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Maria Luiza S. Teles OQUEE PSICOLOGIA editora brasiliense Maria Luiza Silvcira Teles O QUE E PSICOLOGIA editora brasiliense ‘Coperight © by Maria Luiza Silveira Teles, 1989 Nerhuma parte desta publieagio pode ser gravada, armazenada em sistemas eletrénicos, fotocopiada, reprodiszida por meios mecdnicox ou outros quaisqucr sem autorizacde prévia do editor Primeira oligo, 1999 14" reimpressao, 2008 Copyeesk: Rosemary C Mochado Revisio- dna Celia M. Goda ¢ Ibraim 5. Bachim Copa: Ivotw Macambira sobve lastrogdes de Leon Ferrari Dados Intemacionais de Catalog 50 a Publicago (CIP) (Camara firasicira do Live, SP, Brasil) Yes, Maria azn Sivan ‘© que ¢ pucologia Maria Luiza Sivci Teles ~ So Paulo ‘raiiense, 2003. (Colegio peimetos pase 222) 1 reo. do be 1988, IsiNa3-11 012328 Picola Tito oxen 00-150 Indices para eatilogo sistemities: 1. Psicologia 130 ‘editora brasitionse: Tatsape CEP O8SI0010 Sto Paulo ~ SP Fame Fan Os td7 0098-F48 ail bratalensentraal cam be ‘Sr edtoratrasuemae com livraria brasiliense ua Emits Marva 218 Paap CEE 03336.000" Sip Paulo SE Fnaib at Wee T1) $626.18 SUMARIO 0 que é psicolagia? Ohomem: um ser especial O mecanismo do comportamento 2... Panorama atwal da psiealogi as quatro for- GAS ener nse * " O papel do psicdlogo . .. Questionando a psicologia . po Bex ase Ao Fabio, com a minha gratidao O QUE E PSICOLOGIA? Quem sou eu? Quais as minhas necessidades? Por que tenho conflitos? Em que sou diferente dos ‘outros animais? Como aprendo? Por que, tantas ve- zes, sinto-me inadequado em meu trabalho, entre amigos, na sociedade? Em que me assemelho as ‘outras pessoas? O que posso fazer para ter uma vida mais rica, feliz ¢ produtiva? Como me relaciono com ‘o ambiente fisico e social? Estas so, decerto, algu- ‘mas perguntas que todo ser humano se faz, desde ‘que tem consciéneia de si Em escritos muito remotos, j& encontrames ‘esta sorte de preacupacdes e tentativas de resolve- -las. A investigag3o sobre a natureza humana ante- cede, talvez, a Hist6ria escrita e a propria Filosofia. Esta, como ato reflexivo, ¢ t3o antiga quanto o Ho- mem. Como ciéncia do conhecimento sobre 0 co- nhecimento, porém, remonta aos gregos, € claro que tanto a formulac3o das pergun' ee | Maria Luiza Silveira Teles ‘como as suas respostas tém sido diferentes de acor do com a época e a sociedade. Entretanto, uma coisa certa: a preocupagdo com o interior do Ho- mem e com a maneira pela qual ele se relaciona con- sigo préprio e com o ambiente esta sempre pre- sente. Atualmente, época de répidas transformagées, essas questées se tornam mais imperiosas. A crise de identidade, que era propria da adolescéncia, se ge- neralizou pelas outras fases da vida e toma conta de todos nds que vivemos numa cultura confusa, sem valores definidos e em busca da propria identidade. Preso, hoje, da angustia que caracteriza sua vida — num mundo louco, cadtico e competitive, que valoriza sobremodo 0 sucesso, a juventude, a beleza, o dinheiro — 0 Homem, mais do que nunca, se encontra dividido, cheio de dividas e questiona- mentos, necessitando, pois, de ajuda. Sem tempo para parar e pensar, sem poder aproximar-se da Natureza, tantas vezes sem amigos com quem desabafar, sentindo-se s6, vazio e alie- nado, cada vez mais o ser humano se torna vitima de doencas psicossomaticas, isto 6, distirbios emo- cionais que se refletem fisicamente no organismo, como é o caso da maioria das tlceras. Peca de uma engrenagem social, quase sempre desumana e cruel, ele se v@ pequeno, esmagado, sem compreender a sentido da prépria existénci Como auxiliar 0 individuo em todos estes im- passes? Como fazer emergir a reflexio sobre seu O que é Psicologia 9 corpo, vivéncias, relacdes, desenvolvimento intelec- tual, emocional, espiritual? Onde encontrar a pro- posta para uma vida mais rica, mais plena, mais livre? A Psicologia ¢ uma ciéncia que tenta buscar re- cursos neste sentido. Procura compreender 0 Ho- mem, seu comportamento, para facilitar a conviven- cia consigo proprio e com 0 outro. Pretende forne- cer-Ihe subsidios para que ele saiba lidar consigo mesmo e com as experiéncias da vida. €, pois, a Ciéncia do Comportamento, compreendida esta em seu sentido mais amplo. Vale ressaltar que entendo comportamento Mo apenas como reagdes exter- nas, mas também como atividades da conscitncia ¢ mesmo do inconsciente, num plano indiretamente observavel. Nio interessam ao nosso estudo as miltiplas discussdes e toda a polémica existente em torno da palavra comportamento ou mesmo do objeto e defi- nig&o da Psicologia. O importante é que vocé en- tenda do que ela trata. Seu objeto tem variado ao longo do tempo e sua pré-histéria confunde-se com a prépria hist6ria da Filosofia. No sentido etimolégico, seria a ciéncia da alma ou 0 estudo da alma. Foi a partir dai que os gregos comecaram suas, especulagées. Achavam que todo ser humano pos- suia uma contraparte imaterial do corpo, de onde provinham os processos psiquicos, dos quais 0 cé- tebro seria apenas mediador. Durante séculos, foi Mn 10 Maria Luiza Silveira Teles como estudo da alma que a Psicologia existiu. Rompimento brusco neste conceito se deu com 0 fildsofo francés René Descartes (1596-1650), cuja teoria do dualismo psicofisico — distingdo ‘entre corpo e mente — impregnou as idéias da época e influenciou toda 4 Psicologia posterior. Descartes considerava que 0 comportamento animal era mecanicista, isto 6, obedecia a agdes pu- ramente reflexas. Dai 0 conceito de animais sem mente. A realidade consistia, para ele, em duas areas, distintas: 0 dominio fisico do material e 0 reino ima- terial da mente. O material tem massa, localizaga no espaco movimento. Neste reino esto os organismos ‘sub- -humanos, que sofrem processas alimentacdo, digest3o, circulagdo sangiinea, fun- cionamento nervoso, movimentos musculares crescimento, Ja a mente nao tem as caracteristicas daquilo que 6 fisico © suas atividades so raciocinar, conhe- cere querer. Descartes nfo afastava a possibilidade de que algumas atividades fossem decorrentes da interacdo da mente com o seu corespondente fisica, Incluia entre elas a sensac’o, aimaginacao e o instinto (im- pulsos para a aco). Desta forma, durante algum tempo, mais preci- samente por duzentos e cinalienta anos, a Psicolo- gia continuou sende 0 estudo da mente ou da cons- O que € Psicologia 1 ciéncia. Nos séculas XVIII e XIX, a mente era objeto de grande atenco por parte dos fildsofos. Duas gran- des correntes dominavam, ento, 0 pensamento ocidental: © empirismo inglés € 0 racionalismo ale- mao. Q empirismo acreditava que todo conhecimento se baseava nas sensacées: os érgdos dos sentidos receberiam a estimulacio do mundo exterior € os nerves a conduziriam ao eérebro; 0 resultado seria a percepcio dos objetos, base de todo conhecimento humano. A filosofia empirista enfatizou, pois, os papéis da percepco sensorial e da aprendizagern no desen- volvimento da mente. John Locke, empirista inglés, atirmava que a crianga nascia com a mente como uma tabula rasa, pagina em branco onde a experién- cia ea percepco sensorial iriam inscrever todo o contetido. Os empiristas ressaltavam 0 papel da memoria e das associagSes mentais, para justificar a base sensorial do conhecimento. Além disso, reduziam 0 contetido mental a elementos que se conjugariam através das associagdes, como num mosaico. Juntamente com os iluministas franceses, os empiristas formaram © movimento psicolégica cha- mado Associacionismo, considerado por muitos como a verdadeira ruptura entre a Psicologia e a Fi- losofia. Qs racionalistas alemaes, por outro lado, afir- — 4 Maria Luiza Silveira Teles ‘A Psicologia tem agora campo proprio de es- tudo, Muito se tem discutido, porém, sobre qual se- ria este campo. Uma coisa é certa: ela se preocupa com o Homem, diferentemente de qualquer outra ciéncia. Tem objeto determinado, objetivos claros, usa métodos especiais, embora seu campo de es- tudo ainda se confunda, em suas froiteiras, com a Fisiologia, por um lado, e as Ciéncias Sociais, por ‘outro, motivo pelo qual é também considerada uma ciéncia biossocial, Lauro de Oliveira Lima, uma das maiores ex- pressGes brasileiras no campo da Educaco, diz em Mecanismos da Liberdade (1980): “H& uma razo epistemolégica para se considerar a Psicologia indi- vidual uma microssociologia. N&o & possivel obser- var © ser humano sendo através de momentos nos quais se encontra em interagdo. Os fendmenos psi- colégicos, portanto, s3o sempre fendmenos estru- turais¢ estruturantes, uma vez que tada relago cir- cular — as relagdes humanas s3o circulares — tende a criar uma estrutura. Daf decorre que a Psicologi tem de invadir as fronteiras da Sociologia, quer di- zer, do estudo das relagSes na forma de agir do indi- viduo, mesmo porque a forma de agir modificada modifica, por sua vez, a relagao. O estudo interdis- ciplinar 6 © minimo que se exige nesta abertura de fronteiras.”” Por outro lado, no se pade negar que o indi- viduo @ um organismo em ago. Ai entra o campo da Biologia. O que é Psicologia A Psicologia nfo estuda apenas o comporta- mento humano. Estuda ainda o comportamento ani- mal, principaimente de ratos e chimpanzés, pois este estudo oferece subsidios interessantes na com- preensdo das bases do comportamento humano. Ge- neralizar, porém, como regra, as reagdes animais para o Homem, seria, a meu ver, ignorar a peculiari- dade deste ser capaz de criar cultura, emocionar-se, perceber 0 que se passa com seus iguais e sentir com eles. Acreditar que a Psicologia deva ser ciéncia nos moides daquelas que se baseiam principalmente no método experimental, seria empobrecé-la por de- mais, j4 que 0 Homem é um ser especial da natu- reza. Aceito, entSo, a Psicologia como uma ciéncia ‘que n3o tem condicdes de usar sempre os métodos tradicionais das chamadas ciéncias exatas. ‘0 Behaviorismo, uma das modernas correntes psicolégicas, entende o Homem como sendo uma caixa preta, considerando, portanto, sua mente é psiquismo como inacessiveis aa estudo pela Psico- logia. Os behavioristas resumem tudo em Estimulos e Respostas. Para eles, cada estimulo determina uma resposta especifica. E é $6 isto o que se pode conhecer. ‘Quer me parecer, entretanto, que o fato de o observador ser também humano — e conhecer, certamente, a historia pessoal e a cultura particular do observado — lhe permite penetrar nessa ca/xa 16 Maria Luiza Silveira Teles O que é Psicologia preta, por um processo de identificago. Concluindo: a Psicologia é 0 estudo do compor- ‘tamento. E como o Homem e seu bem-estar sto os nossos interesses principais, 6 do comportamento humano que trataremos aqui. Para que se tenha nog3o da extensio de campo da Psicologia, eis algumas questdes que Ihe séo pertinentes: — Como aprendemos? — Como se da o desenvolvimento fisico, mo- tor, emocional, social e intelectual da crianca? — Oque éa crise da adolescéncia? — Que fatores influem no desenvolvimento? = Que so emogdes? Elas so inatas ou apren- didas? = Por que nos lembramos e esquecemos?. — Como se desenvolve o pansamento? — Qual a ligagdo entre pensamento é lin- guagem? — Como se dé a resoluc3o de problemas? — Qual a influéncia do grupo sobre o indi- viduo? — Como se desenvolve a personalidade? — Como se dé a percepeao? — Quais so os fatores responsaveis pelos diversos tipos de retardamento mental? — Oque motiva o comportamento? — Como explicar as diferengas individuais? — Quais as causas dos desvios de comporta- mento? = Como atuar sobre o desajustamento? — Qual a influéncia dos valores @ das atitudes na percep¢io dos individuos? — Como estimular a criatividade das pessoas? Pode-se perceber que 0 campo da Psicologia & bastante vasto e trata de questées fascinantes para todos aqueles que desejam compreensiia mais pro- funda de si préprios e de seus semelhantes. € conhe- cimento indispensdvel para quem quer que vé lidar mais diretamente com as pessoas. E esse 0. caso no 86 dos psicélogos e psiquiatras, mas também dos médicos, educadores, professores, assistentes soci- ais, eclesidsticos, advogados etc. Como estudo cientifico do comportamento, a Psicologia deve procurar alcangar trés objetivos: a descrigdo, a predi¢3o e 0 controle do comporta- mento. A descrigdo & a primeira etapa buscada pelo cientista do comportamento. Refere-se & neces- sidade de se tomarem claramente explicitas as condi¢Ses nas quais 0 fendmeno ocorre, sem qual- quer referéncia ao significado. Por exemplo: um experimentador que esteja observando 0 efeito do excesso de tensdo sobre a aprendizagem deverd, simplesmente, descrever todas as etapas do fend- meno, tais como efetivamente se apresentam, sem nenhuma colocac3o de interpretacdes pessoais. Esta operac3o é bastante dificil para 0 psicdlogo, p0is, ainda que involuntariamente, sua tendancia & envolver-se e tentar compravar, de todo modo, suas 7 18 Maria Luiza Silveira Teles BO eeeeeEeeeeeS hipéteses pessoais. Além disso, a propria disposic3o psicolégica do observador pode interferir na resposta do observado. A predi¢da 6 0 segundo nivel a ser alcancado pelo cientista. A capacidade de predi¢3o em Psico- logia jé & possivel em algumas Sreas onde hipdteses foram comprovadas e relacdes de causa-efeito esta- belecidas através de estudos criteriosos. Se, por exemplo, um rato recebeu alimento cada vez que manipulou uma alavanca, poder-se-4 prever, com certeza, que, a0 sentir fome, novamente havera de pressioné-la. Um terceiro objetivo & © controle ou a capa- cidade de manipular 0 comportamento dos indi- viduos, por meio de certas técnicas. Tal mani lagdo & muito usada no campo das relagdes hu- manas, principalmente em empresas, publicidade etc. Exemplificando: consideremos 0 caso da propa- ganda, em que mensagens subliminares (estimulos pouco intensos que, com a repetic3o, produzem Certos efeitos) induzem a determinado tipo de com- portamento por parte do publico. Deve-se, pois, ser capaz de descrever o compor- tamento de forma precisa @ explicd-lo adequada- mente, antes de se poder pensar em prediz@-lo ou muda-lo, com razodvel margem de éxito. ctf O HOMEM: UM SER ESPECIAL Oestudo do Homem é extremamente dificil e enorme a ignorancia em relagdo a ele. O modo de ser biolégico do homem e seu desenvolvimento nao podem ser ignorados, pois orientam no sentide de seucomportamento. OQ Homem éum animal essencialmente diferente de todos os outros. Nao apenas porque raciocina, fala, ri, chora, opde o polegar, cria, faz cultura, tem autaconsciéncia e consciéncia da morte. E também diferente porque o meio social ¢ seu ambiente espe- cifico. Ele deveré conviver com outros homens, nu- ma sociedade que j& encontra, ao nascer, dotada de uma complexidade de valores, filosofias, religides, linguas, tecnologia. Se tem um sistema nervoso mais elaborado que © dos outros animais e possui capacidades que eles —— Maria Luiza Silveira Teles no possuem, encontra-se, no entanto, ac nascer, mais vulneravel ¢ menos apto para a sobrevivencia. Um beb@ humano, por exemplo, n’o consegue prover sozinho & sua alimentacio, enquanto que a maioria dos animais j4 6 auto-suficiente ao nascer. Longos anos haverBo de se passar até que 0 ser humano tenha condicées fisicas, intelectivas ¢ emo- cionais para sobreviver em seu ambiente préprio. O animal @ provido de instintos, o homem nao. Por isso ele terd que aprender quase tudo. “Mas, n&o se ouve dizer instinta de sobrevi- véncia, instinto sexual etc,, quando se refere ao ser humano? Que histéria & esta?” — 0 leitor deverd estar pensando. E simples de explicar: o animal nasce com uma programago genética, um equipa- mento inato que © prepara para todos os atos da sobrevivéncia. Ninguém lhe ensina que & época de procriar, que existe 4gua por perto ou que ele dever’ defender-se. Ele ja esta preparado pela propria Natureza para tudo isto, Jé.cbservaram como um jo3o-de-barro constréi sua casa ou como as abelhas constroem a calméia? J8 viram algum jo%o-de-barro que construisse um modelo diferente de casa ou abelhas que cons: truissem colméias diferentes? Desde que o mundo é mundo, eles sempre repetiram 0 mesmo comporta- mento, Para isso eles foram preparados, Seu com- portamento é@ , pois, estereotipado. € @ a isto que chamamos instinto: uma série de atos repetitivos que levam a determinado fim, a O que é Psicologia Ohomem deverd conviver com outros homens uma socie~ dade que jé encontra ao nascer. 22 Maria Luiza Silveira Teles J& o homem terd de aprender as coisas mais simples, como mamar. 0 bebé nasce com o reflexo de suc¢%o, mas, até que consiga pegar bem o bico do seio e sugar sem engasgar, precisa de certo treino. (O ser humano tem, portanto, reflexos, necessi- dades, impulses, mas nao /nstintos, pois, para aten- der as necessidades mais primérias, necessita de alguma aprendizagem. Ele tem o impulso de sobre- vivéncia, a necessidade de alimento etc., mas para atendé-los precisa aprender. E vai aprender de acor- do com os padres correntes em sua sociedade espe- cifica e em sua familia. Assim, ha pessoasquecomem usando talheres, enquanto outras usam pauzinhos ou, ainda, as préprias maos. Nao tem muita importancia, porém, se usamos a palavra impulso ou instinto. O que importa 6 com- preender que, nesta questo de sobrevivéncia e adapta¢o ao ambiente, o Homem & um ser muito especial, pais tem de aprender praticamente tudo e possui uma capacidade extraordinaria para isso. AA aprendizagem, que significa mudanca de comportamento como resultado da experiéncia, seré basica em todo o processo humano de ajusta- mento. Ajustar-se significa aprender formas de ‘comportamento que permitam ao individuo adap- tar-se as exigéncias internas e externas que Ihe s30 impostas. A fim de evitar dividas, 6 bam lembrar que o animal também aprende. Apenas tem menos capa- O que € Paicologia 23 Ss cidade para tal, j4 que nao 6 capaz de raciocinio, e menos necessidade, jé que seu ambiente é simples @ ele 6 provido de instintos. A linguagem E preciso ressaltar que o Homem nfo seria ca- paz de fazer cultura e nem de pensar sem a lin- guagem. Os animais se comunicam, mas ndo conseguem falar, nem usar simbolos, A linguagem permite ao Homem ligar 0 pre- sente ao passado e antecipar o futuro. E atravésdela que o Homem pensa, lembra, elabora conceitos, organiza suas experiéncias, trabalha no nivel da abstraco, prevé, julga, planeja, idealiza. Sem a linguagem, tanto oral quanto escrita, teriamos de estar eternamente recomegando, pois no haveria como transmitir todo 0 acervo cultural que o Homem conquista em determinado momento hist6rico. Fundamental, portanto, no comportamento humano o fator da linguagem. Através dela sio introjetados os valores préprios de uma sociedade, moldando a personalidade do individuo; € também através dela que as pessoas se comunicam, pas- sando umas para as outras suas expectativas de comportamento. Sem a linguagem, pois, nfo haveria esse meio SY Maria Luiza Silveira Teles social, esse processo de trocas, colocado como caracteristica basica no aprendizado humano. A linguagem 6, entdo, instrumento e produto social e histérico, Nossa visio de mundo, a maneira como vamos compreender a realidade esto estreitamente ligadas alinguagem. E através das nossas relagdes com os outros, em que a linguagem se coloca como fator primordial, que vamos elaborar nossas represen- tagdes do que 6 o mundo. A palavra est4, ent&o, intimamente ligada & transmissio ou imposiglo da ideologia dominante. Voltando & caracteristica propria do ser hu- mano — 9 fato de que seu desenvolvimento se da em um meio social — lembremos que as palavras dos outros se tornam nossas palavras, sua maneira de falar, nossa maneira de falar; as idéias que eles veiculam através da palavra se tomam nossas idéias @ as respostas esperadas ao estimulo de cada pa- lavra so sempre reforcadas pelo meio social. Assim, or exemplo, se a crian¢a usa uma palavra ligada a ‘sexo, em nossa cultura, ela é reprovada com uma cara fechada, uma bofetada, palavras de repreens3o ‘ou mesmo um castigo. Ela aprende, entdo, tras ‘coisas: que a palavra ndo deve ser dita; que, se for dita, sera considerada como agressiio; ¢, ainda, que © sentido implicito, sexo, n3o ¢ algo bem aceito em. sua sociedade, Sendo a linguagem to importante, estreita- Mente ligada ao comportamento global e instru- O que é Psicologia mento basico na resolucao de problemas ¢ na criati- vidade, seria 0 caso de se perguntar se a Psicologia n&o é, também, a Ciéncia das ComunicacSes e o psicdloge um verdadeiro comunic6logo. Parece ser por ai que as coisas caminham hoje em dia. Atual- mente um nove campo de estudo — a psicolingilis- tica — est& se desenvolvendo. Os psicolinguistas estudam como a linguagem 6 adquirida e usada e a maneira pela qual funciona como estimulo que induz a determinado comportamento. A linguagem pode estimular diretamente um padrio de resposta espe- cifico e isto 6 crucial na aprendizagem e na elabo- ragdo mental, 25 O MECANISMO DO COMPORTAMENTO Como se comporta o Homem? Por que se com- porta de determinada maneira? O que pode ser feito em rela¢o ao seu comportamento? E 0 que, final- mente, leva o Homem a comportar-se? Isto @, por que, ao invés de ficar quieto em um canto, ele age € se movimenta no sentido de buscar alimento, pra- ticar esportes, ganhar dinheiro etc.? Pelo simples motivo de que todos temas neces- sidades fisieas, psiquieas e sociais que nos levam a agir em busca de satisfac&o ou reducdo de tensdo. Toda vez que estamos insatisfeitos, seja de que ordem for esta insatisfac3o, tornamo-nos tensos, isto é, nossos misculos se enrijecem e certas glan- dulas liberam determinados horménios em nosso sangue. A tensio 6 desagradavel. Assim, a ten- O que é Psicologia déncia natural serd procurar alguma forma de nos livrarmos dela. Toda necessidade, portanto, provoca tensdo que leva a aco, visando a um objetivo (processo de motivagSc). Quando este objetivo ¢ alcancado, ha @ reduco de tensio @, portanto, 0 relaxamento, acompanhado de sensagao agradavel. Este estado de eq io que o organismo alcanca com a satis- facdo da necessidade chamamos de homeostase. Nossas necessidades so indmeras. Algumas nascem conosco, mas a maioria delas aprendemos no convivio social. N3o temos necessidade apenas de alimento, agua, oxigénio, evitar a dor, sexo, manter a equilibrio térmico do organismo etc, Te- mos também a necessidade de afeto, de contato, de aprender (curiosidade}, de transcendéncia (ir além do que é objetivo e paipavell, assim como de pres- tigio, aprovagao etc. Assim, sdo miltiplas as razdes pelas quais somos levados a agit e © fazemos até a morte. Neste interim, entre concep¢io e morte, es- tamos no apenas agindo e interagindo, mas ampli- ando nossos conhecimentos e crescendo em todos os sentidos. Ngo apenas procuramos atender as nossas necessidades, mas temos também — quando nada desviou © nosso desenvolvimento da normalidade —tendéncia a querer ajudar o outro no atendi- mento das préprias necessidades, assim como a criar, inovar, renovar, fazer evoluirem as institui- 8 Maria Luiza Silveira Teles gbes-ea tecnologia. 0 Homem é, pois, a0 nascer, apenas um orga- nismo biolégico que, em contato com os outros de sua espécie, deverd tornar-se Pessoa, Gente, um verdadeiro Ser Humano. Ele vai desenvolver um Self, que é a consciéncia de si, a capacidade de se ver e se analisar, de perceber 0 que 0 outro pensa € sente, colocando-se em seu lugar. O que 9 individuo traz consigo ao nascer? Sua constituicdo fisica, fruto da unido entre os gametas dos pais: 0 espermatozdide eo dvulo. Estes gametas Ihe forneceram caracteristicas préprias do género humano e caracteristicas individuais, que fargo dele um ser Gnico na natureza. Muitas das potencialidades que traz, por oca- sio do nascimento, vai desenvolver, a0 longo da vida, em contato com as outras pessoas ¢ como fruto de experiéncias pessoais. Além dos reflexos, 0 equipamento humano inato presume impulsos, necessidades, emogdes basicas, mecanismos de resposta, capacidade de percep¢do, potencial intelectual, processos sensd- rios, meméria, temperamento. Com o desenvolvimento do sistema nervoso, 0 individuo tornar-se-4 cada vez mais capaz de apren- der. Assim, aprender também outras necessidades, outras emocdes e desenvolverd sentimentos, edu- cara seu temperamento etc, Em nossa existéncia no Mundo iremos, pois, nos adaptando; com isso, desenvolvendo e, até YD O que € Psicologia 29 eS —— certo ponto, modificando © proprio equipamento inato. O que seremos dependerd fundamentalmente das nossas experiéncias na Fami na Escola, na ‘Sociedade. De um lado, portanto, esté o Eu e do ‘outro o Mundo. € da interag3o Eu-Mundo que ha de ge formar a personalidade. O Mundo implica uma série de regras, li tacdes, conceitos: pode, nao pade, certo, errado. A crianga se vé diante de um Mundo desconhecido, mas encontra ja delimitados os mapas que devera seguir. E, durante toda a sua vida, uma luta ferrenha hd de se impor: © Eu tentando preservar a individua- jade e a Sociedade tentando impor seus conceitos @ padres. A crianga com raiva, por exemplo, deseja naturalmente extravasar esta emocio, no que 6, quase sempre, impedida pelos representantes da sociedade, os pais e professores. Digamos, também, que Jodozinho deteste cebolas {isto é proprio dele, é uma expresso de sua individualidade). No en- tanto, é foreado a comé-las, pois os pais acreditam que isto & importante para sua saide. O processo de ajustamento sera, entdo, funda- mental para a existéncia e consistiré em meios através dos quais 0 individuo haveré de adaptar-se as exigéncias de seu organismo e do meio ambiente. E, basicamente, uma harmonizac%o entre o Eu e o Mundo. Liga-se, portanto, as necessidades do indi- viduo, assim como a sociedade, “papéis” @ situa- Ses especificas que vive. ajustamento @, em conseqiéncia, um pro- a Maria Luiza Silveira Teles 0 que é Psicologia a cesso de aprendizagem, em que as reacGes uteis sio aprendidas @ as que s@ mostram ineficientes aban- donadas. Muitas vezes, entretanto, reagdes que se apresentam como uiteis, em determinado momento, para a redugdo de tensdo excessiva, podem ser perigosas para o ajustamento geral do individuo. Dai pode surgir o desajustamento, pois estas reagdes costumam tornar-se to firmes como habitos, que o individuo se torna incapaz de superd-las. Por exemplo; uma doenca pode ter sido, em determi- nado momento da vida, uma forma de obter carinho. Em conseqiténcia, 0 sujeito pode adoecer sempre que esteja necessitando de atenc3o. Esta é uma forma anormal de ajustamento. Nascemos dentro de uma série concéntrica de grupos, alguns maiores, outros menores: familia, grupo local, nacional etc. Neles nos integramos, formando, dentro de suas estruturas, a estrutura de nossa personalidade. Deles recebemos valores, que nao sd apenas uma preferéncia, ou um desejo, mas uma formulagao do desejével e dos padrdes do deve edo precisa, que influenciam a nossa ago. Além dos determinantes biolégicos e sociais, todos os individuos vivem situagdes que lhes sdo peculiares. Ha coisas que acontecem as pessoas: um encontro acidental, o fato de ter nascido em determinada familia, uma faléncia, a morte de um. amigo... $40 acontecimentos particulares, que no se ligam, de mado geral, aos padrdes de todo um grupo e que, no entanto, serdo fundamentais no i 32 desenvolvimento da personalidade. De modo bastante elementar, 0 comporta- mento humano poderia ser explicado da forma que acabei de apresentar. Entretanto, é bom lembrar que, nem sempre, as explicacées para determinado- comportamento podem ser muito simples. Isto porque a causalidade miiltipla costuma ser regra em Psicologia, significando que os fatores que influem Ro comportamento costumam ser numerosos, sendo dificil, ou mesmo impossivel, isolar uma causa nica para explicar dado comportamento. Outro elemento importante, vale ressaltar, & que 0 sujeito vai reagir ao mundo {isto é, & multipli- cidade de estimulos que 0 atingem) conforme ele os percebe. Resumindo, © processo de desenvolvimento humano & um processo de ajustamento. Todos devemos atender a uma série de necessidades ternas e, 20 mesmo tempo, as imposicdes e limi- tacdes do ambiente, tanto social quanto fisico. Em suma: 0 objetiva de todo comportamento é a aqui- sigéa de um repertério de respostas que nos per- mitam harmonizar as duas tendéncias. Conflito, frustrag’o e ansiedade Muitas vezes, e por miltiplas causas, n3o po- demos ser satisfeitos. A frustrago, que é exata- mente 0 contrario da satisfago, @ uma constante Nos ia Luiza Silveira Teles 0 que é Psicologia nao somente em nossas vidas, mas também na vida dos animais. Toda vez que desejamos alcangar um objetivo e nGo censeguimos, sentimo-nos frustrados. Experi- menta-se pois, a frustragdo sempre que necessi- dades importantes s30 contrariadas. ‘Como a frustracao decorre da contrariedade de algum motivo e como os motivos humanos variam de individuo para individuo, nao se pode especificar todas as situagdes que resultam em frustragao. Mas, de modo geral, esta pode ser classificada em: frustracao por demora, por contrariedade e por conflito. A frustrac’o por demora é talvez a mais comum e aquela a que as pessoas se adaptam com maior facilidade. 0 bebé faminto, que tem que esperar a mame preparar a mamadeira , jé lida com este tipo de frustragdo. E a crianga é quem mais sofre com ela, pois nde tem idéia real do tempo e desconhece que a satisfacdo poderd vir em seguida. A frustrac¢do por contrariedade ocorre quando alguma interferéncia, alguma barreira nos separa de nosso objetivo. Exemplos: o bebé que deseja pegar um objeto e @ impedido pela m3e; uma moca que deseja ira uma festa e € impedida pelos pais; namo- rados que esto tensos sexualmente e s8o impe- dides de manter relacdes por uma série de circuns- tancias, Este tipo de frustragdo € bem mais doloroso e dificil de ser suportado Ja a frustracdo por conflito acontece quando 33 Maria Luiza Silveira Teles nos vemos diante de duas exigéncias e sé podemos atender a uma. Mais adiante, me deterei um pouco mais nesta forma téo comum de frustraco, com a qual temos que lidar a todo momento. Fonte corriqueira de boa parte de nossas frus- tragGes 6 de origem social, Como vimos, algumas linhas atras, a crianga encontra um mundo onde as regras do jogo jd esto determinadas. E estas regras, muitas vezes, estdo em contradigao com os seus desejos, impulsos, necessidades. crianca tentara, de toda forma, afirmar-se, mas encontraré sangdes cada vez que contrariar as determinagdes do grupo social. A principio, tera grande dificuldade em lidar com as frustragdes. Com o tempo, porém, aumen- taré sua capacidade e aprenderé formas conciliaté- ras. Qs individuos podem reagir a frustrac3o de di- ‘versas maneiras, algumas positivas e outras negati ‘vas — nao no sentido ético — mas no de ser melhor ‘0u pior para 0 ajustamento global. ‘Agressdo, agressio deslocada, regressto, fantasia, 30, apatia e outros mecanismos de defesa costurnam ser consequéncia da frustragao, assim como o esforgo intensificado, a mudanca dos meios e a substitui¢&o do objetivo. Exemplificando: — agress3o: 0 marido chega em casa com fome e, nfo encontrando 0 almoco pronto, agride verbalmente a esposa. = agressdo deslocada: 0 garoto impedido pe- O que é Psicologia 35 7 aee Peco los pais de ver um filme, n3o podendo se voltar con- tra eles, bate no irm&o menor por questéo de some- nos importancia. — fantasia: a moca que, nto conseguinda con- quistar determinado rapaz, passa, com freqiiéncia, a imaginar-se nos bra¢os dele, em situagdes amo- rosas. — regressda: a crianga, j& grandinha, que, por um fraeasso na escola, volta a urinarna cama, — fixagSo: alguém que com gritos conseguiu, em alguma ocasido, alcancar seu objetivo, repete sempre 0 mesmo comportamento toda vez que de- seja obter algo, embora a estratégia possa no mais funcionar. — apatia: um garoto, depois de repetir o ano varias vezes na escola, no mais se esforca no es- tudo endo se importa com mais nada. — esforco intensificado: alguém que, tendo perdido um concurso, passa a estudar com mais afinco para o préximo. — mudanga dos meios: um macaco peleja para alcangar uma banana colocada a uma certa distan- cia da jaula e ndo consegue; pega, ent3o, uma vara @ puxa com ela a banana. — substituicio de objetivos: a moca abando- ‘nada pelo noivo, que arruma outro namorado. Existem outros mecanismos, chamados por Freud de mecanismos de defesa do ega. Eis os mais comuns, diante da frustracéo: 36. Maria Luiza Silveira Teles — racionalizag3o; maneira de justificar logica- mente o que fazemos @ aquilo em que acreditamos. Exemplos: “nao passei no concurso porque as pro- vas foram mal elaboradas"; “nao dancei com fulano porque ele n’o me interessa’" (sendo que ele nem tomou conhecimento da presenca dela; este 6 0 me- ‘canismo das uvas verdes); “estou muito satisfeita por meu filho ter perdido o vestibular, acho que é bem melhor que ele trabalhe” (mecanismo do fimao doce). — compensacio: a pessoa disfarca as fraque- zas mediante o realce de uma caracteristica desejs- vel ou encobre a frustragdo numa rea pela exces- siva gratificac3o em outra. Exemplos: pessoa que, frustrada sexualmente, se compensa alimentando- -se com exagera; o menino de constitui¢do franzina que, no conseguindo sobressair-se nos esportes, dedica-se intensamente aos estudos e consegue ser © primeiro da classe. — projecio: significa culpar outros pelas nos- sas dificuldades ou atribuir-thes os préprios desejos ndo-éticos. E, portanto, uma forma de auto-engano, pela qual atribuimos a alguém nossas limitagdes, de- sejos, pensamentos indesejaveis 6, inclusive, moti- vos € comportamentos que expliquem nossas atitu- des. Exemplo: uma mulher desejava fazer um curso superior, mas nunca se animava a prestar o vesti- bular, Por fim, vivia se lamentando e dizendo que no havia estudado porque © marido nunca a incen- tivara. LL O que é Psicologia des de uma personalidade qualquer que possui o desejado, aumentando com isso o sentimente de valia propria. Exempla: uma pessoa que se ressente com a pobreza procura imitar 0 comportamento de individuos de classe social mais abastada, sentindo- -88 Com isto superior. — fuga: mecanismo através do qual 0 sujeito evita a situa¢3o que pode provocar-lhe frustragio. Exemplo: um aluno, despreparado para um exame, apresenta no dia marcado uma terrivel dor de ca- bega, que o impede de realizar a prova. — negacdo: a pessoa se nega, sistematica- mente, a enxergar a realidade dolorosa. Por exem- plo: a mae que, avisada de que seu filho usa drogas, n&o procura investigar e afirma com veeméncia que aquilo nao é verdade. E impossivel viver sem frustragdes. Entretanto, a frustra¢do crénica pode ter efeitos bastante dele- térios, como o abalo da sade fisica. A frustrag3o prolongada pode provocar distirbios como ulceras, press3o alta, asma, erupgdes cutdneas, dentre ou- tros, Todo individuo tem determinado nivel de tole- rancia 8 frustracdo. Sempre que ela ultrapassa este nivel, desorganiza-se 0 comportamento. No en- tanto, enquanto algumas pessoas, mesmo diante de frustracgdes persistentes, continuam calmas e se- nhoras da situac3o, outras se tornam agitadas, emo- 38 Maria Luiza Silveira Teles cionalmente perturbadas e sem nenhuma condi¢ao de enfrentar os problemas. E claro que muitos fato- res podem diminuir a tolerancia da pessoa a frustr: ¢%o, como 0 cansaco, a doenca e a fome. Ja vimos que © conflite se apresenta quando nos vemos diante de duas exigéncias e s6 podemos: atender a uma. Se um impulso ¢, pois, travado por circunstncias ou razdes igualmente poderosas, ocorre conflito ou indecisdo. © conflito pode se dar entre exigéncias internas e externas, entre duas exig@ncias externas ou entre duas exigéncias internas. Dependendo da natureza do conflito, © sujeito pode apresentar desde ligeira indecisdo até bloqueio completo ou enorme tens3o. Exemplos de conflitos: “Vou ao teatro ou ao cinema?” (duas opcSes agradaveis); “Amo Lucia demais, mas seu génio & terrivel. Caso-me ou no com ela?” (o objetivo é, ao mesmo tempo, agrada- vel e desagradavel}; ‘‘Ponho o reldgio no prego ou ndo pago o aluguel?” (as duas op¢Ses sao desagra- daveis). Existem obstaculos que, freqiientemente, inter- ferem na resolugdo dos conflitos, coma o fracasso em reconhecer-Ihes as forcas basicas subjacentes: que, quase sempre, sdo inconscientes, e a prépria ‘tensio, irritabilidade, nervosismo, agressividade e protesto que costumam acompanhéa-los. Em situa ges de conflito ou frustragao, 0 individuo tende a apresentar ansiedade. A medida que a crianga se desenvolve, encon- Seen enee Sear O que é Psicologia 7 tra frustragGes e ameacas que tendem a produzir agressio, ansiedade e tensdo. Os conflitos entre as valéncias positivas {0 que & agradavel) e negativas (o que é desagradavel) elevam o nivel de tens3o e causam alteragGes fisiologicas difusas, assim como interferéncia com os processos psicolégicos. A intensidade da tenso é, em grande parte, fung3o das intensidades das valéncias positivas e negativas, Pode-se descarregar temporariamente a tenso psicelégica mediante catarse, mas esta nio resolve 0 conflito, Os conflitos podem ser aliviados mediante as defesas do ego. As solucdes a largo prazo, entretanto, dependem de se encontrar for- mas socialmente aceitaveis, evitando as valéncias negativas ou substituindo a valéncia positiva por outra menos ativadora de ansiedade. A ansiedade é bastante semelhante ao medo e desencadeia as mesmas sensaces fisicas, como tremores, taquicardia, transpira¢do, palidez etc. Ha, porém, uma diferenga capital entre ambos. O medo & reaco diante de perigo real, objetivo, enquanto aansiedade é sensagio difusa diante de perigo ima- gindrio ou oculte e subjetivo. A caracteristica principal da ansiedade é a im- pressiio de que algo terrivel e indefinide ameaca o individu, algo contra o qual ele se sente impotente. Suas causas residem, primordialmente, nos imput 80s hostis reprimidos e em quaisquer outros impul sos, desde que imperiosos e veementes, cuja sa facSo signifique uma violag3o de outros interesses Maria Luiza Silveira Teles ‘ou necessidades vitais. A ansiedade crénica ou prolongada é extrema mente danosa ao organismo, provocando reagdes psicossométicas que podem ser bastante significa- ttivas. De modo geral, a ansiedade desencadeia no individuo um nivel de tenséo que pode resultar em duas reacGes diferentes: depressdo ou excitacao, ou ambas alternadas. H& sintomas particulares somati- zados: 0 corpo apresenta rigidez muscular, manifes: tada por movimentos secos e gesticulac3o sem flu dez; a respirago torna-se retida, tensa, superficial. Se predomina o sistema nervoso simpatico, apare- cem falta de apetite, digestao lenta, prisio de ven- ‘re; se o parassimpatico, surgem apetite voraz, rapi- dez digestiva, compulsdo alimentar. No primeira caso, tendéncia a agitaco, descontrole da imagina- ¢Bo, insénia; no segundo, apatia e sono exagerado. Em ambos os casos esto presentes as sensacdes de fadiga ou esgotamento. A tens3o excessiva pode, também, fazer com que 0 individuo apresente um mal-estar difuso, cau- sando temor, instabilidade afetiva, susceptibilidade, incapacidade para suportar 0 desagradavel, incapa- cidade de concentragae, pouce rendimento intelec- tual. O individue se torna desanimada, indolente, ou se compensa no ativismo, apresentando instabi- lidade, Qualquerdessas manifestagdese somatizacées, Portanto, indica que o individuo esta vivendo sob O que é Psicologia estado de tensdo @, quando esta 6 extremamente doloresa, pode fazer com que a pessoa procure meios de reduzi-la ou elimina-la, sem atender a qual- quer resultado de inadequaco. O conflito, a frustra¢3o e um certo grau de an- siedade fazem parte da dinamica da vida. Entre- tanto, quando passam a ser uma constante e 0 indi- viduo, emaranhado neles, se coloca num circula cioso, que n3o leva a caminho algum mas apenas aumenta seu sofrimento, instala-se nele a neurose. Nos conflitos neuréticos, as tendéncias contra- ditérias em ago n3o so reconhecidas, mas pro- fundamente reprimidas; os fatores emocionais sio racionalizados ¢ as tendéncias. em ambos os senti- dos so compulsivas, fortes, irresistiveis. Sendo os conflitos inconscientes, as tendéncias opostas repr midas e as emo¢Ges sempre racionalizadas, torna-se ent extremamente dificil, quase impossivel, ao individuo resolvé-los sem ajuda exterior. Conflitos nao resolvidos tém conseqiéncias profundas e amplas, que impregnam toda a perso- nalidade, aumentando © processo neurdtico. Oindividuo apresenta medos generalizadas: de enlouquecer, de ser desmascarado, do ridiculo, da desconsideracao, da humilhag3o, de qualquer situa- 40 de mudanca. Desperdica muita energia, estag- nando-se na ineficacia e na incapacidade de assumir uma atitude definida. Apresenta depressdo crénica, passando a preocupar-se com o futuro, a morte, idéias suicidas e mostra desencorajamento, desa- a2 Maria Luiza Silveira Teles fe lento, conformismo. Algumas vezes, revela tendén- cias sédicas, com a escraviza¢3o moral e psiquica de outrem, manejamento das emogées alheias, explo- ragdo e humilhacdo de outrem, tendéncia para de- preciar (gosto de focalizar os defeitos dos outros), inveja @ sentimente de vingan¢a, sadismo revertido lespécie de masoquismo ou gosto pelo sofrimento). Sentimentos de culpa sao expressio de ansie- dade ou de defesa contra ela, Sdo, também, efeito do medo da reprovagéo. Mas por que o neurético tem medo da reprovaco? Em primeira lugar, por causa da discrepancia entre a fachada, que apre- senta para si e para os outros, e as tendéncias recal- cadas que jazem por detras; em segundo lugar, por- que quer esconder 0 quio fraco e inseguro se sente; 8, finalmente, porque, mais do que os outros, tem necessidade da aprovacdo alheia que significa, para ele, a sequranca do afeto. O medo de ser reprovado também decorre de uma consciéncia moral rigida formada na infancia. E 0 medo da censura, da autoridade dos pais intro- jetada, que tem raizes perdidas no tempo, quando ‘0s genitores comegaram a exigir da crianga um com- portamento em contradi¢ao com seus impulsos in- fantis, condicionando a instalac3o do sentimento de culpa, cada vez que a crianga percebia em si tais im- bulsos Jnace/tdveis ou cometia qualquer acd con- tréria 8 censura. Quanto mais rigido e autoritério o comportamento dos pais, mais profundos os senti- mentos de culpa que o individuo passa a carregar O que € Psicologia consigo. Mesmo quando adulto, com um eédigo proprio de valores, o individuo nao consegue furtar- ‘se a0 jugo desta consciéncia implacavel que conti- nua, como um verdugo, a vigié-lo e condend-lo, im- pedindo-o de viver uma vida normal e sadia. Apenas uma terapia, uma reeducac3o, uma reestruturagao da personalidade podem livrar @ individue destes sentimentos de culpa. Os sentimentos de culpa costumam manifes- tar-se através de auto-recriminagio, sutil ou decla- rada; do medo de ser censurado; da necessidade de expiacio através do sofrimento; do perfeccionismo; da hipersensibilidade em relagdo a qualquer desa- provacdo; da cautela para nao cometer enganos; do refuigio na ignorancia, na doenga, na incapacidade e na posigao de vitima. Enquanto existir sentimento de culpa, haver’ também tendéncias irracionais de reparacdo do pre- julzo causado, e essa reparag’o culposa sé resulta em mais dano. Concluindo: 0 conflito sera, portanto, uma ‘constante em nossas vidas. E sempre que encon- tarmos a resposta que solucione um conflito, novo conflito aparecera. Embora constitua, junto com a ansiedade, um dos principais fatares em qualquer forma de desvio de personalidade, 0 conflito 6, en- wetanto, compenente significative de camporta- mento normal. O que é Psicologia PANORAMA ATUAL DA PSICOLOGIA: AS QUATRO FORCAS A Psicologia ja nasceu polémica. Polémica e radicalismo tém caracterizado sua histéria. Cabe- -nos discernir, dentro de nossa filosofia pessoal, 0 que & mais I6gico, mais claro e nos fornece melho- res subsidios para a compreénsdo do Homem. Atualmente, temos que escolher entre dois sis- temas: © fechado e o aberto. O primeiro considera apenas o desempenho do Homem, sua otimizacao, Seu funcionamento e exige 0 uso do método expe- rimental, em laboratério, J4 0 outro se preocupa ‘com a esséncia do Homem e sua auto-realizacio pessoal. A pessoa é vista dentro de uma totalidade, ‘considerando-se a teia fisica, social, psicoldgica, econdmica, politica, histérica e mesma cdsmica, a que forma o préprio tecido da vida que vivemos neste mundo. £ uma visdo holistica (global) do Ho- mem. Este sistema é considerado pelos adeptos do anterior como no-cientifico, porque empirico (ba- seado apenas na observac3o). Dentro do primeiro sistema, esta a Behavio- rismo, ou Compertamentisma, ou doutrina E-R (Es- timulo- Reac&o) ou S-R (Stimulus-Reaction). Ja a Psicandlise seria uma fronteira, um. colocado entre ambos. Com forte base na Biologia, mas abrindo perspectivas para um estudo mais am- plo e centrando suas pesquisas no Homem. Seria, pois, uma segunda forca. Como terceira forca, dentro do sistema aberto, esto todas aquelas teorias de auto-realizagdo, que acreditam na existéncia de um “projeto-Homem”, que se expandiria até 0 infinito. Esto aqui as teorias de Rogers, Abraham Maslow, Rollo May, Perls, Reich e tantos outros. J& a quarta for¢a, também dentro do sistema aberto, & algo bastante novo em Psicologia. Com raizesem Jung — discipulo de Freud, que comecou sua vida profissional com uma tese meditinica ¢ que abre para a Psicologia um imenso campo de ques- tionamentos — coloca o Homem como um ser cés- mico, em contato com todas as ondas e freqiiéncias do Universo. Esta quarta for¢a 6 chamada de Psico- logia Transpessoal e se liga, fortemente, a Parapsi- cologia, a Fisica e 4 Psicobiofisica. Nos limites desta obra, n’o ha como estudar Maria Luiza Silveira Tele em profundidade estas quatro forcas, de teorias ex- tensas e complexas. Tentarei, no entanto, dar uma breve visio de cada uma. Psicanalise Desde sua descoberta por Sigmund Freud, a Psicanalise tern tido larga influéncia sobre a Psico- logia, a Educacao, a Medicina e a Psiquiatria. E uma corrente que se fundamenta sobre a teo- ria do recalcamento (repressdo de necessidades), significando, também, método de exploragao do psiquismo humano e terapéutica para certas neu- roses, Encontramos suas origens talvez nos filésofos do século XIX, que ja afirmavam a primazia da vida instintiva, assim como em certos fisiologistas, neu- rologistas, psicdlogos e médicos interessados nos fenémenos da histeria, hipnose ¢ sugesto. Com as experiéncias feitas por estes estudiosos, ficou claro que a vida psiquica ultrapassava singularmente 0 campo da consciéneia. Freud teve seguidores famosos, muitos dos quais apenas parcialmente adotaram sua orienta¢ao, discordando de muitas de suas teorias. Podem ser considerades, dentro da Psicanalise, Jung, Adler, Anna Freud, Melanie Klein, Otto Rank e os cultura- listas (porque deixam de acentuar os fatores biolé- gicos e d&o maior énfase 4 cultura) como Erich O que é Psicologia Fromm e Karen Horney. Madernamente, destaca-se o nome de Lacan. Para Freud, 0 Homem & visto dentro de um contexto qué abrange o plano biopsicossocial (que compreenderia toda a realidade humana) é seria im- pulsionado, sobretudo, a satisfazer certas instintos elementares, to poderosos que 0 obrigam a alean- car seus fins, diretamente ou por caminhos tertuo- sos. Note-se que, na terminologia psicanalitica, usa- se a palavra instinto. Entretanto, a palavra trieb, usada por Freud, talvez fosse melhor traduzida como impulso ou motivo. Com isso, Freud, absolytamente, ndo prega um retorno a vida primitiva, como pensam tantos, mas nos leva a compreender e aceitar a nossa realidade, alargando-nos a compreens4o de nés mesmos, do ‘outro e da vida, permitinda-nos, assim, maior paz interior. Freud inaugurou um tempo de maior respeito pelo ser humano e sua liberdade. Com o caminho aberto por ele, comecou a derrubada de velhos mi- tos: a vida da crianga ndo 6 um paraiso; a me nem sempre sabe lidar com o fitho; nem todo adulto é maduro emocionalmente; a relac3o amorosa nem sempre é auténtica; o homem nio é dono absoluto de seu destino, pois as forcas inconscientes que nos mover fogem do nosso proprio controle. Mas Freud no $6 derrubou mitos, como ainda abriu perspecti- vas, pois suas conclusdes mostram que todos pode- mos ser muito mais alegres, sadios e criativos. 47 48 Maria Luiza Silveira Teles ce TTT TT Seu canceito de personalidade 6, pois, dina- mico: 08 motivos dos nesses comportamentos de- vem ser buscados em forgas emocionais. Para ele, a personalidade @ composta por trés grandes siste- mas: oid, 0 ego e o superego, que correspondem, respectivamente, aos componentes biolégico, psi- coldgico e social. O id, zona inconsciente, abrangeria todos os impulsos primarios, todo 0 conjunte de contetdos herdados. 0 ego é a zona da consciéncia, o elemento con- ciliador, solucionador, planejador, intermediario en- tre 0 id e 0 mundo externo, responsavel pela com- inacao entre a imagem mental e a realidade obje- tiva. © ego, pois, busca o relacionamento com o ambiente. ‘0 superega, por sua vez, ¢ a conseiéncia moral, © censor, a voz da sociedade interiorizada. Repre- senta as normas, as exigéncias @ os valores que so transmitidos 4 crianga, principalmente pelos pais, € incorporados a sua personalidade. A atividade psiquica & consciente e incons- ciente, sendo que a parte consciente no é sen3o a ponta do iceberg. O homem, portanto, conhece apenas algumas de suas motivagées, porque a maio- ria delas tem raizes langadas no inconsciente. O inconsciente seria, ent3o, uma zona profunda de nosso psiquismo, da qual pouco ou nada conhe- cemos, para a qual lancamos idéias, conteddos @ experiéncias insuportaveis a vivérncia consciente. Os reg O que ¢ Psicologia motives inconscientes, portanto, assim permane- cem porque temos interesse em nado nos darmos. conta deles. Expulsar da consciéncia certos impul- sos nao impede, entretanto, que eles existam e se tornem efetivos. Assim, para compreendermos qual- quer estrutura de personalidade é necessério reco- nhecer a existéncia de impulsos emotivos de natu- reza antagonica. Outra descoberta freudiana altamente constru- tiva refere-se & importancia da infancia na vida fu- tura do individu. As rela¢des infantis, na sua totali- dade, moldam ¢ caréter de um modo que n&o se pode encarecer suficientemente. Para Freud, a in- fancia é a época decisiva na organizacdo da perso- nalidade e & nesta fase que tém origem as neuroses e psicoses. As frustracdes intensas que ocorrem na infan- cia, e os efeitos educacionais como a superprote- So, a instabilidade, 0 controle rigido, a caréncia de afeto levam 0 individuo & angistia, agressividade, revolta, inseguranca, timidez, dependéncia, irritabi- lidade, nervosismo etc., comportamentos estes que, por sua vez, motivar3o outras formas inadequadas de contato com o ambiente. Também os conflitos havidos neste periodo, determinando a repressdo dos impulsos, podem produzir, mais tarde, a desintegrac3a da personali- dade. Eles nfo morrem, mas ficam dindmices no incansciente. E na infancia que se adquirem os complexos, — Maria Luiza Silveira Teles ‘tendo importancia basiea o de Edipo (do mening) ou Eletra (da menina), que @ a atra¢do experimentada pelo genitor do sexo oposto, acompanhada de cid- me com relacao a0 outro, Este complexo pode ser resolvide com a identificago da crianga com um dos pais (0 do mesmo sexo). Este pracesso de iden- tificacao é importantissimo para a futura vida amo- rosa do individuo. Freud encarou qualquer tens3o como recalque. ‘O recalque ou repressdo & a mola-mestra da perso- nalidade. © conflite & sempre um choque entre os desejos do id ea censura. A libido (forgas da vida, busca do prazer) recalcada procura sempre valvulas de escape: sonhos, arte, cultura, sintomas neuré- ticos. O restante da doutrina freudiana: seus concei- tos de transferéncia e instinto de morte; psicologia feminina; teorias dos sonhos, dos ates falhos etc., embora bastante importantes, fogem aos objetivos deste texto, Por isso, aconselho sua leitura em ou- tras obras. Movimento humanistico ‘ou teorias de auto-realizagao O movimento humanistico procura valorizar 9 Homem e se preacupa, basicamente, com o que ele pode vir a ser. Acredita nas potencialidades huma- Nas, qué sé no se desenvolveriam em condi¢des O que ¢ Psicologia adversas, como a repressio ou a agresso, passiveis de conduzir o homem a neurose. Basica no movimento humanistico em Psicclo- gia é a énfase que se da a complexidade e singula- ridade do Homem. Os humanistas também salien- tam um aspecto desta singularidade humana — o vivenciar ou experienciar — dando énfase ao pen- sar, decidir e sentir, processos fundamentais, em- bora nio passiveis de observacio aireta. Parece que, além da disposicSo biolégica para O crescimento e o desenvolvimento, cada individuo possui tendéncia a0 desenvolvimento psicoldgica. Este foi descrito por varios psicdlogos como ten- déncia 4 auto-realizacdo, impulso para a autocom- preensdo, necessidade de aprimorar a consciéncia e acompeténcia, tudo isto a fim de se obter mais ale- gria ¢ satisfacdo na vida. O estudo dos humanistas é baseado mais na observacdo de individuos emacionalmente sauda- veis do que na de individuos perturbados. E 0 que se- ria 0 individuo saudavel emocionalmente? Para eles, aquele que @ criativo, amoraso, receptive, percep- tivo, decidido, capaz de verdadeira intimidade, ver- dadeiro, espontaneo Se pensarmos na vida como um processo de escolhas, entéo a auto-realizac3o (ou auto-atualiza- co) significa fazer de cada escolha uma opco pelo crescimento. Muitas vezes temos de escolher entre © crescimento e a seguranca, entre progredir e re- gredir. Toda escolha tem seus aspectos positivas e $2 Maria Luiza Silveira Teles O que & Psicologia 53 negatives. Preferir a seguranca significa optar pelo conhecido e pelo familiar, mas também pode signi- ficar tornar-s¢ inditil e velho. Escolher o crescimento 6 abrir-se para experiéncias novas e desafiadoras, mas arriscar © novo e o desconhecido Atualizar é tornar verdadeiro, existir de fato e nao somente em potencial. Assim, auto-atualizar é aprender a sintonizar com sua propria natureza in- tima. Isto significa decidir-se sozinho. A honesti- dade e o assumir responsabilidade de seus préprios atos sdo elementos essenciais na auto-atualizago Ao invés de posar @ dar respostas calculadas para agradar outra pessoa ou dar a impressio de sermos bons, devemos procurar as respostas em nds mes mos. Toda vez que fazemos isto entramos em con- tato com 0 nosso intimo. Auto-atualizac3o é também um processo conti- nuo de crescimento, de desenvolvimento das pré- prias potencialidades. Isto significa usar a inteligén- cia e habilidades e “trabalhar para fazer bem aquilo que queremos fazer”. Um passo além na auto-realizagdo é conhecer as préprias defesas e entdo trabaihar para aban- don4-las, Precisamos nos tornar mais conscientes das maneiras pelas quais distorcemos nossa auto- -imagem e a do mundo exterior através dos meca- nismos de defesa. Os humanistas acreditam que 9 hamem tem uma potencialidade infinita para expandir-se, cres- cer, realizar-se e que todo comportamento visa a este objetivo. A tendéncia inata & auto-realizac3o pode ser descrita como a tendéncia do organismo para redu- zir as impulsdes biogénicas (ou fisiolégicas), tornar- -se independente de ambiente, usar tanto quanto possivel suas habilidades, criar e chegar a niveis mais altos de eficiéncia. “Tornar-se pessoa” significa libertar-se das peias internas, tornar-se capaz de um contato ver- dadeiro (intimidade) com 0 outro, n&o fazer jogos, nfo usar mascaras, no se satisfazer com o simples ajustamento, mas tender a criar novas idéias e coi- SaS, ser COoperativo, receptive e amoroso. Correntes behavioristas, | E-R ou comportamentistas | Watson é Skinner so os dois grandes nomes do Behaviorismo. Todavia, outros tantos se desta- cam, como Clark Hull, Dollard, Miller, Tolman, Guthrie etc. Nao existe sé uma teori: E-R, mas um grupo de teorias, mais ou menos semelhantes, embora tendo cada uma delas a0 mesmo tempo algumas qualida- des distintas. Esses sistemas comegaram como tentativas para avaliacdo da aquisic¢do e retencdo de novas for- mas de comportamento que apareciam com a expe- riéncia. Dai a grande énfase que sé dé a0 processo Maria Lutra Silveira Teles de aprendizagem. Embora ndo ignore os fatores inatas, o tedrico E-R preocupa-se mais com o processo através do qual o individuo se coloca entre sua ordem de res- postas e.a enorme variedade de estimulacdo {interna e external 4 qual esta exposto. De acordo com as teorias comportamentistas, os modelos da personalidade so 0 resultado de res- postas aprendidas aos estimulos do ambiente. Dollard ¢ Miller, par exemplo, véem os conflitos da primeira infancia como resultade do manejo incons- ciente das pais em termos de recompensa @ castigo. Tais inconsisténcias geralmente esto centradas no controle de alimentac3o, treino de limpeza, educa- co sexual basica e atitudes com relacao as explo- sées de raiva e agressio da crianca. Skinner é um behaviorista que acredita que a personalidade nao necessita ser explicada em ter- mos de hipotéticas necessidades e motivos, mas em termos de estimulos que determinam a ocasiZo para certos tipos de respostas e os reforgos que as man. tem. Asteorias €-R, pois, acentuam a aprendizagem como fator basico no desenvolvimento da persona- lidade, nao se limitando a conceitos exclusivamente de maturacdo (desenvolvimento do organismo como: func’o do tempo ou idade). Elas so chamadas teorias E-R porque, em suma, apresentam a aprendizagem em termos de mudancas na associago entre estimulos e respos- ———— 0 rc que ¢ Psicologia 35 tas, As teorias E-R tém sua base no trabalho de Paviov e Thorndike. A teoria de Pavlov & a do condi- cionamento classico, em que um estimulo neutro, como 0 som de uma campainha, é sistematicamente emparelhado com algum outro estimula, como um choque elétrico, que produz regularmente uma res- posta forte e incontrolavel da parte do sujeito, O em- parelhamento dos estimulos ¢ repetido até que 2 campainha sozinha venha provocar 2 mesma res- posta que o choque. Este condicianamento é tam- bem chamado respondente, por causa da énfase so- bre as propriedades das atividades reflexas (respan- dentes), ‘0 mais conhecido conceito de Thorndike é a sua Lei do Efeito. Esta lei diz que a conexao entre um estimulo ¢ uma resposta é fortificada quando a associag3e entre eles satisfaz o organismo. ‘Skinner é 0 fundador da maior escola de pensa- mento na psicologia E-R. Ele realmente fundou um sistema, que se baseia no behaviorismo de Watson © nos conceitas de estimulo, resposta ¢ reforeo. Segundo seu conceita, reforgo é qualquer esti- mulo que torne mais forte a resposta que leva de volta ao estimulo. Por exemplo, na chamada Caixa de Skinner, cada vez que 0 rato manipula, a acaso, uma alavanea (resposta), ele recebe alimento dentro da caixa (cai, automaticamente, funcionando o ali- mento como estimula}. O estimulo fo alimento), bois, reforcaré a resposta (manipular a alavanca), le- pe eet ash 56 Maria Luiza Silveira Teles Sasa rne renee Palin cocina vando de novo ao alimento (busca do estimulo). Qualquer coisa que faca crescer a possibilidade de que a resposta ocorra é vista como reforco posi- tivo. Alimento, elogio, dinheiro, um balangar de cabeca @ um sorriso $30 exemplos de reforcos posi- tivos. Existe também 0 refor¢o negativo, aquele que provoca uma resposta de esquiva, isto 6, 0 individuo evita determinade comportamento com medo da punicao. Por exemplo: um garote que tirou notas baixas na escola é proibido pelos pais de ver televi- so por um més. O garoto, ent3o, estuda mais para evitar 0 castigo. O reforco negative ¢ muito menos eficiente que 0 refor¢o positivo. A punicdo e o reforco negativo envalvem 0 uso de estimulos aversives. Entretanto, o reforco nega- tivo fortalece a resposta que termina com 0 estimulo aversive. Na puni¢do, uma resposta é suprimida pela apresentag4o de um estimulo aversive. H4 grandes desvantagens na punicdo: a) a menos que seja ex- tremamente severa, a resposta punida voltara; b) in- troduz estimulos capazes de atrapalhar 0 processo de aprendizagem como o medo e o ressentimento. Para que a punico seja efetiva é melhor dar uma resposta alternativa que resultaré num reforco posi- tivo. Skinner distingue entre dois tipos de aprendi- zagem: a respondente e a operante. Para ele, o tipo operante é mais importante, desde que envolve far- mas mais complexas de aprendizagem. Na aprendi- zagem operante, as situagGes devem ser arranjadas O que € Psicologia st de modo que a resposta desejavel seja relacionada ao reforgo. Exemplo; em uma instituic3o, um cier ‘tista gostaria de levar um des internos ao laboratério para estudo. Toda vez que este interno passava pela porta do laboratérie, o cientista Ihe sorria e Ihe dava bombons, coisa que 0 individuo muito apreciava. Com 0 tempo, 0 sujeito passou a esperar 0 sorriso & os bombons da parte do cientista. Posteriormente, este no mais apareceu a porta do laboratério e o interno, toda vez que por ali passava, olhava an: samente para dentro do laboratério até que, um dia, acabou por entrar (busca do estimulo). Como se pode ver, a situacao foi arranjada, usando-se um re- forgo para que o individuo desse a resposta dese- jada, que era entrar no recinto da pesquisa. Psicologia transpessoal A Psicologia Transpessoal parece surgir a partir de vertentes como 0 trabalho de Jung, os trabalhos de Einstein, dos fisicos modernos, a Filosofia Orien- tal e as correntes de auto-realizacdo. Esta ligada especificamente ao estudo empi- rico-cientifico das metas: necessidades individuais e coletivas; dos estados de consciéncia pelos quais passamos: sono profunda, sonho, relax, vigilia; es- tados que transcendem o ego, tais como: conscién- Cia unitiva, consciéncia césmica, experiéncias trans- cendentais, misticas, entre outras. Silveira Teles Este é um movimento inteiramente novo, traba- Ihando ainda com hipéteses e apresentando poucas conclusdes. Nestas principais correntes apresentadas, re- sume-se 0 estagio atual da Psicologia. Nao se pode prever em que direcdo esta eiéncia-crianca havera de caminhar. Espero, porém, como humanista, que ela escolha o caminho da compreensdo da trans- cendéncia humana. Que ela realmente possa abrir O PAPEL DO PSICOLOGO para o Homem as portas da liberdade, pois, somente. livre, ele sera feliz e sua natureza amorosa @ asso- ciativa poder4, finalmente, realizar-se. Quem é 9 psicdlego? O que ele vai fazer? Em que vai poder ajudar o seu semelhante a conseguir uma vida mais feliz? © psicélogo é aquele profissional que, depois de cinco anos em um curso superior, geralmente se especializa em uma érea do comportamento, por- | que, como se péde ver, a Psicologia tem um campo muito vaste. | Nesta drea ele vai trabalhar procurando ajudar 08 individuos a se compreenderem e a se relaciona- rem melhor com as outras pessoase alidarem com as prOprias emocées e sentimentos. | E verdade que alguns se dedicam exclusiva- mente & pesquisa. Sao os psicdlogos experimentais. Estes apenas vio estudar, em laboratério quase sempre, tedos estes assuntos que j& levantamos a ae Maria Luiza Silveira Teles respeito do comportamento do ser humano, usando para tanto 0 proprio homem e, quando isto é impos- sivel, por quest6es éticas, animais como ratos e chimpanzés. O psicélogo clinico, muitas vezes confundido com a psiquiatra, vai se dedicar aos individuos com problemas de ajustamento ou emocionais, usando técnicas € abordagens puramente psicolégicas. Ele no lanca mio de terapautica medicamentosa, pois, inclusive, n3o tem formag3o médica. Opsicélogo social estuda a influéncia do grupo social no comportamento dos individuos @ se inte- Tessa por assuntos como mudanca de atitudes, pre- conceitas, lideranca, dindmica de grupo, delinguén- cia, opinido publica. Visa 4 usar métodos de mu- danca de comportamento e atitudes de grupos, as- sim como técnicas pata diminuir as tensdes inter- grupais. psicdlogo industria! trabalha nas empresas, Principalmente no campo das relac¢Ges humanas. Seleciona e treina pessoal, usa técnicas para ai mento da produtividade, podendo, também, dedi: car-se & pesquisa de mercado e trabalhar em publ cidade, estudando 0 comportamento dos consumi dores e a melhor maneira de incentivé-los 8 compra de determinados produtos. Q psicdlogo educacional vai atuar na escola, junto ao educando, trabalhando com preblemas de prendizagem, motiva¢lo e ajustamento. Avalia di- ferentes métodos de ensino, programas e técnicas O que € Pricologia novas ¢ elabora testes e medidas de rendimento es- colar. Trabalha, também, com técnicas especiais junto a alunos com problemas de retardamento ental, dificuldades emocionais ou em 4reas espe- icas como leitura ou escrita. Em qualquer 4rea, o importante 6 que o psicé- logo vai buscar compreender (esta ¢a palavra-chave) ‘© ser humano em sua relacZo consigo préprio, com © grupo, com 0 patro, com os colegas etc. Com- preender para ajuda-lo a desenvolver suas infinitas potencialidades e ser mais alegre, criativo, inteli- gente, livre e confiante. De qualquer modo, 0 psicélogo sera um deco- dificador. Ele esté colocado em uma situacao de co- municac¢&o e seu trabalho consistiré em receber mensagens que dever utilizar, até mesmo para de- cifrar, para explicd-las, finalmente, numa met: guagem (interpreta¢ao da linguagem ou uma lingua- gem a respeito de outra linguagem) destinada a si préprio ow ao interlocutor. O psicélogo na sociedade moderna A competitividade da sociedade moderna, o mede constante do insucesso e de algum cataclisma estdo levando a grande massa de individuos a dis- tirbios psicolégicos de tal ordem, que o anormal esta se tornando normal, no sentido de que o para- metro passa a ser a imensa maioria perturbada. a Maria Luiza Silveira Teles 2 OEE O ser humano, assim como 0 animal, tem um limiar de tens&o, isto 6, ele sé pode suporté-la até certo ponte, sem que seu sistema biopsiquico se desorganize. Entretanto, a vida moderna esté colo- cando os individuos num estado permanente de ten- so, cujas conseqiiéncias $30 desastrosas, no s6 no sentido individual, mas também no sentido cole- tivo, pois as repercussdes das agdes das pessoas so de ordem social Asociedade, assim, vai sendo minada aos pou- cos por uma neurose coletiva, sendo dificil prever a que isto poderé levar-nos. Est@ havendo uma deteriorag3o da afetividade das pessoas e esse empobrecimenta afetivo difi- culta 0 contato do individuo consigo mesmo € com os semelhantes, levando-o a busca de emogSes vio- lentas, na tentativa de se sentir ¢ sentir 0 outro, ou, ento, ao total isolamento. Além disso, as pessoas perderam a unidade: suas vidas so regidas por uma dicotomia moral, pois os principios cristdos, que iluminaram o desen- volvimento de suas consciéncias € que tentam ap! car em suas vidas particulares e pregar em suas. das ptblicas, ndo podem orientar suas vidas profi sionais, pois ai correriam o risco de perderem os seus lugares e serem massacradas pela avidez e falta de escrupulos de seus competidores. E uma pessoa que perde a sua unidade, a sua integridade, a sua coeréncia, perde 0 eixo de si prépria e n&o tem mais condigées de funcionar como um ser humano. Isto O que é Psicologia te sem falar nas demais conseqiéncias de ordem psi- quica @ somatica; o constante sentimento de culpa, do qual ndo se pode fugir, embora em nivel incons- ciente, se manifestard, automaticamente, enchendo 08 consultérios médicos de individuos que no tém doengas, mas s3o doentes, Outra caracteristica patolégica que podemos encontrar nos individuos @ a extrema alienacao. In- capazes de fazer frente 4 dura realidade que os cer- ca, cada vez mais dela se divorciam, realizando-se imaginariamente através de seus sonhos e delirios, dos personagens das novelas e de seus idolos. Aligs, 0 fanatismo religioso e politico que, cada vez mais, vem tomando conta das pessoas, ¢ um sinal palpavel de que estdo mortas por dentro ¢ de que necessitam, desesperadamente, de algo que as faca sentirem-se vivas. E 0 recurso dramatico de que langa mao 0 esquizofrénico, quande se queima ou se fere, numa tentativa de se perceber vivo. A competitividade desgasta profundamente as pessoas, porque ninguém pode viver como se a vida fosse uma maratona, que tem de ser vencida a qual- quer prego. $6 a cooperag3o pode construir e rea- ar. Entretanto, é triste ver que os préprios pai @a Escola, aa invés de incentivarem 0 espirito asso- ciativo e cooperative das criancas e dos jovens, pre- param-nos, desde cedo, para uma acirrada compe- tigdo, Também o ideal consumista incutido nas pes soas, desde a mais tenra infancia, so leva ao desa- Maria Luiza Silveira Teles juste profundo e ao stress, pois as exigéncias vio num crescendo, obrigando 9 individuo a trabalhar mais, a fazer mais dividas, para comprar sempre mi em -suma, neste mundo caético, tumultuado, onde impera a neurose coletiva, que 0 psicélogo tera a sua importantissima atuacSo. E para que ele atue bem, ajudando o homem a conseguir a to per- seguida paz, é necessario que ele seja ndo apenas um bom profissional, com largueza de vis3o e@ for- macio sélida mas também uma Pessoa plena, a servico n3o do Sistema, mas do Homem. QUESTIONANDO A PSICOLOGIA Até onde a Psicologia esté resolvendo as ques- t&es a que se propde? Avancando bastante em suas pesquisas, con- firma a cada dia 0 seu Status de ciéncia. Mas, e na pritica, como se coloca? Alguns pontos tém de ser abordados aqui. Em primeiro lugar, ha ainda muita confusio e pouco consenso entre os seus adeptos. O que se percebe é um becado de profissionais tabalhando a partir de premissas diferentes. Quase trés quartos dos psicé- loges de hoje se dedicam a ciéncia aplicada ou s3o tecndlogos, mas n3o hd, absolutamente, consenso em suas abordagens e nas técnicas usadas. Nao ha, portanto, acordo na metodologia, no existe uma terminologia comum @ poucas 80 as generalizacdes devidamente comprovadas, 6 7 Neste sentido, a Psicologia ainda esta longe da estruturag3o de outras ciéncias como a Fisica, a Qui- mica ou a Biologia. No entanto, ela ja tem um século de existéncia... Outra questo a ser levantada é: a quem ela serve? Quem ¢ 0 anormal? Qual é o aluno desajus- tado? Se ela usa como parametros de normalidade e de ajustamento os valores da classe dominante, en- 180 ela é, também, um veiculo ideoldgico. Alem disso, quem pode pagar os seus servicos nada bara- tos? Apenas a classe dominante. Ela absorve 0 diferente ou coloca-o camo pato- idgico? Interessam ao Sistema as pessoas diferen- tes, rebeldes, questionadoras? Se a sua fungdo é adequar a& pessoas e vender produtos, ela n3o é 'sen3o uma serva do Sistema. Existiré, no entanto, ciéncia realmente indepen- dente? O importante @ lembrar que aquele que estuda aquele que faz a Psicologia ndo podem, de modo algum, ser meros autématos. E necesséria questio- nar-se a todo momento, para que nao se torne alie- nado, ele também, da realidade. Infelizmente, a grande maioria dos que se dedi- cam & Psicologia, falta, quase sempre, visdo hist6- fi¢a da realidade. Até onde somos realmente individuos, se 0 co- letivo nos envolve de tal forma que ja N80 podemos discernir 0 que é individual do que & social? E, ao sair do enfoque individual para o social, até onde vai Na Maria Luiza Silveira Teles O que é Psicologia operigo da massificacaio, de se propor padres uni- formes para tados? A situagae 6 bastante delicada e tudo isto deve ser seriamente pensado por quem se dedica a Psicologia. A quem ela deve realmente servir: ao Sistema ou ao Individuo? Contribuir para que o Homem seja uma pega bem integrada na engrenagem social ou para que seja, acima de tudo, feliz? Fica a questao para vocé pensar dentro de seu referencial teérico.... Acredito sinceramente que, diante de uma so- ciedade falida, diante da decomposi¢ao do sistema capitalista, 6 preciso reinventar tudo, inclusive a pr6- pria Psicologia. No podemos aceitar que o psicdlogo seja ape- nas 9 profissional do bem-estar, tendo como ponto de referéncia uma sociedade bem comportada, Nao h& sociedade sem contradi¢des e conflitos, assim como nao ha individuos sem conflitos e contradi- cdes. Isto nado 6 patolégico, é natural, isto é, de acorde com a natureza, pois a dialética é 4 mola pro- pulsora da evolugao. Nao podemos aceitar que um Sistema em que ja nao acreditamos continue a determinar nossos com- portamentos é reivindicagdes. oz Maria Luiza Silveira Teles +) INDICACOES PARA LEITURA Maria Luiza Silveira Teles, Introducao 4 Psicologia, S80 Paulo, Brasiliense, 1989. Neste livro aprofundo um pouco mais alguns temas aqui abordados; apre- sento, de maneira clara, simples e sucinta, dezoito teorias psicoldgicas e as chamadas esco/as, as quais apenas me referi na presente obra. Uma Jn- todugéo 4 Psicologia da Educacao, 7* ed., Pettd- polis, Vozes, 1988. Jé nesta outra obra dedico-me, especificamente, ao problema de come a evolucso de nossa comportamento se liga a questo educa- cional, Varios conceitos apresentados na presente obra sSo nela aprofundados, principalmente ques- adas 8 personalidade e ao desenvolvimento. Eunice M. L. Soriano de Alencar, Psicologia — Intro- dugo aos Principios Bésicos da Comportamento, # ed., Petropolis, Vozes, 1978. Nesta obra, a pro- fessora Eunice explica, detalhadamente, o meca- nismo do comportamento e expe as modernas 70 Maria Luiza Silveira Teles -correntes psicolégicas. Jacques Cosnier, Chaves da Psicologia, 2* ed., Rio, Zahar Editores, 1976. 0 autor discute melhor a questo da Psicologia como ciéncia, seus antecedentes tOricos, suas ligagBes com outras ciéncias @ a sua fungao. Richard H. Henneman, 0 Que ¢ Psicologia, 4° ed., Rio, José Olympio, 1974, Lauro de Oliveira Lima, Os Mecanismos da Liberdade, ‘$30 Paulo, Polis, 1980. 0 autor trata, com profun- didade, de questo 2 qual merreferi: 0 fate de que © Homem € um ser especial por desenvolver-se em ‘um meio social. Mostra como a Psicologia, em con- seqiiéncia, 6 na verdade microssociologia Alvaro Cabral, et af., Uma Breve Histéria da Psicologia, Rio, Zahar Editores, 1972. Em tom quase caloquial, ‘0s autores apresentam aqui, de maneira agradavel 8 Fesumida, mas muito precisa, todo 0 hist6rico da Psicologia. Karen Homey, Nosso Conflitos Interiores, 4° ed., Rio, CivilizagSe Brasileira, 1969. Karen Horney, com grande maestria, mostra neste seu livro. a maioria das motivacbes inconscientes subjacentes.ao meca nismo de nessos comportamentos. O leitor poders nesta obra no 6 compreender melhor a Psicologia como asi proprio. — Sobre a autora Maria Luize Silveira Teles 6 mineita de Belo Horizonte. Licenciou-se em Pedagegia, com pés-graduagio em Psico- logia e Sociologia (PUCIMG) ¢ formou-se em Inglés (Cambridge), Protessora universitéra, titular de Psicologia da Educa 50 © Sociologia da Eduea¢so, psicopedagoga, jomalista, exerceu diversos cargos como orientadora educocional. di tetera do coldgio, chefe de departamento em facuidades, entre outros ‘Atwalmente, dedica-se a escraver e proterir confertn- clas. € autora de: O que & Psicologia, O que ¢ Neurose, que é Depresséo, O que ¢ Stress, Aprender Psicologia ipe- 1 Brasiliense), Uma Introducdo & Psicologia da Educacso, Curso Bdsica de Sociologia de Educeeso, A Grevo das Crian- cas, Educagso — A revolugso necessdria, Conversas com Minha Filha, Iniciag$o 4 Sociologia (pela Vozes) e As Sete 1 Pontes (edic8o independentel. «ns @> “Dp «Dp ~ - a@»pae