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Questão de gênero: inclusão/exclusão da mulher

no complexo midiático
Helena Corazza1
Introdução

O tema é instigante, atual e complexo, tanto pela abrangência, quanto pela


problemática que traz consigo. A atualidade do tema, “mulher no contexto midiático”, é
indiscutível e demonstrada pelos freqüentes seminários, conferências e simpósios2 que
continuam sendo programados, tanto em nível internacional quanto nacional e latino-
americano, além dos estudos acadêmicos que demonstram constante preocupação na
análise em diferentes perspectivas.
As mulheres, de fato, estão em evidência, sobretudo em algumas mídias como
revistas, televisão e internet. Não obstante estes e outros avanços e conquistas na cidadania,
vencendo a exclusão e marcando presença nas diferentes mídias, elas ainda percebem e
enfrentam discriminação. Pode-se dizer que a cidadania ainda é uma conquista, que precisa
acontecer, passo a passo, nos diferentes campos: social, econômico cultural e até mesmo
religioso.
Importa recordar que nos 10 anos da Conferência internacional de Beijing, 1995, as
mulheres fazem balanço, constatando que a presença brasileira e latino-americana foi
significativa. Para Sílvia Maria Sampaio Camurça, a Plataforma de Ação da IV Conferência
Mundial sobre a Mulher, na avaliação das feministas, é talvez o documento mais completo
produzido no âmbito da ONU com relação aos direitos da mulher, uma vez que incorpora o
que se conquistou em outras conferências e tratados anteriores. Entretanto, as contradições
e, sobretudo, a desigualdade social continua. (CAMURÇA, 2005, p. 66).
Na amplidão do tema, o recorte dessa pesquisa é a mulher cidadã, na mídia. Muitas
são as formas de presença da mulher na imprensa, cinema, rádio, televisão, internet,
música, publicidade, e na arte tem crescido nos últimos anos. Apenas para ilustrar, a Bienal
de Veneza, iniciada em 1895 com a participação de 2,4% de mulheres, cem anos depois
conta com a participação de 38% de mulheres, destacando o “olhar feminino” (FSP,
12/6/2005:E6). É uma transformação lenta que passa pela Cultura, tanto na produção
midiática, quanto no mundo vivido por mulheres e homens.
A presente pesquisa retoma os conceitos em relação a gênero e faz uma revisão
bibliográfica, com muitos limites, apenas como amostragem da discussão temática. Levanta
dados possíveis sobre a mulher no contexto midiático e confronta-o com a realidade de
algumas mulheres que são atuantes hoje.

Gênero como categoria de análise

Conforme demonstram as pesquisas, a temática das Relações de Gênero, como


categoria de análise, é relativamente recente. Há um percurso histórico do movimento

1
Jornalista, mestra em Ciências da Comunicação pela ECA-USP com a dissertação “Comunicação e Relações
de Gênero em práticas radiofônicas da Igreja católica no Brasil”. Publicação Paulinas, 2000. Professora de
Comunicação, presidente da RCR (Rede Católica de Rádio).
2
I Simpósio Brasileiro “Gênero & Mídia” acontece em Curitiba, PR, de 14 a 17 de agosto de 2005, reunindo
especialistas de diversas universidades do país.
feminista e dos estudos sobre a mulher que se refletem em tendência teóricas nos estudos
acadêmicos. Estas consideram a dimensão relacional e do poder, uma busca que deveria ser
conjunta de mulheres e homens (BANDEIRA/OLIVEIRA, 1991, pp. 52-69). Importa
considerar também que, historicamente, vive-se numa sociedade pautada a partir dos
parâmetros masculinos, o que torna mais árduo qualquer trabalho ou estudo em relação a
essa temática.
Entre as muitas considerações existentes, adotamos que gênero é um conceito
relacional que vê o homem ou a mulher em relação e não isoladamente. Uma definição
clássica de Scott, destaca que “gênero é um elemento constitutivo das relações sociais
fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é um primeiro modo de
dar significado às relações de poder” (SCOTT, 1990, p. 14).
O conceito de gênero relacional é abrangente para dar conta da complexidade e da
singularidade da relação entre homens e mulheres, pois, na relação entre os gêneros, “os
atores homens e mulheres são dicotomicamente separados, apesar de manterem suas
próprias diferenças”(QUINTEIRO, 1996, p. 25).

Resgate histórico da militância feminina e estudos sobre gênero

A história da entrada da mulher na esfera pública da sociedade foi um processo


gradativo. Pode-se dizer que data do Século XVIII com Revolução Francesa, a busca dos
direitos sociais, entre eles, os direitos da mulher. Ela amplia-se no início do século XIX na
Europa e, por decorrência, no Brasil, com mulheres que refletem e buscam um lugar ao sol.
Em nosso país, a história registra a presença significativa de mulheres, desde o tempo do
Brasil colônia, depois as famílias burguesas, as mulheres em diferentes regiões e suas lutas,
incluindo diferentes categorias, entre elas, educadoras, trabalhadoras e também pobres
(PRIORE, 1997).
Muitos são os estudos acadêmicos que versam sobre a mulher no contexto da
comunicação. Antes mesmo de existirem as Escolas de Comunicação, já houve mulheres
em redações de Jornais, mulheres escritoras como Nisia Floresta, considerada pioneira no
cenário nacional. Ela escreveu já em 1832, considerando que a imprensa chegou ao país
apenas em 1816.
Dois trabalhos acadêmicos foram encontrados sobre esta mulher brasileira, talvez
pouco conhecida, mas conforme a pesquisadora Constância Lima Duarte, protagonista e
pioneira do feminismo brasileiro, no século XIX. O primeiro livro escrito por Nísia
Floresta, com 22 anos de idade, é também o primeiro de que se tem notícia no Brasil, que
trata dos direitos das mulheres à instrução e ao trabalho, e que exige que elas sejam
consideradas como seres inteligentes e merecedoras de respeito pela sociedade. Publicado
em 1832 em Recife (PE), tem o sugestivo título “Direitos das Mulheres e Injustiça dos
Homens”. Nessa época, a grande maioria das mulheres brasileiras vivia enclausurada em
preconceitos, sem qualquer direito que não fosse o de ceder e submeter-se à vontade
masculina (DUARTE, 1989).
Nísia Floresta deve ter sido uma das primeiras mulheres, no Brasil, a romper os
limites do espaço privado e a publicar textos em jornais da chamada grande imprensa. E
foram muitas as colaborações na forma de crônicas, contos, poesias e ensaios. Conforme
Duarte, esse é um traço da modernidade de Nísia Floresta: sua constante presença na
imprensa nacional, desde 1830, sempre comentando as questões mais polêmicas da época.
Os estudos no âmbito acadêmico brasileiro ocuparam grande espaço da década de
1970, tiveram seu apogeu na década de 1980, quando o tema alcançou maior evidência.
Num primeiro momento (1980/85), os estudos estiveram mais voltados à mulher e sua
participação e representação política nas esferas macro do poder. Nos anos seguintes
(1985/87), a pesquisa voltou-se mais para a mulher enquanto sujeito e sua identidade no
cotidiano. No final da década de 1980 (1987/89) a incorporação do feminino e masculino e
o início da incorporação da categoria de gênero (BANDEIRA/OLIVEIRA, 1991, p. 55).
Observa-se também que a continuidade dos estudos de 1990 a 2004, ainda que nos limites
desta pesquisa, continuam atuais. A academia entra no Terceiro Milênio querendo ainda
compreender, mais e melhor, as questões sobre a mulher na mídia em diferentes âmbitos.
A partir da legitimação do tema, núcleos de estudo foram organizados nas
Universidades sobre Relações Sociais de Gênero, como o NEMGE na USP, “Pagu” na
Unicamp (Campinas, SP), entre outros. O conceito de gênero foi sendo incorporados pelas
Ciências Sociais e, gradativamente, incluído também nos estudos da comunicação,
conforme estudos na área (CORAZZA, 2000).

Mulheres e Imprensa

Sendo a Imprensa, uma das expressões mais tradicionais na comunicação, é quase


uma conseqüência natural que os estudos acadêmicos de comunicação, no final dos anos
1960 e 1970, estejam mais voltados ao conteúdo e à análise dos meios impressos, como
revistas femininas, fotonovelas, tendo em conta a ideologia e a cultura. O primeiro estudo
conhecido sobre a opressão feminina é o de Michèle Mattelart, produzido num contexto de
denúncia do imperialismo transnacional (MATTELART, 1977). Destaca-se, nessa fase, a
subordinação da mulher ao masculino, procurando identificar os valores dominantes e o
reforço dos estereótipos femininos em relação à mulher.
Entre as pesquisas existentes no Brasil, as primeiras trabalham a representação da
mulher na imprensa feminina. A preocupação é identificar a representação da mulher pela
análise dos conteúdos veiculados, sobretudo em revistas femininas, lidas por mulheres
como A cigana, O Cruzeiro, Revista Ilustrada, A Senhorita, entre outras (BUITONI, 1981).
Aqui são trazidos os mitos e símbolos que fazem parte do universo feminino e suas
reproduções que alimentam o imaginário da mulher.
Outra análise da imprensa feminina é feita por Sônia Mascaro. Uma análise da
Revista Feminina, iniciada em 1914 e dirigida por Virgínia de Souza Salles da sociedade
paulistana. Uma revista que traz cultura para as mulheres que fazem parte de círculos
literários da época. Trabalho que estuda a representação da mulher (MASCARO, 1982).
Trabalho clássico a ser lembrado, na linha dos estudos da mulher na cultura de
massa é o de Ecléa Bosi. Aborda o universo das operárias numa fábrica de São Paulo, e da
“leitura” que elas faziam dos produtos culturais. A preocupação da autora girou em torno
da comunicação de massa, sua incidência na vida das operárias, já na perspectiva da
recepção, a partir da cultura das classes pobres (BOSI, 1974).
Análise também foi feita de publicações exclusivas da mulher como A Página
feminina, uma publicação semanal vespertina da década de 1940, um projeto empresarial–
jornalístico de Cásper Líbero, diretor proprietário do jornal, com o intuito de entrar na
modernidade. Em pauta nessa publicação colunas de beleza, moda, culinária, trabalhos
manuais, crônicas e contos, resenhas literárias, decoração, comportamento, etiqueta, poesia
entre outros assuntos de interesse para a mulher (HIME, 2003, p. 160).
A imprensa continua sendo fonte de análise sobre a representação da mulher, ainda
nos dias atuais como mostra a pesquisa “A máscara da modernidade: a mulher na revista O
Cruzeiro (Serpa, 2003). Um estudo que analisa as mudanças trazidas pela modernidade e
pelo Estado Novo, nas representações simbólicas sobre a mulher. O objeto da análise são as
reportagens, notícias, fotografias, colunas, publicidade e propagandas veiculadas na revista
O Cruzeiro, no período de 1928-1945. A pesquisa indaga o que levou Assis Chateaubriand
a criar esse periódico, representativo das mulheres e mais lido no país, em tempos de
urbanização, em que o Brasil cultivava ares de modernidade.
A pesquisa considera que essa foi uma história cheia de signos, de um imaginário
que polemizou e emocionou o leitor brasileiro, mas que, sobretudo, ditou modas, normas e
até conceitos, numa intencional propagação da modernidade inspirada nos ditames
Hollywoodianos. Daí a compreensão de que a revista apregoava uma modernidade
mascarada, que substituía a submissão feminina social e doméstica pela doutrina da beleza
e do consumo.

Mulheres e Rádio

Alguns estudos resgatam a presença da mulher no Rádio, tanto em relação à


influência do veículo, quanto a um resgate histórico e de gênero. Favorito estuda a
influência que programas de Rádio exercem sobre mulheres da área rural de Pintanga, PR.
A análise é feita com 40 trabalhadoras rurais de dois clubes de mães que se identificam com
a programação e as temáticas e consideram o Rádio, Deus no céu e o Rádio na terra, título
da pesquisa (FAVORITO, 1989).
Outros resgatam a história de mulheres que trabalharam no Rádio, ao longo da
história, e forma esquecidas ou pouco citadas. Tesser faz uma pesquisa histórica sobre a
presença e ausência da mulher na história do Rádio no Brasil, sobretudo nas grandes
emissoras do Rio e São Paulo, nos anos de 1924 a 1943, sua pouca visibilidade, pelo fato
de não serem citadas. No contexto histórico da época, também aborda o trabalho das
pioneiras em diversas manifestações culturais e profissionais. O objetivo é o de resgatar os
nomes e a atuação dessas mulheres que, embora tenham sido muito importantes para o
rádio, não receberam da história o destaque merecido, numa época em que o trabalho
feminino ficava restrito à unidade familiar.
A pesquisa apresenta as artistas que atuaram como cantoras, atrizes e locutoras;
mulheres que enfrentaram preconceitos e participaram efetivamente dos anos de
implantação de uma programação radiofônica. Segundo a autora, esse registro oferece uma
contribuição documental que poderá auxiliar estudantes e profissionais de comunicação e,
também, uma forma de homenagear aquelas que colocaram as suas vozes a serviço do rádio
(TESSER, 1994).
Entre as emissoras de Rádio, há um número significativo de concessões à Igreja
católica, no Brasil, também objeto de estudo. Dissertação de mestrado sobre o assunto,
mostra que 28% das funcionárias são mulheres e 72% são homens. A pesquisa
“Comunicação e Relações de gênero em práticas radiofônicas”, mostra que as mulheres que
estão em evidência, com cargos de diretoria e também apresentadoras não chegam a 10%.
Além do mapeamento com dados quantitativos, a pesquisa de campo trabalhou a percepção
do receptor a partir de gênero com referenciais teóricos dos Estudos Culturais.
A pesquisa de campo com os(as) ouvintes foi feita em duas emissoras, uma com
tradição mais pautada por padrões masculinos, sobretudo nos apresentadores, no modo de
fazer Rádio, e outra cuja diretora era mulher e o programa de maior audiência, também
apresentado por uma mulher (CORAZZA, 1999). A partir das(os) ouvintes, aplicando
diferentes técnicas, a pesquisa observa a percepção das(os) ouvintes a respeito das questões
de gênero, presença, ausência, visibilidade, e como reelaboram as mensagens recebidas, no
que diz respeito a gênero.
Em relação às mulheres profissionais, o que se observou na pesquisa, é que elas não
dão muito peso à discriminação e ressaltam que ali estão e são bem sucedidas não tanto por
serem mulheres, mas por demonstrarem competência.

Mulheres na televisão, cinema e propaganda

Algumas pesquisas também trazem a contribuição sobre a representação do


feminino no televisão e no cinema, bem como na propaganda. A preocupação é mapear a
presença da mulher em produções veiculadas pela mídia, como a de Gisele Paulucci “A
representação do feminino no seriado mulher: análise do discurso” (PAULUCI, 2001).
Esta pesquisa parte de um produto ficcional televisivo, Mulher, um seriado
produzido pela Rede Globo e exibido semanalmente durante dos anos de 1998 e 1999. A
trama central do programa, a atuação de duas médicas numa clínica especializada na saúde
da mulher, levou à análise da representação do feminino no discurso, com o objetivo de
avaliar as características associadas pela enunciação à mulher, bem como os modelos
propostos pela atuação feminina na sociedade brasileira no final da década de 1990. O
estudo teve em conta as características inerentes ao discurso televisivo: a serialidade, a
fragmentação, a auto-referência.
A partir da análise realizada e de sua comparação com o contexto formado por
outras produções do mesmo enunciador, encontrou-se um modelo de figura feminina
veiculado ao seriado, meio de sobrevivência, mas principalmente como fonte de prazer e
elemento definidor da identidade da mulher. Esse modelo feminino, independente no plano
econômico, não é associado aos papéis tradicionais reservados às mulheres, como o da
dona de casa e da esposa submissa, e sua criação leva ao questionamento dos valores
patriarcais que ainda estão presentes na sociedade brasileira. Para essa mulher, a realização
amorosa é tão importante quanto a profissional, a criação de uma família e sua conciliação
com a carreira é um de seus conflitos mais prementes, cuja resolução se dá através do
aprendizado e da proposição e negociação de novos papéis a desempenhar por ambos os
parceiros de uma relação amorosa.
Ainda nas pesquisas de televisão, mas com o olhar a partir do receptor, esta o estudo
de Ronsini, que tem por objetivo compreender os mecanismos de apropriação e/ou
resistência da mulher rural frente às mensagens televisivas. A investigação está na relação
do melodrama com as práticas produtivas e culturais de uma comunidade rural, porque se
acredita que são estas práticas que fundamentaram um sistema de reconhecimento e
diferenciação simbólica nos grupos sociais. O modelo teórico metodológico adotado é o das
mediações, desenvolvido na América Latina por pesquisadores como Jesus Martin-Barbero,
Guilhermo Orozco. Por mediações se entende os lugares a partir dos quais se configuram os
significados atribuídos aos conteúdos massivos (RONSINI, 1993).
O uso do vídeo pelos grupos feministas, também é investigado enquanto um meio
de apoio às suas ações na realidade social. Um dos interesses da pesquisa foi sistematizar
uma série de dados e informações que estavam completamente dispersos, acerca dos vídeos
produzidos sobre a temática da mulher e a formação de videotecas especializadas. Outra
perspectiva desta pesquisa foi avaliar a atuação de alguns grupos e instituições no âmbito
da produção e difusão, buscando observar o uso do vídeo a partir da descrição do
funcionamento interno dos grupos e instituições. Este estudo abrange a década de 1980,
mais precisamente as produções realizadas entre 1981 e 1992, período de emergência e
crescimento do uso do vídeo pelos diversos movimentos sociais no país. A pesquisa foi
realizada em São Paulo, onde se concentrava a maior parte da produção, cerca de 50 vídeos
(MARQUES DE MELO, 1993).
A busca da compreensão da representação da mulher no cinema como é o caso da
pesquisa “A virtualização da mulher nos meios de comunicação” (SOARES, 2003). Um
estudo que estuda a representação simbólica da imagem da mulher na propaganda e no
cinema, abordando os seus diversificados papéis no decorrer de três momentos históricos: o
papel da mulher na época da Revolução Industrial e na Indústria Cultural com a análise do
filme “Metrópolis” (1926), de Fritz Lang, onde surgem novos paradigmas sobre a mulher-
máquina.
Outro aspecto é a mulher na sociedade de massa, que se inicia na década de 1960,
onde acontecem diversas revoluções, entre elas, a revolução feminina, pós-industrial, onde
os valores sociais no cinema abordam os valores sociais do feminino. Aqui a análise do
filme “Barbarella” de Roger Vadim. E, num terceiro olhar, a sociedade pós-industrial, que
apresenta o início da robotização feminina, representada pela revolução tecnológica. O
autor faz análise crítica sobre essa trajetória, passando pela propaganda, exemplificando
através do cinema com o filme “Blade Runner”, de Ridley Scott.
A presença da mulher na propaganda também é objeto de estudo, tendo em conta a
evolução da imagem feminina na publicidade automobilística, que atingiu o Brasil, desde o
surgimento do automóvel como mercadoria, no final do século XIX (PERRACi, 2004). O
estudo examinou cerca de mil peças publicitárias impressas (anúncios, cartazes, displays,
folhetos e outros), brasileiras e estrangeiras, selecionando os que continham a presença
feminina de forma velada ou explícita, em texto ou ilustração, antes do surgimento do
cinema, Rádio e Televisão.
Na análise da trajetória da imagem feminina na publicidade do automóvel, o estudo
encontrou seis formas diferentes de sua utilização, desde o aspecto decorativo passando
pela representação reveladora da maior ou menor participação feminina na vida socio-
econômica até, ser ela mesma, consumidora final do produto, atingindo essa condição. O
estudo conclui dizendo que a evolução da imagem feminina na publicidade do automóvel,
ao longo do século vinte, corresponde à trajetória ascensional da mulher brasileira, no rumo
de sua emancipação.

A militância em trabalhos alternativos e ONGs

Inúmeras são as associações que, ainda hoje, reúnem mulheres para pensar os
caminhos possíveis, objetivando uma ajuda mútua e solidária. Esmeralda Uribe, em seu
artigo De mujeres y comunicación... EVAS COMUNICADORAS, reflete sobre a idéia de
mulheres que tecem a comunicação, as Penélopes, muitas vezes anônimas, mas atuantes nas
rádios populares, comunitárias, livres, em todos os continentes. Recorda Redes
internacionais de mulheres, entre elas, AMARC (Dublin,1990) também presente no Brasil;
Programa da Rádio Internacional Feminista, Costa Rica) (URIBE, 1996).
No Brasil, podem ser lembradas algumas Redes, como a Rede de Mulheres no
Rádio, segundo Madalena Guillón, “nasceu da necessidade que as mulheres, atuantes em
rádio, seja como administradoras, produtoras, apresentadoras, repórteres ou colaboradoras
tinham de definir e fortalecer o seu papel em relação à problemática de gênero no contexto
da comunicação de massa via rádio”. Trabalha em sintonia e colaboração com Cemina
(Comunicação, Educação e Informação em Gênero), uma ONG do Rio de Janeiro, que tem
por missão utilizar o potencial educador e multiplicador do rádio na defesa dos direitos das
mulheres e da democratização da comunicação. Site: www.rits.org.br
O Instituto Patrícia Galvão é uma organização não-governamental, sem fins
lucrativos, sediada na cidade de São Paulo e que tem por objetivo desenvolver projetos
sobre direitos da mulher e meios de comunicação de massa. Criado em 2000, o Instituto
entende que trabalhar com comunicação é trabalhar com projetos de transformação social.
Site www.patriciagalvao.org.br
As conferências internacionais sobre a mulher, a última em setembro de 1995, em
Pequim, foram um foro para debater a situação da mulher no mundo, e o reconhecimento
diante da comunidade internacional. A partir dessas discussões, percebeu-se que os meios
de comunicação são áreas emergentes, sobretudo em relação à mulher. Para Garzòn e
Torres, um dos desafios está na inter-relação mulher-meio de comunicação a partir da
incorporação da mulher no mercado de trabalho da comunicação e a aprendizagem na
docência da comunicação (GARZÒN E TORRES, 1995).

A Mulher no mercado de trabalho

É difícil precisar o número de mulheres no mercado de trabalho, nas diferentes

mídias.
Fonte: Maxpress/Revista Imprensa

Segundo o vice-presidente da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), Chico


Sant’Anna, estima-se que dos 600 mil Jornalistas, no mundo, 300 mil são mulheres.”A
divisão, contudo, não é tão equânime em todos os países. Na América Latina podem ser em
torno de 50 mil as mulheres entre jornalistas, repórteres, editoras, pauteiras, colunistas,
entre outros trabalhos na mídia (SANT’ANNA, 2001).
Se a mulher vem ganhando espaço no mercado de trabalho, nas diferentes mídias,
não é simplesmente por ser mulher. As que estão em evidência não nasceram no sucesso,
mas o foram construindo, passo a passo, com dedicação e competência. Esse é o
diferencial, unido ao talento de cada uma das mulheres conhecidas e das inúmeras que
trabalham no anonimato. A revista Imprensa de março de 2005, em edição especial por
ocasião do Dia Internacional da Mulher, traz uma pesquisa que é elucidativa sobre as
mulheres na comunicação3, da realidade brasileira, que aqui reproduzimos. Inicialmente, o
gráfico com números percentuais e absolutos de Jornalistas, homens e mulheres, no Brasil.

Fonte: Maxpress/Revista Imprensa

A seguir, o gráfico de homens e mulheres em cargos de chefia. Observe-se a


diferença em cada uma das mídias.

Mulheres e homens em cargo de chefia é visivelmente díspar, acentuando-se essa


diferença no Rádio, um meio mais tradicional, que ainda carrega o padrão da voz
masculina, Roxane Re, da CBN, São Paulo: Como apresentadora, Roxane confirma a
discriminação que existe, ainda hoje, em relação à voz: “Rádio é emoção. Ainda hoje, na
área comercial, a voz masculina tem prioridade. Você só usa a voz da mulher quando tem
que falar de produtos femininos ou voltados para a área de educação, saúde. Por exemplo,
as grande assinaturas de Bancos são ainda em vozes masculinas. O que é mais combativo
parece ser só para os homens”.

3
Imprensa, Jornalismo e comunicação, São Paulo, Ano 18 – n. 199, março 2005, pp.29-42.
Eu outros cargos, também é percebida a diferença, mas com outra configuração
onde, em algumas mídias, a presença da mulher aumenta, sobretudo em jornais, televisão,
revistas e internet. O Rádio continua com a diferença visível.

Fonte: Maxpress/Revista Imprensa

Pesquisas acadêmicas e mercado de trabalho

Os estudos acadêmicos, em sua maioria, estão preocupados em analisar a presença


da mulher a partir da representação, sobretudo nos impressos, na televisão e também na
propaganda. Resgate histórico da presença/ausência nas emissoras de Rádio a partir da
história, seu envolvimento com programação e como interpretam, reelaboram as mensagens
que recebem. O estudo feito a respeito da mulher e até mesmo de gênero, é sempre a busca
da compreensão de um objeto com o distanciamento previsto para a objetividade do
pesquisador.
Quando a mulher se encontra no mercado de trabalho, ela está em contato direto
com a realidade, ou seja, com uma cultura que a discrimina, emergem outros dados como
demonstra o relato de Jocelina Almeida que trabalha há 23 anos em gerenciamento de
emissoras, no sul do país, Rádio Planalto de Passo Fundo, RS4. Ela relata que desde o início
de seu trabalho, buscou especializar-se na área, mesmo assim foi percebendo a surpresa de
funcionários que diziam: “mas essa guriazinha aí me dando ordens”. Segundo sua
experiência, ela foi conquistando o espaço pela competência e “demonstrando, de forma
racional”, “que estava lá para administrar”, para buscar bons resultados para todos os
envolvidos. Dessa forma, as pessoas iam sentindo segurança e credibilidade no trabalho.
No âmbito do Rádio, a radialista da CBN São Paulo, Roxane Re, apresentadora do
programa “Noite total”, confirma a discriminação pela voz:

4
As pesquisas com profissionais foram realizadas entre 11 e 14 de Julho de 2005.
“A diferenciação existe em todas as profissões e também na comunicação. As
mulheres vão entrando aos pouquinhos e no Rádio menos ainda, mas os espaços vão se
abrindo. Então quando eu comecei o diretor queria mudar o padrão: queria fazer um rádio
mais coloquial, colocar vozes mais doces e foi colocando vozes femininas. Dentro da Rádio
tinha esse preconceito e com os ouvintes ela foi conquistando aos poucos. “Esse foi o
momento que eu senti que é difícil derrubar um padrão e mudar o estilo”.
“Outro momento em que senti discriminação eu já estava há uns 5 anos na CNB.
Então surgiu a discussão, porque não uma mulher? Eu imprimi outro estilo, outro ritmo.
Senti o preconceito interno. A CBN tem muitas mulheres, na produção, na edição, mas
poucas ao microfone. E dentro da própria emissora surgiu esse preconceito e vinda das
próprias mulheres. “Mas por que ela?” Porque não se faz uma seleção e se escolhe uma
entre as repórteres. Eu tinha conquistado um espaçozinho. Até o dia em que se fechou o
homem para assumir o programa. Padrão de noite, voz mais adocicada e eu fiquei muito
brava, intimamente chateada. Senti de novo o preconceito: a voz feminina serve para
algumas coisas e não pra outras. Ali queriam imprimir um aspecto mais político, mais
agressivo e a mulher não podia fazer isso”.
As mulheres entrevistadas são unânimes em dizer que elas vencem e se impõem
hoje pela competência. Guadalupe Mota, jornalista responsável do Jornal “Presença
Diocesana” e Assessora de Imprensa da Diocese de Santos, SP, mestranda na ECA/USP,
desde o início de seu trabalho, procurou conhecer a estrutura da organização e agir com
competência. Se impôs pela competência. Procurou profissionalizar e sentiu-se respeitada.
“Demonstrando conhecimento, as pessoas não podiam contrapor sem argumento. Tenho
autonomia no trabalho e procuro manter uma postura de diálogo. Isso ajuda muito”.
As entrevistadas demonstram que a conquista do próprio espaço é feita pela
competência. “É o conhecimento, a competência, a forma legal e ética de ética de lidar com
as situações, admitir quando se está certo, quando se está errado, trabalhar com
transparência e mostrando que quando a pessoa está capacitada para a função, ela passa a
ter credibilidade e respaldo em todas as áreas de atuação, independente da área”.

Considerações finais

As pesquisas sobre a mulher e gênero preocupam-se com os conteúdos das mídias,


as representações que trabalham, a ideologia, os avanços ou retrocessos. E procuram trazer
uma análise de forma lógica, estruturada. Grande parte dos estudos acadêmicos preocupa-se
com as mudanças de mentalidade da mulher a partir dos produtos e da forma como
apresentam as realidades. Análises sobre televisão e a propaganda dão indicativo de que
existem avanços na própria representação da mulher e na mudança de mentalidade em
relação a padrões culturais mais tradicionais.
Poucas pesquisas trabalham a partir das pessoas que fazem ou recebem a
comunicação, uma teoria mais apoiada nos Estudos Culturais, considerando os meios como
mediações. Na pesquisa de campo, foi possível constatar que, ao falar com mulheres
profissionais da comunicação, o que elas próprias destacam é que, mesmo num ambiente e
numa cultura desfavorável, vencem pela competência, persistência e dedicação.
Pode-se, portanto, dizer que o mercado de trabalho é um espaço onde a mulher tem
oportunidade de mostrar o diferente, de mudar o paradigma de que a mulher seria para
trabalhos mais internos e não para expor-se tanto, o que, segundo o padrão cultural vigente,
este seria mais um trabalho para o homem. E conforme uma entrevistada, “estar no rádio é
estar na vitrine todo o dia”, acrescentando que “hoje o homem está se dando conta que a
mulher tem condições de dispor, de desenvolver relações públicas e também mostrar a
imagem da sua empresa externamente”.
Um dos indicativos de conclusão é de que a mudança de paradigma vai acontecendo na
visibilidade à medida que é mostrada uma nova forma de competência, sem deixar de ser
quem se é. Pode-se dizer que o foco das mulheres vencedoras está no potencial que existe e
não nas dificuldades e problemas. Por mais que possa parecer um paradoxal, é a prática
qualificada dessa presença nas mídias, que vai mudando o olhar cultural, demonstrando
pairo participação e tornando a mulher mais cidadã, diante de si mesma em relação ao olhar
da sociedade.

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