Sei sulla pagina 1di 80

ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

Guia Global das


Cidades Amigas das Pessoas Idosas

A tradução e a publicação da edição portu-


guesa do Guia Glabal das Cidades Amigas
das Pessoas Idosas foram asseguradas pela
Fundação Calouste Gulbenkian.
Guia Global das Cidades Amigas das Pessoas Idosas

Publicado originalmente pela Organização Mundial da Saúde em 2007 sob o título Global age-friendly cities: a guide
© Organização Mundial da Saúde 2007
O Director Geral da Organização Mundial da Saúde garantiu os direitos de tradução para a edição em língua
portuguesa à © Fundação Calouste Gulbenkian 2009, a qual é a única responsável pela presente obra.

Todos os direitos reservados. As publicações da Organização Mundial da Saúde podem ser obtidas através da:
Publicações da OMS, Organização Mundial da Saúde, 20 Avenue Appia, 1211 Genebra 27, Suíça
(Tel: +41 22 791 3264; fax: +41 22 791 4857; e-mail: bookorder@who.int). Os pedidos de autorização para
reprodução ou tradução das publicações da OMS – para venda ou para distribuição não comercial - devem ser
endereçados a Publicações da OMS, mesmo endereço (fax: : +41 22 791 4806; e-mail: permissions@who.int).

As denominações utilizadas nesta publicação e a apresentação do material nela contido não significam, por parte da
Organização Mundial da Saúde, nenhum julgamento sobre o estatuto jurídico de qualquer país, território, cidade ou
zona, nem de suas autoridades, nem tampouco sobre questões de demarcação de suas fronteiras ou limites. As linhas
ponteadas nos mapas representam fronteiras aproximativas sobre as quais pode ainda não existir acordo completo.

A menção de determinadas companhias ou do nome comercial de certos produtos não implica que a Organização
Mundial da Saúde os aprove ou recomende, dando-lhes preferência a outros análogos não mencionados. Com
excepção de erros ou omissões, uma letra maiúscula inicial indica que se trata dum produto de marca registado.

A OMS tomou todas as precauções razoáveis para verificar a informação contida nesta publicação. No entanto, o
material publicado é distribuído sem nenhum tipo de garantia, nem expressa nem implícita. A responsabilidade pela
interpretação e uso deste material recai sobre o leitor. Em nenhuma circunstância a OMS poderá ser responsabilizada
por qualquer prejuízo resultante da sua utilização.

Concepção gráfica: Langfeldesigns.com • Ilustração: © Ann Feild/Didyk


Impresso em Portugal – Guide Artes Gráficas, Lda. • ISBN 978-989-95568-6-7 • Depósito Legal 292186/09

iI
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

Índice

Agradecimentos iv

Introdução: acerca deste Guia 1

Parte 1. Envelhecimento global e urbanização:


enfrentar o desafio do sucesso da humanidade 3

Parte 2. Envelhecimento activo:


enquadramento das cidades amigas das pessoas idosas 5

Parte 3. Como surgiu o Guia 7

Parte 4. Como utilizar o Guia 11

Parte 5. Espaços exteriores e edif ícios 12

Parte 6. Transportes 20

Parte 7. Habitação 30

Parte 8. Participação social 38

Parte 9. Respeito e inclusão social 46

Parte 10. Participação cívica e emprego 52

Parte 11. Comunicação e informação 60

Parte 12. Apoio comunitário e serviços de saúde 66

Parte 13. Conclusão e perspectivas para o futuro 72

Referências 76

iII
Agradecimentos

Este projecto foi concebido em Junho de 2005, na sessão inaugural do XVIII Congresso da Associação Internacional
de Gerontologia e Geriatria (AIGG) que decorreu no Rio de Janeiro, Brasil, tendo imediatamente despertado
um interesse entusiástico, traduzido em generosas contribuições de muitos parceiros. Manifestamos o nosso
agradecimento pelo financiamento e pelo apoio técnico prestado pela Agência de Saúde Pública (Public Health
Agency) do Canadá, que desempenhou um papel fundamental na implementação da investigação, na participação
de várias cidades e na publicação deste Guia.

Estendemos também os nossos agradecimentos ao Ministério da Saúde da Colúmbia Britânica, pelo apoio ao primeiro
encontro entre cidades participantes, em Maio de 2006, em Vancouver, Canadá; à organização 2010 Legacies Now,
pelo financiamento de um panfleto promocional; à organização Help the Aged, por tornar possível a participação
de duas cidades e por apoiar o segundo encontro de cidades participantes, em Londres, no Reino Unido, em Março
de 2007; e à cidade de Otava, no Canadá, por testar o protocolo de investigação. A implementação do projecto
de investigação e a participação em encontros para debate do projecto foram possíveis graças ao financiamento
governamental e local, na maioria das cidades participantes.

O projecto contou, em todas as fases, com a orientação de um grupo consultivo, a cujos membros expressamos os
mais sinceros agradecimentos: Margaret Gillis, Agência de Saúde Pública do Canadá; James Goodwin, Help the Aged,
Reino Unido; Tessa Graham, Ministério da Saúde da Colúmbia Britânica, Canadá; Gloria Gutman, Universidade Simon
Fraser, Canadá; Jim Hamilton, Secretaria do Envelhecimento (Healthy Aging Secretariat) de Manitoba, Canadá; Nabil
Kronful, Associação Libanesa de Gestão dos Cuidados de Saúde, Líbano; Laura Machado, Consulta Intergeracional de
Gerontologia, Brasil; e Elena Subirats-Simon, Acción para la Salud, México.

O projecto global Cidades Amigas das Pessoas Idosas foi desenvolvido por Alexandre Kalache e Louise Plouffe, na
sede da OMS em Genebra, Suíça, e o relatório foi elaborado sob a sua direcção geral. Contribuíram substancialmente
para a análise de dados e para a preparação do relatório Louise Plouffe; Karen Purdy, Gabinete para os Interesses e
Voluntariado dos Cidadãos Séniores (Office for Seniors Interests and Volunteering), Governo da Austrália Ocidental;
Julie Netherland, Ana Krieger e Ruth Finkelstein, Academia de Medicina de Nova Iorque; Donelda Eve, Winnie Yu e
Jennifer MacKay, Ministério da Saúde da Colúmbia Britânica e Charles Petitot, da sede da OMS.

O protocolo de investigação foi implementado nas 33 cidades seguintes, graças aos esforços de governos,
organizações não governamentais e grupos académicos:

Amã, Jordânia Bay (em parceria), Jamaica Nova Deli, Índia San José, Costa Rica
Cancún, México La Plata, Argentina Ponce, Porto Rico Xangai, China
Dundalk, Irlanda Londres, Reino Unido Portage la Prairie, Canadá Sherbrooke, Canadá
Genebra, Suíça Mayaguez, Puerto Rico Portland, Oregon, Estados Tóquio, Japão
Halifax, Canadá Melbourne, Austrália Unidos da América Trípoli, Líbano
Himeji, Japão Melville, Austrália Rio de Janeiro, Brasil Tuymazy, Federação Russa
Islamabad, Paquistão Cidade do México, México Região metropolitana do Udaipur, Índia
Istambul, Turquia Moscovo, Federação Russa Ruhr, Alemanha Udine, Itália
Kingston e Montego Nairobi, Quénia Saanich, Canadá

Por último, um agradecimento especial aos idosos de todos os locais em que decorreu a investigação, bem como
aos prestadores de cuidados e prestadores de serviços que também foram consultados em muitos locais. Através de
discussões de grupo, e com base nas suas próprias experiências, estas pessoas conceberam o modelo de uma cidade
amiga das pessoas idosas que constitui o núcleo deste Guia. Estas pessoas e todos aqueles que interagem com elas
de forma significativa continuarão a desempenhar um papel fundamental como representantes da comunidade e
supervisores de acções que tornem as suas cidades mais amigas das pessoas idosas.

iV
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

Introdução: acerca deste Guia

O envelhecimento da população e a urbani- grupos de discussão, procedessem à descrição


zação são duas tendências globais que, em das vantagens e obstáculos que encontram em
conjunto, constituem forças fundamentais que oito áreas da vida na cidade. Na maioria das ci-
estão a moldar o século XXI. À medida que dades, os relatos de pessoas mais velhas foram
as cidades crescem, aumenta a sua percenta- complementados através dos contributos
gem de residentes com idades superiores a 60 de grupos de discussão compostos por pres-
anos. As pessoas mais velhas são um recurso tadores de cuidados e prestadores de serviços
para as respectivas famílias, comunidades e dos sectores público, voluntário e privado.
economias, em meios envolventes que lhes Os resultados das discussões em grupo con-
proporcionam apoio e a possibilidade de capa- duziram à elaboração de um conjunto de listas
citação. A OMS considera o envelhecimento de verificação de cidades amigas dos idosos.
activo um processo contínuo, determinado por
vários factores que, isolados ou em conjunto, • A parte 1 descreve as tendências conver-
contribuem para a saúde, a participação e a gentes do rápido aumento da população
segurança na terceira idade. Baseando-se na com mais de 60 anos e da urbanização,
abordagem da OMS relativamente ao envelhe- definindo ainda os desafios com que as
cimento activo, este Guia tem como finalidade cidades se deparam.
levar as cidades a tornarem-se mais amigas dos
idosos, de modo a beneficiarem do potencial • A parte 2 apresenta o conceito de “enve-
que as pessoas mais velhas representam para lhecimento activo” como um modelo para
a humanidade. o desenvolvimento de cidades amigas das
pessoas idosas.
Uma cidade amiga das pessoas idosas estimula
o envelhecimento activo através da criação de • A parte 3 contém um resumo do processo
condições de saúde, participação e segurança, de investigação que conduziu à identifica-
de modo a reforçar a qualidade de vida à medi- ção das principais características de uma
da que as pessoas envelhecem. cidade amiga das pessoas idosas.

Em termos práticos, uma cidade amiga das • A parte 4 contém indicações acerca da
pessoas idosas adapta as suas estruturas e forma como o Guia deve ser utilizado,
serviços de modo a que estes incluam e sejam quer por indivíduos quer por grupos, com
acessíveis a pessoas mais velhas com diferentes o objectivo de estimular a acção nas suas
necessidades e capacidades. próprias cidades.

Para compreender as características de uma • As partes 5 a 12 dão destaque às questões


cidade amiga as pessoas idosas, torna-se e preocupações expressas por pessoas mais
essencial ir até à fonte – os habitantes mais velhas e por quem lhes presta serviços, em
velhos das cidades. Num trabalho realizado oito áreas da vida urbana: espaços exte-
com grupos em 33 cidades em todas as regiões riores e edif ícios; transportes; habitação;
da OMS, foi solicitado aos idosos que, em participação social; respeito e inclusão

1
social; participação cívica e emprego; ticas principais da cidade amiga dos idosos
comunicação e informação; apoio comuni- considerada “ideal” e mostram como a
tário e serviços de saúde. Em cada uma das mudança de um aspecto da cidade pode ter
partes, a descrição dos resultados termina efeitos positivos nas vidas das pessoas mais
com uma lista de verificação das caracte- velhas, em outras áreas. Inspirados pela pro-
rísticas principais de uma cidade amiga messa de mais comunidades amigas dos ido-
das pessoas idosas, elaborada com base na sos, os colaboradores da OMS encontram-se
análise dos relatórios de todas as cidades. neste momento a desenvolver iniciativas
que permitam traduzir a investigação em
• A parte 13 integra os resultados no âmbito acção a nível local, alargar a intervenção para
da perspectiva de envelhecimento activo da além das cidades e fazer com que abranja
OMS e realça as fortes ligações existentes mais comunidades. Este Guia é o ponto
entre os tópicos da cidade amiga das pessoas de partida para um crescente movimento
idosas. Estas ligações revelam as caracterís- comunitário amigo das pessoas idosas.

2
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

Parte 1. Envelhecimento global


e urbanização: enfrentar o desafio
do sucesso da humanidade

O mundo está a envelhecer rapidamente: o metade da população global vive em cidades


número de pessoas com mais de 60 anos, em (3). O número de mega-cidades, ou seja, de
termos de proporção da população global, cidades com 10 ou mais milhões de habitan-
aumentará de 11% em 2006 para 22% em 2050. tes, é dez vezes maior, tendo aumentado de 2
Nessa altura, e pela primeira vez na história da para 20 durante o século XX, representando
humanidade, a população terá mais pessoas 9% da população urbana mundial em 2005 (4).
idosas do que crianças (com idades até aos O número e a proporção dos habitantes das
14 anos) (1). Os países em vias de desenvolvi- cidades continuarão a aumentar durante as
mento estão a envelhecer a um ritmo muito próximas décadas, especialmente em cidades
mais acelerado do que os países desenvolvidos: com menos de cinco milhões de habitantes (5).
dentro de cinco décadas, um pouco mais de Mais uma vez, este crescimento está a ocorrer
80% da população idosa mundial viverá em muito mais rapidamente em regiões em desen-
países em desenvolvimento, enquanto que volvimento. Em 2030, cerca de três em cada
em 2005 essa percentagem era de 60% (2). cinco pessoas viverão em cidades e o número
de habitantes das cidades nas regiões menos
Ao mesmo tempo, o nosso mundo é uma desenvolvidas será quase quatro vezes superior
cidade cada vez maior: desde 2007 que mais de ao das regiões mais desenvolvidas (Fig. 2) (6).

Figura 1. Distribuição percentual da população mundial com 60 anos ou mais,


por região, em 2006 e 2050

35 34
2006
30 2050
27
24 25
25 24
Percentagem

21
20
17
15 14
10
10 9 9
9
5

0
África Ásia Europa América América Oceânia
Latina do Norte
e Caraíbas

Fonte: Departamento da Nações Unidas para os Assuntos Económicos e Sociais (1).

3
Figura 2. Percentagem de população urbana em zonas principais

100 2005
87 2030
84.3
78.3 77.4 80.8
80 73.8
72.2 70.8
Percentagem

59.9
60 54.1
48.7 50.7

38.3 39.8
40

20

0
Mundo África Ásia Europa América América Oceânia
Latina do Norte
e Caraíbas

Fonte: Departamento das Nações Unidas para os Assuntos Económicos e Sociais, Divisão da População (6).

Também vivem nas cidades mais pessoas do ao desenvolvimento tecnológico e econó-


idosas. A proporção de população adulta mais mico de um país. Cidades dinâmicas trazem
velha que vive nas cidades, em países desen- benef ícios a toda a população de um país, tanto
volvidos, é equivalente à dos grupos mais urbana como rural. Como as cidades são o
jovens em cerca de 80% e continuará a aumen- centro da actividade cultural, social e política, é
tar ao mesmo ritmo. Contudo, nos países em lá que surgem novas ideias, produtos e serviços
desenvolvimento, o número de pessoas idosas que influenciam outras comunidades e, por
nas comunidades urbanas aumentará 16 vezes, conseguinte, o mundo. Contudo, para poderem
passando de cerca de 56 milhões em 1998 para ser sustentáveis, as cidades têm de providen-
mais de 908 milhões em 2050. Nessa altura, os ciar as estruturas e os serviços que permitem o
idosos constituirão um quarto da população ur- bem-estar e a produtividade dos seus habitan-
bana total, nos países menos desenvolvidos (7). tes. As pessoas mais velhas, em especial, têm
necessidade de viver em meios envolventes
O envelhecimento da população e a urbani- que lhes proporcionem apoio e capacitação,
zação são o culminar do bem sucedido desen- para compensar as mudanças f ísicas e sociais
volvimento humano durante o século passado. associadas ao envelhecimento. Esta necessi-
São também enormes desafios que este século dade foi reconhecida como uma das direcções
terá de enfrentar. A maior longevidade é fruto prioritárias do Plano de Acção Internacional
de conquistas importantes em termos de saúde de Madrid sobre o Envelhecimento, defendido
pública e de nível de vida. Segundo a Declara- pelas Nações Unidas em 2002 (9). Tornar as
ção de Brasília sobre o Envelhecimento (8), de cidades mais amigas dos idosos é uma resposta
1996, “os idosos saudáveis são um recurso para necessária e lógica, que permite a promoção do
as respectivas famílias e comunidades e para a bem-estar e o contributo dos habitantes urba-
economia”. O crescimento urbano está associa- nos idosos e ainda manter as cidades prósperas.

4
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

Parte 2. Envelhecimento activo:


enquadramento das cidades amigas
das pessoas idosas

A ideia de cidade amiga das pessoas idosas pre- • antecipar e dar respostas flexíveis às neces-
sente neste Guia integra-se no enquadramento sidades e preferências relacionadas com o
da OMS para o envelhecimento activo (10). envelhecimento;

O envelhecimento activo é o processo de opti- • respeitar as suas decisões e escolhas de


mização de condições de saúde, participação e estilo de vida;
segurança, de modo a melhorar a qualidade de
vida à medida que as pessoas envelhecem. • proteger os mais vulneráveis e

Numa cidade amiga das pessoas idosas, as po- • promover a sua inclusão e contribuição em
líticas, os serviços, os cenários e as estruturas todos os aspectos da vida comunitária.
apoiam as pessoas e permitem-lhes envelhecer
activamente, ao: O envelhecimento activo depende de uma série
de influências ou determinantes que rodeiam
• reconhecer que as pessoas mais velhas os indivíduos, as famílias e as nações, entre
representam um alargado leque de capaci- os quais se incluem condições materiais, bem
dades e recursos; como os factores sociais que afectam os tipos

5
de comportamento e os sentimentos de cada do declínio pode ser influenciada e que este
indivíduo (11). Todos estes factores, bem pode ser reversível em qualquer idade, através
como a interacção existente entre eles, desem- de medidas individuais e públicas, tais como a
penham um papel importante no que diz res- promoção de um meio envolvente amigo do
peito à influência exercida sobre a forma como idoso. Na medida em que o envelhecimento
os indivíduos envelhecem. Muitos aspectos activo é um processo contínuo, uma cidade
dos cenários e serviços urbanos reflectem estes amiga dos idosos não é simplesmente amiga das
determinantes e estão incluídos nas caracterís- pessoas mais velhas. Edifícios e ruas sem obstá-
ticas das cidades amigas dos idosos (Fig. 3). culos aumentam a mobilidade e a independên-
cia de pessoas com incapacidades, tanto jovens
Estes determinantes têm de ser encarados como idosas. Uma vizinhança segura permite
segundo uma perspectiva de ciclo de vida, que que crianças, mulheres jovens e pessoas mais
reconheça que as pessoas idosas não são um velhas se sintam confiantes para sair à rua e
grupo homogéneo e que a diversidade indivi­ participar em actividades de lazer fisicamente
dual aumenta com a idade. Esta ideia encontra- activas e em actividades sociais. As famílias são
‑se expressa na figura 4, que mostra que a capa- menos afectadas pelo stresse quando os seus
cidade funcional (tal como a força muscular e o membros mais velhos têm o apoio comunitário
rendimento cardiovascular) aumenta na infân- e os serviços de saúde de que necessitam. Toda
cia, atinge o máximo no início da idade adulta e a comunidade beneficia da participação de
a determinada altura entra em declínio. O grau pessoas mais velhas em trabalho voluntário ou
de declínio é determinado essencialmente por remunerado. Por último, a economia local lucra
factores relacionados com o estilo de vida, bem com a clientela constituída pelos consumidores
como com factores externos sociais, ambientais adultos mais velhos. A palavra-chave, no que
e económicos. Sob uma perspectiva individual diz respeito a cenários urbanos sociais e físicos
e social, é importante relembrar que a rapidez amigos das pessoas idosas, é capacitação.

Figura 4. Manter a capacidade funcional ao longo da vida

Fase inicial Vida adulta Terceira Idade


da vida Manutenção do mais Manutenção da independência
Crescimento e elevado nível funcional e prevenção da incapacidade
desenvolvimento possível
Capacidade funcional

Nível
dos in funcional
divíd
uos

Limiar de incapacidade

Reabilitação e garantia
da qualidade de vida

Idade

Fonte: Kalache & Kickbusch (12).

6
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

Parte 3. Como surgiu o Guia

Cidades em todas as regiões da OMS das cidades envolveram as pessoas idosas como
participantes no projecto. Os responsáveis pelo
No total, o projecto da OMS que deu origem ao projecto procuraram a experiência em primeira
Guia contou com a participação de 35 cidades mão das pessoas idosas. Quais são as caracte-
de todos os continentes, tendo 33 destas cidades rísticas amigas dos idosos da cidade em que
participado em investigação baseada em grupos vivem? Com que problemas se deparam?
de discussão, graças à cooperação de elementos O que falta à cidade para que possa ser melho-
governamentais e de grupos não governamen- rada a sua saúde, participação e segurança?
tais e académicos1. Estas cidades representam
um leque alargado de países desenvolvidos e em Foram organizados grupos de discussão for-
desenvolvimento (Fig. 5) e reflectem a diversi- mados por pessoas com mais de 60 anos, com
dade de cenários urbanos contemporâneos, in- rendimentos baixos e médios. Foram criados
cluindo seis das actuais mega-cidades com mais 158 grupos com estas características, num
de 10 milhões de habitantes (Cidade do México, total de 1485 participantes, entre Setembro
Moscovo, Nova Deli, Rio de Janeiro, Xangai e de 2006 e Abril de 2007. Os idosos foram a
Tóquio), cidades que podem ser consideradas principal fonte de informação em todas as 33
“quase mega-cidades”, como Istambul, Londres cidades em que foram organizados grupos de
e Nova Iorque, e também capitais nacionais, discussão. De modo a possibilitar o conheci-
centros regionais e pequenas cidades. mento das opiniões de pessoas que seriam in-
capazes de participar nos grupos de discussão
Abordagem participativa devido a incapacidades f ísicas ou mentais, a
de baixo para cima maioria das cidades organizou também grupos
de discussão com prestadores de cuidados que
A abordagem participativa de baixo para cima falavam acerca das experiências das pessoas
(13) envolve as pessoas idosas na análise e idosas de quem cuidavam.
comunicação da sua situação para que esta
seja incluída nas políticas governamentais. No sentido de complementar a informação
Esta abordagem é recomendada pelas Nações fornecida pelos idosos e pelos prestadores de
Unidas, tendo por finalidade dar às pessoas cuidados, a maioria das cidades organizou
mais velhas a capacidade de contribuírem para também grupos de discussão compostos por
a sociedade e participarem em processos de prestadores de serviços do sector público, vo-
tomada de decisão. Considerando que os idosos luntário e comercial. Em termos globais, foram
são os melhores especialistas nas suas próprias incluídos nas consultas 250 prestadores de
vidas, a OMS e os seus parceiros em cada uma cuidados e 515 prestadores de serviços.

Edimburgo contribuiu com informação acerca das características amigas das pessoas idosas existentes na
1

cidade, com base num vasto inquérito e em entrevistas individuais realizados alguns meses antes do projecto
da OMS. A informação de Edimburgo, obtida através da utilização de um método diferente mas complemen-
tar, forneceu confirmação adicional dos resultados obtidos através dos grupos de discussão. A cidade de Nova
Iorque envolveu-se com empenho na análise de dados e no desenvolvimento das próximas fases do projecto
das Cidades Globais Amigas das Pessoas Idosas.

7
Figura 5. Mapa mundial das cidades parceiras amigas do idoso

América África Reino Unido, Edimburgo


Argentina, La Plata Quénia, Nairobi Reino Unido, Londres
Brasil, Rio de Janeiro
Canadá, Halifax Mediterrâneo Oriental Sudeste Asiático
Canadá, Portage la Prairie Jordânia, Amã Índia, Nova Deli
Canadá, Saanich Líbano, Trípoli Índia, Udaipur
Canadá, Sherbrooke Paquistão, Islamabad
Costa Rica, San José Pacífico Ocidental
Jamaica, Kingston Europa Austrália, Melbourne
Jamaica, Montego Bay Alemanha, Ruhr Austrália, Melville
México, Cancún Irlanda, Dundalk China, Xangai
México, Cidade do México Itália, Udine Japão, Himeji
Porto Rico, Mayaguez Rússia, Moscovo Japão, Tóquio
Porto Rico, Ponce Rússia, Tuymazy
EUA, Nova Iorque Suíça, Genebra
EUA, Portland Turquia, Istambul

As designações utilizadas e a apresentação dos materiais neste mapa não implicam, por parte da Organização
Mundial da Saúde, a expressão de qualquer opinião acerca do estatuto legal de qualquer país, território, cidade
ou zona ou acerca das respectivas autoridades, ou ainda relativamente à delimitação das suas fronteiras ou li-
mites. As linhas a tracejado representam fronteiras relativamente às quais poderá ainda não haver acordo total.

Estas pessoas deram as suas opiniões com base Tópicos para discussão
na sua interacção com pessoas idosas. Os pres-
tadores de cuidados e os prestadores de servi- Os grupos de discussão exploraram um total
ços forneceram algumas vezes informações não de oito tópicos, tendo por finalidade verifi-
mencionadas pelos idosos, mas a informação car até que ponto uma cidade é amiga das
de ambos os grupos foi sempre coerente com pessoas idosas, em termos globais. Os tópicos
as opiniões expressas pelos idosos. abrangiam as características das estruturas,

8
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

ambiente, serviços e políticas da cidade que de outras pessoas e da comunidade como um


reflectem os determinantes do envelhecimen- todo, em relação às pessoas mais velhas.
to activo. Os tópicos tinham sido identifica- A participação social refere-se ao envolvimen-
dos em investigação anteriormente realizada to das pessoas idosas em actividades recrea-
junto de pessoas idosas, acerca das caracte- tivas, de socialização, culturais, educativas e
rísticas de comunidades amigas da terceira espirituais. A participação cívica e o emprego
idade (14,15). As mesmas questões básicas dizem respeito às condições de cidadania e
acerca de cada área foram colocadas aos ao trabalho remunerado e não remunerado,
grupos de discussão em todas as cidades. estando relacionados com o ambiente social e
com os determinantes económicos do en-
Os três primeiros tópicos relacionavam-se com velhecimento activo. As duas últimas áreas,
os espaços exteriores e os edif ícios, os trans- comunicação e informação e apoio comunitá-
portes e a habitação. Como características fun- rio e serviços de saúde, abrangem os ambien-
damentais do ambiente f ísico de uma cidade, tes sociais e os determinantes da saúde e do
exercem uma forte influência sobre a mobilida- serviço social. Os determinantes transversais
de individual, a protecção contra danos f ísicos do envelhecimento activo constituídos pela
e a segurança contra o crime, o comportamen- cultura e pelo género foram incluídos neste
to relativo à saúde e a participação social. Ou- projecto somente de forma indirecta, porque
tros três tópicos reflectem diferentes aspectos a sua influência sobre o envelhecimento activo
do ambiente social e de cultura que afectam a vai muito para além da vida nas cidades. Em
participação e o bem-estar mental. O respeito virtude da sua influência dominante, estes
e a inclusão social estão relacionados com as determinantes merecem iniciativas que lhes
atitudes, os comportamentos e as mensagens sejam especificamente dirigidas.

Figura 6. Áreas a considerar numa cidade amiga do idoso


Tra

o ã
ns

itaç
por

Hab
tes

Es
rior paços cial
o so
es e ext
edif e- açã
ti cip
ício
s Cidade Par
amiga do
ário idoso R
unit aúde incl espeit
om usã o e
io c de s o so
Apo viços cial
Par e em

r
e se
form ção

tici pre
o
açã

paç go
e in unica

ão
Com

cívi
a c

9
Tal como sucede com os determinantes do A figura 6 representa os tópicos associados à
envelhecimento activo, estes oito aspectos da cidade amiga das pessoas idosas.
vida na cidade sobrepõem-se e interagem.
O respeito e a inclusão social reflectem-se Identificação das características
na acessibilidade aos espaços ao ar livre e aos
amigas das pessoas idosas
edif ícios e no leque de oportunidades que a
cidade oferece às pessoas idosas, em termos de Para cada um dos tópicos, as informações relati-
participação social, entretenimento e emprego. vas aos aspectos amigos das pessoas idosas exis-
A participação social, por sua vez, influencia a tentes na cidade, os obstáculos e as lacunas, bem
inclusão social, bem como o acesso à infor- como as sugestões de melhoramentos dadas
mação. A habitação afecta a necessidade de pelos participantes nos grupos de discussão em
serviços comunitários de apoio, enquanto que todas as cidades foram transcritos e agrupados
a participação social, cívica e económica de- segundo temas. Os temas mencionados em cada
pende em parte da acessibilidade e segurança uma das cidades foram registados, no sentido de
dos espaços ao ar livre e dos edif ícios públicos. permitirem uma visão do que era mais impor-
Os transportes, a comunicação e a informação, tante em termos gerais e em diferentes regiões e
em especial, interagem com as restantes áreas: cidades. Com base nos temas, foi elaborada uma
sem transportes ou sem os meios adequados lista de verificação das características fundamen-
para a obtenção de informação que permita tais de uma cidade amiga das pessoas idosas,
que as pessoas se encontrem e estabeleçam para cada um dos aspectos da vida na cidade.
ligações, as outras infra-estruturas e serviços A lista de verificação consiste num resumo fiel
urbanos que poderiam apoiar o envelhecimen- das opiniões expressas pelos participantes nos
to activo são pura e simplesmente inacessíveis. grupos de discussão em todos os continentes.

10
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

Parte 4. Como utilizar o Guia

Características fundamentais das linhas de orientação técnica nem especifica-


cidades amigas das pessoas idosas ções de planeamento. Encontram-se disponí-
veis outros documentos de natureza técnica
O presente Guia tem por finalidade ajudar as que ajudam a implementar as mudanças even-
cidades a olharem para si mesmas do ponto de tualmente necessárias em cada cidade. (16,17).
vista das pessoas mais velhas a fim de identi-
ficarem onde e como poderão tornar-se mais
Quem irá utilizar o Guia?
amigas das pessoas idosas. As partes do Guia
que se seguem descrevem, para cada aspecto O Guia destina-se a ser utilizado por pessoas
da vida na cidade, as vantagens e os obstáculos e grupos interessados em tornar as respecti-
com que as pessoas idosas se deparam em vas cidades mais amigas das pessoas idosas,
cidades com diferentes níveis de desenvolvi- incluindo governos, organizações de voluntá-
mento. A lista de verificação de características rios, o sector privado e grupos de cidadãos.
fundamentais amigas dos idosos, que se encon- O mesmo princípio utilizado na elaboração do
tra no final de cada parte, aplica-se de igual Guia aplica-se à sua utilização, ou seja, todas
modo a cidades menos e mais desenvolvidas. as fases do processo devem contar com o en-
O seu objectivo consiste em proporcionar um volvimento das pessoas idosas como parceiros
padrão universal de cidades amigas dos idosos. de pleno direito. Ao avaliarem os aspectos
positivos e as deficiências da cidade, as pes-
A lista de verificação de características amigas soas idosas farão a análise de como as carac-
dos idosos não é um sistema de classificação e terísticas mencionadas na lista de verificação
comparação de cidades; é, pelo contrário, uma correspondem às suas próprias experiências.
ferramenta que permite às cidades proce- Oferecerão sugestões de mudança e poderão
derem à sua auto-avaliação e registarem os participar na implementação de projectos
progressos efectuados. Todas as cidades têm de melhoria. A situação das pessoas idosas,
a possibilidade de efectuar algumas melhorias transmitida através desta abordagem de baixo
significativas com base na lista de verificação. para cima, fornece a informação essencial que
É possível ir além da lista de verificação, ha- será posteriormente filtrada e analisada por
vendo na realidade algumas cidades que já têm especialistas em gerontologia e pelos respon-
características para além das indicadas como sáveis pela tomada de decisões, aquando do
fundamentais. Estas boas práticas proporcio- desenvolvimento e adaptação de intervenções
nam ideias que outras cidades podem adaptar e políticas. Nas fases de acompanhamento da
e adoptar. Contudo, nenhuma cidade preenche acção local “amiga das pessoas idosas”, é im-
todos os requisitos em todas as áreas. prescindível que estas continuem envolvidas
na monitorização do progresso da cidade e
As listas de verificação de características ur- que continuem a agir como defensores e con-
banas amigas das pessoas idosas não são selheiros da cidade amiga das pessoas idosas.

11
Parte 5. Espaços exteriores e edifícios

Análise dos resultados Em Trípoli, o fumo dos narguilés (cachimbos de


água orientais) é descrito como “sufocante”, em
O ambiente exterior e os edif ícios públicos especial à noite e durante o Ramadão. Na Jamai-
exercem um impacto fundamental sobre a ca, é manifestada preocupação relativamente
mobilidade, a independência e a qualidade ao elevado som da música, ao qual que se junta
de vida dos idosos, afectando a sua possibili- a linguagem explícita das canções. Numa série
dade de “envelhecer em casa”. Nas consultas de cidades, a sujidade óbvia diminui a qualidade
efectuadas no âmbito do projecto da OMS, os de vida dos habitantes idosos. Com o objectivo
idosos e outras pessoas que interagem com de dar resposta a estes problemas, as pessoas na
eles de forma significativa descrevem um leque Cidade do México sugerem que seja organizada
alargado de características da paisagem urbana uma campanha de “ruas limpas”, enquanto que
e do ambiente construído que contribuem para na Jamaica se recomenda a adopção de legisla-
que uma cidade seja amiga das pessoas idosas. ção relativa aos níveis de ruído.
Os temas recorrentes, em cidades de todos os
continentes, são a qualidade de vida, a acessi- Em algumas cidades, as dimensões urbanas
bilidade e a segurança. As melhorias, já efec- são consideradas um problema. Em Tóquio,
tuadas ou em curso, em cidades com vários considera-se que o número crescente de habi-
níveis de desenvolvimento, são bem-vindas tantes está relacionado com a menor coesão
pelos inquiridos, que também indicam outras na comunidade. Nairobi é considerada uma
mudanças que deveriam ser realizadas. cidade superpovoada, onde as pessoas idosas
têm dificuldade em movimentar-se.
1. Ambiente agradável e limpo
A beleza da envolvente natural da cidade é em 2. A importância dos espaços verdes
muitas cidades espontaneamente referida como A existência de espaços verdes é uma das ca-
sendo uma característica amiga dos idosos. Por racterísticas amigas do ambiente referidas com
exemplo, no Rio de Janeiro e em Cancún, viver maior frequência. Contudo, em muitas cidades
junto ao mar é considerado uma verdadeira van- existem obstáculos que impedem que os idosos
tagem, tal como o é viver junto ao rio em Mel- utilizem os espaços verdes. Em Nova Deli, por
ville e em Londres. Em Himeji, as pessoas idosas exemplo, considera-se que alguns espaços verdes
dão valor à calma e tranquilidade do ambiente estão mal cuidados e foram transformados em
da cidade. Simultaneamente, os idosos queixam- “lixeiras” e em Himeji, alguns parques são consi-
‑se da falta de limpeza das suas cidades e dos derados inseguros. Em Melville, a preocupação
níveis de ruído e dos cheiros incomodativos. recai sobre as instalações sanitárias inadequa-
das e sobre a falta de bancos. Em Moscovo, as
Uma pessoa sai da cama às quatro da manhã pessoas queixam-se da falta de protecção contra
em vez de se levantar às seis, porque há de- as intempéries, enquanto que em Udaipur é real-
masiado barulho na rua. çada a dificuldade em aceder aos parques. Outro
Idoso, Istambul motivo de preocupação prende-se com os peri-
gos que advêm do uso partilhado dos parques.

12
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

positiva. Contudo, existe alguma preocupação


Para um idoso, ir para um parque que possa pelo facto de pessoas ou grupos intimidató-
ser uma zona de partilha de actividades, com rios ou com comportamento anti-social
bicicletas, pranchas de skate ou patins, ou até invadirem as zonas públicas em que existem
com grandes animais de quatro patas, pode bancos. Em Tuymazy, por exemplo, foi
ser um factor limitativo. solicitada a retirada dos bancos públicos,
Prestador de serviços, Melbourne precisamente por esta razão.

As sugestões para resolução destes problemas 4. Passeios amigos das pessoas idosas
são diferentes. Em Halifax, os prestadores de
As condições em que se encontram os passeios
cuidados consideram haver necessidade de
têm um impacto óbvio sobre a possibilidade
espaços verdes pequenos, mais tranquilos e de
de as pessoas andarem na sua zona de residên-
acesso restrito, nas zonas menos centrais da
cia. Passeios estreitos, desnivelados, rachados,
cidade, em vez de enormes parques cheios de
com bermas altas, congestionados ou com
movimento, frequentados por crianças e por
obstáculos representam perigos potenciais e
utilizadores de pranchas de skate. Em Amã, os
afectam a capacidade dos idosos para se movi-
idosos recomendam a existência de jardins es-
mentarem.
peciais para o seu grupo etário, enquanto que
em Nova Deli os idosos sugerem a existência
de zonas reservadas a idosos, nos parques. Caí por causa do passeio. Parti o ombro.
Em vários locais é chamada a atenção para
Idoso, Dundalk
a necessidade de uma melhor manutenção
dos parques.
O estado inadequado dos passeios é referi-
3. Um local para descansar do como um problema quase universal. Em
muitas cidades, como na Cidade do México,
A existência de áreas em que as pessoas pos- no Rio de Janeiro e em cidades na Jamaica, os
sam sentar-se é geralmente considerada pelos peões são obrigados a partilhar os passeios
idosos uma característica urbana necessária: com os vendedores de rua. Noutras cidades,
para muitos idosos, é dif ícil andar nas zonas como La Plata, Moscovo, Ponce e na região
onde vivem se não houver locais em que pos- metropolitana do Ruhr, os automóveis esta-
sam descansar. cionados no passeio obrigam os peões a andar
na estrada. As condições climatéricas podem
Há poucos locais em que possamos sentar- aumentar as dificuldades sentidas pelos idosos
‑nos…; quando ficamos cansados, precisamos na utilização dos passeios. Em Sherbrooke,
de nos sentar. por exemplo, foi manifestada preocupação
pelo facto de a neve não ser removida dos
Idoso, Melville passeios e, em Portage la Prairie, o risco de
quedas é considerado superior após a queda
Os idosos e os prestadores de cuidados em de neve.
Xangai apreciam as relaxantes zonas de
descanso da sua cidade. Em Melbourne, a As melhorias que algumas cidades efectuam
remodelação de zonas ao ar livre em que as no traçado e na manutenção dos passeios são
pessoas possam sentar-se é vista de forma bem acolhidas. As seguintes características

13
para que os passeios sejam amigos das pessoas truídas pontes e túneis para ajudar os peões
idosas são frequentemente sugeridas: a atravessar a estrada.

• uma superf ície lisa, nivelada e antiderra- Num número razoável de cidades, foi referido
pante; que os semáforos das passadeiras para peões
mudam demasiado depressa. Em Melville,
• largura suficiente para a circulação de ca- sugeriu-se que os semáforos das passadeiras
deiras de rodas; tenham um “contador” visual que permita aos
peões saberem de quanto tempo dispõem para
• passeios rebaixados, inclinados até ficarem atravessar a estrada. Os sinais sonoros são
ao nível da rodovia; muito apreciados em Istambul e, em Portland
e Udine, recomenda-se a utilização tanto de
• remoção de obstáculos tais como vende- sinais sonoros como de sinais visuais, nas pas-
dores de rua, automóveis estacionados e sadeiras para peões.
árvores; e

• prioridade de acesso a peões. Os semáforos nas passadeiras foram feitos


para atletas olímpicos.
Idoso, Halifax
Eu não vivo na baixa, vivo em La Loma, mas
nós temos o mesmo problema com os pas-
seios e coisas do género. É-me difícil andar, Outra preocupação comum prende-se com
uso bengala, e passo o tempo a olhar para o o facto de os condutores não respeitarem os
chão, como um amigo meu costumava dizer. sinais de trânsito e não darem prioridade
Quando ando na baixa e peço ajuda para aos peões.
atravessar a rua 7, vejo sempre se consigo
encontrar uma pessoa jovem e as pessoas
vêm ter comigo, por isso não posso queixar- … existem passadeiras, mas os condutores
‑me da ajuda das pessoas. não respeitam os peões. Vêem que estamos
na passadeira e vêm mesmo para cima de nós.
Idoso, La Plata
Quem não tem o coração forte, cai.
Idoso, Jamaica
5. Passadeiras para peões seguras
A possibilidade de atravessar a rua em Na maioria das cidades, considera-se que o
segurança é uma preocupação frequentemen- volume e a velocidade do tráfego rodoviá-
te mencionada, sendo de registar que várias rio representam obstáculos para as pessoas
cidades tomaram medidas no sentido de idosas, tanto para peões como para conduto-
melhorarem as condições para que as res. Em Udaipur, existe informação de que o
pessoas atravessem a estrada: semáforos trânsito é caótico e que os idosos têm receio
nas passadeiras para peões em Cancún; de sair à rua por causa do tráfego intenso,
zonas sem trânsito automóvel em La Plata; razão pela qual alguns não saem sem ser
passadeiras para peões em Mayaguez e acompanhados. (As dificuldades com que se
passadeiras para peões com faixas antiderra- deparam os condutores idosos são abordadas
pantes, em Portland. Em Amã, foram cons- na parte 7.)

14
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

6. Acessibilidade
Não saímos à noite. Eu não vou a lado
Tanto em países desenvolvidos como em nenhum… podem matar-nos.
países em desenvolvimento, as pessoas consi- Idoso, Tuymazy
deram que a sua cidade não foi concebida
para idosos.
Reconhece-se que algumas cidades tomaram
medidas com a finalidade de melhorarem a
Só vou à cidade quando tenho alguma coisa segurança. Por exemplo, é mencionado o facto
específica para fazer. Vou, faço o que tenho a de Genebra e Sherbrooke terem instalado
fazer e volto directamente para casa. Porque é câmaras de vigilância.
que havia de querer andar pela cidade?
Não sou um jovem. Em La Plata, foi feita uma sugestão para
Idoso, Nairobi melhorar a segurança, que consiste no envol-
vimento da comunidade através, por exemplo,
da organização de grupos de idosos para uma
Em muitas cidades, são mencionadas as maior segurança no exterior, ou da existência
barreiras ao acesso f ísico, que podem desen- de mais policiamento. Em Dundalk, foi sugeri-
corajar os idosos de saírem de casa. No Rio de da a atribuição de um subsídio do Estado que
Janeiro, as pessoas salientam que as escadas permitisse aos idosos melhorar a sua seguran-
de cimento de acesso às favelas são de dif ícil ça pessoal.
utilização pelos idosos. Em Sherbrooke, a au-
sência de rampas em algumas zonas constitui Os terramotos são frequentes na Turquia e
um problema. A recomendação comum face a as pessoas idosas em Istambul preocupam-se
estas preocupações consiste na sensibilização, com o facto de a cidade não ter sido concebida
em especial dos urbanistas e arquitectos, para para minimizar o risco de danos decorrentes
as necessidades das pessoas idosas. desse tipo de incidentes.

7. Um ambiente seguro
Devíamos ter um espaço vazio em que nos
O facto de se sentirem seguras no ambiente sentíssemos seguros em caso de terramoto,
em que vivem afecta bastante a vontade que as mas não nos dão um espaço assim, dizem-nos
pessoas têm de se movimentarem na comuni- para usarmos as ruas.
dade local, o que por sua vez afecta a sua inde- Idoso, Istambul
pendência, a saúde f ísica, a integração social
e o bem-estar emocional. Muitas cidades são
consideradas geralmente seguras, mas outras
8. Vias pedonais e ciclovias
evidentemente não o são. Independentemente
do verdadeiro grau de perigo, são manifestadas As vias pedonais e as ciclovias são conside-
preocupações acerca da segurança em prati- radas como parte de um ambiente promotor
camente todas as cidades, incluindo questões da saúde e amigo das pessoas idosas, embora
como a iluminação pública, violência, crimi- também lhes estejam associados perigos.
nalidade, drogas e existência de pessoas sem Em Genebra, algumas pessoas consideram os
abrigo em locais públicos. Sair à noite é um ciclistas um perigo para os idosos. Em Udine,
motivo especial de receio para muitos idosos. foi sugerida a existência de duas vias – uma

15
para ciclistas e outra para peões. Os idosos • sinalização adequada
em Cancún, Portland e Saanich dão valor aos
trilhos pedonais existentes nas suas cidades. • casas de banho públicas com acesso para
A necessidade de assegurar que as vias pedo- pessoas com deficiência.
nais tenham uma superf ície lisa é destacada
pelos prestadores de cuidados em Halifax, e Contudo, os obstáculos à utilização de eleva-
a necessidade de assegurar que são de fácil dores por parte dos idosos são mencionados
acesso, com suficientes pontos de acesso para em duas cidades. Em Nairobi, os idosos têm
cadeiras de rodas, é mencionada por idosos e receio de utilizar elevadores e precisam de ser
prestadores de cuidados em Portage la Prairie. acompanhados, enquanto que em Trípoli os
Os idosos em Udine recomendam a criação idosos mostram relutância em utilizar eleva-
de um sistema de vias pedonais para poderem dores por ser comum haver falhas de electrici-
movimentar-se na sua zona e em Halifax é dade e eles terem medo de ficar fechados.
solicitada a construção de vias pedonais nos
estacionamentos, para garantir a segurança Se, por um lado, é amplamente reconhecida a
dos peões. A construção de casas de banho importância da existência de edif ícios de fácil
públicas perto de vias pedonais foi outra acesso, é igualmente assinalado que muitos
ideia avançada em Saanich. edif ícios, especialmente quando se trata de
edif ícios mais antigos, não são de fácil acesso.
9. Edif ícios amigos das pessoas idosas Em alguns casos, não é possível tornar edi-
f ícios antigos mais acessíveis. A maioria das
Em muitas cidades, incluindo Himeji, Maya- cidades reconhece a necessidade de melhorar a
guez, Melbourne e Nova Deli, é feita referência acessibilidade dos seus edif ícios, especialmen-
ao facto de os novos edif ícios serem ou não te para facilitar o acesso a cadeiras de rodas.
acessíveis e à necessidade de serem feitas me-
lhorias para tornar os edif ícios mais acessíveis. São também mencionados alguns aspectos
Em termos gerais, as características conside- positivos e negativos de grandes superf í-
radas necessárias para que os edif ícios sejam cies comerciais. Em Dundalk e em Melville,
amigos das pessoas idosas são as seguintes: alguns centros comerciais disponibilizam ca-
deiras de rodas aos seus clientes e têm acessos
• elevadores adequados. Em Melbourne, a necessidade de
percorrer grandes distâncias é considerada
• escadas rolantes como um obstáculo à utilização das grandes
superf ícies comerciais. Em Istambul,
• rampas os centros comerciais têm escadas rolantes,
mas as pessoas idosas acham que são dif íceis
• portas e passagens largas de utilizar.

• escadas adequadas (não demasiado altas Considera-se que os edif ícios, incluindo as lo-
nem íngremes), com corrimãos jas, deveriam localizar-se perto dos locais onde
vivem pessoas idosas, de modo a garantir-lhes
• pavimentos antiderrapantes acesso fácil a estes serviços e instalações. Em
Tuymazy, os idosos gostam de viver perto de
• zonas de descanso com bancos confortáveis lojas e mercados. A aglomeração de estabele-

16
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

cimentos comerciais em Sherbrooke permite idosos. Estes recebem tratamento diferenciado


que os idosos realizem as suas transacções em Cancún e, na Jamaica, alguns estabeleci-
dentro na zona da sua residência. mentos comerciais colocam cadeiras de rodas
à disposição dos seus clientes mais velhos. Na
10. Casas de banho públicas Cidade do México, a lei obriga a que os idosos
tenham atendimento prioritário. Em Portland,
adequadas
um grupo de voluntários desenvolveu um guia
A existência de casas de banho limpas, con- de estabelecimentos comerciais e um sistema
venientemente localizadas, bem sinalizadas e de auditoria “amigos da terceira idade”.
acessíveis a pessoas portadoras de deficiência
é normalmente considerada uma importante Um dos obstáculos identificados numa série de
característica das cidades amigas das pessoas cidades prende-se com as longas filas ou com
idosas. Em Islamabad, as casas de banho os longos tempos de espera que os idosos têm
públicas recentemente construídas, cujo nú- de enfrentar para serem atendidos. Foram su-
mero tem tendência para aumentar, são geridas providências especiais de atendimento
muito apreciadas. a pessoas idosas, tais como filas ou balcões de
atendimento separados. Em Islamabad, os ido-
Em relação às casas de banho públicas, é sos sugerem que seja dada prioridade nas filas
identificada uma série de obstáculos. Em às mulheres idosas. Em Sherbrooke, foi sugeri-
Halifax, foi registado que as portas das casas da a instalação de bancos em estabelecimentos
de banho são pesadas. Em Himeji, as casas de tais como os estabelecimentos bancários, onde
banho públicas são pequenas e nem todas têm as pessoas têm de esperar.
sanitas. Em La Plata, os prestadores de cuida-
dos salientam que não existem casas de banho Outro obstáculo identificado em algumas
acessíveis a pessoas portadoras de deficiência. cidades, incluindo Londres e Tóquio, prende-
‑se com o desaparecimento da mercearia ou
11. Clientes idosos da loja de conveniência local. Devido ao seu
encerramento, os idosos perdem uma po-
Um bom serviço de atendimento a clientes, tencial fonte de contacto social e têm de se
sensível às necessidades das pessoas idosas, deslocar para mais longe, a fim de fazerem as
é considerado uma característica amiga dos suas compras.

17
Lista de verificação de espaços exteriores e
edif ícios amigos das pessoas idosas
Ambiente Rodovias
• A cidade é limpa, existem e são cumpridas • As rodovias têm passadeiras para peões
leis que limitam os níveis de ruído e os adequadas, antiderrapantes, colocadas a
cheiros desagradáveis ou prejudiciais, em intervalos regulares, de modo a garantir a
espaços públicos. segurança dos peões na travessia da rua.

Espaços verdes e vias pedonais • As rodovias têm estruturas f ísicas bem


concebidas e adequadamente situadas,
• Existem espaços verdes bem cuidados e tais como zonas sem trânsito automóvel,
seguros, com abrigo adequado, instalações pontes ou passagens subterrâneas, que aju-
sanitárias e bancos de fácil acesso. dem os peões a atravessar rodovias
movimentadas.
• As vias pedonais amigas dos peões não têm
obstáculos, têm uma superf ície lisa, casas • Os semáforos das passadeiras para peões
de banho públicas e são de fácil acesso. dão tempo suficiente para que os idosos
atravessem a rodovia e dispõem de sinais
Bancos no exterior visuais e sonoros.

• Existem bancos no exterior, em especial em


Tráfego
parques, paragens de meios de transporte e
em espaços públicos, colocados a intervalos • Verifica-se um cumprimento rigoroso das
regulares; os bancos estão bem cuidados e regras de trânsito e os condutores dão prio-
existe policiamento para garantir que todos ridade aos peões.
lhes podem ter acesso em segurança.
Ciclovias
Passeios
• Existem ciclovias separadas para ciclistas.
• Os passeios são bem cuidados, lisos, anti-
derrapantes e suficientemente largos para
Segurança
permitirem a circulação de cadeiras de
rodas, com passeios rebaixados até ao nível • A segurança pública em todos os espaços
da rodovia. abertos e edif ícios é uma prioridade e é pro-
movida, por exemplo, através de medidas
• Os passeios estão livres de obstáculos (por para reduzir o risco de catástrofes naturais,
exemplo, vendedores de rua, automóveis esta- boa iluminação pública, policiamento,
cionados, árvores, excrementos de cão, neve) cumprimento das leis e apoio a iniciativas
e é dada prioridade de utilização aos peões. individuais e da comunidade.

18
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

Serviços – sinalização adequada

• Os serviços encontram-se aglomerados, – corrimãos nas escadas


localizados na proximidade de locais onde
vivem idosos e podem ser facilmente acedi- – escadas não demasiado altas nem
dos (por exemplo, situam-se no rés-do-chão íngremes
de edif ícios).
– pavimentos antiderrapantes
• São providenciados serviços de atendi-
mento ao cliente especiais para idosos, tais – zonas de descanso com assentos
como filas separadas ou balcões de atendi- confortáveis.
mento a idosos.
– casas de banho públicas em número
suficiente.
Edif ícios
• Os edif ícios são acessíveis e têm as Casas de banho públicas
seguintes características:
• As casas de banho públicas são limpas, bem
– elevadores cuidadas, facilmente acessíveis a pessoas
com diferentes incapacidades, bem sinaliza-
– rampas das e têm localizações convenientes.

19
Parte 6. Transportes

Análise dos resultados comunitários (voluntários), serviços específi-


cos para pessoas portadoras de deficiência
Os transportes, incluindo os transportes ou para pessoas idosas frágeis, táxis e moto-
públicos acessíveis e baratos, são um factor ristas pessoais. Contudo, independentemente
fundamental que influencia o envelheci- do nível de desenvolvimento das cidades fo-
mento activo. Este é um tema transversal a ram detectadas deficiências que precisam de
muitas outras áreas de debate. Mais concre- ser resolvidas para que a comunidade se torne
tamente, a capacidade de movimentação na mais amiga das pessoas idosas.
cidade determina a participação social
e cívica e o acesso aos serviços comunitá-
rios e de saúde.
2. Acessibilidade económica
O preço é considerado um factor significati-
As pessoas consultadas no âmbito do pro- vo, em termos da utilização dos transportes
jecto da OMS têm, por conseguinte, muito públicos por parte dos idosos. Em algumas
para dizer acerca deste assunto, abrangendo cidades, é referida a existência de transportes
todos os aspectos relativos a infra-estruturas, públicos grátis ou com tarifa reduzida para
equipamentos e serviços de todos os meios de pessoas idosas. Em Genebra, os acompanhan-
transporte urbanos. tes de pessoas idosas têm direito a transporte
gratuito e em Dundalk as pessoas com mais
As vidas de muitas pessoas idosas são condi- de 75 anos têm direito a um passe especial
cionadas pelo sistema de transportes de que (Companion Pass). Em algumas cidades,
dispõem. contudo, o preço dos transportes é considera-
do demasiado elevado. Em Nairobi, os idosos
Prestador de serviços, Dundalk
queixam-se dos aumentos arbitrários dos pre-
ços cobrados em virtude do mau tempo, dos
feriados e dos períodos com maior afluência
1. Disponibilidade
de passageiros. São referidas dificuldades na
Os transportes públicos são considerados dis- obtenção de bilhetes reduzidos ou grátis. Em
poníveis em quase todas as cidades, embora Himeji, é referido que a idade a partir da qual
não em todas as áreas. Nas cidades dos países as pessoas têm direito a um passe gratuito é
desenvolvidos e nos países com uma econo- demasiado elevada, enquanto que em Nova
mia de transição (como, por exemplo, a Fede- Deli o processo de candidatura a tarifa redu-
ração Russa), é mais provável que os cidadãos zida é considerado um incómodo. No Rio de
refiram que o sistema de transportes públicos Janeiro, não é concedido transporte gratuito
é bem desenvolvido ou satisfatório. Existe aos idosos que vivem nas favelas, visto que
uma gama variada de transportes públicos em os transportes públicos não servem aquelas
muitas cidades, incluindo autocarros (priva- zonas. Em Genebra, os bilhetes com tarifa
dos e públicos), comboios, eléctricos, rique- reduzida só podem ser obtidos se os idosos
xós (privados e públicos), autocarros especiais adquirirem um bilhete de comboio sazonal.
e mini-autocarros, serviços de transporte Em algumas cidades, as tarifas reduzidas não

20
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

podem ser utilizadas em serviços de transpor- noutras cidades com um nível de desenvol-
te privados, embora em Dundalk alguns servi- vimento semelhante. Este aspecto não foi
ços de autocarros privados aceitem passes de referenciado como uma característica amiga
transporte grátis. das pessoas idosas, em cidades em vias de
desenvolvimento. Em Amã, os autocarros não
Em algumas cidades, as pessoas sugerem têm horários fixos, o mesmo se passando em
que o transporte gratuito ou de tarifa redu- Islamabad com os veículos de serviço público.
zida seja fornecido ou passe a abranger Em La Plata, os autocarros não são fiáveis,
pessoas idosas. Na Cidade do México, é suge- em virtude de os percursos serem frequente-
rida a disponibilização de transporte gratuito mente alterados.
para que as pessoas possam participar em
eventos específicos. 4. Destinos de viagem
A possibilidade de utilização de transportes
3. Fiabilidade e frequência públicos depende bastante da capacidade
A existência de serviços de transportes que temos de chegar aos locais a que quere-
públicos frequentes e fiáveis é identificada mos ir. Num número razoável de cidades, os
como uma característica amiga das pessoas serviços de transporte público garantem uma
idosas. Algumas destas, em especial nos países boa cobertura de pelo menos algumas zonas,
desenvolvidos, referem que a frequência dos permitindo às pessoas chegar aos seus des-
serviços de transporte das suas cidades é boa. tinos de eleição. Mas noutras cidades, tanto
em países desenvolvidos como em desenvol-
No entanto, numa série de cidades com vários vimento, existem preocupações relativamente
níveis de desenvolvimento existe informação à adequação dos percursos dos transportes
de que os serviços de transporte público não públicos. As pessoas queixam-se de que várias
são suficientemente frequentes ou fiáveis. zonas da cidade não se encontram abrangidas,
Em Istambul, os idosos referem que as viagens ou de que é dif ícil atravessar toda a cidade, ou
em transportes públicos demoram demasiado da existência de ligações insuficientes entre
tempo e que estes não são frequentes. autocarros e outros meios de transporte.
Em Melbourne, é mencionado que algumas Além disso, alguns destinos importantes para
zonas não têm serviço de autocarros entre pessoas idosas não são bem servidos. Por
sábado à tarde e segunda-feira de manhã. exemplo, em Dundalk os autocarros não vão
Na região metropolitana do Ruhr, os idosos até um dos lares de terceira idade, e em
consideram que os transportes públicos para Mayaguez o transporte para os centros de ter-
as zonas limítrofes da cidade e à noite não são ceira idade é limitado. Em Tuymazy, o acesso
suficientemente frequentes. Em algumas cida- por transporte público aos jardins públicos é
des, foi sugerido que os transportes públicos considerado insuficiente.
fossem mais frequentes, em especial à noite e
aos fins-de-semana. O problema com os transportes públicos é que
existem grandes falhas… se queremos ir até à
Em algumas cidades, tais como Genebra, baixa, não há problema, mas se queremos ir
Londres, Moscovo e Tóquio, as pessoas refe- ao outro lado da cidade, é uma luta.
rem que os serviços de transporte público são
Idoso, Portland
fiáveis, mas a situação nem sempre é a mesma

21
5. Veículos amigos das pessoas idosas em países desenvolvidos, mas noutras exis-
tem à disposição poucas opções deste género.
Entrar e sair de veículos constitui outra das Recomenda-se a disponibilização de serviços
principais questões levantadas. Uma série a pessoas com incapacidades. Por exemplo,
de cidades é referenciada como tendo alguns no Rio de Janeiro os prestadores de cuidados
veículos de transporte público modificados de referem que os táxis são os únicos meios de
modo a permitirem um acesso mais fácil por transporte para pessoas idosas portadoras de
parte das pessoas idosas: em Xangai, existem deficiência, mas as cadeiras de rodas não ca-
lugares modificados; em Saanich, existem bem na bagageira do veículo porque nesse sítio
alguns autocarros modificados, e em Udaipur, fica o depósito de combustível. Na Cidade do
terá início em breve um serviço público de México, os prestadores de cuidados sugerem a
autocarros com veículos de piso baixo. Em criação de autocarros adaptados especialmente
Genebra, alguns autocarros têm plataformas para pessoas portadoras de deficiência e para
elevatórias e piso baixo. os respectivos prestadores de cuidados.

É frequente a observação de que o modelo dos


7. Lugares prioritários e cortesia
veículos de transporte públicos representa um
dos passageiros
obstáculo às pessoas idosas. Em Udine, por
exemplo, os idosos dizem que é dif ícil utilizar Algumas cidades indicam que a existência de
os autocarros devido aos degraus altos e em lugares prioritários nos transportes públicos
Ponce os autocarros não estão adaptados para para os idosos é uma característica amiga das
acesso em cadeira de rodas. pessoas idosas e em certas cidades, por exem-
plo em Islamabad, os passageiros respeitam
Os habitantes de um pequeno número de os lugares prioritários para idosos. Contudo,
cidades também fazem referência a outras ca- esta cortesia não é comum e as pessoas idosas
racterísticas que desencorajam a utilização de em Moscovo, por exemplo, recomendam a
transportes públicos. Em Nova Deli, os idosos existência de acções de educação pública
salientam que os números dos percursos de sobre cortesia nos transportes públicos.
autocarro não estão claramente indicados
nos autocarros do serviço público. Os presta-
8. Motoristas de transportes
dores de serviços em Dundalk questionam
públicos
as condições de alguns autocarros e em La
Plata os idosos revelam preocupação relati- Em algumas cidades, os motoristas de trans-
vamente às condições em que se encontram portes públicos atenciosos são referidos como
alguns autocarros. uma característica amiga das pessoas idosas,
facilitando a utilização de transportes públi-
6. Serviços especializados cos. Em muitas outras, contudo, é revelada
para idosos preocupação acerca da falta de sensibilidade
dos motoristas, em especial dos motoristas de
Os idosos que têm dificuldade em utilizar os autocarros, relativamente aos idosos.
transportes públicos precisam de ter meios Uma das principais preocupações menciona-
de transporte especialmente adaptados. Estes das prende-se com o facto de os motoristas
são mencionados como uma característica não esperarem que os idosos se sentem antes
amiga das pessoas idosas em algumas cidades de retomarem a marcha.

22
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

Não constitui nenhuma surpresa que em


Consigo entrar no autocarro, mas assim que
algumas cidades seja sugerida formação para
arranca, o autocarro abana e eu estatelo-me
os motoristas, com a finalidade de os tornar
no chão.
mais sensíveis às necessidades dos idosos.
Idoso, Saanich O programa de formação de motoristas im-
plementado em Sherbrooke é visto como uma
mais-valia para passageiros idosos.
No Rio de Janeiro, é mencionado que muitas
pessoas da classe média preferem apanhar um
Num pequeno número de cidades, foi suge-
táxi ou o metro a viajar de autocarro, porque
rido que outros funcionários do sector dos
têm receio de cair num autocarro.
transportes, como por exemplo os funcioná-
rios que prestam atendimento aos balcões,
Um problema específico identificado em deveriam receber formação sobre as neces-
cidades em desenvolvimento como Amã é a sidades dos idosos e acerca da forma como
relutância dos motoristas em recolher idosos. estas necessidades afectam a sua utilização
Em Deli e em Genebra, os idosos salientam dos transportes públicos.
as dificuldades causadas pelo facto de os
motoristas de autocarro não pararem suficien-
temente perto do passeio para que os idosos
9. Segurança e conforto
entrem e saiam do autocarro em seguran- O facto de as pessoas se sentirem seguras
ça. Em Dundalk, as pessoas referem que os quando utilizam os transportes públicos tem
motoristas de autocarro param em locais não um efeito significativo sobre a sua vontade de
assinalados, o que por vezes se torna perigoso, utilização destes serviços. Em algumas cida-
especialmente em curvas. Em Genebra e em des, é referido que os transportes públicos são
Ponce, alguns motoristas de autocarro são seguros. Em Cancún, foi indicado que existe
considerados indelicados. menos criminalidade nos serviços de trans-
porte público do que em outras cidades, e em
Outros obstáculos identificados incluem con- Melbourne e Moscovo os transportes públicos
dução pouco cuidadosa e incumprimento do são considerados seguros. No entanto, mes-
código da estrada. mo em locais em que as pessoas consideram
seguro utilizar os transportes públicos, por
exemplo em Londres, é sugerido que sejam
Conduzem como loucos… com música
tomadas medidas para melhorar ainda mais a
muito alta.
segurança. Nas muitas cidades em que existem
Idoso, Cidade do México reservas acerca da segurança nos transportes
públicos, os aspectos referidos são o roubo e o
comportamento anti-social.
Finalmente, um aspecto identificado numa
série de cidades de países em desenvolvi­
mento é a exploração efectuada por moto­ O problema principal consiste em entrar e
ristas. Em Nova Deli, por exemplo, alguns sair dos autocarros. Qual dos bolsos contro-
condutores de riquexós cobram tarifas lamos? Enquanto tomamos conta dos bolsos,
demasiado altas aos passageiros e em desaparece-nos a mala.
Nairobi os preços são alterados de forma Idosa, Istambul.
bastante arbitrária.

23
Em muitas cidades, os transportes públicos Em Xangai, as pessoas idosas e os prestadores
sobrelotados, em especial durante alturas em de cuidados reconhecem o valor dos ban-
que há maior afluência de passageiros (a “hora cos, do abrigo e da iluminação existente em
de ponta”), também representam problemas algumas paragens de transportes. Em Ponce,
de segurança para os idosos. Este aspecto é as paragens e os terminais de autocarros são
mais frequentemente identificado em cidades mantidos em boas condições. Em Portland,
de países em vias de desenvolvimento e em é vista com satisfação a existência de acesso
cidades da Rússia. Na Jamaica, por exemplo, os conveniente às paragens de autocarro.
empurrões são referenciados como um proble-
ma para os idosos, em paragens de autocarro A localização das paragens de autocarro re-
e aquando do embarque nos autocarros. Em presenta algumas dificuldades para as pessoas
Moscovo, é assinalado o facto de as multidões idosas. Existem problemas em Melbourne,
fazerem com que seja dif ícil respirar na esta- onde as paragens de autocarro são poucas e
ção de caminhos-de-ferro. a distância entre duas paragens é demasiado
grande. Em Melville, os idosos revelam preo-
Algumas cidades desenvolvidas como Dun- cupação pelo facto de terem de atravessar uma
dalk, Portland e Saanich também referem estrada principal de modo a poderem chegar
dificuldades relacionadas com transportes à paragem do autocarro. Em Saanich, alguns
públicos sobrelotados. idosos referem que as paragens de autocarros
ficam demasiado longe das suas casas.
Não se consegue respirar [no comboio de
Dublin]. Se uma pessoa caísse, ninguém o Em algumas cidades, existem problemas de
notaria – estamos entalados! segurança nas paragens de autocarros. Em
Moscovo, é referida a existência de carteiristas
Idoso, Dundalk
nas multidões junto às paragens de autocarros
e em Melbourne existem queixas de vandalis-
Em Nairobi, os idosos notam com satisfação mo nas paragens de autocarros. Em Melville,
que os problemas relacionados com a sobrelo- pensa-se que um programa de decoração das
tação melhoraram significativamente desde a paragens de autocarros por crianças terá con-
introdução de legislação, as Normas Michuki, tribuído para a redução do vandalismo.
destinada a garantir que a ocupação dos luga-
res sentados não seja ultrapassada. Em Tuyma- Em San José, a ausência de abrigos nas pa-
zy, foi sugerida a circulação de mais autocarros ragens de autocarros é encarada como uma
durante as horas de tráfego mais intenso, desvantagem, da mesma forma que o é a au-
enquanto que em Saanich se recomenda que as sência de bancos nas paragens de transportes
pessoas idosas sejam encorajadas a utilizar os em Xangai. Em Tóquio, no entanto, é referido
transportes públicos fora das horas de ponta. que a instalação de bancos nas paragens de
autocarro dificulta a passagem de pessoas
portadoras de deficiência, visto que as ruas são
10. Paragens e estações de
muito estreitas.
transportes
A concepção, localização e condições em que Em muitas cidades, as pessoas consideram
se encontram as paragens e estações de trans- que as estações de caminhos-de-ferro e os
portes são também elementos significativos. terminais de autocarros deveriam ser de

24
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

fácil acesso e deveriam ser projectados de 12. Transporte comunitário


modo a serem amigos das pessoas idosas,
com rampas, escadas rolantes, casas de banho A existência de serviços comunitários de
públicas e sinalização claramente visível. Em transporte (transporte gratuito disponibiliza-
Tóquio, os idosos e prestadores de cuidados do pelo sector associativo ou privado) é vista
apreciam o elevador que foi instalado na como um serviço amigo das pessoas idosas,
estação de metro. Na região metropolitana sendo mencionada com maior frequência por
do Ruhr, os idosos consideram um obstáculo pessoas em cidades desenvolvidas do que nas
a ausência de infra-estruturas que permitam cidades de países em desenvolvimento.
o transporte de bagagens e de cadeiras de Em Ponce, por exemplo, existe transporte gra-
rodas até às plataformas, na principal estação tuito, disponibilizado por centros de terceira
de caminhos-de-ferro. Em Nova Deli, os idosos idade para que os idosos possam ir a consultas
salientam que a estação de metro não fica per- médicas e em Portage la Prairie os motoristas
to do local em que vivem e que a sinalização voluntários da comunidade e o transporte
nas estações não é adequada. disponibilizado pelas mercearias são serviços
apreciados. Em Londres, foi sugerida a criação
de um serviço de transporte comunitário com
11. Táxis autocarros completamente acessíveis e moto-
O serviço de táxis é encarado como uma opção ristas com formação para lidar com idosos.
de transporte amiga das pessoas idosas, numa
série de cidades. Em Cancún, o preço dos 13. Informação
táxis é considerado acessível. Em Dundalk, os
idosos apreciam as tarifas reduzidas disponi- Em algumas cidades, é referida a necessida-
bilizadas pelo serviço de táxis. Em Melville, os de de dispor de informações sobre as opções
prestadores de cuidados apreciam o regime de de transporte, sobre o modo de utilização
subsídios do governo para a utilização de táxis. dos serviços de transporte e os horários. Em
Em Halifax, as pessoas dizem que alguns ta- Portland, por exemplo, existem programas que
xistas são muito prestáveis para com os idosos ensinam os idosos a utilizar os transportes pú-
e em Trípoli as pessoas referem que os táxis blicos. Em Melville, foi sugerido oferecer aos
prestam um serviço bom e conveniente. idosos que já não podem conduzir um curso
sobre a utilização dos transportes públicos. Em
Em outras cidades, são identificados obstá­ Himeji, foi sugerido que os horários indiquem
culos à utilização de táxis. O preço constitui se o autocarro é acessível a pessoas portadoras
um obstáculo e a ausência de acesso para de deficiência. Em Tóquio, os idosos identi-
pessoas portadoras de deficiência é outro. ficaram a necessidade de os horários serem
Em Portage la Prairie, os prestadores de impressos em letras maiores e colocados em
cuidados preocupam-se com o facto de os local conveniente.
taxistas não transportarem passageiros em
cadeiras de rodas. Em Halifax, o próprio mo- 14. Condições de condução
delo do táxi é um problema, visto não existir
espaço para transportar um andarilho. Em A condução do seu próprio automóvel é uma
Tuymazy, foi sugerido que os táxis deveriam opção para os idosos, discutida em alguns
ter bagageiras maiores, para poderem trans- locais. Por exemplo, constata-se que Melville
portar cadeiras de rodas. é uma cidade concebida para automóveis e em

25
Himeji os automóveis são considerados uma código da estrada. Em Sherbrooke, os outros
necessidade para quem vive nos subúrbios. condutores são apontados como sendo fre-
Em Ponce, os automóveis são considerados quentemente agressivos.
necessários devido às limitadas opções de
transporte disponíveis. 15. Cortesia para com os condutores
idosos
Em algumas cidades, as pessoas referem que
é fácil conduzir na cidade, uma característica Para além dos obstáculos acima identificados,
com maior probabilidade de ser menciona- o desrespeito para com os condutores idosos é
da em países desenvolvidos. Em Portage la suficiente para desencorajar muitos deles.
Prairie, o tráfego é considerado pouco inten-
so e a condução fácil. Em Saanich, os idosos Não gosto de conduzir. As pessoas praguejam
apreciam os avisos prévios sobre a existência e fazem-nos sinais, se conduzimos devagar.
de um cruzamento. Em Tóquio, os idosos São indelicadas.
referem que as marcas nas rodovias e a sinali-
zação de trânsito são fáceis de ver. Em Trípoli, Idoso, Trípoli
as pessoas acham que as ruas estão bem
marcadas e em Xangai a gestão de tráfego é Em La Plata, é referido que os condutores
considerada boa. idosos são alvo de ofensas, por conduzirem
demasiado devagar. Em Cancún, os idosos
Em muitas mais cidades, em países em todas sentem-se inseguros quando conduzem por
as fases de desenvolvimento, as pessoas fazem causa dos seus problemas de visão e devido ao
referência à existência de obstáculos à condu- tráfego agressivo. Em Tuymazy, os prestadores
ção na cidade. Estes obstáculos incluem o de serviços afirmam que os idosos não se sen-
tráfego intenso, as más condições das rodo- tem confiantes para conduzir nas estradas.
vias, dispositivos de moderação do tráfego
ineficazes, iluminação pública deficiente, Em algumas cidades, tais como Portage la
sinalização inadequada por estar oculta ou Prairie, onde a condução constitui uma opção
mal situada e o incumprimento do código de transporte fundamental, existem preocupa-
da estrada. No Rio de Janeiro, por exemplo, ções acerca das dificuldades com que os ido-
o tráfego intenso é considerado um obstáculo. sos se deparam quando deixam de utilizar as
Em Cancún, os idosos queixam-se de que suas cartas de condução. Para garantir que os
as rodovias têm buracos e estão geralmente idosos são condutores confiantes, é recomen-
em más condições. Em Melville, foi manifes- dada a criação de cursos de reciclagem em
tada preocupação relativamente a dispositi- algumas cidades como Genebra e Portland.
vos de moderação do tráfego ineficazes, tais As lições especiais ministradas a idosos em
como rotundas, que ou são demasiado pe­ Himeji, quando estes têm de renovar a carta
quenas ou se situam em locais inadequados. de condução, é vista como uma vantagem
Em Mayaguez, os idosos referem que as ruas amiga das pessoas idosas.
não estão bem iluminadas. Em Halifax, a
sinalização das ruas é considerada demasia-
16. Estacionamento
do pequena, demasiado alta e por vezes está
oculta. Em Udine, os idosos fazem referência Os lugares de estacionamento prioritário
ao facto de os condutores não respeitarem o destinados a idosos e a pessoas portadoras de

26
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

deficiência, na proximidade de edif ícios, jun- enquanto que em Portage la Prairie é salienta-
tamente com os lugares de largada e recolha do que os lugares de estacionamento não são
de passageiros, foram considerados elementos suficientemente largos para a movimentação
amigos das pessoas idosas. Em Amã, os idosos de cadeiras de rodas. Em Saanich, a ausência
apreciam os lugares de estacionamento para de lugares de estacionamento para pessoas
pessoas com deficiência disponibilizados pe- portadoras de deficiência é considerada um
los estabelecimentos comerciais. Em Dundalk, problema. Em Melbourne, é manifestada preo-
é apreciada a existência de estacionamento cupação relativamente à impossibilidade de
gratuito. Em Portage la Prairie, a existência de encontrar estacionamento perto dos edif ícios.
parques de estacionamento de grandes dimen- Uma outra preocupação manifestada prende-
sões é considerada um aspecto positivo para ‑se com a falta de respeito pelos lugares de
os condutores e amigo das pessoas idosas. estacionamento prioritários para pessoas
portadoras de deficiência.
Em muitas cidades, no entanto, a existência
de estacionamento inadequado e caro é iden-
tificada como um obstáculo para as pessoas Constroem lugares de estacionamento para
idosas. São também mencionados outros pro- pessoas portadoras de deficiência que são
blemas. Em Mayaguez, é referida a inexistên- completamente ignorados.
cia de suficientes pontos de largada e recolha
Idoso, Londres
de pessoas idosas portadoras de deficiência,

27
Lista de verificação de transportes amigos
das pessoas idosas
Acessibilidade económica Serviços especializados
• Os transportes públicos têm um preço • Existem serviços de transporte especia­
acessível a todas as pessoas idosas. lizados para pessoas portadoras de defi­
ciência.
• Os preços dos transportes cobrados são
coerentes e estão bem visíveis. Lugares prioritários

Fiabilidade e frequência • Existem lugares prioritários para idosos e


são respeitados pelos outros passageiros.
• Os transportes públicos são fiáveis e fre-
quentes (incluindo serviços nocturnos e Motoristas dos meios de transporte
aos fins-de-semana).
• Os motoristas são amáveis, cumprem o
Destinos de viagem código da estrada, param nas paragens
estabelecidas, esperam que os passageiros
• Existem transportes públicos para que os se sentem antes de reiniciarem a marcha
idosos cheguem a destinos fundamentais e estacionam junto ao passeio para que
tais como hospitais, centros de saúde, par- seja mais fácil às pessoas idosas saírem
ques públicos, centros comerciais, bancos e do veículo.
centros de terceira idade.
Segurança e conforto
• Todas as áreas são bem servidas por trans-
portes adequados, com boas ligações, den- • Os transportes públicos são seguros
tro da cidade (incluindo as zonas limítrofes) contra a criminalidade e não estão sobre­
e entre cidades vizinhas. lotados.

• Os percursos têm boas ligações, efectuadas Paragens e estações de transportes


por várias opções de meios de transporte.
• As paragens de transportes estabelecidas
Veículos amigos das pessoas idosas ficam na proximidade dos locais onde
vivem pessoas idosas, têm bancos e ofere-
• Os veículos são acessíveis, com pisos que cem protecção contra as condições atmos-
podem ser rebaixados, degraus baixos e féricas, são limpos e seguros e têm uma
lugares amplos e altos. iluminação adequada.

• Os veículos são limpos e bem cuidados. • As estações são acessíveis, têm rampas,
escadas rolantes, elevadores, plataformas
• Os veículos dispõem de indicação clara acer- adequadas, casas de banho públicas e sinali-
ca do número e do local de destino do veículo. zação legível e bem localizada.

28
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

• As paragens e estações de transportes são de moderação do tráfego bem concebidos


de fácil acesso e têm uma localização con­ e bem situados, os cruzamentos estão bem
veniente. assinalados, os esgotos têm tampa e têm
sinalização claramente visível e colocada
• Os funcionários são atenciosos e prestáveis. em local adequado.

Informação • Há um controlo eficaz do fluxo de tráfego.

• Os idosos são informados sobre o modo • As rodovias estão livres de obstáculos


como devem utilizar os transportes públicos que possam impedir a visibilidade dos
e sobre as opções de transporte disponíveis. condutores.

• Os horários são legíveis e de fácil acesso.


• O código da estrada é rigorosamente cum-
prido e os condutores recebem formação
• Os horários indicam de forma clara quais
sobre o cumprimento das regras.
os percursos dos autocarros acessíveis a
pessoas portadoras de deficiência.
Competência dos condutores
Transporte comunitário • Existem cursos de reciclagem de conduto-
• Existem serviços de transporte comunitário, res e a sua frequência é incentivada.
incluindo motoristas voluntários e serviços
especiais de autocarros, para levar idosos a Estacionamento
eventos e locais específicos.
• Existe estacionamento a um preço acessível.

Táxis • Existem lugares de estacionamento prioritá-


• Os táxis têm um preço acessível, com des- rios para pessoas idosas, na proximidade de
contos ou tarifas reduzidas para idosos com edif ícios e de paragens de transportes.
baixos rendimentos.
• Existem lugares de estacionamento prioritá-
• Os táxis são confortáveis e acessíveis, com es- rios para pessoas portadoras de deficiência,
paço para cadeiras de rodas e/ou andarilhos. na proximidade de edif ícios e de paragens
de transportes, sendo a sua utilização su-
• Os taxistas são amáveis e prestáveis. pervisionada.

Rodovias • Existem lugares de largada e recolha de


passageiros portadores de deficiência ou
• As rodovias são bem cuidadas, largas e idosos, perto de edif ícios e de paragens de
bem iluminadas, dispõem de dispositivos transportes.

29
Parte 7. Habitação

Análise dos resultados mas pelo facto de serem pensionistas não


têm capacidade financeira para mudarem
A habitação é fundamental para a segurança de casa. Do mesmo modo, em Tuymazy,
e o bem-estar. Não constitui surpresa alguma verifica-se que o custo inerente à mudança
o facto de as pessoas inquiridas pela OMS, de casa é demasiado elevado e incomportá-
em todas as regiões, terem muito a dizer vel para os reformados. A habitação social,
acerca de diferentes aspectos da estrutura, do gratuita ou com rendas baixas, é vista em
projecto, da localização e da escolha da ha- algumas cidades como Londres como uma
bitação. A habitação adequada e o acesso aos verdadeira vantagem para as pessoas idosas.
serviços comunitários e sociais estão interli- Noutras cidades, como por exemplo em Isla-
gados, exercendo influência sobre a indepen- mabad, a ausência de habitação para pessoas
dência e a qualidade de vida dos idosos. É evi- com rendimentos baixos é vista como um
dente que a habitação e os serviços de apoio obstáculo. Em Portage la Prairie, é dado des-
que permitem aos idosos um envelhecimento taque à necessidade de acesso a informações
confortável e em segurança na comunidade a sobre habitação subsidiada.
que pertencem são aspectos universalmente
valorizados.
Tenho uma casa geminada, do município, e
não pago renda. Adoro a minha casa.
1. Acessibilidade económica
Idoso, Londres
Verifica-se nas cidades a existência de consen-
so relativamente ao facto de o custo da habita-
Em cidades de países em todos os níveis de
ção ser um factor fundamental, que influencia
desenvolvimento, recomenda-se que seja
o local em que os idosos vivem e também a sua
disponibilizada habitação a um preço aces-
qualidade de vida. Enquanto que em algumas
sível. As ideias propostas incluem a criação
cidades o custo da habitação, incluindo o valor
de um imposto mais baixo sobre a habitação
das rendas, é considerado acessível, noutras a
para idosos, em Amã, e a instauração de um
habitação é considerada cara, o que faz com
subsídio de habitação para habitação social e
que os idosos tenham mais dificuldade em
privada, em Himeji.
mudar-se para uma habitação mais adequada.

2. Serviços básicos
Tenho a minha pensão de reforma, mas como
posso viver com tão pouco dinheiro? A pensão Num reduzido número de cidades, os servi-
entra em minha casa e desaparece em poucos ços básicos são considerados inadequados ou
segundos. demasiado caros. Em Islamabad, as casas das
zonas de baixos rendimentos não dispõem de
Idoso, Istambul
abastecimento de electricidade, gás ou água.
Em Moscovo, os serviços prestados pelas
Por exemplo, em Genebra alguns idosos empresas de serviço público são considera-
vivem em casas demasiado grandes para eles, dos caros.

30
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

Em Dundalk e em Istambul, os idosos garantir que a habitação tenha uma estrutura


preocupam-se com os elevados custos do sólida. Em Istambul, a pobreza é apontada
aque­cimento e acham que o Estado deveria como a causa de habitações de má construção
ajudá-los a suportar esses custos. Na Jamaica, ou mal cuidadas, e em Nairobi a ausência de
os idosos com baixos rendimentos têm materiais de construção é uma fonte de preo-
dificuldade em pagar os elevados preços dos cupações. Em Islamabad, algumas habitações
serviços públicos e sugerem que esses custos não são à prova de terramotos.
sejam reduzidos.
São identificados como obstáculos diversos
aspectos estruturais. Uma disposição das
Quando me enviam uma conta da água de
divisões impeditiva da mobilidade é um dos
1000 dólares, não consigo pagar esse valor.
problemas identificados em Dundalk. Em La
Por isso não uso o chuveiro e por vezes não
Plata, as escadas e os pavimentos irregulares
tenho água.
são considerados obstáculos. Em Moscovo, foi
Idoso, Jamaica registada a necessidade de casas de banho es-
pecialmente concebidas para idosos. Em Nova
No Rio de Janeiro, os idosos reconhecem as Deli, considera-se que as cozinhas precisam de
melhorias realizadas nos serviços de abasteci- ser mais bem planeadas. Na Cidade do Méxi-
mento de água, saneamento básico e de elec- co, refere-se a necessidade de corrimãos e ele-
tricidade, e em Istambul os idosos apreciam o vadores em edif ícios com vários andares, e em
bom sistema de abastecimento de água. Tóquio destaca-se a necessidade de passagens
e portas que permitam a circulação de cadeiras
de rodas. Num reduzido número de cidades,
3. A concepção da casa as casas não estão devidamente equipadas
Vários aspectos do projecto de uma casa são para fazerem face às condições climatéricas.
considerados factores que determinam a pos- Mais concretamente, o ar condicionado é
sibilidade de os idosos viverem em casa com visto como uma necessidade em Cancún e
conforto. Em termos gerais, é importante para em algumas zonas de Melville, onde o modelo
os idosos viverem em casas construídas com dos telhados das casas novas as torna mais
materiais adequados e com: estruturas sólidas; quentes no interior.
superf ícies planas; elevador, caso se trate
de um edif ício com vários andares; casa de Em muitas cidades, são reconhecidas as medi-
banho e cozinha adequadas; espaço suficien- das introduzidas com a finalidade de melhorar
te para permitir a movimentação; suficiente os projectos das casas para que nelas possam
espaço de armazenamento; passagens e portas viver idosos. Na Cidade do México, por
suficientemente largas para permitir a circu- exemplo, 1% de todas as casas construídas
lação de uma cadeira de rodas; e equipada de têm de ser apropriadas para idosos. Em Halifax,
modo a oferecer protecção contra as condi- alguns condomínios são amigos dos mais
ções climatéricas. velhos e têm rampas de acesso, elevadores,
estacionamento, ginásio e portas largas.
Os problemas com a construção das casas são
referidos numa série de cidades. Na Cidade do Contudo, as pessoas sentem frequentemente
México, as pessoas identificam a necessida- que é preciso fazer mais para garantir que
de de construção supervisionada, de modo a as casas sejam apropriadas para idosos.

31
Em Himeji, é recomendada a construção de remodelações necessárias. Em Sherbrooke, é
mais habitações amigas das pessoas idosas, feita referência à necessidade de adaptação das
enquanto que em Melbourne é sugerida a cria- casas de acordo com necessidades específicas.
ção de incentivos que levem os arquitectos e
empreiteiros a construir habitações amigas dos Para além de identificar a necessidade de garan-
idosos. Em Nova Deli, as pessoas recomendam tir aos idosos a informação sobre as possíveis
que a legislação sobre construção contemple as opções de modificação das suas casas, é referido
características amigas dos idosos. Em Saanich, em muitas cidades que os idosos precisam de ter
os construtores incluem aspectos adaptados acesso ao equipamento necessário. Em Tuymazy,
ou adaptáveis nos seus projectos, tais como a os prestadores de cuidados identificam a neces-
instalação de interruptores da luz em posi- sidade de informação sobre os diversos tipos de
ções mais baixas, instalação de chuveiros em equipamento e sobre as adaptações possíveis,
vez de banheiras e de escadas que possam ser bem como sobre o equipamento fácil de obter.
modificadas de modo a nelas ser instalada uma Em Udaipur, são mencionadas dificuldades em
cadeira elevatória. obter corrimãos, rampas e casas de banho.

4. Modificações 5. Manutenção
A incapacidade de fazer a manutenção da sua
A possibilidade de modificar a própria casa ou
própria casa é para alguns idosos um obstáculo
apartamento também influencia a capacida-
importante. Em Cancún, os idosos dizem ser
de que os idosos têm de continuarem a viver
incapazes de efectuar reparações, devido aos
confortavelmente em casa. Em Dundalk, os
custos implicados. Em Melbourne, as pessoas
prestadores de cuidados apreciam as cadeiras
mais velhas revelam-se igualmente preocupa-
elevatórias que foram instaladas para ajudar
das com os custos de manutenção e sugerem
os idosos. Em Mayaguez, os apartamentos
que os municípios assegurem serviços de
para pessoas idosas portadoras de deficiência
manutenção de residências, em troca de um
dispõem das adaptações necessárias. Num
pagamento simbólico. No Rio de Janeiro, os
reduzido número de cidades, como Himeji e
custos elevados da manutenção do condomí-
Dundalk, é prestada ajuda financeira para a
nio são considerados um obstáculo, embora
realização de modificações em casas.
seja salientado o facto de ser possível subalu-
gar condomínios, com a finalidade de ajudar a
Foram identificadas várias dificuldades
suportar os custos de manutenção.
relacionadas com modificações realizadas
em casas. Em Halifax, a remodelação de uma
Em Dundalk, os idosos valorizam os subsídios
casa é considerada cara e dif ícil de fazer. Em
atribuídos para a realização de reparações
Himeji e em Nova Deli, são referidas as res-
em casa, mas queixam-se de dificuldades em
trições à remodelação de habitações sociais.
organizar os serviços dos trabalhadores que
Em Portland, qualquer alojamento alugado
efectuam as reparações.
que tenha sofrido remodelações tem de ser
restituído ao estado original. Em Melbourne,
é salientado que não é utilizado equipamento Foram-se embora a meio do trabalho e passa-
de assistência porque este não cabe nas casas e ram-se meses até voltarem para terminar.
muitos prestadores de cuidados são incapazes
Idoso, Dundalk
de suportar os custos financeiros inerentes às

32
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

Em Melville, os idosos manifestam preocupa- custo, é considerada uma desvantagem. Na


ção pelo facto de terem estranhos em casa para região metropolitana do Ruhr, os serviços de
a realização de trabalhos de manutenção, e foi limpeza e de jardinagem são dif íceis de encon-
sugerido que o município tivesse uma lista de trar e caros. Em Saanich, os idosos afirmam
serviços de reparação fiáveis e preparados para que não existem suficientes serviços de limpe-
lidar com idosos. Em Portland, os prestadores za e de jardinagem.
de cuidados gostam do sistema utilizado para
seleccionar empreiteiros e outros serviços de Viver perto de serviços e instalações também
reparações e manutenção. é visto como um factor amigo. Este aspecto
é mencionado com maior frequência por
Foram também identificados problemas pessoas em cidades de países desenvolvidos,
relacionados com a manutenção de habitação tais como Melville, Portage La Prairie e
social e de alojamento alugado. Em Londres, Tóquio. Em San José, os idosos gostam de
é manifestada preocupação pelo facto de as viver na proximidade de serviços públicos,
reparações não serem efectuadas na devida comerciais e religiosos. Numa série de cidades,
altura. Em Trípoli, os idosos referem que os tais como Nairobi, Udaipur e Udine, os idosos
senhorios negligenciam propositadamente a consideram um problema o facto de não vive-
manutenção para que os idosos abandonem as rem na proximidade desses serviços.
casas. Em Deli, existe informação de que áreas
comuns como as escadas estão frequentemen- No entanto, as pessoas idosas também se reve-
te desleixadas, sujas e escuras. lam preocupadas com a possibilidade de con-
tinuarem em casa e serem incapazes de cuidar
No entanto, os funcionários de residências convenientemente de si mesmas. Na Cidade do
colectivas, tais como porteiros e guardas, México, é destacada a necessidade de informar
desempenham por vezes um papel importante, os idosos sobre os riscos de viverem em casa e
na medida em que contribuem para o bem- em Saanich é sugerida a ideia de disponibilizar
‑estar. Em Genebra, os idosos mencionaram a informação sobre serviços domiciliários para
importância dos porteiros, por fomentarem o idosos, através da publicação de um guia de
contacto entre os residentes e por se ocuparem serviços de apoio domiciliário.
das reparações.
7. Ligações com a comunidade
6. Acesso a serviços e com a família
A prestação de serviços a idosos nas suas Um ambiente familiar, em que as pessoas se
próprias casas é especialmente importante. sintam parte da comunidade local, contribui
Em Udine, os idosos declaram que não para que uma cidade seja considerada amiga.
colocam a hipótese de mudarem de casa. Por esta razão, os idosos mostram relutância
Em Tuymazy, os prestadores de serviços em mudar de casa. Em Udine, os idosos refe-
referem igualmente que os idosos são muito rem sentir uma espécie de “segurança psico-
ligados às suas casas e não querem mudar-se. lógica” no seu ambiente. Em Trípoli, os idosos
Em Saanich, as pessoas preferem receber assis- salientam a importância dos seus vizinhos.
tência domiciliária a mudar de casa. Em Dundalk, os prestadores de serviços reco-
nhecem a necessidade de encontrar novas
Em algumas cidades, a dificuldade na obtenção casas perto dos locais em que os idosos vive-
de serviços em casa, incluindo o respectivo ram, de modo a permitir a manutenção das

33
ligações com a família e com a comunidade. Em e não tinham bons conhecimentos acerca das
Himeji, existe a preocupação de que os idosos opções de habitação existentes na sua zona.
venham a perder a sua ligação à comunidade
quando se mudam para um local diferente. Em algumas cidades, existem opções de
habitação específicas para a terceira idade.
As mudanças na cidade afectam estes senti- Em Melville, os complexos residenciais para a
mentos de familiaridade com a comunidade. terceira idade proporcionam um conjunto de
Em Tóquio, a ausência de contacto pessoal serviços, condições especiais e actividades.
com os vizinhos decorrente da construção de
arranha-céus é vista como um obstáculo à vi- Temos muitas actividades sociais, podemos
vência de situações amigas das pessoas idosas. estar sempre ocupados ou simplesmente fe-
Em Sherbrooke, os idosos manifestam preo- char a porta e não participar nas actividades,
cupação pelo facto de não existirem espaços a escolha é nossa.
para a interacção multigeracional. Em Genebra,
Idoso, Melville
a ausência de contacto com pessoas mais jo-
vens nos edif ícios de apartamentos é encarada
como uma desvantagem. Em Udaipur, os pres- Em muitas cidades, parece haver escassez de
tadores de cuidados manifestam preocupação habitação específica para idosos e os tem-
pelo facto de os apartamentos modernos, sem pos de espera podem ser longos, tal como
varandas na fachada, não deixarem espaço à é referido em Halifax e Himeji. A habitação
interacção com a comunidade. A importân- para a terceira idade também tem de ser
cia de projectos que promovam a interacção economicamente acessível, para que possa
com a comunidade é também mencionada em ser considerada amiga dos idosos. As pessoas
Dundalk, onde se refere que as casas deveriam mais velhas em Saanich manifestam preocupa-
estar viradas para instalações comunitárias, a ção com o custo da habitação para idosos.
fim de reduzir o sentimento de isolamento. Verifica-se também uma preferência clara em
algumas cidades pela integração da habitação
8. Opções de habitação para idosos na comunidade local. Em Melville,
é sugerida a criação de pequenos aglomera-
A existência de um conjunto de opções de ha- dos habitacionais para idosos, com pequenos
bitação no mesmo bairro a fim de correspon- jardins espalhados por toda a cidade, para que
der à evolução das necessidades, constitui um os idosos não fiquem separados da comunida-
importante aspecto amigo das pessoas idosas. de, em especial das crianças. Em Portland, foi
Em algumas cidades, existem várias opções de identificada a necessidade de habitação multi-
habitação. Em Melville, por exemplo, os idosos geracional. Na região metropolitana do Ruhr e
têm a hipótese de escolherem mudar-se para em Sherbrooke, foi manifestada preocupação
um alojamento mais pequeno, para habitação pelo facto de estarem a ser criados guetos de
específica para idosos ou para lares de terceira idosos em grandes complexos residenciais
idade. Em muitos locais, contudo, os idosos para a terceira idade.
destacam a necessidade de mais opções de ha-
bitação para idosos. Em Halifax, por exemplo,
9. Ambiente em que vivem os idosos
foi referido que alguns idosos estavam preo-
cupados com o facto de não poderem encontrar Para os idosos, é importante disporem de es-
alojamento na sua zona de residência habitual paço suficiente e de privacidade em casa.

34
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

Em algumas cidades de países em desenvol­ ficiam de vistorias de segurança gratuitas e


vimento e em Tuymazy, a sobrelotação é em Xangai existe policiamento local. Em
identificada como um obstáculo para os Himeji, alguns apartamentos dispõem de
idosos. Em Deli, por exemplo, como o tama- dispositivos de monitorização de chamadas
nho médio das famílias aumentou, as casas de emergência, com a finalidade de manter os
estão sobrelotadas e os idosos não dispõem de idosos em segurança.
espaço suficiente. Em San José, a sobrelota-
ção resulta dos elevados custos da habitação, Contudo, verifica-se uma necessidade eviden-
que obrigam os vários membros da família a te de fazer mais alguma coisa para garantir
viverem juntos. que os idosos se sintam seguros em casa. Em
Udaipur é recomendada a existência de maior
O sentimento de segurança em casa constitui informação sobre a segurança doméstica e em
outro tema importante. Em muitas cidades, os Saanich foi sugerida a instalação de alarmes de
idosos sentem-se inseguros e têm particular- emergência.
mente receio de viver sozinhos. Em algumas
cidades, foram tomadas medidas no sentido de Em algumas cidades, as casas dos idosos não
melhorar a segurança na casa das pessoas ido- ficam em locais seguros contra catástrofes
sas. Em Dundalk, por exemplo, são utilizadas naturais. Em La Plata, algumas casas situam-se
câmaras de vigilância em algumas residências; em zonas propícias a inundações e em Isla-
em Genebra, existe acesso seguro a edif ícios mabad os idosos manifestam-se preocupados
de apartamentos; em Saanich, os idosos bene- com a possibilidade de terramotos.

35
Lista de verificação de habitação amiga das
pessoas idosas
Acessibilidade económica • O equipamento necessário às modificações
da habitação encontra-se prontamente
• Existe habitação por um preço acessível disponível.
para todos os idosos. • É disponibilizada assistência financeira
para a realização de modificações
Serviços básicos em casa.

• São prestados serviços básicos acessíveis a • Existem bons conhecimentos acerca


todas as pessoas. de como modificar a habitação para
que seja dada resposta às necessidades
Projecto dos idosos.

• A habitação é construída com materiais


Manutenção
apropriados e tem uma boa estrutura.
• Os serviços de manutenção são economica-
• Existe espaço suficiente para permitir que mente acessíveis aos idosos.
os idosos se movimentem livremente.
• Existem prestadores de serviços qualifica-
• A habitação está devidamente equipada dos e fiáveis que podem realizar trabalhos
para oferecer protecção contra as de manutenção.
condições atmosféricas (por exemplo,
ar condicionado ou aquecimento • A habitação social, o alojamento
adequado). alugado e as zonas comuns estão bem
cuidados.
• A habitação está adaptada para idosos,
tem superf ícies planas, passagens suficien- Envelhecer em casa
temente largas para cadeiras de rodas e
casas de banho e cozinhas com uma dispo- • A habitação situa-se perto de serviços e
sição apropriada. infra-estruturas.

• Existem serviços com preços que permi-


Modificações
tem aos idosos ficar na sua própria casa e
• A habitação é modificada segundo as neces- “envelhecer em casa”.
sidades dos idosos.
• Os idosos estão bem informados sobre
• As modificações das casas têm custos eco- a existência dos serviços que podem ajudá-
nomicamente acessíveis. ‑los a envelhecer em casa.

36
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

Integração na comunidade adequadas nas instalações residenciais para


idosos.
• O projecto das habitações facilita a
integração continuada dos idosos na • A habitação para idosos encontra-se inte-
comunidade. grada na comunidade circundante.

Opções de habitação Ambiente em que vivem


• Existe um conjunto de opções de habitação
os idosos
apropriada e economicamente acessível a • A habitação não está sobrelotada.
idosos, incluindo idosos frágeis e portado-
res de deficiência, na respectiva área • Os idosos sentem-se confortáveis no am-
de residência. biente das suas casas.

• Os idosos encontram-se bem informados • A habitação não se situa em zonas propícias


sobre as opções de habitação disponíveis. a catástrofes naturais.

• Existe habitação específica para idosos em • Os idosos sentem-se seguros no ambiente


quantidade suficiente e por um preço aces- em que vivem.
sível, na zona de residência dos idosos.
• É disponibilizada assistência financeira
• Existe um conjunto de serviços apropria- para instalação de meios de segurança na
dos e de condições especiais e actividades habitação.

37
Parte 8. Participação social

Análise dos resultados sobre actividades e eventos. A possibilidade


de dispor de apoio que permita facilidade de
A participação e o apoio social estão intima- acesso revela-se um factor importante em to-
mente ligados à boa saúde e ao bem-estar ao dos os locais, especialmente em países em vias
longo da vida. A participação em actividades de desenvolvimento e em países com econo-
de lazer, sociais, culturais e espirituais reali- mias de transição.
zadas no âmbito da comunidade e da família
permitem aos idosos continuarem a exercer
as suas competências, a ser objecto de 1. Oportunidades acessíveis
respeito e estima e a manter ou estabelecer
Os idosos podem estar informados sobre a
relações de apoio e de afecto. Fomenta a
existência de eventos e actividades nas res-
integração social e é um factor fundamental
pectivas comunidades, mas segundo a expe-
para que os idosos se mantenham informados.
riência de muitos participantes no projecto,
Contudo, os idosos consultados pela OMS
estas actividades são inacessíveis. A segurança
indicaram de forma clara que a capacidade
pessoal, em especial à noite, é referida como
de participação na vida social, tanto formal
um obstáculo, quer em cidades desenvolvidas
como informal, depende não só da oferta de
quer em cidades de países em desenvolvi-
actividades mas também da existência de
mento, incluindo Halifax, La Plata, Londres e
acesso adequado a transportes e infra-estru­
Rio de Janeiro. Em muitas cidades, os locais
turas e da existência de informação sobre
de realização das actividades são demasiado
essas actividades.
distantes e o transporte é dif ícil. Outro pro-
blema comum consiste no acesso aos edif ícios,
Quando me encontro com os colegas do meu particularmente no que diz respeito a pessoas
grupo, sinto-me muito bem. com mobilidade reduzida, e à ausência de
instalações adequadas, como casas de banho,
Idoso, Cidade do México
lugares sentados adequados ou um ambiente
sem fumo. Outro dos obstáculos mencionados
Na maioria das cidades, os idosos referem é a admissão condicionada, como acontece por
que participam activamente nas respectivas exemplo com os requisitos de pertença a uma
comunidades, mas sentem que poderia haver determinada organização.
mais possibilidades de participação. Sugerem
a organização de mais actividades, mais varia-
das, perto dos locais onde vivem. Gostariam Eles [idosos portadores de deficiência] consi-
que houvesse actividades que fomentassem deram a adaptação difícil, pois não existem
a integração na comunidade, noutros gru- os devidos lugares para se sentarem, casas de
pos etários e noutras culturas. As principais banho, etc. Para a maioria, as actividades re-
preocupações neste sector prendem-se com a creativas consistem em falar ao telefone com
acessibilidade económica, com a facilidade de os familiares ou em visitas ocasionais.
acesso, em especial no que se refere às pessoas Prestador de cuidados, Nova Deli
portadoras de deficiência, e com a informação

38
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

Tanto os próprios idosos como as pessoas que 3. Variedade de oportunidades


interagem com eles reconhecem os esforços
efectuados em várias cidades, no sentido de A existência de uma variedade de oportuni-
serem criadas condições que lhes permitam dades que interessem a um leque alargado de
acesso a actividades. O município de Maya- pessoas idosas é um factor que encoraja uma
guez organiza uma variedade de actividades a maior participação. Muitas cidades têm à
horas adequadas a idosos e fornece transpor- disposição actividades nos principais centros
te. Um idoso de Genebra destaca a existência urbanos, mas as pessoas que vivem fora desses
de condições especiais para pessoas com centros dispõem de menos oportunidades. É
dificuldades de audição. Em Melbourne e em também possível que haja menos oportunida-
Melville, é referida a existência de transportes des para pessoas frágeis ou portadoras de defi-
comunitários; em Portland, são mencionadas ciência. Por vezes, os horários das actividades
as actividades realizadas em locais convenien- são rígidos e os idosos têm de optar entre a
tes e em Trípoli as pessoas destacam os ho- satisfação das suas necessidades pessoais,
rários convenientes de eventos e actividades. como dormir regularmente uma sesta durante
Em Dundalk, os participantes sugeriram que a tarde, e a participação numa actividade. Os
a possibilidade de levar uma pessoa amiga locais onde se realizam as actividades podem
aos eventos poderia contribuir para a partici- não ser apelativos para os idosos, devido aos
pação dos idosos. níveis de ruído ou à ênfase em programas para
a juventude. Uma variedade de actividades
que inclua actividades dirigidas e integradas
2. Actividades a preços acessíveis permite uma gama de escolhas alargada e
As actividades gratuitas, ou pelo menos diversificada, para mais pessoas. Esta gama
com preços acessíveis, facilitam a partici- de actividades pode incluir eventos como os
pação dos idosos. O custo das actividades que são organizados em Himeiji, destinados
é um problema frequentemente menciona- a pessoas com mais de 80 anos. Na Jamaica,
do, especialmente em cidades de países em os idosos referem a organização de eventos
desenvolvimento e de países com economias desportivos em que os idosos podem partici-
de transição. Em algumas zonas, só exis- par a vários níveis. Portage La Prairie organiza
te variedade de opções para pessoas com almoços e jantares para a comunidade, onde
rendimentos adequados, e as actividades de é privilegiado o contacto social. As activida-
recreio e lazer só estão ao alcance dos ricos. des ao ar livre, tais como um passeio num
Os inquiridos em Islamabad referem, contudo, jardim em Nairobi ou um passeio num dia de
que a participação em actividades tem preços bom tempo em Moscovo, são consideradas
acessíveis. No Rio de Janeiro existem muitas formas simples e baratas de encorajar a parti-
actividades de lazer gratuitas e a Cidade do cipação social.
México organiza eventos culturais gratuitos
ou com entradas de preço reduzido. Em Dun- Em Udine, as pessoas referem que existem
dalk, Genebra e Londres, as pessoas referem edif ícios colocados à disposição dos idosos
que, devido aos elevados custos dos seguros, para que possam organizar actividades como
as organizações para fins não lucrativos são teatro, clubes ou a Universidade da Terceira
obrigadas a cobrar entrada nas actividades, Idade. Em Tuymazy existe um clube de xadrez,
sabendo que este facto poderá desencorajar a uma sociedade de recriação histórica e um
participação nas mesmas. clube para maiores de 60 anos. Os inquiridos

39
de Cancún dizem beneficiar de um clube da 4. Informação sobre actividades e
“idade de ouro”, de aulas de trabalhos manuais eventos
no mosteiro local, bem como de palestras, mú-
sica e dança. Em todas as cidades de maiores É mencionada por vários inquiridos a neces-
dimensões, situadas nas regiões desenvolvidas sidade que os idosos sentem de informação
e na maioria das cidades nos países desen- sobre actividades e oportunidades de partici-
volvidos, é mencionada a existência de uma pação nas mesmas.
variedade de actividades.
Acho que o mais importante é a informação
As actividades religiosas e a socialização com – as pessoas têm de saber quais as opções
os elementos das comunidades que partilham existentes.
a mesma crença religiosa são uma importante
forma de participação das pessoas mais velhas Prestador de serviços, Saanich
na maioria das cidades. Os idosos podem ser
bastante conhecidos e estimados nas respec- Em Dundalk, as organizações divulgam as
tivas comunidades religiosas. Estas comuni- suas actividades através do envio de informa-
dades são por norma acolhedoras e inclusivas, ções aos idosos antes de estes se reformarem.
facilitando a participação de pessoas que pos- As pessoas que frequentam com regularidade
sam encontrar-se em risco de isolamento. Em serviços religiosos e outras actividades orga-
Halifax, por exemplo, as igrejas contribuem nizadas têm tendência para ter conhecimento
para as vidas dos idosos através de actividades de outras actividades de modo informal.
como jogos de cartas, jantares e almoços em Em San José, as associações profissionais
grupo, transporte para a igreja e contacto com fazem divulgação das suas actividades.
pessoas isoladas. Em Islamabad, as pessoas re- Um prestador de serviços em Xangai sugere
ferem que ir à mesquita mais do que uma vez que poderá haver mais pessoas envolvidas
por dia contribui para a participação social. se existir publicidade suficiente para atrair
participantes.
Na Igreja ouvem-nos por causa da nossa ex-
periência. As pessoas têm admiração por nós. 5. Encorajar a participação e lidar
Idoso, Jamaica com o isolmento
Uma mensagem comum a cidades em todo
As actividades culturais, educativas e tradi- o mundo é a de que a participação social é
cionais continuam a ser importantes para os mais fácil quando há muitas oportunidades e
idosos que vivem em vários locais. A educação estas se realizam perto do local de residência
contínua, através de Universidades da Terceira dos idosos. As pessoas em La Plata sentem-se
Idade ou de cursos ministrados em centros insatisfeitas com a ausência de centros co-
comunitários ou em centros para a terceira munitários em todas as zonas da cidade e em
idade, proporciona um envolvimento e uma Udaipur sugere-se a criação de centros comu-
aprendizagem contínua. As idas a casamen­ nitários a uma distância que os idosos possam
tos e funerais constituem oportunidades de percorrer a pé. Em Dundalk e em Xangai, os
socialização. Os idosos em Islamabad dizem participantes sugerem que estabelecimentos
gostar de participar em eventos tradicionais como escolas e centros recreativos sejam utili-
como casamentos. zados por todos os membros da comunidade,

40
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

incluindo os idosos. Em Islamabad é também


Acho que existem muitas oportunidades se
sugerida uma maior variedade de actividades
as pessoas tiverem contactos e tiverem
de lazer, realizadas em mais locais.
alguém com quem ir, mas acho que através
das organizações podemos saber quem são
Os esforços coordenados no sentido de en-
as pessoas sozinhas e marginalizadas e re-
corajar e motivar a participação dos idosos
construir as suas redes sociais ou estabelecer
podem por vezes fazer a diferença entre a
alguns contactos.
participação e o isolamento. Muitas pessoas
envolvidas em grupos e clubes de idosos Prestador de serviços, Halifax
sentem-se muito satisfeitas com as suas
actividades. Contudo, algumas pessoas ma­
nifestam relutância em fazer parte de asso­ Os prestadores de cuidados, muitos dos quais
ciações e clubes devido a uma variedade são eles próprios pessoas idosas, são par-
de razões: podem não conhecer ninguém, ticularmente vulneráveis a sentimentos de
podem sentir que terão de associar-se a um isolamento porque o seu mundo gira à volta
determinado partido político ou não conside- da pessoa de quem cuidam. Os inquiridos
ram interessantes as actividades daquele sugerem a criação de mais programas e
clube em particular. opções para que os idosos portadores de
deficiência possam socializar fora de casa
sem que para tal seja necessária a presença
Os idosos têm relutância em fazer seja o dos prestadores de cuidados. É sugerida a
que for. Muitas pessoas foram convidadas a criação de programas de dia e de opções
juntar-se ao clube e recusaram. para as horas de repouso como forma de
Prestador de serviços, Himeji ajudar os prestadores de cuidados idosos e
as pessoas de quem cuidam a continuarem
a ter contacto com a sociedade.
São apontadas várias razões para explicar
porque é que os idosos em situação de isola-
mento têm dificuldade em contactar com ou- Participam poucos homens; não aceitam a
tras pessoas. Os seus contactos sociais desa- idade e/ou sentem-se desconfortáveis por
pareceram após a morte do cônjuge e depois, estarem rodeados por tantas mulheres.
gradualmente, foram desaparecendo outros Idoso, Cancún
familiares e amigos. A sua saúde pode estar
a piorar, o que limita a capacidade de parti-
cipação. Devido a mudanças na sociedade, A ausência de participação dos homens é men-
existem mais mulheres que trabalham e, por cionada em várias cidades, incluindo Cancún
conseguinte, não estão em casa durante o dia, e Genebra. Contudo, em algumas cidades
não podendo assim visitar os idosos. O con- existem actividades organizadas com a finali-
tacto com idosos em situação de isolamento, dade de despertar o interesse dos homens:
nas suas próprias casas, proporciona uma em Melville, por exemplo, existe um “Abrigo
ligação social e é uma forma de os encorajar a para Homens” que organiza actividades para
participarem. Tanto em Melbourne como em homens de várias idades. Em Istambul, os ido-
Xangai, as organizações tomam a iniciativa sos referem que as mesquitas são bons locais
de procurar os idosos para os convidarem a para os homens participarem na sociedade.
participar nas actividades. Os participantes na Cidade do México sugerem

41
a organização de mais actividades específicas à fraca oferta em termos de programação tele-
para homens, tais como oficinas de trabalho, visiva, com pouco que lhes interesse.
jogos de dominó ou de cartas.

Ver televisão é uma opção, mas o tipo de


Alguns idosos optam por não participar e os
programas que a TV mostra actualmente não
participantes de Portland sugerem que esta
é indicado para famílias.
opção seja respeitada.
Idoso, Udaipur

6. Integração de gerações, culturas


e comunidades Em muitas zonas, os idosos querem participar
nas suas famílias de uma forma significativa.
Os idosos querem oportunidades para sociali- Em Amã, por exemplo, os idosos afirmam que
zarem e se integrarem noutros grupos etários e não querem estar isolados das respectivas fa-
noutras culturas nas respectivas comunidades, mílias. Contudo, as famílias podem não revelar
actividades e famílias. consideração suficiente para com os idosos,
em especial quando se espera que os avós to-
Os idosos sentem que podem participar em mem conta dos netos ou quando não há tempo
diferentes actividades e com pessoas de todas suficiente para que as pessoas se dediquem a
as idades, de acordo com a sua iniciativa e actividades com um membro idoso da família.
vontade pessoal.
Uma melhor integração das gerações é consi-
La Plata, Argentina
derada uma forma de contrariar a discrimina-
ção em função da idade existente na sociedade,
As actividades intergeracionais são conside- que também pode frustrar a experiência dos
radas mais desejáveis do que as actividades só idosos quando participam ou até mesmo
para idosos. Estas oportunidades podem ser desencorajar a sua participação. Os idosos ma-
criadas através da partilha de espaços e ins- nifestam o desejo de que a sociedade seja mais
talações, como sucede em Saanich, onde um informada sobre as suas experiências e sobre
centro de terceira idade está instalado numa a realidade do envelhecimento e consideram
parte não utilizada de uma escola primária. que as outras gerações seriam mais pacientes
Em Ponce, algumas actividades envolvem os e respeitadoras se houvesse uma melhor com-
idosos em contextos escolares. São sugeridos preensão mútua.
programas organizados por centros comunitá-
rios e centros recreativos, de modo a encorajar As oportunidades intergeracionais são um
a participação de pessoas de diferentes idades factor de enriquecimento da experiência em
e graus de capacidade. todas as idades. Os idosos transmitem costu-
mes e conhecimentos tradicionais e as suas
Se os idosos são incapazes de participar em experiências, enquanto que os jovens têm para
actividades fora das respectivas casas, ver oferecer informação sobre novos hábitos e aju-
televisão passa a ser a sua única fonte de lazer dam os idosos para que estes possam orientar-
e de ligação com a sociedade. A necessidade de ‑se numa sociedade em constante mudança.
conjugar opções para todas as gerações e ida- Em Nairobi, os idosos envolvem-se em danças
des reflecte-se nas preocupações que os idosos e actividades tradicionais, o que lhes permite
em algumas cidades manifestam relativamente transmitir esse conhecimento a outras pessoas.

42
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

Na região metropolitana do Ruhr, bairros


[Os idosos] são uma fonte de “tradições
abertos e acolhedores proporcionam a base
vividas”.
para a integração dos recém-chegados. Um
Prestador de cuidados, Nairobi pouco por todo o mundo, os recém-chegados
a uma cidade encontram-se em risco de iso-
lamento e os idosos que participaram neste
A constituição e o projecto de um bairro
projecto reconhecem a necessidade de uma
podem encorajar a integração de pessoas
melhor integração das suas actividades de
de várias origens, faixas etárias e culturas.
modo a encorajarem a participação de pessoas
Muitos bairros em todo o mundo encontram-
de outros locais e com outras culturas.
‑se em processo de mudança. Os jovens
podem não viver no mesmo bairro onde vi-
vem os membros idosos da sua família. Gostaria que houvesse uma forma de fomen-
As pessoas podem não manter os mesmos tar a organização de mais actividades multi-
vizinhos ao longo das suas vidas e em culturais nos bairros que têm uma população
muitas cidades existem populações de diversificada.
imigrantes cada vez mais numerosas,
Idoso, Portland
cujos membros podem não falar a mesma
língua nem ter a mesma cultura que a
maioria da população.
A solução tem de passar por uma tentativa
de aceitação, por parte dos idosos, dos novos
As aldeias ficaram vazias. Mudaram-se para residentes como seus acompanhantes. Além
as cidades. Agora os habitantes das aldeias disso, será benéfico para os vizinhos poderem
envelhecem nas cidades. cumprimentar-se.
Idoso, Istambul Idoso, Tóquio

43
Lista de verificação de uma participação social
amiga das pessoas idosas

Facilidade de acesso a eventos e população idosa diversificada em que


actividades cada pessoa tem interesses potencial-
mente diferentes.
• A localização é conveniente para os idosos,
na sua área de residência, os preços são aces- • As actividades comunitárias encorajam
síveis e existe flexibilidade de transporte. a participação de pessoas de diferentes
faixas etárias e culturas.
• Os idosos têm a opção de participar com um
amigo ou com um prestador de cuidados.
Instalações e contextos
• Os eventos têm lugar durante o dia, a • As actividades de grupo incluem os
horas convenientes para os idosos. idosos e têm lugar numa variedade de
locais da comunidade, tais como centros
• A admissão aos eventos é aberta (por recreativos, escolas, bibliotecas, centros
exemplo, não é necessário ser membro) e a comunitários em bairros residenciais,
compra de bilhetes é um processo simples e parques e jardins.
rápido que não exige que os idosos tenham
de estar na fila durante muito tempo. • As instalações são de fácil acesso e
estão equipadas de forma a permitirem
Acessibilidade económica a participação de pessoas portadoras
de deficiência ou de pessoas que neces-
• Os eventos, actividades e atracções a nível sitam de cuidados.
local têm custos que podem ser suporta-
dos por participantes idosos, não havendo Divulgação e informação
custos ocultos ou adicionais (como, por
sobre actividades
exemplo, custos de transporte).
• As actividades e os eventos são bem
• As organizações voluntárias têm o apoio do divulgados junto dos idosos, incluindo
sector público e privado, com a finalidade informação sobre a actividade, a sua aces-
de manter acessíveis os custos das activida- sibilidade e as opções de transporte.
des para idosos.
Forma de lidar com o isolamento
Variedade de eventos e actividades
• São enviados convites com a finalidade
• Existe uma variedade de actividades de divulgar actividades e encorajar a par-
que podem despertar o interesse de uma ticipação.

44
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

• É fácil assistir a eventos e não é necessá- Fomentar a integração na


rio possuir competências especiais comunidade
(incluindo a literacia).
• As instalações comunitárias incentivam a
• Um membro de um clube que já não utilização partilhada e para fins diversos,
participa nas actividades é mantido por pessoas de diferentes faixas etárias e
na lista de correspondência do clube, interesses, e incentivam a interacção entre
a não ser que solicite a retirada do seu grupos de utentes.
nome da lista.
• Os locais em que se realizam actividades em
• As organizações esforçam-se por envolver grupo, a nível local, incentivam a familia-
os idosos isolados, por exemplo através de ridade e o intercâmbio entre residentes do
visitas ou telefonemas. mesmo bairro.

45
Parte 9. Respeito e inclusão social

Análise dos resultados Na Jamaica e em Ponce, por exemplo, os


idosos sentem que têm atendimento prioritá-
Os idosos mencionam ter-se defrontado com
rio em estabelecimentos e em locais públicos.
tipos de comportamento e atitudes contraditó-
Em Islamabad e Moscovo, as pessoas cedem
rias por parte de outras pessoas. Por um lado,
os seus lugares nos autocarros aos idosos. São
muitos sentem-se frequentemente respeitados,
referidos exemplos de serviços amigos das pes-
reconhecidos e incluídos, enquanto que por
soas idosas em algumas cidades: em Portage
outro sentem falta de consideração por parte
la Prairie, as urnas de voto são levadas a
da comunidade, dos serviços e da família. Esta
casa daqueles que se encontram incapazes
diferença pode ser explicada pela mudança
de se deslocar às mesas de voto e nas igrejas
da sociedade e das regras de comportamento,
existem aparelhos auriculares para as pessoas
pela ausência de contacto entre gerações e pela
com dificuldades auditivas. Na Cidade
ignorância generalizada relativamente ao enve-
do México, é feita referência a uma institui-
lhecimento e aos idosos. A análise do inquérito
ção bancária cujos funcionários recebem
permite ver com clareza que o respeito e a
formação específica para tratarem bem os
inclusão social dos idosos dependem de outros
idosos e que no final de cada mês reserva
factores para além da mudança social: factores
tempo para atendê-los em exclusividade.
como a cultura, o género, o estado de saúde e
É também feita referência ao facto de,
a situação financeira desempenham um papel
em estabelecimentos na Jamaica, os idosos
importante. A participação dos idosos na vida
se poderem sentar e esperar para serem
social, cívica e económica da cidade também
atendidos directamente por funcionários
está intimamente relacionada com a sua pró-
destacados para estas zonas de espera.
pria experiência de inclusão.
Além disso, em Tóquio os idosos constatam
que são bem tratados nos estabelecimentos
1. Comportamento respeitador e
porque, na sua maioria, os clientes são
desrespeitador
idosos. Os idosos também se sentem espe-
Os participantes no projecto fizeram referência cialmente respeitados e incluídos nos clubes
principalmente a comportamentos reveladores para a terceira idade. É também referido
de respeito e cortesia ou do oposto. Em termos que, quando os próprios idosos são respeita-
globais, os idosos das cidades objecto de estudo dores e agradáveis, recebem frequentemente
são respeitados: a maioria dos idosos e dos a mesma resposta.
outros participantes nos grupos de discussão
fazem referência ao respeito e à amabilidade No entanto, os inquiridos em várias cidades
manifestados em relação aos idosos, no dia-a-dia. também mencionam comportamentos des-
respeitosos em relação aos idosos. As pessoas
Vamos na rua e as pessoas sorriem-nos, entra- são consideradas impacientes relativamente
mos numa loja e somos atendidos, os miúdos aos idosos que fazem as coisas mais devagar
dizem-nos olá mesmo sem nos conhecerem. e os condutores idosos são alvo de gestos
grosseiros. Em Sherbrooke, os idosos sentem-
Idoso, Melbourne
‑se tratados como crianças. As pessoas idosas

46
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

em Amã também se sentem criticadas pelos das pessoas idosas centram-se na formação
jovens por causa do seu vestuário ou forma dos prestadores de serviços para que saibam
de falar diferente. É referido que alguns como dar uma melhor resposta às suas
jovens não têm boas maneiras (Tóquio e necessidades.
Udine), não cedem os seus lugares nos auto-
carros (Portland) e são verbal ou fisicamente 2. Discriminação em função da
agressivos para com os idosos (Halifax,
idade e ignorância
Nova Deli e San José).
Numa sociedade cujo imaginário popular
glorifica a juventude e a mudança, as imagens
Olham para nós como se a nossa “data de
negativas da idade e do envelhecimento
validade” tivesse expirado e não querem
são frequentemente evocadas para explicar
atender-nos.
comportamentos desrespeitadores. Entre
Idoso, Melville os preconceitos relacionados com a idade
mencionados, os idosos são considerados
inúteis, menos inteligentes, mesquinhos e
Em algumas cidades, os serviços comerciais
um fardo. Como grupo, existe nos países
e profissionais também são referenciados
desenvolvidos a percepção de que os idosos
como desrespeitosos ou revelam falta de
são exigentes e um escoadouro de recursos
consideração para com as necessidades dos
públicos. Os idosos doentes ou portadores
idosos. Em Amã, um prestador de cuidados
de deficiência têm maior probabilidade de
referiu que a comida nos restaurantes não era
serem encarados negativamente do que os
apropriada para idosos. Em Melville constata-
idosos saudáveis.
‑se a existência de atendimento deficiente nas
lojas. Em La Plata e em Mayaguez, os funcio-
nários bancários e os funcionários públicos Somos muito mais respeitados se formos sau-
são acusados de não terem em consideração dáveis e não dependermos de ninguém, nem
as necessidades e as queixas dos idosos. Em mesmo dos próprios filhos.
San José, é referido o exemplo de médicos Idoso, Trípoli
que já têm as receitas prontas mesmo an-
tes de atenderem os pacientes idosos. Em
Nairobi, Ponce ou Saanich, por exemplo, são O comportamento desrespeitoso e a
referidas outras preocupações relativamente discriminação em função da idade exis-
a prestadores de serviços. tentes em algumas cidades são consi-
derados o resultado do desconhecimento
de boas maneiras, da impessoalidade de
Há idosos que passam o tempo de um gabi- cidades grandes e em crescimento cons-
nete para o outro sem obterem a informação tante, da falta de interacção entre gerações
que procuram, porque ninguém lhes dedica e da geral falta de conhecimento do pú-
tempo nem atenção. blico sobre o envelhecimento e os idosos.
Prestador de serviços, Mayaguez Em Melbourne e em Nova Deli, as pessoas
também reconhecem a existência de um
fosso entre as normas de individualismo
As sugestões apresentadas no sentido de contemporâneas e as expectativas
incentivar a existência de serviços amigos dos idosos.

47
3. Interacções intergeracionais e Muitas pessoas são de opinião que a educação
educação da sociedade da comunidade deveria ter início na escola
primária, para que as pessoas aprendessem
valores culturais e soubessem valorizar os
Hoje em dia existe uma enorme desvanta-
idosos. Segundo os participantes, a forma-
gem… os miúdos não beneficiam desse
ção sobre o envelhecimento deveria incluir
privilégio, da convivência com idosos…
a aquisição de uma melhor compreensão
o preço a pagar por isto é terrível.
relativamente às dificuldades causadas pelo
Idoso, Portland envelhecimento f ísico e pelas dificuldades
que lhe são normalmente associadas. Tal
como foi mencionado na Jamaica, esta forma-
Em quase todas as cidades envolvidas no
ção permitiria que as pessoas se preparassem
projecto, os inquiridos sublinharam a grande
para esse período da vida. Quase todos os
necessidade de facilitar e organizar encontros
grupos de trabalho insistem na importância
entre as várias gerações, a saber: o trabalho
de ser incutido respeito pelos idosos; em
em conjunto; a participação em eventos
Udaipur, sugere-se como forma de alcançar
intergeracionais planeados; a participação
este objectivo a criação de campos de férias
de idosos na educação cívica ou histórica em
que se dediquem à abordagem de valores
contexto escolar ou a possibilidade de toma-
sociais. É também proposta a formação sobre
rem conta de crianças em espaços públicos;
o envelhecimento através de campanhas
o auxílio prestado pelos jovens aos idosos,
amigas nos meios de comunicação social.
numa base de voluntariado. Todas as solu-
Em Melville, são apresentados os exemplos
ções que contemplam a organização de acti-
de um programa de televisão que mostra um
vidades intergeracionais são bem acolhidas
jovem a conviver com um idoso ou de jornais
na maioria das cidades. Em Genebra, os
que escrevem histórias de vidas de idosos
idosos referem que eles próprios deveriam
que fizeram muito pela comunidade. São
dar o primeiro passo ao encontro da geração
também mencionados anúncios e cartazes
mais jovem.
com imagens agradáveis do envelhecimento,
bem como representações de idosos de forma
Existe uma opinião comum de que o conheci- realista e não como caricaturas.
mento da sociedade relativamente ao envelhe-
cimento e às questões que lhe são inerentes
tem grandes lacunas e que a informação 4. Um lugar na comunidade
sobre o envelhecimento deveria ter início
numa fase inicial da vida e abranger todos Nas nossas sociedades a voz dos idosos não
os grupos sociais. é ouvida.
Prestador de cuidados, Sherbrooke

Deparamo-nos com uma atitude relativa-


mente aos idosos que tem de ser reajustada. O papel que os idosos desempenham na comu-
Acho que este é o principal problema e não sei nidade contribui para o respeito e a inclusão
como será possível educar os jovens para que de que beneficiam. Em algumas cidades como
respeitem os idosos. Moscovo e Tóquio, é referido que ainda man-
Idoso, Portage la Prairie têm um papel de liderança activo a nível local,
e que têm impacto sobre as decisões públicas.

48
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

Contudo, na maior parte das vezes, os inquiri- utilizados na tomada de decisões. Os recursos
dos referem a perda destas responsabilidades que representam têm de ser valorizados pela
de liderança e inclusive a relutância em escutar comunidade, tal como é sugerido em Dundalk
os conselhos dos idosos, como sucede em e na Cidade do México. Em Portland, os pres-
Melville. Em Mayaguez, os participantes refe- tadores de serviços acrescentam que os idosos
rem que a comunidade já não está acostumada podem ter um papel importante como olhos e
a ter em consideração as opiniões dos idosos ouvidos de uma comunidade.
e que actualmente até as decisões que dizem
respeito aos jovens são tomadas sem que eles 5. Ajuda prestada pela comunidade
sejam consultados.

O envolvimento social dos idosos contribui Sabe, as pessoas conhecem-se umas às


positivamente para que sejam estimados outras, esta cidade não é grande. E isto é o
pela comunidade. Os idosos parecem estar principal, quando as pessoas se conhecem,
frequentemente envolvidos em serviços ajudam-se mutuamente.
voluntários, nos quais podem desempenhar Idoso, Portage la Prairie
um papel activo, como sucede em Halifax e
em Melbourne. Existem empregos específicos
para pessoas idosas, como acontece nos Muitos dos comentários referem-se à ajuda
supermercados em Cancún. Em Himeji, um prestada aos idosos pelas pessoas da cidade e
programa chamado “Pergunte aos Idosos” às razões que fazem com que as comunidades
é apresentado como exemplo de inclusão: sejam mais ou menos inclusivas. As comuni-
este programa promove o envolvimento de dades mais pequenas, onde as pessoas viveram
pessoas mais velhas em actividades em que durante muito tempo e se conhecem umas às
têm experiência, como a jardinagem, a orga- outras, são consideradas mais amigáveis e in-
nização de eventos ou palestras em escolas clusivas: Dundalk, Portage la Prairie e o bairro
primárias. Em Saanich, é feita referência a de Copacabana, no Rio de Janeiro, são alguns
programas que promovem a ligação entre os dos exemplos apresentados.
idosos e as escolas.
As pessoas notam a nossa falta quando não
Dependemos dos voluntários idosos e é claro vamos à missa.
que valorizamos as suas opiniões e o seu Idoso, Dundalk
contributo.
Prestador de serviços, Saanich
Noutras cidades maiores, são feitas referências
ao facto de a cidade ser “demasiado grande”
Os idosos por vezes integram comissões e e impessoal, como sucede em Istambul. Em
conselhos administrativos de associações e Islamabad e na Cidade do México, os bairros
organizações, apesar de em Sherbrooke ser não são considerados coesos e em Londres os
referido que ainda precisam de ter uma melhor bairros parecem mudar com tanta rapidez que
representação nesta área. Um aspecto fre- as pessoas já não têm tempo para se conhece-
quentemente mencionado prende-se com o rem. Contudo, é possível fomentar a criação
facto de os idosos, as suas capacidades e a sua de comunidades mais inclusivas. Alguns dos
experiência de vida, terem de ser valorizados e grupos de trabalho propõem incentivos à

49
criação de bairros mais organizados através de serviços referem a existência de casos de
de, por exemplo, comissões de rua (San José e abandono e maus tratos de idosos.
Tuymazy). A criação de locais para reuniões de
habitantes do bairro é sugerida em Istambul. 7. Exclusão económica
Em La Plata, já existe um local com esta fina-
lidade, pois uma parte do edif ício da Câmara
Sinto-me intimidado quando entro numa
Municipal é utilizada para reuniões de idosos.
loja porque não posso comprar aquilo de
que preciso.
6. Lugar na família Idoso, Tuymazy

Em algumas cidades como Amã e Udaipur,


é considerado uma vantagem que os idosos Em vários países, a maioria dos idosos tem
vivam com as respectivas famílias. Na opinião rendimentos bastante baixos e a pobreza, seja
das pessoas de Trípoli, continuar a viver com em que idade for, é um factor de exclusão da
a família equivale a beneficiar de cuidados, sociedade. Na Federação Russa, muitos idosos
ter carinho e manter o estatuto social. Em fazem referência ao facto de se sentirem excluí­
Udaipur, não só os idosos são consultados dos da sociedade em virtude dos seus baixos
pelas suas famílias quando é necessário tomar rendimentos: os reformados são totalmente
alguma decisão, como as suas opiniões são dependentes das reduzidas pensões atribuídas
respeitadas. Em Cancún, alguns idosos decla- pelo Estado. Na Jamaica e na Cidade do Méxi-
raram ter deixado as respectivas comunidades co, é feita referência ao facto de muitas vezes
para irem viver com os filhos. Os membros as pessoas receberem muito pouco auxílio
das famílias são considerados prestáveis e financeiro por parte do Estado e de o processo
prestam apoio aos idosos, mas ao mesmo de atribuição de subsídios envolver demasiada
tempo constata-se que as relações familiares burocracia. Em Cancún, os idosos declaram
estão a mudar. Em Istambul e em Nova Deli, que não se sentem incluídos nos programas
por exemplo, são feitos comentários acerca do governamentais.
facto de as famílias estarem mais separadas
porque os filhos se mudam para outro local e Pela primeira vez, alguém pensou nas necessi-
de as novas gerações não terem muito tem- dades dos que não têm qualquer rendimento
po para estarem com os membros idosos da [afirmação sobre o cartão “Si Vale”].
família. Como consequência, em Nova Deli
Idoso, Cidade do México
é referido que os idosos são gradualmente
marginalizados pelas suas próprias famílias.
Em Islamabad, os idosos fazem referência ao Na Cidade do México, as pessoas apreciam
facto de as mulheres idosas nem sempre serem a existência de apoio económico adaptado à
consultadas no que diz respeito a questões condição económica dos idosos. Este apoio
familiares. Em Nova Deli, é dito que os avós inclui um cartão de identificação que lhes dá
se vêem reduzidos ao papel de empregados acesso a preços mais baixos e até a serviços
dos seus netos. Em San José, algumas famílias gratuitos, bem como o cartão “Si Vale”, que ga-
até exigem que os idosos trabalhem a troco de rante aos mais pobres um rendimento mensal
dinheiro. Em algumas cidades, os prestadores de 80 dólares americanos.

50
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

Lista de verificação do respeito e inclusão social


amigos das pessoas idosas
Serviços respeitadores e inclusivos Educação da sociedade
• Os idosos são consultados por serviços pú- • A aprendizagem sobre o envelhecimen-
blicos, voluntários e comerciais no que diz to e os idosos é incluída nos programas
respeito à forma como podem prestar-lhes escolares do ensino primário e secun-
um melhor atendimento. dário.

• Os serviços públicos e comerciais têm para • Os idosos são incluídos de modo activo e
oferecer serviços e produtos adaptados às regular em actividades escolares, com as
necessidades e preferências dos idosos. crianças e com os professores.

• Os serviços dispõem de funcionários pres- • São dadas aos idosos oportunidades de


táveis e amáveis para o atendimento aos partilha dos seus conhecimentos, história
idosos. e competências com outras gerações.

Representações públicas do Inclusão na comunidade


envelhecimento
• Os idosos são incluídos como partici-
• Os meios de comunicação social incluem pantes de pleno direito na tomada de
idosos nas imagens apresentadas ao público, decisões da comunidade que lhes digam
representando-os de forma positiva e não respeito.
estereotipada.
• A comunidade reconhece o valor do con-
Interacção intergeracional tributo dos idosos, quer o passado quer o
presente.
e na família
• Os contextos, actividades e eventos da co- • A acção levada a cabo pela comunidade
munidade atraem pessoas de todas as faixas com a finalidade de fortalecer laços e apoio
etárias através da resposta às necessidades e no âmbito da vizinhança contempla os
preferências específicas de cada idade. residentes idosos como fornecedores de
informação, conselheiros, agentes e benefi-
• Os idosos são especificamente incluídos ciários principais.
em actividades comunitárias destinadas a
“famílias”. Inclusão económica
• São regularmente organizadas actividades • Os idosos em situação de desvantagem
que aproximam as gerações, tendo em vista económica têm acesso a serviços e eventos
o apreço e o enriquecimento mútuos. públicos, voluntários e privados.

51
Parte 10. Participação cívica e emprego

Análise dos resultados 1. Opções de voluntariado


para idosos
Os idosos não deixam de contribuir para
as respectivas comunidades quando se
reformam. Muitos continuam a realizar tra- Está cientificamente provado que o trabalho
balho não remunerado e voluntário para de voluntariado pode ajudar as pessoas a
as respectivas famílias e comunidades. manterem a saúde e a viverem mais tempo.
Em algumas áreas, os idosos são forçados Idoso, Halifax
pelas circunstâncias económicas a aceitar
trabalhos remunerados até muito para além
da idade em que deveriam reformar-se. Em muitas das cidades participantes, os idosos
Uma comunidade amiga das pessoas idosas estão envolvidos de forma bastante activa em
proporciona opções para que estas continuem iniciativas voluntárias e retiram muitos bene-
a contribuir para as suas comunidades, atra- f ícios do voluntariado, incluindo o facto de se
vés da realização de trabalho remunerado sentirem úteis e activos e de manterem a sua
ou de trabalho voluntário, caso assim o deci- saúde e as suas relações sociais. Em algumas
dam, e para que possam envolver-se em cidades, os participantes referem a existência
questões de natureza política. de uma infra-estrutura de voluntariado bem
organizada como, por exemplo, centros de
Muitos idosos gostariam de continuar a recursos voluntários ou organizações voluntá-
trabalhar e, na realidade, alguns fazem-no. rias solidamente estabelecidas. Na maioria das
Além disso, os idosos que participaram no cidades, os participantes afirmam que existem
projecto da OMS manifestaram desejo e muitas oportunidades para a realização de
vontade de trabalhar como voluntários trabalho voluntário.
nas respectivas comunidades. Na maioria
das cidades, os idosos têm acesso a opor- Em Ponce, os idosos gostam de sentir-se úteis
tunidades de emprego e de voluntariado através do voluntariado e em Udine as pessoas
e, em termos gerais, sentem-se respeitados declaram que o trabalho voluntário é recom-
em virtude do seu contributo. Os idosos pensador e evita o isolamento. Em Genebra, os
gostariam de ter mais oportunidades de idosos realizam trabalho voluntário em clubes
emprego e gostariam que as oportunidades e organizações.
de emprego e voluntariado de que actual-
mente dispõem se adaptassem melhor às Apesar da importância do voluntariado, os
suas necessidades e interesses. Também participantes constatam a existência de muitos
gostariam que houvesse mais esforços de obstáculos ao envolvimento dos idosos, como
encorajamento à participação cívica e con- por exemplo no que diz respeito à informação
sideram que existem obstáculos à participa- sobre as oportunidades de trabalho voluntário,
ção, incluindo obstáculos f ísicos e estigma- em especial as que seriam adaptadas à sua si-
tização cultural, no que concerne à tuação. Os participantes querem mais oportu-
participação dos idosos. nidades e uma gama de opções mais alargada.

52
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

A criação de registos centrais foi sugerida a criação de grupos de idosos voluntários e


como uma forma de resolver este problema, o reembolso das despesas relacionadas com
Em Melbourne, está em curso um projecto o trabalho. Em Islamabad, os participantes
cuja finalidade consiste em utilizar a Internet pedem a organização de um grupo de pessoas
para encontrar voluntários adequados às di- para trabalhar com pessoas desfavorecidas.
versas oportunidades, e em Portland existe um Em Mayaguez, é sugerida a criação de incen-
sítio Web que contém indicação das oportu- tivos para voluntários idosos, e na Cidade do
nidades de trabalho voluntário. Os habitantes México um prestador de serviços recomenda
idosos de Melville e de Udaipur sugerem a que os voluntários recebam o reembolso das
criação de uma base de dados ou de um registo despesas realizadas. Em Himeji, é sugerida a
central de voluntários, e os participantes em existência de apoio financeiro a organizações
Nova Deli sugerem que um sistema central voluntárias. Em Xangai, as pessoas conside-
deste tipo poderia ser gerido por uma organi- ram que uma atmosfera social recompensa-
zação como a HelpAge Índia. dora e estimulante poderia encorajar mais
pessoas a realizar trabalho voluntário. Em
Além disso, os idosos deparam-se com proble- Tóquio, os convites são apresentados como
mas durante o trajecto de e para os empregos uma forma de incentivar os idosos a realiza-
voluntários e alguns referem a existência de rem trabalho voluntário.
limitações f ísicas que dificultam a realização
das tarefas que lhes são atribuídas. Nos países 2. Melhores opções de emprego
mais desenvolvidos, alguns idosos e presta- e mais oportunidades
dores de serviços referem que o facto de as
despesas (de combustível, por exemplo) não
A minha mãe fala muitas vezes em trabalhar,
serem reembolsadas ou as questões de respon-
mas eu sei que ela não conseguiria fazê-lo.
sabilidade (por parte das organizações volun-
O que acontece é que eles gostam de ter o
tárias) impedem a sua capacidade ou vontade
seu próprio dinheiro.
de se oferecerem para trabalho voluntário.
Prestador de cuidados, Jamaica
Alguns participantes aludem à existência de
um declínio ou mudança geral no sector vo-
luntário que afecta os voluntários idosos. Esta Temos de ajudar os idosos para que conti-
situação inclui um sentimento de que a ética nuem a ter um emprego. O trabalho é uma
do voluntariado se encontra em fase de declí- dádiva de saúde e vida.
nio e que não existem jovens que substituam
Prestador de serviços, Trípoli
os idosos. Em Halifax, um idoso considera que
o aumento da burocracia e dos custos do segu-
ro contribuem actualmente para a redução do Os participantes em muitas cidades mencio-
número de voluntários. Em Dundalk, sugere- nam o facto de se sentirem ansiosos e com
‑se que os voluntários idosos estejam isentos vontade de trabalhar e declaram possuir a
do pagamento de seguros. experiência e as habilitações necessárias
para poderem fazê-lo. No entanto, os idosos
As sugestões de melhoria do sector do deparam-se com diversos obstáculos, quando
voluntariado exigem, em termos gerais, um procuram trabalho ou quando pretendem con-
fortalecimento das organizações voluntárias, tinuar a trabalhar. Os participantes nos grupos

53
de trabalho rejeitam as políticas que deter- em Trípoli afirmam que existem muitas van-
minam a obrigatoriedade da reforma quando tagens em continuar a trabalhar, entre as quais
se atinge uma determinada idade. Em alguns se incluem o rendimento, o combate às atitu-
países existem políticas que determinam que des segundo as quais os idosos dependem de
os rendimentos auferidos após a “reforma” terceiros e a continuação das relações sociais.
sejam descontados dos programas de apoio Em Himeji existem muitos idosos dispostos a
ou das pensões atribuídos pelo Estado, o que trabalhar e que gostariam que houvesse mais
também constitui um obstáculo para os idosos oportunidades de emprego. Os idosos em
que pretendem continuar a trabalhar. Amã sugerem que o tempo e a experiência dos
idosos sejam utilizados enquanto eles tiverem
Em vários locais, os idosos declaram que são a capacidade de trabalhar e acham que deveria
simplesmente demasiado frágeis para traba- haver incentivos à sua participação.
lhar, que têm dificuldade nas deslocações de e
para o local de trabalho ou que não se sentem Alguns locais, maioritariamente em países
seguros durante o trajecto para o trabalho ou desenvolvidos, têm políticas que contemplam
no próprio local de trabalho. Em várias cidades esta questão e algumas pessoas fazem refe-
verifica-se que as únicas oportunidades de rência a empresas específicas que incentivam
trabalho disponíveis para os idosos são muitas e valorizam o trabalho dos idosos. Em Maya-
vezes servis, mal remuneradas ou indesejáveis, guez, os prestadores de serviços referem que o
em termos gerais. Em algumas áreas, os idosos absentismo entre os idosos é muito reduzido e
ajudam as famílias porque cuidam dos netos que estes são por norma pontuais. Em Melvil-
e na Cidade do México as pessoas acham que le, existe a noção de que os locais de trabalho
a realização deste tipo de tarefas impede os estão a mudar e que existe uma atitude mais
idosos de obterem um verdadeiro emprego. positiva quanto à manutenção de trabalhado-
res idosos.
Nos locais em que existem baixos rendimen-
tos e o apoio estatal é limitado, alguns idosos Os participantes indicam uma série de suges-
acham que têm de trabalhar, quer queiram tões relativamente à forma de melhorar e criar
quer não. Em algumas cidades (por exemplo, novas oportunidades de emprego para idosos.
em Moscovo, Nairobi e Ponce), os partici- Entre estas sugestões incluem-se a oferta de
pantes nos grupos de discussão referem que a incentivos a empregadores que contratarem
situação geral, em termos de desemprego e de idosos, a existência de programas de emprego
competição pelos empregos, influencia a sua subsidiados pelo Estado, a criação de parcerias
capacidade para encontrarem trabalho. entre empregadores do sector público e do
sector privado e a contratação de idosos para
Não posso pensar em trabalhar. Porquê? empregos da função pública.
Porque o desemprego é elevado até mesmo
na juventude, por isso como é que posso Nos locais em que se verifica a existência de
querer trabalhar? reforma obrigatória ou de restrições relativas
à idade, é sugerida a eliminação deste tipo de
Idoso, Istambul
legislação. Em Dundalk, sugere-se que seja
permitido aos idosos trabalhar para além da
Apesar destes obstáculos, os idosos continuam idade da reforma, e em Islamabad foi proposta
a trabalhar, numa série de cidades. Os idosos a abolição das restrições legais relativas à idade

54
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

para trabalhar. Os prestadores de serviços em Há quem aluda aos horários rígidos e algumas
Sherbrooke consideram que deveria haver uma pessoas consideram que os empregos volun-
maior flexibilidade na legislação e nas políti- tários se tornaram demasiado profissionaliza-
cas, de modo a permitir que os reformados dos. Os participantes sugerem que as oportu-
voltassem a trabalhar. Um idoso em Istambul nidades de trabalho remunerado e voluntário
sugere a abolição da reforma antecipada. deveriam ser estruturadas de forma a integra-
rem os trabalhadores idosos. A actividade de
Houve também várias sugestões no sentido voluntariado deveria ter uma maior flexibi-
de melhorar o tipo ou as condições de tra- lidade e deveria adaptar-se melhor às neces-
balho. Em alguns locais, os inquiridos con- sidades dos idosos. Em vários locais, foi feita
sideram que o problema reside no facto de referência a uma maior flexibilidade por parte
não serem disponibilizadas as informações e dos empregadores, em termos de horários
os instrumentos que permitiriam encontrar e de emprego sazonal ou temporário, bem
a correspondência entre as capacidades e como à necessidade de proceder a adapta-
necessidades dos trabalhadores idosos e as ções consoante as exigências do trabalho,
dos empregadores. As sugestões para encon- em termos f ísicos.
trar uma solução para esta situação incluem
uma melhor publicitação das vagas, a cria- Em Genebra, os idosos consideram que as
ção de bases de dados que permitam fazer a oportunidades de trabalho voluntário deve-
correspondência entre trabalhadores idosos riam ser flexíveis e adaptadas às capacidades
e empregos e a criação de um registo com dos voluntários, tendo em consideração as
as competências dos idosos, que poderia ser necessidades dos idosos, que se cansam mais
consultado por potenciais empregadores. Em rapidamente. Em Himeji, os prestadores de
Istambul, existe a noção de que deveria haver serviços consideram que as empresas deve-
mais apoio para as mulheres que trabalham riam criar contextos em que os idosos pudes-
em casa e em Nova Deli é sugerido que os sem trabalhar sem dificuldade, e na realidade
empregadores sejam informados sobre as muitas empresas já têm este objectivo.
necessidades dos idosos.
Em Halifax, foi sugerido que os funcionários
3. Flexibilidade para integrar traba- idosos deveriam ter um menor volume de
lhadores e voluntários idosos trabalho e que a baixa por doença deveria ser
mais flexível. Em Londres, os participantes
Não quero uma actividade que me obrigue sugerem a organização de pequenos projec-
a estar no mesmo local todos os dias da tos que sejam interessantes para os idosos
semana às 9:00; já tive a minha parte desse e que façam uso das suas capacidades. Em
tipo de trabalho. Nairobi, em Ponce e em Tuymazy, os parti­
cipantes fazem referência a oportunidades
Idoso, Portland
de emprego a tempo parcial. Em Tóquio,
existe um serviço de recursos humanos que
A flexibilidade nas oportunidades para idosos, se ocupa do trabalho temporário, uma situa­
no trabalho remunerado e voluntário, é apon- ção que poderia ajustar-se às necessidades
tada como uma forma de fazer uma melhor dos idosos. Os idosos de Tuymazy entendem
adaptação dessas oportunidades à situação que o trabalho de consultor é especialmente
dos idosos. indicado para idosos.

55
4. Incentivo à participação cívica com que houvesse maior participação. Em
Portland, foi sugerido que os idosos se envol-
A informação sobre o grau de envolvimento vessem nestas questões através da comunica-
nas questões cívicas é variável. Em termos ção das suas preocupações aos representantes
gerais, os idosos demonstram-se interessados do governo. Em La Plata, os idosos gostariam
e dispostos a participar em actividades cívicas. que houvesse mais oportunidades de partici-
Em alguns locais, os idosos já têm uma voz pação política por parte dos idosos e que estes
activa, por intermédio de conselhos comu- tivessem um papel na resolução dos problemas
nitários ou de conselhos de terceira idade. da comunidade. Em Tóquio, sugere-se que seja
Algumas culturas valorizam a experiência e atribuída aos idosos a função cívica específica
o conhecimento dos idosos e colocam-nos de se ocuparem dos problemas dos outros
frequentemente em posições de autoridade, idosos e em Saanich os participantes também
embora alguns considerem que estas posições sugerem que os idosos se ocupem do planea-
são na sua maioria posições simbólicas. Em mento de actividades para idosos.
Melville, os idosos participam em grupos de
interesses especiais e em Mayaguez existe uma
5. Formação
grande proporção de idosos na administração
da cidade. Os participantes de Trípoli mencio-
O voluntariado é uma coisa profissionalizada.
nam o facto de os idosos fazerem parte de con-
Para se ser voluntário é preciso ter formação.
selhos de administração e em Halifax os idosos
fazem parte da organização das eleições. Prestador de serviços, Londres

Apesar destes exemplos de envolvimento na A formação é encarada como uma forma de


vida cívica, numa proporção significativa de permitir que os idosos estabeleçam contacto
cidades também se declara que as oportunida- com a população activa e nela participem como
des de envolvimento dos idosos nas questões voluntários. Em algumas cidades é referido
cívicas são limitadas. Em algumas cidades é re- que os idosos sentem que não possuem as
ferida a existência de obstáculos logísticos, tais competências laborais (principalmente no que
como a falta de transportes para os eventos concerne à utilização da tecnologia) necessá-
cívicos, a ausência de alojamento e os proble- rias para competirem no local de trabalho. Em
mas relativos à segurança, em eventos cívicos algumas cidades, os participantes afirmam que
de grandes proporções. os idosos gostariam de beneficiar de oportu-
nidades de formação ou de reciclagem (em-
As sugestões apresentadas no sentido de bora esta sugestão seja mais frequentemente
melhorar a participação nas actividades cívicas apresentada por prestadores de serviços do que
incluem a reserva de lugares para idosos, a pelos próprios idosos). Em Nova Deli, é suge-
melhoria dos acessos em eventos cívicos (por rida a formação e reciclagem antes da reforma.
exemplo, acessibilidade f ísica e distribuição de Em Amã, é referida a necessidade de formar os
aparelhos auditivos a pessoas com dificuldades idosos para realizarem trabalhos leves que lhes
de audição) e a criação ou o restabelecimen- permitam auferir algum rendimento. Em Tuy-
to de conselhos comunitários ou de outros mazy, as pessoas acham que a formação desti-
organismos participativos. Em Dundalk, os nada a trabalhadores idosos deveria centrar-se
inquiridos consideram que a existência de me- nas oportunidades de emprego por conta
lhor informação sobre actividades cívicas faria própria e na criação de pequenas empresas.

56
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

6. Oportunidades de criação de Esta discriminação manifesta-se de várias


empresas formas, indo desde o desrespeito por parte de
outros trabalhadores até à recusa dos empre-
Alguns participantes sugerem a criação de gadores em contratar trabalhadores idosos. Em
oportunidades na área da criação de pequenas algumas cidades, aparentemente é cultural-
empresas para idosos, como forma de estes mente inaceitável que os idosos trabalhem após
ganharem dinheiro e participarem na força a idade da reforma. Alguns destes preconceitos
laboral. Sugere-se o financiamento ou o apoio partem dos próprios idosos: alguns declaram
de outra natureza às oportunidades de empre- que simplesmente não querem trabalhar depois
go por conta própria, como forma de prestar de terem trabalhado durante toda a vida.
apoio aos idosos. Estas ideias surgem normal-
mente em cidades em que também existe um Existem relatos de idosos tratados sem respei-
desemprego generalizado ou um reduzido to. Outros mencionam que é dif ícil trabalhar
apoio financeiro aos idosos (por exemplo, para pessoas mais jovens do que eles, aceitar
Cancún, Cidade do México, Nova Deli, Ponce posições que consideram abaixo das suas capa-
Trípoli, Tuymazy e Udine). cidades ou trabalhar em ambientes em que se
sentem tratados com paternalismo.
Os idosos em várias cidades encontram-se
activamente envolvidos numa diversidade Também se verificam diferenças a nível da
de actividades laborais por conta própria, percepção que os idosos têm relativamente ao
tais como o artesanato ou a jardinagem. Em apreço e reconhecimento do seu contributo.
San José, os idosos encontram oportunida- Em Genebra, são distribuídos certificados de
des como vendedores de rua. Em Cancún, apreço pelo trabalho. Em Nairobi, os presta-
existem oportunidades para venda de artigos dores de serviços consideram que os idosos
de artesanato, embora os idosos sugiram que são vistos como líderes devido à sua expe-
seria vantajoso terem um local de venda. Em riência e fiabilidade.
Trípoli, sugere-se que as organizações não
governamentais poderiam ajudar os idosos a Em Udine, considera-se que a experiência dos
criar pequenas empresas e empresas domés- idosos deveria ser mais valorizada. Alguns
ticas e que deveria haver incentivos à agricul- sugerem formação dos empregadores sobre as
tura como opção para os idosos. Em Tuymazy, necessidades e as habilitações dos trabalhado-
é proposta a criação de mercados de agricul- res idosos. Na Cidade do México, considera-se
tores como forma de os idosos contribuírem que o reconhecimento do valor dos conheci-
para a criação de rendimentos. mentos e da presença dos idosos na força la-
boral por parte da sociedade deveria ser maior.
7. Valorização do contributo Na Jamaica, os idosos sugerem a contratação
dos idosos de idosos para ensinarem aos jovens a cultura
dos mais velhos, o que permitiria dar resposta
Os relatos de discriminação no meio laboral, às questões da participação e da discriminação
em função da idade, são generalizados. em função da idade.

57
Lista de verificação de participação cívica
e emprego amigos do ambiente
Opções de voluntariado • As organizações de funcionários
(por exemplo, os sindicatos) apoiam
• Existe uma gama de opções em que os a existência de opções flexíveis, tais
voluntários idosos podem participar. como o trabalho a tempo parcial e o
trabalho voluntário, de modo a permi-
• As organizações de voluntários são bem tir uma maior participação dos traba-
organizadas, com infra-estruturas, progra- lhadores idosos.
mas de formação e uma força laboral que
integra voluntários. • Os empregadores são incentivados a con-
tratar e manter os trabalhadores idosos.
• As posições ocupadas estão em conformi-
dade com as competências e os interesses
Formação
dos voluntários (por exemplo, através de
registos ou base de dados). • É proporcionada aos trabalhadores
idosos formação sobre oportunidades
• Os voluntários recebem apoio para a pós-reforma.
realização do seu trabalho voluntário,
por exemplo através da disponibilização • Os trabalhadores idosos têm à sua disposi-
de transporte ou do reembolso do custo ção oportunidades de formação, tais como
do estacionamento. a formação na área das novas tecnologias.

Opções de emprego • As organizações de voluntários oferecem


formação adequada a cada função.
• Existe uma gama de oportunidades de
trabalho para idosos.
Acessibilidade
• As políticas e a legislação impedem a • As oportunidades de trabalho voluntário ou
discriminação em função da idade. remunerado são conhecidas e divulgadas.

• A reforma é uma opção, não é • Existe transporte para o local de trabalho.


obrigatória.
• Os locais de trabalho estão adaptados às
• Existem oportunidades flexíveis, com necessidades das pessoas portadoras de
opções de emprego a tempo parcial ou deficiência.
sazonal para idosos.
• O trabalhador não tem de suportar qual-
• Existem programas e agências de emprego quer custo de participação no trabalho
para trabalhadores idosos. remunerado ou voluntário.

58
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

• As organizações recebem apoio (por exem- • São divulgados junto dos empregadores os
plo, financiamento ou seguros de custo benef ícios inerentes à contratação de traba-
reduzido) para poderem recrutar, formar e lhadores idosos.
manter voluntários idosos.
Empreendedorismo
Participação cívica
• Existem apoios para os empreendedores
• Os conselhos consultivos, conselhos de idosos e oportunidades de emprego por
administração de organizações, etc. incluem conta própria (por exemplo, mercados para
idosos. vender produtos agrícolas e artesanato, for-
mação sobre pequenas empresas e micro-
• Existe apoio para permitir que os idosos crédito para trabalhadores idosos).
participem em encontros e eventos cívi-
cos, tais como lugares reservados, apoio a • A informação destinada ao apoio a peque-
pessoas portadoras de deficiência, aparelhos nas empresas e a empresas domésticas está
para pessoas com dificuldades de audição e em suportes adequados aos trabalhadores
transporte. idosos.

• As políticas, programas e planos para idosos Pagamento


incluem contributos de idosos.
• Os trabalhadores idosos recebem um paga-
• Os idosos são incentivados a participar. mento justo pelo seu trabalho.

• Os voluntários recebem o reembolso das


Valorização dos contributos
despesas inerentes à realização do seu tra-
• Os idosos são respeitados e reconhecidos balho.
em virtude do seu contributo.
• Os rendimentos auferidos pelos trabalhado-
• Os empregadores e as organizações têm em res idosos não são descontados das pensões
consideração as necessidades dos trabalha- ou de outras formas de apoio financeiro a
dores idosos. que têm direito.

59
Parte 11. Comunicação e informação

Análise dos resultados 1. Distribuição abrangente

Os participantes nos grupos de discussão Em todas as cidades, os meios de comunicação


concordam completamente com a noção de social locais que abrangem toda a comunidade
que a manutenção de contacto com eventos surgem como os principais meios de transmis-
e com pessoas, bem como o acesso a infor- são de informação útil. Nos países em desen-
mação atempada e prática sobre a forma de volvimento e na Federação Russa, os meios de
gerir a vida e de dar resposta às necessidades comunicação social que os idosos conhecem
individuais são factores fundamentais para limitam-se normalmente à rádio, à televisão e
um envelhecimento activo. Na maioria das aos jornais. Nos países desenvolvidos, é feita
cidades do mundo desenvolvido, os partici- referência à abundância de informação gene-
pantes fazem referência à existência de muita ralista e específica de interesse para os idosos,
informação, veiculada por muitos e diversos com origem em fontes diversificadas, em que
meios de comunicação social, tanto genera- se inclui a Internet. Um aspecto valorizado
listas como especializados, enquanto que nas em todo o lado é a informação que chega aos
cidades dos países em desenvolvimento as idosos nas suas vidas e actividades quotidianas,
pessoas integradas nos grupos de discussão entregue directamente e de forma personali-
salientam alguns meios de comunicação que zada, por telefone e através de distribuição em
abrangem toda a comunidade, em especial locais fundamentais: centros comunitários e
a televisão, a rádio e os jornais. Contudo, o quadros de informação, serviços públicos, bi-
receio de não receber informação e de ficar à bliotecas, lojas, consultórios médicos e clínicas.
margem dos acontecimentos é manifestado Em Istambul, os idosos afirmam que o telefone
em quase todos os locais. As tecnologias de é o meio de comunicação mais universal e fiá-
informação e comunicação, em rápida evolu- vel. As organizações governamentais e volun-
ção, são simultaneamente bem-vindas como tárias desempenham um papel fundamental
ferramentas úteis e criticadas como instru- no sentido de assegurar uma distribuição
mentos de exclusão social. Apesar da diversi- abrangente da informação: serviços públicos de
dade de opções de comunicação e do volume distribuição sistemáticos e eficazes são conside-
de informação disponível, a preocupação rados aspectos amigos dos idosos. Em Himeji,
principal expressa pelos grupos de discussão é feita referência a uma distribuição bem estru-
consiste na existência de informação relevan- turada de informação municipal às associações
te facilmente acessível a idosos com diferen- de residentes, que a transmitem aos chefes
tes capacidades e recursos. de cada área residencial, que por seu turno a
entregam em todas as residências. Em cidades
como Trípoli, onde o sector privado ainda
As coisas pioram à medida que envelhecemos não se apercebeu da existência deste crescen-
… as nossas faculdades começam a diminuir, te mercado cinzento, o comércio também é
este tipo de coisa parece causar mais stresse. mencionado como um potencial divulgador de
informação junto dos idosos. A distribuição de
Idoso, Halifax
uma lista local de serviços “amigos das pessoas

60
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

idosas”, sugerida em Saanich, poderia interes- solicitarem. Outra preocupação, manifestada


sar a uma câmara de comércio, por exemplo. somente em algumas cidades, prende-se com a
necessidade de saber lidar com o telemarketing
A existência de meios de comunicação e intrusivo e com a capacidade de identificação
informação a preço acessível é essencial. de fraudes e actividades ilegais. Os habitantes
A rádio é o principal suporte de comunicação idosos das cidades em países em desenvolvi-
entre os idosos de Nairobi porque é barata; em mento deparam-se mais frequentemente com
Udaipur, os quadros locais de informação são o problema de insuficiente informação actuali-
importantes na medida em que fazem chegar a zada sobre questões importantes como a saúde,
informação às pessoas dos grupos socioeconó- os direitos legais, o direito a subsídios, serviços
micos mais baixos. A fim de garantir o acesso e eventos na comunidade. Em La Plata, consta-
à informação em Tuymazy, os ex-emprega- ta-se que os meios de comunicação generalistas
dores oferecem aos reformados assinaturas da comunidade não abrangem tópicos impor-
de jornais. Em Dundalk, o custo das ligações tantes para os idosos de forma suficientemente
telefónicas domésticas é subsidiado pelo Esta- detalhada para que possa ser útil.
do, no caso das pessoas com mais de 70 anos.
Noutras cidades, são indicados como aspectos Uma sugestão frequentemente apresentada,
amigos do ambiente as publicações gratuitas e tendo em vista tornar a comunicação mais
o acesso público a jornais, a computadores e à amiga das pessoas idosas, consiste em transmi-
Internet, em centros comunitários e bibliote- tir mais informação específica através de jornais
cas, de forma gratuita ou a custos reduzidos. especializados ou de secções regulares na
imprensa generalista, bem como através de pro-
2. A informação certa à hora certa gramas de rádio e televisão dedicados a temas
específicos. Outra ideia consiste em fazer
Existe muita informação, mas é complicado com que os canais de comunicação tornem mais
encontrar a informação necessária. abrangentes a sua programação e os temas abor-
dados, de modo a poderem incluir os interesses
Prestador de cuidados, Moscovo de um público idoso. Em algumas cidades, os
idosos queixam-se de que a televisão em especial
Apesar da quantidade e diversidade de fon- parece excluir os interesses e gostos dos idosos.
tes de informação, a preocupação relativa à
obtenção de informação importante e atem- As pessoas querem que a informação seja
pada é comum a cidades em vários níveis de coordenada através de um serviço de fácil
desenvolvimento. Em algumas cidades desen- acesso conhecido em toda a comunidade. Em
volvidas como Genebra, é dif ícil gerir o excesso Portland, o município tem um serviço telefóni-
de informação e, por conseguinte, pode haver co de informações, disponível 24 horas por dia.
perdas de informação importante. Um obstá- Os idosos inquiridos em Nova Deli sugerem
culo frequente reside na falta de conhecimento que uma organização voluntária centralizada e
sobre informação ou serviços disponíveis, ou respeitada como a HelpAge Índia, proceda à re-
em não saber como localizar a informação ne- colha e organização de uma base de dados com
cessária. Em resultado desta situação, os idosos informação relevante para os idosos e a trans-
podem não receber benef ícios ou serviços a mita por telefone. Em Islamabad, recomenda-se
que têm direito ou podem ter conhecimento a criação de salas comunitárias de informação,
da sua existência demasiado tarde para os com jornais e televisão.

61
3. Será que alguém vai falar comigo? factor bastante valorizado pelos idosos em
todo o mundo.
Os idosos ligam para os programas de rádio a
toda a hora. Há uma mesquita em todos os bairros.
Prestador de serviços, Mayaguez A palavra árabe para mesquita é um sinóni-
mo da palavra utilizada para fazer referência
ao local em que as pessoas se aproximam
Independentemente do nível de desenvol- umas das outras.
vimento da cidade, a transmissão verbal é
Idoso, Trípoli
o principal meio de comunicação utilizado
e preferido pelos idosos, tanto através dos
contactos com familiares e amigos como atra- A comunicação amiga das pessoas idosas tem
vés de clubes, associações, reuniões sociais, em comum o facto de reconhecer e utilizar
centros comunitários e locais de culto. A rádio estas vias informais para chegar até eles,
é uma fonte de informação muito popular independentemente do local. Uma das formas
em muitas cidades, com emissões em línguas consiste em fazer chegar informação rele-
vernáculas ou com programas em directo vante aos locais onde os idosos normalmente
em que os ouvintes podem fazer perguntas a se encontram; outra consiste na criação de
especialistas em várias áreas ou participar em ocasiões sociais para lhes transmitir informa-
debates em directo. A dimensão interpessoal ção que é do seu interesse. No Rio de Janeiro,
da comunicação é muito importante e muitas por exemplo, foi feita a proposta de utilização
pessoas declaram que a melhor forma de uma do auditório do centro de saúde para a rea-
pessoa se manter informada consiste em con- lização de palestras de natureza educativa.
tinuar activa e envolvida nas actividades da Uma terceira estratégia consiste em informar
comunidade. As pessoas lamentam a perda de algumas pessoas, que por sua vez irão trans-
oportunidades de interacção com os outros, mitir a informação a outras pessoas, indivi­
decorrentes de mudanças como a construção dualmente. Estes “informadores fundamentais”
no bairro de edif ícios com muitos andares, do podem ser voluntários, como foi sugerido na
encerramento de postos do correio na comu- Jamaica, prestadores de serviços sociais ou de
nidade, da automatização de serviços ban- saúde ou pessoas que trabalham no sector dos
cários e de outros serviços. A comunicação serviços – agentes imobiliários, cabeleireiros,
verbal é especialmente importante para idosos funcionários dos correios ou os porteiros dos
invisuais e para os que não sabem ler. As taxas edif ícios de apartamentos no Rio de Janeiro,
de analfabetismo são muito elevadas na po- que conhecem todos os residentes e que são
pulação idosa dos países em desenvolvimento uma reconhecida fonte de informação e apoio.
e nos países desenvolvidos os idosos têm em
média um nível de literacia inferior ao dos A dificuldade em chegar até às pessoas so-
jovens. A transmissão “de boca em boca” tam- cialmente isoladas – idosos que perderam o
bém funciona devido ao facto de as pessoas contacto com o mundo exterior porque vivem
terem confiança na pessoa que lhes transmite sozinhos, são portadores de deficiências signifi-
a informação e porque podem fazer perguntas cativas e têm pouco apoio por parte das respec-
até obterem a informação pretendida. Ter a tivas famílias – surge igualmente em cidades
atenção de uma pessoa real que é prestável, ricas e pobres. O correio e a Internet são uma
fala com clareza e não está com pressa é um das soluções apresentadas, mas raramente.

62
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

O contacto individualizado com pessoas


Escreva de forma breve e simples, com letras
em quem os idosos confiam é a abordagem
grandes.
preferida, através do recurso a voluntários
que visitam os idosos, que lhes telefonam ou Prestador de serviços, Cidade do México
ainda através de assistentes sociais. Pensar
antecipadamente nos locais fora de casa em
A automatização dos serviços dificulta ainda
que é possível encontrar pessoas em situa-
mais as transacções diárias. Os monitores e
ção de risco de isolamento social é outro dos
as teclas dos telemóveis e de outros aparelhos
métodos sugeridos: em San José foi sugerida
electrónicos são demasiado pequenos, en-
a utilização do centro de saúde da zona como
quanto que os sistemas automáticos das caixas
um ponto de distribuição de informação
multibanco, dos correios, dos estacionamen-
sobre serviços destinados aos idosos com
tos e de outras máquinas de venda de bilhe-
problemas de saúde.
tes são todos diferentes, fracamente ilumi-
nados e dispõem de instruções pouco claras.
4. Formatos e concepção amigos das Os teclados são demasiado altos para que
pessoas idosas uma pessoa numa cadeira de rodas consiga
alcançá-los. Em Amã, foi apresentada uma
Ontem recebi uma carta. Aparentemente, sugestão para tornar os telemóveis fáceis de
estão a verificar que subsídios é que as pes- utilizar por idosos que não sabem ler, com o
soas recebem… Tive de a ler quatro vezes até objectivo de lhes permitir telefonar a fami-
perceber o que dizia. liares ou serviços: as teclas e os números dos
telefones seriam coloridos.
Idoso, Londres

Os serviços de atendimento automático


O principal obstáculo à comunicação com são um motivo de queixas generalizado:
os idosos é a apresentação visual e verbal da há demasiada informação, transmitida rapida-
informação. O tamanho da letra em textos, mente, as opções são confusas e muitas vezes
principalmente impressos mas também em não existe a possibilidade de falar directamen-
suportes como a televisão, por exemplo, é de- te com uma pessoa.
masiado pequeno para ser facilmente lido. As
etiquetas e instruções dos produtos, sobretudo
5. Tecnologia da informação:
no caso dos medicamentos, são dif íceis de de-
solução e problema
cifrar e a apresentação das páginas impressas é
muitas vezes confusa, incluindo demasiada in- A tecnologia da informação, em especial os
formação num pequeno espaço. A informação computadores e a Internet, agradam a alguns
verbal é transmitida com demasiada rapidez e idosos devido ao seu alcance e conveniência.
a forma de apresentação dos anúncios na rádio Em Trípoli, os idosos declaram que a Internet
e televisão não permite aos idosos acompa- é uma boa forma de se manterem em contac-
nharem a lógica de raciocínio. A linguagem to com os filhos que vivem longe, talvez até
utilizada é frequentemente complexa, servin- noutros países.
do-se de termos pouco familiares. Os formu-
lários oficiais – essenciais para o benef ício de No entanto, muitos idosos sentem-se excluídos
serviços e regalias – são especialmente dif íceis porque não sabem utilizar computadores nem
de compreender. a Internet. A conversão de serviços directos

63
e de documentação para a tecnologia dos
computadores aumenta os sentimentos de
exclusão. Nos países em desenvolvimento Lista de verificação
e na Federação Russa, os computadores
são demasiado caros para muitos idosos ou de comunicação e
simplesmente não se encontram disponí- informação amiga
veis na comunidade. Em outros locais, o
acesso f ísico a computadores é possível das pessoas idosas
mas os idosos desconhecem totalmente a
tecnologia e têm receio de não conseguir
aprender. Possibilitar aos idosos o acesso Informação disponível
público e a preços comportáveis a com-
putadores, em centros comunitários, • Um sistema básico e universal de meios
clubes de idosos, serviços públicos e biblio- de comunicação escritos, de radiodifusão
tecas, constitui um importante aspecto e telefónicos abrange todos os residentes.
facilitador. A formação em computadores,
de preferência adaptada às necessidades e • O governo e as organizações de volun-
ao ritmo de cada pessoa, ministrada por tários garantem a distribuição regular e
uma pessoa em quem os idosos confiam, fiável de informação.
é bastante recomendável. Em Halifax,
por exemplo, os idosos fazem referência • A informação é divulgada de forma a
a um técnico de Internet, disponível para poder chegar até aos idosos, perto das
ajudar os idosos de forma individualizada, respectivas residências e nos locais onde
fazendo visitas ao domicílio caso tal lhe realizam as suas actividades quotidianas
seja solicitado. normais.

• A divulgação da informação é coordenada


6. Responsabilidade individual a partir de um serviço comunitário de
e colectiva fácil acesso – um centro de informações
com um “ paragem única”.
Tal como os restantes cidadãos, os idosos
têm a responsabilidade individual de se
• Há informação e programas de interesse
manterem informados através do envol-
para os idosos, tanto nos meios de comu-
vimento em actividades nas respectivas
nicação generalistas como nos destinados
comunidades, de fazerem um esforço de
a públicos específicos.
adaptação à mudança e de correrem o
risco inerente à aprendizagem. Colecti-
vamente, os governos, as organizações de Comunicação verbal
voluntários e o sector privado são respon- • É dada preferência à comunicação
sáveis pela retirada dos obstáculos à comu- acessível aos idosos, por exemplo
nicação que de forma progressiva afastam através de reuniões sociais, centros
os idosos das outras pessoas, em especial comunitários, clubes e os meios de
quando se trata de obstáculos relacionados comunicação de radiodifusão, bem
com a pobreza, baixos índices de literacia e
diminuição de capacidades.

64
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

como através de pessoas responsáveis Comunicação e equipamentos


pela transmissão da informação de automáticos
modo individualizado.
• Os serviços de atendimento telefónico dão
• As pessoas que se encontram em risco de instruções devagar e claramente e dizem à
isolamento social obtêm a informação atra- pessoa que efectuou a chamada o que fazer
vés de pessoas fiáveis com as quais podem para ouvir a repetição da mensagem.
interagir, como por exemplo voluntários
que lhes telefonam ou que os visitam, • Os utilizadores têm a opção de falar com
funcionários que prestam serviços de um(a) operador(a) ou de deixar uma mensa-
apoio ao domicílio, cabeleireiros, portei- gem para que alguém lhes ligue.
ros ou guardas de propriedades.
• O equipamento electrónico, como por exem-
• As pessoas que desempenham funções plo os telemóveis, os aparelhos de rádio, os
em serviços e estabelecimentos públicos televisores e as caixas Multibanco e de venda
prestam serviços personalizados, quando de bilhetes têm teclas e caracteres grandes.
tal lhes é solicitado, e fazem-no de forma
prestável. • O monitor de caixas Multibanco, de
máquinas dos serviços postais e de outros
sistemas automáticos de atendimento têm
Informação escrita
boa iluminação e são facilmente acessíveis a
• A informação escrita – incluindo impressos pessoas de diversas alturas.
oficiais, legendas de televisão e texto em
monitores e expositores – tem caracteres Computadores e Internet
grandes e as ideias principais são destacadas
através de títulos fáceis de ler e escritos a • Existe um abrangente acesso público a com-
negrito. putadores e à Internet, gratuito ou a custo
reduzido, em locais públicos como gabi-
netes de serviços governamentais, centros
Linguagem simples
comunitários e bibliotecas.
• A comunicação escrita e verbal utiliza
palavras simples e familiares, em frases • Os utentes têm à sua disposição instruções
curtas e directas. e assistência personalizadas.

65
Parte 12. Apoio da comunidade
e serviços de saúde

Análise dos resultados nível de acesso aos serviços que poderá não
existir noutras partes do mundo.
Os serviços de saúde e de apoio são fundamen-
tais para a manutenção da saúde e da indepen- Na maioria das cidades que colaboraram no
dência na comunidade. Muitas das preocupa- projecto, o fornecimento, organização e finan-
ções manifestadas por idosos, prestadores de ciamento de muitos serviços sociais e de saúde
cuidados e de serviços nos grupos de discussão são da responsabilidade do Estado ou governo e
prendem-se com a existência de cuidados não da responsabilidade da cidade. Além disso,
suficientes, de boa qualidade, apropriados e a contratação e formação de funcionários dos
acessíveis. Os participantes na consulta levada serviços sociais e dos serviços de saúde escapam
a cabo pela OMS relatam as suas experiências, ao controlo da cidade. Apesar disso, os serviços
que tiveram lugar em contextos diferentes, sociais e de saúde acessíveis numa cidade são
em sistemas diferentes e tendo como cenário prestados por habitantes da cidade, em edifí-
expectativas diferentes; contudo, os idosos em cios e instalações da cidade e as organizações
todos os locais manifestam um desejo eviden- com fins lucrativos e os grupos de voluntários
te de acesso a cuidados de saúde básicos e de baseados na comunidade desempenham um
apoio financeiro. Os custos dos cuidados de papel importante na prestação de apoio e de
saúde são considerados demasiado elevados cuidados. Os responsáveis pela tomada de deci-
em todo o lado e o desejo de acesso a cuidados sões públicas e os sectores privado e voluntário
abordáveis é manifestado de forma consistente. a nível da cidade têm de facto influência sobre o
número, diversidade e localização dos serviços,
bem como sobre outros aspectos da acessibi-
Já conheci muitos idosos que adiam a ida ao lidade de instalações e serviços dentro da sua
médico e a sua saúde continua a piorar cada área de acção. As entidades locais responsáveis
vez mais, porque não têm dinheiro. pelos serviços prestados também garantem a
Idoso, Portland formação de funcionários e definem os padrões
de qualidade de desempenho. A sociedade civil
também desempenha um papel na atribuição de
Em muitas cidades de países em desenvolvi- apoio financeiro e na organização de trabalho
mento, constata-se a falta de serviços e artigos voluntário. Ao analisar os resultados e ao criar
básicos e noutras é referido que os serviços uma lista de aspectos relativos aos serviços de
são distribuídos de forma deficiente. Alguns apoio comunitário e aos serviços de saúde numa
dos países mais desenvolvidos têm simultanea­ cidade amiga dos idosos, o Guia centra-se nos
mente uma enorme quantidade e variedade aspectos do apoio comunitário e dos serviços
de serviços de saúde e de apoio comunitário e de saúde que se encontram dentro da área de
o maior número de reclamações. Embora este influência de uma cidade amiga dos idosos.
facto seja um indicador claro de insatisfação
relativamente aos serviços existentes, revela As questões relacionadas com os serviços de
também que nestas cidades os idosos têm um saúde dominaram as discussões em grupo na

66
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

maioria das cidades, reflectindo a importância emergência por telefone a idosos que vivem
de que se revestem quando falamos de envelhe- sozinhos, como sucede em Himeji.
cimento activo. O acesso a cuidados de saúde,
assim como a uma diversidade de serviços de A existência de estruturas sem obstáculos e
saúde que não são exactamente de natureza mé- a mobilidade dentro dos estabelecimentos de
dica, constituem temas fundamentais. Embora, saúde são importantes, da mesma forma que
em termos gerais, seja dada menos atenção a segurança dos edif ícios. Entre os obstáculos
ao apoio comunitário e aos serviços sociais, assinalados contam-se os elevadores e as
as características fundamentais podem ser rampas com uma manutenção deficiente em
identificadas a partir dos comentários feitos Udaipur, as más condições de acessibilidade de
pelos participantes. pessoas portadoras de deficiência aos edif ícios
e a inexistência de cadeiras de rodas ou anda-
1. Cuidados acessíveis rilhos para os pacientes, em Cancún. Foram
também mencionados os estabelecimentos
A existência de serviços de saúde bem localiza- sobrelotados em muitas outras cidades. Em
dos e facilmente acessíveis reveste-se de uma Amã, La Plata e em Portage la Prairie existem
importância fundamental para os idosos em to- preocupações relacionadas com a segurança
das as cidades que colaboraram no projecto. Os ou com a falta de espaço.
idosos em cidades como Amã, Rio de Janeiro,
Sherbrooke e Tóquio gostam de ter serviços de Outro obstáculo frequentemente menciona-
saúde perto do local onde vivem e em Genebra do, no que se refere ao acesso aos cuidados de
e Xangai os idosos valorizam a existência de saúde, consiste no conhecimento insuficiente
bons transportes para os estabelecimentos de dos serviços de saúde existentes na cidade. Tal
saúde. Os serviços que ficam muito longe ou como foi referido em Melbourne, se os servi-
que são de difícil acesso são frequentemente ços não forem conhecidos, não são utilizados.
vistos como obstáculos. Em alguns locais, os As possíveis soluções apresentadas incluem
transportes públicos são considerados inade- a divulgação dos serviços de saúde prestados
quados e noutros como, por exemplo, Deli e a nível local, a educação dos idosos relativa-
a Cidade do México, o transporte de pessoas mente aos serviços e ao sistema de saúde, a
portadoras de deficiência é referido como um coordenação da informação e a criação de um
problema de relevo. O acesso a cuidados de serviço telefónico de informação médica.
saúde em situações de emergência constitui
uma preocupação frequente. Para além de re- Finalmente, as atitudes dos prestadores de
clamações específicas, tais como a inexistência serviços em relação aos idosos são referidas com
de serviços de urgência em algumas cidades, os frequência. Tuymazy é um dos poucos locais em
inquiridos também referiram que os serviços que é feita referência ao comportamento educa-
prestados pelas ambulâncias eram insuficientes do e simpático dos recepcionistas e enfermeiros.
(Ponce) ou demasiado lentos devido ao tráfego As atitudes negativas e a deficiente comunicação
intenso (Moscovo). As formas de minimização por parte dos prestadores de serviços de saúde
dos obstáculos geográficos incluem o desdobra- são queixas comuns no que toca à prestação de
mento ou a descentralização dos serviços para cuidados. Os problemas mencionados incluem
que estejam disponíveis em todos os bairros. a indiferença, o desrespeito, as atitudes pouco
Outras ideias prendem-se com a disponibiliza- afectuosas e o tratamento dos idosos como se
ção de transporte organizado por voluntários fossem um fardo ou um escoadouro de recur-
ou com a prestação de serviços médicos de sos. As sugestões geralmente apresentadas para

67
melhorar as atitudes e o comportamento dos melhoria. A lista de serviços importantes inclui
prestadores de serviços consistem em melhorar o rastreio de prevenção, a actividade física,
as suas competências comunicativas e em for- a educação relativa à prevenção de acidentes,
mar os profissionais de saúde para que passem a orientação nutricional e o aconselhamento
a tratar melhor os idosos. Em Amã, foi sugerido em termos de saúde mental. Os aspectos
que os jovens fossem incentivados a cuidar de referenciados na área metropolitana do Ruhr
idosos como trabalho voluntário. incluem grupos de auto-ajuda ou organizações
que proporcionam actividades para manuten-
Quando vinham lavá-la e mudá-la, tratavam- ção da forma física ou para reabilitação, bem
‑na como uma peça de mobília – sem dignida- como exames regulares em casa. Na Cidade
de, sem respeito. do México, os idosos manifestam-se satisfeitos
com as campanhas de vacinação específica e
Idoso, Londres com a distribuição gratuita de óculos.
Em Saanich, os inquiridos sugerem que os
centros de terceira idade passem a ser centros
2. Uma maior diversidade
de bem-estar da comunidade, e as pessoas em
de serviços de saúde
Tuymazy propõem que o acesso dos idosos aos
Em todas as cidades, as opiniões das pessoas re- spas seja subsidiado. Em Islamabad e na Cidade
flectem a necessidade de uma maior diversidade do México, as pessoas consideram ser uma boa
de serviços de saúde para idosos. A existência ideia que os serviços sejam prestados nos dife-
de diversos tipos específicos de cuidados para rentes bairros e não num ponto central.
idosos surge quer como uma vantagem quer
como uma deficiência na paisagem urbana: são
4. Cuidados ao domicílio
mencionados serviços clínicos de geriatria e
camas de hospital, centros de dia, cuidados para Um tema bastante consistente relaciona-se com
idosos com problemas mentais, serviços de saú- a necessidade de diversas formas de apoio ao
de mental, cuidados de repouso e formação para domicílio e de serviços no domicílio – desde
prestadores de cuidados, reabilitação e cuidados a ajuda com as compras ou na preparação de
paliativos. Juntamente com os serviços, é tam- refeições até visitas domiciliárias, médicas ou
bém recomendada a existência de mais equipa- de outros prestadores de serviços. Com poucas
mentos, tais como cadeiras de rodas, andarilhos excepções, os participantes nos grupos de
e aparelhos auditivos. Contudo, os serviços de discussão querem serviços que lhes permitam
saúde que são alvo de maior atenção em todo o receber cuidados de saúde e de higiene pessoal
mundo são a prevenção de doenças e a promo- nas suas próprias casas. Os obstáculos sentidos
ção da saúde, os cuidados domiciliários e os lares na obtenção de serviços de cuidados ao domicí-
de terceira idade (cuidados de longa duração). lio incluem uma falta generalizada deste tipo de
serviços, critérios de elegibilidade muito restri-
3. Serviços que promovem um bom tivos, custos elevados e uma elevada mobilidade
envelhecimento dos prestadores de cuidados ao domicílio. As
sugestões para melhorar os serviços de presta-
Os idosos e outras pessoas, em várias cidades, ção de cuidados ao domicílio dependem muito
fazem referência à falta de serviços ou progra- do contexto. Em várias cidades, especialmente
mas de prevenção de doenças e de promoção em países em desenvolvimento, a mensagem
da saúde ou incluem-nos nas suas sugestões de é simplesmente “prestação de cuidados ao

68
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

domicílio”. Noutras cidades, os comentários os prestadores de cuidados sugerem a criação


centram-se na forma de melhorar a quantida- de lares de pequenas dimensões, para um re-
de ou a diversidade de serviços (por exemplo, duzido número de residentes, em vez dos lares
fisioterapia ou aconselhamento psicológico) ou de terceira idade “enormes”; da mesma forma,
a respectiva natureza (por exemplo, a prestação os prestadores de cuidados na Jamaica e os
de cuidados imediatamente a seguir a ter alta do idosos em Udine também sugerem a criação
hospital, o aumento do número de gestores de deste tipo de agrupamentos de casas, onde
caso e a possibilidade de beneficiar de cuidados haveria serviços de gestão e limpeza da casa e
sempre da mesma pessoa). Em alguns locais, os alguns cuidados de higiene pessoal e de saúde.
comentários têm a ver com as formas de con-
seguir suportar os custos, como por exemplo
6. Uma rede de serviços comunitários
através das apólices de seguros ou através da
utilização dos serviços de uma empresa coo- A área de abrangência dos serviços sociais co-
perativa de gestão e limpeza de casas, tal como munitários e a forma como são prestados varia
é mencionado em Sherbrooke. Em Xangai, os bastante de cidade para cidade. Em algumas
prestadores de cuidados referem que os idosos cidades, em especial em países desenvolvidos,
com mais de 80 anos, os viúvos, as pessoas com os serviços sociais são da responsabilidade
baixos rendimentos e as pessoas portadoras do Estado ou subsidiados pelo Estado. Nos
de deficiência deveriam ter direito a uma hora restantes locais, estes serviços são prestados
gratuita de serviço de gestão e limpeza da casa. principalmente pelas famílias, por grupos
religiosos, por organizações de caridade e por
5. Residências para a terceira idade, grupos comunitários. Entre os serviços apre-
para pessoas que não conseguem ciados pelos idosos oferecidos pela comunida-
viver em casa de contam-se, por exemplo, as refeições por
restaurantes do Rio de Janeiro e em Genebra,
Uma preocupação comum consiste na inexis- a ajuda com as pensões e outros subsídios na
tência na cidade de opções adequadas e eco- Jamaica e um sistema de selecção de emprei-
nomicamente acessíveis para cuidar de idosos teiros e de outros serviços, em Portland, com
que já não conseguem viver nas sua próprias o objectivo de verificar se são legítimos. Os
casas. A falta de vagas e os elevados custos são centros comunitários e os centros para a ter-
as queixas mais frequentes. Os prestadores de ceira idade são considerados locais ideais para
cuidados em Portage la Prairie referem que a realização de serviços sociais devido à sua
nos lares de terceira idade não há espaço sufi- conveniência, familiaridade e acessibilidade.
ciente para os objectos pessoais e em Genebra
os idosos sugerem que os lares de terceira São referidos alguns obstáculos, verificando-se
idade se localizem no centro da cidade, de problemas mais frequentes e mais graves em
modo a permitir um acesso fácil ao centro. Em regiões menos desenvolvidas: os serviços são
algumas cidades existem preocupações sérias insuficientes, demasiado caros, de difícil acesso
relativamente à segurança, aos cuidados sem e têm pouca qualidade. Tal como em relação aos
qualidade prestados em lares para idosos com serviços de saúde, alguns participantes afirmam
poucos recursos financeiros, número insufi- que simplesmente não têm boa informação
ciente de funcionários e a suspeita de adminis- acerca da oferta disponível e da forma de lhe ter
tração de sedativos aos residentes. São propos- acesso. A falta de coordenação entre serviços,
tas ideias para modelos alternativos: em Amã, determinando a existência de formalidades de

69
candidatura desnecessariamente complicadas e aos idosos em clínicas e hospitais, bem como
as lacunas nos serviços prestados são também prestar serviços sociais e cuidados ao domicílio,
frequentemente mencionadas como um pro- assegurar o transporte para idas às compras ou
blema. As sugestões para melhorar os serviços a consultas médicas, ou simplesmente para pas-
sociais comunitários são variadas. A melhoria da sear os animais de estimação de idosos que já
coordenação entre os vários serviços, o aumento não são capazes de o fazer sozinhos. As fontes
do número de gestores e a integração de equipas de voluntários sugeridas são as associações de
de prestação de serviços são ideias propostas reformados com mais de 50 anos, os estudantes
em cidades com redes de prestação de serviços das áreas de serviços sociais e de saúde e os alu-
solidamente estabelecidas, mas algo fragmen- nos das escolas. O voluntariado intergeracional
tadas. A redução ou simplificação das formali- é uma ideia que se repete em várias cidades. É
dades administrativas é mencionada na maioria mais fácil mobilizar redes fortes de voluntariado
das cidades, independentemente da região. A em comunidades estabelecidas, onde as pessoas
instalação de serviços sociais e de saúde em cen- sentem uma ligação social: um obstáculo men-
tros comunitários ou em centros para a terceira cionado em Islamabad tem a ver com o facto de
idade e a atribuição de mais financiamento aos a cidade ser demasiado nova e de as pessoas não
serviços são outras das recomendações. se conhecerem bem.

É referida a necessidade de criação ou melho- O porteiro é mesmo simpático, cuida de


ramento de muitos serviços sociais, muitas quatro idosos no meu prédio. Dá-lhes banho,
vezes para proteger e cuidar de idosos com é um empregado de limpeza e na hora do
baixos rendimentos, que são a maioria em almoço ajuda as pessoas.
muitas cidades. Para além de destacarem a
Idoso, Rio de Janeiro
necessidade de reforço do apoio financeiro bá-
sico, os idosos consideram que as respectivas
cidades deveriam criar ou aumentar abrigos
8. Outras questões
para idosos sem domicílio ou sem recursos
e para pessoas vítimas de maus-tratos; pro- Foram mencionadas outras preocupações
gramas e serviços de refeições; descontos nos em algumas cidades: a necessidade de ter em
serviços públicos para pessoas com baixos consideração os idosos quando se verifica uma
rendimentos; registos de idosos que vivem so- situação de emergência e a falta de espaço
zinhos; assistência no processo de obtenção de nos cemitérios. Embora estes aspectos sejam
pensões e outros subsídios e, finalmente, apoio raramente mencionados, são contudo bastante
espiritual. Um bom exemplo referido na Cida- importantes em cidades em processo de expan-
de do México é um cartão de identidade para são. Os participantes em dois locais constata-
idosos que confere ao portador acesso a preços ram a existência de uma lacuna no apoio aos
mais baixos e a alguns serviços gratuitos. idosos em situações de emergência, como as
catástrofes naturais e os conflitos humanos. Na
Jamaica, onde são frequentes os furacões, os
7. Necessidade de voluntários
idosos referem que as igrejas desempenham um
Um tema recorrente é a necessidade de volun- papel fundamental, pois em situações de catás-
tários que preencham as lacunas nos serviços trofe prestam cuidados aos idosos. Em Amã, os
de saúde e nos serviços sociais. São necessários prestadores de serviços sugerem que a cidade
mais voluntários que possam dar assistência elabore planos de emergência que incluam os

70
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

idosos. Embora a proposta não seja feita neste Melbourne é referida, de forma muito breve, a
contexto, em Dundalk foi apresentada uma su- inexistência de espaço suficiente no cemitério;
gestão útil em caso de emergência, que consiste como solução para o problema, os prestadores
na elaboração de um registo dos membros da de serviços de Melbourne sugerem a criação de
comunidade que vivem sozinhos. Em Cancún e um cemitério “vertical” ou por camadas.

Lista de verificação dos serviços comunitários


e de saúde
Acessibilidade dos serviços • Existe um acesso adequado a cemitérios.

• Os serviços de saúde e os serviços sociais


Oferta de serviços
encontram-se bem distribuídos por toda a
cidade, têm uma localização conveniente e • Existe uma oferta adequada de serviços
podem ser facilmente acedidos através de de saúde e de apoio comunitário para
todos os meios de transporte. promover, manter e restaurar a saúde.

• Os estabelecimentos residenciais para pres- • Existe oferta de serviços de prestação de


tação de cuidados, como casas de repouso cuidados ao domicílio, incluindo serviços
e lares para a terceira idade, ficam perto de de saúde, cuidados de higiene pessoal e
serviços e de zonas residenciais, para que os serviços de gestão e limpeza da casa.
residentes continuem integrados na comu-
nidade mais alargada. • Os serviços de saúde e os serviços sociais
oferecidos dão resposta às necessidades e
• As instalações para prestação de serviços preocupações dos idosos.
têm uma construção segura e são de fácil
acesso a pessoas portadoras de deficiência. • Os profissionais que prestam os serviços
têm as competências e a formação apropria-
• Existe informação clara e acessível sobre os das para poderem comunicar e servir
serviços de saúde e sobre os serviços sociais os idosos com eficácia.
para idosos.
Apoio voluntário
• A prestação de cada um dos serviços é co-
• Os voluntários de todas as faixas etárias são
ordenada e implica o mínimo de burocracia
incentivados e apoiados para auxiliarem os
possível.
idosos numa vasta área de cenários de saúde
e na comunidade.
• Os funcionários administrativos e os fun-
cionários que prestam os serviços tratam os
Planos e cuidados de emergência
idosos com respeito e delicadeza.
• Os planos de emergência incluem os idosos,
• Os obstáculos económicos que podem tendo em consideração as suas necessidades
impedir o acesso aos serviços de saúde e aos e capacidades de preparação e a resposta a
serviços de apoio comunitário são mínimos. emergências.

71
Parte 13. Conclusão e perspectivas
de futuro

Envelhecimento activo e cidades termos de saúde. Embora as oportunidades de


amigas das pessoas idosas trabalho remunerado nos contextos urbanos
estejam relacionadas com os determinantes
O ponto de partida deste Guia foi a noção de económicos do envelhecimento activo, mais
que uma cidade amiga das pessoas idosas é um importantes ainda são as políticas que redu-
incentivo ao envelhecimento activo, através da zem as desigualdades económicas no que diz
optimização de oportunidades para a saúde, respeito ao acesso a todas as estruturas, servi-
para a participação e para a saúde, de modo a ços e oportunidades da cidade.
melhorar a qualidade de vida à medida que as
pessoas envelhecem. As vantagens e os obstá- A elaboração de projectos que contemplem
culos relatados pelos cerca de 1500 idosos e cer- a diversidade surgiu como um aspecto fun-
ca de 750 prestadores de cuidados e prestadores damental de uma cidade amiga das pessoas
de serviços consultados para a elaboração deste idosas, repetido frequentemente em vários dos
projecto global confirmam esta noção e pro- tópicos abordados. No âmbito da perspectiva
porcionam muitos exemplos de como as de ciclo de vida descrita na parte 2, projectar
características de uma cidades reflectem os para a diversidade é a base fundamental em
determinantes do envelhecimento activo de que se apoia a maximização das capacidades de
muitas formas interligadas. A paisagem, os pessoas altamente funcionais e que permite
edifícios, o sistema de transportes e a habitação que os idosos, que de outra forma se tornariam
da cidade contribuem para uma mobilidade dependentes, funcionem. Segundo os partici-
confiante, um comportamento saudável, pantes no projecto, deveria ser normal numa
para a participação social e para a autodeter- cidade amiga dos idosos que o ambiente natural
minação ou, pelo contrário, para um isolamen- e o ambiente construído estivessem prepara-
to triste, para a inactividade e para a exclusão dos para utentes com capacidades distintas,
social. Uma vasta gama de oportunidades em vez de estarem preparados para a mítica
para uma participação integrada segundo a pessoa “normal” (ou seja, jovem). Uma cidade
idade e também para uma participação social amiga das pessoas idosas coloca a tónica na ca-
direccionada para uma determinada idade pacitação em vez de na incapacidade; é amiga
fomenta a existência de fortes ligações sociais de todas as idades e não somente “amiga da
e do empowerment pessoal. Empowerment e terceira idade”. Deve haver suficientes bancos
auto-estima são reforçadas por uma cultura e instalações sanitárias; os passeios rebaixados
que reconhece, respeita e inclui os idosos. e as rampas de acesso aos edif ícios devem ser
O acesso a informação relevante em forma- aspectos comuns e os semáforos nas passadei-
tos apropriados também contribui para o ras para peões devem ter intervalos de tempo
empowerment pessoal, bem como para tipos que permitam uma travessia em segurança.
de comportamento saudáveis. Os serviços de Os projectos de casas e edif ícios não devem
saúde acessíveis e bem coordenados exercem ter obstáculos. Os materiais informativos e as
uma influência óbvia sobre o estado de saúde tecnologias de comunicação devem ser adap-
dos idosos e sobre o seu comportamento em tados para poderem dar resposta a diversas

72
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

necessidades perceptivas, intelectuais e cultu­ deveria promover a solidariedade entre as


rais. Resumindo, os espaços e as estruturas gerações e no seio das comunidades, facilitan-
devem ser acessíveis. do as relações sociais – nos serviços prestados
localmente e nas actividades que aproximam
O reconhecimento e respeito pela diversidade as pessoas de todas as idades. Devem ser pro-
devem caracterizar as relações sociais e de pres- movidas oportunidades para que os vizinhos
tação de serviços, tal como o fazem as estrutu- se conheçam mutuamente; os vizinhos devem
ras e os materiais físicos. Os participantes neste olhar pela segurança uns dos outros e devem
projecto da OMS deixaram bem claro que o ajudar-se e informar-se mutuamente. Graças
respeito e a consideração pelo indivíduo devem a uma rede de familiares, amigos, vizinhos
ser valores fundamentais na rua, em casa e prestadores de serviços, os membros idosos
e na estrada, em serviços públicos e comerciais, de uma comunidade devem sentir-se integra-
em contextos de trabalho e de prestação de cui- dos e em segurança. Além disso, deveria haver
dados. Numa cidade amiga das pessoas idosas, contactos personalizados com os idosos em
os utentes dos espaços públicos devem ser res- risco de isolamento social e deveriam ser redu-
peitadores quando partilham as mesmas infra- zidos os obstáculos económicos, linguísticos e
estruturas. Os lugares prioritários nos transpor- culturais que muitos idosos têm de enfrentar.
tes públicos, as paragens para passageiros com
necessidades especiais e os lugares de estacio- Aspectos urbanos integrados
namento para pessoas portadoras de deficiên- e que se reforçam mutuamente
cia devem ser respeitados. Os serviços devem
As fortes ligações entre os diferentes aspectos
contratar funcionários prestáveis que facultem
da vida na cidade estabelecidas pelas pessoas
assistência personalizada. Os empregados do
consultadas no âmbito do projecto da OMS
comércio devem atender os idosos tão bem e
revelam claramente que uma cidade amiga
prontamente como atendem outros clientes.
das pessoas idosas só pode ser o resultado
Os empregadores e as agências devem oferecer
de uma abordagem integrada e centrada na
condições flexíveis e formação aos trabalhado-
forma como as pessoas vivem. A adopção
res e voluntários idosos. As comunidades
desta abordagem equivale a coordenar acções
devem reconhecer o valor do contributo passa-
em diferentes áreas da política e dos serviços
do dos idosos e não somente o presente.
da cidade, para que se reforcem mutuamente.
Na medida em que a educação desperta a
Com base nos relatos dos idosos e de outras
tomada de consciência, às crianças deve ser
pessoas envolvidas no projecto, a acção con-
ensinado o que é o envelhecimento e quem
junta que respeite as seguintes relações surge
são os idosos, e os meios de comunicação como particularmente importante.
social devem representá-los de forma realista
e não estereotipada. • A habitação deve ter em consideração os
espaços exteriores e o restante ambiente
A abordagem segundo o ciclo de vida inclui construído, de modo a que as casas dos ido-
todas as faixas etárias no processo de pro- sos sejam construídas em áreas protegidas
moção do envelhecimento activo, abarcando contra os perigos naturais e perto de servi-
também o valor da solidariedade intergeracio- ços, de outros grupos etários e de atracções
nal. Na opinião dos participantes no projecto, cívicas que lhes permitam manterem-se
outra característica importante de uma cidade integrados na comunidade, manterem a
amiga das pessoas idosas é o facto de que mobilidade e a boa forma f ísica.

73
• Os serviços e as infra-estruturas de trans- da listas de verificação efectuadas com base
porte deverão sempre estabelecer a ligação nas opiniões dos idosos com os resultados da
com oportunidades de participação social, investigação e prática gerontológica.
cívica e económica, bem como ao acesso a
serviços de saúde básicos. Enquanto isso, muitas outras cidades manifes-
taram interesse na utilização do Guia e das lis-
• A inclusão social dos idosos deve contem- tas de verificação da OMS com o objectivo de
plar os cenários e funções sociais associados darem início ao desenvolvimento de projectos
a poder e estatuto na sociedade, tais como a amigos das pessoas idosas. Encontra-se actual­
tomada de decisões na vida cívica, o traba- mente em estudo a criação de redes a nível
lho remunerado e a programação de meios nacional, por exemplo no Japão e em Espanha,
de comunicação social. assim como “centros de interface” regionais no
Médio Oriente, no Canadá, na América Latina
• Porque o conhecimento é fundamental e nas Caraíbas. De modo a facilitar a dissemi-
para o empowerment, a informação sobre nação das cidades amigas das pessoas idosas,
todos os aspectos da vida na cidade deverá está em curso a tradução do Guia para várias
estar sempre acessível a todos. línguas, em que se incluem o Mandarim, o
Francês, o Alemão, o Português e o Espanhol.
Para além do guia e da lista Como a ideia das cidades amigas das pessoas
de verificação de cidades amigas idosas tem bastantes aspectos em comum
das pessoas idosas com o bem sucedido e eficaz conceito das
Cidades Saudáveis, está a ser estudada a pos-
Este projecto é um ponto de partida para sibilidade de uma ligação activa e mutuamente
muitas mais actividades de desenvolvimento benéfica entre as duas redes. Na OMS, o pro-
e investigação da comunidade e também para grama sobre Envelhecimento e Ciclo de Vida
a criação de uma rede global mais alargada de continuará a proporcionar um “lar” institucio-
comunidades amigas das pessoas idosas. Os nal à iniciativa de cidades amigas das pessoas
próximos passos a serem dados pelas cidades idosas da OMS.
que colaboraram no projecto e pela OMS
consistirá em avaliar a validade das listas de Os participantes nos grupos de discussão rela-
verificação. Uma cidade já procedeu a visitas taram vários exemplos de práticas amigas das
aos locais para verificar quais os obstáculos pessoas idosas existentes nas respectivas cida-
existentes no ambiente natural e no ambiente des. Algumas destas práticas foram mencio-
construído, assim como nos serviços, relatados nadas de forma breve neste Guia. Outro passo
pelos idosos. Outras cidades estão a voltar aos importante consiste em obter informação
participantes nos grupos de discussão originais adicional sobre estas iniciativas junto dos líde-
para determinarem se os aspectos menciona- res do projecto e proceder à publicação de um
dos no Guia abrangem de forma precisa o que inventário destas boas práticas. Em Junho de
eles disseram, ou estão a constituir grupos de 2007 teve lugar uma conferência com a finali-
discussão com idosos noutros locais, de modo dade de trocar ideias de iniciativas amigas das
a avaliarem o nível de correspondência entre pessoas idosas, a nível local e internacional.
as suas opiniões e as listas de verificação. A conferência realizou-se na área metropoli-
Outra abordagem possível à validação poderá tana do Ruhr, com o patrocínio do Governo
envolver especialistas na área do envelheci- da Renânia do Norte-Vestefália, para marcar a
mento, os quais procederão à comparação escolha da cidade de Essen como Capital Euro-

74
ENVELHECIMENTO E CICLO DE VIDA, SAÚDE NA FAMÍLIA E NA COMUNIDADE

peia da Cultura em 2010. Está a ser organizado pel que os determinantes transversais género
um outro encontro para debate de melhores e cultura desempenham no envelhecimento
práticas, cuja realização está prevista para activo, embora os seus efeitos sejam esporadi-
Istambul, também relacionado com a selecção camente mencionados neste Guia. A título de
desta cidade como a outra Capital Europeia da exemplo, constata-se em muitas cidades que
Cultura em 2010. Com a finalidade de permitir os homens estão menos envolvidos em activi-
a criação de mais boas práticas inspiradas pela dades sociais e a situação de muitas mulheres
pesquisa da OMS, especialistas e prestadores idosas é descrita nos obstáculos com que os
de serviços serão convidados a identificar grupos economicamente desfavorecidos se
intervenções correspondentes a aspectos ami- deparam em muitas áreas da vida urbana.
gos das pessoas idosas mencionados nas listas Será realizada investigação mais focada nestes
de verificação. As actuais listas também serão determinantes específicos, contando com a
testadas em pelo menos um local, de modo a colaboração de cidades em diferentes regiões
ser verificada a sua utilidade para a criação de do globo, a começar por uma iniciativa da
intervenções amigas das pessoas idosas. Academia de Medicina de Nova Iorque, cujo
tema é “envelhecer num país estrangeiro”.
A pesquisa que deu origem ao Guia propor-
cionou a descoberta de grandes riquezas em Para finalizar, as comunidades não-urbanas
todo o mundo, assim como os contactos entre também têm de se tornar mais amigas das pes-
investigadores na área do envelhecimento e soas idosas. Em muitos países, os idosos consti-
do ambiente. Com o apoio do Instituto do tuem uma percentagem elevada da população
Envelhecimento, dos Institutos Canadianos em zonas rurais e remotas, em resultado da
de Investigação na Área da Saúde [Institute of emigração dos jovens. No Canadá, o governo
Aging, Canadian Institutes of Health Resear- federal e os governos das províncias encon-
ch], a colaboração entre investigadores está a tram-se a desenvolver um projecto com a fina-
ser incentivada, tendo por objectivo a divul- lidade de se proceder à identificação, em várias
gação de conhecimento relativo ao envelhe- aldeias e vilas, dos elementos da comunidade
cimento em cenários urbanos. Está prevista a que podem ser considerados amigos dos idosos
realização de artigos em que serão descritos de e os resultados serão numa fase posterior par-
modo mais detalhado o conceito e a metodolo- tilhados com a comunidade internacional.
gia da pesquisa realizada pela OMS, examina-
dos com maior detalhe os cenários amigos das Verifica-se já a existência de um grande entu-
pessoas idosas em relação ao envelhecimento siasmo relativamente à divulgação e adopção
activo, e revelados aspectos comprovativos deste Guia e desta lista de verificação. Novas
das convergências entre o envelhecimento, iniciativas e novos colaboradores serão bem-
a urbanização e a globalização – as principais ‑vindos. O envelhecimento activo em cidades
forças modeladoras do século XXI e que estão que prestam apoio e estimulam a capacitação
no centro deste projecto. constitui uma das mais eficazes abordagens,
tendo em vista a manutenção da qualidade de
Tal como anteriormente referido, a presente vida e a prosperidade num mundo cada vez
investigação não focou especificamente o pa- mais idoso e mais urbano.

75
Referências

1. Population Ageing 2006. Nova Iorque, United 9. Report of the Second World Assembly on
Nations Department of Economic and Social Ageing, Madrid, 8-12 Abril 2002. Nova Iorque,
Affairs, Population Division, 2006 Nações Unidas, 2002.
(http:// www.un.org/esa/population/publica-
tions/ageing/ageing2006.htm, consultado a 10. Active ageing: a policy framework. Genebra,
10 de Julho de 2007). Organização Mundial da Saúde, 2002
(http://whqlibdoc.who.int/hq/2002/WHO_
2. Population issues: meeting development goals. NMH_NPH_02.8.pdf, consultado a 26
Fast facts 2005. Nova Iorque, United Nations de Junho de 2007).
Population Fund, 2007 (www.unfpa.org/pds/
facts.htm, consultado a 26 de Junho de 2007). 11. Marmot M. Health in an unequal world. The
Harveian Oration. Londres, Royal College of
3. Urbanization: a majority in cities. Nova Iorque, Physicians of London, 2006.
United Nations Population Fund, 2007
(www. unfpa.org/pds/urbanization.htm, 12. Kalache A, Kickbusch I. A global strategy for
consultado a 26 de Junho de 2007). healthy ageing World Health, 1997, No. 4:4-5.

4. World urbanization prospects: the 2005 revi- 13. Guidelines for review and appraisal of the
sion. Fact sheet 7. Mega-cities. Nova Iorque, Madrid International Plan of Action on Ageing.
United Nations Department of Economic Bottom-up participatory approach. Nova
and Social Affairs, Population Division, 2006 Iorque, Nações Unidas, 2006 (http://www.
(www.un.org/esa/population/publications/ un.org/esa/socdev/ageing/documents/MIPAA/
WUP2005/2005wup.htm, consultado a 26 GuidelinesAgeingfinal13%20Dec2006.pdf, con-
de Junho de 2007). sultado a 26 de Junho de 2007).

5. A billion voices: listening and responding to 14. Livable communities: an evaluation guide.
the health needs of slum dwellers and informal Washington, DC, AARP Public Policy Insti-
settlers in new urban settings. Kobe, Centro da tute, 2005 (www.aarp.org/research/ housing-
OMS em Kobe,2005 (www.who.int/social_deter- mobility/indliving/d18311_communities.html,
minants/resources/urban_settings.pdf, consulta- consultado a 26 de Junho de 2007).
do a 26 de Junho de 2007).
15. The AdvantAge initiative. Improving communi-
6. World urbanization prospects: the 2005 revi- ties for an aging society. Nova Iorque, Visiting
sion. Nova Iorque, United Nations Department Nurse Service of New York, 2004 (http://www.
of Economic and Social Affairs, Population vnsny. org/advantage, consultado a 26 de Junho
Division, 2006 (www.un.org/esa/population/ de 2007).
publications/WUP2005/2005wup.htm,
consultado a 26 de Junho de 2007). 16. Improving the quality of life of the elderly and
disabled people in human settlements. Nairobi,
7. Living conditions of low-income older people in United Nations Human Settlements Program-
human settlements. A global survey in connec- me, 1993 (www.unhabitat.org/list. asp?typeid=
tion with the International Year of Older People 15&catid=298&RecsPerPage=ALL, consultado
1999. Nairobi, United Nations Human Settle- a 26 de Junho 2007).
ments Programme, 2006 (http://ww2.unhabitat.
org/programmes/housingpolicy/pubvul.asp, 17. Inclusive design for getting outdoors. Design
consultado a 26 de June de 2007). guidance. Edimburgo, I’DGO Consortium,
2007 (http://www.idgo.ac.uk/design_
8. Declaração de Brasília sobre o Envelhecimento. guidance/ index.htm, consultado a 26 de Junho
World Health,1997, No. 4: 21. de 2007).

76