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leiddd

O patOlÓGICO

O PATOLÓGICO

leiddd O patOlÓGICO O PATOLÓGICO Centro Acadêmico Adolfo Lutz - Medicina Unicamp - ano mmix -

Centro Acadêmico Adolfo Lutz - Medicina Unicamp - ano mmix - abril

HOSpItal UNIVERSItÁRIO

Medicina Unicamp - ano mmix - abril HOSpItal UNIVERSItÁRIO O QUE MUDAR NO HC? p. 4
Medicina Unicamp - ano mmix - abril HOSpItal UNIVERSItÁRIO O QUE MUDAR NO HC? p. 4

O QUE MUDAR NO HC? p. 4 A CRISE DOS HOSPITAIS UNIvERSITáRIOS p.5 SAIU NA MÍDIA p. 4

CAISM(UNICAMP) eleita melhor maternidade pública de SP

Bernardo Pilotto(HC-UFPR)

Prof. Dr. Gastão Wagner de Souza Campos(UNICAMP)

REpENSaNdO O jÁ paSSadO DANIELA DANTAS p. 8
REpENSaNdO
O jÁ
paSSadO
DANIELA DANTAS
p. 8

SAÚDEE

ESPIRITUALIDADE

Veja os textos trazidos por Francis- co abramides e Ricardo Kores.

 

»

leia mais, p. 6

PATOCULTURAL

Veja o texto de Henrique Sater a respeito do vencedor de Me- lhor Filme 2009, em Cannes, “Entre os muros da escola”

»

leia mais, p. 3

SPASMO!

Confira o poema “O tombo”, de Fabricio Costa e o conto “Frag- mentos” de Eliel Faber.

» leia mais, p. 7 E 8

2

O patOlÓGICO

abRIl dE 2009

2 O patOlÓGICO a b R I l d E 2 0 0 9 JOGORáPIDO nenhuma

JOGORáPIDO

nenhuma conclusão sem antes discutirmos todos como anda das pernas nosso HC e

Foca (43) - OMBUDSMAN

quais as possibilidades de melhora. Assim,

é

importante que esse seminário seja bem

É com prazer que falo novamente a todos da Med UNICAMP. E desta vez vou direto ao ponto, sem enrolações. A qualidade do texto desta coluna depende fundamentalmente da qualidade e variedade dos temas abordados

nos outros textos d’O Patológico e, como sou

divulgado e que tenha bastante público, tendo-se em vista que será discutido o nosso futuro acadêmico.

Domais,sómerestadestacararepercussão do texto anterior do Ombudsman, atingindo esferas mais altas da nossa faculdade. Ora, creio que transmiti não só a minha opinião sobre a semana da calourada e o trote, mas de muitos outros (quem sabe esse seja o motivo da preocupação), por isso sempre deixo claro que é preciso ainda discussões efetivas sobre

assunto e outros pontos de vista, como o

o

o

último a escrever neste periódico, vejo-

me hoje diante de um dilema: sobre o que escrever? Esta edição contém vários textos poéticos e, por que não, literários, mas não encontro bem o mote central de tudo isso, imaginando ser a reforma dos Hospitais Universitários.

da Dani, colocados na mesa para que todos

Bom, sendo assim, é importante rediscutirmos a estrutura de nosso HC, as condições que oferece a seus funcionários, pacientes e alunos de graduação e pós- graduação de vários cursos da saúde. Mas não acho que uma discussão adequada sobre isso deva resumir-se a um texto do Prof. Gastão e de um outro trabalhador( ?) da UFPR, sem outros pontos de vista sobre o assunto, de pessoas com opiniões diferentes das apresentadas. Esses dois, no entanto, são de fundamental importância para o entendimento do momento que passam

HCs, inclusive o nosso, mas são insuficientes quando se tem em vista que este é o tema central do jornal e que, em última instância, eles foram apenas para “levantar a bola” para um seminário que será feito sobre

tenham oportunidade de formar sua própria

opinião baseados em suas experiências e não só pelo que é dito por um grupo de pessoas, seja ele de “esquerda, direita ou centro”. Calouros, tenham uma opinião sobre isso, seja ela qual for, e não se deixem levar pela experiência ou discurso de outrem, inclusive pelo meu, que não sou o dono da verdade mas vivo a faculdade há 5 anos, do mesmo modo que outros que estão nesse meio há muito mais tempo que eu têm opiniões totalmente discordantes. Avaliem como foi

calourada e agora têm outra oportunidade na Pré-Intermed. Defendam sua opinião

a

e

saibam que a Medicina UNICAMP não é

igual para todos, mas é feita pelo empenho e

dedicação de calouros e veteranos, sejam eles pró ou contra o “trote”, tenha ele a definição

o

assunto ainda este mês. Não se tirará

que for. Em suma, sejam felizes

e ponto!

Balancete

MaRÇO

Dia

Descrição

   

Saldo

   

Débito

Crédito

 
 

Saldo Mês Anterior

   

R$ 43.659,54

02/03/2009

Camisetas Calourada

R$ 155,50

 

R$ 43.504,04

02/03/2009

Gastos Vivência Calourada

R$ 1.400,00

 

R$ 42.104,04

02/03/2009

Pagamento Faixas Calourada

R$ 273,00

 

R$ 41.831,04

02/03/2009

Gastos Happy Hour do CAAL

R$ 350,00

 

R$ 41.481,04

02/03/2009

Ônibus Vivência

R$ 780,00

 

R$ 40.701,04

02/03/2009

Gastos Vivência Calourada

R$ 159,58

 

R$ 40.541,46

03/03/2009

Venda de Kit do Calouro

 

R$ 700,00

R$ 41.241,46

03/03/2009

Gastos Papelaria

R$ 43,84

 

R$ 41.197,62

03/03/2009

Espuma Calourada

R$ 840,00

 

R$ 40.357,62

03/03/2009

Compra de Carnes Calourada

R$ 500,00

 

R$ 39.857,62

03/03/2009

Venda de Kit do Calouro

 

R$ 100,00

R$ 39.957,62

03/03/2009

Patrocínio Calourada

 

R$ 85,00

R$ 40.042,62

03/03/2009

Venda de Kit do Calouro

 

R$ 100,00

R$ 40.142,62

03/03/2009

Gastos Choppada Calourada

R$ 2.400,00

 

R$ 37.742,62

03/03/2009

Pagamento Alarme Siemens

R$ 315,46

 

R$ 37.427,16

04/03/2009

Pagamento Funcionários

R$ 2.361,80

 

R$ 35.065,36

04/03/2009

Patrocínio Calourada

 

R$ 60,00

R$ 35.125,36

04/03/2009

Pagamento Camisetas Calourada

R$ 623,00

 

R$ 34.502,36

04/03/2009

Pagamento ÔnibusChurrascoCalourada + Gastos

R$ 1.030,00

 

R$ 33.472,36

04/03/2009

Pagamento Contador

R$ 1.400,00

 

R$ 32.072,36

04/03/2009

Pagamento Manual do Calouro

R$ 500,00

 

R$ 31.572,36

04/03/2009

Gastos Choppada Calourada

R$ 1.480,00

 

R$ 30.092,36

04/03/2009

Venda de Kit do Calouro

 

R$ 4.700,00

R$ 34.792,36

04/03/2009

Venda de Kit do Calouro

 

R$ 995,00

R$ 35.787,36

05/03/2009

Pagamento Espuma Calourada

R$ 840,00

 

R$ 34.947,36

05/03/2009

Pagamento Camisetas Calourada

R$ 350,40

 

R$ 34.596,96

05/03/2009

Venda de Convites Choppada

 

R$ 810,00

R$ 35.406,96

05/03/2009

Venda de Convites Churrasco

 

R$ 4.572,50

R$ 39.979,46

05/03/2009

Reembolso COBREM

R$ 855,00

 

R$ 39.124,46

06/03/2009

Pagamento Telefone Telefônica

R$ 498,76

 

R$ 38.625,70

06/03/2009

Pagamento Tenda Calourada

R$ 1.200,00

 

R$ 37.425,70

06/03/2009

Compra de Carnes Calourada

R$ 855,00

 

R$ 36.570,70

06/03/2009

Gastos Churrasco Calourada

R$ 3.055,00

 

R$ 33.515,70

06/03/2009

Venda de Kit do Calouro

 

R$ 150,00

R$ 33.665,70

06/03/2009

Gastos Almoço Calourada

R$ 15,00

 

R$ 33.650,70

06/03/2009

Venda de Convites Churrasco

 

R$ 120,00

R$ 33.770,70

06/03/2009

Venda de Canecas Oktober

 

R$ 20,00

R$ 33.790,70

09/03/2009

Gastos Churrasco Calourada

R$ 2.180,40

 

R$ 31.610,30

09/03/2009

Gastos Choppada Calourada

R$ 1.097,40

 

R$ 30.512,90

09/03/2009

Venda de Kit do Calouro

 

R$ 400,00

R$ 30.912,90

09/03/2009

Reembolso COBREM

R$ 1.995,00

 

R$ 28.917,90

09/03/2009

Venda de Kit do Calouro

 

R$ 410,00

R$ 29.327,90

10/03/2009

Provedor de Internet

R$ 9,90

 

R$ 29.318,00

10/3/209

Gastos Churrasco Calourada

R$ 315,00

 

R$ 29.003,00

10/03/2009

Reembolso Reunião da Regional

R$ 45,00

 

R$ 28.958,00

10/03/2009

Reembolso Reunião da Vivência

R$ 15,00

 

R$ 28.943,00

10/03/2009

Venda de Pasta CASU

 

R$ 5,00

R$ 28.948,00

11/03/2009

Financiamento Funcamp

 

R$ 1.650,00

R$ 30.598,00

11/03/2009

Reembolso COBREM

R$ 286,00

 

R$ 30.312,00

11/03/2009

Gastos Choppada Calourada

R$ 140,00

 

R$ 30.172,00

12/03/2009

Assinatura Correio Popular

R$ 44,90

 

R$ 30.127,10

13/03/2009

Pagamento Mochilas Calourada

R$ 2.173,60

 

R$ 27.953,50

13/03/2009

Venda de Kit do Calouro

 

R$ 100,00

R$ 28.053,50

13/03/2009

Venda de Kit do Calouro

 

R$ 100,00

R$ 28.153,50

13/03/2009

Venda de Kit do Calouro

 

R$ 100,00

R$ 28.253,50

13/03/2009

Patrocínio Calourada

 

R$ 266,67

R$ 28.520,17

13/03/2009

Patrocínio Calourada

 

R$ 175,00

R$ 28.695,17

13/03/2009

Venda de Kit do Calouro

 

R$ 50,00

R$ 28.745,17

13/03/2009

Patrocínio Calourada

 

R$ 90,00

R$ 28.835,17

13/03/2009

Patrocínio Calourada

 

R$ 30,00

R$ 28.865,17

13/03/2009

Venda de Kit do Calouro

 

R$ 50,00

R$ 28.915,17

16/03/2009

Tarifa Conta Corrente

R$ 37,00

 

R$ 28.878,17

16/03/2009

Pagamento Patológico

R$ 448,36

 

R$ 28.429,81

16/03/2009

Gastos ROEX

R$ 1.434,00

 

R$ 26.995,81

16/03/2009

Pagamento Camisetas Calourada

R$ 822,30

 

R$ 26.173,51

16/03/2009

Reembolso COBEM e Reunião da Regional

R$ 185,00

 

R$ 25.988,51

16/03/2009

Pagamento Transporte Funcionário

R$ 100,00

 

R$ 25.888,51

17/03/2009

Reembolsos Calourada

R$ 73,00

 

R$ 25.815,51

17/03/2009

Reembolso COBEM

R$ 160,00

 

R$ 25.655,51

17/03/2009

Reembolso Reunião da Regional

R$ 48,20

 

R$ 25.607,31

17/03/2009

Compra de refrigerantes Grupo de Discussão

R$ 20,00

 

R$ 25.587,31

17/03/2009

Venda de Bebidas

 

R$ 10,00

R$ 25.597,31

17/03/2009

Reembolso Reunião da Regional

R$ 45,00

 

R$ 25.552,31

18/03/2009

Venda de Kit do Calouro

 

R$ 60,00

R$ 25.612,31

20/03/2009

Patrocínio Calourada

 

R$ 50,00

R$ 25.662,31

20/03/2009

Transferência para a Poupança

R$ 380,00

 

R$ 25.282,31

20/03/2009

Pagamento Telefone Embratel

R$ 72,23

 

R$ 25.210,08

20/03/2009

Reembolsos Calourada

R$ 355,00

 

R$ 24.855,08

20/03/2009

Compra de Passagem para Roex

R$ 165,20

 

R$ 24.689,88

23/03/2009

Tarifa Extrato Inteligente

R$ 3,90

 

R$ 24.685,98

26/03/2009

Inscrição ROEX

R$ 120,27

 

R$ 24.565,71

26/03/2009

Assinatura Folha da Manhã

R$ 90,50

 

R$ 24.475,21

27/03/2009

Reembolso NUDU

R$ 326,00

 

R$ 24.149,21

27/03/2009

Compra de Lanche Grupo de Discussão

R$ 30,00

 

R$ 24.119,21

27/03/2009

Confraternização de Despedida do Patrulheiro

R$ 56,45

 

R$ 24.062,76

31/03/2009

Impressão do Livro Caixa

R$ 39,00

 

R$ 24.023,76

31/03/2009

Pagamento Alarme Siemens

R$ 309,08

 

R$ 23.714,68

31/03/2009

Financiamento

 

R$ 1.252,10

R$ 24.966,78

31/03/2009

Pagamento Anual Hospedagem Site

R$ 191,40

 

R$ 24.775,38

 

Saldo Final do Mês

   

R$ 24.775,38

 

Poupança do CAAL

   

R$ 17.232,82

 

Saldo Total do CAAL

   

R$ 42.008,20

O patOlÓGICO

abRIl dE 2009

3

A CRÍTICA PELA CRÍTICA

O p a t O l Ó G I C O abRIl dE 2009 3 A

“Covarde sei que me podem chamar Porque não calo no peito dessa dor Atire a primeira pedra, ai, ai, ai Aquele que não sofreu por amor

Eu sei que vão censurar

O meu proceder

Eu sei, mulher, Que você mesma vai dizer

Que eu voltei pra me humilhar

É, mas não faz mal

Você pode até sorrir Perdão foi feito pra gente pedir”*

P ara julgar algo ou alguém, não bas- ta considerar que a qualidade da- quilo/daquele deixou a desejar; é preciso, principalmente, ter conhe-

cimento o bastante sobre o que se fala. Atire a primeira pedra aquele que não condenou o que desconhecia. Um dos grandes alvos de críticas (negativas) em nosso meio é o CAAL. Mas quem de nós en- tende o que é um centro acadêmico, quais suas funções? Antes disso, quantos sabem quem

foi Adolfo Lutz, aquele que dá nome ao nosso CA? Um centro acadêmico é um órgão represen- tativo dos estudantes de um curso superior. Neste ano, nós, honrosos membros da Medici- na Unicamp, elegemos a chapa Roda Viva – úni-

da Medici- na Unicamp, elegemos a chapa Roda Viva – úni- ca candidata durante a eleição

ca candidata durante a eleição –, formada por cerca de trinta alunos, a maioria dos segundo e terceiro anos da graduação. É fácil falar que o CAAL “é uma bosta”. Mas se essa é a opinião de muitos, o que eles têm a sugerir à gestão atual? O que eles esperam de um centro acadêmico?

Enganam-se aqueles que acreditam que ser um bom estudante de medicina limita-se a fre-

quentar as aulas e estudar pra valer. Enquanto estamos dentro do hospital, da sala de aula ou de nossos quartos, o mundo continua a girar,

e não é possível manter-se alheio a tudo isso.

Sendo assim, as horas podem e devem ser uti- lizadas para exercitar nossos corpos, agradar nossas almas e atualizar nossas mentes. Além da crise mundial, do colapso ambiental

e da exploração espacial, muitos outros temas

estão sendo discutidos atualmente: a reforma do nosso currículo, o exame do Cremesp, o SUS, o movimento estudantil, etc. Para aqueles que acham que estes últimos assuntos não lhe dizem respeito ou que formar uma opinião so- bre eles é caretice/perda e tempo, é complica- do compreender a importância de um centro acadêmico Podemos usar as pedras que nos são atiradas como material para construção de uma estrutura forte, e não apenas esquivar-se dos arremessos ou tentar lançar as pedras de volta.

Ximênia Souza(XlIV)

* Atire a primeira pedra, por Ataulfo Alves e Mário Lago

PATOCULTURAL

primeira pedra, por Ataulfo Alves e Mário Lago PATOCULTURAL Entre os muros daescola V encedor da

Entre os muros daescola

V encedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 2008,

“Entre os muros da es-

cola” é de longe o filme mais real que já assisti. Baseado no livro de mesmo nome, de François Bégau- deau, que inclusive protagoniza o longa, faz do que seria um docu- mentário complexo e cansativo, 128 minutos de muita intensida- de cinematográfica. Longe de um filme hollywoo- diano, no estilo “Mentes Perigo- sas”, com alunos inicialmente indisciplinados e no final cons- cientizados e próximos da figu- ra do professor, o filme não tem por objetivo te convencer que há exceções(bem no estilo clássico “filme de professor”), mas quer te mostrar a realidade do ensino público em uma França multirra- cial, multiétnica, eminentemente confusa em suas origens afro-eu- ropéias. O diretor Laurent Cantet esco- lhe minunciosamente a estrutura de filmagem do longa: o filme não

possui trilha sonora, não possui iluminação artificial, foi gravado apenas com 3 câmeras, se passa inteiramente dentro de uma esco- la e todos os atores, além de ama- dores, possuem o mesmo nome

um drama banal, porém, conclui sendo uma importante elucida- ção do ensino público na Europa e também no resto do mundo. Durante o filme, é com muita sutileza e profundidade que as

hierárquica e ditadora da relação (não)pedagógica entre os inte- grantes de uma sala de aula. Não há herói, nem vilão, e mes- mo o professor protagonista, que muitas vezes tenta ser diferencia- do e quebrar a lógica já consagra- da no método de ensino comum, não é um professor bem visto pe- los alunos, sendo alvo de muitas críticas e desrespeito, que é inclu- sive mútuo(o professor chega a chamar duas alunas de “vagabun- das”, durante uma discussão). O mais importante para o fil- me é como a vida daqueles ado- lescentes se converge dentro dos muros da escola e como as experi- ências externas necessariamente implicam no aprendizado. Não espere um filme edifica- dor como “Sociedade dos Poetas Mortos”, não era intenção do dire- tor mostrar que há formas do nos- so atual sistema de ensino, prin- cipalmente público, chegar à tão sonhada construção coletiva do conhecimento. O filme não quer mostrar a possibilidade, porém a realidade.

Henrique Sater(Abrealas)- XLV

porém a realidade. Henrique Sater(Abrealas)- XLV da vida real. Conflitos étnicos, sociais e cul- turais são
porém a realidade. Henrique Sater(Abrealas)- XLV da vida real. Conflitos étnicos, sociais e cul- turais são

da vida real. Conflitos étnicos, sociais e cul- turais são mostrados em um con- texto, que inicialmente parece

“briguinhas” entre aluno e profes- sor e aluno com aluno não tentam mostrar o lado certo, da “boa mo- ral”, e sim na mais crua realidade

4 O patOlÓGICO abRIl dE 2009 HOSPITAL UNIvERSITáRIO
4
O patOlÓGICO
abRIl dE 2009
HOSPITAL UNIvERSITáRIO

O que mudar no HC da Unicamp?

O s hospitais brasileiros necessitam reformar-se. Mudar o mo- delo clínico e de gestão. Nosso HC é considerado um hospi- tal com “excelência”. O conhecimento acumulados de suas equipes e a incorporação razoável de tecnologia justificam

essa classificação. Entretanto, mesmo assim, há problemas. Pesquisa re- cente no INCOR/USP, com 1800 pacientes, demonstrou que, se a quali- dade do procedimento cirúrgico era adequada no serviço público (SUS), perdia-se 38% a mais de pacientes do que outros serviços congêneres durante o seguimento (follow up). Acredito que teríamos resultado se- melhante se aplicássemos o estudo em vários dos programas em nosso HC. Em nosso hospital há filas (dificuldade de acesso) em vários serviços, ao mesmo tempo há indicadores de ociosidade no Centro Cirúrgico, mé- dia de permanência alta em enfermarias, etc. Há utilização excessiva de exames e falta de recursos. Os custos, provavelmente, estarão acima de outros hospitais semelhantes em outros países. Durante a formação dos alunos há dificuldade em horizontalizar o atendimento (acompanhar um caso em seus vários estádios), pela fragmentação do currículo e do modelo de atendimento. Urge enfrentar estes desafios. Para isto há que se reorganizar a clínica. A principal medida é instituírem-se mecanismos claros de responsabi- lização clínica, definir quem se encarrega de “quem” e do “quê”: como organizar o atendimento para que nenhum paciente do HC esteja sem médico ou profissional responsável pelo caso (definir profissional de re- ferência para cada caso)? Valorizar o vínculo médico e paciente. Para isto, organizar equipes de diaristas (que atendam os mesmos casos ao longo da semana) em enfermarias, ambulatório, UTI, PS, etc. Envolver equipe, residentes e alunos com a discussão e elaboração de Projetos Terapêuti- cos Singulares para os casos complexos, discutir protocolos ampliados –

SAIU NA MÍDIA

incluindo critérios de risco e de encaminhamento. Personalizar a relação entre especialistas com o método do Apoio Matricial (os alunos que cur- saram SC no quinto ano sabem do que estou falando). Os ambulatórios precisam, urgente, de uma reforma radical, transformar as dezenas de serviços em 20 ou 30 unidades integradas e dinâmicas: com capacidade para realizar procedimentos diagnósticos e terapêuticos, lidar com clien- tela adscrita, coortes de pacientes e combinar clínica com prevenção. É urgente consolidar um modelo de gestão democrático, que au- mente a comunicação entre os profissionais e destes com familiares e pacientes. Colegiados, equipes interprofissionais. Ao mesmo tempo, contudo, criar uma cultura de avaliar resultados das intervenções, bem como de se fazer a gestão com base em metas, tudo isto de forma par- ticipativa, envolvendo as equipes responsáveis por cada caso. Outro de- safio é a reforma organizacional do HC, mediante a criação de Unidades de Produção, novos departamentos com composição interdisciplinar e comando único por cada área de trabalho: oncologia, saúde mental, pronto-socorro, terapia intensiva, etc. Acredito, com base em experiências concretas (outros hospitais, em todo o mundo, que se reorganizaram segundo estas diretrizes, tem al- cançado resultados surpreendentes), que estas mudanças terão mais impacto e são mais urgentes do qualquer alteração do estatuto do HC:

devolver o HC à Secretaria de Estado não promoverá estas reformas au- tomaticamente. Somente alterará a relação entre FCM/Unicamp e o HC. Aliás, esse é um tema que merece aprofundamento: debater a relação entre HC e Universidade. Trata-se de um momento delicado em nossa vida institucional, que somente será levado a bom termo, se docentes, alunos e técnicos tiver- mos uma postura democrática e generosa, colocando o paciente e a saúde acima de nossos interesses, vaidade e outras idiossincrasias. prof. dr. Gastão Wagner de Sousa Campos, Medicina preventi- va e Social FCM/UNICaMp

de Sousa Campos, Medicina preventi- va e Social FCM/UNICaMp CAISMé eleita melhor maternidade pública de SP

CAISMé eleita melhor maternidade pública de SP

O Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher/Caism, o Hospital da

lugar entre os melhores hospitais-maternidade públicos do Estado

de São Paulo na avaliação dos usuários do (Sistema Único de Saúde).

A premiação foi entregue pelo governador José Serra ao diretor-executivo do

Caism-Hospital da Mulher, professor Oswaldo Grassioto. Para o diretor-executivo

prêmio reflete uma política de qualidade e atenção à saúde da mulher da insti-

o

Mulher da Unicamp, conquistou ná última sexta-feira (6) o primeiro

tuição que permeia todos os serviços prestados pelo hospital. “Temos certeza que

o impacto das atividades assistenciais do Caism são extremamente pujantes para

a região de Campinas, o interior do Estado e até para outros

estados”, comenta Grassioto. Considerada a maior unidade hospitalar de atenção à saúde da mulher do interior do Estado de São Paulo, o Caism dispõe de 139 leitos distribuídos entre as sub-especialidades da Obstetrícia, Neonatologia, Ginecologia, Oncologia Gineco- lógica e Mastologia, por onde já passaram mais de 1,5 milhão de pacientes. Em 23 anos de atividades, o Caism/Hospital da Mulher já realizou mais de 60 mil partos, a maioria de risco. O evento promovido pela Secretaria de Estado da Saúde revelou em uma pesquisa, pela primeira vez na história, o ranking dos 10 melhores hospitais e as cinco melhores ma- ternidades públicas do Estado de São Paulo na avaliação dos usuários do SUS. O levantamento ouviu 60,2 mil pacientes que passaram por in- ternações e exames em cerca de 500 estabelecimentos de saúde conveniados à rede pública paulista nos meses de novembro e dezembro de 2007 e abril e junho de 2008. Foram eleitos vencedores os hospitais que tiveram maior pontuação média en- tre as unidades que tiveram mais de 100 respostas encaminhadas pelos usuários. Os pacientes receberam o formulário da pesquisa pelo correio, depois do trata- mento a que se submeteram, e puderam responder gratuitamente pela internet, carta-resposta ou por telefone. O primeiro colocado na categoria internação foi o Hospital do Rim e Hiperten- são, na capital paulista, com nota média de 9,349. Em segundo lugar, com nota 9,344, ficou o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, ligado à Secretaria, e, em terceiro, a unidade materno-infantil do Hospital das Clínicas de Marília, com nota 9,342 (veja lista completa abaixo).

Entre as maternidades o Caism/Hospital da Mulher conseguiu a nota média 8,904, seguido pelo Hospital Universitário de São Paulo, com 8,843. Todos os 15 hospitais receberam uma placa especial da Secretaria, em reconhecimento ao ní- vel de excelência do atendimento que prestam à população. O “provão” do SUS tem como objetivo monitorar a qualidade de atendimen- to e a satisfação do usuário, reconhecer os bons prestadores, identificar possíveis irregularidades e ampliar a capacidade de gestão eficiente da saúde pública. Na pesquisa foram avaliados o grau de satisfação com o atendimento recebido pelos pacientes, nível do serviço e dos profissionais que prestaram o atendimento, qua- lidade das acomodações e tempo de espera para a internação. Para a classificação das maternidades também foram incluídas perguntas específicas sobre humani- zação do parto. “Esses hospitais são motivo de orgulho para o SUS paulista, e quem atesta isso são os próprios usuários. Essa pesquisa de satisfação foi fundamental para avaliar o que vem sendo bem feito na área de assistência hospitalar e o que precisa ser aperfeiçoado. É um instrumento de gestão extremamente im- portante”, afirma o secretário de Estado da Saúde, Luiz Roberto

Hospital da Mulher/Caism (Centro Integral de Atendimento à Saúde) Campinas – média geral 8,904 Hospital Universitário: São Paulo – média geral 8,843 Hospital Estadual de Vila Alpina: São Paulo – média geral

Hospital Santa Marcelina: São Paulo – média geral 8,717 Hospital Geral de Pedreira: São Paulo – média geral 8,714

Os dez melhores hospitais do SUS de São paulo

Hospital do Rim e Hipertensão: São Paulo – média geral

Hospital das Clínicas: Ribeirão Preto – média geral 9,344 Hospital das Clínicas – Unidade Materno Infantil: Marília – média geral 9,342 Hospital Amaral Carvalho: Jaú – média geral 9,334 Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia: São Paulo – média geral 9,332 Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (Centrinho): Bauru – média geral 9,330 Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas: São Paulo – média geral

Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC): São Paulo – média geral

9,296

Hospital Estadual de Vila Alpina: São Paulo – média geral 9,289 Hospital Beneficência Portuguesa: São Paulo – média geral 9,288

[9/3/2009] - http://www.unicamp.br/unicamp/divulgacao/2009/03/10/caism-e-a-melhor-mater- nidade-publica-do-estado-de-sao-paulo

Barradas Barata. as cinco melhores maternidades 8,800 9,349
Barradas Barata.
as cinco melhores maternidades
8,800
9,349

9,299

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AcrisedosHospitaisUniversitários

D esde a metade dos anos 90, existe um debate, oriundo do Ministério da Educação e de alguns “especialistas em gestão da saúde”, de que os Hospitais Universitários (HU’s) estão em uma crise e que é necessá- rio mudar radicalmente o formato da sua gestão.

Sendo assim, é necessário fazer um histórico da origem desta“crise”e as propos- tas dos trabalhadores e usuários do SUS para que isto seja superado. Origemdos HU’s Até a década de 80, os hospitais universitários tinham a única missão de serem hospitais-escola. O foco do atendimento eram as pessoas que não eram credencia- das no INAMPS (Instituto Nacional de Medicina e Previdência Social). Nesta época, só aqueles que tinham carteira-assinada eram atendidos pelo INAMPS. A luta do movimento pela Reforma Sanitária influenciou na construção da Constituição de 1988 e a saúde passou a ser um direito de todos e dever do Estado. Dessa forma, o Sistema Único de Saúde (SUS) tem como uma de suas diretrizes a universalidade, eqüidade, integralidade, gratuidade e controle social. Os HU’s a par- tir de então passam a integrar a rede de assistência do SUS e a ser referência para a atenção secundária e terciária, além da função de ensino e assistência. O financiamento do HU seria feito então por 4 partes. Cada procedimento ali executado deveria ser assim financiado: o recurso humano pago pelo Ministério da Educação, a estrutura do hospital paga pelo Ministério da Saúde, a pesquisa embu- tida naquele procedimento paga pelo Ministério de Ciência e Tecno- logia e o procedimento em si pago pela prefeitura (com dinheiro que é recebido do Ministério da Saúde). Porém, esse financiamento vai ser quebrado em diversos pon-

tos:

1)Em 1996, é congelado os valores da tabela de procedimentos do SUS; 2)A falta de concurso público para contratação, pelo MEC, dos recursos humanos vai gerar uma enorme terceirização. Os custos da terceirização são pagos pelo dinheiro que deveria ser usado na estrutura. Hoje, segundo Arquimedes Ciloni, presidente da ANDI- FES , quase 45% do financiamento é usado para pagamento de pessoal terceirizado (celetista) e são necessárias 5 mil novas vagas para quadro técnico-administrativo; 3)Com a diminuição do financiamento via governo federal, os Hospitais buscam mais dinheiro via SUS, assumindo para isso me- tas impossíveis de serem cumpridas. Começa também a busca de financiamento através de doações (Amigos do HC, conta de luz, etc.) e demais fontes de financiamento não-estatais. Desta forma, fica evidente que nos últimos anos, com a crise da falta de finan- ciamento do SUS, os HU’s, por conta da sua grande capacidade e qualidade, ficaram sobrecarregados. Assim, a crise colocada é uma crise de financiamento e de uma grandedívidaacumuladapor esteshospitais. ParaaANDIFES, adívidadoshospitais seria, em 2003, de R$303 milhões e, para o MEC/MS, seria de R$230 milhões. Segun- do a ANDIFES, em outubro de 2007 os Hospitais vivem uma situação de “equilíbrio estável” com a dívida chegando a R$440 milhões. É sempre válido lembrar que em 2007 os gastos governamentais com a dívida pública, externa e interna, foram de R$237 bilhões. No mesmo ano, o investimento em saúde foi de R$40 bilhões . Ainda assim, os Hospitais Universitários, que representam 2,3% dos hospitais, respondem por 10% dos leitos e 12% das internações . Por conta da dívida e do quadro acima apresentado, hoje os Hospitais Universi- tários apresentam: quadro de servidores insuficientes, fechamento de leitos e ser- viços, sucateamento, contratação de pessoal via fundação de apoio (terceirizados, quarteirizados e estagiários) e a subutilização da capacidade instalada para alta complexidade. propostas“alternativas” Diante deste quadro problemático, é quase consenso entre trabalhadores e gestores que é necessário mudar a situação atual. Porém, as propostas dos gestores vêm basicamente exigir que haja flexibilidade para captar recursos onde for possí- vel e necessário, mesmo que isso“seja caro ao SUS”. Um exemplo foi a proposta feita no ano de 2001, que previa a venda de 25% dos leitos dos hospitais universitários. Esta privatização geraria ainda mais sucateamento para as áreas do hospital que continuassem públicas. A proposta foi barrada depois de uma greve de mais de 100 dias, organizada por trabalhadores técnico-administrativos, estudantes e do- centes. Outra idéia surgida foi de que houvesse uma desvinculação dos Hospitais das

universidades, já que o Ministério da Educação (MEC) não considera a função de “assistência” como sendo papel do MEC. Essa proposta surgiu no Projeto de Lei 7200/05, chamado de “Reforma Universitária”, que hoje se encontra em tramitação no Congresso. Em 2007, o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG) apresenta

a idéia de criação da “Fundação Estatal de Direito Privado”, entidades que fariam a

gestão da saúde, previdência, turismo, assistência social, etc. Ambas as propostas foram rejeitadas pelas entidades que se articulam na defesa do projeto histórico do SUS e a ducha de água fria se deu na Conferência Nacional de Saúde no fim de 2007, que rejeitou por maioria de delegados a proposta da Fundação Estatal. Para Peterson de Paula Pereira, procurador da República, a proposta de Funda-

ção Estatal de Direito Privado fere o artigo 37 da Constituição Federal. Ele considera que o regime de direito público é mais apropriado para o Estado brasileiro do que

o regime de direito privado. Neste sentido, a Fundação seria a inversão da lógica

garantida na Constituição: ao invés do setor privado atuar em complementação, seria o setor público que atuaria desta forma. Por conta da polêmica gerada pelo Projeto de Lei das Fundações Estatais de Di- reito Privado, o governo federal resolveu continuar o processo de desvinculação dos hospitais através de portarias, com pequenas medidas, como a recente Portaria nº4 do MEC, editada em 30 de abril de 2008. Essa portaria autoriza os Hospitais Universitários a criaremUnidades Pagadoras próprias para seus recursos humanos, sendo um primeiro passo para esta idéia da desvinculação. Conseqüências

Caso essas propostas sejam implementadas, as conseqüên- cias a curto e médio prazo para trabalhadores, usuários e estu- dantes são graves. Trabalhadores do SUS: a proposta de contratação via CLT (re- gime privado) é prejudicial aos trabalhadores por conta da pre- cariedade deste contrato e da instabilidade do contrato. Longe de garantir qualidade, esse sistema permite alta rotatividade de funcionários, que é claramente prejudicial ao serviço e caro ao serviço público, já que há todo momento são necessários novos treinamentos. Usuários do SUS: uma proposta que pode gerar leitos pri- vados dentro de um hospital público é claramente prejudicial aos usuários do SUS, já que acarretaria ainda mais demora nos procedimentos que o hospital realiza. Teríamos a situação das “duas portas”: uma dos convênios privados, onde o atendimen- to é rápido e outra porta do SUS, sucateada e demorada. Essa situação, infelizmente, já existe em importantes hospitais, como

infelizmente, já existe em importantes hospitais, como o Hospital Universitário Pedro Ernesto da UERJ e o

o Hospital Universitário Pedro Ernesto da UERJ e o Hospital Uni- versitário Clementino Fraga Filho da UFRJ. Estudantes da área da saúde: um prejuízo imediato seria, devido a falta de fun- cionários, um aumento da exploração dos estudantes e residentes da área. Isso hoje já ocorre e fruto disso foram duas greves de residentes nos últimos anos, que de- nunciavam jornadas de até 80 horas semanais. Além disso, a desvinculação tiraria dos estudantes um ótimo campo de estudo: ao terem de estabelecerem“contratos de gestão” com universidades, os hospitais poderiam estabelecer melhores con- tratos com universidades particulares, deixando os estudantes das universidades federais a“ver navios”. propostas FicaclaroentãoquenãoexistesoluçãomilagrosaparaaatualcrisedosHospitais Universitários. É preciso muito mais do que simplesmente mudar o“ente jurídico”e

o modelo de gestão atual. É fundamental que seja garantido um maior financiamento público para os Hospitais e necessário que os demais prestadores da rede de saúde sejam fortaleci- dos, para que não haja sobrecarga em cima dos Hospitais Universitários. Neste momento, é preciso que os setores historicamente incluídos na defesa do SUS estejam de novo lado a lado, tanto para rejeitarem as atuais propostas gover- namentais como também para formular soluções e proposições ao atual sistema, que se encontra sim num momento de crise.

bernardo pilotto é trabalhador do Hospital de Clínicas da UFpR ediretor do Sinditest-pR – Sindicato dos trabalhadores da UFpR, UtFpR e FUNpaR/HC.

ANDIFES é a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior, reúne os reitores das universida- des federais e dirigentes dos CEFET’s. Portanto, esses dados são relativos aos hospitais universitários federais e foram colocados no seminário “Hospitais Universitários: Concepção, Papel e Missão”, realizado em Brasília, em 29 e 30 de outubro de 2007, promovido pelo Ministério da Educação e pela FASUBRA-Sindical, entidade que representa os trabalhadores dos hospitais universitários. Dados do Orçamento Geral da União (Sistema Access da Câmara dos Deputados – 31/12/2007). Esses dados podem ser ob- servados no site www.divida-auditoriacidada.org.br . Dados da ABRAHUE – Associação Brasileira dos Hospitais Universitários e de Ensino.

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O patOlÓGICO

abRIl dE 2009

SaúdeeEspiritualidade

N a atualidade, nos atemos à máxima de buscar as respostas em

fontes confiáveis, de preferência indexadas, deixando de lado algumas idéias tidas como

não? Por que a ciência ainda tenta andar na contramão da espiritualidade (e não religião), se há evidências (que serão retoma- das em outra oportunidade) de sua existência? Não seria mais fácil absorver aquilo que é plausí- vel, lógico e complementar às teorias científicas, unificando os dois tipos de estudo? Sem dogmas, nem imposições, mas com a utilização da razão. Lembremos que espiritualidade é um concei- to muito mais abrangente e menos dogmático que religião. E também que está enraizada na humanidade, desde povos primitivos até os atu- ais. Não é de se pensar que algo que está dentro do homem é, de fato, verdade?

parece

que o ritmo de estudo e trabalho (e treinos, fes- tas etc.) impedem uma reflexão mais profunda sobre os conceitos e relações espirituais. Mas somos investigadores, curiosos pela verdade. Devemos então procurá-la de fato, onde quer que esteja e, para isso, torna-se necessária a dis- cussão espiritual, transcendental. Assim podere- mos obter as respostas que parecem distantes ou resultado do acaso. Mas que acaso? Mesmo um gênio da ciência, como Einstein, dizia que o acaso não existe, que há leis que regulam todo o universo. Leis originárias de uma força maior, so- mente acessada se o ser humano se voltar para

é a

era da informação. O nosso curso – e fu- tura profissão – caminha a passos largos nessa vertente, com crescentes pesquisas científicas e exclusão de qualquer prática não contida em uma boa publicação da área médica. É claro que os avanços alcançados pela ciência, em especial na área da saúde, fo- ram e são fundamentais para a melhoria na sobrevida e qualidade de vida. A histó- ria da saúde nos mostra isso. Mas algumas explicações permanecem obscuras: por que foi justamente aquela pessoa que de- senvolveu aquele tipo de câncer? O que fazer quando não há mais esperanças de cura? Por que motivo aquela criança em especial nasceu com malformação, sendo que não havia fatores de risco? E as per- guntas não param por aí. Nessas situações limites da nossa futu- ra profissão, a espiritualidade apresenta respostas e soluções. É aquele jargão: pare de procurar as respostas fora de você, pro- cure dentro de si, na sua espiritualidade!

Alguns dirão que “as respostas estão na genética”, ou “foi o acaso que levou a tal quadro”, ou “a ciência saberá um dia”. Mas, se existe uma explicação que leve em consideração a espirituali- dade, começam a contrariá-la, pois não tem respaldo científico. Paradoxal,

fantasiosas ou mágicas

tem respaldo científico. Paradoxal, fantasiosas ou mágicas Voltando à nossa futura profissão seu lado espiritual.

Voltando à nossa futura profissão

seu lado espiritual.

Francisco barucco abramides - Chicão(XlV)

Um dia, um anjo passou por mim

A experiência de profissionais que vivenciaram todo o processo de formação e atuação na medicina são bastante valiosos do ponto de vista do nosso entusiasmo e aprendizado. Aqui gostaria de divulgar o trabalho de um colega com toda a sua experiência e vivência em um campo bastante complexo da medicina: a oncologia pediátrica.

Ricardo (Sylar) XLVI

Um dia, um anjo passou por mim No inicio da minha vida profissional, senti-me atraído em tratar crianças, me

entusiasmei com a oncologia infantil. Tinha, e tenho ainda hoje, um carinho mui- to grande por crianças. Elas nos enternecem e nos surpreendem com suas ma- neiras simples e diretas de ver o mundo, sem meias verdades. Nós médicos somos treinados para nos sentirmos “deuses”. Só que não o so- mos! Não acho o sentimento de onipotência de todo ruim, se bem dosado. É este sentimento que nos impulsiona, que nos ajuda a vencer desafios, a se re- belar contra a morte e a tentar ir sempre mais além. Se mal dosado, porém, este sentimento será de arrogância e prepotência, o que não é bom. Quando perde- mos um paciente, voltamos à planície, experimentamos o fracasso e os limites que a ciência nos impõe e entendemos que não somos deuses. Somos forçados

a reconhecer nossos limites! Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde dei

meus primeiros passos como profissional. Nesse hospital, comecei a freqüentar

a enfermaria infantil, e a me apaixonar pela oncopediatria. Mas também come-

cei a vivenciar os dramas dos meus pacientes, particularmente os das crianças, que via como vítimas inocentes desta terrível doença que é o câncer. Com o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao ver o sofrimento destas crianças. Até o dia em que um anjo passou por mim. Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada, porém, por 2 longos anos de tratamento os mais diversos, hospitais, exames, manipulações, injeções, e todos os desconfortos trazidos pelos programas de quimioterapias

e radioterapia. Mas nunca vi meu anjo fraquejar. Já a vi chorar sim, muitas ve-

zes, mas não via fraqueza em seu choro. Via medo em e seus olhinhos algumas vezes, e isto é humano! Mas via confiança e determinação. Ela entregava o bra- cinho à enfermeira, e com lágrimas nos olhos dizia: - Faça tia, é preciso para eu ficar boa. Um dia, cheguei ao hospital de manhã cedinho e encontrei meu anjo sozinho no quarto. Perguntei pela mãe. E comecei a ouvir uma resposta que ainda hoje não consigo contar sem vivenciar profunda emoção. Meu anjo respondeu: - Tio, disse-me ela, às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos corre- dores. Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade de mim. Mas eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida!

Pensando no que a morte representava para crianças, que assistem seus he- róis morrerem e ressuscitarem nos seriados e filmes, indaguei: - E o que morte representa para você, minha querida? Olha tio, quando agente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama do nos- so pai e no outro dia acordamos no nosso quarto, em nossa própria cama não

é? (Lembrei minhas filhas, na época crianças de 6 e 2 anos, costumavam dormir no meu quarto e após dormirem eu procedia exatamente assim).

- É isso mesmo, e então?

- Vou explicar o que acontece, continuou ela: Quando nós dormimos, nosso

pai vem e nos leva nos braços para o nosso quarto, para nossa cama, não é?

- É isso mesmo querida, você é muito esperta!

- Olha tio, eu não nasci para esta vida! Um dia eu vou dormir e o meu pai vem me buscar. Vou acordar na casa dele, na minha vida verdadeira! Boquiaberto, não sabia o que dizer. Chocado com o pensamento deste anji-

nho, com a maturidade que o sofrimento acelerou, com a visão e grande espiri- tualidade desta criança fiquei parado, sem ação.

- E minha mãe vai ficar com muitas saudades minha, emendou ela.

Emocionado, travado na garganta, contendo uma lágrima e um soluço, per- guntei ao meu anjo:

- E o que saudade significa para você, minha querida?

- Não sabe não tio? Saudade é o amor que fica!

Hoje aos 53 anos de idade, desafio qualquer um dar uma definição melhor, mais direta e mais simples para a palavra saudade: é o amor que fica!

Foi enviado para me dizer que existe muito mais

entre o céu e a terra, do que nos permitimos enxergar. Que geralmente, absolu- tizamos tudo que é relativo (carros novos, casas, roupas de grife, jóias) enquanto relativizamos a única coisa absoluta que temos, nossa transcendência. Meu anjinho já se foi, há longos anos. Mas me deixou uma grande lição, vin- do de alguém que jamais pensei, por ser criança e portadora de grave doença, e a quem nunca mais esqueci. Deixou uma lição que ajudou a melhorar a minha vida, a tentar ser mais humano e carinhoso com meus doentes, a repensar meus valores. Hoje, quando a noite chega e o céu esta limpo, vejo uma linda estrela a quem chamo“meu anjo”, que brilha e resplandece no céu. Imagino ser ela, fulgu- rante em sua nova e eterna casa. Obrigado anjinho, pela vida bonita que teve, pelas lições que ensinastes, pela ajuda que me destes. Que bom que existe saudade! O amor que ficou eterno.

Um anjo passou por mim

dr. Rogério brandão Médico Oncologista Clínico Recife/pE

O patOlÓGICO

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SPASMO!

p a t O l Ó G I C O abRIl dE 2009 7 SPASMO! Fragmentos

Fragmentos

A idéia mais comum que temos do tempo é a ima- gem mental de uma linha reta cujo caminho só pode ser percorrido num único sentido, sem qualquer pos- sibilidade ou alternativa diferente. Acontece que hoje, Ave! Como sofri hoje! Hoje notei que minha vida cami- nha como a idéia de tempo. Não sei o que fazer para mudar isso. Iria dizer tudo, escancarar todas as entra- nhas do meu coração. Não, não, não; digo que você, ah, quero me livrar de você! Mas não consigo, não consigo porque você sabe me usar. Conhece muito bem o que acontece comigo e tem um controle fatal sobre tudo isso. Mas, recuso-me. Resigno-me e continuo ermo. Tento imaginar que final- mente consigo lhe dizer adeus, que vá mesmo embora. Tenho mais para lhe dizer, mas a linha. Cataplasma! A linha continua igual. Não posso ficar pensando nisso. Não agora. Cruzei a esquina escura, três jovens conversavam com risinhos abafados, as silhuetas denunciando uma intenção se- creta e pervertida. O prédio velho, mal cuidado, de ja- nelas largas que pouco vento traziam, era mais refúgio do que nossa própria casa. Pelo menos ali os móveis não tinham as memórias violentas do pai que nunca conheci. Às vezes olhava para ele com piedade, às ve- zes, ódio. A cabeça baixa, forte, grande, o cabelo negro, escasso, agressivo na sua sombra. Ficava olhando a própria mão, como se estive a tirar os dedos de dentro de uma luva, um por um, como se estivesse a limpá-los de uma sujeira teimosa. Dedos grossos, a mão calejada. “Você precisa descansar”, dizia. Eu não saía dali. Quem tinha que partir era ele. Quero me livrar de você. A tarde vestia-se trêfega. O moinho de ventos frescos confundia-se com o aroma de canela e dor. Os pinheiros do jardim gemiam e cantavam baixinho, junto com as

borboletas inquietas e as cigarras tagarelas. O rapaz, sen- tado na cama de seu mísero e fétido quarto, folhava de- satento um livreto antigo. Podia-se dizer que mergulhara na profunda ilusão da ópera da vida quando se tentava

o quinto ato. Na forma de uma alegoria servil aos seus

pesadelos, conheceu a fortuna e o ódio dos despossuídos. Notou então que o seu pesar era menos valoroso do que a oportunidade de subir ao corpo as astúcias do espírito. Foi

assim que, enquanto desfrutava sua parcial viagem deitou ao gramofone um disco de Liszt. O piano soava violento

e vivo, tal qual o oposto de seu ouvinte. As notas frescas

e trespassadas com sabores de baunilha lhe traziam um

fulgor de gostosura completa, embora fosse apenas servo de sua tarde sobre os pinheiros. Tudo isso sofria quando ouviu murmurar do alto que a vida era mesmo assim, que os miseráveis haviam nascido para o labor, para as gotas d`águas mais rapinantes da tempestade. Noite difícil. Dia difícil. Chuva não vem mais. Dor que enfraquece a gente. Alegria que estanca feroz e

não corre como rio. Noite sem sono, céu sem sombra. Pássaro sem volta. Caminho de pedras. Deserto de so- nhos. Senhores risonhos. Batendo palmas para o estra- nho. Fogo que consome. Homem sem nome. Vida sem margem. Viagem, estiagem com imagem de água sem vaso. Amor que não tem. Sentido que foge. Velhinho que passa dizendo: “Vaidade seu moço. Que a terra é pra mór de sofrer mesmo que nem tatu em chão de pedra”! Patife! Porque a gente vive mesmo com dor de saudade que não tem fim. Pare de gritar! Pare de gemer! Pare, não adianta, sua dor não é do seu corpo. Ela pertence á sua alma, a tudo aquilo que você não foi. Ela pertence a tudo o que você tirou de nós, a tudo o que você destruiu. Não adianta, você não pode sair. Em casa? Pra quê? Pra você ficar me olhando como se folhasse um livro de memórias? Jamais! Já chega eu ter que estar aqui. Por que fico? Por que acho que o respeito. Acho que você é antes de tudo, muito humano e sua vida foi é muito real. Hoje o sol não nasceu. Aquele rapaz que via na foto parecia um tanto amorfo, psicologicamente amor- fo. Os pés juntos, em perfil, a cabeça encostada no muro conferiam-lhe uma forma exata, precisa demais. No que pensava aquele rapaz? Cuido que essa posição trouxe- me a lembrança estranha de um certo religioso, pros- trado diante do Muro das Lamentações, em Jerusalém. Mas aquele rapaz parecia ir além da lamentação, ele olhava para si e dizia que o mundo era seu, ou melhor, que ele poderia moldar o mundo como quisesse, afinal, comprara essa idéia de uma modernidade dilacerante e incisiva. Mas esse mundo, que ele construiria, teria como força sua arrogância, seu autoritarismo, seu nada psicológico. Teria sido melhor se ele pensasse em outra coisa. Talvez refletisse uma voz em si, uma forma, agora dentro de sua mediocridade. Por isso encostava a cabe- ça no muro, para ver seu umbigo, para ver a si mesmo, matéria e forma, em sua mente tão estranhos, simetri-

camente adequado àquela melancolia. Permaneceria ali, por horas a fio? Divagava sobre sua sexualidade e as relações de poder que permeavam sua vida singela? Quem era aquele rapaz, há cinqüenta e dois anos? Não, não você! Você é um velho estúpido, que dei- xou seus caprichos nos conduzir ao abismo. Você é ridi- culamente nobre demais, mas sua nobreza nos custou muita lágrima. Quero me livrar de você. Você não tinha esse direito. O que vai pensar quando partir? Talvez nem tenha o coração em paz. Preciso sair daqui. Debrucei-me sobre a cama. O cheiro forte de gente, de maçã podre me atordoou. Aperto o lençol imundo querendo descontar nele o

meu ódio; sangue, urina, suor

Aperto. A cabeça baixa,

de joelhos, aos pés de meu pai, um homem que sempre amei e que jamais conheci. Nunca me deu um beijo no rosto, nunca me olhou nos olhos, nunca vi nele o pai que via nos cinemas, o pai que as novelas mostravam. Existe um pai assim? Por que você tinha que ser assim?

mente enquanto seus lábios voluptuosos remexiam-se tentando pedir clemência Calmamente deixou ali o corpo, farto, vermelho ago- ra. O vento parara, as árvores calaram, o pássaro voara, a água escondera-se e ele se libertava do animal que ha- via nela. Honra? O mundo parece indiferente à sua dor, acho até que as folhas se pintam com gotinhas d’água pra co- memorar com você essa tristeza. Chove também, re- pare, chove sempre quando a vida da gente também cai, de repente, no chão duro. Servi-me de um bom grito, guinei para a direita, urrei, sacudi os olhos e vol- tei pisando firme para o hospital. Enquanto meus dedos perfilavam por entre as fo- tos quase verdes da nossa memória, a virtude flamava por campos longínquos, perdidos entre um rapaz que não tinha forma, encostado ao muro, perfilante dian- te de sua juventude, confiante em sua beleza. Beleza que desperdiçou. Juventude que errou. Reparei que eu também estou encostado sobre o muro, os pés como atados, a cabeça caída, apoiada. Era a vida, o meu tempo e a minha dor. Essa maldita linha que não me deixa pensar diferente. Não posso repetir o rapaz do muro. Não sou o rapaz do muro. Não me escondi de mim mesmo. Sofro, mas sou apenas o espelho dos meus sonhos. Ele não, seu espelho se quebrou. Azar! Tudo tão rápido. Tudo tão ontem. Não tinha o que levar, ajeitou a pequena trouxa na mala, pegou o menino embrulhadinho no berço, o dinheiro no paletó, uma caixa de sapatos, as fotos e as cartas dentro. Apenas um destino: o esquecimento. Foi o que fez. Nem lavou as mãos. Minutos mais tarde, quando voltei ao quarto agonizante, a enfermeira, de pé ao leito, parecia acariciar os cabelos dele. “Trouxe mais remédio, deve acalmá-lo”. Peguei na sua mão, ainda forte. Pai? Achei que pelo menos meu, sim. Não, você nunca foi. E pior, eu nem sabia por quê. Agora entendo quando quis me jogar na cal- çada. Posso imaginar porque não confiava em mim. Ele deve saber que a dor vinha toda vez que me des- prezava quando chegava a casa. Deve saber o quan- to era frustrante querer contar algo e do outro lado não ter quem ouvir, não saber, não poder ouvir. Ahh, ele sabia que era horrível, por isso era quieto demais,

por isso falava aos resmungos, quase nem sorria. Você não era obrigado a ficar. Podia simplesmen- te partir. Deixá-la. Por que quis ficar? Amor? Você me contou algumas vezes a história de quando se conhe- ceram. A declaração com a rosa na boca, depois do trabalho, no portão de casa. Mais rosas no chão do quarto, o aniversário em que fez a surpresa de viagem. Sorrio quando me lembro disso, das cartas que têm guardadas, de algumas fotos e daquele livro, aquele

livro grosso, com a dedicatória dela. Sorrio. Mas aperta muito quando junto vem você me dizendo, os olhos ficando pequenos, a boca debochando, das coisas mais simples da vida que eu não ia conseguir. Que era muito pra mim. Você nunca me deu uma gota de con- fiança. Deve ter doído demais ouvir a homenagem na formatura, posso sentir e agora fica fácil, você bebeu como nunca havia visto. Insuportável. Não fui o rapaz de cabeça no muro, não estou de olho apenas em minha vida. Eu quero mais, quero caráter que não recebi, quero ser pai de verdade, um

Será que ela o amava? Acho

dia

que não. Mas que droga, você não pode tentar explicar. E porque só agora? Porque esconder isso? Logo vai aca- bar. Nunca vou entender o seu silêncio. E agora tenho que conviver com o amor fracassado de um pai que foi uma mentira para mim. Insuportável. De repen- te a vida da gente, que nunca foi fácil, se torna uma grande mentira. Sempre achei que tivesse algo erra- do, mas você sempre foi muito quieto mesmo. Nunca aprovou minhas decisões, nunca me disse faça isso ou

aquilo. Ahhh, eu poderia lhe contar tanta coisa, dividir com você tantos medos, incertezas, dúvidas, alegrias, decisões que teria tomado. Mas por sorte que não o fiz. Somos assim mesmo, a verdade nos liberta. É che- gada a minha hora. Peguei as fotos, as cartas, a mesma caixa de sapa- tos. Olhei mais atentamente, tentando encontrar um amassado de ódio, um rasgo num canto. Nada, intac- ta. Igualzinho do jeito que a tirou do guarda-roupas, com certeza. Cheguei mais perto do seu rosto. Passei

a mão pelos cabelos negros

olhos

se abriram. Sem expressão. Apenas fitava os meus. Obrigado, disse eu baixinho. Ele piscou os olhos, va- garosamente. Saí, sem chorar agora. Era tempo de re- encontrar a vida real.

sem chorar agora. Era tempo de re- encontrar a vida real. Uma vez me disseram que

Uma vez me disseram que ele pediu pra mamãe me

colocar na calçada, queria dormir e eu gritava de dor

assim que você

sempre me deixou desde aquele dia, nas margens de

toda uma verdade

Não havia outra saída. Ficou consolado, e aturdiu que não haveria outra função para aquele pinheiro. Imaginou-

se ali, no abraço úmido da terra fértil, tecendo suas ener- gias e alcançando a luz. Quando por fim, ganhava respei- to e estatura de pinheiro velho, sentia-se forte e no auge de seus ventos suaves e amenos, balouçava as folhas colo- ridamente, exalando certo preceito de novos abraços para

a posteridade. Mas ora, o pinheiro. O pinheiro seria o cabo do machado, que não menos piedoso o faria também pia- no, O piano não existiria senão para sofrer o ataque dos mestres. Os gritos ora mais suaves, ora mais exautados, enfim, os gritos almiscarados que banhavam a tarde do rapaz sem denúncia. Legítima defesa da honra. O sol não nascera naquele dia, preferira ficar quieto, ultrajante, observador elíptico da eternidade, as formas bem definidas daquele rapaz da foto amarela; cabeça encostada no muro, aquele rapaz que não tinha for- ma nem humor. Saí dali, um pouco triste por encontrar de volta aquele mesmo árduo respirar, o mesmo balançar das folhas nas árvores.

A arquejar, a sofrer, a gritar, a

rastejar, a caçar, a matar, febrilmente a matar. Tornou-

de ouvido

Calçada

Nas margens

Foi

Precisava atravessar a rua.

Tornou-se um animal

se aquilo que realmente era: matéria a “estar no mundo”. Saiu correndo pelos arredores da casa, farejando sua vítima. As árvores respiravam consigo a agitação fra- galhosa dos seus pulsos. Ao longe, um pássaro sôfrego, reclamava, do alto de sua morada inconstante, a altivez de sua existência. O dourado dos telhados confundia- se com escarlate trêfego das paredes rachadas. Um fio de água, tímido, trazia sua voz, suave, escorrendo par- camente, até morrer na imundície de um assoalho mal construído. Saiu pela rua, tropeçando na balbúrdia da civilização. Entrou logo pela esquerda, dando defronte com a casa de portão azul. Os morros do fundo atrapalhavam

a lua que insistia em mostrar o podre do telhado negro. Estavam sentados, um defronte ao outro, o rapaz sem camisa, as mãos úmidas nas pernas morenas da rapa-

riga. Fraco, o corpo mirrado, o olhar azul de pássaro, quase inteligente. Deve ter batido na nuca, com o cabo.

E depois, avançado sobre o vestido amarelo, sem deixar

tempo para que pudesse socorrer, rasgou-lhe o peito arfante com uma fissura profunda, suspirando autiva-

Não há fotos dele

Tão

lisinhos

Seus

Eliel Faber (XlV)

8

O patOlÓGICO

abRIl dE 2009

Otombo

Andava pelas ruas, com minhas amarras, sandálias de vento, cujos passos e rasteiras, em intermitentes permutas, me conduzem ao chão. Quando caio, levo as mãos ao solo, um piso que não me reconhece, em seu concreto traço, de fragilidade disfarçado. Quando caio, olho ao redor da cena. Desejo-me invisível aos olhos humanos,

tão aplicados nas comparações do tormento. Quando caio, finjo-me de morto por alguns instantes.

E aos poucos,

do susto e dos risos faço percepção. Olho para meu interior, Estrela em retração, vejo meu reflexo,

nítido ao espelho da vergonha,

e de mim,

de um eu que só me visita em súbitos acessos de teimosia, lembro dos tempos em que cair

era a forma de dar passos mais longos,

e apoiar-se,

era fazer da força alicerce.

E assim, bato as mãos,

antes confeitadas com o pó do medo

e as plumas do asfalto,

ergo-me das profundezas do vacilo, até o próximo local, em que o cadarço do destino, Se desata ao convite de um encontro, Inesperado e doloroso, Entre a carne e o solo, O corpo e a alma, Entre o caminho e a pedra, Entre a marionete e suas cordas, Entre o fim e o ponto.

Fabricio Costa-bambu(XlV)

FALáCIAS

“Qual a melhor zona de Sp?”

Henrique Tellini (45) perguntando qual o melhor bairro em SP para se morar.

“tem muita coisa errada que não tá certa”

Noel (45) na prova de endócrino sobre as ques- tões de verdadeiro ou falso.

“Você usa óculos?”

Jéssica (45) para um paciente, que estava usando óculos, durante a anamnese.

“Vamos parar de gozar no ônibus? Eu só gozo em lugares apropriados!”

Bambu (45) no ônibus de Ações tentando acal- mar os ânimos dos colegas para a professor conse- guir falar.

“professor, o paciente está em êxtase ju- gular?”

Daniela(45) interroga ao professor de Semio que- rendo se referir a estase jugular

Repensando

as mudanças que o CAAL vem propondo são reflexas, penso numa demanda contrária que surgiu de um grupo de estudantes a partir de um momento de angústia com o que vinha ocorrendo na faculdade e esse sentimento fez com que a diretoria, os professores e os es- tudantes se sentissem pressionados a mudar algo. Foi feito da melhor forma? Não sei, algu- mas atitudes sim, outras não, mas há espaço para que as pessoas se coloquem contra ou a favor e comecem a querer discutir os por quês das coisas serem como são. Outra questão é a aceitação das festas en- tre os calouros, ninguém tem dúvidas de que as festas são os eventos melhor avaliados na calourada, mas talvez a diferença, pequena mas existente, entre as notas da chopada e do churrasco e a nota do Happy Hour do CAAL possa ser explicada pela ausência do “trote violênto” no Happy Hour. E isso por si só apon- taria para o fim desse tipo de comportamen- to. Não é porque eu não gostei da “cusparada na cara” que eu vou esquecer o veterano que me pôs pra brincar e dançar com meus ami- gos, embora tudo teria sido melhor se eu não tivesse ganhado uma “cusparada”. Concordo com meu ex-companheiro de CAAL quando ele diz que é hora de fazer uma reflexão diferente, mas não no sentido de es- con -

r

a

práti -

re-

c e n t e

que

m

per -

ojápassado

Escrevo esse texto na intenção de proble- matizar (e buscar esclarecimentos) o texto do Ombudsmam publicado no Patológico de março de 2009. Primeiramente é válido dizer que é mui- to importante a existência do texto de meu colega de turma, pois trata-se de um registro escrito por alguém que se posiciona a favor do trote e da semana de calourada na forma como elas acontecem hoje, importante por- que mostra um caminho para um debate mais profundo e produtivo sobre o assunto, dado que existem pelo menos dois pontos de vista sobre o tema. Mesmo sendo a milionésima vez neste pe- riódico quero expor a minha definição pessoal

sobre o que é “trote violento”. O “trote violen- to” é tudo o que se faz com uma pessoa con- tra sua vontade e

sem o seu conhe- cimento prévio, ou seja, omitir in- formações sobre um evento e den- tro dele submeter pessoas a agres-

sões físicas (socos, pontapés, chutar tênis na cabeça

das

psicológicas

pessoas

)

e

(hu-

milhações, cuspir no rosto das pessoas, fazer

é trote violento,

pois muitas pessoas se sentem negativamen- te afetadas quando submetidas a esse tipo de situação. Dada a minha opinião pessoal sobre um tema qualquer, posso passar a falar sobre po- sicionamento, não colocando sobre ele um juízo de valor dizendo se é correto ou não, mas apontando qual a sua origem para que as pessoas possam se posicionar ao meu lado ou de forma diferente de mim. Sabendo que em algumas festas de nossa faculdade acontece o “trote violento” sou contra a realização das mesmas nos moldes atuais, então, encontro o primeiro ponto de discordância com o texto do Ombudsman. Ser favorável a manutenção do formato atual de nossas festas é ser cúm- plice do “trote violento”, que apesar de não acontecer com todos os calouros e nem partir de todos os veteranos tem espaço garantido na chopada e no churrasco da calourada. Quanto a necessidade de discussão so- bre mudanças propostas, vale lembrar que o CAAL, que é atualmente o responsável pela organização da calourada, tem reuniões se- manais com pauta aberta todas as segundas- feiras. Sendo assim, qualquer estudante da nossa faculdade (e até mesmo de fora dela) pode mandar um e-mail para a gestão solici- tando um tópico de discussão, pode ir a reu- nião apresentar esse tópico e propor outras formas para que mudanças ocorram ou não na faculdade. Se não reivindicamos nossas pos- turas junto ao nosso representante institucio- nal não podemos culpá-lo pela forma como as coisas acontecem, temos que discordar das posturas em lugares onde elas possam ser discutidas e não usar a hierarquia para decidir sobre os rumos da faculdade. Não penso que

com que beijem seus pés

“Se muito vale o já feito,

mais vale o que será

E o que foi feito é preciso conhecer

para melhor prosseguir”*

ca

)

e

m

e

mane-

cendo

nos úl- i m o s

anos, mas no sentido de explicar porque essa prática acontece. Será que todo mundo que deixa de ser primeiro ano vira uma pessoa maldosa, hostil e agressiva que quer matar todos os calouros? É claro que não. Uma vez perguntei a um residente porque os vetera- nos mais velhos tendem a tratar seus calouros de maneira violenta? Ele me respondeu que todo mundo só pergunta porque o residente deu um soco no calouro, mas ninguém per- gunta para esse residente como ele foi trata- do no internato e que tipo de pressão ele pas- sa todos os dias na sua residência. Ninguém pergunta aos mais velhos o quão agredido eles são e o quanto exigem que façamos a mesma coisa. Parei para pensar e percebi que enquanto não acabarmos com essa opressão institucional, não acabaremos com a violência nas relações

entre as pessoas, sejam elas estudantes, docen-

Como faremos

tes, funcionários, comunidade

isso? Continuaremos numa luta de egos nos nomeando pelo número de anos que temos dentro da faculdade ou construíremos espaços para que todos se divirtam, para que todos tra- balhem bem, para que todos se sintam parte de algo nomeado Faculdade de Ciências Médicas e se sintam felizes em contribuir para a melhoria desse espaço da maneira que puderem. Penso que em nome de tradições e elemen- tos que não podiam ser mudados muitas pesso- as já foram oprimidas e exploradas, não só aqui, mas em toda a sociedade. E se for o momento de perpetuar o que há de melhor e deixar para trás as coisas ruins que nos pintam como neces- sárias? Não tenho um caminho certo, nem uma forma absoluta, mas pensar sobre o que vemos

já é uma maneira de mudar o que é injusto.

daniela donação dantas (XlIII)

*Milton Nascimento