao projeto de lugares como Ouro Branco, no início da década de 1980, quando
se insistia na idéia de “tornar Ouro Branco uma ‘Cidade-Aberta’ e não uma ‘Cidade-
Companhia’, uma Cidade onde as pessoas sintam prazer em nela viver e ali vivendo, hão
de cooperar para a concretização da Açominas” (Açominas, 1980, p. 48).

“CIDADE NOVA” X “CIDADE VELHA”

Se as designações “cidade operária”, “cidade-empresa” ou simplesmente “cidade” são


discutíveis para algumas dessas aglomerações, o conceito de “cidade nova” acrescenta um
problema a mais. Neste caso, tanto pode ser questionável o termo “cidade” quanto o com-
plemento “nova”. O termo “cidade nova” fundamenta-se numa dicotomia entre novo e
antigo pouco esclarecedora. A questão essencial é definir em que sentido se trata de uma
“cidade nova”: se em termos da idade da aglomeração ou de aspectos inovadores incorpo-
rados à ordem social ou à sua forma urbana.

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Em termos da ordem social, experiências como a de Camaragibe, inspirada na dou-


trina social da Igreja católica sistematizada na encíclica Rerum Novarum, ou como a de
Pedra, fundamentada em um rigoroso “gerenciamento científico” do tempo e das ativida-
des dos moradores, podem ser consideradas inovadoras. Em termos da forma urbana e da
arquitetura, entretanto, os elementos inovados presentes em ambas as experiências são li-
mitados. Nos dois casos o ambiente construído assume uma expressão vernacular, à qual
são acopladas preocupações com higiene, privacidade e controle social, que expressam
uma tradução direta das necessidades industriais.
Uma inovação significativa na forma urbana de assentamentos criados por empresas
no Brasil ocorre em casos posteriores a 1930, quando o planejamento de alguns desses lu-
gares é assumido por especialistas – arquitetos, engenheiros e planejadores urbanos. A par-
tir desse momento, registram-se algumas experiências “modelo” – como Harmonia no Pa-
raná, e Ouro Branco em Minas Gerais –, cujos planos sociais e físicos se empenham em
amenizar os efeitos da lógica econômica, enfatizando uma ordem conceitual e uma forma
simbólica, que se descolam – em certa medida e durante certo período de tempo – das
demandas específicas da empresa que gerou o lugar. As especificidades desses casos pare-
cem traduzir-se melhor na sua definição como “experiências-modelo”, que como “cidades
novas”. A idéia de “modelo” assinala, inclusive, sua ocorrência rara, considerando-se o
conjunto das realizações do período.
Um problema a mais decorrente do termo “cidade nova” reside no fato de os termos
“cidade nova” e “cidade velha” serem com freqüência empregados na tradicional distinção
entre “cidade-empresa” e “cidade livre”. Presença constante nas proximidades de “núcleos
fabris” regidos por disciplina rígida, as “cidades livres” são aglomerações que surgem es-
pontaneamente e se expandem reunindo tudo o que é interditado nos limites pertencen-
tes às empresas. A autonomia de gestão de seus assentamentos pelas empresas permitiu,
em muitos casos, impedir o surgimento, neles, de atividades vistas como incompatíveis
em relação ao cotidiano regrado e produtivo que se pretendia impor à população, afastan-
do-se do local a presença de atividades, como bares, bordéis, sedes de sindicatos e de par-
tidos operários, templos de umbanda ou espíritas. A “cidade livre”, por sua vez, constitui-
se no reverso e complemento do núcleo urbano criado por empresa, reunindo tudo o que
é vetado nesses núcleos. Assim, surgiram lugares como Maricota, nas proximidades de
Paulista, e Pedra Velha, ao lado de Pedra, concentrando atividades como prostíbulos, tem-
plos protestantes e sede de sindicato. No mesmo sentido, ao lado de Volta Redonda cres-
ceu a antiga povoação de Santo Antônio, que ficou conhecida como “Cidade Velha”. En-
quanto na “cidade operária” se impunham códigos de disciplina rígidos, reprimindo-se
algazarras e bebidas alcoólicas, a “cidade velha” ia assumindo o papel de lugar do desvio
e da desordem. Sua configuração urbana espontânea encontrava paralelo na maior liber-
dade pessoal e política de seus habitantes. Essa compreensão do termo “cidade nova”, em
oposição a “cidade velha” ou “cidade livre”, revela-se distinto da idéia anterior de “cidade
nova” associada a planejamento e inovações projetuais, gerando confusão quanto ao sig-
nificado que se pretende conferir à expressão.

NÚCLEO URBANO E NÚCLEO FABRIL

Nos anos 30 e 40, novos termos – como “conjunto habitacional”, “núcleo indus-
trial”, “núcleo urbano”, “núcleo residencial” e “centro industrial” – são difundidos, reve-

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lando uma tendência crescente de aplicação, ao urbanismo, de noções e palavras da Físi-


ca, da Matemática e da Geometria. Quando referidas às aglomerações isoladas geradas por
empresas, as expressões “núcleo urbano”, “núcleo industrial”, “núcleo residencial” e “nú-
cleo fabril” indicam uma diferenciação das “vilas operárias”, traduzida sobretudo por uma
maior dimensão e por um caráter mais autônomo. Tais formas de nomear têm, por outro
lado, a vantagem de não estender de forma indiscriminada o conceito de cidade a esse ti-
po de aglomeração.
Publicações da Companhia Vale do Rio Doce referem-se a Carajás, no Pará, como
um “núcleo urbano”, ao mesmo tempo que qualificam os conjuntos de moradias cons-
truídas pela empresa na cidade de Itabira como “vilas operárias”. Núcleo Residencial do
Pilar foi o nome adotado pela Caraíba Metais S.A. para designar a aglomeração, criada
pela empresa em 1976, no sertão da Bahia.
Os termos “núcleo urbano” e “núcleo residencial”, entretanto, têm a desvantagem de
não especificar o caráter privado e associado a um único empreendimento produtivo des-
ses lugares. Nesse sentido, em se tratando de assentamentos isolados criados por indús-
trias, optamos, em nossos trabalhos sobre o tema, por chamá-los de “núcleos fabris”, e aos
grupos de casas localizadas dentro de cidades ou em subúrbios, de “vilas operárias”.

A DIVERSIDADE DE FORMAS E NOMES

Ao longo do século XX, ocorreu uma grande diversificação nos modos de nomear as
aglomerações erguidas por empresas para alojar seus funcionários, à qual correspondeu
uma maior diversidade na forma desses lugares – em termos de tamanho, arquitetura, for-
ma urbana e grau de autonomia em relação à empresa.
As diferentes formas de nomear vão privilegiando aspectos diversos do lugar. A pa-
lavra fazenda enfatizava a condição de inserção dos grupos de moradias em uma proprie-
dade rural particular. As formas vila operária, bairro proletário e cidade operária deslocam
o foco para a ocupação e classe social da população residente. Diferenciam-se entre si por
indicarem variações de escala: vila operária diz respeito a pequeno grupo de casas em ci-
dades ou no campo; bairro operário refere-se a um conjunto de casas de maiores propor-
ções situado em uma “cidade-aberta”; cidade operária aplica-se a uma localidade isolada
com um conjunto de moradias e serviços complementares e uma certa autonomia na vi-
da local, tanto em relação a outros centros urbanos, quanto à própria empresa que gerou
a aglomeração. Os termos núcleo urbano, núcleo residencial e núcleo fabril referem-se a
pequenas aglomerações isoladas, diferentes de uma cidade em termos de escala e do grau
de autonomia dos moradores e da vida local em relação à empresa. A denominação nú-
cleo fabril expressa o vínculo do lugar à indústria que o gerou. Assim como cidade ope-
rária, as formas cidade-companhia, cidade-empresa e cidade nova denotam uma amplia-
ção na escala da aglomeração. As formas de nomear cidade-companhia e cidade-empresa
enfatizam a estreita relação do lugar com a empresa que o criou. No caso do termo “cida-
de nova”, o foco dirige-se ao caráter peculiar – planejado e inovador – que presidiria ao
surgimento da aglomeração ou à sua oposição ante a “cidade velha”.
Entendemos que algumas destas formas de nomear são em si problemáticas, en-
quanto outras são muitas vezes empregadas de forma inadequada. No primeiro caso, si-
tua-se a expressão “cidade nova”, que não dá conta do vínculo entre o lugar e a empresa,
e mostra-se excessivamente genérica e incapaz de responder às especificidades desses

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T E L M A D E B A R R O S C O R R E I A

lugares. O uso da palavra “cidade” – cidade operária, cidade-companhia e cidade-empresa


–, por outro lado, requer muita cautela, para que se evite atribuir o estatuto de cidade a
lugares privados, destituídos das qualidades indispensáveis a uma verdadeira vida urbana.
Consideramos, por outro lado, que o problema essencial não está na diversidade das
denominações empregadas, mas exatamente na atitude oposta de tentar eleger um único
modo para nomear uma diversidade de formas urbanas distintas. As designações vila ope-
rária, núcleo operário, núcleo fabril, cidade operária, cidade-companhia ou cidade-
empresa podem ser pertinentes, dependendo das características do lugar. Aceitar tais di-
ferentes formas de nomear é um passo fundamental à compreensão da grande diversidade
de formas assumidas pelo ambiente construído desses lugares. Tal diversidade se expressa
em termos de tamanho, variando entre um pequeno grupo de moradias a grandes aglo-
merações com milhares de moradias e equipamentos coletivos; em termos de forma, nos
diversos estilos de arquitetura e de parcelamento e traçado viário; e em termos do grau de
autonomia, da vida local em relação à empresa.
Assim, julgamos pertinente nomear “vilas operárias” os grupos de casas – algumas
vezes acompanhados de equipamentos coletivos, como escola, igreja ou clube – locali-
zados dentro de cidades ou em subúrbios. Em se tratando de assentamentos isolados cria-
dos por indústrias, dotados de moradias e serviços essenciais, consideramos adequado
chamá-los “núcleos fabris” ou “núcleos operários”, quando conservam uma dimensão re-
duzida e as empresas mantêm o controle sobre a vida econômica e política do lugar e, so-
bretudo, o monopólio sobre a propriedade imobiliária. Embora em termos de tamanho
possam não se diferenciar das “vilas operárias”, afastam-se delas pelo isolamento em rela-
ção a outras aglomerações – com repercussões sobre o cotidiano local – e especialmente
pelo grau de autonomia da empresa na gestão do lugar. Os termos cidade-empresa, cida-
de-companhia e cidade operária aplicam-se, no nosso entender, aos casos nos quais uma
aglomeração isolada, fundada por empresa, reúne uma população de mais de quatro mil
moradores e envolvida com atividades urbanas, é sede de um município e oferece um cer-
to grau de autonomia pessoal e política a seus moradores. A perda do monopólio da fá-
brica sobre a propriedade fundiária e sobre os serviços coletivos e a independência da
administração local em relação à empresa são condições indispensáveis para garantir à po-
pulação a autonomia inerente a uma cidade. Assim, tal situação geralmente só se confi-
gura quando está em andamento um processo de desmonte; quando a empresa que cons-
truiu a aglomeração está se desvencilhando da propriedade e do controle do lugar,
mediante a venda de imóveis e o repasse dos serviços ao Estado ou a outras empresas pri-
vadas. Nesse sentido, trata-se de uma situação intermediária – em diversos sentidos – en-
tre um núcleo fabril e uma “cidade-aberta”.
Tal diversidade de modos de nomear esses lugares revela-se essencial para assinalar a
variedade de formas por eles assumidas ao longo dos anos. Tanto surgiram assentamentos
ligados a empresas com ordem urbana e social diversas, quanto ocorreram mudanças em
um mesmo assentamento. Como mostramos anteriormente, alguns desses lugares já fo-
ram citados ao longo de sua história como fazenda, vila e cidade, dependendo de suas ca-
racterísticas em cada momento ou do ponto de vista do observador.
Tal diversidade de formas urbanas e de modos de nomeá-las reflete os profundos im-
pactos da velocidade das mudanças no mundo industrial sobre os assentamentos criados
por empresas para abrigar seus operários, técnicos e gerentes. O ambiente construído des-
ses lugares, longe de constituir um objeto físico estático, revela-se o produto de um pro-
cesso dinâmico, definido pela transformação industrial, pelos conflitos de classe e pelo

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 95


D E V I L A O P E R Á R I A A C I D A D E - C O M P A N H I A

empenho de reformadores (incluindo arquitetos) em intervir nos rumos dessas mudanças


Telma de Barros Correia, e lutas. Recuperar a história desses núcleos no Brasil é, sob muitos aspectos, entender o
arquiteta, é professora do sentido das rápidas transformações de sua configuração espacial. Transformações que
Departamento de Arquitetu-
ra e Urbanismo da Escola de podem significar, muitas vezes, seu total desaparecimento após poucas décadas de existên-
Engenharia de São Carlos da
Universidade de São Paulo.
cia e que exigem, por outro lado, o recurso contínuo a novas designações capazes de
E-mail: tcorreia@sc.usp.br definir e precisar cada uma das formas novas assumidas por esses lugares.

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R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 97


D E V I L A O P E R Á R I A A C I D A D E - C O M P A N H I A

A B S T R A C T The creation of urban agglomerations by companies to house their


employees is an important and insufficiently studied chapter of Brazilian urbanization. The
Portuguese equivalent of workers’ tenement, farm, mill, workers’ district or township,
industrial centre, factory town and new town are some of the designations given to these places
in Brazil. These terms often reflect particular characteristics such as size, form, location,
political/juridical status and the type of industrial activity which gave rise to the
agglomeration. The current paper studies some of these designations, regarding their respective
contexts at the time when they were created. This approach not only attempts to provide a
guide to the vocabulary used to name these places but also investigates the role these
agglomerations have played in the process of Brazilian urbanization.

K E Y W O R D S Town; housing; company; specialist and vernacular vocabularies.

98 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001


R ESENHAS
A CIDADE DO PENSAMENTO do capitalismo periférico em sua face urbana: os valo-
ÚNICO – DESMANCHANDO res e visão de mundo que vêm sendo fixados, os sujei-
CONSENSOS tos e as instâncias de enunciação de discursos, a geo-
Otília Arantes, Carlos Vainer e Ermínia Maricato grafia da difusão dos mesmos, a construção de
Petrópolis, Editora Vozes, 2000. consensos, e como tais sentidos estabelecem as bases
cognitivas para a reformulação de políticas, práticas de
Fernanda Sánchez administração das cidades e práticas urbanísticas.
Ao evidenciar os profundos vínculos entre o cha-
O livro de Otília Arantes, Carlos Vainer e Ermí- mado planejamento estratégico de cidades e a hege-
nia Maricato, A cidade do pensamento único, ganha pre- monia neoliberal, Carlos Vainer preocupa-se em ins-
sença política no debate urbano desta virada de século crever esse modelo de planejamento no espaço social
ao romper com o silêncio opressivo e com o embota- de sua gênese e difusão. Na busca dessa inscrição, des-
do pensamento crítico que pareciam imperar nestes naturaliza a realidade como um dado objetivo do no-
tempos de globalização. É o campo da reflexão e con- vo planejamento e mostra seu avesso, para compreen-
fronto de idéias, da boa teoria entendida, aqui, como a der a realidade que vem sendo produzida: sujeitos
melhor prática, o escolhido por eles para atrapalhar sociais – agências multilateriais, experts internacionais
unanimidades cristalizadas e submeter aparentes para- e líderes políticos – que mediante ações subjetivas e
digmas a agudos questionamentos. objetivas elaboram, difundem e atualizam noções, ins-
A novidade está, justamente, na proposta de de- trumentos e modelos em múltiplas escalas do espaço
bate sobre a natureza das mudanças no planejamento global, a partir de centros de pensamento e difusão de
e na gestão das cidades na virada do século, proposta políticas públicas.
ousada, uma vez que tal debate parecia definhar junto É pela ação combinada desses sujeitos que, no
com o trabalho teórico, dobrados diante da aparente Brasil e em toda a América Latina, vem sendo difundi-
inexorabilidade da realidade que fundamenta a práti- do o planejamento estratégico como a grande saída pa-
ca trivializada. ra “tornar as cidades competitivas” e, desse modo, fazer
Entre os autores, percebem-se perspectivas ana- frente às novas condições impostas pelo processo de
líticas e ênfases diferenciadas, com um livre desloca- globalização. Vainer desvenda, por trás do festejado
mento entre as áreas do urbanismo, planejamento, modelo, um projeto de cidade articulado por três ana-
sociologia, ciência política e filosofia, diferenças e mo- logias constitutivas: a cidade é uma mercadoria e, como
vimentos que contribuem significativamente para a ri- tal, é colocada à venda em múltiplos mercados; a cida-
queza da obra. Há, porém, um movimento reflexivo de é uma empresa e, como tal, é reduzida a um centro
que confere unidade teórica aos diversos ensaios: a de administração de negócios; finalmente, a cidade é
atual hegemonia do capitalismo global, ao mesmo uma pátria, cujo destino depende de uma bem cons-
tempo que induz alinhamentos na esfera econômica, truída coesão cidadã em torno de um líder carismático
atinge em cheio o cerne dos processos de constituição e visionário. A pertinência dessa teorização parece for-
e legitimação de paradigmas. Nesse sentido, os autores talecida em outro ensaio do livro, dedicado especial-
dão relevância analítica à mútua dependência entre mente à análise do processo concreto de elaboração do
materialização e simbolização, que, segundo eles, Plano Estratégico da Cidade do Rio de Janeiro.
constrói as possibilidades históricas de efetivação dos Otília Arantes constrói sua argumentação explici-
interesses globais e seus agentes na nova espacialida- tando o encontro entre cultura e economia, segundo
de urbana. ela, molduras para os processos políticos dominantes
De fato, o universo de temas urbanos e a escolha nas sociedades urbanas contemporâneas. Lembrando
daqueles problemas apresentados como relevantes pa- Guy Debord que, na Sociedade do espetáculo, prenun-
recem profundamente reconfigurados nos últimos ciava que a cultura seria a “mercadoria vedete” desta
anos, perfilando uma verdadeira revolução simbólica. rodada do capitalismo (assim como o foram, em ou-
Os autores promovem a tarefa de desvendar critica- tros ciclos, a estrada de ferro e o automóvel), a autora
mente quais os sentidos dessa revolução na afirmação afirma que o capitalismo, em sua versão urbana

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 101


R E S E N H A

contemporânea, assume, de fato, uma forma cultural: sembocam numa concepção precisa, e instrumentali-
“A cultura é parte decisiva do mundo dos negócios e o zada, de cidadãos como consumidores da cidade.
é como grande negócio”. O modelo generalizou-se, virou receita difundida
Essa convergência é elucidada por Arantes ao dis- mundo afora. A cidade, transformada em mercadoria,
cutir, no plano teórico, uma série de processos e di- é posta em circulação e, mediante imagens que operam
mensões em que se casam o interesse econômico da a serviço dessa visão mercadológica, são descortinados
cultura e as alegações culturais das elites econômicas, seus atrativos comerciais, turísticos e culturais, na bus-
que cercam cidades como Barcelona, Bilbao, Paris, ca de atração de investimentos. Para dentro da cidade,
Baltimore, Berlim ou Lisboa, com seus governos mi- a mercadotecnia urbana gera uma visão de cidadania
diáticos, processos, por sinal, reeditados com agilidade que assalta, principalmente, os próprios cidadãos. Se-
em cidades periféricas bem embaixo de nossos pés. A duzidos pelo catálogo de espaços “renovados” e pelo
análise de tais processos, criativamente tecida no en- discurso da eficiência administrativa que estaria traba-
saio, mostra a existência de um “pensamento único das lhando a seu favor, eles encontram poderosas barreiras,
cidades”, próprio desta virada de século, uma matriz culturais e políticas, à sua expressão em movimentos de
conceitual e operativa comum na definição das estraté- resistência ou à participação em ações críticas, pois es-
gias urbanas. sas costumam ser esvaziadas, tomadas como manifesta-
O elenco de estratégias, que vêm sendo sistemati- ções de “desamor à cidade”.
camente adotadas, parece confirmar essa comunhão: Carlos Vainer vê na instauração da cidade-
grandes equipamentos públicos (museus, centros empresa uma negação radical da cidade enquanto es-
culturais) no repertório das políticas culturais para a paço político, de construção da cidadania; aponta para
reativação econômica dos lugares; arquitetura da gran- um encolhimento radical do espaço público, uma total
diosidade, assinada por algum astro de renome inter- subordinação do poder público às exigências do capi-
nacional; reabilitação de áreas urbanas (por meio de tal internacional com interesses localizados. Em sua
atração de investidores, atividades e moradores solven- construção teórica, ele mostra as imbricações entre
tes); promoção de megaeventos, ou mesmo preserva- cidade-empresa e cidade-pátria: a produtivização e o
ção de edifícios alçados à condição de patrimônio e consenso, bases permanentes para a cooperação
tornados emblemáticos dos programas de renovação público-privada, a cidade unificada sem brechas, trata-
urbana. Essas operações estratégicas são transformadas da como um bloco em torno de um projeto único que,
em iscas, grandes vitrines publicitárias da cidade- só assim, será vitorioso. A tendência à despolitização é
espetáculo, as quais buscam consagrar os projetos também identificada pelo autor na redução da questão
de cidade e despertar o espírito cívico, o orgulho, a sen- do governo da cidade à estreita questão da competên-
sação de pertencimento, ao mesmo tempo que se orien- cia técnica de seus administradores, cuja manifestação
tam para a neutralização dos conflitos, das diferenças. é perceptível, tanto nas práticas de planejamento quan-
O ensaio de Arantes vai além e mostra, junto to na produção teórica dessas práticas.
àquelas intervenções urbanísticas que produzem mate- O consenso construído em volta da cidade-
rialmente essa fase da modernização, outras dimensões mercadoria é desafiado, também, por Ermínia Maricato,
do casamento entre cultura e economia, as quais im- cujo ensaio se encarrega de mostrar o que não entra nas
primem novos valores às práticas de gestão: é a cidade contas do urbanismo de resultados e seus espaços de
pensada e administrada como uma empresa que com- distinção: o crescimento exponencial da cidade ilegal, a
pete no mercado global, é a cidade empreendedora, a enorme expansão espacial da pobreza, a violência urba-
“máquina do crescimento”, na expressão de Molotch, na, a exclusão. Esta é, para a autora, a cidade dissimu-
a qual conjuga governos e coalizões das elites econômi- lada, invisibilizada cultural e politicamente, cuja au-
cas num amplo leque de negócios, com suas fabulações sência faz parte das estratégias de dominação próprias
correlatas da geração de empregos e com suas metáfo- do capitalismo periférico e do urbanismo de mercado.
ras do bolo que cresce e derrama sua graça a todos os É como se o mundo real da pobreza urbana não
cidadãos; é a cultura da gestão eficiente e da qualidade fizesse parte da virtualidade da cidade reinventada
total na prestação de serviços, como caminhos que de- para os negócios. Quem vê o mundo pelos olhos do

102 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001


R E S E N H A

miraculoso “renascimento das cidades” para o mercado


global jamais verá a pobreza e a exclusão como proble-
mas. São dois mundos separados, que precisam igno-
rar-se para sobreviver. A dissimulação e o desconheci-
mento a respeito da cidade ilegal mostram a falta de
vontade política de enfrentar a questão da propriedade
da terra, um nó na sociedade brasileira que Maricato se
encarrega de sublinhar por meio da análise das leis e
planos urbanos e sua ineficácia, quando contrariam in-
teresses de proprietários imobiliários, ou quando o as-
sunto são os direitos sociais.
Para fazer frente à incorporação de modelos e re-
presentações reificadas, a autora propõe uma pauta de
pontos e propostas que abrem uma brecha para proces-
sos de planejamento que se pretendam socialmente in-
clusivos e democráticos. Uma contribuição corajosa
que pode alimentar projetos transformadores e que, no
contexto de discussão teórica e política do livro, tem
um papel destacável: chamar a atenção para o fosso
que separa as atuais orientações das políticas urbanas,
tornadas dominantes, e as orientações possíveis de pro-
jetos urbanos alternativos, baseados na construção da
igualdade, da cidadania plena e da justiça social.
Na cidade-marca da virada do século não cabem
os conflitos, as diferenças nem a profunda desigualda-
de socioespacial entre a cidade oficial e a cidade ilegal
que, como mostra Ermínia Maricato, não é a exceção,
mas a regra do nosso processo de urbanização. Indife-
rente à realidade escancarada pela autora: a cidade-
marca é configurada pelos modelos e parâmetros do-
minantes da cidade-mercadoria, da cidade-empresa e
da cidade-pátria. O desenho de tal marca é uma afir-
mação política da hegemonia do pensamento e ação
sobre as cidades, contra a qual os autores se situam, a
desafiar a aparente inexorabilidade dos cenários que
ele aponta.
Para finalizar, uma nota: a acolhida que essa obra
vem recebendo mostra que o esgotamento do debate é
apenas aparente. Ele pode até refletir uma estratégia
construída no campo da disputa simbólica: fazê-lo pa-
recer esgotado. Na contra-corrente, o debate mostra
sua vitalidade e sua potencialidade na reinscrição de
projetos capazes de disputar a hegemonia na cidade en-
tendida como “pólis”, reinventada como espaço do
exercício democrático da política.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001 103


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Tel.: (91) 211 1231 • Programa de Pós-Graduação em Urbanismo – PROURB / UFRJ
Tel.: (21) 2598 1670
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• Curso de Pós-Graduação em Economia – CAEN / UFC SÃO PAULO
Tel.: (85) 281 3272 • Curso de Mestrado em Administração Pública / FGV-SP
Tel.: (11) 3281 7763 e 281 7700
NATAL • Instituto de Pesquisas Econômicas – IPE / USP
• Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo / Tel.: (11) 3818 5886 e 3818 6078
UFRGN – Tel.: (84) 215 3776 e 215 3722 • Núcleo de Estudos Regionais e Urbanos – NERU
Tel.: (11) 33120 2188
RECIFE • Pós-Graduação em Geografia Humana / USP
• Centro Josué de Castro de Estudos e Pesquisas Tel.: (11) 3032 2217
Tel.: (81) 3423 2800 • Pós-Graduação em Engenharia de Construção Civil e Urbana / USP
• Mestrado em Desenvolvimento Urbano – MDU / UFPE Tel.: (11) 3818 5234
Tel.: (81) 3271 8311 • Programa de Pós-Graduação em Estruturas Ambientais e
• Programa de Pós-Graduação em Economia – UFPE Urbanas – FAU / USP – Tel.: (11) 3257 7837 e 3257 7688
Tel.: (81) 3271 8381
CAMPINAS (SP)
SALVADOR • Mestrado em Urbanismo / PUC-Campinas
• Núcleo de Pós-Graduação em Administração – NPGA / UFBA Tel.: (19) 3756 7088 e 3756 7196
Tel.: (71) 247 7297 - ramal 251 • Núcleo de Economia Social, Urbana e Regional – NESUR / IE /
• Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo / UFBA Unicamp – Tel.: (19) 3788 5775
Tel.: (71) 247 3803 • Núcleo de Estudos de Populacão – NEPO / Unicamp
Tel.: (19) 3788 5898 e 3788 5896
BRASÍLIA
• Mestrado em Geografia / UnB – Tel.: (61) 3072814 SÃO CARLOS (SP)
• Núcleo de Estudos Urbanos e Regionais – NEUR / UnB • Programa de Mestrado em Arquitetura / USP São Carlos
Tel.: (61) 307 2373 e 272 1909 Tel.: (16) 273 9311 e 273 9312
• Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo / • Programa de Pós-Graduação em Engenharia Urbana / UFSCar
UnB – Tel.: (61) 307 2452 Tel.: (16) 260 8295 e 260 8262

BELO HORIZONTE CURITIBA


• Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional – • Mestrado em Desenvolvimento Econômico / UFPR
Cedeplar / UFMG – Tel.: (31) 3279 9100 / 9086 Tel.: (41) 262 9719
• Programa de Pós-Graduação em Geografia / UFMG
Tel.: (31) 3499 5404 FLORIANÓPOLIS
• Programa de Pós-Graduação em Geografia / UFSC
RIO DE JANEIRO Tel.: (48) 331 9412
• Instituto Brasileiro de Administração Municipal – IBAM
Tel.: (21) 2537 7595 PORTO ALEGRE
• Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional – • Fundação de Economia e Estatística Siegfried Emanuel
IPPUR / UFRJ – Tel.: (21) 2598 1933 Heuser – FEE – Tel.: (51) 225 9187 e 225 9386
• Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro – • Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e
IUPERJ / UCAM – Tel.: (21) 2537 8020 Regional – PROPUR / UFRGS – Tel.: (51) 3316 3152

106 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 4 / MAIO 2001


REVISTA BRASILEIRA DE

ESTUDOS
publicação da associação nacional de pós-graduação

URBANOS
e pesquisa em planejamento urbano e regional

E REGIONAIS
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Todos os artigos recebidos serão submetidos ao Conselho Editorial, ao qual cabe a responsabilidade de reco-
mendar ou não a publicação. Serão publicados apenas artigos inéditos.
Os trabalhos deverão ser encaminhados em disquete (Word 6.0 ou 7.0, tabelas e gráficos em Excel) e em três
vias impressas, digitadas em espaço 1.5, fonte Arial tamanho 11, margens 2.5, tendo no máximo 20 (vinte) pági-
nas, incluindo tabelas, gráficos, figuras e referências bibliográficas, acompanhados de um resumo em português e
outro em inglês, contendo entre 100 (cem) e 150 (cento e cinqüenta) palavras, com indicação de 5 (cinco) a 7 (se-
te) palavras-chave. Devem apresentar em apenas uma das cópias as seguintes informações: nome do autor, sua for-
mação básica e titulação acadêmica, atividade que exerce, instituição em que trabalha e e-mail, além de telefone e
endereço para correspondência. Os originais não serão devolvidos.
Os títulos do artigo, capítulos e subcapítulos deverão ser ordenados da seguinte maneira:
Título 1: Arial, tamanho 14, normal, negrito.
Título 2: Arial, tamanho 12, normal, negrito.
Título 3: Arial, tamanho 11, itálico, negrito.
As referências bibliográficas deverão ser colocadas no final do artigo, de acordo com os exemplos abaixo:
GODARD, O. “Environnement, modes de coordination et systèmes de légitimité: analyse de la catégorie de patri-
moine naturel”. Revue Economique, Paris, n.2, p.215-42, mars 1990.
BENEVOLO, L. História da arquitetura moderna. São Paulo: Perspectiva, 1981.
Se houver até três autores, todos devem ser citados; se mais de três, devem ser citados os coordenadores, orga-
nizadores ou editores da obra, por exemplo: SOUZA, J. C. (Ed.). A experiência. São Paulo: Vozes, 1979; ou ainda,
a expressão “et al” (SOUZA, P. S. et al.). Quando houver citações de mesmo autor com a mesma data, a primeira
data deve vir acompanhada da letra “a”, a segunda da letra “b”, e assim por diante. Ex.: 1999a, 1999b, etc. Quan-
do não houver a informação, use as siglas “s.n.”, “s.l.” e “s.d.” para, respectivamente, sine nomine (sem editora), sine
loco (sem o local de edição) e sine data (sem referência de data), por exemplo: SILVA, S. H. A casa. s.l.: s.n., s.d. No
mais, as referências bibliográficas devem seguir as normas estabelecidas pela Associação Brasileira de Normas Téc-
nicas (ABNT). Para citações dentro do texto, será utilizado o sistema autor-data. Ex.: (Harvey, 1983, p.15) A indi-
cação de capítulo e/ou volume é opcional. Linhas sublinhadas e palavras em negrito deverão ser evitadas. As cita-
ções de terceiros deverão vir entre aspas. Notas e comentários deverão ser reduzidos tanto quanto possível. Quando
indispensáveis, deverão vir em pé de página, em fonte Arial, tamanho 9.
Os editores se reservam o direito de não publicar artigos que, mesmo selecionados, não estejam rigorosamen-
te de acordo com estas instruções.
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Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo – PPG/AU
Faculdade de Arquitetura
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Tel.: (71) 247-3803 Fax: (71) 247-3511
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