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MITOLOGIA EGÍPCIA

Como em todas as civilizações antigas, a


Cosmogonia ocupa a primeira parte dos textos
sagrados egípcios, tentando explicar com a fantasia e
o relato milagroso tudo quanto se escapa do reduzido
âmbito do conhecimento humano. Para os egípcios,

como para o resto das grandes religiões, a criação do Universo faz-se de umúnico ato da vontade
suprema, a partir do nada, da escuridão, do caos original. O seu criador chama-se Nun e era o espírito
primigênio, o indefinido ser que tinha tomado o aspecto do barro. Este barro que aparece com tanta
freqüência em todas as mitologias junto dos parágrafos das criações de deuses e de homens, a matéria-
prima por excelência dos oleiros e (por assimilação) a matéria lógica para os deuses criadores, não era
senão a terra e aágua próximas dos antigos povoadores do mundo. Por isso o barro Nun foi o berço
espiritual, a primeira força em que ia

tomando forma o novo espírito da luz, Ra, o disco solar, pai de tudo o que habita sob os seus raios. Da
vontade de Ra vão nascer os dois primeiros filhos diferenciados da divindade: são Tefnet e Chu. Elaé a
deusa daságuas que caem na terra e eleé o deus do ar, e os dois filhos estarão com o grande pai Ra no
firmamento, compartilhando a sua glória e o seu poder e ajudando-o na longa e eterna viagem. Mas
também Chu e Tefnet vão continuar a obra iniciada por Ra, criando da sua união outros dois novos filhos,
os dois sucessores daúltima geração celestial: o deus da terra Geb, e a sua irmã e esposa, a deusa do céu
Nut, para que eles relevem

à primeira geração e criem a terceira, a que vai estar na terra do Egito.

Os filhos de Geb e Nut, os quatro filhos do Céu e da Terra, dois homens e duas mulheres (embora haja
versões que dão um quinto filho, chamado Horoeris), formam a primeira geração de seres que vivem no
solo do Egito, os quatro primeiros deuses que se ocupam dessa terra escolhida e que velam por ela, ou
que entram no mundo egípcio para completar o binômio do bem e do mal, da vida e da morte. O primeiro
dos homens e o mais velho dos quatro, Osíris,é o deus da fecundidade, a divindade que representa e
sustenta a continuidade da natureza; eleé quem faz nascer a semente, quem a amadurece e quem agosta os
campos; Osírisé o princípio da própria vida.Ísis, a sua irmã e esposa, reina em igualdade sobre o extenso
domínio do Nilo, em perfeita harmonia com o seu irmão, formando o casal positivo do binômio. Se Osíris
se encarrega de proporcionar a vida aos humanos,Ísis está sempreà frente, após a invenção de todas as
artes necessárias para desenvolver a vida, desde a moagem do grão até à s complexas regras e leis da
vida familiar. Neftis, a segunda irmã e a mais pequena de todos, não podia ter a sorte deÍsis, a sorte de ser
esposa do bom e belo Osíris; por isso Neftis ficouà margem da felicidade; também por isso era a
representação do resto do país

útil, a deusa das terras menos felizes, as terras secas junto dos campos de cultivo; as parcelas

de sequeiro que não tinham a sorte de ser regularmente inundadas pelaágua e pelo limo do rio nas suas
cheias anuais. Set, o segundo homem e o terceiro dos filhos,é a criatura que pressagiou o seu destino ao
nascer prematuramente, dado que abriu o ventre da sua mãe Nut, fazendo-a sofrer cruelmente; Seté o deus
da maldade, o espírito negativo e o representante do deserto sem vida, a personificação da morte.

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Naturalmente, Set odeia desde a infância o primogênito Osíris; estaé a fábula constante do bom irmão
diante do mau;é a lenda exemplificadora do mau assassinando o bom, tentando evitar a sua clara
superioridade, tentando apagar com a morte a distância entre ambos. Mas continuemos com a história dos
quatro filhos de Geb e Nut, e digamos que Set casou com a sua irmã Neftis, mantendo a tradição iniciada
pelos seus antecessores divinos. Mas Neftis foi esposa do malvado Set também mau grado seu, porque ela
amava Osíris, e deste casamento não surgiu nenhum filho, porque Set tinha que ser forçosamente estéril
pela sua maldade. Mas não sucedeu a mesma coisa com Neftis, dado que ela sim, conseguiu ter um filho
e, precisamente um filho de Osíris. Para conseguí-lo, embebedou o seu irmão e deitou-se com ele. Esse
filho nasceria mais tarde e seria conhecido com o nome de Anúbis. Neftis amava tanto Osíris e tanto
desprezava o seu marido que, quando se produziu o seu assassínio, a boa e infeliz Neftis fugiu do seu
perverso marido, para poder estar ao lado do amado, junto da sua irmã Í sis, ajudando-a no
embalsamamento. Após aquele momento,Ísis e Neftis permaneceriam sempre unidasà morte,
acompanhando o piedoso defunto na sua sepultura, para proporcionar-lhe a ajuda que necessitasse no
outro lado da morte. Ao assassinar Osíris, Set só conseguiu divinizar ainda mais o seu odiado irmão,
porque o Osíris triunfante sobre a morte ia estabelecer-se como a personificação divina do ciclo, e
voltaria a nascer e morrer eternamente, reinando na vida eterna do céu e deitando sobre o seu traidor
irmão na terra, ao ficar com as suas posses e ser a figura amada pelas duas irmãsÍsis e Neftis, a figura
adorada e homenageada por todos os egípcios, a divindade bondosa que governava as estações e o
benéfico Nilo em proveito dos homens.

Não foi demasiado difícil a Set terminar com a vida do seu bom irmão, o grande rei Osiris, apesar da
constante vigilância queÍsis mantinha sobre as suas idas e vindas, dado que ela sim conhecia bem o seu
malvado irmão e não confiava de maneira nenhuma nas suas artes. Depois de tentar uma e outra vez
assassiná-lo semêxito, finalmente Set tramou um plano que lhe permitia iludirÍsis e assim mandou
construir uma caixa muito rica e bela, com o tamanho exato do seu irmão. Com a caixa em seu poder, Set
organizou uma grande festa,à qual convidouÍsis e Osíris, junto com outras setenta e duas personagens,
que não eram outras que os seus aliados no sinistro plano. Terminada a festa, Set comentou que tinha
idealizado um jogo, que consistia em ver quem de todos os presentes cabia melhor naquela magnífica
arca, e para o feliz tinha reservado um grandioso prêmio. Os convidados provaram sorte, mas nenhum
dava o tamanho adequado, de maneira que chegou a vez de Osíris e ele sim, enchia completamente o
buraco da caixa. Mas não havia tal prêmio; os presentes lançaram-se em tropel e encerraram o rei dentro
dela; depois lançaram-na ao Nilo e o rio arrastou a caixa e a sua carga para o mar.Ísis saiu em perseguição
do baú e Neftis uniu-se ela rapidamente na procura, enquanto Set e as suas seis dúzias de cúmplices
celebravam precipitadamente a suposta vitória do usurpador. As duas irmãs entretanto, encontraram a
caixa onde Osíris tinha sido encerrado e comprovavam que já era simplesmente um cadáver. Com os seus
tristes lamentos e prantos, as irmãs comoveram os deuses e estes decidiram trazer de novoà vida ao infeliz
Osíris, mandando-as que amortalhassem o seu corpo embalsamado em ligaduras, dando assim a pauta
para o posterior rito funerário, ou que reunissem os seus restos para poder insuflar de novo a vida no seu
destroçado corpo, segundo a versão correspondente.

Também se conta, em outros relatos sagrados, que a arca tinha saído para o mar quandoÍsis chegouà foz
do Nilo, e só terminou a sua viagem na muito longínqua costa da Fenícia, indo de encontro a um tronco
que cresciaà beira do Mediterrâneo, muito próximo da cidade de Biblos. aárvore, milagrosamente,
cresceu num instante, englobando o féretro flutuante no seu tronco para dar-lhe oúltimo abrigo. Movido
pelo destino, o rei de Biblos viu aquela gigantescaárvore e mandou cortar o seu tronco e com ele ordenou
construir uma coluna para

o seu palácio. MasÍsis soube também do portentoso fato e empreendeu a viagem até chegarà cidade de
Biblos, onde pediu ser recebida pelo rei, para fazer-lhe saber a razão da sua penosa expedição. O rei
ouviu o relato da rainha e ordenou imediatamente que lhe fosse devolvido o caixão onde repousavam as
restos mortais do bom Osíris. Concedido o seu desejo e com o caixão em seu poder, regressou
sigilosamente para o Egito, não sem antes tentar ocultar o cadáver do infeliz esposo da maldade de Set.
Mas Set, senhor da noite e das trevas, deu com ele e voltou a tentar terminar com a ameaça que Osíris
representava, fazendo com que os seus restos fossem dispersos por todo o imenso e intransitável delta do
grande rio. De novoÍsis empreendeu a procura dos restos de Osíris nos pântanos do Nilo e, um a um,
reuniu outra vez o cadáver. Quando os conseguiu, tomou a forma de uma grande ave de presa e pousou-se
sobre os despojos, batendo as suas asas até que com o seu ar benfeitor insuflou uma vida renovada em
Osíris. O esposo ressuscitado tomou-a e a boaÍsis ficou grávida de Hórus, o filho que teria de vingar o pai
assassinado e restauraria a ordem divina no Egito. Mas, enquanto chegava o momento do nascimento de
Hórus,Ísis ocultou-se de Set nos pantanosos terrenos do delta do Nilo.

Osíris retornou ao reino dos mortos, mas já tinha deixado a sua semente emÍsis e dela nasceu felizmente
Hórus em Jenis. Com a presença devota da sua mãe foi educado no maior dos segredos, preparando-se
com esmero e paciência o sucessor do rei assassinado no seu esconderijo do Delta, enquanto a mágicaÍsis
o cobria com a impenetrável couraça dos seus conjuros, esperando até que chegasse a hora da vingança
definitiva. E esta hora chegou, mas a luta entre Set e Hórus seria longa e angustiosa; uma briga que
aparecia não ter fim, na qual um e outro infringiam tanto mal como o que recebiam do seu adversário.
Tão penoso era o combate que Tot, o deus da Lua e a divindade da ordem e a inteligência, se apiedou dos
combatentes e interveio para mediar na disputa, levando a ambos perante o tribunal dos deuses e fazendo
comparecer também Osíris, para que todos pudessem ouvir as razões de um e dos outros. O tribunal
sentencia que, na causa entre Set e Osíris, seja Osíris quem recupere o reino que teve em vida, e
acrescentaà sua coroa a parte do país que originalmente correspondeu ao seu irmão e assassino. Na longa
e controversa vista da briga entre Set e Hórus, que durou nada menos que oitenta anos, os juízes celestiais
terminaram por sentenciar o pleito sobre os direitos sucessórios a favor de Hórus. O filho póstumo de
Osíris recuperava o que correspondia pela sua linhagem: a sucessão no trono de Egito. Assim, o filho era
reconhecido pela divindade como soberano indiscutível, dentro da tradição clássica que adjudicava aos
reis e aos reinos um sentido de vontade divina. Por estas duas sentenças Set perde o seu poder,
conquistado com enganos, mas nãoé castigado senão afastado do mundo; Set passa a ser também uma
divindade necessária ao ser acolhido por Ra, divindade solar, para que se ocupe nos céus de alternar a
noite com o dia e deixe que sejam os reis os que governem sobre a terra. Hórus, por sua vez, engendra
quatro filhos: Amsiti, Hapi, Tuemeft e Kevsnef; embora não se especifique com exatidão quem pode ser a
mãe, seé que existe tal (há quem dizem que são filhos de Hórus e da sua mãeÍsis). Estes filhos, que
acompanharão Osiris nos julgamentos aos mortos, também cuidam dos quatro pontos cardeais e se
ocupam de velar pelas necessidades e pela saúde das entranhas de Osíris.

Como costuma contar-se em todos os mitos, uma vez passada a primeiraépoca de harmonia, as criaturas
terrestres, os seres privilegiados criados pela simples vontade de Ra, deus supremo, levantaram-se contra
o seu senhor. Eram as sucessivas lutasà morte entre os inimigos da terra e as comitivas celestiais, lutas tão
ferozes que foram desgastando as energias de Ra, até o fazer perder a sua força e babar. Com essa baba
caída da sua boca,Ísis formou um barro e com ele construiu oáspide que -colocado no caminho do deus-
envenenou Ra. Feito isto,Ísis apresentou-se diante do ferido, prometendo o antídoto em troca de que a

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divindade revelasse o seu nome secreto. Ra resiste enquanto pode agüentar a dor terrível, e trata em vão
de esquivar a resposta, pois sabe que o nome da coisa e o poder sobre ela são umaúnica coisa. Mas afinal,
vencido pela crescente dor, Ra tem que aceitar e dizer ao ouvido deÍsis esse nome que agora também ela
vai conhecer, comunicando-lhe com esse ato a sua força total. Uma vez vencido porÍsis, o enfraquecido
Ra vai ser também o alvo de outros ataques dos seres humanos, e a sua vingança, através da deusa
Sekhmet, a mulher-leoa que encarnava a guerra,é tão terrível que quase termina com a humanidade,
embora seja maior o amor que sente pela sua obra criadora, apiedando-se dos açoitados humanos
justamente a tempo, ao enviar uma chuva de cerveja vermelha que cobre toda a superfície do planeta,
confundindo Sekhmet, que a toma por sangue e trata de saciar a sua sede de morte com ela, embriagando-
se com o vermelho líquido de tal maneira que deixa de executar a sentença de morte que Ra tinha
decretado para os humanos. Depois deste ato de compaixão para com os seus desagradecidos filhos da
Terra, Ra retira-se para sempre de todo o relacionado com os assuntos de governo, cedendo ao filho do
seu filho Chu, o bom Geb, representante divino do planeta, o poder sobre o globo terrestre e quem sobre
ele habita, pessoas, animais ou vegetais, mas sem o abandonarà sua sorte, dado que Ra se compromete a
ajudá-lo com os seus conselhos e perpétua vigilância.

Já conhecemos Tot quando interveio nos pleitos divinos entre Osíris, Hórus e Set, levando a sua
arbitragem ao tribunal dos deuses, mas fica por definir a sua origem, o seu poder, dado que ele era o ser
que reinava sobre todo o Universo com a sua sabedoria e punha nele a ordem. O grande Toté identificado
com a posse de todos os conhecimentos mágicos e considerado inventor da palavra, criador da escritura, o
ser superior que manejava os conceitos e possuía, pois, o poder sobre os seres e as coisas inanimadas. Por
essa ordem, era o deus natural dos muito importantes e onipresentes escribas de Egito, o grupo dos mais
significados funcionários de todo o reino, dos homens que contavam e relacionavam todos os atos, os que
catalogavam as posses de reis e senhores, e os que narravam as crônicas de cada

época. Tot, por sua parte, estava encarregado, como escriba, em fazer a relação dos reis

presentes, passados e futuros. Ele conhecia o destino dos rebentos reais e apontava qual deles reinaria
pela vontade dos deuses sobre todo o império do Nilo e quanto duraria o seu feliz reinado. Tot
determinava assim tudo o que estava escrito (pela sua própria mão) que devia suceder, ele era a
personificação do destino omnisciente. Desposado com Maat, deusa da justiça e filha de Ra, formava um
casal que compreendia todo oâmbito da justiça, pois ele exercia-a sobre os deuses e os seres vivos, e Maat
presidia o julgamento dos mortos, junto com Osíris. Também se apresenta Tot casado com outras duas
esposas de ascendência divina, Seshet e com Nahmauit, e era considerado o pai de outros dois deuses
menores, Hornub, filho havido com a primeira, e NeferHor, na sua união com a segunda, e gozava de um
mês com o seu nome, consagrado a ele, situado no princípio de cada ano.

Se importante era a alma universal de Tot, Amon converteu-se no rei dos deuses a partir da capitalidade
de Tebas, no poder divino aos faraós e no deusúnico e oficial do Egito, substituindo-se a partir do trono o
culto ao cansado e enfraquecido Ra no transporte do disco solar ao longo do arco celestial. Amon, com
um critério coerente com a importância do astro solar, passou a ser o deus da vida, da criação, da
fertilidade. Quando desaparecia no céu visível, Amon passava a iluminar a noite dos mortos, o outro lado
da vida. Depois, com o reinado de Amenofis (auto-batizado Akhaenaton), Amon foi substituído por Aton,
um derivado do deus criador, Atum, que doador da vida original foi converter-se na representação do sol
de Poente e de lá, por vontade do faraó, no deusúnico. Mas ainda mudando de nome continuava a ser o
mesmo deus solar, e pouco custou -após a morte do herege rei Akhaenaton- devolver-lhe o velho nome e
as antigas atribuições, para recuperar a sua identidade inicial de

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Amon e ultrapassar os limites do império egípcio, sendo adotado como deus supremo nos povos vizinhos
da Líbia, Núbia e Etiópia, convertendo-se em deus oracular no seu grande templo situado no meio das
arenas desérticas da Líbia. O grande Amon, casado com a deusa Mut, teve um filho, Jons, que passou de
ser uma divindade lunar secundária para converter-se em permanente acompanhante do seu pai nas
diárias travessias a bordo da barca solar. Com Mut e Jons, completa-se o panteão tebano e fecha-se
completamente a sagrada trindade dos deuses de Tebas,à semelhança do trio formado por Osíris,Ísis e
Hórus.

Se grande era o poder dos deuses e quase tanto o dos seus designados, os faraós, o mundo da morte era,
em definitiva, o que governava a vida dos humanos, dado que toda a vida se orientava a cumprir com o
custoso rito do enterramento, da preservação do corpo do defunto e do reunião dos muitos bens que
deviam acompanhá-lo na sua marcha para a vida eterna. Além de todo este cortejo de móveis, barcas
rituais, imagens do morto, efígies dos deuses menores e maiores, alimentos, livros de orações e conselhos,
devia permanecer o corpo, tão intacto como se soubesse fazer, porque ainda não se tinha chegado a
abstrair a idéia da "alma", e só se identificava a possibilidade da vida após a morte com a conservação do
aspecto humano. Por isso, nos enterros mais privilegiados conservavam-se embalsamadas por separado,
junto da múmia igualmente embalsamada, as vísceras do defunto, dado que não resultava possível, pela
sua rápida deterioração, mantê-las dentro do cadáver. Aqui desempenhavam um papel decisivo os quatro
filhos de Hórus, dado que -como faziam com as entranhas de Osíris - eles cuidavam do bom estado das
vísceras humanas e as protegiam de qualquer perigo que pudesse ameaçá-las. As quatro repartiam as suas
funções da seguinte maneira: Amsiti estava ao cuidado da vasilha que continha o fígado; Hapi velava pela
urna onde se encontrava o pulmão; Tuemeft vigiava o estômago do defunto; e, finalmente, Kebsnef
cuidava do vaso no qual se conservavam os intestinos. Mas os quatro filhos de Hórus não estavam
sozinhos nestas transcendentais tarefas de ultra-tumba, dado queÍsis acompanhava Amsiti; Neftis estava
com Hapi; Tuemeft cumpria a sua missão junto de Neith, a deusa daságuas do Nilo; e Selket, divindade
do Delta e que tinha criado o grande Ra, estava com Kebsnef.

Osíris, com Hórus, Tot e Maat e os seus quarenta e dois assessores especializados nas quarenta e duas
faltas que deviam ser calibradas, (sete vezes seis, um número duplamente mágico), presidia as cerimônias
do estrito julgamento dos mortos. Ante ele eram pesadas as boas e as más obras do defunto, a alma ou
resumo da sua vida, e julgava-se essa relação de pecados ou virtudes. Mas não terminava o trâmite com a
pesagem e defesa do defunto; após essa primeira parte, se passava a contrastar se o exposto tinha sido
certo e tudo o julgável tinha sido trazidoà luz. A veracidade do julgamento da alma era verificada com a
pesagem minuciosa e precisa do coração, colocado na balança diante de uma leve pena, e bastava que
esse coração fosse o que inclinasse a balança para o seu lado para que se condenasse o morto na
verdadeira prova final, sendo condenado a padecer todos os sofrimentos possíveis, imobilizado na
escuridão da sua tumba ou imediatamente o seu corpo devorado por uma aterradora divindade, Tueris,
uma criatura com cabeça de crocodilo e corpo de hipopótamo que aguardava pacientemente o mentiroso.
Se tudo estava a favor do defunto, Osíris premiava-o com o renascimento e a passagem para a vida eterna.
Mas junto dele estavam outras duas divindades especializadas no ciclo da morte: Anúbis, filho de Neftis e
Osíris, embora criado e educado porÍsis, e Upuaut, um antigo deus da guerra. Os dois aparecem sempre
com cabeça de chacal, ou de cão (especialmente Anúbis) acompanhando Osíris no transe do julgamento
como seus primeiros auxiliares. Eram dois seres acostumados a cuidar dos mortos, um por ter ajudado no
seu dia a embalsamar o cadáver de Osíris, e o outro por ter tido que fazê-lo em tantas ocasiões, quando
guiava as expedições guerreiras e devia cumprir o ritual com os seus guerreiros falecidos em combate.

Se a alegre e feliz Hathor tinha a forma de uma vaca, o seu animal companheiro devia ser o muito
relevante deusÁpis, o boi divino adorado desde os primeiros tempos da existência do Egito, embora não
chegasseà sua categoria celestial. Nãoé de admirar esta representação animal dado que todos os deuses
egípcios tinham uma característica animal que geralmente portavam nas suas figurações em lugar da
cabeça humana, quer fosse uma de falcão, como no caso de Hórus; de chacal ou cão, como a que
distinguia Anúbis; de leoa, como a que personificava a deusa Sekhmet; de vaca, comoàs vezes
levavamÍsis e Neftis; de bode, como podiam luzir Ra e Osíris; a cabeça de gato que diferenciava Bast e
Mut; a de ganso que era a de Amon; oíbis e o macaco que encarnavam o supremo Tot; o escorpião que
representava o espírito da deusa Selket, ou o fênix triunfal, que era a melhor forma de dar a conhecer a
eternidade da alma dos dois grandes deuses Ra e Osíris. Mas o boiÁpis era um verdadeiro animal,
selecionado entre os seus congêneres de acordo com umas marcas sagradas que deviam exibir, para servir
de centro do seu culto; era cuidado no seu templo de Mênfis durante vinte e cinco anos, se chegasse a
alcançar tal idade, depois era afogado e mumificado, para dar lugar ao seu sucessor. Mas junto da
magnificência do boiÁpis, não há que esquecer o escaravelho sagrado, o Jepri, representação viva e
múltipla do deus do sol e venerado em todos os cantos do Egito, sendo uma das representações mais
freqüentes da divindade solar, que faz parte essencial da civilização egípcia e que está imortalizado entre
os signos escolhidos para a linguagem escrita.

Como pudemos ver, na envolvente da muito importante civilização egípcia se gera grande parte dos
conhecimentos que vão fazer parte das culturas mediterrâneas. Comoé natural, também no Egito nascem
grande parte dos mitos recolhidos posteriormente pelos povos próximos, por hebreus e cristãos na Bíblia
e pelos muçulmanos no Corão. Egitoé o berço da gênese hebraica,é a primeira cultura que trata de
sintetizar a criação do mundo e o seu barro original,é aceita para explicar também os diferentes credos
que se elaboram a partir do seu

Egitoé, sobretudo, o berço indiscutível do monoteísmo, do futuro deusúnico; do Egito, esta proposta sai
para o norte com os hebreus que viviam e trabalhavam para os faraós; os cristãos retomam-na e os
muçulmanos elaboram-na com novos dados, conservando o núcleo dos relatos bíblicos e acrescentando os
elementos cristãos posteriores na sua singular recopilação do relato dos livros santos; também lá, com Set
e Osíris, está a origem do mito de Caim e Abel como o vai estar o de Maria, nos primeiros séculos do
cristianismo, da diocese de Alexandria, como mãe do menino Jesus,à qual se passa a denominar Rainha
dos Céus, aproveitando o fervor que esta imagem levanta nos fiéis egípcios, mantendo-a igual aÍsis
quando era adorada com o seu filho-irmão Osíris nos braços como prova do seu contínuo renascimento.
Ainda mais importante: a vida depois da morteé outra das grandes idéias, talvez a fundamental, sobre as
quais gira o espírito religioso egípcio, e essa promessa de vida eterna de uma melhor vida para os justos.

Se se quer encontrar a melhor aportação da mitologia egípciaàs religiões posteriores, há que procurá-la na
grande esperança que implica o seu sistema de julgamento dos seres humanos. A recompensa imensa que
os sucessivos deusesúnicos (Jeová, a Trindade, Alá) vão oferecer aos hebreus, aos cristãos e aos
muçulmanos,é a mesma que se descreve no Egito com o relato do julgamento de Osíris e a possibilidade
da eternidade feliz; ao sair do seu contexto faraônico original democratiza-se e torna-se acessível a todos
os fiéis por igual, ou mais concretamente,é oferecida com maior segurança a quem mais sofre, a quem
menos possuí e desfruta nesta vida terrena, sendo a de Osíris a primeira idéia que o homem forja sobre a
existência de um ser superior que tem que julgar os méritos e deméritos de cada um de nós. Com Osíris
estão os seus quarenta e dois assessores, e deles nasce e fortalece-se a idéia do pecado estabelecido, a
regra da religião exata e canônica, que toma corpo nos livros que no futuro querem ser norma inapelável.
Para os cristãos, as tríades dos deuses egípcios (Osíris,
Ísis e Hórus, ou Amon, Mut e Jons) consolidam-se e mantêm-se no conceito trinitário do seu

deus. Egito, inicialmente isolado pelo deserto e pelos terrenos pantanosos do Delta, abre-se aos gregos e
aos romanos e, através de Roma, a suaúltima dominadora, após a guerra entre os dois grandes rivais na
luta pelo Império, Julius Caesar e Marcus Antonius, junto de Cleópatra, a rainha grega dosúltimos dias da
sua existência independente e grandiosa, termina por exportar para o Oriente próximo e para o Ocidente
inteiro a base do seu ideário mítico, quando parece que o seu poder já se extinguiu para sempre.

Disponível em: http://www.scribd.com/doc/21337460/MITOLOGIA-GERAL


(acessado em 08/02/2011)