Sei sulla pagina 1di 36

12º Ano

2019/2020

Tráfico de Seres Humanos


GEOGRAFIA C
PROFESSORA CONCEIÇÃO GUERRA

Elaborado por:
Andreia Campos, Bruna Salgado, Bruno Castro, Clara Cunha, Estela Ferreira, Inês Ramos,
Jacinta Silva, Joana Vaz, Luísa Lopes, Sara Pereira, Viviana Costeira e Teresa Cunha
12LH1
Índice

Introdução ..................................................................................................................................... 2
Tráfico de seres humanos ............................................................................................................. 3
• O que é? ............................................................................................................................ 3
• A exploração laboral e o TSH para exploração laboral ..................................................... 4
• Tráfico de mulheres para fins de exploração sexual ......................................................... 6
• Tráfico de Seres Humanos no Mundo ............................................................................. 11
Tráfico de Seres Humanos em Portugal ...................................................................................... 13
• Casos, Relatórios e Estatísticas ....................................................................................... 15
• Testemunhos ................................................................................................................... 17
Ciclo do Tráfico de Seres Humanos ............................................................................................. 18
Fatores Promotores do Tráfico de Seres Humanos .................................................................... 19
Indicadores de uma situação de TSH .......................................................................................... 20
Exploração laboral e o tráfico de portugueses no estrangeiro ................................................... 21
Jovens como potenciais vítimas .................................................................................................. 22
Prevenção e denúncia de TSH e de exploração laboral .............................................................. 26
• Campanhas de prevenção e combate contra o TSH em Portugal ................................... 27
OIKOS........................................................................................................................................... 29
• A sua organização............................................................................................................ 29
• Áreas e temáticas de intervenção ................................................................................... 30
• Testemunhos ................................................................................................................... 32
Conclusão .................................................................................................................................... 34
Web/Bibliografia ......................................................................................................................... 35

1
Introdução

No âmbito da disciplina de Geografia C e em colaboração com a Biblioteca Escola e


com a OIKOS, foi-nos proposta a realização de um trabalho que elegesse como tema
principal o Tráfico de Seres Humanos, um crime contra a liberdade pessoal, que afeta
milhões de pessoas em todo o mundo.
Deste modo, o nosso trabalho aborda inúmeros aspetos que constituem a base para
sabermos identificar uma situação de Tráfico de Seres Humanos e alerta para a
urgência de erradicação deste flagelo a nível mundial, que constitui uma das mais
violentas violações dos direitos humanos.

2
Tráfico de seres humanos

• O que é?

O tráfico de seres humanos ou TSH, consiste


na comercialização, escravatura, exploração e
privação de vidas é, por isso, um ato de
violação dos direitos humanos e,
consequentemente, um ato ilegal. Esta foi uma
das atividades ilegais que mais cresceu no
século XXI.
São considerados traficantes de seres
humanos todos aqueles que participam no
recrutamento, transporte, transferência,
alojamento e acolhimento de pessoas, privando
a liberdade dos indivíduos. Estes infratores
atuam numa escala regional, nacional e internacional, ameaçam, recorrem ao uso de
força, raptam, enganam, abusam da autoridade e de situações vulneráveis, para fins
exploratórios.
O tráfico de pessoas tem inúmeras finalidades, entre elas a escravatura sexual que
tem como prática a prostituição forçada, o trabalho forçado (no qual a população em
busca de melhores condições de vida é iludida e enganada por criminosos, na sua
maioria em sites online, que oferecem empregos com altas remunerações. As vítimas
deste tipo de tráfico são obrigadas a trabalhar forçadamente sem qualquer tipo de
salário para além de serem, constantemente, ameaçadas e torturadas), o
recrutamento de pessoas para a participação em tráfico de drogas ou dos mais
diversos produtos ilegais, a extração de órgãos para uma posterior comercialização
destes nos mercados negros, o uso de barrigas de aluguer e, até mesmo, a realização
de casamentos forçados.
Este tipo de crimes são extremamente difíceis de identificar, não só devido à sua
grande ocultação, mas, também, devido ao facto de se confundir com o auxílio à

3
imigração ilegal. Para distinguir estas duas atividades ilegais deve-se ter em atenção os
seguintes aspetos… Enquanto que na imigração ilegal há um consentimento entre a
pessoa em questão e o contrabandista, no TSH isto não é possível. O TSH pode ser
realizado em território nacional ao passo que, a imigração ilegal envolve a travessia,
ilegal, de uma fronteira para outra. Na imigração ilegal a relação entre o
contrabandista e o migrante termina após a travessia ilegal, já no TSH a relação entre o
traficante e a vítima é um processo contínuo de exploração.

• A exploração laboral e o TSH para exploração laboral

A noção de Exploração Laboral integra, de uma forma abrangente, todas essas


situações que estão associadas à violação de preceitos da legislação laboral, da
Segurança Social ou mesmo da lei que regula a entrada, permanência, saída e
afastamento de estrangeiros do território nacional.
É, no entanto, de extrema importância esclarecer que uma situação de exploração
laboral não constitui, por si só, um caso de Tráfico de Seres Humanos (TSH). De facto,
para que possamos falar em TSH, não basta que as condições de trabalho praticadas
estejam abaixo dos mínimos legais.
A verdade é que a noção de Exploração Laboral presente na tipificação do art.º 160
do Código Penal não se identifica completamente com o conceito comum de
Exploração Laboral acima referido (no sentido da mera violação dos direitos dos
trabalhadores), devendo ser cruzada com o conceito de Trabalho Forçado, descrito
pelo artigo 2º da Convenção nº 29 da Organização do Trabalho (OIT) como: “o trabalho
ou serviço exigido a qualquer indivíduo sob a ameaça de uma sanção e para o qual o
dito indivíduo não se tenha oferecido de livre vontade.”
Nos casos de Tráfico para exploração Laboral, o resultado final pretendido pelo
traficante é, de facto, a constituição de uma relação de Trabalho Forçado, uma vez que
as vítimas daquele crime são enganadas, violentadas ou abusadas na sua
vulnerabilidade precisamente com o propósito de se envolverem em relações laborais
que se sentirão forçadas a manter.

4
São, portanto, situações de Tráfico Laboral, quer aquelas em que a vítima não quis
integrar a relação de trabalho, quer outras em que, tendo a vítima, de início, querido
fazê-lo, foi posteriormente esbulhada da liberdade de a abandonar, porque se sente
coagida a manter-se na situação.
O sentimento de coação é promovido, tal como descrito no conceito de Trabalho
Forçado, pela ameaça de uma sanção, que pode ter caráter físico, psicológico,
financeiro ou outro capaz de impedir um comportamento livre por parte da vítima.
Assim, para que uma situação se integre no quadro do Tráfico para Exploração
Laboral, será necessário que, às práticas da Exploração Laboral tout court, se aliem
elementos capazes de produzir na vítima esse sentimento de coação direta ou indireta.
Para que exista um crime de Tráfico para Exploração Laboral…
Elementos de Exploração Laboral (exemplos):
o Excesso de dias/horas de trabalho;
o Incumprimento das regras de higiene e segurança no trabalho;
o Não pagamento de salário ou pagamento abaixo do legalmente estabelecido;
o Despedimento arbitrário;
o Falta de pagamento das contribuições à Segurança Social ou instituto
equivalente.
o Etc. (…)
Elementos de Coação (exemplos):
o Violência;
o Ameaça de violência contra o próprio ou família;
o Restrição de movimentos e vigilância;
o Retenção de documentos ou dinheiro da vítima;
o Ameaça de denúncia às autoridades;
o Servidão por dívida;
o Aproveitamento de outras situações de vulnerabilidade;
o Etc. (…)

Capacitar os cidadãos para a identificação de situações suspeitas é essencial para


promover a denúncia pública do Tráfico de Seres Humanos. Consciente da veracidade

5
desta premissa, a ONU procurou explicitar, no seu manual contra o tráfico de pessoas
para profissionais do sistema de justiça penal, os indícios que devem ser interpretados
como sinais de alerta de situações dessa natureza.
Assim, na sinalização de uma situação de TSH, devem ser observados com especial
atenção os seguintes indicadores gerais:
A potencial vítima:
o Apresenta indícios de estar a ser controlada por alguém;
o Foge ao contacto;
o Apresenta sinais de medo, tristeza, ansiedade e desconfiança;
o Apresenta-se extremamente reativa;
o Tem hematomas ou sinais de agressão física;
o É incapaz ou tem dificuldades de comunicar em português;
o Está impossibilitada de aceder aos seus documentos de identificação;
o Apresenta indícios de que as suas respostas são instruídas por terceiros.

• Tráfico de mulheres para fins de exploração sexual


O negócio do tráfico de mulheres é extremamente
rentável. Num certo sentido, pode até dizer-se que o
tráfico de mulheres é mais rentável do que o tráfico
de armas ou drogas porque as mulheres,
contrariamente às drogas, são vendidas e revendidas
várias vezes.
A propagação do tráfico deve-se, também, à
relação entre risco/lucro. Os riscos para os
traficantes de pessoas parecem ser muito mais
baixos do que aqueles que surgem no tráfico de armas ou de drogas. Para além de as
mulheres traficadas serem, em regra, deslocadas para terras onde não conhecem a
língua nem estão familiarizadas com a cultura, também são exercidas sobre estas
formas de coerção, violência e persuasão que diminuem muito o risco de elas fazerem
qualquer denúncia. Além disso, o quadro jurídico-normativo nesta matéria é, em
vários países, vago ou inexistente e, mesmo quando a lei parece ser adequada, os

6
traficantes raramente são condenados ou, pelo menos, condenados com penas
severas que levem a que o risco seja superior ao lucro que se pode obter.
O aumento do número de grupos ligados ao tráfico de pessoas em geral, e de
mulheres em particular, tem sido acompanhado por uma crescente diversidade dos
mesmos, podendo ser constituídos por dois ou três indivíduos que atuam de forma
simplista ou, pelo contrário, por grupos que se inserem em estruturas amplamente
organizadas, com uma divisão de trabalho restrita e com ligação a outro tipo de
crimes.
Como refere um dos relatórios da Human Rights Watch (2001) sobre o tráfico de
mulheres na Grécia, o fenómeno internacional do tráfico de mulheres para exploração
sexual não poderia existir sem um nível de envolvimento significativo de polícias, de
agentes dos serviços de fronteiras e outros agentes da lei. Estes colaboram, tendo uma
atitude passiva em relação ao fenómeno, alimentando o crescimento da indústria
como clientes frequentes ou aceitando subornos para não denunciar certas situações.
Independentemente da estrutura, os grupos ligados ao tráfico têm, em regra,
pessoas com vários papéis, a saber: o recrutador, que encontra e traz consigo as
mulheres para serem exploradas, através do engano, mas também do uso da força; o
agente, a quem cabe comprar a mulher ao recrutador e vendê-la ao “empregador”, ao
“contratante” ou a outro agente; o “contratante”, que organiza todas as transações do
tráfico e que, normalmente, está ligado a uma organização criminosa; o agente de
viagens e/ou de trabalho, a quem cabe tratar da viagem e do alegado emprego
legítimo que espera a mulher; o falsificador de documentos surge quando o agente de
viagens não faz ele próprio esta tarefa; o transportador, que acompanha a mulher na
viagem até ao seu destino, seja este o agente ou, diretamente, o empregador; o
empregador, aquele que efetivamente irá explorar a mulher e que lhe dá a conhecer o
seu local de trabalho e residência e as condições que lhe serão impostas; e, por fim, o
polícia ou agente da lei que, em muitos casos, garante ao estabelecimento ou
empregador a segurança necessária para desenvolver o seu negócio com impunidade.
Obviamente que, dependendo da rede constituída, da sua maior ou menor
especialização, um só traficante pode desempenhar vários papéis ou, então, haver
pessoas diferentes para cada um.

7
O recrutamento
Os recrutadores são tão diversos quanto as formas de recrutamento. Se é verdade
que muitos estão inseridos em grupos criminosos, não raras vezes os recrutadores não
têm qualquer registo criminal e são pessoas da confiança das vítimas – familiares,
vizinhos, amigos, namorados, etc. – ou pessoas que pela posição que ocupam na
sociedade transmitem garantias de segurança e legitimidade – polícia, militar, agente
de imigração, agente de viagens, entre outros. A credibilidade, quer pela proximidade
da pessoa com a vítima, quer pela legitimidade que advém da sua posição na
sociedade ou profissão, leva a que a formam mais frequente de recrutamento seja,
sem dúvida, através da persuasão e engano. Um estudo realizado sobre as mulheres
traficadas da Europa de Leste para fins de exploração sexual demonstra que, na sua
grande maioria, estas foram recrutadas através de contacto pessoal com a promessa
de um emprego.
Vários estudos demonstram, ainda, que, frequentemente, são as próprias vítimas
que, mais tarde, e também como forma de conseguirem a sua liberdade, voltam à sua
terra de origem e recrutam mais mulheres através de uma história de vida
aparentemente bem-sucedida. As promessas de casamento são também cada vez mais
usuais. Elas surgem através dos lover‐boys, homens que namoram com as mulheres
durante um considerável período de tempo, ganham a sua confiança e a da família e,
com a promessa de casamento, convencem-nas a emigrar.
Outro tipo de recrutamento altamente disseminado é feito através de falsas
agências de viagem, de modelos ou de emprego
que levam as mulheres a acreditar que se irão
deslocar para outro país para trabalhar como
modelos, secretárias, dançarinas, empregadas de
bar, entre outros. Alguns “profissionais” destas
agências vão mesmo visitar os familiares das
mulheres para darem mais credibilidade e
legitimidade à agência. Estas formas de
recrutamento assentam na persuasão e no
engano, como modo de transmitir confiança

8
suficiente que permita às mulheres sentirem que o risco que correm é menor.
Mas se muitas formas de recrutamento passam pela persuasão e pelo engano,
também há várias que recorrem à violência, ao rapto, à ameaça, à chantagem e ao uso
de drogas. Na Europa Central e de Leste, por exemplo, as mulheres são,
frequentemente, recrutadas através do rapto.
Também a procura de jovens mulheres nos orfanatos é um modo de angariar
vítimas para exploração sexual. As jovens em risco são aquelas que, com idades entre
os 15 e os 17 anos, estão perto de ter de abandonar o orfanato. Aparentemente, os
traficantes sabem precisamente quando esta altura chega, certamente com a
colaboração de funcionários dos orfanatos, e lá se deslocam com ofertas de emprego e
formação.
A criatividade inerente às formas de recrutamento dificulta as iniciativas
preventivas e o trabalho da polícia na investigação do fenómeno, tornando-se menos
previsível do que o esperado.

O transporte
Tal como no recrutamento, esta fase denota uma grande criatividade por parte dos
traficantes, sendo possível o recurso a meios legais. É usual, por exemplo, no caso de
um agente de viagens ou de um agente dos serviços de migração, que a viagem da
mulher para outro país seja realizada mediante meios legais, graças aos vistos de
estudantes, de turistas ou de trabalho temporário.
No caso das agências de emprego ou de modelos também pode suceder que o
transporte das mulheres seja feito em moldes legais e que as mulheres não sejam
acompanhadas durante a viagem, recorrendo os traficantes apenas a quem as receba
depois no país de destino e aí dê início à exploração.
Há, portanto, um conjunto de meios legais que levam a que várias mulheres entrem
nos países de forma legal. Em certos países europeus, aliás, são passados vistos para
pessoas que trabalhem na indústria do sexo.
Quando estas manobras legais não estão disponíveis, os traficantes podem recorrer
a contrabandistas profissionais que conhecem e fazem uso de um sem número de
rotas. Os contrabandistas, que podem estar ou não inseridos na rede, diversificam as

9
rotas de modo a estar sempre um passo à frente da polícia e vão criando um sistema
complexo de “corredores verdes” onde operam mais facilmente.

A distribuição e formas de controlo


Após o recrutamento e o transporte, as vítimas são colocadas nos locais onde vão
ser alvo de exploração sexual. As mulheres podem ser colocadas a trabalhar noutras
áreas da indústria do sexo que não a prostituição (embora esta seja a forma de
exploração mais recorrente), nomeadamente como strippers, dançarinas,
acompanhantes, atrizes de filmes pornográficos, etc.
A exploração sexual a que as mulheres vão ser sujeitas é exercida mediante
estratégias de controlo que passam pela chantagem, intimidação, ameaça e violência
física e psicológica. A opção por qualquer uma destas formas de coação não é
indiferente do grupo criminoso envolvido, sendo que os grupos da Europa Central e de
Leste são catalogados como mais violentos, havendo mesmo casos de mulheres
assassinadas.
A grande maioria das mulheres traficadas para fins de exploração sexual sofre uma
violência inicial, com constantes violações e espancamentos de modo a que se
submetam a tudo o que lhes é ordenado. Muitas mulheres são, ainda, alvo de uma
violência rotineira para manter essa mesma obediência, como castigo ou, meramente,
para satisfazer o traficante. Este tipo de violência é exercido em frente ao grupo de
mulheres traficadas para que as outras receiem que algo semelhante lhes possa
acontecer.
Outras redes, mais artesanais, parecem exercer um controlo mais pela intimidação
e ameaça, do que pela violência física. Essas redes exigem, normalmente, que as
mulheres paguem as suas viagens a um preço muito mais elevado que o real e retêm o
seu passaporte de modo a que não possam fugir. Às mulheres é ainda cobrado o
alojamento, a alimentação e multas que resultam da violação das regras impostas por
quem as explora. As mulheres podem, assim, ser multadas por não animarem os
clientes, por se recusarem a determinadas práticas sexuais, por engordarem, por não
conseguirem manter o cliente a beber.

10
Uma outra forma de controlar as mulheres passa pela restrição da liberdade das
suas deslocações. As vítimas de tráfico são, geralmente, confinadas a um espaço
específico que pode ser o do bordel ou uma casa, de onde uma terceira pessoa não
permite que elas saiam sem estar acompanhadas, diminuindo assim o risco de fuga.
A administração de drogas nas vítimas, tornando-as toxicodependentes e,
consequentemente, mais dependentes dos traficantes, é um modo de controlo cada
vez mais comum.
Durante o tempo em que são exploradas, as mulheres são, com frequência,
obrigadas a submeter-se a todas as práticas sexuais desejadas pelos homens, a não
usar preservativo, a ter relações sexuais quando menstruadas e grávidas e a fazer
abortos sem anestesia. Em média, estima-se que tenham de atender cerca de 20/30
homens por dia.

• Tráfico de Seres Humanos no Mundo

As Nações Unidas publicaram um relatório que revela o crescimento do tráfico de


seres humanos. Em 70% dos casos as principais vítimas são raparigas e mulheres. Este
crime mantém-se, em muitas regiões, impune e caracteriza-se pelos seus grandes fins
lucrativos. A vítima identificada de tráfico de seres humanos aumentou em cerca de
142 países.
Está comprovado que cerca de 60% dos casos de TSH correspondem à exploração
sexual. As vítimas masculinas são forçadas essencialmente ao trabalho por obrigação
nas indústrias extrativas. Sendo que os rapazes menores são forçados ao tráfico sexual.
O que se traduz num aumento do tráfico sexual nos dois sexos, apesar dos rapazes
menores serem, em 30% dos casos, forçados para o tráfico sexual. Aliás, a
percentagem de menores traficados, de ambos os sexos, tem aumentado. Entre 2014
e 2016 duplicou, passando de 13% para 30%.
Para além da imagem geral, o relatório assinala ainda as diferenças regionais neste
tipo de crime. Em termos de grupos, na África Ocidental a maioria das vítimas
detetadas são crianças; no sul da Ásia as vítimas são mais equilibradas entre homens,

11
mulheres e crianças; na Ásia Central há comparativamente mais homens adultos que
são traficados e na América Central há mais raparigas do que a média.
Em termos dos diferentes tipos de tráfico, o trabalho forçado foi mais detetado na
África subsaariana e no Médio Oriente também; na Ásia Central e do Sul o tráfico para
trabalho forçado e exploração sexual estão a par; na Europa é o tráfico sexual que
prevalece.
Outras finalidades específicas são também diferenciadas por região: por exemplo, o
tráfico para casamento forçado é mais detetado em algumas zonas do sudoeste
asiático; o tráfico para adoção ilegal é mais frequente nos países da América Central e
do Sul; o tráfico para criminalidade forçada é noticiado sobretudo na Europa ocidental
e do Sul e o tráfico de órgãos é principalmente detetado no norte de África, na Europa
central e sudeste e na Europa de leste.
Este crime é considerado a terceira forma de tráfico mais rentável, a seguir ao
tráfico de droga e à contrafação, gerando lucros estimados de 32 biliões de dólares por
ano. Os seus responsáveis são redes transnacionais que forçam a prostituição,
trabalho, mendicidade ou o tráfico de órgãos. Estas redes aproveitam-se de situações
de vulnerabilidade como a existência de conflitos armados na África subsaariana ou os
campos de refugiados no Médio Oriente. Condições precárias em termos
socioeconómicos são outra das situações potenciadoras de vulnerabilidade, levando,
por exemplo, à aceitação de ofertas fraudulentas de emprego ou casamentos de
conveniência que geram situações de abuso.
Daí que o tráfico de pessoas seja considerado um crime global. Segundo a ONUDC,
praticamente todos os países do mundo estão envolvidos, seja enquanto países de
origem, de trânsito ou de destino. No entanto, assinala-se que 43% das vítimas são
traficadas dentro das fronteiras do seu país.
Sobre o aumento do número de casos registado, o relatório é cauteloso, concluindo
que se pode tratar de um aumento real do número de pessoas traficadas ou que “as
capacidades nacionais para detetar este crime e identificar vítimas melhorou em
alguns países.” Este aumento registou-se sobretudo nas Américas e Ásia.
Na última década, o número de países que coligem dados sobre este tema mais que
duplicou. Mas o número de condenações só recentemente começou a aumentar. E em

12
“muitos países da África e da Ásia continua a haver números muito baixos de
condenações por tráfico.” Só que vítimas provenientes de países com baixos níveis de
deteção e de condenação tem sido encontradas em “números largos em outras sub-
regiões”, o que indica a existência de zonas de impunidade. O outro lado disso é que
nos países mais ricos, como os europeus, se descobrem tendencialmente vítimas de
países mais distantes do que no resto do mundo. As vítimas identificadas nestes países
têm também origem geográfica mais diversa.
A ONUDC conclui assim que “apesar da progressão, a impunidade prevalece em
amplas parte do globo” afirmando que é necessário “acelerar os esforços anti tráfico e
acabar com a impunidade para este crime.”

Tráfico de Seres Humanos em Portugal

Portugal é simultaneamente país de https://www.otsh.mai.gov.pt/wp-content/uploads/OTSH_Boletim-Estatisticas-da-Justica-Trafico-de-Pessoas_2008-


2018.pdf

origem, país de trânsito e destino de


Tráfico Humano. Na tentativa de
prevenir, sensibilizar ou apoiar as
eventuais vítimas foi criado, em 2008, o
Observatório do Tráfico de Seres
Humanos (OTSH). Gráfico 1- Distribuição dos crimes de tráfico de pessoas registadas
pelas autoridades entre 2008-2018
De acordo com o OTSH, entre 2008-
2018 foram registados em Portugal 177
605 mil crimes contra a liberdade pessoal, dos quais, 434 foram casos de exploração. O
ano com maior número de registos foi em 2018 com 57 casos confirmados. Em
oposição, o ano menos representativo terá sido em 2012 com um total de 22 casos.
Quanto aos setores de risco em Portugal, segundo o OTSH, estes são o setor
agrícola, os serviços domésticos, os serviços de hotelaria e restauração e os setores de
construção civil. O que registou mais casos terá sido o setor agrícola, apesar de ser
sazonal, sendo apenas necessário nas épocas de colheita, seguido do setor de
construção civil que apresenta níveis elevados de risco.
Relativamente à localização do crime, na maioria dos anos verificou-se mais
ocorrências no sul do país, principalmente nos distritos Setúbal, Santarém, Beja e

13
Lisboa, porém há uma exceção nos anos 2009 e 2016, nos quais o OTSH terá alegado a
região Norte como a zonas do país em que mais se fez sentir o fenómeno tendo
assinalado situações de tráfico humano em cinco concelhos do distrito de Braga.

https://www.otsh.mai.gov.pt/wp-content/uploads/OTSH_Relatorio_Anual_TSH_2015-1.p

Gráfico 2- Variação espacial das sinalizações por distritos entre 2013-2015

Segundo a análise da caraterização sociodemográfica das vítimas obtivemos as


seguintes informações:
• Estas são predominantemente do
sexo masculino (cerca de 64%), à
exceção dos anos de 2008 a 2010 e
2017, nos quais foram confirmadas
mais vítimas do sexo feminino.
Gráfico
Percentagem
3- Percentagem
de vítimasde
confirmadas,
vítimas confirmadas,
segundo sexo
segundo
2008-2018
sexo
entre 2008-2018

• No que consta à
idade das vítimas, verifica-
se que são
maioritariamente adultas,
principalmente, numa faixa
etária dos 25 ou mais anos
em ambos os sexos. Quanto
aos menores, assegura-se

Gráfico 4 e 5- Percentagens de vítimas confirmadas entre 2008-2018 que são, sobretudo, do sexo
feminino.

14
Gráfico 7- Número de vítimas confirmadas entre 2008-2018

Gráfico 6 Número de vítimas confirmadas, segundo a


nacionalidade e sexo, entre 2008- 2018

• Foram confirmadas 26 nacionalidades, entre as quais, nepalesa, portuguesa,


moldava e romena com uma representatividade mais expressiva de vítimas do sexo
masculino, essencialmente, para fins de exploração laboral. Em contrapartida,
registou-se um valor mais elevado do sexo feminino, provenientes de países como o
Brasil e a Nigéria, com destino a exploração sexual.
• No que diz respeito aos continentes, alega-se que a maioria das vítimas oriundas do
continente Africano são do sexo feminino, enquanto que do continente Europeu,
assim como do Asiático, a maioria das vítimas são do sexo masculino.

• Casos, Relatórios e Estatísticas

O tráfico de Seres Humanos é um fenómeno surpreendentemente difícil de


conhecer na sua totalidade numérica, no entanto, há inúmeras testemunhas. Daí que
tenham sido selecionados alguns casos exemplificativos de potenciais vítimas em
Portugal.

Caso 1
“António Joaquim Santos, hoje com 51 anos, chegou a juntar 250 euros por dia na
caridade. Só que o dinheiro nunca ficava nos seus bolsos. Ao fim de cada dia, era
15
obrigado ‘pelos patrões’ a entregar-lhes tudo. À noite, comia restos e era fechado com
um cadeado numa barraca, na zona do Freixo, no Porto. Devido a denúncias de
escravidão, sequestro e maus-tratos, a PJ do Porto interveio e, em 2006, libertou-o das
garras daquele grupo familiar (...). Mas foi sol de pouca dura. (...) Foi sequestrado em
agosto de 2007, na Feira da Senhora da Saúde, nos Carvalhos, Gaia (...) Pontapeado,
esbofeteado e queimado com isqueiro e pontas de cigarro.”

Jornal de Notícias, 18.03.2012


Caso 2
“Sem nada receber, a não ser espancamentos, dormidas em barracas e refeições de
aparas como as dadas aos animais, pelo menos seis deficientes foram usados por um
clã familiar, durante quatro anos, em trabalho escravo na agricultura e na separação
de sucata.(...) A impor o clima de intimidação sobre as vítimas e a lucrar com o negócio
estavam um homem e uma mulher agora detidos pela Polícia Judiciária do Porto. (...)
Além da agricultura, outra das tarefas atribuídas aos ‘escravos’ consistia na separação
de sucatas, num terreno de Valongo, localidade que servia de base ao duo opressor.”
Jornal de Notícias, 23.04.2011

Caso 3
“Márcia queria uma vida melhor para si. Tinha um negócio na sua terra natal, em
África, mas precisava de sair do país. Quando conheceu um casal português, que lá
estava a passar férias, e lhe foi proposto vir para Portugal trabalhar, parecia que o
Universo se alinhava com os seus sonhos. (...) Como um castelo de cartas, uma a uma,
todas as promessas caíram por terra. E o sonho de uma vida melhor deu lugar à
dramática realidade de uma prisão domiciliária com trabalhos forçados. É verdade que
não estava literalmente agrilhoada. Nem era preciso. Márcia não tinha para onde fugir.
Não conhecia ninguém em Portugal, à exceção de uma amiga com quem estava
proibida de contactar, não sabia a quem recorrer, não tinha como voltar a casa.”
Jornal de Notícias, 25.04.2011

Fonte:
https://www.OIKOS.pt/tráficosereshumanos/docs/OIKOS-kit-pedagogico.pdf

16
• Testemunhos1

No concelho de Guimarães, o Município organizou-se com um conjunto de


instituições concelhias para apoiar estes cidadãos, tendo constituído um Consórcio, o
Guimarães Acolhe. Através deste Consórcio, é-lhes proporcionado alojamento,
alimentação, apoio médico e social, ensino da língua portuguesa, apoio na integração
escolar, apoio no tratamento de assuntos vários e apoio na procura de emprego e no
processo de autonomização.
O “Guimarães Acolhe” é uma instituição que, atualmente, está a acolher 40
cidadãos com necessidade de proteção internacional. Encontram-se alojados em casas
e apartamentos cedidos por instituições que integram o Consórcio do Guimarães
Acolhe.
Dos 40 cidadãos acolhidos, 29 são do género masculino, sendo destes, 19 cidadãos
isolados. Os restantes, integram 7 núcleos familiares. Cinco dos sete núcleos familiares
integram 8 crianças.
As línguas faladas são o árabe, tigrina, francês, somali, biri, hauçá e BDO. Alguns
deles, falam inglês e os que já residem há mais de 2 anos em Portugal, já se
conseguem expressar em português.
Têm um grande desejo de aprender a língua portuguesa pois sabem que assim é
mais fácil a sua integração, de arranjar trabalho e de ter a sua situação regularizada.
A grande maioria frequenta aulas de português no Centro Qualifica do
Agrupamento de Escolas Francisco de Holanda e já está integrada no mercado de
trabalho.

1
Dada a circunstância atual do mundo e sendo este um tema bastante sensível, o grupo teve que se
adaptar. A ideia inicial seria recolher testemunhos, conversar e deixar as pessoas à vontade para falarem
connosco acerca da sua já difícil vida. Queríamos conhecer pessoas reais, com testemunhos reais, para
que o nosso trabalho fosse o mais fidedigno possível. Mas, visto estarmos impossibilitados de um
contacto presencial, decidimos arranjar outras formas de o fazer. Felizmente, e tendo a Internet a nosso
favor, conseguimos contactar com a Câmara Municipal de Guimarães e, dessa forma, recolher a
informação pretendida.

17
Os cidadãos que a cidade acolhe são oriundos de diferentes países, como a Eritreia,
Síria, Sudão, Nigéria, República Centro Africana, Mali, Costa do Marfim, Egito e
Somália.
Chegam expectantes, lançados à sua sorte, sem saberem muito do que vão
encontrar, mas chegam sobretudo esperançosos, em busca de um ambiente que lhes
proporcione bem-estar, condições dignas que lhes permitam ter um projeto de vida
autónomo.
Não conseguimos recolher testemunhos, pois como imaginamos, a maioria deles
não gosta nem consegue falar sobre a sua vida e por tudo o que passaram. Uns porque
não gostam de relembrar devido aos episódios traumáticos a que foram sujeitos,
outros porque não dominam a nossa língua o que impossibilita a capacidade de
comunicarmos juntos.
Mas temos a noção de que que todos eles tiveram percursos muito difíceis e
dolorosos até aqui chegarem, tendo passado por muitas situações de perigo.

Ciclo do Tráfico de Seres Humanos

O Tráfico de Seres Humanos (TSH) é um crime que obedece, na grande maioria das
vezes, a um ciclo de movimentos bem delineado, com três etapas distintas:
o O recrutamento;
o O transporte;
o A exploração.
Apesar de, em determinados casos, ser o mesmo indivíduo quem desenvolve as
atividades respeitantes às três fases assinaladas, o panorama mais comum implica a
união de esforços entre vários agressores, que representam papéis claramente
distintos:
o O agente ou recrutador;
o O transportador;
o O empregador final, que retira o benefício da exploração da pessoa
traficada.

18
Os recrutadores encarregam-se de selecionar, contactar e recrutar os potenciais
candidatos, através de violência, engano ou abuso de situações de vulnerabilidade. Os
transportadores têm como missão conduzir as vítimas até ao local da sua exploração.
Finalmente, os empregadores/exploradores tomam em mãos o controlo final das
vítimas, atribuindo-lhes, sob mecanismos de coação direta ou indireta, as tarefas que
pretendem ver cumpridas.
É, geralmente, na última fase do processo que as pessoas se apercebem da teia de
dependência em que foram enredadas, mas não é descartável a hipótese, também
real, das condições abusivas se fazerem notar desde a angariação, ou durante o
transporte. Dos relatos apresentados, pelos estudos académicos e pela imprensa
escrita, acerca dos recrutamentos realizados no nosso país, retirámos que eles se
fazem, maioritariamente, através da publicação de contactos telefónicos em jornais de
grande tiragem, placares afixados nos cafés das localidades, via Internet, ou por
conhecimentos informais em que um “amigo de um amigo” surge a realizar uma
oferta irrecusável. No caso específico do Tráfico para Exploração Laboral, o isco
consiste, habitualmente, numa proposta laboral estranhamente generosa.
É sabido que o crime de Tráfico de Seres Humanos (TSH) se alimenta de situações
de fragilidade, desigualdade e pobreza. As condições que o potenciam, quer a
montante, quer a jusante, estão sempre, de algum modo, associadas à exploração da
vulnerabilidade das suas vítimas. Através da análise das principais rotas de tráfico
humano é possível identificar alguns fatores que, quer nas zonas de origem, quer nos
territórios de destino, promovem o desenvolvimento do fenómeno.

Fatores Promotores do Tráfico de Seres Humanos


Territórios origem:
o O desemprego e o emprego precário;
o A pobreza e o endividamento;
o Os baixos níveis de educação;
o A falta de informação sobre meios seguros de obtenção de trabalho no
estrangeiro;

19
o A falta de conhecimento sobre o fenómeno e sobre os riscos associados à
migração laboral;
o Os elevados lucros do negócio do tráfico;
o A ineficácia dos canais de migração legais;
o A inadequação do sistema legal e judicial;
o A desigualdade de género, que provoca a feminização da pobreza e facilita a
aceitação social da exploração das mulheres.

Indicadores de uma situação de TSH


Territórios de destino:
o As pressões do mercado motivadas pela competitividade, que exigem um corte
nos custos de produção;
o Os elevados lucros do negócio do tráfico;
o A procura pelos consumidores de produtos e serviços de baixo custo e de
entrega rápida;
o A inadequação do sistema legal e judicial para combater o fenómeno;

20
o O crescimento do negócio do sexo;
o O grande desconhecimento do fenómeno por parte da população, dificultando
a denúncia da situações;
o A necessidade crescente de auxílio nas tarefas domésticas e de
acompanhamento das crianças e dos idosos, a baixo custo.

Exploração laboral e o tráfico de portugueses no estrangeiro

A exploração laboral caracteriza-se por ser uma forma de tráfico de seres humanos
que envolve a deslocação de uma pessoa para exploração de trabalho forçado.
No que diz respeito a estas atividades ilegais, Portugal é principalmente um país de
destino, porém também há portugueses a serem explorados no estrangeiro, regista-se
assim, que 22% das situações verificadas no país constituem Portugal como país de
origem.
Segundo os relatórios anuais divulgados pelo OTSH, a maioria das vítimas nacionais
confirmadas são traficadas para fins de exploração laboral. Espanha constitui o

21
principal destino, destacando-se este tipo de escravatura no setor agrícola, com
destaque na vinícola.
Desde 2013 verifica-se um aumento no número de vítimas nacionais de exploração
laboral. Tal situação pode estar relacionada com a situação socioeconómica que se vive
atualmente em Portugal, que levou a um aumento da emigração com o intuito de
obter, no estrangeiro, condições de vida mais favoráveis.
Entre 2012 e 2014, registaram-se 63 casos de exploração laboral de portugueses no
estrangeiro.
No ano seguinte, foi registado um caso de um grupo de portugueses levado para
trabalhar na área da construção civil na Alemanha e que acabou em condições pouco
dignas e de quase escravatura.
Já em 2017, houve um aumento de casos de portugueses explorados (dois mil
casos) relacionados com o tráfico de droga.
Por fim em 2018, foram registados 42 casos presumíveis de portugueses a serem
explorados.

Jovens como potenciais vítimas

Os adolescentes são as principais vítimas do crime de tráfico humano, em mais de


130 países. O número real é desconhecido, mas estima-se que aproximadamente 2,5
milhões de pessoas sejam traficadas ou exploradas para fins comerciais, inclusive
sexuais. Em termos comerciais são essencialmente os rapazes abusados da sua nova e
forte mão-de-obra. Já as raparigas são abusadas sexualmente, criando momentos
traumáticos nas suas vidas. Os traumas da violência corporal e sexual sofrida e do
abandono social aumentam a exclusão e a segregação, com perdas da dignidade e do
sentido de cidadania, tornando-se marcantes, com repercussões médicas e mentais,
por toda a vida. Assim, os direitos humanos assegurados em tantas convenções e
acordos nacionais e internacionais são desafiados ou esquecidos no meio de tanta
corrupção e impunidade.
Uma especialista em direitos humanos, e diretora da Associação de Estudos
Estratégicos e Internacionais, falou com Ervi, uma das vítimas de tráfico de ser

22
humanos em Portugal. A especialista afirma que 60% das vítimas conhece o traficante
o que leva a querer que ou é familiar, ou amigo da família, ou até mesmo a pessoa
com quem namorava ou era casado. Ervi acabou por ser acompanhada por uma ONG,
no entanto, nem todos os jovens como ela têm esta sorte, visto que a maioria
esmagadora tem medo de denunciar o traficante, prevendo que acabariam por ser
novamente traficadas.
Safira é uma menina da Nigéria, tinha 15 anos quando chegou a Portugal, vinha
acompanhada de uma irmã, de 17 anos. Perdeu-se-lhe o rasto. Foi um tio que
convenceu os pais a deixá-las vir. Muitas vezes, os jovens são vendidos pelas famílias,
mas pode-se afirmar que, com frequência, estas famílias são enganadas
potencialmente, acrescenta a repórter.
Abordando um outro fator influenciador a finais trágicos, foi envolvida Marilena. É
de Angola, e apaixonou-se por um português. Viveram juntos durante um ano e
trouxe-a para Portugal. Mais tarde Marilena é fechada numa casa e forçada a
prostituir-se durante 12 anos. Está com problemas do foro psiquiátrico2 graves. "Os
jovens, vítimas de tráfico, frequentemente sofrem de stress pós-traumático, o que
normalmente só afeta os sobreviventes de conflitos armados", explica a investigadora.
Entende-se que esta faixa etária é gravemente afetada pela sua inocência e
intolerância ou vulnerabilidade ao grave risco de serem “escolhidos” para sofrerem
abusivamente de horrores violências. Talvez pela sua falta de capacidade de enfrentar
os agressores, por ser uma própria vontade da família e apenas pensarem que estão a
ser algo útil… pode imaginar-se todo o género de malícias, pois são jovens, como
podem ser crianças, tornando o assunto muito mais assustador. A realidade é que este
tipo de população torna-se num fácil isco para os traficantes, tanto pela sua aparência
como pela sua ignorância obedecendo às ordens de qualquer indivíduo.

2
É um conjunto de respostas integradas de cuidados de saúde e de apoio social dirigidas a pessoas
com doença mental grave de que resulte incapacidade psicossocial, e que se encontrem em situação de
dependência física, psíquica ou social, transitória ou permanente.

23
Formas de recrutamento
Como sabemos, é na juventude que o namoro flui de uma maneira mais abusiva. E é
por isso mesmo que é considerado uma das maiores formas de recrutamento, seja
através de um contacto pessoal ou das redes sociais. "Muitos dos traficantes dedicam
meses a estudar o que as suas vítimas dizem nas redes sociais". Os traficantes têm a
capacidade e intelectualidade de conhecerem ao pormenor as suas vidas, o que é
assustador. Descobrem os membros da sua família, os amigos mais íntimos, os seus
sonhos futuros, e até mesmo o seu estado de espírito no momento, tristes ou
deprimidas… Depois, abordam-nas recorrendo à estratégia do loverboy, chegando a
namorar seis meses a um ano antes de as traficar. Também podem ganhar a sua
confiança enquanto amigo virtual, ainda como empresas de recrutamento de mão-de-
obra.
No fundo, transporta-se para o digital as estratégias usadas no mundo real. Por
exemplo, estar à porta de uma escola dizendo que pertencem a uma agência e que
estão a recrutar modelos ou que são olheiros e pretendem selecionar jogadores para
um determinado clube.
Cláudia Pedra critica as medidas para combater o tráfico de seres humanos, que no
seu entender “deveriam apostar na prevenção, através de campanhas dirigidas a cada
perfil de vítima. Sublinha que são recrutadas todo o tipo de pessoas e não apenas as
mais pobres e sem escolaridade. Existem também jovens licenciadas traficadas. Têm
que ser feitas campanhas, a nível nacional e internacional. Denunciar as estratégias
usadas pelos traficantes, as técnicas que usam e que são de acordo com cada país e
perfil da vítima que pretendem. Nomeadamente, através das redes sociais".

Estudante universitária

Andra é da Roménia, tem 19 anos, estudava Inglês, no 1.º ano da universidade. "A
minha família garantia a minha educação, proporcionando-me uma vida decente (...).
Comecei a juntar-me a uns rapazes da minha cidade pensando que podiam ser meus
amigos. Mas, não foi assim", conta, concluindo que se "aproveitaram" da sua
inocência. Venderam-na a um homem de outra cidade.

24
Foi lhe questionado se queria trabalhar num hotel em Espanha, empregando-se nas
limpezas. "Eu fiquei contente com a ideia, fascinada.” Por fim, podia ser independente.
Em Espanha, disseram-lhe que tinha de trabalhar... na rua. Perguntou o que iria fazer?
"O que todas as mulheres fazerem na rua: sexo por dinheiro", responderam-lhe.
Chorou, recusou, foi espancada e ficou uma semana sem comer. Decidiu ser "amiga do
demónio", a chefe do grupo, tão amiga que abrandaram a vigilância. Conseguiu fugir
com um homem, ao fim de três meses. "Foram meses horríveis, três meses de
pesadelos. Quem trabalha na rua ou nos clubes fica sempre com sequelas, tornamo-
nos loucas e ficamos com baixa autoestima, não nos valorizamos".
É um testemunho recolhido pelas irmãs da Oblata do Santíssimo Redentor, em
Espanha, mas também estão em Portugal. Vieram há 32 anos e este é um dos 15
países onde marcam presença, com a missão de acompanhar as mulheres que
exercem prostituição e vítimas de tráfico com fins de exploração sexual.

Dimensão subavaliada
Aquelas e outras ONG têm contactado com o tráfico de seres humanos, um
fenómeno tão vasto e violento, que chega a ser difícil de acreditar. E a maior parte não
denuncia. "As vítimas vivem um terror e as redes têm meios para manter essas
pessoas no terror, através da chantagem com as suas vidas e a vida da família […].
Quando falamos da violência praticada por traficantes, estamos a falar de uma
violência muito severa, é tão severa que muitas
vezes as pessoas que estão em lugares chave não
acreditam. As pessoas são fechadas, maltratadas,
violadas em grupo, uma violência atroz", explica
Cláudia Pedra.
Pessoas que são compradas nos países de
origem por 40 euros, depois vendidas e
revendidas, chegando a atingir os 40 mil euros.
Pessoas que chegam a ser condenadas por crimes
que as obrigaram a praticar e que preferem
cumprir pena a denunciar o traficante. "Os dados

25
oficiais são muito limitados. Emanam essencialmente de vítimas encontradas pelas
autoridades que são uma imensa minoria, como mostra a nossa investigação no
terreno. A vasta maioria são encontradas por ONG - padres, pastores, profissionais de
saúde - não são encontrados pelas autoridades, mas têm meio de fazer denúncia, por
elas e pelas suas famílias".
Em Portugal, quando a vítima colabora com a justiça é-lhe atribuída uma
autorização de residência, mas esta terá se ser renovada quando termina o processo
judicial. Além de "que o traficante facilmente descobre a morada de quem denuncia",
refere a técnica.

Prevenção e denúncia de TSH e de exploração laboral


Relativamente a Portugal e para combater a densidade que caracteriza este
fenómeno, foi naturalmente necessário proceder-se à sua prevenção, sensibilização e
combate. Para tal, foi criado, em 2008, o Observatório do Tráfico de Seres Humanos
(OTSH), que consiste num centro de referência nacional e internacional, promovendo a
análise, o conhecimento e a intervenção sobre o Tráfico de Seres Humanos e outras
formas de violência de género.
Outro aspeto importante a ressaltar, é que o OTSH possui uma rede de mais de 30
órgãos governamentais e não-governamentais como fontes primárias de dados. Deste
modo, ao possuir ligações com fontes de dados, tanto nacionais como internacionais,
permite ao OTSH perceber quais os principais tipos de exploração criminalizadas nos
outros países e quais as estratégias utilizadas pelos mesmos no combate a esses tipos
de exploração.
Portugal também se verifica como país de destino para a prática deste tipo de
crime. De acordo com as estatísticas do OTSH, as vítimas de tráfico trazidas para
Portugal nos últimos cinco anos eram oriundas de países como o Brasil, China,
Roménia, Croácia, Bulgária, Nigéria e Bósnia. É importante salientar que, para além das
vítimas de nacionalidade estrangeira trazidas para Portugal, também os próprios
portugueses são vítimas de tráfico dentro do próprio país, tal como acontece nos
outros países da Europa e do resto do mundo. Sendo que, nos países de terceiro
mundo é bastante frequente a prática deste tipo de crime.

26
Segundo o OTSH e tendo em conta as diversas estatísticas sobre o tráfico de seres
humanos em Portugal e sobre cidadãos portugueses que são traficados para outros
países, é possível identificar alguns setores de risco, sendo eles: os setores agrícolas,
serviços domésticos, serviços de hotelaria e restauração e o setor de construção civil.

• Campanhas de prevenção e combate contra o TSH em Portugal


Para prevenir a ocorrência do tráfico de seres humanos para exploração laboral, é
fundamental que os trabalhadores conheçam os seus direitos, de modo a serem
capazes de reconhecer possíveis situações de exploração e a procurar ajuda caso
verifiquem que os seus direitos não estão a ser respeitados.
Com o objetivo de assinalar o dia Europeu contra o Tráfico de Seres Humanos – dia
18 de outubro - e de forma a sensibilizar a comunidade escolar para este fenómeno, a
OIKOS realizou a campanha “Escolas unidas contra o TSH”. Esta campanha contou com
a adesão de 45 estabelecimentos de ensino do Distrito de Braga que, neste dia e no
ano de 2018, realizaram, em simultâneo, atividades sobre a temática. Em todas as
escolas foram afixados cartazes alusivos ao TSH disponibilizados kits pedagógicos e
DVD com conteúdos sobre a temática.

• Estratégias de Prevenção
O primeiro passo para a prevenção consiste em assumir que todos poderemos ser
potenciais vítimas de Tráfico de Seres
Humanos e, como tal, estarmos alertas e
despertos para esta realidade, é essencial.
Para quem pensa trabalhar no estrangeiro
é importante considerar as seguintes
orientações:
1. Na procura de emprego, o recurso a
programas e organizações formal-
mente reconhecidos oferece um
maior grau de segurança do que as
ofertas informalmente divulgadas.

27
2. Independentemente de serem utilizados meios formais ou informais para
realizar a procura de emprego no estrangeiro, será sempre prudente
confirmar a veracidade das informações recolhidas.
3. A legislação laboral varia de país para país, por isso é fundamental obter
informações sobre os direitos que assistem aos trabalhadores no estrangeiro.
4. Conhecer o básico da língua e da cultura do país de destino.
5. Manter uma cópia do contrato de trabalho e dos documentos de
identificação.
À chegada
1. Combinar um dia e uma hora para contactar um familiar e/ou amigo após a
viagem.
2. Verificar recursos pessoais de segurança.
3. Inscrever-se no Consulado português.
4. Não entregar os documentos pessoais de identificação a ninguém.

• Mecanismos de denúncia
o Em Portugal:
Caso suspeite de uma situação ocorrida em território nacional, que
aparente conter indícios de Tráfico de Seres Humanos, não deverá
intervir isoladamente, mas sim contactar com:
1. Os órgãos de polícia, para iniciar o procedimento criminal -solicitando
o Número Nacional de Emergência [112].
2. As entidades que prestam auxílio a vítimas de TSH, para garantir a
sua proteção - Para garantir a proteção da vítima, solicite o apoio do
Centro de Acolhimento e Proteção para Vítimas de Tráfico do sexo
feminino e dos seus filhos menores.
o No Estrangeiro:
Caso suspeite de uma situação ocorrida com um cidadão português
fora do território nacional, que aparente conter indícios de Tráfico
Humano, deverá entrar, de imediato, em contacto com:

28
1. Os órgãos de polícia do respetivo país, para iniciar o procedimento
criminal.
2. As entidades que prestam auxílio aos portugueses no estrangeiro,
para garantir a sua proteção consular - Para receber o apoio de
instituições consulares, contacte o Posto Consular mais próximo.

OIKOS
• A sua organização
Fundada a 23 de fevereiro de 1988, em Portugal, a OIKOS –
Cooperação e Desenvolvimento é uma associação sem fins
lucrativos, reconhecida internacionalmente como Organização
Não-Governamental para o Desenvolvimento.

A OIKOS trabalha com as comunidades de regiões e países mais pobres e


vulneráveis, independentemente da sua origem étnica, língua, religião ou geografia.
Desenvolvem o seu trabalho, partindo de valores como a equidade, a liberdade e
liderança, solidariedade, responsabilidade, inovação e transparência, no sentido de
promover a cooperação mundial com uma consciência clara do papel da cidadania
global para a promoção da equidade na erradicação da pobreza extrema e na redução
das assimetrias económicas que caracterizam a realidade mundial.
Através da sua ação, com os diferentes atores sociais (Comunidades, Governos e
Sociedade Civil local, Setor Privado, Academia), partilham esforços e responsabilidades
e facilitam soluções para garantir que todas as pessoas usufruam do direito a uma vida
digna.
Atuando em problemas como o Desenvolvimento, a Educação, a Mobilização Social
e a Influência Pública, o trabalho da OIKOS estende-se atualmente por Portugal, África
e América Latina. Desde a sua fundação, a OIKOS já trabalhou nos 5 continentes, em
concreto em Angola, na Argentina, na Bolívia, no Brasil, no Chile, na Guiné-Bissau, no
Haiti, na Indonésia, no Panamá, no Uruguai e em Timor-Leste.

29
A OIKOS trabalha atualmente em 8 países do Mundo: Cuba; El Salvador; Honduras;
Moçambique; Nicarágua; Peru; Portugal; São Tomé e Príncipe.

• Áreas e temáticas de intervenção

Ação Humanitária:
A ação humanitária é alicerçada essencialmente na assistência e na proteção.
Assim, esta ONG contribui para assistir e proteger as
pessoas mais vulneráveis perante uma situação de
emergência, verificada ou potencial.
Neste sentido, o trabalho da OIKOS debruça-se
essencialmente nas comunidades das regiões e países
com as quais já trabalharam, permitindo assim, através do conhecimento adquirido e
já partilhado, uma maior rapidez no diagnóstico, eficiência na resposta e consistência
no impacto da intervenção.
Deste modo, a sua resposta consiste nas seguintes fases:
o Emergência - São prioritários os seguintes setores: fornecimento de água
potável, abrigo, alimentação, artigos de higiene e cuidados de saúde.
o Reabilitação - O objetivo é ajudar as vítimas da catástrofe a recuperar os
seus meios básicos de subsistência e a reconstruir as infraestruturas sociais
básicas (postos de saúde, escolas, etc.).
o Prevenção e preparação de catástrofes - Auxiliando as comunidades locais
a desenvolver estratégias de prevenção e gestão de riscos, minorando
assim os impactos futuros.
Em suma, no crescente fenómeno das alterações climáticas e no número e na
devastação que as catástrofes naturais têm vindo a causar, prevendo-se o
agravamento desta tendência nos próximos anos. É fundamental, numa lógica de
desenvolvimento sustentável, entender a ação humanitária como um início de
continuum ou como um processo de preservação ou de reparação, no mais curto
espaço de tempo possível, das condições e dos meios de subsistência dos mais
vulneráveis.

30
Vida Sustentável
Assistir as comunidades locais na gestão e
redução dos fatores de risco social, ambiental e
económico é condição indispensável para a
promoção de uma vida sustentável e digna. Assim, a
intervenção da OIKOS visa auxiliar as comunidades
locais na gestão e redução destas condições de
risco, em quatro momentos essenciais a um
processo de desenvolvimento sustentável:
o Disponibilidade – criar os procedimentos necessários para que os
beneficiários obtenham nas suas comunidades os bens e os recursos, em
quantidade suficiente, para satisfazerem as suas necessidades básicas de
forma permanente e sustentável.
o Acessibilidade – facultar os procedimentos necessários para que os
beneficiários obtenham, com equidade, os bens e os recursos disponíveis
nas suas comunidades.
o Utilização – promover os procedimentos necessários para que os
beneficiários utilizem, de forma segura, efetiva e eficiente os bens e os
recursos disponíveis nas suas comunidades.
o Empowerment – implementar procedimentos de qualificação e
organização que permitam aos beneficiários exercerem a liderança no seu
próprio processo de desenvolvimento e o exercício dos seus direitos.
Resumidamente, o papel da OIKOS nos projetos de vida sustentável é o de facilitar
processos de transformação social, em corresponsabilização com as várias
organizações de base, ONG parceiras, setor público e setor privado envolvidas, que
possibilitem dar Empowerment a indivíduos e organizações locais, permitindo-lhes
exercer a liderança no seu próprio processo de desenvolvimento.

31
Cidadania Global
Efetivamente, a pobreza e a desigualdade
constituem motivos suficientes para a
mobilização de todos os cidadãos. E é no âmbito
do exercício da cidadania ativa que devemos
colocar o esforço individual e coletivo de
transformação de uma ordem social para que
este possa contribua para erradicar a pobreza, a exclusão e as desigualdades sociais.
Em coerência com todo o seu trabalho, a OIKOS propõe-se cumprir os desafios que
desenvolveu até aqui, assim, no seu continuum de intervenção um nível de
"mobilização da cidadania global", utiliza três estratégias principais:
o Bem Comum.
o Educação para a Cidadania Global.
o Influência Pública.

• Testemunhos

Caso 1
“Independentemente do tipo de tráfico, é junto à fronteira que se regista o maior
número de situações, sendo a última sinalização relativa ao rapaz de 15 anos que foi
sequestrado, no dia 12, em Vizela para trabalho forçado em Espanha. (...)
Normalmente, as pessoas são levadas pela organização e é no poder desta que
permanecem. Há uma rede composta por vários elementos e, desde a sinalização até
ao seu destino, mantêm-se sob a alçada da organização e normalmente em condições
sub-humanas [como aconteceu com o rapaz de Vizela]. Neste caso foi através da
Internet que tudo começou.”
DN Portugal, 25.04.2010
Caso 2
“Um feirante da Corunha, de 30 anos, foi acusado de angariar portugueses que
escravizava para trabalhar em vindimas em Espanha. (...) Ontem era esperado no início
do julgamento no Tribunal de São João Novo, no Porto, mas não apareceu. (...)

32
Segundo o Ministério Público, Machado aliciava desempregados com ofertas de
trabalho para Espanha, obrigando-os a trabalhar muitas horas, com pouca alimentação
e higiene, aproveitando-se de fragilidades económicas ou psíquicas.”
Jornal i, 16.03.2011
Caso 3
“Siliadin contra França
A vítima era uma jovem togolesa de 15 anos, que efetuava serviços domésticos sem
retribuição, durante quinze horas por dia e sete dias por semana. Tinha sido trazida
para França pelos patrões, que ficaram na posse dos seus documentos, com o pretexto
de que serviriam para a sua regularização, o que, porém, nunca veio a suceder e criou
nessa jovem um constante receio de vir a ser expulsa.
O tribunal francês não considerou que se tratasse de uma situação de crime de
trabalho forçado ou tráfico laboral, porque deu como não provada a situação de
“abuso de vulnerabilidade”, uma vez que a jovem podia telefonar para casa, exprimia-
se bem em francês e nunca se queixou das condições laborais, o trabalho não era
insalubre e não exigia uma força física superior às suas capacidades e não se
verificavam agressões ou insultos.
Contrariando a decisão nacional, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem
considerou que a situação descrita implicava um abuso de vulnerabilidade porque a
jovem em questão estava completamente à mercê do empregador, concluindo que a
sua aceitação das condições de trabalho não podia considerar-se livre, dado o seu
receio constante de expulsão.”

O nº 2 do artigo 160º CP esclarece, depois, que, quando a vítima de tráfico é menor,


o elemento do meio se torna irrelevante. O mesmo é dizer que as condições que se
exigem para a verificação do tipo penal são menos exigentes.
Vejamos: “A mesma pena é aplicada a quem, por qualquer meio, recrutar, aliciar,
transportar, proceder ao alojamento ou acolhimento de menor, ou o entregar,
oferecer ou aceitar, para fins de exploração, incluindo a exploração sexual, a
exploração do trabalho, a mendicidade, a escravidão, a extração de órgãos, a adopção
ou a exploração de outras actividades criminosas.”

33
Conclusão

É indubitável que o desenvolvimento deste projeto nos enriqueceu, fortaleceu e


alertou. Pensamos que só acontece aos outros. Esquecemo-nos que se passa ao nosso
lado. É preciso urgência na atenção para os problemas reais.
Foi essa urgência que nos levou a desenvolver tal projeto, pesquisando,
entrevistando e comunicando para que o produto final fosse fidedigno e transmitisse
exatamente aquilo que acontece à nossa volta e que, em boa verdade, não é visível a
olho nu.
O Tráfico de Seres Humanos não é um fenómeno simples de ser compreendido nem
identificado, tendo em conta todas as dinâmicas que o envolvem. Deste modo, é de
extrema importância salientar o cuidado na identificação deste problema mundial e,
neste sentido, diferenciá-lo de outros fenómenos que, com ele, muitas vezes se
confundem. De facto, são recorrentes os relatos sobre governos que tratam pessoas
traficadas como imigrantes ilegais, deportando-as para os seus países de origem, sem
fornecerem apoio ou tratamento adequado às vítimas de exploração laboral.
A verdade é que cada um de nós pode manifestar-se contra este crime. Enquanto
consumidores, temos o poder de exigir serviços e bens que não envolvam exploração
nem escravidão. Não podemos adotar uma atitude passiva nem tolerar esta
desumanização. Devemos lutar pela preservação da dignidade humana.

34
Web/Bibliografia

o Documentos disponibilizados pela OIKOS;


o https://www.OIKOS.pt/tráficosereshumanos/m1-tráfico-seres-humanos.html
o file:///C:/Users/localAdmin/Downloads/1225-2748-1-PB.pdf
o https://www.rtp.pt/noticias/economia/foram-registados-63-casos-de-
exploracao-laboral-de-portugueses-no-estrangeiro-entre-2012-e-2014_v869682
o https://www.otsh.mai.gov.pt/wp-content/uploads/REC-
OTSH_Relatorio_Anual_TSH_2017_2018.pdf
o https://www.otsh.mai.gov.pt/wp-
content/uploads/OTSH_Relatorio_Anual_TSH_2018_corrigido_03AGO19.pdf
o https://www.noticiasaominuto.com/pais/1267288/portugueses-explorados-
nunca-vi-nada-assim-condicoes-eram-deploraveis
o http://www.OIKOS.pt/
o Câmara Municipal de Guimarães - Departamento de Ação Social

35