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COIMBRA
a
ESTAÇÃO
6.
da Cena Lusófona
distribuição gratuita
Centros de Intercâmbio Teatral
Guiné-Bissau São Tomé e Príncipe
BRASIL um novo impulso na CPLP?
cenaberta editorial
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Depois de um ensaio a que chamámos número zero, sai agora o número um do jornal cenaberta, o primeiro de uma série que este ano com- preenderá quatro edições e, a partir de Julho, também uma edição online com actualização constante. |
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Cenaberta é um pequeno jornal que pretende dar conta das múltiplas activi- dades de intercâmbio teatral e cultural que se desenvolvem no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e contribuir para a reflexão sobre os modos e as práticas dessa troca. |
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As actividades da Cena Lusófona, realizadas nos últimos meses, ocupam grande parte do espaço neste número. |
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Cena Lusófona é o lugar de onde parte esta publicação e esse lugar con- fere-lhe uma marca natural que não pretende ser ocultada. Essas actividades foram, na realidade, momentos significativos na vida de uma rede com centenas de agentes e presença em todos os países da Comunidade, na vida de um movimento que tem produzido experiências e resultados que não podem ser ignorados e representam saltos qualitativos rumo a uma comunidade artística efectiva e dialogante. |
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Por isso, merecem destaque nestas páginas alguns indícios da afirmação de um novo Brasil, que deu posse de ministro a um artista e que se apresenta agora como parceiro activo neste plano de troca cultural, como ainda recentemente o demonstrou ao organizar um seminário em Salvador dedicado ao tema. |
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A importância da entrada activa do Brasil neste processo é, não só significa- tiva, como essencial, e deseja-se que arraste consigo um entendimento com Portugal nesta matéria, que implique, finalmente, a definição de uma política cultural na CPLP com participação alargada dos agentes e não confinada, |
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como até aqui, à ruminação estéril dos gabinetes.
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António Augusto Barros |
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ficha técnica |
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Director António Augusto Barros Redacção Augusto Baptista (coordenação e fotografia),António José Silva, Cátia Faísco e Tiago Boavida Concepção gráfica Ana Rosa Assunção |
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Colaboraram nesta edição António Nóbrega, Armindo Bião, Eduardo Moreira, FBA. (mo- tivos gráficos da Estação), Luiz Paulo Vasconcellos, Luciano Alabarse, Naum Alves de Souza, Pedro Rodrigues, Silvana Garcia |
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Publicidade Linda Barreiro |
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N.º 1 distribuição gratuita Tiragem 1250 exemplares Impressão Tipografia Ediliber |
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Propriedade |
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Cena Lusófona . Associação Portuguesa para o Intercâmbio Teatral Rua António José de Almeida, n.º 2 3000 - 040 COIMBRA, Portugal |
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Tel.: (+351) 239 836 679 Fax.: (+351) 239 836 476 teatro@cenalusofona.pt http://www.cenalusofona.pt |
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Alto patrocínio |
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Uma Estação
Na vida da Cena Lusófona várias foram países da CPLP: Moçambique, Brasil, A última Estação, a 6.ª, palco em lugar, enfim, onde tudo começou.
Mais do que um Festival, que também o foi, a última Estação da Cena Lusófona, reali- zada em co-produção com Coimbra Capital Nacional da Cultura 2003, correspondeu ao cruzamento — num mesmo espaço e tempo — de múltiplos percursos teatrais do universo da lusofonia. A par disso, também de Música, de Cinema, de debate e Cultura foi feita esta 6.ª Estação da Cena Lusófona em Coimbra, entre 5 e 15 de Dezembro de 2003. Confluiu também nesta Estação o esforço estruturador da Cena no universo da CPLP, através dos CIT’s, Centros de Intercâmbio Teatral, com prioridade para os da Guiné-Bis- sau e de São Tomé e Príncipe. Os grupos teatrais que em Coimbra representaram os dois referidos países fizeram-no após um ano de trabalho nas co-produções, mobilizando contactos, inter- câmbios,trânsito de formadores,ensaios.Uma prática em que os CIT’s locais revelaram a sua importância e papel.
Co-produção inesperada foi apresentada por actores moçambicanos na Estação, mobi- lizando elementos oriundos de Moçambique e outros a residirem em Portugal, todos convergindo numa rica experiência de palco, olhos postos em temáticas sociais e na reali- dade africana. Também o 3.º Estágio Internacional de Actores Lusófonos, congregando partici- pantes de Portugal, Brasil, Cabo Verde, Angola, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, assentou arraiais em Coimbra durante quatro meses, “A Escola da Noite” como companhia de acolhimento e formação. Desta experiência resultou a construção do espectáculo “O Horácio”, de Heiner Müller, dirigido por Pierre Voltz, com estreia a 28 de Novembro e posteriores presenças na Estação. Ainda no âmbito teatral — e além das importantes presenças de grupos e actores do Brasil, de Angola, da Galiza, de Cabo Ver- de, da Companhia de Teatro de Braga, da
"Pedro Andrade, a Tartaruga e o Gigante", Cena Só, São Tomé e Príncipe
cenaberta 2
na vida da Cena Lusófona
as Estações, concretizadas em diferentes Cabo Verde, Portugal, São Tomé e Príncipe. Dezembro de 2003, foi em Coimbra. O
Quinta Parede — houve dois espaços suplementares de encontro: a “Tertúlia dos Dramaturgos” e o “Espaço Brincante”. Na Tertúlia participaram dramaturgos, alguns já envolvidos no projecto, outros a in- tegrarem pela primeira vez acções da Cena Lusófona. Os debates, centrados no texto, no lugar do texto na dramaturgia de Língua Portuguesa,exploraram também novas pistas, horizontes e caminhos dramatúrgicos. De en- tre os integrantes nos trabalhos e discussões, alguns nomes: Naum Alves de Souza, Aimar Labaki, Cleise Mendes, Abel Neves, José Mena Abrantes, Cunha de Leiradella. O “Espaço Brincante” serviu para criar pontes entre a cultura tradicional dos vários países e as formas artísticas contemporâneas. Neste universo, António Nóbrega, velho companheiro de percurso, uma vez mais de- sempenhou papel central. «O seu trabalho concentra aquilo a que se poderia chamar a discussão identitária da cultura brasileira,
sabendo que ela é formada por um conjunto de contributos, nomeadamente os africanos e os portugueses, que nos engloba a todos», assinala António Augusto Barros. Também o “Bando de Teatro Olodum”, o “Teatrão” e os contadores de histórias Lena Wild, Cândido Pazó e Quico Cadaval deram inestimável contributo na animação deste Espaço. O Cinema teve destaque com o Ciclo Flora Gomes. E a Música garantiu assinalável presença, protagonizada por diversos artistas oriundos de várias latitudes da lusofonia: Cida Moreira,Virgínia Rodrigues, Ná Ozzetti, Luís Tatit, Zé Miguel Wisnik, António Nóbrega, Mário Lúcio. Este é o retrato sintético da 6.º Estação, um verdadeiro Festival pela exuberância da programação, um evento construído por uma paciente e continuada prática projectual,olhos
no futuro.
Hora de balanço
"Makbunhe", Os Fidalgos, Guiné-Bissau
Olhar crítico centrado na Estação, nas perspectivas futuras que se abrem, a palavra de António Augusto Barros, depoimento colhido por cenaberta.
A vários títulos,esta Estação foi realmente um momento muito forte, com grandes re- flexos internos, em todo este movimento apontado para criar comunidade artística dentro da CPLP. Penso que as pessoas ficaram muito mais motivadas para continuar o trabalho. Salvador da Baía quer organizar um Encontro que seja similar a uma Estação, ainda este ano, em No- vembro, com um Estágio, à semelhança dos que temos desenvolvido. Também estou convencido que demos um grande alento aos Centros de Inter- câmbio Teatral de Bissau e de São Tomé, e podemos esperar que muito brevemente se dêem passos do mesmo tipo em Moçambique e em Angola. Penso que do ponto de vista da estruturação da Cena por via dos CIT’s esta Estação foi um momento muito produtivo. Depois,apontou-se para o cruzamento de áreas que estão ligadas a experiências de pes- quisa. Nós estamos a desenvolver o projecto dos narradores de histórias, e isso passou também por aqui. As pessoas conheceram as linhas de acção, os filmes, os realizadores, viram os contadores galegos. Nesta frente de pesquisa, e com a vinda de António Nóbrega a Coimbra, deram-se passos para que no futuro
ele possa continuar a aprofundar a busca das
raízes históricas e culturais dos nossos vários povos. Outra das áreas é a dramaturgia. Esti- veram aqui nomes importantes na “Tertúlia dos Dramaturgos”. No Brasil houve uma aposta forte, com a presença de Cleise Mendes, Naum Alves de Souza,Aimar Labaki.
A estabelecer a ponte Brasil-Portugal: Cunha de
Leiradella. Abel Neves e José Mena Abrantes foram outros dos criadores participantes.
A Tertúlia foi também um momento para desenvolvermos projectos de fundo, como
seja o de editarmos uma Setepalcos dedicada
à dramaturgia de Língua Portuguesa. E, no
caso do Naum Alves de Souza, estamos no meio de um processo de publicação da sua obra, edição com reflexos em Portugal, no
Brasil, na CPLP. Presença de destaque nesta Estação foi
a de Flora Gomes, exemplo importante de
realizador dentro dos países africanos de Língua Oficial Portuguesa. Tinham passado aqui em Portugal algumas obras, mas nunca antes tinha sido percebida a dimensão do seu percurso artístico. Flora Gomes é um realizador com uma obra essencial, que parte muito da cultura lo-
cal guineense, interrogando o presente, parte muito da ligação do gesto quotidiano e con- temporâneo para o gesto mítico, no seu todo. Essa ligação sempre nos interessou muito no Teatro e de uma forma geral na Cultura e, portanto, justificava-se a apresentação do Flora, do seu cinema. Quisemos juntar ao Ciclo Flora Gomes a colaboração do CEIS 20 – Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, um Instituto de investigadores universitários, que veio com a sua participação neste programa legitimar e reconhecer a obra do cinesta. Depois,todo o lado musical nesta Estação foi muito desenvolvido. Isto não aconteceu por acaso.Tanto a Ná Ozzetti, como oWisnik, como o Tatit, como a Cida Moreira, a Virgínia Rodrigues, o Mário Lúcio, o António Nóbrega, são pessoas muito ligadas a experiências céni- cas e teatrais, que têm dado sérios contribu- tos ao Teatro, à palavra, à Língua que une esta Comunidade. Há ainda outras áreas que também fi- zeram o programa e lhe deram interesse. O Estágio Internacional de Actores vem logo à cabeça. Tivemos oportunidade, pela primeira vez, de fazer o Estágio e a Estação, as duas coisas
no mesmo ano e, melhor do que isso, de as ligar mesmo em termos de calendário. Isto foi possível num contexto muito especial, com as atenções viradas para a Coimbra Capital Nacional da Cultura. À justificação da Cena Lusófona realizar o programa em Coimbra, por ser a sua cidade-sede, havia este motivo acrescido. A par disso, as instituições artís-
ticas mostraram-se mais abertas ao acolhi- mento de programas especiais. Neste con- texto, valioso foi o contributo de “A Escola da Noite”, grupo que recebeu o Estágio, o orga- nizou, foi parceiro fundamental da Cena. Há outra coisa a destacar: a participação pela primeira vez de um grupo galego, o “Sarabela Teatro”. Esta foi mais uma etapa na aproximação à Galiza,processo iniciado com o projecto dos Contadores de Histórias — Can- dido Pazó (5.ª e 6.ª Estações), Quico Cadaval (6.ª Estação) — e que passou também pela organização do número da Setepalcos dedicado
ao Teatro Galego. Enfim, a vários títulos, esta Estação cor- respondeu a um importante ponto de chegada
e de partida. Foi um momento de reflexão
e de partilha, mas foi também trampolim de novas dinâmicas teatrais e culturais no espaço
da lusofonia.
cenaberta 3
Um estágio plural
"O Horácio", A Escola da Noite, Estágio Internacional de Actores
A Cena Lusófona,“A Escola da Noite” e Coimbra - Capital Nacional da Cultura 2003 organizaram, entre Setembro e Dezembro de 2003, o 3.º Estágio Interna- cional de Actores. Este estágio contou com a participação de sete actores oriundos
de Angola, Brasil (Porto Alegre, Salvador e São Paulo), Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, para além de seis actores portugueses.
O plano do Estágio consistiu essencial-
mente na inclusão dos actores nas activi- dades normais de uma companhia de teatro
profissional,“A Escola da Noite”, que fun- cionou ao mesmo tempo como instituição
de acolhimento e entidade formadora. Foi
proporcionado aos estagiários o contacto directo com as diferentes valências de uma estrutura deste tipo — actuação, encena- ção, dramaturgia, cenografia, figurinos, técnica de palco, produção e gestão —, tanto através da realização de pequenos workshops temáticos como, sobretudo, pelo acompanhamento diário do trabalho desenvolvido.
Na área específica do trabalho do actor, destacam-se ainda o estágio de três dias or- ganizado pelo grupo de teatro “O Bando”, sob a direcção de João Brites,Teresa Lima e Luca Aprea, bem como o exercício dirigido por Antônio Mercado, durante três semanas, apresentado aos participantes do Congresso Internacional de Literatu- ras Africanas Cinco Povos, Cinco Nações (organizado pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra). A fase final do Estágio consistiu na cons- trução do espectáculo “O Horácio”, de Heiner Müller, que estreou na Oficina Municipal do Teatro a 28 de Novembro. Dirigido por Pierre Voltz, encenador francês com larga experiência também no campo da formação de jovens actores, o processo de montagem deste espectáculo foi ainda aproveitado para desenvolver outras acções de formação no campo da dramaturgia (com Carlos Guimarães, especialista na obra de Müller) e da preparação do actor, com os contributos de António Amorim e
de Franck Manzoni.
A Cena Lusófona desafiou jovens oriundos de vários países da CPLP a juntarem-se ao elenco d'A Escola da Noite para, em conjunto, fazerem o terceiro Estágio Internacio- nal de Actores, EIA. E se em “O Horácio”, de Heiner Müller, “há muitos homens num só”, também no EIA foi assim. Isto a crer nos testemunhos dos protagonistas.
Amélia da Silva, Guiné-Bissau
Quando entrei no avião na Guiné sabia que estava a perseguir um sonho. Um sonho tor-
nado realidade quando, já em Coimbra, n’ “A
Escola da Noite”, encontrei pessoas de culturas
diferentes que apenas tinham em comum um Português com diferentes pronúncias.
De “O Horácio”, um dos momentos mais signi-
ficativos do Estágio, recordo: “o que nunca se esquece do passado, e o Horácio não matou a
irmã por maldade”. Às vezes a história fazia-me
lembrar o passado recente da minha terra.
Espero que este esforço da Cena Lusófona
de juntar, regularmente, pessoas de diferentes
culturas, onde cada um ensina e aprende, possa
ter continuidade.
Andrea Pozzi, São Paulo, Brasil
O EIA foi uma experiência que proporcionou
a nós actores/estagiários sair do pequeno mundo conhecido de nossos países e ousar abrir nossas mentes criativas e nossa sensibi-
lidade para um exercício mais do que teatral,
no sentido formal, mais uma oportunidade de
troca de experiências e culturas através de um
trabalho unificador.
Falar deste estágio é falar de uma experiência
marcante, que creio ter tocado a todos os
envolvidos, directa ou indirectamente: um tra-
balho corajoso de quem organiza e um presente
para os artistas que viveram esse processo.
Sílvia Brito, Portugal EIA 2003 - texturas, tintas e pigmentos
Quatro meses, catorze actores; Gil Vicente e
Abel Neves, obrigatório; o poder da palavra na
viagem da Língua;o actor consciente/encantado; o corpo respira e paira; a voz ouve-se e canta;
tai chi chuan; subida a Braga, Teatro Circo;
António Mercado, semiologia teatral, O Baile,
cinema teatral; Rui Knopfli, José Craveirinha,
Mena Abrantes; descida a Palmela, ao relento
n' O Bando, interioridade, corporalidade,
oralidade, serra, horizonte e mar; Congresso
de Literaturas Africanas; primeiro público; ner-
vos exóticos; novo fôlego; Pierre Voltz/Heiner
Müller; Horácio, Curiácio; ai ki dô com vara e
sabre; o colectivo, a guerra, a paz, a injustiça, a
sobrevivência;a resistência;o actor consciente/
cansado/encantado;desfeito e refeito;há muitos
homens num só; a festa; Estação em Coimbra;
teatro, música, palavras novas; descida a Évora,
Teatro Garcia de Resende;último sol de inverno;
o actor consciente/de partida. Projectos.
Sofia Lobo, Portugal
Participar de novo num EIA foi para mim um
privilégio: poder partilhar alguns meses da
minha vida com pessoas tão diversas, tendo
à partida apenas em comum com elas o gosto
pelo Teatro, uma maior ou menor experiência
na sua prática e o falarmos a mesma Língua,
ainda que com sabores muito próprios. De novo, partindo agora de outros pressupostos
e de uma outra base de trabalho (sublinhando
aspectos menos pessoais mas mais técnicos), a
troca foi muito forte. O trabalho foi intensivo
nas áreas que foram abordadas e o espectáculo/
produto final que apresentámos é motivo de
orgulho para todos nós, creio, para nós os que
acreditamos que há mais semelhanças do que
diferenças entre as pessoas e que essas mesmas diferenças podem ser motivo de aproximação
e de sustentáculo da criação artística, pela
estranheza que provocam e pela vontade de
comunicar que despoletam. Mas se falo de
privilégio é porque, para lá do trabalho que se
fez e mostrou, quem ficou mais rica fui eu, com
a partilha de uns sorrisos e de umas lágrimas
ora mais brancos ora mais pretos que guardei
no bolso e que espero saber convocar devida-
mente quando o Teatro de novo o justificar.
Érico Brás, Salvador, Brasil
Quando a gente passa por coisas gostosas e
saudosas em nossas vidas, é difícil esquecer.
Quando me chamaram para este estágio fiquei
feliz porque sabia que seria bom para minha
carreira de actor no Brasil, mas não imaginava a
influência que iria ter na minha vida: as pessoas com quem vivi, as coisas que aprendi, os desen tendimentos que tivemos, os abraços, os beijos (na boca, no rosto), os sentimentos, o lugar, en
-
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fim, tanta coisa que é difícil dizê-las todas. Hoje
sinto falta de tudo e de todos, mesmo sabendo
que em breve nos vamos encontrar. Agradeço à Cena Lusófona por proporcionar este momento na minha vida e na vida de muita
gente, ao “Bando de Teatro Olodum” que me
guia, à “A Escola da Noite” por me suportar, e
por ser tão organizada, e ao Teatro que ainda
continua sendo a forma de encontrar e dizer
coisas de todos os povos, línguas e raças.
João Ricardo, Porto Alegre, Brasil
De começo, o choque! Quem são estas pes-
soas? O que elas têm em comum comigo, além
da Língua Portuguesa, que vimos não se tratar
de uma, mas de várias Línguas Portuguesas, devido à diversidade de sotaques? O que vai acontecer? A resposta veio em cena.
Lançámo-nos num caminho tortuoso e que
foi o coração do EIA: a montagem de um
espectáculo feito em conjunto entre “A Escola
da Noite” e os actores oriundos de Países de
Língua Portuguesa. Sendo um grupo absolutamente sui generis, a
fricção gerada pelas nossas diferenças culturais,
sociais e ideológicas, trouxe, para o dia-a-dia
de trabalhos em conjunto, a própria ideia de
conflito positivo, no sentido de aprender com a
diferença,aprender olhando directo no humano.
Estes conflitos, estas fricções entre realidades
tão diversas, só nos enriqueceu.
O senhor Voltz, nosso encenador, soube usar
este potencial criativo dentro da montagem,
abrindo espaço para que, em cena aberta, sus-
tentássemos nosso ponto de vista sem largar
a ideia de estar fazendo parte de um todo, de
uma comunidade de criação, de uma peça de
teatro. O resultado foi este espectáculo colec-
tivo, mas de sabor absolutamente pessoal para
cada um de nós.
Ricardo Correia, Portugal
"Há muitos homens num só":a máxima repetida
pelos romanos na peça de Heiner Müller vale
para “O Horácio” e para cada um dos actores
do EIA, que, na diversidade de práticas artísticas
-
e culturais,contaminaram o grupo e deram sen
tido e significado ao que deveria ser a CPLP.
O EIA foi o resultado de uma fogueira de
-
sonhos, cores e inquietações de pessoas uni
das pelo idioma, mas sobretudo pelo amor ao
Teatro.
Como diria o Cota Vírgula no início de cada
espectáculo: «Sílvia, estamos prontos». E já
agora: «Queremos mais »
Carlos Marques, Portugal
O ponto de encontro entre os treze actores
participantes no EIA, oriundos de culturas tão diferentes,foi a diversidade:o que nos distinguia
individualmente fez a união do grupo.
Nestes quatro curtos meses do Estágio, com-
panheirismo e teatro caminharam lado a lado.
A experiência profissional e humana de cada
um dos participantes enriqueceu o colectivo,
motivou a partilha de culturas.
Deste modo se apreendem técnicas e éticas,
o actor cresce e recicla-se. Não deveria ser
sempre assim?
Carla Sequeira, Cabo Verde
O Estágio foi para mim uma experiência muito
forte e enriquecedora que me ajudou a descor- tinar incógnitas e a abrir portas deste mundo
maravilhoso que é o Teatro. Que a Cena Lusó-
fona tenha muitos anos de vida, para que outros
jovens usufruam também deste espaço.
cenaberta 4
Cruzar culturas
Naum Alves de Souza, dramaturgo brasileiro, elege a 6.ª Estação, «num mundo tão dominado pelos americanos», como um elixir revigorante: «A Cena Lusófona traz-nos uma realidade que nos dá orgulho. Quando somamos nossas literaturas, nossa cultura, parece que eu saio daqui com mais força». Cenaberta falou com vários par- ticipantes que fizeram de Coimbra o seu palco e a sua plateia.
Anxeles Cuña Boveda, encenadora, Ourense, Espanha Creio que, em geral, estes encontros são es- timulantes para se ir avançando. No caso da Estação, um dos aspectos de maior relevo foi ter um muito bom critério de programação. Nos espectáculos, vi coisas lindas, poéticas e culturas distintas, que nos podem servir de espelho por um lado e de contraste por outro.
Também nos fazem pensar muito sobre a situa- ção do Teatro em países e gentes com quem temos afinidades. Eu conheço alguns festivais, mas, com estas características, sinto-o único. Creio que este modelo de Coimbra é um caminho interes- santíssimo a seguir, como proposta de gestão,
de produção e de criação.
Cleise Mendes, dramaturga e profes- sora universitária, Salvador, Brasil Eu acho que esta foi uma oportunidade ímpar de conhecer o trabalho de locais como a Guiné- -Bissau, Moçambique, Angola, mesmo aqui de Portugal. Dificilmente, de fora deste festival, te-
ria oportunidade de conhecer,de estar sabendo
o que acontece com estes grupos.
Me sinto muito feliz porque trabalho na Escola deTeatro da Universidade Federal da Bahia, que
é um centro de produção,de formação,que tem
dado uma contribuição importante ao Teatro que se faz no Estado, que se faz no Brasil. E
para mim, sobretudo até para repassar esse conhecimento,este encontro da Cena Lusófona
foi fundamental.
A importância dos festivais, destes encontros, reside no facto do Teatro ser uma coisa viva, ser
algo que não dá muito para encaixotar e guar- dar, como pode acontecer, por exemplo, com o Cinema. Eu acho muito importante no Teatro você ter um contacto directo com as pessoas,
com o espectáculo, com aqueles que o fazem.
Abel Neves, dramaturgo, Portugal
O meu interesse no Teatro e fora dele é o
diálogo. Aqui na 6.ª Estação foi possível e con-
tinua a ser possível o diálogo entre dramaturgos
e outras pessoas do Teatro, encontrando, nos
pequeníssimos indícios de criação e de vontade de fazer, a utopia que vai alimentando a vida
de cada um.
Naum Alves de Souza, dramaturgo, São Paulo, Brasil Tenho um contacto com Portugal já grande e conheço bastante, mas eu nunca havia pensado sobre a minha Língua Portuguesa, a ligação principalmente com África e com os diversos lugares descobertos pelos portugueses. Isso foi uma coisa muito interessante e emocionante, principalmente no dia em que assisti a “O Horácio” e vi todas aquelas pessoas de diversos sotaques falando a mesma Língua.
É interessante e curioso ver que muitas vezes os sentimentos e as ideias se juntam e percebemos então uma identidade. Portugal e o Brasil são muito parecidos e muito diferentes. A Língua Portuguesa ocupou aquela extensão territorial muito grande e eu acho que a Cena Lusófona faz um trabalho de extrema importância para que
a gente tenha consciência disso, de que a nossa Língua ocupa um lugar importante no mundo, que é tão dominado pelos americanos.A Cena Lusófona traz-nos uma realidade que nos dá orgulho. Quando somamos nossas literaturas, nossa cultura, parece que eu saio daqui com
mais força.
Marcio Meirelles, encenador, Salva- dor, Brasil
O facto é que no Brasil a gente não conhece a
África. Há muito poucas referências, mais míti-
cas do que reais, do que seja a África, principal- mente do que seja a África hoje, muito menos
o que seja o Teatro aí. Acho que a melhor coisa que me aconteceu foi ter entrado em con- tacto com a Cena Lusófona. Porque isso abriu
o caminho de África e do Teatro africano, pelo
menos dos países de Língua Portuguesa.
Cunha de Leiradella, dramaturgo, Portugal/Brasil Encontros, eventos como este são de uma im- portância vital para todo e qualquer indivíduo que lida com artes cénicas, especificamente
com o Teatro. Para mim, foi uma experiência fantástica, na cidade de Coimbra, conhecer pes- soas com outras concepções estéticas. Para a arte do teatro eu acho este encontro fundamental: primeiro, você assiste a uma sé-
rie de espectáculos, alguns extraordinariamente
bem fechados, bem dirigidos, bem montados; segundo, acaba discutindo o fazer teatral com os seus amigos, com os seus colegas; terceiro,
temos a tertúlia de dramaturgos onde foram colocados na roda e lidos textos de cada um, foram discutidos. Eu acho isto de uma validade
extraordinária.
Aimar Labaki, dramaturgo e cronista, São Paulo, Brasil
O mundo está tão de cabeça para baixo que às
vezes é difícil a gente saber o lugar onde colocar
cada coisa. E o Teatro também serve para isso:
para a gente olhar para dentro, de fora. Encontros como este da Cena Lusófona servem exactamente para olhar o diferente e ver o que há de mais igual entre a gente. Quer dizer, o Teatro de Língua Portuguesa tem necessaria- mente alguma coisa em comum, não importa onde ele seja feito. Eu estou descobrindo isso aqui neste encontro em Coimbra. Assim como no Teatro há actor e espectador, um em frente do outro, nestes encontros, por mais que se coloquem no colectivo, o que fica
de mais importante são as trocas pessoais.
Ayres Major, encenador, São Tomé e Príncipe No caso específico do meu grupo, o “Cena Só”, acho que este é um exemplo vivo das coisas boas que nascem em função da existência da Cena Lusófona. Julgo que se a Cena conseguir aguentar o projecto de intercâmbio de teatro lusófono,por mais algum tempo,a CPLP vai ficar mais enriquecida. Agora se (e o que eu temo) isto falhar, vai ficar um grande buraco mesmo a nível do Governo de todos os nossos países. “Pedro Andrade a Tartaruga e o Gigante” foi, em parceria com Rogério de Carvalho, o meu primeiro trabalho de encenação. Ter vindo a Coimbra com esta co-produção foi uma opor- tunidade de assistir a vários espectáculos, con- versar, discutir com encenadores experientes, conhecer novos trabalhos,novas pessoas,novas coisas. No fundo isto é um intercâmbio, é uma antropofagia e, com base nisto tudo, a gente aprende, troca, convive, faz amizades, cria con-
tactos. E a coisa ganha dimensão.
cenaberta 5
Nove imagens
O Teatro, a Música e o Cinema que passaram pe avaliarmos o que nesta esfera se faz nos países da C guardados em imagens, memórias para juntar ao á
"Lunário Perpétuo" – António Nóbrega, Brasil Este actor brincante brasileiro apresentou vários espectáculos: Teatro e Música inspirados na cultura popular do seu país.
"A Bota e Sua Meia" – Face & Carretos, Porto Alegre, Brasil A peça de Herbert Achternbusch deu origem ao espectáculo que esta companhia brasileira mantém em circulação desde 1997.
"Así que pasen 5 anos" – Sarabela Teatro, Galiza "Sarabela Teatro" apresentou-se com "Así que pasen 5 anos", considerada uma das peças mais importantes e mais polémicas da obra de Federico Garcia Lorca.
"O Horácio" – A Escola da Noite, Estágio Internacional de Actores "O Horácio”, de Heiner Müller, com encenação de Pierre Voltz, foi o resultado final do Estágio Internacional de Actores Lusófonos.
cenaberta 6
de uma Estação
la 6.ª Estação constituem importante pista para PLP. Os espectáculos presentes em Coimbra ficaram lbum fotográfico de futuras Estações.
"Niketche" – Hala ni Hala, Moçambique "Niketche" é o primeiro espectáculo de "Hala ni Hala", um grupo de artistas moçambicanos que dá a conhecer em Portugal as dramaturgias e as formas de fazer teatro em África.
Ciclo Flora Gomes – espaço de debate António Augusto Barros, Diana Andringa e Flora Gomes.
fotografia: Augusto Baptista
Ná Ozzetti, Luiz Tatit e Zé Miguel Wisnik, São Paulo, Brasil Companheiros de palco no Brasil, reuniram-se à volta das canções que, ao longo dos últimos dez anos, deram origem aos seus álbuns.
"A Força da Hábito" – Mais! Produções Artísticas, Porto Alegre, Brasil "A Força do Hábito" é uma parábola sobre o autoritarismo, o poder exercido solitariamente que acarreta a mais profunda solidão.
"Pedro Andrade, a Tartaruga e o Gigante" – Cena Só, São Tomé e Príncipe Este espectáculo culminou o curso de formação teatral, coordenado por Rogério de Carvalho, em São Tomé.
cenaberta 7
BRASIL:
um novo impulso na CPLP?
Com o Brasil de Lula da Silva a presidir à Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa, CPLP, que expectativas se abrem aos Oito no plano do intercâmbio teatral, da cooperação artística, cultural? E, internamente, no imenso Brasil, que novos rumos alberga o futuro, Gilberto Gil na direcção do Ministério da Cultura? Cenaberta ouviu em 2003 insignes personalidades da Cultura, do Teatro, das Artes brasileiras — integrantes de um lato espectro político-ideológico —, em Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte. Aqui ficam os importantes depoimentos escritos por Luciano Alabarse, Naum Alves de Souza, Silvana Garcia, Armindo Bião, António Nóbrega, Luiz Paulo Vasconcellos, Eduardo Moreira:
dúvidas e inquietações, palavras de esperança (e desesperança) em acções oficiais tendentes a que nos possamos todos "enxergar melhor".
O novo tempo
LUCIANO ALABARSE
Produtor teatral, encenador
"Os artistas sempre fazem a sua parte, e quase sempre estão disponíveis: querem trocar e conhecer outras culturas e possibilidades,querem ser ouvidos e construir pontos e pontes de contato, querem expressão e fazedura de real dimensão. Mas o papel reservado à criação artística, co- mo legítima representante do País, ainda me parece acanhado e tímido. Ao lado dos nomes consagrados das artes brasileiras, uma geração imensa de novos criadores anseia condições e reconhecimento. E sem arrumar primeiro a casa,é difícil imaginar políticas de integração,mesmo com os parceiros de sonho e idioma.Se cruzar todas as fronteiras é meta urgente, sem estabelecer diálogo pertinente é muito difícil estabelecer comunicação real com outros povos e culturas. O papel a se esperar de um novo governo é de um novo e audaz olhar sobre as reais condições brasileiras e propor, em português, novos paradigmas de política e ações culturais. E se, como já disse o poeta, navegar é preciso, eu pergunto: para onde?
A vocação brasileira é a melhor e mais generosa das vocações, qual seja a de reunir, receber, integrar e impulsionar o melhor do futuro. Quando as condições estiverem colocadas, e os artistas estiverem com suas propostas definitivamente incorporadas, seguramente o panorama será o de troca real e real intercâmbio. Oxalá não demore esta hora, e que os governos não sepultem esta utopia necessária. Nós, os artistas, já estamos prontos e dispostos a conhecer, reconhecer, propor e provocar o outro tempo, o novo
tempo."
Estreitar laços
NAUM ALVES DE SOUZA
Dramaturgo, encenador
"Não sei se sou a pessoa ideal para falar sobre a política cultural brasileira neste novo governo.Tenho a impressão de que a classe cinematográfica tem sido mais ativa e, nos jornais, pode-se ler mais a respeito do que o ministério pretende fazer com os filmes do que com o teatro. Não consigo ver ainda se pretendem manter o que ia bem, estruturado pelo governo anterior, na figura do Ministro Weffort, ou
se o novo Ministro,Gilberto Gil,tem novos objetivos
em relação ao teatro.O novo governo do Estado de São Paulo ainda não mostrou uma cara definida no que diz respeito à cultura.Talvez a maior atividade
ainda se note na área da Prefeitura Municipal de São Paulo que tem inaugurado novos centros de lazer
e cultura nas periferias. Apesar das dificuldades, é grande o movimento das propostas dos mais jovens que ocupam todos os espaços disponíveis do estado ou do município ou criam, eles mesmos, em lugares insólitos como bares,porões,bibliotecas,ambientes para a apresentação de suas produções. Num outro âmbito, há a questão dos laços com os países nossos companheiros de língua. São grandes
as esperanças de que o novo Ministério da Cultura
Atitude de abertura
SILVANA GARCIA
Dramaturgista, professora da Universidade de São Paulo
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encontre caminhos para que nosso país faça parte da rede que une os países de língua portuguesa.Apesar |
"O Brasil é um país imenso e o investimento na produção de bens culturais não se dá de modo |
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das distâncias terrestres ou marítimas,é angustiante |
homogêneo. Logo, o primeiro papel que cabe |
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o |
fato de nos desconhecermos. Os laços culturais |
ao Estado desempenhar é o de articulador |
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entre Portugal, Brasil e os vários países, ex-colônias portuguesas, precisam urgentemente ser mantidos. Foi muito comovente para mim ler peças teatrais escritas na África, na mesma língua que falamos e escrevemos.O Brasil,país onde a cultura africana faz parte de sua formação, não pode mais se manter distante daquilo que temos em comum. Brasileiros, portugueses,africanos,indianos,precisam se manter unidos pelo menos no que diz respeito à língua e |
dessa produção, implementando a criação e fomentando a difusão, de modo a equilibrar melhor o mapa da produção e permitir uma circulação maior dos produtos. O segundo aspecto importante a ser ressaltado é o fato de que certos mecanismos de apoio à produção, via leis de incentivo fiscais, transferirem para as empresas privadas a responsabilidade por um segmento bastante importante da produção, |
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à |
cultura para que o sonho norte-americano de |
sem que houvesse um contrapeso a estabelecer |
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tudo dominar seja contido. Quando medito sobre |
equilíbrio entre o que é visto como viável |
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perigoso e cego avanço dos Estados Unidos sobre |
comercialmente e as produções de maior |
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o |
mundo, não posso deixar de sentir a incômoda |
risco. Aqui também é necessária a interferência |
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sensação de que um dia venhamos a fazer parte do catálogo das espécies extintas, como tem acontecido com tribos primitivas, espécies vegetais |
do Estado, como elemento regulador desse mercado. Se tais papéis forem cumpridos com clareza de |
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animais." |
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diagnóstico e de propósitos, e transparência de |
cenaberta 8
procedimentos, já estaremos bem avançados no assentamento de uma política cultural competente. Quanto à função possível a cumprir na CPLP, antes de mais nada, adotar uma atitude de abertura para essas culturas irmãs. Havendo interesse em observar semelhanças e diferenças, e disposição de estabelecer-se como interlocutor, as vias de colaboração mútua abrir-
-se-ão naturalmente."
Pátria é nossa língua
ARMINDO BIÃO
Professor da Escola de Teatro da Bahia, Presidente da Fundação Cultural da Bahia
"Nossa pátria é nossa língua e a Bahia um elo berçário para o Brasil e parte intrínseca e estruturante da rede intercontinental de países lusófonos. Navegar continua a ser preciso para que a arte e a cultura gerem renda e emprego e reduzam desigualdades sócio-econômicas, tão
alarmantes na maioria dessa nossa rede. Artistas, políticos e gestores parecem ter compreendido enfim este nosso destino e vocação. Cabe a cada
um mergulhar de cabeça no oceano de problemas
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e |
soluções que nos fascinam, motivam e movem, |
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e |
que nos cercam. Ainda mais ilhas isoladas que |
ilhéus a caminho de um verdadeiro arquipélago,
nossas terras e gentes têm um futuro venturoso pela frente, se navegarem ao sabor das marés
e ventos que já sopram. Em cada canto, porto
e porta, um mundo de projetos. Alguns já em diálogo eventual. Na Bahia, sempre aberta
ao exterior e amarrada a seu largo interior, estamos trabalhando, como em muitos
outros lugares, para que ações frutifiquem
e se multipliquem. O panorama lembra a
história, revela a geografia e anuncia uma nova antropologia pragmática. A imagem é de nós, laços e entrecruzamentos. A realidade é a nossa imagem; e semelhança.
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O |
Brasil possui enormes demandas internas |
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e |
externas, de toda ordem. O comércio |
internacional é um grande desafio, assim como
a diplomacia. A Bahia tem papel importante
em ambos os casos no que concerne os países africanos e de língua portuguesa, em geral. Aqui, por exemplo, se desenhou a política internacional brasileira dos anos 90 para a África. E o mestre Agostinho da Silva participou desse desenho entre
nós. O retorno político e simbólico do que foi feito neste campo tem sido grandioso, mas há ainda um longo caminho pela frente. Apesar das intervenções em andamento nos campos
da engenharia e da publicidade, por exemplo,
com ampla participação baiana, o que se investe em cultura de intercâmbio é ainda muito pouco. Hoje, com novos discursos e práticas, na área da
afinal de que adianta tanto conforto material para tanta miséria espiritual? Não é essa a civilização que almejo para o meu país.Almejo aquela outra, a do Divino Espírito Santo, como também a almejou o grande Agostinho da Silva. Que esse seja o Norte, a Bandeira e o Sonho do projeto cultural do meu
país é o que, sinceramente, desejo. "
cartilha aplicada pelos jesuítas. A ação de intercâmbio proposta pela CPLP deve ser, necessariamente, apoiada. Com ela lucramos todos, o antigo Reino e as colônias, hoje igualados pelo status político e irmanados pela reciprocidade de sentimentos. Que o teatro continue a ser a cartilha que tem sido. Amén. "
Somos todos cidadãos
LUIZ PAULO VASCONCELLOS
Actor, ex-professor da Univ. Federal de Rio Grande do Sul, encenador
Descobrir os Brasis
EDUARDO MOREIRA
Actor e encenador do Grupo Galpão, Belo Horizonte
"O Brasil possui hoje mais de mil e duzentos
teatros, segundo levantamento do Centro Técnico
de Artes Cênicas da FUNARTE. O estreitamento
das relações com a África, como declarou recen- temente o Presidente da República, constitui uma obrigação histórica. Afinal, com 76 milhões de descendentes de africanos, somos a segunda maior nação negra do mundo, atrás apenas da Nigéria. Segundo o Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, os países africanos de língua portuguesa olham hoje para o Brasil como uma fonte de cooperação técnica e prestação de serviços em diversas áreas do conhecimento, com destaque nas da educação e agricultura. Mobilizamo-nos, finalmente, conclui o Chanceler, para superar as feridas do passado e lidar com as carências do presente. Que não são poucas, convenhamos, sobretudo nos planos social e econômico. Em termos de arte e cultura, notadamente no caso do teatro, o fato de compartilharmos o idioma é definitivo. Em nossos palcos, não precisamos mais
falar castelhano, latim e tupi. Basta falar português.
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E |
nem precisamos mais fazer representar anjos |
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demônios. Somos todos cidadãos. O que, diga- |
-se de passagem, vem comprovar a eficiência da
"Creio que o teatro e a cultura brasileiros vivem um momento de grande expectativa.Até agora o novo governo não deu sinais muito animadores de estar empenhado num programa sério de incentivo e de fomento aos agentes e movimentos culturais.Ainda é cedo para cobrar, mas é preciso urgência. Os úl- timos anos representaram um abandono do Estado com as suas obrigações com a cultura. Criou-se uma lei de incentivo que, se em certos aspectos representou um avanço, criou o perigo de uma elitização das verbas e patrocínios. É preciso que o poder público crie bases que viabilizem proje- tos alternativos, populares, de grupos novos e de pesquisa e que procure apoiar a circulação dos bens culturais num país tão vasto e diversificado como o Brasil. Nesse aspecto, é bastante triste a concentração que se vê ainda hoje no Brasil em torno do eixo Rio-São Paulo. É preciso abrir es- paços para a produção de outros centros e deixar que outros Brasis também sejam ouvidos, falados e representados. O Brasil é um país enorme que mal se conhece e que conhece menos ainda os outros países da comunidade de língua portuguesa. Creio que esse intercâmbio seria fundamental para que
pudéssemos nos enxergar melhor. "
cultura, se desenhando no Brasil, é necessário que se busque no passado o que, ainda útil no presente, poderá de fato alargar nossos horizontes, de nós brasileiros e nativos e nacionais
dos oito países de língua portuguesa."
Civilização de partilha
ANTÓNIO NÓBREGA
Actor, músico, investigador
"Sou ainda daqueles que acham que o Brasil precisa dar maior atenção ao seu verdadeiro património cultural. Quando uso a palavra verdadeiro uso no sentido daquele bem cultural que nos pertence
e a mais ninguém. O Choro, por exemplo, uma
manifestação verdadeiramente brasileira: claro que
os seus elementos formadores foram diversos, mas
a forma Choro de fazer música é fruto de nosso
temperamento e singularidades. Não há cida- dezinha brasileira que não tenha um conjunto de Choro, por menor e mais simples que ele seja. Pois bem, São Paulo, uma cidade que subvenciona
pelo menos umas cinco orquestras sinfónicas, mas sequer sustenta um único conjunto de Choro. Para
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desenvolvimento de nossa música grupos como |
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o |
Papo de Anjo ou Isaías e seus Chorões são tão |
importantes quanto um quarteto de cordas, mesmo que ele toque Villa Lobos e outros destacados músicos brasileiros. Acho que nós brasileiros ainda não nos demos conta do imenso patrimônio cultural que o nosso povo foi capaz de criar ao longo de sua dilatada história. Me explico: dilatada porque o Brasil não começou só em 1500.As tradições culturais índias,
africanas e ibéricas são milenares, há muitos séculos que vinham se construindo. Na Terra Brasilis elas apenas começaram a se justapor, a se interligar e, para usar uma palavra da moda,a se fusionar.Dessas múltiplas interpenetrações nasceram cantos, danças, mitologias e cosmogonias riquíssimas, cheias de verdades e belezas insuspeitadas.Brasileiras.É delas que emana o nosso Chão coletivo. Não fosse ele e não teria existido Villa Lobos, Jacob do Bandolim, Guimarães Rosa, Glauber Rocha. Não existiria Choro, Frevo, Capoeira, Baião, Samba, etc. Às vezes, um pouco de brincadeira e muito de verdade, em meus espetáculos, digo que todo brasileiro deveria tocar pandeiro e dançar quotidianamente. O pandeiro deveria estar sempre
a tiracolo 17 horas, todo o santo dia, deveria tocar uma sirene concitando as pessoas a pararem de fazer o que estivessem fazendo e dançassem. Nas
ruas, nos lares, nos táxis, nas empresas, nos bares e nos hospitais, tudo pararia para que dançassemos. Parece doidera, não? Mas são coisas dessa natureza que sonho como ideal de civilização e cultura para
o meu país.A civilização traz uma ideia de conforto mas não traz o conforto propriamente dito. Porque
cenaberta 9
Pronunciar cultura e cooperação
Há um discurso novo no Governo brasileiro, presidido por Lula da Silva, para quem o estreita- mento das relações com África constitui para o Brasil uma obrigação política, moral e histórica. O Ministro das Rela- ções Exteriores, Celso Amorim, fala com renovado interesse da cooperação ao nível da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, sensível ao que chamou uma verdadeira sede de Brasil no outro lado do Atlântico. Mas é o Ministério da Cul- tura, pela voz do titular da pasta, Gil- berto Gil, a estrutura do Governo brasileiro onde a temática da cooperação-cultura tem tido mais eco e cor.
Gilberto Gil
Ministro da Cultura do Brasil
"Porque a cultura brasileira é feita pelo povo brasileiro – e não por um punhado de pessoas que se julgam esclarecidas e detentoras do sentido e do destino histórico do país. (…) Porque o país e sua cultura não só se configuram a partir de focos diversos, como se acham em permanente mudança. O Brasil pode não ser sinônimo de feijoada, mas de tucupi. Pode não ser sinônimo de orla marítima, mas de pororoca. Pode não ser sinônimo de orixá, mas do Bom Jesus da Lapa. E
Celso Amorim
Ministro das Relações Exteriores do Brasil
"Como declarou o presidente Lula,o estreitamento
das relações com a África constitui para o Brasil uma obrigação política, moral e histórica. Com 76 mi- lhões de afrodescendentes,somos a segunda maior nação negra do mundo,atrás da Nigéria,e o governo está empenhado em refletir essa circunstância em sua atuação externa.
A África acompanha com grande interesse e
expectativa o que se passa no Brasil. Mais do que isso,parece haver uma verdadeira sede de Brasil no outro lado do Atlântico! Findo o regime do apart- heid, superados os conflitos internos em Angola e Moçambique, as sociedades africanas se mobilizam para cicatrizar as feridas do passado e lidar com as carências do presente.Trata-se de um verdadeiro processo de renascimento,que não pode deixar de nos sensibilizar. Nos países onde estive — Moçam- bique, Zimbábue, São Tomé e Príncipe, Angola, África do Sul, Namíbia e Gana —, deixei claro o compromisso do Brasil com uma renovada agenda política,econômica,social,comercial e cultural com nossos amigos africanos."
"Os países de língua portuguesa olham para o Brasil como uma fonte de cooperação. (…) São Tomé e Príncipe procura estabelecer parcerias com sócios estrangeiros na exploração de suas rique-
zas petrolíferas. Além disso, deseja o nosso apoio para a regulamentação do setor. Com a instalação
de embaixada do Brasil em São Tomé, estaremos
presentes em todos os integrantes da Comunidade
de Países de Língua Portuguesa. "
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é |
com essa diversidade interna que temos de |
literatura, em teatro, em pintura, em concertos |
"Após décadas de uma sangrenta guerra civil que mantive,foi recordado o significativo fato de ter sido |
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nos haver. Engana-se,ao mesmo tempo,quem acha que essas várias culturas brasileiras existem como mundos |
musicais, em estilos de dança como o balé ou, mais modernamente, em cinema, depois que esta forma de criação foi consagrada, pelos intelec- |
devastou o país, Angola vive um novo capítulo de paz e reconciliação nacional. Nas conversas que lá |
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isolados, sem alianças e sem trocas entre si. As fronteiras entre esses mundos são porosas, mu- dam de posição frequentemente – e, para cada montanha que isola, há um rio que aproxima, |
tuais, no terreno da arte. Dito de outro modo, as pessoas pensam, automaticamente, no círculo restrito das formas que habitam o campo da assim chamada “cultura superior”. Agem, então, |
Brasil o primeiro país a reconhecer o governo angolano, bem como o papel desempenhado pelo embaixador Ovídio de Andrade Melo nos primei- ros momentos do relacionamento bilateral. " o |
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conduzindo pessoas e signos." Bienal da União Nacional dos Estudantes, Fevereiro de 2003 |
como se cultura fosse isso. O que não cabe nesse universo não merece ser definido pelo uso puro e simples do vocábulo cultura.Tem de |
"Em Gana, onde estive poucas horas, fui rece- bido pelo ministro do Turismo, de quem recebi sobre a existência de uma Casa do Brasil em Acra, |
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"A Língua Portuguesa é um assunto que diz respeito ao próprio lastro de toda a cultura brasileira. É um tema estratégico para o Brasil que é o maior país de fala portuguesa, o que |
ser referido com a colocação de um anexo verbal para restringir o conceito – como no caso de expressões como “cultura de massas” e “cultura popular” – ou mesmo pela adoção de uma outra palavra, como “folclore”. |
manifestações de interesse por cooperação em agricultura e esportes. Emocionou-me seu relato capital onde sobrevivem remanescentes de uma comunidade de origem brasileira conhecida como |
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significa oitenta por cento do total de falantes |
(…) Para nós, do Ministério da Cultura do |
os |
“Tá-Bom”. |
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em oito países do mundo. |
Governo Lula, de um governo essencialmente |
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Itamaraty, em coordenação com diferentes |
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O |
Brasil ainda não se voltou para uma verdadeira |
transformador e democrático, de um governo |
áreas do governo, conta com o setor privado |
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formulação política de sua língua – o brasileiro,ou português do Brasil. Uma política da Língua não |
que pretende – e vai – mudar o país, esta não é, de modo algum, uma visão saudável, lúcida ou |
e amizade que nos unem aos povos da África em a sociedade civil para transformar os laços de amplos setores de nossa sociedade. "
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pode resumir-se a tratados ortográficos." Estação da Luz, Maio de 2003 |
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justa da realidade cultural. E é por esta razão que não trabalhamos com um conceito acadêmico, |
progresso econômico e social,em benefício mútuo. Os caminhos para a África se reabrem e apontam |
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"Tradicionalmente, a maioria das pessoas, diante da palavra cultura, pensa automatica- |
restritivo e elitista de cultura.(…) O que nós que- remos é justamente isto: incluir. Incluir na cultura, franqueando a todos o acesso à produção e ao |
um reencontro solidário de brasileiros e africanos, em sintonia com a motivação e as aspirações de |
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mente no conjunto das formas canonizadas pela cultura ocidental-européia. Pensa em |
consumo dos bens e serviços simbólicos. " Câmara dos Deputados, Maio de 2003 |
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In Folha de São Paulo (O Brasil e o renascimento africano), 25 de Maio de 2003 |
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cenaberta 10
cenaberta 11
Centros de Intercâmbio Teatral
A cooperação teatral no
âmbito da Cena Lusó-
fona reclama nos vários países — conclusão que
o debate e a prática
impuseram — a existência de pólos nacionais estruturados, de modo a entrecruzar energias e a basear as acções locais e interna- cionais programadas. Na concretização deste objectivo prioritário boas notícias nos chegam da Guiné-Bissau e de São Tomé e
Príncipe.
S em infra-estruturas, mínimas que sejam, díficil é localmente concretizar Teatro, débeis são as hipóteses de intercâmbios cénicos eficazes, magra é a circulação
de artistas e formadores teatrais, na partilha de conhecimentos e experiências. Ao nível da Cena Lusófona,cedo se percebeu isto.
A carência de espaços cénicos e de instituições
formativas, em muitos dos nossos países, projec- tou a necessidade de criar pólos estruturadores — lugar para acções de formação, ensaio, mon- tagem — dotados de biblioteca/centro de docu- mentação e dos indispensáveis meios materiais e humanos, viabilizadores de cooperação eficaz.
A constituição destes pequenos núcleos, cor-
respondendo a um velho objectivo da Cena
Lusófona, ganhou particular fôlego no Fórum da Estação de 1999, que reuniu agentes teatrais e representantes da área da Cultura dos governos de todos os países da CPLP.
A partir daí, a criação dos Centros de Intercâm-
bio Teatral, CIT’s, mobilizou energias, trabalho e meios, com prioridade para a Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.
O esforço traduziu-se já em resultados, corpo-
rizados no funcionamento em fase experimental, desde 2003, dos CIT’s nestes países. Com “Os Fidalgos”, em Bissau, e o grupo “Cena Só”, em São Tomé, a animarem as estruturas, preciosa se assumiu a colaboração de outros grupos, agen-
tes individuais, instituições. Entre estas, desta- que para a ONG “Acção para o Desenvolvi- mento”, que assegura a logística do Centro em Bissau, para a Direcção-Geral da Cultura, em São Tomé. Os aludidos Centros de Intercâmbio foram já dotados de meios técnicos, que incluem pro- jectores, mesas de luz e cabos. Esta capacitação material foi acompanhada da organização de Oficinas Técnicas, dirigidas por Orlando Worm
e Elias Macovela, visando a qualificação de qua- dros locais. Em conjugação com a entrega de uma pequena biblioteca teatral em Português, as acções de formação estenderam-se também às áreas do documentalismo e da organização bibliotecária,
dirigidas por Jorge Pais de Sousa. Assegurada
foi ainda a ligação ao Centro de Documentação,
permitindo que, tanto em Bissau como em São
Tomé, todos os agentes culturais possam usufruir, via Internet,do acervo documental da Cena Lusó- fona, em Coimbra. Neste primeiro ano de funcionamento, estes Centros foram também destinatários de um especial investimento na criação artística e na formação de actores. De processos formativos dirigidos por Andrzej Kowalski (Bissau) e Ro- gério de Carvalho (São Tomé) resultaram as co-produções “Makbunhe” e “Pedro Andrade,
a Tartaruga e o Gigante”, presentes na última Estação.
A linha de rumo a orientar o futuro destas es-
truturas visa a autonomização e a co-responsabi-
lização dos agentes e das instituições locais, es- truturando uma rede de intercâmbio mais vasto. Assim, sem quebrar a prioridade na construção
e consolidação dos CIT’s da Guiné-Bissau e de
São Tomé e Príncipe, perspectivas de trabalho se impõem noutros espaços, respondendo ao desafio de criar uma rede de Centros de Inter- câmbio Teatral ao nível de todos os países CPLP, malha adequada às especificidades e globalmente entrelaçados. Para 2004 e num quadro de cooperação com
diversas instituições culturais baianas, prevê-se
a abertura do Centro de Intercâmbio Teatral de
Salvador, no Teatro Vila Velha, sede do "Bando Teatro Olodum", cúmplice de projecto neste Estado brasileiro. Em 2005 e na sequência de negociações em curso,
projecta-se a abertura dos Centros do Maputo
e Luanda e o arranque do CIT de Coimbra, nas
novas instalações cedidas pela Câmara Municipal
de Coimbra, no Pátio da Inquisição.
Formação na área do documentalismo e organização biblio- tecária, dirigida por Jorge Pais de Sousa, São Tomé, 2003. Fotografia: Jorge Pais de Sousa
Oficina técnica de iluminação, orientada por Elias Macovela, Bissau, 2003. Fotografia: Elias Macovela
Oficina técnica de iluminação, orientada por Orlando Worm, São Tomé, 2002. Fotografia: Nuno Patinho
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