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22 de maio de 1999. Tudo que eu sou não passa de um acumulado de dias
desde 22 de maio de 1999. Tudo que eu sou e fui e anseio ser, eu escrevo.
Eu escrevo, eu desenho, eu fotografo – eu coloco para fora de mim. Às
vezes, acho que é até involuntário, eu simplesmente transbordo, não caibo
mais em mim. Eu recolho o meu excesso de ser com o papel e a caneta.
O que vos espera neste livro é a mais pura essência de mim, por mais que
ainda seja uma mostra muito tímida dela. O que eu vos entrego são
mulheres. Mulheres que ardem, sofrem, choram, desejam, pecam, vivem.
Assim como eu, assim como todas, elas se descobrem, renascem,
ressuscitam.
E elas morrem. Existe algum jeito mais
triste de morrer do que morrer e continuar
viva? Morrer de amor, de tristeza, de
desilusão, de solidão. A vida é real, e essas
mulheres são reais. Elas são eu. Elas são
você. Elas são sua mãe. E sua irmã. Elas são
o avesso, do avesso, do avesso, do avesso.

Ana Clara Ignacio Costa


“Amor, isto não é um livro, sou
eu, sou eu que você segura e sou
eu que te seguro, (.. ) caio das
páginas nos teus braços.”
Ana Cristina Cesar 3
A Ana se criou lá em casa.
Sempre alegrinha, às vezes mostrava impaciência
com certos compromissos sociais: ballet, desfiles,
obrigado, por favor. Mas teve uma infância feliz,
tanto que lamentou quando a perdeu. Passou o
tempo e depois de um terceirão infernal, bem no
meio do caldeirão da adolescência, ela foi embora
pra Floripa. “Quero uma cidade pra mim”, teria dito.
Cinema na UFSC. Lá parece estar feliz.
A Ana escreve esses contos, alguns intrigantes. Faz
algumas incursões, em universos distintos. Ainda
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tão jovem, visita alguns temas fortes: meninas
dentro da noite, um arcebispo pedófilo, uma tigresa
dentro da noite, um arcebispo pedófilo, uma tigresa perambulando em
Sampa. A dor de gostar de alguém e isso se acabar assim de qualquer
jeito, sem ter terminado. Ana tem sempre muitas palavras e muitas
ideias, e mais coisas para dizer. E ela se exercita, com disposição, na
arte de escrever. Experimenta, imagina, é intensa, quer muito mais.
É uma garota alçando voo nos céus dessa vida, muito sensível e
atenta, e com uma ânsia enorme de viver. Que o seu voo seja imenso e
seja feliz, Ana.
Mário Costa

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Luzes na pista e suor nas paredes. Jaulas e poles. Eu estou mais uma vez
à espreita, me perguntando se ela já saiu ou não. São 4h17min da manhã.
Faz duas semanas que, à base de muita cafeína, vodka e nicotina, passo
minhas noites em claro aqui no Alaska. É o meu mundo paralelo.
Garotas bonitas e seminuas dançando e fazendo acrobacias ao som de
“Since I’ve Been Loving You”, pode-se até dizer que é o meu nirvana
pessoal. Mas não, não são elas que dilatam as minhas pupilas e que são
responsáveis pelas minhas olheiras profundas. A responsável por isso é
Dolor. Dolores, para o resto do mundo. Mas, para a minha câmera, ela é
Dolor.
Dolor porque significa “dor”, em espanhol. Dolor porque é o que os seus
olhos choram, secos. Dolor porque é tudo que ela tenta esconder. Dolor
porque é o que a sua ausência me traz.
Veja bem, sou fotógrafo. Sempre fui - e nem sempre precisei de uma
câmera para sê-lo. Só sei que agora, com 28 anos, a câmera é tão parte
do meu corpo quanto qualquer outra. Conviver comigo significa
conviver com a máquina. Ela é a extensão do meu corpo; e as lentes, a
extensão do meu olhar.
Eu sempre quis mostrar exatamente como o meu mundo se parece, sem
nenhuma glamourização ou glorificação. O meu não é um mundo
sombrio, mas sim, um mundo em que há consciência e reconhecimento
da dor como uma qualidade da introspecção.
E não foi por acaso que, há duas semanas, no meio do meu caminho tinha
Dolor. Tinha Dolor no meio do meu caminho. Tinha Dolor. E como tinha.
Eu lembro que era noite, que era insônia e que era álcool. Antes, eu
havia pisado uma ou duas vezes no Alaska. No entanto, àquela hora, era
um dos únicos lugares abertos, e eu entrei. Tudo que eu via refletia
uma luz vermelha, o que achei um agradável clichê. Blues tocando,
homens gritando, notas de 10 voando, mulheres dançando. Sentei-me e
tudo que fiz foi engatilhar a câmera e dispará-la, minha única arma de
defesa. E isso fiz até o filme acabar e o sono chegar. E repeti a mesma
coreografia. Todos os dias.
No meu terceiro dia, notei a presença de uma garota que até então não
tinha visto. Era morena, tinha cabelos curtos e cacheados e usava
óculos. Chamou a minha atenção porque não usava nenhuma maquiagem
e estava totalmente vestida, diferentemente das outras, que estavam
seminuas e tinham seus rostos maquiados. Estranhamente, sentia que
ela estava mais vulnerável do que qualquer outra naquele lugar.
Estava encostada na parede, olhando para o chão, a luz vermelha
revelava metade de seu rosto, enquanto o resto uma sombra escondia.
Apertei o gatilho e disparei sem pensar. Como se atingida pelo meu
clique, logo depois olhou para mim e me encarou fixamente por alguns
segundos, até que lhe dei as costas, abri a porta e pisei na calçada. 8
Revelei e ampliei a foto logo que pude, e voltei ao Alaska na madrugada
seguinte. Ela estava fumando casualmente lá dentro, tomando um
drinque. Não fui diretamente a ela. Sentei-me e comecei a rotina.
clique, logo depois olhou para mim e me encarou fixamente por alguns
segundos, até que lhe dei as costas, abri a porta e pisei na calçada.
Revelei e ampliei a foto logo que pude, e voltei ao Alaska na madrugada
seguinte. Ela estava fumando casualmente lá dentro, tomando um
drinque. Não fui diretamente a ela. Sentei-me e comecei a rotina.
Percebi que me olhava, seus olhos me convidando a se aproximar.
Pareceu que todos os caroços na minha garganta que eu acabara de
engolir me fizeram ir em frente, e eu fui.
Sentei-me a sua frente e não me pronunciei. Enfim, ela disse, com os
olhos fixos na minha câmera:
- Casi todas las veces que te miro estás por detrás de la camera.
Fito o chão. Nada respondo.
- Mira me ahora. - diz ela, levantando meu queixo.
- Tenho uma foto sua - eu disse. - Você quer?
- Usted iria quere-la se fosse eu? - indagou, portunholmente.
- Muito.
- Dá-me, entonces.
Procurei a foto dentro da minha mochila e a coloquei sobre o balcão.
Ela mirou a foto por muito tempo, sem tocá-la, assim como eu mirei
Dolor, sem tocá-la.
- Qual o seu nome? - perguntei.
- Dolores - respondeu, sem tirar o olho da foto.
- Meu nome é Miguel. - não obtive nenhuma reação em resposta. Depois
de mais alguns minutos, Dolores deslizou a foto no balcão de volta para
mim e me disse:
- Por qué te gusta sacar fotos?
- Fotografia faz parte do meu dia a dia tanto quanto comer ou falar ou
respirar. Eu conheço as pessoas através das minhas fotos. Elas são tanto
um convite para o meu mundo quanto uma maneira de eu ver as pessoas
dentro dele.
- Y por qué me convidas para tu mundo?
- Porque, mesmo sem olhar nos meus olhos, você me encarou
profundamente na foto. Sua alma encarou a minha objetiva de longe.
Foi algo instintivo. E é isso que eu procuro nas minhas fotos: que eu as
encare e que elas me encarem de volta.
Como resposta, Dolor me olhou por alguns segundos. Tomou um gole de
sua bebida, acendeu um cigarro e disse:
- Tengo que cambiarme la ropa e trabajar. Hasta pronto, Miguel.
E se foi. Sem que eu pudesse me despedir. Não olhou para trás em
nenhum momento. Decidi que queria sair dali antes que ela se
apresentasse. Eu acabara de ter acesso a Dolor como nenhum daqueles
homens na plateia teria nos próximos vinte minutos, e decidi que eu a
queria só daquele jeito. 9
Até o momento em que pus meu pé de volta no Alaska, todos os meus
pensamentos eram desviados à lembrança da conversa da noite
anterior. Quando entrei, olhei para todo canto que meu olhar
queria só daquele jeito.
Até o momento em que pus meu pé de volta no Alaska, todos os meus
pensamentos eram desviados à lembrança da conversa da noite
anterior. Quando entrei, olhei para todo canto que meu olhar
alcançava em busca dela, mas não a achei. Pensei “bom, foi só uma
garota, só uma foto, só uma conversa - so it goes”.
Era quase uma da madrugada e até então era uma noite normal -
cliques, bebidas, cigarros, garotas. Eu estava sentado no balcão - o
mesmo da noite anterior - tirando um filme da máquina e colocando
outro, olhando para baixo, em direção à câmera, até que alguém colocou
algo em cima do balcão, pra onde meus olhos se direcionaram. Era uma
foto. Colorida. Uma mulher com cabelos lisos e pretos. Ela prendera seu
cabelo mas algumas mechas soltas voavam, algumas cobrindo seu rosto.
Podia-se ver pelas rugas e pela pele ao redor dos olhos, que os deixava
bem pequeninos, que tinha entre 50 e 60 anos. Era uma bela mulher.
Contemplei a foto por algum tempo sem me dar conta de que alguém a
havia colocado lá.
- Es minha abuela. Ella era fotógrafa.
Olhei para cima, atraído pela voz já familiar. Era Dolores.
- Quem tirou essa foto?
- Yo. Hay muchos anos.
- Me encanta - eu disse, com o melhor sotaque espanhol que pude. Ela
sorriu com a minha tentativa. - Você fotografa?
- Aprendi un poco con mi abuela. Pero no saco tantas fotos cuanto
gostaria. - falou ela, encarando o chão. Eu não respondi. Dei tempo a ela
para que tomasse coragem para falar o que queria.
- Extraño mi abuela demasiado - continuou -,. . Saudades, es esa la
palabra en português, no? Sí, saudades. Ella siempre dizia me que
fotografía es sentimento, es puramente humana. Es siempre una
verdade y una mentira, al mismo tiempo. Recuerdome muy bien que
ella me dice, una vez, que el fotógrafo tiene el poder de parar el tiempo
para que quedemos con eso que nos passa perecível, que acaba y no se
despede.
- E foi por causa dela que você decidiu fotografar?
- Sí. Encontré sus fotos especialmente bonitas, por qué todas gritavam
“saiam do automático!”. Ella quería obrigar todos a viveren en el modo
manual através de sus fotos. A partir de eso, percebí que todas las fotos
hablan, gritan e nos dicem mucho más que palabras poderiam.Y yo
quería gritar.
- E o que você quis gritar com essa foto de sua avó? - eu disse,
enfeitiçado por suas palavras, pelas suas ideias, sem conseguir tirar os
olhos dos dela.
- Saudades. 10
Foi instintivo. Não tive como não fazê-lo. Beijei-a imediatamente, só
pra depois perceber que o fiz entre suas lágrimas. Senti suas mãos em
meu rosto, fracas e medrosas. Apertei meus olhos o mais forte que pude,
- Saudades.
Foi instintivo. Não tive como não fazê-lo. Beijei-a imediatamente, só
pra depois perceber que o fiz entre suas lágrimas. Senti suas mãos em
meu rosto, fracas e medrosas. Apertei meus olhos o mais forte que pude,
até que o chão não era mais chão, as paredes não eram mais paredes, e
tudo era nada - menos nós. Nós éramos infinitos.
Ela fez questão de que eu ficasse com a foto de sua avó, e depois desse
dia demorei a revê-la. Passaram-se três dias e nada. No quarto dia,
resolvi escrever-lhe na parte de trás da foto.
“Minha boca não parou de falar sobre você desde que a beijou. A
possibilidade de beijá-la de novo está presa na minha cabeça, que não
parou de pensar em você desde antes de qualquer beijo. Minha câmera
te colocou no meu mundo e agora sente sua falta. Você sabe onde me
procurar. Estou sempre a sua procura.”
- Miguel
Deixei a foto com uma das garotas que achei ter visto conversando com
Dolor um dia. Ela me garantiu que lhe entregaria.
No dia seguinte, logo que entrei no clube, não tive tempo nem de me
sentar - senti alguém me puxando pelo braço para um canto. Era ela.
Pediu-me que a esperasse até o fim de seu turno, queria me mostrar
algo. E assim o fiz. Passei a noite toda registrando as performances de
lindas mulheres, menos a de Dolores. Ainda me negava a vê-la do
mesmo jeito que os outros a viam.
Por volta das 4 da manhã o clube estava vazio. O bar havia fechado e
as luzes do palco estavam apagadas. Procurei e achei Dolores na porta
do camarim, me encarando, como sempre fazia, então segui o comando
de seus olhos e fui até ela.
Cada dançarina tinha seu espelho. Todos estavam muito enfeitados,
cheios de plumas e adesivos, batons e laquê sobre a mesa. Menos o dela.
As únicas coisas que se viam no espelho de Dolores eram duas fotos: a
que eu havia tirado dela há uma semana, e outra, também dela.
Naquela foto, Dolores parecia estar sentada, e olhava para baixo. Pode
se notar duas barras brancas de cada lado da foto, que parecem limitar
a foto de modo a colocar Dolor como o centro. No fundo, podemos ver
uma parede branca e uma porta aberta, que dá acesso a outro cômodo.
Nunca a vira tão distante de mim, tão absorta.
- Quem tirou essa foto? - perguntei-lhe.
- Mi abuela.
- Você parece tão ausente nessa foto..
- Ella sacó esa foto en el mismo día en que comecei a trabajar acá. Tenía
18 anos. Ahora tengo 23.
Não respondi. Não perguntei. Nada fiz, só a abracei. Depois de algum
tempo, ela se pôs a encarar as fotos. 11
- A mi ni siempre me ha gustado fotos. A partir del momiento en que
tudo en mi vida passou a ser instantâneo - amigos, cidades, amores - es
que comecei a gustar de fotografia. Me gusta que são instatâneas y
tempo, ela se pôs a encarar as fotos.
- A mi ni siempre me ha gustado fotos. A partir del momiento en que
tudo en mi vida passou a ser instantâneo - amigos, cidades, amores - es
que comecei a gustar de fotografia. Me gusta que são instatâneas y
eternas al mismo tiempo. Mi trabajo obriga todo tipo de amor en mi
vida a ser efêmero, fugaz. La muerte nos obriga a aceitar la finitude
da vida. La fotografía no nos obriga a nada que no seja viver. Toda
imagem revela una emoção e compreender eso torna la fotografia
mucho más suave e gentil. No?
- Sim, claro. - respondi. Ela sorriu para a mim. Eu sorri de volta. -
Porque você me trouxe aqui? - perguntei-lhe.
- No sé. Nunca trouxe a nadie acá. Creo que quiero convidar-te a mi
mundo.
- Convite aceito.
E foi assim que entrei no mundo de Dolor. Convidado. De fininho. Na
pontinha dos pés. Não queria incomodar. Não queria mudar nada, não
queria ser a solução, muito menos o problema. Queria só ser. Ser alguém
dentro desse mundo que tão poucos habitavam ou habitaram.
Porém logo depois descobri que eu não seria nada mais que um turista.
Só estava dando uma passadinha. Dolor sumiu depois daquele dia. Por 5
dias. Em nenhum dos quais estive ausente no Alaska. Eu abria e fechava
aquele clube. Não havia nenhum sinal dela. Continuava a tirar fotos de
tudo que via, mas tudo era nada sem ela.
********
É o sexto dia, são 4h40min, 23 minutos se passaram e eu ainda estou à
espreita, esperando. Finalmente tomo coragem e pergunto a sua amiga
- a mesma a quem eu havia confiado a entrega da foto de sua avó - o
que estava acontecendo. Ela me olhou, olhou para o lado, e sussurrou:
- Olha, não faça um estardalhaço, o dono daqui está tentando manter
isso o mais abafado o possível, mas.. Dolores morreu. Encontraram ela
atrás das cortinas na coxia, anteontem. Ainda não sabemos o que
aconteceu ao certo.
Eu perdi a voz. Eu não consegui responder. A única coisa que consegui
fazer foi ir para casa. Só pensava que tinha que revelar as fotos dela o
mais rápido possível, para tê-la comigo de novo. Queria senti-la viva
mais uma vez. Pela segunda vez, não pude me despedir.
Revelei e ampliei todas as fotos. Coloquei-as para secar no meu quarto.
Deitei e encarei-as. Percebi que revelei, sem querer, algumas fotos de
outro rolo. Não eram fotos de Dolor. Eram fotos de uma performance
de uma garota qualquer que trabalhava no Alaska. Ela se segurava na 12
barra de pole com um braço e jogava-se para trás, encarando a câmera
de cabeça para baixo. Um único foco de luz iluminava a garota e um
pedaço da cortina preta. Levantei da cama, cheguei mais perto. Vi
de uma garota qualquer que trabalhava no Alaska. Ela se segurava na
barra de pole com um braço e jogava-se para trás, encarando a câmera
de cabeça para baixo. Um único foco de luz iluminava a garota e um
pedaço da cortina preta. Levantei da cama, cheguei mais perto. Vi
figuras estranhas atrás da cortina, mas não podia compreendê-las.
Resolvi ampliar aquela parte da foto. Pendurei-a no varal de meu
quarto e analisei. A luz que batia na cortina fazia sombra de duas
silhuetas - uma feminina e outra masculina, aparentemente. Mas havia
um detalhe. Uma sombra que não conseguia distinguir. Quando
finalmente me dei conta, pus-me aos prantos. Era a sombra de uma arma
que o homem carregava. Diante dos meus olhos estava a iminência da
morte de Dolores. Minhas lentes, que antes capturavam sua vida,
capturaram sua morte. E eu, diante de seu fim, não fiz nada a não ser
fotografá-lo.
Eu sabia que tinha em mãos a prova de um crime, mas não via por que
usá-la. Não traria Dolor de volta, e não chegaria às mãos da polícia,
dado que o dono do Alaska me subornaria para não divulgá-la. E não
era de dinheiro que eu precisava. Então decidi, egoísta, guardar os
últimos suspiros dela comigo.
Passei a noite em claro, encarando as fotos, elas me encarando de volta;
bebendo, fumando, pensando. No dia seguinte ouvi a campainha do meu
apartamento tocar. Olhei pelo olho mágico e me deparei com a amiga
de Dolores. Abri.
- Bom dia - ela falou.
- Talvez. - falei. - Qual o seu nome, afinal de contas?
- Cristina, prazer.
- Miguel.
Ficamos em silêncio constrangedor por alguns segundos como de praxe
entre dois quase estranhos. Finalmente ela disse:
- Ontem você foi embora antes que eu pudesse te entregar algo. Dolores
guardava em sua gaveta havia uma semana. Acho que ela gostaria que
você ficasse com isso. - falou, entregando-me um envelope. - Bom, é isso,
eu vou indo então. Te vejo de noite?
- Não mais - eu disse. - Mas obrigado. Tchau.
- Tchau. - e fechei a porta antes que pudesse terminar sua despedida.
Sentei na varanda e abri o envelope. Dentro havia uma foto minha de
perfil tirando uma foto, coberto por uma luz vermelha. Meu rosto
estava escondido pela câmera e a minha mão ajustava o foco. Virei a
foto e me deparei com uma mensagem escrita com a letra de Dolor.
“Mi abuela disse-me una vez que todo fotografo se deixa levar por algo
que desea, que o faz sentir vivo. Encontré en ti mi deseo.
Observar una foto significa extrair tudo que ella nos proporciona. 13
Mismo sendo estáticas, las fotografias nos passan muchos sentimentos
y sensaciones, cuando nos deixamos prender por elas.
Aprendi, fotografando-te, a capatar su essencia e extraír las
Observar una foto significa extrair tudo que ella nos proporciona.
Mismo sendo estáticas, las fotografias nos passan muchos sentimentos
y sensaciones, cuando nos deixamos prender por elas.
Aprendi, fotografando-te, a capatar su essencia e extraír las
sensaciones de la imagem, através do afeto que por ti sinto. Así fue con
mí abuela cuando a fotografava. Y así es contigo.”
- Dolores
Li e reli até decorar cada palavra. Até parar de fazer sentido.
Meu desejo sempre foi preservar o sentido da vida das pessoas, dotá-
las da força e beleza que eu via nelas. As minhas fotos são um meio de
conhecer as histórias e os detalhes íntimos das vidas daqueles
próximos a mim.
A memória, que cada uma das fotos que eu tirei dela desencadeia, é
uma invocação da cor, do cheiro, do som e da presença física, a
densidade e o sabor da vida. Por isso não fico triste por não ter tido a
oportunidade de dizer “adeus”. Porque é nas minhas fotos que ela
vive. E eu sempre me lembrarei do dia em que no meio do meu caminho
tinha Dolor.
Tinha Dolor no meio do meu caminho.
Tinha Dolor.
E sempre terá.

dades, es esa la palabra en português, no? Sí, saudades. Ella siempre


dizia me que fotografía es sentimento, es puramente humana. Es
siempre una verdade y una mentira, al mismo tiempo. Recuerdome muy
bien que ella me dice, una vez, que el fotógrafo tiene el poder de parar
el tiempo para que quedemos con eso que nos passa perecível, que acaba
y no se despede.
- E foi por causa dela que você decidiu fotografar?
- Sí. Encontré sus fotos especialmente bonitas, por qué todas gritavam
“saiam do automático!”. Ella quería obrigar todos a viveren en el modo
manual através de sus fotos. A partir de eso, percebí que todas las fotos
14
hablan, gritan e nos dicem mucho más que palabras poderiam.Y yo
quería gritar.
- E o que você quis gritar com essa foto de sua avó? - eu disse,
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- Tigresa?
- Sugestivo, não? - ela responde depois de dar um gole de cerveja, e olha
para o copo que põe sobre a mesa com um sorriso irônico, levantando
uma sobrancelha - Acho que a minha mãe já previa toda essa minha
vida.
- Já ouviu a música?
- Música?
- Tigresa, do Caetano - eu olho para o relógio e os ponteiros indicam
que são duas horas da manhã. - Eu acho que tenho a fita no carro, você
vem? - eu falo, levantando da cadeira e estendendo minha mão para
ela.
Ela levanta seus olhos de íris cor de mel, ressaltados por uma
maquiagem preta meio borrada, não diz uma palavra, descruza as
pernas, ignora a minha mão e se levanta. Ela vai na minha frente, como
se já soubesse onde meu carro estava.
- Tá ali perto da Ipiranga com a São João! - eu grito de dentro do bar,
enquanto a assisto, desnorteado com o seu andar.
- Eu sei, o Opala preto - ela responde, sem nem olhar para trás.
Quando chega no carro, ainda estou do outro lado da rua, dentro do
bar, com uma cara de tonto, quase que em transe. Volto a mim quando
a vejo sentada no capô do carro, iluminada pela única luz funcionando
na rua, chamando-me.
- Você vem?
- Já vai! - eu grito. Olho para o lado, tiro vinte cruzados do bolso, coloco
no balcão do caixa, saio do bar e atravesso a São João correndo até ela,
que me espera com um sorriso malicioso em seu rosto.
Depois que paro de correr, olho em seus olhos, sorrio e, sem desviar o
meu olhar do dela, hipnótico, me aproximo devagar. Ela descruza os
braços e as pernas para me receber, nossas pernas, nossos quadris e
nossas cinturas se encostam. Nossas mãos, como numa dança
sincronizada: as minhas permeiam seu pescoço e param nos seus cabelos;
as dela, seguram na fivela do meu sinto e me puxam pra perto. Com
nossos rostos quase ocupando o mesmo espaço e ela quase fechando os
olhos para se entregar a mim, eu digo:
- Isso ainda vai acabar mal. 16

- O mau é bom - ela diz, com os olhos fechados.


- E o bem? - eu digo, sorrindo ao contemplar o seu estado de entrega.
- Isso ainda vai acabar mal.
- O mau é bom - ela diz, com os olhos fechados.
- E o bem? - eu digo, sorrindo ao contemplar o seu estado de entrega.
- Cruel - ela sussurra, e converte um sorriso em um beijo com o puxar
do meu cinto contra sua cintura, e com esse beijo eu a devoro.
Suas mãos leem minhas costas como braile, seus dentes se demoram ao
morder meu lábio inferior, ela geme dentro do nosso beijo quando a
puxo pela cintura e puxo seu cabelo; começo a sentir meu corpo
respondendo a todos aqueles estímulos, ela também sente e sorri.
- Acho meio perigoso continuar nesse ritmo aqui na rua, eu só consigo
me controlar até certo ponto - eu digo, olhos fechados, meus lábios
encostando nos dela enquanto falo, minhas palavras saindo da minha
boca diretamente à dela.
- O que você sugere? - ela sussurra, de olhos fechados, e eu consigo
sentir seu sorriso nos meus lábios.
- Eu tenho uma casa, e um carro para te levar até ela.
- E a fita.
- Isso, e a fita.
Ficamos em silêncio por um segundo. Ela me beija, suas mãos nas minhas
costas descem até o meu bolso esquerdo, de onde ela tira a chave do
meu carro e a suspende com um dedo na altura dos nossos rostos,
olhando-me fixamente enquanto morde levemente seus lábios num
sorriso. Eu, com os meus olhos fixos na felina, pego as chaves, pego-a
pela mão e abro a porta do carro para ela, que o adentra e coloca as
duas pernas sobre o painel. Quando eu entro o carro, logo procuro a
fita, olho por tudo e não acho nenhuma. Só depois de um tempo que
percebo que há uma fita já inserida no toca-fitas e que é a própria
“Tigresa” do Caetano.
O som das cordas do violão formando os primeiros acordes da
introdução preenchem o carro totalmente. Eu abaixo o volume e dou
partida no carro. Quando a letra da música começa e o carro passa a
andar, ela abre a janela e seus cabelos tremem ao vento da madrugada
na capital. Moro em Jaçanã, e nós estávamos no centro, era um caminho
considerável. Depois de alguns minutos de silêncio, ela o quebra:
- Você é daqui? 17

- Não, quem me dera. Sou caipira lá de São Carlos - eu falo, puxando o


erre.
- Você é daqui?
- Não, quem me dera. Sou caipira lá de São Carlos - eu falo, puxando o
erre.
- Entendi. - Ela diz, com um sorriso no canto da boca e me olhando de
cima a baixo - Tá gostando?
- Tô aqui faz um tempo já, mas foi um começo difícil. Quando eu cheguei
por aqui eu não entendi nada. A primeira vez que eu encarei a Paulista
frente a frente, eu não vi o meu rosto. Não gostei muito, não me
reconheci ali no meio daquele monte de gente. Me senti pequeno, sabe?
Acho que eu era muito egocêntrico, e cidade grande não dá brecha
pAra esse tipo de coisa - termino de falar e só então olho para ela, que
mexe nos seus cabelos enquanto olha para a estrada na sua frente.
- É, eu também vim de cidade pequena. Eu vim pAra cá em 1966, eu tinha
dezoito anos, cê imagina não como a minha mãe ficou. Já fazem.. meu
deus, quinze anos, não é?
Ela me pergunta, com aquela cara de incrédula que só quem se dá conta
do tempo faz. Eu acenei com a cabeça que suas contas estavam certas.
- Eu vim porque eu queria lutar contra a ditadura, derrubar os
militares, achava que eu sozinha seria de grande ajuda para aquele
monte de pessoas que quase nada conquistavam. Quando a gente é jovem
tem muita esperança de que a gente seja algo grande. Eu gostava de
política, queria ser a primeira presidente mulher do Brasil, - ela conta,
rindo de sua versão de dezoito anos, olhando para as suas mãos no seu
colo - e hoje eu danço no Frenetic e espalho prazer por aí por uns cem
cruzados - e o sorriso se esvai de seu rosto como uma brisa passageira.
Le temps detruit tout.
Eu paro o carro, a música para, olho para ela, suas pernas longas
erguidas, seu cabelo negro bagunçado pelo vento; ela encontra o meu
olhar. Eu alcanço sua mão esquerda e trago-a aos meus lábios, beijando-
a, uma lágrima cai do seu rosto. Levo minha mão à sua nuca e a trago
para perto de mim. Eu beijo seu lábio inferior e sinto a lágrima salgada
e bebo ela como um pingo da chuva de uma tempestade.
- A gente chegou - eu digo, depois de beijá-la.
- Ah, sim, claro - ela diz, como se se percebesse, voltando à si, à sua
personagem, aquela que não pode chorar na frente do cliente, que não
pode demonstrar qualquer coisa que entregue sua humanidade. 18
Ela quebra a nossa conexão de súbito; tirando a minha mão de sua nuca
ela seca o rastro da lágrima em seu rosto e sai do carro, apressada, e
pode demonstrar qualquer coisa que entregue sua humanidade.
Ela quebra a nossa conexão de súbito; tirando a minha mão de sua nuca
ela seca o rastro da lágrima em seu rosto e sai do carro, apressada, e
me espera na frente da porta de casa. Eu sigo seu caminho com os meus
olhos, tiro o cinto e saio do carro quando a vejo me esperando. Vou até
ela, ela não me olha, envergonhada. Abro a porta e deixo-a entrar
primeiro.
- Quer alguma coisa? - eu falo, tirando meus sapatos e a observando
explorar a sala - Água, vinho? Eu tenho um chalise suave muito bom, a
gente..
- Não - ela me interrompe, olhando para mim novamente - só.. vamos
fazer isso logo.
- Meu quarto é para cá - eu falei, depois de alguns segundos pensando.
Ela segue as direções e passa por mim, andando rapidamente até meu
quarto, que era o único cômodo do corredor.
Eu me demoro um pouco para entrar, e quando o faço eu a vejo de costas
desabotoando seu vestido e deixando-o cair no chão como a cortina de
um teatro que se abre para o começo de um espetáculo. Ela ouve os
meus passos e olha para trás enquanto eu me aproximo. Quando coloco
as mãos em sua cintura, ela vira de frente para mim, me olha nos olhos,
me beija muito avidamente e começa a tirar minha roupa.
- Eu te amo - eu sussurrei, o que fez com que ela parasse imediatamente
tudo que estava fazendo, encarasse-me com um olhar que começou
sério e terminou malicioso, seus olhos de felina brilharam, ela sorriu e
respondeu:
- Sexo primeiro, amor depois - e colou seus lábios contra os meus antes
que eu pudesse responder.
Enquanto ela desafivelava meu cinto e desabotoava minha calça, eu
explorava todo seu corpo com as minhas mãos, dos cabelos, passando
pela nuca, ombros, seios, sua fina cintura, seu quadril, puxando uma de
suas pernas para cima e encaixando-a em meu quadril; nosso beijo era
interrompido por ofegos e gemidos sutis que soavam como música em
meus ouvidos,
Ela desce até meus pés, de joelhos, terminando de tirar as minhas calças
e, olhando para mim, ela me faz preencher toda sua boca quente até
que, em êxtase, puxo-a para cima pelos seus ombros, ponho seus braços 19
ao redor do meu pescoço e agarro-a pelas suas pernas. Consigo sentir
nossas cinturas se encontrando e nossas partes úmidas se encontrando.
que, em êxtase, puxo-a para cima pelos seus ombros, ponho seus braços
ao redor do meu pescoço e agarro-a pelas suas pernas. Consigo sentir
nossas cinturas se encontrando e nossas partes úmidas se encontrando.
Meu instinto foi jogá-la na cama e prová-la enquanto ela me
proporciona a mais bela trilha sonora de suspiros e gemidos. Puxando
meus cabelos, ela me afunda para dentro de si e me afoga com seu
dulçor. Sem mais aguentar, eu subo em cima dela, a pele de ouro marrom
do seu corpo contra o meu, suas unhas negras fincadas nas minhas
costas, forçando a minha entrada em seu corpo. Eu a encaro
profundamente nos olhos e mergulho profundamente nela, nas suas
águas; seus olhos se fecham imediatamente e ela joga sua cabeça para
trás, entregando-se ao som da mais linda nota musical a sair da sua
boca.
Le jeu commence. Enquanto a sentia cercar-me a carne, percorria seu
pescoço, seus ombros e seu seios com a minha boca impacientemente, na
tentativa de saciar a minha fome dela. Virei-a de costas, juntei minhas
mãos às dela, nossos dedos entrelaçados, e ergui seus braços para cima,
prendendo-a a mim e reencontrei-a por debaixo de nossas cinturas.
Sentí-la encharcar-me e seu grito atingindo o ápice me deu certeza de
que tinha proporcionando-lhe o seu êxtase, o que me fez explodir dentro
do seu cerne, algo que me fez transcender. Ficamos deitados, eu em cima
e dentro dela, ofegantes, por algum tempo. Eu sabia que alguns minutos
depois do desfazer dessa posição eu a veria sair pela minha porta, então
resisti ao máximo.
- Tá na minha hora - ela diz, dando dois tapinhas gentis no meu braço,
indicando que eu saísse de cima dela.
- Escuta, desculpa por ter.. , ahn, dentro, sabe? - eu falo, deitado na cama,
enquanto a observo saindo da cama e ajuntando suas roupas do chão.
- Não tem problema, eu fiz cirurgia. Cê.. tem doença? - ela fala, e
finalmente olha para mim.
- Não.
- Também não - e volta a desviar o olhar, colocando as suas roupas e
fechando a cortina do espetáculo, indicando o fim - ah, fica 100, daí.
- Não quer ficar aqui hoje? - eu falo, colocando minha bermuda,
enquanto ela checa o horário do próximo ônibus na cartela. Tiro 100
cruzados do bolso e coloco em cima da cômoda perto dela. 20
- Ahn, não, melhor não, inclusive, não posso, regras do chefe - ela dá
uma risadinha, pega o dinheiro, me olha e percebe minha expressão de
cruzados do bolso e coloco em cima da cômoda perto dela.
- Ahn, não, melhor não, inclusive, não posso, regras do chefe - ela dá
uma risadinha, pega o dinheiro, me olha e percebe minha expressão de
preocupação - Eu vou ficar bem, já sou grandinha.
Eu a levo até a porta pela mão, viro a chave e abro a porta. Olho para
fora e ela também. Ela se coloca na minha frente, põe a mão no meu
rosto, me olha nos olhos e diz:
- Eu deixaria você ser meu céu se eu já não estivesse no inferno - seus
lábios encontram e desencontram os meus pela última vez, ela
atravessa a minha porta, nossas mãos juntas até o último segundo
possível, assim como nossos olhos. As mãos se soltam, os olhos se
desviam e tudo que eu vejo é ela virando à esquerda na calçada e
desaparecendo.
Alguma coisa acontece no meu coração.

21
22
i.
Acordei. Caí da cama. Desci as escadas e tomei um café. Olhei para cima
e vi o relógio. Atrasada. Achei meu casaco e minha calça. Entrei no
ônibus minutos depois. Subi as escadas do trabalho e fumei um cigarro.
A cidade grande parece suscitar o pior de mim.
As horas passam rápido enquanto eu devaneio olhando para a tela do
computador, fingindo trabalhar. Começo a observar todo mundo no
escritório. Invento uma história de vida para cada. Faço isso até a hora
do almoço. Vou até o meu chefe e digo que estou com “problemas de
mulher”. Antes que eu possa falar a palavra “menstruação” e colocá-lo
na situação mais desconfortável possível para um homem, ele me
libera. É uma técnica de colegial, mas é infalível.
Pego o metrô na Consolação e saio para a conexão na Paraíso – que de
paraíso só tem o nome mesmo. Fico esperando o próximo metrô chegar,
perto demais do vão dos trilhos. Ele chega. Mil vagões passam pelos
meus olhos e eu observo as janelas em alta velocidade. Por trás de duas
camadas de janela eu me vejo. Não dentro do vagão. Fora. Bem na frente
da placa com o nome da estação. Pisco e não me vejo mais. Entro. Vou
para casa.
Dou bom dia para o carteiro. Ele é praticamente um ato de resistência
ao século XXI. Não sei porque penso nisso. Entro em casa, tiro os sapatos,
jogo as chaves na mesa. Lavo as mãos na pia da cozinha. Pego uma faca,
um prato e as coisas que eu preciso na geladeira. Começo a cortar uma
cebola. Meus olhos lacrimejam e eu olho para frente. Do outro lado da
janela, me vejo. Sinto um ardor e desvio meus olhos. Meu dedo sangra.
Olho para a janela e não me vejo mais. Pego um band-aid na gaveta do
banheiro.
ii.
18h no relógio. Meu despertador toca. Pego minha carteira dentro da
minha bolsa. Merda. O anticoncepcional. Pego uma nota de 50 reais e o
celular e vou até a farmácia a um quarteirão de casa. Ando até a faixa
e coloco as chaves e o dinheiro no meu bolso. Mexo no meu celular para
ligar para alguém, e não vejo o carro passar. O som do freio me para e,
num súbito, olho para frente. Do outro lado da rua, me vejo. O motorista
buzina para chamar a minha atenção. Eu peço desculpas. Olho de novo e
não me vejo mais. Atravesso a rua e entro na farmácia.
iii.
23
Desligo o telefone. Levanto da cama e tiro a roupa. Ando para frente
em direção ao espelho do banheiro e me olho. Tiro o sutiã e me olho.
Jogo-o no chão e me viro para o box. Do outro lado do vidro, me vejo.
iii.
Desligo o telefone. Levanto da cama e tiro a roupa. Ando para frente
em direção ao espelho do banheiro e me olho. Tiro o sutiã e me olho.
Jogo-o no chão e me viro para o box. Do outro lado do vidro, me vejo.
Me vejo, me encaro mas não me reconheço. Eu abro o box e tudo
escurece. Eu abro os olhos de novo e, sentada no chão, estou rodeada de
sangue e água. Minha visão turva reconhece meu reflexo no vidro.
Fecho os olhos e não me vejo mais.

24
25
Você sempre disse que eu só te amava porque eu não te via. É verdade,
eu não te via e não tinha cirurgia ou milagre que resolvesse isso mas,
meu deus, quem mais te enxergava era eu. Eu lia seus sons e seus gestos
como se fossem palavras, tinha todo um dicionário seu na minha cabeça.
O som que você fazia logo antes de chorar, sua respiração no meu ouvido
enquanto me abraçava na cama; aquele barulho irritante que seus tênis
com sola de borracha faziam no chão de madeira; a mudança da sua voz
quando você sorria enquanto cantava. São esses pedacinhos de você que
eu nunca me preocupei em traduzir em palavras, mas que eu juntava e
construía deles, você.
Mas agora tudo que você é para mim é o ranger da porta de casa se
fechando bem devagarinho. A chave tranca a porta por fora e eu me
esvazio por dentro. Eu ouço o ronco do motor da sua moto bem alto e
depois se esvaindo e, segundo o meu “seu” dicionário, esse som significa
que você se foi. Dessa vez por não sei por quanto tempo. “Muito” pode
ser um bom começo.
Os restos da noite anterior pairam sobre a minha cabeça, mas já não
consigo juntá-los em um grande “por quê?”. As chaves sempre fazem o
mesmo barulho no balcão antes da briga. “É muito difícil”, você disse.
Você sempre falava isso com um tom de surpresa. Nunca entendi. O que
você esperava? Eu não vejo o mundo, era através de você que eu o
descobria. Talvez você não esperava que tivesse que viver por duas
pessoas. Talvez tenha sido muita ingenuidade da minha parte achar que
você nunca se cansaria, que o amor não se esgotaria.
“Eu ainda te amo!”, você gritou, sua voz já meio aguada com as lágrimas
que estavam por vir. Cadê esse amor? Eu não consigo vê-lo, mas eu sei
que eu deveria poder tocá-lo, senti-lo. Eu só o ouço, ouço palavras, mas
elas não me provam nada. O seu corpo fala, mas você não me deixa ouvi-
lo. Os seus olhos nunca mentem, mas não posso vê-los. Tudo que sei sobre
você é um ideal que eu criei através do que eu consegui sentir e ouvir.
Sons e gestos que você pode ter falseado. Tudo isso me deixava confusa
e você sempre foi cego à minha confusão.
Duas, três pedras de gelo soam dentro de um copo de vidro e pelo cheiro
eu sinto que é whisky que eu ouço você despejar sobre o gelo. No
dicionário sonoro isso significa que faremos as pazes. Depois de alguns
segundo o vidro encostando na bancada ressoa levemente e eu ouço
seus pés descalços se aproximando pelo carpet. Eu estou sentada no sofá,
26
você se ajoelha na minha frente, eu sinto sua respiração no meu rosto
enquanto você passa suas mãos pelos meus olhos e fecha as minhas
pálpebras, fazendo com que duas lágrimas caiam, uma de cada olho.
pálpebras, fazendo com que duas lágrimas caiam, uma de cada olho.
Segurando meu rosto com suas mãos, você beija cada um dos meus olhos
e depois minha boca, como sempre o faz. “Queria te dar meus olhos pra
você poder se ver. De qualquer maneira, eles serão seus para sempre”.
Você me leva para a cama sem que troquemos uma palavra. Abraça-me
e pede desculpas.
Eu acordo com o som dos seus cadarços sendo amarrados. Era sábado e
parecia ser muito cedo, já que nem sentia o calor do sol vindo da janela
ainda. Não entendi porque estava acordado àquela hora. Por algum
motivo decidi fingir que ainda estava dormindo. Eu ouço o armário de
roupas se fechar e um longo barulho de zíper, não era curto como de
uma calça, mas longo e pesado como o de uma mala. Foi então que
percebi que o pedido de desculpas fora feito adiantado.
A porta de casa se fecha bem devagarinho. A chave tranca a porta por
fora e eu me esvazio por dentro.

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s.m.: é aquela que "faz o oposto" de uma dada função.
Ana Clara Ignacio Costa
I.
Um mundo imenso de arte cerca Beatrice, sentada em seu pequeno
quarto, que se torna ínfimo quando rodeado por museus, teatros,
cinemas e bibliotecas lá fora. Com uma mão na cabeça e outra no lápis,
em meio do que parecem centenas de folhas cheias de cálculos, a
menina se concentra, tentando calcular de cabeça o resultado da
equação. A ponta do lápis firme no papel escreve "x + y = 56", e a menina
esboça um sorriso no canto da boca.
Imediatamente a sua mãe entra no seu quarto, abrindo a porta
abruptamente. Beatrice olha para a mão de sua mãe e vê que ela segura
seu boletim. Olha para o rosto da mulher e percebe o ar de
descontentamento.
- Filha, o que é isso?! - ela grita.
- Mãe, eu não consigo, desculpa, mas eu não consigo - a menina fala,
encolhendo-se em sua cadeira, com os olhos voltados para suas pernas.
- 6,5 em cinema; 5,7 em teatro; 4 em fotografia; isso é um absurdo, você
não está nem tentando! - ela joga o boletim na mesa, em cima dos papéis
da filha - Fica o dia inteiro mergulhada nessas equações, não lê nenhum
livro, não tira uma foto, e assistir um filme é uma vez a cada dois meses!
Diz para mim, como você quer ser alguém na vida se tudo que você faz
é calcular e calcular?
- Eu já falei mil vezes, é difícil para mim, não são coisas que me
interessam. Não é só porque eu não sei tirar uma foto ou não sei
reconhecer um quadro expressionista que eu vou ficar pobre, morar na
rua. Se eu me dedicar eu posso ser uma engenheira famosa, alguns
conseguem chegar lá, e eu realmente acho que eu..
- Filha, você tem que parar de sonhar! Olha o mundo em que vivemos,
olha para fora da sua janela - a mãe coloca a mão na cabeça e suspira -
Não quero me estressar hoje, só.. só guarda esses papeis e vai assistir
um filme. 29

Assim que a porta se fechou, Beatrice se jogou na cama de bruços e


começou a chorar, soluçar, até os olhos arderem. Acabou chorando até
um filme.
Assim que a porta se fechou, Beatrice se jogou na cama de bruços e
começou a chorar, soluçar, até os olhos arderem. Acabou chorando até
dormir, e dormiu até o outro dia. Já era sábado quando ela acordou, e
ela decidiu ver um filme. Escolheu ver "Pi", de Darren Aronofsky. Não
aguentou até a metade do filme; desligou seu computador e foi almoçar.
Ao entrar na sala de estar, viu sua mãe pintando.
- Bom dia, minha filha. Viu o filme? - a mulher diz, sem tirar o olho da
pintura.
- Vi. Metade. Era "Pi", do Aronofsky - ela disse, num tom de desgosto.
- Ah, incrível esse filme. Você sabia que ele..
- Incrível? É um filme sobre um matemático que é retratado como
doente mental, e você acha isso incrível? É horrível pensar que os
artistas nos veem assim, catatônicos ao mundo real só porque gostamos
de números; o mundo é todo números!
- Beatrice, são 11 horas da manhã, não me faça lhe dar uma lição de
moral agora. E nunca mais se inclua quando você fala desse tipo de
gente. Você é artista, você só não sabe ainda.
II.
Um mundo imenso de arte lá fora cerca Beatrice, sentada em um não
mais tão pequeno quarto. Vestindo um terno, calçando um salto alto,
maquiagem leve e cabelos amarrados em um penteado discreto, a não-
mais-menina senta-se de pernas cruzadas e postura elegante enquanto
relê um texto, vociferando-o baixinho para si mesma.
- Se eu construí este prédio.. – sussurrou, lendo o texto.
- Senhorita Moraes? – um homem o diz ao abrir a porta.
- Sim? – Beatrice tira os olhos do texto e se vira para a direção do
homem.
- Está na hora. 30
A mulher faz que sim com a cabeça, e o homem responde com o mesmo
gesto, fechando a porta. Ela se levanta, pega o papel de cima da mesa,
homem.
- Está na hora.
A mulher faz que sim com a cabeça, e o homem responde com o mesmo
gesto, fechando a porta. Ela se levanta, pega o papel de cima da mesa,
anda até o meio da sala com passos lentos. Ela olha ao seu redor, todas
as quatro paredes, o teto, o chão. Ela sorri um sorriso orgulhoso com o
canto da boca e olha para os seus pés. Num súbito, ela levanta sua
cabeça, seu olhar irredutível, seu caminhar convicto, caminha até a
porta, abre-a, olha para a sala mais uma vez e enfim fecha a porta.
Segurando o papel com as duas mãos, ela percorre um longo corredor,
olhando para cada pilastra, cada porta, cada detalhe. Se aproxima do
fim do corredor, onde dois seguranças esperam, um de cada lado de uma
imensa porta. Ela cumprimenta cada um com um aperto de mão e encara
a porta.
- Pronta? – o homem da esquerda pergunta.
- Pronta – ela responde, sem desviar o olhar da porta.
- Boa sorte, Senhorita – diz o homem da direita.
Ela apenas responde com um sorriso. Respira fundo. Os dois homens
abrem cada um, um lado da porta, e Beatrice dá de cara com flashes de
fotógrafos, microfones apontados para uma tribuna e centenas de
pessoas lotando um enorme saguão. A entrada da mulher causa um
grande tumulto, todos gritam o seu nome, chamando-a para a direção
das câmeras.
Ela se dirige à tribuna, com um sorriso discreto no rosto, espera
algumas fotos serem batidas, acena elegantemente para os convidados
no saguão e espera o silêncio. Ela arruma o papel na tribuna, olha mais
uma vez para o texto e levanta seu olhar ao horizonte.
- Gostaria de agradecer a todos que estão aqui para prestigiar a
inauguração desta minha obra. Eu chamo de obra porque é como arte
para mim.
31
Ela levanta seu rosto, procura algo rapidamente, mas não acha.
Minha mãe sempre me disse que no fundo eu era artista, mas que eu só
inauguração desta minha obra. Eu chamo de obra porque é como arte
para mim.
Ela levanta seu rosto, procura algo rapidamente, mas não acha.
Minha mãe sempre me disse que no fundo eu era artista, mas que eu só
não sabia ainda. E ela estava certa. Porque o “ser artista” não significa
ter um boletim bom nas matérias de cinema, fotografia, teatro, que não
era meu caso. Eu sempre fui apaixonada pelos números. Era uma paixão
que me afastava da realidade, que me deixava surda aos “você não vai
conseguir” ou “você não será ninguém na vida”. E não foram poucos. Eu
ignorei todos os maus pensamentos, os conselhos não tão conselhos
assim, e qualquer outra coisa que tentasse me fazer desistir do meu
sonho. E cá estou eu. De pé, discursando para centenas de pessoas,
literalmente dentro do meu sonho. Construir este prédio era o meu
maior desejo, e não foi fácil realizá-lo. Nem sempre tive apoio, na
verdade quase nunca. Até depois de me formar, todos diziam que eu
gastaria mais dinheiro do que ganharia, mas ninguém entendia que eu
não estava fazendo por dinheiro, mas sim, por amor. Por amor aos
números, à engenharia, à minha forma única de fazer arte.
Uma grande salva de palmas encheu a grande sala. Beatrice olha de
novo para a mãe, que chora e bate palmas para a filha, como sua maior
fã.
- Senhorita Moraes, pode nos dizer por que decidiu construir um
museu? Por que não um prédio, como todos os outros engenheiros
famosos fizeram? – Perguntou um jornalista, e apontou o microfone a
ela.
- Bom, claro que passou pela minha cabeça construir um arranha-céu
gigantesco no meio da cidade. Mas eu cheguei à conclusão de que eu não
estaria fazendo por amor, mas sim, por prepotência. Eu resolvi
construir um museu como símbolo do meu acordo de paz com as artes.
Por muito tempo eu odiei arte, muito devido a escola. Mas creio que
cada ramo tenha sua importância no mundo. Eu construí este museu
justamente para incentivar a união entre exatas e artes. Alguém me
disse uma vez que a arte existe para que a realidade não nos mate. Se
assim é, então engenharia é a minha arte, porque foi ela e o meu amor
por ela que me fez querer continuar. Acredito que tudo que for feito 32
com amor é válido como forma de arte. Muito obrigada.
Mais uma vez todos dentro do saguão batem palmas a Beatrice que, após
disse uma vez que a arte existe para que a realidade não nos mate. Se
assim é, então engenharia é a minha arte, porque foi ela e o meu amor
por ela que me fez querer continuar. Acredito que tudo que for feito
com amor é válido como forma de arte. Muito obrigada.
Mais uma vez todos dentro do saguão batem palmas a Beatrice que, após
alguns acenos, vira-se de costas e sai pela porta. Ela faz o mesmo
caminho até a sala em que se encontrava anteriormente, abre a porta
e entra. Ela caminha até a cadeira e se senta, descansando, com um
grande sorriso no rosto. Alguns minutos depois, ela ouve alguém bater
na porta.
- Senhorita? – um homem diz ao abrir a porta.
- Desculpa, mas eu preciso descansar um pouco antes de responder mais
perguntas dos.. – ela diz, sem virar para trás.
- Não, senhorita, é outra coisa. Você tem uma visita.
Ela se vira, surpresa, e encontra sua mãe na porta. O homem fecha a
porta e se vai, e Beatrice anda até sua mãe, olhando diretamente nos
olhos dela. Ao se aproximar dela, a filha a abraça fortemente, a solta
e depois coloca suas duas mãos gentilmente no rosto envelhecido da
mãe.
- Filha – ela diz, em meio a lágrimas – você me desculpa por todas as
vezes que eu te disse para desistir?
- Mãe, eu sou filha de artista. Eu nunca conseguiria parar de sonhar.

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34
Eu não acreditava mais em Deus. Eu tinha quatorze anos e não
acreditava mais em Deus. Nem em Papai Noel, coelhinho da páscoa, fada
dos dentes, ou qualquer outro deus ex-machina que fosse capaz de
resolver meus problemas em um toque de mágica. Eu não acreditava
em nada que a ciência não pudesse explicar. Eu tinha quatorze anos e,
com exatamente nove anos, eu já era cético.
Só que, por mais racional que eu fosse, medo é algo irracional. Ele
ultrapassa os limites da lógica, até mesmo para os afundados em
ceticismo. Eu descobri do jeito mais difícil que eu não poderia me dar
ao luxo de achar que tudo que existe pode ser explicado através de
teorias científicas, não poderia deixar tudo nas mãos dos cientistas,
endeusando seus métodos e fazendo deles, dogmas. Seria muito fácil. E
fácil, com certeza, isso não foi.
Foi a primeira vez que eu fiquei sozinho em casa. Meus pais saíram para
uma festa e queriam que eu fosse junto, porque eu era muito pequeno
para ficar sozinho em casa e blá blá blá. Mas, por Deus, eu não aguentava
mais ir arrastado para aquelas festas de adulto, monótonas e
artificiais, cheias de etiqueta. E outra, eu já tinha consciência de que
todo mundo odiava aquele casal que sempre trazia o filho pequeno para
a festa. Depois de muitos argumentos - mais do que o normal para um
menino de apenas quatorze anos -, meus pais cederam, e me deixaram
ficar em casa sozinho.
Assim que terminaram de fazer as cinquenta mil recomendações,
regras, “não faça isso”, “não durma tarde” e o famoso “não abra a porta
para ninguém”, meus pais finalmente se deixaram ir a tal da festa. Eu
fiquei olhando pela cortina da sala que dava para o portão até eles
irem embora e eu não ver mais o carro. Fechei a cortina, voltei meus
olhos para a casa, completamente vazia e eu, completamente, sozinho,
sentindo-me livre, um adulto emancipado das rédeas dos pais.
Como todo bom adulto, peguei todos os doces que pude achar na cozinha,
joguei-os no sofá e sentei-me no meu antro de independência. Liguei a
TV e comecei a passar pelos canais, a eterna dança entre o controle
remoto e minha falta de interesse pelos canais de gente adulta -
notícias, novelas, tudo muito sério e sem graça. Até que eu passei pelo
Discovery Channel. Não entendi direito sobre o que se tratava o
programa no começo, parecia ser várias pessoas relatando experiências
que tiveram com ladrões ou algo do tipo. 35
O depoimento de uma senhora foi o que me revelou o tema. Mais
especificamente, foi a frase “eles me encararam e eu sabia que eles não
pertenciam aqui, a Terra” que me marcou e revelou o tema. Nunca
que tiveram com ladrões ou algo do tipo.
O depoimento de uma senhora foi o que me revelou o tema. Mais
especificamente, foi a frase “eles me encararam e eu sabia que eles não
pertenciam aqui, a Terra” que me marcou e revelou o tema. Nunca
tinha parado para considerar a existência de extra-terrestres, mas
sabia que era algo que a ciência não podia explicar, assim como Deus ou
fadas, então inferi que tampouco existissem.
Os depoimentos, relatos de abordagens alienígenas e prováveis
abduções, se intercalavam com imagens de dois ETs que eu,
racionalmente, sabia que eram dois atores vestidos de macacões pretos
e com máscaras enormes ovaladas com olhos pretos gigantes. Contudo,
eu ainda era criança, e tudo era tão crível quando envolvido pela voz
profunda do narrador que dizia a cada trinta segundos “isto é verdade”.
Sabe, quando você é cético, você tem muita convicção de que tudo que
é mágico ou sobrenatural é mentira. Você sabe. Você está seguro de que
nada que não seja natural pode te atacar, e ao mesmo tempo que nada
que não seja natural também não pode te salvar. Porém, mesmo assim,
você tem aquele 1% de esperança, ou medo, lá no fundo das suas
entranhas, de que tudo aquilo que você não sabe explicar exista. Afinal,
é a esperança e o medo que nos fazem humanos, que nos diferem de uma
máquina.
Então lá estava eu, sozinho em casa, olhando fixamente para a
televisão, sentindo esse meu 1% vindo à tona e se amplificando. Era um
sentimento estranho, como se eu não estivesse mais protegido, como se
eu não pudesse mais controlar racionalmente minhas reações. Medo é
um cão dos diabos, ele te faz perder o controle do que é real e do que
não é.
Foi aquela cena bem clássica de filme, o menino sentado no sofá todo
encolhido, segurando as pernas, luzes apagadas - não sei o que eu tinha
na cabeça para não ter deixado a luz ligada -, só a luz da televisão
iluminava meu rosto, que mostrava uma expressão de desespero, muito
provavelmente. Parecia que o mundo todo era só eu e aquela televisão,
e que só aquilo era verdadeiro.
Quando o documentário acabou, eu olhei em volta e não consegui ver
quase nada a não ser as luzes da rua pela cortina da janela. Deveria ser
umas dez horas da noite, muito depois do meu horário de dormir, 36
portanto não fazia ideia do tipo de coisa que acontecia no mundo depois
das dez horas da noite. E digamos que toda aquela adultez foi embora
quando eu corri envolto pelo cobertor até o meu quarto, nem me dei
umas dez horas da noite, muito depois do meu horário de dormir,
portanto não fazia ideia do tipo de coisa que acontecia no mundo depois
das dez horas da noite. E digamos que toda aquela adultez foi embora
quando eu corri envolto pelo cobertor até o meu quarto, nem me dei
ao trabalho de desligar a TV ou limpar a sujeira da comida.
Era uma questão de se levantar do sofá e andar dez passos até o meu
quarto, mas foi como se o tempo tivesse dilatado e aqueles passos, se
tornado uma eternidade, o corredor até meu quarto parecia infinito.
Fechei a porta e a tranquei, colocando-me contra ela após tê-lo feito.
Respirava muito alto e percebi que fazia muito barulho, então parei.
Fechei a janela que dava para um matagal imenso e fechei a cortina.
Deitei-me e me enrolei no cobertor de modo que só os meus olhos e o
meu nariz ficassem à vista.
Não sabia em que direção me deitar para obter melhor visão de todo o
quarto. Se virasse para a esquerda, meu campo de visão ficaria restrito
à esquerda, e o mesmo com a direita. De bruços, não veria nada. Resolvi
ficar de barriga para cima, alerta, mesmo que pensasse que, nessa
posição, seria mais fácil de ser abduzido.
Devo ter demorado uma hora para pegar no sono, mas pareceu muito
mais. Eu tentava não me mexer para tentar me camuflar na cama, para
tentar enganar qualquer possível criatura. Sentia e ouvia o meu
batimento cardíaco muito forte na minha veia do pescoço cada vez que
ouvia qualquer barulho. Estava em total estado de alerta.
Consegui dormir por um tempo, mas foi como se o sono tivesse durado
um segundo - literalmente um piscar de olhos. Quando acordei eu
percebi que estava deitado virado para a direita, havia me
movimentado durante o sono. Senti um vento frio vindo da minha
janela atrás de mim, alguém a havia aberto. Inferi, mas também senti
a presença de algo me observando mas, como tudo estava muito escuro,
não pude identificar nenhum sombra que me indicasse o que era.
Não sabia o que fazer, então esperei um comando. Subitamente, uma luz
branca muito forte tomou conta do meu quarto e, como um reflexo,
levantei meu tronco, mas nada vi além de uma imensa branquitude.
Alguém me empurrou da cama e eu caí no chão, de bruços.
Quando levantei minha cabeça, percebi que não estava mais no meu
quarto. De um segundo para o outro fui transportado para uma vasta 37
sala de paredes arredondadas, totalmente branca, com apenas uma
cadeira, também branca, no seu meio. Me olhei e percebi que eu não
estava mais de pijama, mas sim com uma roupa totalmente branca.
quarto. De um segundo para o outro fui transportado para uma vasta
sala de paredes arredondadas, totalmente branca, com apenas uma
cadeira, também branca, no seu meio. Me olhei e percebi que eu não
estava mais de pijama, mas sim com uma roupa totalmente branca.
Toquei na minha cabeça e não senti meu cabelo. Aparentemente esses
seres possuiam uma diferente concepção de tempo, e eram capazes de
controlá-lo a ponto de me transportar para outro lugar, trocar minhas
roupas e raspar meu cabelo em questão de um segundo,
imperceptivelmente.
Senti-me muito pequeno e impotente, mais do que o sentia entre os
adultos, sentado naquele lugar imenso, à espera de algo que eu não
sabia o que era. Foi quando os vi. Eram dois. Os mesmos dois que eu vira
na televisão. Não sei se os mesmos, mas eram iguais. Muito altos, algo
como 3 metros, magros, vestidos de preto, mãos longas, cabeças enormes
e olhos gigantes, totalmente pretos, que me encaravam fixamente. Eles
apareceram no horizonte, andavam devagar e em grande sincronia,
como se fossem clones.
Quanto mais se aproximavam, mais eu me contorcia na cadeira, na
tentativa de sair, mas não conseguia, era como se estivesse amarrado
a ela, mas não via nenhum tipo de fio. Quando os dois de fato se
aproximaram de mim, eu congelei. A visão era idêntica àquela que
tinha visto na televisão: os dois me olhavam de cima, com a cabeça
inclinada, me analisando, sem falar nada, nem emitir qualquer tipo de
som.
Um deles, então, deslizou uma mão do meu rosto até meu queixo, e senti
que estava próximo dos meus últimos segundos de vida. Muitos “e se”
vieram a minha cabeça naquele momento. “E se eu tivesse ido àquela
festa com os meus pais?”; “e se eu tivesse assistido novela ou jornal?”; “e
se eu não tivesse dormido?”. Também pensei no que aquelas pessoas que
foram entrevistadas fizeram para que sobrevivessem a isso. Não
conseguia pensar em nada, não via nenhuma porta, só um infinito
branco.
Meus olhos começaram a marejar, eu o senti afundando seu dedo no
meu peito enquanto uma luz saía dentro de mim, do buraco que ele
fizera lá. Fechei os olhos para que as lágrimas pudessem cair quando os
abrisse. Quando o fiz, a luz não era mais tão forte, eu não estava mais
sentado, e tudo não era mais branco. Olhava para a parede direita do 38
meu quarto, iluminada por uma luz fraca, esmaecida devido à cortina.
Estava deitado debaixo das cobertas e ouvia o som da buzina do carro
dos meus pais.
sentado, e tudo não era mais branco. Olhava para a parede direita do
meu quarto, iluminada por uma luz fraca, esmaecida devido à cortina.
Estava deitado debaixo das cobertas e ouvia o som da buzina do carro
dos meus pais.
Levantei-me, fui até a sala, a TV ainda ligada e as comidas no sofá.
Olhei pela janela da sala meu pai apertando a buzina com todo o corpo
para fora do carro, e a minha mãe no carro tentando ligar para alguém.
Eu saí de casa e fui até o portão, meus pais tinham esquecido a chave
de casa na festa; estavam tentando me acordar fazia um tempo para
que eu abrisse o portão para eles.
Levei uma bronca por causa da bagunça, ouvi o famoso “você acha que
dinheiro nasce em árvore para deixar a televisão ligada até essa
hora?”. Decidi não contar nada do que tinha acontecido. Afinal, era só
um sonho. Apesar de ter sido extremamente real e tangível.
Voltei à cama, deitei-me e senti algo coçando no meu peito. Saí da cama,
liguei a luz e tirei a camisa na frente do espelho. Vi uma marca preta
e redonda no meu peito. Passei a mão, mas não senti nenhuma saliência,
era como se fosse parte da minha pele. Pressionei a marca como se fosse
um botão, como ele o fizera, e então me vi. Olhei no espelho e me vi. Eu
não era mais eu. Eu era um deles. Apertei de novo, e voltei ao normal.
Eu tenho quatorze anos e, exatamente aos quatorze anos, eu me tornei
um deles.

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Era uma sala descomunal. Preenchida pelo silêncio, parecia maior ainda
para Yurena. Sentada sozinha com seus pensamentos. Traços de
arquitetura gótica, o ambiente se impunha sobre a mulher. De costas
para a porta, pés e mãos algemados. A sua frente, sobre a mesa, fotos,
nas quais se viam algemas, chicotes, roupas de látex, mordaças, cordas,
chibatas, coleiras, correntes e outros itens de sadomasoquismo. Atrás
da mesa, um homem.
- Irmã – o homem suspira – por que o fez?
- Ele mereceu; ele mereceu e agora vai pagar seus pecados por toda a
eternidade.
- Pecados? – o bispo riu – Como você ousa falar sobre pecados?
- Vossa Reverendíssima, matar ainda é pecado se quem morre é
pecador?
O homem se recosta na cadeira. Olha para as fotos, olha para ela.
- Achamos isso em seu dormitório, o que você vê nas fotos. Ainda tem
a audácia de sequer pensar que é isenta de pecados?
- Tudo tem uma razão.
- Não há razão suficiente para pecar como você pecou! – o homem grita,
levantando-se da cadeira e batendo seus punhos na mesa. A mulher o
encarou calmamente por algum tempo, como se decidindo se explicaria
ou não.
- Meus pais me puseram no internato quando eu tinha nove anos. Desde
então eu nunca mais ouvi deles. Passaram-se anos e eu vivia rodeada
por meninas, mulheres, senhoras. A única figura masculina na minha
vida era o Arcebispo Daniel, que de vez em quando visitava o internato.
Cada vez ele visitava uma menina diferente. Ele abusava sexualmente
todas.
- Como ousa externar tamanha blasfêmia contra um homem bom e,
ainda por cima, falecido? – o homem se põe na beira de sua cadeira e
se inclina para frente, encarando fundo nos olhos da mulher, suas mãos
sobre a mesa. 41

- Vossa Reverendíssima, o Arcebispo Daniel me estuprou. Eu tinha onze


anos, finalmente recebera a sua visita, ele trancou a porta, me deitou
se inclina para frente, encarando fundo nos olhos da mulher, suas mãos
sobre a mesa.
- Vossa Reverendíssima, o Arcebispo Daniel me estuprou. Eu tinha onze
anos, finalmente recebera a sua visita, ele trancou a porta, me deitou
na cama e tirou a minha virgindade. Depois de o que pareceu uma
eternidade, ele explodiu dentro de mim, abriu a porta do meu quarto e,
saindo, me disse “não se preocupe, você ainda vai para o céu”.
O bispo olhava para o chão, suas mãos na sua cabeça, sem vociferar uma
palavra, sem conseguir voltar seus olhos a qualquer lugar que não seus
pés. Yurena, por outro lado, o encarava fixamente, esperando alguma
resposta, alguma reação, um pedido de desculpas, qualquer coisa.
- Quando eu fiz quinze anos, recebi a notícia de que ele havia se mudado,
não fazia mais parte do corpo clerical da igreja local. Senti-me livre
mas, ao mesmo tempo, senti que me faltava uma figura de
superioridade. Foi então que um dia, lendo o jornal, vi o anúncio de
prostitutas. Elas se descreviam e especificavam o tipo de serviço que
faziam – dominatrix, escrava sexual, entre outros. No outro dia, decidi
mandar uma carta endereçada para o jornal local, descrevendo-me
como garota de programa adepta ao sadomasoquismo. E foi assim que
tudo começou. O telefone de contato era o do orelhão na esquina do
internato, e eu especificava no anúncio que o horário disponível para
ligações para marcar hora era aos sábados ao meio dia, quando
tínhamos hora livre. No começo eu esperava duas horas perto do
telefone e recebia duas ou três ligações. Com o tempo, ganhei fama e
em uma hora recebia cerca de 14 ligações, marcando dois clientes por
noite. As irmãs nos colocavam para dormir às 21h. Os programas
começavam às 22h e iam até a 1h da manhã. Os clientes me buscavam
de carro na esquina do outro quarteirão e eu conseguia fugir do
internato porque tinha roubado a chave da Irmã Superior para fazer
uma cópia.
- E ninguém nunca descobriu? – finalmente sussurrou o bispo, voltando
seus olhos para Yurena, passando pelas fotos e pelo diário, e logo
desviando o olhar.
- Bom, eu estou aqui, não estou? – ela riu. 42

- Mas eu não entendo.. Então você matou o Arcebispo porque ele lhe
transformou nessa pessoa? Eu..
- Bom, eu estou aqui, não estou? – ela riu.
- Mas eu não entendo.. Então você matou o Arcebispo porque ele lhe
transformou nessa pessoa? Eu..
- Sim – interrompeu – eu o culpo por tudo isso. Eu não queria ser essa
pessoa. Essa pessoa que só consegue sentir prazer se ele vier
acompanhado de dor. Que usa a dor no sexo tanto para a sua satisfação
quanto como punição por se satisfazer. Um paradoxo ambulante.
Alguém que vive entre a culpa e o gozo.
- Mas como você o encontrou? Era tudo parte de um plano por
vingança? – perguntou ele, como se com vergonha, sem reação
nenhuma a não ser um desconcerto com sua fé.
- O destino o trouxe a mim. Sábado passado eu estava agendando os
programas quando alguém me ligou. Nunca peço o nome dos clientes por
telefone, assim como peço que não me perguntem o meu. Marcamos para
quinta de noite, 22h. O dia chegou, eu entrei no carro e quando o vi eu
não consegui conter meu susto. Era ele. Ele percebeu a minha reação,
perguntou se havia algo errado e eu voltei a mim. Disse que não, pedi
que só dirigisse, que eu não gostava de conversar. Ele me levou até um
motel barato a uns quinze minutos dali. Ele pegou a chave na recepção,
me indicou o elevador, subimos até o quarto, silencio absoluto. Ele abriu
a porta, fez sinal para que eu entrasse, e fechou a porta atrás de mim,
como quinze anos atrás o fizera. Eu sabia que eu o mataria, que tinha
de fazê-lo. Ele me jogou na cama e se pôs em cima de mim. Quando se
aproximou para me beijar, eu peguei o travesseiro do meu lado e pus em
seu rosto, empurrando-o para o lado e depois contra a cama. Depois de
conferir se sua respiração realmente havia cessado, eu saí do quarto e
antes de fechar a porta eu falei: “não se preocupe, eu ainda vou para o
céu”. Afinal, bispo, matar ainda é pecado se quem morre é pecador?

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Ela cantava. Cantava na rua. Das onze horas da noite até umas quatro
da madrugada. Salto doze, minissaia, meia arrastão, blusa decotada,
unhas e lábios vermelhos, olhos azuis. Escolhia a dedo os carros em que
entrava. E na rua ela, de novo, cantava.
Sem movimento hoje. Ela atravessa a rua e entra na boate. Era linda.
Tudo e todos param para olhá-la. Ela mantém seus olhos em direção ao
balcão. “Que que cê tá fazendo aqui? Vai pra rua”, ele disse. “Não tem
ninguém, e eu preciso de água”, ela. “Cê quer voltar mais cedo hoje?
Cansou de exibir as pernas por aí já?”, ele riu. Ela faz um punho com a
mão e olha para ele com os olhos de cólera. “Cê sabe o que acontece se
você continuar assim? Tá aqui sua água, agora seja uma boa garota e
volta agora pra rua”. Ela bebe a água avidamente. Ela desfaz o punho.
Ela é uma boa garota e volta agora pra rua. E na rua ela, de novo, canta.
Espelho e pente na mão. Soltava-os raramente. Normalmente só quando
algum carro que a interessava passava. Ela soltou o espelho e o pente.
O vidro abaixou e ela se encostou na janela aberta. “Canta bem. Mas eu
conheço outros jeitos de usar a sua boca”, ele destranca o carro. “Me
ensina”, ela entra.
É um motel barato, como de costume. A porta abre, as roupas caem ao
chão, as peles se tocam, mas nada se sente. Já era tarde. Tão tarde que
já poderia chamar de cedo. Ela já havia trabalhado muitas horas. Não
tinha mais fôlego. Suas mãos o empurram para fora dela, ela respira
com dificuldade. Corre para o banheiro do quarto e liga o chuveiro.
Cada segundo debaixo da água lhe dá fôlego. Ela tranca a porta e enche
a banheira, e lá fica por alguns minutos, submersa da cintura para cima,
pernas para fora da banheira.
“Tá tudo bem?” ela ouve, através da camada de água. Ela emerge de
súbito. “Já tô indo”, ela diz, saindo da banheira, secando-se rapidamente.
Ela abre a porta, pede desculpas, alcança suas roupas no chão e as veste
rapidamente. Pega o dinheiro em cima do balcão e, sem se despedir, sai
do quarto às pressas. Ela chega na recepção, pede água e se senta,
olhando para baixo. Ela bebe a água e tonteia ao levantar.
Na rua, avista um taxi. Ela consegue falar “Sirena’s, rápido”, seus lábios
secos. Durante todo o trajeto dava pequenos beliscões no seu braço para
permanecer acordada, mas seus olhos ameaçavam fechar
constantemente de qualquer jeito. Olha para o lado e vê seu reflexo na 45
janela do carro. Batom e sombra borrados, olheiras, cabelo despenteado.
Logo desvia o olhar, logo uma lágrima cai.
Finalmente avista o letreiro vermelho piscando no meio da escuridão
constantemente de qualquer jeito. Olha para o lado e vê seu reflexo na
janela do carro. Batom e sombra borrados, olheiras, cabelo despenteado.
Logo desvia o olhar, logo uma lágrima cai.
Finalmente avista o letreiro vermelho piscando no meio da escuridão
da madrugada. Ela joga vinte reais no banco de trás e sai do carro
batendo a porta. Entra na boate já tirando da bolsa o dinheiro que
pegara de cima do balcão. Com os cem reais na mão ela anda por entre
as mesas, seus olhos quase cedendo. Ela o encontra.
“Chaves”, ela diz, quase sem voz, e dá o dinheiro a ele. Ele conta
lentamente cédula por cédula. “Só? Cê me dá mais prejuízo do que lucro,
garota”, ele diz, encarando-a com desdém. Ele levanta, vai até atrás do
balcão, pega as chaves e dá para ela. Quando ela ameaça pegá-las, ele as
afasta de suas mãos. “Na próxima volta com duzentos ou nem volta
mais”, e dá as chaves a ela de novo. Ela assente com a cabeça e arranca
as chaves da mão dele.
Sai correndo, sobe as escadas até o segundo andar, despindo-se. As
escadas davam para uma porta, e uma porta somente. Ela abre a porta
e entra. Mergulha. Água a envolve por todos os lados. Cada segundo
dentro da água era como uma respiração profunda. Suas pernas que a
sustentaram a noite inteira não estavam mais lá. Uma cauda de
escamas azul brilhantes tomou forma. E, pela primeira vez em cinco
horas, ela sorriu.

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Ilustrações (em ordem de aparecimento):
1. Íris no guardanapo, Ana Clara Ignacio Costa, 2014.
2. Flor zenital, Ana Clara Ignacio Costa, 2015.
3. Autorretrato, Ana Clara Ignacio Costa, 2017.
4. Árvore de Poe, Ana Clara Ignacio Costa, 2015.
5. Keep it Punk, Ana Clara Ignacio Costa, 2015.
6. Rosas aleatórias Ana Clara Ignacio Costa, 2017.
7. Selva de pedra, Ana Clara Ignacio Costa, 2017.
8. Ramos aleatórios, Ana Clara Ignacio Costa, 2017.
9. Flow, Ana Clara Ignacio Costa, 2017.
10. Diferir, Ana Clara Ignacio Costa, 2017.
11. Série de rostos de uma linha só, Ana Clara Ignacio Costa, 2017.
12. A ciração de Yurena (baseado na “Criação de Adão”, de
Michellangelo) Ana Clara Ignacio Costa, 2017.
13. Série de olhos, Ana Clara Ignacio Costa, 2018.

Agradecimentos
Prof. Dr. Márcio Markendorf
Meu pai, Mario Costa

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