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ISSN 1676-4579

Revista Spei

R. Spei, Curitiba, v. 5, n. 1, jan./jun. 2004


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Revista Spei
ISSN 1676–4579
V. 5 n. 1 2004

© Spei, 2004

Comissão Editorial
Sociedade Paranaense de
Ailton Renato Dörl, Osni Camargo Carvalho, Rodrigo Rossi Ensino e Informática
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Claudio Marlus Skora, Dayse Mendes, Hamilton Edson Lopes de Diretor-Presidente


Souza, Orlei José Pombeiro, Osni Camargo Carvalho, Paulo Alberto Ailton Renato Dörl
Bastos Jr, Paulo Cooper, Paulo Fernando Cherubin, Rodrigo Rossi
Horochovski, Sandro Aparecido Gonçalves

Faculdades Spei
Projeto gráfico e diagramação
Rodrigo Rossi Horochovski Al. Dr. Carlos de Carvalho, 256 - Centro - Cutitiba (PR) CEP
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Ficha catalográfica Diretor


Osni Camargo Carvalho
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Vice-Diretor e Coordenador dos Cursos de Administração
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Coordenadora Adjunta dos Cursos de Administração
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(PR) - CEP 80410-180. Orlei José Pombeiro

As colaborações devem seguir as normas publicadas na Coordenador do Curso de Ciências Contábeis


última folha deste fascículo. Sandro Aparecido Gonçalves

Coordenador Adjunto do Curso de Ciências Contábeis


Marcio José Assumpção
Tiragem desta edição: 500 exemplares
Coordenador do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento
em Gestão
PEDE-SE PERMUTA.
Hamilton Edson Lopes de Souza
EXCHANGE DESIRED

Revista Spei

v.1, n. 1, jul./dez. 2000 – Curitiba: Faculdades Spei, 2000.


Periodicidade Semestral
ISSN 1676 - 4579
1. Pesquisa científica - Periódicos
CDD 001.405

R. Spei, Curitiba, v. 5, n. 1, jan./jun. 2004


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Revista Spei

v. 5 n.1 janeiro/junho 2004

SUMÁRIO

ARTIGOS
Apresentação ............................................................................................................................................................................ 5

A Nova Lei do Direito à Informação Ambiental ............................................................................................................ 7


Lucivaldo Vasconcelos Barros

A Percepção da Corrupção: Implicações Econômicas ................................................................................................. 15


Thierry Molnar Prates

Um Sistema Computacional para Verificação do Nível de Compreensão de Textos em Linguagem Natural . 23


Jaime Wojciechowski

Trabalho Assalariado e Reestruturação Produtiva: a Construção do Trabalhador Flexível do Século XXI ........ 31
Christiane Faria Caiado

Assédio Moral nas Organizações ....................................................................................................................................... 35


Michely Juglair Saldanha

Mídia Exterior: Diferencial para Fixação de Marcas ...................................................................................................... 41


Deisi Laube e Elianay da Silveira

ENSAIO
A Base de Dados como objeto de proteção de Direito Autoral ................................................................................ 47
João Ademar de Andrade Lima

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APRESENTAÇÃO

Este fascículo abre o ano em que a Revista Spei completa seu primeiro lustro. A chegada a este quinto ano de circulação periódica e
ininterrupta é uma conseqüência do investimento e da crença da Sociedade Paranaense de Ensino e Informática na produção e na
divulgação da ciência, sobretudo nas áreas de gestão e informática.
Mais uma vez o artigo inaugural vem de fora do Estado; Em A Nova Lei do Direito à Informação Ambiental, Lucivaldo Vasconcelos
Barros, da Universidade Federal do Pará analisa o conteúdo e as conseqüências para a sociedade da vigência de um novo arcabouço legal
para o direito à informação ambiental, matéria, aliás, já tratada em edição anterior da revista.
Thierry Molnar Prates, professor da Spei, nos oferece A Percepção da Corrupção: Implicações Econômicas, em que relaciona indicadores de
percepção da corrupção com o desenvolvimento econômico das sociedades. Outro professor da casa, Jaime Wojciechowski, em Um
Sistema Computacional para Verificação do Nível de Compreensão de Textos em Linguagem Natural, apresenta os resultados da aplicação de uma
ferramenta de informática para avaliação do nível de compreensão de textos.
Christiane Faria Caiado, também professora da Spei, trata de assunto da maior atualidade para o desenvolvimento econômico
recente e as relações entre capital e trabalho no Brasil, em seu artigo Trabalho Assalariado e Reestruturação Produtiva: A Construção do
Trabalhador Flexível do Século XXI.
Na seqüência, encontram-se trabalhos resultantes da Política de Estágio das Faculdades Spei, por meio da publicação de artigos
produzidos por nossos estudantes: Assédio Moral nas Organizações, de Michely Juglair Saldanha; e Mídia Exterior: Diferencial para Fixação
de Marcas, de Deisi Laube e Elianay da Silveira.
Este número é concluído por um ensaio que transita nas áreas jurídica e de gestão da informação: A Base de Dados como objeto de
proteção de Direito Autoral, de João Ademar de Andrade Lima, mais um profissional de fora do Estado (Universidade Federal da Paraíba)
cuja contribuição muito honra esta publicação.
Boa leitura, e que a Revista Spei possa comemorar outros lustros, oferecendo sua contribuição para o progresso do conhecimento.

Os editores

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A NOVA LEI DO DIREITO À INFORMAÇÃO AMBIENTAL

Lucivaldo Vasconcelos Barros


Analista de Documentação da Procuradoria da República no Estado do Pará, Professor do Departamento de Biblioteconomia da UFPa, Mestrando
em Desenvolvimento Sustentável pela UnB e Advogado. E-mail: lucivaldobarros@hotmail.com

RESUMO ABSTRACT

O artigo faz uma abordagem sobre a nova lei brasileira do Direito This paper considers the new brazilian law regarding Environmental
à Informação Ambiental, demonstrando seus principais aspectos Information Rights, showing its main issues and advances. It
e avanços. Enfatiza o acesso a informações ambientais pela sociedade enfasizes society´s access to environmental information as an
como condição indispensável para o fortalecimento da democracia indispensable condition for strengthening democracy and
e proteção do meio ambiente, enumerando pontos críticos dos protecting the environment, by enumerating critical points of the
problemas ambientais, bem como a necessidade de se disseminar environmental problems as well as the need to disseminate and
e divulgar informações sobre impactos causadores de degradação divulge information about impacts that cause environmental
ambiental. Faz um balanço das normas sobre o acesso à informação degradation. An inventory of the norms of access to environmental
ambiental, indicando sugestões para uma maior efetividade da information is made with suggestions on how to broaden the
legislação vigente. efectiveness of the current legislation.

Palavras-chave Key words

Direito à Informação, Direito à Informação Ambiental, Rigth to Information, Right to Environmental Information,
Educação Ambiental, Desenvolvimento Sustentável, Environmental Education, Sustainable Development,
Informação Ambiental Environmental Information

R. Spei, Curitiba,
R. Spei, v. 5, v.n.5,1,n.p.1,7-13,
Curitiba, jan./jun.
jan./jun. 20042004
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1 APRESENTAÇÃO situações de risco ou de emergência ambientais; emissões de


efluentes líquidos e gasosos, e produção de resíduos sólidos;
O presente artigo tem duas pretensões básicas: a primeira substâncias tóxicas e perigosas; diversidade biológica e OGMs
delas consiste em apresentar a nova lei brasileira do acesso à (Organismos Geneticamente Modificados).
informação ambiental e as respectivas normas de tutela desse direito. Qualquer indivíduo, independentemente da comprovação de
A segunda, objetiva fazer uma reflexão sobre a importância do interesse específico, terá acesso às informações ambientais3 mediante
Direito à Informação Ambiental como um mecanismo de requerimento escrito, no qual assumirá a obrigação de não utilizar
fortalecimento do processo participativo, bem como um as informações colhidas para fins comerciais, sob as penas da lei
instrumento imprescindível à plena conscientização da sociedade civil, penal, de direito autoral e de propriedade industrial, assim
na defesa efetiva do patrimônio ambiental em consonância com os como de citar as fontes, caso, por qualquer meio, venha a divulgar
princípios do Desenvolvimento Sustentável. os aludidos dados, sendo assegurado o sigilo comercial, industrial,
Dois aspectos serão tratados: o acesso à informação ambiental financeiro ou qualquer outro sigilo protegido por lei, bem como o
enquanto um direito consagrado da pessoa humana e uma garantia relativo às comunicações internas dos órgãos e entidades
constitucional positivada, com sua respectiva legislação extravagante governamentais.
sobre o tema e a importância dessa garantia para a democratização Convém ressaltar, que a noção de impacto ambiental trazida
no que diz respeito à proteção ambiental. pela Resolução CONAMA nº 001, de 23/01/1986, tal como
O tema é contemporâneo e instigante e diz respeito à preleciona Mirra (2002, p. 27) “deve ser interpretada em consonância
democratização da informação para a proteção do patrimônio natural com os novos contornos dados à matéria pela norma do art. 225,
da humanidade, cujo estudo procurará demonstrar que a edição da § 1º, IV, da Constituição Federal, que se refere ao impacto ambiental
nova lei do Direito à Informação Ambiental pelo governo brasileiro como uma significativa degradação ambiental”.
representa um grande passo nesse processo. Pela nova Lei, as autoridades públicas poderão exigir a
prestação periódica de qualquer tipo de informação por parte das
2 INTRODUÇÃO entidades privadas, mediante sistema específico a ser implementado
por todos os órgãos do SISNAMA, sobre os impactos ambientais
Após ser aprovada pelo Congresso Nacional, o Presidente da potenciais e efetivos de suas atividades, independentemente da
República Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou, em 16 de abril de existência ou necessidade de instauração de qualquer processo
2003, juntamente com os Ministros Marina Silva, do Meio Ambiente administrativo.
e Álvaro Augusto Ribeiro Costa, Advogado-Geral da União, a Lei no Deverão ser publicados em Diário Oficial e ficar disponíveis,
10.650 – Lei do Direito à Informação Ambiental –, que dispõe no respectivo órgão, em local de fácil acesso ao público, listagens e
sobre o acesso público aos dados e informações existentes nos relações contendo os dados referentes aos seguintes assuntos: a)
órgãos e entidades integrantes do Sistema Nacional de Informações pedidos de licenciamento, sua renovação e a respectiva concessão;
sobre o Meio Ambiente (SISNAMA). b) pedidos e licenças para supressão de vegetação; c) autos de
A Convenção de Aarhus1, considerada na visão de Furriela infrações e respectivas penalidades impostas pelos órgãos
(2002, p. 38) “uma das normas mais completas e atuais sobre o ambientais; d) lavratura de termos de compromisso de ajustamento
tema da participação pública na gestão do meio ambiente” e a de conduta; e) reincidências em infrações ambientais; f) recursos
Agenda 212, emprestaram importantes princípios à nova Lei interpostos em processo administrativo ambiental e respectivas
Brasileira do Direito à Informação Ambiental. decisões; e g) registro de apresentação de estudos de impacto
Por força desta Lei os órgãos integrantes do SISNAMA ambiental e sua aprovação ou rejeição.
obrigam-se a permitir o acesso a documentos, expedientes e As relações contendo os dados deverão estar disponíveis para
processos administrativos que tratem de matéria ambiental e a
fornecer todas as informações ambientais que estejam sob sua
guarda, em meio escrito, visual, sonoro ou eletrônico, especialmente
as relativas à qualidade do meio ambiente; políticas, planos e
programas potencialmente causadores de impacto ambiental;
resultados de monitoramento e auditoria nos sistemas de controle 3 A Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente
(CONAMA) nº 01, de 23/01/1986, instituiu a Avaliação de Impacto
de poluição e de atividades potencialmente poluidoras, bem como Ambiental (AIA) como um dos instrumentos da Política Nacional do Meio
de planos e ações de recuperação de áreas degradadas; acidentes, Ambiente, regulamentando o licenciamento sobre atividades causadoras
de impactos ambientais. Esta norma disciplina o Estudo de Impacto
Ambiental (EIA) e estabelece que o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA)
seja apresentado de forma objetiva e adequada a sua compreensão, devendo
as informações serem traduzidas em linguagem acessível, ilustradas por
mapas, cartas, quadros, gráficos e demais técnicas de comunicação visual,
de modo que se possam entender as vantagens e desvantagens do projeto,
1 A 4° Conferência Ministerial da série Meio Ambiente para a bem como todas as conseqüências ambientais decorrentes de sua
Europa, conhecida como Convenção de Aarhus, foi realizada em 21 de implementação. Respeitado o devido sigilo industrial, o público em geral
abril de 1998, na cidade de Aarhus, Dinamarca. Nesse evento, a Comissão poderá acessar o RIMA, estando suas cópias disponíveis nos centros de
Econômica Européia das Nações Unidas, juntamente com Organizações documentação ou bibliotecas da Secretaria de Meio Ambiente e do órgão
Não-Governamentais, elaboraram uma Convenção sobre Acesso à estadual de controle ambiental correspondente, inclusive no período de
Informação Ambiental e Participação Pública nas Decisões Ambientais. análise técnica. A Resolução CONAMA nº 6, de 24/01/1986, dispõe sobre
a publicidade de informações ambientais sobre licenciamento em quaisquer
2 A Agenda 21 é um programa de ação baseado num documento de suas modalidades. Já a de nº 09, de 03/12/1987 dispõe sobre a audiência
de 40 capítulos que representa uma tentativa de promover, em escala pública para melhor discussão do RIMA e a Resolução nº 279, de 27/06/
planetária, um novo padrão de desenvolvimento, conciliando métodos de 2001, refere-se à publicação e divulgação de Relatório Ambiental Simplificado
proteção ambiental, justiça social e eficiência econômica. para as atividades que menciona.

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o público trinta dias após a publicação dos atos a que se referem, Na disputa política das decisões públicas ou no jogo do
além do que, os órgãos competentes integrantes do SISNAMA mercado ambiental, nem sempre há uma correspondência no acesso
deverão elaborar e divulgar relatórios anuais relativos à qualidade a informações ambientais. O sistema de troca entre atores envolvidos
do ar e da água e, na forma da regulamentação, outros elementos é quase sempre assimétrico. De um lado alguém tem carência de
ambientais. informação5, e de outro, alguém quer ganhar por ter o poder da
As informações serão prestadas mediante o recolhimento de informação. Nesse sentido Fabian (2002, p. 157) enfatiza que “o
valor correspondente ao ressarcimento dos recursos despendidos conhecimento é, em muitas situações, o fundamento para uma
para o seu fornecimento, observadas as normas e tabelas específicas, decisão livre”. Aquele que dispõe de mais informação sobre recursos
fixadas pelo órgão competente em nível federal, estadual ou naturais tem melhores condições de fazer uma avaliação melhor
municipal. sobre determinada decisão.
Como se observa, o País parece ter avançado bastante em O ideal seria se o Estado proporcionasse acesso prévio6 a
termos de positivação do acesso a informações públicas, em especial informações ambientais 7, através da publicidade de atos e
na área ambiental. Entretanto, para a efetividade desse direito, um documentos, e se o funcionário público assegurasse o recebimento
dos fatores que se observa importante, é a integração das várias leis da informação de forma adequada, dentro de uma veracidade
existentes, como a leis de crimes ambientais, lei da Ação Civil Pública necessária e com a clareza suficiente.
etc, em busca de resultados mais eficazes em favor da proteção da
natureza.

3 A IMPORTÂNCIA DA INFORMAÇÃO PÚBLICA


AMBIENTAL 5 Informação é um conhecimento inscrito (gravado) sob a forma
escrita (impressa ou numérica), oral ou audiovisual. A informação comporta
um elemento de sentido. É um significado transmitido a um ser consciente
Apesar do Brasil ser considerado o celeiro natural da
por meio de uma mensagem inscrita em um suporte espacial-temporal:
humanidade, em razão da sua extraordinária beleza geográfica e impresso, sinal elétrico, onda sonora, etc. Essa inscrição é feita graças a um
abundante diversidade biológica, estatísticas apontam que boa parte sistema de signos (a linguagem), signo este que é um elemento da linguagem
da população brasileira ainda não conhece esse imenso patrimônio que associa um significante a um significado: signo alfabético, palavra,
sinal de pontuação. (LÊ COADIC, Yves-François. A ciência da informação.
e nem se conscientizou da importância que esses ativos representam
Brasília: Briquet de Lemos, 1996, p. 5). Na mesma obra o autor expõe que
para a nação, a começar pelo nível de informações ambientais a que um conhecimento (um saber) é o resultado do ato de conhecer, ato pelo
tem acesso4. qual o espírito apreende um objeto. Conhecer é ser capaz de formar a
O acesso à informação ambiental é importante na consolidação idéia de alguma coisa; é ter presente no espírito. Isso pode ir da simples
identificação (conhecimento comum) à compreensão exata e completa
da democracia e na defesa do meio ambiente, pois proporciona
dos objetos (conhecimento científico). O saber designa um conjunto
esclarecimento e instrução, permitindo que os indivíduos estejam articulado e organizado de conhecimentos a partir do qual uma ciência –
aptos a interferir no processo decisório, manifestando-se sobre os um sistema de relações formais e experimentais – poderá originar-se.
riscos que um impacto ambiental possa causar no meio em que
6 A propósito do acesso prévio a informações ambientais, vale
vivem.
ressaltar a oposição do Brasil ao Princípio 20 da Declaração de Estocolmo,
A Educação Ambiental, por exemplo, é um instrumento que originalmente, se referia à obrigação de informação prévia (ver, a esse
essencial para adquirir conhecimentos, bem como mudar valores, respeito, a obra de CAUBET, Christian G. As grandes manobras de Itaipu:
comportamentos e estilos de vida. energia, diplomacia e direito na Bacia do Prata. São Paulo: Acadêmica, 1989,
p . 99).
O alcance de um futuro sustentável está no fomento, entre a
população, da importância do meio ambiente. Segundo Carvalho 7 A Convenção de Aarhus define informação ambiental toda
(2002, p. 147) a incorporação dessa consciência permite que os informação disponível sob forma escrita, visual, oral ou eletrônica ou sob
membros de uma comunidade se identifiquem na busca de um qualquer forma material, a respeito de: a) o estado do meio ambiente, tais
como o ar e a atmosfera, as águas, o solo, as terras, a paisagem e os sítios
propósito de mudança “aprendendo com seus próprios erros e
naturais, a diversidade biológica e seus componentes, compreendidos os
tentativas, a desenvolver suas capacidades de organizarem-se, organismos geneticamente modificados, e a interação desses elementos; b)
integrarem-se e se auto-ajudarem para dobrar os obstáculos que se fatores como: as substâncias, a energia, o ruído e as radiações e atividades ou
opõem a seus processos particulares de desenvolvimento”. medidas, compreendidas as medidas administrativas, acordos relativos ao
meio ambiente, políticas, leis, planos e programas que tenham ou possam
Uma das formas das pessoas adquirirem essa consciência e
ter, incidência sobre os elementos do meio ambiente concernente à alínea
serem capazes de acessar e assimilar informações necessárias à a, precedente, e a análise custo/benefício e outras análises e hipóteses
tomada de decisões e à melhoria de sua qualidade de vida é, como econômicas utilizadas no processo decisório em matéria de meio ambiente;
foi ressaltado, por meio da Educação Ambiental. c) o estado de saúde do homem, sua segurança e suas condições de vida,
assim como o estado dos sítios culturais e das construções na medida em
que são ou possam ser alterados pelo estado dos elementos do meio ambiente
ou, através desses fatores, atividades e medidas visadas na alínea b precedente.
(SAMPAIO, José Adércio Leite; WOLD, Chris; NARDY, Afrânio. Princípios de
direito ambiental: na dimensão internacional e comparada. Belo Horizonte:
Del Rey, 2003. p. 77-78). Já a Diretiva 90/313 do Conselho das Comunidades
Européias, em seu art. 2º, considera informação ambiental, qualquer
informação disponível sobre a forma escrita, visual, oral, ou de base de
4 Pesquisa coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente, realizada dados relativa ao estado das águas, do ar, do solo, da fauna, dos terrenos e dos
pelo IBOPE/ISER, em todo território nacional, em outubro de 2001, espaços naturais, às atividades (incluindo as que provocam perturbações
concluiu que os brasileiros, de um modo geral, continuam se sentindo como ruído) ou medidas que os afetem ou possam afetar negativamente e às
pouco informados sobre os assuntos relativos ao meio ambiente e à atividades ou medidas destinadas a protegê-los, incluindo medidas
ecologia, indicando quase nenhum avanço neste setor, após 10 anos da administrativas e programas de gestão ambiental. Alguns exemplos de
Rio-92. (Disponível em: <http://www.iser.org.br>. Acesso em: 02 ago. informações que podem ser solicitadas invocando esta norma: águas residuais,
2003). incidentes ou acidentes dos quais resulte poluição, emissões, substâncias

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A informação adequada se traduz em disseminar a informação dos brasileiros. África do Sul e Lituânia são exemplos recentes de
no momento certo e adequado ao desenvolvimento físico, incorporação desse direito. O caso mais conhecido, segundo
intelectual e moral e à formação política, cultural e social dos documento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo
cidadãos. A veracidade consiste em prestar informação verdadeira, (2003, p. 4), entretanto, é o dos Estados Unidos, com o Freedom of
não enganosa, não falsa, para que as pessoas possam se esclarecer a Information Act (FOIA), lei de 1966.
respeito da realidade dos fatos e tirar suas próprias conclusões, De outro lado, outros governos têm dificultado o acesso à
contribuindo para o enriquecimento da democracia. Já a suficiência, informação de caráter público coletivo, arvorando-se, como nos
resulta em afirmar que a informação além de verdadeira e adequada, ensina Santos (2000, p. 729), “em verdadeiros proprietários de
deve ser clara, completa, integral, devendo ser veiculada de forma dados obtidos no exercício da função pública”.
imparcial e que corresponda à realidade dos fatos, buscando sempre Na área ambiental, por exemplo, a disponibilização de
o interesse à veracidade e à inteireza das informações públicas. informações tem sido um grande tabu para muitos agentes
Em muitas ocasiões sabe-se que nem sempre essa engrenagem públicos, principalmente aqueles que utilizam os recursos naturais,
funciona assim. Como nos alerta Machado (1997, p. 214) a como fonte única e exclusiva de promoção do crescimento
informação pública, não só a do meio ambiente, tem seus inimigos, econômico, sem se preocuparem com aspectos sociais, biológicos,
“aqueles que querem ser autoritários e corruptos evidentemente éticos e culturais relacionados com o meio ambiente.
tentarão de forma direta ou indireta dificultar a transmissão da Assim, é importante estar atento e se inteirar sobre as atividades
informação ambiental”. ambientais realizadas ou delegadas pelo Poder Público, tal como
A sociedade precisa se conscientizar de que a informação orienta Franzon (2003, p. 34):
ambiental produzida pelo Estado não pertence ao governo, mas a
todos os cidadãos e o acesso a ela contribui para diminuir ou evitar No manejo da res publica, a Administração deve agir com a
a corrupção, dar mais transparência aos atos governamentais, maior transparência possível, de modo que os administrados
permitir melhor conhecimento sobre atividades e planos tenham continuamente conhecimento do que o Poder Público
governamentais, além de mensurar a qualidade do meio ambiente está fazendo, admitindo-se, apenas excepcionalmente, ações
em favor da coletividade. sigilosas. Esta é uma exigência constitucional. Razão disso é
Nesse fluxo dinâmico da informação cada cidadão atua como que o direito à informação ambiental reitera e afirma de modo
um acionista do Estado. O reconhecimento do direito de acesso a inconteste o princípio da publicidade dos atos administrativos,
informações ambientais, tanto em nível nacional quanto se afirmando, de um lado, como meio de conscientização e de
internacional8, representa uma grande conquista da liberdade e da participação popular na defesa do meio ambiente, e de outro,
democracia, oportunizando à comunidade o direito de saber o que como instrumento de controle do poder pela coletividade.
está sendo realizado em seu nome e no seu ambiente vivo.
Embora não se possa afirmar que a efetividade do acesso à
4 REGIME JURÍDICO DO DIREITO À INFORMAÇÃO informação ambiental no Brasil seja uma realidade consolidada, o
AMBIENTAL arcabouço jurídico que tutela esse direito, tanto em nível
constitucional quanto em nível infraconstitucional, já é bastante
A possibilidade da sociedade ter acesso a atos e documentos expressivo, tendo em vista que suas normas, de maneira direta ou
produzidos pelo Estado tem sido um importante fator no indireta, objetivam garantir a efetividade desse direito.
fortalecimento e consolidação de várias democracias do mundo.
Diferentemente do Brasil, alguns países já têm lei de acesso a 4.1 POSIÇÃO CONSTITUCIONAL
informações públicas. Na América Latina, nações vizinhas já
possuem lei de acesso à informação. É o caso da Argentina, México A Constituição Federal procurou dar ao meio ambiente a
e Peru, colocando os cidadãos em situação mais confortável que a proteção necessária, conferindo a todos a responsabilidade pela
defesa de um meio ambiente sadio, não só para a presente, mas
também, para as futuras gerações, convidando o cidadão a participar
desse processo.
Previu, também, ao longo de seu texto, de forma genérica, o
direito de acesso à informação pública9, e ao tratar de matéria
radioativas, níveis de ruído, planos de ordenamento do território, resíduos, ambiental, inseriu de modo específico, o direito à informação
licenciamento de obras, qualidade das águas, loteamentos urbanos, consumo
de energia, planos rodoviários, fontes de energia utilizadas, construção de
estradas, pontes, etc, licenciamento industrial, licenciamento de comércio e
serviços, condições de laboração, transporte de mercadorias perigosas e
outras (Disponível em: <http://www.despodata.pt/geota/Particip/
guiainfo.htm>. Acesso em: 19 set. 2003).

8 Vários documentos internacionais prevêem o direito à 9 A Constituição Federal de 05/10/1988 em seu art. 5º, XIV, assegura
informação em seus textos. A Declaração do Rio, por exemplo, elaborada a todos o acesso à informação e resguarda o sigilo da fonte, quando
durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e necessário ao exercício profissional. Prevê, ainda, no art. 5º, XXXIII, que
Desenvolvimento, em 1992, explicita em seu art. 10, o dever do Estado de todos têm o direito a receber dos órgãos públicos, informações de seu
tornar as informações ambientais acessíveis a todos os indivíduos. A Agenda interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas
21, aprovada nessa Conferência, recomenda, no capítulo 40, a no prazo da lei, sob pena de responsabilidade; inc. XXXIV direito de
implementação de programas para a redução das diferenças em matéria de petição e certidão e inc. LXXII institui o habeas data para o reconhecimento
dados e para a melhoria da disponibilidade da informação, chamando a ou retificação de dados pessoais; no art. 216 prevê a gestão da documentação
atenção, também, para a falta generalizada de capacidade de transformação governamental franqueando sua consulta e no caput do art. 37 prevê o
dos dados em informação útil. princípio da publicidade ou da transparência da Administração Pública.

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ambiental, ao estabelecer no caput do art. 225, § 1º, IV, que em caso 2000 e, em seguida, regulamentado pelo Decreto nº 4.074, de 04/
de instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de 01/2002.
significativa degradação do meio ambiente, seja exigido pelo Poder O Decreto nº 98.161, de 21/09/1989, tratou da administração
Público o EIA – Estudo de Impacto Ambiental, dando publicidade do Fundo Nacional do Meio Ambiente, atribuindo ao comitê
a toda sociedade por meio de divulgação das informações ambientais administrador do fundo, no art. 6º, competência para elaborar o
contidas no RIMA. relatório anual de atividades e obrigando a promover sua
Na verdade, a Constituição de 1988 procurou de recepcionar o divulgação.
Direito à Informação Ambiental que já constava como um dos O Código de Defesa do Consumidor, instituído pela Lei nº
objetivos da Política Nacional do Meio Ambiente de 198110, como 8.078, de 11/09/1990, obrigou o comerciante, fabricante e
forma de assegurar a todo cidadão, o conhecimento sobre atividades fornecedor a informar todos os detalhes técnicos e científicos de
potencialmente causadoras de impactos ambientais. seus produtos para que o consumidor saiba o que está comprando
Em ensaio sobre o tema, Graf (2002, p. 27) expõe que o e como manusear corretamente o que está adquirindo, classificando
direito constitucional de acesso a informações ambientais pode ser o direito à informação como um direito difuso, de caráter
“exercido tanto por pessoas físicas como jurídicas, nacionais ou transindividual, de natureza indivisível, de que sejam titulares
estrangeiras e é oponível aos órgãos da administração direta e pessoas indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato.
indireta e a todos os órgãos que exerçam funções delegadas do Em artigo sobre o tema, o jurista Luis Gustavo Carvalho
Poder Público”. (1994, p. 64) nos mostra que o interesse é transindividual e indivisível
Cabe ao Estado assegurar mecanismos que dêem ao titular porque a informação é direcionada a “todas as pessoas que se
desse direito uma efetiva comunicação dos atos públicos, não apenas disponham a recebê-la, sem que se possa individualizar e dividir
como uma mera publicidade, mas sobretudo, como uma prestação qual informação será difundida para este indivíduo e qual para
de contas das atividades ambientais que delega ou realiza. aquele. Todos os titulares estão ligados pela circunstância de fato”
A opinião pública funciona como fermento da democracia e de serem receptores da mesma publicidade.
fonte de afirmação de valores. Na área ambiental o acesso a A Lei nº 8.159, de 08/01/1991, ao instituir a Política Nacional
informações desempenha importante papel no equacionamento de Arquivos Públicos e Privados, assegurou a todos o acesso pleno
da política ambiental. Para Milaré (2002, p. 262) “os cidadãos com a qualquer documento público, mas não previu como se daria tal
acesso à informação têm melhores condições de atuar sobre a acesso, muito menos estabeleceu prazos para que os agentes do
sociedade, de articular mais eficazmente desejos e idéias e de tomar Estado fornecessem informações quando solicitadas.
parte nas decisões que lhe dizem respeito diariamente”. Na prática, esta lei abriu caminho para o surgimento de outras
normas sobre a salvaguarda de documentos públicos de caráter
4.2 LEGISLAÇÃO INFRACONSTITUCIONAL sigiloso, como por exemplo: o Decreto nº 2.134, de 24/01/1997,
já revogado, mas que criava as Comissões Permanentes de Acesso;
Embora não exista um ato único que regulamente o direito o Decreto nº 2.910, de 29/12/1998, sobre normas para a salvaguarda
de acesso a informações públicas, o cidadão brasileiro possui um de documentos de natureza sigilosa; o de nº 2.942, de 18/01/
número razoável de normas jurídicas que se preocupam em garantir 1999, já revogado, dispunha sobre arquivos de caráter privado; o
a defesa e proteção do meio ambiente. Decreto nº 4.073, de 03/01/2002, criando o Conselho e o Sistema
Uma das mais destacadas leis na defesa da cidadania ambiental Nacional de Arquivos e, finalmente, o Decreto nº 4.553, de 27/12/
é Lei nº 7.347, de 24/07/1985, que instituiu a Ação Civil Pública, 2002, que revogou o de nº 2.134/1997 e criou o conceito de sigilo
constituindo-se um importante instrumento na defesa dos direitos eterno, permitindo a renovação indefinida do prazo máximo de 50
difusos, dentre os quais se enquadra a proteção do direito ao meio anos para não-divulgação de determinados documentos.
ambiente ou mesmo, o direito de acesso à informação. Merece destaque também, a Política Agrícola, a partir da edição
O art. 8º, da Lei nº 7.661, de 16/05/1988, que instituiu o da Lei nº 8.171, de 17/01/1991, que, ao tratar de capítulo sobre
Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro, determina que os dados informação agrícola, exigiu a divulgação de uma série de atividades
e as informações resultantes do monitoramento exercido sob pelo Sistema de Informação Agrícola.
responsabilidade municipal, estadual ou federal na Zona Costeira Os Transgênicos, como são conhecidos os Organismos
comporiam o Subsistema Gerenciamento Costeiro, integrando-o Geneticamente Modificados (OGMs), estão regulamentados pela
ao SISNAMA. Lei nº 8.974, de 05/01/1995 ou Lei da Biossegurança, que garante
A Lei dos Agrotóxicos, editada sob o nº 7.802, de 11/07/ a todos os cidadãos a acessibilidade de informações sobre atividades
1989, dentre outras providências, protegeu o acesso e suscetíveis de afetar a saúde e segurança, bem como, sobre os
disponibilização de informações sobre os produtos que menciona. procedimentos em caso de acidentes.
Tal diploma foi, em parte, alterado pela Lei nº 9.974, de 06/06/ A Convenção sobre Diversidade Biológica, aderida pelo Brasil
através do Decreto nº 2.519, de 16/03/1998, previu em seu art. 17
a obrigatoriedade dos países signatários em promover o
intercambio de informações, disponibilizando-as ao público
interessado.
Por sua vez a Convenção Internacional de Combate à
10 A Lei nº 6.938, de 31/08/1981, com alteração dada pela Lei nº Desertificação, ratificada por nosso País por meio do Decreto nº
7.804, de 18/07/1989 instituiu a Política Nacional do Meio Ambiente, 2.741 de 20/08/1998, em seu art. 18, determinou a divulgação das
elegendo em seu art. 9º, VII, o SISNAMA como um dos instrumentos da
Política Ambiental, garantindo a prestação de informações relativas ao
informações obtidas nos trabalhos científicos sobre a temática.
meio ambiente, obrigando o Poder Público a produzi-las, quando O Decreto nº 3.871, de 18/07/2001, que disciplinava a
inexistentes. Os Decretos nº 99.274, de 06/06/1990, nº 4.297, de 10/07/ rotulagem de alimentos geneticamente modificados, obrigando a
2002 e nº 4.339, de 22/08/2002, regulamentaram o referido diploma. publicação de informações no rótulo desses produtos, foi revogado

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12

pelo Decreto nº 4.680, de 24/04/2003. Este novo ato regulamentou (Ação Popular); Lei nº 1.533, de 31/12/1951 (Mandado de
o direito à informação assegurado pelo Código do Consumidor, Segurança), além de outros remédios constitucionais previstos na
quanto aos alimentos e ingredientes alimentares destinados ao Carta Magna.
consumo humano ou animal que contenham ou sejam produzidos Apesar do relativo arcabouço jurídico que ampara o acesso a
a partir de OGMs. documentos públicos, o grande avanço em relação ao acesso a
Outro mecanismo legal publicado no Brasil, importante para informações ambientais sobre as atividades causadoras de impactos
garantia do acesso a informações públicas, foi a Lei nº 9.051, de 18/ ambientais se deu com a promulgação da Lei nº 10.650/2003, tal
05/1995, que tratou da expedição de certidões para a defesa de como destacado no início deste artigo.
direitos e esclarecimentos de situações, estipulando prazos, sem,
entretanto, especificar o teor que devesse conter tais documentos. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Lei Anti-Fumo, editada sob o nº 9.294 de 15/07/1996,
restringiu o uso e a propaganda de produtos fumígeros, bebidas Não adianta garantir o acesso a informações ambientais através
alcoólicas, medicamentos, terapias e defensivos agrícolas, da edição de normas, apenas para dizer que possuímos a melhor
disciplinando as divulgações de informações nos meios de legislação nesse aspecto. Já basta a grande quantidade de leis
comunicação. existentes em nosso ordenamento jurídico sobre os mais variados
A Lei nº 9.433, de 08/01/1997 ou Lei das Águas, instituiu a temas, em que muitas vezes representam letra morta, de difícil
Política Nacional de Recursos Hídricos e, em seu art. 5º, VI, criou o efetividade.
Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos como um dos O fortalecimento dos canais de comunicação, possibilitando
instrumentos dessa política, cuja gestão está sob a responsabilidade o acesso a bibliotecas que levem a fontes de informações de leitura,
da Agência Nacional de Águas (ANA), entidade federal instituída como materiais bibliográficos, audiovisuais, internet, televisão, etc.,
pela Lei nº 9.984, de 17/07/2000 e estruturada pelo Decreto nº pode representar uma excelente via para o exercício efetivo do direito
3.692, de 19/12/2000. à informação.
O Habeas Data previsto na Constituição Federal, foi mais bem Com a difusão dos meios tecnológicos – principalmente da
explicitado pela Lei nº 9.507, de 12/11/1997, regulamentando o Internet -, pode-se reduzir a distância do cidadão para acesso a
direito de acesso à informação constante de registro ou banco de informações ambientais11. O aparelhamento das escolas com
dados de caráter público e o procedimento do habeas data. computadores poderá permitir a inclusão digital de milhares de
Outro avanço no campo ambiental se deu com a edição da Lei indivíduos que terão melhores condições de atuar na sociedade, de
dos Crimes Ambientais ou Lei da Natureza, em vigor a partir da Lei articular mais eficazmente desejos e idéias e de tomar parte sobre
nº 9.605, de 12/02/1998, constituindo um excelente mecanismo decisões que lhes dizem respeito diretamente.
no combate aos crimes contra o meio ambiente. Dentre as várias A participação das comunidades nos processos públicos
tipificações jurídicas está prevista a sonegação de informações ou decisórios, o envolvimento de agremiações, igrejas, partidos, clubes,
dados técnico-científicos em procedimentos de autorização ou de sindicatos e movimentos associativos, representa também, um
licenciamento ambiental pelo funcionário público. Esta lei foi passo fundamental na defesa do meio ambiente.
regulamentada pelos Decretos nº 3.179, de 21/09/1999 e nº 3.919, Com magistral propriedade o Professor Roberto Aguiar (1998,
de 14/09/2001. p. 116) arremata dizendo que “as comunidades têm muita força
A Educação Ambiental foi assunto positivado na Lei nº 9.795, legal para impedir ou modificar projetos de obras ou atividades
de 27/04/1999 e regulamentada pelo Decreto nº 4.281, 25/06/ potencialmente poluidoras”, acessando os relatórios na fase de
2002. A Política Nacional de Educação Ambiental tem como uma comentários e na Audiência Pública ou acessando o RIMA, nos
de suas ações a difusão de conhecimentos, tecnologias e informações centros de documentação ou bibliotecas do IBAMA e dos órgãos
sobre questões ambientais. licenciadores ou ainda nas Secretarias Estaduais e Municipais de
O Estatuto da Cidade através da Lei nº 10.257, de 10/07/ Meio Ambiente.
2001, procurou estabelecer diretrizes gerais da Política Urbana. Ao Os instrumentos administrativos permitem o acesso à
tratar do Estudo Prévio de Impacto de Vizinhança (EPIV) informação sobre atividades causadoras de impactos ambientais e
estabeleceu que se desse publicidade aos documentos integrantes comprometedoras do equilíbrio ecológico, facilitando a cobrança
do estudo, que ficariam disponíveis para consulta no órgão de tais direitos pela população, por meio dos órgãos judiciais e do
competente do Poder Público Municipal, por qualquer interessado Ministério Público.
para acesso a informações. Além disso, é necessário que essas informações estejam
O Regulamento do Patrimônio Genético Nacional, instituído sistematizadas, atualizadas, disponíveis e integradas a banco de
pelo Decreto nº 3.945, de 28/09/2001, estabeleceu normas sobre o dados federais, estaduais e municipais, bem como, investimentos
acesso ao patrimônio genético, a proteção e o acesso ao estatais na criação, manutenção e aparelhamento da estrutura física
conhecimento tradicional associado, a repartição de benefícios e o e humana dos centros de informação ambiental em todos os níveis,
acesso à tecnologia e transferência de tecnologia para sua conservação com a destinação de uma porcentagem do orçamento público a
e utilização, normatizando dentre outras atividades, a criação e tais setores como uma ação de Estado e não apenas como paliativo
manutenção de base de dados para acesso de vários tipos de de governo.
informações. A Medida Provisória nº 2.191-9, de 23/08/2001,
acrescentou alguns dispositivos a este diploma.
Não se pode deixar de destacar outras leis que, de forma
direta ou indireta, asseguraram a defesa do meio ambiente ou
garantem o acesso a informações públicas, são elas: a Lei nº 5.250,
de 09/02/1967 (Imprensa), que regula a liberdade de manifestação 11 O IBAMA disponibiliza na Internet os licenciamentos ambientais
do pensamento e de informação; a Lei nº 4.717, de 29/06/1965 através do site www.celaf.ibama.br.
.
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A “ética ambiental vinculada ao dever de bem informar”, CARVALHO, V. S. Educação ambiental & desenvolvimento
conforme aduz Custódio (1994, p. 65), constitui também fator comunitário. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2002.
imprescindível para o efetivo acesso à informação. De nada adianta
investir em educação ambiental se o princípio ético estiver apartado12. CAUBET, C. G. As grandes manobras de Itaipu: energia,
A verdade, a moral, a prudência, a transparência, a sinceridade, a diplomacia e direito na Bacia do Prata. São Paulo: Acadêmica, 1989.
honestidade, o compromisso pessoal e coletivo, a responsabilidade
profissional, empresarial e social, são valores que precisam ser CUSTÓDIO, H. B. Direito ambiental e relevância da informação.
resgatados. Revista de Direito Civil, Imobiliário, Agrário e Empresarial,
Muitas vezes não se consegue promover a consciência social São Paulo, v. 18, n. 67, p. 58-66, jan./mar. 1994.
por causa da publicidade deformada, em sua grande parte, pela
divulgação inverídica, inconsistente ou tardia. Precisamos estar DUPAS, G. Ética e poder na sociedade da informação: de como
atentos sobre o que nos fala Dupas (2001, p. 102) de que “a a autonomia das novas tecnologias obriga a rever o mito do
sobrevivência da humanidade como espécie, no entanto, está posta progresso. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: UNESP, 2001.
progressivamente em risco e irá depender de um enorme esforço
conjunto de toda a raça humana” e disso resulta o compromisso FABIAN, C. O dever de informar no direito civil. São Paulo:
ético. Revista dos Tribunais, 2002.
A publicidade se faz necessária através da divulgação em
linguagem clara, acessível e compreensível para a comunidade local, FRANZON, S. Direito à informação ambiental. R. Spei, Curitiba,
elaboração de cartazes, cartilhas, programas complementares na v. 4, n. 1, p. 31-38, jan./jul. 2003.
mídia local e em horário nobre. Moreira (1994, p. 319) também
compartilha dessa tese ao afirmar que em um país como o nosso FURRIELA, R. B. Democracia, cidadania e proteção do meio
“a informação jurídica – e não só a jurídica – deveria ser colocada à ambiente. São Paulo: Amablume; FAPESP, 2002.
disposição dos carentes no próprio meio em que vivem ou exercem
suas normais atividades”. Como as pessoas podem modificar a GRAF, A. C. B. O direito à informação ambiental. In: FREITAS,
realidade muito mais em nível local e regional, percebe-se a Vladimir Passos de (Org.). Direito ambiental em evolução 1. 2.
importância do incentivo ou até da obrigação da criação de espaços ed. Curitiba: Juruá, 2002.
na televisão para programas municipais e regionais.
Por outro lado, observa-se, segundo o disposto nos arts. 221 LÊ COADIC, Y-F. A ciência da informação. Brasília: Ed.
e 223 da Constituição Federal, que o serviço informativo veiculado Briquet de Lemos, 1996.
pela televisão é considerado serviço público, competindo
diretamente à União a sua exploração ou a terceiros, mediante LOPES, V. M. O. N. O direito à informação e as concessões de
autorização, concessão ou permissão. Para Lopes (1997, p. 159), tal rádio e televisão. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1997.
serviço “não é prestado apenas em benefício do concessionário,
mas, principalmente, de toda a sociedade”. MACHADO, P. A. L. Informação e participação: instrumentos
O grau de esclarecimento sobre determinada informação necessários para a implementação do direito ambiental. Revista
ambiental depende, em muito, do grau de instrução de seu receptor. de Informação Legislativa, Brasília, v. 34, n. 134, p. 213-218,
Assim, a diminuição da degradação ambiental será proporcional ao abr./jun. 1997.
aumento da consciência e do nível de acesso à informação pela
população. A participação do trinômio: sociedade, empresa e Estado MILARÉ, E. Direito do ambiente: doutrina, prática,
e, sobretudo, a educação, representa a porta de entrada para a jurisprudência, glossário. 2. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Revista
concretização dessa mudança. dos Tribunais, 2002.
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INVESTIGATIVO. Direito de acesso a informações públicas Rio de Janeiro, v. 90, n. 325, p. 317-320, jan./mar. 1994.
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CARVALHO, L. G. G. C. Liberdade de informação e o direito ambiental: na dimensão internacional e comparada. Belo
difuso à informação verdadeira. Rio de Janeiro: Renovar, 1994. Horizonte: Del Rey, 2003.

SANTOS, A. S. R. Direito à informação na esfera ambiental. Boletim


de Direito Administrativo, São Paulo, v. 16, n. 10, p. 729-730, out.
2000.
12 Devido ao agravamento do problema de água no Distrito Federal,
uma pesquisa encomendada pelo WWF-Brasil realizada pelo Ibope Opinião,
revelou que o desperdício de água era maior entre aqueles que têm
escolaridade mais alta – 53% deles têm curso superior. (Disponível em:
<http://www.wwf.org.br>. Acesso em: 20 jun. 2003).

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A PERCEPÇÃO DA CORRUPÇÃO: IMPLICAÇÕES ECONÔMICAS

Thierry Molnar Prates


Mestre em economia pela UFMG, doutorando em desenvolvimento econômico pela UFPR e professor das faculdades SPEI. e-mail:
thierry@spei.br.

RESUMO ABSTRACT

Este artigo tem como propósito discutir o fenômeno corrupção e This paper aims to discuss the corruption and its determinant
seus aspectos determinantes. O estudo demonstra algumas formas issues. The study demonstrates some ways to measure corruption,
como a corrupção pode ser mensurada, e a maneira pela qual a and the roles of International Transparency to collecting
ONG Transparência Internacional coleta e disponibiliza esses dados, information and showing its significance in order to guide
mostrando a relevância destes para a tomada de decisões de investment decision. The theoretical vision of World Bank, pioneer
investimento direto. A visão teórica do Banco Mundial, pioneira in this issue, do not cover all the main social spaces like private
no assunto, não preenche algumas lacunas referentes ao setor firms, thus, many criticism emerges about this theory.
privado, dando margem para o surgimento das principais críticas a
esta visão.

Palavras-chave Key words

Corrupção, Crescimento econômico, Índice de Percepção Corruption, Economic Growth, Corruption Perception Index
de Corrupção.

R. Spei, Curitiba, v. 5, n. 1, p. 15-22, jan./jun. 2004


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1 INTRODUÇÃO De acordo com o Código Penal brasileiro, a corrupção é


caracterizada como crimes contra a administração pública. O
Muitos trabalhos têm surgido na academia sobre os setor privado, em suas relações entre si, está excluído desta
efeitos perversos causados pela corrupção relativos à redução definição.
do grau de governança, piora no grau de distribuição de renda Nye (1967) traduz o conceito da seguinte forma:
e diminuição do crescimento econômico. O tema “corrupção” “Corrupção é o desvio dos deveres formais associados a um cargo
se tornou um dos principais assuntos dentro do Desenvolvimento público em função de benefícios privados”. Corroborando a
Econômico a partir da segunda metade dos anos 1990, e descrição clássica de Nye, Kaufmann (2000) define corrupção como
é apontado pelo Banco Mundial como uma das principais “o abuso de um cargo público para obter benefícios pessoais”.
restrições ao desenvolvimento econômico em muitos Portanto, se o cargo ou patrimônio público for utilizado para algum
países. benefício financeiro, eleitoral, ou que simplesmente se desvie do
O esforço de medir a incidência de corrupção e o seu fim público em favor de algum grupo específico, podemos dizer
grau tem tomado as agendas de organizações intragovernamentais que há corrupção.
e não-governamentais. O Banco Mundial é o principal Em relação aos cargos públicos, Rose-Ackerman
agente disseminador de trabalhos relativos à corrupção, (2002) acrescenta que “sempre que uma autoridade pública
descrevendo e relacionando-a ao grau reduzido de possui poder discricionário sobre a distribuição de um
crescimento econômico, principalmente em países benefício ou de um custo para o setor privado, criam-se incentivos
menos desenvolvidos 1. O Banco Mundial é responsável para que haja suborno”. A corrupção, portanto, depende da
por elaborar agendas e manuais para redução da corrupção, magnitude dos custos e benefícios sob o controle de autoridades
que são indicados de maneira generalista para todos os países. públicas.
Mas até que ponto essas metodologias do BIRD podem ser De acordo com a literatura mais influente, liderada pelo Banco
tratadas como uma regra geral? Essas normas representam Mundial, a corrupção só é caracterizada e analisada em órgãos
realmente todos os aspectos locais, sociais e históricos de públicos, dependendo da existência de um corruptor e um corrupto,
cada sociedade para que sejam usadas como um grande manual de que estará sujeito às penas da lei se for apanhado. Portanto, para
conduta para todos os países? Apesar de questões fundamentais que não haja corrupção, ou para que ela seja otimamente controlada,
como essas pesquisas feitas até agora sobre a corrupção, seus efeitos, o incentivo a não infringir a lei tem que ser maior que o benefício
e a comparação entre países não podem ser simplesmente relativo. As aspirações coletivas são deixadas de lado em favor dos
invalidadas, mas sim, observadas com certa cautela e senso objetivos individuais, realizando-se assim um lucro pessoal às
crítico. custas do bem comum.
Este artigo tem como propósito primordial a descrição Uma observação importante com relação à conceituação
do fenômeno corrupção e seus aspectos mais marcantes, a da corrupção nesta visão é que uma parte não desprezível
visão do Banco Mundial sobre este problema, procurando foi esquecida, não somente no conceito, mas em toda a
demonstrar algumas formas de mensuração. Adicionadas a esta teoria formulada pelo mainstream representado pelo Banco
discussão, estão as principais críticas a este modelo e a compilação Mundial, relacionada àquela corrupção que não está situada
da literatura mais evidente sobre a corrupção e desempenho no âmbito do setor público. A corrupção que ocorre no
econômico. setor privado não é levada em consideração, pelo fato de não
estar ligada diretamente aos recursos públicos, o que pode ser
2 O CONCEITO DE CORRUPÇÃO um grande equívoco. Quando uma empresa, ao maquiar seus
balanços, induz investidores a compra de ações que em seguida
Peters e Welsch, (1978) utilizando entrevistas idênticas nada valerão, causa prejuízo social em benefício de um
em três países2, em que o entrevistado deveria dizer se grupo específico, o que poderíamos caracterizar como atos de
havia corrupção ou não em uma determinada corrupção.
situação, demonstraram que o conceito pode variar muito Este trabalho tratará apenas da corrupção do setor público,
de um país para outro. Um médico que consegue uma deixando para uma agenda futura esta face privada, mas não
consulta imediata em um hospital público para um parente, desprezível da corrupção.
ou o prefeito que utiliza o automóvel da prefeitura para levar
seus filhos para a escola, ou ainda, favorece a licitação 3 CAUSAS DA CORRUPÇÃO.
de uma empresa pertencente a um cunhado, podem ser
exemplos de situações nas quais as pessoas respondam A corrupção pode aparecer de diversas formas dentro da
negativamente sobre a existência de corrupção. Nesse sentido, um administração pública, tendo sempre como pressuposto o
estudo sobre corrupção deve ter início com a caracterização do comportamento oportunista de rent-seeking. Não existe uma causa
fenômeno. única para seu aparecimento e é extremamente difícil estabelecer
correlações robustas na forma empírica.
O fenômeno aparece em vários formatos em países diferentes,
e por isso alguns autores atribuem à cultura, história e sociedade a
incidência maior de um tipo específico de corrupção (Polzer, 2001;
Silva, 2000). Outros autores preferem evidenciar as falhas na
1 Esta não é uma relação direta e simples, haja vista países como a
Itália e Japão que obtiveram considerável crescimento econômico convivendo
constituição das instituições formais para o aparecimento de
com índices de corrupção elevados. “brechas” que podem ser usadas por corruptos, assim como a
ausência de punição severa para combater esse comportamento
2 Estados Unidos, Canadá e Austrália. (Mauro, 2002; Myrdal, 1989).

R. Spei, Curitiba, v. 5, n. 1, jan./jun. 2004


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As causas da corrupção, segundo Kaufmann (2000), decorrem A dificuldade de se medir corrupção é evidente, a maior parte dos
de: a) elementos políticos (como o financiamento de campanhas acontecimentos não podem ser verificados e há resistência às
eleitorais); b) falta de liberdades civis; c) falta de um poder judiciário declarações verdadeiras quando as pesquisas são aplicadas. Ainda
autônomo; d) ausência de instituições fiscalizadoras; e) regulação e assim, os esforços em traduzir dados, ainda que pouco consistentes,
finanças públicas; f) administração do setor público; e, g) do nível e compará-los entre os países é uma tarefa que o Banco Mundial e
de desenvolvimento do país. a ONG Transparência Internacional têm buscado realizar com afinco.
De acordo com o Banco Mundial3, algumas causas principais, A partir de diversas metodologias, as pesquisas procuram se
e mais gerais, para o aparecimento da corrupção podem ser citadas: aproximar de uma informação o mais confiável possível. Speck
§ Trade-off: entre a possibilidade de ganhos e de ser apanhado. (2000) revisa as metodologias e os dados de pesquisas sobre
E ainda, há a possibilidade de não ser punido, mesmo que corrupção. Segundo o autor, as tentativas de mensuração de
apanhado. Se a legislação do país for branda em relação aos corrupção se resumem em: numerar escândalos na mídia,
atos de corrupção, somada à ausência de transparência e condenações por corrupção, e informações obtidas com cidadãos.
prestação de contas dentro dos órgãos públicos, aumentam- Estas dependem, em primeiro lugar, do grau de liberdade de
se as dificuldades para se descobrir atos de corrupção. E quando imprensa e da experiência jornalística. Quando a imprensa é
existe corrupção dentro do poder judiciário, a análise de custos dominada pelas elites, ou há censura no país, a corrupção é
e benefícios pesa mais para o lado dos benefícios. subestimada.
§ Ambiente político: a corrupção pode surgir em qualquer esfera Em segundo lugar, a veracidade das informações depende da
do poder público, desde que este tenha poder discricionário. polícia, do ministério público e dos tribunais. Se apenas uma
§ Ambiente jurídico: os atores acreditam que é possível pequena parte dos crimes é investigada, as características do crime
corromper o próprio sistema judiciário. Penas brandas para não são mostradas. E, por fim, depende da facilidade de registro
atos de corrupção estimulam esse comportamento. Uma dos dados e do enquadramento do crime, pelo fato de que as
política de salários compatíveis com as funções do judiciário pessoas têm a caracterização pessoal sobre o que é ou não corrupção,
seria importante para evitar subornos4. e essas caracterizações podem variar de um país para outro conforme
§ Accountability: quando as autoridades têm poder discricionário a cultura e os valores morais de cada sociedade frente às situações
sem necessidade de prestação de contas à sociedade pelos duvidosas5.
seus atos, ausência de transparência, de identificação e de Um fator importante nas pesquisas é que empresas de
atribuição de responsabilidades aos funcionários públicos, avaliação de riscos de investimento têm usado a corrupção como
aumentam as chances do aparecimento da corrupção. variável decisória. A avaliação é feita através de compilação de dados
de fragmentação partidária, conflitos étnicos e religiosos e a aceitação
Para o Banco Mundial, as principais agendas de reformas estão de normas constitucionais pelos atores políticos. Para avaliar a
firmadas no aumento da transparência da administração pública, possibilidade de investimentos, as condições de direitos de
reforma administrativa, reforma do legislativo, reforma do judiciário propriedade, repatriação de lucros e exigências burocráticas são
e reforma política, no intuito de reduzir os incentivos ao levadas em consideração. Isso inclui a ingerência política ou da
comportamento corrupto. justiça em decisões burocráticas, existência de mercados negros,
A visão do Banco Mundial está associada ao pensamento práticas de corrupção, nepotismo, fraude nos negócios entre o estado
liberal. Segundo esta corrente, o Estado burocrático e interventor e a iniciativa privada e outras informações subjetivas (Speck, 2000).
possibilita o aparecimento de corrupção. Portanto, para o combate A metodologia do Banco Mundial consiste na formação de
mais eficiente da corrupção, é necessário que o estado seja mínimo um índice que aborda a percepção da corrupção, e está centrada em
e que ele tenha características específicas do mercado, como uma questionários de entrevista em domicílios e autoridades públicas,
fiscalização aduaneira terceirizada e princípios de meritocracia para sempre em parceria com os governos dos países. O BIRD possui,
planos de carreira, por exemplo. agregado às pesquisas, um banco de dados relativos a governança
nos países, para efeito de comparação.
4 COMO MEDIR A CORRUPÇÃO? Quando se mede corrupção não se pode incorrer no erro de
pensar na exatidão dos dados. O índice mais utilizado é construído
A corrupção pode encontrar grande subjetividade quando pela Transparência internacional, (IPCorr - Índice de Percepção da
colocada à prova em seus conceitos fundamentais ao se realizar Corrupção) e mostra, assim como o índice do Banco Mundial,
pesquisas na tentativa de sua mensuração. Essa subjetividade como as pessoas percebem a corrupção que os cerca, tendo como
decorre das grandes diferenças entre as culturas e costumes das diferença básica apenas as características dos entrevistados6. Apesar
sociedades e a forma como enxergam as situações onde há presença do elevado grau de subjetividade em certos casos, este índice é uma
de administração pública. boa aproximação da realidade.

5 Por exemplo, é claro, para a maioria das pessoas, que há corrupção


quando funcionários da prefeitura pavimentam a entrada da casa do prefeito,
mas nem tão claro quando ele se vale do cargo para conseguir uma vaga na
universidade para o filho de um amigo.
3 Apud. Vargas (2002).
6 A metodologia utilizada é a pesquisa junto a executivos de
4 Segundo Mauro (2002), um corte dos salários no funcionalismo empresas nacionais e multinacionais e de consultores internacionais de
pode aumentar a incidência de corrupção. investimentos, perguntando sobre a percepção do nível de corrupção.

R. Spei, Curitiba, v. 5, n. 1, jan./jun. 2004


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Quadro 1 – Índice de Percepção de Corrupção: América Latina, 1995 a 2003.


1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003
Argentina 5.24 3.41 2.81 3.0 3.0 3.5 3.5 2.8 2.5
Bolívia NE 3.40 2.05 2.8 2.5 2.7 2.0 2.2 2.3
Brasil 2.70 2.96 3.56 4.0 4.1 3.9 4.0 4.0 3.9
Chile 7.94 6.80 6.05 6.8 6.9 7.4 7.5 7.5 7.4
Costa Rica NE NE 6.45 5.6 5.1 5.4 4.5 4.5 4.3
Colômbia 3.44 2.73 2.23 2.2 2.9 3.2 3.8 3.6 3.7
Equador NE 3.19 NE 2.3 2.4 2.6 2.3 2.2 2.2
El Salvador NE NE NE 3.6 3.9 4.1 3.6 3.4 3.7
Guatemala NE NE NE NE 3.2 NE 2.9 2.5 2.4
Honduras NE NE NE 1.7 1.8 NE 2.7 2.7 2.3
México 3.18 3.30 2.66 3.3 3.4 3.3 3.7 3.6 3.6
Nicarágua NE NE NE 3.0 3.1 NE 2.4 2.5 2.6
Panamá NE NE NE NE NE NE 3.7 3.0 3.4
Paraguai NE NE NE 1.5 2.0 NE NE 1.7 1.6
Peru NE NE NE 4.5 4.5 4.4 4.1 4.0 3.7
Rep. Dominicana NE NE NE NE NE NE 3.1 3.5 3.3
Uruguai 4.3 4.4 5.1 5.1 5.5
Venezuela 2.66 2.50 2.77 2.3 2.6 2.7 2.8 2.5 2.4
Fonte: Transparência Internacional, 2004.

O Quadro 1 mostra o IPCorr dos países da América Latina com alto grau.
desde 1995 até 2003. Alguns efeitos são importantes, tais como a A posição do Brasil, como já era de se esperar, não é confortável
queda substancial da Argentina em mais de 50%, o Brasil que comparada aos países que estão no topo, como Finlândia, Dinamarca
cresceu até 2002 e agora dá sinais de estagnação e possível queda e Nova Zelândia, com notas superiores a 9. Mesmo comparado ao
(quanto menor o índice, maior a percepção da corrupção). O Chile Chile, que ocupa a 20ª posição no ranking com nota 7.4, a nota 3.9
é nosso representante mais forte, seguido pelo Uruguai que vem para o Brasil retrata ainda um longo caminho de ajustes internos.
ganhando pontuação ao longo dos anos e Costa Rica que vem A perda de 14 posições no ranking de corrupção entre 2002 e
perdendo. Os pior país da AL está entre os piores do mundo, o 2003 não reflete grandes mudanças internas no aumento da
Paraguai, com 1.6, está entre os quatro piores países no quesito corrupção, mesmo porque, a nota dada ao país permaneceu entre
percepção de corrupção. 3.9 e 4.0 nos últimos 4 anos. Todavia a inclusão, ano a ano, de um
O Quadro 2 mostra um resumo para alguns países, das maior número de países tem implicações sérias sobre o montante
informações contidas nos relatórios da Transparência Internacional de investimentos que podem deixar de ser realizados no país.
dos últimos quatro anos, com a posição dos países num ranking, Apenas pela comparação entre os países durante os anos, com
que coloca os primeiros colocados com baixo IPCorr, e os últimos tendência declinante, o risco ao investidor no Brasil é alto.

Quadro 1: Índice de Percepção de Corrupção 2000 a 2003.


País IPCorr2000 IPCorr2001 IPCorr2002 IPCorr2003
Posição Pontuação Posição Pontuação Posição Pontuação Posição Pontuação
Finlândia 1 10.0 1 9.9 1 9.7 1 9.7
Islândia - - - - 4 9.4 2 9.6
Dinamarca 2 9.8 2 9.5 2 9.5 3 9.5
N. Zelândia 3 9.4 3 9.4 3 9.5 3 9.5
Chile 18 7.4 18 7.5 17 7.5 20 7.4
Brasil 49 3.9 46 4.0 40 4.0 54 3.9
Argentina 52 3.5 57 3.5 70 2.8 92 2.5
Paraguai - - - - 100 1.7 130 1.6
Haiti - - - - 98 2.2 131 1.5
Nigéria 90 1.2 90 1.0 101 1.6 132 1.4
Bangladesh - - 91 0.4 102 1.2 133 1.3
Fonte: Transparência Internacional, 2004.
* O número de países pesquisados: 2000: 90; 2001: 91; 2002: 102; 2003: 133.

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A Argentina, somente de 2001 para 2002, caiu 13 posições e A corrupção modifica os alvos do governo e cria uma
22 posições neste último ano. A enorme crise econômica e as divergência de recursos, de propósito públicos para privado,
acusações de desvios e lavagem de dinheiro no exterior, feita por resultando num peso morto para a sociedade. Além disso, a
governos anteriores contribuíram para este resultado. Do lado de corrupção inibe o investimento privado pelo aumento do custo da
baixo da tabela estão os países percebidos como “mais corruptos” administração pública (desde que seja desejável usar de suborno
de acordo com este índice de corrupção: Paraguai, Haiti, Nigéria e para conseguir serviços públicos), ou por gerar descontentamento
Bangladesh, com notas inferiores a 2.0. social ou inquietação política, o que por sua vez faz crescer mais
Para se medir os efeitos da corrupção existem dois tipos de devagar a economia (Alesina, 1992).
indicadores, segundo Abramo (2000), os que estão na raiz da Por outro lado, autores como Leff (1964), Huntington
corrupção e os que são afetados pela corrupção. Os que estão na (1968), Friedrich (1972) e Nye (1989) dizem que a corrupção pode
raiz são: sistema jurídico e a eficácia governamental. Os indicadores ser benéfica ao crescimento econômico. O argumento parte da idéia
afetados pela corrupção são: saúde, educação, etc. No primeiro de que a regulação do governo é extremamente difusa e ineficiente,
conjunto de dados (na raiz), a correlação com a corrupção encontrada e que a corrupção pode contornar essas situações com menores
é alta, mas na segunda (afetados), os dados da saúde têm uma custos. Além disso, o suborno pode ajudar a apressar decisões de
correlação menor e os de educação tem correlação baixa com a partidos políticos.
corrupção. Segundo Abramo (2000), isto se explica pela existência Empiricamente, os estudos têm demonstrado, em contraste,
de processos de licitação com intensivo uso de capital na saúde, uma correlação negativa entre corrupção e crescimento, enquanto
enquanto a educação é intensiva em mão-de-obra. seus benefícios são escassos. Mauro (1995) mostra com uma cross-
Segundo Kaufmann (2000), os indicadores de corrupção estão section de países essa correlação negativa entre crescimento econômico
sujeitos a erros e por isso não faz sentido apresentar indicadores e corrupção, utilizando variáveis econômicas e sociopolíticas. Outros
que comparem através de ranking a corrupção entre países. Por resultados similares podem ser encontrados em Keefer e Knack
outro lado, medir a corrupção se torna importante para garantir (1997), Hall e Jones (1999) e Sachs e Warner (1997).
evidências de sua existência, saber sua origem e maior incidência. A Kaufmann (2000) aponta alguns efeitos nocivos da corrupção
explicitação dos dados sobre a corrupção pode surtir um efeito sobre o investimento interno e o investimento direto externo,
positivo sobre a educação da população, na medida em que esta como a redução do crescimento econômico pelo desestímulo ao
sociedade reivindique, através do voto ou denúncias, o melhor investimento. Isso ocorre pela falta de transparência (Accountability)
uso do bem público por seus governantes e funcionários públicos. do governo nos seus gastos e transferências.
Segundo a corrente institucionalista, a corrupção implica custos
5 CORRUPÇÃO E CRESCIMENTO ECONÔMICO. de transação adicionais, dificultando o crescimento econômico pela
redução de investimentos, pelos altos custos em propinas a serem
A corrupção decorre de um comportamento oportunista dos pagos para sua implantação, ou mesmo, pelas dificuldades para
agentes econômicos difundido na literatura como rent-seeking. O remessa de lucros às matrizes. Além de reduzir o investimento
argumento original é de que o estado ocupa muito espaço na direto, a corrupção reduz os investimentos internos afetando a
economia, gerando excesso de burocracia. Essa burocracia resulta arrecadação do governo e tornando os investimentos sociais
em corrupção e desvios do que seria o bem comum para o privilégio precários, afetando diretamente a camada mais vulnerável da
de uma classe específica. população.
O rent-seeking aparece porque a motivação básica dos agentes A corrupção pode proporcionar aumento da pobreza quando
é maximizar seu bem-estar, dentro de certas regras pessoais, tendo os recursos não são repassados uniformemente na sociedade,
como restrição a sua renda. Portanto, os agentes tentam aumentar dando-se prioridade a setores ou grupos específicos.
suas rendas dentro ou fora das regras de conduta econômica e O argumento de que a corrupção facilita as transações
social, na forma de transferências dentro da sociedade via comerciais, encurtando caminhos burocráticos complexos, é
monopólios e privilégios. O monopólio gera um excedente do equivocado. O suborno causa impacto na eficiência gerando perdas
produtor através da diminuição do excedente do consumidor, além sociais maiores do que as da burocracia. As crises, como a Asiática,
do peso morto (dead weigth loss) das mercadorias produzidas demonstram como a falta de transparência pode criar problemas
que não serão negociadas, nada mais significando do que uma econômicos profundos.
perda para a sociedade. De acordo com o Banco Mundial, as estratégias para o combate
A corrupção leva pessoas mais talentosas a se dedicarem no à corrupção passam por uma série de reformas no estado e nas
intuito de se beneficiar da corrupção, ao invés de estarem engajadas instituições, com a finalidade, principalmente, de diminuir a
em atividades produtivas, o que reduz o crescimento econômico. estrutura burocrática, criar instituições mais fortes e independentes
Favorece os gastos públicos excessivos e improdutivos e o em suas decisões, e buscar uma maior transparência e contar com o
crescimento da economia informal e mercados-negros (Kaufmann, apoio da sociedade civil consciente e dotada de voz. Ainda como
2000). objetivo básico do Banco Mundial, podemos acrescentar que o
Para a corrente neoliberal, na presença de rent-seeking, os países combate à corrupção pela mudança institucional tem o poder de
devem adotar políticas de redução do estado e da burocracia, melhorar a governabilidade.
utilizando assim políticas ortodoxas de market-friendly e de boa O esquema da Figura 1 demonstra a estratégia integrada de
governança para alcançar o desenvolvimento econômico com maior combate à corrupção adotada pelo Banco Mundial. Podemos
rapidez (Polzer, 2001). novamente notar a partir deste instrumental utilizado como manual
A literatura teórica sobre corrupção e crescimento econômico do combate à corrupção para qualquer país do mundo é o enorme
possui duas correntes. De um lado Krueger (1974), Myrdal (1989), peso ideológico herdado do Consenso de Washington,
Shleifer e Vishny (1993), Tanzi (1997) e Mauro (1985, 1998) principalmente com a redução do estado, privatizações e
argumentam que a corrupção é nociva ao crescimento econômico. desregulação.

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Figura 1: Estratégia integrada para o combate à corrupção

Fonte: Contribuições de Sanjay Padhan, Banco Mundial, apud. Kaufmann, (2000).

Transformar o estado em uma espécie de empresa, sem as participantes do poder público, de acordo com pesquisas empíricas,
funções de intervenção na atividade econômica e, portanto, se provocam uma redução da corrupção pelo fato de serem menos
abstendo de políticas compensatórias regionais e setoriais, quando vulneráveis a sacrificar o bem comum em favor de ganho material
nos referimos a países subdesenvolvidos, pode não ser o caminho pessoal (Dollar et al, 1999).
mais rápido para o desenvolvimento, mesmo que isto resulte em O problema eleitoral passa também pelo acesso à mídia.
uma diminuição da corrupção. No Brasil do período militar, a maior parte das concessões de
Este fato não invalida algumas propostas do Banco Mundial, emissoras de rádio e televisão foi dada aos políticos, fato que
como aquelas relativas aos poderes, meritocracia e ao perpetua o poder de algumas classes pela facilidade de
monitoramento feito pela sociedade civil. autopromoção e monopólio deste meio de comunicação utilizado
para fins eleitorais.
6 A QUESTÃO DO FINANCIAMENTO ELEITORAL. De acordo com (Fleischer, 2000), o Brasil carece de uma ampla
reforma política que possa ampliar a moralização das campanhas
Um aspecto determinante para o aparecimento da corrupção políticas, baseadas nos seguintes itens:
é, sem dúvida, o financiamento das campanhas eleitorais. a. Reforma do sistema eleitoral: a modificação do sistema eleitoral
Deputados, senadores e governadores gastam rios de dinheiro – de proporcional com lista aberta para proporcional com lista
para eleger-se7, no intuito de auferir ganhos maiores após eleitos, fechada. As contribuições de campanha seriam ao partido, e
não provenientes de seus próprios salários, mas de uma série de não pessoais aos deputados, para que as doações fossem
outras formas: fiscalizadas com maior facilidade.
a. Licitações públicas viciadas para empresas que interessem b. Legislação partidária: a instituição de uma lei que restrinja a
pessoalmente; quantidade de partidos, assim como a “dança das cadeiras”,
b. Destinação de verbas públicas para entidades-fantasma, a título utilizando os partidos de aluguel, reduziria a corrupção e a
de doação; confusão para o eleitor, alem de facilitar a fiscalização.
c. Concessão de empréstimos subsidiados; c. Licitações públicas: coibir licitações viciadas através da
d. Decisões de políticas públicas diversas que favorecem certos investigação e legislação rigorosa.
grupos. d. Criação de uma Controladoria Geral da União: sem indicações
políticas feitas pelo presidente da república, ou qualquer outro
Direitos políticos mais sólidos e fortes como: eleições político, para investigar as falcatruas eleitorais.
democráticas, uma legislação e partidos de oposição, junto com as e. Revitalizar a Receita Federal: evitar o “caixa dois” e a sonegação
liberdades civis (meios de comunicação livres e independentes, usada para financiar campanhas eleitorais
liberdade de reunião e de expressão, liberdade básica para as f. Legislação específica sobre o financiamento das campanhas:
mulheres com participação política no congresso) reduzem a regulamentando e controlando o financiamento público e
corrupção (Kaufmann, 2000). As mulheres, quando são privado de campanhas.

Sem o apoio dos próprios parlamentares, as únicas armas


para coibir os abusos seriam: a indignação dos cidadãos, as denúncias
7 Dinheiro próprio e de pessoas físicas e jurídicas que o apóiam de escândalos pela mídia e ações fortes do ministério público
(Fleischer, 2000). para maior conscientização na hora do voto (Fleischer, 2000).

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21

7 A CRÍTICA DE POLZER À VISÃO DO BANCO erro e imprecisões, das capacidades diferenciadas de percepção, dos
MUNDIAL. diferentes graus de liberdade de expressão, da transparência não
uniforme entre eles e das diferenças culturais.
O Banco Mundial tem se preocupado com a corrupção, Os trabalhos mais importantes estão relacionados à redução
elaborando trabalhos empíricos e manuais para o seu combate. do crescimento econômico. Assim, as evidências mais claras sobre
Planos de ação para “ajudar países a combater a corrupção”, fortalecer os efeitos da corrupção estão na diminuição da governabilidade e
as instituições, criar agendas anticorrupção com mecanismos de falhas no sistema jurídico. Os setores afetados indiretamente pela
punição e conduta em todo o mundo têm sido o assunto do corrupção, como a saúde e educação, têm menor correlação empírica
momento. O Banco Mundial é a principal fonte deste modelo de com o grau de corrupção.
pensamento, pois é o porta-voz do mainstream econômico no A redução da corrupção pode interferir positivamente nas
assunto corrupção e desenvolvimento. intenções de investimento interno e externo. O aumento no grau
Polzer (2001) afirma que a visão do Banco Mundial é parcial e de transparência da economia e a redução dos custos de transação
possui o viés de acreditar que pode ser aplicada universalmente de associados a propinas alteram as expectativas dos investidores
forma neutra. Dentro deste pensamento do Banco há restrições elevando o crescimento do produto e o emprego.
internas criadas pelas regras do discurso, causando resistência dos Um dos principais focos de corrupção são as campanhas
“clientes” e efeitos não desejáveis. eleitorais. A existência de uma “troca de favores”, quando políticos
Para exemplificar este viés, citamos o conceito explícito de recebem quantias elevadas para financiar suas campanhas em troca
corrupção segundo o Banco Mundial, “a corrupção é um sintoma de outro tipo de apoio posterior, na forma de uma licitação viciada
de deficiência orgânica institucional, prosperando onde as políticas ou concessão, é um foco determinante da corrupção. Num ambiente
econômicas são mal projetadas, onde os níveis de educação são como este, o processo eleitoral já nasce comprometido com
baixos, a sociedade civil é subdesenvolvida e a responsabilidade interesses privados.
das instituições públicas é fraca”. Somente a elaboração de uma nova legislação eleitoral, que
A primeira crítica de Polzer (2001) refere-se ao pensamento impeça as contribuições individuais aos candidatos, pode combater
teórico do Banco Mundial. Segundo o Banco, políticas de ajuste este comportamento típico de rent-seeking. Dessa forma, a
estrutural reduzem os níveis de corrupção. Mas se isto for verdade, incumbência dos recebimentos e prestação de contas ficaria para os
qual a explicação para o fato de vários países terem apresentado partidos políticos. Assim, somada a uma fiscalização rigorosa pelos
crescimento da corrupção apesar da implantação destas políticas de tribunais e pela Receita federal, este tipo de reforma política evitaria
ajuste? grande parcela da corrupção existente.
A segunda crítica está na utilização política do combate à A maior parte dos trabalhos e agendas de redução da corrupção
corrupção apenas no âmbito das relações econômicas, enquanto o está associada ao Banco Mundial e à sua ideologia de redução da
aspecto de corrupção política é legitimado pela manutenção do burocracia do estado, sem, no entanto, levar em conta outros
formato institucional político. aspectos fundamentais como a história e a cultura de cada país na
Em terceiro lugar, pela distinção feita pelo Banco da corrupção formulação de políticas anticorrupção.
nas esferas pública e privada, e dentro do estado entre as esferas O arcabouço teórico do Banco Mundial está centrado em uma
política e administrativa. Essa separação abre um espaço para visão liberal com redução radical da intervenção do estado, fazendo
comportamentos distintos. emergir várias críticas ao modelo.
O quarto ponto mostra que o Banco Mundial exclui a questão
moral da análise dos países, utilizando apenas os modelos racionais REFERÊNCIAS
pautados no individualismo, isto é, deixa de fora o aparato teórico
da economia institucionalista. ABRAMO C. W. Relações Entre Índices de Percepção de Corrupção
Por fim, o quinto item criticado por Polzer diz respeito à e Outros Indicadores em Onze Países da América Latina. In: Os
implantação dos planos de combate a corrupção. A forma adotada Custos da Corrupção. Cadernos Adenauer. Nº10. São Paulo. 2000.
pelo Banco está baseada em ações discricionárias, o que demonstra
uma contradição profunda, em função de que o aparecimento de ALESINA, A. Political models of macroeconomic policy and
corrupção, segundo o Banco Mundial, se deve a este poder fiscal refor ms. Washington D.C.: Countr y Economics
discricionário. Department, World Bank, 1992.
Para Polzer, o mais importante dentro de uma análise de
corrupção é entender os contextos: sociocultural, histórico e DOLLAR, D.; FISMAN, R.; GATTI, R. Are Women Really the
ideológico, assim como as influências institucionais e político- “Fairer” Sex? Corruption and Women in Government. The World
econômicas. Bank. Development Research Group. WP n.4. 1999.

8 CONCLUSÃO FLEISCHER, D. Reforma Política e Financiamento das Campanhas


Eleitorais. In: Os Custos da Corrupção. Cadernos Adenauer.
A corrupção é a utilização discricionária de um recurso ou Nº10. São Paulo. 2000.
privilégio originalmente destinado ao bem público para interesses
particulares. Este comportamento é originário do fenômeno FRIEDRICH, C. J. “The Pathology of Politics, Violence,
caracterizado por rent-seeking, onde os agentes buscam auferir ganhos Betrayal, Corruption, Secrecy and Propaganda”, Harper and
improdutivos através das “brechas” do sistema legal, ou mesmo Row, New York, 1972.
fora dele.
O cálculo da corrupção, assim como a comparação dos índices GIRLING, J. Corruption, Capitalism and Democracy.
entre os países é alvo de críticas em função das grandes margens de Routledge. London, 1997.

R. Spei, Curitiba, v. 5, n. 1, jan./jun. 2004


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UM SISTEMA COMPUTACIONAL PARA VERIFICAÇÃO DO NÍVEL DE


COMPREENSÃO DE TEXTOS EM LINGUAGEM NATURAL

Jaime Wojciechowski

Programa de Pós-Graduação em Informática Aplicada - Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).


E-mail: jaimewo@terra.com.br

RESUMO ABSTRACT

Este trabalho tem como objetivo a concepção de um sistema capaz The purpose of this work is the conception and implementation
de realizar a compreensão de textos em linguagem natural. O sistema of a software which will be able to accomplish an automatic
irá receber textos de um determinado assunto e avaliar understanding of texts in natural language. The software will receive
computacionalmente seu nível de compreensão. Este trabalho tenta texts about a certain subject and will automatically evaluate the level
reproduzir a maneira como nós, seres humanos, realizamos a tarefa of comprehension thereof. This work tries to reproduce the way
de compreender a linguagem natural e, para atingir esses objetivos, that we, human beings, perform the task of understanding natural
utiliza as teorias de Memória Dinâmica, Raciocínio Baseado em language. To reach such a goal it uses theories of Dynamic Memory,
Casos e Parser Baseado em Casos. Também foi criada uma Reasoning Based on Cases and Parser Based on Cases. There has
Metodologia de Avaliação, onde um educador é capaz de fornecer also been created a Methodology of Automatic Evaluation where
os parâmetros da avaliação conforme seu entendimento do assunto an expert will be able to provide evaluation parameters, according
e o sistema atribui um nível de compreensão baseado nestes to his comprehension, and a consequent assignment, by the software,
parâmetros. of a level of comprehension based on such parameters.

Palavras-chave Key words

Sistema comutacional, Nível de compreensão de textos, Computer system, Text understanding level, Natural language
Linguagem natural

R. Spei, Curitiba,
R. Spei, v. 5,
4, v.
Curitiba, n. 5,1,
2, n.
p. 1,
23-29,
15-23, jan./jun.
jul./dez.
jan./jun. 20042003
2004
24

1 INTRODUÇÃO em Casos, passando pelas etapas do CBR: recuperação, adaptação,


avaliação, uso e armazenamento dos casos (Freitas, 1996). A etapa
A compreensão da linguagem natural é um vasto campo de de recuperação realiza a busca na memória, adaptação e avaliação e
estudo na área de Inteligência Artificial. Há décadas vem se garante que o caso recuperado é o mais relevante para o texto de
trabalhando a fim de se formar padrões de estruturas da linguagem entrada, o uso é o reconhecimento do conceito e o armazenamento
para que se possa, efetivamente, entender frases e dar respostas ocorre quando uma nova instância de um conceito é inserida na
satisfatórias a indagações feitas com o uso dos termos da linguagem. memória.
Dentre essas estruturas, destacam-se os trabalhos de análise Por exemplo, se alguém citar a frase:
morfológica, sintática e semântica, bem como o estudo de
Dependência Conceitual (Rich, 1993), que tem como objetivo extrair “Fui ao ...”
as características de uma determinada frase.
Neste trabalho, será abordada uma linha de estudo da A pessoa que está ouvindo a frase começa a ter expectativas
compreensão da linguagem baseada em CBR – Case-Based do que virá na seqüência, terá a idéia de lugar ou de um evento,
Reasoning. Serão usados os conceitos de compreensão da começará a abstrair e imaginar possíveis lugares, eventos ou situações
linguagem natural iniciados por Roger Schank e Christopher e terá a expectativa de que a próxima palavra refere-se a lugar ou
Reisbeck em seus trabalhos (Schank, 1971; 1977; 1981; 1994; 1999), evento. Neste momento diversos casos já foram recuperados para
(Riesbeck 1986; 1989), e principalmente uma implementação destes tentar encaixar com a frase (Fui ao Dentista, Restaurante, Desespero,
conceitos proposta por Charles Martin sobre o DMAP – Direct etc).
Memory Access Parser (Martin, 1993). Este paradigma tem como Mais algumas palavras são ditas, por exemplo:
premissa que a compreensão da linguagem natural ocorre somente
se o interlocutor tiver um conhecimento prévio do assunto que “Fui ao Restaurante e comi...”
está sendo abordado. Para isto, os conceitos contidos na frase que
está sendo dita já devem fazer parte da memória do entendedor e Neste ponto, todos os casos que não se relacionam à ida a um
a compreensão ocorre pelo reconhecimento dos conceitos nesta Restaurante são descartados. Outras expectativas, então, surgem.
memória. A tarefa se resume em encontrar, nesta memória, os Porém, o contexto está praticamente definido: trata-se de um evento
conceitos mais relevantes para o texto de entrada e esta busca e cotidiano, podemos visualizar um Restaurante, baseado nos casos
determinação segue todos os preceitos de Raciocínio Baseado em recuperados, casos estes que armazenamos através de nossas
Casos. As etapas de recuperação dos casos, adaptação, avaliação e experiências pessoais e vivências.
uso se enquadram neste processo de compreensão. À medida que Ao ser dita a última palavra da frase, por exemplo, “Fui ao
a frase vai sendo apresentada, vamos identificando na memória os Restaurante e comi Sushi.”, a frase teria sido compreendida e
possíveis conceitos (casos) que podem se relacionar aos termos da somente um caso se enquadraria.
frase. Algumas considerações:
Como aplicação das idéias acima citadas, este trabalho irá tratar 1) Se a última palavra que fosse dita fosse, por exemplo,
de textos na área educacional. Neste aspecto, serão abordadas “Governo Federal”, isto causaria um desconforto ao processo de
questões como verificação automática do nível de compreensão de entendimento. Não teria sentido ir a um Restaurante e comer um
um texto de um determinado domínio. Será mostrado um exemplo órgão institucional do país onde vivemos. A primeira reação seria
de como é possível verificar automaticamente o grau de compreensão indagar se Governo Federal é o nome de um prato servido em um
de um texto que foi resumido por um estudante e as métricas que determinado restaurante. No caso de resposta afirmativa, mesmo
representam se esta interpretação abordou os conceitos essenciais achando estranho um prato com este nome, seria incluído este
definidos para o texto. O especialista (neste caso, um educador) terá nome na relação de pratos passíveis de serem servidos em um
condições de definir os parâmetros necessários para atingir seu Restaurante (ou naquele restaurante específico). O choque se daria
objetivo, ou seja, ele irá modelar a memória determinando se o interlocutor afirmasse categoricamente que não se trata de um
parâmetros que poderão medir a abrangência do resumo, verificando prato e sim do órgão que dirige o país. Simplesmente a frase não
se os estudantes abordaram todos os conceitos considerados seria compreendida.
essenciais e também medir o encadeamento das idéias no resumo. 2) Note que, para um índio que vive isolado no interior de
Ao final, será possível determinar o quanto foi alcançado do objetivo uma selva, sem nunca ter tido contato com a civilização, no início
traçado pelo educador, aferindo, automaticamente, uma “nota” ao da frase (“Fui ao...”), as expectativas seriam outras, Fui ao rio, Fui
resumo do estudante. ao campo, etc. No momento em que a palavra Restaurante fosse
apresentada, ele não “compreenderia”, pois não havia recuperado
2 CBR APLICADO À COMPREENSÃO DA LINGUAGEM nenhum caso com este desconhecido conceito.
NATURAL Um sistema de compreensão da linguagem baseado em CBR
é chamado de Parser Baseado em Casos (Riesbech, 1989). Ele tem
Esta proposta visa representar a maneira com que o ser humano sua espinha dorsal no processo de compreensão baseada numa
compreende uma frase. Temos que supor que já existe um memória modelada de conceitos. O Direct Memory Access Parser -
conhecimento prévio do assunto que está sendo tratado e que este DMAP se propõe a trabalhar nesta abordagem de compreensão da
conhecimento está modelado através da vivência e experiências da linguagem natural. A seguir será apresentada a teoria básica do
pessoa. À medida que a frase vai sendo apresentada, ocorre não só DMAP e como ele atua no tratamento de frases e textos.
uma identificação dos conceitos, mas, também uma previsão do
que pode vir na seqüência para que a frase seja compreendida 3 DMAP - DIRECT MEMORY ACCESS PARSER
(Riesbech, 1989), (Schank, 1977, 1981). Todo este processo de
recuperação dos conceitos segue os preceitos de Raciocínio Baseado O DMAP - Direct Memory Access Parser é um sistema para o

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entendimento da linguagem natural (Martin, 1993). Procura uma Organization Packages) que é um tipo de Frame (Minsky, 1985,
conexão entre um texto de entrada e uma estrutura de memória. A Ávila, 1991) usado para representar eventos da comunicação, e um
criação do DMAP partiu da tentativa de unir as idéias de índice com a função de representar o critério de ativação dos
compreensão de M. Quilian ao conceito de Memória Dinâmica de conceitos. Inicialmente o índice é percorrido e são marcadas as
Roger Schank. Questões como organização, indexação e busca em possíveis entradas. À medida que a frase vai sendo apresentada,
memória são os pontos importantes desta metodologia dois mecanismos básicos estarão em funcionamento, o primeiro
(Hembecker, 2002). Um problema constante na compreensão da busca no índice se existe um critério para a entrada apresentada e o
linguagem natural é a ocorrência de ambigüidades, em que uma segundo verifica se alguma previsão está marcada. Nos dois casos,
única palavra pode representar uma grande variedade de significados. a compreensão ocorre quando uma previsão de entrada satisfaz o
Uma possível solução para este problema é inserir o texto ou as critério que estava sendo esperado. Ao final da frase, um critério
sentenças de entrada em um contexto bem definido, restringindo, apresenta todos os conceitos que foram ativados, mostrando assim
assim os significados e relacionamentos que as palavras podem que a frase foi compreendida para aquela memória de conceitos.
assumir. Desta forma, é fortalecido o princípio de que para se
efetivar a compreensão, é necessária a identificação do relacionamento 3.1.1 Memória de Conceitos
dos textos com um conhecimento previamente experimentado. A seguir será mostrado o exemplo original do DMAP (Martin,
1993). Suponha uma memória de conceitos que envolvam um
3.1 FUNCIONAMENTO DO DMAP economista (chamado no exemplo de Milton Friedman), uma
opinião dada por ele (Monetary Argument) e um evento de
O processo de compreensão proposto pelo DMAP requer comunicação feito pelo economista (Monetarist Communication).
uma memória modelada de conceitos baseada em MOPs (Memory A memória de conceitos será assim representada:

Figura 1. Exemplo de Memória de Conceitos

Nesta rede de conceitos, MTRANS significa “Mental Transfer” 3.1.2 Mecanismo de busca no DMAP
simbolizando uma transferência mental de uma idéia por parte de
um ator. MOBEJCT é um conceito principal do qual derivam A seguir serão mostrados os passos do mecanismo de busca
todos os outros. Para esta memória, teremos o seguinte índice: nos índices da memória:
Mtrans-1: {(actor) says (info)} 1) O sistema começa colocando um marcador de previsão no
Friedman-1: {Milton Friedman} início de cada um dos índices, ou seja, para Mtrans-1 teremos um
Monetary-Argument-1: {increase tax} marcador em (actor) que é um apontamento para o conceito
Ou seja, o critério para que o conceito FRIEDMAN seja ativado HUMAN, portanto um marcador de previsão é colocado neste
é a entrada das palavras “Milton Friedman” (nesta seqüência), para conceito indicando que a ativação de Mtrans-1 só será satisfeita se
o conceito MONETARY ARGUMENT é “increase tax” e para o iniciar com um HUMAN ou uma informação mais específica deste.
critério MTRANS é a entrada de um actor, em seguida a palavras Na seqüência, para Friedman-1 a previsão é colocada em “Milton”
“says” e finalmente “info”. e em Monetary-Argument-1 em “increase”.
Será apresentada a seguinte frase na entrada do sistema: 2) A primeira palavra da entrada (Milton) é apresentada. O
sistema percorre o índice e verifica que Friedman-1 tem previsão
“Milton Friedman says increase tax” para esta palavra. O primeiro item do índice é satisfeito e o marcador

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de previsão neste índice é deslocado para o próximo item objetivo de trabalhar esta questão. Na sua maioria, os softwares
(Friedman). são capazes de ensinar (através de tutoriais) e realizar a verificação
3) Na seqüência da frase de entrada, a palavra “Friedman” é da aprendizagem através de questões nas mais diversas formas.
apresentada e é encontrada uma previsão para esta palavra no índice Também é uma tarefa extremamente simples para estes softwares
Friedman-1. Ao tentar passar o marcador de previsão para o conferir a quantidade de acertos e erros destas questões, avaliando,
próximo item do índice, verifica-se que o mesmo está completo, assim, o grau de entendimento do assunto abordado.
ou seja, houve um reconhecimento deste índice na memória e este Dentro deste contexto, a Inteligência Artificial encontra um
índice é ativado. O sistema busca na hierarquia de Friedman-1 se grande espaço a ser ocupado. Com o avanço do Processamento da
existe alguma previsão para este índice e encontra no conceito Linguagem Natural, muitas questões como verificação de ortografia,
HUMAN (colocado no passo 1). O índice Mtrans-1 tinha a previsão tradutor de línguas, confecção de sumários entre outros, estão
inicial para um actor e esta previsão foi satisfeita passando, assim, ocupando este espaço. A proposta da aplicação das teorias de
para o próximo item deste índice (says). compreensão da linguagem natural abordadas neste trabalho
4) A palavra “says” é apresentada na entrada e existe uma encontra lugar na área de verificação automática da aprendizagem.
previsão para ela no índice Mtrans-1. Neste índice a previsão é
deslocada para o próximo item (info). 4.1 METODOLOGIA UTILIZADA NO EXPERIMENTO
5) As próximas duas palavras (increase tax), de maneira similar,
irão satisfazer a previsão no índice Monetary-Argument-1 e como Este experimento consiste em submeter resumos de um texto
existe a previsão para este índice em Mtrans-1, todos as previsões ao algoritmo do DMAP. De posse dos conceitos reconhecidos,
estão satisfeitas. será atribuído um grau de compreensão ao resumo. Para isto,
Os conceitos FRIEDMAN, MONETARY ARGUMENT e algumas métricas serão definidas pelo educador a fim de medir a
MONETARY COMUNICATION são reconhecidos na memória, abrangência do assunto e o encadeamento das idéias (Sánchez
acarretando, assim, a compreensão da frase de entrada. Miguel, 2002). Estas métricas são definidas pelos seguintes
parâmetros:
4 UMA METODOLOGIA PARA AVALIAÇÃO § Grau de importância do conceito: Valor numérico com o
COMPUTACIONAL DO NÍVEL DE COMPREENSÃO objetivo determinar o quanto aquele conceito é importante
DE TEXTOS USANDO O DMAP que apareça no resumo. Varia de 0(irrelevante) a 10(essencial).
§ Grupo do conceito: Usado para classificar os conceitos que
A validação desta pesquisa será feita com a utilização de uma se relacionam.
demanda na área educacional. Estudantes, de uma maneira geral, § Número de seqüência do conceito no grupo: Usado para
adquirem conhecimento através da leitura, apesar de existirem medir o encadeamento das idéias dentro de um grupo de
outras mídias como exposição oral, filmes, palestras etc. Um grande conceitos.
desafio na área educacional é a verificação do conhecimento § Grau de importância da seqüência dos conceitos no
adquirido através da leitura. Muitas vezes o aluno chega a estudar grupo: Tem como objetivo determinar o quanto é importante
um determinado texto, mas não se tem certeza do seu grau de que os conceitos apareçam em seqüência dentro do grupo.
compreensão nem de que os pontos essenciais do texto foram § Número de seqüência do grupo: Também usado para medir
assimilados. Os métodos tradicionais de avaliação como provas, o encadeamento das idéais.
resumos etc, têm seu valor histórico e cultural, ou seja, acostumou- § Grau de importância da seqüência dos grupos no resumo:
se a se dar uma nota representando o nível de entendimento de Tem como objetivo determinar o quanto é importante que
um determinado assunto lido no texto através destes métodos. os grupos apareçam em seqüência dentro do resumo.
Com o avanço da computação na área educacional, muitos No final será atribuída uma nota ao resumo utilizando-se a
programas estão entrando nas escolas e universidades com o fórmula abaixo:

4.2 EXEMPLO DE UM TEXTO E RESUMO SUBMETIDO afirmativa ou negativa. A partir da Idade Média começou-se a
AO PROCESSO DE AVALIAÇÃO representar frases por meio de notações matemáticas. Nesta
época George Boole e DeMorgan (entre outros) interessaram-
A seguir será mostrada a aplicação das descrições acima, se pelo debate filosófico e matemático a fim de criar regras
utilizando-se um texto da Lógica Matemática como domínio. O para serem usadas nos argumentos. Algumas situações no
texto a seguir refere-se a alguns conceitos básicos deste assunto e a mundo em que vivemos apresentam dois estados
figura 2 mostra uma memória modelada de conceitos para este mutuamente exclusivos com sim e não, ligado e desligado,
domínio: verdadeiro e falso. Este texto apresenta alguns conceitos de
Lógica Matemática ligados a estas situações.
A Lógica Matemática começou na Grécia e os antigos filósofos
usavam em suas discussões a fim de defender suas idéias e Chama-se Proposição todo conjunto de palavras que
argumentos. Suas sentenças eram enunciadas na formas exprimem um pensamento de sentido completo. As proposições

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transmitem pensamento, isto é, afirmam fatos ou exprimem juízos Bivalente.


que formamos a respeito de determinados entes. Para a Álgebra de
Boole, estas proposições só podem assumir dois valores, Chama-se valor lógico de uma proposição a Verdade se a
Verdadeiro e Falso. Para que isto aconteça, ela adota como regras proposição for verdadeira e a Falsidade se a proposição é falsa.
fundamentais dois princípios: Princípio da não contradição que Para se formar proposições que exprimam diversos
diz que uma proposição não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo pensamentos, formam-se proposições compostas por várias
tempo e o Princípio do Terceiro Excluído que diz que toda proposições atômicas. Chama-se conectivo as palavras usadas
proposição é verdadeira ou falsa e nunca um terceiro valor. Devido para unir duas ou mais proposições. Os conectivos básicos
a estes princípios a Lógica Matemática é chamada de Dicotômica ou são: negação, conjunção, disjunção, condicional e bicondicional.

Figura 2. Memória modelada para o exemplo

Para cada conceito, foram cadastrados os parâmetros estudiosos criaram regras para serem usadas nas
necessários para a avaliação dos resumos, com a atribuição de grau argumentações.
de importância, grupo, seqüência etc. As proposições que transmitem pensamentos, afirmando
fatos são chamadas de Proposição Declarativa. Na álgebra de
Resumo de um Estudante Boole, as proposições são simbolizadas matematicamente e
usam os conectivos lógicos da álgebra comum, como:
Vamos supor que um estudante tenha estudado o texto e comutativa, associativa, distributiva, assumindo só dois
produzido o seguinte resumo: valores, verdadeiro e falso.
Iniciada na Grécia e utilizada pelos antigos filósofos em A lógica Matemática parte de dois princípios:
discussões para defender suas idéias, através de sentenças Princípio da não contradição: uma proposição não pode ser
afirmativas e negativas. Na Idade Média, George Boole e outros falsa e verdadeira ao mesmo tempo e o Princípio do Terceiro

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Excluído: uma proposição só pode ser verdadeira ou falsa e 5 CONCLUSÃO


nunca um terceiro valor.
Se o valor lógico de uma proposição for a verdade, chamamos Este trabalho mostrou um outro paradigma para o tratamento
de verdadeiro e se for falsidade chamamos de falso. Chamamos de textos em linguagem natural. O DMAP é uma poderosa
de conectivos as palavras usadas para unir duas ou mais ferramenta para a compreensão de textos que se enquadrem na sua
proposições. condição de se ter uma memória modelada de conceitos, e que usa
as definições de compreensão que tentam reproduzir a maneira
E, para este resumo, os seguintes conceitos são reconhecidos: como nós, seres humanos, realizamos tal tarefa. Pelas características
deste método, é possível a manipulação desta memória de conceitos
Lógica, Proposição, Palavra, George_Boole, Principio_1, para diversas atividades, dentre elas o objetivo deste trabalho que é
Principio_2, Propriedade Comutativa a atribuição automática de um grau de compreensão.
De posse destes conceitos reconhecidos, a seguinte avaliação Sabe-se que a pesquisa da compreensão da linguagem natural
seria feita do resumo: já vem de longos anos e muitos trabalhos já foram escritos
tentando reproduzir a maneira com que nós compreendemos a
linguagem. O uso do DMAP como manipulador da memória
modelada se aproxima da maneira como nós realizamos esta tarefa.
Espera-se, então, com este trabalho, trazer uma contribuição para
área educacional na análise de textos produzidos por estudantes,
trazendo uma melhora na avaliação automática do conhecimento
adquirido.

6 REFERÊNCIAS
Percentual de Compreensão: 55,8 %
ÁVILA, B. C. Representação do Conhecimento utilizando
4.3. CONCLUSÃO DO EXPERIMENTO Frames. Tese de Mestrado, Universidade de São Paulo, 1991.

Esta proposta de metodologia de avaliação de resumos de BAEZA-YATES, R.; RIBEIRO-NETO, B. Modern Information
textos permite que muitos problemas sejam resolvidos na tarefa Retrieval. ACM Press, New York, 1997.
de se medir o quanto foi entendido do texto quando um estudante
realiza um resumo. Além da enorme rapidez de avaliar um resumo BURKE, R. D., HAMMOND, K. J., KULYUKIN, V. A.. Question
através de um artefato computacional em que o tempo de execução Answering from Frequently-Asked Question Files:
do algoritmo é praticamente desprezível para um resumo de uma Experiences with the FAQ Finder System. Techinical Report.
página como o apresentado neste trabalho, muitas questões Chicago, 1997.
pertinentes à avaliação e comparação de resultados são resolvidas
com esta metodologia. ELEUTÉRIO, M. A. M. AMANDA: A Computational Method
A primeira delas se refere à padronização das avaliações. Existe for Mediating Asynchronous Group Discussions. Tese de
um grande problema na correção de grandes quantidades de textos Doutorado. Pontifícia Universidade Católica do Paraná, 2002.
produzidos, por exemplo, em redações de vestibular onde se
formam grupos de professores para realizar a tarefa. Uma redação ERDEM, A.; JOHNSON, W. L., Marsella, Stacy. User and Task
não é avaliada por todos os professores do grupo e todos os Tailord Software Explanations. USC Information Sciences
participantes do grupo não avaliam todas as redações. Aí existe o Institute & Computer Science Dept. CA. 1999.
problema de falta de padronização, apesar dos critérios serem
explícitos, sempre há uma divergência na visão de cada avaliador, FREITAS, R. L. Um Sistema de Planejamento de Ações
baseado na sua visão de mundo e, mais especificamente, do tema Baseado em Casos para uma Célula Flexível de Manufatura,
em questão. Esta metodologia faria com que todos as redações Tese de Doutorado, Escola Politécnica da Universidade de São
passassem por um processo único de avaliação. É claro que muitas Paulo, São Paulo, 1996.
questões não seriam contempladas pelo método, pois a interpretação
do ser humano sempre trará mais requintes do que um artefato HEMBECKER, F. Parser Baseado em Casos na Compreensão
computacional, por mais aberto à parametrização que ele seja. Porém de Diálogo: Uma proposta de Aplicação do Direct Memory
este artefato poderia servir como um filtro inicial para descartar Access Parsing. Tese de Mestrado. Pontifícia Universidade Católica
redações sem um mínimo de quesitos necessários a participar do do Paraná. 2002
ranqueamento final.
Outro ponto importante proporcionado pelo método é a KULYUKIN, V. A.; HAMMOND, K. J., BURKE, R. D.An
exploração de um ramo do ensino que está em franca ascendência, Interactive and Collaborative Approach to Answering
o Ensino à Distância. Com a possibilidade de o próprio sistema Questions for an Organization . Chicago, 1998a.
fazer a avaliação do estudo realizado na forma de leitura de textos
e produção de resumos, repassando de forma rápida e quantitativa _____. Automated Processing os Structured Online
os resultados aos alunos. Devido à organização dos parâmetros da Documents. Chicago, 1998b.
avaliação, ficaria claro ao aluno verificar os pontos que não foram
atingidos quanto a encadeamento de idéias e abrangência do MARTIN, C. E. Direct Memory Access Parsing. University of
assunto. Chicago. Technical Report, 1993.

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MINSKY, M. The Society of Mind. Touchstone Book, New


York, 1985.

RICH, E.; KNIGHT, K. Inteligência Artificial. São Paulo:


Makron Books, 1993.

RIESBECK, C. K. From Conceptual Analyzer to Direct


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_____. Inside Case-Based Reasoning. Lawrence Erlbaum


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SÁNCHEZ MIGUEL, Emilio. Compreensão e Redação de


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1971.

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TRABALHO ASSALARIADO E REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA: A


CONSTRUÇÃO DO TRABALHADOR FLEXÍVEL DO SÉCULO XXI

Cristiane Faria Caiado


Professora da Sociedade Paranaense de Ensino e Informática (Faculdades SPEI) e das Faculdades Integradas Curitiba/Curitiba-PR, graduada em Ciências
Econômicas, especialista em Marketing Empresarial e mestre em Sociologia pela UFPR.
Endereço eletrônico: e-mail: ccaiado@terra.com.br.

RESUMO ABSTRACT

O presente trabalho trata da reestruturação produtiva dos anos This work deals with the productive reorganization of 1990 decade
1990 e a emergência de formas flexíveis de produção de base and the emergency of flexible forms of production of capitalist
capitalista, nas quais o discurso empresarial evoca a necessidade de basis, in which the bussiness speech evokes the demand of “a
um trabalhador “flexível”, do qual se espera o constante flexible” worker, with the constant interesting to develop a bigger
compromisso de desenvolver um maior número de number of “individual abilities”, besides collaborating of active
“competências” individuais, além de colaborar de forma ativa na form in the construction of a work environment whose climate
construção de um ambiente de trabalho cujo clima evoque a idéia evokes the participation idea, learning, continuous improvement
de participação, aprendizado, melhoramento contínuo e agilidade and agility in information processes. The present boarding drift of
na troca de informações. A presente abordagem deriva de uma one searches carried through with workers of four companies of
pesquisa realizada com trabalhadores de quatro empresas do setor the automobile industry, installed in in Metropolitan Area of
automotivo, instaladas em na Região Metropolitana de Curitiba, Curitiba, state of Paraná/Brazil.
no estado do Paraná.

Palavras-chave Key words

Reestruturação produtiva, Controle social, Conflito capital e Productive reorganization, Social control, Capital adn work
trabalho, Indústria automobilística, Trabalho em grupo conflict, Automobile industry, Teamwork

R. Spei, Curitiba,
R. Spei, v. 5,
4, v.
Curitiba, n. 5,1,
2, n.
p. 1,
31-34,
15-23, jan./jun.
jul./dez.
jan./jun. 20042003
2004
32

1 INTRODUÇÃO (Araújo et al., 1998, p. 67). O que vale dizer que, para estarem em
compasso com as mudanças organizacionais implementadas pela
O movimento de reestruturação produtiva dos anos 1990 e a produção enxuta, os operários observam e controlam as atividades
emergência de formas flexíveis de produção evidenciam uma produtivas, fiscalizando com maior rigor a si mesmo e a seus
singularidade do sistema capitalista que certamente responde pela pares, principalmente nas fases em que a instabilidade dos mercados
sua posição hegemônica na atualidade: a capacidade de gerar novas flexíveis aumenta o volume das metas de produção.
soluções de modo a amenizar suas próprias contradições internas, Para fins de melhor ilustração das modificações inerentes à
dotando-o sistematicamente de novas e mais refinadas ferramentas reestruturação produtiva, a presente abordagem contará com
de gestão que asseguram a intensificação do processo de exploração depoimentos de trabalhadores em empresas multinacionais do
do trabalho humano. As ferramentas de gestão da produção enxuta, setor automobilístico na região metropolitana da cidade de Curitiba
em suas mais variadas manifestações técnicas, tentam dar conta de – PR. Instaladas nos anos de 1990, essas grandes corporações
questões não resolvidas pelo sistema de produção que o antecede, contaram com uma intensa política de incentivos por parte dos
o sistema fordista de produção em massa. governos locais, um interesse vinculado, na época, à expectativa de
Operam-se mudanças nas formas organizacionais da um aumento significativo das oportunidades de trabalho que seriam
produção e o que se observa é uma crescente adequação estratégica geradas a partir do processo de implantação e manutenção das
das instituições empresariais, que passam a operar de forma atividades na região1.
integrada com seus fornecedores de forma a acelerar os ciclos de Vale ressaltar, ainda, que a reestruturação produtiva afetou os
reprodução do capital. No aspecto da organização do trabalho, níveis de desenvolvimento não somente do Brasil, mas praticamente
surgem as inovações organizacionais, na forma de um “princípio de toda a América Latina. Na atualidade, as empresas multinacionais
de materialização dos postos e das funções, das seqüências e arranjos contam com oportunidades de expansão não estendidas às
de distribuição de tarefas, assim como das modalidades de economia indústrias nacionais latino-americanas, além de aplicarem grande
de tempos e de controle aplicados à produção de mercadorias” parte dos lucros auferidos no aprimoramento técnico de seu próprio
(Coriat, 1998, p. 15). Opera-se uma crescente intensificação do ritmo capital fixo, o que acaba por ampliar as taxas de desemprego no país
de trabalho, num movimento contínuo de ampliação de e na região. Em âmbito local, o panorama da situação de Curitiba e
responsabilidades e, por extensão, das competências que compõem Região Metropolitana pode ser facilmente visualizado na tabela a
o perfil desse “novo” trabalhador. seguir.
Competência e polivalência ¾ a capacidade de acumular e Nas condições de progressiva ampliação do exército industrial
executar várias atividades diferentes num mesmo período de tempo de reserva, as formas de controle social do trabalho, influenciadas
¾ são palavras de ordem e situam-se como pré-condições para o pela reestruturação produtiva, tomam formas diferenciadas no
desenvolvimento profissional dos trabalhadores do que é comum ambiente produtivo, intensificando o processo de exploração do
denominar-se regime de acumulação flexível (Harvey, 1993, p. 140). trabalho assalariado de forma a promover a melhora dos níveis de
Ser competente, portanto, transcende a esfera da qualificação, pois a produtividade demandados pela produção flexível.
noção de competência vincula-se diretamente ao trabalhador e a
sua predisposição em acumular maiores níveis de responsabilidade 3 O CONTROLE SOCIAL DO TRABALHO: NOVAS
individual. O trabalhador flexível mantém com a empresa o FÓRMULAS PARA VELHOS CONFLITOS
compromisso de desenvolver suas competências, aglutinando
responsabilidades ou funções de forma sobreposta e concomitante, A reestruturação produtiva dos anos 1990 promove
ampliando os riscos por ele assumidos no decorrer do processo modificações significativas nas relações de trabalho, desenvolvendo
produtivo. Às atividades de produção somam-se as de manutenção ferramentas que potencializam o controle sobre a subjetividade do
e as de gestão da qualidade do trabalho, que, no sistema flexível, trabalhador. Afinal, é no exercício diário do trabalho que o operário
estão presente nas fases que compõem o processo de produção. lança mão de ações e de recursos necessários à harmonia do fluxo
Busca-se construir no ambiente de trabalho um clima que evoque produtivo. O que vale dizer que a intensidade do esforço
a idéia de participação, aprendizado, melhoramento contínuo e despendido vincula-se preponderantemente sobre seu potencial
agilidade na troca de informações. de envolvimento com os ideais da produção.
Para cumprir os ideais da produção flexível, o trabalhador
deve ser competitivo (enxergando seu companheiro de trabalho
como um concorrente a ser superado em uma eventual disputa
por uma promoção) e, ao mesmo tempo, agir de forma solidária
com seus companheiros, dado que a coesão do grupo é o que
1 Entretanto, cabe aqui ressaltar que se tratam de resultados de
assegura o cumprimento das metas de produção. Saber até que natureza bastante questionável, levando-se em conta que a comparação dos
ponto concorrer e até que ponto partilhar é o que determina a dados sobre emprego com outros fatores e com os resultados em termos
competência desse trabalhador, a despeito da angústia gerada pela de produtividade confirma que a produção industrial, em especial a da
alternância de condutas da qual passa a depender sua indústria automobilística, tem-se desenvolvido no sentido de um modelo
poupador de mão-de-obra. (Araújo, Firkowski, Motim, 2002, p. 393). O que
per manência no quadro funcional. Preponderam os se observa é que em tais empresas já estão incorporados os traços
comportamentos contraditórios, inerentes ao modelos em que característicos do padrão flexível de acumulação, tais como equipamentos
prevalece a racionalidade instrumental, expressa na atual fase da de alta carga tecnológica e organização dos trabalhadores em times, fatores
reestruturação produtiva, “através dos programas de qualificação, que tendem a reverter em inibição do crescimento dos quadros funcionais.
A construção de fábricas em regiões como o Paraná explica-se pela existência
introdução de novas tecnologias e novas formas de gestão do de uma força de trabalho sem herança industrial ou sindical significativa,
processo de trabalho. Essa força ideológica do discurso neoliberal formada por trabalhadores ávidos por incorporar-se à massa assalariada, o
demonstra o quanto o capital precisa para, ainda, manter a separação que vem a garantir níveis maiores de adesão aos novos modelos
entre os produtores e os proprietários do meio de produção” organizacionais.

R. Spei, Curitiba, v. 5, n. 1, jan./jun. 2004


33

TABELA 1 — População Economicamente Ativa (PEA), Ocupados, Desocupados e Taxa de Desemprego


Paraná e RMC - 1990, 1995 e 2001

Surge o desafio de aprimorar o instrumental de controle sobre contra a angústia” (Pagès, 1976, p. 303). Quando todos os membros
o trabalho individual sem, contudo, promover o aprofundamento de um grupo de trabalho estão sob a influência opressiva da
do antagonismo entre capital e trabalho, ou seja, sem deixar que vigilância, a ansiedade em reverter situações-problema é ampliada,
a intensificação do controle sobre o trabalho venha a inibir o o que pode garantir — mesmo que transitoriamente — a aparência
desempenho individual do operador. Tendo como preocupação de estabilidade e domínio dos chefes e trabalhadores diretos sobre
exclusiva a criação de ferramentas que sejam capazes de controlar de os imprevistos gerados no decorrer da produção.
forma mais eficiente a forma através da qual o trabalho é Nas empresas, a vigilância recai sobre a capacidade dos
desempenhado, o capital depara-se com a necessidade de encontrar trabalhadores em tomar iniciativas e estarem dispostos a assumir
métodos de aprimoramento da capacidade produtiva individual. riscos de diferentes graduações a fim de comprovarem seu
Nesse contexto, valorizam-se as condutas que denotem a comprometimento com a lucratividade e com os objetivos da
preocupação desse trabalhador direto com os interesses da empresa, instituição empresarial .
colocando-se seu engajamento e motivação como tema central do
projeto de trabalho. 4 O PERMANENTE ESTADO DE CONFLITO NA
É esse o comprometimento de ordem fundamental para a PRODUÇÃO
reprodução do capital, na medida em que nele o trabalhador
transfere para si parte do controle sobre seu próprio trabalho. Quando os prazos de produção tornam-se mais curtos, a
Vale dizer, portanto, que é fortalecida a ênfase no controle, mas, ansiedade gerada pela conclusão da tarefa incentiva a ocorrência de
especificamente, sobre o controle individual, em vez do controle erros, que serão mais facilmente perceptíveis e alardeados quanto
gerencial, na forma de uma conduta que privilegia “a produtividade, mais intenso for o clima de concorrência instalado no ambiente
obediência a normas e valores da empresa, dedicação ao trabalho fabril. Afinal, na exposição de falhas alheias pode estar a chave para
(entendida como disponibilidade para realização de qualquer tipo uma possível promoção, ou no mínimo, a oportunidade para
de tarefa) e cumprimento de jornadas de trabalho mais longas do alguns trabalhadores demonstrarem sua preocupação e
que as previstas em lei” (Segnini, 1989, p. 101). Nesse contexto, a comprometimento com a qualidade do processo produtivo. Esse
ansiedade gerada pelo controle e pela pressão por resultados cenário de conflito não somente desgasta, sobremaneira, os
configura-se agente potencializador da eficácia do trabalho, necessária trabalhadores que desejam a admissão definitiva (nos casos de
nos períodos de intensificação das metas de produção. Nessas contratos temporários ou em regime de experiência), bem como
situações, a pressão pelo cumprimento dos objetivos atinge a todos padroniza o comportamento “delator”.
os membros das equipes de trabalho2, que unem forças para atingir O distanciamento do corpo técnico com as práticas cotidianas
um objetivo em comum. de produção também se evidencia, na medida em que os
Vale aqui ressaltar que, nas formas de controle social do trabalhadores tendem a queixar-se dos métodos utilizados pela
trabalho, o clima de interdependência e coesão grupal tende a administração científica, que, conforme verificado em vários
preponderar sobre os interesses individuais, em uma situação que depoimentos, não contemplam a realidade do chão-de-fábrica. A
“a vida de grupo aparece, pois, assim, em todos os seus níveis alegação constante é de que os engenheiros não possuem a
como um esforço solidário para estabelecer uma defesa coletiva experiência de quem trabalha diariamente na produção, um conflito
que tende a perpetuar-se em condições em que se opera a
substituição da ação pela fabricação ¾ uma divisão entre saber e
fazer onde “o que sabe não precisa executar, e o que executa não
precisa pensar ou conhecer” (Arendt, 2001, p. 235) ¾ e a imposição
de um sistema de vigilância e controle de base estritamente técnica
2 Como o controle social é uma forma de influência que deriva e racional.
das relações interpessoais — pois leva em conta as expectativas mútuas dos Cabe aos cargos de chefia promover o aumento dos níveis de
envolvidos — é possível observar que existe uma eficiência maior do produtividade dos subordinados, sem a garantia de uma
gerenciamento do controle produtivo quando os trabalhadores operam contrapartida em termos de melhorias salariais, haja vista que isso
em conjunto, através do trabalho em equipe (team-work), onde cada integrante
toma para si a tarefa de supervisionar seu próprio trabalho e dos seus redundaria diretamente no aumento dos custos de produção, uma
companheiros, de forma a garantir o fluxo harmonioso do processo condição desencorajada e nem sequer desejada pelo sistema de
produtivo. produção “enxuta”. O depoimento a seguir dá mostras do

R. Spei, Curitiba, v. 5, n. 1, jan./jun. 2004


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fenômeno das sanções que freqüentemente balizam o controle outra coisa a não ser dizer não, você acredita que seria obedecido? O
social: que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é
simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não,
Ó, o que eu animei o pessoal foi o seguinte... quer dizer, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma
animei não, dei uma prensada neles mesmo, né?... eu falei pra saber, produz discurso” (Foucault, 2002, p. 8).
eles que se eles fossem bem, mais tarde eles iam ter chance na As limitações que ora permeiam o presente trabalho são
firma (...)Quer dizer que, pra mandar embora um de nós é a peculiares aos temas de intensa complexidade filosófico-sociológica
coisa mais fácil... (Caiado, 2002, entrevista nº 4). e as que ora se apresentam são fruto do cuidado metodológico em
evitar distanciamentos do objeto central da abordagem. Os limites,
Intensifica-se, dessa forma, a exploração do medo para fins nesse contexto, podem ser entendidos como provocações para
de manutenção ou aumento da produtividade, pois, a falta de novos esforços de pesquisa, a serem empreendidos a partir da
expectativas e até mesmo a impossibilidade de gerar melhores grande diversidade de temáticas nesse trabalho abordadas e,
condições de trabalho para seus subordinados leva os ocupantes indiscutivelmente, merecedoras de aprofundamento e de
dos cargos de supervisão a usarem da ameaça sempre presente do investigação científica mais detalhada.
desemprego, para conseguirem aglutinar os interesses em torno
dos objetivos da produção. REFERÊNCIAS

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ARAÚJO, S. M. P. et al. O trabalho subvertido no jogo capitalista:


a racionalidade técnica e a a lógica social. História. Questões &
A organização do trabalho na reestruturação produtiva Debates. Curitiba, ago-dez. 1998, n. 29, p. 59-82.
demanda novas formas de institucionalização das ações, da
comunicação e do controle do tempo do trabalhador. A inovação ARAÚJO, S. M. P.; FIRKOWSKI, O. L. C.; MOTIM, B. M. L.
organizacional de natureza participativa, como o trabalho em grupo, Indústria automobilística no Paraná: implicações sobre o emprego
resulta em um ônus expressivo para o trabalhador, o qual envolve e as relações de trabalho.CARVALHO, A. M.; NABUCO, M. R.;
a ampliação dos níveis de desgaste emocional, resultante da NEVES, M. A. (Org.). Indústria automotiva: a nova geografia do
ampliação da órbita de responsabilidades. setor produtivo. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. p. 365-396.
Evidencia-se a necessidade de invisibilizar as formar de
conflito capital e trabalho, utilizando-se da manipulação do mundo ARENDT, H. A condição humana. 10. ed., Rio de Janeiro: Forense
afetivo do trabalhador para as finalidades de reprodução de ordem Universitária, 2001.
capitalista, num cenário em que a exploração de suas angústias ¾
medo do desemprego ¾ e de suas expectativas ¾ eventualidade CAIADO, C. F. O jogo da transgressão nos times de trabalho e os
de promoção profissional ¾ é potencializada de forma consciente dilemas da competência individual no grupo: o caso da indústria
e planejada pelos detentores de cargos de supervisão. O acúmulo automobilística no Paraná. Versão provisória dissertação de
de tarefas passa a ser uma situação cotidiana no ambiente do chão- mestrado em Sociologia – UFPR. Entrevistas. Curitiba, set. 2003.
de-fábrica, dado que a manutenção do controle do processo de
trabalho repousa, em grande parte, no desenvolvimento de técnicas CORIAT, B. Automação programável: novas formas e conceitos
voltadas à maximização de resultados e de competências individuais de organização da produção. In: SCHMITZ, H.; CARVALHO,
. RUY de Q. (Org.).Automação, competitividade e trabalho: a
Prolifera-se o uso de palestras de motivação e treinamentos experiência internacional. São Paulo: Hucitec, 1998. p. 13-62.
de natureza comportamental, principalmente no sentido de formar
novos líderes, denominados “facilitadores” da produção, que DIEESE. Departamento Intersindical de Estatística e Estudos
também são os responsáveis pela aplicação de avaliações individuais Sócio-Econômicos. Disponível em <http://www.dieese.org.br>
aos trabalhadores. São eles que sinalizam as normas de conduta Acesso em mai. 2003.
vinculadas a eventuais aumentos salariais, a promoções na carreira
ou, no limite, à permanência no emprego, mesmo que por tempo FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal,
indeterminado. 2002.
É priorizada a predisposição em acumular e fazer uso de
competências no decorrer do processo de trabalho, vinculando-se HARVEY, D. (1993). Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola,
o grau de comprometimento e o envolvimento emocional do 1993.
trabalhador com os ideais de lucratividade da empresa. Nesse
contexto, emerge a emoção como fonte de intensificação do controle MARX, K. Processo de trabalho e processo de produzir mais-
social, instrumentalizada pela racionalidade do trabalho organizado. valia. V. 1, p. 201-259. Juro e lucro do empresário. v. 5, p. 427-449.
Uma emoção que é administrada de forma a garantir a manutenção In: O Capital. 7. ed. São Paulo: Difel, 1982.
ou aumento dos níveis de produtividade e competitividade
empresariais. Um controle amenizado, na medida em se opera na PAGÈS, M. A vida afetiva dos grupos: esboço de uma teoria da
consciência e individualidade de cada trabalhador, que tende a vigiar relação humana. Petrópolis, Vozes: Sào Paulo, Edusp, 1976.
constantemente seu próprio trabalho, a fim de evitar a incidência
de erros. Uma estratégia que pretende invisibilizar a existência do SEGNINI, L. R. P. Sobre a identidade do poder nas relações de
conflito e das relações de dominações inerentes ao sistema de trabalho. In. FLEURY, M. T.; FISCHER, R. M., (Coord.). Cultura
reprodução material, como é possível constatar na presente e poder nas organizações. São Paulo: Atlas, 1999. p. 89-112.
argumentação: “se o poder fosse somente repressivo, se não fizesse

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ASSÉDIO MORAL NAS ORGANIZAÇÕES

Michely Juglair Saldanha

Graduanda do Curso de Bacharel em Administração Habilitação Geral com ênfase em Informática. E-mail: michely_juglair@hotmail.com

RESUMO ABSTRACT

Este artigo tem por objetivo tornar mais conhecido o tema assédio This article has for objective to become more known the subject
moral, pois tal assunto vem tomando cada vez mais espaço nas moral siege, therefore such subject comes taking each time more
organizações. Poucos ainda sabem sobre o assunto, mesmo que space in the organizations, few still knows on the subject, exactly
tal atitude afete a maioria das pessoas e há muito tempo. Assédio that such attitude happens with the majority of the people and
moral no trabalho não é um fenômeno novo. Poder-se-ia se dizer has much time. Moral siege in the work is not a new phenomenon.
que ele é tão antigo quanto o trabalho. A novidade reside na It could say that it is so old how much the work. The newness
intensificação, gravidade, amplitude e banalização do fenômeno e inhabits in the intensification, gravity, amplitude and indifference
na abordagem que tenta estabelecer o nexo causal com o trabalho e of the phenomenon and in the boarding that tries to establish the
tratá-lo como não inerente a este. nexus-causal one with the work and to treat it as not inherent to
the work.

Palavras-chave Key words

Assédio Moral, Produtividade, Humilhação Moral Siege, Productivity, indifference

R. Spei,
R.R.Spei,
Spei, Curitiba,
Curitiba,
Curitiba, 4,v.n.n.5,2,1,
v.v.4,5, 2,n.p.p.1,15-23,
jan./jun.
35-40,
15-23, 20042003
jul./dez.
jan./jun.
jul./dez. 2003
2004
36

1 INTRODUÇÃO Mesmo sendo um tipo de comportamento existente já há


vários anos, somente na década de 90 foi que ele foi detectado
A maioria das pessoas passa a maior parte do tempo em seu como algo altamente prejudicial e destrutível no ambiente de
local de trabalho, portanto nada mais importante do que um local trabalho. O assédio normalmente surge de forma insignificante e
apropriado e com boas condições. Todo empregado necessita de propaga-se pelo fato das pessoas envolvidas se recusarem a
um ambiente no qual se sinta bem, satisfeito e aceito. formalizar a denúncia e deixarem a situação passar, sendo que em
Quer-se, com esta pesquisa, aprofundar um tema atual que seguida a essa atitude os ataques aumentam e a vítima é
cada vez mais toma conta dos ambientes de trabalho, e que prejudica regularmente acuada, colocada em estado de inferioridade,
muito o desempenho do trabalhador, apesar de ser ainda pouco submetida a manobras hostis e degradantes por longo período.
conhecido – o assédio moral. Tal comportamento é a exposição Apesar disso, o referido fenômeno vinha sendo tratado e
dos trabalhadores e trabalhadoras a situações humilhantes e confundido com outros problemas do mundo do trabalho como
constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de stress ou conflito natural entre colegas e agressões pontuais, o que
trabalho e no exercício de suas funções, sendo mais comuns em sempre prejudicou a caracterização e prevenção, quadro este que
relações hierárquicas autoritárias, nas quais predominam condutas começou a ser alterado, com os avançados dos estudos de Heinz
negativas, relações desumanas e aéticas de longa duração, de um ou Leymann, Psicólogo do Trabalho sueco (apud Salvador, 2003).
mais chefes dirigidas a um subordinado, desestabilizando a relação Segundo o site Desafio 21 (http://notitia.truenet.com.br/
da vítima com o ambiente de trabalho e a organização. desafio21/ apud Veja) uma pesquisa conduzida pela escola de
Muitos sofrem deste mal e não conseguem mudar a situação negócios Kenan-Flager procurou comprovar os danos causados
ou fazer com que ela se finde, pois ou possuem medo de perder o pela violência verbal. Dos funcionários submetidos a situações do
emprego, ou de ser mal interpretados. No final os agressores gênero, 37% disseram que a dedicação ao trabalho diminuiu após
continuam agindo desta forma, trazendo todo este mal para mais o episódio e 46% pensaram seriamente em trocar de emprego,
e mais empregados. plano colocado em prática por 12%. Agora, já existe até manual de
Este tema ganhou força com a repercussão da publicação na comportamento: o Cuss Control, o controle do hábito de praguejar,
França do livro de Marie France Hirigoyen “Harcelement Moral: la do consultor James O’Connor.
violence perverse au quotidien” e sua posterior tradução e publicação No Brasil, o tema é pouco discutido, mas os números também
em 2000 no Brasil pela Editora Bertrand sob o título: Assédio assustam. Estudo feito com 97 empresas de São Paulo (setores
moral: a violência perversa no cotidiano. químico, plástico e cosmético) mostra que, dos 2.072 entrevistados,
Também recentemente, o HSBC Banco Múltiplo S/A 870 deles (42%) apresentam histórias de humilhação no trabalho.
mencionou este assunto em um de seus magazines internos, Segundo o estudo, realizado pela médica Margarida Barreto,
mostrando a importância da divulgação e conscientização por parte pesquisadora da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São
das pessoas em relação a este tema. Paulo), as mulheres são as maiores vítimas -65% das entrevistadas
Espera-se trazer consciência e conhecimento com esta têm histórias de humilhação, contra 29% dos homens, conforme
pesquisa. Consciência para aqueles que sofrem o assédio, pois não descreve Buratto (2003).
precisam passar por este tipo de situação e podem recorrer ou fazer Moreira (2003) também informa que apenas alguns países
queixas. E conhecimento para aqueles que pouco sabem sobre o como Suécia, Alemanha, Itália, Austrália e Estados Unidos têm
assunto e que podem estar sendo vítimas deste tipo de agressão legislação para proteger as vítimas do assédio moral.
sem perceber.
O Assédio Moral traz tanto malefícios para o empregado 2.3 A VIOLÊNCIA
quanto para a empresa, que perde em satisfação e produtividade. A
organização que oferece as condições necessárias a seu empregado Segundo Hirigoyen (2002), pequenos atos perversos são tão
tenderá a um crescimento permanente, por isso cabe a ela implantar corriqueiros que parecem normais para nós que pouco conhecemos
a QVT e colaborar para que tais fatos não ocorram. do assunto. Começam com uma simples falta de respeito, uma
mentira ou uma forma de manipulação.
2 BASE TEÓRICA Essa destruição moral sempre existiu, seja nas famílias, nessas
um tanto oculta, seja nas empresas, onde as pessoas não a levam
2.1 CONCEITO em conta na época de muita oferta de emprego. Porém hoje, elas se
Segundo Freitas (2001) assédio moral é toda conduta abusiva agarram desesperadamente ao seu trabalho, pela escassez deste,
que se manifesta notadamente por comportamentos, palavras, atos, pela saúde, tanto física quanto psíquica.
gestos, que podem causar danos à personalidade, à dignidade ou à Se o grupo em que se vive não se manifesta, tais condutas
integridade física ou psíquica de uma pessoa, colocando em risco o passam a ser muito mais freqüentes e preocupantes, refletindo
emprego desta ou degradando o clima de trabalho. principalmente na saúde psicológica das vítimas.
Cada detalhe, se considerado isoladamente, parece
2.2 SOBRE O ASSÉDIO MORAL insignificante, mas é o seu conjunto que cria um processo destrutivo.
O assédio nasce como algo inofensivo e propaga-se rápida e
Conforme Hirigoyen (2002), não costumamos em nosso crescentemente. Em um primeiro momento as pessoas envolvidas
cotidiano falar sobre perversidade, no entanto agressões auxiliam não querem mostrar-se ofendidas e levam na brincadeira as
um processo inconsciente de destruição psicológica, constituído desavenças e os maus tratos. Em seguida esses ataques vão
de procedimentos hostis, evidentes ou escondidos, de um ou aumentando e a vítima é seguidamente agredida, submetida a
vários indivíduos sobre o outro, na forma de palavras insignificantes, situações de inferioridade, entre outras.
que podem desestabilizar uma pessoa ou mesmo destruí-la Não se pode confundir o assédio com um comentário
psicologicamente. ofensivo em um momento de irritação ou mau humor, quando

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precedido de um pedido de desculpas. É a repetição de vexames, que não serão utilizados. Não sabe o que fazer com as demandas
de humilhações, sem qualquer intenção de abrandar a situação que dos seus superiores. Se algum projeto é elogiado pelos superiores,
torna o fenômeno destruidor. colhe os louros. Em caso contrário, responsabiliza a
Condutas mais comuns que caracterizam o assédio moral, “incompetência” dos seus subordinados.
segundo cartilha elaborada por Magalhães (2003):
§ Dar instruções confusas e imprecisas ao trabalhador; 2.5 A VÍTIMA
§ Bloquear o andamento do trabalho alheio;
§ Atribuir erros imaginários ao trabalhador; Conforme Hirigoyen (2002) descreve em seu livro, a
§ Pedir-lhe sem necessidade, trabalhos urgentes ou sobrecarregá- humilhação constitui um risco invisível, porém concreto nas relações
lo com tarefas; de trabalho e a saúde dos trabalhadores e trabalhadoras, revelando
§ Ignorar a presença do trabalhador na frente dos outros e/ou uma das formas mais poderosa de violência sutil nas relações
não cumprimentá-lo ou não lhe dirigir a palavra; organizacionais, sendo mais freqüente com as mulheres e adoecidos.
§ Fazer críticas ao trabalhador em público, ou ainda, brincadeiras Sua reposição se realiza invisivelmente nas práticas perversas e
de mau gosto; arrogantes das relações autoritárias na empresa e sociedade. A
§ Impor-lhe horários injustificados; humilhação repetitiva e prolongada tornou-se prática costumeira
§ Fazer circular boatos maldosos e calúnias sobre o trabalhador no interior das empresas, onde predomina o menosprezo e
e/ou insinuar que ele tem problemas mentais ou familiares; indiferença pelo sofrimento dos trabalhadores/as, que mesmo
§ Forçar a demissão do trabalhador e/ou transferi-lo do setor adoecidos/as, continuam trabalhando.
para isolá-lo; Freqüentemente os trabalhadores/as adoecidos são
§ Pedir-lhe a execução de tarefas sem interesse e/ou não lhe responsabilizados/as pela queda da produção, acidentes e doenças,
atribuir tarefas; desqualificação profissional, demissão e conseqüente desemprego.
§ Retirar seus instrumentos de trabalho (telefone, fax, São atitudes como essas que reforçam o medo individual ao mesmo
computador, mesa, etc.); tempo em que aumenta a submissão coletiva construída e alicerçada
§ Agredir o assediado somente quando o assediador e vítima no medo. Por medo, passam a produzir acima de suas forças,
estão a sós; e ocultando suas queixas e evitando, simultaneamente, serem
§ Proibir colegas de falar e almoçar com o trabalhador. humilhados/as e demitidos/as.
Os laços afetivos que permitem a resistência, a troca de
2.4 O AGRESSOR informações e comunicações entre colegas, se tornam ‘alvo
preferencial’ de controle das chefias se alguém do grupo, transgride
Os Perfis mais conhecidos segundo o site Assédio Moral a norma instituída. A violência se concretiza em intimidações,
(www.assediomoral.org apud Barreto, 2000) são: difamações, ironias e constrangimento da vítima diante de todos,
Profeta: Sua missão é “enxugar” o mais rápido possível a como forma de impor controle e manter a ordem.
“máquina”, demitindo indiscriminadamente os trabalhadores/as. Em muitas sociedades, ridicularizar ou ironizar crianças
Refere-se às demissões como a “grande realização da sua vida”. constitui uma forma eficaz de controle, pois ser alvo de ironias
Humilha com cautela, reservadamente. As testemunhas, quando entre os amigos é devastador e simultaneamente depressivo. Neste
existem, são seus superiores, mostrando sua habilidade em sentido, as ironias mostram-se mais eficazes que o próprio castigo.
“esmagar” elegantemente. O/A trabalhador/a humilhado/a ou constrangido/a passa a
Pitt-bull: é o chefe agressivo, violento e perverso em palavras vivenciar depressão, angustia, distúrbios do sono, conflitos internos
e atos. Demite friamente e humilha por prazer. e sentimentos confusos que reafirmam o sentimento de fracasso e
Troglodita: É o chefe brusco, grotesco. Implanta as normas inutilidade.
sem pensar e todos devem obedecer sem reclamar. Sempre está Conforme descreve o site www.assediomoral.org (seção - o
com a razão. Seu tipo é: “eu mando e você obedece”. que a vítima deve fazer ?), a vítima deve saber de alguns critérios
Tigrão: Esconde sua incapacidade com atitudes grosseiras e para se defender ou não sofrer assédio moral, e tais critérios são:
necessita de público que assista seu ato para sentir-se respeitado e § Resistir: anotar com detalhes todas as humilhações sofridas
temido por todos. (dia, mês, ano, hora, local ou setor, nome do agressor, colegas
Mala-babão: É aquele chefe que bajula o patrão e não larga que testemunharam, conteúdo da conversa e o que mais achar
os subordinados. Persegue e controla cada um com “mão de ferro”. necessário);
É uma espécie de capataz moderno. § Dar Visibilidade: procurando a ajuda dos colegas
Grande irmão: Aproxima-se dos trabalhadores/as e mostra- principalmente daqueles que testemunharam o fato ou que já
se sensível aos problemas particulares de cada um, independente sofreram humilhações do agressor;
se intra ou extra-muros. Na primeira “oportunidade”, utiliza estes § Organizar: o apoio é fundamental dentro e fora da empresa;
mesmos problemas contra o trabalhador, para rebaixá-lo, afastá-lo § Evitar conversar com o agressor: sem testemunhas, ir sempre
do grupo, demiti-lo ou exigir produtividade. com colega de trabalho ou representante sindical;
Garganta: É o chefe que não conhece bem o seu trabalho, § Exigir por escrito: explicações do ato do agressor e permanecer
mas vive contando vantagens e não admite que seu subordinado com cópia da carta enviada ao DP ou RH e da eventual
saiba mais do que ele. Submete-o a situações vexatórias, como por resposta do agressor;
exemplo: colocá-lo para realizar tarefas acima do seu conhecimento § Procurar seu sindicato e relatar o acontecido para diretores e
ou inferior à sua função. outras instancias como: médicos ou advogados do sindicato
Tasea:”Ta se achando”: Confuso e inseguro. Esconde seu assim como: Ministério Público, Justiça do Trabalho,
desconhecimento com ordens contraditórias: começa projetos Comissão de Direitos Humanos e Conselho Regional de
novos, para no dia seguinte modificá-los. Exige relatórios diários Medicina;

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§ Recorrer ao Centro de Referência em Saúde dos Trabalhadores periódicas (jornais e revistas) e impressos diversos.
e contar a humilhação sofrida ao médico, assistente social ou A principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato
psicólogo; e de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos
§ Buscar apoio junto a familiares, amigos e colegas, pois o afeto muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente.
e a solidariedade são fundamentais para recuperação da auto- Em contrapartida muitas vezes as fontes secundárias apresentam
estima, dignidade, identidade e cidadania. dados coletados ou processados de forma equivocada.

2.6 CONSEQUÊNCIAS DO ASSÉDIO MORAL 3.1.2 Levantamento

Para a Vítima Segundo Gil (2002), as pesquisas de levantamento


Hirigoyen (2002) também descreve em seu livro que as caracterizam-se pela interrogação direta das pessoas cujo
emoções são constitutivas de nosso ser, independente do sexo. comportamento se deseja conhecer. Basicamente, procede-se à
Entretanto a manifestação dos sentimentos e emoções nas situações solicitação de informações a um grupo significativo de pessoas
de humilhação e constrangimento é diferenciada segundo o sexo: acerca de um problema estudado, para em seguida, mediante análise
enquanto as mulheres são mais humilhadas e expressam sua quantitativa, obterem-se as conclusões correspondentes aos dados
indignação com choro, tristeza, ressentimentos e mágoas, coletados.
estranhando o ambiente que identificava como seu, os homens
sentem-se revoltados, indignados, desonrados, com raiva, traídos 3.2 AMOSTRA
e têm vontade de vingar-se. Sentem-se envergonhados diante da
mulher e dos filhos, sobressaindo o sentimento de inutilidade, Vinte e quatro pessoas responderam ao questionário. Todos
fracasso e baixa auto-estima. Isolam-se da família, evitam contar o são profissionais ativos, da cidade de Curitiba, com média de idade
acontecido aos amigos, passando a vivenciar sentimentos de entre 18 e 45 anos de ambos os sexos, dos mais variados segmentos
irritabilidade, vazio, revolta e fracasso. (ex: bancos, comércio de veículos, geradores, varejo de armarinhos,
Passam a conviver com depressão, palpitações, tremores, entidade ligada a esportes, fabricação de equipamentos industriais,
distúrbios do sono, hipertensão, distúrbios digestivos, dores entre outros).
generalizadas, alteração da libido e pensamentos ou tentativas de
suicídios que configuram um cotidiano sofrido. É este sofrimento 3.3 LIMITAÇÕES DA PESQUISA
imposto nas relações de trabalho que revela o adoecer, pois o que
adoece as pessoas é viver uma vida que não desejam, não escolheram 3.3.1 Limitações no uso do levantamento
e não suportam.
Principais desvantagens no uso deste método, conforme Gil
Para a Empresa (2002) descreve:
Segundo a Cartilha elaborada por Magalhães (2003), as Ênfase nos aspectos perceptivos: no levantamento os dados
conseqüências do assédio moral refletem em muitos aspectos coletados são referentes à percepção que as pessoas têm acerca de si
negativos para a empresa, os principais são: mesmas, porém a percepção às vezes pode ser subjetiva, o que
§ Queda da produtividade e menor eficiência; pode trazer dados distorcidos.
§ imagem negativa da empresa perante os consumidores e Pouca profundidade no estudo da estrutura e dos processos
mercado de trabalho; sociais: no uso de levantamentos, é possível a obtenção de um
§ Alteração na qualidade do serviço/produto e baixo índice de grande número de informações a respeito dos indivíduos. Porém
criatividade; os fenômenos sociais são determinados principalmente por fatores
§ Doenças profissionais, acidentes de trabalho e danos aos interpessoais e institucionais. Os levantamentos então tornam-se
equipamentos; pouco adequados para a investigação profunda desses fenômenos.
§ Trocas constantes de empregados, ocasionando despesas com Limitada apreensão do processo de mudança: o método em
rescisões, seleção e treinamento de pessoal; e questão – levantamento – proporciona uma visão estática do
§ Aumento de ações trabalhistas, inclusive com pedidos de fenômeno estudado, porém não indica suas tendências à variação e
reparação por danos morais. muito menos a possíveis mudanças estruturais.

3 METODOLOGIA DE PESQUISA 4 ANÁLISE DE DADOS

3.1 MÉTODO UTILIZADO Gráfico 1 – Idade dos Entrevistados

Foram escolhidos dois métodos para a pesquisa em questão:

3.1.1 Pesquisa Bibliográfica

Conforme Gil (2002) explica, a pesquisa bibliográfica é


desenvolvida com base em material já elaborado, constituído
principalmente de livros e artigos científicos. Boa parte dos estudos
exploratórios pode ser definida como pesquisas bibliográficas. Gil
também informa a classificação das fontes bibliográficas, estas Fonte: pesquisa de campo
podem ser: livros (de leitura corrente e de referência), publicações

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Neste tópico apresentam-se de forma tabulada os dados da 45,83% dos entrevistados não acham que o assédio sexual
pesquisa realizada, visando o desenvolvimento dos raciocínios possa ser uma conseqüência do assédio moral, más conforme gráfico
apresentados em base teórica. O gráfico 1 mostra que os 4 a grande maioria ou 60% não tem conhecimento sobre as
entrevistados são de diversas faixas etárias dando uma boa conseqüências do assédio moral.
explanação do que cada faixa tem conhecimento na pesquisa
apresentada. Gráfico 5 - Identificação de Assédio Moral.
Verifica-se que 50% dos entrevistados são da faixa de 18 a 25
anos e 33% entre 26 a 33 anos.
Quando questionados a respeito do conhecimento sobre
assédio moral, percebeu-se que 60% dos entrevistados não possuía
conhecimento sobre o tema, os resultados podem ser vistos
(Gráfico 2).

Gráfico 2 – Conhecimento sobre o Tema


Fonte: pesquisa de campo

Gráfico 6 - Humilhações / Agressões

Fonte: pesquisa de campo

37,5% dos respondentes relataram que sofreram assédio no


ambiente de trabalho, porém ao perguntar aos mesmos, o que era
assédio moral verificou-se que a maioria dos entrevistados pouco
conhecia sobre este assunto. Muitos confundem assédio com
desavenças, mau humor, cobranças do dia-a-dia. Conforme Gráfico
3, dos 37,5% assediados moralmente apenas 13% denunciaram o
fato e 33,33% calaram sobre o ocorrido. Fonte: pesquisa de campo
Gráfico 3 – Defesa/Atitudes do Assediado
Gráfico 7 - Agressão Física

Fonte: pesquisa de campo

Fonte: pesquisa de campo


5 CONCLUSÃO

Gráfico 4 -Conhecimento das conseqüências A análise dos resultados do questionário comprova a


veracidade dos conceitos de que o assédio moral ocorre diariamente
na maioria das empresas seja ela de pequeno, médio ou grande
porte e, mesmo diante desta verdade, poucas pessoas sabem
identificar este tipo de agressão.
A falta de conhecimento sobre este tipo de atitude é a maior
dificuldade constatada nesta pesquisa, pois na maioria dos casos as
pessoas confundem assédio moral com outros tipos de agressão
ou até mesmo aceitam o agressor por não conhecerem seus direitos.
O assédio moral ultrapassa o mundo dos casais, famílias e
empresas. Estas agressões estão presentes em todos os grupos em
Fonte: pesquisa de campo que indivíduos possam entrar em rivalidade, inclusive nas escolas

R. Spei, Curitiba, v. 5, n. 1, jan./jun. 2004


40

e universidades. SALVADOR, L. Disponível em: http://www.sindjers.org.br/


Sempre existiram seres inescrupulosos, per versos, artigo_assedio_moral.htm. Acessado em 03/11/2003.
manipuladores, para os quais os fins justificam os meios. A
multiplicação atual dos atos de perversidade nas famílias e nas SIMÕES, A. G. Disponível em: http://www.botucatu.sp.gov.br/
empresas é um indicador do individualismo que predomina em artigos/artigos/assedio_moral.pdf. Acessado em 01/10/2003.
nossa sociedade. Em um sistema que funciona com base na lei do
mais forte, os perversos são reis. Quando o sucesso é o valor TANYA, A. JAMES K. Pressão no trabalho – Stress, um guia
principal, a honestidade parece fraqueza e a perversidade assume de sobrevivência. 2. ed. São Paulo: Mc Graw Hill,1988.
um ar de superioridade.
Vários dirigentes ou políticos, apesar de estarem na posição
de modelos para os mais jovens, não se intimidam quando querem
liquidar um rival ou manter-se no poder. Alguns usam de pressões
psicológicas, ou de direito de sigilo para proteger sua vida privada.
Outros enriquecem graças ao uso de bens sociais, fraudes ou
sonegação fiscal. Se esta perversão não é denunciada, ela se espalha
de forma rápida se não pela intimidação, pelo medo ou pela
manipulação.
Se não quisermos mais profissionais com esses sintomas
destruidores devemos dar mais atenção às crianças e aos jovens,
que crescem cada vez mais em um mundo corrupto, onde conseguir
as coisas pelo modo errado é mais fácil, porém as pessoas envolvidas
nesse caminho, têm suas vidas massacradas e destruídas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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seminario/angela.doc. Acessado em 03/11/2003.

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www.lmcpartners.com.br/lmc/artigos. Acessado em 10/09/2003.

R. Spei, Curitiba, v. 5, n. 1, jan./jun. 2004


41

MÍDIA EXTERIOR: DIFERENCIAL PARA FIXAÇÃO DE MARCAS


Deisi Laube

Graduando o Curso de Administração com ênfase em Informática nas Faculdades SPEI.. E-mail: dbz_buma@pop.com.br

Elianay da Silveira

Graduando o Curso de Administração com ênfase em Informática nas Faculdades SPEI. E-mail: elianay_silveira@hotmail.com

RESUMO ABSTRACT

Este artigo aborda assuntos relacionados à mídia externa. Tem por This article approaches issues related of external media. The objective
objetivo mostrar a influência causada na decisão de compra do is to expose the influence of that, over the purchase decision of
consumidor, assim como seu principal atributo: a fixação de marcas. custommers and your principal quality: to fix the trade mark. Cover
Abrange ainda conceitos de mídia exterior, os principais tipos e yet, external media concepts, its most important kinds and identify
identifica o meio que mais impacta seu público alvo e analisa a what kind have more impact on target and analyze the effectiveness
eficácia dos veículos de mídia externa. of each kind of external media.

Palavras-chave Key words

Mídia Externa; Tipos de Mídia; Fixação de Marca; Influência na External Media; Type of Media; Fix The Trade Mark; Influence
decisão de compra. in decision of purchase.

R. Spei, Curitiba,
R. Spei, v. 5,
4, v.
Curitiba, n. 5,1,
2, n.
p. 1,
41-46,
15-23, jan./jun.
jul./dez.
jan./jun. 20042003
2004
42

1 INTRODUÇÃO necessidades dos seus clientes. Eles são peças-chave em


qualquer negócio. Por isso a propaganda deve manter o foco
A imagem da mídia exterior nunca foi propriamente principal no seu cliente direto e fazer disso a sua estratégia de
positiva. Em parte, pela escassez de informações técnicas, marketing.
problema ainda enfrentado pelas mídias, mas também pela pouca
criatividade que possibilita e ainda porque, em geral, é apenas 2.3 O COMPOSTO DE MARKETING: OS QUATRO PS
considerada parte complementar da campanha.
Por outro lado, uma característica marcante deste tipo de Toda empresa deve determinar sua estratégia para apresentar
mídia é a grande visibilidade e o impacto da mensagem, sua oferta ao mercado e, dentre as conhecidas, a mais largamente
permitindo que a marca seja rapidamente conhecida. Outra adotada é a do composto de marketing. O composto de marketing
vantagem é a diversidade de mercados e segmentos que se pode ser definido como o conjunto de variáveis controláveis que a
pode atingir através da possibilidade de exposição continuada empresa pode utilizar para influenciar as respostas dos
no dia-a-dia das pessoas, na rua, onde elas passam a maior consumidores.
parte de suas horas, e por isso estão mais próximas do público, De acordo com McCarthy (1997), essas variáveis podem ser
caminhando junto com ele. classificadas em quatro fatores: Produto, Preço, Ponto de Venda,
Este artigo tem por objetivo mostrar as vantagens da mídia Propaganda & Promoção.
externa e como ela se torna uma estratégia de fixação das marcas. § Primeiro “P”: A Qualidade do Produto.
O artigo está organizado da seguinte forma: na próxima É imprescindível estudar, conhecer, para poder divulgar, os
seção apresenta-se a fundamentação teórica referente à pontos qualitativos de cada item de venda dos produtos,
necessidade que uma empresa tem de divulgação e outros objetivando destacá-los positivamente em face da concorrência,
aspectos relacionados Na seção seguinte, é descrita a muito acirrada hoje em dia, em qualquer segmento de mercado.
metodologia de pesquisa. Na quarta seção analisam-se os dados § Segundo “P”: o Preço
para na seção final, concluir-se o artigo. Definir se um preço é alto ou baixo está diretamente
relacionado à menor ou maior “propensão de consumo”, vista em
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA cada uma das faixas do nosso alvo mercadológico, em função do
grau de capacidade do produto para satisfazer a necessidade do
2.1 A NECESSIDADE DE DIVULGAÇÃO consumidor.
§ Terceiro “P”: o Ponto de Venda
Segundo Kotler (2001) “O ponto de partida para o estudo O ponto de venda ou distribuição pode ser entendido como
do marketing reside nas necessidades e desejos humanos”. a combinação de agentes através dos quais o produto flui, desde o
Quando deu-se início a industrialização e esta, por sua vez foi vendedor inicial (geralmente o fabricante) até o consumidor final.
crescendo e se desenvolvendo, surgiu a competitividade entre § Quarto “P”: Propaganda & Promoção
empresas que produziam o mesmo tipo de produto ou serviço. A propaganda e a promoção de vendas operam no sentido
Para atingir a liderança no mercado, a empresa precisaria vender de atingir o subconsciente do consumidor com a penetração do
mais do que suas concorrentes. Para tanto, a empresa precisaria apelo, influenciando sua decisão de compra. É através da repetição
divulgar seus produtos para o maior número possível de pessoas, de um conceito que ele se infunde e difunde, fazendo variar a
deveria passar para estas pessoas, agora chamadas clientes, a opinião do mercado, mas é preciso existir persistência para que ela
necessidade da aquisição de seu produto. se mantenha. Fator preponderante é o desenvolvimento de
Para que ocorra a divulgação do produto ou serviço, existe a campanhas promocionais de impacto e a seleção adequada dos
propaganda. Ela pode ser um diferencial de peso para as empresas veículos e meios de divulgação.
atingirem a liderança no mercado competitivo, podendo-se
também, usar a propaganda para construir marcas e empresas de 2.4 AS MÍDIAS
sucesso.
Sampaio (1997) relata que se olharmos a nossa volta, vamos Segundo Sampaio (1997) a mídia tem como função essencial
ver muitos produtos que, apesar de bastante conhecidos, precisam cuidar da veiculação mais adequada das mensagens publicitárias
estar sempre sendo mostrados aos consumidores. Principalmente dos clientes da agência. Seu trabalho geralmente começa ainda na
quando dizem respeito a mercados em que a concorrência é acirrada fase de planejamento, quando ajuda nas principais decisões relativas
e a diferença entre os diversos competidores é pequena. aos meios de comunicação a serem empregados e aos formatos de
Por isso, a propaganda é vital para os principais produtos de mensagem a serem utilizados.
consumo, que são mais vendidos quando mais anunciados ou Escolher o melhor veículo (ou conjunto deles) é tarefa que
divulgados. pode ser muito simples ou extremamente complexa, dependendo
do objetivo publicitário que se estiver buscando, da quantidade e
2.2 O CLIENTE E A IMPORTÂNCIA ESTRATÉGICA especificidade do público-alvo visado, dos recursos disponíveis
para essa tarefa e das características de cada veículo.
Hoje em dia, o que se verifica no mercado é um crescente Em princípio, todo e qualquer veículo é útil à determinada
aumento da concorrência, exigindo cada vez mais das empresas função publicitária, sendo menos ou mais eficiente à medida que
uma posição firme e orientada para o cliente. Neste sentido, os for pior ou melhor, utilizado pelo anunciante e sua agência.
profissionais de marketing, em especial, devem valer-se de todas
as ferramentas possíveis para desenvolver uma vantagem 2.5 A MÍDIA EXTERNA
competitiva em relação aos concorrentes, buscando sempre
oferecer produtos e serviços que satisfaçam os desejos e Um meio de propaganda que está em constante crescimento

R. Spei, Curitiba, v. 5, n. 1, jan./jun. 2004


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na área publicitária e a “mídia externa”. Mídia exterior é a consumidor e, principalmente, do seu momento de compra”.
denominação genérica dos meios de comunicação que expõem Pelo motivo de estar sempre presente ou sempre visível aos
propaganda ao ar livre. olhos do consumidor, a marca ou produto o impacta diariamente
Esta forma de comunicação engloba todas as possibilidades nas ruas.
de canais de comunicação ao ar livre e ambiente externo. Ela é
excelente para a fixação da marca, pois a aproxima do consumidor 2.6 ALGUMAS MÍDIAS EXTERIORES
no seu dia-a-dia.
Assim como a mídia impressa exclui meios como revista e De acordo com o Informativo da Central de Outdoor,
jornal, a mídia eletrônica, rádio, televisão e Internet, a mídia exterior relacionamos algumas mídias exteriores indicando sua definição:
engloba diversas formas de veicular mensagens publicitárias, como § Fachada: É a apresentação externa das instalações da empresa,
por exemplo, fachadas, totem, triedro, painel digital, outdoor, entre composta por um ou mais painéis.
outros. § Totem: É a mídia que traz o logotipo da empresa. Fica sobre
O planejamento estratégico, o investimento em novos uma estrutura elevada e quase sempre é iluminado interna ou
formatos e a comercialização em mídia exterior visam obter o melhor externamente.
custo x benefício do setor, sem perder de vista a qualidade e o § Front-light: É um painel de dimensão variável que conta
principal objetivo: o reconhecimento de sua marca. com lâmpadas que iluminam a mensagem frontalmente.
As campanhas de mídia extensiva, necessariamente, tendem § Back-light: Painel transluscido com as mesmas características
a ter uma freqüência contínua, uma série de anúncios espalhados do front-light, mas com a iluminação interna.
em lugares diversificados para assim obter-se um eficiente resultado § Painel digital: É praticamente uma televisão gigante em
de fixação da marca. Esta regra serve para anúncios em relógio/ cruzamentos de grandes avenidas. O painel digital transmite
termômetro, busdoor, letreiro, outdoor e taxidoor. Com relação uma seqüência de animações e comerciais controlada por
aos anúncios em empena, front-light e topo, por exemplo, podem computador.
ser feitos em um único lugar, desde que com destaque suficiente § Triedro: É um equipamento que dispõe de diversos triedros
para atrair a atenção do cliente. em linhas que rodam ao mesmo tempo, permitindo a
A mídia exterior é mais eficiente quando associada a outros visualização de três mensagens em seqüência.
meios, dentro de conceito geral de campanha. Ela é eficiente § Empena: Painel gigante que se adapta às dimensões da lateral
combinada com as mídias tradicionais. A eficácia da mídia exterior de prédios de grande visibilidade.
está na segmentação, na busca de freqüência e numa maior § Topo: É um letreiro ou painel colocado no alto de edifícios.
visibilidade da marca. § Relógio termômetro: Esta mídia disponibiliza espaço para
A mídia externa, em determinado momento, já foi chamada propaganda acima de um placar digital que indica horário e
de mídia complementar, há pouco tempo de mídia alternativa e temperatura do ambiente. Geralmente são encontrados em
hoje ainda é chamada de mídia extensiva. Raramente há uma canteiros de avenidas ou calçadões.
campanha exclusiva para o meio. Por isso fica cada vez mais necessária § Letreiro luminoso: Feito de néon, normalmente traz o nome
à busca por novidades, seja de técnicas gráficas seja de produção, da empresa ou seu logotipo. Pode fazer parte da fachada ou
que contribuam para melhorar a qualidade do produto final. estar em paredes e topos de prédios.
O mercado considera que esse meio produz efeitos § Taxidoor: São mensagens expostas no vidro traseiro de táxis.
surpreendentes para os resultados esperados em relação à fixação § Busdoor: São propagandas expostas nas traseiras de ônibus,
da marca. Por outro lado, a maior viabilização de idéias estimula a assim como espaços nas laterais, abaixo das janelas.
criação para essa mídia. A evolução do meio também faz com que § Outdoor: São cartazes afixados dispondo folhas de papel
tenha maior aceitação pelo cliente. coladas na ordem certa em estrutura metálicas para formar
A busca pelo diferencial é cada vez maior. O trabalho com uma mensagem.
mídia exterior faz parte do contexto urbano, de forma que o meio
pode trazer benefícios e embelezamento para a cidade. 3 METODOLOGIA DE PESQUISA
Em contrapartida, um cuidado que se deve ter com a mídia
exterior é com relação à poluição visual da cidade, e especialmente O projeto de pesquisa em questão foi baseado no tipo
da própria mídia. O abuso da utilização de espaços da cidade para exploratório, definido por Gil (1999) como uma pesquisa que visa
colocação de anúncios pode vir a prejudicar o anunciante no que desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e idéias, a fim de
diz respeito ao retorno do cliente, pois este pode voltar-se contra a formular problemas mais precisos ou hipóteses pesquisáveis para
marca anunciada em virtude da poluição visual causada pelo anúncio. estudos posteriores.
A importância da mídia exterior está no fato de oferecem
várias opções, desde uma placa de rua a megapainéis com diversas 3.1 PARTICIPANTES
possibilidades de efeitos de comunicação. Como é difícil comprovar
a sua eficiência individualmente, o segmento publicitário trabalha A pesquisa foi direcionada para 30 (trinta) pessoas, com idade
pelo feeling, e muitas vezes, pelo retorno do anunciante. entre 18 a 55 anos, sendo 53 % (cinqüenta e três inteiros por cento)
Flávio Rezende, diretor de negócios da DPZ, em uma matéria do sexo feminino e 47% (quarenta e sete inteiros por cento) do
da revista M&M de 2000, entende que a mídia exterior é eficiente sexo masculino. A amostragem realizada foi não probabilística por
quando uma única ação causa impacto ao consumidor e à conveniência.
comunidade, fazendo com que a mensagem torne-se um referencial
para a cidade, bairro, rua, durante sua permanência. “A mídia exterior 3.2 INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS
não é só um pensamento tático, mas estratégico, aproximando
marca e produto na porta de entrada do trabalho, da casa do O instrumento utilizado para a coleta de dados foi o

R. Spei, Curitiba, v. 5, n. 1, jan./jun. 2004


44

questionário, com perguntas fechadas de múltipla escolha e em Gráfico 2: Meios mais impactante
alguns casos utiliza uma combinação de respostas de múltipla
escolha com respostas abertas.
Marconi e Lakatos (1999) apresentam algumas vantagens com
relação à utilização do questionário:
a. atinge maior número de pessoas simultaneamente;
b. abrange uma área geográfica mais ampla;
c. obtém respostas mais precisas;
d. há maior liberdade nas respostas, em razão do anonimato;
e. há mais segurança, pelo fato de as respostas não serem
identificadas;
f. Segundo Marconi e Lakatos (1999), o questionário apresenta
também uma série de desvantagens:
g. não pode ser aplicado a pessoas analfabetas;
h. na leitura de todas as perguntas, antes de respondê-las, pode
uma questão influenciar a outra;
i. desconhecimento das circunstâncias em que foram preenchidos
torna difícil o controle e a verificação;
j. grande número de perguntas sem respostas;
k. impossibilidade de ajudar o informante em questões mal
compreendidas.

Não foi informado aos respondentes do questionário o


objetivo da pesquisa, para que não houvesse qualquer influência na Fonte: Pesquisa de Campo
opinião dos entrevistados.

3.3 ANÁLISE DE DADOS


Verifica-se um equilíbrio entre as notas que os meios de mídias
Neste tópico apresentam-se de forma tabulada os dados da receberam, destacando-se apenas, com 15% e em primeiro lugar no
pesquisa realizada, mostrando os resultados graficamente para uma quesito impacto, o Outdoor.
melhor visualização. Quando questionamos qual o meio de mídia exterior que
mais faz o consumidor lembrar de algum produto ou marca
anunciado, 49% dos participantes citaram o Outdoor como mídia
Gráfico 1: Idade dos Entrevistados
mais eficiente. Os resultados podem ser vistos no gráfico 3.

Gráfico 3: Lembrança da marca

Fonte: Pesquisa de Campo

Fonte: Pesquisa de Campo

Os resultados apresentados no gráfico 3 validam os mostrados


O gráfico 1 mostra a faixa etária dos entrevistados. Verifica-se no gráfico 2, pois o Outdoor é citado novamente como meio que
que 33% estão na faixa etária de 24 a 30 anos. Todos os entrevistados mais faz o consumidor lembrar do produto ou da marca ao ver o
possuem idade que proporciona conhecimento e embasamento anúncio nesta mídia.
para responder ao questionário. Nos gráficos 4, 5 e 6 podemos ver se as mídias estão dando o
O Gráfico número 2 mostra a opinião dos respondentes retorno esperado para os anunciantes, que é a aquisição de produtos
quanto ao meio de comunicação que mais causa impacto visual ao após ver o anúncio. 63% dos respondentes sentem-se estimulados
consumidor. Os participantes deram notas de 1 a 10 aos meios de a adquirir produtos ao ver os anúncios expostos em mídias
comunicações citados no questionário, onde as somas destas notas exteriores. Porém, 63% responderam que este tipo de mídia não
foram transformadas em percentual. influencia na compra de produtos de marcas anunciadas na mídia

R. Spei, Curitiba, v. 5, n. 1, jan./jun. 2004


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exterior, se os consumidores já têm por habito comprar produtos Conforme os dados obtidos, o anuncio em Outdoor, Painel
de determinadas marcas. Digital e Letreiro Luminoso, tiveram mais de 50% de aprovação
dos participantes, sendo que as mídias como Taxidoor, Topo e
Gráfico 4: Estimulo de Aquisição Totem não foram mencionados nas respostas. Estes dados são
muito importantes para escolha de uma mídia adequada no
momento de investimento.
Um ponto que chamou a atenção na pesquisa realizada foram
as respostas “outros”. A maioria dos entrevistados citou a TV
como meio mais eficiente, impactante e aquele que mais faz lembra-
Fonte: Pesquisa de Campo los da marca. Podemos finalizar afirmando que para atingir a eficácia
da fixação da marca através do anúncio, é necessário fazer uma
propaganda na TV, e ter mídias como Outdoor, Painel Digital e
Gráfico 5: Influência na decisão de compra Letreiro Luminoso apoiando a TV na forma de mídia extensiva.

4 CONCLUSÃO

A análise dos resultados do questionário comprova os


conceitos dos autores citados na base teórica. Um meio de
propaganda que está em constante crescimento na área publicitária
são as mídias externas. Os consumidores estão percebendo a
Fonte: Pesquisa de Campo existência desta mídia e estão sendo estimulados por esta para
adquirir os produtos anunciados.
O gráfico 6 demonstra que 57% dos entrevistados já adquiriram O meio mais impactante considerado pelos consumidores é
um produto após ver um anúncio em uma mídia exterior. o Outdoor. Este meio é o mais comum e mais conhecido pelos
consumidores. Os demais meios também causam impactos,
Gráfico 6: Compra efetuada em função do anúncio em mídia porém, eles possuem nomes menos comuns, o que nos fez verificar
exterior com a pesquisa que muitos consumidores não conheciam as mídias
por seu nome, como Totem, Empena, Triedro entre outros e,
após verem uma figura ilustrativa da mídia, confessaram que já
conheciam.
Após análise dos resultados, pode-se afirmar que os
consumidores não estão trocando as marcas costumeiras (que estão
acostumados a comprar) por uma marca anunciada em uma mídia
exterior. Especula-se que o principal motivo desta resistência é que
Fonte: Pesquisa de Campo os anúncios não estão sendo feitos de forma constante como
deveriam, conforme Sampaio (1997), para quem a mídia tem como
Finalizando o questionário, os respondentes deram sua função essencial cuidar da veiculação mais adequada da mensagem
opinião quanto a eficiência da mídia exterior. Podemos então publicitária, a mídia mais eficiente para anuncio.
confirmar o que já foi demonstrado nos gráficos 2 e 3, pois 23%
dos entrevistados assinalaram o Outdoor como mídia mais eficiente,
conforme demonstrado no gráfico 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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R. Spei, Curitiba, v. 5, n. 1, jan./jun. 2004


47

A BASE DE DADOS COMO OBJETO DE PROTEÇÃO DE


DIREITO AUTORAL

João Ademar de Andrade Lima


Bacharel em Direito (UEPB) e Desenho Industrial (UFCG), Especialista e Mestrando em Engenharia de Produção (UFPB), Bolsista CNPq, E-mail:
joademar@terra.com.br

RESUMO ABSTRACT

A idéia guia deste texto é a apreciação crítica quanto à caracterização The idea that guides this text is a critical appreciation regarding the
da base de dados como sendo uma Propriedade Intelectual, characterization of the database as being an Intellectual Property,
protegida por lei. Essa discussão vem a termo devido à suma protected by Law. This discussion comes to term due to the
importância que uma base de dados tem em relação não apenas importance that a database has in relation not only regarding its
quanto ao seu uso, tanto nos sistemas de informação, como a use, as much as in the information systems, as to whom this right
quem de direito pertence este produto. Com este documento, deseja- belongs. With this document, we wish to show that, by using a
se mostrar que ao se utilizar uma base de dados, ou criá-la, deve-se database, or creating it, we should investigate the technical
procurar não apenas se ater aos aspectos técnicos, mas aos aspectos aspects, but also the legal ones that involve it, being aware of the
legais que a envolvem, conscientizando-se da fundamental fundamental importance of knowing the law as well as trying
importância não apenas de se conhecer a lei como também procurar to know the nuances that there are while creating or just
se ater às nuances que existem em se criar ou apenas utilizar uma using a database, understanding the success of an organization
base de dados, entendendo-se que o sucesso de uma organização not only in the tools that are used, but also in their provenance and
não está apenas nas ferramentas que se utiliza, mas na procedência in the valorization of its generators fonts of competitive
delas e na valorização de suas fontes geradoras de vantagens advantages, which are going to guarantee its permanence in the
competitivas, que irão garantir sua permanência no mercado. market.

Palavras-Chaves Key words


Propriedade Intelectual, Base de Dados, Sistemas de Informação Intellectual Property, Databases, Information Systems.

R. Spei, Curitiba,
R. Spei, v. 5, v.n. 5,1, n.p. 1,47-51,
Curitiba, jan./jun.
jan./jun. 2004 2004
48

1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS ao Comércio Internacional). É também preceito Constitucional,


estando arrolado entre os “Direitos e Garantias Fundamentais”,
O objetivo principal desse ensaio é apreciação crítica, através com previsão nos incisos XXVII, XXVIII e XXIX do artigo 5º da
da propositura de uma discussão bibliográfica, quanto à Constituição Federal.
caracterização da base de dados como objeto de proteção de Direito A Propriedade Intelectual pode ser subdividida em duas
Autoral. Para isso procurou-se abordar alguns conceitos de o que é grandes áreas, quais sejam: o Direito Autoral e o Direito Industrial.
Propriedade Intelectual, Direito Autoral e a diferença entre base de Estas, apesar de possuírem similaridades bastante notórias,
dados bruta e elaborada, buscando seguir um roteiro que procura apresentam naturezas jurídicas distintas e, conseqüentemente,
esclarecer algumas dúvidas quanto à propriedade e o uso da base tratamentos diferenciados, tanto a nível de proteção temporal como
de dados. a nível de direitos pessoais e patrimoniais.
Com este documento, deseja-se mostrar que, ao se utilizar
uma base de dados ou criá-la, deve-se procurar não apenas se ater 4 CONCEITO E NATUREZA JURÍDICA DO DIREITO
aos aspectos técnicos, mas aos aspectos legais que a envolvem, AUTORAL
como na criação de qualquer bem material, não buscando, contudo,
esgotar o tema aqui abordado. O Direito Autoral, também chamada de Propriedade Literária,
Sua estruturação se deu através de tópicos relacionados às Científica e Artística, é o direito que uma pessoa física chamada
conceituações teóricas de Direito de Propriedade e Propriedade autor, ou seja, aquele que materializa sua idéia num corpo físico
Intelectual, natureza jurídica e classificação do Direito Autoral, determinado, tem de gozar dos benefícios (morais e patrimoniais)
conceito de base de dados e sua caracterização como objeto de resultantes de suas criações; é o direito que tem o autor de obra
proteção autoral. literária, científica e artística, de ligar o seu nome às suas produções
e de reproduzi-las ou transmiti-las da forma que melhor lhe
2 CONCEITO DE DIREITO DE PROPRIEDADE aprouver.
É parte do Direito gerador de não poucas controvérsias, sendo
Para a ciência jurídica, o Direito de Propriedade é aquele que desde direito individual, para alguns juristas, até apenas um mero
garante a seu titular, em toda sua plenitude, a faculdade de dispor privilégio, para outros. Há quem diga inclusive que não pode ser
dos seus bens livremente e a seu bel-prazer. Possui como elementos sequer objeto de direito, afirmando-se que o pensamento
essenciais, os chamados jus utendi, jus fruendi e jus abutendi. manifestado pertence a todos, não sendo propriedade dos autores.
O jus utendi é o direito de usar, ou seja, é o direito de retirar Diante disto, a sua natureza jurídica tende a corroborar com
da propriedade tudo o que ela pode oferecer, sem alterar-lhe; O jus deveras discussões. As hipóteses mais contundentes dizem que o
fruendi aparece como o direito gozar da propriedade, explorando- direito autoral é direito pessoal, vinculado diretamente a
a economicamente; e o jus abutendi, o mais importante dos três, personalidade do autor, do qual a obra não é senão uma projeção;
significa o direito de dispor da propriedade como bem entender, ou ainda, é direito real, sendo um aspecto particular da propriedade;
dando a ela o destino que achar melhor. há também quem o cite com um direito misto de pessoal e real.
Essas três características aparecem de forma concorrente, ou A solução mais coerente foi elaborada por Edmond Picard,
seja, na falta de alguma delas não há como se falar em Direito de que defendeu que o direito autoral deve ser enquadrado numa
Propriedade, mas, no máximo, num suposto “Direito de Posse”, nova categoria chamada de Direitos Intelectuais, destacando-se do
tal qual o inquilino em relação à casa alugada, que possui o direito direito das coisas e constituindo um ramo especial do Direito.
de uso e, em algumas ocasiões (como nos imóveis comerciais) o Sobre isto, dispõe Füher (1996) que a Propriedade Industrial
direito de gozo, mas nunca o direito de dispor. (ramo do Direito Comercial) e o Direito Autoral (ramo do Direito
Também não se deve confundir direito de propriedade com Civil), embora tendo princípios diversos, caminham para a formação,
direito de “exercício de propriedade”. Aquele é absoluto e subjetivo, em conjunto, de um novo ramo do direito privado.
enquanto este é a norma objetiva que regula o primeiro. Em linhas gerais, há no Direito Autoral tanto um direito
pessoal como também uma parte patrimonial, relacionada à
3 CONCEITO DE PROPRIEDADE INTELECTUAL reprodução da obra. Dessa dicotomia classificaram-se os dois grupos
básicos, quais sejam: o Direito Moral e o Direito Patrimonial.
O termo Propriedade Intelectual é usado para designar a área
do Direito que cuida da proteção às criações do homem nas áreas 5 DIREITO AUTORAL MORAL E DIREITO AUTORAL
técnico-científica, literária e artística e também àquelas relacionadas PATRIMONIAL
à indústria, nas invenções, inovações, processos e design de um
modo geral, abrangendo desde a arquitetura ao desenho industrial. O Direito Autoral Moral é aquele gerado pela relação criação/
Possui os três elementos essenciais do Direito de Propriedade criador, estando diretamente vinculado à pessoa do autor, uma
– usar, gozar e dispor – daí não ser nomeado simplesmente Direito vez que a obra é uma projeção de sua personalidade. É um direito
Intelectual, mas Propriedade Intelectual. personalizado, irrenunciável, impenhorável e absoluto do autor.
Em nosso país, a Propriedade Intelectual é disciplinada Quanto ao seu conteúdo, compreende os direitos ao inédito, à
principalmente pelas Leis 9.279/96 (Marcas e Patentes), 9.456/97 paternidade, à integridade, de modificação e arrependimento. Está
(Cultivares), 9.609/98 (Software) e 9.610/98 (Direitos Autorais). elencado taxativamente dos artigos 24 a 27 da Lei 9.610/98.
Além disto, assim como a maioria dos países, o Brasil faz parte, O Direito Autoral Patrimonial é o resultante da publicação da
inclusive como signatário, de tratados internacionais, como as obra, ou seja, resulta da comunicação da obra ao público, tanto
Convenções de Berna, sobre Direitos Autorais, e de Paris, sobre pelo próprio autor como por aqueles por ele autorizados.
Propriedade Industrial, e outros acordos como o TRIPs (Tratados A publicação tanto pode ser feita através de edição (livros,
sobre aspectos do Direito de Propriedade Intelectual relacionados discos, fotografia, filmes etc) como através de representação (peças

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teatrais, óperas, concertos etc.), quer ao vivo, quer por qualquer ou materiais em si mesmos e se entende sem prejuízo de
outro meio como a radiodifusão e até outros como os sistemas quaisquer direitos autorais que subsistam a respeito dos
óticos, fios telefônicos, cabos ou quaisquer meios de comunicação dados ou materiais contidos na obra.
similar que venham a ser adotados. Art. 87. O titular do direito patrimonial sobre uma base
É direito facultativo exclusivo do autor, que pode autorizar de dados terá o direito exclusivo, a respeito da forma da
ou não a reprodução ou a execução da obra. Está disciplinado na expressão da estrutura da referida base, de autorizar ou
Lei 9.610/98, dos artigos 28 a 45. proibir:
I — sua reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou
6 CONCEITO DE BASE DE DADOS processo;
II — sua tradução, adaptação, reordenação ou qualquer outra
A Base de Dados (ou Banco de Dados) é uma coleção de modificação;
informações que se relacionam entre si; informações essas que III — a distribuição do original ou cópias da base de dados
podem ser armazenadas, atualizadas, manipuladas, classificadas e ou sua comunicação ao público;
recuperadas; “é um arquivo. Nada mais do que isto: um arquivo IV — a reprodução, distribuição ou comunicação ao público
que, pela sua natureza tecnológica, comporta uma variedade de dos resultados das operações mencionadas no inciso II desse
dados e informações, numa quantidade imensa, onde elementos artigo.
gráficos e sonoros podem ser criados e inseridos” (Cabral, 1998,
p.192). A proteção autoral de uma obra possui como critério de
Pode ser composta de duas formas: por dados brutos ou por exigibilidade a originalidade. Com relação à base de dado, ela agirá
dados enriquecidos. na estruturação empregada aos dados para os informatizar e ao
Os dados brutos são aqueles que têm uma formação ditada arranjo efetuado de forma a criar um diferencial do ponto de vista
pela codificação imposta pela linguagem, tais como datas, localizações documental. Em uma base de dados, como em uma compilação,
geográficas e cálculos. Por estarem em estado bruto, essas é dada uma forma particular às informações, como um propósito
informações não comportam quaisquer contribuições intelectuais funcional, visando permitir seu tratamento.
(ou criativas) por parte de quem as transmite.
Os dados enriquecidos, por sua vez, são as informações as O critério de originalidade das bases de dados é particularmente
quais foram agregadas, em sua formação, qualidades resultantes de difícil de resgatar sob o ponto de vista tradicional, em razão
apreciações e/ou interpretações, estando presente personalidade de que, tratando-se de matéria de propriedade intelectual, o
de quem os transmite, entendido como autor. critério de originalidade é apreciado sobre dois aspectos, ou
Há também as chamadas Bases de Dados Multimídias, que seja, a forma de expressão e a composição da obra. (Zibetti,
incorporam diversos elementos, como textos, imagens, sons, 2002, p50).
provenientes dos mais diversos suportes, sincronizados e
integrados através de um software, englobando, conforme a situação, Uma base de dados é considerada uma obra original quando
dados técnicos, gráficos, planos, esquemas, croquis, modelos ela constitui uma criação intelectual própria do seu autor, quer seja
geométricos etc., ou compreendendo caracteres alfanuméricos, como pela seleção, quer pela disposição de seu conteúdo. Não se protege
textos e números habitualmente tratados nas aplicações a informação em si, nem mesmo a forma como está expressa, mas
informáticas, dados de áudio e vídeo como imagens animadas ou a seleção dos dados.
fixas e sons; Em outras palavras, é uma coletânea de dados e outros Dados e base de dados não são a mesma coisa. O que diferencia
elementos independentes, armazenados eletronicamente em efetivamente os primeiros da segunda é que esta ultima resulta de
formato digital, dispostos de maneira sistemática e individualmente elementos de criação intelectual que dão aos primeiros uma forma
acessíveis por meios eletrônicos. organizada e distintiva; elementos esses entendidos como
originalidade.
7 A BASE DE DADOS COMO OBJETO DE DIREITO
AUTORAL
No reconhecimento da proteção autoral a uma base de dados,
portanto, há que se verificar a simultaneidade de duas
A proteção das bases de dados está prevista na Lei nº 9.610/
ocorrências: a) trata-se de uma obra completa, orgânica, e não
98 (artigo 7º, inciso XIII e § 2º e artigo 87), proporcionando às
de dados seqüencialmente apresentados aos usuários como
bases de dados, assim como às compilações de obras diversas, a
mera informação; b) apresentar suficientes aspectos distintivos
qualidade de criações intelectuais pela seleção e a disposição das
que possam dar-lhe identidade própria, destacando-a de seus
matérias, protegendo, portanto, a classificação e os elementos
pares. (Abrão, 2003, p.32).
preexistentes.

Art. 7º. São obras intelectuais protegidas as criações do espírito, 8 O VALOR MATERIAL DA BASE DE DADOS E A
expressas por qualquer meio ou fixadas em qualquer superte, PROPOSTA DE UM DIREITO AUTORAL SUI
tangível ou intangível, conhecido ou que se invente no futuro, GENERIS
tais como:
XIII — as coletâneas ou compilações, antologias, É bastante claro o valor monetário de uma informação; “A
enciclopédias, dicionários, bases de dados e outras obras, que, maioria dos gerentes e executivos considera um banco de dados
por sua seleção, organização ou disposição de seu conteúdo, como uma das mais importantes e valiosas partes de um sistema
constituam uma criação intelectual. de informação computadorizado” (STAIR & REYNOLDS, 2001,
§ 2º A proteção concedida no inciso XIII não abarca os dados p.15).

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Há relatos de ladrões que chegam a ganhar até 10 mil dólares elementos essenciais de usar, gozar e dispor, em toda a sua
para roubar um computador portátil de um executivo de plenitude, à figura do autor ou detentor dessa base; e
uma corporação. O motivo, nesses casos, obviamente não é 3. O chamado Direito Sui Generis é absolutamente
computador em si, já que a maioria dos portáteis não vale questionável, especialmente por trazer para si um elemento de
nem a metade daquela quantia. Os dados armazenados no subjetividade sujeito a interpretações jurisprudenciais nem sempre
disco rígido do computador é que são valiosos. Afinal de coerentes.
contas, o conhecimento da estratégia adotada por uma Assim, é de fundamental importância não apenas conhecer a
empresa para obter vantagem sobre seus concorrentes pode lei, mas igualmente procurar se ater às peculiaridades existentes na
valer milhões. (Norton, 1996, p.19). criação ou apenas na utilização uma base de dados, porque o sucesso
de uma organização não está apenas nas ferramentas que se utiliza,
Diante do alto valor que há hoje em dia acerca da informação mas na procedência delas e na valorização de suas fontes geradoras
e também dos pesados investimentos na consecução de algumas de vantagens competitivas, que irão garantir sua permanência no
bases de dados, discute-se, inclusive em âmbito internacional, mercado.
diretivas para proteção das bases de dados que são insuscetíveis de
serem protegidas pelo direito de autor na mesma medida em que REFERÊNCIAS
elas não são originais, nem pela seleção, nem pela disposição das
matérias. ABRÃO, E. Y. Base de dados. São Paulo: Tribuna do Direito,
A constituição de uma base de dados exige investimentos dos 2003.
pontos de vista humanos, técnicos e financeiros e ainda necessita de
proteção dos direitos, não mais e simplesmente dos “criadores ASCENSÃO, J. O. Direito autoral. 2.ed. Rio de Janeiro: Renovar,
intelectuais” das bases de dados, mas do que se pode denominar de 1997.
“fabricantes de bases de dados”, conferindo-lhes o status de criador.
BITTAR, C. A. A lei de direitos autorais na jurisprudência.
Assim, claramente, observa-se que as novidades em São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 1988.
tecnologias permitem extrair uma quantidade substancial de
dados para constituir uma nova base de dados que terá um _____. O direito de autor nos meios moder nos de
conteúdo idêntico, mas que, sendo diferente pela seleção ou comunicação. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 1989.
pela composição, não constituirá uma contrafação no sentido
do direito de autor, quanto às bases de dados originais. É, _____. Contornos atuais do direito do autor. 2.ed. Ed. São
portanto, necessário proteger por vez os investimentos dos Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 1999.
fabricantes das bases de dados não originais e de impedir a
extração dos dados das bases originais. O que resulta em um BRASIL. Lei n. 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. Altera, atualiza
direito sui generis aplicável a todas as bases de dados, quer e consolida a legislação sobre direitos autorais e dá outras
sejam elas originais ou não. (Zibetti, 2002, p57). providências.

The extent of database protection comprises both copyright and the CABRAL, P. A nova lei de direitos autorais. Porto Alegre: Sagra,
new sui generis right. The new right was developed against a backdrop 1998.
of existing copyright regimes and examination of the nature and
extent of copyright protection can inform the debate over the proper _____. Direito autoral – dúvidas e controvérsias. São Paulo:
ambit of any new rights. It may also provide appropriate analogies for Harbra, 2000.
reform. (Colston, 2001, p.4).
CHAVES, A. Direito de autor - princípios fundamentais. Rio de
Diante disso, e como quase tudo relacionado ao Direito Janeiro: Forense, 1987.
Privado, surge a indagação do quantum de investimento seria
necessário para aquisição desse “direito”. Mas uma vez, recorrer-se- COLSTON, C. Sui generis database right: ripe for
ia ao arbítrio dos legisladores e, em esferas recursais, dos juristas review?.Strathclyde: The Journal of Information, Law and
para tal definição (mas isso é objeto de outras discussões, não Technology, 2001.
pertinentes nesse ensaio!).
COSTA NETO, J. C. Direito autoral no Brasil. São Paulo: FTD,
9 CONSIDERAÇÕES FINAIS 1998.

Rematando, e como já enfatizado, mesmo não buscando o FÜHRER, M. C. A. Resumo de Direito Comercial. 19.ed. São
esgotamento do tema, ainda bastante pouco explorado na seara Paulo: Melhoramentos, 1997.
jurídica, em textos acadêmicos ou técnicos, em congressos ou
periódicos, queremos deixar minimamente alguns pontos NORTON, P. Introdução à informática. São Paulo: Makron
conclusivos: Books, 1996.
1. A estruturação de uma base de dados é fruto de uma
contribuição intelectual e, como tal, é entendida legal e STAIR, R; REYNOLDS, G. Princípios de sistemas de
doutrinariamente como objeto de proteção autoral; informação. Rio de Janeiro: LTC Editora, 2002.
2. Como Propriedade Intelectual protegida, assim como
qualquer outra, o direito sobre uma base de dados agrega os VIEIRA MANSO, E. J. O que é direito autoral. 2.ed. São Paulo:

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Brasiliense, 1992.

ZIBETTI, F. W. A tutela jurídica das bases de dados multimídia


pelo direito autoral brasileiro na atualidade. Passo Fundo:
UPS/Faculdade de Direito, 2002. (Monografia)

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de seu exemplar para futuras remessas, por meio da solicitação abaixo.

Recebemos e agradecemos: Revista Spei, v. 5, n. 1

Faltam-nos:___________________________________

Enviamos em permuta__________________________

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NORMAS PARA PUBLICAÇÃO

A Revista Spei aceita colaborações — nas modalidades artigo, ensaio 5. As referências bibliográficas serão apresentadas no final do artigo,
e resenha bibliográfica — nas áreas de ciências sociais, puras e com ordem alfabética de entradas.
aplicadas, e informática.
Os trabalhos devem ser apresentados em três vias impressas em - Livro:
folha tamanho A4 e em disquete, utilizando-se o programa Word SOBRENOME, Inicial do(s) Nome(s). Título em negrito:
for Windows (6.0 em diante), e digitados em espaço simples e fonte subtítulo (se houver). Número da edição (desnecessário se for a
tamanho 10. As cópias impressas devem vir sem identificação da primeira). Local da publicação: Editora, ano de publicação.
autoria, a qual deve vir no arquivo contido no disquete e na Ex.
correspondência de envio do material. GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 5. ed. São
Paulo: Atlas, 1999.

1. Os artigos deverão ter entre 2 mil e 7 mil palavras e deverão - Texto de Coletânea:
trazer, além de seu corpo: Título; Autor; Resumo de até 100 palavras SOBRENOME, Inicial do(s) Nome(s) do autor do artigo/capítulo.
com a síntese do tema, da problemática, das hipóteses e conclusões; Título do capítulo. In: SOBRENOME, Inicial do(s) Nome(s) do(s)
Palavras-chave (máximo 5); Abstract (resumo em inglês) e Key words; organizador(es). Título em negrito: subtítulo (se houver). Número
Identificação do autor (filiação institucional, qualificação acadêmica, da edição (desnecessário se for a primeira). Local da publicação:
endereço eletrônico – e-mail); referências bibliográficas. Editora, ano de publicação. Ex:
Em caso de necessidade, os artigos poderão trazer notas de rodapé,
as quais devem vir indicadas por algarismos arábicos e em ordem MAANEN, J. V. Processando as pessoas. In: FLEURY, M. T. L;
crescente. FISCHER, R. M. Cultura e poder nas organizações. 2. ed. São
Paulo: Atlas, 1996.
2. Os ensaios são colaborações nas quais o autor propõe uma
discussão bibliográfica, de caráter teórico ou prático, menos presa à - Artigo de periódico:
rigidez das outras formas de colaboração. Devem ter entre 2 mil e 7 SOBRENOME, Inicial do(s) Nome(s). Título do artigo. Nome
mil palavras. do periódico em negrito, local da publicação, volume, número,
páginas inicial e final, período da publicação.Ex:
3. As resenhas deverão ter entre mil e duas mil palavras e seguir as TAYLOR, C. R.; MENDES, D. Entre o ser e o ter competitivo.
seguintes normas: Revista FAE, Curitiba, v. 3, n. 3, p. 47-59, set./dez. 2000.
-Referência do livro resenhado, conforme o exemplo:
RAMOS, A. G. A nova ciência das organizações: uma - Tese acadêmica:
reconceituação da riqueza das nações. 2. ed. Rio de Janeiro: FGV, SOBRENOME, Inicial do(s) Nome(s). Título em negrito. Local,
1989. 210 p. ano. número de folhas. Tese, Dissertação, Monografia (Grau e Área)
- Título para a resenha que chame a atenção para as idéias e/ou - Unidade de Ensino, Instituição. Ex:
relevância da obra analisada. HOROCHOVSKI, R. Estratégias de legitimação no terceiro
- Nome do resenhista, seguido de asterisco, sobrescrito, que remete setor: o caso da Pastoral da Criança. Curitiba, 2000. 204 f. Dissertação
à nota de rodapé na qual devem constar: qualificação (graduação e (Mestrado em Sociologia) - Setor de Ciências Humanas, Letras e
maior titulação) e local de trabalho do resenhista. Artes, Universidade Federal do Paraná.
- Resumo da obra contemplada, sem separação em seções ou itens,
que deve contemplar os seguintes pontos: breves comentários sobre Para casos não previstos nessas normas, dever-se-á seguir as normas
a vida e a obra do autor; conteúdo, resumido, da obra, com da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) para
suas respectivas conclusões; inferências pessoais do apresentação de documentos científicos.
resenhista.
6. O autor receberá um exemplar da Revista Spei em que sua
4. As referências a autores e obras devem seguir o seguinte padrão: colaboração foi publicada, além de três cópias da referida colaboração.
(Sobrenome do Autor, ano de pu-blicação) ou (Sobrenome do
Autor, ano de publicação, página(s), ex. (Gil, 1999) e (Gil, 1999, p. 7. A Comissão Editorial da Revista Spei reserva-se o direito de fazer
54). Caso sejam citadas mais de uma obra de mesmo autor e ano, as alterações necessárias na colaboração enviada e não se obriga a
distinguir com uma letra após o ano, ex. (Weber, 1996a) e (Weber, devolver os originais. O conteúdo das colaborações é de inteira
1996b). responsabilidade de seus autores.

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