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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

FACULDADE DE EDUCAÇÃO

EDISON RIUITIRO OYAMA

LENIN, EDUCAÇÃO E REVOLUÇÃO NA CONSTRUÇÃO DA

REPÚBLICA DOS SOVIETES

NITERÓI

2010

2

EDISON RIUITIRO OYAMA

LENIN, EDUCAÇÃO E REVOLUÇÃO NA CONSTRUÇÃO DA REPÚBLICA DOS SOVIETES

Tese apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obtenção do grau de Doutor em Educação.

Orientador: Prof. Dr. JOSÉ DOS SANTOS RODRIGUES

Niterói

2010

3

SUMÁRIO

Página

DEDICATÓRIA

1

AGRADECIMENTOS

2

RESUMO

3

INTRODUÇÃO: PROBLEMATIZAÇÃO E ASPECTOS METODOLÓGICOS

5

Problematização: considerações preliminares

5

Revisão da bibliografia

11

Questão de pesquisa e hipótese de trabalho

20

Objetivos e justificativas

21

Aspectos metodológicos

22

Caracterização da pesquisa, fontes e limitações

22

Critérios de organização e análise das fontes de informação

23

1 OUTUBRO DE 1917: ELEMENTOS HISTÓRICOS, POLÍTICOS E SOCIOLÓGICOS

26

1.1 Elementos históricos

26

1.1.1 Apontamentos sobre a história da revolução russa

26

1.1.2 A consolidação da revolução

33

1.1.3 O comunismo de guerra

40

1.1.4 A Nova Política Econômica e a adoção do modelo de Partido Único

44

1.2 Elementos políticos

47

1.2.1 O papel e a importância de Lenin para a Revolução Bolchevique de Outubro de 1917

47

1.2.2 O pensamento político de Lenin

52

1.2.3 Socialismo, comunismo, ditadura do proletariado, revolução em Lenin

55

1.2.4 A classe trabalhadora

59

4

1.3

Elementos sociológicos

61

1.3.1 A Rússia imperial

61

1.3.2 Questões referentes à burguesia

64

1.3.3 Sobre a educação czarista/burguesa

67

2 LENIN E A EDUCAÇÃO ANTES DE OUTUBRO DE 1917

70

2.1 Lenin e a educação: aspectos biográficos

70

2.2 Elementos subjacentes à investigação do tema Lenin e a educação:

 

política, luta de classes, revolução

73

2.3 Lenin e a educação antes de Outubro de 1917

77

 

2.3.1 As disputas com os populistas

78

2.3.2 A educação política do proletariado e as críticas à educação czarista

80

2.3.3 Educação revolucionária antes da revolução?

90

3 LENIN E A EDUCAÇÃO APÓS OUTUBRO DE 1917

93

3.1 A luta contra o analfabetismo

94

3.2 O programa do Partido de 1919 para a educação

99

3.3 “Confirmação” da hipótese de trabalho

101

3.4 A dimensão política da educação leninista

102

 

3.4.1 Acabar com o poder da burguesia

102

3.4.2 Implantar as bases para construção da sociedade

 

socialista

/ comunista

106

3.5 A dimensão econômica da educação leninista

108

 

3.5.1

A politecnia: tarefas imediatas e mediatas

108

4 LENIN E A EDUCAÇÃO NA CONSTRUÇÃO DA REPÚBLICA DOS SOVIETES E DA SOCIEDADE SOCIALISTA

115

4.1 Outubro de 1917: breve balanço

115

4.2 O problema da construção da sociedade socialista

119

4.3 Lenin e a educação: “conclusões” pontuais

127

 

4.3.1 “Interlocução” com a revisão da bibliografia

127

4.3.2 Para além da hipótese de trabalho

128

4.3.3 Educação e política em Lenin

130

4.3.4 A politecnia

 

132

4.3.5 Contrarrevolução burocrática, carência, escassez e educação

133

5

CONSIDERAÇÕES FINAIS

138

REFERÊNCIAS

143

ANEXO I

153

ANEXO II

156

6

Aos

da

classe

trabalhadora

que

lutaram

pela

construção da República dos Sovietes.

7

AGRADECIMENTOS

Ao José dos Santos Rodrigues, pela competência, rigor, seriedade e amizade. Aos Membros das Bancas de Qualificação e Defesa:

Dermeval Saviani, Eunice Trein, Kátia Lima, Roberto Leher, Ronaldo Rosas Reis e Virgínia Fontes. A todos do Campo Trabalho e Educação e do Programa de Pós Graduação da FEUFF. Às Funcionárias da Secretaria de Pós-Graduação da

FEUFF.

Aos Colegas do Centro de Educação da UFRR.

A todos os Profissionais e Amigos da Creche UFF e do

Colégio Universitário Geraldo Reis. Ao grupo de difusão da cultura afro-brasileira Gingas, o

qual desenvolve um belo trabalho educativo junto à comunidade do Bairro São Domingos, em Niterói.

A todos do Intervenção Comunista.

Aos meus familiares.

À Maria Helena, Liamar e André Luiz.

Com muito carinho e gratidão, a todos que, direta ou indiretamente, contribuíram para a realização deste trabalho.

8

RESUMO OYAMA, Edison Riuitiro. Lenin, educação e revolução na construção da República dos Sovietes. Orientador: José dos Santos Rodrigues. Niterói-RJ/UFF, 26/01/2010. Tese (Doutorado em Educação), 165 páginas. Campo de Confluência:

Trabalho e educação; Linha de Pesquisa: O mundo do trabalho e a formação humana. Nosso propósito com a presente tese foi investigar o tema educação escolar

e revolução social num contexto histórico determinado, qual seja, o período

imediatamente posterior à eclosão da Revolução Russa de Outubro de 1917, examinando quais eram os objetivos e as ações de Vladimir Ilich Ulianov (Lenin) no

campo da educação. Para tanto, empreendemos uma pesquisa de natureza bibliográfica, sendo que as fontes empíricas compulsadas foram os textos e obras de Lenin referentes à educação. Além destas, também recorremos a informações pertinentes à história da revolução russa, ao período do “comunismo de guerra” e da Nova Política Econômica, bem como a biografias e estudos de especialistas em Lenin. Por sua vez, o conteúdo do trabalho trata: dos aspectos natureza histórica, política e sociológica relacionados ao Outubro de 1917 e da análise propriamente dita do tema Lenin e a educação – antes e depois de 1917. Mas, se em seu delineamento inicial, o estudo se restringia aos anos de 1917-1924, com o desenvolvimento da pesquisa percebemos que excluir uma análise referente ao período anterior a 1917 comprometeria o entendimento mais abrangente do que significou a educação para Lenin. Desse modo, no período anterior à insurreição de 1917, investigamos a questão da educação política das massas e as disputas com

os “populistas” russos. Após o Outubro de 1917, pesquisamos sobre os esforços da

República dos Sovietes na erradicação do analfabetismo; o Programa do Partido Comunista Russo de 1919 para a educação e a politecnia. Ao final, deduzimos que:

a educação assumiu grande importância e papel de destaque no que se refere à educação política das massas e na preparação da revolução bolchevique; no processo de consolidação da revolução; de (re) construção econômica e implantação das bases para construção da futura sociedade comunista. Concluímos também que: a educação e a educação escolar participam necessariamente da luta

de classes em vários níveis e dimensões da realidade; a derrubada do poder político

na Rússia foi uma premissa para as transformações revolucionárias ocorridas

posteriormente no campo da educação soviética; educação e política são

9

indissociáveis. Finalmente, declaramos que todos que se proponham a pensar em assuntos como a revolução social ou o problema da construção do socialismo, não podem deixar de investigar, refletir, prever e planejar o papel e a importância que a educação e a educação escolar têm a desempenhar nesses processos históricos.

Palavras-chave: Lenin e a educação; revolução russa e educação; educação e revolução

10

INTRODUÇÃO: PROBLEMATIZAÇÃO E ASPECTOS METODOLÓGICOS Problematização: considerações preliminares Um tema importante e que é discutido de forma recorrente no campo educacional se refere às relações que se estabelecem entre a mudança/transformação social e a escola. Em outras palavras, é muito comum haver dúvidas, reflexões, afirmações categóricas, relativas à questão de que a educação escolar é ou poderia ser um instrumento tanto de mudança quanto de transformação social. Mas, independentemente das concepções sobre o que se entende por mudar ou transformar, para nós o essencial é saber até onde se pretende chegar com ambas. Ou seja, a mudança e a transformação se restringem aos limites da ordem burguesa ou se referem à superação do modo de produção capitalista? Assim, nosso objetivo foi tratar do tema revolução social e educação escolar e o que nos moveu, fundamentalmente, foi a reflexão a respeito da eclosão da revolução socialista como um fato concreto e quais relações o processo revolucionário estabelece com a educação escolarizada. Sobre a revolução social, recorremos ao Manifesto do Partido Comunista 1 (MARX; ENGELS, 2007b), enfatizando dois elementos essenciais da parte II desta obra (item Proletários e comunistas): a abolição tanto do poder econômico da burguesia (mediante a extinção da propriedade privada dos meios de produção e consequentemente da apropriação privada da riqueza produzida social e coletivamente) 2 , quanto do seu poder político, por intermédio da derrubada do Estado burguês. No tocante à educação escolar, o princípio geral que a fundamenta é a concepção segundo a qual a produção material da existência do ser humano condiciona todas as outras esferas da realidade. Com base nessa premissa, entendemos que a humanidade instaura modos distintos de sociabilidade que

em instituições determinadas (família, condições de

trabalho, relações políticas, instituições religiosas, tipos de educação, formas de

tendem a ser fixados “[

]

arte, [

])”

(CHAUÍ, 2001, p.23).

1 Segundo Coggiola (2007, p.9), a primeira edição do Manifesto ocorreu em fins de fevereiro / início de março de 1848, em Londres. Para este trabalho, nós consultamos a edição de março de 1998 da Boitempo Editorial, atualmente em sua 5ª reimpressão.

os comunistas podem resumir sua teoria

2 Marx e Engels (2007a, p.52) escreveram no Manifesto: “[ numa única expressão: supressão da propriedade privada.”

]

11

Todavia, enquanto a educação se refere a um processo social de maior

produzir, direta e intencionalmente, em cada

indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo

conjunto dos homens [

pelo qual uma instituição em particular assumiu a forma principal e dominante do processo educativo (Idem, ibidem, p. 7-8). E à medida que se sucedem formas de organização social, a cada uma delas correspondem tipos de educação, educação escolar e teoria educativa. No caso do modo de produção capitalista, existiram modelos de educação consentâneos às formas pré-capitalistas, ao artesanato, às manufaturas, aos monopólios etc. (BOWLES; GINTIS, 1985). Isto é, existe uma correspondência estrutural entre o sistema produtivo e o sistema educacional, o que não quer dizer necessariamente que a relação entre ambos seja mecânica, unidirecional e linear, mas mediada. A nosso ver a educação escolar apresenta a tendência a reproduzir as relações dominantes, sob o ponto de vista econômico e político, de acordo com o raciocínio segundo o qual

(Saviani, 2003b, p.13), a escola consubstancia o modo

amplitude, cujo objetivo é o de “[

]

]”

As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios da produção material dispõe também dos meios da produção espiritual, de modo que a ela estão submetidos aproximadamente ao mesmo tempo os pensamentos daqueles aos quais faltam os meios da produção espiritual. (MARX; ENGELS, 2007a 3 , p.47, grifos dos autores).

Desse modo, uma das formas pelas quais se mantém o poder político e econômico é por meio da educação, dado seu caráter de mútua influência e relação com os processos econômicos e políticos e sua vinculação com a luta de classes. Em acréscimo às análises de Marx, Engels e Lenin, outros também já haviam constatado: a educação na sociedade burguesa é uma educação burguesa. Em outras palavras, “Enquanto existir uma sociedade de classes, a escola

inevitavelmente será uma escola de classes [

Por conseguinte, é preciso reconhecer que o modo de produção capitalista impõe determinações de natureza econômica e política à escola. Nesse sentido, é

].”

(SNYDERS, s.d., p.32).

3 Considerada uma obra inacabada, A ideologia alemã foi escrita durante os anos de 1845-1846 e submetida para publicação. Contudo, diante da recusa para publicação do manuscrito, o texto foi deixado de lado, sendo publicadas partes do texto original apenas na década de 20-30 do século XX, por David Riazanov (ENDERLE, 2007).

12

forçoso admitir que, mesmo consideradas outras mediações, a escola se torna um

instrumento de classe, na medida em que os “[

processos sociais mais abrangentes de reprodução estão intimamente ligados.(MÉSZÁROS, 2005, p.25). Contudo, a submissão da educação escolar aos imperativos do capital seria absoluta, ou ela poderia encerrar elementos revolucionários? Para Ponce (2001,

p.162-163), a educação e a revolução andam juntas, na medida em que a primeira

“[

outra classe revolucionária consegue desalojá-las do poder e impor à sociedade a sua própria educação”. Em outros termos, significa que à medida que se alteram os

domínios de classe, modifica-se também o sistema educacional, pois quando uma nova classe dominante ascende ao poder, ascende um novo tipo de educação. Ademais, “Nenhuma reforma pedagógica fundamental pode impor-se antes do

triunfo da classe revolucionária que a reclama [ autor).

com

transformação (ou revolução) social persiste, conforme depreendemos do que escreveu Manacorda (2006, p.304):

]

processos educacionais e os

]

tem sempre estado a serviço das classes dominantes, até o momento em que

]”

(Idem, Ibidem, p.169, grifos do

entre

a

instrução 4 e a

Mas

a

dificuldade

em

lidar

a

relação

O problema estava no ar: qual das duas coisas é mais importante? Qual o

Marx, falando no

Conselho Geral da I Internacional, onde este problema já surgira, reconhecia a particular dificuldade em abordá-lo:

“Exige-se, de um lado, uma mudança das condições sociais para criar um sistema de instrução adequado e, do outro lado, um adequado sistema de instrução para poder mudar as condições sociais”.

primeiro a ser resolvido? Exatamente em 1869, [

]

De maneira diversa, a revolução social e a educação seriam elementos conjugados e imbricados, em que ambos fazem parte de um único e mesmo processo? Foi o que sugeriu Marx, em sua III Tese sobre Feuerbach 5 :

A doutrina materialista que pretende que os homens sejam produtos das circunstâncias e da educação, e que, consequentemente, homens transformados sejam produtos de outras circunstâncias e de uma educação modificada, esquece que são precisamente os homens que transformam as circunstâncias e que o próprio educador precisa ser educado. É por isso que ela tende inevitavelmente a dividir a sociedade em duas partes, uma das quais está acima da sociedade. A coincidência da mudança das circunstâncias e da atividade humana ou automudança só

4 Supomos que o termo instrução pode ser tomado como sinônimo de educação escolar.

5

Nesta edição de A Ideologia Alemã, As Teses sobre Feuerbach foram publicadas como Anexo.

13

pode ser considerada e compreendida racionalmente como práxis revolucionária. (MARX; ENGELS, 1989, p.94, grifo dos autores). 6

Outro ponto polêmico sobre o assunto relaciona-se com a existência de concepções distintas a respeito da participação e da importância da instituição escolar quando da ocorrência de um processo revolucionário. Dito de outra forma, existem aqueles que atestam que a escola, por si só, não é capaz de assumir um papel revolucionário, sendo que tudo o que se faça no seu interior nesse sentido seria reformismo. Desse modo, o papel da educação escolar seria basicamente instrumental, cabendo a um partido revolucionário a tarefa de fazer a revolução, para quem a escola apenas forneceria militantes (CARVALHO, F. M. de 2005b; CERVETTO, s.d.; INTERVENÇÃO COMUNISTA, s.d.). Por outro lado, há aqueles que julgam que a escola desempenha um papel de destaque na construção do socialismo e da revolução. Por exemplo, muitas experiências autoproclamadas revolucionárias no campo da educação, algumas delas associadas a movimentos sociais, ONGs, populações e comunidades que se diferenciam em termos étnicos, sociais, políticos etc. 7 Contudo, mesmo concordando que tais movimentos desenvolvam uma atividade pedagógica coerente com a constituição de uma sociedade socialista, é patente que no seu conjunto, tais propostas não lograram obter força política suficiente para transformar radicalmente o modo de produção capitalista e tampouco conseguiram se generalizar ou multiplicar suas experiências. Em outros termos, o capitalismo se mantém, a despeito muitas vezes da seriedade, do denodo e da dedicação das pessoas envolvidas com tais movimentos, os quais, em última instância, não fizeram a revolução e portanto, não concretizaram seu objetivo de constituição do socialismo. Mesmo considerando a complexidade e a abrangência relativas ao tema educação escolar e revolução e as múltiplas possibilidades de abordá-lo, optamos inicialmente 8 por empreender uma análise tanto da denominada concepção histórico-crítica da educação (SAVIANI 2003a; 2003b), quanto das chamadas teorias

6 Na transcrição do texto nós suprimos as notas da Editora.

A título de exemplo, em nível de Brasil, referimo-nos ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. No exterior, aos movimentos sociais localizados nas regiões de Chiapas e Oaxaca, no México.

Referimo-nos ao projeto de tese apresentado em nosso Exame de Qualificação, em agosto de 2008.

8

7

14

crítico-reprodutivistas 9 (ALTHUSSER, 1980; 1999; BAUDELOT; ESTABLET, 1980; BOURDIEU; PASSERON, 1982; BOWLES; GINTIS, 1985). Desse modo, com relação à concepção histórico-crítica da educação, averiguamos a proposta de Saviani (2003a, p.65-66; p.76), no que se refere à implantação de uma suposta pedagogia revolucionária. Quanto às teorias da reprodução, investigamos uma das possíveis limitações dessas teorias, qual seja, a exclusão de uma análise sobre a produção, de maneira que as teorias crítico- reprodutivistas tendem a superestimar o papel da escola na reprodução das

relações sociais, dirigindo toda a carga do problema para a instituição escolar e para

a ideologia, desconsiderando o nível da produção (CUNHA, 1979, p.99-100;

LEFEVBRE, 1977, p.230-236; PETIT, 1982, p.48-50; SNYDERS, s.d., p.86). Dessa forma, considerando-se o político e o econômico como esferas preponderantes do modo de produção capitalista, dois elementos se sobressaíram de forma conjunta em relação à educação escolar – a necessidade de um estudo sobre economia política e as perspectivas para a ação política -, pois de acordo com Ianni (1988, p.7):

Ao analisar o capitalismo, Marx apanha os fenômenos como fenômenos sociais totais, nos quais [se] sobressaem o econômico e o político, como duas manifestações combinadas e mais importantes das relações entre pessoas, grupos e classes sociais. Por isso é que a sua análise apanha sempre as estruturas de apropriação econômica e dominação política [

Assim, com base nas limitações identificadas tanto na concepção histórico- crítica da educação quanto nas teorias da reprodução, na ocasião, o problema a ser investigado foi formulado nos seguintes termos: quais são as perspectivas revolucionárias ligadas à educação escolar, considerando-se um estudo conjugado sobre economia política da educação e uma teoria da revolução? Porém, esta abordagem inicial do tema apresentou uma série de dificuldades de natureza epistemológica. Isto é, quais são os limites e as possibilidades impostos à teoria, em relação à apreensão, compreensão, explicação

e transformação do real? Portanto, o delineamento inicial da investigação

apresentava grande limitação quanto às suas possibilidades explicativas para a questão de pesquisa proposta.

9 Assim como Manacorda (2006, p.313), também achamos que as etiquetas repugnam, mas pela necessidade de tornar a comunicação mais ágil, por vezes se torna difícil não empregá-las. Desse modo, a expressão crítico-reprodutivista foi tomada de Saviani (2003a; 2003b), o qual se refere genericamente aos estudos vinculados à teoria dos aparelhos ideológicos de Estado, à teoria da escola dualista e à teoria do sistema de ensino como violência simbólica (SAVIANI, 2003a, p.15).

15

Outro percalço identificado foi que, pela própria natureza do processo revolucionário, o problema a ser investigado não poderia limitar-se exclusivamente à instituição escola, na medida em que a revolução ultrapassa e extrapola o nível das relações escolares. Dessa forma, seria preciso identificar as articulações, as mediações e as múltiplas determinações existentes entre a dinâmica da história, a luta de classes, a emergência e atuação de agentes e organizações políticas (partidos, líderes, dirigentes) e a escola. Por conseguinte, concluímos que o problema fora colocado de modo ainda genérico, evidenciando a impossibilidade de lidar com ele. Logo, uma possível solução seria abordar o assunto articulando-o a um processo histórico determinado. Desse modo, num desdobramento das questões colocadas acima e em função das limitações relativas à questão de pesquisa formulada inicialmente, optamos por investigar o tema educação e revolução social num contexto histórico determinado – o período posterior à eclosão da Revolução de Outubro de 1917, na recém criada República Soviética 10 . Especificamente, investigar quais eram os objetivos de Vladimir Ilich Ulianov - Lenin - para a educação no período de outubro de 1917 11 a janeiro de 1924 12 . Para tanto, nosso trabalho foi organizado da seguinte forma: na Introdução expusemos o percurso trilhado até a elaboração final de nossa questão de pesquisa; empreendemos a revisão da bibliografia pertinente ao tema Lenin e a educação; apresentamos nossa questão de pesquisa, os objetivos e as justificativas. Ainda na Introdução mencionamos os aspectos metodológicos relativos à execução da pesquisa. No capítulo 1, tratamos dos elementos históricos, políticos e sociológicos, com o intuito de expor os aspectos necessários à contextualização e melhor compreensão do assunto Lenin e a educação. Nos capítulos 2 e 3 desenvolvemos a investigação do objeto de nossa tese, no que se refere à análise do tema Lenin e a

10 De acordo com Carr (1981, p.43 et seq), a promulgação da Constituição da República Soviética Federal Socialista Russa (RSFSR) ocorreu em julho de 1918. Ao longo dos anos, foram incorporados à RSFSR Azerbaijão e Ucrânia (1920), Bielo-Rússia, Armênia e Geórgia (1921). Em dezembro de 1922, os congressos das quatro repúblicas da RSFSR, da Ucrânia, Bielo-Rússia e Transcaucásia reuniram-se separadamente e aprovaram a criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). 11 Na época, vigorava na Rússia o calendário juliano, com uma defasagem de treze dias em relação ao calendário gregoriano, vigente nos países de capitalismo avançado, em suas áreas de influência e respectivas colônias. Portanto, a insurreição bolchevique ocorreu em 25 de outubro de 1917, pelo calendário juliano e a 07 de novembro, pelo calendário gregoriano. A República Soviética ajustou-se ao calendário gregoriano a partir de 1º de fevereiro de 1918 (REIS FILHO, 2003, p.58).

12 Lenin faleceu em janeiro de 1924 e o seu último texto de que se tem notícia foi Melhor menos, mas melhor, publicado em março de 1923.

16

educação: antes de Outubro de 1917 e após Outubro de 1917, respectivamente. No capítulo 4 apresentamos a discussão dos assuntos, seguida das Considerações finais, na forma de uma reflexão sobre as implicações e consequências do que foi tratado nos capítulos anteriores, com destaque para o papel e a importância que a educação assumiu para Lenin.

Revisão da bibliografia Na revisão da bibliografia pertinente ao tema Lenin e a educação, inicialmente, nossa investigação teve como base dois documentos: a dissertação intitulada Origem e desenvolvimento da educação na Rússia leninista (1917-1924):

reconstituição de seus traços centrais, de autoria de Elisa Mainardi (MAINARDI, 2001) e a tese intitulada Lenin e a educação política: domesticação impossível, resgate necessário, cujo autor é Francisco Mauri de Carvalho (CARVALHO, F. M. de 2005a). Por conseguinte, constatamos que a produção bibliográfica em nível nacional, na forma de teses e dissertações é deveras escassa, pois até o segundo semestre de 2008 foram localizados apenas esses dois trabalhos 13 . O curioso é que, quando se compara a produção bibliográfica que trata do tema educação/pedagogia associada a nomes como Marx, Gramsci e até Makarenko e Pistrak, em termos quantitativos, esta é bastante superior à produção bibliográfica referente ao tema Lenin e a educação. A título de exemplo analisemos a situação em relação a Marx. Em seu competente trabalho de investigação sobre a existência de um pensamento pedagógico em Marx e Engels, no contexto em que tal pensamento foi gestado e anunciado, Nogueira (1993), em algumas de suas considerações finais concluiu que o tema da educação e do ensino não é central na obra de Marx e Engels, cujo tratamento, quando comparado ao de O Capital, está longe de ser minucioso e sistemático. Mas a autora ponderou que é incontestável que a educação e o ensino encontram-se presentes no conjunto da obra desses autores, se bem que apresentando certas descontinuidades, ambiguidades e limitações, tais como a ausência de análise: a) em relação à aplicabilidade das propostas

13 Nessa pesquisa inicial baseamo-nos nas seguintes fontes de informação: Banco de teses e dissertações do portal Capes; Education Resources Information Center (ERIC); Banco de dados bibliográficos de Universidades Públicas Estaduais e Federais do eixo Rio-São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina; Banco de dados bibliográficos da Biblioteca Nacional.

17

pedagógicas apresentadas; e b) quanto ao desenvolvimento e aprofundamento em relação aos conteúdos do ensino (Idem, ibidem, p.206 et seq). Nosso objetivo com esta breve digressão não foi opor Marx e Engels de um lado e Lenin de outro, mas apenas refletir: se consideramos o envolvimento, a produção e principalmente a ação dos primeiros no campo da educação e do ensino 14 , em princípio, talvez se justificasse a existência de uma produção bibliográfica maior em favor de Lenin do que de Marx e Engels, mas o que aconteceu no Brasil foi exatamente o contrário. Nesse sentido, perguntamos: qual seria o motivo de tal fato? Seria banal ressaltar o valor e a importância de Marx e Engels em suas críticas ao sistema capitalista; no seu papel de destaque na organização do movimento trabalhista e revolucionário do século XIX; na sua influência e inspiração em revolucionários do mundo todo. Apenas por isso, a proeminência de Marx e Engels já estaria justificada. Contudo, o vulto de Lenin não é menor. Desse modo, a resposta à questão acima talvez se relacione com uma possível “herança maldita” creditada a Lenin, se levarmos em conta uma série de elementos: seu papel fundamental na organização do Partido Comunista da Rússia 15 (PCR) e do governo soviético, que posteriormente serviram de sustentação para a ditadura stalinista instaurada após a morte de Lenin; o modelo organizacional e operacional do PCR, que serviu de exemplo para muitos partidos comunistas criados após a eclosão da revolução de outubro; a crença segundo a qual Lenin seria o responsável pela conspiração de Outubro de 1917, a qual teria dado origem a uma ditadura cruel e violenta que se estenderia por décadas etc. Bensaid (2000a) citou três ideias bastante aceitas, empregadas na tentativa de se enterrar a revolução de outubro e às quais Lenin pode estar associado: 1) o Outubro de 1917 não teria sido uma revolução na acepção plena da palavra, mas um complô praticado por uma minoria, de cima para baixo, com uma concepção autoritária de organização social em benefício de uma nova elite; 2) essa seria uma deformação de gênese, que teria impregnado e determinado todo o desenvolvimento

14 De acordo com Nogueira (1993, p.13), o livro Textos sobre educação e ensino (MARX; ENGELS, 2004) foi organizado e comentado por Roger Dangeville e publicado originalmente em francês, pela Maspéro em 1976. O livro também foi publicado em português pela Editora Centauro. Trata-se de uma antologia dos textos de Marx e Engels sobre a educação e ensino. Porém, a antologia compõe- se de textos em que na maioria das vezes a relação com o tema da educação e o do ensino é apenas marginal.

15

Partido Comunista da Rússia (bolchevique), ou PCR (b): consultar a nota 53.

18

ulterior da revolução russa, de modo que a história se reduziria às consequências dessa conspiração original; 3) a revolução russa foi um ato prematuro, uma tentativa de forçar o curso da história, quando as condições objetivas do capitalismo ainda não estavam dadas para sua superação. A propósito, Salem (2008, p.22), mencionou o pensamento segundo o qual Lenin encarnaria uma história da qual só se poderia sentir vergonha. Bensaid (2000b, p.177), por sua vez, afirmou que após a onda de “antimarxismo” ocorrida

nos anos de 1980 até houve um retorno a Marx e a Trotski, mas “[

Lenin! Seu

papel é sem dúvida o mais ingrato. O do vilão da história, morto cedo demais [ ]” para ver as condenações, os desterros e as arbitrariedades que viriam a acontecer.

]

Zizek (2005, p.7) foi ainda mais enfático:

A primeira reação pública à ideia de retomar Lenin é, obviamente, uma risada sarcástica. Marx, tudo bem – hoje em dia, até mesmo em Wall Street há gente que ainda o admira: o Marx poeta das mercadorias, que fez descrições perfeitas da dinâmica capitalista; o Marx dos estudos culturais, que retratou a alienação e a reificação de nossas vidas cotidianas. Mas Lenin – não, você não pode estar falando sério! Lenin não é aquele que representa justamente o fracasso na colocação em prática do marxismo? O responsável pela grande catástrofe que deixou sua marca em toda a política mundial do século XX? O responsável pelo experimento do socialismo real,

que culminou numa ditadura economicamente ineficiente? Então, se há um consenso dentro da esquerda radical da atualidade (o que resta dela), é que, para ressuscitar o projeto político radical, devemos deixar para trás o legado leninista: o implacável enfoque na luta de classes; o partido como forma privilegiada de organização; a tomada violenta e revolucionária do

poder; a consequente “ditadura do proletariado” [

]. (grifo do autor)

Para além das questões relacionadas à pessoa de Lenin, supomos também existir resistência e hostilidade em relação à investigação dos estudos leninistas 16 da educação, posto que: a Revolução de Outubro não significou a origem da ditadura stalinista, da derrocada da URSS e do socialismo real? Não foi ela (a Revolução de Outubro) a inspiradora e financiadora de várias revoluções (socialistas, de libertação colonial) e portanto, pelo malogro dessas revoluções? Ademais, existiria tema mais démodé e tão pouco atrativo do ponto de vista dos financiamentos em pesquisa do que a revolução social? Contudo, optamos por seguir uma orientação diferente dessa possível herança maldita creditada a Lenin. Logo, partindo da dissertação e da tese supracitadas, fomos compondo uma bibliografia, com base nas informações sobre o assunto Lenin e a educação. Desse modo, constatamos que o assunto é tratado, em

16 Os termos leninista e leniniano foram empregados como sinônimos ao longo de nossa tese e significam tão somente relativos a Lenin.

19

linhas gerais, em livros e artigos relacionados a temas sobre história da educação; educação e socialismo; educação soviética; revolução bolchevique e educação; politecnia; trabalho e educação. Para o conjunto das obras que tratam da história da educação russa / educação soviética (ARANHA, 1989; CAMBI, 1999; GADOTTI, 1995; HUBERT, 1967; LARROYO, 1962; LUZURIAGA, 1967; MANACORDA, 2000; 2006; MORENO et al, 1978), o tema Lenin e a educação é desenvolvido de forma breve na maioria delas, nas quais se discorre sobre temáticas como trabalho produtivo; a associação entre trabalho, escola e vida; ao ensino politécnico e a nomes como Makarenko e Pistrak. Cambi (1999), por sua vez, expôs de forma um pouco mais aprofundada elementos referentes aos modelos de educação socialista e liberal; aos tipos de educação implantados em países totalitários 17 , incluindo-se a ex-URSS; às relações entre a Guerra fria e a pedagogia. Ainda numa abordagem histórica, mas sob uma perspectiva socialista, destacaram-se Dietrich (1973), Dommanget (1970) e Rossi (1981). Dietrich (1973, p.214), entre outros assuntos, tratou de questões referentes aos objetivos de Lenin com relação à educação, dando destaque para o Programa do PCR de 1919. Dommanget (1970, p.446 et seq) e Rossi (1981, p.168 et seq) abordaram de forma similar o tema Lenin e a educação, segundo uma perspectiva cronológica, descrevendo fatos e analisando algumas ações de Lenin no campo da educação. Identificamos também estudos a respeito da caracterização geral da denominada “pedagogia soviética”, correspondente ao período aproximado que vai de 1917 a 1930, com destaque para Makarenko (CAPRILES, 1989; CARVALHO, J. de O. et al, 2007; RODRIGUES, M. V., 2004). Compulsamos ainda trabalhos em que se sobressaía uma análise a respeito dos temas trabalho e educação; politecnia; escola única do trabalho; formação omnilateral. Mas nestes casos, presumimos que o objetivo dos autores não era desenvolver um estudo aprofundado sobre o tema Lenin e a educação (DORE, 2006; LAUDARES; QUARESMA, 2007; MACHADO, 1989; 1991; NOSELLA, 2007a; 2007b; RODRIGUES, J., 1998; SAVIANI, 2003c; 2007).

17 Cambi (1999, p.577) definiu Estado totalitário da seguinte forma: “Um Estado totalitário é um

Estado autoritário, burocraticamente organizado, dirigido por um partido único, capaz de controlar e

unificar num projeto de ação comum toda a sociedade [

rigidamente estruturado, empenhado em conformar as massas aos objetivos dos partidos-Estados.” O autor associou tal tipo de Estado totalitário ao fascismo, ao nazismo e ao “comunismo soviético”, a partir da época stalinista.

é um Estado ideologicamente compacto,

];

20

Com relação ao termo politecnia, Dore (2006), ao investigar a influência e a forma como foi assimilado o pensamento de Gramsci na área educacional brasileira, afirmou que o fato generalizado é que no Brasil associa-se a politecnia a uma certa pedagogia marxista. Assim, com frequência, os estudos sobre a educação politécnica são retomados a partir de Marx e Engels e os mesmos “atravessam” a história, países e autores, passando por Lenin, Gramsci, Manacorda, chegando até Nosella, Saviani e outros. No caso de Manacorda (2000, p.40 et seq), este associou Lenin à educação socialista por meio da questão da politecnia, de modo que Lenin seria um caudatário de Marx. O que, a nosso ver, restringe a discussão do tema Lenin e a educação à politecnia. Ademais, constatamos a influência determinante de Gramsci e Manacorda em muitos autores brasileiros, a ponto de Nosella (2007a, p.139) confessar que suas principais fontes de estudos a respeito da politecnia serem Marx, Engels e Lenin, mas estudados por intermédio de Manacorda. Assim, tratando-se do assunto de nosso interesse nos estudos examinados, sobressaem-se pelo menos dois aspectos: a) muitas vezes o tema é abordado de forma marginal, em que a ênfase da investigação é direcionada para tópicos como politecnia, escola única do trabalho, associação entre vida, escola e trabalho; b) na maioria das vezes os estudos carecem tanto de um aprofundamento sobre o contexto histórico, quanto do estabelecimento de premissas interpretativas sobre o posicionamento político de Lenin como elemento auxiliar da investigação. Identificamos também opiniões daqueles que, de um lado, criticam duramente a revolução bolchevique e o socialismo real e de outro, aqueles que tecem loas à grande revolução de outubro e à implantação do socialismo em um só país. Além dos que apresentaram uma posição aparentemente imparcial, como Rumiántsev (1970). Dessa forma, tratando-se dos supostos críticos ao sistema, o livro intitulado Educação soviética, organizado por Kline (1959) merece destaque, pois se trata de uma obra publicada fora da ex-URSS, contendo alguns artigos escritos por dissidentes russos. Nesse sentido, em seu prefácio, Counts (1959, p.VIII) foi assertivo ao afirmar que:

Qualquer noviço que pretenda penetrar no domínio dos negócios da URSS bem sabe que, ao ler um artigo ou livro, ou ao consultar um quadro estatístico trazendo a marca de Moscou, precisa sempre tomar cuidado para distinguir o fato real da ficção. Tratando-se de uma terra onde a

21

narrativa verídica de fatos históricos bem documentados pode ser repudiada pelo seu “objetivismo burguês”, onde as estatísticas podem ser manejadas pelos mais altos órgãos escolares como “armas políticas”, onde o tradicional significado das palavras pode ser banido do dicionário por ordem oficial, o investigador pertencente ao mundo livre deve lembrar-se constantemente de “Alice no País das Maravilhas” ou de “Mil novecentos e oitenta e quatro”. (grifos do autor).

Segue o mesmo raciocínio em outra passagem do texto:

O verdadeiro Bolchevista ri sarcasticamente ao ouvir falar em “liberdade de

educação” em qualquer “estado burguês”. Aplicando sem discussão este dogma, ao assumir o poder em 1917, os Bolchevistas estabeleceram uma aberta e confessada ditadura em nome do “proletariado” e agiram no sentido de converter todo o sistema educacional em um instrumento total e militantemente empenhado na conquista dos seus objetivos.(Idem, ibidem, p.IX)

Ainda, de acordo com o autor, na ex-URSS do período stalinista, existia um controle ideológico em todas as formas de manifestação cultural e educacional:

escolas; meios de comunicação escrita e audiovisual; teatro; cinema; museus; música; artes plásticas etc., sendo que o controle político e cultural abrangia todas as organizações, particularmente aquelas ligadas à infância e à juventude. Outra marca característica do ensino na ex-URSS seria a existência de uma orientação monolítica controlada pela Comissão Central (CC) do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), de modo que o Partido é quem ditava as regras que deveriam ser cumpridas. Sobre a perseguição política à qual foram submetidos professores, pensadores e aqueles que se mostravam contrários ao sistema, o autor mencionou que:

A história da educação soviética está assinalada pelo sacrifício da vida de ilustres professores e de eminentes educadores que, por um motivo qualquer, foram julgados culpados ou suspeitos de esposarem doutrinas

“antirrevolucionárias” ou por deixarem de seguir, com visível entusiasmo, as reformas propagadas pelo Partido. Assim, um professor pode ter revogado

o seu diploma de doutor, porque a posição por ele tomada em suas

preleções, em anos anteriores, foi declarada errônea pela Comissão Central. Nestas condições, não é de admirar que o autor de um compêndio de História Moderna, ou mesmo de Psicologia Educacional, limite suas citações de autoridades aos escritos de Marx, Engels e Lenin ou Stalin. (Idem, ibidem, p.XII)

Já autores como Gapotchka (1987), Kuzine (1977) e Monoszon (1998) notabilizam-se por sua posição francamente favorável ao sucesso da revolução bolchevique, ao socialismo soviético e à concepção do socialismo num só país, ao proferir um discurso doutrinário e apologético, conforme segue:

22

Com base na comunidade de interesses fundamentais dos trabalhadores fortaleceu-se o vínculo da classe operária com o campesinato, firmou-se a fraternidade socialista inquebrantável dos povos da URSS e formou-se a unidade política e moral do povo soviético, coeso à volta do seu chefe provado: o Partido Comunista. O socialismo trouxe aos cidadãos soviéticos uma instrução de fato e enriqueceu muitíssimo a vida espiritual da sociedade. (KUZINE, 1977, p.9)

na União Soviética, a sociedade se compõe de

impera a amizade fraterna e a

confiança entre os povos, as línguas nacionais desenvolvem-se com base na igualdade de direitos e enriquecimento recíproco.” (Idem, ibidem, p.17). Ou seja, supomos que na maioria dos textos publicados pelos órgãos do governo da ex-URSS, seus autores assumem uma posição dogmática e propagandista em favor do socialismo num só país e uma submissão ao Partido como guia maior da sociedade e detentor inconteste das verdades relativas ao socialismo e ao comunismo. A despeito dos ganhos e avanços reais obtidos no campo educacional na ex-URSS (CARR, 1981, p. 167 et seq; DEUTSCHER, 1968a, p.93 et seq.), identificamos que no posicionamento daqueles autores: 1) a evolução e os ganhos no campo social e na educação socialista são tomados como absolutos, como se não tivesse ocorrido avanços e retrocessos; imensas dificuldades e resistências na implantação da nova educação soviética; dúvidas e acirradas disputas internas sobre a questão da educação (MACHADO, 1991); 2) não há nenhuma alusão, reflexão ou crítica sobre as mudanças e problemas enfrentados pela república soviética no mesmo período; 3) afirma-se categoricamente que Lenin teria implantado uma educação socialista no período imediatamente posterior a outubro de 1917. Portanto, considerando-se o período imediatamente posterior a outubro de 1917, é comum identificar informações de que Lenin teria implantado uma “verdadeira” educação socialista. A propósito, atentemos para o que escreveu Mainardi (2001, p.8):

classes amigas [

Ainda, para o autor, “[

]”

]

(Idem, ibidem, p.13), onde “[

]

Diante dos acontecimentos que abalaram a Rússia em 1917, a URSS leninista se tornou o berço em que nasceria, definitivamente, a tão sonhada e idealizada educação socialista [ Lenin foi o primeiro revolucionário socialista a assumir o controle de um governo e, confiante de que a educação seria um importante e indispensável elemento na transformação social, pôs em prática, na educação, juntamente com seus colaboradores, as ideias socialistas.

23

Na mesma linha de pensamento, Gadotti (1995, p.121) afirmou:

Lenin atribuiu grande importância à educação no processo de transformação social. Como primeiro revolucionário a assumir o controle de um governo, pôde experimentar na prática a implantação das ideias socialistas na educação. (grifos do autor).

Já em Carvalho, F. M. de (2005a; 2005b), Dommanget (1970), o mesmo raciocínio nos pareceu sugerido. Analisemos também o que escreveram os autores a seguir:

Desde os primeiros dias da educação socialista, a escola destacou-se como guia da política do Partido Comunista de transformação socialista da sociedade, incluindo a formação do homem novo. (GAPOTCHKA, 1987, p.143).

O sistema soviético de instrução é obra da Grande Revolução Socialista de Outubro. O resultado mais importante das transformações revolucionárias realizadas na URSS sob a direção do Partido Comunista é o triunfo completo e definitivo do socialismo e a transição para a edificação do comunismo; é a formação do homem novo, soviético. (KUZINE, 1977, p.9).

Somente com o triunfo da Grande Revolução Socialista de Outubro se tornou possível o exercício de uma genuína pedagogia científica [isto é, baseada nos princípios do marxismo-leninismo], transformando as escolas num veículo das ideias revolucionárias, num instrumento de reestruturação da velha sociedade para uma nova sociedade, a sociedade socialista. (MONOSZON, 1998, p.30).

Ressalte-se que em seus posicionamentos, os autores acima não explicitaram suas concepções sobre socialismo e educação socialista, ou mesmo a concepção de socialismo e de educação socialista para Lenin. De modo diferente dos autores supracitados, nossa suposição é a de que Lenin não objetivava implantar imediatamente o socialismo e por conseguinte, ele não objetivava implantar imediatamente uma educação socialista na República Soviética, de acordo com o que ele mesmo teria escrito numa de suas Teses de abril (LENIN [publicada em 7 de abril de 1917], 2005, p.66): “[Tese] 8. Não ‘introdução’ do socialismo como nossa tarefa imediata, mas apenas passar imediatamente ao controle da produção social e da distribuição dos produtos por parte dos SDO 18 .” (grifos do autor). Zizek (2005, p.13), por seu turno, se referiu a não introdução imediata do socialismo como um projeto mais realista de Lenin para o poder bolchevique nos seguintes termos:

Por causa do subdesenvolvimento econômico e do atraso cultural das massas russas, não há como a Rússia “passar imediatamente ao

18 Sovietes dos Deputados Operários.

24

socialismo”; tudo o que o poder soviético pode fazer é combinar a política moderada do “capitalismo de Estado” com uma intensa educação cultural das massas camponesas inertes – não a lavagem cerebral da “propaganda comunista”, mas simplesmente uma imposição paciente e gradual de padrões desenvolvidos de civilização. Fatos e números revelam “que ainda há muito trabalho braçal a ser feito urgentemente, antes que se atinja o

padrão de um país qualquer da Europa ocidental

a ignorância semiasiática da qual ainda não nos livramos”. 19

Devemos ter em mente

Ainda, no artigo escrito em novembro de 1919, intitulado A economia e a

política na época da ditadura do proletariado, Lenin declarou que, se por um lado, a burguesia fora alijada do poder político, os grandes proprietários destituídos dos meios de produção e os grandes latifundiários de suas terras com o sucesso da Revolução de Outubro, por outro lado, a classe burguesa não tinha sido completamente aniquilada. Portanto, a burguesia enquanto classe social ainda existia, tornando-se mais encarniçada no seu desejo de derrubar a revolução bolchevique (LENINE [escrito em 30 de outubro de 1919], 1980c).

]”

(Idem, ibidem, p.206) não poderia ser implantado. Assim, consciente de que não existiam condições objetivas para implantação de uma sociedade socialista, Lenin vai defender de forma veemente o fortalecimento do Estado proletário instaurado após a revolução de outubro de 1917. De acordo com Getzler (1985, p.35), a tarefa imediata dos bolcheviques após a tomada do poder político na Rússia não era a instauração do socialismo, mas sim do “Estado-Comuna”, que já existia em germe nos sovietes 20 dos operários e dos soldados, desde que fosse possível livrá-los de seus dirigentes pequeno- burgueses. Nesse sentido, após o término da guerra civil (1918-1920), com o país arrasado economicamente, a fome, as epidemias e outros problemas, além do fracasso da tentativa de se passar imediatamente ao comunismo 21 , Lenin defendeu como tarefa prioritária do governo o desenvolvimento de um capitalismo de Estado. Tal seria a forma tanto de garantir as condições imediatas de sobrevivência

Desse modo, o socialismo como sendo a “[

]

supressão das classes [

19 De acordo com Zizek, os trechos entre aspas foram extraídos do texto de Lenin Páginas de um diário.

20 Sovietes: os conselhos dos sovietes surgiram pela primeira vez em outubro de 1905, em São Petersburgo. Sua representação era constituída com base nas unidades de produção. Elegia-se um delegado para cada quinhentos operários e seu mandato era revogável. Garantiu na prática a liberdade de imprensa, organizou patrulhas para a proteção dos cidadãos, apoderou-se em parte dos correios, dos telégrafos e dos trens e buscou estabelecer de fato a jornada de trabalho de oito horas. Foi a organização mais adequada para a classe operária em sua luta independente, mostrando sua potencialidade como organismo de poder operário e como alicerce para um novo tipo de Estado (TROTSKI, 2007, p.23, nota 5).

21

Consultar o item 1.1.3 O comunismo de guerra.

25

da República Soviética, quanto de implantar as bases para a construção da futura sociedade socialista, materializando-se na concepção da ditadura do proletariado, como um período de transição entre a dissolução do capitalismo e a construção do socialismo. No plano externo, o fortalecimento do Estado proletário se relacionava com o isolamento da República Soviética. De acordo com a concepção de desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo, a Rússia era o elo mais fraco do capitalismo na Europa e portanto a tarefa de se empreender uma revolução nesse país era uma necessidade colocada historicamente. Contudo, os líderes da Revolução de Outubro acreditaram que o triunfo pleno da revolução dependeria da internacionalização da revolução para os países da Europa, de modo que a Rússia fosse o estopim da revolução mundial. Como isso não aconteceu, a República Soviética ficou isolada e restou a dificílima tarefa de como sobreviver em meio a um mundo hostil. Assim, no plano interno, uma das saídas encontradas por Lenin e seus correligionários foi o fortalecimento e a consolidação da revolução e a construção de um capitalismo de Estado, até que eclodissem as revoluções na Europa ocidental e no oriente.

Questão de pesquisa e hipótese de trabalho Nossa questão de pesquisa foi formulada mediante uma especificação em dois níveis. No primeiro nível, tomamos algumas das limitações e lacunas encontradas nos estudos analisados na revisão da bibliografia. Também nos baseamos em Nogueira (1993), a qual procurou investigar as formulações de Marx e Engels para a educação, na conjuntura histórica em que ocorreram. Foi assim que transpusemos algumas indagações da autora para uma investigação sobre a educação leninista. Ou seja, procurar entender as preocupações e ações de Lenin no campo educacional, no contexto em que foram gestadas e implementadas. Nesse sentido, tornou-se imprescindível estipular as premissas necessárias para interpretação das preocupações e proposições de Lenin para a educação, com destaque para os elementos históricos, políticos e sociológicos. No outro nível de especificação, consideramos que, após o Outubro de 1917, a proposição de Lenin (pelo menos em seu plano geral) não era instaurar imediatamente o socialismo. Portanto, supomos que com relação à educação sua

26

proposta também não era a de implantar imediatamente uma educação socialista. Sendo assim, o problema a ser investigado (GIL, 2002; SALOMON, 2001), na condição de uma questão de pesquisa (TRIVIÑOS, 1987, p.107) foi formulado nos seguintes termos: se o objetivo de Lenin para a educação não era implantar imediatamente uma educação socialista após outubro de 1917, quais eram seus objetivos para a educação, durante os anos de 1917 – 1924? Nossa hipótese de trabalho (Idem, ibidem, p.105-106) foi a de que os objetivos de Lenin para o campo da educação, no período compreendido entre os anos de 1917-1924, se relacionavam fundamentalmente com uma necessidade de natureza tanto política quanto econômica, conforme considerou Hubert (1967, p.136), para quem a revolução pedagógica ocorrida na república dos sovietes correspondeu a uma necessidade econômica e tecnológica e a uma disposição política.

Objetivos e justificativas Em termos genéricos, nosso objetivo foi investigar o tema educação escolar e revolução social, com relação às seguintes questões: quem vem antes, a revolução ou a educação? Pode existir uma “educação revolucionária” antes da revolução? A educação escolar participa da luta de classes? Em caso positivo, de que forma? Ao vincularmos tais questões ao contexto da Revolução Russa de 1917, propusemo-nos então a pesquisar: sobre a Revolução de Outubro, bem como refletir

a respeito das suas implicações, consequências e legado; sobre Lenin e os “estudos

leninistas da educação”. Especificamente, nosso objetivo foi verificar o duplo e indissociável caráter atribuído à educação por Lenin - as dimensões política e econômica -, considerando- se a necessidade de consolidação do poder político do Estado proletário e de reconstrução econômica da República Soviética, bem como a implantação das bases materiais e culturais para a construção da futura sociedade comunista. No plano político, em linhas gerais, tratava-se de consolidar o poder do

Estado proletário, mediante a destruição dos vestígios do poder czarista 22 e burguês

e ao mesmo tempo, construir os fundamentos de uma futura sociedade comunista. Assim, à educação caberia a tarefa de destruir os fundamentos da educação

22 Czarista, czarismo: regime caracterizado pelo poder absoluto do czar (TROTSKI, 2007, p.22, nota

27

czarista e burguesa e ao mesmo tempo: a) incorporar e aproveitar os mais elevados conhecimentos da ciência, da tecnologia e da cultura produzidos até então pela humanidade e necessários à construção do socialismo / comunismo; b) educar o povo de acordo com os princípios do comunismo. Segundo Gurley (1976, p.97), Lenin previu que o sucesso dos planos econômicos dependeria fundamentalmente da aplicação de instrumentos por meio dos quais ocorreria um aumento da produtividade do trabalho, sendo que tais instrumentos seriam: a) a imposição de uma rígida disciplina de trabalho; b) a introdução da gerência científica (aplicação dos princípios tayloristas na produção); c) a elevação do nível educacional e cultural da classe trabalhadora. Assim, no plano econômico, Lenin defendia a necessidade do desenvolvimento de um capitalismo de Estado, com o objetivo de superar a ruína econômica e material decorrente dos anos de guerra e ao mesmo tempo, implantar as bases para construção da futura sociedade socialista / comunista. Portanto, à educação caberia a tarefa de formar a força de trabalho necessária ao desenvolvimento das forças produtivas e ao mesmo tempo elevar o nível cultural, técnico e científico da população. Em sentido amplo, nosso trabalho justificou-se pela necessidade de: a) resgatar uma discussão antiga, mas a nosso ver ainda não resolvida, sobre as relações que se estabelecem entre a educação e a revolução; b) desenvolver um estudo mais aprofundado a respeito do tema educação leninista. Em termos específicos, impôs-se a necessidade de se pesquisar um tema ainda pouco explorado da vasta obra de Lenin, qual seja, a educação no período correspondente aos anos posteriores à instauração da República Soviética, nos quais se sobressaem as tarefas da construção de uma sociedade socialista.

Aspectos metodológicos Caracterização da pesquisa, fontes e limitações Nosso trabalho pode ser caracterizado como sendo uma pesquisa bibliográfica (GIL, 2002) e as fontes empíricas investigadas foram os textos e obras de Lenin sobre a educação. Quanto às limitações da pesquisa, referimo-nos à impossibilidade de consulta à totalidade da obra de Lenin em russo, em função do tempo disponível para realização de nosso trabalho e pelo desconhecimento do idioma russo. Quando

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necessário, recorremos às Obras completas de Lenin disponíveis em inglês no Lenin internet archive. Também consultamos uma série de livros resultantes da organização e compilação das obras de Lenin, a saber: A instrução pública (LENINE, 1981); Cultura e revolução cultural (LENIN, 1968); Sobre a educação (LENINE, 1977); além das Obras escolhidas (LENINE, 1980a; LENINE, 1980b; LENINE, 1980c) em português. Para além das questões propriamente técnicas, considere-se também uma limitação relacionada talvez a um certo “aparelhamento” do Estado. Em outras palavras, significa que após a morte de Lenin, sua obra tornou-se patrimônio do Estado Soviético 23 . Nesse sentido, quem pode nos garantir que não houve algum tipo de interferência, por meio dos órgãos especializados da ex-URSS no processo de coleta, organização e publicação (e em alguns casos, tradução) dos textos leninianos? 24

Critérios de organização e análise das fontes de informação Nós selecionamos os textos leninianos de acordo com a indicação dos comentadores e especialistas em Lenin, bem como dos textos selecionados nas compilações, quais sejam, A instrução pública, Cultura e revolução cultural e Sobre a educação. Após a seleção dos textos que deveriam ser lidos, estes foram organizados de acordo com um critério temático e cronológico. Assim, primeiramente, os textos de Lenin foram ordenados com base nos seguintes temas:

1) Obras econômicas; 2) Obras políticas, subdivididas nos subtemas Às portas da revolução; Clássicos; Consolidação da revolução; Construção do socialismo; 3) Lenin e a educação, subdivido nos subtemas Antes de 1917; Após 1917. Em seguida, os textos foram lidos e fichados de acordo com os temas/subtemas

23 A título de ilustração, cite-se que Foster (2005, p.311 et seq) mencionou alguns acontecimentos relacionados à prisão de Bukharin entre os anos de 1937-1938. Assim, de acordo com Foster, Bukharin escreveu quatro manuscritos, que eram conhecidos apenas por Stalin e alguns carcereiros. Os manuscritos não foram destruídos porque Stalin resolveu poupá-los (mas não poupou Bukharin, nem a “velha guarda” do partido bolchevique, nem os que podem ser considerados verdadeiros heróis da revolução), consignando-os ao seu arquivo pessoal. Tais documentos só foram redescobertos no final da década de 1980, por meio de um assessor de Mikhail Gorbachev, sendo publicados apenas em 1992, originalmente em russo (How it all began e Philosophical arabesques, numa tradução em inglês).

24 A nosso ver sobre esta questão abrem-se muitas possibilidades de pesquisa historiográficas e filológicas interessantíssimas. Contudo, os desafios são imensos: dominar o idioma russo; obter acesso às fontes originais e de primeiríssima mão (os textos originais do próprio Lenin); obter acesso às fontes do Instituto Marxismo-Leninismo da ex-URSS etc.

29

estipulados, mas dentro de uma ordem cronológica para cada tema/subtema específico. Também foram consultadas várias obras sobre a história da revolução russa (com destaque para a insurreição de Outubro de 1917, o período da guerra civil e da implantação da Nova Política Econômica), educação na Rússia e comentadores de Lenin.

Seria oportuno mencionar que o pesquisador sempre enfrenta muitas dificuldades ao investigar temas a respeito da Rússia, Revolução de Outubro, União Soviética, Lenin, Trotski, entre outros. Algumas dessas dificuldades referem-se à língua e à grafia dos nomes russos. Sobre este assunto, infelizmente não foi possível empreender uma pesquisa profunda relacionada à transliteração dos termos russos. Nesse sentido, a escolha da grafia deu-se em função dos nomes e termos que são empregados com mais frequência na literatura. Ou seja, optamos por grafar Lenin (sem acento circunflexo), ao invés de Lenine (forma aportuguesada de Lénine, do francês), ou Lênin. Ainda: Trotski e não Trotsky. Krupskaia e não Kroupskaia, Krupskaja, ou Krupskaya. Lunacharski e não Lunatcharski. Bolchevique e não bolchevista. Czarismo e czar e não tzarismo e tzar, respectivamente. Kronstadt e não Cronstadt. Contudo, no caso das Referências, não alteramos os nomes com grafias diferentes daquelas adotadas por nós. Esse foi o caso de LENINE, KROUPSKAIA, LUNATCHARSKI e TROTSKY. No caso das citações bibliográficas, optamos pelo sistema autor-data. E tratando-se dos textos e livros de autoria de Lenin e Krupskaia, informamos a data em que os textos foram escritos, publicados ou proferidos (no caso dos discursos) entre colchetes. Ademais, é de nossa autoria a versão para o português dos textos escritos originalmente em inglês, francês e italiano. Devido à referência constante aos textos de Lenin, optamos sempre por informar o leitor de qual texto ou livro estávamos tratando a fim de facilitar o acesso às Referências. Assim, sempre deixamos explícitos o título do texto ou o livro de Lenin ao qual nos referíamos, seja no corpo do trabalho, seja na forma de notas de rodapé.

Considerando as peculiaridades relativas à execução de uma pesquisa bibliográfica, na medida do possível, tentamos recorrer a paráfrases e resumos na composição do texto. Mas, num estudo em que predomina o trabalho de interpretação, como é o nosso caso, não foi possível fugir completamente da

30

transcrição literal de trechos dos textos de Lenin ou de outros autores, que ocorreram em grande quantidade. Finalmente, a nosso ver, um autor nunca é imparcial ao escrever. Sobre o assunto, recorremos a Löwy (2003, passim) e Schaff (1991, passim), os quais analisaram a questão de se é possível alcançar um conhecimento objetivo, seja nas ciências sociais, seja na história, respectivamente. Uma resposta possível a esta

questão é a de que a objetividade é construída social e historicamente, posto que: a) o próprio “objeto” investigado é indeterminado, imprevisível e inacabado; b) o “sujeito observador” é determinado por condições de classe, psíquicas, de raça, nacionalidade, sobre as quais ele não tem total nem absoluto controle de como tais elementos impregnam e influenciam a produção do seu conhecimento; c) a construção do conhecimento objetivo não é neutra aos condicionantes políticos, econômicos e de classe e tampouco é estático historicamente. Foi assim que John Reed e Victor Serge, na introdução de seus célebres livros, declararam que: “Na luta, as minhas simpatias não eram neutras. Mas ao contar a história dessas grandes jornadas tentei ver os acontecimentos com os olhos de um repórter consciencioso, interessado em expor a verdade.” (REED, 1977, p.33). E “A imparcialidade do historiador não passa de uma lenda destinada a

O historiador é sempre ‘de seu tempo’, isto

corroborar convicções de interesse. [

é, de sua classe social, de seu país, de seu meio político.” (SERGE, 2007, p.31). Conosco não foi diferente, posto que ao empreendermos a tarefa de

construir uma objetividade científica procuramos deixar explícita nossa condição de classe e simpatias políticas. Por último, declaramos que em sua totalidade, o nosso trabalho é de interpretação. E assim como Nogueira (1993) (no caso de Marx), procuramos evitar

a adesão incondicional, a rejeição sistemática, cultuar, fetichizar ou mitificar a pessoa de Lenin, ou dogmatizar seus escritos.

]

31

1 OUTUBRO DE 1917: ELEMENTOS HISTÓRICOS, POLÍTICOS E SOCIOLÓGICOS

1.1 Elementos históricos 1.1.1 Apontamentos sobre a história da revolução russa

A revolução russa representa um dos acontecimentos mais importantes do

século XX, a primeira grande ruptura e talvez o principal ato de confronto ao

capitalismo coroado de sucesso (CARR, 1981, p.11; HOBSBAWM, 1995, p.62;

] fato

isolado teve impacto tão decisivo sobre o mundo moderno do que a Revolução

Russa de 1917 [

em uma potência industrial e militar e influenciou de forma decisiva o padrão das relações internacionais. Não há registro de nenhuma insurreição revolucionária moderna comparável à Revolução russa (DEUTSCHER, 1968a, p.2) e de acordo com Hobsbawm (1995,

p.62), a “[

revolucionário organizado na história moderna.” Ainda, para o autor, ela influenciou e

contribuiu para a organização de partidos comunistas no mundo todo, de modo que apenas trinta ou quarenta anos depois de abril de 1917, aproximadamente um terço da humanidade se achava vivendo sob regimes inspirados ou derivados da República Soviética ou do modelo organizacional do Partido Comunista da União Soviética. De fato, o bolchevismo transformou a revolução de 1917 em um fenômeno mundial (REIMAN, 1985, p.75).

A URSS também teve importância fundamental nos destinos da segunda

guerra mundial, quando, ironicamente, ela foi a salvadora do capitalismo liberal, possibilitando a vitória do ocidente contra a Alemanha de Hitler (HOBSBAWM, 1995, p.89). Ademais, com o advento da Guerra Fria, a União Soviética participou de forma decisiva na dinâmica da geopolítica mundial do século XX. Porém, é necessário tornar preciso o que entendemos pela expressão Revolução Russa.

Reis Filho (2003, p.41 et seq) e Serge (2007) mencionaram a ocorrência de pelo menos três revoluções na Rússia 25 : a) a de 1905, cujos principais

Revolução de Outubro produziu de longe o mais formidável movimento

- ela transformou um país pobre, atrasado e subdesenvolvido

REED, 1977, p.33). Parker (1995, p.254) por sua vez, declarou que nenhum “[

]”

]

25 Sugerimos consultar o ANEXO I, no qual constam datas e informações resumidas sobre a biografia de Lenin e sobre a história da Rússia referente ao período analisado por nós.

32

acontecimentos foram o “domingo sangrento” 26 e a revolta dos marinheiros do encouraçado Potemkim 27 ; b) a de fevereiro de 1917, cuja principal consequência foi

a abdicação do czar; c) a de outubro de 1917, com a destituição do governo provisório instalado em março de 1917 e a constituição de um Estado proletário 28 . A estas, Reis Filho (2003, p.41) acrescentou uma quarta (sempre esquecida) – a de 1921. Foi a insurreição dos marinheiros da base naval de Kronstadt 29 , à qual se somaram as greves nas cidades e as revoltas no campo, na época, todas contra o poder bolchevique 30 . Portanto, o que muitos denominam de revolução russa, Hobsbawm (1995,

. Contudo, a importância da Revolução de Outubro para a história é proporcional à complexidade tanto dos elementos e processos mais gerais aos quais ela está vinculada, quanto das especificidades da Rússia, que, combinados, estão envolvidos com suas causas e eclosão. Em outras palavras, o Outubro de 1917 é o resultado da imbricação existente entre processos globais e a realidade específica da Rússia – foram conjunturas que se entrelaçaram (REIS FILHO, 2003, p.41) -, de

p.62) especificou: a “[

]

Revolução Bolchevique de outubro de 1917 [

]”

31

26

O domingo sangrento (ocorrido em 9 de junho de 1905, pelo calendário gregoriano) foi o estopim

da revolução de 1905. Tendo em mãos uma petição dos operários de São Petersburgo ao czar Nicolau II – chamado de “o paizinho” - (jornada de trabalho de oito horas; reconhecimento dos direitos dos operários; promulgação de uma Constituição que garantisse a separação entre Igreja e Estado; mais democracia etc.), uma multidão de pessoas dirigiu-se pacificamente ao palácio do governo. Foram recebidos a tiros e massacrados, com centenas de mortos e feridos. Ao massacre, somou-se o descontentamento com a guerra russo-japonesa, deflagrando uma onda de greves e revoltas pelo país (SERGE, 2007, p.54).

27 Referimo-nos ao motim do encouraçado Kniaz-Potemkim, ocorrido em 15 de junho de 1905, na base naval de Kronstadt, a qual pertencia à frota russa do mar Báltico. O acontecimento inspirou a realização do filme que se tornaria um clássico - O encouraçado Potemkim -, de Sergei Eisenstein.

Ver a Nota 29. 28 Carvalho, F. M. de (2005a) mencionou que as duas primeiras revoluções foram de caráter democrático-burguês e a terceira, socialista.

O levante dos marinheiros de Kronstadt foi sufocado pela República Soviética à custa de muitas

vidas de ambos os lados e provocou profunda comoção tanto entre os bolcheviques quanto entre os opositores da República Soviética. A revolta também tinha um sentido simbólico, posto que Kronstadt tornou-se famosa na campanha contra o czarismo, quando da insurreição dos marinheiros do encouraçado Potemkim em 1905.

Reis Filho (2003, p.41) mencionou que ocorreram verdadeiras “batalhas historiográficas”, a propósito da natureza dessas revoluções. Foge ao escopo de nosso estudo penetrar em tal discussão, porém, é oportuno citar que Reis Filho não compartilha da tese segundo a qual haveria um encadeamento entre as revoluções, as quais ocorreram, até certo ponto, de forma espontânea e sem qualquer determinação ou ação de partidos ou facções revolucionárias. Mas nem todos compartilham dessa interpretação. No caso, citamos Deutscher (A revolução inacabada) Lenin (Cartas de longe e Por ocasião do IV aniversário da Revolução de Outubro), Serge (O ano I da revolução russa) e Trotski (A história da revolução russa).

31 Ao longo de nosso trabalho nos referimos à Revolução Bolchevique de Outubro de 1917 também pelas expressões Revolução Russa de Outubro de 1917, Revolução de Outubro, Revolução de Outubro de 1917, Outubro de 1917, O Outubro de 1917.

30

29

33

seus traços característicos só podiam ser apontados em relação ao

curso mais amplo da história mundial [

Concordamos com Deutscher e Trotski, para quem o Outubro de 1917 foi, genericamente, o resultado da contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas e suas correspondentes relações de produção, conforme o que fora propugnado por Marx no seu famoso Prefácio de Para a Crítica da Economia

Política. Desse modo, para Deutscher (1968a, p.9), assim como nos antigos regimes francês e inglês, foi o desenvolvimento do capitalismo na Rússia que gerou contradições insanáveis numa estrutura social incapaz de contê-las. Por

forças do progresso estavam de tal modo comprimidas no

espartilho da antiga ordem que teriam faltamente de explodir.” (Idem, ibidem, p.9). A propósito, a concepção de Trotski se fundamenta naquilo que ele denominou de lei do desenvolvimento desigual e combinado, a qual se aplicaria aos países atrasados, quando ocorre uma combinação original dos elementos obsoletos de uma sociedade com os mais avançados (TROTSKY, 1978a, p. 62). Tal lei “[ ] significa aproximação das diversas etapas [de desenvolvimento], combinação das fases diferenciadas, amálgama das formas arcaicas com as mais modernas.” (Idem, ibidem, p.25). Portanto, no caso da Rússia, seria a combinação de um país com “[ ] uma economia atrasada, uma estrutura social primitiva e [de] baixo nível cultural [ ]” (Idem, ibidem, p.23), que convivia com a penetração de uma industrialização avançada, própria da Europa ocidental, nas grandes cidades russas. Com relação ao contexto da Europa ocidental, a Revolução de Outubro é o resultado das crises e do processo de desagregação que corroía o sistema capitalista desde meados do século XIX, conforme escreveu Hobsbawm (1995, p.62): “Parecia óbvio que o velho mundo estava condenado. A velha sociedade, a velha economia, os velhos sistemas políticos tinham, como diz o provérbio chinês, ‘perdido o mandato do céu’. A humanidade estava à espera de uma alternativa.” Porém, por que essa alternativa ao capitalismo ocorreu na Rússia e não em outro país da Europa ou do mundo? Porque, internamente, a Revolução Russa de outubro de 1917 foi o resultado da confluência de uma série de aspectos: a existência de uma autocracia violenta, cruel e repressiva, que garantia privilégios para a burocracia, a Igreja e para si própria; uma sociedade baseada fundamentalmente numa economia rural e estagnada; um campesinato pobre, faminto e inquieto; a emergência de

conseguinte, as “[

modo que “[

]

]”

(REIMAN, 1985, p.75).

]

34

contradições insanáveis decorrentes da convivência contraditória entre o capitalismo e um sistema fundado no feudalismo, no qual ainda persistiam profundos traços da servidão; o passado político da Rússia czarista, marcado por convulsões sociais e pela ação de grupos terroristas que atuavam desde 1860, com ocorrência de surtos de violência e repressão (BENSAID, 2000a, p.169; CARR, 1981, p.11). Greves nos núcleos urbanos industrializados (Petrogrado 32 , Moscou); revolta no campo; deserção no exército; fome; colapso no sistema de transportes; desorganização econômica; vacilações e conluios do governo provisório com setores da burguesia e da autocracia; iminência de uma invasão alemã e da contrarrevolução - a Rússia às vésperas de outubro de 1917 era um caldeirão prestes a explodir. Acrescente-se a esse contexto a deflagração da primeira guerra

à superfície essas condições latentes e

precipitou uma situação que parecia esperar apenas um impulso para se desagregar.” (STRADA, 1987, p.110). Destaque-se que não é possível explicar o levante revolucionário de outubro de 1917 com base em apenas um desses fatores isolados. Ao ser acusado de subestimar os elementos econômicos no transcorrer da revolução russa, Trotski replicou ter consciência do agravamento das condições econômicas, nos momentos que precederam o Outubro de 1917. Porém, para ele seria simplificar ao extremo, se a explicação para a eclosão da revolução tivesse apenas como fundamento o aumento do preço do pão (TROTSKY, 1978b, p.416). Concordamos com Trotski, para quem a ocorrência da explosão revolucionária só se explica quando consideramos a combinação de uma série de fatores, entre eles as causas estruturais e históricas com as causas conjunturais. Ora, se o raciocínio dos críticos de Trotski estivesse correto as revoluções

mundial (1914-1918), a qual trouxe “[

]

aconteceriam sempre. De modo diferente, uma revolução é o resultado da sublevação incontrolável e explosiva das massas, ao que os seus líderes aproveitam

com argúcia e habilidade, de modo que “[

definitivamente manifesta do regime social tenha tornado intoleráveis as privações e

é preciso que a incapacidade

]

32 Petrogrado: desde 1703, data em que foi fundada, Petrogrado tinha o nome de São Petersburgo. Seu nome foi mudado para Petrogrado (1914-1924), em função da guerra, posto que São Petersburgo foi considerado muito germanizado. Teve o nome mudado para Leningrado (1924-1991) e em 1991 voltou a ser São Petersburgo. São Petersburgo está localizada às margens do Rio Neva, no Golfo da Finlândia, às margens do mar Báltico. Foi capital da Rússia por mais de duzentos anos e deixou de sê-lo em 1918, após a Revolução de Outubro.

35

que novas condições e novas ideias tenham deixado entrever a perspectiva de uma

saída revolucionária [

É sob tal perspectiva que a atuação do Partido Bolchevique 33 foi crucial no desenrolar da Revolução de Outubro. Segundo Serge (2007, p.76), as massas

milhões de rostos; não são nada homogêneas; são

dominadas por interesses de classe, diversos e contraditórios; só alcançam a consciência verdadeira – sem a qual nenhuma ação fecunda é possível – mediante a organização.” O que o Partido Bolchevique fez, ao longo dos anos, por meio de sua inteligência coletiva, organização, disciplina, dedicação, ação entre o povo, foi interpretar e dar vazão aos anseios e às necessidades dessa massa disforme e anárquica. Ainda, nas palavras de Serge (ibidem, p.76):

populares russas tinham “[

].”

(Idem, ibidem, p.416).

]

o que todos eles querem [o povo], o partido o exprime em termos claros

e o faz. O partido lhes revela aquilo que pensam. O partido é o vínculo que

os une a todos, de ponta a ponta do país. O partido é sua consciência, sua inteligência, sua organização.

] [

Graças à compreensão precisa e rigorosa da dinâmica dos acontecimentos e do movimento da história, os bolcheviques foram capazes de se identificar ao mesmo tempo com o operariado em geral e com a necessidade histórica colocada naquele momento tão particular. É por isso que distinguir as massas do Partido era impossível. Eles formavam um todo coletivo. Foi assim que em fevereiro de 1917, quando os bolcheviques ainda eram uma minoria e uma força política inexpressiva, em outubro de 1917 eles se tornam maioria e a única esperança de salvação para o povo (Idem, ibidem, p.77). O Outubro de 1917 foi uma irrupção violenta e incontrolável, uma radicalização vinda de baixo que a tudo engolfava, marcada pela participação ativa do povo no processo revolucionário (BENSAID, 2000a, p.169-170; TROTSKY, 1978a, p.15-16). A desintegração da velha ordem social traduziu-se subjetivamente nas massas, a ponto de impulsioná-las à ação e intervir diretamente nos acontecimentos. Ou seja,

A grande massa do povo foi avassalada pela mais intensa e premente consciência de desintegração e apodrecimento na ordem estabelecida. A percepção veio súbita. A consciência teve um sobressalto que a colocou a par da existência e impulsionou a transformação desta. Mas também esse

36

sobressalto, essa mudança súbita na psicologia das massas não proveio do nada. (DEUTSCHER, 1968a, p.11).

Para que a revolução eclodisse foram necessários muitos anos de preparação, por meio: da atuação de grupos que disseminaram as ideias revolucionárias; de partidos políticos das mais variadas índoles; da opressão da autocracia; do terrorismo; das contradições decorrentes do desenvolvimento das forças produtivas versus relações de produção. “Pouco ou nada houve de fortuito em tudo isso. Subentendido neste meio século de Revolução, avulta todo um século de esforços revolucionários.” (Idem, ibidem, p.11-12). Logo após a destituição do governo provisório, num relato dos acontecimentos relativos aos primeiros dias do poder bolchevique, Reed (1977, p.165-166) descreveu um fato muito significativo. Trata-se da votação do grupamento blindado brunoviki 34 , crucial naquele momento, posto que as forças contra revolucionárias começavam a atuar para tentar destituir o governo proletário. Assim, o autor narrou os discursos inflamados e emocionados - contra e a favor do poder bolchevique -, a dúvida atroz dos soldados e a decisão tomada. A descrição do momento decisivo da votação é tocante:

Khanjunov 35 tentou falar de novo, mas a multidão gritou: “Votação!

Votação! Votação!” Cedeu, por fim, e leu a resolução que ia ser submetida a voto: Os brunoviki retiravam o seu representante do Comitê Revolucionário Militar e declaravam a sua neutralidade na presente guerra civil. Todos os que fossem a favor deviam ir para a direita; os que fossem contra, para a esquerda. Houve um momento de hesitação, uma expectativa parada, e depois a turba começou a movimentar-se, cada vez mais depressa e aos tropeções, para a esquerda: centenas de corpulentos soldados numa massa

sólida que corria pelo chão sujo, sob a luz fraca

Imaginem esta luta repetida em todos os quartéis da cidade, do distrito, de toda a Frente [de combate], de toda a Rússia. Imaginem os Krilenkos 36 a cair de sono vigiando os regimentos, correndo de um lugar para outro, argumentando, ameaçando, implorando. E depois imaginem o mesmo em todos os sindicatos de operários, nas fábricas, nas aldeias, nos

couraçados das dispersas esquadras russas; imaginem as centenas de milhares de russos de olhos postos em oradores através de todo imenso país – operários, camponeses, soldados e marinheiros tentando tão esforçadamente compreender e escolher, pensando tão intensamente e, no fim, decidindo tão unanimemente. Foi assim a Revolução Russa.

[

]

34 Brunoviki: tropas de blindados. Era um regimento chave na consolidação da revolução, dias após a insurreição de Outubro e antes da invasão de Petrogrado por Kerenski. Na prática, quem controlasse os brunoviki controlaria Petrogrado.

35 Khanjunov: oficial que defendia a neutralidade do regimento brunoviki e consequentemente não apoiava os bolcheviques.

36 Krilenko: Comissário do Povo para Assuntos Militares do governo revolucionário. Orador que pedia o apoio dos brunoviki à causa revolucionária.

37

Mas o Outubro de 1917 teria sido um golpe de Estado, uma conspiração ou uma revolução? De fato, a insurreição assumiu as características de um golpe, posto que o acontecimento de 25 de outubro realizou-se como uma operação militar, sem

conhecimento e anuência de qualquer organização soviética. Na verdade, a insurreição fora planejada e organizada pelo comitê militar do soviete de Petrogrado, com Trotski 37 na presidência e a ordem para sua execução fora dada pelo Comitê Central do Partido Bolchevique, com Lenin à frente (REIS FILHO, 2003, p.66). Frise- se, porém, que os bolcheviques planejaram, organizaram e executaram a insurreição, derrubando o governo provisório, mas posteriormente eles “entregaram” o poder ao II Congresso dos Sovietes, mediante a submissão ao voto e à aprovação

do

ato insurrecional, conforme fora planejado antecipadamente pelo Comitê Central

do

Partido Bolchevique. Contudo, para além disso, foi uma síntese entre golpe e revolução: golpe no

planejamento, organização e execução. E revolução

nos decretos, aprovados pelos sovietes, reconhecendo e consagrando

juridicamente as aspirações dos movimentos sociais, que passaram imediatamente a ver no novo governo – o Conselho dos Comissariados do Povo, dirigido por Lênin – o intérprete e a garantia das reivindicações populares. (Idem, ibidem, p.67)

] [

Portanto, foi uma revolução no sentido pleno da palavra, que afetou praticamente todos os setores da sociedade. Foi um élan vindo de baixo, como uma manifestação dos anseios das massas (BENSAID, 2000a, p.169-170). Tal é o

sentido dos primeiros decretos legislativos 38 , os quais determinaram o fim da guerra;

a expropriação dos grandes latifúndios e a correspondente distribuição da

propriedade da terra entre os milhões de camponeses; e a constituição do poder dos soldados, trabalhadores e operários – o Conselho dos Comissários do Povo 39 .

37 Para uma visão detalhada dos momentos decisivos que antecederam a insurreição, sugerimos consultar A história da revolução russa (TROTSKY, 1978b), Capítulo IX – A insurreição de outubro, no qual Trotski revelou as dificuldades de organização política e militar relativas à insurreição; a posição contrária de Kamenev e Zinoviev; as exortações desesperadas de Lenin; as dúvidas atrozes e as vacilações que dilaceravam os líderes da insurreição; os detalhes da logística e da organização da insurreição etc.

38 Para mais detalhes, consultar no ANEXO II, onde reproduzimos integral ou parcialmente alguns dos principais Decretos promulgados pelo Conselho dos Comissários do Povo.

O Conselho dos Comissários do Povo representou o primeiro governo da República Soviética e foi instituído na sessão do II Congresso dos Sovietes de toda a Rússia, no dia 08 de novembro de 1917 (pelo calendário gregoriano), portanto, um dia após a derrubada do governo provisório de Kerenski pelos bolcheviques. O nome Comissários do Povo foi sugestão de Trotski, em função do desgaste relacionado aos termos governo e ministro.

39

38

Fundamentalmente, mediante a promulgação destes decretos, é que o poder revolucionário garantiu o apoio dos soldados, dos trabalhadores e dos camponeses, essencial para o sucesso da revolução e consolidação do governo proletário.

1.1.2 A consolidação da revolução No tocante ao desenrolar dos acontecimentos ligados à revolução russa,

Serge (2007, p.32) propôs uma cronologia para o período que vai de outubro de

1917 ao início de 1926.

Desse modo, a primeira fase da revolução russa correspondeu ao período de 25 de outubro de 1917 (pelo calendário juliano) e acaba em 7 de novembro de

1918, no momento em que explode a revolução na Alemanha. Neste primeiro ano apresentaram-se os problemas imediatos que a ditadura do proletariado precisava resolver: organização da produção e do abastecimento; defesa interna e externa; ações perante os intelectuais e a classe média. Esta fase Serge denominou de conquista proletária: tomada do poder, conquista do território, organização da produção, criação do Estado proletário e do exército etc. Segunda fase, que vai de novembro de 1918 a novembro / dezembro de

1920 (fim da guerra civil). A revolução alemã abre esta fase, que o autor denominou

de fase da luta internacional, ou da defesa armada. Foi o período em que se forma

uma primeira coalizão contra a República dos Sovietes; explode a guerra civil; ocorre a intervenção externa e a adoção do comunismo de guerra. Terceira fase, a da reconstrução econômica. Inicia-se em 1921, com a adoção da Nova Política Econômica (Novaia Ekonomitcheskaia Politika, a NEP) e termina em 1925-1926, com o retorno do nível de produção àquele do período anterior à grande guerra (muito embora em 1926 a população russa fosse maior). Quarta fase da história da revolução proletária da Rússia: final de 1925 ao início de 1926. Completa-se a reconstrução econômica cinco anos após o término

da guerra civil (o que constituiu um grande êxito para um país duramente castigado

e dependente de seus próprios recursos). Portanto, em sua totalidade, a República proletária conseguiu vencer a contrarrevolução, exercer o poder, organizar a produção, resistir e vencer os inimigos internos e externos. Mas, para os fins de nosso trabalho, adotamos uma periodização que abarca

o período de 1917 a janeiro de 1924, marcada por uma série de acontecimentos. Assim, de outubro de 1917 a junho de 1918, destacamos o momento da

39

consolidação da revolução. De junho de 1918 ao final de 1920: guerra civil russa e intervenção estrangeira, com a adoção do comunismo de guerra. Final de 1920 a janeiro de 1924: construção do socialismo, com destaque para a adoção da NEP, em março de 1921.

Dessa forma, de outubro de 1917 a junho de 1918, corresponde à fase em que o poder bolchevique obtém as primeiras vitórias no campo militar sobre os contra revolucionários: na revolta dos junkers 40 e na ofensiva contra Kerenski e os cossacos 41 . Vitórias também contra a burguesia e as classes médias, que aderiram

à contrarrevolução, por meio da sabotagem, greves gerais no governo, telégrafos,

correios, bancos, abastecimento etc. (REED, 1977, p.189 et seq; SERGE, 2007, p.

121 et seq). Portanto, o que estava em pauta nesse período era, mediante a ofensiva

militar e os decretos legislativos, a aniquilação política e econômica dos latifundiários

e da burguesia. No campo da educação, o poder soviético tinha como objetivos

oferecer uma educação pública, gratuita, laica e de qualidade para o povo e para os trabalhadores sem distinção de classes, condições dignas de trabalho e vida para os professores. É importante destacar que muito do que foi decretado pelo poder bolchevique vinha sendo pensado e planejado muito antes da tomada do poder político. Foram os temas relativos ao direito de autodeterminação dos povos, das minorias e grupos étnicos russos, a condição da mulher, o programa agrário, a educação, a reorganização do exército, dentre outros. Durante todo o período que antecedeu o Outubro de 1917, Lenin tratou dos mais variados assuntos, incluindo-se a cultura, a literatura, a arte, a educação, a questão da autodeterminação dos povos, de modo que ele submetia suas análises, críticas e ações a respeito desses temas, sempre iluminados sob a perspectiva do derrube do czarismo; da preparação e da eclosão da revolução; da tomada do poder; da construção da sociedade socialista. Ou seja, o político sempre projetava e determinava as análises de Lenin, que apesar da prioridade dada à dimensão

40 Junkers: estudantes das escolas militares de formação de oficiais. 41 Cossacos: povos nômades ou seminômades eslavos das regiões do Dnieper, Don e Volga. Pertenciam ao exército czarista, e assim eram isentos de pagar impostos. Participaram de ataques contra judeus e operários. Após Outubro de 1917 muitos apoiaram o governo dos sovietes e lutaram no Exército Vermelho contra os adversários da revolução (Adaptado de TROTSKI, 2007, p.31, nota 4). A propósito da campanha do Exército Vermelho na frente polonesa, com destaque para a descrição dos destacamentos cossacos, sugerimos a consulta ao belo livro de contos de Isaac Babel intitulado A cavalaria vermelha (BABEL, 1969).

40

política, tinha grande capacidade de transitar entre todos esses tópicos, considerados de grande importância no conjunto de suas ações e reflexões. Dessa forma, das muitas ações praticadas pelo Conselho dos Comissários do Povo, destacamos a questão das declarações e decretos legislativos 42 do governo soviético, os quais tiveram importância fundamental no processo de consolidação do poder proletário. Das dezenas de decretos instituídos 43 , destacamos:

Os decretos de 26 de outubro (8 de novembro) de 1917:

1) decreto sobre a paz: declaração de uma paz justa, imediata e democrática, sem anexações e indenizações; 2) decreto sobre a terra: abolição da propriedade privada da terra sem qualquer indenização. Todas as terras pertencentes aos latifundiários, Coroa, mosteiros, igreja, bem como o gado, dependências físicas e instrumentos de trabalho passavam para o domínio dos Comitês da Terra e dos Sovietes Distritais de Deputados Camponeses; 3) decreto da Constituição do Poder. Instituía um Governo Provisório de Operários e Camponeses, denominado de Conselho dos Comissários do Povo, ao qual caberia a administração dos diferentes setores da atividade estatal, mediante atuação de diferentes comissões, baseadas nas organizações de operários, camponeses e soldados, que no seu conjunto formava um colegiado. O controle das atividades dos Comissários do Povo e o poder de os substituir, caberia ao Congresso dos Sovietes e do seu Comitê Executivo Central. Na ocasião foram nomeados, entre outros: o Presidente do Conselho dos Comissários: Lenin; Educação popular: Lunacharski; Negócios estrangeiros: Trotski. Decretos de novembro de 1917:

1) decreto abolindo as classes e títulos: abolição de todas as classes e divisões de classes, privilégios, limitações de classe, organizações e instituições de classe, títulos de nobreza e categorias civis. Todas as propriedades das

42 Carr (1981) aludiu ao fato de que muitos decretos foram baixados, mas não cumpridos na prática. Isso é previsível, posto que para uma lei ser cumprida não basta ela ser promulgada. Mas supomos que havia dois propósitos relativos à promulgação dos decretos: 1) um propósito prático, qual seja, de instituir uma ordem socialista, que foi alcançada em parte com os decretos e ações da República Soviética; 2) um propósito simbólico: mostrar ao povo russo e ao mundo as ações e os rumos da revolução.

43

Consultar Reed (1977), Serge (2007) e o ANEXO II.

41

organizações e instituições de classe foram transferidas para os governos autônomos municipais; 2) promulgação da Declaração dos direitos dos povos da Rússia, que poderia ser resumido assim: direito de igualdade e soberania dos povos; direito dos povos a dispor de si mesmos, até a se separar para constituir Estados independentes; abolição de todos os privilégios nacionais e religiosos e livre desenvolvimento de todas as minorias nacionais e etnográficas (SERGE, 2007,

p.141-142).

Decretos de dezembro 1917:

1) decreto do controle operário sobre a produção. Além de legalizar a gestão das empresas pelos trabalhadores, o decreto abolia o segredo comercial; 2) decreto da nacionalização dos bancos. Fusão de todos os bancos privados num banco estatal. Expropriação do capital financeiro; Decretos de janeiro de 1918:

1) decreto sobre a anulação dos empréstimos estrangeiros, expropriação do crédito estrangeiro; 2) destaque especial para a Declaração dos direitos do povo trabalhador e explorado; 3) proclamação da República Federativa dos Sovietes da Rússia; Decreto de junho de 1918, referente à nacionalização da grande indústria, com a expropriação do grande capital industrial. Mas, logo após a tomada do poder pelos bolcheviques, quase ninguém, interna e externamente à Rússia, acreditava que eles conseguiriam manter-se no poder. Inclusive a própria cúpula do poder bolchevique tinha consciência de que a revolução só obteria sucesso se ela se tornasse internacional. Foi assim que, segundo Carr (1981, p.19), os países beligerantes fizeram “ouvidos moucos” à declaração de paz dos bolcheviques. O mesmo ocorreu com os primeiros decretos e atos do Conselho dos Comissários do Povo: eles enfrentaram sabotagens, resistência e muitos não foram cumpridos. Porém, com o passar do tempo, o improvável aconteceu: a República dos Sovietes foi conseguindo debelar os focos internos da contrarrevolução e posteriormente assinar um armistício com a Alemanha (Tratado de Brest-Litovsk 44 ),

44 O Tratado de Brest-Litovsk foi assinado na cidade de Brest-Litovsk, que fica na fronteira da Rússia com a Polônia, em 3 de março de 1918, entre a Rússia soviética e a Alemanha e continha condições

42

o que lhe deu condições de atuar em outros setores, inclusive na organização do Estado e do exército. Por outro lado, a saída da República Soviética da guerra

imperialista provocou intensa ira dos países da Entente 45 , já que a partir de então a Alemanha poderia concentrar todo o seu poderio militar apenas na frente ocidental (Idem, ibidem, p.16-17). Mas o crucial ocorreu quando houve a expropriação das grandes indústrias, do capital financeiro e a anulação das dívidas do governo czarista com o exterior. Trotski mencionou que a revolução de outubro de 1917 havia sido uma revolução incruenta, porque o governo anterior estava esgotado e desacreditado. A luta sangrenta só começou depois, quando as classes possuidoras, apoiadas pelos governos da Entente, entram numa luta encarniçada pela conquista do que haviam perdido. Ou seja, quando elas foram atingidas no mais sensível e importante dos

seus pontos: “[

Para se ter uma ideia da dependência da Rússia do capital externo, cite-se

que

O grande império era, no reinado dos últimos Romanovs, meio império e meio colônia. Acionistas ocidentais detinham 90% das minas russas, 50% da sua indústria química, mais de 40% das indústrias metalúrgicas e 42% das ações de bancos. O capital doméstico era escasso. (DEUTSCHER, 1968a, p.10)

]

no bolso [

]

(TROTSKY, 1978a, p.384, grifos nossos).

Tal mecanismo fora explicado por Lenin (LENINE [escrito em janeiro-junho de 1916] 1980a, p.621 et seq) em O imperialismo, fase superior do capitalismo, no tocante à exportação de capitais. Assim, em geral, na exportação de capitais para países atrasados, a obtenção de lucros é elevada, pois nesses países os capitais são escassos e o preço da terra, os salários e as matérias primas são baratas. Mas a exportação só se efetivava em nações que já haviam sido incorporadas ao capitalismo mundial, detendo condições materiais mínimas para o

muito duras para a Rússia. Pelo Tratado, a Rússia abria mão do controle sobre a Finlândia, Países bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia), Polônia, Bielorússia e Ucrânia, bem como dos distritos turcos de Ardaham e Kars, e do distrito georgiano de Batumi. Estes territórios continham um terço da população da Rússia, metade de sua indústria e nove décimos de suas minas de carvão. O governo soviético foi obrigado a assiná-lo, posto que o exército czarista se desagregara e o exército vermelho apenas começava a ser formado. A paz de Brest, apesar de suas condições leoninas, deu ao país dos Sovietes o tempo necessário para acumular forças, derrotando depois a burguesia contra revolucionária interna e a intervenção externa. Após a revolução de novembro de 1918 na Alemanha, o Tratado de Paz de Brest-Litovsk foi anulado pelo Comitê Executivo Central de Toda Rússia. (LENINE, 1980a, p.730, nota 354; LENIN, 1968, p.43, nota 42).

45 Na Primeira Guerra Mundial (agosto de 1914-novembro de 1918), lutaram de um lado as Potências Centrais ou Tríplice Aliança (Impérios Alemão, Austro-Húngaro e Turco-Otomano) e de outro os países da Entente (Grã-Bretanha, França e Império Russo, até 1917 e a partir de 1917 também Estados Unidos) (PARKER, 1993, p.248-249).

43

desenvolvimento do capitalismo internamente (meios de transporte, matérias primas, mão de obra). Lenin também apresentou os locais para onde, em 1910 aproximadamente, o capital estava sendo exportado. Capital inglês: nas suas colônias. França: principalmente Europa e em primeiro lugar na Rússia, sobretudo na forma de empréstimos públicos. Assim, no plano externo, em fins de setembro de 1918 a janeiro de 1919 os Impérios Centrais capitulam e a primeira guerra chega ao fim. Porém, a Europa estava arrasada e à beira da revolução social: grassavam a fome, o desabastecimento e o cansaço do povo em relação à guerra. Com a derrota da Alemanha na guerra, inicia-se a sua revolução, o que é saudado pela República Soviética. Em cartas, Lenin e Trotski exaltaram os acontecimentos, oferecendo apoio aos trabalhadores alemães e evocaram a necessidade da criação de um exército vermelho internacional de 1 a 3 milhões de homens. Foi um momento decisivo na história da humanidade: se a revolução na Alemanha fosse vitoriosa e o proletariado alemão e europeu tivessem aderido à revolução russa, o que teria sido do mundo? Mas, como todos sabemos, isso não aconteceu e, de acordo com o que Lenin já previra, nunca o mundo esteve tão perto da revolução mundial e ao mesmo tempo a revolução russa tão ameaçada (SERGE, 2007, p.405 et seq). Por conseguinte, muitos abandonaram a ideia de que os bolcheviques eram apenas um bando de anarquistas ou espiões da Alemanha e que não durariam muito tempo no poder. Em outras palavras, o bolchevismo foi considerado efetivamente como um perigo concreto para o capitalismo e para a burguesia mundial e por isso devia ser varrido do mapa. Portanto, a decomposição do imperialismo alemão provocou indiretamente para a revolução russa um imenso perigo, pois a partir daquele momento os aliados poderiam direcionar todas as suas forças contra a República dos Sovietes e assim o fizeram. Pior do que isso, a Alemanha e os aliados se uniram contra a República Soviética, deixando claro que os interesses de classe e a sacrossanta propriedade privada eram muito mais importantes do que os interesses do Estado. Formou-se assim uma coalizão imperialista com o claro objetivo de aniquilar a República dos Sovietes (Idem, ibidem, p.405 et seq). Desse modo, se antes os setores dominantes e as classes possuidoras da Rússia (autocracia, burguesia, pequena burguesia) não acreditavam no sucesso da revolução, eram hostis e contrários ao poder proletário,

44

foi preciso que acontecesse a expropriação da propriedade privada e dos meios de produção e o apoio da coalizão imperialista para que a guerra civil efetivamente começasse. Assim, com o fim da primeira guerra, os países imperialistas e a contrarrevolução interna se organizam e investem numa guerra civil sangrenta e sem precedentes, cujo resultado, em termos de mortos, foi da ordem de 13 milhões de pessoas, quando computadas as mortes decorrentes dos combates, da fome e das doenças (PARKER, 1995). Tal ferocidade é compreensível, posto que uma guerra entre nações é muito diferente de uma guerra entre classes. No primeiro caso, ainda podem existir códigos de ética e leis internacionais que garantam, pelo menos teoricamente, regras de conduta entre os combatentes:

O que acontece é que as guerras entre Estados são, habitualmente, guerras intestinas entre ricos, que professam uma mesma

ética de classes, uma mesma concepção do direito. Tem sido mesmo muito forte, em certas épocas, a tendência a reduzir a arte da guerra a um jogo

bastante convencional. [

da guerra com respeito a povos que consideram inferiores, do mesmo modo, na guerra entre as classes, as classes dirigentes, convencidas de estar defendendo a “civilização” contra a “barbárie” operária, acreditam que todos os meios são lícitos. Estão em jogo interesses demasiado grandes, todas as convenções são abolidas e como a ética - não existe uma ética humana, só existem éticas de classes ou de grupos sociais – deixa de exercer sobre os combatentes sua ação moderadora, as classes exploradas rebeladas são declaradas pela contrarrevolução “indignas da humanidade”. (SERGE, 2007, p.139)

]

Os europeus só se afastam das regras atuais

46

Desse modo, uma guerra entre classes é completamente diferente, pois o extermínio é uma necessidade tanto histórica quanto de cálculo, já que do ponto de vista quantitativo a classe trabalhadora é a mais numerosa. Portanto, as classes dominantes sabem que só poderão garantir seu domínio após vencer e infligir à classe trabalhadora uma sangria violenta que a debilite por muitos anos (Idem, ibidem, p.241).

desde a Antiguidade, que as guerras entre

as classes são as mais terríveis. Não há vitórias mais sangrentas e mais atrozes do que as das classes reacionárias.” (Idem, ibidem, p.238-239). O autor se referia também aos atos praticados pela burguesia francesa na Comuna de Paris e às

ações do terror branco na Finlândia, quando o proletariado foi praticamente dizimado. Em resumo:

Por conseguinte, sabemos, “[

]

46 A primeira edição do livro de Victor Serge data de 1930.

45

O extermínio total de todos os elementos avançados e consistentes do proletariado é, em suma, o objetivo racional do terror branco. Nesse sentido, uma revolução vencida – independentemente de suas tendências – sempre custará muito mais caro ao proletariado do que uma revolução vitoriosa, sejam quais forem os sacrifícios que esta última possa exigir. (Idem, ibidem, p.241, grifos do autor)

É por isso que a classe trabalhadora, os expropriados ou os explorados em geral, quando envolvidos numa guerra civil, não podem se dar ao luxo de ser derrotados. Mas não podemos ser ingênuos: após alguns momentos iniciais de hesitação e certa condescendência para com os contra revolucionários brancos 47 , o poder proletário investiu tudo na aniquilação da contrarrevolução, dos guardas brancos e de todos os opositores ao sistema. Logo, a ferocidade da guerra contaminou ambos os lados.

1.1.3 O comunismo de guerra Foi na época da guerra civil que foi implantado o “comunismo de guerra”, em meados de 1918. De acordo com Carr (1981, p.27 et seq), o termo expressou um sentido contraditório e na prática representou a prioridade máxima dada à guerra para vencer a contrarrevolução, em que quase toda a produção foi direcionada para abastecer, equipar e dar condições ao exército para combater. Os alimentos eram a prioridade e assim foram emitidos decretos para confisco e distribuição de víveres. Ocorreu também a nacionalização dos principais ramos da indústria, o recrutamento para o serviço militar e os sindicatos foram postos de lado e se tornaram braços do Estado. A partir de então, muitas posições assumidas antes da revolução pelos bolcheviques foram abandonadas na prática (o poder aos sovietes; a autonomia dos trabalhadores; a defesa da liberdade no socialismo etc.) (Idem, ibidem, p.27 et seq). Para Rodrigues, L. M. e Fiore (1978, p.13), o comunismo de guerra correspondeu aos anos

da ampliação do controle estatal sobre a economia, da consolidação do poder dos bolcheviques sobre o aparelho de Estado, da eliminação da burguesia privada, do desaparecimento dos mecanismos de mercado e da

[

]

47 Serge (2003, p.135 et seq) relatou que logo após a destituição do governo provisório em outubro de 1917, a guarda vermelha revolucionária enfrentou alguns focos de resistência contra revolucionária em Petrogrado, mas que foram debelados com relativa facilidade e os inimigos contra revolucionários tiveram suas vidas poupadas. Foi um grave erro, pois os sobreviventes espalharam-se pelo país e formaram novos focos de contrarrevolução que posteriormente vieram a receber apoio estrangeiro.

46

moeda. No tocante ao campesinato, o período é marcado pelas requisições

forçadas de cereais e pela tentativa de levar o comunismo ao campo [

].

De acordo com Deutscher (1968b, p.522), foi nessa época que

Os bolcheviques lutaram para exercer o mais rigoroso controle sobre os escassos recursos, e desse esforço nasceu o comunismo de guerra. Nacionalizaram toda a indústria. Proibiram o comércio privado. Enviaram destacamentos de trabalhadores para o interior, para requisitar alimentos para o Exército e os moradores da cidade. O governo era incapaz de recolher tributos normais: não dispunha de uma máquina para tanto. Para cobrir despesas, as prensas fabricavam dinheiro dia e noite. A moeda desvalorizou-se tanto que os salários tinham de ser pagos com mercadorias. A magra ração de alimento constituía o salário básico. O trabalhador também era pago com parte de sua produção, um par de sapatos ou algumas peças de roupa, que habitualmente trocava por alimentos.

comunismo de guerra não foi

imposto como parte de um plano predeterminado.” Em sua totalidade, as ações

formavam um conjunto desesperado de expedientes em função da prioridade

absoluta destinada à guerra. A propósito, Lenin teria afirmado: “[

tudo pela vitória

no fronte da guerra civil, e nada mais ]” [ 48 (LENIN, s.d. apud FERNANDES, 1978,

p.169). Ele também asseverou que o “[

‘comunismo de guerra’ foi-nos imposto

pela guerra e pela ruína. Não foi nem podia ser uma política que correspondesse às

tarefas econômicas do proletariado. Foi uma medida provisória.” (LENINE 49 [escrito

em 21 de abril de 1921], 1980c, p.502).

Segundo Carr (1981, p.28), durante vários meses o regime viveu sem

qualquer planejamento. Não havia estratégia a longo prazo e as medidas eram

tomadas visando unicamente a sobrevivência imediata (HOBSBAWM, 1995, p.66 et

seq).

Nove (1986, p.108) também destacou o caráter ideológico do comunismo de

guerra, na medida em que alguns defendiam a ideia segundo a qual, através

daquelas práticas, ingressava-se num “atalho” para o comunismo, quando da

adoção da proibição do comércio privado e da eliminação do dinheiro. No plano

político, recrudesceu a centralização política e a hegemonia do partido único, que se

tornou sinônimo de Estado. Porém, a situação era clara: o comunismo de guerra foi

adotado não como um plano, mas como um conjunto de medidas para se vencer a

guerra.

Nove (1986, p.108) declarou que o “[

]

]

]

48 Rapport d’activité politique du Comité Central du Parti Communiste (b) de Russie Le 8 mars. In:

LENIN. Oeuvres, v.32, déc. 1920 /août. 1921, p.176-199.

49

Sobre o imposto em espécie.

47

Sendo assim, esse sistema não poderia funcionar por muito tempo. As requisições de alimentos à força e a proibição do comércio privado permitiram que o governo controlasse as situações mais graves e emergentes, mas a longo prazo essas ações agravaram e aceleraram a desintegração da economia. O camponês começou a produzir apenas o necessário para sua sobrevivência e na medida em que não havia alimento suficiente para a cidade, os fundamentos da civilização urbana praticamente desabaram, de modo que:

As cidades da Rússia tornaram-se despovoadas. Os trabalhadores dirigiram-se ao campo para fugir à fome. Os que ficavam para trás desmaiavam nas bancas de trabalho, produziam muito pouco e frequentemente roubavam o que produziam, para trocá-lo por alimento. O velho mercado formal fora, realmente, abolido. Mas seu filho ilegítimo, o mercado negro, saqueava o país, deformando e pervertendo, vingativamente, as relações humanas. Isso poderia continuar por mais um ano, aproximadamente, mas inevitavelmente o fim seria o colapso de todo o governo e a dissolução da sociedade. (DEUTSCHER, 1968b, p.523)

De acordo com Reis Filho (2003, p. 70 et seq) a situação era desesperadora

e o governo revolucionário parecia condenado. Mas aos poucos o improvável tornou

a acontecer. Assim, ao final de 1919 – início de 1920, em função de um conjunto de

fatores e condições contrários à contrarrevolução e à intervenção estrangeira, a correlação de forças tinha se alterado de forma radical em favor dos bolcheviques e no ano de 1921 a Rússia finalmente encontrou a paz: “Os Exércitos Brancos foram dissolvidos e desapareceram. Os exércitos da intervenção se retiraram. A paz com a Polônia foi firmada. As fronteiras europeias da Federação Soviética foram traçadas e consolidadas.“ (DEUTSCHER, 1968c, p.14). Logo, a contrarrevolução estava debelada, mas

O país estava simplesmente arrasado. O produto industrial registrava um declínio de mais de dois terços. Na grande indústria, a perda chegava a 80%. A produção de petróleo, energia elétrica e carvão caíra em mais de 70%. Em relação a outros setores estratégicos para o equilíbrio da economia, como ferro, aço e açúcar, uma situação ainda mais desoladora:

quase 100% de queda. O mesmo ocorria no tocante ao comércio externo. Quanto à produção agrícola, diminuição de quase metade. Dados e estatísticas desfavoráveis, mas ainda faltaria acrescentar as epidemias, o desgaste extremo, as crueldades típicas dos processos de guerra civil, os traumas provocados pelo emprego sistemático do terror – vermelho e branco -, incontáveis atrocidades, gerando um processo de brutalização das relações sociais, caldo de cultura política que oferece o quadro que ajuda a compreender muitos episódios que ainda haveriam de vir. (REIS FILHO, 2003, p.71-72, grifos do autor)

Por todo o país havia a devastação, a fome, a desorganização:

48

Os anos de guerra mundial, Revolução, guerra civil e intervenção provocaram a ruína total da economia russa e a desintegração de sua estrutura social. Os bolcheviques tiveram de arrancar de uma economia arruinada os meios da guerra civil. Em 1919 o Exército Vermelho já consumira todos os estoques de munições e outros abastecimentos. As indústrias sob controle soviético não podiam substituí-los senão parcialmente. Normalmente, a Rússia meridional fornecia combustível, ferro, aço e matéria-prima às indústrias da Rússia central e setentrional. Mas o Sul do país, ocupado primeiro pelos alemães e depois por Denikin 50 , só esteve sob controle soviético em períodos intermitentes e breves. Quando finalmente, em fins de 1919, os bolcheviques voltaram a ocupá-lo para sempre, verificaram que as minas de carvão do vale do Donetz foram inundadas, e as outras indústrias destruídas. Privados de combustível e matéria-prima, os centros industriais do resto do país ficaram paralisados. Mesmo em fins de 1920 as minas de carvão produziam menos de um décimo e as usinas de ferro e aço, menos de um vigésimo da produção de antes da guerra. A produção de bens de consumo era cerca de um quarto do normal. O desastre tornou-se ainda pior com a destruição dos transportes. Em todo o país, as linhas ferroviárias e as pontes foram dinamitadas. O material rolante não fora renovado e raramente fora submetido a uma manutenção adequada, desde 1914. O transporte aproximava-se, inexoravelmente, de um ponto morto. (DEUTSCHER, 1968b, p.521-522)

No plano internacional e contrariando as previsões dos bolcheviques, a revolução proletária não aconteceu e a Rússia ficou isolada. Internamente, as requisições forçadas de alimentos provocaram grande descontentamento no campo, ameaçando seriamente o poder bolchevique e a frágil aliança com o proletariado. Para complicar mais ainda a situação, em 1921 explode a revolta dos marinheiros de Kronstadt, desta vez contra o governo operário, que entre outras coisas, clamavam por democracia e o retorno aos princípios da Revolução de Outubro. Nas cidades, o descontentamento e a fome também eram generalizados. No inverno de 1921-22, houve uma grande fome, que junto com as epidemias, matou cerca de cinco milhões de pessoas. Assim,

Uma das piores fomes da História visitou as populosas terras agrícolas do Volga. Já na primavera de 1921, pouco depois do levante de Kronstadt, Moscou alarmara-se com as notícias sobre secas, tempestades de areia e uma invasão de gafanhotos nas províncias do sul e sudeste. O governo engoliu seu orgulho e pediu socorro às organizações filantrópicas

Em fins do ano, o número de famintos se elevara

burguesas no exterior. [

a 36 milhões. Multidões incontáveis fugiam ante as tempestades de areia e os gafanhotos e vagavam num desespero sem objetivo, pelas planícies

enormes. Reapareceu o canibalismo e as capitais mostravam apenas um cadavérico arremedo dos altos ideais e aspirações socialistas. (Idem, 1968c, p.15)

]

Havia um quadro de descontentamento generalizado e a sociedade estava à beira da dissolução. A política do comunismo de guerra tornara-se inviável. Desse

50 Denikin – líder contra revolucionário que comandou tropas durante a guerra civil contra o poder soviético.

49

modo, era preciso adotar medidas não para construir o socialismo, mas para matar a fome e reconstruir o país. Tais medidas teriam nome: a Nova Política Econômica (REIS FILHO, 2003, p.77 et seq).

1.1.4 A Nova Política Econômica e a adoção do modelo de Partido

Único

No X Congresso do Partido Comunista, em março de 1921, Lenin (LENINE [publicado integralmente pela primeira vez em 1963], 1980c) lançou formalmente a Nova Política Econômica, ou a política econômica do Estado proletário na passagem do capitalismo ao socialismo. Nova, para diferenciá-la da política econômica adotada durante a guerra civil (o comunismo de guerra). Na ocasião, Lenin reconheceu o erro de se tentar passar imediatamente ao comunismo pela adoção do comunismo de guerra e anunciou as principais medidas a serem adotadas.

A partir daí, a RSFSR passava para uma política econômica de estímulo à pequena empresa, de reativação do comércio privado, de reanimação do capitalismo, de concessões ao capital estrangeiro. Na agricultura, a NEP significava principalmente a substituição das requisições forçadas de matérias-primas e víveres (especialmente de trigo) para uma política que Lenin denominaria de “imposto em espécie”. Os camponeses, depois da entrega de uma parcela de sua produção ao Estado, poderiam comercializar o restante no “mercado capitalista” e obter certo lucro. (RODRIGUES, L. M. e FIORE, 1978, p.18)

A NEP não foi um modelo elaborado mais do que havia sido o comunismo

de guerra. As principais medidas adotadas foram: as requisições de alimentos foram substituídas por um imposto em espécie e depois de pago o imposto, o excedente poderia ser comercializado; restabelecimento da pequena propriedade privada na indústria e serviços em geral. Isto é, foi permitido o comércio ao nível da produção e da circulação de mercadorias (NOVE, 1986; REIS FILHO, 2003, p.77 et seq).

A ideia era fazer concessões e reativar o capitalismo, sob a tutela do Estado

proletário num país em que a terra, as fábricas e o sistema monetário haviam sido

portanto, era permitir o intercâmbio capitalista, apesar

de todos os riscos políticos aí envolvidos.” (RODRIGUES, L. M. e FIORE, 1978, p.19). Lenin admitiu que a NEP era um retrocesso, pois haveria certo retorno ao capitalismo, na medida em que o lucro, o livre intercâmbio de mercadorias, o enriquecimento individual seriam permitidos e mesmo estimulados. Seria um retrocesso ante as expectativas dos bolcheviques. Porém, na

estatizados. O princípio, “[

]

50

medida em que os meios de produção haviam sido estatizados, a crença era a de não havia como retroceder ao modo de produção capitalista propriamente dito. O objetivo então era desenvolver aquilo que Lenin denominou de capitalismo de Estado, posto que o capitalismo ocorreria sob a tutela do Estado soviético (Idem, ibidem, p.19-20). Enfim, com a NEP, o objetivo era reconstruir uma economia devastada pela guerra; amenizar o descontentamento no campo e tentar restabelecer os laços entre o campesinato e o proletariado; desenvolver imediatamente o capitalismo sob a tutela do Estado proletário e consequentemente alcançar o desenvolvimento das forças produtivas. No plano político, se durante a economia de guerra houve concentração da autoridade política mediante a centralização do poder no Partido, tal concentração intensificou-se ainda mais, de modo que todos os partidos de oposição foram eliminados e proibidas a oposição formal e as divisões internas. Na prática, os bolcheviques se apropriaram do poder do Estado e debelaram a oposição dos outros partidos, de modo que o Partido e o Estado progressivamente vão se tornando sinônimos (CARR, 1981, p.39 et seq; NOVE, 1986; RODRIGUES, L. M. e FIORE,

1978).

Deutscher (1968a; 1968c) e Serge (2007) mencionaram que vários foram os motivos pelos quais os bolcheviques agiram no sentido da centralização do poder, do abandono dos ideais de democracia e liberdade dos sovietes. Após anos de guerra, a classe trabalhadora fora quase dizimada, restando apenas uma sombra dela. Os operários encontravam-se dispersos e sem coesão – seus quadros mais combativos, corajosos e inteligentes haviam morrido ou foram incorporados ao governo e assim muitos se “burocratizaram”. Havia ainda os que se tornaram declassés: com as fábricas praticamente paradas, muitos trabalhadores fugiram para o campo, onde era mais fácil conseguir comida e outros viviam do mercado negro, muitas vezes negociando mercadorias roubadas das fábricas. Deutscher (1968c, p.20 et seq) declarou que ocorreu o virtual desaparecimento num breve lapso de tempo de uma classe social vigorosa e militante no cenário político, associado à quase desagregação da sociedade. Logo, formou-se um vácuo político e social que precisava ser recomposto com rapidez. O partido encontrava-se numa encruzilhada histórica e num dilema ético atroz – continuar no poder sem o respaldo da classe operária, renunciando aos princípios

51

de liberdade, democracia, legitimidade das organizações soviéticas e da revolução de Outubro, ou entregar o poder? Assim, os bolcheviques substituíram a classe trabalhadora pelo seu próprio partido, assumindo-se como partido único. A ditadura do proletariado, cujo poder se assentava nas organizações soviéticas, acabou por se tornar a ditadura do partido bolchevique:

sua intenção [do partido bolchevique, era] de reagrupar, no curso da

reconstrução econômica, uma nova classe trabalhadora que deveria ser capaz, no devido tempo, de tomar nas mãos o destino do país. Enquanto isso, o Partido Bolchevique mantinha-se no poder pela usurpação. (Idem, ibidem, p.20)

] [

As consequências disso são previsíveis: o partido e o governo perderam sua vida interna, sua vitalidade, seu caráter democrático, de discussão, de contraposição. Os debates teóricos e práticos praticamente desapareceram. Logo, o poder se concentrou no “núcleo duro”, composto pela velha guarda bolchevique, que com muita dificuldade ainda mantinha e valorizava a disciplina, os valores e ideais da revolução e do socialismo de antes da guerra civil. Mas mesmo assim, muitos deles se renderam à corrupção pelo poder, às pressões sociais, ao cansaço e a outras influências (Idem, ibidem, p.31). Por conseguinte, os bolcheviques assumiram a posição de uma elite revolucionária sem classe revolucionária para respaldá-la. O argumento deles era que o recrudescimento da centralização e da violência era também uma resposta inevitável à atuação daqueles que empregavam todos os meios para derrubar o governo dos sovietes: a ofensiva militar, o bloqueio econômico, as sabotagens internas e o terrorismo (que fora empregado contra um diplomata alemão e contra a vida de Lenin). Não se deve esquecer que o governo proletário havia saído recentemente de uma guerra civil por demais violenta, em que as partes beligerantes entregaram- se a uma luta feroz e encarniçada. Vencida a guerra, os bolcheviques não podiam correr o risco de entregar o poder aos inimigos que eles haviam acabado de vencer. A propósito, Deutscher (1968a, p.29-30) nos explicou:

Por via de regra, uma guerra civil resulta no monopólio do poder pelos vencedores. O sistema de partido único converteu-se numa necessidade inevitável para os bolcheviques. Sua própria sobrevivência e, sem dúvida, a da Revolução, dependiam disso. Não visavam tal medida com premeditação. Estabeleceram-na com apreensão, como um expediente temporário. O sistema de partido único ia contra as inclinações, a lógica e as ideias de Lenin, Trotski, Kamenev, Bukarin, Lunacharski, Rikov e tantos

52

outros. Mas a lógica da situação impôs-se e fez tábua rasa de suas ideias e escrúpulos. O expediente temporário converteu-se em norma. O sistema de partido único adquiriu uma permanência e um ímpeto próprios.

Portanto, a concentração do poder do partido, de exceção tornou-se regra. Contudo, isso teve o seu revés trágico – ela foi a base de sustentação da

]

origens autênticas da chamada

(Idem, ibidem, p.28), que será analisada

posteriormente por nós sob o título de contrarrevolução burocrática 51 (BENSAID,

2000a, p.171 et seq).

degenerescência burguesa do regime [

ditadura stalinista. Essas foram as “[

]”

1.2 Elementos políticos 1.2.1 O papel e a importância de Lenin para a Revolução Bolchevique de Outubro de 1917

A vitória da revolução russa em outubro de 1917 fundou, pela primeira vez, um Estado com direção marxista. Estrategista e líder da primeira e maior revolução socialista no mundo, do Partido Bolchevique e do movimento comunista internacional, Lenin ocupa na história do marxismo um lugar precedido somente por Marx. Ele foi definido como “talvez o maior revolucionário de todos os tempos” 52 . As consequências da sua atividade na história do mundo fizeram com que muitos o considerassem o personagem mais importante deste século. Sua prática revolucionária liga-se à adaptação criativa e original do marxismo aos problemas de um mundo bastante diferente daquele no qual Marx e Engels elaboraram as suas ideias. Sua obra, tanto teórica como prática, que se desdobrou nos mais variados campos, suscitou infinitas discussões. (JOHNSTONE, 1985,

p.113).

Vista em perspectiva, a figura de Lenin confunde-se com a história da Revolução de Outubro. Ele pertenceu ao Partido Social Democrata Russo 53 e foi um incansável organizador do partido revolucionário, além de fazer a crítica e romper com as concepções revisionistas, reformistas e oportunistas 54 da Europa ocidental e da II Internacional. Lenin renovou de forma original a teoria da revolução marxista, aclimantando o marxismo à realidade russa, ao produzir uma síntese que preservou elementos ortodoxos do marxismo com a tradição política russa. Essa tarefa foi a

51 Consultar o item 4.3.5 Contrarrevolução burocrática, carência, escassez e educação.

52 CARR, E.H. La rivoluzione bolscevica (1917-1923). Turim, 1964, p.26. 53 O Partido Operário Social-Democrata Russo, ou POSDR foi um partido político socialista russo fundado em 1898 em Minsk, com o objetivo de unir as várias organizações revolucionárias em um partido único. O POSDR mais tarde se dividiria nas facções Bolcheviques (bol’chinstvo, maioria) e Mencheviques (men’chinstvo, minoria), dando origem aos Partidos Bolchevique e Menchevique, respectivamente. Após Outubro de 1917, os bolcheviques assumem a primazia política do Conselho dos Comissários do Povo e tornam-se o Partido Comunista da Rússia (bolchevique) - PCR(b) - e posteriormente Partido Comunista da União Soviética (PCUS) (REIS FILHO, 2003, p.40).

54 Sobre as críticas de Lenin ao economicismo, oportunismo, reformismo, sugerimos consultar Que fazer?

53

a epítome de um século de esforços revolucionários russos.” (DEUTSCHER,

1968a, p.15) 55 . Superando criticamente algumas vertentes socialistas, Lenin sistematizou um pensamento segundo o qual a via para o socialismo deveria passar por uma tomada violenta do poder. Tratava-se de uma revisão da teoria marxista da revolução, em que as condições políticas assumiam proeminência relativa em relação à maturidade das condições econômico-sociais (BENSAID, 2000b, REIMAN, 1985). Ou seja, ele não pensava que a revolução aconteceria só quando se instalassem as condições objetivas ideais. De modo diferente, aproveitava todas as condições objetivas existentes (os ganhos em termos da democracia burguesa; a atividade operária; as vacilações dos setores e partidos burgueses e pequenos burgueses; a insatisfação social etc.), sempre visando a curto, médio e longo prazo os objetivos finais da destruição completa do capitalismo; o período de transição do capitalismo ao comunismo e a edificação do comunismo (FERNANDES, 1978, p.19). É sob tal ótica que Lenin via sempre os problemas particulares como momentos de um projeto de ação política e social mais amplo (STRADA, 1987, p.115). Assim, Lenin era firme e inflexível quanto aos seus princípios e objetivos finais e estratégicos, mas pragmático e extremamente flexível na interpretação dos

“[

]

fatos, na leitura das condições objetivas e nas possibilidades de ação imediata na luta revolucionária para se alcançar aqueles objetivos estratégicos (FERNANDES, 1978, p.12). Implacável e inflexível contra os inimigos de classe, era otimista, incentivador, esperançoso e camarada para com a classe trabalhadora.

a adequação

instrumental, institucional e política do marxismo à concretização da revolução proletária.” (Idem, ibidem, p.16). É dessa forma que o ponto central da tomada do poder se constitui em saber como o proletariado, enquanto classe oprimida e explorada chega ao poder, concentrado e disciplinado de forma revolucionária. Tal era a essência do problema político da sociedade de classes, que só poderia ser resolvido mediante a definição das formas possíveis de luta

Foi assim que ele impôs a si como tarefa de sua vida “[

]

55 Para uma visão mais detalhada da análise de Lenin a respeito dos problemas relacionados ao movimento operário, socialista e revolucionário europeu e russo ao final do século XIX – início do século XX; bem como suas críticas acerbas contra as tendências reformistas, revisionistas e economicistas existentes à época, recomendamos consultar Que fazer? e A doença infantil do “esquerdismo” no comunismo.

54

revolucionária dentro da sociedade de classes, por meio: 1) da atuação do partido revolucionário, como vanguarda; 2) da ruptura radical com todas as formas diretas ou indiretas, visíveis ou invisíveis de acomodação à ordem burguesa; e 3): da

educação política do proletariado e, na medida do possível, das massas

pobres e da pequena burguesia, através de situações e de reivindicações concretas, do desenvolvimento da consciência de classe e da agudização (aos níveis econômico, sócio-cultural e político) dos conflitos de classe. (Idem, ibidem, p.17-18, grifos nossos)

] [

O percurso, as preocupações e ações de Lenin entre fevereiro a outubro de 1917 são conhecidos (ZIZEK, 2005) – colérico, intransigente, desesperado –, em que ele exorta, planeja, organiza e lidera, juntamente com Trotski, a insurreição de 25 de outubro de 1917. Em outras palavras, ele foi o principal dirigente da revolução bolchevique em suas diferentes etapas e particularmente na fase decisiva da revolução (FERNANDES, 1978, p.5). Segundo Hobsbawm (1995, p.67), o gênio de Lenin foi transformar a massa incontrolável e anárquica, quando da eclosão da revolução, em poder bolchevique. Com efeito, ele representou a vontade sublimada das aspirações revolucionárias e socialistas do proletariado e do povo russo e foi

o verdadeiro artífice da vitória, nos momentos difíceis da tomada do

poder e da construção das estratégias vinculadas à destruição da ordem burguesa, à consolidação do Estado proletário e à transição gradual para o socialismo sob a hegemonia do poder soviético – bem como o inspirador da rearticulação do internacionalismo socialista como movimento mundial.

(FERNANDES, 1978, p.7)

] [

Porém, não se deve transformar a história da revolução de outubro na história de um gênio solitário pairando acima das massas, do partido e das organizações soviéticas. Lenin foi vitorioso porque soube calibrar de forma rigorosa e precisa suas ações ao curso da história, de modo que seus apelos encontraram eco na incrível explosão de democracia popular (ZIZEK, 2005, p.11). Outro grave erro seria desconsiderar o papel e a importância do Partido Bolchevique:

A Revolução de Outubro nos oferece o exemplo de um partido proletário, por assim dizer, ideal. Relativamente pouco numeroso, na verdade, seus militantes vivem com as massas, no seio das massas; longos anos de provações – uma revolução, a ilegalidade, o exílio, a prisão, incessantes lutas de ideias – formaram seus quadros admiráveis e chefes autênticos, cuja ação comum concretizou a unidade de pensamento. A iniciativa de todos e o realce de personalidades fortes se harmonizam no partido com uma centralização inteligente, uma disciplina voluntária, o respeito às direções reconhecidas. Esse partido, dotado de excelente aparelho de organização, não apresenta a menor deformação burocrática. Nele não se observa nenhum fetichismo, não possui tradições malsãs ou sequer

55

equívocas; sua tradição principal é a da guerra ao oportunismo; ele é revolucionário até a medula dos ossos. (SERGE, 2007, p.83)

Seu núcleo duro era composto por alguns jovens inteligentes, disciplinados e dedicados até a alma à causa do socialismo e da revolução. Em seu conjunto, sob a liderança de Lenin, Trotski, Krilenko e outros, o Partido formava um todo organizado e combativo, disposto a ir às últimas consequências por seus ideais. Essa é a história não contada da Revolução de Outubro, o oposto do mito de um pequeno grupo de revolucionários implacavelmente dedicados que deram um golpe de Estado.” (ZIZEK, 2005, p.11). Lenin se considerava um marxista e procurou ser um marxista ortodoxo. Ele foi diretamente aos textos de Marx e Engels, estudando-os sistematicamente, mas também procurou dominar os autores que fundamentaram as bases da formação do marxismo, entre eles Hegel. Foi assim que sua primeira obra de fôlego, O desenvolvimento do capitalismo na Rússia, evidenciou que Lenin detinha um completo domínio crítico das teorias econômicas de Marx e do materialismo histórico e que ele se sustentava nas teorias econômicas de Marx como hipóteses diretrizes, assegurando um trabalho criativo aplicado à realidade russa (FERNANDES, 1978,

p.14).

 

Ele também detinha um agudo senso dialético, posto que a dialética exige

que “[

]

um fenômeno social seja estudado sob todos os ângulos, e que a

aparência, o aspecto exterior seja reduzido às forças motrizes capitais, ao desenvolvimento das forças produtivas e à luta de classes.” 56 (LENIN, s.d. apud FERNANDES, 1978, p.28). Nesse sentido, as estruturas não podem ser tomadas em si e por si mesmas, mas como elementos dinâmicos, concretos, reais, em movimento – as condições histórico-sociais concretas, cujos fundamentos seriam o desenvolvimento das forças produtivas e a luta de classes. Lenin não era daqueles que esperam o tempo certo, mas aquele que percebe a perspectiva revolucionária como algo real que deve ser apreendida a partir dos desvios e contradições do sistema. Era o tipo de homem que “faz história”, isto é, age nos acontecimentos, modificando-os e transformando-os (ZIZEK, 2005, p.14). Não se trata de subjetivismo voluntarista, mas da união indissolúvel entre a aguda capacidade de apreensão e de intervenção no real.

56 LENIN. Oeuvres, v.21, août.1914/déc. 1915, s.d., p.221.

56

O saber político em Lenin assume nuanças e flutuações, que resulta das múltiplas aplicações nas situações, problemas e dramas coletivos. Ele emerge sob o signo da história e ao mesmo tempo procura “fazer a história” – acelerar e alterar o rumo dos acontecimentos (FERNANDES, 1978, p.35). É assim que Lenin dotava a política de uma temporalidade própria:

Quer se trate da representação, da organização, da estratégia, o pensamento político de Lenin é a cada momento a elaboração de uma temporalidade específica. Culmina na compreensão de crises, de guerras e de revoluções, do momento insurrecional decisivo. (BENSAID, 2000b,

p.186).

Em mais de uma vez Lenin expressou-se sobre esse assunto, como na “metáfora da corrente” e nas transcrições subsequentes:

Não basta ser revolucionário e partidário do socialismo ou comunista em geral. É necessário saber encontrar em cada momento particular o elo particular da cadeia a que temos de nos agarrar com todas as forças para reter toda a cadeia e preparar solidamente a passagem para o elo seguinte; a ordem dos elos, a sua forma, o seu encadeamento, a diferença entre uns e outros na cadeia histórica dos acontecimentos não são tão simples nem tão rudimentares como uma cadeia vulgar feita pelo ferreiro. (LENINE 57 , [escrito entre 13 e 26 de abril de 1918], 1980b, p.585)

É importante compreender que, em tempo de revolução, a situação objetiva muda tão rápida e bruscamente como corre rapidamente a vida em geral. E devemos saber adaptar nossa tática e nossas tarefas imediatas às particularidades de cada situação. (LENIN 58 , [escrita entre final de março e início de abril de 1917], 2005, p.54, grifos do autor)

As dificuldades são imensas. Estamos acostumados a lutar contra dificuldades imensas. Não sem razão têm dito nossos inimigos que somos “firmes como a rocha” e que representamos uma política que “faz estalar os ossos”. Mas aprendemos também, ao menos até certo ponto, outra arte imprescindível na revolução: a flexibilidade, o saber mudar de tática com rapidez e decisão, partindo das transformações verificadas nas condições objetivas e escolhendo outro caminho para alcançar nossos fins, se o que seguíamos revela-se inconveniente ou impossível num período determinado. (LENIN 59 [escrito em 14 de outubro de 1921], 1968, p.133).

Segundo Lukács (2009, p.126), Lenin representou magistralmente a XI Tese sobre Feuerbach, segundo a qual a filosofia deveria passar da reflexão para a transformação da realidade. Lenin encarnou a práxis como a indissolúvel associação entre teoria e prática, em que se sobressai sua grande capacidade de “leitura teórica” do real, adequando-a à consecução de ações para transformação desse mesmo real. Ou seja, para ele, a transformação da realidade jamais estava

57 As tarefas imediatas do poder soviético.

Cartas de longe. 59 Por ocasião do IV Aniversário da Revolução de Outubro.

58

57

dissociada da sua análise crítica, profunda e rigorosa, mas adequada a cada situação e problema particulares.

1.2.2 O pensamento político de Lenin

Lenin nasceu, cresceu e viveu para a ação política – não para a ação política comum ou convencional, dentro das regras do jogo, para a qual também estaria credenciado, mas para a ação política revolucionária, consagrada ao socialismo. Todo o seu pensamento é político: em suas origens, em suas motivações ou em seus alvos. (FERNANDES, 1978, p.33).

Para Lenin, a política se baseia em algumas premissas já expostas anteriormente. Ou seja, sua motivação política está associada à destruição da autocracia e do capitalismo e à construção do socialismo e do comunismo. E o agora é dado pelas possibilidades imediatas do que é necessário fazer para se alcançar estes objetivos. Lenin expressou sua posição sobre o que é a política em pelo menos duas ocasiões. Em seu discurso na Conferência de toda a Rússia dos Comitês de Instrução Política das secções de Gubernia 60 e UEZD 61 da instrução pública ele

(LENINE [proferido em 3 de

novembro de 1920], 1980c, p. 405). E quando da realização do X Congresso do

PCR(b), em março de 1921, ao fazer um balanço do comunismo de guerra e lançar

a NEP: “A política é a relação entre as classes [

Note-se que o emprego dos termos luta e relação para ambas as acepções do que é política explica-se pelo contexto em que foram proferidas. No primeiro caso, o termo luta se relaciona com a tarefa de vencer a resistência dos capitalistas, no campo militar, ideológico e político. Já o contexto em que Lenin se refere ao termo relação trata-se da necessidade de se restabelecer a união entre os camponeses e os trabalhadores, profundamente abalada naquele momento pela adoção do comunismo de guerra. Isto é, o emprego de termos diferentes se justifica pelos contextos diferentes em que as frases foram proferidas. O que se sobressai é que nos dois casos a política se caracteriza por uma relação que se estabelece entre as classes, a qual pode ou não ser de luta ou de oposição.

asseverou: “A política é a luta entre as classes [

].”

]”

(Idem, ibidem, p.484).

60 Gubernia - província ou unidade territorial e administrativa da Rússia. As gubernias dividiam-se em uezdes (distritos), que por sua vez dividiam-se em vólosti (subdistritos). Este sistema prevaleceu de 1708 a 1929, quando houve uma reforma administrativa. (CARVALHO, F. M. de 2005a, p.13).

61

Ver a nota anterior.

58

No caso do conceito de classe social, baseamo-nos primeiramente no texto Uma grande iniciativa, no qual, ao tratar da supressão das classes sociais, Lenin ([escrito em 28 de junho de 1919] 1968, p.76) expressou sua concepção de classe social da seguinte forma:

As classes são grandes grupos de homens que se diferenciam entre si pelo lugar que ocupam num sistema de produção social historicamente determinado, pelas relações em que se encontram com respeito aos meios de produção (relações que as leis referendam e formulam em grande parte), pelo papel que desempenham na organização social do trabalho, e, consequentemente, pela maneira e pela proporção em que percebem a parte de riqueza social de que dispõem. As classes são grupos humanos, um dos quais pode apropriar-se do trabalho de outro por ocupar postos diferentes num regime determinado de economia social.

Já em seu discurso proferido quando da realização do III Congresso de toda

a Rússia da União Comunista da Juventude da Rússia, ao falar sobre as tarefas das

uniões da juventude, Lenin (LENINE 62 [proferido em 2 de outubro de 1920], 1980c,

p.392) afirmou:

E que são as classes em geral? São aquilo que permite a uma parte da sociedade apropriar-se do trabalho da outra. Se uma parte da sociedade se apropria de toda a terra, temos as classes dos latifundiários e dos camponeses. Se uma parte da sociedade tem as fábricas, tem as ações e os capitais, enquanto a outra trabalha nessas fábricas, temos as classes dos capitalistas e dos proletários.

E o que seria luta de classes? Diferentemente de uma definição ou de um conceito do que seja luta de classes, nesse caso nós recorremos à forma como Lenin analisou o desenrolar dos acontecimentos, durante o período de fevereiro a outubro de 1917. Ou seja, às vésperas da Revolução de Outubro de 1917. Assim, na primeira Carta de longe Lenin ([escrita entre final de março-início de abril de 1917], 2005, p.25-35) expôs de modo exemplar quais eram as principais

classes sociais na Rússia, quem eram os seus representantes, quais forças políticas

e econômicas elas mobilizavam, quais os interesses em jogo e como tais interesses

determinavam as ações das classes em luta. É dessa forma que ele explicou como a autocracia, que durou séculos, pôde ser derrubada em alguns dias – formou-se uma coalizão de vários setores e partidos da sociedade, que insatisfeitos com as ações da autocracia (dentre elas, a trama de uma paz secreta e em separado com a Alemanha), promoveram a destituição do czar, para que a guerra continuasse e para que os lucros da burguesia e os

62 As tarefas das uniões da juventude.

59

investimentos da França e da Inglaterra não fossem prejudicados. Portanto, o objetivo não declarado era substituir Nicolau Romanov por alguém mais enérgico na condução da guerra e dar continuidade a ela. A situação política descrita era a de que os burgueses e capitalistas é que detinham o poder econômico, por meio dos postos de administração, do exército e da economia. Bastou a sua decisão, somada aos interesses da Inglaterra e da França para que o czar fosse destituído. Na ocasião, as três principais forças em luta eram a monarquia czarista; o governo provisório burguês, cujo objetivo era dar continuidade à guerra imperialista; e o soviete dos deputados operários. Assim, a luta dessas três classes é que determinava a situação política daquele momento e

que iria constituir a transição da primeira etapa da revolução (democrático-burguesa) para a segunda etapa (socialista). Esta era a situação, a qual deveria ser definida o mais precisamente possível, para sobre ela traçar-se a tática marxista para tomada do poder. Por consequência, a nosso ver, para Lenin, classe social é o substrato essencial da política, a qual sempre implica numa relação, em função do contexto, das forças políticas que as classes são capazes de mobilizar e das suas motivações

e objetivos econômicos. O que determina se essa relação é de luta ou oposição é a

forma pela qual as classes se apropriam ou não da riqueza produzida socialmente.

Se o que predomina é uma relação entre uma classe que se apropria privadamente da riqueza produzida socialmente, em detrimento de outra que produz coletivamente

a riqueza e além disso é expropriada e explorada, então temos uma relação de luta

de classes, em que os interesses de ambas necessariamente são opostos e inconciliáveis. Foi assim que Lenin assumiu uma posição de classe em favor dos trabalhadores. Enfim, política para Lenin não é apenas uma relação que se estabelece entre classes sociais, que, tratando-se de classes que assumem posições opostas e inconciliáveis na produção da riqueza social é uma relação de luta. Política é tomar partido, é atuar na luta de classes em favor da classe trabalhadora, assumir posições, modificar e transformar as circunstâncias, empregar todos os esforços e meios visando a destruição do capitalismo e a construção do comunismo.

60

1.2.3 Socialismo, comunismo, ditadura do proletariado, revolução em

Lenin

Em O Estado e a revolução (LENINE [escrito entre agosto-setembro de 1917, 1980b), Lenin afirmou que o Estado é o órgão de dominação e opressão de uma classe por outra, mediante basicamente: a) a criação de uma ordem que legaliza (a lei burguesa) e consolida essa opressão com o objetivo de moderar o

conflito de classe; b) a atuação das forças policiais e do exército, como principais instrumentos de repressão do Estado. Logo, se o Estado é o produto do caráter inconciliável das classes, a emancipação da classe oprimida é impossível sem a realização de uma revolução violenta e sem a destruição do próprio Estado que foi criado e é mantido pela classe dominante. Tal posição se assenta nas premissas existentes no Manifesto do Partido Comunista e sinteticamente, referem-se à derrubada violenta do Estado burguês e à destruição das instituições burguesas. Foi nesse sentido que Lenin 63 ([escrito em

a questão do poder é a

meados de julho de 1917] 2005, p.69) escreveu: “[ questão fundamental de qualquer revolução.” Também:

]

A questão mais importante de qualquer revolução é sem dúvida a questão do poder do Estado. Nas mãos de que classe está o poder, é isto que decide tudo. [ ] Não é possível eludir nem afastar a questão do poder, pois esta é a questão fundamental, que determina tudo no desenvolvimento da revolução, em sua política interna e externa. (LENIN 64 [publicado em setembro de 1917], 2005, p.113, grifo do autor)

Assim, a tomada violenta do poder é condição sine qua non para a derrubada do Estado burguês, posto que, evidentemente, ninguém entrega o poder

e a propriedade privada sem luta. Por conseguinte, a classe proletária, ao fazer a revolução, deverá: 1) substituir o Estado burguês por um Estado operário; 2) promover a socialização dos meios de produção. Por sua vez, a ditadura do proletariado seria uma instituição na qual o

proletariado, após a tomada violenta do poder, estaria organizado como classe dominante, essencialmente para: a) atuar pela violência e repressão contra a luta e

a resistência da burguesia em ceder o poder do Estado e a propriedade privada; b)

63 A propósito das palavras de ordem. 64 Umas das questões fundamentais da revolução.

61

apropriar-se, organizar e controlar a produção e a distribuição da riqueza para a totalidade da sociedade. Ademais,

] [

qual é inevitável enquanto as classes não forem suprimidas e reveste diversas formas, sendo particularmente violenta e específica durante o primeiro período depois de derrubado o capital. Uma vez conquistado o poder político, o proletariado não cessa sua luta de classe, mas a continua até que as classes sejam suprimidas, mas naturalmente, em outras condições, sob outra forma e com outros meios. (LENIN 65 [escrito em 28 de junho de 1919] 1968, p.76, grifo do autor)

a ditadura do proletariado é também um período de luta de classes, a

Consequentemente, como em geral o transcorrer de uma revolução raramente se dá de forma pacífica, após a tomada do poder e a expropriação dos meios de produção, a luta de classes costuma assumir sua forma mais aguda – a

guerra civil -, “[

repetindo-se, acumulando-se, alargando-se, agudizando-se, conduz à transformação desses choques em luta de armas na mão de uma classe contra a outra classe.”

(LENINE 66 [escrito na primeira quinzena de setembro de 1917] 1980b, p. 208). Considerando que o comunismo, enquanto etapa mais avançada do

desenvolvimento da humanidade, só pode sair dos escombros do capitalismo, a transição do capitalismo para o comunismo implicará num processo longo, difícil e

período de transição

(LENINE 67 [escrito entre agosto-setembro

de 1917] 1980b, p.283). Na primeira fase, ou fase inferior da sociedade comunista, “[

que se

chama habitualmente socialismo e a que Marx dá o nome de primeira fase do

comunismo [

propriedade privada dos indivíduos e pertenceriam a toda a sociedade. Não havendo capitalistas, não haveria classes. Foi nesse sentido que no artigo escrito em novembro de 1919, intitulado A economia e a política na época da ditadura do proletariado, Lenin escreveu: “O socialismo é a supressão das classes.” (LENINE

(Idem, ibidem, p.284), os meios de produção já deixariam de ser

[do capitalismo] para o comunismo [ ].”

doloroso, no qual a ditadura do proletariado representa o “[

]

quando uma série de choques e combates econômicos e políticos,

]

]

]”

[escrito em 30 de outubro de 1919] 1980c, p.206). Neste caso, os meios de produção deixariam de ser privados, mas a justiça

65 Uma grande iniciativa.

66 A revolução russa e a guerra civil. 67 O Estado e a revolução.

62

e a igualdade completas ainda não existiriam nesta primeira fase do comunismo,

subsistirão diferenças de riqueza, e diferenças injustas, mas a

exploração do homem pelo homem será impossível, porque ninguém poderá apoderar-se da propriedade privada dos meios de produção, fábricas, máquinas, terra, etc.” (LENINE 68 [escrito entre agosto-setembro de 1917] 1980b, p.285, grifos do autor). Por sua vez, na fase superior da sociedade comunista, desapareceria a subordinação opressiva dos indivíduos à divisão do trabalho e com ela a oposição entre trabalho manual e intelectual. O trabalho seria não apenas um meio de sobrevivência, mas a necessidade vital principal. Com o desenvolvimento integral dos indivíduos, cresceriam as forças produtivas e consequentemente cresceria a riqueza produzida socialmente. Só então o direito burguês seria completamente extinto e o seguinte mote seria realidade: de cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades. Todavia, por um lado, a passagem dos meios de produção para a propriedade social não eliminaria a oposição entre trabalho espiritual e trabalho manual. Por outro, a apropriação coletiva dos meios de produção traria a possibilidade de um desenvolvimento gigantesco das forças produtivas da sociedade humana. Porém, o processo da derrocada do capitalismo e sua transição para o comunismo caracterizaria um longuíssimo processo. Assim, não há como prever nem precisar quando ocorreria a completa extinção do Estado na fase superior do comunismo. Mas é importante citar que

pois ainda “[

]

Até que chegue a fase “superior” do comunismo, os socialistas exigem o mais rigoroso controle por parte da sociedade e por parte do Estado sobre a medida do trabalho e a medida do consumo, mas este controle deve começar com a expropriação dos capitalistas, com o controle dos capitalistas pelos operários, e deve ser exercido não por um Estado de funcionários mas pelo Estado dos operários armados. (Idem, ibidem, p.288, grifos do autor)

E o que é o comunismo? Comunismo provém da palavra latina comunis, que

significa comum. Isto é, na sociedade comunista, não existiria a propriedade privada

e assim, tudo seria propriedade comum, de todos: a terra, as fábricas (LENINE 69 [discurso proferido no III Congresso de toda a Rússia da União Comunista da Juventude da Rússia, em 2 de outubro de 1920], 1980c, p.395). No comunismo,

68 O Estado e a revolução. 69 As tarefas das uniões da juventude.

63

todos iriam trabalhar pelo bem comum (LENIN 70 [escrito em 28 de junho de 1919], 1968), pois o objetivo do comunismo é alcançar o maior desenvolvimento possível das potencialidades do ser humano e das forças produtivas em favor da humanidade. O objetivo do comunismo é alcançar a felicidade suprema do ser humano (LUNATCHARSKI, 1988c). Em função dessas proposições, os bolcheviques foram tachados de utopistas, acusados de fazer promessas demagógicas sobre o comunismo. Contra isso, Lenin objetou que o crucial é não ter essas concepções como dogmas e não ater-se exclusivamente às palavras. O que importa é entender os graus de maturidade econômica do comunismo, os processos e as etapas, posto que não

que etapas, através de que

existem regras predeterminadas. Ou seja, por “[

medidas práticas a humanidade chegará a este fim supremo, não sabemos nem podemos saber.” (LENINE 71 [escrito entre agosto e setembro de 1917] 1980b,

p.289).

Sobre a revolução, ao escrever sobre as atividades do partido, o qual deve desenvolver um trabalho sistemático, cotidiano e disposto a tudo, Lenin mencionou

a

mas como uma

própria revolução não deve ser imaginada como um ato único [

que existiriam momentos de calma, repressão e explosão. Nesse sentido, “[

]

]

],

rápida sucessão de explosões mais ou menos violentas, alternando com períodos de

calma mais ou menos profunda [

de 1902], 1980a, p.204). Em verdade, não podemos definir etapas fixas e predeterminadas no curso de uma revolução. De modo diferente, ela é caracterizada pelas mudanças e imprevisibilidade no curso da história. Com responsabilidade e dotado de grande senso de realidade, Lenin declarou que primeiro (e mais importante) é conquistar o poder político pela via revolucionária e depois vê-se o que é possível fazer (LENINE 73 [datado de 17 de janeiro de 1923], 1980c). Ou seja, a revolução é imprevisível quanto aos seus desdobramentos e fins. Ela define-se na luta, no seu devir.

(LENINE 72 [escrito no outono de 1901-fevereiro

]”

70 Uma grande iniciativa.

71 O Estado e a revolução.
72

73 Sobre a nossa revolução.

Que fazer?

64

Foi assim que na comemoração do quarto ano da Revolução de outubro, numa visão retrospectiva, Lenin 74 ([escrito em 14 de outubro de 1921], 1968, p. 128- 129) se referiu à realização de duas revoluções: a democrático-burguesa e a socialista:

Mas a fim de consolidar para os povos da Rússia as conquistas da revolução democrático-burguesa, devíamos ir mais longe e assim o fizemos. Resolvemos os problemas da revolução democrático-burguesa imediatamente, de passagem, como “produto acessório” de nossa atividade principal e verdadeira, de nossa atividade revolucionária proletária, socialista. (grifos do autor)

Com efeito, a revolução democrático-burguesa foi levada até o fim, em direção à revolução socialista. Mas como não existe uma divisão rígida e formal entre uma e outra revolução, somente na luta é que se decide até onde se consegue avançar na revolução socialista. Nesse sentido, as reformas democrático-burguesas são acessórios da revolução socialista, de modo que a primeira transforma-se na segunda, a segunda resolve os problemas da primeira, consolidando-a. De modo que somente a luta determina até que ponto a segunda ultrapassa a primeira.

1.2.4 A classe trabalhadora

No início do século XX, a população da Rússia era de aproximadamente 150

milhões de habitantes. Por sua vez, a classe trabalhadora constituía apenas uma

minoria da nação. Era composta de cerca de 10 milhões de pessoas, cujo núcleo consistia, no máximo, três milhões de homens e mulheres empregados nas indústrias modernas das principais cidades russas (DEUTSCHER, 1968a, p.22; TROTSKY, 1978a, p.30). Assim,

Os marxistas calcularam que os trabalhadores industriais seriam a força mais dinâmica da sociedade capitalista, os principais agentes da revolução socialista. Os trabalhadores russos justificaram de sobra essa esperança. Nenhuma classe da sociedade russa e nenhuma classe trabalhadora, em qualquer outra parte do mundo, atuou com a energia, a inteligência política, a capacidade de organização e o heroísmo com que os operários russos agiram em 1917 e depois, durante a guerra civil. (DEUTSCHER, 1968a,

p.22)

A classe trabalhadora defendeu com ardor a revolução socialista

propugnada pelos bolcheviques. Um conjunto de elementos preparou e formou a consciência socialista e a combatividade do operariado russo: foram décadas de

agitação e propaganda marxista; experiências das lutas contra o czarismo; a

74 Por ocasião do IV aniversário da revolução de outubro.

65

tradição de um século de esforços revolucionários e a coerência de propósitos dos bolcheviques. De modo que o operariado não aceitou nada aquém das perspectivas socialistas da Revolução - a abolição da exploração capitalista, a socialização da indústria e dos bancos, o controle operário da produção e o governo dos sovietes (Idem, ibidem, p.22-23). Porém, ao lado da abnegação, capacidade de sacrifício, dedicação, despontavam também suas deficiências. De acordo com Trotski, em síntese, a vitória da revolução de outubro foi em parte decorrente da combinação particular do atraso econômico-social e cultural com a implantação de um capitalismo dos mais avançados para os padrões da época.

Seu raciocínio é o de que a Rússia não passou pelas fases de desenvolvimento do capitalismo (artesanato, manufatura etc.). De maneira diferente, de uma economia agrária, passou diretamente para um tipo de capitalismo moderno. Tal é o motivo da fragilidade de sua burguesia, a qual foi tão fácil de vencer. Daí também a importância que assumiu o capital financeiro, o qual investiu tão pesadamente na industrialização da Rússia. Em outras

palavras, conviviam os “[

mais antiquados elementos, ao lado das últimas

realizações europeias.” (TROTSKY, 1978a, p.390). O mesmo raciocínio se aplica ao proletariado russo:

]

Que dizer de nosso proletariado? Terá passado pela escola medieval das confrarias de aprendizado? Existirão nele tradições

corporativas seculares? Nada de parecido. Lançaram-no diretamente à

Daí a ausência de

tradições conservadoras, a ausência de castas, mesmo entre o proletariado,

e a juventude do espírito revolucionário; daí, entre outras causas eficientes, Outubro e o primeiro governo proletário que existiu no mundo. Mas daí,

também, o analfabetismo, a mentalidade atrasada, a deficiência de hábitos de organização, a incapacidade de trabalhar sistematicamente, a falta de educação cultural e técnica. A cada passo nos ressentimos dessas inferioridades na nossa economia e na nossa edificação cultural. (Idem, ibidem, 391, grifos nossos)

fornalha, assim que o retiraram de seu arado primitivo

Deutscher (1968b, p.343) parece compartilhar da tese de Trotski:

A classe trabalhadora russa de 1917 foi uma das maravilhas da História. Pequena, jovem, inexperiente, sem instrução, era rica de paixão política, generosidade, idealismo e qualidades heróicas raras. Tinha o dom de sonhar grandes sonhos sobre o futuro e de morrer morte estóica em

combate. Com seus pensamentos semianalfabetos, abraçou a república dos filósofos, não em sua versão platônica que serve à oligarquia para governar

o rebanho, mas a ideia de uma república próspera e bastante sábia para

fazer de todo cidadão um filósofo e um trabalhador. Das profundezas de sua

miséria, a classe operária russa empenhou-se em construir tal república. Mas lado a lado com o sonhador e o herói, vivia no trabalhador

66

russo o escravo, preguiçoso, praguejador, esquálido, trazendo o estigma do passado. Os líderes da Revolução falavam ao sonhador e herói, mas o escravo lhes fazia sentir, rudemente, a sua presença. Durante a guerra civil, e mais ainda depois dela, Trotski em seus discursos militares queixou-se repetidamente de que o comunista russo e o soldado do Exército Vermelho sacrificariam sua vida pela Revolução, mas seriam incapazes de limpar seu fuzil ou engraxar suas botas. Esse paradoxo refletia a falta, no povo russo, daqueles inumeráveis pequenos hábitos de disciplina e vida civilizada, em que o socialismo esperava basear-se. Era esse o material humano com o qual os bolcheviques começaram a construir seu novo Estado, a democracia proletária, na qual “todo cozinheiro” devia ser capaz de realizar as tarefas de governo. E foi talvez essa a mais grave de todas as graves contradições que a Revolução teve de enfrentar. (p.343, grifos nossos)

E quais eram as faces do proletariado, do povo, daqueles que apoiaram o poder bolchevique na revolução de outubro? Reed e Trotski nos dão algumas indicações. Em 25 de Outubro, no II Congresso dos Sovietes, encontravam-se “[ ] grandes massas de soldados esfarrapados, de operários encardidos, de camponeses – gente pobre, curvada e com cicatrizes da luta brutal pela existência.” (REED, 1977, p.135). Trotsky (1978c, p.947) também escreveu que:

Os galões dos oficiais, os óculos e as gravatas dos intelectuais do primeiro Congresso 75 tinham desaparecido completamente. O que predominava era a cor cinza, roupas e rostos. Todos se tinham esgotado durante a guerra. Inúmeros operários da cidade envergaram as túnicas dos soldados. Os delegados das trincheiras não tinham ar apresentável: de há muito sem fazer a barba, cobertos com velhas túnicas rasgadas, pesadas papakhi 76 , cujo forro aparecia através dos buracos, sobre as cabeleiras desgrenhadas. Faces rudes, feridas pelas intempéries, pesadas patas [sic] cobertas de frieiras, dedos amarelados pelos cigarros ordinários, botões caindo, suspensórios pendurados, borás rugosas, ruças, que há muito não eram engraxadas. A nação plebeia enviara, pela primeira vez, uma representação honesta, sem maquilagem, feita à sua imagem e semelhança.

Enfim, tais são os esboços do panorama histórico e político e da classe sobre a qual se assentou a Revolução de Outubro.

1.3 Elementos sociológicos 1.3.1 A Rússia imperial Ao final do século XIX, o império russo formava o maior Estado do mundo em extensão territorial, com 22,3 milhões de km quadrados. Sua população em 1897 era de aproximadamente 130 milhões de habitantes, com grande diversidade racial, étnica e cultural. Sob o ponto de vista das nacionalidades, a população era composta de: grão russos – 56 milhões; ucranianos – 22,3 milhões; russos brancos

75 Trotski refere-se ao primeiro Congresso dos Sovietes. 76 Papakhi: boné de pelo.

67

(Bielo-Rússia) – aproximadamente 6 milhões; poloneses – 8 milhões; lituanos – 3,1 milhões; alemães – 1,8 milhão; moldávios – 1,1 milhão; judeus – 5,1 milhões; finlandeses – 2,6 milhões; povos do Cáucaso – 1,1 milhão; povos de origem finesa (estonianos, carélios etc.) 3,5 milhões; povos tártaros – 13,6 milhões (REIS FILHO, 2003, p.15 et seq; SERGE, 2007, p.141). Pairando acima do povo, estava a autocracia imperial russa, tendo a seu

serviço a burocracia civil, a polícia política e as forças armadas. A burocracia era elitista, politicamente irresponsável, ineficiente, corrupta e odiada pelo cidadão comum. A polícia política, a temida Okhrana era eficaz e extremamente violenta. Foi criada em 1881 e era considerada a melhor do mundo. De certo modo, sua criação foi uma reação ao recrudescimento dos movimentos terroristas que vinham ocorrendo desde a década de 70 do século XIX na Rússia (REIS FILHO, 2003, p. p.15 et seq; SERGE, 2003, p.42). Para consolidar seu poder, o czar contava ainda com a Igreja Ortodoxa, a qual não poderia a rigor ser considerada um mero instrumento do poder czarista, pois ela conservava certa autonomia. Contudo, a Igreja Ortodoxa também não era um todo monolítico, posto que havia grande diversidade hierárquica em sua estrutura. No geral, era uma instituição comprometida com uma religiosidade cristã conformista e resignada, subserviente e subordinada funcionalmente ao poder czarista e dependente financeiramente dele. Enfim, a autocracia czarista se baseava num complexo conjunto de instituições composto pela burocracia civil, pela polícia política, pelas forças armadas e pela Igreja Ortodoxa (REIS FILHO, 2003, p.18).

traço essencial e o mais

constante da História da Rússia é a lentidão com que o país se desenvolveu, apresentando como consequência uma economia atrasada, uma estrutura social primitiva e [um] baixo nível cultural.” Ademais, a Rússia czarista era uma sociedade

fundamentalmente agrária (cerca de 85% da população vivia no campo em fins do século XIX). A base da agricultura eram as dezenas de milhões de mujiques (agricultor pobre), organizados na maioria das vezes em comunas agrícolas (o mir), mas a principal base de poder da autocracia czarista eram os grandes proprietários de terra (os pomeschtchiki) - aproximadamente 107 mil famílias, quase todos vinculados a famílias nobres (REIS FILHO, 2003, p.19). A Rússia vivia uma situação complexa e contraditória: de um lado, a

De acordo com Trotsky (1978a, p.23), o “[

]

68

situação econômica e social exigia que fossem feitas transformações, mas de outro,

a autocracia e aqueles em que ela baseava o seu poder não tinham intenção de

alterar o status quo. A opção foram as reformas, as quais ocorreram, mas não de maneira a atender aos anseios e necessidades do povo em geral, o que gerou descontentamento em alguns setores da sociedade ávidos por mudanças. Tal é a origem dos movimentos revolucionários e terroristas de 1860-70, que de certo modo foram os precursores dos partidos marxistas e revolucionários. Tais reformas, mesmo que parciais e incompletas, abriram novos horizontes

à Rússia, com a ascensão de novas forças políticas, sociais e econômicas, que a

partir de 1890 propiciaram profundas transformações: intenso crescimento demográfico e urbano (o que viria a exigir mais alimentos, transporte, saúde, educação, habitação etc.); criação de uma rede de estradas de ferro; ativação do comércio externo; aumento da produção de carvão, petróleo, cereais; desenvolvimento da indústria de base. Por consequência, a burguesia se fortaleceu. Também se formou uma articulação de capitais nacionais e internacionais patrocinada, protegida e estimulada pelo Estado. Ou seja, a Rússia finalmente abria as portas para o desenvolvimento do capitalismo, subordinando-o aos interesses do Estado.

Houve muitos avanços, mas comparada com a Europa a Rússia era

atrasada, pois convivia com o desequilíbrio, o obsoleto e a carência da agricultura. Isto é, o progresso econômico e social trouxe contradições insanáveis que foram o combustível para as revoluções: “Assim, o influxo do capitalismo na Rússia, apesar do progresso proporcionado, não foi capaz de resolver os problemas acumulados e acentuou contrastes no processo de desenvolvimento econômico em curso.” (REIS FILHO, 2003, p.32). Portanto, na Rússia coexistia o que havia de mais avançado em termos do capitalismo com o mais antiquado de civilização: exportava-se cereais e a população passava fome; conviviam a aristocracia e o mujique semi servil. Existiam diferentes

etapas históricas, universos contraditórios, mas entrelaçados, integrados.”

“[

(Idem, ibidem, p.32). De um lado, havia as elites reacionárias, sempre desejosas de manter seu poder e contrárias ao desenvolvimento e à modernização. De outro,

apareceram as correntes liberais e revolucionárias.

]

69

1.3.2 Questões referentes à burguesia As classes dominantes sempre foram francamente contrárias e hostis ao poder operário. Antes da insurreição de outubro, era comum a intelligentsia burguesa se referir aos Sovietes de Deputados Operários como Sabatchikh Deputatov, ou “deputados dos cães” (REED, 1977, p.49). Ainda, um eminente capitalista russo, conhecido como o “Rockfeller russo”, teria dito numa entrevista a John Reed:

é uma doença. Mais tarde ou mais cedo as

potências estrangeiras terão de intervir – como se interviria para curar uma criança doente e ensiná-la a andar. Evidentemente que seria um pouco incorreto, mas as nações terão de compreender o perigo do bolchevismo nos seus próprios países – ideias contagiosas como “ditadura proletária” e

“revolução socialista mundial”. [

Há uma possibilidade de que tal

intervenção não seja necessária. Os transportes estão desmoralizados, as fábricas fecham e os alemães avançam. A fome e a derrota podem fazer

com que o povo russo recupere a razão

A Revolução [

]

]

(Idem, ibidem, p.49)

acontecesse o que

acontecesse, seria impossível aos comerciantes e industriais permitirem a existência

dos comitês operários de empresa [

administração das indústrias (Idem, ibidem, p.49). E quanto

ou que os operários tomassem para si a

Já outro importante capitalista teria afirmado que “[

]”,

]

] [

[explicitados a seguir]. O Governo pode evacuar Petrogrado, declarando em

seguida o estado de sítio, e o comandante militar do distrito pode tratar

Ou então, por exemplo, se a

Assembleia Constituinte manifestar quaisquer tendências utópicas, poderá

ser dissolvida pela força das armas autor) 77

(Idem, ibidem, p.49-50, grifos do

aos bolcheviques, acabar-se-á com eles por um destes dois processos

desses senhores sem formalidades legais

As classes médias e a pequena burguesia também compartilhavam desses sentimentos, conforme descreveu o autor:

Ao anoitecer de 16 de novembro vi dois mil guardas vermelhos descerem a Perspectiva Zágorodni atrás de uma banda militar que tocava a Marselhesa – e como parecia apropriada! -, com bandeiras vermelho- sangue desfraldadas sobre as fileiras de operários que davam as boas- vindas aos irmãos que tinham defendido a “Petrogrado Vermelha” e regressavam. Marchavam na escuridão agreste, homens e mulheres, com as compridas baionetas a oscilar; marchavam por ruas mal iluminadas e que a lama tornava escorregadias, entre multidões silenciosas de burgueses desdenhosos, mas amedrontados Eram todos contra eles – homens de negócios, especuladores, investidores, proprietários fundiários, oficiais do Exército, professores, estudantes, gente das profissões liberais, lojistas, escriturários, agentes. Os outros partidos socialistas odiavam os bolcheviques com um ódio

77 Mais claro, direto e sincero impossível.

70

implacável. Do lado dos Sovietes estavam os simples operários e

marinheiros, todos os soldados não desmoralizados, os camponeses sem

terra e alguns – muito poucos – intelectuais

(Idem, ibidem, p.227-228)

Havia uma combinação de hostilidade, indignação e profunda crença na incapacidade do povo. Já Trotsky (1978c, p.982) descreveu a situação da seguinte forma:

“Quem poderia crer”, escrevia a esse respeito, com tom indignado, o general russo Zalesky, “que um criado ou um vigia do Palácio da Justiça pudesse ser transformado, de repente, em presidente do Congresso dos Juízes de paz? Ou então, um enfermeiro tornando-se diretor de ambulância? Um cabeleireiro, alto funcionário? Um subtenente de ontem passar a generalíssimo? Um lacaio de ontem, ou então um servente de pedreiro, nomeado prefeito? Aquele que, ainda ontem, lubrificava as rodas de um vagão, transforma-se em chefe de seção da rede ou então chefe de estação? Um serralheiro, colocado à frente de uma oficina!” “Quem acreditaria?” Foi preciso crer. Não era possível deixar de acreditar porquanto os subtenentes derrotaram os generais; o prefeito, ex- servente, dominou os senhores da véspera; os lubrificadores das rodas de vagões organizaram os transportes; os serralheiros, na função de diretores, levantaram a indústria.

Em 25 de outubro de 1917 (pelo calendário juliano), com a destituição do governo provisório encabeçado por Kerenski 78 , os opositores do poder proletário foram privados das armas, mas eles ainda controlavam a vida econômica e administrativa do país. Desse modo, dedicaram-se a sabotar, desorganizar, obstruir, enfraquecer e a desacreditar o governo dos sovietes (REED, 1977, p.241 et seq). Assim, logo após a tomada do poder, os bancos e estabelecimentos comerciais organizaram e financiaram uma greve dos funcionários do antigo governo, de modo que todas as tentativas dos bolcheviques para assumir o controle do aparelho do Estado encontravam resistência. Trotski dirigiu-se ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, mas

os funcionários recusaram-se a reconhecer o seu cargo, fecharam-se no

interior e quando as portas foram arrombadas demitiram-se. Ele exigiu as chaves dos arquivos, mas só quando mandou chamar os operários para forçarem as fechaduras as recebeu. Descobriu-se então que Neratov, ex- ministro adjunto dos Negócios Estrangeiros, desaparecera com os Tratados

Secretos

] [

(REED, 1977, p.242)

O Ministério da Assistência Pública também estava em greve, de maneira que os pobres, aleijados, famintos, órfãos e outros não podiam ser atendidos. Os grevistas se negaram a entregar as chaves do cofre, só o fazendo depois de serem

78 Kerenski: foi o chefe do governo provisório a partir de julho de 1917 e deposto pela Revolução de Outubro de 1917. Destituído do poder, comandou a primeira tentativa armada de derrubar o poder soviético, mas foi derrotado e fugiu para o exterior (REED, 1977, p.385).

71

presos. Aberto o cofre, este não tinha dinheiro, que fora levado pela administração anterior. Nos Ministérios da Agricultura, Abastecimentos e Finanças o cenário era o mesmo. Os funcionários não vinham trabalhar e quando o faziam era para sabotar.

Como quase toda a intelligentzia era antibolchevique, o Governo Soviético não tinha onde recrutar novos quadros Os bancos privados permaneciam teimosamente fechados, mas com uma porta das traseiras aberta para os especuladores. Quando os comissários bolcheviques entravam, os empregados saíam, não sem esconderem os livros e levarem os fundos. Todos os empregados do Banco do Estado entraram em greve, exceto os encarregados das casas fortes e da cunhagem de moeda, mas estes recusavam todos os pedidos de fundos

do Smólni

e pagavam em segredo enormes importâncias ao Comitê de

79

Salvação e à Duma Municipal [ ] Os funcionários da Chancelaria do Crédito destruíram os livros respectivos, de modo que se perderam todos os registros das relações financeiras da Rússia com os países estrangeiros. (Idem, ibidem, p.243)

.

80

No quesito abastecimento a situação era similar – as provisões não eram entregues quando requisitadas e os serviços essenciais de abastecimento de alimentos e energia foram paralisados. O alto comando militar não dava assistência à frente de batalha e o sindicato dos ferroviários, controlados pelos mencheviques,

estava

claramente de mãos atadas. [

friamente indiferentes ou francamente hostis

Ao longo do tempo, as classes dominantes na Rússia foram estabelecendo relações com a autocracia, a burocracia, a burguesia internacional, formando uma rede de poder que se estendia e incluía os partidos políticos, a igreja, a educação, dentre muitas outras instituições. Após a expropriação das grandes indústrias, parte da burguesia deixou a Rússia, mas os que ficaram participaram ativamente da guerra civil. Porém, derrotados, também foram praticamente eliminados. Contudo, numa revolução, eliminar a classe dominante não é tão simples:

não transportava as tropas soviéticas. O governo dos sovietes “[

Quanto às embaixadas aliadas, ou se mostravam

]

]

(Idem, ibidem, p.244).

Todo partido revolucionário imagina, a princípio, que sua tarefa é simples:

tem de eliminar um “punhado” de tiranos ou exploradores. É certo que, habitualmente, os tiranos e exploradores constituem uma minoria insignificante. Mas a velha classe dominante não viveu isolada do resto da sociedade. No curso de seu prolongado domínio, cercou-se por uma rede de instituições, compreendendo grupos e indivíduos de muitas classes e deu vida a muitas ligações e fidelidades que nem mesmo uma revolução destrói totalmente. A anatomia da sociedade jamais é tão simples que seja

79 Palácio Smólni: antigo colégio para moças da aristocracia russa. Após a insurreição de Outubro, foi tomado como sede do governo proletário. 80 Imediatamente após a tomada do poder em outubro de 1917, organizaram-se grupos contra revolucionários, um deles denominado Comitê de Salvação, cujo centro de atividade e organização era a Duma Municipal de Petrogrado.

72

possível separar cirurgicamente um dos membros do restante do corpo. Cada classe social está ligada ao seu vizinho imediato por muitas gradações quase imperceptíveis. A aristocracia se confunde com a classe média superior; esta, com as camadas inferiores da burguesia. A classe média inferior termina na classe proletária e o proletariado, especialmente na Rússia, está ligado por numerosos laços aos camponeses. Os partidos políticos têm interligações semelhantes. A revolução não pode desfechar um golpe contra o partido que lhe é mais hostil e perigoso sem forçar não só esse partido, mas também o seu vizinho imediato, a responder com um outro golpe. A revolução, portanto, trata o vizinho imediato de seu inimigo também como inimigo. Quando atinge o inimigo secundário, também o vizinho deste se sente ameaçado e é levado à luta. O processo continua como uma reação em cadeia, até que o partido da revolução levanta-se contra si mesmo e elimina todos os partidos que até recentemente encheram o cenário político. (DEUTSCHER, 1968b, p.361-362)

Foi dessa forma que a necessidade da aniquilação das classes dominantes deu-se em várias frentes, com destaque, evidentemente, para o campo militar, mas também ideológico, do qual a educação participou.

1.3.3 Sobre a educação czarista / burguesa A Rússia czarista era um país de analfabetos e um dos países mais atrasados da Europa na área educacional, onde prevalecia também a ausência de direitos, a ignorância, a miséria das massas populares. De acordo com os dados do censo de 1897, na faixa de 9-49 anos, apenas 28,4% da população sabia ler e escrever. No cômputo geral, 98% da população era analfabeta e cerca de 50 povos que integravam a Rússia imperial não tinham escrita codificada (CAPRILES, 1989; GAPOTCHKA, 1987). Ainda, segundo dados do censo de 1897, somente 67 pessoas em cada mil habitantes na Rússia czarista frequentavam algum tipo de estabelecimento de ensino. Sobre a educação entre os povos da Rússia, havia 2,1% de alfabetizados entre os cazaques; 1% entre os uzbeques; 0,7% entre os turcomenos; 0,6% entre os kirguizes; 0,5% entre os tadjiques (GAPOTCHKA, 1987, p.141). Sobre o sistema escolar russo de antes de Outubro de 1917, Capriles (1989, p.18) nos informou que:

As escolas primárias russas, até a Revolução de 1917, eram instituições isoladas, dirigidas com critérios feudais, que, em termos nacionais, não relacionavam os seus respectivos programas entre si. Isso [se] refletia no nível geral da instrução de maneira separatista, tanto em termos de clãs como de classes, limitando radicalmente a continuação dos estudos superiores. A grande maioria das instituições de ensino era de propriedade de alguns setores da grande burguesia, nas áreas urbanas, dos latifundiários, no campo, e uma pequena parte era [propriedade] do Estado. A Igreja, além de controlar maciçamente a instrução popular, também era proprietária de um significativo número de estabelecimentos educacionais.

73

Além disso, a escola primária tinha a duração de máxima de três anos, na qual predominava a transmissão do dogma religioso; noções de leitura e escrita; rudimentos de aritmética e sempre canto religioso. As escolas paroquiais 81 eram o principal veículo de ensino e doutrinação da Rússia Imperial, de modo que as poucas crianças provenientes dos meios operários e camponeses que frequentavam essas escolas recebiam uma instrução não científica, baseada fundamentalmente na leitura de textos eclesiásticos (Idem, ibidem, p.19). Na sociedade czarista, a ciência, o conhecimento e o saber eram privilégio das classes dominantes. Sobre o assunto, Serge (2007, p.39 et seq) declarou que houve um movimento reacionário na sociedade russa, contrário às reformas liberais e ao desenvolvimento do capitalismo na Rússia, por volta de 1880. Em meio a esse movimento, o ensino superior foi reservado por lei às classes dirigentes, de maneira que apenas as classes dominantes tinham acesso ao ensino superior, onde eram formados e preparados os dirigentes e os responsáveis pela continuidade do sistema. Assim, a educação superior tornou-se a via de acesso por excelência aos cargos de liderança, administração e direção da sociedade. Portanto, é compreensível que posteriormente, após a Revolução de Outubro, os setores mais escolarizados, em sua maioria, iriam assumir uma atitude hostil ao poder soviético. Contudo, a queda da monarquia russa, em março de 1917, teve um impacto tremendo na sociedade, de modo que séculos de barbárie, opressão e violência provocaram um movimento geral e praticamente incontrolável em prol da liberdade, que afetou praticamente todos os setores da sociedade, inclusive a educação. Reed (1977, p.54) relatou como o povo sentia a necessidade de ler e a escrever: “Toda a Rússia aprendia a ler e lia – política, economia, história – porque o povo queria saber.” (grifo do autor). Naquele período (entre os meses de fevereiro- outubro de 1917), o povo queria saber o que estava acontecendo, pois diariamente eram veiculados milhares de panfletos e jornais de todas as tendências: democratas, liberais, monarquistas, anarquistas, socialistas. “A sede de educação, reprimida durante tanto tempo, explodiu com a Revolução num verdadeiro delírio.” (Idem, ibidem, p.54). Segundo o autor, saíam toneladas de publicações, de modo que a

81 As escolas paroquiais eram escolas primárias da Rússia czarista, dependentes das paróquias eclesiásticas. No seu programa de estudos dava-se primazia ao estudo do catecismo, dos livros sagrados eslavos e o canto gregoriano, em detrimento do estudo do russo e do ensino da aritmética. Os estudos duravam dois anos (em algumas escolas quatro). As escolas paroquiais eram frequentadas exclusivamente pela população mais pobre, entre operários e camponeses (LENINE, 1981, p.146, nota 32).

74

Rússia absorvia o material de leitura como a areia quente absorve a

água, insaciável! E não eram fábulas, história falsificada, religião diluída e a ficção barata que corrompe – mas sim teorias econômicas e sociais,

filosofia, as obras de Tolstoi, Gogol e Gorki

] [

(Idem, ibidem, p.54)

O autor descreveu ainda um fato significativo quando da sua visita ao fronte:

Visitávamos a Frente do 12º Exército, perto de Riga, onde soldados esqueléticos e descalços adoeciam no meio da lama das trincheiras, desesperados; e quando nos viram levantaram-se, com os rostos contraídos e os corpos roxos aparecendo através dos uniformes esfarrapados, perguntando ansiosos: “Trouxeram alguma coisa para ler?” (Idem, ibidem, p.54, grifo do autor)

Além da leitura, o povo participava de todo tipo de comícios e assembleias, os quais rebentavam pelo país. Eram conferências, debates, discursos, proferidos nos teatros, circos, escolas, clubes, salas de reuniões dos Sovietes, sedes de sindicatos, quartéis, fábricas, praças das aldeias. “Durante meses em Petrogrado, e em toda a Rússia, cada esquina era uma tribuna pública.” (Idem, ibidem, p.54) Conforme já mencionamos (item 1.3.1 A Rússia imperial), o poder do czar fundava-se nos aparelhos de repressão do Estado (forças armadas, polícia, polícia política); na burocracia estatal e nos aparelhos de controle ideológico, com destaque para a educação. Mais precisamente, o czarismo atuava, como disse Lenin, pela “deseducação”, isto é, alijando a quase totalidade da população do acesso a uma educação escolar de qualidade, a qual poderia propiciar o desenvolvimento social, intelectual, cultural, artístico e político. Dessa maneira, mantendo o povo também numa situação de ignorância, analfabetismo, atraso educacional e cultural, as classes dominantes garantiam para si a manutenção do status quo, e consequentemente, do seu poder político e econômico.

75

2 LENIN E A EDUCAÇÃO ANTES DE OUTUBRO DE 1917 2.1 Lenin e a educação: aspectos biográficos Conforme mencionado, Lenin foi o grande líder da revolução bolchevique e depois o Presidente do Conselho dos Comissários do Povo da recém criada

República Soviética, durante o período de outubro de 1917 a janeiro de 1924, mês e ano de sua morte. Mesmo enfrentando uma série de atribuições, dificuldades e gravíssimos problemas, ele foi um revolucionário e um estadista profundamente preocupado e atuante nas questões educacionais (CARVALHO, F. M. de 2005a; DOMMANGET, 1970; ROSSI, 1981). Mas, segundo Carvalho, F. M. de (2005a, p.190), Lenin não escreveu nenhum compêndio sobre educação ou teorias pedagógicas. Saviani (2008, p.420), ao discorrer sobre os fundamentos da concepção histórico-crítica da educação, com

relação ao materialismo histórico, também nos alertou: “[

Marx, nem Engels, Lenin ou Gramsci desenvolveram [uma] teoria pedagógica em sentido próprio.” Contudo, parece-nos incontestável a importância do pensamento e das ações de Lenin para a educação. Porém, a investigação sobre a educação leninista nos impôs muitas dificuldades. De acordo com Fernandes (1978), não houve nenhum outro estadista na história que rivalizasse com Lenin na produção escrita, em quantidade e qualidade. Com efeito, Lenin produziu uma obra que excede quarenta volumes na edição russa, na qual se encontra um panorama invulgar e vasto de conhecimento, reflexões, preocupações e profunda perspicácia intelectual, escrita num estilo direto, claro e muitas vezes ácido e sarcástico. Por conseguinte, o material referente à educação encontra-se disperso entre os milhares de artigos, folhetos, discursos, cartas, atas etc. Acrescente-se que os mais diversos assuntos e conceitos (entre os quais a educação), aspectos de natureza política, social, cultural, econômica e histórica mantêm estreita interrelação, de modo que as discussões referentes à educação encontram-se intercaladas, dispersas e muitas vezes apresentadas de forma sintética. Também, ao longo do tempo e de acordo com a necessidade ou conjuntura (as mudanças ocorridas na sociedade soviética, o tipo de obstáculo e oposição enfrentados pelo governo soviético e pelo partido bolchevique, os problemas e os dramas coletivos da sociedade russa etc.), algum conceito, raciocínio ou posição política era abandonado ou modificado, apresentando novos matizes.

como se sabe, nem

]

76

Portanto, a questão que permanece seria: como entender a educação no conjunto da obra e da vida de Vladimir Ilich Ulianov? Uma explicação inicial, mas parcial, para a questão acima refere-se à vida familiar de Lenin. Seu pai, Ilia Nikolaevitch Ulianov, nasceu num lar pobre e simples, mas com grande esforço ingressou na Universidade de Kazan, formando-se professor de matemática e física e depois atuou nas escolas secundárias nas cidades de Penza e Novgorod. Posteriormente, tornou-se inspetor e diretor das escolas primárias da gubernia de Simbirsk 82 (COLETIVO DE AUTORES, 1984, p.12- 13; DOMMANGET, 1970, p.446-449). Segundo Coletivo de Autores (1984, p.13) e Gomes (2006, p.26), Ilia Ulianov tinha grande aptidão para o ensino e exercia sua profissão com extrema dedicação. Desenvolvia trabalhos de alfabetização; qualificação de professores; preocupava-se com as condições de vida e educação dos povos não-russos que habitavam as regiões próximas a Simbirsk etc. “Entusiasta da instrução do povo, pedagogo por vocação, amava o seu trabalho e entregava-se-lhe inteiramente. Ilia Ulianov acreditava profundamente no povo e nas forças nele latentes.” (COLETIVO DE AUTORES, 1984, p.13). A mãe de Lenin, Maria Alexandrovna, por sua vez, foi filha de um médico culto e famoso. Apesar de não ter recebido educação formal, era uma pessoa culta:

tocava piano; gostava muito de ler; aprendera várias línguas estrangeiras, que depois ensinou aos filhos. “Por suas aptidões pessoais e com muito esforço, preparou-se e prestou exames para a escola primária, mas não chegou a trabalhar em escolas devido aos excessivos afazeres domésticos e ao cuidado que deveria ter com seus oito filhos.” (GOMES, 2006, p.26). Os pais de Lenin procuraram educar os filhos num clima de rigor e disciplina

pessoal; despertar neles o desejo de saber e conhecer sempre mais; “[

serem

exigentes, sinceros e verdadeiros em tudo o que fizessem.” (Idem, ibidem, p.27). Foi nesse ambiente doméstico que provavelmente Lenin viu despertar em si sua dedicação e suas preocupações iniciais com relação à educação. Posteriormente, Lenin sempre se destacou com brilhantismo nos estudos. Em sua vida escolar dividiu-se entre a atividade política (com períodos de perseguição política e policial)

]

82 Simbirsk era uma pequena cidade que ficava às margens do Rio Volga. Mais tarde chamou-se Ulianovsk. Lenin nasceu em Simbirsk em 10 de abril de 1870, com o nome de batismo Vladimir Ilich Ulianov.

77

e os estudos, e mais tarde conseguiu formar-se com louvor em Direito na Universidade de São Petersburgo. De acordo com Dommanget (1970, p.448 et seq), em 1894 Lenin também foi instrutor em círculos operários de São Petersburgo, em universidades operárias e durante seu exílio em Paris (em 1900, aproximadamente), ele ministrou aulas de economia política para operários. Outro dado biográfico muito importante foi a presença e a influência de sua companheira de toda a vida, Nadeja Konstantinova Krupskaia (1869-1939), com quem se casou na Sibéria, em julho de 1898 (FERNANDES, 1978, p.9). Krupskaia foi militante do partido bolchevique e uma eminente educadora, que estudou os sistemas e modelos educacionais da Europa e Estados Unidos. Publicou vários livros, mas dedicou-se especialmente ao estudo e ao desenvolvimento de uma pedagogia de base marxista, que pudesse ser aplicada ao contexto da Rússia e posteriormente da República Soviética. Foi assim que Krupskaia notabilizou-se pelo estudo e proposição da politecnia ao contexto da República Soviética (MACHADO, 1991). Em seu texto intitulado Lenine et l’enseignement polytechnique (KROUPSKAIA [publicado em 1932], s.d.b), Krupskaia relatou alguns fatos que evidenciam a preocupação e o engajamento de Lenin na área educacional, bem como a constante troca de ideias entre ela e Lenin. Assim, inicialmente, Krupskaia teceu alguns comentários sobre o envolvimento e a posição de Lenin na polêmica travada com os populistas 83 , por ocasião da publicação do texto de Lenin intitulado Pérolas da projetomania populista 84 . Também, quando da eclosão da primeira guerra mundial, Lenin se interessou pelos problemas da educação da nova geração. Foi nessa época que ele sugeriu a Krupskaia que elaborasse um estudo sobre os dados relacionados ao ensino técnico primário nos países economicamente avançados. O resultado do estudo foi uma brochura intitulada A instrução pública e a democracia, a qual Lenin leu com muita atenção e se encarregou de publicá-la. Krupskaia também mencionou alguns dos acontecimentos relativos ao texto de Lenin intitulado Acerca do ensino politécnico. Observações às teses de N.K.

83 Para mais detalhes, consultar o item 2.3.1 As disputas com os populistas. 84 Idem à nota anterior.

78

Krupskaia 85 . Na ocasião, ele pede inicialmente que seus comentários não sejam publicados, mas em vista do contexto e das dificuldades relacionadas com a implantação do ensino politécnico na URSS, após a morte de Lenin, Krupskaia resolveu publicar o texto do seu companheiro. Ou seja, apesar de não ser um especialista em educação, nem ter escrito nenhum compêndio que tratasse dos aspectos técnico-metodológicos da instrução ou da pedagogia, Lenin sempre se preocupou e teve destacada atuação na área educacional. Na condição de Presidente do Conselho dos Comissários do Povo, ele discutia no Comitê Central do Partido, participava e acompanhava tudo ou boa parte do que ocorria no campo educacional, devido a sua relação com Krupskaia e proximidade com Lunacharski (ROSSI, 1981). Ademais, Lenin também se informava sobre os mais variados assuntos (incluindo-se a educação) junto às delegações e representantes de camponeses e trabalhadores, que constantemente solicitavam audiências com ele. Foi assim que as concepções e as ações de Lenin para a educação definiram as bases do primeiro período pós revolucionário na Rússia (1917-1930) (CAMBI, 1999, p.558) e as diretrizes do que viria a ser o sistema educacional soviético (MACHADO, 1991). Todavia, a nosso ver os elementos biográficos não são suficientes para explicar a preocupação, o envolvimento e as ações de Lenin no campo educacional. Dessa forma, é preciso entender como os elementos de natureza política, econômica e social se relacionam com a educação em Lenin.

2.2 Elementos subjacentes à investigação do tema Lenin e a educação:

política, luta de classes, revolução De acordo com o compilador do livro Sobre a educação (LENINE, 1977), em suas notas de Esclarecimento e justificação, para Lenin, assuntos como política,

educação, economia, mantinham interrelações e dependência mútua. Mas considerando a íntima relação entre a educação e a política e a proeminência desta em relação à primeira, o que determina o tratamento de Lenin com relação à

educação, seria a base política, ou em primeiro lugar, o “[

social, que caracteriza, determina, utiliza e projeta a educação no processo histórico,

econômico-político-

]

85 Para mais detalhes, consultar o item 3.5.1 A politecnia: tarefas imediatas e mediatas.

79

quanto ao seu serviço e missão.” (Idem, ibidem, p.21). Em segundo lugar, a

educação é determinada pelos objetivos imediatos ditados pela revolução socialista:

liquidação dos inimigos capitalistas, das classes opressoras e dos contra

revolucionários de direita ou de esquerda.” (Idem, ibidem, p.21). Em última instância, a liquidação total da sociedade capitalista e czarista em particular. É por isso que os escritos de Lenin não se relacionavam com questões especificamente pedagógicas - não que ele não tivesse consciência da importância do assunto - apenas que não eram prioridade nem de seu conhecimento profundo. Em seu prefácio, os editores do livro A instrução pública (LENINE, 1981, p. 3-11) corroboraram a tese segundo a qual Lenin atribuía grande significado à educação do povo, focando as questões da instrução e da formação em relação às tarefas políticas da classe operária e da construção da sociedade soviética nas diferentes etapas de sua evolução. Genericamente, Lenin se embasava nas seguintes premissas: o caráter indissociável existente entre educação e política; o caráter classista da educação, de modo que a educação necessariamente participa da luta de classes; a revolução social é condição indispensável para que haja uma revolução na educação; os problemas da educação não se restringem à educação escolar. Considerando-se que um dos elementos que direciona o raciocínio e a ação das classes dominantes é como fazer para manter e perpetuar o poder político e econômico, é inegável que a educação, a pedagogia e a educação escolar estão intimamente relacionadas com a luta de classes e com as formas pelas quais as classes dominantes agem para manter e perpetuar o seu poder (PONCE, 2001,

p.169).

] [

a

“[

]

Desse modo, em mais de uma ocasião Lenin criticou o fato de que na educação burguesa (e czarista) propunha-se apartar a educação da política e quais eram os objetivos do capital com relação à formação humana:

Uma dessas hipocrisias da burguesia é a crença segundo a qual a escola pode ser apartada da política. Vocês sabem tão bem quão falsa essa crença é. A própria burguesia, a qual advoga esse princípio, faz sua própria política burguesa a pedra angular do sistema escolar, e tenta reduzir a escola ao treino de servos dóceis e eficientes à burguesia, reduzir a educação universal para o fim de treinar servos dóceis e eficientes para a burguesia, de escravos e instrumentos do capital. A burguesia nunca pensou em dar a escola o sentido de desenvolver a personalidade humana. E agora isso é claro para todos aqueles que trabalham pela escola socialista, que criaram laços inseparáveis com todos os trabalhadores e

80

pessoas exploradas e apoia com sinceridade a política soviética. (LENIN 86 [proferido em 14 de janeiro de 1919], 2002, p.1-2)

E no seu discurso no primeiro Congresso de educação de toda a Rússia:

] [

refinadamente ele mentia, quando declarava que as escolas podiam permanecer à margem da política e servir à sociedade como um todo. Na realidade, as escolas se tornaram num instrumento de domínio de classe da burguesia, nada mais do que isso. Elas estavam completamente impregnadas com o espírito de classe burguês e o seu objetivo era prover os capitalistas com lacaios serviçais e trabalhadores hábeis. A guerra mostrou que as maravilhas da tecnologia moderna são empregadas com o objetivo de exterminar milhões de trabalhadores e proporcionar benefício aos capitalistas, que estão fazendo fortuna com a

quanto mais desenvolvido culturalmente o Estado burguês, tanto mais

guerra. A guerra está minada internamente, porque nós desmascaramos as mentiras dos capitalistas. [Assim] Afirmamos que o nosso trabalho na esfera da educação é parte da luta pela derrubada da burguesia. Nós declaramos abertamente que a educação divorciada da vida e da política é mentira e

hipocrisia. [

]

(LENIN

87

[proferido em 28 de agosto de 1918], 2002, p.3-4)

Em seu importante Discurso na Conferência de toda a Rússia dos Comitês de Instrução Política das secções de Gubernia e UEZD da instrução pública, Lenin tratou da escolha do nome “Comitê Principal de Instrução Política”, para um comitê relacionado à educação. Ele declarou então que a escolha de tal nome não é fortuita, mas adequada, pois instrução e política não podem ser apartados. Dessa forma,

Tal ideia [a de que a política e a educação estão desligados] dominou e domina na sociedade burguesa. Falar de instrução “apolítica” ou “não política” é hipocrisia da burguesia, não é outra coisa senão enganar as massas, humilhadas em 99% pelo domínio da Igreja, da propriedade privada, etc. A burguesia, que domina em todos os países que agora ainda são burgueses, empenha-se precisamente em enganar as massas dessa maneira. (LENINE [proferido em 3 de novembro de 1920], 1980c, p.400-

401)

Para Felix (1968), uma revolução verdadeira e completa não se dá apenas no campo econômico e político, mas em todas as esferas da existência: cultural, educacional, pedagógica, escolar. Revolução é revolução em todos os aspectos. Foi assim que na destruição da velha sociedade russa, a cultura e a educação tiveram um papel fundamental. Já mencionamos que a revolução de outubro foi uma revolução em sentido pleno. Ela ganhou força de lei com os primeiros decretos dos Comissários do Povo e afetou praticamente todos os setores da sociedade russa, inclusive a educação escolar e a pedagogia:

86 Speech at the second all-Russia Congress of Internationalist teachers. 87 Speech at the first all-Russia Congress on Education.

81

em Odessa, os estudantes ditam aos professores um novo programa de

história; em Petrogrado, os trabalhadores obrigam seus patrões a aprender o “novo direito operário”; no exército, os soldados convidam o capelão a sua reunião “para dar um novo sentido a sua vida; em certas escolas, as crianças reivindicam o aprendizado do boxe para se fazer escutar e respeitar pelos adultos”. (BENSAID, 2000a, p.170, grifos do autor)

] [

Apesar das dificuldades econômicas e do atraso cultural, esse élan

revolucionário inicial também se fez sentir ao longo dos anos vinte, nas tentativas

pioneiras de transformação do modo de vida, representadas nas “[

escolares e pedagógicas, legislação familiar, utopias urbanas, invenção gráfica e cinematográfica 88 .” (Idem, ibidem, p.170). Citamos anteriormente que para Lenin, as batalhas contra o capital devem ser travadas de acordo com as necessidades, situações particulares e prioridades. Assim, num certo momento, a prioridade era vencer militarmente o capital. Depois, vencer o poder econômico da burguesia. Numa situação pacífica, era administrar o que fora expropriado dos capitalistas (LENINE 89 [escrito entre 13 e 26 de abril de 1918], 1980b, p.564-565). Nesse sentido, a educação participou: da luta contra o capital e contra o sistema czarista; da luta de classes em múltiplas frentes, mas adequando-se a momentos particulares. Foi sob tal ótica que Lunacharski mencionou que o objetivo central, fundamental e global do poder soviético era o de realizar plenamente o comunismo no mundo e mais especificamente na república soviética. Contudo, era um fato que a República dos Sovietes enfrentava um mundo hostil, com uma guerra mundial, depois a guerra civil e a intervenção estrangeira. Portanto, é evidente que a prioridade número um era a defesa nacional, posteriormente a sobrevivência econômica e finalmente a instrução pública, muito embora isso não seja uma regra. Em verdade, uma guerra não pode ser vencida sem o funcionamento da economia e sem a instrução:

reformas

]

No fundo, funcionaram as três frentes [a defesa nacional, a economia, a instrução pública], mas foram adaptadas às necessidades da primeira, e só agora, só nestes escassos últimos anos, é que podemos examinar objetivamente, normalmente, as suas relações mútuas. Podemos agora repetir – e não só nós, os homens da terceira frente -, em nome de todo o poder soviético, que a terceira frente se combina organicamente com a primeira e a segunda, que elas são inseparáveis, que atualmente nos confrontamos com o seguinte problema: a defesa nacional, a administração

88 A propósito da questão da arte em geral no período da revolução, sugerimos consultar o interessante artigo intitulado Arte e revolução (WILLETT, 1987). 89 As tarefas imediatas do poder soviético.

82

do

Estado,

o

desenvolvimento

econômico

são

impensáveis

sem

o

desenvolvimento

rápido

na

terceira

frente

(LUNATCHARSKI,

1988c,

p.159)

E considerando-se que um dos objetivos do comunismo é criar uma comunidade fraterna de pessoas com um nível de humanidade cada vez mais elevado, às quais faculte o pleno acesso aos bens materiais, todas as riquezas e possibilidades de desenvolvimento humano, é absolutamente imprescindível que haja cultura, instrução, ciência, arte, para se alcançar o comunismo (Idem, ibidem,

p.162-163).

Apesar do contexto em que foi escrito, qual seja, a crítica ao programa populista para as escolas agrícolas, na transcrição a seguir Lenin manifestou sua consciência tanto de que a educação é mais ampla que a educação escolar, quanto a vinculação dos problemas da educação com a luta de classes:

Para terminar, voltemos aos problemas da educação, mas não ao livro do senhor Yujakhov que ostenta este título 90 . Já salientamos que essa designação é excessivamente ampla, pois os problemas da educação não se esgotam com os da escola; a educação de modo algum se limita à escola. Se o senhor Yujakhov expusesse os “problemas da educação” efetivamente do ponto de vista dos princípios e procedesse a uma análise das relações entre as diversas classes, não teria podido evitar a questão do papel desempenhado pelo desenvolvimento capitalista da Rússia na

[escrito em fins de 1897],

educação das massas trabalhadoras. (LENINE 91 1977, p.231)

Mas, apesar de nossa preocupação inicial se limitar à investigação da educação leninista no período compreendido entre 1917-1924, não há como dissociar o que Lenin pensou e agiu antes da revolução de outubro.

2.3 Lenin e a educação antes de Outubro de 1917 De acordo com Instituto Marx-Lenin, no Prefácio do volume 2 das Obras escolhidas, nas obras escritas que cobrem o período de 1897 a 1916 (LENINE, 1980b, p.V-IX), Lenin tratou principalmente: da defesa intransigente de uma concepção ortodoxa do marxismo, insurgindo-se contra qualquer tendência revisionista da teoria política e econômica de Marx; da teoria da organização política (o partido como força dirigente da vanguarda do movimento operário). Em suma,

90 O título do livro de Yujakhov é Os problemas da educação. Experiências de ensaios sociais. Reforma da escola secundária. Sistema e objetivos do ensino superior. Manuais para as escolas secundárias. Problemas da instrução pública geral. A mulher e a instrução.

91

Pérolas da projetomania populista.

83

neste período prevalecem as preocupações e ações de Lenin sobre os caminhos da tomada do poder e a derrubada do czarismo / capitalismo.

2.3.1 As disputas com os populistas Com relação ao período anterior a outubro de 1917, destacamos inicialmente a questão da disputa política travada entre a social-democracia russa e os populistas russos. Os populistas eram partidários do populismo, uma corrente ideológica e política pequeno-burguesa surgida no movimento revolucionário russo na década de 70 do século XIX. Na época, defendiam a derrubada do czarismo e a entrega das terras aos camponeses. Afirmavam que o capitalismo na Rússia era um fenômeno “casual” e consequentemente, negavam o papel dirigente da classe operária no movimento revolucionário. Viam nos camponeses a principal força revolucionária, considerando o campesinato como a base do desenvolvimento do socialismo. Formavam uma vanguarda revolucionária que adotou o terrorismo, mas não tinham o apoio das massas, pois os camponeses não os apoiavam (LENINE, 1981, p.141). O populismo passou por uma série de etapas, passando da democracia revolucionária para o liberalismo. Nos anos 80-90 do século XIX os populistas reconciliaram-se com o czarismo, expressaram os interesses dos kulaks (burguesia rural) e lutaram de forma encarniçada contra os marxistas. Mencionamos anteriormente que Lenin promoveu a superação crítica de alguns movimentos sociais da Rússia, adequando-os à realidade russa e às necessidades da revolução social. Esse é o pano de fundo sobre o qual Lenin travou debates acirrados com os populistas, demonstrando cientificamente como o capitalismo se implantou e se desenvolveu na Rússia em O desenvolvimento do capitalismo na Rússia (LENIN, 1985) e consequentemente, provando que a classe dirigente do processo revolucionário era o proletariado e não o campesinato. Outra superação do populismo deu-se também pela adoção de outra via para o derrube do czarismo que não fosse o terrorismo. No caso, a proposta da organização de um partido revolucionário de massa. No campo educacional, selecionamos dois textos de Lenin que se relacionam com seu debate com o populista Yujakhov. Em As herdades-liceus e os liceus correcionais (LENINE [escritos no outono de 1895], 1981, p.12-19), Lenin critica o artigo de Yujakhov intitulado Uma utopia no campo. Plano de ensino

84

secundário obrigatório, publicado no número de maio de 1895 da revista Russkoie Bogatstvo 92 . Em Pérolas da projetomania populista (LENINE [escrito em fins de 1897], 1977), Lenin critica o livro de Yujakhov intitulado Os problemas da educação (segundo Lenin, trata-se de uma recompilação dos artigos de Yujakhov publicados na Russkoie Bogatstvo, durante os anos de 1895-1897 93 ). No primeiro parágrafo do texto As herdades liceus e os liceus correcionais, Lenin estabeleceu um dos princípios sobre o qual se baseiam as críticas aos populistas:

Há muito que é conhecida a solução que propõem os populistas para o problema do capitalismo na Rússia e que nos últimos tempos é representada com o maior relevo pela revista Rússkoie Bogatstvo. Sem negar a existência do capitalismo e obrigados a reconhecer o seu desenvolvimento, os populistas consideram, no entanto, que o nosso capitalismo não é um processo natural e necessário – que coroa o desenvolvimento secular da economia mercantil na Rússia, - mas uma casualidade que carece de raízes profundas e significa apenas um desvio do caminho prescrito por toda a vida histórica da nação. “Devemos – dizem os populistas – escolher outros caminhos para a pátria”, afastar-nos do caminho capitalista e “comunalizar” a produção, aproveitando as forças existentes “de toda” “a sociedade”, a qual, segundo eles, já começa a convencer-se da inconsistência do capitalismo. (LENINE, 1981, p.12)

Porém, destacamos a questão referente à comunalização da produção. Em essência, Yujakhov propõe, tanto no seu artigo quanto no livro supracitados, abordar os problemas gerais da educação da época e sugerir reformas ao ensino, basicamente na forma de uma comunalização do campo. A propósito, Lenin se esmerou em rebater, rechaçar e criticar duramente as ideias de Yujakhov, o qual propunha a implantação do ensino secundário obrigatório nos liceus agrícolas, de modo que os alunos que não pudessem pagar pelos estudos o fizessem por meio do trabalho voluntário. Assim, Lenin denuncia o caráter reacionário do programa de comunalização do campo dos populistas, bem como a confusão e os erros teóricos no tratamento de questões relacionadas à luta de classes, às contradições campo versus cidade, entre outros.

92 Russkoie Bogatstvo: revista mensal que foi publicada em São Petersburgo de 1876 a 1918. No começo da década de 90 do século XIX, a revista passou a ser o órgão de divulgação dos populistas liberais. (LENINE, 1981, p.141, nota 2).

93 Não tivemos acesso ao livro Os problemas da educação, de Yujakhov e portanto, não podemos afirmar se o texto Uma utopia no campo. Plano de ensino secundário obrigatório compõe a referida obra.

85

2.3.2 A educação política do proletariado e as críticas à educação czarista Os elementos de crítica à educação czarista e a educação política do proletariado em Lenin se combinam e se fundem, posto que ambos conduzem tanto aos fins estratégicos da derrubada do czarismo e do capitalismo, quanto da construção da sociedade socialista. Ou seja, as críticas de Lenin à educação czarista e capitalista e as tarefas de educação política do proletariado devem ser entendidas no contexto global da destruição das sociedades czarista e capitalista e relacionadas às concepções de Lenin sobre Estado, revolução, socialismo etc. Nesse sentido, resgatamos novamente o discurso de Lenin proferido por ocasião do IV aniversário da Revolução de Outubro, com relação às duas revoluções empreendidas pelo proletariado russo:

a democrático-burguesa e a socialista. Assim, o conteúdo da revolução democrático-burguesa se refere a varrer as relações sociais e as instituições de tudo o que é resquício do medievalismo, do feudalismo e dos elementos da servidão – a monarquia, a divisão da sociedade em estamentos, as formas de propriedade e usufruto da terra, a situação aviltante da mulher, a religião, a opressão das nacionalidades. Mas, a fim de consolidar as conquistas da revolução democrático burguesa, o proletariado empreendeu a revolução socialista, a qual incorpora e transforma a primeira e vai além dela. Como não existe, nas palavras de Lenin, uma “muralha chinesa” que separe essas duas revoluções, somente a luta decidirá até onde se conseguirá avançar nas conquistas da revolução socialista (LENIN 94 [escrito em 14 de outubro de 1921], 1968, p.125-

129).

Desse modo, as críticas à educação czarista e capitalista e a educação política do proletariado devem ser compreendidas no processo dialético que assumem as revoluções democrático-burguesa e socialista. Inicialmente, analisamos o significado da educação política e posteriormente, como esta se relaciona e se materializa nas denúncias e críticas de Lenin à educação czarista. Logo, no que se refere à educação política, há várias passagens dos textos leninianos em que essa questão é indicada. Em seu livro Que fazer? Lenin (LENINE

94 Por ocasião do IV aniversário da Revolução de Outubro.

86

[escrito no outono de 1901-fevereiro de 1902], 1980a) apresentou alguns dos fundamentos do que seria a educação política do proletariado. No prefácio desta obra, Lenin mencionou que o livro representou o desdobramento de três questões principais colocadas anteriormente no artigo Por onde começar?, a saber: 1) o caráter principal da agitação política; 2) as tarefas de organização; 3) o plano para criação de uma organização de combate para a Rússia. Que fazer? é uma obra prima da teoria e da prática política. Representa o ponto de inflexão vivido pelo movimento socialista europeu e revolucionário russo. Seus fundamentos são o desenvolvimento do capitalismo na Rússia (a teoria do desenvolvimento desigual e combinado); os caminhos do movimento socialista e operário na Europa; as tendências revisionistas e reformistas do marxismo; a organização internacional dos trabalhadores. Seu contexto imediato é a sociedade czarista, o terrorismo, o combate aos meios de repressão czarista, extremamente violentos e eficientes. É ao mesmo tempo uma afirmação na ortodoxia marxiana e seus princípios para a prática política (a luta de classes e a revolução como única forma de romper com o jugo do capital), uma aliança entre um profundo conhecimento teórico com o mais lúcido pragmatismo e firmeza de princípios com relação à derrubada do czarismo e do capitalismo e a construção do socialismo. No tocante ao movimento operário russo, o desenvolvimento do capitalismo na Rússia havia proporcionado o crescimento de um operariado não organizado e despreparado, de modo que o recrudescimento do movimento operário não foi acompanhado pela atuação dos partidos socialistas e revolucionários. Antes, houve a difusão e a penetração dos movimentos reformistas e oportunistas no seio das massas trabalhadoras. Que fazer? é a pergunta a como enfrentar essa miríade de problemas. Ao longo do livro, Lenin vai construindo a resposta, na forma de críticas e ao mesmo tempo superando os detratores e inimigos do marxismo, do socialismo e do movimento revolucionário. Às tendências reformistas, oportunistas e economicistas, ele proclamou veementemente a necessidade da vinculação com o marxismo ortodoxo; com os princípios da luta de classes; com a revolução como forma de passagem para o socialismo; a coerência com os fins da revolução e com a construção do socialismo e do comunismo.

87

Ao problema da falta de condução das massas trabalhadoras, ele anunciou

a necessidade de se criar um Partido que representasse a vanguarda da classe

trabalhadora, organicamente vinculado ao movimento operário, que desempenhasse uma série de tarefas, entre elas a de educação política do proletariado, de denúncias de todo o tipo de opressão (política, econômica, social, cultural), criando as condições para a derrubada da autocracia e do capitalismo na Rússia. Seria um partido formado por “revolucionários profissionais”, isto é, agindo na clandestinidade, recrutados na fábrica, temperados na luta política e capazes de lidar com a polícia política mais eficaz, violenta e repressiva. A resposta à pergunta Que fazer? admite mais de uma resposta. Mas Lenin,

na condição de primoroso propagandista e escritor, faz questão de respondê-la na última frase do livro: “Liquidar o terceiro período.” (Idem, ibidem, p.208). Ou seja, liquidar o período caracterizado pela predominância do oportunismo e do

economicismo, pela união de um “[

despreocupação em relação à teoria [

(Idem, ibidem, p.207), um abandono dos

praticismo mesquinho com a mais completa

]

]”

princípios do socialismo científico como uma teoria revolucionária integral e da luta

de classes. Todavia, Johnstone (1985) mencionou que Lenin escreveu Que fazer? como forma de preparação para o II Congresso do Partido Social Democrata e como contribuição do grupo Iskra 95 contra as tendências economicistas presentes no movimento operário. Evidentemente que é um livro fundamental para se

] seria um

compreender as ideias constitutivas do partido de vanguarda. Porém, “[

equívoco considerá-lo [Que fazer?] como a suma da teoria leniniana do partido, que

– como tantas outras ideias de Lenin – é, antes de mais nada, o produto de

circunstâncias e controvérsias específicas.” (Idem, ibidem, p.116). De acordo com Johnstone, Lenin destacaria anos mais tarde o engano daqueles que viessem a tomar esse texto como algo completamente deslocado de uma situação histórica determinada. Considerar Que fazer? como um dogma, ou

95 Iskra (Centelha): primeiro jornal marxista ilegal da Rússia, fundado por Lenin em 1900, que desempenhou papel decisivo na criação do partido marxista revolucionário da classe operária. Seu primeiro número saiu a público em dezembro de 1900 em Leipzig. O Iskra converteu-se no núcleo de unificação das forças do partido e de seleção e educação dos seus quadros. O Iskra começou a sofrer influências mencheviques e em 1903 Lenin abandona sua redação e a partir de então os mencheviques convertem o Iskra em seu próprio órgão de divulgação (LENINE, 1980a, p.698-699, nota 103).

88

algo completamente independente da tarefa à qual Lenin se propunha naquele momento é um erro. No que concerne às tarefas da social democracia e à educação política do proletariado, Lenin afirmou:

A social-democracia dirige a luta da classe operária não só para obter

condições vantajosas de venda da força de trabalho, mas para que seja destruído o regime social que obriga os não possuidores a venderem-se aos ricos. A social-democracia representa a classe operária não só na sua relação com um dado grupo de patrões, mas também nas suas relações com todas as classes da sociedade contemporânea, com o Estado como força política organizada. Compreende-se portanto que os sociais- democratas não só não possam circunscrever-se à luta econômica, como nem sequer possam admitir que a organização das denúncias econômicas constitua a sua atividade predominante. Devemos empreender ativamente o trabalho de educação política da classe operária, de desenvolvimento da sua consciência política. (LENINE 96 [escrito no outono de 1901-fevereiro de

1902] 1980a, p.119, grifos nossos).

Também em seu texto As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo, Lenin (LENINE [Publicado em março de 1913], 1980a, p.38-39) escreveu:

Os homens sempre foram em política vítimas ingênuas do engano dos outros e do próprio e continuarão a sê-lo enquanto não aprenderem a descobrir por trás de todas as frases, declarações e promessas morais, religiosas, políticas e sociais, os interesses de uma ou outra classe. Os partidários de reformas e melhoramentos ver-se-ão sempre enganados pelos defensores do velho, enquanto não compreenderem que toda instituição velha, por mais bárbara e apodrecida que pareça, se mantém pela força de umas ou de outras classes dominantes. E para vencer a resistência dessas classes um meio: encontrar na própria sociedade

que nos rodeia, educar e organizar para a luta, os elementos que possam –

e, pela sua situação social, devam – formar a força capaz de varrer o velho

e criar o novo. (p.38-39, grifos do autor)

Agitação, propaganda, educação política, que implicam em denunciar de todas as formas e todos os tipos de opressão, em todos os níveis, circunstâncias e situações, de modo que

A consciência política e a atividade revolucionária das massas não podem

ser educadas senão com base nestas denúncias. Por isso, a atividade deste gênero constitui uma das mais importantes funções de toda a social-

democracia internacional [

fevereiro de 1902], 1980a, p.128, grifos do autor)

[escrito no outono de 1901-

].

(LENINE

97

Desse modo, somente por meio de uma educação política das massas é que estas vão adquirir consciência de todos os tipos de opressão, violência, arbitrariedade e abusos que ocorram contra todas as classes (e não apenas contra a classe operária) em todas as formas de manifestação da vida - intelectual, moral,

96 Que fazer?

97 Que fazer?

89

política, cultural etc. Só assim é que a classe operária adquire uma verdadeira consciência política, pois é preciso conhecer, estar consciente de tudo: as relações de classe, a opressão em todos os níveis e não apenas no nível econômico.

É por essa razão que a defesa pelos [por parte dos] nossos “economistas”

da luta econômica como o meio mais amplamente aplicável para integrar as massas no movimento político é, pelo seu significado prático, tão profundamente nociva e tão profundamente reacionária. Para se tornar um social-democrata o operário deve ter uma ideia clara da natureza econômica e da fisionomia política e social do latifundiário e do padre, do dignatário e do camponês, do estudante e do vagabundo, conhecer os seus pontos fortes e os seus pontos fracos, saber orientar-se nas frases mais correntes e sofismas de toda a espécie com que cada classe e cada camada encobre os seus apetites egoístas e as suas verdadeiras “entranhas”, saber distinguir que interesses refletem estas ou aquelas

instituições e leis e como os refletem. E não é nos livros que se pode obter essa “ideia clara”: só a podem dar quadros vivos, denúncias em cima dos acontecimentos, de tudo o que sucede num dado momento à nossa volta, do que todos e cada um falam, ou pelo menos, murmuram, à sua maneira,

do que se manifesta em determinados acontecimentos, números, sentenças

judiciais, etc., etc., etc. Estas denúncias políticas que abarcam todos os aspectos da vida são uma condição indispensável e fundamental para

educar a atividade revolucionária das massas. (Idem, ibidem, p.129, grifos

do autor)

Dessa forma,

 

As denúncias políticas são [

]

um dos meios mais poderosos para

desagregar o regime adverso, separar o inimigo dos seus aliados fortuitos

ou temporários e semear a hostilidade e a desconfiança entre os que participam continuamente no poder autocrático. Só o partido que organize campanhas de denúncias realmente dirigidas a todo o povo poderá tornar-se, nos nossos dias, vanguarda das forças revolucionárias. (Idem, ibidem, p.142-143. Grifos do autor)

Finalmente:

Pois precisamente em sermos nós, os sociais-democratas, quem organizará essas campanhas de denúncias dirigidas a todo o povo; em que todas as questões levantadas na nossa agitação serão esclarecidas a partir de um ponto de vista invariavelmente social-democrata, sem a menor indulgência

para com as deformações, intencionais ou não, do marxismo; em que esta ampla agitação política multiforme será realizada por um partido que reúne, num todo indivisível, a ofensiva em nome de todo o povo contra o governo,

a educação revolucionária do proletariado, salvaguardando ao mesmo

tempo a independência política deste, a direção da luta econômica da classe operária e a utilização dos seus conflitos espontâneos com os seus exploradores, conflitos que põem de pé e atraem sem cessar para o nosso campo novas e novas camadas do proletariado! (Idem, ibidem, p.143)

Alguns anos depois, no texto On confounding politics with pedagogics, Lenin ([escrito em junho de 1905], 2003, p.2) confirmou o que ele havia escrito em Que fazer?, asseverando que o Partido Social Democrata deveria ir às massas, trabalhar a propaganda e a agitação, em conexão com a luta econômica:

90

É obrigação nossa intensificar e ampliar sempre nosso trabalho e influência entre as massas. Um Social-Democrata que não faz isso não é um Social- Democrata. Nenhuma seção, grupo, ou círculo pode ser considerado uma organização Social-Democrata se ela não trabalha para chegar a esse objetivo de modo firme e regular.

De maneira que a atuação do Partido Social Democrata deve se basear no marxismo e levar, sempre e sem desvios, as massas a adquirir sua consciência de classe, posto que

Há e sempre haverá um elemento pedagógico na atividade política do Partido Social-Democrata. Nós devemos educar a totalidade da classe proletária para que eles assumam o papel de combatentes [em prol] da emancipação da humanidade de toda a opressão. (Idem, ibidem, p.2, grifos nossos).

Assim, o Partido Social Democrata deveria ensinar os membros da classe operária, conscientizando-os dos objetivos da social-democracia, mas sem fazer disso um dogma. Cerca de vinte anos depois, em seu discurso As tarefas das uniões da juventude (LENINE [Discurso proferido no III Congresso de toda a Rússia da União

Comunista da Juventude da Rússia, em 2 de outubro de 1920], 1980c, p.391), Lenin explicaria sinteticamente no que consistira a educação política e o papel pedagógico do Partido: criticar a burguesia (e o czarismo); desenvolver a consciência de classe; unir as forças do proletariado contra a burguesia; incitar o ódio à burguesia; derrubar

a burguesia – essas eram as tarefas essenciais naquela época (aproximadamente

quando Que fazer? fora publicado). Também, nas Cartas de longe, ao escrever sobre a capacidade de adaptar- se às mudanças nas situações objetivas nos tempos de revolução, Lenin aludiu à

questão da propaganda política, que se relaciona com a educação política das massas: “Antes de fevereiro de 1917, o que estava na ordem do dia era a

propaganda revolucionária internacionalista corajosa, o apelo às massas para a luta,

o seu despertar.” (LENIN [as primeiras quatro Cartas de longe foram escritas na

Suíça entre final de março e início de abril de 1917], 2005, p.54). Desse modo, inferimos que para Lenin a educação deveria contribuir para a transformação social, de modo que educar significava um processo de politização, ou um processo por meio do qual um maior nível de consciência política é

alcançado. Também, segundo Rossi (1981), pela concepção leninista de partido, as massas seriam incapazes de alcançar por si mesmas um nível de consciência e participação política. Assim, era necessário que existisse um Partido, uma

91

vanguarda capaz de potencializar e catalisar as condições subjetivas, dirigindo a massa para um levante revolucionário. É sob tal ótica que interpretamos as denúncias e as críticas de Lenin à educação czarista, anteriores a Outubro de 1917 98 . A propósito, os textos Em torno da política do ministério da instrução pública 99 (LENINE [escrito em 27 de abril (10 de maio) de 1913], 1981) e Acerca das nossas escolas (LENINE [publicado em 18 de dezembro de 1913], 1981) são bastante ilustrativos, nos quais Lenin criticou duramente o Ministério da Instrução Pública e a educação czarista, que para ele eram simplesmente lacaios dos latifundiários e do grande capital. Na ocasião, Lenin denunciou a maneira como o Ministério da Instrução

Pública divulgava o aumento com os gastos com educação: de 46 milhões de rublos em 1907, seu orçamento elevou-se para 137 milhões em 1913. “O aumento é enorme: quase o triplo em seis anos, nada mais!” (LENINE 100 [escrito em 27 de abril (10 de maio) de 1913] 1981, p.31). Porém, a questão não é o cálculo efetuado em termos porcentuais, mas per capita: triplicar os valores referentes ao orçamento para

a educação havia significado um aumento de apenas alguns copeques 101 por

pessoa. Logo, informar tais aumentos porcentuais objetivava apenas encobrir a

situação miserável da instrução pública na Rússia. Ou seja, o governo entregava-se

a um estúpido e burocrático jogo com números que não diziam nada ou muito pouco.

De forma diferente, Lenin apresentou outros dados, que segundo ele, revelavam o embrutecimento público oficial da educação. Eram informações do próprio governo, a respeito do número de crianças em idade escolar que frequentavam a escola; número de adultos alfabetizados etc. Ele declarou que “[

atraso e a barbárie da Rússia são incríveis devido à onipotência dos latifundiários

feudais no nosso Estado.” (Idem, ibidem, p.32, grifo do autor). Haja vista que

] o

98 As informações referentes às notas de números 99 a 115 (exceto as notas 101 e 112) de nossa tese constam no livro A instrução pública. 99 O texto Em torno da política do ministério da instrução pública foi escrito por Lenin para ser lido por um deputado bolchevique na Duma. O deputado Badáev pronunciou o discurso em 4 (17) de junho de 1913, quando da discussão sobre o relatório da Comissão de orçamentos sobre o projeto de despesas do Ministério de Instrução Pública para o ano de 1913. O deputado expôs quase que textualmente o discurso, mas foi privado da palavra quando disse “Acaso não merece este governo ser expulso pelo povo?”

100 Em torno da política do ministério da instrução pública. 101 Se fosse no Brasil diríamos centavos por pessoa.

92

aproximadamente quatro quintos das crianças e adolescentes em idade escolar na Rússia estavam privados de instrução. E acrescentou:

À exceção da Rússia, na Europa já não há nenhum país tão bárbaro, onde as massas populares tenham sido tão espoliadas no sentido do ensino, da instrução e do saber. E esta barbárie das massas populares, particularmente dos camponeses, não é fortuita, mas irremediável sob o jugo dos latifundiários, que se fizeram donos de dezenas e dezenas de

de terra e usurparam o poder estatal, tanto na

, e não só nestas instituições, sem

falar das inferiores Quatro quintas partes da jovem geração estão condenadas a viver no analfabetismo pelo regime estatal feudal da Rússia. O analfabetismo na Rússia corresponde a este embrutecimento do povo pelo poder latifundiário. Esse mesmo Anuário da Rússia calcula que na Rússia só 21% da população sabe ler e escrever, ou 27%, se excetuarmos as crianças em idade pré-escolar, ou seja, os menores de nove anos. (Idem, ibidem, p.33, grifo do autor)

milhões de deciatinas 102

Duma 103 como no Conselho de Estado

104

Sobre os argumentos do governo de que há limites quanto aos gastos com a educação, Lenin aduziu:

Os plumitivos e os lacaios oficiais dir-nos-ão, por certo, que a Rússia é pobre e não tem dinheiro. Oh, sim, a Rússia não só é pobre, mas

também miserável, quando se trata da instrução pública! Em contrapartida, a Rússia é muito “rica” pelos seus gastos com o sustento do Estado feudal, dirigido pelos latifundiários, pelos gastos com a polícia, o exército, os contratos de renda e as remunerações de dezenas de milhares de rublos aos latifundiários que atingiram “altas” graduações, com a política de

aventuras e saques [

refere aos gastos com a instrução do povo, até que o povo não se instrua o

suficiente para sacudir o jugo dos latifundiários feudais. A Rússia é pobre quando se trata das remunerações dos professores nacionais. Paga-lhes miseravelmente. Os professores nacionais passam fome e frio nas isbás 105 sem aquecimento e quase inabitáveis. Vivem juntos com o gado, que os camponeses metem em suas casas durante o inverno. Os professores veem-se perseguidos por qualquer

no campo e por

uriádnik 106 , por qualquer membro das centúrias negras

A Rússia será sempre pobre e miserável no que se

].

107

qualquer polícia ou espião, sem contar a perseguição de que são objeto por

102 Deciatina: antiga medida de superfície agrária russa que existiu antes da introdução do sistema métrico. Uma deciatina correspondia a 1,092 hectare.

Duma: órgão legislativo que o governo czarista se viu obrigado a convocar em função dos acontecimentos revolucionários de 1905, mas na prática a Duma carecia de todo poder efetivo. Suas eleições não eram diretas, igualitárias ou gerais. Os direitos das classes trabalhadoras e das nacionalidades não russas eram muito restritos e parte considerável dos operários e camponeses não tinham garantidos seus direitos eleitorais.

104 Conselho de Estado: um dos organismos supremos do Estado da Rússia czarista. Foi criado em 1810 como instituição consultiva quanto à promulgação das leis. Seus representantes eram nomeados e ratificados pelo czar. Era tão reacionário que recusava até projetos de lei moderados aprovados pela Duma de Estado.

103

105

106

Isbá: cabana russa primitiva.

Uriádnik: grau inferior na polícia russa da época.

107 Centúrias negras: bandos monárquicos formados pela polícia czarista, cujo objetivo era lutar contra o movimento revolucionário. Os centúrias negras assassinavam os revolucionários, agrediam os intelectuais progressistas e organizavam perseguições antissemitas.

93

parte dos seus chefes. A Rússia é pobre para remunerar os honestos trabalhadores da instrução pública, mas é muito rica para atirar dezenas de milhões de rublos aos nobres parasitas, para gastá-los em aventuras bélicas, para subsidiar os fabricantes de açúcar e os reis do petróleo, e assim sucessivamente. (Idem, ibidem, p.35, grifos do autor)

Ainda, sobre a condição dos professores e a atividade policial do Ministério de Instrução Pública:

Mas até agora referi-me quase unicamente ao aspecto material, ou mesmo financeiro, do problema. Incomparavelmente mais sombrio, ou melhor dizendo, mais repulsivo é o quadro da ignorância espiritual, da humilhação e da falta de direitos dos alunos e dos professores na Rússia. Neste sentido, toda a atividade do Ministério da Instrução Pública é um escarnecer contínuo dos direitos dos cidadãos, do povo. Indagação policial, arbitrariedade policial, entraves policiais à ilustração do povo em geral e dos operários em particular, destruição policial daquilo que o próprio povo faz para se instruir: a isto se reduz toda a atividade do Ministério, cujo orçamento vai ser aprovado pelos senhores latifundiários, desde os direitistas até aos outubristas 108 . (Idem, ibidem, p.36, grifos do autor)

não tinha eu absoluta razão ao dizer que o

Governo é um estorvo ao fomento da instrução pública na Rússia? Que o Governo é o maior inimigo da instrução pública na Rússia?” (Idem, ibidem, p.38, grifo do autor). Finalmente, ele termina com uma provocação peremptória:

Assim, Lenin pergunta: “[

]

Sim, os professores nacionais russos são acossados como lebres. Sim, o Governo obstrui o caminho do ensino a nove décimas partes da população da Rússia. Sim, o nosso Ministério da Instrução Pública é um ministério de buscas policiais, de escárnio da juventude, de ultraje à ânsia de saber do povo. Porém, nem todos os camponeses russos, e em particular os operários russos, nem todos, nem muitíssimo menos, senhores membros da IV Duma, se parecem com as lebres. A classe operária soube

demonstrar isso no ano cinco

e saberá demonstrar outra vez, de modo

muito mais persuasivo, muito mais impressionante e muito mais seriamente, a sua capacidade para a luta revolucionária pela autêntica liberdade e por uma instrução não a Kassó 110 nem para os nobres, mas verdadeiramente popular! (Idem, ibidem, p.40, grifos do autor).

109

Em Acerca de nossas escolas, Lenin denunciou as péssimas condições materiais das escolas paroquiais e os salários aviltantes das professoras 111 . Com base nos dados do censo escolar da Rússia de 18 de janeiro de 1911, nas cidades do distrito escolar de São Petersburgo, havia 329 escolas urbanas; 139 escolas

108 Outubristas: membros do partido União 17 de outubro, fundado em 17 de outubro de 1905. Era um partido que representava e defendia os interesses da grande burguesia e dos latifundiários. Os outubristas apoiavam totalmente a política interna e externa do governo czarista.

109

Ano cinco: alusão à revolução de 1905-1907.

110 Kassó: grande latifundiário e professor universitário. Foi ministro da Instrução Pública de 1910 a 1914. Aplicou uma política reacionária em relação à escola primária, secundária e superior e reprimiu cruelmente os estudantes revolucionários e os professores progressistas.

111

O corpo docente era composto predominantemente por mulheres.

94

privadas e 177 escolas paroquiais. Os salários médios das professoras eram: 924 rublos/ano; 609 rublos/ano e 302 rublos/ano, respectivamente. Nas aldeias havia 3.545 escolas unitárias 112 dos zemstvos 113 e 2.506 escolas unitárias paroquiais. Nas escolas unitárias o salário médio anual das professoras era de 374 rublos; nas paroquiais, 301 rublos/ano. Nas primeiras, o número de professoras com instrução representava 20%; nas escolas paroquiais,

2,5% (sem levar-se em conta os professores de religião). Ao que Lenin declarou: “Professoras pobres e famintas: as nossas escolas paroquiais são isto.” (LENINE [publicado em 18 de dezembro de 1913], 1981, p.49). Com relação à porcentagem de professoras com instrução laica média e superior: nas escolas urbanas, 76%; 67% nas privadas e 18% nas paroquiais.

as nossas escolas paroquiais são isto.” (Idem, ibidem,

“Professoras ignorantes [

p.49). Também, com base nos dados do mesmo censo escolar, Lenin concluiu que as escolas paroquiais não dispõem de espaço físico e iluminação suficientes. “Estes dados permitem ver até que extremo é lamentável a situação das escolas paroquiais.” (Idem, ibidem, p.50). E acrescentou:

]:

Estes dados, como se compreenderá, são extremamente pobres. O Ministério esforçou-se ao máximo para que não se recolhessem dados minuciosos, exatos e completos sobre a mísera situação das nossas escolas.

E, apesar disso, mesmo os dados incompletos, diminuídos pelas autoridades e mal estudados, mostram a situação lamentável, miserável, da escola paroquial. (Idem, ibidem, p.50, grifo do autor).

Lenin foi um crítico mordaz da educação czarista. Suas denúncias dirigiam- se tanto aos poderes centrais da Rússia quanto aos locais, não os poupando de uma linguagem ferina e sarcástica. Também foram objeto de sua denúncia a perseguição policial e política que sofreram estudantes e professores, em função de seu envolvimento em atividades políticas ou simplesmente por adotar e defender posicionamentos liberais. Enfim, a educação política materializava-se por meio da crítica, denúncia, agitação, propaganda, envolvimento com as massas, empregando-se todos os

112 Lenin ou os editores não explicam o que eram as escolas unitárias. Talvez escolas primárias do campo.

Zemstvos: organismos de administração autônoma local instituídos nas provinciais centrais da Rússia czarista em 1864. A competência dos zemstvos estava limitada às questões econômicas meramente locais (construção de hospitais, abertura de estradas, estatística etc.). Atuavam sob o controle dos governadores e do Ministério do Interior, que poderiam anular as decisões tomadas nos zemstvos, se não fossem do agrado do governo.

113

95

meios e dirigidos a todas as circunstâncias, níveis e formas de opressão, violência, desigualdade, discriminação, em todas e quaisquer esferas da vida social, incluindo- se a educação e a instrução.

2.3.3 Educação revolucionária antes da revolução? A questão que norteia nossa argumentação é saber se é possível a implantação uma educação revolucionária no modo de produção capitalista antes da eclosão de uma revolução social. Sobre o assunto, de acordo com o compilador dos textos do livro Cultura e revolução cultural (FELIX, 1968), Lenin considerava a revolução social como premissa indispensável da revolução cultural. Em outras palavras, não se implanta uma educação revolucionária sem antes se fazer uma revolução. Do exposto até o momento no capítulo 2, inferimos que a educação política, ou o papel pedagógico do partido assumia dois aspectos distintos mas complementares. Um deles se refere às questões pedagógicas em sentido estrito. Ou seja, ensino no sentido formal do termo – já vimos que Lenin fora professor de economia política em círculos operários em São Petersburgo e em seu exílio em Paris (item 2.1 Lenin e a educação: aspectos biográficos). Também, em seu texto Em que pensam os nossos ministros?, Lenin (LENINE [escrito entre novembro e dezembro de 1895], 1981), mencionou o temor que despertava no então Ministro do Interior o ensino de conteúdo político ministrado por “indivíduos estranhos” 114 nas escolas dominicais 115 russas. Cite-se que o ministro teria ficado profundamente incomodado com o fato de “os trabalhadores estarem estudando”, caracterizando uma situação em que alguém ensinava e alguém aprendia e que os “indivíduos estranhos” se dispunham a trabalhar gratuitamente:

O sistema que permite a indivíduos estranhos proferir conferências deixa o caminho livre para que se infiltrem entre os conferencistas pessoas francamente pertencentes ao meio revolucionário. Assim pois, se alguns “indivíduos estranhos”, não sancionados nem inspecionados pelos popes e pelos espiões, desejam ensinar os operários, trata-se de uma franca revolução! O ministro vê nos operários a

114 “Indivíduos estranhos”, segundo Lenin, foi a expressão empregada pelo então Ministro do Interior que denunciou essa atividade como subversiva. Os elementos estranhos a quem se refere o Ministro eram militantes engajados na derrubada do czarismo. 115 Escolas dominicais para adultos, em particular para os operários, de modo que a social democracia revolucionária utilizava essas escolas para a educação política dos operários.

96

pólvora e nos conhecimentos e na instrução a chispa; o ministro está certo de que se a chispa cair na pólvora, a explosão irá dirigida, antes do mais, contra o governo. Não podemos negar-nos a satisfação de assinalar que, neste raro caso, estamos plena e absolutamente de acordo com as opiniões de Sua Excelência. (LENINE [escrito entre novembro e dezembro de 1895], 1981,

p.21)

Isto é, o conhecimento, o ensino, a instrução tinham efetivamente um papel revolucionário, de modo que a atuação pedagógica do partido também incluía o ensino propriamente dito. Porém, a atividade pedagógica do partido não deveria nem podia se limitar a essas atividades. Tal é o sentido das palavras de Lenin ([escrito em junho de 1905], 2003, p.3), no já citado artigo On confounding politics with pedagogics, quando ele adverte aos militantes do partido de que é preciso

ensiná-los [os membros da classe operária] não somente com base nos

livros, mas através da participação na luta diária da existência desse estrato atrasado e menos desenvolvido do proletariado. Existe, eu repito, um certo elemento pedagógico nesta atividade diária. O Social-Democrata que perca essa visão deve cessar de ser um Social-Democrata. Essa é a verdade. Mas alguns de nós frequentemente esquece, que um Social-Democrata que reduz suas tarefas políticas à pedagogia também deveria, por outra razão, cessar de ser um Social-Democrata.

] [

Em outras palavras, o papel pedagógico do partido implicava tanto na instrução, quanto na educação política que se dava ao nível das massas, por meio da agitação e da propaganda, à qual Lenin atribuía clara proeminência naquele momento. Logo, perguntamos: no caso da Revolução de Outubro, teria existido então uma “educação revolucionária antes da revolução”? Nossa suposição é a de que sim, quando consideramos as duas faces da atividade pedagógica do partido. No tocante à atividade de agitação e propaganda, não parece haver dúvidas quanto ao seu claro propósito revolucionário. Porém, no caso do ensino propriamente dito, é necessário refletir mais cuidadosamente. Em primeiro lugar, as aulas ministradas não mantinham nenhum vínculo com o sistema formal de ensino da Rússia – eram proferidas na forma de conferências, dadas voluntariamente por pessoas que não pertenciam ao quadro oficial dos funcionários das escolas. Em segundo lugar, as aulas ministradas pelos militantes do Partido Social Democrata compunham o conjunto das atividades do partido, o qual, em última instância, visava a derrubada do czarismo e do capitalismo. Portanto, aquelas atividades pedagógicas devem ser consideradas em consonância

97

com os objetivos estratégicos da social democracia russa, de modo que o papel pedagógico do partido absolutamente não se contrapunha à política. Contudo, tal papel pedagógico não pode se confundir nem se limitar à instrução e ele absolutamente não substitui a pedagogia das massas. Em suma, esse foi o alerta de Lenin ao escrever On confounding politics with pedagogics.

98

3 LENIN E A EDUCAÇÃO APÓS OUTUBRO DE 1917 As deficiências na área educacional da Rússia czarista se transformaram num grande e grave problema para a República Soviética, pois se no czarismo e no capitalismo, o povo era mantido na ignorância como forma de manutenção do status quo e em benefício da exploração e expropriação do trabalho social, de modo diferente, numa suposta sociedade socialista, o conhecimento, o saber, a educação política são condições fundamentais à organização e funcionamento da sociedade. Sendo assim, após o sucesso da Revolução de Outubro de 1917, para Lenin, a educação assumiu grande importância no processo de luta contra a burguesia; de consolidação do poder proletário; de construção econômica e de implantação das bases para construção da futura sociedade socialista, de modo que as ações ligadas à educação e à instrução pública deviam atuar em múltiplas frentes, a saber: a) alfabetizar o povo; b) vencer a resistência dos profissionais contrários à revolução e trazê-los à causa do comunismo; c) elaborar uma pedagogia coerente com a implantação de um governo proletário; d) dar condições materiais para que as crianças pudessem frequentar a escola etc. Portanto, a

revolução socialista de outubro de 1917 provocou mudanças radicais na

organização da instrução pública. A escola privada desapareceu e o sistema escolar adquiriu um caráter democrático. Todos os povos da jovem União das Repúblicas Socialistas Soviéticas obtiveram o direito de desenvolver sua própria cultura em suas próprias escolas.

Conjuntamente com a transformação da economia e o desenvolvimento das relações sociais socialistas começou a renovação cultural. A sua essência consistia na criação de uma cultura socialista e na democratização de toda vida espiritual da sociedade. A revolução cultural refletiu-se na esfera da instrução, através de transformações realizadas pela direção do ensino popular entre 1917 e 1929, denominada, na época,

Comissariado do Povo para a Instrução [

] [

].

(CAPRILES, 1989, p.28)

Quanto às ações no campo educacional, após outubro de 1917, destacamos a promulgação dos decretos referentes à liquidação do analfabetismo e a instituição do programa do PCR de 1919 (ZAJDA, 1980, p.9). Segundo Cambi (1999, p.557- 558), os temas educativos defendidos por Lenin nessa época formaram a base das realizações escolares do período de 1917 a 1930 na Rússia. A instrução pública, por meio da atuação do Comissariado para a Instrução Pública, sofreu profundas transformações:

Ao antigo regime de escolas elementares reservadas ao povo e de ginásios praticamente reservados à burguesia sucedeu a escola única do trabalho; aos antigos programas, que preparavam súditos para o czar e crentes para

99

igreja ortodoxa, sucedeu um programa, forçosamente improvisado, antireligioso, socialista, baseado no ensino do trabalho: tratava-se de preparar produtores conscientes de seu papel social. Planejou-se associar a escola e a oficina. Para melhor pôr em prática, desde a infância, a igualdade dos sexos, a escola se tornou frequentemente mista, com meninos e meninas reunidos nas mesmas classes. Mas era preciso improvisar tudo. Os antigos livros didáticos deviam ser destruídos. Grande parte do antigo professorado resistia, sabotava, não compreendia, aguardava o fim do bolchevismo. Era trágica a carência da escola nas coisas mais básicas. Faltava papel, caderno, lápis, canetas. Crianças famintas e esfarrapadas ali se reuniam no inverno, em torno de uma pequena estufa instalada no meio da sala de aula, onde às vezes, para amenizar um pouco o sofrimento do frio, queimavam-se peças do mobiliário; havia um lápis para cada quatro alunos; e a professora passava fome. A despeito dessa imensa miséria, deu-se prodigioso impulso ao ensino público. Tal era a sede de saber que se manifestava no país que por toda parte se criavam novas escolas, cursos para adultos, universidades e faculdades operárias. Inúmeras iniciativas descobriram novos campos para a pedagogia, inteiramente inexplorados. (SERGE, 2007, p.465).

Nesses anos, caracterizados por um forte entusiasmo construtivo e por uma vontade de profunda renovação das instituições, realizou-se uma atualização pedagógica e didática, ligada particularmente à noção de escola única do trabalho, escola de cultura geral e politécnica. Além desses princípios gerais, também foram tomadas medidas para organizar o sistema educativo, tais como a construção de escolas, a formação de professores, a reforma do sistema pedagógico, entre outras.

3.1 A luta contra o analfabetismo Além da guerra, da fome e das doenças, o analfabetismo foi um grave problema enfrentado pela República dos Sovietes. Numa conversa com Lenin, Clara Zetkin teria dito que o analfabetismo tinha seu lado positivo e negativo. O lado positivo era que as pessoas não foram educadas sob o entulho das concepções e ideias burguesas (LENIN, 1968, p.178). O lado negativo é que se tornou necessário alfabetizar milhões de pessoas privadas de uma instrução mínima, a qual é a base para a produção científica, técnica e artística. Das ações implementas para erradicação do analfabetismo, destacamos a assinatura do decreto sobre a mobilização da população dos que soubessem ler e escrever (final de 1918), no qual todos aqueles que soubessem ler e escrever deveriam se comprometer com o trabalho de alfabetização. Destacamos também a assinatura do decreto de dezembro de 1919, intitulado “Sobre a liquidação do analfabetismo”, segundo o qual toda a população com idade entre 8 e 50 anos que não sabia ler nem escrever deveria se alfabetizar em russo ou em sua língua materna, conforme fosse o desejo de cada um (Idem, ibidem, p.30-31).

100

Ademais, o governo soviético adotou muitas medidas visando dar condições para que as pessoas pudessem estudar: a jornada de trabalho foi reduzida em duas horas para os que estudavam, mas conservando-se o recebimento do salário integral; clubes, casas particulares, fábricas, repartições públicas foram usados para ministrar e assistir aulas. Mesmo durante a guerra civil, foram editados 115 títulos de obras clássicas da literatura russa (Idem, ibidem, p.30-31). “A campanha de alfabetização tomou conta também da guerra e os soldados aprendiam a ler com as famosas cartilhas especialmente escritas por Krupskaia para o front.” (Idem, ibidem,

p.32).

Mas tais tarefas não se limitavam apenas e tão somente a ensinar a ler e a

escrever. Significava também elevar o nível cultural e educacional da população, posto que a alfabetização, a cultura e a educação eram premissas para muitas outras necessidades no campo da educação, tanto as imediatas quanto aquelas que deveriam ser empreendidas a médio e longo prazo. Assim, desde a sua criação, o Comissariado do Povo para a Instrução

conseguir a alfabetização geral e a educação

(CAPRILES, 1989, p.30), pois o analfabetismo era um

empecilho real na construção do socialismo. Lenin afirmou em vários momentos que uma pessoa analfabeta estava impossibilitada de participar da vida política, portanto

era necessário que todos soubessem ler e escrever. Ou seja, a alfabetização era uma premissa para se conseguir elevar o nível educacional, bem como para a participação e a educação política do povo. Tomemos dois exemplos. Em seu discurso no primeiro congresso de educação de adultos, no auge da guerra civil (maio de 1919), quando todos os prognósticos sobre o desfecho da guerra eram desfavoráveis à República Soviética, Lenin 116 ([realizado de 6 a 19 de maio de 1919], 2002) afirmou que naqueles dezoito meses do poder soviético, houve um grande progresso na esfera da educação de adultos, porém, ainda havia muitos obstáculos a superar. Dentre os problemas elencados, Lenin se referiu indiretamente à falta de educação política do povo. Ele declarou: os bolcheviques estavam sendo acusados pela oposição (mencheviques, socialistas revolucionários, cadetes), através de uma

Pública estabeleceu como meta “[

política da população [

]

]”

116 [Speech at the] First all-Russia congress on adult education.

101

propaganda maciça interna e externa à Rússia, de terem mentido ao prometer “paz, pão e liberdade”, pois a República dos Sovietes ainda estava envolvida numa guerra devastadora. Ao que Lenin replicou: os bolcheviques nunca pensaram em abandonar seus princípios. Portanto, ao tomar as medidas necessárias para aniquilar o poder burguês, houve uma reação violenta e sem precedentes da burguesia nacional e internacional contra o poder soviético, à qual os bolcheviques não podiam simplesmente “baixar as baionetas”. Fazer isso seria um suicídio e representaria o extermínio da classe trabalhadora. Assim, não havia outra alternativa além de continuar lutando. Ora, para o mujique que tinha uma vida semi servil, para o analfabeto, para o povo que viveu séculos na mais profunda ignorância, guerra é guerra, independentemente de ser uma guerra imperialista, uma guerra entre nações, ou uma guerra entre classes sociais. Para Lenin, somente quem tem educação política poderia entender plenamente a situação e não ser usado como massa de manobra pela oposição contra o governo soviético. Foi talvez sob tal inspiração que Lenin teria afirmado: “Para participar da revolução de maneira racional, com sensatez e êxito, é necessário estudar.” (LENINE 117 [escrito em novembro de 1917], 1981,

p.59).

Ainda, retomando a concepção de comunismo para Lenin, qual seja, o princípio do bem comum, ou o trabalho, a vida dedicados ao bem comum, é praticamente impossível encontrar pessoas numa sociedade burguesa que creiam honestamente nesse princípio e mais do que isso, pratiquem-no sincera e abnegadamente, de acordo com uma orientação política. Em outras palavras, para a existência do comunismo, pelo menos duas condições são imprescindíveis. Em primeiro lugar, é preciso eliminar a propriedade privada, a qual é o substrato material dos princípios da lógica burguesa. Em segundo lugar, a tarefa muito mais longa, difícil e trabalhosa, que é eliminar os hábitos burgueses e criar novos hábitos, por intermédio de um longo, paciente, sistemático, perseverante, determinado, trabalho de elevação do nível cultural e educacional da população em bases socialistas / comunistas, conforme Lenin

117 Sobre as tarefas da biblioteca pública de Petrogrado.

102

proferiu em seu discurso sobre para a juventude comunista (LENINE 118 [proferido em outubro de 1921] 1980c). Sem essas duas condições, o sacrossanto princípio burguês da propriedade privada jamais será eliminado. Seria o pensamento pequeno burguês daquele que, após a expropriação dos livros da burguesia, se apossa do que foi desapropriado e vai imediatamente guardá-los debaixo do seu colchão como se fossem propriedade particular. Isto é, o princípio segundo o qual ou tu roubas ou tu és roubado por alguém. Ou o pensamento segundo o qual o mais importante na vida é a “minha” casa, o “meu” carro, o “meu” dinheiro. Além disso, saber ler e escrever não era apenas uma premissa para a construção da futura sociedade socialista, mas uma necessidade imediata. Reed (1977, p.137) nos auxilia a compreender a importância da alfabetização e da educação na organização do Estado soviético:

Os funcionários públicos do Estado e do Município recusavam-se a obedecer aos comissários, os correios e telégrafos não lhes garantiam as

comunicações, os ferroviários ignoravam friamente os pedidos de comboios, Kerenski vinha a caminho, a guarnição não era inteiramente de confiança,

os cossacos preparavam-se

burguesia organizada, mas também todos os outros partidos socialistas,

com exceção dos socialistas-revolucionários de esquerda

mencheviques internacionalistas e dos sociais-democratas

internacionalistas, mas mesmo estes não tinham tomado ainda uma decisão concreta. A seu favor tinham, é certo, os operários, as massas de soldados

– os camponeses em número desconhecido -, mas os bolcheviques não eram uma facção política onde abundassem elementos cultos e preparados Riazanov, enquanto subia a escada principal, explicava numa

espécie de aflição irônica que ele, Comissário do Comércio, nada sabia de negócios. Na sala de café do primeiro andar, sozinho, sentado num canto,

Escrevia nervosamente

estava um homem de capa de pelo de cabra [

algarismos num envelope e mordia o lápis ao mesmo tempo. Era Menjinski,

o Comissário das Finanças, cujas habilitações se resumiam a ter sido

empregado num banco francês

, de alguns

Contra eles [os bolcheviques] havia não só a

119

].

(grifos nossos)

Ou seja, tomado o poder político, era preciso organizar e administrar o Estado e essa atividade foi assumida pelos bolcheviques. Contudo, a maioria, senão todas as atividades desempenhadas necessitavam mais do que rudimentos de leitura e escrita e de aritmética para serem executadas. Mas, como sabemos, o povo em geral não era instruído e assim os bolcheviques enfrentaram extrema dificuldade para lidar com a situação.

118 As tarefas das Uniões da Juventude.

119 Sobre os partidos políticos existentes à época, facções, classes que pertenciam etc., sugerimos consultar as Notas e explicações do livro Dez dias que abalaram o mundo (REED, 1977, p.35).