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1º.

Cenário: UMA CENA TRÁGICA


Uma terra devastada. Árvores secas, mortas. Um rio morto. Temos AUGUSTO ADULTO
desolado, ajoelhado na beira deste rio. Ele conversa com o rio.
AUGUSTO (muito triste) – Meu rio, meu velho... (pausa) o que foi que fizeram com você?...
(pausa) eu demorei tanto, não foi?... (pausa)
RIO – Você demorou tanto!
AUGUSTO – Eu não pude vir antes...
RIO – Eu sei.
AUGUSTO – ... queria tanto...
RIO – Tenho certeza!
AUGUSTO – Certeza, meu amigo?
RIO – Absoluta!
AUGUSTO – E por que tanta certeza se nem eu mesmo tinha?
RIO – Porque você me deu sua palavra de honra quando ainda era menino!
AUGUSTO (surpreso) – Quando eu era menino?...
RIO – É. Palavra de honra é coisa de menino.
AUGUSTO – Nossa! Faz tanto tempo, rio!
RIO (como que pedindo a AUGUSTO que se lembre) – Lembra Augusto, lembra?
GUTIM (sussurrando, ainda sem ser visto) – Lembra Augusto, lembra? Minha palavra de honra...
Ele vai recuando até esbarrar na “parede” do cenário. Ilumina-a com o lampião, deixa-o no chão
e o apaga.
GUTIM – Quando eu era menino... E era uma vez um menino – eu!... Era uma vez um rio – o
meu!
GUTIM – O meu rio era... era assim... era... como é que eu explico? ... era cheio de água!
GUTO ADULTO (divertindo-se com o menino) – Ai, que bobagem, Gutim, todo rio é cheio de
água!...
GUTIM – O meu tinha girinos pretinhos na espuma da margem. Tinha peixes pequenos que eu
via o cardume, nadando desorientados na beira do barranco – aqui! aqui! lambaris, piabas,
timburés, carás... Creio, aliás, creio, não, tenho certeza absoluta, que ele era igual a todo rio
do mundo. A diferença é que os outros passavam longe, sei lá onde, e o meu... o meu passava
aqui ó
Aponta para o público
GUTO CRIANÇA – Não era grande nem pequeno.
PERSONAGENS – Era médio.
GUTO CRIANÇA – Nem largo nem estreito.
PERSONAGENS – Espraiado.
GUTO CRIANÇA – Nem fundo nem raso.
PERSONAGENS – Dissimulado.
GUTO CRIANÇA – Nem limpo nem sujo.
PERSONAGENS – Turvo.
GUTO CRIANÇA – Nem veloz nem lerdo.
PERSONAGENS – Espevitado.
GUTO CRIANÇA – Nem bom nem perverso.
PERSONAGENS – Guloso.
GUTO CRIANÇA – Nem sábio nem burro.
PERSONAGENS – Sisudo.
GUTO CRIANÇA – Nem prosa nem mudo: chuá... chuá...
Nenhuma cachoeira por perto, garganta nenhuma, na margem prainha, no leito, corredeira e
marola, na curva uma ilha, um rebojo aqui, um rebojo acolá...
TODOS - Mas tinha ponte!
GUTIM (saltam do palco p/ a ponte que há na sala e andar sobre seu parapeito enquanto fala
tudo isso...) – e a ponte era tudo: mistério, perigo, travessia e sonho. A cidade branca
acabava na margem de cá e, aí, atravessando a ponte, uma cidade negra, roceira, começava
na margem de lá e lentamente subia a ladeira. O que o rio dividia a ponte ligava. De cá gente
rica, de lá gente pobre. Era assim que eu via e que eu imaginava.
Na seca, vazio, lajeado, praieiro. Nas águas, bufando, derramando pros lados.
Raios e trovões. A sala escurece. Tempestade. Barulho de chuva brava. Sempre que um raio
clareia o palco, vemos vultos de pessoas que correm desesperadas. Os atores se agitam pela
sala e talvez borrifem água no público, enquanto dizem o texto.
HUGO – Arreda, meu povo!
RODRIGO – Óia o capado rodando!... acode!
NÁBIA – Óia a carroça descendo a enxurrada!...
HUGO – Óia a água entrando no rancho!...
RODRIGO – Levanta, Zequinha!... Apruma, Corina!...
NÁBIA – Quem ombra vó Lina?
HUGO – Minha virgem Maria! Minha nossa Senhora!...
RODRIGO – Destramela a porteira, Tonico, solta a tropa na larga, solta a bezerrada!...
NÁBIA – Minha nossa Senhora! Minha santa Luzia!...
HUGO – Acode, gente, socorro!
NÁBIA – Jesus amado, tem piedade de nós!
A tempestade termina. O palco está vazio e silencioso. GUTIM fala com a platéia, iniciando um
diálogo com AUGUSTO. Eles estão “caipiramente” sentados na “beira” do rio, prosiando.
GUTIM (tendo que concordar) – É. Vira-e-mexe morria uma gente afogada. Grande. Menino.
Canoeiro. Nadador. Pescador. Garimpeiro...
Uma hora era a canoa que virava. Outra hora era desatino de estudante em piquenique de
escola. Tinha uns que morriam de congestão, porque pulavam n’água de barriga cheia.
NÁBIA – Tinha outros que caiam no caldeirão do canal e não davam conta de sair. Sumiam pra
nunca mais.
HUGO – Podiam mergulhar os melhores mergulhadores dali. Achava mais não! Só muito tempo
depois, muitas léguas abaixo, é que alguém, por acaso, encontrava um corpo mutilado
engarranchado em alguma raiz, em alguma curva do rio.
GUTIM – O certo seria falar a verdade, que o morto era um pingaiada de marca maior, que
nadava feito machado sem cabo, que sofria do coração, que era epilético, essas coisas
mortíferas sabidas por todo mundo. Mas ao invés de falar a verdade...
PERSONAGENS (na janelinha de uma casa cenografada. Aqui voltamos pro palquinho) – Esse
rio monstro... Assassino...
GUTIM (o boneco de GUTIM se levanta e grita para as pessoas) – Meu rio não é monstro. Não
é assassino!
Os dois se olham como se se lembrassem de alguma coisa!
AUGUSTO E GUTIM – Mãe!?...
A mãe de Guto entra. Ela é uma figura trágica.
MÃE – Auguuuuuuuuuusto!
GUTIM – Tô aqui, mãe.
MÃE (muito trágica) - Presta atenção, Augusto, você está ter-mi-nan-te-men-te pro-i-bi-do de
ir brincar no rio, ouviu bem?
Ele tenta argumentar...
MÃE – Ouviu bem?
Ela o manda pra casa.
3º. Cenário: UMA CENA TRAGICÔMICA
GUTIM está de castigo no quarto. Ele monta seu “rio”. Tira da “parede” o aquário, as
canequinhas com água, a varinha de pescar, os peixinhos e se entretém “ pescando”.
TIA ZERÁ – Castigão, hein, Gutinho?
GUTIM – É ... castigão... Além de não poder brincar no rio, eu estou impedido de ir lá, até
minha mãe esquecer a tragédia. Ter-mi-nan-te-men-te pro-i-bi-do – ela disse.
Com coisa que eu tenho culpa do acontecido! E com coisa que ele tem culpa. Tem culpa
nenhuma. Culpada é a chuva que choveu feito louca na cabeceira do açude.
TIA ZERÉ – E quem governa a chuva?
GUTIM – Sei lá! Um dia ainda hei de saber. Vou estudar tudinho. Vou virar professor de rio.
TIA ZERÉ entra na cena. É muito dengosa, muito charmosinha. Traz consigo sua caixinha de
música e seu “anjinho” barroco.
GUTIM (comentando saudoso) – Tia Zeré!?...
– Tia Zeré, onde fica a cabeceira do açude?
TIA ZERÉ – Ali.
GUTO CRIANÇA – Ali onde?
TIA ZERÉ – Ali em cima.
GUTO CRIANÇA – Em cima de que?
TIA ZERÉ – De nada. 30 léguas pra cima.
GUTO CRIANÇA – Pra cima de onde?
TIA ZERÉ – Pra cima daqui. Pra trás, subindo a corrente.
GUTO CRIANÇA – Me leva?
TIA ZERÉ – Tá maluco, moleque?
GUTO CRIANÇA – Não. Tô só curioso.
TIA ZERÉ – Curiosidade mata, sabia, Gutinho?
GUTO CRIANÇA – Mata nada. Se soubesse o caminho eu ia sozinho.
TIA ZERÉ – O caminho eu não sei.
Enquanto eles “conversam” GUTIM vai buscando na “parede” os objetos que ilustram este
texto. Eles NUNCA se olham.
GUTO CRIANÇA – Vamos pelo rio?
TIA ZERÉ – Pelo rio não dá.
GUTO CRIANÇA – E não dá por quê?
TIA ZERÉ – Porque tem uma curva atrás dessa curva.
GUTO CRIANÇA – a gente vai pela margem, pelo raso.
TIA ZERÉ – Tem hora que é fundo.
GUTO CRIANÇA – E depois?
TIA ZERÉ – Tem curva e mais curva... tem cachoeirinha... tem barra de córrego... tem mato
fechado... tem pedra com lodo... tem banco de areia traiçoeiro escondido debaixo d’água...
tem correnteza... tem tronco caído estorvando o caminho...
GUTO CRIANÇA – E se eu fosse a nado?
TIA ZERÉ – A nado não dá.
GUTO CRIANÇA – E de barco?
TIA ZERÉ – De barco não chega.
GUTO CRIANÇA – E se eu fosse de a pé? (suspensão) De a pé posso ir?
TIA ZERÉ – Pode não, seu bocó. Rio não foi feito pra bicho-de-pé.
GUTO CRIANÇA – Pé é meu, por que não?
TIA ZERÉ – Porque tem barranco de pedra, tem brejo e atoleiro...
GUTO CRIANÇA – CURUIS CREDO!
TIA ZERÉ – ... covoal, areião, cipoal...
GUTO CRIANÇA – CURUIS CREDO!
TIA ZERÉ – desemboque, cascalho e rochedo...
GUTO CRIANÇA – CURUIS CREDO!
TIA ZERÉ – ... tem mato, espinheiro, lameiro...
GUTO CRIANÇA – CURUIS CREDO!
MÃE – ... tem canal, caldeirão, cachoeira...
GUTO CRIANÇA – CURUIS CREDO!
TIA ZERÉ – ... e tem curva e mais curva, a gente tonteia...
GUTO CRIANÇA – CURUIS CREDO!
MÃE – ... tem chão movediço que é um chá de sumiço.
GUTO CRIANÇA – CURUIS CREDO!
TIA ZERÉ – Tem maleita, tem chagas, tem até jacaré.
GUTO CRIANÇA – Verdade, Tia Zeré?
TIA ZERÉ – Verdade, mané! Tem bicho que se arrasta no seco em qualquer caminho. E na
água do mundo, seja doce ou salgada, ele vive, ele nada. Sem guelra, sem nadadeira, sem
nada.
GUTO CRIANÇA – Tia Zeré, que doideira!
TIA ZERÉ – Pois é, meu xodó, espia só:
O palco escurece. Aqui começa uma série de projeções dos bichos do cerrado, enquanto as
personagens vão falando seus nomes.
O tempo da projeção deve acompanhar o ritmo das falas, e não o contrário.
TIA ZERÉ – cobra mansa e brabeza, coral, que beleza! Urutu, cascavel...
GUTO CRIANÇA – CURUIS CREDO!
TIA ZERÉ – ... capitão, sucuri, jararaca e cipó...
GUTO CRIANÇA – CURUIS CREDO!
TIA ZERÉ – caninana e jibóia, cobra d’água e de vidro, jararacuçu...
GUTO CRIANÇA – CURUIS CREDO! CURUIS CREDO! CURUIS CREDO!
O grito de Gutinho encerra as projeções. Luzes. Silêncio. Tempo.
VICENTIM ( Ele é o bobo da família. Se veste mal, com um cobertor parayba enrolado sobre o
corpo. É uma criatura assustadora, mas é muito doce) – Tem vivente encantado, sem pé, sem
cabeça, sem mão, sem bico, sem pena, sem focinho, sem chifre, sem rabo... una, duna, tena,
catena, saco de pena, adivinha o que é, seu Zé Prequeté?
GUTO CRIANÇA (assustado) – Adivinho não.
VICENTIM – Rá, rá, rá, seu medroso, é assombração!
GUTO CRIANÇA (assustadíssimo) – Como assim, Vicentim?
Aqui veremos as figuras que ele cita, como um teatro de sombras. Clima de terror
VICENTIM – Assim, mestiçado de gente e de bicho: ... nego d’água... lobisomem... subieiro...
mula-sem-cabeça... fantasma... curupira... ‘mboitatá...
GUTO CRIANÇA (quase sem ar) – Tô morto de medo...
VICENTIM – Mas pior é de noite, lua cheia ou lua nova, cê é muito valente, que tal um
plantão? Uma caçada de espera no meio do capão?
GUTO CRIANÇA – Cê é besta, Vicentim, quero não!
Tempo.
GUTIM – Péra lá, também não é só desgraceira! Tem muito vivente batuta que ama meu rio.
VICENTIM (se dirigindo ao menino) – Vivente, Gutim?
GUTIM – É sim! Tem bicho bem lindo, de bico, de asa e de pena, voador, nadador,
barranqueiro, dia e noite adejando meu rio.
ELE VAI TRAVENDO OS BICHINHOS DA “PAREDE”.
GUTIM – Que lerdeza! Já ia me esquecendo de citar as graciosas libélulas, mini helicópteros
translúcidos. Elas comem as larvas dos peixes dos rios.
Tem bicho de couro, de pata e focinho, com chifre e sem chifre, de rabo e sem rabo, que ama
meu rio.
ELE MONTOU TUDO ISSO PRÓXIMO A SEU “RIOZINHO”. ESTÁ TÃO ENTUSIASMADO COM
ESSA
MARAVILHA QUE ESTÁ NO PONTO DE DAR UM MERGULHO QUANDO É INTERROMPIDO PELA
MÃE.
Tempo.
MÃE – AUGUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUSTOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
GUTO CRIANÇA – Tô aqui, mãe...
MÃE – Ah...
GUTIM – Mãe?!?... mãe... é que... será que eu podia ir, só um pouquinho, no rio?
MÃE – Guuuuto...
GUTO CRIANÇA – Só um pouquinho, mãe?
MÃE – Tá bom, pode.
Ele vai mergulhar.

MÃE – Mas, ó...


Ele pára.

MÃE – ...só um pouquinho.


Ele vai mergulhar.

MÃE – Mas, ó...


Ele pára.

MÃE – ...todo cuidado é pouco.


Ele vai mergulhar.

MÃE – Mas, ó...


Ele pára.

MÃE – ... vai, meu filho.


GUTO CRIANÇA (correndo) – QUAL É O RIO MAIS LIMPO DO MUNDO? QUAL É O RIO MAIS
GOSTOSO DO MUNDO? QUAL É O RIO MAIS LINDO DO MUNDO? QUAL É O RIO MAIS TUDO
DO MUNDO? RIO, MEU RIO, MEU MAIS TUDO DO MUNDO, QUE SAUDADE DE VOCÊ!!!
Ele finalmente faz o gesto do mergulho e é invadido pela imagem da água. ele e o rio são
feitos da mesma substância...
GUTIM – Eu nadava bem demais. Graças a mim e aos lambaris que engoli vivos, vivinhos, sem
mastigar.
Assim ele permanece até que a PROFESSORA entra.
PROFESSORA (cantando) – “Zum, zum, zum lá no meio do mar
Zum, zum, zum, lá no meio do mar
Como pode um peixe vivo, viver fora d’água fria
Como pode um peixe vivo viver fora d’água fria”
Boa tarde meninada. É época do nosso concurso anual de poesia, cujo tema é “Poesias da
Primavera”. Vamos caprichar porque os prêmios deste ano estão ótimos!
O 3º lugar receberá um Atlas geográfico, o 2º, um estojo completo, com canetinhas
hidrográficas e lápis de cor e o 1º, uma ...
GUTO CRIANÇA (interrompendo) – ‘fessora, primavera tem rio no meio?
PROFESSORA – Sim, pode ter...
GUTINHO busca na “parede” seu caderninho e seu lápis. O outro ator o acompanha.
GUTO CRIANÇA (entusiasmadíssimo)– Vamos nessa, rio? Vamos ficar em 3º. Quero ganhar
esse atlas.
Eles escrevem seus poemas e “entregam” seus caderninhos pra PROFESSORA.
PROFESSORA – E o 3º colocado deste ano é: Augusto! Leia pra nós o seu poema, querido.
GUTIM (lendo, cheio de orgulho) – Presta atenção, minha gente, na história que eu vou contar.
Era uma vez um rio valente que nasceu pequeno, abriu seu caminho no peito, se encheu de
afluente e foi indo, meio sem jeito mas sempre contente, rio abaixo, deslizando...
Pelejou tanto, tanto, e morreu na praia, coitado, como por espanto!
Meu riozão, riozinho, tão grandão, tão pequenininho, mas mesmo assim cabe inteiro dentro do
meu coração!
Seu colega o aplaude. GUTIM agradece e a professora entrega-lhe o Atlas.
PROFESSORA – Seu atlas!
A PROFESSORA sai cantando. Ele pega o atlas na “parede” e sai correndo, rasgando o papel
celofane azul.
5º. Cenário O RIO
GUTIM senta-se na beirada do rio e começa a folhear as páginas novinhas e cheirosas de seu
presente. Seu PAI chega em seu fusquinha (dois faróis de lanterna da “parede”) e ouvimos sua
conversa... até que a noite cai.
GUTO CRIANÇA (ouvindo o barulhinho do carro) – Pai?!? ... Pai, hoje eu vou dormir com o
mundo inteiro lá em casa, fechado dentro das páginas sedosas do meu Atlas novinho!
PAI – Que tal se você colocar seu nome bem na 1ª página? E não se esqueça de colocar a
data, assim esse momento vai ficar registrado para sempre.
GUTO CRIANÇA – Então, pai, escreve aí, - letra boa, hein, pai: “Este Atlas pertence a Augusto
e seu rio e foi recebido como prêmio no concurso de poesias da festa da primavera da minha
escola, dia 23 de setembro de 1960, hoje. Estou na 1ª série do curso ginasial. Eu fiz 12 anos
no mês passado.”
PAI – Está muito bom assim. Agora vamos, filho, antes que fique tarde demais.
GUTO CRIANÇA – Agora vamos, pai.
No céu, estrelas vão surgindo. A perspectiva é o vidro da frente do carro (um fusca) com os
faróis dianteiros ligados. Não há viv’alma nas ruas. O palco está iluminado apenas pelas
estrelas do céu e pelo farol do carro deles.
GUTINHO e o PAI ficam calados por um tempo, apenas no movimento do carro.
GUTO CRIANÇA (repentinamente) – Pára, pára, pai!
PAI – Em cima de ponte não se pára carro, Guto, ainda mais de noite.
GUTO CRIANÇA – Pai, por favor, só hoje... eu preciso!... eu preciso!... Pai, por favor, por
favor!...
Eles fazem o movimento da freada. Entram na ponte e os faróis do “carro” fazem um contra-
luz p/ eles.
PAI – Respira fundo, filho, o ar da noite vai te fazer bem! ... Hummmmmm, que cheiro bom,
Guto, sente!
Eles respiram várias vezes. Sentindo o cheiro bom de alguma jabuticabeira florida.
PAI – Melhorou, filho?
Pausa. GUTINHO não responde que sim ou que não... olha para o carro. Pausa.
GUTO CRIANÇA – Pai, apaga o farol, quero ver uma coisa.
PAI – Quer ver o que, no escuro?
GUTO CRIANÇA – Uma coisa.
PAI – Me dá a mão, Guto.
O PAI dá a mão a GUTIM. Os faróis se apagam e as estrelas também. Escuridão absoluta.
GUTO CRIANÇA (aflito) – Pai, cadê o rio?
PAI – O rio tá lá embaixo, no mesmo lugar.
GUTO CRIANÇA – Fazendo o quê?
PAI – Deslizando.
GUTO CRIANÇA – Deslizando, como assim?
PAI – É. Descendo, no mesmo lugar de sempre. No leito.
GUTO CRIANÇA – Descendo pra onde, pai?
PAI (impaciente) – Descendo pra baixo, Guto, no mesmo rumo de sempre.
GUTO CRIANÇA – Onde é pra baixo?
PAI – Pra baixo é pra baixo. Pra cima é pra cima. Pergunta boba! Você está com medo, filho?
GUTO CRIANÇA – Tô com frio.
PAI – Escuta a cantiguinha do rio...
GUTO CRIANÇA – Eu queria ver.
PAI – Agora não dá. O céu está nublado e a lua é nova.
GUTO CRIANÇA – E o rio, como é que fica, coitado, sozinho, no escuro?
PAI - O rio se vira. Continua trabalhando, sem ser importunado...
GUTO CRIANÇA – quem importuna o rio, pai?
PAI – Uai... bicho... gente...
GUTO CRIANÇA (assustado)– Gente? Você acha, pai, que eu importuno o rio?
PAI – Não. Você, não. Você é a única pessoa no mundo que não importuna esse rio!
GUTO CRIANÇA – Ah... (pausa) Rio dorme, pai?
PAI – Dorme, não. Rio é feito sua avó, tira um cochilo, mas nunca dorme.
GUTO CRIANÇA – Eu sei a hora que vó cochila, às 6 da tarde, grudada no rádio, rezando sua
ave-maria... quando faz crochê... quando conta história pra neto dormir, sentada na cadeira
de balanço...
PAI – Sua avó é assim mesmo, enquanto descansa, carrega pedra, feito o rio.
GUTO CRIANÇA – Quem é que remeda quem, pai?
PAI – Sua avó remeda o rio e o rio remeda sua avó, tá bom assim, Gutim?
GUTO CRIANÇA – Tá ótimo!
PAI – Agora vamos, filho, que é muito tarde e amanhã você já sabe... tem missa...
GUTO CRIANÇA – Missa, Pai?
PAI – É, Guto, missa!
GUTO CRIANÇA – Hummm
Eles entram no “carro”, dão partida e acendem os faróis. Aparecem no céu algumas estrelas.
GUTO CRIANÇA (acordadíssimo)– Pai!! Tem as três Marias! O cruzeiro do sul, o planeta marte,
Vênus, não é? Eles fazem companhia pro rio e não o importunam nunca, não é?
PAI – Pois é! E tem a lua crescente, cheia, minguante, sempre por aí, além da via Láctea
inteira pra fazer companhia o resto da vida. Milhões de estrelas...
GUTO CRIANÇA – Você contou, pai?
PAI – Não, mas amanhã à noite, sem falta, a gente vai contar, tá bom?
GUTO CRIANÇA – Sem falta? Amanhã?
A luzinha do carro vai se apagando. GUTIM surge da escuridão. NÁBIA canta “ontem ao luar”...
1ª estrofe.
GUTIM (p/ platéia) – Cê contou? Nem nós. Mas mesmo assim eu achava meu pai super legal.
Ele era meu 3º melhor amigo. O 1º era o rio. Vovô era o 2º.
O palco permanece vazio e silencioso por um tempo, exceto algum eventual barulhinho de
grilo. As luzes das estrelas vão enfraquecendo, um galo canta longe...
GUTIM e o AVÔ entram com uma varinha de pescar, o vidrinho azul de leite de magnésia com
anzóis.
GUTIM – Oi, Vô!
AVÔ – Oi, Gutim!
GUTIM – Que dia é hoje?
GUTO CRIANÇA – Hoje é domingo,
AVÔ - pé de cachimbo,
GUTO CRIANÇA – toca a viola,
AVÔ - toca o sino,
GUTO CRIANÇA – o sino é de ouro,
AVÔ - bate no touro...
AVÓ – Guuuuuutooooo.
GUTO CRIANÇA – Ooooooooi.
Todos param onde estão.
AVÓ – ‘tão indo pra onde?
GUTO CRIANÇA – ‘tamos indo pescar, vó...
AVÔ – É rapidinho, Augusta.
A AVÓ vai entrando em cena
AVÓ – Primeiro a obrigação, depois a devoção.
GUTO CRIANÇA – Aaaaahhhhhh, vó,
AVÓ (entrando na cena) – Guuuuuutooooo.
GUTO CRIANÇA – Ah!, vó... A senhora já liberou o vô de ir à missa... deix’eu fazer companhia
pra ele, vó?
AVÓ – Seu avô tosse demais, atrapalha a missa. Além do mais, já tá velho, já pagou todos os
pecados, mas você não. Você é novo, tem muito que aprender. E depois, é o mais velho, um
rapazinho tão bonito, tão ajuizado! Tem que dar o exemplo aos mais novos.
GUTO CRIANÇA – Vó, mas o padre fala demais da conta, a botina aperta meu pé, e hora boa
pra pescar é cedinho, né, vô.
AVÔ – É Augusta. Hora boa pra pescar é cedinho!
GUTIM – A missa é muito tarde...
AVÓ – O domingo é grande, depois dá pra pescar até enjoar.
GUTO CRIANÇA – Sei... depois “é hora do almoço”, depois “tem que fazer o quilo”, depois “o
sol tá muito quente”, depois “já está esfriando, tem sereno”, depois... depois... eu sei muito
bem como é que é, depois. Depois só no dia de São Nunca!
AVÓ – Que desatino é esse por causa do rio, menino? sabia que foi Deus quem fez o rio, meu
filho?
GUTO CRIANÇA – Vó,
AVÓ – Põe sentido, menino, foi Deus quem fez o rio...
GUTO CRIANÇA – Vó,
AVÓ – fez a igreja, fez a religião, fez a fé.
GUTO CRIANÇA – vó, posso falar uma coisa pra senhora?
AVÓ – Não.
AVÔ – Que isso, Augusta, deixa o menino falar. Fala Gutim, fala.
GUTO CRIANÇA – Dá licença, vó, mas eu tenho que falar. Eu tenho. Ó, eu tô na escola pra
que? Pra aprender coisas. Uma das matérias que eu estudo lá na escola se chama Geografia.
Dentro do livro tem um capítulo que só trata de rio mas não diz quem foi que fez, se foi Deus,
se foi Satanás, se foi sei-lá-quem...
AVÓ – Cala a boca, menino!
GUTO CRIANÇA – ... tem outra matéria, vó, chamada História Geral, que estuda o homem
desde as primeiras tribos, as guerras, os impérios, os templos, as religiões. Também não fala
em Deus hora nenhuma.
AVÓ (ralhando com ele) – Vai caçar um brinquedo! Que prosa mais boba!...
GUTO CRIANÇA – Vó, não fica com raiva de mim, não! Domingo que vem eu vou com a
senhora à missa das 10:h, juro, mas agora escuta, vó, sabia que esse Deus nem é o mais
famoso do mundo? Tem muitos outros deuses por aí. E tem gente que nem acredita em Deus.
Acredita em outras coisas. No sol, na lua, no trovão!...
AVÓ (muito brava) – Pára de blasfemar, menino, você está me desrespeitando! Onde já se viu
gente largar de acreditar em Deus para acreditar em lua?
Gutinho sai e retorna com um livro da escola.
GUTO CRIANÇA (mostrando o livro) – Olha, vó. É índio.
AVÓ – E índio por acaso é gente?
AVÔ – Augusta, não fala assim, não. Todo mundo é irmão perante Deus, você mesma vive
falando isso.
GUTO CRIANÇA - Índio é gente, vó! Índio é gente inteligente pra caramba. Eles já moravam no
Brasil, antes dos portugueses chegarem. Viviam no meio do mato, sem sal, sem remédio, sem
papel higiênico, sem luz elétrica, sem nada.
Longa pausa. Ela olha severamente pra ele, até que executa a sentença. O coro dos
pescadores sai da beira do rio e volta a atravessar o palco pelo fundo, agora em sentido
contrário. Eles vão cruzando a cena muito atentos à discussão, até que param, horrorizados
com a insolência de GUTIM.
AVÓ – Hoje, “seu” Guto, antes de dormir, o senhor vai rezar 3 padre-nossos e 3 ave-marias,
pelo atrevimento...
GUTO CRIANÇA – Rezo, vó, mas deixa eu falar só mais uma coisa?
AVÓ – NÃÃÃÃÃÃOOOOO!
GUTO CRIANÇA – Vó, Deus não fez igreja nenhuma, missa nenhuma...
AVÓ (sem escutar o que ele está dizendo) – 4 padre-nossos e 4 ave-Marias...
GUTO CRIANÇA – Vó, pêra aí! Não fica com raiva de mim, não, eu não inventei nada disso. Tá
no meu livro... Pôxa, vó, a senhora também...
AVÔ Gutim, ... Não piora as coisas.
GUTINHO esta quase engolindo aquele sapo, até que, bem desaforado, bem insolente
pergunta...
GUTO CRIANÇA – eu tenho que falar, vô. Eu tenho. (para a avó) E menino pobre que mora na
margem de lá, que nem botina não tem pra ir na escola, me diz, quem foi que fez, hein, vovó?
AVÔ (à parte) – Esse é dos meus!
AVÓ (solene como um papa) – 5 padre-nossos e 5 ave-marias... (e sai arrasada)
GUTIM (lamentando profundamente)– 15 dias sem ir ao rio!
GUTINHO fica prostrado ali, depois de ter sofrido o golpe final. Então ele abraça o AVÔ e
chora, copiosamente.
GUTIM se ajoelha pra rezar, vai rezando, lá pelo 3º padre-nosso ele enrola a reza, está caindo
de sono. O AVÔ, que está olhando tudo, leva um travesseirinho pra ele. TIA ZERÉ entra com
uma colchinha. Eles cantam “ ouve o barulho do rio, meu filho...” e ninam o sono de GUTIM.
TIA ZERÉ e o AVÔ (baixinho) – Dá tempo ao tempo, Gutinho... dá tempo ao tempo. (saem,
cada qual por um lado)
Tempo. Surge, ao vivo, flutuando no céu , um cosmonauta.
GAGARIN (com voz metalizada, como se falasse p/ GUTINHO, em russo – tentar conseguir a
gravação original) - O ESPAÇO É NEGRO E A TERRA É AZUL!
GUTIM acorda, e vê aquela figura no céu. Eles estão sozinhos no palco. O palco é negro.
Longa pausa. O som de um rádio vai invadindo a cena. É a notícia da viagem de GAGARIN ao
espaço. Eles ficam mais um tempo ali até que o cosmonauta vai sumindo, as estrelas vão se
apagando e o rádio continua informando... GUTIM sai correndo da cama. Sai o quarto de
GUTIM
GUTO CRIANÇA (embasbacado) – Meu Deus!... (gritando) TIIIIIIIIIAAAAAAAA, corre aqui! Tem
um piloto no espaço, tia, ele disse que a Terra é azul... Escuta tia, óóóó!...
TIA ZERÉ – Um piloto? E daí? Lugar de piloto é no espaço mesmo, Gutim.
GUTO CRIANÇA – Não, tia, lugar de piloto é no céu. E este está muito mais alto, está fora da
órbita do nosso planeta... ele viu a Terra, tia, ela é azul!...
TIA ZERÉ – Fora da órbita? Maluco, hein? E ele é bonito? Diz que eu mandei um beijo!
GUTO CRIANÇA – Manhêêêê!... Paiêêê!... Vôôô!.... Cadê todo mundo? Gente, tem um piloto no
espaço! Vovôôôôô!... Vovóóóó! (sai correndo, gritando) TEM UM HOMEM NO CÉÉÉÉU!...
Eles chegam assustados.
MÃE – Auguuuuuuustoooooooooooo!
GUTIM – Tô aqui, mãe.
MÃE – Que foi, Guto? Calma, meu filho! Machucou alguém? Morreu alguém?
GUTO CRIANÇA – ... um homem... um piloto... no céu... sabe o que ele disse, mãe? ... é um
piloto russo...
AVÓ (aflita) – Nossa, esse menino vai ter um troço, olha o beiço dele, branco feito papel! Zeré,
traz água com açúcar pro Guto, ligeiro, minha filha!
AVÔ (segurando firme as mãos de Gutinho e apertando-as contra seu peito) – ô Gutim, que
afobação é essa, meu filho? Fecha os olhos, Augusto... respira fundo... assim... respira bem
fundo... calma, meu filho... respira... devagarzinho... assim... calma... (ele abraça GUTINHO
bem apertado e vai fazendo carinho na cabeça do neto, que desaba num choro) Queria tanto
que você fosse bancário, mas já vi que você nasceu cientista. Ou será que nasceu poeta?
Vamos, filho, vamos ali molhar a cara no rio, vamos... (vai tirando GUTINHO dali, e sentam-se
na beirada do rio.) Quero te contar uma coisa, mas é segredo, compadre!
GUTO CRIANÇA – Pode falar, vô.
AVÔ – Eu tinha certeza de que o homem ainda ia fazer um avião bem possante, capaz de voar
até a lua, até o planeta Marte. Se o nosso Santos Dumont fez o que fez, sozinho, imagina
quando existir escola pra todo mundo?... vai pegar fogo na caixa d’água, põe sentido no que
eu estou falando, Augusto!
GUTO CRIANÇA – Vô, cê acha que ele é um predestinado?, assim... que ele já nasceu com
essa missão?, quer dizer... você acha que a gente tem mesmo uma missão a cumprir? Por
exemplo: ... podia ter sido eu! Eu sempre fui valente, corajoso! Será que eu teria coragem?
Tripular aquela nave Soyuz! Sozinho?... boiando na imensidão do céu... um céu negro como
ele descreveu...
Vô, no meu livro de História do Brasil tava escrito que, quando o vigia divisava sinais de costa
e gritava TERRA À VISTA!, tinha festa a bordo! Mas o Gagarin, ao contrário, flutuando no
espaço sideral, isolado, não teve um ser humano pra repartir a emoção do descobrimento... já
pensou? “A TERRA É AZUL!” “A TERRA É AZUL!”... ninguém... “A TERRA É AZUL”... (pausa)
Como assim?... a terra é azul? Azul por quê, vô? Azul de quê?
AVÔ – Uai! Azul... de tanta água na superfície!... o espelho d’água!... azul esverdeado do tapete
verde da grama, dos capins, da copa das árvores, das matas, das florestas!... é azul!?!

GUTO CRIANÇA – Claro, vô! Só pode ser! Como é que ninguém pensou antes? De tanta água
que tem por cima da terra, só tem que ser azul, evidentemente! E a gente burramente
chamando de planeta Terra, vê se tem cabimento... MEU RIO!... VOCÊ NÃO SABE... A TERRA É
AZUL!... (pausa) será que o cosmonauta avistou meu rio?
AVÔ – Você é bobo demais, rapaz! É claro que ele não avistou o seu rio.
GUTO CRIANÇA – Mas então... Espera! Espera!
Ele sai da margem do rio e vai ganhando a cena. O AVÔ também sai discretamente deixando
apenas GUTIM e AUGUSTO ADULTO no canto.
GUTIM – Toda a água do mundo! Rio gordo, transbordando, derramando; rio magrinho,
esquelético e seco. Chuva. Água limpa, purinha, do céu. Rio engolindo as águas das nascentes,
veredas, brejos, grotões e a água turva dos afluentes, dos lagos... Água é o que não falta no
mundo! NOOOSSA! O mar não é o vilão da história! Não é o único “engolidor” de rios. Os rios
também, e as lagoas e os lagos, se engolem uns aos outros... a umidade do ar... o vento... a
nuvem benfazeja que se derrete em chuva!... o lençol misterioso no fundo do poço... Tudo é
parte do milagre da vida e a vida é água! ATERRAÉAZUL!... (compreendendo TUDO) é tudo tão
simples.
Ele olha para o avô, para GUTO ADULTO, para o rio e para a platéia.
GUTO CRIANÇA - BYE, BYE, INFÂNCIA, NUNCA MAIS EU VOLTO!
GUTIM se dirige mais uma vez à “parede”, pega uma lanterna, senta-se de costas para o
público e começa a procurar as pessoas (objetos inanimados delas). GUTINHO passa por
todos. PROFESSORA, VICENTE, AVÔ, PAI, MÃE, AVÓ, AVÔ e TIA ZERÉ. Com cada um, um
momentinho especial.
GUTIM (ilumina a cabeça dela) – Professora!!?...
PROFESSORA - ... nunca deixe de ler jornais, viu? E nunca deixe de escrever poesias!...
GUTO CRIANÇA (muito encabulado) – ... foi a senhora que me ensinou a fazer análise sintática
... e a conjugar verbos... e a gostar de ler... e ...
PROFESSORA e GUTO CRIANÇA (juntos) - ... a escrever com a alma!
GUTIM – Vicentim?!?...
VICENTIM – Vai pela sombra. Moleque...
GUTIM – Pai!?...
PAI (ilumina o carrinho) – Vê se estuda, hein?
GUTIM – Pode deixar, pai.
MÃE – Auguuuuuuustooooooo.
GUTIM – Tô aqui, mãe...
MÃE – A saudade é uma ponte entre o passado e o presente. Por baixo corre um rio de
lágrimas, tem pranto de tanta gente. Na correnteza do amor, eu carrego a minha dor,
sofrendo eternamente... Vai meu filho, vai!
GUTIM – Tô indo, mãe...
AVÓ – Gutim... ô Gutim
GUTIM – Vó!?... Bença, vó
AVÓ – É Deus que abençoa. E vê se sossega essa cachola, menino.
GUTIM – Tá bom, vó.
AVÔ – Psiu... psiu... Gutim... Gutim...
GUTIM – Vô!?...
AVÔ – Queria tanto que você fosse bancário, mas...
GUTIM – Pesca por mim, tá vô...
AVÔ – Pó’ deixar.
TIA ZERÉ – MÚSICA CONSUELO DE PAULA... “vai embora, segue em frente, deixa o
dissabor. Se essa hora, mata a gente, cresce um sonhador... segue o rio que deságüa a
dor... deixa a vida te levar...?
Enquanto TIA ZERÉ canta, GUTIM vai deixando seu relicário e vai indo de encontro ao RIO.
GUTIM – Rio, toma conta da nossa ponte. Se algum dia ela ficar engasgada, canta pra ela a
canção das águas, a canção do rio que eu gosto tanto! Se for preciso, diz pra ela que eu já to
voltando. BYE, BYE, MEU RIO, JÁ, JÁ EU VOLTO! Te dou minha palavra de honra: Já já eu
volto!
GUTIM (tendo enfim se lembrado de quando deu sua “palavra de honra”. Tempo) – ... Minha
palavra de honra... meu rio, meu velho... calma... presta atenção... nas minhas andanças
poraí eu aprendi... NOOSSSSA, eu aprendi tanta coisa!... por exemplo, que os outros rios do
mundo, meu rio, são muito diferentes de você. Completamente diferentes. Só encontrei um rio
igual ... igual a você: o SENA. Tinha Paris na margem direita e Paris na margem esquerda. E
tinha uma ilha no meio. Que nem aqui, ó. Tal e qual, com um pequeno porém, insignificante. É
que Paris, sendo muito mais velha, tinha mesmo que ser um cadinho maior. (vai acendendo
rios pelo palco) Tem rios que dividem cidades, estados, países, povos, raças, religiões,
ideologias, usos e costumes...
Tem rios mansos. Encachoeirados. Ferozes. Assassinos. Mornos. Quentes. Gelados. Congelados.
Enquanto fala, as imagens vão sendo projetadas. Todos os personagens vão refazendo a
formação da 1ª. cena com AUGUSTO ADULTO no centro. Lentamente.
AUGUSTO - Tem rios malucos que evaporam na seca e, depois, nas águas, esquecem o caminho
e passam por outro leito, largando seus peixes atolados no barro, na terra dura, fossilizados para
sempre.

E tem rios encantados que desaparecem no sopé de montanhas roncadoras, passam por galerias
subterrâneas incrivelmente espetaculares, misteriosas, acolchoadas de estalactites e
estalagmites, e vão sair lá adiante, inesperadamente, como num passe de mágica.
Tem rios de todas as cores. Rios verdes, vermelhos, azuis, amarelos, brancos, turvos, pardos,
negros, cor de ouro, de prata.

Tem rios piscosos. Madeireiros. Auríferos. Argentíferos. Diamantíferos. Limosos. Boiadeiros. E


alguns tão extensos, capazes de atravessar um pedação de um país, de um continente.
Tem rios com nomes indígenas. Rios com nomes de santos. De bichos. De aves. De pessoas. De
plantas. De coisas.
Tem RIO DAS VELHAS, RIO DAS NOVAS não tem. Até RIO DAS ALMAS e RIO DAS MORTES tem.
Só não encontrei em parte nenhuma um RIO DA VIDA. Seria você, meu rio? Com certeza!
SENTA-SE DIANTE DO ABAJUR E CONTROLA A INTENSIDADE DA “VIDA” DO “RIO”. Eu aprendi a
dividir os rios em três grupos: vivos, mortos e mortos-vivos. Em país milionário, todo rio é VIVO.
Em país proletário, todo rio é MORTO. Em país como o nosso, nem cheirando a rico nem fedendo
a pobre, todo rio é um MORTO-VIVO. Só que, se ninguém ligar, vai acabar morrendo de vez.
AUGUSTO ADULTO está na mesma posição da 1ª. cena, ajoelhado próximo ao RIO.
AUGUSTO – Meu rio, meu velho... o que foi que fizeram com você... eu demorei tanto, não foi?

BLACKOUT
GUTIM APAGA O ABAJRU ACESO NA CENA COM O AVÔ. TALVEZ A GENTE TRAGA DE VOLTA O
LAMPIÃO...

FIM!