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Aegon ds Hae lata Caleho Primero Pasion O QUE E CIENCIA, AFINA]? Coletines Varios autores O que é Astronomia eaLEL GLE lee Rodolpho Caniato Expeculsyces iobre o univeno yue € Citncia : Jean Audouze, Michel Cassé ¢ cated Jean-Claude Carnere Traduca: ates moe Filosofia da Ciéncis Ernest W. Hamburger re wane fees eld = eames, Mace memes paied A Sociedade eet Jobo Rubcio Je. freeeteents Galt iectitl vecwerg rai, Oat Adam Schaff CLE COpIAS . N°coPas:_Q NPASTA_2G, © que ¢ Radioatvidade Topices de Fsahia Gert Sergio Luis Fae Colerines Vinos autores 0 que Retigito Raber Alvet e | LEITURAS AFINS A. F, CHALMERS | ' f editora brasiliense w AF CHALMERS. OUTRAS LEITURAS A fomte base € I. Lakatos, “Falsification and the Methodology of Scientific Research Programmes”, er Criticism anu the Growth of Knoto~ edge, ed. 1. Lakatos ¢ A, Musgrave (Cambridge: Cambridge University Press, 1974), pp. 91-196. Aigurs cstudos historicos do ponto de vista de Lakatos sto E. Zahar, “Why Did Finstein’s Programme Supersede Lorentz’s?*, British Jourral er the Philosophy of Science 24 (1973); 95-123, 223-63; 1. Lakatos ¢ B Zahar, “Why Did Copemicts Programme Su- persede Ptolemy’s?”, em The Copernican Achicrement, ed. R, Westman, (Berkeley, Calif: California University Press, 1975); € 08 estudos em Colin Howson, ed. Method ana Appraisal in the Physical Sciences (Cam- bridge: Cambridge University Press, 1876) A maioria dos trabalhos de Lakatos foi reunida ¢ publicada em dois volumes par John Worrall ¢ Gregory Currie (Cambridge. Cambridge University Press, 1978). 0 porto €m que os programas de pesquisy de Lakatos so auto-suficien tes € criticado por Noretta Koertge, “Inter-theoretic Criticism and the Growth of Science”,em Boston Stuiles in Philosphy of Science, vol. 8, 6 R.C. Buck and R. §. Cohen (Dordrecht: Reidel Publishing, Co, 1971, PP. 160-73. As posicirs de Lakatos ¢ Kuhn sto comparadas e Kuhn defendido em D. Bloor, “Two Paradigms of Scientific Knowledge””, Science Studics 1 (1971): 101-15. A nogio de uma previsto nova & seguida por Alan E Musgrave, “Logical Versus Historical Theories of Confirmation”, British Journal for the Philosophy of Science 25 (1974): 123. Vil TEORIAS COMO ESTRUTURAS: OS PARADIGMAS DE KUHN 1, Comentérios introdut6rios Um segundo ponto de vista de que uma teoria cientifica & uma estrutura complexa de algum tipo é 0 que recebeu muita atencdo nos tiltimos anos. Refiro-me ao ponto de vista desen- volvido por Thomas Kuhn, cuja primeira versio apareceu em seu livro A Estrutura das Revolugoes Cientificas, publicado i Gialmente em 1962!. Kuhn iniciou sua carreira académica como fisico ¢ voltou entio sua atengko para a historia da ciéncia, Ao fazé-lo descobriu que seus preconceitos sobre a naturezt da cigncia haviam se esfacelado. Veio a perceber que os relatos tradicionais da ciéncia. fosse indutivista ou falsificacionicta, nJo suportam uma comparagio com o testemunho histérico. A teoria da ciéncia de Kuhn foi desenvolvida subsequente. mente como uma tentativa de fornecer uma teoria mais cor. rente com a situacdo hist6rica tal como ele a via. Uma carac- teristica-chave de sua teoria é a énfase dada ao carfter revo- lucionario do progresso cientifico, em que uma revolugio im- plica 0 abandono de uma estrutura tedrica e sua substituiclo Por outra, incompativel, Um outro traco essencial é o impor- tante papel desempenhado na teoria de Kuhn pelas caracteris- ticas socioldgicas das comunidades cientificas. As abordagens de Lakatos ¢ Kuhn tm algumas coisas em comum. Em especial, ambas fazem a seus relatos fios6ficos a TTS Rann The Structure of Scenic Revolutions (Chicago: University of (Chscago Press, 1970), 1 AL F.CHALMERS, exigencia de resistirem & critica da historia da cincia, O relato de Kuhn precede a metodologia dos programas de pesquisa clentifica de Lakatos e acho justo dizer que Lakatos adaptou alguns dos resultados de Kuhn para seus proprios propositos. O relato de Lakatos foi apresentado em primeiro lugar neste livre porque é visto, da mancira melhor, como aculminacéodo rograma riano em uma resposta dircta a cle, € uma Eentativa de mehorar oe mites do faacacionismo. A fener” a mais importante entre Kuhn, de um lado, ¢ Popper e Laka- tos, de outro, € a énfase do primeiro nos fatores sociolégicos. O “relativismo” de Kuhn sera discutido e criticado mais adiante no Livro. Neste capitulo eu me limitarei a um simples resumo dos pontos de vista de Kuhn. ‘© quadro de Kuhn da maneira como progride a ciéncia pode ser resumido no seguinte esquema aberto: pré-citncia ~ citncia normal — crise-revolucéo — nova ciéncia nor- mal — nova crise A atividade desorganizada e diversa que precede a formagio da ciéncia torna-se eventualmente estruturada e dirigida quan- doa comunidade cientifica atém-se a um tinico paradigyna, Um paradigma € composto de suposigdes tedricas gerais e de leis e téenicas para a sua aplicacéo adotadas por uma comunidade Gientifica especifica. Os que trabalham dentro de um paradig- sma, seja ele a mecSnica newtoniana, ética de ondas, quimica analitica ou qualquer outro, praticam aquilo que Kuhn chama de ciéncia normal. Os cientistas normais articulario ¢ desen- volverao 0 paradigma em sua tentativa de explicar e de aco- modar 0 comportamento de alguns aspectos relevantes do mundo real tais como relevados através dos resultados de ex- periéncias. Ao fazé-lo experimentario, inevitavelmente, difi- ‘culdades ¢ encontrarao falsificagdes aparentes. Se dificuldades deste tipo fugirem ao controle, um estado de crise se manifes- tard. Uma crise ¢ resolvida quando surge um paradigma in- teiramente novo que atrai a adesio de um mimero crescente de cientistas até que eventualmente 0 paradigma original, pro- Dlemitico, é abandonado. A mudanga descontinua constitui uma revolucdo cientifica. O novo paradigma, cheio de promessa € aparentemente nio assediado por dificuldades supostamente insuperaveis, orienta agora a nova atividade cientitica normal (05 PARADIGMAS DE KUHN us até que também encontre problemas sérios ¢ 0 resultado seja uma outra revolucdo. Com este resumo como uma prelibacio, vamos adiante e vejamos em maior detalhe os varios componentes do esqu de Kuhn. iss fe 2. Paradigmas e ciéncia normal Uma citncia madura governada por um nico paradigma? © paradigma determina os padrées para o trabalho legitimo dentro da citncia que governa. Ele coordena e dirige a ativi, dade de “solugio de charadas” do grupo de cientistas normals que trabatham em seu interior. A existtncia de um paradigma capaz de sustentar uma tradic&o de ciéncia normal é a carac. teristica que distingue a ciéncia da nfo-ciéncia, segundo Kuhn. A mecnica newtoniana, a ética de ondas e o eletromagnetismo classico todos constitutram e taivez constituam paradigmas e se qualificam como cigncias. Grande parte da sociologia mo- derma ndo tem um paradigma e, conseqiientemente, deixa de qualificar-se como cigncia. Como seré explicado mais adiante, é da natureza de um paradigma iludir uma definicdo precisa. E, entretanto, possivel descrever alguns dos componentes tipicos que entrazn em sua composicio. Entre estes componentes estario leis explicita- mente declaradas e suposicdes teéricas compardveis aos com- Ponentes do ndcleo irvedutivel de umn programa de pesquisa lakatosiano. E assim que as leis do movimento de Newton formam parte do paradigma newtoniano, e as questies de Maxwell. formam paste do paradigma que constitui a teoria eletromagnética classica. Os paradigmas devem também in. cluir maneiras-padrio de aplicacio das leis fundamentais a tuma variedade de tipos de situacio. Por exemplo,o paradigm Rewtoniano devera incluir métodes para aplicar as lex de ‘Newton aos movimentos planetirios, aos péndulos, as calisdes Fale que eateveu Th Structure of evolutions Kuhn conte gue engitalmenie bhzou “paradigms num centulo ambigao Lin ow Rip cento 4 edicho de 1970 cle dstingue um sentido geral do terme, a0 goad cle agora se refere come a “mains decipinar”.¢ urmcttide teatnie oo wate, ave che substitu por “ciempter™ Continuo a usar “paradigms” em now senate eral, pata ee tetent ao que Kuhn pass a chamar de mute dacplan 16 AF CHALMERS, de bolas de bilhar e assim por diante. A instrumentacio e as técnicas instrumentais necessérias para fazer com que as leis do paradigma se apliquem ao mundo real estardo também incluf- das no paradigma. A aplicagio do paradigma newtonlano na astronomia envoive o uso de tipos aprovados de telescépios, juntamente com as técnicas para 0 seu uso e uma variedade de téenicas para a correcio dos dados coletados com sua ajuda. Um componente adicional dos paradigmas consiste em alguns princtpios metatisicos muito gerais que orientam o trabalho no interior de um paradigma. Durante todo 0 século XIX o para- digma newtoniano foi governado por uma suposicio parecida com “Todo o mundo fisico deve ser explicado como um siste- ‘ma mecinico que opera sob a influtncia de varias forgas segun- do os ditames das leis do movimento de Newton”, ¢ 0 progra- ma cartesiano no século XVI envolvia 0 prinefpio “Nao hé vacuo eo universofisico é um grande mecanismo em que todas as forgas assumem a forma de urn impulso”. Finalmente todos os paradigmas conterio algumas recomendacées metodolégi- cas muito gerais tais como “Faca tentativas sérias para o seu paradigma corresponder a natureza”, ou “Trate os fracassos na tentativa de fazer 0 scu paradigma corresponder a ciéncia co- mo problemas sérios”. ‘A dncia normal implica tentativas detalhadas de articular um paradigma com o objetivo de melhorar a correspondéncia entre ele e a natureza. Um paradigma ser’ sempre suficiente- mente impreciso e aberto para que se precise fazer multo tra- balho desse tipo? Kuhn retrata a ciéncia normal como uma atividade de resolucio de problemas governada pelas regras de um paradigma. Os problemas serao tanto de natureza teGrica quanto experimental, Dentro do paradigma newtoniano, por cexemplo, problemas teéricos tipicos envolvem projetar técnicas ‘matemiticas para lidar com movimento de um planeta sujei- to a mais de uma forca de atracio ¢ desenvolver suposigbes adequadas para aplicar as leis de Newton ao movimento des fluidos. Entre os problemas experimentais esto incluidos a melhoria da precisio das observagirs telescdpicas ¢ 0 desen- volvimento de técnicas experimentais capazes de produzir SConforine @ hock um tanto mass precisa de ums heuristica positiva de Lika, ihe @ (05 PARADIGMAS CE KUHN m7 mensuracdes confiaveis da constante gravitacional. Os cientis- tas normais devem pressupor que um paradigma thes dé os meio para a soluco dos problemas propostos em seu interior. ‘Umm fracasso em resolver um problema é visto como um fracas- odo cientista e no como uma falta de adequacio do paradig- ma. Problemas que resistem a uma solucio sao vistos mais ‘como anomalias do que como falsificagées de um paradigma. Kuhn reconhece que todos os paradigmas conterio algumas anomalias (e.g. a teoria copernicana e o tamanho aparente de ‘Venus ou o paradigma newtoniano e a rbita de Mercirio) € Tepeita todo tipo de falsificacionismo. ‘Um cientista normal ndo deve ser critico do paradigma em aque trabalha, Somente assim ele sera capaz de concentra seus esforcos na articulagdo detathada do paradigma e de fazer 0 trabalho esotérico que é necessério para sondar a natureza em profundidade. E a necessidade de desacordo a respeito das coisas fundamentais que distingue a ciéncia normal e madura da atividade relativamente desorganizada da pré-ciéncia ima- tura. Segundo Kuhn, esta tltima € caracterizada pelo total de- sacordo e pelo debate constante a respeito dos fundamentos, tanto assim que ¢ impossivel se dedicar ao trabalho detalhado, esotérico. Haverd quase tantas teorias quanto ha trabalhadores Ro campo, e cada tebrico seré obrigado a comecar de novo e a justificar sua prOpria abordagem especifica. Kuhn oferece co- mo exemploa ética antes de Newton. Houve uma ampla diver- sidade de teorias sobre a natureza da luz desde o tempo dos antigos até Newton. Nao se alcancou nenhum acordo geral, € nenhuma teoria detalhada, geralmente aceita, surgiv antes que Newton propusesse e defendesse sua teoria das particulas. Ox tebricos rivais do periodo da pré-citncia nao somente dis- cordavam a respeito de suposicées tedricas fundamentais mas também a respeito de todo tipo de fendmenos de observacho relevantes As suas tcorias. Na medida em que Kuhn reconhece © papel desempenhado por um paradigma na orientacso da busca e interpretagio de fendmenas observaveis, ele cancilia a maior parte daquilo que descrevi como a dependéacia que a observagio tem da teoria no Capitulo IL Kuhn insiste que hS mais coisas num paradigma do que € ossivel tomar claro sob a forma de regras ¢ orientagbes expil- Gitas. Ele invoca a discussio de Wittgenstein da nogto de “jo v8 ALF CHALMERS, go” para ilustrar parte do que quer dizer. Wittgenstein argu- mentou explicar em detalhe as condigées suficientes e necessi- ras para que uma atividade seja um jogo. Quando se tenta, descobre-se invariavelmente uma atividade incluida na nossa definicdo, mas que nao gostariamos de considerar um jogo, ou uma atividade excluida pela definicdo, mas que gostariamos de considerar um jogo. Kuhn afirma que a mesma situacéo existe quanto aos paradigmas. Quando se tenta dar uma caracteriza- ‘sho precisa e explicita de algum paradigma na hist6ria da citn- cia ou na atual, fica sempre aparente que algum trabalho den- tro do paradigma violaa caracterizag§o. Kuhn insiste, contudo, que este estado de coisas no toma insustentivel 0 conceito de paradigma, como a situacdo semelhante em relacio aos "jogos nfo exclui o uso legitimo daquele conceito. Embu.a no haja uma caracterizacéo explicita e completa, os cientistas indivi- duais adquirem conhecimento de um paradigma através de sua educagio cientifica, Resolvendo problemas-padrao, desem- penhando experiéncias-padrio e, eventualmente, fazendo pes- quisa sob orientacio de um supervisor que j& & um praticante treinado dentro do paradigma, um aspirante a cientista fica conhecendo os métodos, as técnicas e os padrdes daquele para- digma. Ele nao serd mais capaz de fazer um relato explicito dos métodos ¢ habilidades que adquiriu, mas um mesire carpintei- ro € capaz de descrever perfeitamente o que esté por trés de suas habilidades. Grande parte do conhecimento de um cientis- ta normal serd tdcita, no sentido desenvolvido por Michael Polanyi* Por causa da maneira como ele é treinado — ¢ como € necessério que seja treinado para trabalhar de forma cficiente — um cientista normal tipico nao estar cOnscio da natureza precisa do paradigma em que trabalha ¢ nio sera capaz de articulé-la. Disso nao se pode afirmar, entretanto, que um cien- tista ndo serd capaz de tentar articular as pressuposicoes impli- cadas em seu paradigma, caso haja necessidade. Tal necessida de surgiré quando um paradigma for ameagado por um rival Nestas circunstancias sera necessirio tentar detathar as leis, gerais, os principios metafisicos ¢ metodoligicos ete, envolvi- [Ver Foun, Persona! Knousolse (Landtes Roulledge and Kegan Paul, 1573) Knowing and Beng (Lumdres: Routledge and Kegan Paul. 1968). (05 PARADIGMAS DE KUHN Fd dos num paradigma, para defendé-lo contra as alternativas envolvidas no novo paradigma ameacador. Na préxima segio resumireio relato de Kifhn de como um paradigma pode entrar ‘em dificuldades e ser substituido porum rival. 3. Crise e revolugio ‘Ocientista normal trabatha confiantemente dentro de uma érea ‘bem definida ditada por um paradigma. O paradigma lhe apre- senta um conjunto de problemas definidos justamente com os miétodos que acredita serem adequados para a sua solucio. Caso ele culpe 0 paradigma por qualquer fracasso em resoiver ‘um problema, estard aberto as mesmas acusacées de um carpin- teiro que culpa suas ferramentas. No entanto, fracassos serio encontrados ¢ podem, eventualmente, atingir um grau de se- riedade que constitua uma crise séria para 0 paradigma e que possa conduzir a rejeigao de um paradigma e sua substituicéo por uma alternativa incompativel. A mera existéncia de enigmas ndo resolvidos dentro de um paradigma nio constitui uma crise. Kuhn reconhece que os para- digmas sempre encontrario dificuldades. Anomalias haver4 sempre. E somente sob conjuntos especiais de condicées que as anomalias podem se desenvolver de maneira a solapar a con- fianga num paradigma. Uma anomalia ser considerada parti- cularmente séria se for vista atacando os préprios fundamentos de um paradigma e resistindo, entretanto, persistentemente, as tentativas dos membros de uma comunidade cientifica normal para removi-la. Kuhn cita como exemplo os problemas associa- dos com o éter eo movimento da Terra em relagio a ele na teoria eletromagnética de Maxwell, perto do fim do século XIX. Um exemplo menos ténico seriam os problemas colocados pelos cometas para o cosmo pleno ¢ ordenado de esferas crista- linas interconectadas de Arist6teles. As enomalias serio tam- bém consideradas eérias se forem importantes para alguma necessidade social urgente. Os problemas que assediavam a astronomia ptolemaica eram urgentes a luz da necessidade da reforma do calendério na época de Copémico. Relacionado também com a seriedade de uma anomalia seri 0 periodo de tempo que ela resista a tentativas de remové-la. O niuspéro de anotnalias sérias € um fator adicional a ihfluenciar ocoimeco de uma crise. \ ‘ aw AF. CHALMERS 2oriSegundo Kuhn, uma anélise das caracteristicas de um pe- riodo de crise na ciéncia exige tanto a competéncia de um psicélogo quanto a de um historiador. Quando as anomalias passam a apresentar problemas sérios para um paradigma, um perfodo de “acentuada inseguranca profissional” comeca® As tentativas de resolver o problema tomam-se cada vez mais Tadicais e as regras colocadas pelo paradigma para a solucio dos problemas tomam-se, progressivamente, mais frouxas. Os Glentistas normais comecam a se empenhar em disputas meta- fisicas e filoséficas tentam defender suas inovacbes — de status débio, do ponto de vista do paradigma —com argumen- tos filos6fices. Os cientistas comecam a expressar abertamente seu descontentamento ¢ inquietagio com o paradigma reinan- te. Kuhn cita a resposta de Wolfgang Pauli, ao que viu como a crise crescente da fisica por volta de 1924. Pauli, exasperado, confessou a um amigo: “No momento a fisica esté mais uma vez terrivelmente confusa. De qualquer forma, é dificil demais para mim; “esejaria ter sido um comediante de cinema ou algo parecido € nunca ter ouvido falar em fisica” * Uma vez que um aradigma tenha sido enfraquecido e solapado a tal ponto, que ‘seus proponentes perdem a confianca nele, chega o tempo da revolugio. A seriedade de uma crise se aprofunda quando aparece um paradigma rival. “O novo paradigma, ou um indicio suficiente para permitir uma articulasio posterior, surge de imediato, algumas vezes no meio da’ noite, na mente de um homem profundamente iinerso na crise.”? © novo paradigma sera dife- ente do antigo e incompativel com ele. As diferencas radicais serio de varios tipos. Cada paradigms vers 0 mundo como sendo composto de diferentes tipos de coisas. O paradigma aristotélico via o uni- verso dividido em dois reinos, a regio sobrelunar, incorrupti- vel e imutavel, ea regiéo terrestre, corruptivel e mutavel. Para- digmas posteriores viram o universo todo como sendo compos: to dos mesmos tipos de substincias materiais. A quimica ante- rior a Lavoisier afirma que o mundo continha uma substincia chamada flogisto, expulsa dos materiais quando queimados. O 5. Kulu The Structure of Scionific Remtution, pp. 67-8. 6.44, tid. p. 8, 7.36, tid, p. 91. 5 PARADICMAS DE KUHN ta novo paradigma de Lavoisier implica que nao havia semethane te coisa, a0 Passo que existe 0 gis oxigénio que desempenha Um papel muito diferente na combustio. A teorla eletromagné. tica de Maxwell implicava um éter que ccupava 0 espaco todo, enquanto a recolocacdo radical de Einstein eliminava o éter, Paradigms rivais considerario diferentes tipos de ques: {Ges como legftimas ou significativas. Quest8es a respelto do eso eram importantes para 0s te6ricos do flogisto e insignifi- antes para Lavoisier. Quest6es a respelto da massa dos plane. {as eram fundamentais para os newtonianos e heréticas para os aristotélicos. O problema da Terra relativa ao éter, de significa ‘do profunda para os fisicos préeinsteinianos, foi dissolvido por Einstein. Propondo, igualmente, diferentes tipos de ques- tes, os paradigmas envolverio padroes diferentes eincompa. Uiveis. A acio nio explicada a disténcia era permitida pelos newtonianos mas desprezada pelos cartesianos por ser metafi- sica, ou mesmo oculta. A acdo sem causa carecia de sentido para Arist6teles e era axiomética para Newton. A transmutacio tem lugar importante na fisica moderna (como na alquimia medieval) mas era completamente contréria aos objetives do Programa atom{stico de Dalton. Umi certo numero de eventos Possiveis de descricéo da microfisica modema envolve uma indeterminabilidade que nao tem lugar no programa newto- niano. A maneiza pela qual um cientista vé um aspecto especifi do mundo seré orientada pelo paradigma em que est! traba thando. Kuhn argumenta que ha uma explicacio para 0s pro- Bomantes de paradigmas rivais estarem “vivendo em mundos diferentes”. Cita como prova o fato de que mudancas nos céus comecaram a ser notadas, registradas e discutidas pelos astr- nomos do Ocidente depois da proposta da teoria copernicana, Antes disso, 0 paradigma aristotélico havia dito que nso pode: ria haver mudancas na regiso sobrelunar e, conseqientemente, nenhuma mudanca foi observada, As mudancas notadas eram explicadas como sendo perturbacdes na atmostera superior Quiros exemplos de Kuhn, e de outros mais, js foram dades no Capitulo i, ‘A mudanga de adesio por parte de cientistas individuais de um paradigma para uma alternativa incompativel € seme. thante, segundo Kuhn, a uma “troca gestiltica” ou a uma “con. versio religiosa”, Nao haverd argumento puramente logico im A F.CHALMERS que demonstre a superioridade de um paradigma sobre outro e que force, assim, um cientista racional a fazer a mudanca, Uma das razdes por que nao € possivel tal demonstracao 6 0 fato de estar envolvida uma variedade de fatores no julgamento que um cientista faz dos méritos de uma teoria cientifica. A decisio de um cientista individual dependerd da prioridade que ele d& a esses fatores. Eles incluiréo coisas tais como simplicidade, a ligacdo com alguma necessidade social urgente, habilidade de resolver algum tipo de problema especifico e assim por diante. ‘Assim, um cientista pode ser atra{do para a teoria copernicana por catisa da simplicidade de certas caracteristicas matemséticas dela. Um outro seré atraido por nela ver a possibilidade de reforma do calendério. Um terceiro poderd ter sido impedido de adotar a teoria copernicana por causa de seu envolvimento ‘com a mecAnica terrestre e sua consciéncia dos problemas que a teoria copernicana apresenta para ela. Um quarto poderia rejeitar 0 copernicanismo por motivos religiosos. ‘Um segundo motivo para que néo exista nenhuma demonstracio logicamente obrigatéria da superioridade de um, paradigma sobre outro origina-se no fato de que os proponen- tes de paradigmas rivais aderem a conjuntos diferentes de pa- dries, de princpios metafisicos etc. Julgado pelos seus pré- prios padrées, o paradigma A pode ser superior ao paradigma B, ao passo que, se forem usados como premissas os padr6es, 0 julgamento poderd ser invertido. A conclusio de um argumen- to 36 € obrigatéria se suas premiscas forem aceitas. Partidérios de paradigmas rivais nfo aceitario as premissas uns dos outros e assim nio serio, necessariamente, convencidos pelos seus argumentos. E por este tipo de motivo que Kuhn compara as revolugées cientificas as revolucdes politicas, Exatamente da maneira como “as revolucées politicas objetivam mudar as instituigdes politicas de formas proibidas pelas préprias insti- tuigdes” e, conseqientemente, “tracassa 0 resumo politico”, assim a escolha “entre paradigmas prova ser uma escotha entre modos incompativeis de vida em comunidade” e argumento algum pode ser “logica ou probabilisticamente convincente”.* Isto ndo quer dizer, entretanto, que varios argumentos nfo se encontram entre os fatores importantes que influenciam as de- SIT pp (05 PARADIGMAS DE KUHN 3 isdes dos cientistas. Do ponto de vista de Kuhn, os tipos de fatores que se mostram eficientes em fazer com que os cientis- tas mudem de paradigma uma questio a ser descoberta pela investigacao psicologica e sociol6gica. H4, entdo, um certo niimero de motivos inter-relacionados para que, quando um paradigma compete com outro, nfo haja um argumento logicamente convincente que faca com que um. Gentista racional abandone um pelo outro. Nao hé um critério nico pelo qual um cientista deva julgar o mérito ou a promes- sa de um paradigmae, ainda mais, proponentes de programas competitives aderirio a conjuntos diferentes de padrées e ve- ro o mundo de formas diferentes e 0 descreverio numa lin- guagem também diferente. O objetivo de argumentos e de dis- ccussBes entre os partidasios de paradigmas rivais deve ser an- tes a persuasio que a compuisto. Imagino que neste parigrafo tenha resumido 0 que se encontra por detras da afirmacio de Kuhn de que os paradigmas rivais sio “incomensuraveis”. Una revolugio cientifica corresponde ao abandono de um paradigma e adocto de um novo, nfo por um tinico cientista somente, mas pela comunidade cientifica relevante como um. todo. A medida que um niimero cada vez maior de cientistas individuais, por uma série de motives, & convertido ao novo paradigma, hé um “deslocamento crescente na distribuigio de adesdes profissionais” ? Para que a revolucio seja bem-sucedi- da, este deslocamento deverd, entdo, difundir-se de modo a incluir a maioria da comunidade cientifica relevante, deixando ‘apenas uns poucos dissidentes. Estes serdo exclufdos da nova comunidade cientifica e se refugiardo, talvez, no departamento de filosofia. De qualquer forma, eles provavelmente morrerio. 4. A funcdo da ciéncia normal ¢ das revolugées Alguns aspectos dos escritos de Kuhn poderiam dar a impres- * so de que seu relato da natureza da cincia 6 puramente des- critivo, isto 6, que seu objetivo ndo ¢ outro que descrever as teorias cientificas ou paradigmas e a atividade dos cientistas. Fosse esse 0 caso, entio o telato da citncia de Kuhn teria pouco valor como teoria da ciencia. Uma supgsta teoria da citncia, Ta dp 158, 1 ALF CHALMERS baseada apenas na descricio, estaria aberta a algumas das mes- mas objegdes que foram levantadas contra o relato indutivista ingtnuo de como se chegava as préprias teorias cientificas. A menos que o relato descritive da cidncia eeja formado por al- guia teoria, nenhuma orientagio 6 dada quanto a que tipos de atividades e produtos de atividades devem ser deseritos. Especialmente as atividades e as produces de cientistas pi- caretas precisariam ser documentadas com tantos detalhes quanto as de um Einstein ou de um Galileu. £ um erro, contudo, considerar a caracterizacio da ciéncia de Kuhn como se originando somente de uma descricio do trabalho dos cientistas. Kuhn insiste que seu relato constitui luma teoria da citncia porque inclui uma explicacdo da fungdo de seus vérios comnonentes. Segundo Kuhn, a ciéncia normal e as revolugdes servem funcdes necessérias, de modo que a cién- cia deve implicar estas caracteristicas ou algumas outras que serviriam para desempenhar as mesmas fungdes. Vejamos quais sio estas fungées, segundo Kuhn. Os pertodos de citncia normal dao aos cientistas a oportu- Ridade de desenvolver os detalhes esotéricos de uma teoria. ‘Trabalhando no interior de um paradigma, cujos fundamentos ao como pressupostos, eles so capazes de executar trabalhos te6ricos e experimentais rigorosos, necessrios para levar a correspondéncia entre 0 paradigma e a natureza a um grau cada vez mais alto. E através de sua confianga na. adequasio de lum paradigma que os cientistas séo capazes de devotar suas energias a tentativas de resolver 0s enigmas detalhados que se hes apresentam no interior de um paradigma, em vez de se empenharem em disputas a respeito da legitimidade de suas suposigSes e métodos fundamentais. E necessirio que a céncia normal seja amplamente ndo-critica. Caso todos 0s cientistas fos- ‘sem criticos de todas as partes do arcabouco no qual trabathassem todo o tempo, trabalho algum seria feito em profundidade. Se todos os cientistas fossem e permanecessem cientistas Rormais, entdo uma ciéncia especifica ficaria presa em um tini- co paradigma e nio progrediria nunca para além dele, Este seria um erro grave, do ponto de vista kuhniano. Um paradig- ma incorpora um arcabougo conceitual especifico através do qual o mundo ¢ visto e no qual ele é descrito, e um conjunto especifico de técnicas experimentais e tedricas para fazer (0S PARADIGMAS DE KUHN ns corresponder 0 paradigma & natureza, Mas no hk motivo al- ‘gunn 4 prior, para que se espere que umn paradigma seja perfel. 1 O tesmo6 melhor disponivel Nao existemn procelifentos ndutivos para se chegar a paradigmas perfeitamente adequa, dos. Conseqdentemente, a ncla deve contr em seu interior uum meio de romper de um paradigma para um paradigms melhor. Esta & a funglo das revolugtes. Todos oo serio inad em medida, no que se refere A sua coresponddnda con a aurea Chane oe eae \dencia se toma séria, isto é, quando aparece crise, a medida, Fevoluciondia de substiulrtodb um pundigns eee toma-se essencial para o efetivo progresso da ciéncia. O progresso através de revolucées 6 a alternativa de Kuhn [para o progresso cumulativo caracteristico dos relatos indutivis- las da céncia. De acordo com este dltimo ponto de vista, 0 conhecimento cientifico cresce continuamente A medida que observagées mais numerosas e mais variadas sio feitas, possi- bilitando a formacto de novos conceitos, o refinamento de velhos conceitos e a descoberta de novas relacbes lictas entre eles. Do ponto de vista ;de Kha isto é umn engano por ignorar © papel desempenhado pelos’paradigmnas na orienta- Sdo da observacio e da experiéncia. Exatamente porque os Paradigmas possuem uma influéncia t4o persuasiva sobre. a ‘ciéncia praticada no interior deles é que a substituicao de um Por outro precisa ser revoluciondria. Vale a pena mencionar uma outra funcdo servida pelo relato de Kuhn. Os paradigmas de Kuhn no s80 tho preciosos {que possamn ser substituldas por um conjunto explicto de re- Fas, como foi mencionado acima. E bem possivel que cientis- tas diferentes ou diferentes grupos de cientistas interpretem e apliquem o paradigma de uma maneira um tanto diferente. Face 4 mesma situacdo, nem todos os cientistas chegario 4 mesma conclusio ou adotardo a mesma estratégia. Isto possui a vantagem de o nimero de estratégias tentadas ser multiplica- do. Os ricos sic distribufdos, assim, através da comunidade cientifica ¢ aumentadas as chances de algum sucesso a longo razo. “De que outa forma”, pergunta Kuhn, “poderia 0 gru- po como.um todo distribuir as suas apostas?™ TOT Ditaios © A. Musgrave, eds, Crticam end the Growth of Knowledge (Cambridge: Cambridge University Press, 1970, p- 241. 16 ALF CHALMERS OUTRAS LEITURAS A obra prindpal de Kuhn &, claro, € The Structure of Scientific Revolutions. A edido de 1970 do livro (Chicago: Chicago University Press) contém um Péeescrito no qual seus pontos de vista ao em alguma medida refinados € modificados. A modificagho de Kuhn de ‘sua idtia original de um paradigma & discutida em malores detalhes $m “Second Thoughts on Paradigms”, em The Structure of Scientific Chan ictal Tesior: Selle Stes in Scenic Tradition and ‘Change (Chicago: Chicago University Press, 1977). Que a posiclo de Kuhn € uma posiclo soclologica est evidente em seu “Comment (on the Relation between Sceence and Art, Comperative Studies in Society and History 11 (1969): 403-12. D. Bloor defende Kuhn contra Labates em “Two Paradigms of Scientific Knowledge?" Sclnar Studies 1 (1971% 101-15, Para uma tentativa para axlomatizar o ponto de vista da Gitndia de Kuhn () por J. Sneed, e uma discussfo dessa tentative por Kuhn ¢ W. Stegmuller, ver os Proceedings of the Sth Intemational Congress of Logic. Methodology and Philosophy of Science em Lone res, Ontério, agasto-setembro de 1975, IX RACIONALISMO VERSUS RELATIVISMO ‘Resumnl nos dois capitulos anteriores duns andlises Tineas da déncla que diferem em aspectos fundamentals. La- katos e Kuitn oferecem distincdes conflitantes entre a déncia 2 nlo-ciéncia, ou pseudocitncla. O conflito entre os pontos de vista de Kuhn, por um lado, e os de Lakatos e também de Popper, por outro, dew ocasilo a um debate quanto as duas Posicdes contrastantes associadas com os termos “radonalis- mo" ¢ “relativismo” respectivamente. O debate diz respelto as questOes de avaliacio de teorias e sua escolhae a diferenciar 4 Glncia da ndo-citncia. Neste capitulo comegarei por carac- terizar as duas posicdes que representam os extremos do de- bate, extremos a que me referirel respectivamente como racic nalismo e relativismo. Discutirei, em seguida, a extensio em que Lakatos e Kuhn podem ser legitimamente caracterizados como racionalistas ou relativistas. Na secto final comecarei a colocar em diivida 0s termas em que foi colocado o debate. 1. Racionalismo © racionalista extremado afirma que hé um critério tinico, atemporal e universal com refertncia ao qual se podem avaliat 0s méritos relativos de teorias rivais. Por exemplo, um indu- livista pode aceitar como 0 sew critério universal o grau de corroboracio indutiva que uma teorix recebe dos fatos accitos, 80 passo que um falsificacionista pode basear o seu eritério