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ISBN: 978-65-86503-02-9

Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

FICHA TÉCNICA

COMITÊ CIENTÍFICO INTERNACIONAL


Alicia Jiménez Hermosa, Colegio Profesional de Antropólogos de la Región Lima, Peru
Ana Suelly Arruda Câmara Cabral, Universidade de Brasília, Brasil

Antonio Escobar Ohmstede, Centro de Investigaciones y Estudios Superiores en


Antropología Social, Unidad DF, México
Claudia Salomón Tarquini, Universidad Nacional de La Pampa, Argentina
Cristhian Teófilo da Silva, Universidade de Brasília, Brasil

Daniela Traffano, Centro de Investigaciones y Estudios Superiores en Antropología Social,


Unidad Pacífico Sur, México
Esther Katz, Institut de Recherche pour le Développement, França
José Antônio Vieira Pimenta, Universidade de Brasília, Brasil
Juliana Merçon, Universidad Veracruzana, México
Lorena Rodríguez, Universidad de Buenos Aires, Argentina
Ludivine Eloy Costa Pereira, Centre National de la Recherche Scientifique, França

Marcela Stockler Coelho de Souza, Universidade de Brasília, Brasil


Maria Regina Celestino de Almeida, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Mônica Celeida Rabelo Nogueira, Universidade de Brasília, Brasil
Stephen Grant Baines, Universidade de Brasília, Brasil

COORDENAÇÃO GERAL

Mônica Nogueira, Mestrado em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais


(MESPT), Faculdade UnB Planaltina (FUP), UnB

Cristiane de Assis Portela, Mestrado em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios


Tradicionais (MESPT), Departamento de História, UnB

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Caderno de Resumos do 3 o Congresso Internacional Povos Indígenas da América Latina (CIPIAL)
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COMISSÃO ORGANIZADORA LOCAL


Ana Suelly Câmara Cabral, Laboratório de Línguas e Literaturas Indígenas, Departamento de
Linguística, Português e Línguas Clássicas (LIP), UnB

Antônio Fernandes de Jesus Vieira (Dinamam Tuxá), Articulação dos Povos Indígenas do
Brasil (APIB), Associação de Acadêmicos Indígenas (AAI) e Faculdade de Direito, UnB

Armando Gutiérrez Cisneros (Armando Quéchua), Laboratório de Línguas e Literaturas


Indígenas, Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas (LIP), UnB

Beatriz de Almeida Matos, Laboratório t/Terra, UnB e Grupo de Pesquisa Ameríndia,


Universidade Federal do Pará

Braulina Aurora Baniwa, Associação de Acadêmicos Indígenas (AAI), UnB

Cibele do Carmo Santana, FAOR – Projetos e Eventos

Cristhian Teófilo da Silva, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Movimentos Indígenas,


Políticas Indigenistas e Indigenismo (LAEPI), Departamento de Estudos Latino-Americanos
(ELA), UnB

Edineia Aparecida Isidoro, Laboratório de Línguas e Literaturas Indígenas, Departamento de


Linguística, Português e Línguas Clássicas (LIP), UnB e Universidade Federal de Rondônia
(UNIR)

Elaine Moreira, Grupo de Pesquisa em Direitos Étnicos – Moitará, Departamento de Estudos


Latino-Americanos (ELA), UnB

Elizabeth Ruano, Departamento de Estudos Latino-Americanos (ELA), UnB

Jairo Alexander Castaño, Departamento de Estudos Latino-Americanos (ELA), UnB

Janaína Ferreira Fernandes, Laboratório t/Terra, Departamento de Antropologia (DAN), UnB

Jeraldyn Naranjo Henao, Departamento de Estudos Latino-Americanos (ELA), UnB

Jhenifer Benedito de Oliveira Pêgo, Associação de Acadêmicos Indígenas (AAI), UnB

Larissa Cristina de Sousa Ferro, Departamento de Estudos Latino-Americanos (ELA), UnB

Leonel Alcides da Silva, Associação de Acadêmicos Indígenas (AAI), UnB

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Maisa Cristina Torres Dantas, Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG)

Marcela Coelho de Souza, Laboratório t/Terra, Departamento de Antropologia (DAN), UnB

Marianna Assunção F. Holanda, Faculdade UnB Ceilândia (FCE), Programa de Pós-Graduação


em Bioética e Centro Internacional de Bioética e Humanidades, UnB

Núbia Batista da Silva, Associação de Acadêmicos Indígenas (AAI), UnB

Rodrigo Arajeju, 7G Documenta

Sílvia Maria Ferreira Guimarães, Departamento de Antropologia (DAN), UnB

Stephen Grant Baines, Laboratório e Grupo de Estudos em Relações Interétnicas


(LAGERI), Departamento de Antropologia (DAN), UnB

Tâmara Jacinto, Onã Produções

Tanielson Rodrigues da Silva (Poran Potiguara), Associação de Acadêmicos Indígenas (AAI),


UnB

Terezinha Aparecida Borges Dias, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

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ST 01 | A questão urbana: reflexões e perspectivas etnográficas e históricas


sobre os índios e cidades

Eduardo Soares Nunes (Universidade Federal do Oeste do Pará – UFOPA, Brasil); Marta
Amoroso (Universidade de São Paulo – USP, Brasil); Edgar Bolívar-Urueta (Universidad
Nacional de Colombia, Colombia).

Em toda América Latina, a presença indígena nas cidades se faz cada vez mais marcante. Se,
por um lado, isso se deve ao aumento de migrações e de trânsitos entre aldeia e cidade,
propiciados por motivos diversos, por outro, o que assistimos crescer hoje é muito mais a
visibilidade dessas populações que apenas seu número – a presença indígena nas cidades não
é de forma alguma um fenômeno novo. Mas a despeito de alguns trabalhos pioneiros, é
apenas em anos recentes que a antropologia latinoamericana tem se dedicado mais
sistematicamente ao tema. Os contextos, entretanto, são muito diversos: há comunidades
indígenas vivendo em grandes cidades, há aldeias coladas à pequenas cidades regionais, há
pessoas (de uma única ou de várias etnias) que se organizam em rede nos mais diversos
contextos urbanos (incluindo metrópoles e capitais), há casos em que a presença na cidade é
mais transitória, por motivos variados, há cidades que podem ser ditas “indígenas” e tantas
outras situações mais. Cabe notar ainda que as histórias particulares dos vários países colocam
questões específicas. Também a variedade de temas e problemas que essas situações
suscitam é ampla: da territorialidade ao aspecto econômico, das relações de parentesco a
direitos territoriais, das transformações indígenas às relações assimétricas de poder para com
o Estado e/ou a população regional além, certamente, de colocar questões ordem
metodológica. O objetivo desse simpósio é reunir pesquisadores e pesquisadoras indígenas e
não- indígenas que venham se debruçando sobre a presença indígena nas cidades para
promover um debate comparativo que, articulando diferentes perspectivas etnográficas e
históricas, possa tanto dimensionar e enriquecer as pesquisas em andamento sobre o tema,
quanto estimular investigações futuras.

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Entre aldeias e cidades: a dinâmica de deslocamento de uma família


Jaminawa, no estado do Acre, Brasil
Luana Machado de Almeida

Pretendo apresentar uma breve etnografia do meu convívio com uma família extensa do povo
Jaminawa que reside em um bairro periférico na cidade de Rio Branco, no estado do Acre.
Uma residência que considero, curiosamente, permanente e transitória. Dito de outro modo,
apesar de terem casas próprias na Cidade do Povo, recebidas por meio de um programa
habitacional do governo para retirar famílias de locais em situação de risco, a dinâmica de vida
dessas pessoas é marcada por um intenso trânsito entre a aldeia e a cidade. A presença
Jaminawa em contexto urbano no estado do Acre vem sendo registrada por pesquisadores
(Calavia Sáez, 2015; Ferreira, 2014; Maciel Junior, 2014) e tem como consequência no
contexto regional uma estereotipificação do povo Jaminawa como “índios das cidades”, que
usualmente vem associada a uma série de características pejorativas. Não obstante, existem
no Brasil sete áreas indígenas ocupadas pelos Jaminawa (algumas são terras indígenas
demarcadas e outras ainda em estudo) e, mesmo residindo por muito tempo em contexto
urbano, o vínculo com os parentes na aldeia parece não se dissolver. Do mesmo modo, o uso
da língua indígena permanece forte no ambiente familiar, sendo essa uma das características
que mais chamou minha atenção ao conhecê-los. Outra característica que também me saltou
aos olhos é que, dentre muitas reflexões sobre estar na cidade e as consequências disto, não
me recordo de tê-los escutado falar que “estão virando brancos”. A visão da aculturação e da
perda de uma identidade indígena é algo que surge com frequência no discurso não indígena
a respeito deles, mas não me parece ser um problema para eles – ao menos não “o mesmo”
problema. Dessa forma, pretendo explorar as diferentes perspectivas sobre ser índio e estar
na cidade a partir do contexto mais amplo no qual realizei minha pesquisa junto a esse grupo
familiar. Nesse sentido, cabe informar que me aproximei deles por conta da minha pesquisa
de doutorado que, grosso modo, teve como objetivo central entender a atuação de
intérpretes, a serviço da Funai, atuando junto a um povo indígena de recente contato que
reside no alto rio Envira, no estado do Acre. Convidados a trabalhar por conta de suas
habilidades linguísticas, os intérpretes Jaminawa foram muitas vezes criticados, tanto por
agentes públicos como pelos próprios parentes, por serem “índios da cidade” e terem
incorporado hábitos, costumes e valores não indígenas. A partir desse contexto, minha
intenção é refletir sobre o trânsito dessas pessoas entre aldeias e cidades, as motivações para
esse deslocamento e de que forma este se conecta com o trabalho desempenhado junto à
Funai.

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“Na minha casa nós nunca come sozinho”: notas sobre os modos Sateré-
Mawé de habitar cidades

José Agnello Alves Dias de Andrade

Nesta apresentação exponho algumas reflexões, realizadas em minha tese de doutorado, a


partir de minha interlocução com indígenas Sateré-Mawé habituados a levar a vida entre
constantes deslocamentos pelas aldeias e cidades na região amazônica. Abordo por meio das
narrativas de meus interlocutores sobre os deslocamentos de seus coletivos de parentes, do
passado e do presente, múltiplas dimensões atreladas às suas práticas de mobilidade em sua
relação com a conformação de seus locais de habitação nas cidades, procurando demonstrar
alguns traços de suas concepções particulares sobre territorialidade, temporalidade e
conhecimento, destacados em relação à sua experiência citadina. Trato particularmente de
um modo de conhecimento (e reconhecimento) implicado nos atos coletivos e continuados
de andar, parar, voltar e narrar, subsumidos sob a expressão andar junto, que indicia um ideal
de relações de confiança, cuidado, acolhimento e aprendizagem que remetem aos
movimentos coordenados caros à produção de vida em seus “locais de parada” entre seus
parentes espalhados por diferentes cidades e aldeias. Nesta exposição proponho destacar as
práticas de mobilidade sateré-mawé em busca de “coisas boas” para, como dizem, “aproveitar
com seus parentes”, argumentando que sua percepção a respeito da importância destas
“andanças” fornece um enquadramento para a compreensão de sua permanência nas
cidades. Como pretendo demonstrar, nas casas e comunidades “conquistadas” nas cidades
que se constituíam os laços afetivos constitutivos da solidariedade dedicados àqueles que
eram – e se faziam/conheciam/reconheciam – parentes.

Pajelança urbana e valoração em Oiapoque e circunvizinhança (Amapá,


Brasil)
Ugo Maia Andrade

A cidade de Oiapoque é o principal assentamento da fronteira brasileira com a Guiana


Francesa e movimenta um contingente grande de pessoas, dentre elas os Palikur, Galibi-
Marworno, Galibi-Kali ń a e Karipuna que habitam três Terras Indígenas incidentes na área do
município. A relação dos chamados “Povos indígenas do Oiapoque” com a cidade homônima
é estreita, antiga e de tensão latente, constituindo-se em um vínculo de dupla dependência,
pois tanto os índios recorrem à cidade para compras, emprego e serviços de educação e saúde,
quanto abastecem o comércio local de farinha e frutas. Todavia, paralelamente a tais
produtos, índios Karipuna e Galibi-Marworno oferecem, há décadas, serviços xamânicos em
Oiapoque e cidades e vilas circunvizinhas, valendo-se da credibilidade que a pajelança
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indígena possui junto aos não índios. Tal prestígio é frequentemente potencializado ao se
agregar ao xamanismo regional cantos, procedimentos, fórmulas fitoterápicas e espíritos
auxiliares provenientes de matrizes urbanas, como a umbanda, os ritos de cura dos Saramaká
e formas de xamanismo New Age, atribuindo-lhes um lugar no xamanismo dos Karipuna e
Galibi- Marworno e, assim, continuando o seu prestígio. Pretende-se abordar, pois, o
fenômeno da preservação do prestígio urbano do xamanismo dos índios Karipuna e Galibi-
Marworno a partir da integração contínua de saberes e práticas “não indígenas” e “não
xamânicas”, percorrendo uma reflexão a respeito de como ritos outros – às vezes antitéticos
– são incorporados e em lugar de vulgarizar o xamanismo indígena, fazendo-o perder valor no
mercado regional de bens de cura, o afirmam como um saber nativo, puro e originário.

Novas configurações do xamanismo em São Gabriel da Cachoeira

Samir Ricardo Figalli de Angelo

Procura-se apresentar as novas configurações do sistema xamânico no alto rio Negro no


contexto urbano. A etnografia realizada na cidade de São Gabriel da Cachoeira com os Desana,
um dos grupos Tukano do noroeste amazônico, aponta para as transformações das formas de
transmissão de conhecimentos. Abrandamentos nas prescrições, emprego de novas técnicas
para o aprendizado, aumento na quantidade de benzedores e uma nova reconfiguração dos
benzimentos marcam a contemporaneidade do xamanismo. Através de um percurso que
parte das formas de transmissão de conhecimentos da era pré-salesiana, passando pela época
dos internatos ao momento atual, estas mudanças são apresentadas e verifica-se que, a
despeito das contingências históricas, a circulação dos conhecimentos continua a operar
enquanto o xamanismo floresce em novos contextos.

Indígenas em âmbitos urbanos: articulações sociais, políticas e jurídicas de


grupos Tukano para garantia de direitos à saúde associativa na cidade de
Manaus
Camila Gouvêa de Araújo
Caroline Barbosa Contente Nogueira

Este trabalho visa discorrer sobre a garantia de direitos coletivos e individuais dos povos
indígenas nas cidades, especificamente no que tange aos direitos à saúde. Para fins de recorte
metodológico, foi analisada a presença de indígena no âmbito urbano na Cidade de Manaus,
especificamente a presença da etnia Tukano (Yepamahsã), buscando destacar estratégias e
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articulações políticas e sociais realizadas por esse grupo étnico em decorrência de casos
conflituosos no exercício do direito à identidade cultural indígena em espaços urbanos. O
conflito surge a partir da desigualdade no tratamento e garantia de seus direitos nos espaços
rurais e urbanos, visto que, em áreas rurais, os direitos indígenas são observados com
assistência dos órgãos especializados, como a Fundação Nacional do Índio – FUNAI, Secretaria
Especial de Saúde Indígena (SESAI), enquanto que nos espaços urbanos a ausência de atuação
destes órgãos expõe os indígenas à negação de direitos reconhecidos constitucionalmente e
infraconstitucionalmente. A experiência analisada neste estudo parte do caso ocorrido na
cidade de Manaus, no ano de 2009, quando uma indígena da etnia Tukano demandou
atendimento de saúde de alta complexidade e teve negada a assistência associativa. Tal
assistência inclui a atuação da medicina indígena, conjuntamente com a medicina ocidental,
para tratamento integral do paciente (Cunha, 2007). Desse modo, somente através de
intervenção do Ministério Público Federal, a demanda foi atendida no tratamento associativo
e a indígena teve a saúde restabelecida. Posteriormente fora proposta ação judicial de no
0012928- 69.2010.4.01.3200 na Justiça Federal, contra a União, visando indenização por
danos morais e materiais. A sentença foi prolatada favorável a parte em 2013 e atualmente
está em recurso no tribunal superior. A partir do fato narrado, dois eventos foram essenciais
para este estudo: a criação da Lei Estadual de no 4.349/2016 que possibilita o atendimento
associativo nos hospitais públicos e privados; e a criação do Centro de Medicina Indígena da
Amazônia - Bahserikowi, na Cidade de Manaus, assim como a institucionalização da Sala do
Pajé na Casa de Apoio à Saúde Indígena CASAI/Manaus em 2018. Fatos que denotam intensa
articulação política indígena que fortalecem os direitos de identidade cultural nas cidades
(Barreto, 2018). Tendo em vista as representatividades de ações, a partir da experiência
específica destacada, restou explícita a necessidade de garantir, reafirmar e invocar os direitos
fundamentais adquiridos através de marcos jurídicos, possibilitando concluir que tais
articulações são atos de autoafirmação identitária, em áreas urbanas, que denotam conflitos
contemporâneos e complexos, visto que nas cidades, o apoio estrutural da FUNAI é limitado.
Vale ressaltar, que o presente trabalho foi inicialmente desenvolvido por meio de Pesquisa de
Iniciação Científica no Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena, da Universidade Federal do
Amazonas (NEAI/UFAM).

O corpo dos Xucuru-Kariri e de seus ancestrais no mato, na aldeia e na cidade

João Roberto Bort Júnior

Os Xucuru-Kariri habitam terras indígenas oficialmente reconhecidas em Alagoas, Bahia e


Minas Gerais. Nosso trabalho aborda particularmente corpo e territorialidade xucuru-kariri
em Caldas, no Sul Mineiro, considerando as relações desses indígenas com diferentes lugares
e seres com quem convivem nesses espaços de vida. Pretendemos descrever o que fazem os
Xucuru-Kariri de Caldas com seus corpos quando entram em relação com brancos ou espíritos
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na mata, nas cidades da região e na aldeia. O corpo xucuru-kariri para ir à cidade não é o
mesmo que vai à mata e nem é o que circula na aldeia. Ele é transformado não apenas em
razão do espaço das relações, mas também em função da natureza dessas interações nesses
espaços. É com o corpo que estabelecem contato. Ele precisa ser feito da forma adequada
para jogar futebol contra os brancos nos campos das redondezas da aldeia, mas distingue-se
da forma como vão aos centros comerciais dos não- indígenas, ou como se mostram aos
outros em danças-rituais, ou ainda como não devem ser vistos quando vão à mata com
finalidades religiosas. Sugerimos que há regras e práticas em torno dos corpos dependendo
dos lugares para onde irão. Além da vestimenta adequada para relacionar-se com os outros
humanos e não-humanos em certos espaços com determinados fins, é preciso muitas vezes
possuir o melhor odor, que certamente não será o ideal em outro espaço de relação. Nesse
caso, a oposição entre odores se compreende pela oposição mata/cidade. Logo, os Xucuru-
Kariri de Caldas não apenas se ornamentam adequadamente para dançar, jogar, ritualizar e
comprar como também seguem prescrições olfativas. A variação corporal Xucuru-Kariri
compõe a sua experiência territorial, que inclui relações no mato, na cidade e na aldeia. O
esforço etnográfico será o de apresentar tal variação como parte de sua territorialidade,
enfatizando que é a partir da relacionalidade entre corpos, espaços e seres que se deve
compreender a experiência Xucuru-Kariri. É notável, em nossas inspirações, as apostas
teórico-metodológicas que abordam o corpo ameríndio como lócus de produção de relações
(Seeger, da Matta, Viveiros de Castro, 1979) e daquelas que sugerem a territorialidade como
as relações nos e com os espaços (Coelho de Souza, 2017; Pietrafesa de Godoi, 2016). Por
último, a descrição analítica será ampliada diacronicamente a partir de informações sobre
práticas guerreiras de tapuias ancestrais dos Xucuru-Kariri no mato e nas povoações do
Nordeste seiscentista (Puntoni, 2002), que indicam terem possuído um corpo apto a enfrentar
à ação colonizadora, e a partir de dados sobre as relações de seus ascendentes com a
sociedade não-indígena novecentista (Antunes, 1973), os quais revelam que o as condições
territoriais de vida Xucuru-Kariri impactaram-se em paralelo ao desenvolvimento de núcleos
urbanos no agreste alagoano.

Indígenas urbanos em Minas Gerais: características populacionais segundo


dados do censo demográfico

Marden Barbosa de Campo


Marcos Damasceno

A crescente presença de indígenas em áreas urbanas no Brasil tem motivado o uso de


ferramentas demográficas que podem contribuir para o melhor conhecimento dessa
população nas cidades. Nesse sentido, os dados do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro
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de Geografia e Estatística (IBGE) constituem uma fonte relevante, fornecendo informações


sobre as condições de vida dos indígenas no ambiente urbano contemporâneo, a partir das
quais se pode elaborar indicadores sociais e acompanhar sua evolução no tempo,
compreender possíveis padrões migratórios, relacionar a situação do indígena frente a outros
grupos sociais, entre tantos outros aspectos indispensáveis à promoção de políticas públicas
destinadas à população indígena. No sentido inverso, as peculiaridades dessa população e as
dificuldades enfrentadas na sua identificação e estudo em pesquisas demográficas podem
contribuir para o aprimoramento dessas pesquisas, fomentando debates sobre os critérios
utilizados nos recenseamentos. Em tal contexto, a comunicação que se propõe buscará
investigar a condição dos indígenas no estado de Minas Gerais, especialmente nas cidades de
maior volume populacional, segundo as informações obtidas no último Censo Demográfico
(2010), identificando sua dispersão espacial, suas características socioeconômicas, fluxos
migratórios, além de verificar se e em que medida a sua inserção social no espaço urbano se
diferencia da de outros grupos e cores/raças.

Da retomada a invenção do território: a criação da aldeia Naô Xohã

Thiago Barbosa de Campos


Frederico Canuto
Letícia Nunes

Este trabalho é fruto de pesquisa sobre as práticas sócio-espaciais de um grupo indígena na


Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), em Minas Gerais, com foco no processo
recente de retomada de terras e recém-criação da aldeia Naô Xohã no município de São
Joaquim de Bicas, em outubro de 2017. O grupo é composto por indígenas aldeados da etnia
Pataxó Hã Hã Hãe localizadas no sul da Bahia e outros vindos de diferentes estados e mesmo,
de Belo Horizonte. A pesquisa, ainda em processo, tem como base do que será apresentado
visitas a aldeia, conversas informais, entrevistas e produção de mapas. Os pesquisadores têm
buscado compreender de que forma os indígenas produzem seus espaços, visando também
traçar um histórico de suas trajetórias espaciais, mapear suas relações de parentesco, mapear
outros espaços que utilizam na RMBH e compreender suas estratégias para geração de renda
e sobrevivência fora da terra indígena. Esta comunicação apresenta a visão dos pesquisadores
sobre a produção material e sócio-espacial do território em diálogo com a visão dos próprios
indígenas sobre o tema a partir de conversas. O trabalho relata ainda as influências de outros
agentes no contexto da aldeia Naô Xohã, como técnicos da FUNAI, agentes do CIMI,
pesquisadores do grupo de extensão Morar Indígena da Escola de Arquitetura da UFMG e
voluntários da ONG chilena TETO que, em novembro e dezembro de 2018 articularam e
construíram cinco habitações temporárias para a aldeia.

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Mulheres indígenas na cidade de São Paulo: lutas, (re)existências e


ressignificações culturais

TSilmara Cardoso

O presente texto tem por objetivo analisar como mulheres indígenas de diferentes etnias
(Wapichana, Nhandeva, Guarani M'bya, Xavante, Guajajara, Tabajara, Pankararu, dentre
outras), (re)existem e resistem nas pluralidades do cotidiano de uma cidade como São Paulo,
pois viver nessa metrópole é um grande desafio para os povos indígenas que a habitam. Como
manter as tradições culturais? Como ser visto como pertencente a um povo específico e como
cidadão ao mesmo tempo? Pois a ideia do senso comum é: “você está aqui, mas não é daqui...”
Como resistir aos estereótipos, preconceitos vividos diariamente? “Você é indígena de
verdade?” Para viver em contexto urbano os povos indígenas, e sobretudo as mulheres,
constantemente ressignificam a sua existência, os seus costumes e ritos. Portanto, mais que
resistir na cidade de São Paulo, as mulheres indígenas reexistem nesse contexto plural e ao
mesmo tempo singular. Elas ressignificam, reelaboram, re-politizam o seu mundo sem,
contudo, perder a essencialidade de suas tradições culturais.

A questão indígena na cidade de Parintins/AM: reflexões a partir de


perspectivas etnográficas e históricas

Mírian de Araújo Mafra Castro


Heloísa Helena Corrêa da Silva

A questão indígena no âmbito da cidade de Parintins, Amazonas, tem na presença Sateré-


Mawé sua maior representação com cerca de 900 pessoas, segundo dados do IBGE (2010),
seguida da etnia Hixkaryana, com grupos familiares menores. Segundo a literatura acerca dos
povos indígenas mencionados e suas presenças nesta cidade, foi por volta da década de 1970
que a migração da terra indígena para a área urbana obteve intensificação com base nos
interesses de formação escolar, tratamentos de saúde e recebimento de benefícios. Partindo
do exposto, o objetivo desse estudo é compreender aspectos contemporâneos da questão
indígena na cidade a partir da relação entre as categorias de condições de moradia, cultura e
economia de famílias Sateré-Mawé e Hexkayana em Parintins. A metodologia é de caráter
qualitativa, com base nos estudos etnográficos e históricos, cuja proposta é interdisciplinar e
busca uma análise reflexiva das atuais questões indígenas na cidade de Parintins. Os
colaboradores da pesquisa são 03 famílias Sateré-Mawé e 01 família Hexkaryana, moradores
na cidade de Parintins em uma casa cedida desde a década de 2000 pela igreja católica, cuja
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denominação é Casa de Trânsito Indígena. As conversas, observações, registros, indicam


processos de organização e reorganização de indígenas na cidade, convivendo com outra etnia
e com grupos não indígenas. O olhar interdisciplinar possibilita ver, ouvir e escrever de forma
a descrever fenômenos relevantes sob a perspectiva da sustentabilidade social, ambiental,
econômica e cultural.

Identidades

Vandria Garcia Corrêa


Daniel Lopes Faggiano

Desde 1500 nos é imposto com máxima violência nossa condição colonial. Até hoje somos
obrigados a servir aos caprichos do mercado internacional. O Brasil é um grande negócio, uma
máquina de moer gente. Nesse contexto, na atual era das catástrofes ambientais, na crise
estrutural do capital, não resta outra opção aos povos indígenas que não resistir. Para o
mercado, o indígena não tem rosto, somente braços, é apenas uma força de trabalho reduzida
à condição de mercadoria. A miséria do capital estilhaça as sociabilidades indígenas e suas
referências culturais para impor de modo individualizado seu modo de viver. É nessa tentativa
etnocida de transformação da liberdade indígena em mão de obra assalariada explorada, que
315.180 indígenas resistem hoje nos centros urbanos. A rua retoma a pauta do nosso processo
colonial irresolvido. Os indígenas que vivem na cidade assumem cada vez mais sua condição
histórica de colonizar o Brasil. Na existência contraditória do indígena urbano, em seu
contexto de luta, a presente comunicação pretende evidenciar os verdadeiros desafios da
emancipação indígena.

Experiência de resistência do Assentamento Povo Indígena Sol Nascente em


Manaus

Lidiane de Aleluia Cristo


Mary Nelys Silva Almeida

Esta comunicação é resultado do diagnóstico socioterritorial realizado em 2017 pelo Serviço


Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental – SARES, obra social da Companhia
de Jesus, tem por finalidade promover a Justiça Socioambiental na cidade de Manaus. O
referido assentamento localiza-se no bairro Francisca Mendes II, zona norte de Manaus.
Conforme o cacique Eledilson no final de 2015 residiam no assentamento total de oitenta e

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uma (81) famílias, das quais dez (10) são de não indígenas, totalizando em duzentas oitenta e
cinco (285) pessoas. Cabe ressaltar, que em 2017, o número de habitantes aumentou para
aproximadamente 600. As famílias indígenas subdividem-se em onze etnias, a saber: Apurinã,
Kaixana, Baré, Dessana, Kokama, Miranha, Munduruku, Mura, Sateré Mawé, Tariano, os
Tucanos são originários de diferentes e distantes regiões do estado do Amazonas. Confirma-
se assim, a pluralidade étnica do assentamento. A metodologia utilizada para a coleta de
dados foi à aplicação do diagnóstico rural participativo (DRP), além de técnicas como:
observação participante, entrevista semiestruturada, caminhada transversal ecológica,
árvores de problemas e a matriz comunitária FOFA para verificar fortalezas, forças,
oportunidades e ameaças. Foram identificadas as principais questões dentro do
assentamento, se mostram como desafios para a atuação do Estado na garantia e efetivação
dos direitos indígenas a cidade e a cidadania. As famílias residentes se sustentam com a renda
do Programa Bolsa Família e das diversas formas trabalho informal. Vale destacar, que os
indígenas urbanos que estão no assentamento vivem sem condições ecológicas
(desmatamento e poluição ambiental), o que agrava tal precarização. Em relação à produção
artesanal, as mulheres relataram terem dificuldades para obter os materiais, pois na cidade
precisam comprar para produzir. Sobre a educação e a saúde em virtude da irregularidade da
área eles não são atendidos. O abastecimento de água inicialmente é resolvido de forma
alternativa, por meio de ligações clandestinas. Os indígenas relataram que as igrejas
evangélicas não aceitam seus costumes e sua cultura, e alguns deles deixaram de usar seus
adereços, deixando sua cultura de lado. Mas há aqueles que ainda lutam para continuar viva
sua cultura, permanecem ensinando a língua nheengatu, para torná-la presente e atuante.
Acredita-se que estes resultados possam estabelecer estratégias para a futura tomada de
decisão, na promoção da justiça socioambiental, bem como também para a construção de
uma sociedade pautada no princípio ético da igualdade em que todos têm acesso e garantia
de seus direitos humanos fundamentais.

Liberdade, propriedade e urbanização em Almofala: a mobilização do povo

Janaína Ferreira Fernandes

O objetivo deste trabalho é pensar a respeito do processo de urbanização vivenciado pelo


povo Tremembé de Almofala, com mais notoriedade nos últimos vinte anos. Sendo um povo
habitante do litoral oeste cearense, encontram-se próximos de cidades de porte pequeno e
médio, e observam a chegada de um cada vez maior número de posseiros que vêm
construindo casas e fixando residência na terra indígena. Esse fenômeno tem impactado
fortemente as relações entre os índios e a terra, seja em razão do modo como se movimentam
nela, seja na maneira como a habitam, passando por uma série de problemáticas de

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parentesco em razão da falta de terras para se exercer a virilocalidade, preferencial entre eles.
Para abordar o tema, utilizo-me da categoria nativa de liberdade, que será aqui explorada em
razão de seu uso reiterado por meus interlocutores e interlocutoras, em variados contextos,
seja na menção ao fato de que alguém sente-se livre em um ambiente sem muros e cercas,
seja na constatação de que a própria terra pode ser considerada livre, na medida em que não
possui separações. Alio, assim, o termo à possibilidade de movimentação dentro de um
regime de espacialidade no qual não seja possível uma restrição de domínio de um perante
os outros, tal como é geralmente definida a noção de propriedade privada. Assim, a celeuma
a ser enfrentada, no que tange ao processo de urbanização de Almofala, gira em torno da
constituição de regimes de propriedade sobre a terra, bem como a oficialização e
burocratização de espaços públicos, que devem passar pelo crivo e gestão estatal,
especialmente no que se refere a caminhos e estradas.

Marĩ mahsĩa, Marĩ da’raá, Marĩ dua’a (Nosso conhecimento, Nosso trabalho,
Nossa venda): atividades econômicas dos grupos indígenas na zona urbana de
São Gabriel da Cachoeira – AM

Flávio Pereira Ferraz

A pesquisa analisou os grupos indígenas no contexto urbano de São Gabriel da Cachoeira (AM)
e suas atividades econômicas. Por isso traçou-se o objetivo geral com a finalidade de analisar
as práticas ocupacionais, produtivas e comerciais dos indígenas urbanos de São Gabriel da
Cachoeira (AM), observando as continuidades e transformações dessas práticas em relação
aos sistemas produtivos tradicionais característicos das Terras Indígenas da região. Para
complementar a pesquisa fez-se o uso dos seguintes objetivos específicos: mapear os grupos
indígenas residentes na cidade e sua distribuição geográfica na zona urbana; identificar as
principais atividades ocupacionais, produtivas e comerciais realizadas pelos indígenas urbanos
de São Gabriel da Cachoeira (AM) e identificar iniciativas de auto-organização dos indígenas
urbanos de São Gabriel da Cachoeira (AM). Para a obtenção dos dados e fundamentar a
pesquisa fez-se o uso de livros e artigos sobre o tema pesquisado, a amostra da pesquisa foram
os pais ou responsáveis de uma escola municipal indígena localizada na zona urbana com
quem foi aplicado um questionário com a finalidade de análise destes dados relativos a grupos
indígenas, suas respectivas atividades ocupacionais, produtivas e comerciais. Identificando
assim as iniciativas de auto-organização e os efeitos dessa auto-organização de inserção
econômica como forma de manter a rede de relações sociais entre parentes indígenas na zona
urbana de São Gabriel da Cachoeira. Então a pesquisa teve características de uma pesquisa
exploratória e descritiva, pois a partir do levantamento bibliográfico e documental, os dados
foram organizados e analisados para fundamentar a pesquisa fazendo uso da estatística

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descritiva para analisar os dados coletados junto às famílias dos estudantes da Escola
Municipal Indígena Dom Miguel Alagña. Com a abordagem quantitativa e qualitativa desta
pesquisa ofereceram-se elementos que contribuíram para que se conheça e reconheça (dar
visibilidade) os grupos indígenas residentes em São Gabriel da Cachoeira, sua organização
socioeconômica e adaptação na zona urbana. Portanto, a pesquisa contribuiu bastante para
o início de uma discussão sobre os indígenas no contexto urbano de São Gabriel da Cachoeira.
Praticamente todas as etnias que vivem e convivem neste ambiente urbano, principalmente
nos bairros recentes, ainda mantêm contato com sua comunidade de origem. Conseguem
mesclar a vivência tradicional com o modo de vida nas cidades.

Para que outra etnografia sobre maias em uma cidade mexicana?

Marcos B. Ferreira

Este trabalho é resultado de uma pesquisa de campo que estou realizando em Mérida, capital
do estado de Yucatán, no México. A pesquisa é parte de um intercâmbio de doutorado,
viabilizado por meio de um convênio entre o Programa de Pós-Graduação em Antropologia
da UFG e o CIESAS/México. Nesta pesquisa, realizei entrevistas sobre histórias de vida com
ênfase em atividades de trabalho e moradia. Tento compreender alguns processos de
transformação no espaço urbano de Mérida, tal como foram experienciados pelas populações
maias residentes na cidade. E tento identificar os fenómenos de segregação espacial
enfrentados por estas populações ao longo desses processos. Mérida foi construída sobre uma
antiga cidade maia chamada Th'ó. Todas as pirâmides de Th'o foram demolidas. As pedras que
haviam sido usadas pelos maias para construir a cidade foram, depois, usadas pelos espanhóis
para construir uma muralha em torno de Mérida, que receberia o título de “Cidade Branca”.
A muralha separava a chamada "Cidade Branca", onde viviam os espanhóis, dos chamados
“bairros de índios” que estavam em seu entorno. Cerca de cem anos depois, entretanto, a
população de indígenas em Mérida era quatro vezes maior que a de espanhóis, o que mostra
que a chamada “Cidade Branca” não era tão branca assim. Em 2015, quando o Instituto
Nacional de Estadística y Geografía (INEGI/México) usou pela primeira vez em seu censo o
critério de "auto atribuição", 48,25% da população de Mérida se auto declarou indígena.
Compreender como estas populações indígenas ocupam e vivenciam os espaços da cidade é
importante para saber mais sobre suas condições de vida, em toda sua diversidade. Também
é importante para compreender melhor o fenómeno segregação espacial urbana,
especialmente nos contextos em que a questão étnica é fortemente colocada. Nessa ocasião,
proponho apresentar algumas contribuições teóricas da pesquisa, construídas a partir das
categorias “paisagem” e “fronteira”, pensando nas relações entre etnicidade, raça e
segregação espacial urbana. Procuro compreender como esses termos iluminam
determinados aspectos sobre a produção do espaço da cidade e seus contrastes. Também
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apresentarei algumas contribuições metodológicas que estão sendo pensadas para o uso de
mapas multimídias conectados a imagens de paisagens urbanas. Essa metodologia pretende
contribuir tanto para os estudos sobre segregação espacial, quanto para os estudos sobre
trajetos, percursos e as apropriações que determinados grupos fazem dos espaços de uma
cidade. Por fim, pretendo também compartilhar reflexões sobre algumas questões éticas
surgidas ao longo da pesquisa, que dizem respeito ao trabalho antropológico na atualidade,
suas responsabilidades e desafios.

Migración indígena urbana. Una aproximación desde la Antropología

Carolina Sánchez García

El propósito de la ponencia es analizar de manera general las principales aproximaciones, de


los estudios antropológicos, al conocimiento y explicación de la migración indígena urbana.
Entre los primeros conceptos que fueron acuñados estuvieron “continum folk urbano”
(Redfield, 1930); “migrantes itinerantes” (Iwanska, 1933); “cultura de la pobreza” (Lewis,
1961). Los temas de interés han variado, desde el impacto de la migración en la organización
social y familiar, y en la cultura (Hirabayashi, 1933); hasta el uso colectivo de los recursos
monetarios derivados de la migración interna (Iwanska, 1933); la integración de los migrantes
a la economía política metropolitana (Lomnitz, 1989); la selectividad de la migración (Arizpe,
1989) y los aspectos sociales y económicos ligados a la migración interna en México (Nolasco,
1979). Posteriormente, el enfoque de la familia, se orientó al análisis de su estructura y la
vivienda en zonas urbanas, la organización del parentesco y la social; el género y la etnicidad
(Sánchez Gómez, 2004); las zonas urbanas como nuevos espacios de interacción social
(Nolasco y Rubio, 2010), entre otros temas. La ponencia mostrará avances en el conocimiento
del tema y también hallazgos de los estudios con respecto al impacto del fenómeno migratorio
en la cultura y la identidad, la organización social y familiar, la economía, los patrones
migratorios, el perfil de los migrantes, las causas que originan el fenómeno, los destinos, la
salud, entre otros. De las teorías se destaca la del transnacionalismo porque permite explicar
los vínculos que se establecen entre los espacios de origen y destino de los migrantes y
trascienden las fronteras nacionales, estos se configuran a partir de las relaciones que los
miembros del grupo mantienen con los que se quedaron en la comunidad de origen. También
se hace énfasis en la teoría de redes porque enmarca analíticamente el papel del ‘capital
social’ (Bourdieu) con que cuentan los migrantes y que se expresa a través de redes que
sustentan la formación de ‘asociaciones de pueblos’, ‘lazos de cooperación’, ‘empleo de
paisanazgo’, ‘formas de organización social informal’, ‘ayuda mutua’, que surgen en el
contexto de la migración. Desde ambas teorías se han abordado aspectos relacionados con el
campo de la cultura en contextos de migración, por lo cual la ponencia dejará ver también que
en el conocimiento del fenómeno resulta fundamental la interdisciplina.
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Indígenas em Dourados⁄MS: entre as fronteiras da cidade e as cercas do


agronegócio

Dalila Tavares Garcia


Joselaine Dias de Lima
Luiz Felipe Rodrigues

A cidade de Dourados, no Mato Grosso do Sul, tem a maior reserva indígena urbana do país.
Além dela, há outras comunidades que, cotidianamente, enfrentam dificuldades pelo avanço
das fronteiras do agronegócio e pela expansão do tecido urbano da cidade, em que se destaca
a construção de condomínios residenciais privados. Nas ruas da cidade, a presença indígena é
marcante, e se dá em determinados espaços. Os indígenas sofrem com situações de exclusão
e rejeição ao andarem pelas ruas da cidade e fazerem uso de determinados locais para a venda
de seus artesanatos. É comum que saiam de suas comunidades para venderem artesanatos,
onde irão enfrentar olhares preconceituosos, como se ali não fosse o seu lugar, como se ele
fosse o diferente e não pudesse fazer uso de determinados locais na cidade. Nessas
perspectivas, refletindo uma dinâmica entre fronteiras, buscaremos analisar as relações das
pessoas indígenas com a cidade em Dourados, compreendendo quais são os espaços que
experienciam, explicitando seus conflitos, negociações e exclusões. É preciso levar em
consideração as desigualdades socioeconômicas as quais os indígenas estão submetidos. Tais
desigualdades podem ser observadas in loco ou pelas ruas da cidade. É possível observar
vários indígenas nas portas das casas pedindo alimentos, roupas e até mesmo dinheiro, para
sua sobrevivência, já que alguns estão em situação de miséria. Nesse sentido, pretendemos
também entender as estratégias usadas por eles na luta pela sobrevivência e quais as
dificuldades e alternativas que encontram, uma vez que o desenvolvimento do modo de viver
indígena é dificultado por conta da situação em que se encontram, e assim, os mesmos
precisam se deslocar pela cidade para garantir a sobrevivência.

Dinâmicas de circulação e permanência Guarani e Kaingang em Florianópolis


(SC), Brasil: recriando identidades e territórios

Sandra Carolina Portela García

A partir da descrição etnográfica, o texto propõe a existência de diversas dinâmicas de


circulação e permanência de indígenas Guarani e Kaingang na cidade de Florianópolis (SC),
que pela sua vez, refletem a existência de um circuito de deslocamento entre cidades e aldeias

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no sul do Brasil. A presença de população indígena em Florianópolis nos permite enxergar


então, como dentro desses contextos, estes indígenas criam e recriam constantemente suas
identidades e os territórios que ocupam temporal ou permanentemente, desafiando
abertamente as noções do indígena que são construídas no senso comum e nas logicas do
estado, como a de “bom selvagem”, “indígena autêntico”, etc. Noções estas, que de maneira
geral atendem à ideia de que “lugar do índio é na aldeia” e de que “índio que mora em cidade
não é mais índio”. Igualmente, a comunicação nos invita a refletir sobre os desafios
metodológicos que os percursos das populações indígenas na contemporaneidade impõem
ao antropólogo e à antropologia, na medida em que, nesses novos contextos, o encontro entre
o pesquisador e seus interlocutores se transforma de várias maneiras.

“Aqui não é aldeia”: por uma perspectiva indígena e citadina da cidade de


Canarana

Amanda Horta

Partindo do material de minha tese de doutorado (Horta, 2018) – uma etnografia sobre as
relações entre os diferentes indígenas do Território Indígena do Xingu (TIX) que ocupam hoje
a cidade de Canarana (MT) –, este trabalho propõe uma reflexão sobre os regimes de
diferenças através dos quais estes indígenas conceituam e organizam de maneira criativa suas
experiências na cidade e em suas aldeias. Em uma certa antropologia empreendida sobretudo
no Brasil que se interessa pela “elucidação das condições de autor-determinação ontológica
do outro” (Viveiros de Castro, 2006, p. 47), as comparações entre as cidades e as aldeias se
alocam, classicamente, numa perspectiva aldeada, em detrimento de uma perspectiva da
cidade, do mundo dos brancos, do Estado. Entretanto, há no Brasil – e na América Latina – um
grande número de indígenas que habitam as cidades, algo que se expressa no censo do IBGE
de 2010, segundo o qual 38,3% das pessoas que se auto-identificam como indígenas no Brasil
vive em áreas urbanas. Ainda que estes dados homogeneizem como urbanas uma série de
situações extremamente heterogêneas (De Paula, 2017), a presença indígena nas cidades do
Brasil é cada vez mais latente, e Canarana, município mato-grossense que abriga uma pequena
porção sudeste do TIX, é um destes casos. É diante deste cenário que este trabalho vem
propor uma mirada para as relações entre a aldeia e a cidade, desta vez desde a perspectiva
dos indígenas presentes na área urbana do município de Canarana. Os efeitos desta inversão
perspectiva são cruciais para entendermos o que os tantos indígenas presentes em Canarana
nos estão falando nesses contextos: se em minhas experiências nas aldeias do Xingu os
indígenas pareciam sugerir uma certa continuidade entre as aldeias e algumas cidades do
entorno do TIX, na cidade de Canarana, estes mesmos indígenas pareciam, muitas vezes,
reivindicar um corte, uma descontinuidade fundamental para o desenho de suas existências
no espaço urbano. O contraponto, entendo, não é uma contradição, mas uma questão de

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assimetria “perspectiva”, que marca profundamente a existência indígena neste município do


interior do Mato Grosso. O objetivo desta apresentação é mostrar etnograficamente que tal
proposição sobre as perspectivas em questão não se resume a um malabarismo conceitual,
mas é fundamental para os debates sobre os contextos ampliados de interação social
habitados hoje pelos indígenas, na medida em que recoloca e complexifica a dimensão de
medo, ansiedade e desejo que a experiência da cidade implica para os parque-xinguanos.

Políticas públicas e implicações sociais nas relações aldeias, índios e o


urbano, no munícipio de Chapecó/SC

Júlio Cezar Inácio

Há muitos anos, as Aldeias deixaram de ser o lar de milhares de indígenas. A escassez de


alimentos, as políticas indigenistas, o desmatamento e o avanço das cidades sobre os
territórios, são alguns fatores que motivam os povos tradicionais a migrarem para os centros
urbanos. A população indígena brasileira é de aproximadamente 900 mil pessoas,
pertencentes a 305 etnias e falantes de 274 línguas (IBGE, 2010). O município de Chapecó está
localizado na região oeste de Santa Catarina, onde vivem aproximadamente 240 famílias
indígenas do povo Kaingang na Aldeia Kondá. Esse povo possui língua e cultura própria e
convive em fluxo cotidiano da aldeia para o centro urbano de Chapecó. O objetivo desse
trabalho é refletir sobre as políticas públicas implementadas no município de Chapecó para o
atendimento aos indígenas, principalmente sobre a promoção dos direitos sociais. No
processo de configuração de uma política pública, há duas vertentes a considerar: a micro e a
macroimplementação. O contexto da microimplementação é o da organização local dos
atores e do “prestador de serviços”; o da macroimplementação corresponde ao processo pelo
qual os governos executam a política em níveis locais (BERMAN, 1993). As políticas sociais são
instituídas para dar respostas às expressões da questão social (BEHRING e BOSCHETTI, 2008).
A partir de diagnósticos identificou-se a fragilidade na implementação de políticas públicas
para a população indígena, com reflexos pouco expressivos nas condições de vida deste
segmento social. Destaca-se a permanência de crianças e adolescentes no centro urbano de
Chapecó em situação de rua, expostos ao risco da exploração sexual, comercial e da
mendicância nos semáforos, situação que marginaliza e estimula ainda mais a discriminação
dos índios. Os índios urbanos em Chapecó, não deixam de ser considerado um “problema
social”, o qual a sociedade ignora. No intuito de instituir atendimento aos indígenas do
município, após discussões com entidades e instituições das esferas federal, estadual,
municipais e privadas, a Secretaria de Assistência Social, por meio da Gerencia de Assuntos
Indígenas, formulou propostas de criação da Rede de artesanato indígena, projeto Casa do
Índio, e o projeto de inserção de crianças indígenas na escolinha de futebol da Associação
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Chapecoense de Futebol (Chape), atendimento dentro da Aldeia pelo Serviço de Convivência


e Fortalecimento de Vinculo (SCFV) que atende as crianças no contra turno da escola. Todas
as atividades propostas estão efetivadas, algumas já com atendimentos e outras em fase final
de elaboração dos projetos e posterior implementação.

Aqui tem “índio”: políticas públicas aos indígenas na/da cidade de Belo
Horizonte - MG

Giselle C. Cruz Lobato

A ideia de que o “índio” em espaço urbano “deixa de ser índio” persiste, mas o número
significativo de povos indígenas vivendo nas cidades exige que essas visões sejam desfeitas.
Temos poucos escritos sobre as condições dos “índios” urbanos e menos ainda políticas
públicas para essa categoria. São exceções os municípios e governos estaduais com ações e
legislações direcionados aos povos indígenas. As políticas indigenistas ficam limitadas, mesmo
que insuficiente, aos “índios” aldeados. A cidade de Belo Horizonte é um dos exemplos de
ausência de políticas públicas para sua população indígena, cenário que este trabalho
pretende trazer.

Mapa Contextual: desafios do jovem aprendiz indígena no contexto urbano

Sonia Maria Lofredo,

Josicléa Maria dos Santos,

Awaé Trumai Waurá,

Jibran Yopopem Patte,

Leandro da Cruz Silva,

Kuanadiki Ahuwera Karajá,

Marcos Schaper dos Santos Junior

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“Nas populações indígenas a passagem da idade infantil para a adulta é ritualizada,


começando geralmente entre 10 e 11 anos, durando um tempo que varia até três anos ou
mais. Após esse período ele já pode casar ter filhos, construir casa, conhecer a natureza e
aprofundar o conhecimento nos saberes tradicionais que caracterizam o adulto e é oferecido
pela sociedade naturalmente. Nas sociedades capitalistas a idade para se tornar adulto é a
partir dos 18 anos, aqui o padrão é o contrato social baseado no trabalho assalariado, com
isso ela oferece desemprego, discriminação e marginalização dessas comunidades indígenas”.
A oficina Mapa Contextual visa estimular o controle social por meio da conquista da atuação
dos jovens no desenvolvimento de instrumentos para disseminação de tecnologias sociais.
Foram beneficiados 26 aprendizes indígenas com faixa etária de 16 a 22 anos, estudantes do
ensino médio, superior e técnico. Alguns já são pais e mães de família, moram
respectivamente com seus pais, companheiro (a) ou algum membro familiar. Os jovens se
concentram em comunidades em São Paulo: Pankararu no Real Parque; Pankararé em
Guarulhos; Kaigang em Parelheiros; Guarani no Pico do Jaraguá; Kariri-Xocó e Kaimbé da
aldeia Filhos Dessa Terra em Guarulhos. Todos carregam a determinação de ter saído da aldeia
em busca da conquista de seus objetivos e participam do programa Jovem Aprendiz indigena
da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina, que faz parte das ações de
políticas públicas regulamentada pelo Governo, com apoio do Ministério do Trabalho. O
contrato de trabalho pode durar até dois anos e, durante esse período, o jovem é capacitado
nas instituições CIEE ou SENAC e executa trabalho de 6hs na SPDM. Combinando formação
teórica e prática. Participam do programa jovens indígenas, desde que, estejam vivendo em
contexto urbano, com idade entre 16 e 22 anos, que estejam cursando, tenham concluído o
ensino médio ou cursando ensino técnico. O desenho do mapa contextual foi uma construção
coletiva, desenvolvida com dois grupos. Foram feitos os desenhos de quatro esferas
concêntricas (grupo 01) ou triângulos concêntricos (grupo 02). No núcleo, que é a parte mais
interna, colocamos os problemas que mais afligem os jovens, que são o público alvo. Ao redor
do núcleo é confeccionada outra esfera, ali é colocado todo apoio de familiares ou o que se
considera como família, seguido respectivamente de outra esfera com o apoio da comunidade
e ainda outra com os fatores sócio políticos e econômicos que os influenciam. No mapa foram
consideradas pessoas, agentes e instituições como UBS, SPDM, CONDISI, Câmara de
Vereadores, Governo, leis, o que demonstra, por parte dos jovens, um reconhecimento desses
atores com quem potencialmente podem estabelecer relações. As esferas se relacionam e
interpenetram, não havendo uma mais importante que a outra. Dentre os problemas
levantados pelos jovens indígenas no contexto urbano destacam-se as dificuldades de ordem
emocional como: falta de amor, falta sonho, falta foco e determinação, falta apoio,
imaturidade preconceito, desrespeito, desorganização, desunião, desinteresse, impaciência,
irresponsabilidade. Foram relatadas também as dificuldades de acesso como: falta de
orientação, falta de oportunidade, comunicação, Saúde, qualidade de vida, falta de moradia,
educação sexual, projetos sociais de apoio aos jovens, falta de diálogo, oportunidade de
educação, transporte, saneamento básico, e áreas de lazer, além dos problemas de ordem

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social como falta de apoio familiar e social, falta trabalho, drogas, prostituição e abuso sexual.
Esses problemas que afetam os jovens da nossa sociedade como um todo, só piora no caso
dos indígenas devido as suas especificidades e falta de programas de apoio. O mapa nos
permitiu chegar aos problemas que fazem parte da vida dos jovens e relacioná-los com a
situação sociopolítico e socioeconômica atual, ao mesmo tempo em que visualizamos melhor
as múltiplas relações que podemos estabelecer com as diferentes instâncias da comunidade
para pensar e traçar estratégias de atuação mais precisa. Com o Mapa contextual preenchido
listamos de um lado, os problemas que afetam o público alvo e, do outro, os facilitadores que
os ajudarão a solucionar esses problemas para, a partir daí, traçar estratégias, pensar
objetivos e ações defendendo assim seus direitos.

Os indígenas em contexto urbano na óptica da 6ª Conferência Nacional de


Saúde Indígena

Jaqueline Cordeiro Lopes


Paula Layse da Silva
Valquíria Farias Bezerra Barbosa

Os indígenas em contexto urbano sofrem diariamente com a invisibilidade seja ela social ou
política (SOAVE; 2017). Os mesmos não possuem nenhuma política pública que atenda suas
necessidades afim de proporcionar o bem viver para além dos limites territoriais. Ao
considerar os serviços de saúde esta realidade não é diferente (SIMONI, DAGNINO; 2016). De
acordo com a Política Nacional de Assistência à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI), é de
responsabilidade do Sistema Único de Saúde (SUS) assistir as necessidades cultuais destes
indivíduos (BRASIL, 2002). Nesse sentido a participação social torna-se indispensável, onde
pode-se destacar os conselhos e conferências de saúde como ferramentas para atender as
reais necessidades das populações (BRASIL, 1990). O objetivo foi relatar acerca da óptica da
sexta Conferência Nacional de Saúde Indígena etapas local e distrital de Pernambuco, acerca
dos nativos em contexto urbano. Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de
experiência acerca da participação na sexta conferência nacional de saúde indígena, etapa
local e distrital ocorridas no decorrer de 2018. A participação local ocorreu no Território
Indigena Xukuru do Ororubá, Aldeia Pedra D’agua, Pesqueira, Pernambuco, a etapa distrital
por sua vez ocorreu na cidade de Gravatá com ampla participação de todas etnias de PE.
Observa-se a incipiência das discussões acerca dos caminhos para efetivação de uma saúde
especifica e diferenciada para os indígenas em contexto urbano, apesar de ser uma pauta
recorrente na mesma. Assim, necessita-se questionar-se sobre as normatizações institucionais
do Subsistema de Atenção à Saúde indígena (SasiSUS), bem como sua organização
etnoterritorial, ainda territorialmente restritiva (PAULA, 2017). Contudo, nota-se, a gestão do
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Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) - PE, as lideranças indígenas e demais comunidade
sensíveis e preocupados com os caminhos a serem traçados para tal. Destaca-se a abertura
para representação “Citadina”, termo este utilizado corriqueiramente no decorrer das etapas,
enquanto figura indispensável e contemplado nas palestras, discussões, grupos de trabalho,
eleições, etc. Desse modo, dar voz a estes indígenas representa um avanço notável. Dessa
maneira, percebe-se os indígenas em contexto urbano com diversos desafios para sua
visibilidade e cumprimento dos seus direitos, dentre eles, o de saúde. Ao pautar- se na Lei no
9.836 de 1999 “Lei Arouca” tem-se o SUS com o dever de ofertar uma saúde sem
descriminação aos povos indígenas em todos os níveis da atenção. Dessarte, tem-se a Sexta
Conferência de Saúde Indígena enquanto espaço de possíveis avanços nas políticas públicas
aos povos tradicionais inseridos em contexto urbano.

Índios urbanos: processo de afirmação das identidades étnicas do povo


Terena em Campo Grande

Marina Cândido Marcos

As diversas organizações e articulações indígenas existentes em Campo Grande, Mato Grosso


do Sul, acabam oferecendo a realização ou ainda reforço da identidade étnica dos indígenas.
Dados estatísticos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE/2010) totalizam os
chamados Índios Urbanos em aproximadamente 5.657. Número que tem aumentado cada vez
mais. E o trabalho de se fazer visível na cidade, se forma através dessas articulações, trabalhos
e projetos ligados ao governo. E um desses fatores que somam junto com essa visibilidade é
o fator das identidades étnicas, o processo de afirmação da identidade social. E o presente
trabalho vai trabalhar com esse enfoque das identidades étnicas e os meios que os indígenas
urbanos buscam para “alcançar” a visibilidade e a promoção de sua cultura. Serão
contempladas algumas bases teóricas e o trabalho realizado empiricamente. Dessa forma,
tentar compreender como a dinamicidade de identidade étnica com os Terena que migram
para a cidade, que estabelecem vínculos afetivos e aqueles que de outra geração nasceram
na cidade e através de políticas públicas reafirmam sua “identidade indígena”.

A multiplicidade: imagens urbanas na socialidade hup

Bruno Ribeiro Marques

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Caderno de Resumos do 3 o Congresso Internacional Povos Indígenas da América Latina (CIPIAL)
ISBN: 978-65-86503-02-9
Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

No trabalho de campo com os Hupd'äh das regiões do igarapé Japu, Iauaretê e alto rio Papuri
(Alto Rio Negro, entre 2012 e 2017), o tema da cidade surgiu em uma infinidade de sentidos.
Nas rodas noturnas de ipadu, os Hupd'äh contam as viagens oníricas dos xamãs às “cidades
dos brancos” – em geral, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Bogotá. No cotidiano, o conceito
de comunidade católica aponta a cidade como um limite para o qual tende seu atual modo de
vida, estabelecendo uma trama vital complexa que relaciona, de um lado, o “tempo dos
antigos” (a plenitude da vida na floresta) e, de outro, os modos citadinos, que, da perspectiva
hup, condensam a abundância mercantil. As descidas massivas para a centro urbano de São
Gabriel da Cachoeira (AM, Brasil) na busca de documentação, acesso a benefícios sociais e
mercadorias, por sua vez, apresentam aos Hupd'äh a experiência urbana em vigília e, com ela,
o tema da excrescência citadina e do labirinto burocrático das instituições locais. Importante
ressaltar um aspecto na versão hup da “prefiguração dos brancos”: a própria floresta, em seu
subterrâneo, da perspectiva do xamã, pode ser uma cidade em que as caças são motoristas
de ônibus, policiais etc., regidos pelos seus donos (Döh Áy). E isso “sempre foi assim”, “mesmo
antes dos brancos chegarem”, explicou um homem Hupd’äh. A cidade para os Hupd'äh
modula a imagem geral da vida de Outrem, tanto a não ohumana como a humana: esta
apresentação busca estabelecer uma linha etnográfica que coloque em continuidade essas
diferentes imagens citadinas, tecendo as consequências conceituais desta percepção.

Corpo dissidente: autodemarcação em contexto urbano

Narciso Faustino Mendes

A partir da retomada das narrativas orais de minha família, apresento uma autoetnografia de
encontro com a narrativa dos povos indígenas de Pernambuco. Sou fruto da diáspora
nordestina e filho de indígenas migrantes de Jurema e Quipapá, cidades localizadas no interior
de Pernambuco, que passaram a residir na capital paulista, onde cresci, mas nunca me enraizei
culturalmente e espiritualmente. Entendo, porém, esse processo de migração compulsória
como resultado dos processos genocidas e etnocidas praticados pelo Estado brasileiro que
planejou integrar violentamente a população indígena à sociedade brasileira de forma que a
transformasse em trabalhadores, muitas vezes em regime de escravidão nas terras invadida
pelos posseiros. Quando reestabeleço ligações entre a história de minha família com os
processos históricos vividos pelo povo Xukuru, dado como extinto pelo Estado, mas que viveu
sua retomada no final dos anos 80, percebo as semelhanças desse violento processo. Pelo fato
de ter nascido e residido em contexto urbano, tenho minha identidade étnica negada pela

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Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

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sociedade como uma nova etapa desse processo integracionista de apagamento aos povos
indígenas. Meu corpo dissidente não se adequa a essa hibridez que nos impõe; ao não me
reconheço como “pardo”, é por perceber a violência simbólica que esse termo carrega e por
conhecer a história de resistência dos povos indígenas, sobretudo do Nordeste, que resistem
por séculos e não deixam morrer suas culturas originárias, resistindo a violência colonial, seja
da miscigenação como forma de embranquecimento da população ou pelas mãos dos
antropólogos que afirmavam não existir mais indígenas no Nordeste. O Estado não pode nos
apagar por inteiro: ao me reconhecer como indígena, reivindico o nome de minha família,
Tunga, rama do povo Xukuru, que resistiu ocultamente a toda essa violência colonial.

O que é ser índio no meio urbano? História, memórias e desafios comuns de


povos indígenas na Região Metropolitana de Fortaleza

Joaquim Teixeira Pinto de Mesquita

A presente proposta de trabalho dialoga sobre questões históricas relacionadas a povos


indígenas cearenses habitantes da Região Metropolitana de Fortaleza. Observam-se estes a
partir de fontes documentais, bem como suas memórias que atravessam gerações dentro de
comunidades indígenas que sofrem diversificadas violências para se afirmarem como
indígenas dentro do meio urbano. É cada vez mais crescente a presença de indígenas em
grandes centros urbanos, visto que, este aumento se dá através de invasões que ocorrem
desde o período colonial e se intensifica cada vez mais no presente, onde se observa a invasão
de territórios indígenas que estão mais próximos de áreas urbanas. A questão aldeia / centro
urbano no Estado do Ceará ganha força discursiva no início do século XX quando estes passam
a questionar o que estava posto em documentos oficiais, onde se verificava uma invisibilização
do processo de emergência étnica vivida por povos no estado do Ceará e todo Nordeste. Como
afirma Oliveira (2003) “a concepção naturalizada da cultura indígena se adéqua perfeitamente
a representação do senso comum sobre os índios, formando um complexo ideológico de difícil
desmontagem”. Em centros urbanos como os da Região Metropolitana de Fortaleza, habitado
por indígenas, a ideia que se alimentou e alimenta sobre estes é aquela “na qual há uma
associação entre índios e floresta/natureza, por um lado, e não-índios e cidade/civilização, por
outro” como aponta Nunes, (2010). Estes no presente se reafirmam através de retomadas,
como analisa Tófoli (2010) sobre a questão do povo Tapeba, habitantes do município de
Caucaia, Região Metropolitana de Fortaleza; “representam uma eficaz ferramenta de luta e
reivindicação territorial em situações de disputa e de conflitos com proprietários, posseiros e
políticos locais”. Para tanto, a proposta de trabalho visa dialogar com a pesquisa em
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andamento dentro do Programa de Pós-Graduação em Estudos Africanos, Povos Indígenas


Culturas Negras – PPGEAFIN – dentro da Universidade do Estado Da Bahia – UNEB, onde se
busca dialogar com levantamentos etnográficos e históricos já realizados observando os
processos territoriais e econômicos que estes enfrentam no presente para preservação de
suas memórias e história, bem como de que forma a historiografia preserva – ainda que
invisível – sua identidade no Estado do Ceará.

Migração das mulheres indígenas para cidade de Oiapoque: um olhar sobre o


censo demográfico

Claudia Renata Lod Moraes


Evilania Bento da Cunha

Esta comunicação é resultado do Projeto de Iniciação Cientifica vinculado ao curso de Licenciatura


Intercultural Indígena, que teve como título “Um olhar sobre o censo demográfico da população
indígena da cidade do Oiapoque” que integrou o projeto cadastrado na UNIFAP com o título “Migração
de mulheres indígenas para cidade: os desafios da dupla jornada de trabalho no contexto das etnias
indígenas na fronteira entre Brasil e Guiana Francesa”, sob a orientação da Professora Ms. Evilania
Bento da Cunha. A construção do censo demográfico seria em parceria com a FUNAI de Oiapoque, mas
não se realizou como previsto no projeto inicial. Dessa forma, foi necessário alterar a metodologia,
assim nos adaptamos a proposta da disciplina Geografia da população indígena ministrada no mês de
julho de 2018 no curso de Licenciatura Intercultural Indígena. A nova metodologia levou em
consideração perguntas do censo para compor um questionário que foi aplicado com 67 famílias em 6
bairros da cidade de Oiapoque, a saber: Infraero, Planalto, Nova União, Nova Esperança, Paraíso e
Centro.

Resistência Guarani Mbya na cidade de São Paulo

Robson da Silva Oliveira

O presente trabalho vem trazer reflexões acerca da resistência indígena na cidade de São
Paulo, sob a perspectiva dos Guarani Mbya que estão localizados no pico do Jaraguá, zona
noroeste da capital paulista. É importante ressaltar que este trabalho é um resultado do
projeto de pesquisa “Território e Conflito: comunidade indígena Guarani do Pico do Jaraguá-
SP” do programa de Mestrado em Planejamento Urbano e Regional da Universidade do Vale
do Paraíba. Podendos evidenciar no Brasil, nestes últimos anos, um conjunto significativo de
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pesquisas sobre as comunidades indígenas em diferentes áreas do conhecimento,


apresentando o protagonismo indígena , tentando compreender os sentidos e os significados
da cultura dos povos indígenas ou mesmo despertando o diálogo na intenção de ressignificar
e descobrir os preconceitos, estereótipos, ideias de homogeneização, subalternização, e
uniformidade impostas por processos históricos de desestruturação das comunidades
indígenas. Em meio a este cenário, pouco se fala ou se trabalha nos meios acadêmicos com e
sobre os índios em contexto urbano que somam 36% do total de índios no Brasil. Trazemos
aqui a TI indígena Guarani do Pico do Jaraguá, localizada em um dos maiores centros urbanos
do Brasil, a grande São Paulo. A realidade dos povos indígenas que vivem nas cidades, em
especial na cidade de São Paulo, aponta para que os direitos indígenas se alinhem cada vez
mais ao entendimento de que a cultura não e um pressuposto de determinado grupo étnico
e sim um produto dele; cultura, entendida como “algo essencialmente dinâmico” e
“perpetuamente reelaborado”, e para que as cidades se reconheça politicamente e
urbanisticamente estes povos que também tem direito a permanecer e resistir nos meios
urbanos. Desta forma, queremos discutir quais são os principais mecanismos de resistência
dos Guarani Mbya em um espaço que está em constante conflito, que é a ocupação indígena
urbana em uma grande metrópole. Para isso vamos conceituar o que é resistir para este povo
e assim poder dialogar com as diversas formas de resistência e manutenção do território, da
cultura e da vida em um contexto urbano.

Geografias indígenas migrantes en Crônicas de São Paulo, de Daniel


Munduruku

Christian Elguera Olortegui

En 1911, João Pedro, un bugreiro, contratado por la compañía Estrada de Ferro Noroeste de
Brasil narró a autoridades estatales comooo eel y sus compañeros mataron a un grupo de
indígenas Kaingang en el noroeste del estado de São Paulo. Despues de este asesinato, los
bugreiros celebraron su crimen, considerándolo un acto heroico y una contribución a la
nación. La masacre Kaingang en Sao Paulo no fue un hecho aislado, sino que fue parte de una
campaña nacional para exterminar existencias indeseables en nombre del progreso brasileiro.
La misión consistió en la expropiación de tierras indígenas – a través de leyes o de violencia- y
del asesinato de sus habitantes. Como consecuencia, la construcción del estado de Sao Paulo
y, principalmente de su ciudad, se ha basado en el exterminio de cuerpos indígenas. En contra
de esta historia de colonialismo, el escritor indígena Daniel Munduruku afirma la continuidad
de las culturas indígenas en la ciudad de São Paulo, y nos recuerda que esta megalópolis
brasileira es también un territorio indígena. En este sentido, propongo que en su libro Crônicas
de São Paulo, um olhar indigena (2004), Munduruku desafía las geografías físicas y mentales
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de esta ciudad usando su experiencia de indígena migrante. Me centro principalmente en un


análisis de las crónicas tituladas “Tatuapé” y “Guaianases, Guarulhos e Guaranis”, que cierran
y abren el libro, respectivamente. A través de un dinámico uso del cuerpo –que incluye
caminatas, viajes en metro, miradas –, Munduruku introduce sus propios códigos culturales
dentro un espacio colonizado y de corte eurocéntrico. Sus recuerdos, la activación de sus
prácticas tradicionales, la emergencia de ontologías no-humanas, construyen una
territorialidad indígena migrante que problematiza la historia urbana paulista. De esta
manera, este libro recupera historias y presencias indígenas que han sido invisibilizadas por
las políticas culturales y espaciales de São Paulo. Asimismo, afirma que se puede ser indígena
en las grandes urbes, cuestionando dicotomías, esencialismos y preconceptos de la sociedad
brasileira. Para entender la situación histórica y política de los pueblos indígenas en São Paulo
utilizaré los trabajos de John Monteiro y Jose Mauricio Arruti y Marcos Alexandre
Alburquerque. Para una compresión de la experiencia indígena migrante dialogaré con
Antonio Cornejo Polar, Kwame Anthony Appiah, y Eliane Potiguara. Finalmente, para una
definición de geografías indígenas migrantes, me basaré en las investigaciones de Milton
Santos, Lorraine Leu y Marcos Mondardo.

O movimento mẽbêngôkre entres as aldeias e as cidades

João Lucas Moraes Passos

Este trabalho dá continuidade a uma pesquisa sobre a mobilidade mẽbêngôkre, realizada no


mestrado, na aldeia A’ukre, Terra Indígena Kayapó, Pará. Nessa ocasião, voltei minha atenção
para as andanças (mẽ’y) realizadas em larga escala no passado e que foram diminuindo cada
vez mais após o contato. Por serem os anciãos os mais frequentes contadores das histórias
com que trabalhei, ficou em evidência um tom saudosista em relação às andanças de outrora.
Os velhos acusam os jovens de ficarem parados em casa na aldeia. Mas, ao visitar uma aldeia
mẽbêngôkre, vê-se muitas casas vazias. Há uma razão, entre outras, cada vez mais frequente:
o trânsito constante entre as aldeias e as cidades próximas. E é esse movimento para o qual
quero voltar minha atenção aqui. Uma das principais razões sempre invocadas pelos
Mẽbêngôkre para passar mais tempo na cidade é para que os filhos possam estudar nas
escolas não-indígenas. Só em São Félix do Xingu, são mais de 250 alunos indígenas
matriculados. Se antes os Mẽbêngôkre faziam guerra com os não-indígenas, hoje, certa vez
me disseram, têm vergonha diante deles por não terem a mesma educação. Dizer que a guerra
agora é travada com a caneta e não com a borduna é lugar-comum, mas me parece que aqui
há uma certa continuidade nas relações travadas com os não-indígenas que a grande

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mobilidade mẽbêngôkre pode ajudar a elucidar. A aproximação dos não-indígenas aumentou


a intensidade dos períodos no mato, devido às excursões às vilas e acampamentos não-
indígenas nas terras habitadas pelos Mẽbêngôkre. A “pacificação” cessou a guerra, mas as
andanças (que alguns autores dizem “sazonais”), o mẽ’y, continuaram. Aos poucos, o período
dedicado a elas foi diminuindo devido à presença dos não-indígenas na aldeia, dos seus bens
e dos remédios para as doenças que vieram com o contato, dentre outras coisas valorizadas
pelos Mẽbêngôkre. Mas de uns tempos para cá, começaram a não mais esperar os não-
indígenas na aldeia, mas ir de encontro a eles novamente, ainda que não com excursões
guerreiras. Se antes os principais destinos na cidade eram a CASAI e as casas de apoio (espaços
para acolher os Mẽbêngôkre que estão na cidade), é cada vez maior o número de famílias que
alugam casas na cidade e recebem parentes vindos da aldeia. Essas famílias em geral se
apoiam financeiramente em parentes que trabalham na cidade, sempre em posições
relacionadas diretamente aos Mẽbêngôkre: nas associações indígenas, na CASAI, no DSEI
(Distrito Sanitário Especial Indígena), nas secretarias de educação e prefeituras dos municípios
que avizinham as Terras Indígenas mẽbêngôkre. Contudo, quando voltam para aldeia, para
festas ou nas férias, estão sempre “indo pra casa”.

De onde nos falam e o que nos contam as narrativas comunicacionais


Kaingang

Carmem Rejane Antunes Pereira

A proposta é oferecer alguns apontamentos sobre configurações da identidade cultural em


perspectiva comunicacional e histórica, levando em conta intercruzamentos de matrizes
ancestrais e contemporâneas. Esses apontamentos são oriundos de narrativas indígenas
geradas durante a pesquisa de doutorado, a qual focalizou as configurações da identidade
cultural, memória e mídia no bojo dos processos comunicacionais contextualizados pela etnia
Kaingang no Sul do Brasil. Segundo estimativas do Instituto Socioambiental (ISA), FUNAI e
Portal Kaingang (2018), a população Kaingang estaria entre 30 e 40 mil pessoas, considerando
aquelas que vivem em mais de 30 Terras Indígenas (TI), aquelas que vivem nas zonas urbanas
e rurais próximas às TIs ou, ainda, aquelas que passaram a viver em aldeias ou núcleos
domésticos de regiões metropolitanas de capitais, como Porto Alegre (RS). A recepção em
perspectiva histórica requer pensar a expansão dos meios de comunicação na sociedade
contemporânea, os quais fortalecem um mercado de bens culturais, cujos símbolos e
significados povoam a sociedade pelos quais uns e outros se situam no mundo, ou pensam,
imaginam, sentem e agem (IANNI, 2003). Também investigar as marcas de uma cultura

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midiática (MATA, 1999), desde a inserção das mídias na vida social dos desiguais e diferentes
grupos humanos. As narrativas enfocadas remetem a uma experiência cultural com os meios
de comunicação que permitem traduzir a temporalidade dos interlocutores/receptores
indígenas. Para coletar as narrativas utilizamos aportes da história oral (THOMPSON, 1992;
POLLACK, 1992) os quais se vinculam como áreas afins à problemática que aborda a identidade
cultural (GARCÍA-CANCLINI, 1998; CASTELLS, 2002) em um contexto marcado por itinerâncias
que nos falam de uma rede de afetos, trocas comerciais, organização política e da criação de
lugares de memória, na medida em que os territórios, na acepção ameríndia, foram ficando
cada vez mais diminutos. Desse modo, as narrativas dos interlocutores são pontes para
compreender configurações identitárias como memória e projeto, como sentimento e ação,
a partir de uma vivência na e da cidade, em que os indígenas participam de arenas locais como
sujeitos de direito e procuram a inserção no mundo fog (branco, não-indígena), incluindo a
visibilidade social no campo comunicativo.

O lugar da cidade na cosmologia e na política Mbya Guarani

Vicente Cretton Pereira

A partir de etnografia realizada entre 2008 e 2013 na aldeia de Mbya Guarani localizada então
em Camboinhas (cidade de Niterói, RJ) este trabalho busca investigar a relação entre a
cosmologia Mbya e a cidade. Primeiramente levanta-se a questão do “índio genérico” como
um emblema de afirmação de autenticidade (re)criado na relação com os não-índios,
buscando contrastá-lo com o modo de autoidentificação Mbya Guarani, isto é, a partir de
referências do interior do socius. Procura-se investigar como era conciliada pelos diferentes
sujeitos a idéia de um “índio genérico” visto, essencialmente, como “habitante das matas”
ocupar um espaço urbano. Em seguida busca-se compreender também as relações que os
Mbya Guarani estabeleceram com o ambiente que circundava a aldeia, localizada na região
litorânea de uma grande cidade, levando em consideração seus modos de aproveitar os
recursos disponíveis, seja no mangue, na lagoa, no mar, no supermercado, nas lojas, padarias,
etc. Busca-se entender qual a importância da cidade no cotidiano dos Mbya Guarani, e como
os significados envolvidos na categoria aparecem nos diferentes contextos observados. Na
discussão procura-se destacar as concepções cosmológicas Mbya Guarani em relação com o
cotidiano dos sujeitos, levando em conta as trajetórias pela cidade e modos específicos de
apropriação do “urbano”. Por fim, sugere-se que da perspectiva dos Mbya Guarani a cidade
cumpre um papel fundamental não só do ponto de vista material, mas também no sentido
metafísico: por um lado dizem que tudo que existe no mundo terreno existe num modo
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imperecível de existência nas aldeias celestes (incluem-se armas, carros, prédios e etc.), e por
outro o ambiente urbano é palco de importantes episódios dessa batalha cosmológica (ou
melhor, cosmopolítica) que os Mbya Guarani vêm mantendo contra o Estado, os ruralistas, as
mineradoras e etc. Mobilizações Mbya em São Paulo, como o fechamento da Avenida dos
Bandeirantes em 2013, ilustram isso da melhor forma possível: espécie de ritual xamânico no
meio de avenidas e rodovias, tais mobilizações indicam o lugar que a cidade ocupa no
pensamento Mbya Guarani.

La infancia nahua construyendo puentes interculturales

Ana María Méndez Puga,


Alethia Dánae Vargas Silva,
Diana Tamara Martínez Ruíz

En la ciudad de Morelia, del Estado de Michoacán en México, desde hace casi 45 años, algunos
hombres nahuas del estado de Guerrero llegaron a vender sus artesanías; viajaban con lienzos
pintados de papel amate y algunas figuras de barro. Conforme fue pasando el tiempo
comenzaron a viajar con las familias, hasta que finalmente se asentaron en la ciudad, sin
perder sus vínculos con su comunidad y sin “integrarse” completamente a la vida urbana.
Conformaron un grupo organizado que gestionó y recibió un terreno en donación donde se
asentaron quince familias y desde hace 18 años viven ahí, donde, con apoyo de dos gobiernos
construyeron sus casas (Castillo, 2010; y entrevista a la líder actual). Hoy, siguen vendiendo
artesanías en las calles del centro de la ciudad y ferias. Algunas de esas artesanía las elaboran,
otras las compran y algunas son de origen chino. Esta comunidad nahua en Morelia, como es
llamada ahora, interactúa con la vida cotidiana de la ciudad, día a día, a través de las niñas y
niños, de formas diferentes. Una de esas formas es la escuela, ya que acuden a escuelas
regulares e impactan con sus interacciones en la vida de otros niños y niñas (Vargas-Garduño,
Ramírez-Cruz, Méndez-Puga y Vargas-Silva, 2011), convocando al diálogo desde sus saberes y
formas de ver el mundo. En el pasado verano (julio 2018) se trabajó con las niñas y niños en
un taller de lectura y de actividades lúdicas y de ciencia. Desde el cual fuera posible generar
vínculos para continuar trabajando con ellos en los distintos escenarios en los que interactúan.
La actividad se realizó en la iglesia de la colonia y participaron 18 niñas y niños. Todos son
bilingües e interactúan con la lengua escrita de manera fluida, son lectores curiosos, se
interesaron por todos los tipos de texto que se les presentaron y participaron activamente en
experimentos científicos. A partir de ahí, contaron de lo que hacen en las fiestas, de las
tradiciones que conservan en la comunidad y para cuáles van a su pueblo, no hablan de
preservar su cultura, siguen siendo nahuas en la ciudad. Los niños y niñas han territorializado
las creencias de su cultura en la ciudad y en su colonia, historias de un río que hay en su pueblo
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de origen dan vida a historias en el arroyo de aguas negras que pasa al lado de su colonia en
la ciudad; leyendas tradicionales de apariciones dan vida a historias que suceden sólo en su
colonia en la ciudad que comprende una calle de 15 casas, una iglesia, tres juegos y 40 mts
cuadrados donde a veces siembran alguna verdura o maíz. Ser y querer-ser nahuas les permite
reconocerse distintos ante otros niños y niñas, diversos, abiertos y urbanos a la vez de
segregados e indígenas nómadas; así, alimentan un saber intercultural, sin proponérselo.

“Lugar de índio é onde ele quiser”. A cidade como território de resistência,


agência e descolonização de processos fixadores da identidade indígena

Gabriela de Freitas Figueiredo Rocha

A presente proposta é fruto de uma pesquisa, desenvolvida no âmbito do doutorado, que


buscava explorar o potencial insurgente das trajetórias de coletivos indígenas em grandes
cidades, na defesa dos seus direitos, suas identidades, vidas, corpos, repertórios culturais,
linguagens, formas de viver e pensar. A investigação se desenvolveu entre os anos de 2015 e
2016 e relacionou a construção da identidade indígena genérica, a maneira como ela foi fixada
em certos estereótipos, padrões e modelos de governança de populações, e, de outro lado, o
deslocamento permanente dessa identidade pelos sujeitos que a acionam e vivem,
particularmente aqueles que o fazem no espaço urbano, onde são em geral invisibilizados,
tidos como integrados, ou fora do lugar. Acompanhei parte da primeira Conferência Nacional
de Política Indigenista, e analisei aquele contexto frente à experiência fronteiriça de indígenas
de múltiplas etnias residentes em Belo Horizonte, que assim como as grandes cidades
brasileiras, é um território extremamente excludente em relação a modelos de vida,
sociabilidade, corpos e territorialidades alternativas às lógicas homogeneizadoras que
configuram o capitalismo atual. A partir do uso estratégico que os coletivos fazem do aparato
indigenista, historicamente concebido para o controle e a dominação colonial, procurei
compreender as saídas descolonizadoras para o processo de repetição de estereótipos, que
impôs a miscigenação como linguagem naturalizadora de hierarquias étnico-raciais, onde “ser
indígena fora dos padrões” significa ser constantemente colocado em suspeita de
inautenticidade, deslegitimado em sua própria voz e capacidade de agência. Trabalhei
especialmente com referências teóricas da etnologia brasileira, dialogando com literatura
pós-colonial e decolonial. Como as experiências de ser indígena no espaço urbano
desestabilizam fronteiras epistêmicas onde os processos de tradução se dão? Como resistem
ao apagamento de suas raízes, reenraizam-se e lutam pelo reconhecimento, sem que isso
implique no reencaixar em categorias e esquemas coloniais prévios? A resistência indígena
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em Belo Horizonte desvela a cidade como um território a ser indianizado, onde se mobilizam
as estratégias tradutórias, analisadas em sua particularidade: as disputas pela autenticidade,
enquanto critério de comprovação do pertencimento étnico; as performances culturais por
meio dos quais as diferenças se expressam e a cultura é concebida como um espaço aberto
de enunciação e agência; a retomada, tanto física e simbólica, cujo conteúdo se preenche por
relações, nomes, signos e performances múltiplas.

Usos e abusos da identidade: trânsitos e territorialidades dos Maká e M’byá


Guarani nas cidades da Tríplice Fronteira

Luiz Felipe Rodrigues


Dalila Tavares Garcia
Joselaine Dias de Lima

Nas ruas movimentadas e nas proximidades de pontos turísticos das cidades de Foz do Iguaçu
(Brasil), Ciudad del Este (Paraguay) e Puerto Iguazú (Argentina), pessoas das etnias Maká e
M’byá Guarani marcam sua presença como parte de suas estratégias de sobrevivência. Trata-
se de grupos inseridos em um espaço urbano marcado pelo turismo de nível internacional,
acionado por atrativos como as Cataratas do Iguaçu, e marcado também pelo comércio
fronteiriço, acionado pelas diferenças existentes em cada margem da fronteira. Os Maká, que
vivem casas precárias de madeira, numa pequena área de 70m2 aproximadamente, no centro
comercial de Ciudad del Este, produzem artesanatos (como pulseiras, bolsas e colares) para
vender aos turistas e outras pessoas que possam se interessar. Os M’byá Guarani, presentes
na cidade de Puerto Iguazú, além de venderem seus artesanatos, promovem um circuito
turístico em uma das aldeias que está localizada entre o centro da cidade argentina e a entrada
das Cataratas do lado argentino. Nesse processo, ambos os grupos utilizam suas identidades
como estratégia de sobrevivência, já que estas são “exotizadas” pelo mercado turístico e pelo
imaginário dominante que coloniza a mente de grande parte da sociedade. Ao mesmo tempo,
a fetichização de suas identidades não promove a valorização dos indígenas, que continuam
vivendo, em muitos casos, em situações precárias. Na Tríplice Fronteira, às vezes promovidas
turisticamente como “Terra Guarani”, é comum encontrar indígenas em situação de
mendicância e miséria. Nesse sentido, trataremos de discutir as contradições, os conflitos e
as negociações nos trânsitos entre fronteiras e nos processos de interação dos Maká e M’byá
Guarani com outros agentes implicados na dinâmica de suas práticas cotidianas.

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Os desafios dos indígenas na cidade de Manaus e a busca pelo direito e


autonomia

Cirlene Batista dos Santos


Dario Emilio Casimiro
Ivani Ferreira de Faria

O presente trabalho tem como objetivo central a compreensão do processo de


territorialização dos povos indígenas na cidade de Manaus a partir do estudo dos direitos e
autonomia, e como específicos identificar as políticas públicas de educação indígena
desenvolvida pela SEMED e SEDUC na cidade de Manaus, verificar como as políticas de saúde
vem tratando os indígenas da cidade, verificar a posição das Organizações e Movimentos
indígenas e indigenistas em relação ás políticas de educação e saúde em Manaus. Ao se
estabelecerem na cidade os indígenas vão conquistando um novo território para viver e para
reproduzir sua cultura. A cidade é o lugar onde as novas relações sociais ocorrem, onde a vida
continua e a cultura vai aos poucos se reconfigurando. Os indígenas da cidade organizam-se
em associações para reivindicarem os seus direitos básicos como saúde e educação. A
categoria de análise território, configura-se essencial, fundamentalmente porque as relações
sociais têm um alto grau de importância para compreender os problemas ocorridos no espaço
urbano. Com a finalidade de investigar os desafios dos indígenas na cidade de Manaus e lutas
pelos direitos, e como estes estão sendo assegurados, foram realizados levantamentos
bibliográficos e de campo com entrevistas junto aos órgãos indígenas e indigenistas, órgãos
governamentais estaduais e municipais como SEDUC e SEMED, bem como como algumas
lideranças de associações indígenas. Para tanto foi elaborado um roteiro dos assuntos a serem
levantados nas entrevistas de acordo com cada um dos segmentos. As entrevistas foram
realizadas individualmente, as entrevistas e anotações ajudaram a perceber muitos aspectos
e, destaque das categorias de análise. O presente estudo mostrou que os indígenas que vivem
na cidade de Manaus ainda enfrentam muitas dificuldades em relação aos seus direitos
básicos relacionados à saúde e educação escolar indígena. Ainda faltam políticas públicas para
que esses direitos de fato sejam adquiridos.

“O Santuário Sagrado dos Pajés Não Se Move!” - Insurgência étnica e


identidades territoriais indígenas e o Estado brasileiro: conflitos interétnicos
e territoriais no contexto de expansão de empreendimentos urbanos no
Plano Piloto de Brasília

Comunidade Indígena Santuário Sagrado dos Pajés – Pajé Santxiê Tapuya (Brasília-DF)

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Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

A presente comunicação pretende abordar o problema do reconhecimento de territórios


indígenas de ocupação tradicional em área urbana no contexto de expansão de
empreendimentos urbanos e imobiliários e os conflitos gerados a partir da análise dos
discursos e estratégias da comunidade indígena do Santuário Sagrado dos Pajés
territorializada no espaço urbano do Plano Piloto de Brasília – ícone da arquitetura modernista
de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, assim como analisar os discursos e políticas do Estado
brasileiro frente à reivindicação de reconhecimento de direitos territoriais indígenas em
contexto urbano levado a cabo por uma amplo movimento etnopolítico liderado pela
comunidade indígena do Santuário dos Pajés que abarcou outros setores sociais da sociedade
brasiliense.

Povo indígena Pankararu: deslocamentos e pertencimento étnico no sertão


de Pernambuco

Elizângela Cardoso de Araújo Silva e Codjo Olivier Sossa

Este trabalho apresenta um relato de experiência Pankararu. As reflexões aqui apresentadas


fazem parte de dois projetos de doutorado em atuação na UFPE (Recife, PE) sobre populações
indígenas e quilombolas no Nordeste do Brasil. A realidade do povo Pankararu nos últimos 30
anos passa por amplas no modo de vida e de trabalho de indígenas que vivem nas aldeias e
nas cidades de Jatobá, Tacaratu e Petrolândia, sertão de Pernambuco. O principal
acontecimento impulsionador dessas transformações foi a remoção compulsória do município
de Petrolândia/PE de mais de 20 mil ribeirinhas do rio São Francisco (indígenas e não
indígenas) por conta da construção da Barragem e da Usina Hidrelétrica de Itaparica (1988).
Esses acontecimentos impulsionaram novos processos de deslocamento e reagrupamento do
povo Pankararu/PE no sertão de Pernambuco. Os processos históricos de deslocamento e
reagrupamento do povo Pankararu/PE são marcados pela peculiaridade dos conflitos e
interferências da ação colonizadora das formas de povoamento indígena no sertão.
Ocorreram movimentos de ocupação determinados pelas condições climáticas próprias da
região do semiárido, que levaram os povos indígenas à ocupação da região ribeirinha do rio
São Francisco pela necessidade do acesso à água. Este trabalho analisa o deslocamento e o
reagrupamento do povo Pankararu na segunda década do século XXI. Parte da análise dos
impactos da construção da Barragem e da Usina Hidrelétrica de Itaparica. O cotidiano e a
história de vida de uma autoria do artigo, indígena da aldeia Bem Querer de Cima (TI
Pankararu), membro de uma das famílias indígenas atingidas pela Usina é a base deste texto.
No processo de remoção dos atingidos, muitas famílias indígenas Pankararu se deslocaram
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Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

para o território da nova cidade, pela grande oferta de empregos e atividades da construção
civil. Indígenas saíram das aldeias em busca de trabalho, passando a integrar o grupo de
operários das obras da barragem e na construção da nova cidade. A construção da hidrelétrica
promoveu muitos impactos: mudanças na economia local, reconfiguração de redes de
assalariamento no comércio e na agricultura, transformações culturais. Esses processos
levaram à ampliação da presença de indígenas na reconfiguração de redes de assalariamento
no comércio e na agricultura local. Embora muitos indígenas passem a viver nos centros das
cidades dessa região, nossas famílias protegem o vínculo étnico com as aldeias, tanto pelo
contato permanente com a rede de parentesco através da participação ativa nos rituais e
diferentes atividades nas aldeias da Terra Indígena Pankararu.

Alunos indígenas nas escolas urbanas públicas de Imperatriz/MA: o que


mudou nos currículos escolares após a Lei 11.645 de 2008?

Ilma Maria de Oliveira Silva


Arlete de Sousa Coelho
Zanado Pavão de Sousa Mesquita

Analisar como a história e cultura dos povos indígenas estão sendo trabalhadas no currículo
das escolas das redes municipais e estaduais de Imperatriz/MA, levando em consideração o
processo de mudança da sociedade, especialmente nas últimas três décadas, é objetivo desta
pesquisa. A história dos povos indígenas no Brasil passa por diversos e tortuosos caminhos
que sempre os manteve a margem da sociedade nacional sendo ocultada pela história oficial
e apresentada em posição subalterna pelas interpretações e ideologias dominantes. Diante
disso, pesquisar sobre a temática e perceber possibilidades de inclusão no currículo escolar
significa trilhar pelos rastros do passado e também do presente. É uma oportunidade de
despertar para o respeito à diversidade cultural, bem como contribuir com a formação inicial
dos acadêmicos do curso de Pedagogia numa perspectiva mais inclusiva. Dessa forma, a
pesquisa de iniciação científica-PIBIC, objetivou também, fazer levantamento do número de
alunos indígenas matriculados nas escolas urbanas de Imperatriz da rede municipal e estadual
de ensino; analisar quais os problemas mais comuns encontrados no âmbito escolar no que
tange à aplicabilidade da lei 11.645 de 2008 e identificar os limites e as possibilidades
encontradas pelos professores para ensinar a história em questão, entre outros. Os objetivos
partiram do princípio que as vozes das sociedades indígenas, há séculos silenciadas, passam a
serem ouvidas, principalmente pela persistência e organização dos povos indígenas a partir
dos anos 1970. Nesse sentido, o processo de reconhecimento de seus direitos, de uma
cidadania diferenciada, de suas línguas, culturas e tradições se dá a partir da Constituição
Federal, promulgada em 1988. Em consequência, surgem ações afirmativas que contribuem
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3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

para o protagonismo indígena. Entre outras, surgem legislações que proporcionam a educação
como meio de combate às desigualdades provocadas pela exclusão e pela predominância do
etnocentrismo. Assim, destacamos a Lei 11.645 de 2008 como forma de incluir nos currículos
escolares não indígenas uma história que não seja contada pelo viés dominante. Para tanto,
realizamos a pesquisa em escolas públicas municipais e estaduais de Imperatriz/MA que têm
alunos indígenas matriculados. Contamos com a participação de professores, secretários de
educação e alunos indígenas. No decorrer dos trabalhos outras perspectivas de trabalho
foram surgindo, como conhecer as histórias de vidas das famílias dos alunos e analisar que
motivos as levaram para escolher a cidade como lugar de morada

Mapeando deslocamentos e trajetórias de indígenas em contextos urbanos: o


caso da Região Metropolitana do Recife (Pernambuco, Brasil)

José Tarisson Costa da Silva

Cada vez mais inseridos nas dinâmicas urbanas, os indígenas em Pernambuco foram
contabilizados como a quinta maior população de índios vivendo no contexto da cidade, a
nível Nordeste. O índice elevado desses indivíduos morando em regiões urbanas – mais de
3.000, de acordo com o Censo do IBGE de 2010 – motivou a pesquisa, buscando compreender,
nessa primeira fase do projeto, as trajetórias e motivações para os indígenas migrarem para
o contexto urbano, as relações de sociabilidade no espaço da cidade, as dificuldades e a
relação destes com as políticas públicas na Região Metropolitana do Recife (RMR). Na
perspectiva das preocupações atuais sobre as temáticas indígenas, esse estudo pretende ser
uma contribuição para adensar os estudos sobre os índios e as relações com as cidades. Para
isso, foi utilizado um questionário pré-estruturado com cinco indígenas de diferentes bairros,
faixas etárias, condições socioeconômicas e etnias, abarcando indivíduos Xukuru do Ororubá,
Fulni-ô, Pankararu, Pankararu Entre Serras e Pankará. Enquanto referencial teórico-
metodológico para a pesquisa foram utilizados os estudos de Alberti (2004), Halbwachs
(1990), Pollak (1989; 1995), Nunes (2010) e Almeida (2010), na perspectiva de que possamos
compreender as dinâmicas coletivas a partir de um quadro de memória individual das
experiências relatadas por meio da história oral dos entrevistados. Este estudo ainda pretende
problematizar a invisibilidade vivenciada pelos indígenas em contextos urbanos, sobretudo, a
ausência de políticas públicas para o reconhecimento da diversidade e pluralidade étnica em
Pernambuco. A partir desses relatos de memórias, buscaremos identificar os desafios que
permeiam as vivências e inserção desses indígenas na urbanidade metropolitana e os meios
de “apropriação e predação do mundo dos brancos”, nos termos de Eduardo Soares Nunes
(2010), para afirmação do pertencimento e identidade étnica.

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Indígenas em contexto urbano usuários de um Centro de Atenção


Psicossocial, experiências e vivências: relato de experiência

Paula Layse Silva


Jaqueline Cordeiro Lopes
Valquíria Farias Bezerra

Introdução: A temática a respeito da saúde indígena ampliou-se no cenário de em meados de


1980, no chamado processo de redemocratização da saúde. Apesar de ter ganhado esse
espaço, foi somente em 2002 que uma política inteiramente voltada para essa população e
suas especificidades, foi criada, a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas
(PNASPI) (PONTES et al, 2015). A PNASPI traz em suas diretrizes que as demandas que não
forem contempladas no grau de resolutividade dos Pólos-Bases, esses sendo os principais
responsáveis pela maioria das demandas, deverão ser referenciadas para a rede de serviço do
SUS, visando garantir a integralidade do atendimento a essa população com toda sua
pluridimensionalidade. (LORENZO, 2011). No contexto da saúde mental, os Centros de
Atenção Psicossocial (CAPS) entram como atores de suma importância para a garantia do
atendimento integral para o indígena em contexto urbano (PEREIRA, 2014). Objetivo: Relatar
a experiência advinda de encontros com indígenas em contexto urbano, usuários de um CAPS.
Metodologia: Relato de experiência advindo das vivências com os indígenas usuários do CAPS
II Culvando Sorriso, do município de Pesqueira - PE. Tais momentos foram experenciados
durante a coleta de dados de uma pesquisa. A partir do diário de campo mediante teor
observacional, instrumento que norteou tal relato de experiência. Resultados e discussões:
Foi possível observar uma confortabilidade por parte dos indígenas assistidos, enquanto
discursavam sobre seu povo e a cultura, mesmo aqueles que não estão mais atuantes dentro
do território. Soave (2017), esclarece esse fato elucidando que mesmo que o “novo ambiente”
urbano entre no contexto do indígena, vários fatores continuam a manter uma identidade
coletiva indígena, sejam autodefinições, consciência ambiental, singularidades culturais,
lembranças afetivas. Todos esses fatores reforçam a necessidade de um olhar especial para
essa população. O conhecimento arraigado no diálogo dos entrevistados, também é um ponto
forte deste relato. Isso porque torna evidente o vínculo desses sujeitos com sua cultura, e o
quão forte é o uso da prática da intermedicalidade, mesmo que não seja auto percebida
(LORENZO, 2014). Conclusão: Os usuários indígenas do CAPS, são altamente ligados a sua
cultura e raiz, o que nos mostra a importância de tais aspectos para sua saúde. É importante
pontuar a necessidade de que toda essa pluridemensionalidade seja respeitada e trabalhada
com esse indivíduo, facilitando assim uma adaptação social e local.

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Pensando, hablando y haciendo territorio indígena en un espacio urbano


transfronterizo de la Amazonia

Angela Patricia López Urrego

La emergencia de la cuestión indígena en el complejo y cambiante contexto urbano en la


región de frontera amazónica entre Brasil, Colombia y Perú ha llevado a la producción de
espacios entre la tradicionalidad etnocultural y la modernidad. Este trabajo se realiza a partir
de la investigación doctoral en curso denominada “Representaciones territoriales indígenas
en un espacio urbano transfronterizo en la Amazonia”, en la que me he propuesto conocer,
entender y representar el proceso de construcción del territorio y la territorialidad
transfronteriza indígena, en torno al establecimiento del Cabildo de los Pueblos Indígenas
Unidos de Leticia – CAPIUL y al espacio emblemático de su maloca en la ciudad de Leticia. Para
ello, se ha hecho una reconstrucción geohistórica de dicho proceso, análisis sobre la manera
en que las representaciones y concepciones territoriales indígenas son reinterpretadas para
traducirse, recrearse, asimilarse e incorporarse en el espacio de su maloca urbana, así como
de las prácticas y estrategias que ha usado CAPIUL en torno a la resignificación y apropiación
de sus espacios culturales-comunitarios y la maloca como territorios indígenas. Se ha
evidenciado que los indígenas tienen una particular visión y acción sobre la forma que
construyen sus territorios y territorialidades en el contexto urbano y en este ejercicio, ha sido
fundamental conocer y reflexionar sobre su propia historia desde la fundación de la ciudad de
Leticia así como del sistema urbano indígena pre-existente y el que se ha construido hasta la
actualidad, un camino en el que han sido sujetos a las condiciones y dinámicas que intentan
regularizar y materializar el proyecto de modernidad del Estado en las ciudades Amazónicas y
de la sociedad no indígena, limitándoles las oportunidades de poder construir sus propios
espacios de acuerdo a sus pensamientos y prácticas como grupos indígenas en la ciudad.
Comprender esta realidad, ha implicado conocer las representaciones, vivencias y
percepciones que en torno al territorio despliegan o ponen en juego, los grupos afiliados al
cabildo; los conflictos, negociaciones y luchas por el reconocimiento territorial de este
espacio, así como el sentido, el significado y las estrategias de apropiación y habitación del
mismo. Es una situación que, por un lado, se suma a la necesidad de establecer políticas o
mecanismos coherentes con la realidad transfronteriza y multiterritorial de los habitantes de
las «urbes de la selva», por otro lado, evidencia la necesidad de entender la problemática de
la ciudad amazónica y la crisis téorica, práctica y regional de su realidad urbana, al estar
encajada en un racionalismo operativo que intenta controlar la lógica y práctica del hábitat
urbano, y adaptarlo a las dinámicas de la globalización.

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Os Huni Kuin na política da cidade

Miranda Zoppi

Os Huni Kuin (humano verdadeiro), conhecidos também por Kaxinawá, são um povo de língua
pano que habita o estado do Acre, no Brasil, e o Peru. Inicialmente, eles entraram na política
através do movimento indígena, nos anos 1970, quando suas lideranças começaram a luta
pela demarcação das terras indígenas. Entretanto, a participação nas eleições municipais
começou apenas nos anos 1990, quando se candidataram a vereadores em pequenos
municípios do Acre. Desde então, lideranças desse povo têm concorrido a outros cargos
eleitorais, como prefeito, vice-prefeito e deputado estatual, além de ocuparem cargos não
eletivos em instituições estatais e municipais, nas funções de assessores estaduais, secretários
municipais, etc. A conquista e ocupação de cada um desses espaços é, para eles, algo
estratégico para a defesa de direitos e aumento de sua autonomia enquanto Huni Kuin, por
isso, a entrada na política é entendida como uma espécie de “missão” a ser cumprida em prol
do povo, necessitando que a liderança esteja “preparada” para exercê-la e consiga cumprir
um “bom trabalho”. Ou seja, ela precisa ser detentora de conhecimentos huni kuin e dos
“brancos” para realizar conquistas importantes nas instituições dos “brancos”, como por
exemplo, a aprovação de leis e de recursos. Contudo, a entrada na política (seja através da
eleição dos candidatos indígenas ou da indicação para cargos comissionados no Estado)
implica em transformações internas ao grupo, mas, principalmente, na vida e trajetória das
lideranças indígenas que ocupam tais cargos e suas respectivas famílias. Isto porque para o
exercício dessas atividades é necessário sair da aldeia para viver na cidade, e a vida citadina
traz consigo além das mudanças também perigos. O objetivo aqui é abordar algumas das
consequências ocasionadas por tais mudanças, partindo de conceitos nativos (como política,
missão, preparado, bom trabalho, etc.) e da concepção do que é ser um Huni Kuin, levando
em consideração que a “missão” envolve a necessidade de retorno para a aldeia em algum
momento.

ST 02 | Actores, figuras y estrategias de mediación en la impartición de justicia


en causas con indígenas (América Latina, fines XVIII – mediados XX)
Núria Sala i Vila (Universitat de Girona, Italia); Mirian Galante (Universidad Autónoma de Madrid,
España).

Existe un consolidado consenso historiográfico acerca de que la construcción de las repúblicas


latinoamericanas se imaginó sobre el paradigma de la homogeneidad y de que la existencia de

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instituciones, jurisdicciones o figuras jurídicas que reconocían el principio de excepcionalidad o de


particularidad jurídica en el siglo XIX eran expresión de la prolongación de un sistema propio del
Antiguo Régimen o de la debilidad, incapacidad o insuficiencia del recién asentado Estado liberal. El
presente simposio propone repensar este tópico, desde la perspectiva de la particularidad indígena.
¿Qué consecuencias tuvo la desaparición del protector de indios o del Tribunal General de indios en
las causas en las que estaban afectados estos sujetos? ¿Se desarrollaron otro tipo de estrategias para
tratar de actuar de manera particular sobre estas causas? ¿Cómo actuaron las comunidades indígenas?
¿A qué tipo de figuras jurídicas, instancias de mediación o de defensa recurrieron para desarrollar sus
causas? ¿Siempre se consideró negativamente la pervivencia de este tipo de excepcionalidades?
¿Cómo se interpretó en el debate público la existencia de una tradición jurídica que reconocía un status
particular al indígena?

Políticas Indigenistas e Direitos Indígenas – ações e disputas políticas entre os


índios aldeados e os demais atores no Rio de Janeiro - de meados do século
XVIII ao XIX

Maria Regina Celestino de Almeida

De meados do século XVIII ao XIX, as políticas indigenistas da Coroa Portuguesa e,


posteriormente, do Império brasileiro pautaram-se nas ideias ilustradas de igualdade,
liberdade, progresso e civilização. Tais ideias comportavam significados diversos para os vários
atores e não impediram a manutenção das diferenças que, conforme as situações, podiam
servir aos interesses das autoridades, dos moradores e dos próprios índios. Para esses últimos,
as propostas de igualdade podiam significar o fim dos direitos coletivos que lhes tinham sido
assegurados pelas leis do Antigo Regime, por sua condição jurídica específica de índios
aldeados e súditos cristãos do Rei. Na luta por esses direitos, muitos recorriam à justiça
pautados pela cultura política do Antigo Regime por eles apropriada e na identidade indígena,
que iriam defender até o século XIX. Apesar de significativas diferenças, processos análogos
podem ser identificados em diferentes regiões da América espanhola, no mesmo período. O
objetivo deste trabalho é refletir sobre os limites e as contradições dessas políticas
indigenistas, considerando que elas se construíam em contextos de disputas e acordos entre
os vários agentes sociais e eram por eles apropriadas e ressignificadas de formas variadas. As
políticas indigenistas serão analisadas de forma articulada às ações políticas dos vários atores,
com foco sobre os índios, para identificar suas estratégias e interesses em situações de
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conflitos específicos. Serão priorizados os conflitos envolvendo os índios aldeados do Rio de


Janeiro, em abordagem comparativa com disputas similares em outras regiões do Brasil e da
América.

A violência contra a mulher indígena: uma revisão da literatura

Brenda Samile Batista Brelaz


Aline Karina Ferreira Pinto
Clenya Ruth Alves Vasconcelos

A violência praticada contra a mulher indígena é um tema complexo e que possui muitos
aspetos que devem ser considerados em relação a realidade dessas mulheres, é necessário
entender a sua cultura, seus costumes e as crenças de seu povo. As práticas discriminatórias
contra as mulheres indígenas dentro de suas próprias aldeias vão muito além da violência
física. Segundo Stavenhagen (2007), essas violências incluem também matrimônios forçados,
doação de filhas para outras famílias, estupros, assassinatos, tortura, ameaças, entre outras
formas de intimidação patriarcalista. Este estudo tem por objetivo realizar um levantamento
na literatura sobre a violência contra a mulher indígena no século XXI; identificar como ela se
manifesta; e verificar se as mulheres indígenas podem ser amparadas pela Lei brasileira n°
11.340 de 2006. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica em que a revisão da literatura fora
realizada em bases de dados eletrônicos como Scientific Eletronic Library online (SCIELO),
Biblioteca Virtual de Saúde (BSV) entre outros. Os textos estudados possuem bases de
pesquisa qualitativas. Como resultados da pesquisa observou-se que a violência contra a
mulher indígena está enraizada por uma sociedade que atribui poderes ao sexo de forma
desigual no qual o homem exerce sua supremacia através da violência física, sexual,
matrimonial, financeira, moral, psicológica ocasionando danos irreversíveis a saúde da
mulher. Um dos instrumentos legais disponíveis a mulher é Lei 11.306, de 2006, que
estabelece normatização legal para a proteção de mulheres vítimas de agressão. No contexto
indígena, muitos autores indicam diversas barreiras para a aplicação da lei entre as mulheres
da comunidade indígena. Ricardo Verdum (2008) aponta que as mulheres indígenas ainda
precisam de informações em relação a Lei Maria da Penha para que se possa usar esse
mecanismo e seus benefícios, uma barreira que a mulher indígena ainda precisa ultrapassar é
que nas aldeias tal lei, a princípio, não corresponde satisfatoriamente a suas demandas.
Kaxuyana e Silva (2007) corrobora com a afirmação de Verdum, observando que informações
distorcidas em relações as leis amedrontam as mulheres, como afirmações de que elas serão
retiradas de suas casas, terras, territórios de convívio e levadas para casas-abrigos caso
denunciem que foram vítimas de violência. Diante de tantos desafios, este trabalho pretende
recolocar esse assunto no centro das discussões haja vista que a mulher indígena sente o
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refluxo de uma sociedade marcada pela desigualdade entre os sexos influenciando seu
processo saúde-doença, ocasionando danos para toda a vida.

Xavantes e Kuikuros na mediação artística do olhar estrangeiro

Silvia Maria do Espírito Santo

Martin Grossmann

A presente comunicação apresenta os processos de pesquisa e mediação artística e


procuramos caracterizar nossa experiência de mediação cultural junto a projeto de Bård
Breivik, artista norueguês convidado para expor na 21a Bienal Internacional de São Paulo, em
1991. A mediação cultural foi direcionada para a construção da sua obra de arte e o mediador,
um agente de uma ação cultural, atuou nas seguintes fases: 1) levantamento de fontes
históricas da Expedição Roncador Xingu e lideranças indígenas, 2) produção de textos e
imagens fotográficas e 3) seleção da informação empírica, obtida através da pesquisa de
campo. A mediação fez o levantamento dos materiais vegetais e animais utilizados pelos
índios Xavantes e Kuikuros, organizou um roteiro de viagem, viabilizou contatos com as
lideranças sociais e administrativas dos parques indígenas no Centro Oeste (Mato Grosso e
Goiás). Os processos mediadores também respaldaram o projeto com uma indicação
bibliográfica, conceitos da antropologia e da história brasileira, procurando qualificar
teoricamente a pesquisa realizada em campo para finalidades educativas atuais no âmbito
universitário.

Intérpretes en la justicia local. Tlaxcala 1820-1835

Mirian Galante

La aplicación de la legislación gaditana referida a la administración de justicia en el México


independiente tuvo especial repercusión en el caso del territorio de Tlaxcala, puesto que la
tradicional competencia entre la capital y las cabeceras adquirió entonces un importante
componente jurisdiccional que acabaría finalmente resolviéndose en favor de dichas
cabeceras. Así, se pasó de la existencia de un único partido judicial al reconocimiento de siete
partidos que, además, se justificaron sobre los partidos definidos para la elección de los
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representantes políticos. En este complejo contexto, la impartición de justicia cotidiana se


continuaba desarrollando principalmente en el ámbito local, bajo la actuación de los alcaldes
de los pueblos. En aquellos procesos en los que estaban implicados indígenas, a menudo, se
hizo imprescindible el recurso a intérpretes que no solo fungieron como meros traductores,
sino también como mediadores culturales. En no pocas ocasiones intervinieron adoptando
otros roles (fiadores, testigos, etc) que pudieron afectar al desarrollo de las causas como a la
aplicación de las penas. A partir de varios estudios de caso, en esta ponencia trataremos de
identificar a estos sujetos (¿quiénes eran? ¿qué requisitos debían cumplir? ¿estaban
investidos de alguna institucionalidad? ¿qué relación tenían con las comunidades indígenas?)
así como el tipo de intervención, no solamente lingüística, que tuvieron en el desarrollo de los
procesos judiciales.

La “condición cultural” de los criminales indígenas: el debate indigenista


sobre el arbitrio judicial y la legislación especial, 1920s-1950s

Laura Giraudo

Desde los años 1920, en varios países latinoamericanos, se desarrolla un debate sobre la
oportunidad o menos de una legislación tutelar o protectora, de leyes especiales y del
reconocimiento de las “costumbres indígenas” en la aplicación de la ley. Se discute sobre las
causas de la criminalidad indígena, sobre la naturaleza del criminal indígena y surgen
propuestas legislativas, sobre todo de reforma de la legislación penal. En el ámbito del
indigenismo interamericano, este debate acerca de la situación jurídica de los criminales
indígenas tiene como elementos característicos la insistencia sobre que la responsabilidad
penal de los indígenas y su culpabilidad debía considerarse limitada o menor, debido a que
sus actos criminales dependían de circunstancias fuera de su control, y que de ello eran
también responsables la sociedad y el estado, por haberlos oprimidos y abandonados. Nos
interesa especialmente el papel del indigenismo en orientar la propia definición del debate, y
el de los actores indigenistas, en posicionarse como expertos “sobre los indígenas”. Nos
proponemos, entonces, analizar tanto el debate como casos concretos que permitan
averiguar cómo fueron aplicadas, interpretadas y reformuladas en los juicios las expresiones,
generalmente vagas y ambiguas, que se referían a las “condiciones culturales” o a las
“circunstancias especiales” de los indígenas, cuando había mención explícita en la legislación,
o como se enfrentaron estos casos cuando no había legislación especial y se apelaba a
circunstancias atenuantes.

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La Juramukua-p’etamukua (la palabra florida para restaurar la convivencia) y


el restablecimiento de la puantsperakua (equilibrio) para sesi irekani en Santa
Fe de Michoacán

Juan Carlos Cortés Máximo

Interesa explicar cómo el antiguo gobernador del pueblo de Santa Fe, se inscribió en la lógica
del orden jurídico novohispano de dar a cada uno lo que le toca. Analizaremos su actuar entre
mediados del siglo XVIII hasta que hacia 1822 desaparece de la documentación judicial
generada. Seguimos su rastro y mutación en la figura del alcalde del ayuntamiento, hasta que
derivó en el “teniente de alcalde”, al reducirse el pueblo de Santa Fe en tenencia del
ayuntamiento de Cocupao. Santa Fe gozó de la protección y de la justicia del Deán y el Cabildo
Catedral de Valladolid de Michoacán, pero perdió dicha distinción en el último cuarto del siglo
XIX. Ante ello, interesa saber los caminos y estrategias para resolver los asuntos relativos al
límite de sus tierras comunales y las problemáticas de convivencia matrimonial. Interesa
también explicar las formas y los mecanismos de resolución de problemas de posesión y
usufructo de tierras, así como de causas matrimoniales, a través de los conceptos nativos
p’urhepecha. Por ejemplo, la Juramukua-p’etamukua, como la acción de pronunciar la palabra
en forma florida a fin de conseguir la puantsperakua (el equilibrio) y la convivencia socio-
comunitaria como el vivir bien (sesi irekani).

Liberdade e propriedade indígena no Brasil imperial: antigos direitos e novos


desafios

Vânia Maria Losada Moreira

Para a historiografia sobre os índios e a política indigenista do Brasil imperial são marcantes
as continuidades coloniais no novo regime político, dentre outras razões porque o Brasil
independente nasceu como “planta exótica” na América, segundo a expressão de Joaquim
Nabuco, instituindo o regime monárquico constitucional e mantendo a dinastia Bragança no
poder. Apesar disso a palavra “liberalismo” circulava entre a elite política do período e servia
para indicar uma nova ordem social e política em oposição ao Antigo Regime. Além disso, o
ideário liberal influenciou a reflexão intelectual e política acerca do lugar dos índios na nova
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nação a ser construída. O objetivo da comunicação é fazer um breve balanço sobre os direitos
indígenas no processo de independência, especialmente em relação aos direitos de liberdade
e propriedade, destacando continuidades e rupturas em relação ao Antigo Regime e algumas
estratégias indígenas na defesa de seus direitos de liberdade.

"El asesor jurídico" Un periódico de abogados y la mediación en conflictos


agrarios, 1907-1909

Claudia Daniela Marino Pantusa

El propósito de esta ponencia es determinar si la cultura escrita estaba ganando espacios


dentro de la tradicional mediación personal realizada por actores pueblerinos en la resolución
de conflictos. Para ello, analizaremos una publicación (El Asesor Jurídico. Revista popular de
jurisprudencia y legislación. Publicación dedicada especialmente a dar a conocer los
FORMULARIOS útiles para toda clase de gestiones jurídicas, administrativas, mercantiles y
fiscales) creada por abogados interesados en divulgar los conocimientos jurídicos y
administrativos a actores de pequeñas ciudades y localidades, así como apoyar a los pueblos
en el manejo de procedimientos y formularios para lograr el éxito en sus gestiones agrarias.
Para explorar este argumento, estudiaremos a los responsables, el carácter, formato, lenguaje
y destinatarios de la misma, así como su interlocución con los lectores para determinar el
alcance de su propuesta. No descartamos la posibilidad de que este tipo de prensa fuera
utilizada por los mediadores legos pueblerinos, más que por los mismos campesinos.
Asimismo, la investigación nos da pistas sobre otros dos temas de interés, ambos aducidos
como factores explicativos del derrocamiento del régimen de Porfirio Díaz: 1. La compleja y
contenciosa situación agraria en los años inmediatamente anteriores a la Revolución, tema
sobre el que la revista se explaya y 2. La situación de los numerosos abogados titulados que
no encuentran acomodo laboral en la administración ni los despachos, algunos de los cuales
se volcarán al periodismo y/o a promocionar los ubicuos litigios agrarios del momento, caso
ejemplificado por el propio director de nuestra revista.

La deconstrucción de las intermediaciones étnicas durante el liberalismo


hispano en el Perú (1810-14 y 1820-24)

Núria Sala i Vila


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El liberalismo hispano dio lugar en el virreinato del Perú a un proceso de deconstrucción de


las intermediaciones e instituciones étnicas. Los ayuntamientos constitucionales y la abolición
de los señoríos abrieron el camino hacia la abolición del cacicazgo y del cabildo indígena; entre
tanto la introducción del principio de ciudadanía e igualdad jurídica comporto el fin del
Protector de Naturales y la introducción del acto de conciliación previo a interponer cualquier
causa judicial y dirimido por los alcaldes constitucionales. Al mismo tiempo, en parte por las
acuciantes necesidades bélicas, se siguió recaudando el tributo, lo que devino en arma de
doble filo, por un lado contravenía el principio de igualdad y por otro reforzaba la presencia
de autoridades con competencias sólo sobre la población india. Por último la creación de las
milicias nacionales, comportó la liquidación de las de adscripción étnica lo que elimino la
capacidad de levas indias que había fortalecido, en parte, el papel de ciertos caciques en el
contexto de la insurgencia juntista y proindependentista en todo el sur del Perú y Charcas
desde la Junta Tuitiva de La Paz (1809), las campañas rioplateñas, la rebelión del Cusco y
altiplano aymara (1814- 16) y las guerras por la independencia (1821-24). El análisis se centra
tanto en los mecanismos y dinámicas de su aplicación, como en las respuestas indígenas
dentro de un contexto en el que guerra de independencia y revolución liberal se
retroalimentaron.

ST 03 | Andanzas territoriales indígenas en América Latina: trayectorias y


recomposiciones contemporáneas
Bastien Sepulveda (Université de Lille, Francia); Emerson Guerra (Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro – UFRRJ, Brasil); Roberta Arruzzo (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFFRJ, Brasil).

Este simposio propone contribuir, desde una perspectiva comparativa, a una mejor comprensión de
las realidades territoriales indígenas en América Latina. Mientras nuevos focos de conflicto se siguen
abriendo frente al incesante despliegue de las economías neoliberales, resulta de suma urgencia
repensar las realidades territoriales indígenas y entender mejor tanto las apuestas planteadas por el
reconocimiento del derecho indígena al territorio, como las recomposiciones territoriales
contemporáneas y las dinámicas que las sustentan. Desde las comunidades históricamente situadas
en espacios rurales hasta los centros urbanos donde reside una población indígena cada vez más

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numerosa, se buscará recorrer los múltiples lugares que articulan, configuran y dan sentido a estas
territorialidades. Así también, se explorarán los espacios materiales y/o simbólicos de conflicto,
dominación, resistencia y creatividad en juego a través de los actuales procesos de reconstrucción
territorial indígena. A través de trabajos procedentes de distintas regiones, variadas situaciones
territoriales y formulados desde diversos campos temáticos y teóricos, tanto de la geografía como de
disciplinas afines, se espera procurar un acercamiento y un diálogo fecundos en pos de un análisis
comparado al servicio de un mejor entendimiento de las geografías indígenas en América Latina.

Emergências indígenas e autonomias territoriais na Pan-Amazônia: um


panorama etnoterritorial

Fábio Márcio Alkmin

Identifica-se, desde o final da década de 1980, uma emergência étnica em grande parte dos países
latino-americanos. Tal fenômeno – cultural, econômico e sobretudo político – favoreceu o
(re)surgimento de diversas identidades indígenas que estavam até então subjugadas pela hegemonia
da identidade nacional, diga-se de passagem, forjada a duras penas pelos Estados nacionais ao longo
do século XIX e boa parte do XX. Se nas décadas anteriores a essa emergência os atores indígenas
amparavam suas demandas políticas na lógica da tutela e do indigenismo estatal, hoje seus discursos
reivindicatórios questionam a lógica da representatividade e disputam espaços nos mais variados
campos de poder. Entre as demandas dessas coletividades encontram-se termos como a
autodeterminação, o pluralismo jurídico e a autogestão territorial, processos que tendem a convergir
para a autonomia territorial como estratégia política de territorialização. Nesse sentido, percebe-se
que o debate autonomista vem paulatinamente se ampliando entre os movimentos indígenas latino-
americanos, não só no plano teórico, mas também como forma concreta de organização
socioterritorial. Em face ao avanço contínuo das frentes de expansão, dos projetos de infraestrutura e
exploração de recursos naturais, somado ao fracasso dos paradigmas indigenistas estatais no atual
contexto neoliberal, organizações indígenas na Pan-Amazônia começam também a se articular e
adotar a autonomia como estratégia política para a defesa de seus territórios e identidades. O trabalho
apresentado refere-se a um projeto de doutorado em fase inicial de pesquisa, onde buscamos
compreender o fenômeno contemporâneo das autonomias pan-amazônicas pela ótica da Geografia.
Nossa principal hipótese é de que tal fenômeno indica um remodelamento das relações espaciais de
poder entre os Estados-nação e as sociedades indígenas, relações até então pautadas pelo paradigma
do indigenismo estatal como mecanismo político mediador de conflitos. O projeto busca, assim,
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colaborar ao esforço teórico de outros campos do conhecimento atualmente implicados nessa


questão, como a Antropologia, a História e a Ciência Política.

Direitos territoriais indígenas na bacia do vale do Juruá/AC, Brasil: o caso dos


Kuntanawa
Tarik Argentim

Málika Simis Pilnik

O território tradicional Kuntanawa está localizado no município de Marechal Thaumaturgo,


no interior do estado do Acre, na Amazônia ocidental brasileira. O acesso ao referido território
– inserido em contexto de fronteira internacional com a República do Peru – ocorre
exclusivamente por via fluvial, através do rio Tejo, afluente da margem direita do alto rio
Juruá. A memória do histórico de ocupação remonta, em primeiro lugar, à expropriação no
período dos ciclos da borracha; e, posteriormente, à luta pela criação da Reserva Extrativista
do Alto Juruá – a primeira unidade de conservação de uso sustentável do mundo. O objetivo
deste trabalho foi compreender a reconfiguração territorial do povo indígena Kuntanawa.
Para tanto, valeu-se da observação participante e de entrevistas semiestruturadas. Nota-se
que, atualmente, devido às mudanças nos padrões de utilização dos recursos naturais dos
bens comunais – promovidas pelos próprios extrativistas, moradores não-indígenas da Resex
Alto Juruá – os Kuntanawa batalham pela demarcação da sua terra indígena, sobreposta à
unidade de conservação supracitada. Para tanto, reforçam espaços materiais e simbólicos de
resistência. Em especial, mediante processo de subjetivação do grupo pelo uso ritualístico da
medicina tradicional ayahuasca, estabelecem relação diferenciada com os outros seres
animais, vegetais e minerais. Nesse sentido, a ética o pensamento coletivo vai de encontro a
um refinado entendimento de segurança/soberania alimentar e autonomia territorial. O
discurso predominante é de respeito e conservação da biodiversidade e dos recursos naturais,
a fim de garantir o bem viver e a sustentabilidade das futuras gerações. Tendo em vista a
morosidade no procedimento administrativo de reconhecimento do direito às terras de
ocupação tradicional, o povo Kuntanawa se posiciona no sentido de proceder à
autodemarcação. Dessa forma, apontam que os direitos indígenas são inegociáveis.

O setor sucroenergético e os Guarani e Kaiowá no Brasil: um levantamento de


conflitos e relações territoriais

Roberta Carvalho Arruzzo

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As atividades ligadas ao agronegócio no Brasil cresceram fortemente nas últimas décadas. O


crescimento recente do setor sucroenergético, relacionado a tentativas de diversificação da
matriz energética brasileira, impulsionaram a produção de cana-de- açúcar em diversos
lugares incluído o estado de Mato Grosso do Sul. Neste estado brasileiro encontra-se, além de
um ambiente produtivo ligado ao agronegócio já bastante competitivo, um forte e histórico
quadro de conflito territorial envolvendo fazendeiros e os grupos étnicos Guarani e Kaiowá.
Entendemos que o avanço da cana- de-açúcar no estado se configura como um complicador
a mais numa situação territorial já bastante complexa. Propomos, assim, compreender as
relações territoriais entre o avanço da produção de cana-de-açúcar e do setor sucroenergético
no Mato Grosso do Sul e a grave situação territorial dos Guarani e Kaiowá, realizando um
levantamento sistemático das situações de conflitos envolvendo o grupo étnico e as usinas de
açúcas e alcool no estado. O espaço, tornado território pelas relações de poder que se
estabelecem (RAFFESTIN 1993, SACK, 1986), é o locus da simultaneidade e da diversidade de
sujeitos, agentes e ações presentes (SANTOS, 1996), e não deve ser ofuscado por um olhar
que seleciona o economicamente relevante, o produtivo, o macro (SOUSA SANTOS, 2002) e
ignora os efeitos de atividades econômicamente relevantes no cotidiano e futuro de povos
inteiros.

Caminhológicas: história das andanças indígenas pela Amazônia

Daniel Belik

Desde antes da colonização da América os grupos indígenas nunca estiveram isolados mas se
comunicavam e intercambiavam por caminhos que cortavam o continente e conectavam
povos que trocavam entre si (Levi-Strauss, 1952). Tais relações podem ser expressas por
visitas, furtos, raptos, combates, consultas a xamãs e até por casamentos intertribais. Hoje em
dia constituem umas poucas exceções os grupos indígenas sul-americanos que não
mantenham relações com segmentos das sociedades nacionais (Melatti, 1979: 24). Os relatos
históricos de viagem na Amazônia abundam em informações acerca dos lugares por onde se
passou, das dificuldades no trajeto e dos povos indígenas que tiveram contato. Nesses
caminhos, as expedições eram auxiliadas pelos próprios indígenas que serviam como práticos
que pilotavam as canoas, buscavam os valorosos produtos da terra, serviam como línguas e
intérpretes dos diversos grupos indígenas e até ajudavam no reconhecimento das expedições
demarcadoras de limites (Roller, 2012:110). De acordo com a sazonalidade amazônica, a
época seca é o período de maior fartura e movimento e quando se dão as festas nas
comunidades e visitas entre os familiares (Harris, 1998: 72). É nessa mesma época que os
acidentes naturais dos rios tais como pongos, cachoeiras, istmos e pedrais tinham de ser
varados por terra acionando uma rede de caminhos internos que os indígenas já possuíam
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para se comunicar nesses entroncamentos. Formavam-se conjuntos ou unidades temporárias


que se definiam pelo morar ou caminhar junto (Matos, 2017: 46). Essa ‘gente andante’ fugia
da colonização por esses caminhos, ao mesmo tempo que viajava neles para ir ao encontro de
outras famílias, mudava de maloca, visitava as roças ou mesmo se internava na floresta por
trilhas de caça e coleta de frutos silvestres. Essa apresentação, portanto, tem por foco mostrar
como a mobilidade indígena por esses caminhos guiou a colonização para além das margens
dos grandes rios e, em contrapartida, se valeu das redes de relação que já existiam entre esses
grupos étnicos (Gallois, 2005). Serão oferecidos exemplos históricos das andanças indígenas
tanto entre Andes e Terras Baixas e nas Guianas, como principalmente pela Amazônia: para o
alto Xingu, alto Tapajós, alto rio Negro, alto Solimões, Purus, Rondônia e para a fronteira entre
o Acre e o Peru.

Resistencia en Wallmapu: el turismo mapuche como agenciamiento político-


territorial

Eugenia Alicia Huisca Cheuquefilo

El asentamiento del modelo extractivista en Chile ha profundizado las prácticas neo-


colonialistas, sobreexplotando los recursos naturales que luego son dirigidas a las potencias
industrializadas que terminan dominando a las naciones proveedoras. Esta situación ha
fragmentado en distintos focos las luchas socio-ambientales a nivel nacional, que en
Wallmapu (territorio ancestral mapuche) se han perpetuado con las relaciones de violencia
en la disputa por el territorio histórico mapuche por parte del Estado y las empresas privadas.
En este sentido, la idea del “libre ejercicio de autodeterminación” de los pueblos indígenas,
en sus dimensiones política, sociales, económicas y territoriales, es una idea que desestabiliza
las relaciones de poder ejercida por los intereses hegemónicos que persiguen el control de los
recursos naturales. En este escenario, las capacidades de agenciamiento político de las
comunidades son reducidas a mínimos espacios de consulta, no vinculantes, o como agentes
pasivos de las acciones estatales sobre el territorio. Por su parte, la resistencia de las
comunidades mapuche ha tomado múltiples vías de agenciamiento político, como la
oposición a la instalación de proyectos ajenos a sus formas de vida, prácticas socio-culturales
y espirituales, y que contravienen negativamente, por sobre todo su estar en el territorio. Es
aquí donde los proyectos de turismo, desde el punto de vista mapuche, cobran especial
relevancia, ya que se plantea como una forma de gestión territorial de las comunidades, así
como una actividad que propicia formas de autonomía económica y que releva/revela formas
ontológicas desde el mapun kimün (conocimiento mapuche) en un proceso de reapropiación
patrimonial e identitaria para las luchas de resistencia político- territorial. Si bien el turismo

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mapuche actualmente, tiene una fuerte dependencia con las políticas públicas que persiguen
objetivos oficiales, dentro de esta compleja relación existen espacio de libertad que permite
utilizar la clave del turismo de forma estratégica para los procesos de resistencia político-
territorial, levantadas en un contexto de desigualdad donde la tierra y el territorio forma parte
del discurso central en la búsqueda de derechos culturales y políticos de los pueblos indígenas.

A saída do Brasil do Pacto Internacional de Migração face à migração forçada


de povos indígenas das regiões fronteiriças da América Latina

Matheus Athírson Rocha Correia

Sarah Dayanna Lacerda Martins Lima

A presente comunicação busca abordar o tema da migração, contribuindo para a


compreensão das recentes mudanças no cenário migratório mundial, com enfoque principal
na questão indígena, referente à saída ou deslocamento forçado de suas terras e dos fatores
que levam a esse fenômeno. Em virtude da crescente onda de violência, guerras e conflitos
oriundos da instabilidade sociopolítica em seus países de origem, os direitos humanos dos
povos indígenas ficam em segundo plano. O estudo procura analisar, também, o costume
nômade de determinados povos indígenas de países fronteiriços do Brasil baseado no
levantamento bibliográfico e documental, por meio de livros, artigos científicos, tratados
internacionais e sítios oficiais, como da ONU. A desistência do Brasil do Pacto Internacional de
Migração mancha a mundialmente reconhecida reputação brasileira de acolhimento
humanitário. Sem essa reciprocidade internacional, a tarefa de integrar e manter os direitos
dos migrantes torna-se uma incógnita e afasta ainda mais a possibilidade de concretização dos
direitos humanos indígenas.

A territorialidade dos Ka’apor da terra indígena Alto Turiaçu na Amazônia


Oriental: resistência indígena frente à exploração ilegal de madeira

Evilania Bento da Cunha

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O presente trabalho é resultado das pesquisas do programa de mestrado intitulado


Linguagens e Saberes na Amazônia desenvolvido na Universidade Federal do Pará. Contudo,
faremos um recorte sobre a temática da territorialidade Ka’apor, ou seja, o modo de vida e a
identidade que este povo estabelece no seu território. Os ka’apor vivem numa área de
aproximadamente 530.000 hectares, na Terra Indígena Alto Turiaçu, no estado do Maranhão,
na Amazônia Oriental. Ao abordar sobre as territorialidades indígenas no Brasil, veremos que
na segunda metade do século XX surgiram vários movimentos de afirmação e confirmação
étnica com políticas públicas específicas voltadas para essa população (Baniwa, 2012), como
a demarcação das Terras Indígenas. Os Ka’apor tiveram a demarcação de sua Terra no início
da década de 80 do século XX. Segundo Andrade (2009) em 1989, após a homologação da
Terra Indígena Alto Turiaçu, teve início uma nova fase de invasões às terras Ka’apor. Posseiros,
madeireiros e fazendeiros começam a desenvolver um longo processo de invasão e
desmatamento na área. Cerca de um terço das terras Ka'apor, principalmente ao longo de seu
limite oeste entre a área do igarapé do Milho e do igarapé Jararaca, vinham sendo desmatadas
e ocupadas por posseiros insuflados por grileiros, fazendeiros, madeireiros e políticos locais.
Naquele momento com apoio da FUNAI e de pesquisadores Como William Ballé ocorreu um
enfrentamento aos invasores com a criação de novas aldeias como Xié Pihun Renda, Parakuy
renda, e posteriormente, Turizinho na intenção de evitar a entrada de madeireiros naquela
região. Entretanto, os madeireiros buscaram outras áreas da T.I. Alto Turiaçu para exploração
ilegal de madeira, e mais uma vez a resistência indígena luta contra o desmatamento. A partir
de 2013 os Ka’apor se reorganizam para enfrentar os invasores, e dessa vez, sem apoio dos
órgãos estatais. A luta dos Ka’apor em defesa do território desagrada madeireiros há algum
tempo. Vários casos de violência já ocorreram, inclusive, o assassinato de Euzebio Ka’apor em
abril de 2015. Na ocasião, os indígenas reivindicam a proteção do território. Porém, como
exercer uma territorialidade, no caso Ka’apor, que se autodenominam como “moradores da
floresta” e tem a sua Terra invadida e desmatada? Esse colóquio busca apresentar a
territorialidade Ka’apor num cenário de exploração dos recursos naturais em vista dos meios
de produção que alimenta o grande Capital em detrimento da cultura autóctone Amazônida.

Espaço subjetivado e conflito territorial: o lugar da reza nas retomadas


Guarani e Kaiowa

Lívia Domiciano Cunha

Esta comunicação é parte do início de um trabalho de doutorado na Geografia. Aqui serão


traçados alguns rascunhos, ideias e hipóteses ainda em fase inicial de pesquisa, mas fruto da
vivência com os Guarani e Kaiowa em pesquisas anteriores. Inicia-se na década de 80 um

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processo que pode-se afirmar um momento de ruptura histórica para GK, isto é, quando estes
saem das Reservas e passam a reivindicar suas terras outrora despojadas pelo Estado na figura
do SPI. O presente trabalho busca compreender o que é o espaço subjetivado dos povos GK
movido através de rezadores no conflito territorial. Para isso, toma a reza nos processos de
retomada como um meio de apreender o que é esta espacialidade. A escolha dos sujeitos de
pesquisa trouxe à tona a necessidade de um método que melhor responda à questão. Diante
disto, os primeiros passos dessa pesquisa encaminham um debate de método dentro de seu
próprio campo de estudo, tendo nas rezas dos GK um caminho possível de apreensão da
geograficidade destes povos. As rezas desvelam um instrumental fundamental nos processos
de luta por seus territórios tradicionais. Junto a isso, é preciso antes considerar a situação
histórica a qual estão submetidos. Neste sentido, as retomadas são aqui consideradas um
dispositivo central para compreender a situação histórica atual na qual estes povos se
encontram, tal como o lugar que rezadores passam ocupar na luta por suas terras, mais que
isso, por seus tekoha. É neste conflito que outros seres são acionados através do m’baraka
batido e entoado no canto por rezadores. O estudo sobre povos indígenas na geografia se
revela incipiente em sua tradição enquanto objeto/sujeito de estudo, pensá-los na ciência
geográfica demanda também se abrir ao diálogo com outras disciplinas. É partindo deste
princípio que a antropologia (BARTH, 1989; PACHECO, 1998; THOMAZ DE ALMEIDA, 1991) tem
se apresentado uma base de apoio, tal como uma epistemologia decolonial trabalhada tanto
na sociologia (QUIJANO, 2005) como na própria geografia (PORTO GONÇALVES, 2003).
Enquanto hipótese, sob este espaço subjetivado dos GK comporta 2 (duas) dimensões
espaciais, uma em que cabe a materialidade espacial e seus atores e outra que transcende
esta materialidade mas que também move e é movida de modo intencional nos processos que
se dão na primeira dimensão. Estes atores acionados em uma dimensão espacial que
transcende a dimensão material seriam as divindades que para estes povos garantem a alegria
e a resistência nas retomadas. É necessário ainda considerar o atual crescimento das Igrejas
Neopentecostais no interior das Reservas Indígenas e de que modo isto se relaciona com
crenças relativas aos saberes mais tradicionais entre os GK.

Los sionas del Ecuador y la relación con su saiye bai airo (territorio): una
exploración sobre sus ensamblajes múltiples

María Fernanda Solórzano Granada

A partir del trabajo de campo realizado durante un año en las comunidades indígenas sionas,
ubicadas en la provincia de Sucumbíos de la Amazonía ecuatoriana; el presente escrito
evidencia las (re) significaciones sobre su territorio. Desde las historias de vida y prácticas

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actuales de los actores sionas, analizo el proceso colonizador en la región norte amazónica.
Estudio la presencia del Instituto Lingüístico de Verano (ILV) en los años cincuenta, las Leyes
de Colonización que propiciaron la apertura de industrias extractivas desde los años setenta,
la creación de sus comunidades actuales, y la actual negociación con la petrolera china Andes
Petroleum para la concesión de parte de su territorio. Recupero la categoría de ensamblajes
múltiples (Gerard Verschoor y Camilo Torres, 2016) como la diversidad de prácticas y
realidades donde los actores deben enfrentar dilemas de uso de recursos comunes, o su
integración al acceso de dinero y la resignificación de la cosmovisión local. Estas realidades se
entrelazan y chocan, se yuxtaponen e incorporan de manera explícita o no. Uno de los
ensamblajes analizados es entre airo (selva) y comunidad. En el airo se reproducen las
prácticas de caza, pesca y ceremonias, donde se exteriorizan los vínculos entre los humanos y
no humanos a través de la comunicación con los bai (espíritus), potenciados por
agenciamientos de sus plantas sagradas (yagé/ayahuasca). Mientras que la comunidad, es el
espacio para la materialización de sus necesidades como la siembra de productos alimenticios,
educación y servicios básicos. Los sionas viven su airo (selva) desde vínculos con los no
humanos, mientras habitan su comunidad desde las interrelaciones con colonos, funcionarios
públicos, empleados petroleros. Tanto la comunidad como el airo (selva), representan su siaye
bai airo (territorio ancestral en el idioma baicoca), el cual implica la materialidad, la memoria,
y los sentidos de reconocimiento de un espacio vivo donde convergen varios actores. En un
territorio constreñido por la expansión de industrias extractivas, me pregunto sobre la toma
de decisiones comunales y familiares, puesto que estas resoluciones forman sus mundos de
vida, e involucran la interiorización y, con frecuencia, reformulación de sus racionalidades en
relación con presiones externas.

Produção geográfica sobre povos indígenas no Brasil

Emerson Guerra

Esta pesquisa aborda a produção de trabalhos sobre povos indígenas no Brasil, desde a
geografia, a partir de uma situação de contato permanente destes com a sociedade nacional
em uma complexa trama sócio-espacial expressa em diversas territorialidades. A metodologia
consistiu no levantamento nos anais do Encontro Nacional de Geógrafos em um período de
uma década desse evento. Realizamos uma coleta de dados e leitura dos títulos disponíveis
dos artigos enviados aos congressos com pesquisas voltadas para o estudo de povos e
territórios indígenas, ou inseridas nesse contexto. Uma ficha para inserção de informações
gerais e conceituais dos artigos foi criada para sistematizar o trabalho. Após a leitura e

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fichamento dos títulos identificados e selecionados, organizamos os dados quantitativos para


gerar gráficos e fizemos uma análise qualitativa desse material. Concluímos que a literatura
produzida sobre povos indígenas no campo disciplinar da geografia tem aumentado nos
últimos anos. Encontramos um grande número de títulos que abordam as questões agrárias,
pois a maior parte dos conflitos territoriais relacionados aos povos indígenas se encontra no
campo. Ressaltamos ainda a produção de trabalhos com temas ligados à cartografia, educação
indígena, etnoturismo e segurança e soberania alimentar. Todavia constatamos que o número
de trabalhos dedicados à temática indígena em contexto urbano é pouco expressivo,
considerando que 1/3 da dessa população vive, atualmente, nas cidades.

A geografia da questão indígena no Rio Grande do Sul: os processos de


retomada e a territorialidade Mbyá-Guarani

Andrei Ferreira da Luz e Dilermando Cattaneo da Silveira

Este trabalho faz parte do projeto de pesquisa intitulado 'A Geografia da questão indígena no
RS: da gestão territorial a uma geopolítica das epistemes, desenvolvido junto ao Campus
Litoral Norte da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e em conjunto com
pesquisadores/as dessa e de outras universidades do país. Para apresentar as considerações
sobre os processos de retomada vinculados à territorialidade mbyá- guarani, com o objetivo
de se (re)discutir o conceito de território/territorialidade e de conflitos de concepções/visões
de mundo (epistemes), fizemos num primeiro momento um levantamento dos processos de
retomada guarani no estado do Rio Grande do Sul. A partir desse levantamento, realizamos
um estudo voltado a dois casos mais específicos, que têm gerado intenso debate e
desdobramentos, inclusive conflituosos: a Retomada Mbyá-Guarani de Maquiné, que dá
origem a Tekoá Kaá-guy Porã; e a Retomada da Ponta do Arado, mais recente e ainda em
processo de consolidação. Baseados em pesquisa documental, em trabalhos de campo e em
alguns relatos de experiências, buscamos mostrar como se deram os processos de retomada
e está acontecendo a resistência nessas duas áreas. A Retomada Mbyá-Guarani de Maquiné
teve início em janeiro de 2017, em uma área pertencente à FEPAGRO (Fundação Estadual de
Pesquisa Agropecuária, órgão público que estava sendo extinto pelo governo do estado) no
município de Maquiné, região do Litoral Norte do Rio Grande do Sul. Apesar de conturbado
no começo, o processo de retomada se consolidou e obteve importantes conquistas, como a
anulação do pedido de reintegração de posse por parte do governo estadual, a partir de
acordos de uso e ocupação da área, e a construção de uma escola autônoma (Escola Tekó
Jeapó) feita a partir de técnicas de bioconstrução envolvendo apoiadores em mutirões

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Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

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coletivos. A Retomada da Ponta do Arado, na antiga Fazenda do Arado Velho, em área que
margeia o Lago Guaíba no Bairro Belém Novo, zona sul de Porto Alegre, teve início em junho
de 2018 e apresenta situação de intenso conflito, uma vez que a área é reivindicada por uma
incorporadora imobiliária que pretende construir um condomínio de alto padrão no local. A
obra já teve um revés no seu processo de licenciamento, pois trata-se de área de preservação
permanente. No entanto, após a ocupação de parte do terreno pelos mbyá- guarani, os
seguranças da empresa têm promovido uma série de restrições, constrangimentos e ameaças
(inclusive de morte) aos indígenas e seus apoiadores. Como a área de mata (essencial para o
modo de vida guarani) faz parte da propriedade privada, cercas e sensores foram colocados
para impedir a passagem de membros da comunidade indígena, restringindo sua permanência
e circulação a uma ínfima porção de terras nas margens do lago. Cabe ressaltar que toda a
região da Ponta do Arado é reconhecida como um importante sítio arqueológico, com marcas
de ocupação guarani do período pré-colonial. Por fim, buscamos colocar a necessidade da
abordagem territorial desde um ponto de vista epistêmico e político, já que o território tem
uma importância central para a cosmologia guarani, e o exercício de seu modo de vida de
forma autônoma pressupõe territorialidades próprias. As retomadas sintetizam a noção de
que não se busca a propriedade, já que para os guarani a terra não pode ter um dono, mas
sim a luta por espaços de sobrevivência e de 'r-existência', conformando o grande território
guarani Yvirupá.

O contato descrito por Laklãnõ/Xokleng e os descendentes de Kaingang do


vale do rio Tibagi – PR, na Terra Indígena Laklãnõ, e as trocas de costumes e
saberes na vida Laklãnõ/Xokleng

Osiel Kuita Pate

Sou Osiel Kuita Pate da etnia Laklãnõ/Xokleng e da Terra Indígena Laklãnõ e este trabalho de
pesquisa traz a história da pacificação do meu povo Laklãnõ/Xokleng, que ocorreu entre o rio
Itajaí do Norte ou Hercílio e Ribeirão Plate, no Vale do Itajaí entre os municípios de José
Boiteux, Vitor Meireles, Itaiópolis e Doutor Pedrinho. Este encontro de pacificação ocorreu no
dia 22 de setembro de 1914 pelo sertanista Eduardo de Lima e Silva Hoerhan e um grupo de
família Kaingang trazido por ele do Vale do Tibagi, PR. Hoje, a maioria das famílias está
localizada na Terra Indígena Apucaraninha e outras na Terra Indígena São Jerônimo da Serra
e Barão de Antonina. Esta pesquisa já foi publicada por diversos pesquisadores que realizaram
pesquisas sobre este tema na Terra Indígena Laklãnõ, mas ainda não foi relatado o contato do
ponto vista dos descendentes de Kaingang do Vale do Tibagi – PR. Ao chegarem na Terra
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Indígena Laklãnõ, os Kaingang realizaram trocas de costumes e saberes com o povo


Laklãnõ/Xokleng. Trarei levantamento da genealogia de pessoas que descendem de kaingang,
do grupo que veio para ajudar no trabalho de contato. Apesar do tema proposto por mim,
também irei abordar, em meio ao trabalho, duas pessoas da etnia Guarani que também
fizeram parte do contato Laklãnõ/Xokleng. Um dos guarani era casado com uma mulher
kaingang que participou do contato. A genealogia está sendo feita desde as primeiras pessoas
que chegaram na TI Laklãnõ até os dias atuais. Entrarão em foco os territórios tradicionais da
etnia Kaingang participante do contato e os territórios Xokleng antes do contato, para fazer a
ligação entre os parentescos existentes na TI Laklãnõ e na TI existente no Vale do Tibagi, além
de trazer alguns pontos de como ocorreu o contato Laklãnõ/Xokleng, de acordo com as
culturas tradicionais de cada um.

O movimento indígena contemporâneo

Gilberto Vieira dos Santos

Esta comunicação, que nasce de nossa pesquisa de mestrado, busca destacar o histórico das
lutas engendradas pelos povos indígenas no Brasil e os contextos que levaram a constituição
de lutas conjuntas que engendram o Movimento Indígena. Compreendida por alguns autores
como parte de movimentos socioterritoriais, este Movimento possui uma
multidimensionalidade, assim como suas lutas, com características que os diferenciam de
outros movimentos e de outras lutas por terra ou território. A própria compreensão de
território destes povos está distante da compreensão comum de outros movimentos em luta
no campo brasileiro. As pesquisas da ciência geográfica, que já há alguns anos se debruça
sobre a realidade agrária no Brasil, ainda tem pela frente o desafio de aprofundar a reflexão
sobre os conflitos neste contexto e o papel desempenhado pelos povos indígenas. Buscamos
com este artigo, sinalizar para alguns rumos possíveis.

Territórios e resistências: os Guarani e Kaiowá e as ressignificações da terra

Liziane Neves dos Santos

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Os Guarani são um grupo étnico que atualmente se encontra vivendo em partes dos países
Paraguai, Brasil, Bolívia e Argentina. Os Guarani se subdividem em 3 subgrupos: Mbya, Kaiowá
e Ñandeva (que também podem ser chamados de Ava Guarani) e que se diferenciam através
de algumas práticas culturais e linguísticas. Parte de sua população está presente no Brasil,
distribuídos entre as regiões sudeste, sul, norte e centro-oeste. A maior população de Guarani
no Brasil se concentra no estado de Mato Grosso do Sul, sendo pertencentes aos subgrupos
Kaiowá e Ñandeva, que é a população que enfocamos e que adotamos como denominação
Guarani e Kaiowá. No estado do Mato Grosso do Sul, os Guarani e Kaiowá enfrentam um
intenso conflito territorial com diversos grupos sociais, em especial os produtores rurais. Este
conflito, como veremos, está relacionado sobretudo ao grande esforço político e territorial
deste povo para tentar reconquistar seus territórios tradicionais. Os territórios tradicionais
dos Guarani e Kaiowa se concentram na região sul do estado. O que aqui estamos chamamos
de territórios tradicionais são as áreas que os Guarani e Kaiowá tradicionalmente ocupavam
e que sofreram uma sequência de ações que contribuíram para sua sistemática expropriação
desde fins do século XIX e ao longo de todo o século XX. De acordo com Barbosa e Mura (2011)
o processo de expropriação foi resultado de três situações, sendo elas: a Guerra da Tríplice
Aliança, conhecida como Guerra do Paraguai (1864- 1870) com a criação de aldeamentos;
posteriormente a instalação da Companhia Mate Laranjeiras (1822-1944) houve a remoção
das famílias para a extração dos ervais nativos; E, por fim, a criação das reservas indígenas e a
instalação de colonos agrícolas, tendo como consequência o confinamento dos indígenas para
a concessão de terras. A dinâmica de ocupação territorial dos guarani foi modificada após as
ações sistemáticas de remoção, fazendo com que os sentidos dados a terra fossem
ressignificados. Pois além da percepção cultural, da terra como participante da construção do
ser enquanto Guarani e Kaiowá, a terra passou a ser capitalizada agregada não apenas o valor
simbólico, mas também o monetário, principalmente com a expansão da agricultura no início
dos anos 2000. Após esses processos as comunidades Guarani e Kaiowá se reorganizaram
espacialmente, ocupando atualmente áreas urbanas e rurais em quase todos os municípios
do sul do estado (CHAMORRO, 2015). Porém, parte dessa reorganização foi um movimento
forçado do processo de expropriação, como a Reserva Indígena de Dourados, por exemplo,
que se encontra em contexto urbano devido ao avanço da cidade em direção a reserva. A
presença desses indígenas na reserva é devido a uma tentativa de confinamento para
concessão de terras. As remoções desses indígenas não foram de modo algum aceitas sem
ações de resistência, tendo processos de demarcação de terras em andamento, a construção
de uma rede de apoiadores (através de ONGs, universidades e outros) e movimentos de
ocupação de suas terras tradicionais para acelerar o processo de demarcação. A reivindicação
para as demarcações de terra atualmente corresponde somente aos tekoha, área ao qual a
família extensa ocupa, não considerando o tekoha guasu, em que corresponde a extensão
quanto a localização dos tekoha, muito menos o tetã, a grande área ocupada pelos falantes
de guarani, que podemos considerar como a área que correspondem aos países com povos
falantes de guarani na América Latina. A extensão de reivindicação de demarcação

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corresponde a 2% de área total do estado, ainda sim é comum o uso do discurso de “muita
terra para pouco índio” a respeito das demarcações no estado, em que os produtores rurais
afirmam que as demarcações terão reflexo negativo na produção e desenvolvimento
econômico do estado. Diante dessas ressignificações promovidas por ações atreladas a
interesses econômicos no estado, temos por objetivo compreender como se deram os
processos de expropriação e reorganização espacial dos Guarani e Kaiowá utilizando
categorias nativas para analisar a noção espacial dos indígenas. As categorias nativas tekoha
guasu, tekoha e tetã são categorias que se apresentam relacionadas diretamente com o olhar
dos guarani sobre o espaço, e dentre aos conceitos da geografia o que mais dialoga com essas
categorias é o conceito de território. Para o andamento da presente pesquisa, temos como
abordagem metodológica o levantamento bibliográfico para análise das considerações a
respeito dos conceitos nativos, assim como as questões levantadas sobre esta temática. Além
disso, através de relatórios construídos para identificação de Terras Indígenas realizados pela
FUNAI observaremos as considerações sob a perspectiva em relação ao território dos Guarani
e Kaiowá.

Territórios, fronteras y migraciones de pueblos indígenas en el este


sudamericano: subsidio cartográfico a la geografía de los refugios
bioculturales

Rodrigo Martins dos Santos

La ponencia presenta los resultados parciales de nuestra investigación de doctorado que


busca analizar el proceso de desterritorialización de pueblos indígenas y territorialización de
pueblos invasores o diasporados provenientes de Europa y de África, así como el surgimiento
de nuevas etnias mesticas. En esta etapa preliminar de la investigación se presentarán los
productos cartográficos que servirán de base para los análisis territoriales. En este sentido, a
partir de informaciones ya compiladas en nuestra investigación de maestría (que serán
presentadas en póster en el Seminario Tematico 26 "Leyendo la 'tierra adentro': archivos
coloniales, categorías de clasificación y estrategias etnohistóricas para las zonas de frontera"
del III CIPAL 2019 bajo el titulo: "Diáspora y migraciones de grupos indígenas de Brasil Central
- de 1700 a 1900 AD"), procuraremos discutir los avances analíticos de estos datos
comparando con nuevas informaciones compiladas sobre la porción este de Sudamerica. El
propósito final de la investigación será identificar si hay una relación entre la localización y
distribución de comunidades indígenas/tradicionales y las islas de biodiversidad esparcidas
por el área de estudio. La base teórico-metodológica es la geografía histórica de Reclus, la
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antropogeografía de Ratzel, el espacio diferencial de Lacoste y la geografía del poder de


Raffestin. Con el apoyo de la teoría de los reductos y refugios de Ab'Saber y el concepto de
isla biocultural de Clark.

La ciudad: un espacio clave en las geografías indígenas contemporáneas. El


caso mapuche en Chile

Bastien Sepulveda

Lugar de (re)producción del poder colonial, la ciudad ha encarnado históricamente una forma
de exclusión tanto material como simbólica para los pueblos indígenas en América Latina. Sin
embargo, ello no ha impedido que el espacio urbano fuera practicado y apropiado de diversas
maneras por aquellos migrantes que allí se asentaron. Se asistió desde entonces a un proceso
de territorialización indígena en el medio urbano que, pese a su antigüedad e importancia,
sólo empezara a ser atendido por las políticas públicas en el transcurso de la última década.
Esta ponencia propone examinar esta realidad, en la perspectiva de lo que podría
conceptualizarse como el “derecho indígena a la ciudad”, el cual se fundamenta en el
reconocimiento del proceso histórico de invisibilización de los indígenas en el espacio urbano
y de las diferentes formas de exclusión, injusticia y desigualdades que los puede afectar. Se
presentan, para tal efecto, los resultados de un proyecto de investigación que buscó analizar
la producción de geografías indígenas urbanas mediante la formación de espacios mapuches
en el área metropolitano de Concepción, en el centro de Chile. En suma, la reflexión propuesta
es una invitación, no solamente a re-pensar lo indígena (y las geografías indígenas) desde la
ciudad en América Latina, sino también a re-pensar la ciudad latinoamericana desde lo
indígena.

Pelos Caminhos do Opará: a importância do rio São Francisco para a luta dos
povos indígenas no Sertão de Pernambuco

Beatriz Barbosa da Silva

Claudio Ubiratan Gonçalves

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Na história dos povos indígenas do Nordeste, o rio São Francisco aparece como um canal de
comunicação (e também de fuga), uma rede que interliga os diversos povos da região,
possibilitando o contato e a troca de saberes. Este artigo tem como objetivo trazer para
discussão a importância do rio São Francisco na construção do movimento indígena no Sertão
de Pernambuco e na luta em defesa de seus territórios e modos de vida. As histórias dos povos
indígenas foram entrelaçadas e construídas pelo rio. O rio une essas comunidades; além de
fornecer o alimento, a vida e seus espaços espirituais, constitui-se como um elemento central
na luta dos povos originários que interagem com ele. As viagens ao longo do São Francisco,
com o objetivo de se comunicar com outras comunidades, ou em direção ao Rio de Janeiro
para reivindicar seus direitos, foram de suma importância para a organização e o
reconhecimento desses povos enquanto indígenas e na conquista de seus territórios. O rio
acolhe e representa o meio de partilha, de diálogo entre as comunidades, ao mesmo tempo,
também se apresenta como uma rota de fuga. O intenso processo de violência e de conflitos
que os povos são submetidos por conta do interesse do capital na região, faz com que muitos
grupos migrem para outros territórios em busca de melhores condições de vida. Os Xokó, povo
indígena localizado na Ilha de São Pedro, no estado de Sergipe, ao serem expulsos de seus
territórios e escravizados pelos fazendeiros da região, tiveram boa parte de seu povo fugindo
para outros locais, um desses grupos uniu-se aos Kariri, localizados no estado de Alagoas,
formando os Kariri-Xokó. Assim, as viagens feitas ao longo do rio, apresentam-se como uma
possibilidade, de interagir com outras comunidades, de buscar melhores condições de vida,
de lutar por seus direitos. A violência não se restringe ao plano material, mas prolonga-se na
imaterialidade, no significado dos espaços para as comunidades. Os Pankararu, povo indígena
localizado no município de Tacaratu, Sertão de Pernambuco, tiveram uma parte de seus
cemitérios inundados por conta das modificações ocorridas no rio São Francisco após a
construção das barragens. Neste contexto, o que sobrevive são as memórias, as histórias
compartilhadas oralmente, que percorrem todo o São Francisco e são transmitidas para
outros povos, servindo de estímulo na luta em defesa de seus territórios e modos de vida.

Trilhas dos imaginários sobre os povos indígenas e demografia


antiautoritária: um experimento de antropologia anarquista

Carolina Ramos Sobreiro

Esta é uma tentativa de realizar um experimento de antropologia anarquista, juntamente ao


Mẽbêngôkre (Kayapó). Percorre-se um caminho que relaciona as imagens construídas sobre
os povos indígenas, suas classificações e articulações com os poderes e suas respectivas
instituições desde os primeiros contatos da conquista. Logo vem uma reflexão sobre os
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desdobramentos dessas imagens e articulações na transformação das instituições políticas,


na história, no espaço e no território. De uma imagem inicialmente pejorativa, os Mẽbêngôkre
vão se elevando gradualmente, graças a diversos motivos, um deles é a revelação de seu
grandioso passado arqueológico, que envolve, entre outros aspectos, cerâmica antiquíssima
e enormes aldeias circulares que acolheram grandes populações. Demonstra-se também a
complexidade e a profundidade de um conhecimento indígena que tem categorias científicas
próprias, a respeito dos seres vivos, o espaço, os biomas. O “nomadismo” deixa de ser visto
como uma caminhada sem rumo, para tornar-se um modo privilegiado de vida, transformação
e construção de relações sociais e com o espaço. É através dele que se desenvolve habilidades
e o construir é desenhar paisagens fartas por meio do movimento pelo território e fases mais
estáveis nas aldeias. O anarquismo colabora com a reflexão antropológica ao desnaturalizar
as hierarquias de poder, a partir de uma problematização na categorização dos humanos sob
os paradigmas evolutivos e seus marcos: paleolíticos/neolíticos, e se desmancham e perdem
sentido também da singularidade dos Mẽbêngôkre, cuja espacialidade e ecologia política,
caminha entre fusões e cisões comunitárias, um tipo de levante que resulta na multiplicação
de aldeias no espaço que se distribui como constelações estelares, por meio de uma
demografia antiautoritária: que dilui e explode centros de poder muito densos para criar
novas unidades políticas independentes, movimentos que se dirigem à grandiosidade de seu
protagonismo cosmopolítico.

Tabas, roças e lugares de encanto: remoções e reconstruções Anacé em


Caucaia, Ceará

Rute Morais Souza

O trabalho propõe realizar uma análise sobre os impactos causados com a chegada de
indústrias no território indígena Anacé, aldeia Matões, localizado na cidade de Caucaia, região
metropolitana de Fortaleza. Historicamente, desde o período colonial, grandes projetos de
desenvolvimento atingem mais diretamente os povos indígenas, permeados pela visão
predominante de que estes povos impedem o desenvolvimento. Belo Monte, Complexo de
hidrelétricas no Tapajós, mineração, construção de portos, estradas e ferrovias ameaçam
modos de vida que se contrapõem à exploração do capital. Pretendemos discutir e analisar a
presença do povo indígena Anacé em uma região de forte urbanização e os projetos de
desenvolvimento que o atingiu ao longo de mais de duas décadas, provocando dispersões e
inacessibilidade a recursos naturais, pesca, agricultura e extrativismo nas matas. Para tanto,
daremos um enfoque direto em dois processos de remoção sofridos pelo povo Anacé: 1.
Desapropriação, nos anos 1990, de parte da população Anacé em função da construção do
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Complexo Industrial e Portuário de Pecém; 2. Remoção, em 2018, da quase totalidade das


famílias para uma “reserva” construída pelo Governo do Estado do Ceará, em função da
ampliação do complexo siderúrgico no que havia restado do território tradicional Anacé. Será
importante igualmente destacar a resistência de algumas famílias em deixar suas terras nos
dois processos, pautada pelo apelo à memória, e o sentimento de pertencimento ao lugar.

Conflictos territoriales e interétnicos en Buenos Aires, Costa Rica: aportes


interdisciplinarios para su resolución

Alejandra Boza Villareal

Roberto Castillo Vásquez,

Luis Mariano Sáenz Vega,

Ali García Segura,

Xinia Zúñiga Muñoz,

Maria Paula Berrantes,

Marcos Guevara Berger,

Denia Román Solano

Si bien los conflictos territoriales e interétnicos atraviesan la realidad latinoamericana en casi


toda su extensión, revisten en cada caso particularidades únicas difíciles de cernir y que
ameritan investigaciones también particulares. Esta ponencia presenta los avances parciales
de un proyecto de investigación interdisciplinar, que se propone el estudio de las
territorialidades indígenas, aplicando investigación y acción participativa al caso de Salitre y
otras localidades del Pacífico sur de Costa Rica. Desde el año 2010 se ha incrementado la
violencia interétnica en la comunidad indígena de Salitre y en otras del cantón de Buenos
Aires, a raíz de crecientes reclamos de estas comunidades por consolidar sus derechos
territoriales, por definir el espacio geográfico en que habitan como exclusivamente indígena,
así como por gestar acciones de recuperación “de hecho” sobre sus tierras que han sido
ilícitamente poseídas por personas no indígenas. Estas manifestaciones de violencia han
generado una gran preocupación, tanto en los habitantes indígenas de esos territorios, que se
sienten amenazados, como por parte de organismos estatales e internacionales que no han
encontrado formas legales o administrativas efectivas para resolver los problemas
territoriales y fomentar una mayor tolerancia entre sectores de población culturalmente

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diferenciados y confrontados. El proyecto consiste en la generación de información clave para


la elaboración de propuestas que contribuyan a lo que hemos denominado como negociación
social, una apuesta conceptual y política que se inspira en la resolución alternativa de
conflictos, pero que adopta la historicidad del conflicto, las dinámicas socio-ambientales y las
acciones nativas como recursos validos para resarcir derechos territoriales y mejorar la
convivencia interétnica en Salitre y otras comunidades indígenas de Buenos Aires. Para ello
contamos con la participación de académicos de Geografía, Historia, Sociología, Trabajo
Social, Ingeniería Topográfica, Derecho, Lingüística y Antropología. Específicamente en esta
ponencia nos proponemos exponer tres aspectos: i) la problemática regional, ii) los procesos
de gestión comunitaria, institucional y política del proyecto, y iii) los principales avances
interdisciplinares.

ST 04 | Arqueologia – Etnografia – Patrimonio: articulaciones, disputas y


agenciamentos para la construcción de patrimonios interculturales con los
pueblos indígenas
Walmir Pereira (Escola de Humanidades, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Brasil); Victor Falcon
Huayta (Universidad Nacional Mayor de San Marcos, Perú); Stella Maris Garcia (Laboratorio de
Investigaciones en Antropología Social, Facultad de Ciencias Naturales y Museo, Universidad Nacional
de La Plata, Argentina).

Este simposio propone abrir un espacio para dialogar y reflexionar sobre la posibilidad de
articular la Arqueología y la Etnografía con el campo sociocultural y político del patrimonio
cultural material/tangible a propósito de los estudios sobre Patrimonio. Tomamos como
punto de partida la cuestión de la “materialidad” de las producciones humanas que nos lleva
a subrayar el rol de las disciplinas científicas aludidas. Por un lado, el aporte de los contextos
arqueológicos relevantes para la consideración y re- evaluación de sitios o complejos de
edificaciones que, incluso, pueden ostentar representaciones de diversa naturaleza que, sin
embargo, son re-interpretadas en una virtual puesta en valor en función del turismo y sus
expectativas. Por otro, la certidumbre de que la perspectiva etnográfica habilita canales de
comunicación e intercambio con los pueblos y colectividades indígenas referentes a esos
“objetos materiales” que explican y/o admiten apropiaciones, rechazos, valoraciones y
prioridades de lo que puede o no ser convertido en bien patrimonial y, eventualmente, ser

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tratado desde la gestión cultural. Fundamenta nuestra inquietud la necesidad de encontrar


otros caminos que posibiliten la deconstrucción colonial de patrones de interpretación de la
vida social de grupos humanos cuyos saberes ancestrales fueron sistemáticamente
invisibilizados pero sus producciones materiales reificadas en las vitrinas de los museos o los
monumentos puestos en valor. Esperamos recibir trabajos que den cuenta de experiencias de
investigación localizadas, que problematicen aspectos teórico-metodológicos ligadas a la
articulación disciplinar propuesta y/o apunten a desentrañar las tensiones emergentes ante
la factibilidad de construir patrimonios interculturales en la compleja sociedad
contemporánea.

Arqueologia e Etnohistória da Ilha de Upaon Açu (São Luís - MA):


materialidades, espacialidades e temporalidades sobre a presença indígena
em uma cidade colonial, patrimônio cultural da humanidade

Arkley Marques Bandeira

A Ilha de Upaon Açu, atualmente, Ilha de São Luís, no Estado do Maranhão vem sendo objeto
de investigações arqueológicas que atestam a presença humana desde tempos ancestrais.
Cronologias construídas ao longo de quase 15 anos, baseadas em mais de 100 datações
obtidas em uma dezena de sítios arqueológicos comprovam que os primeiros ocupantes
chegaram as planícies costeiras no Golfão Maranhense, em torno de 7 mil anos do presente.
Esta longa trajetória histórica foi partilhada por pelo menos 6 grupos socioculturais distintos,
como os povos sambaquieiros, que construíram os conheiros; povos agricultores ceramistas
com a agricultura em formação, grandes assentamentos agrícolas em sítios de terra preta,
finalizando a longa sequência cultural com os povos Tupinambá, que tiveram contato direto
com as levas coloniais europeias, entre os séculos XVI e XVII, e ocuparam 27 aldeias apenas
na Ilha de Upaon Açu. A partir deste período, farta documentação histórica permite construir
interpretações etnohistóricas sobre o modo de vida indígena, com base nos distintos discursos
coloniais, como as crônicas dos religiosos franceses, documentos da reconquista portuguesa
e relatórios administrativos dos primeiros governadores. Esta multiplicidade de fontes será a
base para refletir o potencial da pesquisa interdisciplinar, aglutinando os métodos da
arqueologia, etnografia e etnohistória sobre os povos indígenas desta região, sob a
perspectiva da materialidade, espacialidade e temporalidade. Tangenciado a narrativa, será
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feita uma análise crítica relacionada aos apagamentos institucionais sobre a presença indígena
na história do Maranhão, particularmente nos discursos oficiais, na gestão cultural e nas
políticas publicas patrimoniais construídas nos últimos 40 anos para ressaltar São Luís como
uma típica cidade colonial portuguesa, no âmbito da obtenção do seu título de Patrimônio
Cultural da Humanidade, concedido pela UNESCO, em 06 de dezembro de 1997. Neste
contexto o foco nos aspectos arquitetônicos das edificações coloniais construídas sobre as
principais aldeias indígenas Tupinambá ou no discurso de uma fundação francesa ou ibérica
vem ignorando o legado indígena nas políticas de patrimonialização, em detrimento de um
suposto passado que se inaugura com a chegada dos europeus.

Dos fragmentos do passado as identidades no presente

Marcus Vinícius Beber

A Arqueologia Brasileira nesse início de Século XXI tem cada vez mais contribuído para o
conhecimento das populações que aqui viviam antes da chegada dos colonizadores europeus
no século XVI. Nesse sentido, os resultados das pesquisas arqueológicas têm servido de
suporte para fundamentar demandas de reconhecimento de terras indígenas e quilombolas,
bem como vem fornecendo substrato para uma descrição mais detalhada destas sociedades
no passado, tanto em nível de Brasil como de América Latina. Nesse sentido, a interface entre
Arqueologia e Etnologia, tem sido fundamental para compreender melhor as estratégias
adaptativas e os diferentes significados dos conjuntos materiais resgatados em contextos
arqueológicos. Assim, articular dados históricos e etnográficos dos grupos Kaingang no Sul do
Brasil com o resultado de pesquisas arquelógicas no mesmo espaço geográfico, permitiu
leituras sobre o significado material e simbólico das Estruturas com piso rebaixado, também
conhecidas como Casas Subterrâneas, percebendo sua historicidade no perido pré-colonial,
identificada a partir da arqueologia, cotejada com os dados das populações descritas na etno-
história permitiram uma nova compreensão história.

Por uma Arqueologia para todos: experiências de arqueologia colaborativa


com a comunidade indígena e tradicional no município de Aveiro – Pará,
Baixo Tapajós

Ádrea Gizelle Morais Costa Besen


Waldely Rodrigues Fernandes

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Este trabalho trata se de uma pesquisa realizada em parceria com indígenas Mundurukus e
populações tradicionais na região de Aveiro, estado do Pará, com o objetivo de identificar o
potencial arqueológico da região, além de procurar compreender como se dá a relação de
memoria, interpretação e apropriação do passado presente no registro arqueológico muitas
vezes encontrado nas margens dos rios e próximos aos locais de moradia da comunidade local.
Durante as pesquisas foram realizadas visitas as residências das famílias que apresentavam
com orgulho suas coleções. Essa relação de materialidade e imaterialidade contribui para o
arqueólogo melhor compreender a cultura local e os contextos envolvidos para a formação
da memória de pertencimento destas populações e suas pequenas coleções. Assim, este
trabalho que está vinculado ao projeto de pesquisa “A ocupação (pré) colonial no município
de Aveiro – Pará, baixo tapajós”, possui como foco a construção do conhecimento e novas
interpretações sobre o passado através da relação pesquisador x comunidade.

A libertação do sagrado e a vida: a construção social dos museus pelos povos


indígenas

Josué Carvalho
Kércia Priscilla Figueiredo Peixoto

A comunicação reflete sobre o entendimento dos povos indígenas do Sul da Mata Atlântica
sobre o lugar do sagrado, combatendo a ideia de que objetos significativos para eles devam
estar guardados e expostos em museus. Além disso, empreendemos uma análise do que é
considerado sagrado para esses povos e de como esses elementos, que se referem a objetos
e rituais, devam ser salvaguardados. Em contraposição aos museus tradicionais, os indígenas
têm o entendimento de que museu ultrapassa os limites de uma estrutura arquitetônica,
ampliando-o para o ambiente onde eles tecem suas vidas e as dos seus objetos identitários.
Assim consideram relevantes suas próprias vivências, a relação com o território e com tudo o
que o compõe, Território aqui compreendido como lugar de pertencimento. A partir de
conversas com os “velhos e velhas indígenas”, guardiões e guardiãs da sabedoria e da
memória, procuramos entender como os indígenas reconfiguram o sentido de museu
tradicional e constroem seus museus a partir do seu próprio entendimento. Outro aspecto
que analisamos se refere ao tempo de criação e existência de um museu indígena. Procuramos
refletir em que momento se dá a concepção de um museu indígena, quando ele de fato
começa a existir e a ser compartilhado pelos membros da comunidade. Pensamos também
sobre a condição de sua permanência: o que o mantém vivo? A construção do espaço físico
e/ou a memória transmitida através da oralidade? Enfim, trazemos a reflexão de como os
museus refletem o “lugar sentido”, dentro das percepções de lugares dedicados aos rituais
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e/ou que marcam no chão a trajetória do povo como espaços de memórias, e o “sentido do
lugar” como identidade do povo alicerçada na terra a qual pertencem. Para os indígenas a
ideia de museu parece não se restringir ao espaço físico: o supera à medida em que ampliam
o conceito para o território vivido.

Territorios espirituales en disputa: las reivindicaciones indígenas de los


rituales actuales en el sitio arqueológico El Shincal de Quimivil

Marco Antonio Giovannetti

Iván Fasciglione

En el centro de la provincia de Catamarca, Argentina, se ubica un sitio arqueológico construido


por los inkas en el siglo XIV de la era. Se trata de un centro ceremonial, posiblemente uno de
los más importantes de la antigua región Qollasuyu. En el año 1992 fue declarado Sitio
Histórico nacional, restaurado parcialmente algunos de sus edificios y abierto al turismo.
Luego de esto fue constituyéndose paulatinamente como un lugar referente de la presencia
inkaica en Argentina recibiendo interés de parte de diferentes instituciones públicas y privadas
para su puesta en valor y publicidad. Al mismo tiempo que diferentes instituciones estatales
ponían interés en el mismo, otros actores vinculados a una reivindicación indigenista
comenzaban a realizar diferentes ceremonias para fechas relacionadas con el antiguo
calendario ritual inka, como por ejemplo el inti Raymi en el solsitio de junio, o el Qhapaq Raimi
en su homólogo de diciembre. La creciente popularidad del sitio y el mayor flujo de turistas,
sumado a las reformas del año 2015 del museo de sitio y la organización de las visitas a través
de un cuerpo de guías locales, coinciden con mayores controles por parte de las autoridades
locales. Esto ha provocado tensiones con los grupos indigenistas que realizaban las
ceremonias desde los últimos 15 años. El problema se torna complejo dado que dirigentes de
las agrupaciones indígenas involucradas no poseen residencia local sino que viven en la
provincia de Buenos Aires. Esto se inscribe dentro de un juego dicotómico de sentidos donde
una mirada local catamarqueña confronta con aquella proveniente de otras regiones.
Queremos exponer en esta presentación desde el enfoque de la arqueología etnográfica las
percepciones de aquellos actores que ven en el sitio arqueológico, no sólo ruinas antiguas,
sino un espacio sagrado donde revitalizar ceremonias neoindígenas que, bajo un discurso de
ancestralidad mística, legitiman una posición dentro de las nuevas prácticas en el sitio. Es
posible reconocer una construcción a la manera de territorios de la espiritualidad que entran
en tensiones al momento de disputar los espacios y momentos rituales. Se presentarán los

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resultados de los análisis de entrevistas de carácter cualitativo realizados sobre diferentes


referentes de las ceremonias actuales.

Lo Etnopatrimonial: una visión desde la Comunidad Altoandina de San


Cristóbal de Rapaz

Victor Falcón Huayta

A fines del s XX en Francia, Inglaterra, España –entre otros países europeos– aparece la
Gestión Cultural como una especialización para poner el patrimonio en el mercado del turismo
y así dinamizar las economías, tanto nacionales como locales. ¿En qué momento se tomó en
consideración el parecer indígena o tradicional cuya producción material – actual o ancestral–
era tratada por esta iniciativa europea? Se propone el concepto de “etnopatrimonio” como la
valoración que hacen las comunidades indígenas de su producción material enmarcadas en
sus prácticas y costumbres, las cuales están vinculadas a sus tiempos (ciclos) y manera de
producir su sustento y reproducción social. Esta perspectiva resultaría crucial para diseñar
planes y proyectos de gestión cultural con las comunidades indígenas. En esa línea, el ponente
hará una reflexión a partir de su experiencia de investigación en la comunidad de San Cristóbal
de Rapaz, ubicada en la zona altoandina de la región Lima (Perú). Asimismo, apela a un caso
aportado por la etnohistoria sobre lo que era el famoso Santuario-Oráculo de Pachacamac, un
gran sitio arqueológico ubicado sobre el litoral del Océano Pacífico.

Articular patrimonialización, sitios arqueológicos, registros etnográficos en la


formación profesional del antropólogo: Desafíos pedagógicos a partir de una
experiencia de viaje de campaña

Carolina Maidana e Luciano Prates

La problemática del patrimonio en los últimos años se considera en función de su valor


simbólico, como expresión de la identidad y como lo que cada grupo humano selecciona de
su tradición. Se requiere que exista una apropiación simbólica del mismo por parte de los
agentes sociales inmediatos que generan y cuidan los bienes a ser patrimonializados. En esta

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línea nos preguntamos, como docentes de cátedras de Arqueología y Antropología Social,


cuáles son los desafíos que enfrentamos al momento de formar profesionales antropólogos
que comprendan y actúen en consonancia con el resguardo de los sitios arqueológicos y
aseguren estrategias de anclajes socio-históricos con los mismos por parte de las poblaciones
locales y regionales. Un viaje de campaña al Valle Medio del Rio Negro (Argentina) en el curso
lectivo 2016, realizado de forma conjunta entre la cátedra Arqueología Americana I y
Antropología Sociocultural I de la Facultad de Ciencias Naturales y Museo de la Universidad
Nacional de la Plata, Argentina, nos posibilita abrir un abanico de consideraciones que se
ponen en juego cuando pretendemos articular Patrimonio/ Arqueología/ Etnografía en un
proceso de enseñanza – aprendizaje de la Antropología como disciplina. Algunas de esas
consideraciones refieren a los obstáculos epistemológicos/ideológicos ante la negación de la
presencia de pueblos indígenas en la región; a los desafíos teórico - metodológicos de las
propias sub-disciplinas (Arqueología-Etnografía), a las consideraciones de los agentes
involucrados y a las limitaciones que surgen por la manipulación de agentes gubernamentales
en el medio ambiente, entre otras. Cabe señalar que el hecho de que la carrera de
Antropología se encuentra en la una facultad de Ciencias Naturales nos motiva de un modo
privilegiado para considerar el ambiente natural y sus variaciones, junto a las
transformaciones geopolíticas y procesos sociales ocurridos históricamente en la región. En la
presente comunicación presentaremos la experiencia formulando preguntas que podrían
actuar como ejes para un debate conjunto con quienes hoy se definen como indígenas, con la
población no indígenaque se considera heredera de un legado ancestral en la región y quienes
defienden correr el velo que cubre la verdadera historia social local y aportan a su
construcción desde su vida cotidiana, la de las instituciones educativas y gubernamentales.

Objetos arqueológicos, sentidos etnográficos: el caso de los “suplicantes”


como patrimonio del Museo de la Plata

García Stella Maris

Este trabajo propone debatir sobre los vínculos entre el pasado arqueológico y el presente,
los múltiples sentidos que se ponen en juego al momento de considerar la materialidad para
asignarle valor sea ético, estético o de apropiación identitaria. Planteamos como hipótesis de
trabajo: los objetos llamados suplicantes de origen arqueológico han recibido un tratamiento
tradicional de descripción (materiales y ubicación temporo-espacial) y de asignación de
sentidos en el marco de una concepción tradicional de la cultura material basada en el discurso
de los expertos (arqueólogos) que actúan legitimados desde su condición de científicos.
Paralelamente estos objetos son replicados y actuan como mercancías que circulan en el
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mercado Se propone analizar desde un registro etnográfico del sitio donde ocurrió uno de los
hallazgos la factibilidad de la visibilización de grupos sociales específicos, considerados como
“alteridades históricas”, es decir, grupos sociales cuya manera de ser en el contexto de la
sociedad nacional deriva de una historia de fractura con el Estado Nación. Se pretende evaluar
el justificado valor y prioridad que se admite desde las organizaciones gestoras de patrimonio
a las comunidades que se relacionan con el patrimonio arqueológico.

Culturas geoglíficas na Amazônia pré-colonial: simbolismo espacial e redes de


integração regional

Rafael de Brito Marques

Esta comunicação é um recorte de uma pesquisa em andamento que propõe uma nova leitura
da Amazônia e de sua relação com os povos indígenas, a partir das recentes descobertas da
arqueologia amazônica. Nos últimos trinta anos, em razão do avanço do desmatamento,
foram encontradas mais de 450 estruturas geométricas de terra em vala denominadas
geoglifos. Essas estruturas ocupam 13.000 km 2 do estado do Acre-Brasil, e acredita-se que
foram realizadas à época pré-colonial por povos que habitavam a região. Pouco se sabe sobre
a finalidade e o propósito destas grandes estruturas de terra, porém as recentes descobertas
evidenciam a complexidade social entre os povos da região e podem oferecer algumas
considerações gerais sobre os mecanismos culturais de interação entre as sociedades de
língua Arawak e Pano, destacando o papel da integração regional. Para isso, tomando como
base os dados etnográficos e arqueológicos que demonstrem como o simbolismo espacial
apresenta estreita conexão com os conceitos de ordem cosmológica, compartilhados em uma
complexa rede de grupos locais.

De la piedra al calvario: arte rupestre y ritualidad andina en el Norte Grande


de Chile. Aproximaciones etnoarqueologicas al culto a las cruces en sur
andino. Siglo XVI al presente

Wilson Muñoz

Bosco Gonzalez Jimenez

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En el desierto de Atacama se desarrollan centenares de festividades y rituales en torno a las


cruces, estando la mayor parte de ellas están inscritas en el paisaje. Paralelamente, en la
mayoría de lugares donde se desarrollan estas actividades rituales contemporáneas, existen
evidencias arqueológicas como apachetas, fragmentos cerámicos y, la más importante de
todas, arte rupestre, son petroglifos y pictografías históricas de contacto que manifiestan
iconografía católica, como cruces en bases tipo calvarios, escalonados, triangulares, circulares,
entre otras, como es el caso de los petroglifos de cruces latinas y de atrio, todo un repertorio
colonial-andino que se correlaciona con geo símbolos y artefactos culturales del paisaje
orientados funcionalmente a la veneración de las mismas cruces, en contextos sociales
contemporáneos de devoción, festividad y actividad ritual intensa en torno a estos símbolos
religiosos que pueblan el paisaje sagrado de los andes. Podemos afirmar que existe una
insistencia no declarada de símbolos relacionados con la presencia de arte rupestre de
contacto y ritualidad contemporánea, lo que ha configurado un paisaje ritual cargado de
simbolismos indígenas e hispanos. Esto establece un potencial etnoarqueologico
transdisiplinar que permite unificar arqueología y la etnografía ritual del paisaje como un
modo de complementar a la historiografía tradicional y la arqueología clásica con las voces
contemporáneas de los indígenas. Proponemos una lectura que establezca vinculaciones
entre las evidencias de apropiación de significantes católicos realizada por los indígenas del
siglo XVI y las experiencias etnográficas del presente. Nuestra hipótesis de trabajo es que
existiría un sistema de comunicación que, lejos de detenerse con el advenimiento de la
conquista, continuó funcionando históricamente con diversos registros, especialmente con el
arte rupestre y posteriormente con la construcción y celebración de cruces que se mantiene
hasta el día de hoy.

Memórias e imagens indígenas de um Grito da Floresta: agencialidade e


futuro dos povos indígenas no Rio Grande do Sul

Walmir da Silva Pereira

Este ensaio constitui gênero de etnografia visual em que exibimos narrativas indígenas do
Grito da Floresta, acontecimento materializado no segundo semestre de 2014 na Terra
Indígena Nonoai, aldeia guarani do Passo Feio, município de Planalto, posicionando o recurso
audiovisual como base de experimentação do olhar e do conhecimento etnográfico. O Grito
da Floresta constituiu-se como encontro agenciado e articulado pelo movimento indígena de
base regional, demandado em conjunto com e promovido pelo Conselho Estadual dos Povos
Indígenas do Grande do Sul a fim dialogar com agentes e agencias do campo indigenista
nacional e regional e de refletir com os referentes indígenas e representantes da esfera

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pública governamental sobre as ideias-força de bem viver, territorialidade, justiça indígena e


autodeterminação, assim como sobre a perspectiva de futuro dos povos e coletividades
indígenas no estado.

Apropiación cultural: plataformas para la protección de las técnicas


artesanales indígenas

Cecilia Berenice García Rojas

Según cifras de INI-CONAPO del total de la población indígena en México el 28.7% se dedican
a la elaboración de artesanía. De estos artesanos el 43.6% gana un ingreso diario de dos
salarios mínimos aproximadamente, mientras el resto percibe un ingreso menor. La falta de
estructuras legales y fiscales mantienen estático el desarrollo comercial legítimo y la
promoción de las artesanías en México, dejando espacio al abuso de los productores
artesanales. En este estudio se analizará la transformación de un conflicto de índole
económico que violenta la identidad cultural mexicana tras el abuso a los productores
artesanales indígenas y por ende la falta de protección del patrimonio inteligible cultural en la
distribución comercial de artesanía. Tras dicho análisis se tiene como objetivo elaborar
aportes metodológicos para la creación de una infraestructura, legal, fiscal, y de promoción
que propicie la profesionalización de empresas sociales, organizaciones y programas que
impulsan la cultura de pueblos originarios en México, mediante la utilización de técnicas
artesanales. La estrategia de transformación del conflicto tiene como eje principal encontrar
un punto medio entre los objetivos económicos y la protección de la identidad mexicana
expresada en sus artesanías. De tal forma crear herramientas que permitan regular el poder
omnipotente que muchas veces tiene el mercado y darle la fuerza necesaria al sector artesanal
para que sea competitivo en este. Igualmente se desea promover: a) Leyes que protejan usos
y costumbres (Técnicas artesanales) de pueblos originários; b) Instituciones, organismos e
intervenciones diseñados para la protección y promoción cultural de pueblos originários; c)
Empresas e intervenciones que comercialicen e impulsen las técnicas artesanales; d) Un
equilibrio entre las necesidades del mercado y las de preservación de las técnicas artesanales
mexicanas. Mediante esta sinergia de cambios en donde convergen las estructuras,
sociopolíticas, económicas y legales se cree podrán alinearse en una sola estrategia el marco
legal internacional y nacional en la distribución legítima de artesanías con el cual se lograría la
preservación de las técnicas artesanales mexicanas evitando los casos de apropiación cultural
de empresas extranjeras. De la misma forma al adaptarse la estructura fiscal y legal mexicana
a las necesidades de los productores artesanales, las empresas que se dedican a la

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transformación de arte popular y sus distribuidores, propiciará un ecosistema de


emprendimiento artesanal competitivo para el mercado nacional e internacional.

Gravuras sobre antropofagia Tupinambá nos séculos XVI e XVII

Beatriz Cantuária Jakubowski dos Santos

Os portugueses, ao chegarem em terras tupiniquins, se depararam com povos de uma cultura


diferente da sua que andavam nus, eram nômades e tinham uma estrutura político-social em
nada semelhante à do Velho Mundo. Um dos maiores choques foi a descoberta de que tais
indígenas praticavam antropofagia com seus inimigos, passando a serem retratados nas
gravuras como selvagens, bestiais e, por vezes, demoníaco. Com o avanço da colonização, no
século XVII, os tupis passam a ser retratados como dóceis e domesticados e o manto da
selvageria decaiu sobre os tapuias. Em meu trabalho, utilizei as obras de Tzvetan Todorov e
Serge Gruzinski como apoio teórico para reflexão do contato entre diferentes culturas e a
visão do outro, enquanto dialógo com Yonbenj Aucardo Chicangana-Bayona, Ronald
Raminelli, Ronaldo Vainfas, entre outros autores, na tentativa de reconstruir o cenário
histórico dos períodos estudados. Quanto às imagens, utilizei a obra de Théodore de Bry
(1528-1596) como representativa da visão expressada no século XVI e a de Albert Eckhout
(1610-1665) como expoente do XVII. No decorrer das análises é nítido que a primeira visão da
antropofagia tupinambá se relaciona com os mitos dos selvagens das florestas europeias e
com a figura das bruxas que, assim como os indígenas canibais, receberam o título de “filhos
de Saturno”. No segundo século estudado o imaginário de antropofagia decai mais sobre os
povos não tupis, que continuam sendo estranhos ao homem branco e ainda são retratados
como nus e selvagens, diferindo dos tupis pintado nos quadros com roupas, pacífico,
trabalhando e civilizado. Por tanto as gravuras da antropofagia se modifica nesses dois séculos
de acordo com a proximidade e o distanciamento entre a cultura europeia e a indígena.

Arqueologia e cosmopolítica: reflexões sobre curanderismo, huaqueo e


patrimônio arqueológico na Costa Norte Peruana

Débora Leonel Soares

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Esta comunicação tem por objetivo refletir sobre a vida e a agência da cerâmica arqueológica
andina – com foco na cerâmica Mochica –, a partir de uma abordagem interdisciplinar
chamada de Etnografia Arqueológica (Hamilakis, 2011). Neste sentido, pretende-se explorar
os vínculos possíveis entre a etnografia e a arqueologia, na tentativa de entender como
passado e presente se encontram e se conectam através da cerâmica arqueológica, que
aparece como sujeito nas práticas de curanderos e huaqueros na região de Lambayeque (costa
norte peruana). Para isso, seguirei os caminhos de uma proposta cosmopolítica, que busca
analisar como se dá a coexistência dos diversos mundos que permeiam a existência e a vida
de entes que, arqueologicamente, convencionamos em chamar de “artefatos arqueológicos”.
Espero assim, mapear momentos e espaços de encontro entre mundos como conexões
parciais (Strathern, 2004), que permitem que a cerâmica arqueológica seja, ao mesmo tempo,
“objeto” (“artefato ou vestígio ou patrimônio arqueológico”); artefato produzido por
populações pretéritas; e Huaco (mediador xamânico nas mesas dos curanderos). Na costa
norte peruana, pensar a multitemporalidade destes entes/vasos cerâmicos nos propõe a
tarefa de explorar mundos distintos. Tal missão exploratória apresenta ao fazer arqueológico
outros afetos e relações que se dão entre agentes humanos e não humanos. Estes agentes
compõe uma complexa rede de relações onde está envolvida a cerâmica arqueológica. Diante
disto, pretendo discutir como o encontro entre mundos distintos pode afetar a prática
arqueológica, e como a etnografia torna-se uma ferramenta essencial, na medida em que nos
propõe levar a sério os desafios que tais encontros e relações trazem à agenda das políticas
de proteção e gestão do patrimônio arqueológico.

De lo “prehistórico” a lo “étnico” en Tarapacá (norte de Chile): Crítica a las


narrativas hegemónicas y ejercicios de descolonización pendientes

Francisca Urrutia e Mauricio Uribe

Nuestra presentación pretende confrontar las narrativas homogeneizadoras y hegemónicas


con las memorias locales y la experiencia histórica sobre el pasado y los pueblos andinos de
Tarapacá. Lo anterior, con el fin de interpelar las mentalidades y las prácticas coloniales
envueltas en la arqueología, especialmente en Chile. Durante todo el siglo XIX y comienzos del
XX, el relato “prehistórico” coadyuvó en los procesos de formación estatal y la creación de
retóricas nacionales uni-raciales, cuya intención era describir las sociedades “primitivas” y los
pueblos “sin historia” en tanto preámbulo e inventario de formas políticas y expresiones

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culturales prístinas, autóctonas o indígenas. Estas debían ser interpretadas a partir de líneas
evolutivas que culminaban en el proyecto civilizatorio moderno y daban profundidad
temporal a los imaginarios de chilenidad madura. Actualmente, las investigaciones
antropológicas se concentran en torno a las categorías “étnicas” para explicar la emergencia
de los movimientos indígenas a finales del siglo XX. Esto, a partir de una intrincada
correspondencia con los procesos estatales postnacionales y las retoricas mundiales
multiculturales, lo cual ha conducido a la institucionalización de los espacios para legitimar y
representar la diferencia. El término “indígena”, paradójicamente, informa hoy sobre las
relaciones de colonialismo interno que fomentan ideologías nacionales esencialistas de
cultura e identidad; a la par que se liga al apoyo emancipatorio de las minorías étnicas. Por
ello, es preciso señalar que la indigeneidad no antecede a las relaciones sociales ni a la historia,
sino que constituye su resultado; pues se elabora en lo social e histórico a partir de
experiencias internas y miradas particulares. Desde esta perspectiva, analizaremos ciertas
prácticas de investigación arqueológica acorde con los intereses y las realidades de pueblos
andinos, entablados a partir de estrategias participativas e intercambios mutuos entre
expertos y comuneros. Nuestra crítica, entonces, consiste en cuestionar el pensamiento que
asocia irrestrictamente la alteridad cultural con el origen prehispánico y cualidades esenciales
inmutables; o bien, que la supeditan únicamente a procesos de etnogénesis y re-etnificación
en la era del multiculturalismo neoliberal. Por el contrario, proponemos, se debe relevar tanto
la variabilidad histórica de las identificaciones indígenas como la mirada antropológica sobre
el Estado, desmantelando las relaciones coloniales que intervinieron e intervienen en la
producción de conocimientos, categorías sociales y adscripciones étnicas. Ergo, también
implica redefinir lo social y cultural a partir de ensamblados y performatividades políticamente
cargadas, en constante mutación y siempre parciales; las que desbordan la reflexión humano-
centrada y generan simultáneamente una multiplicidad de afinidades posibles.

ST 05 | Artes indígenas e patrimônio na América Latina – México, Venezuela e


Brasil

Larissa Lacerda Menendez (Departamento de Artes Visuais, Universidade Federal do Maranhão –


UFMA, Brasil); Cesar Anibal Transito L. (Universidad Nacional Autónoma de México, México); Nalúa
Rosa Silva Monterrey (Centro de Investigaciones Antropológicas de La Universidad Nacional
Experimental de Guayana, Venezuela).

Este simpósio tem como objetivo mostrar o patrimônio da cultura material indígena em
estudos latino-americanos a partir da análise de dados bibliográficos em estudos sobre artes
indígenas no México, Venezuela e Brasil, assim como dar visibilidade às produções indígenas

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coletivas e autorais na atualidade. O simpósio visa problematizar essas produções e suas


abordagens teóricas a partir da perspectiva decolonial.

Literatura indígena de autoria coletiva: o território como espaço sagrado em


narrativas Kambiwá

Randra Kevelyn Barbosa Barros

Elizabeth Gonzaga de Lima

As produções artístico-literárias indígenas elaboradas no âmbito das aldeias apresentam


características que as distinguem da ideia de literatura atrelada apenas à escrita e a uma
atividade realizada de maneira individual por um autor. Tendo em vista as práticas cotidianas
em que a palavra está presente em narrativas transmitidas pelos mais velhos e também nos
cantos em vários rituais, Graça Graúna (2013) afirma que a palavra indígena é milenar,
existindo primordialmente em sua forma oral. A partir da implantação de escolas nas aldeias,
a escrita começa a ser inserida no contexto nativo. No ato de escrever, os professores
indígenas vislumbraram que ao registrar as narrativas contadas pelos sábios em livros
poderiam utilizá-las como material didático; e também possibilitariam que esses textos
circulassem por outros espaços e chegassem aos não-nativos (ALMEIDA, 2009). Inserindo-se
nesse processo, o livro Meu povo conta (2006) reúne histórias escritas por educadores
indígenas em Pernambuco, de vários povos do estado, como os Atikum, Kambiwá, Kapinawá,
Pankará, Pankararu, Pipipã, Truká e Xukuru. Embora os professores nativos tenham
transposto as histórias do oral para o escrito, os anciãos foram os narradores, assim como
outros membros dessas sociedades ilustraram os textos. Portanto, é um livro concebido a
partir da ideia de coletividade, em que esses povos se inscrevem nas textualidades, tanto na
proposta de elaboração da obra quanto no fato de o patrimônio cultural imemorial de suas
comunidades estar ali registrado. Levando em consideração a importância dessa publicação,
pretende-se analisar narrativas Kambiwá em que o território é entendido como espaço
sagrado. É o lugar em que habitam os ancestrais, por isso a necessidade de se manter nele e
buscar a retomada das terras. Como pontua Ailton Krenak (1999), essa noção de território
tradicional é um elemento fundamental para a compreensão da própria história de cada
sociedade nativa. No caso dos Kambiwá, a Serra Negra é tratada nas narrativas como lugar
essencial para a sobrevivência histórico-cultural desse povo. Essa relação com o território foge
da compreensão eurocêntrica e expõe outras formas de existência que não se pautam no

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poder hegemônico, demandando ser analisada a partir de um pensamento decolonial, que


abarca essa pluralidade de percepções, nesse caso se refere à visão nativa. Assim, as narrativas
Kambiwá mostram a visão de mundo desse povo por meio do exercício literário, o qual não é
elaborado individualmente, mas construído no âmbito da comunidade.

Os Tubos Sonoros Ameríndios: o que nos revelam as intencionalidades


complexas ameríndias

Gabriel Garcêz Bertolin

Stephen Hugh-Jones (2018) têm proposto pensar os tubos ameríndios como conceitos. Esses
tubos, segundo o autor, podem ir desde máscaras, utensílios cerâmicos, instrumentos
musicais, o próprio corpo, plantas, animais e mesmo marcas nas paisagens, como os rios. O
autor revela como a estética dos tubos atravessa tanto as práticas cotidianas, a cosmologias
e os rituais dos povos indígenas do Alto Rio Negro. Para essa apresentação a intenção é dar
atenção a um tubo muito difundido entre os povos indígenas da américa do sul, os aerofones
(flautas, trompetes e clarinetas). Esses tubos sonoros operam como produções propriamente
ameríndias de comunicação com outros mundos, seres, grupos e lugares. Em alguns casos são
a própria “presentificação” de outros seres, sejam eles animais ou agentes não-humanos.
Como mostra Alfred Gell (2001), ao se opor à análise de Danto que pensa a arte a partir da
distinção entre arte e artefato, é preciso pensar as produções materiais ameríndias como
elemento que “evocam intencionalidades complexas”. Para o autor muitos objetos
produzidos por outros povos colocam em relação intuições complexas sobre o ser e a
alteridade. Gell (2001) revela que somente é possível olhar para a arte do Outro a partir de
um movimento que se distancie dos ideais estéticos colonizadores expostos pelo pensamento
ocidental: ideia de beleza, de absoluto, de um objeto esteticamente superior, que coloca o
objeto de arte em oposição ao artefato ligado à técnica e muitas vezes a atividades ordinárias.
Como mostra Madina Tlostanova (2011), é preciso descolonizar os princípios que sustentam
uma ideia ocidental de arte e também descolonizar a própria noção de estética, movimento
que a autora caracterizou “anti-sublime decolonial”, um modo de sair das normas impostas
pelo pensamento ocidental colonizador. Desta maneira, procura-se, nessa apresentação,
tomando a ideia dos tubos como conceitos, descrever o acionamento e principalmente a
produção material dos aerofones, quais elementos e agentes fazem parte de sua composição.
Além disso, busca-se revelar como se revelam essas “intencionalidades complexas” e como
isso pode nos mostrar categorias que são capazes de descontruir e implodir os parâmetros
ocidentais de arte. Para realização do movimento proposto faço uso de material bibliográfico
que tem como elemento central os aerofones ameríndios (Acácio Tadeu Piedade, 2004; Rafael
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José de Menezes Bastos, 1999; Maria Ignez Mello, 2005; Hugh-Jones, 1979; Jean-Michel
Beaudet, 1997).

Plumária Ka'apor

Lourdes Maria da Silva Carvalho

A Terra Indígena do Alto do Turiaçu, a qual foi reconhecida em 1982, localizada no estado do
Maranhão, é o lugar onde vivem o povo Ka’apor, a sua língua faz parte do tronco linguístico
Tupi-Guarani. Além deles, nessas terras são encontrados indígenas das etnias Timbira, Tembé
e Awa- Guajá. Dentre essas etnias e, diversas outras encontradas no Brasil, a arte plumária
Ka’apor se destaca por sua beleza. E, a presente pesquisa, realizada através do Programa
Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), com bolsa da Fundação de Amparo à
Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), tem como
objetivo analisar a plumária e os rituais que as circunda, em especial as restrições alimentares
e atividades do cotidiano, por quais os pais passam, logo após o nascimento do seu filho, o
que termina ao ser realizado a cerimônia de nomeação dessa criança. Esses rituais e restrições
são retratados por William Balée, o qual foi o principal referencial teórico para essa pesquisa,
com a sua tese de doutorado intitulada “The persistance of Ka’apor culture”, de 1984, e o
capítulo “Ritual and Ecology” dessa tese, foram analisados. Contudo, foram identificados
alguns dos rituais em que Balée mais se refere no capítulo “Ritual and Ecology”, que vão desde
a primeira menstruação feminina, até a couvade, restrição pela qual os pais ka’apor passam.
Porém, um recorte é feito mais sobre o ritual de nomeação dos Ka’apor.

Arte indígena y patrimonialismo en el sur de México

Jorge Hernández-Díaz

En el sur de México, en el estado de Oaxaca, un sector importante de la población se involucra


en la producción de objetos artísticos; se trata de artefactos manufacturados, generalmente,
por mujeres y hombres indígenas que crean objetos estéticos con materias primas locales y el
auxilio de algunas herramientas, pero con técnicas manuales complejas, a la que comúnmente
se le clasifica como artesanías y en ocasiones objetos del de arte popular. En esta ponencia se
analizan las relaciones sociales, políticas y los procesos de patrimonialización que contribuyen
en la creación, manutención e intercambio de esta producción estética. En decir, interesa
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atender al conjunto de relaciones a través de la cual un conglomerado social determinado de


artistas o artesanos se inserta en el mercado en el que sus productos son mercantilizados en
función de los valores culturales de quienes los producen. Con datos provenientes de
múltiples entrevistas y una encuesta aplicada a más de novecientos productores se
documentan y analizan las manifestaciones de una compleja red de relaciones sociales en las
que se ven envueltos quienes se involucran en la producción de objetos artísticos y/o
artesanales en comunidades indígenas.

Arte e estética indígena: Canela Ramkokamekrá no Maranhão

Ana Raquel da Silva Farias

A seguinte comunicação tem como objetivo apresentar a pesquisa, ainda em andamento,


intitulada Arte e estética indígena: Canela Ramkokamekrá no Maranhão, que faz parte do
projeto de pesquisa Estéticas indígenas: artes visuais Canela e Ka’apor no Maranhão, do
Departamento de Artes Visuais da Universidade Federal do Maranhão, e foi contemplado pelo
Programa de Institucionalização de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC-voluntário). Objetiva
compreender e analisar como se dão os processos de elaboração e significação dos artefatos
produzidos pelos indígenas Canela Ramkokamekrá pertencentes ao tronco linguístico Macro-
jê, que vivem na aldeia de Escalvado, no município de Fernando Falcão, Estado do Maranhão.
Busca-se analisar a bibliografia sobre os Canela Ramkokamekrá, com foco na organização
social desses povos, cuja compreensão é necessária para analisar os fenômenos artísticos
dessa etnia. Autores como Curt Nimuendaju e William Crocker nos dão as informações
necessárias para a construção dessa análise. Nimuendaju (1946) com The Eastern Timbira
relata como se deram os primeiros contatos com os povos Timbiras, evidenciando suas lutas
frente aos colonos, bem como informações geográficas sobre as regiões que os Timbira
habitavam e as respectivas etnias ocupantes de cada área. Além disso, fornece dados sobre a
matéria prima para a produção dos artefatos. William Crocker (1990) em sua dissertação
intitulada The Canela (Eastern Timbira), I An Ethnographic Introduction fornece uma base
etnológica sobre os povos canela, discorre acerca da ecologia, aculturação, seus ritos festivos,
sistemas sociais, políticos e de parentesco. Traz informações importantes da relação existente
entre os ritos festivos, a produção e uso dos artefatos, dividindo-os em: 1) artefatos para
homens; 2) artefatos para mulheres; 3) itens feitos apenas para uso em certos atos festivos e;
4) itens concedidos para honrar o bom comportamento. Os artefatos que são de uso
cerimoniais tem melhor acabamento que os de uso cotidiano, segundo Crocker, e geralmente
não são usados fora do contexto do festival, com exceção da lança cerimonial e do pingente
de cabaça dorsal, que são itens de honra. Evidencia também a relação que há entre uso,
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produção dos artefatos, e rituais com a estrutura social desses povos e os respectivos papeis
sociais que cada um ocupa dentro da comunidade. Com esse levantamento bibliográfico será
possível analisar as produções artísticas – cestaria e artefatos de palha – dos indígenas Canela,
com a elaboração de fichas técnicas a partir dos estudos feitos sobre os artefatos que
compõem o acervo do Centro de Pesquisa em História Natural e Arqueologia do Maranhão.
Busca-se dessa forma evidenciar e valorizar a produção artística dos povos indígenas do
Maranhão.

O imaginário indígena na dança do Toré: construções simbólicas

Márcia Medeiros Figueiredo

Lusival Antonio Barcellos

A dança é uma expressão artística corporal presente em diversas culturas, trazendo nos seus
movimentos comunicações por meio de gestos e passos de dança, o que faz com que vários
povos a transmita através de uma educação informal e posteriormente formal quando
repassados conhecimentos teóricos e ao mesmo tempo práticos para os seus descendentes.
Muitos elementos presentes na dança nos remetem ao imaginário, no qual temos a
possibilidade de observar que a teoria do imaginário trata exatamente daquilo que circunda
nossas vidas, ou seja, a partir das circunstâncias do imaginar, pensar, refletir ele adentra no
nosso universo interno e posteriormente desvela-se externamente, trazendo significados por
meio de uma simbologia. E esses significados simbólicos nos remete investigar e perceber o
que eles representam para esses povos que praticam o ritual da dança. As populações
indígenas possuem uma dança típica em sua cultura a qual estar inserida num contexto social
desses povos e é celebrada em vários momentos de suas lutas por melhorias de vida,
reconquista de territórios e vida com dignidade humana, dentre outras reinvindicações e
comemorações. Tal dança – o toré faz com eles celebrem, lutem, vivam, sintam, emocionem,
motivem momentos na arte, costumes, cultura e tradições indígenas, nesse ritual sagrado,
presente na maioria da cultura dos povos indígenas do Nordeste do Brasil. No rito vários
elementos se conectam harmonicamente – cocar, maracá, colares, saias, pinturas pelo corpo,
descalços, arco e flecha, bumbo, dentre outros, cantando e dançando de forma circular uma
música típica da cultura indígena, diferenciando de acordo com a razão da celebração ou até
mesmo de cada povo/cultura indígena. Este estudo está ancorado em autores como Barcellos
e Farias (2015); Durand (1988); Durand (1997); Eizirik e Ferreira (1994); Gil (2002); Mendonça
(2014) e Silva e Sousa (2017). A pesquisa desenvolve sua temática numa abordagem
qualitativa, como: observações, entrevistas, e questionários para coleta de dados /
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informações. Ao realizar a dança do toré a prática corporal, traz / rememora / remete ao


imaginário no seu referido rito, ancestralidade, resignificado, reavivamento, celebração,
permanência da sua cultura, o que representa elementos utilizados na dança, são repassados
para os seus sucessores, no intuito de permanecer viva a cultura indígena dos Tabajaras da
Paraíba.

Duas aldeias, uma caminhada: análise do processo de passagem da


representação da imagem indígena para a autorrepresentação na produção
de vídeos

Maria Claudia Gorges

Marilda Lopes Pinheiro Queluz

Este texto propõe, tendo em vista o crescimento de documentários produzidos por


realizadores indígenas, uma análise do processo de passagem da representação da imagem
indígena, para a autorrepresentação, bem como de suas implicações. Uma análise que será
realizada a partir do documentário Duas aldeias, uma caminhada de 2008, produzido pelos
indígenas Guarani-Mbya, do Rio Grande do Sul, em parceria com o projeto Vídeo nas Aldeias.
O caminho a ser percorrido, pautado principalmente pela leitura de Ella Shohat e Robert Stam
(2006), aborda a temática da autorrepresentação da imagem, percorrendo as discussões
sobre a língua, o discurso e as tensões que Duas aldeias, uma caminhada gera, bem como a
desconstrução da concepção de que a autorrepresentação implica apenas em imagens
positivas.

A pintura corporal Mebêngôkre, na Aldeia Moxkàràkô em São Felix do Xingú,


Pará

Bepdjá Kayapó

Thomas R. A. Teixeira

O trabalho em questão trata da pintura corporal entre o povo Mebêngôkre, conhecimento


passado de geração em geração, essa expressão é usada em várias ocasiões, e é muito
importante para o povo Kayapó, existem várias pinturas corporais diferentes. Essa pesquisa
sobre a pintura corporal Mebêngôkre pretende compreendê-la a partir do ponto de vista de
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quem faz e, como ela pode ser utilizada em sala de aula. Inicialmente foi feita a pesquisa dos
autores sobre a pintura corporal Mebêngôkre, depois identificamos os mais velhos que sabem
fazer a pintura corporal Mebêngôkre para nos auxiliar na pesquisa, e em seguida verificamos
como poderíamos utilizá-la em sala de aula. O trabalho foi realizado na aldeia Moxkàràkô, no
município de São Felix do Xingú, Pará. A pesquisa é necessária porque algumas pinturas
Kayapó já estão se perdendo, por isso têm que ser ensinadas na escola e na comunidade para
as crianças. Esse projeto de conclusão de curso acerca da pintura corporal Mebêngôkre vai
contribuir para o povo e para as crianças na escola, pois no ambiente escolar vai ser ensinado
o nome da pintura, seu significado, o nome delas em português, como e onde ela é usada e,
as crianças irão aprender também como pintar o corpo de uma pessoa. Nessa perspectiva
elaboramos um material para que o professor possa utilizar em sala de aula. A pintura corporal
Mebêngôkre é usada há muito tempo atrás, desde nossos ancestrais, eles usavam várias
pinturas como: Pintura de jabuti, Pintura de anta, Pintura para guerra, Pintura do noivo, e
Pintura de chuva e etc. Algumas das pinturas que acabamos de ver não se usam mais nas
festas, e a pintura é dividida, tem pintura das mulheres, dos homens, da mulher gestante e a
do primeiro filho. Temos que valorizar essas pinturas, para que no futuro as crianças não
deixem de praticá-las, por isso é importante ensinarmos as mesmas para as crianças
Mebêngôkre, com o intuito de estimular o uso da pintura entre os mais jovens. Nesse estudo
pretendemos compreender a pintura corporal Kayapó a partir do ponto de vista de quem faz
e como ela pode ser utilizada em sala de aula.

A casa tradicional Mebêngôkre: da escola a aldeia

Moipati Kayapó

Thomas R. A. Teixeira

Este trabalho de conclusão do curso de Licenciatura Intercultural Indígena pretende


compreender a importância das casas tradicionais para o povo Mebêngôkre e sua importância
para a cultura desse povo, mostrando que os saberes em torno da construção das casas
tradicionais devem ser repassados aos mais jovens e, a escola é um espaço que também pode
promover essa transmissão. O tema foi escolhido para garantir esse conhecimento em sala de
aula, a partir da atuação como professor indígena (do primeiro autor), com o intuito de ensinar
os alunos indígenas, para que eles não percam o modelo da casa tradicional indígena
Mebêngôkre e todos os saberes necessários para sua construção. Assim também contribuindo
para a minha formação enquanto professor indígena. O interesse é também pelo fato de que
estamos perdendo as pessoas mais velhas que detêm esse conhecimento, então precisamos
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que ele esteja presente em espaços como a escola, para que permaneça vivo na cultura
Mebêngôkre. Esta pesquisa foi realizada na aldeia Àukre que fica localizada as margens do rio
Zinho próximo da entrada do rio Fresco, a 40 minutos de avião bimotor da parte urbana do
município de São Felix do Xingu-PA. O presente trabalho tem como objetivo compreender a
importância das casas tradicionais para o povo Mebêngôkre e sua importância para a cultura
desse povo, para tal incialmente identificamos quais são essas casas dos Kayapó e os materiais
necessários para sua construção; em seguida descrevemos a construção da casa tradicional
Mebêngôkre; para depois transmitirmos os saberes sobre elas para os mais jovens, que nesse
caso o material didático produzido cumpriu esse papel.

Arte indígena contemporânea: inovações, capturas e resistências na arte


brasileira

Nina Vincent Lannes

Neste trabalho, apresento alguns artistas indígenas – Jaider Esbell, Denilson Baniwa, entre
outros - que vêm conquistando espaço no mundo da arte contemporânea no Brasil, dos quais
me aproximei durante minha pesquisa de doutorado. Neste país, diferente de outros da
América Latina e das ex-colônias inglesas, percebemos um aparecimento muito recente de
indígenas que se afirmam e são reconhecidos como artistas. O interesse da arte pelos
indígenas não é novo, desde o romantismo, a antropofagia, central na arte brasileira, até a
atual valorização de minorias e forte associação dos indígenas à salvação diante dos
cataclismas ambientais no antropoceno. A grande diferença do momento atual é a tomada do
discurso e do espaço pelos próprios indígenas, que encontram terreno fértil no campo
artístico. Em suas obras e discursos, os artistas apresentam novas formas de tradução estética
das ontologias e práticas culturais de seus povos, buscam inspiração nas tradições para
produzir suas expressões, linguagens e poéticas próprias, dialogando com questões do
universo indígena e não-indígena contemporâneos. Para pensar e analisar esta produção é
preciso se situar neste terreno do entre, compreendendo as particularidades da expressão
estética ameríndia como mecanismo de criação de mundo, de pessoas e de relações, bem
como seu poder comunicativo e político em sua inserção no circuito da arte ocidental. A arte
indígena contemporânea no Brasil é múltipla e diversa, como são os artistas e povos indígenas,
e aponta para a necessidade de descolonização do campo artístico, de ocupação dos espaços,
de fortalecimento e visibilização cultural. É um processo dialógico de trânsito entre mundos
com grande potência política num momento em que ampliar a voz indígena e conquistar
parceiros na defesa dos povos e territórios é tão urgente.

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Artes indígenas brasileiras contemporâneas: os artistas Arissana Pataxó e


Jaider Esbell

Daiane Marques

Pretendo apresentar o protagonismo das artes indígenas contemporâneas através dos artistas
Arissana Pataxó e Jaider Esbell, ganhadores do prêmio PIPA (Prêmio Investigador Profissional
de Arte) de 2016. No século XIX, quando etnólogos começaram a valorizar as artes primitivas,
promoveram uma maior apreciação por parte de colecionares privados, museus, e historiares
da arte, que estabeleceram mais atenção aos aspectos artísticos da produção tribal. Desde o
século XX, a antropologia da arte vem produzindo diversos estudos sobre as artes indígenas,
reafirmando assim seu status de arte. Porém, esses estudos em sua maioria são produzidos
dentro das etnias indígenas e interligados com suas culturas. Já no século XXI, artistas
indígenas estão produzindo arte também fora de suas aldeias, e expondo em galerias de arte
e universidades, onde se definem como artistas indígenas contemporâneos, proporcionando
desse modo novas perspectivas a serem analisadas no campo da arte.

El arte de la miniatura ritual entre los zapotecos sureños de Oaxaca, México

Elvia Francisca González Martínez

El trabajo que se presenta en este congreso es una aproximación al arte en miniatura que se
deposita en cerros y manantiales sagrados de la Sierra Sur de Oaxaca, México. Este estudio se
cobija de investigaciones de corte etnográfico y antropológico realizadas en México (Broda,
2013; Lorente, 2011; Dehouve, 2016). El marco teórico-metodológico que se emplea en este
trabajo es la hermenéutica simbólica de Durand (2004) y la propuesta conceptual de Dehouve
(2014). De los postulados de Gilbert Durand se retoma el constructo teórico de trayecto
antropológico y de Danièle Dehouve se recoge el concepto de depósito ritual. Con base en
este fundamento teórico-conceptual se describen los diferentes tipos de miniatura que se
emplean en el marco de la investigación titulada “Culebra de agua: simbolismos terrestres y
acuáticos en las creaciones artísticas en miniatura de los zapotecos de la sierra sur de Oaxaca”.
Aunado a esta descripción tipológica, en esta ponencia se comparten algunas categorías

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interpretativas locales para comprender el simbolismo de las formas simbólicas de la


miniatura ritual que se elabora y usa en las comunidades de la Sierra Sur de Oaxaca, México.

A música indígena: uma escuta na Escola Estadual Indígena Wakõmẽkwa –


Povo Xerente, Tocantins-Brasil

Adriana dos Reis Martins

Raquel Castilho Souza

Karyleilla Santos dos Andrade

O presente texto é resultado parcial de uma pesquisa desenvolvida na escola Wakõmēkwa,


por meio do Projeto Interculturalidade, Identidade e Memória: desafios sócio-culturais,
midiáticos e educacionais na Aldeia Riozinho, Povo Xerente, no estado do Tocantins.
Compreendendo a importância que a música tem em cada cultura, o presente trabalho busca
reconhecer e registrar a música indígena Xerente, bem como, refletir sobre o seu ensino como
uma linguagem artística no contexto educacional indígena na comunidade escolar, por meio
de procedimentos metodológicos a partir de uma pesquisa-ação, de cunho etnográfico. As
seguintes questões norteiam a investigação: O ensino de música está presente no currículo
indígena? Se sim, a música indígena no âmbito educacional retrata os hábitos, brincadeiras,
rituais e festividades do povo da comunidade escolar? Inicialmente realizamos uma análise
dos documentos e da legislação para identificar as políticas públicas sobre educação indígena
no estado e o ensino de música como uma linguagem artística. Autores que fundamentam a
pesquisa são: Aguirre (2009), Coli (2006), Henriques et al (2007), Lagrou (2009), Moreira e
Candau (2014), Muniz (2017), Penteado e Júnior (2014), bem como os documentos legais dos
sistemas federal e estadual. Temos a intenção de ressaltar características basilares da
musicalidade indígena, valorizando a cultura indígena Xerente e suas sonoridades, a partir da
escuta musical e material identificado na pesquisa que é utilizado por eles ao cantarem. Para
tanto, criaremos um caderno musical “Ritmos e Canções Xerente”, com o objetivo de ser um
material didático que poderá ser utilizado no ensino das artes-música na referida escola.
Acreditamos que ao registrar a música do povo xerente e usa-lá em sala de aula no processo
de educação musical, esses alunos poderão desenvolver o sentimento pertencimento ao seu
povo, refletindo o processo de construção de identidades indígenas. Desse modo,
pretendemos auxiliar os professores da escola em suas práticas educativas, por meio de
produção de materiais didáticos-pedagógicos e oficinas musicais, para o estímulo da
revitalização da cultura Xerente.

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Artes indígenas no Brasil: principais estudos e pressupostos teóricos

Larissa Menendez

Essa comunicação tem como tema as abordagens teóricas das artes indígenas em estudos
brasileiros. O objetivo é demonstrar as bases teóricas destas análises e também trazer
exemplos de como a visibilidade destas artes foi possibilitada a partir destes estudos,
destacando as contribuições de Berta Ribeiro, Darcy Ribeiro, Lúcia Van Velthen, Els Lagrou,
entre outros autores. A apresentação mostra também o resultado de estudos de campo e
exemplos de artes visuais indígenas (coletivas e de artistas indígenas) de povos do Amazonas,
Mato Grosso e Maranhão, decorrentes de diversos projetos de pesquisa sobre o tema.

Wö’wa: cesteria Ye’kwana

Nalúa Rosa Silva Monterrey

Los Ye’kwana son un grupo indígena que vive a ambos lados de la frontera entre Brasil y
Venezuela. Su cestería siempre ha sido muy valorada pero en los años 1980’s alcanzó gran
renombre debido a que las Wö’wa se dieron a conocer ampliamente al convertirse en un
importante objeto de intercambio comercial. El origen de esta cesta es de tipo utilitario,
siendo la más utilizada para cargar yuca (Manihot esculenta), sin embargo los misioneros
católicos en la búsqueda de objetos que al ser intercambiados mejoraran los ingresos de las
comunidades, estimularon a las mujeres indígenas de una comunidad del Alto Erebato para
que basándose en su conocimiento tradicional experimentaran en la creación de una obra de
arte pero para el comercio. La descripción de la artesanía tradicional, su simbología, su
utilidad, sus características serán descritas en este trabajo para luego analizar la aparición de
la Wö’wa como objeto de arte.

Um olhar sobre a arte indígena nas Comunidades Samburá e Paiol de Barro


na TI Xapecó

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Cristiane Norberto

Márcia de Souza

Suzana Néres

Este trabalho tem por objetivo apresentar e discutir experiências artísticas indígenas nas
comunidades, Baixo Samburá e Paiol de Barro na Terra Indígena Xapecó (T.I.), nos municípios
de Ipuaçu e Entre Rios, Santa Catarina - SC, desse modo, buscamos reconhecer e valorizar as
manifestações artísticas presentes nessas comunidades indígenas. Enfatizamos as técnicas de
pintura e de confecção de cestarias e também desenvolvemos a pesquisa para a obtenção de
informações sobre as experiências e os dados biográficos dos artistas indígenas, Izael Néres e
Caroline Aires, instigando os diferentes públicos a conhecerem a cultura indígena, presente
em nossa região. A confecção de artesanatos vem sofrendo um processo de exclusão nas
aldeias, e isso ocorre basicamente por dois motivos, por um lado a população indígena não se
interessa em aprender as técnicas e, por outro, são raras as pessoas que dominam a prática
do trançado e que possam ensinar à comunidade. Quanto às pinturas indígenas, procuramos
o reconhecimento dessa atividade sem reforçar preconceitos, pois entendemos que a arte
está presente em diferentes contextos étnicos e culturais e deve ser conhecida dentro e fora
da comunidade indígena.

A arte oral Paiter Suruí de Rondônia e seu processo de organização junto aos
professores da Associação Gabgirey

Magda Dourado Pucci

Neste trabalho, discorro sobre os principais aspectos da arte oral Paiter Suruí de Rondônia,
constituída de narrativas, cantigas de pajé, canções do cotidiano, cantos rituais envoltos em
movimentos sociais, pesquisados durante oficinas com os Paiter Surui de Rondônia. A voz,
sendo o centro de toda a expressão Suruí, é quem conduz o amplo espectro sonoro que
extrapola uma análise estritamente musical, pois a intrincada relação entre a música e a
narrativa, entre a fala e o canto, entre a voz e o mito formam um intricado corpo sonoro-
antropológico. O processo de digitalização, catalogação e tradução do acervo da antropóloga
Betty Mindlin foi realizado durante oficinas desenvolvidas pela Associação Gãbgirey com a
colaboração dos mestres conhecedores da memória oral Paiter com auxílio dos jovens
professores.
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Tlakimilolli: voces del telar

Clementina Campos Reyes

En la Sierra de Zongolica, Veracruz, se produce hilo de lana teñido con tintes naturales y
textiles de calidad internacional. Las mujeres se encargan de reproducir y transmitir el
conocimiento sobre el fino arte del telar de cintura. Con gran talento y constancia ellas hilan
y tejen cada día su porvenir.

Grafismo na cestaria kaingang: memória e educação indígena

Elaine Daniel Sales

A pesquisa aborda a definição das metades clânicas do povo Kaingang, a partir dos mitos de
origens, dos irmãos gêmeos Kamé e Kanhru, de quem originou as metades clânicas rá tej e rá
ror. Estes grafismos estão impressos nas cestarias, nas pinturas corporais e amplamente
representados nos objetos de uso cotidiano dos Kaingang, suas formas estão associadas a
desenhos geométricos. Estes desenhos traduzem nossa organização social e modo de vida.
Estão agregados à mitologia e cosmologia.

Estética indígena: cultura e identidade

Carlos Maycon Almeida Santos


Fabiane Vasconcelos da Silva
Larissa Menendez

Este trabalho tem como objetivo principal, promover uma reflexão sobre as teorias que
versam a respeito da arte indígena, principalmente aquelas que afetam os estudos da arte
indígena no Brasil. Em razão disso, tem como ponto de partida realizar um levantamento
bibliográficos das produções de livros, artigos, teses, revistas entre outros que venham
realizar tal abordagem. Esta comunicação surge a partir das leituras e reflexões teóricas do
plano de pesquisa integrada ao Programa de Institucionalização de Bolsas de Iniciação
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Científica (PIBIC-voluntário) da UFMA e está vinculado ao projeto Estéticas indígenas: artes


visuais Canela e Ka’apor no Maranhão, pertencente ao Grupo de Estudos em Memória, Arte
e Etnicidade (GEMAE), do Departamento de Artes Visuais. Tendo em vista que a arte
“primitiva” é uma produção autônoma que se diferencia do conceito já estabelecido em nossa
sociedade moderna, mas que ao longo dos tempos vem resistindo ao conceito de estética
imposto como um padrão. Embora saibamos que a arte indígena assim como qualquer outra
forma de produção artística, surge como fruto das mesmas fontes que a arte ocidental, ou
seja, da técnica e da emoção, e que não deixam de condessar crenças, valores, ideias, assim
como a arte tida como dentro da moralidade, além do mais, permite provocar juízo de valor
estético tanto para quem aprecia, como para quem cria. Deste modo, as artes indígenas
distintas apenas na sua estética refletem ações, valores, crenças, ideias, de povos que
somente vivem em uma cultura que não é a nossa, não podendo ser isso ser visto como uma
limitação para o processo de criação artística. Se conhece como arte primitiva um conjunto
de objetos e ritos, mais especificamente, pinturas corporais, artefatos de cerâmica e cestaria,
adornos plumarias, música, a literatura, a dança entre outros objetos, a criação artística é
bastante diversa, porem pode apresentar características iguais ou semelhantes, a exemplo
podemos citar os elementos utilizados como matéria prima, uma vez que são encontrados na
natureza dispostos na natureza, outro exemplo são as algumas formas, como é o caso das
linhas, porém observa-se que esta é presente nas artes de todos os povos, e não só entre os
povos indígenas. Gell, que narra a partir de sua experiência de campo em Nova Guiné e na
Índia, busca elaborar e sobrepor um novo modelo conceitual aos objetos de artes,
considerado que as artes como pintura corporal, entalhes de madeiras, pinturas são tão
importantes para o estudo da antropologia, como as pinturas e estatuetas consagradas. Gell,
formula a teoria antropológica de arte, a teoria das relações sociais que enxerga as obras de
artes como agentes. Para demostrar e assegurar sua proposta teórica o autor cria uma
estrutura que é constituída por quatro unidades relacionadas que se comunicam como
agentes ou pacientes a depender do contexto. Sendo elas: o index, neste caso é a própria obra
de arte, o artist, que se refere ao criador da obra, recipient, que são aqueles que exercem
agência por meio dos indexes e por último o prototype, que constitui a entidade a ser
representada no index. Por fim, este trabalho tem como propósito também propiciar uma
maior visibilidade da indústria indígena, bem como valorizar. Como referencial teórico
utilizamos as obras Arte Primitiva de Franz Boas (2014), Arte e Agência de Alfred Gell (1988).

O ensino das artes e a construção do currículo intercultural na perspectiva


decolonial na Escola Estadual Indígena Wakõmẽkwa

Raquel Castilho Souza


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Karyleilla Santos dos Andrade

O presente texto é resultado parcial de uma pesquisa de doutoramento que tem como um
dos seus objetivos refletir sobre o ensino de Arte na escola Wakõmēkwa, da Aldeia Riozinho
Kakumhu, localizada no estado do Tocantins-Brasil, pensando na construção de um currículo
intercultural a partir da perspectiva decolonial. Temos a intenção de verificar se os saberes
indígenas se inter-relacionam com os saberes formais no ensino de arte. Partimos da análise
dos documentos legais que ampara as políticas públicas, referentes à educação intercultural
indígena no estado e o ensino das artes. As seguintes questões norteiam a investigação: Se o
currículo indígena é proposto em uma perspectiva da interculturalidade, os saberes cotidianos
se fazem presentes no ensino das artes? Será que o ensino das artes pode ser um dos
caminhos para a revitalização cultural nas escolas indígenas, tão desejadas pelos seus agentes
educativos e comunidade escolar? O percurso metodológico desse estudo caracterizou-se
como qualitativo, amparando-se na perspectiva etnográfica, por meio da pesquisa-ação.
Autores que fundamentam a pesquisa são: Almeida (2012), Almeida e Albuquerque (2011),
Candau (2008), Coli (2006), Collet (2006), Fleuri (2003), Lagrou (2013), Moreira e Candau
(2014), Muniz (2017), Santos (2009), bem como os documentos legais dos sistemas federal e
estadual. Em campo, identificou-se, na primeira fase da pesquisa, que os direitos por uma
educação indígena intercultural se fazem presentes nos documentos que regulam a Educação
Indígena no Estado para o desenvolvimento de ações que devem refletir efetivamente na
prática pedagógica da Educação Intercultural Indígena, de modo específico na Escola Estadual
Indígena Wakõmẽkwa. Porém, tais ações pedagógicas interculturais, projetadas nos
documentos e teorias, a priori, parecem não estar em total consonância com a realidade local
pesquisada e distantes da perspectiva decolonial. Sendo assim, identificamos que são muitos
os desafios a serem superados para a construção efetiva de um programa educacional
intercultural decolonial para expandir os conhecimentos culturais e o respeito às diferenças,
envolvendo o ensino das Artes. Acreditamos que as experiências adquiridas por meio do
ensino das artes poderão possibilitar o sentimento de pertencimento ao seu povo de origem,
inclusive no processo de construção de identidades.

As conexões entre performace e a pintura corporal Kurâ-Bakairi

Isabel Teresa Cristina Taukane

Ludmila de Lima Brandão

O presente trabalho traz os resultados iniciais da pesquisa em desenvolvimento cujo objetivo


é compreender a conexão entre a performance e a pintura corporal kurâ-bakairi. Inicialmente
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busca-se entender o não lugar das “artes indígenas” no sistema de arte ocidental, dessa forma
problematizamos a colonialidade da arte e o caráter universalista de incluir para excluir as
produções artísticas de povos não europeus (BRANDÃO; GUIMARÃES, 2012), (ESCOBAR,
2011). Em seguida, aborda-se sobre a pintura corporal. Conforme Lins (2011) a pintura
corporal, de modo geral, é um fenômeno que não pode ser visto apenas pelo viés da estética,
ela pode ser tratada como um contraponto a tendências homogeneizadoras da globalização.
E pode servir como instrumento de defesa identitária, estabelecendo uma alteridade cultural
e um retorno cíclico da memória coletiva. Assim, tratar a pintura corporal apenas pelo viés da
estética consiste em limitá-la. É importante e muito necessário ampliar este campo de estudos
para outras possibilidades. Como, por exemplo, o entendimento da pintura corporal como
performance ou como artes do corpo AGRA (2011) amplia-se compreensão não limitando-as
às artes visuais. Pois a pintura corporal como vestimenta da pele, para os kura-bakairi, como
indumentária é autônoma amplia as possibilidades e a performatividade do corpo, conforme
Rocha (2014). Por fim, não se busca uma recolocação histórica do entendimento das pinturas
corporais como arte, o que se busca é a ampliação das possibilidades de seu entendimento
como o corpo em performance, uma vez que são as pinturas corporais que não cabem nos
territórios conhecidos das linguagens da arte ocidental. Como bem diz AGRA (2011) "Os
corpos da performance não cabem nos territórios conhecidos. Estão em fuga permanente,
como discos voadores" (p.218), talvez a performance, seja, o que aceita os desvios daquilo
que não cabe na da arte ocidental eurocentrada e a tendência de subalternizar as
manifestações artísticas de outros povos.

Cinema de mulheres indígenas: trajetórias coletivas e agência feminina

Joana Brandão Tavares

A partir de um levantamento da produção cinematográfica de mulheres indígenas no Brasil, e


da análise destes filmes, este artigo propõe apresentar as principais temáticas e poéticas
utilizadas por estas mulheres, assim como traçar trajetórias criativas ao longo da obra das
cineastas. A produção cinematográfica indígena no Brasil tem crescido constantemente, em
número e diversidade de autores, desde os primeiros proje0tos na década de 1980, entre eles
o “Mekaron Opoi D'joi” (da língua Gê, ‘Ele, que cria imagens’ em que membros do grupo
Kaiapó aprenderam a trabalhar com a tecnologia do vídeo, e o Centro de Trabalho Indigenista
(CTI), que originou o Vídeo nas Aldeias, atualmente com mais de 70 filmes finalizados de co-
autoria indígena. Se em um contexto global, o primeiro filme de autoria de uma mulher
indígena - “My Survival as an Aboriginal” - já havia sido produzido na Austrália em 1979 a
indígena da etnia Muruwari, Essie Coffey (GINSBURG, 1991, p. 94), no Brasil essa produção

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até poucos anos atrás era predominantemente masculina, com algumas poucas exceções. Ao
mesmo tempo que a participação feminina é marcadamente menor que a masculina – no
projeto Vídeo nas Aldeia, que mantém a maior produção cinematográfica indígena no Brasil
até hoje, há apenas três realizadoras mulheres, para 35 homens (VNA, on-line) – a produção
bibliográfica sobre a apropriação indígena do cinema não traz especificidades sobre a
produção de mulheres. Com o crescimento do protagonismo de algumas cineastas na cena
cinematográfica dos festivais especializados, e com organizações dedicando-se
exclusivamente para oficinas de cinema para mulheres indígenas – como o Instituto Catitu,
que desenvolve oficinas principalmente no Xingu – torna-se cada vez mais importante refletir
sobre como a agência feminina dialoga com as potencialidades desta arte, analisando quais
são as representações construídas por essas mulheres em seus filmes. A partir deste contexto,
o artigo realiza uma análise da produção fílmica de quatro cineastas indígenas brasileiras:
Olinda Muniz, da etnia Pataxó Hãhãhãe, Graciela Guarani, da etnia Guarani-Kaiowá, Suely
Maxakali, da etnia Maxakali, e Patrícia Ferreira, da etnia Mbya-Guarani. Entre outros
elementos, observa-se a presença de uma reflexão sobre a agência da mulher nas culturas
indígenas contemporâneas, trajetórias que seguem da abordagem de questões culturais
gerais para a questão feminina em suas culturas, e a presença de um olhar feminino através
da transposição de elementos cosmológicos para a narrativa cinematográfica.

Imágenes Tejidas: textiles tradicionales indígenas Ayuuk (Mixes) de San Juan


Cotzocón, Estado de oaxaca y su inserción en el México contemporáneo

Cesar Transito

El Estado Mexicano ha mantenido una compleja relación con las creaciones artísticas de los
“otros”: los indígenas mexicanos. Este trabajo postula que las creaciones artísticas indígenas,
específicamente las artes textiles, han pasado por diferentes procesos valorativos que las
comparó, en los primeros años posteriores a la Revolución Mexicana de 1910, con las
manifestaciones artísticas europeas. Valoración que fue decayendo hasta colocarlas como
objetos artesanales de consumo turístico. Por otra parte, se muestra cómo los textiles tejidos
en telar de cintura en una comunidad mixe del estado de Oaxaca, manifiestan otra manera de
concebir el mundo, visión ligada estrechamente con lo sagrado y que es solidaria con las ideas
expuestas por autores de la Escuela Tradicionalista, principalmente las ideas de A. K.
Coomaraswamy y T. Burckhardt.

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ST 06 | Biografias e histórias de vida como porta de entrada para compreensão


de povos indígenas

João Pacheco de Oliveira (Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro- UFRJ, Brasil); Diego
Escolar (Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas – CONICET y la Universidad Nacional
de Cuyo, Argentina).

O objetivo desse simpósio temático é reunir pesquisadores de diferentes países e formações


disciplinares para abordar os povos indígenas, sua história e cultura, através de experiências
muito concretas vividas numa dimensão temporal, representada por relatos biográficos,
histórias de vida e trajetórias. Parafraseando Marc Bloch o que nos desperta a atenção, tal
como aos ogros nos contos de fadas, são os variados cheiros de humanidade, em que os
movimentos coletivos podem ser lidos, ilustrados ou contrapostos a percursos individuais. Ou
seja, casos em que ideologias e concepções de mundo se somam ou conflitam com as práticas
sociais, em que projetos e estratégias se relacionam com as emoções e com disposições
inconscientes. Em que o social não se apresenta como uma totalidade orgânica nem o cultural
como uma qualidade a priori e determinante, mas como um processo constitutivo,
expressando um jogo de forças contraditórias e sobrepostas. As clássicas histórias nacionais,
assim como os estudos antropológicos sobre povos indígenas específicos,
frequentemente tomam aos indígenas como personagens secundários – ou mesmo
paradoxalmente exteriores – à formação nacional ou a sua contemporaneidade no mundo
globalizado. A intenção deste Simpósio Temático, é propiciar um espaço para as pesquisas em
andamento sobre a história indígena e a presença dos indígenas em histórias nacionais ou
trasnacionais, com destaque para a descrição e análise das formas de dominação em que
estiveram/estão inseridos, os modos de organização de suas culturas e o simbolismo de suas
estratégias sociais, políticas e religiosas.

Das louvações às retomadas de terras: João de Nô e a mobilização política


contemporânea dos Tupinambá da Serra do Padeiro

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Daniela Fernandes Alarcon

João de Nô, como é mais conhecido João Ferreira da Silva (c. 1905-1981), rezador e
antepassado proeminente na aldeia Serra do Padeiro (Terra Indígena Tupinambá de Olivença,
sul da Bahia, Brasil) é uma personagem envolta em mistérios, lembrada por suas façanhas.
Nesta comunicação, apresentarei elementos de sua trajetória, em conexão com o presente,
isto é, enfatizando seu lugar na memória social dos Tupinambá da Serra do Padeiro,
conhecidos pelo vigor de sua mobilização política, assentada nas retomadas de terras.
Lastreando-me em relatos e fontes escritas, indicarei a importância de João de Nô para a
conformação da identidade tupinambá, levando em conta principalmente sua atuação no
estabelecimento do culto aos encantados, iniciado em louvações na casa do rezador, e sua
trajetória de resistência territorial. Descreverei seu papel na transmissão de histórias sobre o
processo de expropriação – narrativas que vêm lastreando a recuperação territorial –, bem
como sua atuação para a manutenção sustentada do grupo étnico nos períodos agudos da
dispersão dos indígenas para fora do território, em razão do avanço da fronteira capitalista.
Considerarei também algumas das maneiras pelas quais sua imagem é acionada na construção
dos modos de vida partilhados na aldeia, destacando-se os valores sociais nele encarnados, e
sua participação no processo de recuperação territorial travado pelos Tupinambá, por eles
compreendido como parte de um fazer político em que convergem vivos e mortos.

Claudia Andujar: trajetórias, narrativas fotográficas e dialogicidade com os


Yanomami

Micael Luz Amaral

Marília Flores Seixas de Oliveira

Esta pesquisa analisa as fronteiras entre a etnografia e as narrativas ficcionais de Claudia


Andujar, discutindo a fotografia enquanto linguagem artística utilizada na construção das
representações da cultura indígena Yanomami, focalizando a importância de Andujar na
representação desta etnia. Naturalizada brasileira, Claudia Andujar (1931) nasceu na Suíça,
chegando ao Brasil em 1955. Fotógrafa e ativista das causas indígenas, dedicou vida e obra
aos povos Yanomami. Participou, entre 1978 e 1992, da Comissão pela Criação do Parque
Yanomami e coordenou a campanha pela demarcação das terras indígenas. Suas fotos,
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expostas em importantes museus (como o Museum of Modern Art, NY e o Museu de Arte


Moderna de São Paulo), e publicadas internacionalmente, estabelecem significativa
iconografia fundamental de referência étnica e cultural e, com uma estética documental e
inovadora, representam a vida em comunidade dos Yanomami, em fotos que revelam um
íntimo diálogo entre a luz e o símbolo (DUARTE, 2003). A pesquisa volta-se, sobretudo, para a
análise dos livros Yanomami: A Casa, a Floresta, o Invisível (ANDUJAR, 1998) e A
Vulnerabilidade do Ser (ANDUJAR, 2005), duas obras importantes para a compreensão e a
abordagem desta fotógrafa e ativista sobre este povo indígena. As fotos revelam uma relação
dialógica entre Andujar e os Yanomami. Sob o ponto de vista da estética, as fotografias
abstratas de Andujar subvertem a tradição documental, estabelecendo uma ruptura de
linguagem nos anos 1970 no Brasil (CASTANHEIRA, 2014). O primeiro livro analisado,
Yanomami (1998), apresenta uma série de fotografias acerca da cultura e dos fazeres desse
povo, tendo se tornado um importante documento para iconografia indígena brasileira. As
fotografias anunciam a singularidade do trabalho da autora e a intrínseca relação entre
fotógrafa e fotografados. Já no livro A Vulnerabilidade do Ser (2005), Andujar trabalha a
respacialização das fotografias realizadas nas décadas de 1970 a 1990, inserindo montagens
e sobreposições, ressignificando seus contornos estéticos, mediante à ampliação da sua
cosmovisão. Conforme Moura (2017), alguns elementos marcam significativamente o
trabalho da artista: a retratística, por exemplo, é o modo escolhido para individualizar os
Yanomami e acentuar a beleza dos seus corpos; já a luz é elemento fundamental e
indispensável na construção das atmosferas, é por entre as formas da luz que Andujar
encontra meios de anunciar a representação dos signos da cultura indígena e transmitir os
valores herdados da experiência desse encontro. É partindo dessa relação de reciprocidade e
dialogicidade (BUBER, 2001) que Andujar se reconhece como sujeito e interlocutora dessas
narrativas.

Oiapoque começo ou fim do Brasil?

Rosilene Cruz de Araújo e Evilania Bento da Cunha

O município de Oiapoque é carregado por simbologia, uma das frases populares consagradas
é: “do Oiapoque ao Chui” para caracterizar o ponto geográfico do extremo norte do Brasil,
mesmo que hoje a técnica já tenha comprovado que o ponto norte mais extremo está no
estado de Roraima. O município tem um pouco mais de 70 anos de emancipação política, mas
tem uma vasta história do ponto de vista de ocupação dessa área por diversos povos
indígenas. Atualmente o município conta com quatro povos: Karipuna, Galibi Maroworno,

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Palikur e Galibi Kali’na em três Terras Indígenas Uaça, Juminã e Galibi. São inúmeros fatos
históricos que marcam a vida de Oiapoque dentre eles um avião das forças armadas
Americana que caiu no monte Cajari na T.I. Uaça durante a segunda guerra mundial, outro
fato foi o distrito militar de Clevelândia do Norte como prisão política durante o período da
ditadura militar no Brasil. Dessa forma, pretendemos ouvir os relatos indígenas sobre esses
dois episódios e registrar do ponto de vista dos indígenas o que esses eventos históricos
interferiu nos seus cotidianos. Esse trabalho está em fase de construção para o seu
desenvolvimento adotaremos a história oral como metodologia.

Memorias del agua: historias, discursos y políticas sobre la escasez y


abundancia hídrica en territorios disputados

Aldana Calderón Archina

En este trabajo propongo abordar memorias locales que se hayan articuladas a


transformaciones en el paisaje ligadas a fenómenos de sequía o abundancia hídrica, em
distintas localidades rurales de la provincia argentina de San Luis (centro oeste) donde habita
población indígena. Me basaré en experiencias disímiles, relatos y situaciones surgidas en el
marco de mi trabajo de campo etnográfico. Los sucesos narrados por mis interlocutores giran
en torno a episodios atravesados por cambios abruptos en los cursos de agua de ríos y lagunas
y las consecuencias que trajeron aparejados, por ejemplo: casos de diáspora y despojo. En
relación a esto último, es necesario señalar el entrecruzamiento entre agua y territorio, dado
que estas historias de vida también nos hablan de formas de habitar y disputar el territorio.
Es decir, estos fenómenos no se explican únicamente por causantes ambientales, sino que se
encuentran insertos en disputas de poder articuladas a políticas y formas de administrar los
recursos naturales de diferentes momentos históricos -algunas de las cuales se retrotraen
hasta el presente-. Por todo esto, es que me interesa indagar, a los efectos de dar cuenta
acerca de cómo se articula en la memoria social el pasado, el presente y el devenir colectivo
de estos grupos autoadscriptos como indígenas y/o sus descendientes.

Zé Zabel Perna-de-Pau: um “herói indígena” Tapeba?

Henyo Trindade Barretto Filho

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Inspirando-se no (ainda que afastando-se do) modelo clássico da etnobiografia, o trabalho se


propõe a construir, a partir de depoimentos orais de índios e não índios - seguindo a
metodologia desenvolvida por Vansina (1973) -, e de algum repertório documental, a
trajetória de um importante líder indígena Tapeba, que se destacou na primeira metade do
século XX: José “da Isabel” Alves dos Reis, mais conhecido como Zé Zabel Perna-de-Pau. Um
ilustre desconhecido, mas merecedor de um curtíssimo verbete na galeria dos Heróis
Indígenas do Brasil de Almeida (1988), Perna-de-Pau - termo também é usado como etnônimo
na paisagem social local do distrito da sede do município de Caucaia - é o apelido de um
ancestral que residiu no lugar denominado Paumirim e aos quais (ancestral e lugar) muitos
Tapebas remontam ao traçarem suas genealogias - no que concerne a pelo menos um grupo
de agnatos, “os Zabel”. Filho - com seus dois irmãos, Luís e Antonio - de uma relação
extraconjugal do “tronco velho” Antônio Alves dos Reis com uma negra forra chamada Isabel
“Torta” e tendo - com seus dois irmãos - trabalhado como seringueiro na Amazônia, Perna-
de-Pau manteve união sororal poligínica singular com as irmãs Paulina - ou Maria Deolin(d)a -
e Tereza Teixeira de Matos, gerando descendentes, alguns dos quais casaram-se entre si,
constituindo um linhagem peculiar. Embora seja arriscado dizer que o Paumirim foi um grupo
local endogâmico, certamente foi um deme onde dificilmente se admitia pessoas “de fora da
família”, no qual Perna-de-Pau exerceu forte liderança, sendo tido como o “último tuxaua”,
após cuja morte - ocorrida, estima-se, em torno de 1950 - os Tapebas que viviam sob sua
liderança saíram em diáspora para formar muitas comunidades em que vivem hoje. Muito da
sua força e autoridade parecia advir da sua aparência física (tendo perdido a perna em um
acidente com um rojão numa festa junina), de seus hábitos e habilidades, e das relações
ambivalentes que cultivou com pessoas da elite política local (tendo sido compadre do
Tenente Coronel Edson da Mota Correia, um dos mais tradicionais políticos cearenses, que
deteve durante muito tempo a liderança eleitoral de Caucaia - somando 9 legislaturas).
Imagine-se um velho cafuzo alto, forte, encorpado, barbudo, feio, com uma perna-de-pau e
um chicote na mão, fumando cachimbo, sanfoneiro, que gostasse de cachaça, de
temperamento forte e invocado. O detalhamento de suas características e condutas pessoais,
trajetória, redes de parentesco e de relações estabelecidas, estilo e alcance de liderança, e
áreas ocupadas, permitirá entender aspectos dos modos de vida Tapebas na primeira metade
do século XX e dimensões importantes de como estes se pensam como grupo e vivem no
território que reivindicam há mais de 30 anos.

A participação social e cultural do ancião na comunidade

Marlei Angélica Bento

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O referido trabalho, trata da visibilidade e participação dos anciões em suas comunidades,


desenvolvido na aldeia São João do Irapuá, Terra Indígena Guarita, no município de Redentora
- RS, destacando sua contribuição social, cultural e econômica, quais são os saberes que eles
detêm, de que maneira estão passando seus conhecimentos à diante, e seu papel
protagonista e coadjuvante nas atividades da escola e reuniões da comunidade. Refletindo
sobre a forma de tratamento e comparando-as com a forma ocidental de se conviver com
pessoas de idades mais avançadas, já que se tem observado diferenças nesse aspecto.
Refletindo também, em relação aos seus costumes, a resistência deles em continuar com seus
antigos hábitos como, ter preferência a casas mais simples, para que possa fazer o seu fogo
de chão, a sua cama bem próxima, e preparar seus alimentos tradicionais, como também a
estrutura familiar possibilita que esse ancião conviva diretamente com seus netos, bisnetos e
até mesmo com os demais sobrinhos-netos da família, destacando a sua participação nos
diversos ambientes e grupos sociais, dividindo suas experiências pessoais, conselhos para boa
conduta e conhecimentos histórico-culturais do seu povo.

Micropolíticas de manutenção linguística: trajetórias e experiências – o


projeto 'Eu Sou Bilíngue' e o Campeonato da Língua Paumari

Ana Carla Bruno e Claudina Azevedo Maximiano

Neste trabalho, apresentamos duas iniciativas dos Paumari e Apurinã para manter suas
línguas: O Programa 'Eu sou Bilíngue' e o Campeonato da Língua Paumari desenvolvidos em
Lábrea onde observamos uma capacidade mobilizatória e de resistência ao que se refere ao
uso, atitudes e crenças relacionadas as línguas indígenas. Esta região tem sido cenário das
mais variadas experiências de desenvolvimento para Amazônia: como por exemplo, o impacto
das empresas seringalistas, a pecuarização, sem falar da utilização e exploração da mão de
obra indígena. (Menezes & Bruno 2014). Partindo dessa realidade surge duas iniciativas que
estamos chamando de micropolíticas linguísticas. O programa 'Eu sou bilíngue' iniciado em
2010 com a mobilização do indígena Edilson Paumari que realizava de forma voluntária cursos
sobre a língua e cultura Paumari no espaço da casa de sua família. E que em 2011, procura a
FUNAI para apoiá-los. Nesse processo, o povo Apurinã também é incluído. A partir do
“Programa Sou Bilingue Intercultural”, que tinha por objetivo principal atender os indígenas
que estavam na cidade, surge o “Campeonato da Língua Paumari”, iniciativa de mobilização
dos indígenas da Terra Indígena Paumari do Lago Marahã. A metodologia utilizada no processo
de construção do evento, campeonato da Língua Paumari pode ser considerada como
Inovação. Existem, porém, fragilidades no processo de efetivação dessas ações. Tal situação
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tem provocado um início de reflexão entre as lideranças sobre a sustentabilidade dessas


atividades.

“Entonces yo soy una salsa huichol”, las historias de vida como instrumento
de cohesión social en la conformación de las identidades en la comunidad
indígena de Presidio de los Reyes, Nayarit

José Luis Quintero Carrillo y Jorge Luis Marín García

Las historias de vida no deben ser entendidas como narraciones aisladas de su contexto, sino
como productos del lenguaje que se inscriben en un sistema sociocultural definido en el que
están implicados los aspectos subjetivos y las circunstancias que rodean las distintas
trayectorias de vida de las personas. Entendemos, además, que el acto de narrar es algo más
que describir eventos o acciones. Narrar es, también, organizar en tramas o argumentos tales
acontecimientos y atribuirlos a un personaje (o personajes) en particular. Creemos que al
narrar su pasado, los individuos no simplemente lo repiten, sino que lo recrean y
contextualizan dentro de unos códigos particulares, modos de selección, énfasis y olvidos. La
realidad particular de los habitantes de la comunidad indígena de Presidio de los Reyes, en el
estado de Nayarit, México, como la de todo grupo social, está formada por códigos de
expresión propios, palabras, acciones, comportamientos y gestos, que se transmiten y
reproducen de padres a hijos, y que funcionan para identificarlos y distinguirlos de otros
grupos. En ese sentido, la lengua es un poderoso vehículo para transferir los valores culturales
de la familia, de la comunidad, del grupo al que se pertenece y que lo dota de identidad. En
este trabajo examinaremos el modo en que los habitantes de la comunidad multiétnica de
Presidio de los Reyes desarrollan su sentido de identidad, pensándose como protagonistas de
sus propias narrativas. Veremos que es la narrativa la que construye la identidad del personaje
al elaborar el argumento de la historia (Ricoeur, 1996), y no viceversa. Ese constante ir y venir
entre narrativas e identidades –entre vivir y contar– permite al narrador ajustar sus historias
para que las mismas concuerden con su identidad. El carácter multiétnico de la comunidad de
Presidio de los Reyes exige un tratamiento interdisciplinario que preste atención a los marcos
de referencia culturales, antropológicos, sociales y lingüísticos de sus habitantes. Es decir, si
consideramos que el ser humano tiene una tendencia natural a las historias, sea para
producirlas o escucharlas, en esta investigación nos proponemos analizar los códigos de
expresión propios, palabras, comportamientos y gestos, que se transmiten y reproducen en
el ámbito familiar y/o comunitario a través de las historias de vida, y que funcionan para

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identificar y distinguir de otros grupos sociales la realidad particular de los habitantes de


Presidio de los Reyes.

Mulheres Kaiowa: urdindo resistências à modernidade

Romina Celona

A pesquisa desenvolvida propõe evidenciar a complexidade das relações de sexo/gênero entre


as mulheres Kaiowa no atual Mato Grosso do Sul (MS), assim como também, explanar as
implicâncias desses vínculos nas formas de organização dos seus coletivos. Compreendendo
suas práticas e discursos como possíveis dimensões na resistência cultural e política à matriz
colonial e moderna, o objetivo principal pretende aprofundar em suas narrativas e
experiências através de pesquisa de campo. Pretende-se resgatar tanto as diversas
manifestações da sua agência no particular, quanto a interferência delas no cotidiano das
relações comunitárias. Espera-se demonstrar a importância na ação transformadora de estas
mulheres, como protagonistas permanentes na História no continente. Aponta-se a resgatar
as relações intersubjetivas na sociedade Kaiowa e Guarani do Mato Grosso do Sul e a
identificar a emergência de discursos autônomos, com uma perspectiva etnográfica desde um
olhar de mulheres. Entender estas subjetividades, ativas na resistência perante os avanços
ocidentalizantes que atingem as sociedades indígenas, torna-se imprescindível para uma
perspectiva crítica na antropologia latino-americana. Valorizando seus costumes e hábitos
como práticas insubmissas e rebeldes perante múltiplas tentativas de disciplinamento, busca-
se demonstrar seu rol ativo nas reivindicações políticas das suas comunidades. A pesquisa,
transita pelos rituais cotidianos destas mulheres evidenciando a sua importância na
construção do universo cultural e político kaiowa.

Retomada Mbyá Guarani de Maquiné/RS: narrativas de tempo e espaço

Katiane Machado Cezimbra

O trabalho tem por objetivo compreender e contar a história da retomada Mbyá Guarani de
Maquiné, município localizado em área de Mata Atlântica na encosta do Planalto Meridional,
na transição com o Litoral Norte do Rio Grande do Sul. O processo de retomada do que hoje

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constitui a Tekoá Ka’aguy Porã iniciou em janeiro de 2017, com a ocupação, pelos indígenas,
de uma área de terra pertencente à Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (FEPAGRO),
uma das seis fundações estaduais extintas pelo governo do Estado do Rio Grande do Sul a
partir de dezembro de 2016. Desde o início do processo de retomada, uma série de ações
judiciais e políticas foram travadas entre os Mbyá Guarani e seus apoiadores (coletivos, ONG’s,
universidades, etc.) e o governo. No entanto, a comunidade se (re)territorializou e vem
colocando em prática seu modo de vida, inclusive com a construção de uma de escola indígena
de perspectiva autônoma, batizada de Tekó Jeapó. Do ponto de vista metodológico, a
pesquisa que origina este trabalho está analisando uma série de fontes e documentos que
servem de base para a construção de uma narrativa histórica. Dentre estas fontes e
documentos, incluem-se a análise da cobertura da imprensa gaúcha, os documentos da
Fundação Nacional do Índio (FUNAI), do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e da
Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do RS
(CCDH/ALERS), além de um conjunto de entrevistas com as lideranças da comunidade e dos
Mbyá Guarani, que visam tecer a História Oral dos mesmos. A partir dessas fontes históricas,
problematizamos e organizamos narrativas que buscam dar conta de entender a dimensão
temporal e espacial dos Mbyá Guarani no Rio Grande do Sul, em especial da comunidade que
se estabelece na retomada em Maquiné, além de analisar os inúmeros conflitos vividos por essa
população nos últimos 10 anos. Buscamos entender e contar como a retomada se constitui em uma
reterritorialização, neste caso definida temporal e espacialmente desde uma perspectiva geo-
histórica.

Estado Nacional e trajetórias de vida: líderes indígenas de Pernambuco na


primeira metade do século XIX

Mariana Albuquerque Dantas

Em Pernambuco do século XIX, mais precisamente na zona da mata sul, área de grande
produção açucareira, destacaram-se duas importantes lideranças indígenas do aldeamento de
Barreiros, Agostinho José Pessoa Panaxo Arcoverde Camarão e Bento José Duarte. O primeiro,
descendente de uma linhagem tradicional de chefias em Pernambuco que remetia ao período
colonial, e o segundo, um líder construído a partir do apoio de outros indígenas da localidade.
Os dois se envolveram nos conflitos armados iniciados pelas elites ocorridos na primeira
metade do Oitocentos. Embora em alguns momentos tenham lutado do mesmo lado,
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defendendo as forças imperiais, tiveram divergências e trajetórias diferentes, o que ajuda a


evidenciar as formas pelas quais os índios de Barreiros atuaram nos conflitos políticos do
período. Embora as informações sejam escassas, podemos remontar a trajetória política e
militar de ambos à primeira metade do século XIX, quando participaram da Guerra dos
Cabanos, ocorrida entre 1832 e 1835, e da Insurreição Praieira de 1848. Nesse período,
envolveram-se também nas disputas pela administração das terras do aldeamento, divergindo
sobre o perfil do indivíduo que deveria ocupar o cargo de diretor e sobre a possibilidade de o
espaço ser arrendado a não índios. As experiências de Agostinho e Bento são significativas
para ilustrar a participação política de indígenas na construção do Estado nacional brasileiro
no século XIX. Fizeram escolhas inseridos em redes de relacionamentos que construíram com
não indígenas da vila vizinha e entre seus liderados, participando assim do jogo político local
e recorrendo às armas quando entendiam ser necessário. Ao conectar a arena política mais
específica às disputas no cenário nacional, a análise sobre a atuação de ambos permite
reavaliar as narrativas sobre a formação do Estado brasileiro oitocentista, apontando para
uma crítica à ausência das populações indígenas e às perspectivas estereotipadas sobre elas.

A figura do intérprete militar (língua) nas bandeiras e aldeamentos na


Capitania de Goiás (1721-1832)

Thiago Cancelier Dias

A presente comunicação versa sobre os índios coloniais da Capitania de Goiás e os contextos


que perfizeram suas escolhas: o campo de atuação, a experiência da interlocução e a agência
indígena na situação colonial. Na leitura da documentação sobre bandeiras, descimentos e
aldeamentos é recorrente encontrar a figura do chamado língua. Percebe-se que língua era
um ofício no qual consistia em ser intérprete e interlocutor nas relações entre portugueses e
os chamados por eles de “gentios de nação”. Analisa-se sua presença como parte da estratégia
de contato e intermediação nas negociações entre sertanistas, jesuítas e oficiais das tropas da
Coroa com as aldeias indígenas presente nos sertões, com os índios aldeados nos aldeamentos
e nas fazendas que possuíssem grandes plantéis de índios administrados. Verificou-se que há
casos de escravos e portugueses trabalhando como línguas, mas no geral os preferidos eram
indígenas da mesma formação sociocultural e língua da aldeia a ser reduzida. São discutidos
vários casos de línguas para entender como se dava a sua formação e atuação nessa profissão.
Observa-se que em geral eram recrutados nas aldeias a partir de negociações, ou a força, para
serem intérpretes militares, ou nas fazendas onde eram tratados como índios administrados.
E que os indígenas mais procurados eram os ladinos no sentido do século dezoito, ou seja, de
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entender os costumes portugueses e saber andar entre eles, ao mesmo tempo, conhecedores
da cultura e sociabilidade indígena. Defende-se que houve mudanças no seu recrutamento e
formação, após a década de 1770 a preferência era que fosse da família do maioral (líder). A
partir de seu recrutamento recebia nome português, eram batizados e adentravam no mundo
colonial como afilhados de governadores, capitães, “nobres” e comerciantes. Percebe-se que
faziam um jogo duplo no sentido de ora contribuir com os colonizadores nas negociações de
paz e vassalagem, na organização dos aldeamentos, nas estratégias de convencimento; ora
organizavam revoltas, fugas e desarticulavam bandeiras e aldeamentos; apresentavam
exigências, negociavam e interpretavam as normativas e as práticas coloniais a favor de sua
aldeia e família. Conclui-se que eram agentes sociais que eram interlocutores e como tal
tinham possibilidade de administrar as perdas envolvidas no processo colonial e conduzir seus
interesses e de seu grupo familiar mesmo em situação adversa.

Os significados da força de trabalho dos índios na capitalidade do Rio de


Janeiro Colonial no século XVIII: A expansão da cafeicultura no Vale do
Paraíba

Augusto Drummond Dias Neto

O objetivo deste trabalho é compreender o lugar da força de trabalho dos índios, na


capitalidade do Rio de Janeiro, no contexto da expansão da cafeicultura no Vale do Paraíba
durante o século XVIII. As sociedades indígenas que viviam na territorialidade do Rio de
Janeiro devem ser consideradas como agentes sociais importantes para a compreensão mais
ampla do período colonial. Para isso, precisam ser entendidas como sujeitos dos processos
históricos nos quais estavam inseridas. É importante destacar que o papel dos índios na
capitania do Rio de Janeiro foi, no tocante ao universo laboral, uma força de trabalho que
exerceu diferentes atividades. Necessário dizer que a política da Coroa portuguesa com
relação aos indígenas oscilou entre o desejo de ter os índios como mão de obra e, ao mesmo
tempo, como aliados em aldeamentos, caracterizando-se por diversos mecanismos legais que
se sucediam e, muitas vezes, se complementavam. Isso se deu em meio a um cenário de
disputas em que estavam inseridos os índios, colonos, jesuítas, e missionários de outras
ordens religiosas. Em meados do século XVIII, duas possibilidades de escravização
prevaleceram na colônia: o resgate e a guerra justa. Neste enredo, em comum, a ideia do
combate à incivilidade dos índios não-aliados. A invisibilidade do indígena como força de
trabalho essencial para o desenvolvimento da colônia foi construída histórica e socialmente.
O processo de apagamento de suas identidades étnicas e culturais foi promovido, em grande
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medida, pelas dimensões socioeconômicas e simbólicas da noção de capitalidade investida na


territorialidade do Rio de Janeiro desde o setecentos. Os esquecimentos historiográficos a
este respeito são parte desse construto histórico, tornando essa invisibilidade um problema
epistemológico. A etnohistória indígena é uma perspectiva metodológica importante para a
superação desse hiato historiográfico. Um elemento fundamental na captura da força de
trabalho dos índios na elaboração da identidade política do Rio de Janeiro é a noção de
capitalidade, conceituada por Argan, onde uma cidade passa a representar a unidade e a
síntese de uma nação. Esse passado constituiu uma tradição única da cidade, marcando o que
é próprio e o que a separa das outras regiões do país. A característica singular da cidade do
Rio de Janeiro é o fato dela ter se construído historicamente como o eixo da capitalidade do
país. No século XVIII, a centralidade do Rio de Janeiro no cenário brasileiro foi reforçada em
1763, ano da transferência da capital do Brasil de Salvador para o Rio, pela necessidade da
Coroa Portuguesa de garantir maior controle sobre a riqueza gerada com a produção do ouro
em Minas Gerais. A importância da cidade para a sustentação do império português parecia
ser consenso no setecentos, pela prosperidade que a capitania experimentava. A política de
povoamento e fundação de vilas se impôs e se aprofundou durante toda a segunda metade
do século XVIII, expandindo os significados dessa capitalidade. É possível verificar que durante
a expansão da cafeicultura foi estabelecida uma relação de dependência entre a mão de obra
escrava e o móvel produtivo, que foi beneficiada pela estrutura criada pelos engenhos de
açúcar. O aumento da produção cafeeira estava ligado ao crescimento da entrada de escravos.
Durante o período minerador, a Coroa portuguesa impedia a ocupação de diversas áreas de
Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo para evitar o contrabando do ouro. No entanto, essa
situação foi revertida com a expansão do café.

Participación y emancipación como modus vivendi en la asociación pionera de


mujeres mapuche williche Malgnmapu (1980-1999)

Michel Duquesnoy

Desde la década de los años sesenta en la Norpatagonia chilena existieron varias agrupaciones
de mujeres reunidas en los conocidos Centros de Madres cuyas actividades se centraban en
capacitaciones diversas y manualidades. Existe muy poca información oficial al respecto. En la
Décima Región (este momento juntaba las actuales Regiones de los Lagos y de los Ríos), tres
territorios contaban con agrupaciones a carácter propiamente femenino y étnico: Chiloé,
Valdivia y Osorno. La provincia de Osorno demostraba una vitalidad importante ya que 40
grupos diferentes se encontraban en la zona. No obstante, en el territorio de Misión San Juan,
un grupo de aproximadamente 150 mujeres empezó a distinguirse por su preocupación
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netamente étnica, dando un “toque” femenil a sus numerosas actividades (capacitación,


talleres, difusión cultural, etc.). La participación fue su eje constitutivo y operativo distintivo.
La dictadura pinochetista impuso un silencio relativo a los 14 grupos ya existentes aunque sin
reconocimiento jurídico. Es a partir de 1985 que un núcleo fuerte, liderado por doña Viviana
Lemuy, inició una visibilidad cada vez más importante para finalmente crear en 1993, con la
promulgación de la Ley Indígena, la Asociación legalmente reconocida Malgnmapu – Mujeres
de la tierra. Asociación con antecedentes a la fecha indicada que evolucionará hasta ser la
matriz de las numerosas agrupaciones que se crearon siguiendo su ejemplo y que hoy se han
vuelto en nuestros días elementos imprescindibles en la reivindicación mapuche williche de
toda la Región.

Viltipoco, ciudadano molestoso: trayectoria, prácticas de reconocimiento


indígena y ciudadano, y disputas por la historia en Humahuaca, Argentina

Guillermina Espósito

Gabriela Barrios Cáceres

En este trabajo presentamos la trayectoria y las prácticas de reconocimiento y disputas de la


historia local, que lleva adelante un historiador aficionado, archivero, comunicador, escritor,
editor e investigador del pueblo Omaguaca en Jujuy, Argentina. En base a entrevistas
realizadas a WGB, alias Viltipoco, durante los años 2017 y 2018, reconstruimos: 1) los hitos de
su biografía que marcan su “conversión” de católico a indígena y posteriormente
omaguaqueño; 2) las prácticas que como funcionario municipal de Humahuaca desarrolló
durante dos años para visibilizar la presencia indígena en la región; y finalmente 3) su rol de
articulador y vocero de “la causa indígena” y de los derechos ciudadanos en Jujuy.

A territorialidade a partir de duas histórias de vida apinajé

Marcelo Gonzalez Brasil Fagundes

Considerando o debate no campo das ciências humanas acerca do gênero biográfico


(BOURDIEU, 2006; LEVI, 2006; LORIGA, 1998; SCHMIDT, 2012), em seus diferentes aspectos
teóricos e metodológicos, observa-se a importância da relação entre personagem e
conjuntura histórica na construção de narrativas sobre as histórias de vida. Aponto para a
relevância de uma análise conceitual e de metodologia que considere a interrelação entre
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etnografia e história oral (PUJADAS, 2012; BARBOSA; et. al. 2018) para a investigação
biográfica no campo da história indígena. Assim, considero pertinente o estudo de duas
histórias de vida apinajé para investigar as distintas dimensões da territorialidade do povo em
suas conjunturas históricas específicas. Essas duas histórias de vida possuem em comum o
fato de serem construídas a partir de etnografias, que têm nesses personagens seus principais
interlocutores, e da memória social do povo sobre esses dois sujeitos. Mãtyk (José Dias), pahi
(cacique) da aldeia Bacaba, emergiu como liderança entre as décadas de 1920 e 1940. Como
principal interlocutor do etnólogo alemão Curt Nimuendajú (1956), a história de vida de Mãtyk
surge em meio ao estudo etnológico sobre os apinajé. Destacam-se os episódios em que
empreendeu enormes esforços pela garantia do reconhecimento do território. Em distinta
conjuntura histórica, Irepxi (Maria Barbosa) articulou a mobilização e a mobilidade do povo
na luta pela demarcação da terra indígena Apinayé na década de 1980. O estudo etnográfico
de Rocha (2001) sobre questões de gênero entre os Apinajé tem Irepxi como principal
interlocutora e nele emerge a significação ancestral do território dado por ela. Ambas histórias
de vida possuem significações na memória social do povo e são reestruturadas de distintas
formas pela oralidade. Concluiu-se que o estudo de histórias de vida, inseridos no campo da
história indígena através de uma perspectiva transdisciplinar, pode ser analisado a partir da
territorialidade e de suas conjunturas históricas e culturais específicas

“Quebrando protocolos”: um relato autobiográfico da Cacique Kátia Gavião


do povo Akrãtikatêjê da Montanha

Ana Paula de Souza Fernandes

O objetivo deste trabalho é apresentar a trajetória da liderança tradicional e política da aldeia


Akrãtikatêjê, Kátia Gavião, do povo Gavião da Montanha, residente no Território Indígena
Mãe Maria, localizado no município de Bom Jesus do Tocantins, estado do Pará. As mulheres
indígenas vêm conquistando cada vez mais espaço no contexto político de suas aldeias e
alcançando visibilidade local e nacional, contudo, tal protagonismo ainda é pouco abordado
na etnologia das populações ameríndias do Brasil. Em sua pesquisa com os Mẽbengôkre, Lea
(2017) atribui tal situação ao viés masculino dado às pesquisas antropológicas que relega as
mulheres às margens da sociedade, premissa que é reafirmada em recentes estudos
produzidos por mulheres indígenas (Creuza Prumkwyj, 2017; Valdelice Veron, 2018; e, Sandra
Benites, 2017) que narram a ausência de interesse dos antropólogos em conhecer o papel
social que desempenham em seus povos. Por outro lado, Calavia Sáez (2006) destaca que os
estudos etnográficos brasileiros adotaram uma tendência de compreensão do “eu indígena”
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quase sempre relacionado à história do povo ou de sua mitologia, logo, as narrativas


biográficas indígenas são quase inexistentes no conjunto bibliográfico da etnologia brasileira.
Assim, ao compartilhar o relato da trajetória de Kátia Gavião à liderança de seu povo
pretende-se contribuir tanto para a produção de conhecimento na área da etnobiografia (cf.
Gonçalves, 2012) quanto na participação social e política da mulher indígena em sua
comunidade. A narrativa é parte das anotações e entrevistas do trabalho de campo para a
produção da minha dissertação sobre a emergência de mulheres caciques entre os Gavião do
Pará, em fase de conclusão. Ao contar o caminho que percorreu até à chefia, a Cacique
expressa os desafios que se impuseram a ela e ao seu povo, expondo a violência sofrida pelos
Akrãtikatêjê por meio da remoção forçada de seu território em função da construção da Usina
Hidrelétrica de Tucuruí, cujas consequências julga ser um fator preponderante para sua atual
condição de chefia. Ao mesmo tempo em que expressa sua atuação ativa para aprender sobre
seu mundo e contestá-lo, ela entrecruza suas memórias com a do pai (Payaré), da avó
(Honõre) e a história coletiva de seu povo na luta para existir.

A "valentia" de levar vozes indígenas para dentro da literatura brasileira

Deborah Goldemberg

O romance Valentia (Ed. Grua, 2012) foi escrito a partir do convite de liderança indígena de
Santarém, Pará, como projeto de valorização da cultura local. A região foi reduto dos rebeldes
cabanos na fase ribeirinha da Cabanagem, considerada a maior revolução popular do Brasil
(Caio Prado Jr, 1933). A revolta reuniu índios das etnias Munduruku, Mura e Satere-Mawê, no
Século XIX, mas é pouco conhecido no Brasil e no Pará (cerca de um terço da população do
Grão-Pará foi morta, levando consigo a história). Artistas diversos participaram de expedição
fluvial para visitar os descendentes dos rebeldes cabanos e o romance foi escrito por uma
antropóloga-escritora. O manuscrito foi premiado pelo Governo do Estado de SP e, após
publicado, finalista dos prêmios Jabuti e Machado de Assis. Desde então, vem sendo estudado
em universidades brasileiras e americanas. A metodologia utilizada pela autora na pesquisa
de campo foi a história de vida. As comunidades foram mobilizadas pela liderança indígena
para contarem suas histórias (e memórias) sobre a Cabanagem e o texto partiu desses relatos.
No entanto, o entendimento da autora foi que utilizar as histórias conforme elas foram
narradas não seria o bastante para mobilizar o mundo literário, conforme era a intenção do
projeto mais amplo (atingir o Brasil leitor) e, então, fez uma opção formal por entremear os
depoimentos colhidos em campo (em alguns casos quase transcritos, em outros ficcionados)
com uma prosa tradicional do gênero romance. Adotou técnicas de enredo, personagem,

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conflito e desfecho da tradição ocidental, além de recursos poéticos. Algumas das histórias
narradas tinham grande potencial literário (personagens incríveis, reviravoltas e humor), mas
outras não (histórias não conclusivas ou sem sentido). Também, havia narrativas não-literárias
e até anti-acadêmicas (que invalidavam a literatura acadêmica sobre a cabanagem), como a
fala, “Ah, aqui não teve isso de Cabanagem não. Foi o povo daqui que inventou isso porque
não tinha o que fazer.” No campo da literatura, até isso pode ser incorporado. A recepção de
Valentia, tanto pela crítica literária quanto pela academia (particularmente, departamentos
de Letras) vem se debruçando sobre a questão da representação dos povos indígenas. Por um
lado, o texto é louvado por trazer a tona esse “Brasil que ninguém vê”, por outro lado, há
questionamento e comparação com outras abordagens indianistas, como a de Mário de
Andrade em Macunaíma e Darcy Ribeiro em Maíra, e por outro lado ainda, oriundo do avanço
do trabalho da própria antropóloga-escritora, do quanto que o processo criativo
deveria/poderia ter sido mais participativo sem perder o potencial literário e, ainda, como
deveria ser a questão autoral em processos participativos como esses, dado que não há
arcabouço legal para direitos autorais compartilhados, por exemplo.

Historia de Vida e Identidad: mujeres tobas y mapuche en Argentina

Mariana Daniela Gómez

Pasaron doce años desde que realicé más de una docena de historias de vida a mujeres tobas
o qom (de comunidades rurales situadas en el oeste de Formosa, noreste de Argentina, chaco
centro occidental) y unos tres años de la realización de unas entrevistas de carácter biográfico
a mujeres mapuche del sur argentino (en Neuquén, en el 2015). El objetivo de esta exposición
será reflexionar en torno a las identidades de mujeres tobas y mapuche adultas en clave
comparativa: ¿Qué significa hablar de “identidad étnica” e “identidad de género” en un caso
y en otro, teniendo en cuenta los diferentes procesos históricos de sometimiento,
colonización, integración, subalternización y re-etnización de la población indígena en
provincias diversas como Formosa y Neuquén? ¿En qué medida las historias de vida son
materiales válidos para analizar procesos identitarios? En este sentido también aportaré
algunas reflexiones sobre los aspectos intersubjetivos y teórico-epistemológicos que se
involucran en la realización de historias de vida a mujeres que se autoreconocen como
miembros de grupos indígenas (pueblos, pueblos-naciones, parcialidades, comunidades,
organizaciones, etc.).

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Atuação política de mulheres indígenas através de biografias (Goiás, século


XIX)

Suelen Siqueira Julio

A comunicação enfatiza a atuação política de mulheres indígenas na capitania de Goiás (mais


tarde, província) no século XIX, reconstruindo a biografia de três dessas mulheres: Damiana
da Cunha, Dona Potência e Maria Canoeiro. Com o objetivo de fornecer informações que
contribuam para a construção de um conhecimento mais sólido sobre as mulheres indígenas
enquanto sujeitos históricos, utilizo as biografias citadas como forma de discutir a presença
indígena na história, bem como questões de gênero. A discussão levantada tem o potencial
de contribuir para a superação dos estereótipos a partir dos quais as indígenas foram
abordadas tanto no senso comum quanto em trabalhos acadêmicos. Frequentemente tais
mulheres foram ligadas ao momento inicial da invasão e colonização europeias. Neste
momento, teriam atuado, sobretudo, como procriadoras, seja por sua “disponibilidade sexual
exacerbada” ou por sofrerem abusos. Nos últimos anos, alguns trabalhos vêm enfatizando
outros aspectos das trajetórias das mulheres indígenas. Aqui serão abordadas três mulheres
que se destacaram por sua atuação política.

Registros de papel branco: os índios desaparecidos nos relatórios e


correspondências da Presidência de Província no Rio de Janeiro do século XIX
– resistências e trajetórias

Cesar de Miranda e Lemos

A pesquisa sobre as sociedades indígenas no oitocentos, especialmente em regiões de antiga


colonização e, singularmente, no território de capitalidade da Província e da Cidade do Rio de
Janeiro, encontra boa parte de suas bases de registros nos Arquivos Públicos Estaduais. No
caso da região supracitada, o Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro/APERJ – desfruta
de uma importante reunião de correspondências e relatórios referentes a presença/ausência
de índios no território fluminense e carioca no oitocentos. Já na segunda década da
Independência, esses registros deflagram um processo dialético de construções de memórias,
de linguagens e de arte classificatória sobre os índios na territorialidade fluminense,

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constituindo um enredo de imagens que denominamos de apagamento ou papel branco de


indivíduos e sociedades indígenas no dezenove. Ainda assim, no teor dialético desse
construto, diversos índios e suas sociedades aparecem sob múltiplas formas numa idiomática
social e política que os captura e, portanto, os registra, quando os supõe desaparecidos. Nesta
dinâmica, algumas trajetórias de índios podem ser reconhecidas para contextualizarmos uma
reflexão mais fina sobre o protagonismo de índios numa conjuntura histórica de sepultamento
simbólico de suas presenças. Assim, com base em fontes do Fundo de Presidente de Províncias
(PP), depositadas no APERJ, ofereceremos uma descrição e interpretação sobre a
movimentação e as vozes de índios em torno de suas presenças e direitos no Rio de Janeiro
do período Monárquico.

Cobra-Canoa: criando o mundo da barriga da serpente

Priscila Passos de Lima

A Lei 11.645, tornou obrigatório o ensino da história e das culturas afro-brasileiras e indígenas
no ensino de arte. Contudo, metodologias que permitam aproximações com os elementos
simbólicos e visuais de nossas matrizes culturais ainda são escassos. A imagem da cobra, na
cultura brasileira, representa desde a própria encarnação de Satanás, no cristianismo, até a
personificação de genitora da humanidade, em narrativas dos povos indígenas na região do
Noroeste do Amazonas. Sendo também a imagem um viés da linguagem, o acesso à saberes,
pois como Huberman (2012), aponta “para conhecer é preciso imaginar”, cabe repensar a
relação entre a imagem e o saber. Quando vislumbramos a atuação do professor de artes,
entramos em um contexto onde ele se firma como um mediador capaz de conduzir os alunos
por uma imersão na cultura de outros povos, e ao contextualizarmos o Brasil focamos nos
povos tradicionais de vertente indígena. O arte-educador, possibilita aos discentes o encontro
com elementos culturais distanciadas geograficamente, porém interligadas por memórias
coletivas. Essas experimentações assumem um panorama de descobertas intrínsecas sobre a
matriz indígena do Brasil, nos conduzem em territórios que não seriam possíveis de tocar pelo
plano físico. Então, na aula de artes, abordagens que permeiem o terreno do afetivo permitem
uma imersão cultural. Para Dewey (2010, p.114), “Não obstante, a experiência em si tem um
caráter emocional satisfatório, porque possui integração interna e um desfecho atingido por
um movimento ordeiro e organizado”. O Projeto Cobra-Canoa, realizado no Colégio Inovação,
no bairro da Freguesia do Ó, na capital paulista, tem como proposta uma interlocução entre a
imagem da cobra e suas reverberações no imaginário coletivo, partindo de encontros com
indígenas e suas narrativas. Para Barbosa (2008), “A história intelectual e formal, usa

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vestimenta acadêmica, enquanto a memória não respeita regras nem metodologias, é afetiva
e revive cada lembrança.” O objetivo geral deste artigo é compreender as relações entre a
imagem da cobra e o ensino das artes visuais no Projeto Cobra-Canoa. Os específicos:
contextualizar as referências da mitologia indígena relacionadas a imagem da cobra no Projeto
Cobra-Canoa e traçar o percurso desenvolvido no projeto, para exemplificar uma metodologia
que possibilite ao educador uma mediação entre a cultura indígena e a arte. Utilizamos
abordagem qualitativa de cunho exploratório, quanto aos procedimentos técnicos, pesquisa
bibliográfica, documental e de campo. Concluímos ser de grande importância política um
ensino de arte que aproximem a cultura indígena ao conteúdo de sala de aula.

Perspectiva de Davi Kopenawa sobre a epidemia: reconfiguração da mitologia


Yanomami

Mariá Batalha Carvalho Machado

Nas sociedades amazônicas são comuns as reconfigurações de seus contextos culturais na


busca de explicações para o que se acontece na história imediata. Esse trabalho visa
correlacionar a partir da trajetória peculiar de Davi Kopenawa como a história do contato
entre indígenas e não indígena, especificamente durante a ditadura militar, influenciou na
reconfiguração mitológica dos Yanomami referente às epidemias. Durante a ditadura militar,
a Amazônia foi marcada por sangue devido a planos desenvolvimentistas sociais em que não
tinham a menor preocupação com as comunidades indígenas. Em 1970, instituído por decreto
de lei o plano de integração Nacional PIN previa a integração da Amazônia ao resto dos pais
por meio de redes rodoviárias. A abertura do trecho da perimetral Norte e a detecção de
minérios preciosos pelo Projeto Radam na terra Yanomami provocou uma massiva ocupação
de trabalhadores e máquinas nas comunidades Yanomami, o que ocasionou epidemias de
sarampo, surtos de gripe, malárias e levou dizimação de comunidades Yanomami. De acordo
com Davi Kopenawa, as epidemias estão diretamente ligadas às fumaças que advêm do ouro
e as fabricas, não há processos biológicos do corpo. Pode-se ao analisar os relatos de Davi
Kopenawa, os quais foram escritos por ele e Bruce Albert no livro “A queda do céu” clarear a
ligação das epidemias aos objetos manufaturados baseando-se no perspectivismo ameríndio
e na inovação cultural de Roy Wagner. Ou melhor, da criatividade de criar o outro de acordo
com sua perspectiva.

Cuando vinieron los Jurua


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Marcelo Bogado Pompa

La presente ponencia se propone mostrar, a partir de relatos de historia de vida, la memoria


existente entre personas del pueblo Mbya Guaraní del Paraguay com respecto a su contacto
e interrelación con miembros de la sociedad envolvente. Los relatos presentados muestran la
historia del avance del colonialismo interno (que se dio a través de colonos paraguayos y
extranjeros) sobre el territorio mbya; avance que se dio primeramente de manera tímida para
pasar a presentarse como abiertamente agresivo décadas más tarde; proceso que llevó en
unos cincuenta años a la perdida de gran parte del territorio de los Mbya del Paraguay. En
personas mayores de 70 años, cuya memoria se remonta a la década del 1940, existe la
memoria de los tiempos pasados, cuando aún existían las selvas, como un passado idílico, en
donde se podía vivir plenamente el modo de vida tradicional mbya (mbya reko). “La vida en la
selva” presentada en estos relatos constituye una evocación de un pasado con el que se
sienten identificados identitariamente los Mbya. En este sentido, la perdida del acceso a las
selvas por parte de los Mbya, que se dio por la deforestación y la perdida de su territorio, cuya
consecuencia práctica implicó la imposibilidad de seguir el modo de vida mbya, da como
resultado, a nivel discursivo, una evocación, por parte de varios ancianos, de este pasado
como una suerte de paraíso perdido, dando como resultado una “nostalgia de la selva” por
parte de quienes vivieron en este tiempo. En paralelo a los tiempos de la selva se evocan los
tiempos de “los últimos mburuvicha” (grandes líderes), quienes tuvieron que hacer frente a la
llegada del frente colonizador. “La llegada de los primeros colonos” en la década de 1940, con
quienes se relacionaron pacíficamente los Mbya, dio como resultado (una vez que los colonos
se asentaron plenamente, que crecieron em número y se apropiaron de las tierras mbya) a
“los conflictos y la lucha por la tierra”, que puede considerarse como un periodo de la historia
reciente del pueblo mbya que actualmente continúa vigente.

A Kujá Kaingang

Ronelssom Luiz

Esta pesquisa traz a importância dos Kujá para o povo kaingang da Terra Indígena Xapecó, Em
entrevistas e relatos da Anciã kaingang Dona Divaldina Luiz, 73 anos de idade da metade
Kanhru, residente na Aldeia Pinhalzinho nesta Terra Indígena, mostrarei a sua trajetória de
vida e de atuação com Kujá e detentora dos conhecimentos tradicionais como ervas
medicinais e de praticas culturais do povo kaingang. Desde os seus 25 anos de idade trabalha

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com Ervas Medicinais na Aldeia, também sua trajetória de luta em defesa do território
indígena da sua comunidade e a sua perspectiva sobre as práticas culturais de seu povo.

Marcas da história, cicatrizes na memória: a trajetória de vida de Adriano


(Teteare) e do povo Apurinã ao longo do século XX

Frederico de Amorim Magalhães

Esta comunicação é resultado da minha pesquisa de mestrado (Magalhães, 2018) entre os


Apurinã, povo indígena de língua arawak, que habitam o Baixo rio Purus (Amazonas, Brasil).
Nele apresento e analiso a trajetória de vida de Adriano Batista Apurinã (Teteare), ex-cacique
da aldeia São Francisco de Tauamirim, correlacionando-a com a história do povo Apurinã e
com a história nacional brasileira. Trato, sobretudo, do tema da guerra, da feitiçaria e das
migrações em que os Apurinã estiveram envolvidos durante o século XX; do impacto da
exploração da borracha e da castanha para os povos indígenas do Purus; e do processo de luta
pela demarcação das Terras Indígenas nessa região. Veremos que a biografia de Adriano e sua
experiência de vida, apesar de invisibilizadas pela história oficial do Brasil, estão entrelaçadas
a eventos históricos significativos para país e, particularmente, para os Apurinã.
Acompanharemos a trajetória de Adriano desde o seu nascimento, nos anos de 1940, até os
dias atuais. Nesse meio tempo, apresento detalhadamente sua biografia, resumida aqui: dos
7 aos 10 anos Adriano trabalhou em um seringal na fronteira entre os municípios de Lábrea e
Pauini; com 11 anos ele foi levado por um inspetor do SPI (Serviço de Proteção aos Índios)
para trabalhar em Manaus, onde permaneceu por 10 anos; com 22 anos Adriano retorna para
o Purus e vai viver novamente na aldeia apurinã onde estava sua família; juntamente com
outros familiares, ele começa a trabalhar em um castanhal até ocorrer uma guerra entre eles
e os brancos da região; após esse conflito, Adriano torna-se um dos fundadores e o cacique
da aldeia São Francisco de Tauamirim – onde ele mora até hoje e onde fiz meu trabalho de
campo; por fim, trato de sua luta, a partir do anos 70, com outros povos indígenas do Purus,
para a demarcação das Terras Indígena da região e de sua essencial contribuição política para
criação e atuação da OPIMP (Organização dos Povos Indígenas do Médio Purus).

Votouro/Kandóia: Uma comunidade Kaingang frente ao etnocidio

Clémentine Maréchal
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Foi no início dos anos 1920, no Rio Grande do Sul, quando estala a “Revolução de 1923”, uma
guerra que oponha os Ximangos, aliados do então presidente do Estado Borges de Medeiros,
e os Maragatos reivindicando-se a favor do federalista Joaquim Francisco de Assis Brasil, que
os Kaingang de Votouro/Kandóia foram retirados à força do seu território ancestral. O então
fiscal dos índios, Osório Torres “convenceu” os Kaingang de serem retirados, ameaçando-os
de serem mortos nos combates entre Maragatos e Ximangos. Ele os levou de caminhão, uns
quilômetros ao sul, na terra hoje conhecida como Terra Indígena Votouro (RS). Contrapondo-
se a história oficial, encontramos as lembranças dos filhos e netos dos que foram
reterritorializados. Um avô que, durante a guerra, atuou de mensageiro entre os dois bandos.
Relatos de trabalhos forçados, torturas e fugas, o conhecido “sistema panelão” deixou, aqui
também, lembranças nefastas. Em 1940, W.Benjamin declarou pertinentemente: “Ora, os que
num momento dado dominam são os herdeiros de todos os que venceram antes”. Hoje,
enquanto os Kaingang lutam para recuperar seu território ancestral, é o filho do antigo fiscal
dos índios, amamentado quando criança com a leite das mulheres Kaingang e hoje vice-
prefeito da cidade de Faxinalzinho (RS), que ocupa a maior parte das terras reivindicadas pelos
Kaingang. Coincidência? A situação atual no Acampamento de Retomada de Votouro/Kandóia
é o reflexo de uma situação histórica inscrita na continuidade da guerra de conquista
expressada pelo engano, a exploração e o etnocidio; uma guerra disfarçada de proteção
institucional e integração social. O presente trabalho pretende por um lado relatar a trajetória
dos Kaingang de Votouro/Kandóia, expulsos dos seus territórios na segunda década do século
XX, e por outro analisar a situação atual vivida pelos que, com audácia, se empenharam em
retomar sua terra nos anos 2000, articulando-a com a essa trajetória histórica. Hoje,
criminalizados e perseguidos por reivindicar seu território ancestral, os Kaingang de
Votouro/Kandóia estão encerrados em dois hectares de terra, cercados por fazendas, vendo
como as antigas florestas de araucárias, o ore xá (barro preto) remédio e fonte de fabricação
de artesanato, os taquarais e os diversos venh-kagta (remédios) desaparecem atacados pelos
herdeiros protagonistas dos processos coloniais e civilizatórios. Esses territórios reivindicados
são também lugares de memória nos quais vivem antigos guerreiros Kaingang como o cacique
Votouro, e a destruição dos lugares e seres pertencentes ao Votouro/Kandóia por parte dos
agricultores da região, reflete também uma batalha simbólica na qual busca-se extinguir todo
resquício de memória indígena no território.

Caboclo Bernardo e sua rede de amigos: os desafios de ser índio no Império

Vânia Maria Losada Moreira

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Na madrugada do dia 7 de setembro de 1887 o cruzador da Marinha de Guerra Imperial


Marinheiro naufragou nas proximidades da barra do Rio Doce. O acidente ocorreu em frente
a um pequeno povoado da província do Espírito Santo chamado Regência Augusta, pouco
depois de o cruzador se chocar com um pontal na altura de Comboios. Estavam a bordo 142
homens, entre eles 93 marinheiros e vários oficiais de diferentes patentes. Segundo os
testemunhos da época, a noite estava muita escura, não havia nenhuma embarcação no local
para realizar o resgate das vítimas e a situação tornou-se ainda mais exasperante porque os
tubarões rondavam a cena do desastre. Bernardo José dos Santos (1859-1914), mais
conhecido como Caboclo Bernardo, resolveu, sozinho, enfrentar o mar a nado para resgatar
os náufragos. Depois de cinco horas e meia de luta e esforço, tonou-se o protagonista do
salvamento de 128 vidas. Nascia, então, um herói e um mito na história do Espírito Santo.
Primeiro, Bernardo foi homenageado na capital da província e pouco depois condecorado no
Rio de Janeiro com medalha de ouro pela regente princesa Isabel. Muitas décadas depois, em
1969, a Marinha de guerra também o homenageou, batizando um rebocador como o nome
“Caboclo Bernardo” e oferecendo dois bustos dele à comunidade de Regência. Finalmente,
em 1980, a prefeitura de Linhares criou a comenda “Caboclo Bernardo” para condecorar
cidadãos realizadores de serviços relevantes para o município, o estado do Espírito Santo e o
país. Nesta comunicação, a biografia de Bernardo será trabalhada a partir de três eixos
fundamentais: a construção narrativa sobre o herói na longa duração, passando pelas versões
oficiais e pelo ponto de vista indígena, que usa o herói Bernardo na luta pela demarcação das
terras indígenas no estado; as diferentes atribuições identitárias atribuídas a Bernardo, que
oscila entre as categorias de “índio”, “caboclo”, “pescador” e “marinheiro”; e sua biografia
como janela para discutir e problematizar a história indígena – borrada pela narrativa
dominante acerca da história regional e nacional.

Olhares sobre si: narrativas, memorias e saberes entre os Potiguara na Aldeia


do Catu

Manuel Luiz Sousa Moura e José Glebson Vieira

A proposta deste trabalho é abordar a etnicidade potiguara na aldeia Catu, no estado do Rio
Grande do Norte, Brasil, na perspectiva das subjetividades e narrativas individuais
desenvolvidas, tento por base a trajetória temporal e importância simbólica de Manoel
Serafim Soares Filho, conhecido por seu Nascimento, hoje já falecido. Estas narrativas marcam
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à seus modos específicos uma espécie de passagem nominal da consciência de diferenciação


étnica, considerada uma das principais nascentes do movimento indígena e da reelaboração
identitária. Dois exemplos de narrativas são importantes para referenciar o trabalho. A de
Vando, conhecido por muitos como detentor do saber histórico da aldeia Catu, e a de Luiz
Catu, Cacique atua da aldeia. Vando retrata que Seu Nascimento e ele encontraram ainda no
final do século XX os Potiguara do estado vizinho, a Paraíba. Neste encontro, Seu Nascimento
passou a ter uma espécie de configuração clara de sua condição no mundo: “Até hoje não
sabia quem eu era, mas hoje sei, sou índio”, afirma quando retornaram ao Catu. Seu
Nascimento elaborou no decorrer da vida um apanhado considerável de escritos e depois do
encontro estes passaram a ter uma conotação identitária mais acentuada, registrando
canções das manifestações tradicionais tal como o Pau Furado, instrumento musical de
madeira oca, que embalava as brincadeiras dos mais velhos e que viria a ser configurado como
o toré. Na narrativa de Luiz Catu, “é o toré antigo dos parentes daqui”. Muitas das letras
cantadas foram compiladas pelo próprio Seu Nascimento. Dois momentos marcam bastante
o aparato político em formação. Um deles está ligado a antiga “Festa de Todos os Santos”,
hoje “Festa da Batata”. Ali o Pau Furado se apresentava, como brincadeira e expressão dos
antigos. No momento da mudança do nome da festividade buscou-se não só acentuar a
referência ao modo de produção material ali desenvolvido, mas também, ratificar a retirada
da referência católica, e embasar a condição identitária indígena. O outro momento consistiu
em um concurso cultural que ocorreu numa cidade próxima no começo dos anos 2000 onde
a manifestação do Pau Furado foi apresentada, configurada agora, como Toré, adicionadas
pinturas corporais e vestimentas diferenciadas. A condição de indígena ganhava força, e a
autoafirmação identitária passava a estar mais endossada. Percebe-se assim que Seu
Nascimento teve papel marcante em determinado momento da comunidade, sendo
fundamental na perspectiva de elaboração étnica diferenciada. Seria então importante a
análise destas narrativas e subjetividades na busca da compreensão dos contextos da
construção estratégica de enfrentamento político e formação indenitária.

Mathias José dos Santos, identidade, escravidão indígena e colonialidade do


poder

Ricardo de Oliveira

Essa comunicação apresenta a trajetória de Mathias José dos Santos, um jovem que na década
de 1850, com aproximadamente quinze anos de idade, foi raptado na província de
Pernambuco e feito cativo, atravessando o país, sendo várias vezes vendido e revendido como
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escravo até chegar a Guarapuava, Paraná, onde consegue ter acesso à Justiça para reclamar
sua liberdade. O pedido de liberdade de Mathias, fundamentado na sua autoidentificação
enquanto indígena, deu início a um processo de investigação que ocorreu parte em
Guarapuava e parte em Pernambuco. O processo forma o eixo central do texto, dele emerge
um jogo de identidades que reflete o padrão de poder definido por Aníbal Quijano, como
colonialidade do poder, uma classificação racista do mundo, que é constitutiva da
modernidade/colonialidade. A partir da trajetória de Mathias versamos sobre o tema da
escravidão indígena e discutimos as relações entre identidade e escravidão na diferença
colonial, conceito elaborado por Walter Mignolo para definir a especificidade das relações
sociais que decorrem do colonialismo.

O Museu Worikg e a cultura tradicional Kaingang em São Paulo

Dirce Jorge Lipu Pereira e Susilene Elias de Melo

Nós somos Kaingang de São Paulo, vivemos na Terra Indígena Vanuíre. Somos líderes do Grupo
Cultural Kaingang que há 21 anos luta pela cultura tradicional. Trabalhamos na espiritualidade,
como kujã (pajé) e assistente de kujã. Em 15 de agosto de 2015 criamos o Museu Worikg para
falar da história da TI Vanuíre. O museu é o coração da aldeia e fala dos antigos para os jovens
terem orgulho de sua cultura e não abandonarem ela, estamos com medo de perder a nossa
cultura em Vanuíre. Dos antigos, o museu fala principalmente das mulheres, pois elas que
assumiram a luta pela cultura. A tradução da palavra Worikg é sol nascente, mas o museu tem
esse nome para lembrar uma mulher, a Worikg, que praticamente povoou a aldeia, é difícil
um Kaingang que não tenha o sangue Worikg aqui. Ela era uma das antigas, como Goiovê,
Parané, Kutu e Candire. Foram elas que passaram os saberes para Jandira Umbelino, Ena Luiza
de Campos, José da Silva Campos e nós, Dirce Jorge Lipu Pereira e Susilene Elias de Melo. A
cultura Kaingang está ameaçada, somos poucos e a igreja evangélica interfere nos nossos
trabalhos, persegue quem está na espiritualidade, inclusive as crianças, nos chamam de
“macumbeiros”, nos discriminam na nossa terra. O Museu Worikg fala das mulheres e dos
guerreiros antigos, fala das tradições da roça e dos alimentos, da dança e do canto, da
cerâmica, da espiritualidade, da natureza, fala de tudo isso para as nossas crianças e para os
visitantes, porque precisamos de respeito e apoiadores. Em 9 de novembro de 2017 o Museu
Worikg inaugurou a primeira exposição com os objetos guardados por Jandira Umbelino,
falecida em 9 de fevereiro de 2016. Ela não sabia que isso tudo iria para um museu, mas ela
pediu para guardar. A coleção e a exposição falam de uma Kaingang que lutou pela cultura,
falamos dessa luta para as crianças, mas falamos da alegria e porque cantamos e para quem

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cantamos. Na comunicação oral queremos falar sobre a importância do museu para a cultura
tradicional Kaingang e para acabar com o preconceito e discriminação.

O êxito de um chefe: gift and commodity numa sociedade indígena


amazônica

José Pimenta

Até meados da década de 1980, quando começaram a se organizar contra a exploração


madeireira e pela demarcação de seu território, os Ashaninka do rio Amônia, uma comunidade
indígena do Alto Juruá (Estado do Acre/fronteira Brasil-Peru), viviam em grupos familiares
dispersos ao longo do rio, sem representação política centralizada. A luta pela terra, marcada
pela intervenção crescente do indigenismo oficial, se materializou na territorialização dos
Ashaninka que passaram a viver agrupados numa “comunidade”, em torno de um único
“chefe”. A partir da análise da trajetória biográfica de dois homens indígenas, Antônio e
Kishare, e apoiado na literatura antropológica sobre gift e commodity, esta comunicação
reflete sobre a emergência e consolidação de uma chefia entre os Ashaninka do rio Amônia.
Sem negligenciar o papel da FUNAI, procuro mostrar que a afirmação política de Antônio como
kuraka (“chefe”), em detrimento de Kishare, se deve, sobretudo, a sua compreensão de um
sistema de commodity, isto é, ao seu sucesso na gestão de uma cooperativa que aumentou
consideravelmente seu prestigio entre as famílias indígenas do Amônia.

Biografia de uma liderança kaingang

Adélio Pinto

Os fatores decorrentes na presente biografia relatam não só a trajetória da luta pelo território,
mas constitui – se em uma síntese dos momentos marcantes de toda sua história familiar.
Biografar a vida de uma liderança kaingang, que está vivo e que está à frente de uma retomada
do território de Passo do Índio, município de Lajeado Bugre, sendo o atual cacique do
acampamento é um desafio, o qual estou narrando, enquanto filho desta liderança e escritor.

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Memórias de família: reconstruindo a história de João Tomaz, revela-se um


pedaço da história Pankararu e dos índios no Nordeste

Alberto Reani e Josélia Ramos da Silva

Esse artigo tem por objetivo relatar memórias da vida de João Tomaz, liderança antiga e
tradicionalmente reconhecida em Pankararu – Brejo dos Padres (PE). A história de João
Tomaz, pajé Pankararu, nos revela parte da história do Tronco Velho Pankararu e a entrelaça
com outras histórias no tempo das emergências étnicas e das “lideranças peregrinas” (ARRUTI,
2004, p. 258). A microhistória contida nas memórias de familiares e amigos esconde/revela
detalhes de uma história maior em que os índios no Nordeste se tornam protagonistas de sua
história, escolhem/acionam processos sócio-políticos e “marcam território” por meio de
rituais que remontam a uma Tradição Antiga. “A roda grande entra na roda pequena” (Pe.
Cícero Romão). Metodologicamente, utilizamos a história oral por meios de entrevistas
semiestruturadas e pesquisa documental. Como aporte teórico usamos o conceito de
identidade de Fredrik Barth e o conceito de microhistória de Carlo Ginzburg. O conceito de
memória coletiva de Maurice Halbwacs e o de lideranças peregrinas de José Maurício Arruti.

Trajetórias de luta e a construção de uma política indígena no Vale do Javari –


Amazonas

Rodrigo Oliveira Braga Reis

A presente comunicação pretende uma reflexão sobre a constituição do movimento indígena


na região do Vale do Javari, no sudoeste do estado do Amazonas, a partir da reconstrução das
trajetórias de três lideranças indígenas que participaram do processo: Darcy Duarte Comapa
(Marubo), Jorge Oliveira Duarte Marubo e Adelson Korá Kanamary. Todos atuaram na
coordenação do CIVAJA e hoje atuam, respectivamente como Secretário Municipal de
Assuntos Indígenas em Atalaia do Norte, Coordenador do DSEI/Vale do Javari e Presidente da
Câmara Municipal de Vereadores de Atalaia do Norte; e da professora Amélia Barbosa da Silva
(Marubo) que atualmente compõe a Coordenação de Educação Escolar Indígena da Secretaria
Municipal de Educação de Atalaia do Norte. O exercício analítico baseou-se em relatos dos
primeiros encontros, lembranças sobre as viagens, sobre parceiros e opositores, além da
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memória das relações estabelecidas com “patrões”, trabalhadores não indígenas e com
indigenistas – este que nos pareceu um caminho profícuo para revisitar o processo de
mobilização pela demarcação da Terra Indígena Vale do Javari e as transformações da política
indígena no período pós-demarcação. Metodologicamente, o trabalho foi conduzido por meio
da realização de entrevistas, do registro de depoimentos sobre eventos, da reunião de
documentos e fotografias, de forma a atribuir o devido reconhecimento ao protagonismo e à
agência indígena na região em estudo, assim como nas diversas relações com o movimento
indígena nacional e com os espaços da política indigenista. Com foco principal na
compreensão da constituição da política indígena no Vale do Javari, a apresentação priorizará
os registros e as memórias de lideranças acerca das alianças que possibilitaram a criação do
Conselho Indígena do Vale do Javari (CIVAJA), que entre década de 1990 e início dos anos 2000
se constituiu como a principal forma de organização interétnica no momento de reivindicação
pela demarcação contínua do Vale do Javari. Não obstante, buscaremos tratar também das
transformações no movimento indígena pós-demarcação e a crescente participação em
espaços da política local atualmente por meio de apontamentos sobre as circunstâncias sob
as quais se dá a presença da população indígena na cidade de Atalaia do Norte.

Memórias do contato: a trajetória de um Gavião Parkatêjê

Ribamar Ribeiro Junior e Rayane Gomes da Silva

Este trabalho pretende discutir alguns aspectos do processo do contato a partir de alguns
relatos que constam nas pesquisas que temos realizado junto ao povo “Gavião” na Terra
Indígena Mãe Maria. Ao procurar auscultar o outro através do diálogo, torna-se relevante para
romper de fato com a velha prática de tornar o outro “informante”, muitas vezes
despotencializando suas falas e ações como protagonista. São essas as possibilidades de
interlocução que se pretende realizar na interação, vivências e articulações que desconstruam
noções do outro em certas desigualdades numa pesquisa de campo. Para tanto, este trabalho
problematiza a partir das falas o viés do chamado contato que é memorializado e são
revelados nos relatos. A construção da memória narrada ao longo trabalho é parte do
cotidiano dos nossos interlocutores que tem sempre dialogado em torno dessas memórias
que reavivam o sentimento da história de seu povo. Nossas reflexões partem também das
narrativas bibliográficas produzidas junto aos “Gavião”, ao qual introduziremos afim de que
seja traçada na interação feita com missionários, castanheiros, sertanistas, antropólogos e
outros kupe͂ que ao longo do chamado contato mantiveram “contato”. A trajetória de Jathiati
Piaré que rememora em suas narrativas o empreendimento do “contato” os “Gavião” no final

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dos anos cinquenta do século XX. Neste sentido, abordar a trajetória de Piaré, será revelar as
memórias ou descrevê-las como ele faz questão de dizer em seus relatos, apresentando
questões que devem ser experimentadas no cotidiano dos “Gavião”. Dito isso, aproximo da
necessidade que nossos interlocutores têm de contar a “história” e dar visibilidade ao seu
universo atual, como contraponto ao seu passado de luta. Contudo, observamos no diálogo a
significativa importância dada por eles ao que é contado, dito de forma como se viu ou se
ouviu. É neste auscutamento que pretendemos refletir sobre as memórias do processo de
contato desde povo a partir da biografia de Piaré que segue relatando juntos com outros
sábios e sábias do povo “Gavião”, que hoje vivem na Terra Indígena Mãe Maria subdivididos
em três povos: Akrãtikatêjê, Parkatêjê e Kỳikatêjê.

Entre idas e vindas: os indígenas Xukuru-Kariri migrantes para trabalhos


sazonais

Adauto Santos da Rocha

Algumas poucas pesquisas acadêmicas discutiram os processos migratórios vivenciados pelos


povos indígenas no Nordeste, importantes movimentos em busca de sobrevivência,
ampliação territorial das aldeias, emergência das identidades étnicas e reivindicação de
direitos junto a órgãos públicos como a FUNAI. Em nossas reflexões, buscamos estabelecer
diálogos entre as memórias dos índios Xukuru-Kariri habitantes em Palmeira dos Índios, no
Semiárido de Alagoas, e os registros históricos que evidenciam as mobilidades desse povo
indígena. Para situar as discussões, destacamos o caso do índio Wellington Silva de Oliveira,
habitante na Aldeia Fazenda Canto. “Jacó”, como é conhecido, migrou para o Rio de Janeiro
ainda muito jovem, para trabalhar na AMBEV, tendo passado por experiências de trabalho
como cortador de cana em usinas de Alagoas, no ramo da construção civil, e na prestação de
serviços à Companhia de Saneamento de Alagoas (CASAL). Embora tenha exercido várias
atividades econômicas de forma sazonal e contratual, “Jacó” sempre retornou à Fazenda
Canto, tendo participado de movimentações pelo retorno de terras pelos indígenas na
referida Aldeia, como a Fazenda Salgada. Neste sentido, discorremos sobre as idas e vindas
de indivíduos e grupos de índios em busca de trabalho, motivados pelas atividades sazonais
no setor sucroalcooleiro da Zona da Mata de Alagoas, nas fábricas de chocolate no Sudeste
do Brasil e no ramo da construção civil em diferentes áreas urbanas. De tal modo, buscamos
evidenciar os percursos até as cidades de destino e o retorno para as aldeias Xukuru-Kariri,
após as atividades sazonais durante a segunda metade do século XX.

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O dom de ajudar trazer pessoas ao mundo

Osmar Mauricio Sales

A minha proposta de pesquisa a ser apresentado é uma biografia de Francisca Amaro Sales,
uma mulher kaingang de 104 anos, parteira tradicional, da aldeia Km 10, na Terra Indígena
Guarita, localizada no noroeste do estado do Rio Grande do Sul. Trarei entrevistas e relatos
que realizei com a própria anciã, sobre sua infância, adolescência, sua família e a experiência
do trabalho que realizou durante vários anos na aldeia como parteira, ajudando a trazer vidas
ao mundo. Bem como, relatos de famílias que foram beneficiados por ela nesse período e de
pessoas que vieram ao mundo com o auxílio de suas mãos.

Ser índio entre brancos: alianças políticas, trânsitos religiosos e casamentos


interétnicos (de Pernambuco ao Rio Grande do Norte, séculos XVI e XVII)

Rita de Cassia Melo Santos

A apresentação proposta pretende explorar a trajetória política de um conjunto de lideranças


indígenas e descendentes de indígenas que atuaram na região compreendida entre a
província de Pernambuco e do Rio Grande do Norte, no Nordeste do Brasil. A região teve o
seu controle político disputado diversas vezes entre Portugueses, Franceses e Holandeses que
contaram em suas batalhas com a participação ativa de grupos indígenas por vezes
conflitantes entre si. Pretende-se apresentar os diferentes trânsitos entre o universo indígena
e dos Estados em formação, as polaridades entre as religiões nativas, católicas e protestante,
bem como o papel dos casamentos interétnicos no estabelecimento das alianças políticas e
dos domínios territoriais. Objetiva-se que através das narrativas biográficas dos sujeitos
envolvidos no processo de formação da região possamos vir a conhecer as múltiplas
possibilidades que estavam imbricadas em cada situação e não apenas a história linear
estabelecida pelos vencedores e perpetuada de modo naturalizante ao longo do tempo.

Emergência étnica dos povos indígenas no Piauí

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Brisana Índio do Brasil de Macêdo Silva

João Paulo Macedo

Nas últimas quatro décadas, no Brasil, tem se observado um aumento no número de grupos
e comunidades indígenas que passaram a se autodeclarar e a reivindicar reconhecimento de
sua condição étnica e de seus direitos, principalmente após a Constituição de 1988 e a
Convenção 169, em um fenômeno, denominado pela antropologia, como emergência étnica
(Arruti, 1995, 2006; Oliveira, 1993, 1998, 1999). No Piauí, destacamos os grupos indígenas
Tabajara, Kariris e Tabajara-Itamarati-Tapuia, que se organizam politicamente, em torno de
associações. São elas: Associação Itacoatiara de Remanescentes Indígenas (Piripiri/zona
urbana), Associação Organizada dos Indígenas do Canto da Várzea (Piripiri/zona rural),
Comunidade Indígena Kariri de Serra Grande (Queimada Nova/zona rural) e Comunidade
Indígena Nazaré de Tabajara-Itamarati-Tapuia (Lagoa de São Francisco/zona rural). Portanto,
no intuito de possibilitar um campo de aproximação da Psicologia com as discussões étnicos-
raciais, partindo de reflexões do pensamento decolonial, o presente estudo busca analisar o
processo de emergência étnica dos povos indígenas no Piauí. Quanto aos objetivos
específicos: a) conhecer as condições sócio históricas que contribuíram para o processo de
emergência étnica dos povos indígenas no Piauí; b) compreender os campos de sentidos e
significados que os mesmos atribuem ao seu processo de emergência étnica e c) refletir sobre
sua organização política, a partir de suas lutas e resistências. Trata-se de uma pesquisa
qualitativa, que ocorrerá nos municípios supracitados. A amostra inicial contará com 20
lideranças indígenas, no entanto, não se trata de uma quantidade fechada. Como recursos
metodológicos, utilizaremos observação no cotidiano e entrevista semi-estruturada que
contemplará questões sobre seu processo de afirmação étnica; sua história de vida e de seus
antepassados; aspectos culturais e geracionais; sentimento de pertença e de coletividade;
organização política e social; dentre outros. Todo o material será registrado em diários de
campo e em gravações. Para análise dos dados das entrevistas iremos utilizar do Mapa de
Associação de Ideias. No primeiro momento realizaremos uma análise preliminar das
transcrições, a fim de identificar os temas que emergem dos materiais; e no segundo iremos
realizar a análise temática do conjunto das falas que virão compor as categorias analíticas.
Levaremos também em consideração o local e o contexto sócio histórico, fluxo de associação
de ideias, os repertórios linguísticos, os enunciados, os jogos de poder, os posicionamentos e
a produção e negociações de sentidos (Nascimento, Tavanti & Pereira, 2014). O estudo seguirá
todos as normas éticas estabelecidas pela Resolução 466/12 e 510/2016. No presente
momento, a pesquisa encontra-se em andamento.

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Gercino Xukuru do Ororubá: presença significativa em um século de


mobilizações indígenas

Edson Hely Silva

Gercino Balbino da Silva nasceu em 1924, na Aldeia Cana Brava, atual território demarcado
habitado pelos índios Xukuru do Ororubá, nos municípios de Pesqueira e Poção em
Pernambuco, no Nordeste do Brasil. Faleceu aos 83 anos em 2007. Na época em que era
criança as terras do antigo aldeamento, declarado extinto em fins do século XIX, estavam
invadidas por fazendeiros criadores de gado e senhores de engenhos que produziam cachaça
e rapadura. Época de muita fome, com crianças morrendo por desnutrição. O menino Gercino
foi um dos sobreviventes. Sem terras para plantar e viver, os pais de Gercino foram morar em
Sítio do Meio, também localizado na Serra do Ororubá, com os avós do menino que
trabalhavam “de alugado” para um fazendeiro local. Aos oito anos, trabalhava no “cabo da
enxada”, recebendo cinco tostões, metade da diária paga a um trabalhador adulto.
Anualmente os Xukuru do Ororubá vão a Aldeia Vila de Cimbres, para participarem de
celebrações religiosas. Considerado um espaço sagrado, marco inicial da colonização
portuguesa na região, o local foi apropriado pelos índios que a transformou em um espaço de
memórias e de referências. O Toré dançado em Cimbres tem à frente um guia: o “Bacurau”.
Acompanhando os mais velhos para a Vila, “fardadinho” desde criança, “Seu” Gercino foi
escolhido para suceder o índio que era o “Bacurau”. Sem terras para trabalhar,
acompanhando parentes o jovem Gercino migrou para a Zona da Mata Sul de Pernambuco,
na fronteira com Norte de Alagoas. Foram trabalhar nos canaviais e nas usinas de cana-de-
açúcar. Nascido sem-terra e falecendo como morador na retomada Aldeia Pedra d’Água, um
lugar mítico-religioso para os Xukuru do Ororubá “Seu Gercino esteve ao lado do Cacique
“Xicão”, de quem recebia manifestadas expressões públicas de muita estima e consideração,
nas mobilizações contemporâneas dos Xukuru na busca de seus direitos. Acompanhou “Xicão”
nas muitas viagens ao Recife e a Brasília onde foram pressionar a FUNAI e os demais órgãos
públicos, para a articulação com aliados, parceiros da sociedade civil nas denúncias das
perseguições, violências e assassinatos de lideranças, nas reivindicações pela demarcação das
terras indígenas. Aos 83 anos “Seu” Gercino via com a posse das terras a concretização do
sonho tão esperado, desde criança: a dignidade para o povo Xukuru do Ororubá.

Do passado à contemporaneidade Baniwa

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Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

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Franklin Paulo Eduardo da Silva

Sou, Franklin Paulo Eduardo da Silva, indígena da etnia Baniwa, professor de ensino
fundamental, mestre em desenvolvimento sustentável e estudante de doutorado em
antropologia na Universidade de Brasília (UnB). O resumo aqui apresentado visa apresentar a
minha formação acadêmica, profissional, social e política como processo de transição do
mundo dos antepassados ao mundo baniwa contemporâneo na região do Rio Içana, Alto Rio
Negro, Amazonas. A minha primeira formação e informação veio da minha avó que contava
dos seus passados, do meu avô e dos meus tios. Narrava com detalhes por onde andava e
viajava, o que via, trabalhava, cultura e alimentação que experimentava, modo de educação
tradicional e sobre os não-indígenas. Na época não imaginava importâncias dessas
informações, mas parecia saber que experimentaria e conviria intensamente cada experiência
narrada. Eu não tive oportunidade de estudar na idade certa, comecei só com 12 anos de
idade e contra a vontade do meu pai que não queria que eu estudasse, pois considerava
educação escolar como caminho que me distanciaria dos familiares, das culturas, tradições e
dos conhecimentos baniwa, acima de tudo, o abandono da terra tradicional baniwa. Sempre
pregava que a escola era a porta de transformação para aculturação e perda de
conhecimentos e sabedorias baniwa. Não estava errado, pouco tempo depois, tornei-me
agente de educação escolar ocidental, assim como de luta pelos direitos dos povos indígenas.
A partir dessas experiencias aprendi que os povos indígenas nunca serão respeitados se não
ingressarem profundamente no mundo e sistema de vida dos não-indígenas para discutir e
debater de igual para igual as questões que travam a cooperação entre os conhecimentos
indígenas e não-indígenas. É o que me incentiva a continuar na carreira acadêmica, não
apenas para qualificação profissional, mas, principalmente, para contribuir com o processo de
reconhecimento e garantia de direitos dos povos indígenas, em especial, do povo Baniwa.

Política Xavante e militância espírita: um estudo de caso de processos


biográficos e alianças interétnicas

Maria Clara de Campos Silva


Juliana Dal Ponte Tiverón
José Francisco Miguel Henriques Bairrão

Na contramão do quase consenso de que os indígenas não tiveram meios de se defender das
investidas dos brancos, seja na guerra, na resistência biológica, na conversão religiosa ou na
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esfera política, o povo Xavante desenvolveu diversas estratégias de relacionamento com os


não-índios a fim de favorecer sua sobrevivência. Dentre elas, observa-se o envio de crianças a
Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, cuja missão consiste no aprendizado da língua e
cultura do branco. Durante essa estadia, ficam sob responsabilidade de famílias não-índias
que se dispuseram a zelar pelas crianças e fornecer-lhes educação formal. Esta estratégia está
fundamentada na compreensão Xavante de que dominar tecnologias e habilidades alheias são
modos de resistir a propostas ‘brancas’ que não atendam seus ideais e valores. Neste
contexto, parte dos jovens indígenas conviveram com famílias que apresentam laços estreitos
com um Centro Espírita e, portanto, além das habilidades intelectuais, também
desenvolveram e foram influenciados por conhecimentos dessa religião. É o caso de um
adolescente que atualmente apresenta 16 anos. No período de sua gestação, o seu pai, que
tinha o mesmo nome, faleceu em decorrência de uma patologia desconhecida. O genitor foi
uma das crianças enviadas a Ribeirão Preto na década de 80, tendo vivido com uma família
espírita cerca de 20 anos, se formado em enfermagem e, após isso, retornado para sua
comunidade. Porém, sua morte não acarretou o findar de sua relação com as pessoas com
quem conviveu em ambiente urbano. Há muitos anos ele tem estado presente em sessões
mediúnicas, conferindo assistência espiritual, inclusive para seu filho que, desde bebê, tem
sido acompanhado pela mesma família espírita branca que acolheu o pai. A partir das
biografias de ambos é possível refletir e discutir algumas ressignificações que estariam em
curso numa estratégia Xavante de resistência às investidas brancas. Nomeadamente a
inscrição do pai no universo simbólico branco, que parece selar o estabelecimento da aliança
estabelecida entre aquele povo indígena e essa comunidade espírita. As orientações e
comunicações mediúnicas provenientes do pai são uma espécie de presentificação da sua
memória não apenas para a família espírita branca de acolhimento, mas também para um
filho indígena que não pôde crescer com o pai. Ou seja, a estratégia Xavante, além de
possibilitar o acesso e preparo de jovens no universo branco, também tem deixado registros
e marcas entre os citadinos. O sentido, alcance e efeitos mútuos dessas trocas precisam ser
refletidos, até porque é possível que processos similares a este tipo de encontro e aliança
interétnica estejam ocorrendo, tenham ocorrido, ou venham a ocorrer.

O tempo nas narrativas orais Pataxó

Vera Lúcia da Silva

Esta comunicação pretende discutir a pesquisa de doutorado em andamento, “O tempo nas


narrativas orais Pataxó”, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Estado e Sociedade, do
Centro de Formação em Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do Sul da Bahia
(UFSB), cujo problema é a compreensão da experiência singular do tempo no bojo da cultura
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indígena Pataxó, a partir do estudo de narrativas orais que circulam nas aldeias Cahy, Tibá e
Pequi situadas em Cumuruxatiba, no munícipio de Prado/Ba. Para essa tarefa, incialmente
serão colocados em diálogo o pensamento de Paul Ricoeur (2003; 2006; 2012) Hannah Arendt
(2002), Walter Benjamim (2012; 2013) e Daniel Munduruku (2002, 2010) em torno da
temporalidade, no intuito de compreender as noções de tempo presentes nas narrativas orais
Pataxó, sejam elas de natureza coletiva, biográfica ou autobiográfica, assim como as
potencialidades existentes nesse contar. Importante pontuar que este estudo vem sendo
orientado pelas seguintes questões: qual a perspectiva de tempo indígena Pataxó? De que
maneira a interculturalidade experimentada pelos Pataxó afeta a noção de tempo entendida
como tradicionalmente indígena? Qual a potência de futuro existente nas narrativas indígenas
Pataxó? O primeiro passo para a realização dessa pesquisa será recolher e retextualizar as
narrativas orais que circulam nessas comunidades, por meio detrabalho de campo realizado
em períodos intercalados em que serão utilizadas técnicas da etnografia tais como a
observação participante, a entrevista semiestruturada, o registro em diário de campo e
caderno de notas, além de levantamento de fontes documentais e história de vida. Por fim,
os textos recolhidos serão tratados em uma abordagem interdisciplinar, com ênfase nos
campos da antropologia, literatura, filosofia e estudos culturais. Serão levadas em
consideração ainda, matrizes etnográficas que apontam para a necessidade de descrever os
fatos históricos e culturais das comunidades em que estão inseridos os sujeitos dessas
narrativas a serem compreendidas, suas representações, percepções e interpretações, no
intento de permitir que os textos dialoguem, sem hierarquias de qualquer natureza, com o
pensamento não indígena e indígena de outras etnias, oportunizando aproximações e
distanciamentos que permitirão a nós, entender de que forma as narrativas orais Pataxó
podem se constituir como lugar de trânsito do passado, presente e futuro, como lugar de
afetos capazes de produzir mobilizações que contribuam positivamente para o potente
processo de etno-reconhecimento já em curso.

Dona Xandoca Karipuna: liderança e protagonismo indígena feminino em


Oiapoque

Ana Manoela Primo dos Santos Soares

A presente pesquisa se concentra sobre a trajetória de vida da mais relevante liderança


indígena do povo Karipuna do Amapá, a senhora Alexandrina dos Santos, mas conhecida como
Dona Xandoca. Dona Xandoca Karipuna foi a segunda esposa de meu avô (pois, a autora deste
resumo também é indígena Karipuna), o cacique Manoel Primo dos Santos, também
conhecido como cacique Côco, fundador da aldeia Santa Isabel (T.I. Uaçá, Oiapoque – Amapá),
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e após sua morte Xandoca exerceu um relevante papel tanto para os moradores desta aldeia
quanto para todo o povo Karipuna. Ela era matriarca, conselheira, benzedeira, impulsionadora
das questões pertinentes a cultura material e a outras formas de preservação da memória,
assim como das questões de gênero; foi uma das fundadoras da AMIM, a Associação das
Mulheres Indígenas em Mutirão, primeira e importante instituição que trata das questões das
mulheres dos povos indígenas de Oiapoque, que são os povos Karipuna, Palikur, Galibi-
Marworno e Galibi Kalinã, tal associação é gerida pelas próprias mulheres indígenas. Os
objetivos pertinentes a pesquisa em torno da biografia de Xandoca são os de se preservar a
memória da mais relevante liderança feminina do povo Karipuna do Amapá; compreender a
trajetória do povo nos pontos em que a história dele sofre forte influência da trajetória pessoal
de Xandoca; compreender a importância de seu discurso e suas ações para a preservação da
memória indígena e para o protagonismo das mulheres indígenas em Oiapoque. Xandoca
faleceu no final do mês de março de 2018, todavia, sua morte não significou o fim da sua
influência sobre o modo de vida dos povos indígenas do norte do Amapá. Este trabalho é um
relato sobre um viés histórico, antropológico e biográfico; ressaltando-se o parentesco
também como local de afeto e de memória. A metodologia seguirá sobre relatos dos Karipuna
sobre a vida de Xandoca; memórias, escritos, áudios e imagens produzidos pela autora ou
cedidos por outros; e levantamento bibliográfico sobre o povo Karipuna; sobre a importância
da preservação da memória e da história indígena através do relato etnográfico.

Caciques e pajés no Piauí: trajetórias biográficas de caboclos a indígenas

Hélder Ferreira de Sousa

Tentarei nesta comunicação explorar, sem nunca pretender exaurir, o tema do processo de
formação de cacique e pajé através das biografias do Cacique Zé Guilherme e do Pajé Chicão,
indígenas do Piauí. Pretendo deter-me um pouco mais nos processos que permitirão o assumir
destas identidades, para dialogar com os sentidos destas reidentificações enquanto modos de
reinsurgir-se contra discursos e práticas que pretendem anular diferenças e ocultar a
diversidade étnica nesta região. O comprometer-se com estas identidades chama a atenção
para as dificuldades de acesso a terra, à saúde e educação para algumas famílias dos grupos
que se reidentificam, sob vários aspectos, passam a ser vocalizados coletivamente. Sendo eu
mesmo membro de uma das famílias participantes do processo, busco atentar grande parte
para o conflito entre interesses, regras e valores das sociedades não indígenas versus
sociedades indígenas, e identificações em confronto, para levar em conta os diversos pontos
de vista a partir dos quais se pode ver e interpretar uma realidade. De forma particular,

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pretendo examinar mesmo que de relance o papel do próprio pesquisador frente à sociedade
com a qual estuda e que é a mesma de onde procede e onde se autoidentifica, juntos de
outros, como indígena. Deste modo, perseguirei metodologicamente, não ficar limitado
somente à descrição das experiências que tratarei aqui, mas me interrogar sobre as condições
sociais que tornaram possíveis estas experiências, tentando examinar em que sentido estas
personagens contribuem para a construção de uma visão do mundo que, juntos, organizamos.

Narrativas del yo y posmemoria en la ensayística y la poesía mapuche


contemporáneas

Melisa Stocco

La producción literaria mapuche contemporánea florece en una diversidad de discursividades


y estéticas que, entre otros agenciamientos, opera en la subversión y denuncia de los
discursos historiográficos, antropológicos y mediáticos hegemónicos que construyen un
imaginario del pueblo mapuche como un “otro interno” y deslegitiman sus reclamos y luchas
identitarias y territoriales. Entre las estrategias discursivas de “subversión de la lengua del
Estado” que pergeñan autores y autoras mapuche contemporáneas, nos proponemos analizar
cómo las narrativas del yo como formas de “autoetnografía” (Pratt, 1992; García Barrera,
2018) y la posmemoria (Hirsch, 2008) como la elaboración de traumas heredados de
generaciones pasadas se insertan en la poesía y la ensayística para construir relatos que
interpelan las historiografías oficiales, otorgan agencia histórica a los antepasados cuyos
testimonios fueron silenciados, y complejizan la propia identidad indígena.

A trajetória de Anne Ballester e os Yanomami do Rio Marauiá

Ricardo Martins Valle

Anne Ballester Soares viveu entre os yanomami em tempo integral por mais de 24 anos. Não
foi uma missionária religiosa, nem uma pesquisadora. Se fosse este o caso, não teria se
dedicado tão intensa e integralmente; se o caso fosse o primeiro, a dedicação intensa seria
intencionada no sentido de retirar aos Yanomami de suas formas tradicionais de vida. Por
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oposição a ambas as posições, sua experiência visceral com a vida Yanomami, visou defendê-
los do mundo envolvente que eles desconheciam em todos os seus danos, e que ela conhecia
porque era oriunda do coração do mundo Ocidental que sua biografia representa uma
rejeição. Foi por excelência uma ativista da causa yanomami e pela causa yanomami.
Trabalhou como agente de saúde no combate à malária, foi alfabetizadora em língua
yanomami e professora de português para jovens e adultos em posição de liderança. Nas
diversas fases de seus quase 25 anos de vida yanomami, a rigor não os procurou defender,
mas sim procurou dar-lhes instrumentos de defesa em face do sedutor desconhecido que a é
como a sociedade capitalista se apresenta na frente de expansão colonial de Santa Isabel do
Rio Negro. Este trabalho pretende apresentar sua trajetória e a dos yanomami que com ela
começaram a construir uma resistência à integração colonial que a despeito da Constituição
de 1988 insiste em avançar em perspectiva integracionista, que no contexto atual do país
ressurge institucionalmente com a transferência da FUNAI para um ministério que se
confunde com a evangelização neopentecostal que há anos Anne Ballester combate naquela
região.

ST 07 | Construcción del discurso narrativo contra-hegemónico, diálogo


intercultural y epistemologías diversas

Inés María de los Angeles Cornejo Portugal (Universidad Autónoma Metropolitana, Unidad Cuajimalpa,
México); Cornelia Geibeler (Universidad de Ciencias Aplicadas Bielefeld, Alemania); Isabela Cordunianu
(Universidad Autónoma de la Ciudad de México, México).

Proponemos intercambiar experiencias analíticas sobre las “narrativas en confrontación” en


temas de juventud, migrantes y retornados indígenas, comunidades LGBT+, como formas de
mirar al “otro” en el espacio público para poner en tensión el diálogo de espiritualidades,
epistemologías, narrativas, representaciones y autorepresentaciones de subalternos y
hegemónicos en América Latina. En el siglo XX las ciencias sociales dieron un “giro lingüístico”
enmarcado por Derrida, Guatarri, y Deleuze, y los estudios poscoloniales (Escuela de la India
y de América Latina). De esta filiación se desprende Spivak, cuya obra aporta a la literatura
decolonial actual (Spivak, 1988). Por “pensamiento narrativo” entendemos “un tipo de
conocimiento particular mediante el cual otorgamos inteligibilidad al mundo, lo significamos
y somos significados” (Hernández Salamanca, 2010). Las narrativas se encuentran en conflicto
o en negociación cuando se disputan espacios de poder (factual, político, simbólico o de
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enunciación). En el simposio invitamos ponencias y otro tipo de productos multimodales


(audio/visual) que discutan saberes hegemónicos y subalternos y sus momentos de
(des)encuentros, desde las perspectivas de la literatura descolonial actual para propiciar el
diálogo intercultural en espacios públicos diversos como lo propone Sousa Santos en su
“conception intercultural” (Sousa Santos: 2013).

Novos olhares: produções fílmicas Guarani e oficinas extensionistas de


audiovisual

Isabel Idiarte Bernardes

Mariana Madruga Bianchini

Este trabalho, tem como objetivo abordar as experiências fruto das ações de extensão do
Projeto “Produção de Audiovisual Indígena”, parte do Programa “Olhares, vozes e memórias:
saberes africanos e indígenas”, coordenado pela Professora Luisa Tombini Wittmann, no AYA
- laboratório de Estudos Pós-coloniais e Decoloniais, da Universidade do Estado de Santa
Catarina (UDESC). O projeto, que vem sendo elaborado por meio de um conjunto de oficinas
de produção de imagem, vídeo e som, em parceria público-privado, pretende instrumentalizar
e orientar nove oficineiros indígenas, das aldeias Guarani-Mbyá da região da Grande
Florianópolis no litoral Catarinense, onde os oficineiros trabalham para produzir audiovisuais
a partir das demandas coletivas das aldeias e de seus interesses próprios. A produção
audiovisual indígena vem ao encontro daquilo que Aílton Krenak retrata enquanto “a revolta
do olhar”, pois esta serve como ferramenta para despasteurizar a imagem do cinema
tradicional, em que “o outro” agora é apresentado por si mesmo e não mais por aquele que
lhe denomina e caracteriza como “índio”. Além disso, o audiovisual também serve enquanto
uma ferramenta tecnológica a serviço da memória ancestral, como diz Daniel Munduruku.
Propomos pensar através desse processo, de que modo o novo panorama composto por
indígenas cineastas pode colocar o cinema indígena a serviço de suas lutas políticas? Este
trabalho, portanto, pretende deslocar o olhar acomodado do não-indígena sobre o “outro”,
propondo a inserção de um olhar e uma narrativa pós-colonial/decolonial para compreender
esta forma de atualização da memória ancestral nas populações Guarani-Mbyá, compondo
assim uma perspectiva de autonomia desses povos perante suas práticas culturais e
concebendo um local de reconhecimento legitimado em nossa sociedade para esses
produtores de conhecimento acerca de sua própria História, cultura e vida. A análise da
produção fílmica indígena nos possibilita repensar a construção da narrativa histórica dos
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próprios indígenas sobre eles mesmos e retrata um movimento de resistência por parte dessas
populações, em que muitas delas partem de ferramentas contemporâneas, como as
produções audiovisuais, utilizadas por diferentes etnias no Brasil, como forma de
fortalecimento de suas comunidades, tratando de questões políticas e culturais específicas
que fortalecem suas lutas e visibilizam sua existência.

Diálogos interculturais em "Todas as vezes que dissemos adeus"

Silvely Brandes

“Todas as vezes que dissemos adeus” (1994) traz a trajetória do autor Kaka Werá Jacupé, um
indígena txucarramãe, que, após sua aldeia ser invadida, passou a viver com os Guarani na
aldeia Krukutu. Kaka narra alguns episódios e aprendizagens que teve nas suas passagens por
aldeias de parentes e nos centros urbanos, o livro é destinado a leitores indígenas e não
indígenas e trata das situações vividas pelo indígena no trânsito entre a aldeia e a cidade. As
aprendizagens de Kaka se deram por meio de diálogos que teve com pessoas de diferentes
origens e com diferentes conjuntos de valores, portanto, se deram nos diálogos interculturais.
Em cada diálogo, Kaka tira uma lição que muda a sua compreensão do mundo e das pessoas,
mas muda, principalmente, seu olhar para o outro. Nas relações de alteridade, o diálogo com
o outro gera movimentos de empatia e o retorno ao próprio lugar promove o retorno à
exotopia, mas quando desse retorno já não se é o mesmo o sujeito volta enriquecido, pois
pode olhar pra si mesmo a partir dos olhos do outro e pode voltar a olhar o outro com uma
perspectiva mais ampla, mediada por outras possibilidades. Na medida em que proporciona
que diálogos interculturais aconteçam, a literatura indígena, neste caso mais especificamente
a obra Todas as vezes que dissemos adeus, colabora para a decolonização do conhecimento e
a desconstrução de estereótipos. A proposta deste trabalho é, portanto, através de uma
análise que se pretende dialógica, observar os diálogos interculturais presentes na obra, que
embora tenha sido escrita há mais de 20 anos, aborda questões que estão sendo discutidas
hoje no Brasil.

O discurso imperialista norte-americano em narrativa sobre a conversão de


um povo indígena da Amazônia

Raimundo Nonato de Pádua Câncio


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Os textos escritos são importantes recursos para disseminação de valores, conhecimentos e


ideologias. A obra “O Pajé de Cristo”, de Homer Dowdy (1997), narra o processo de conversão
dos povos indígenas Wai-wai ao cristianismo evangélico pelos missionários norte-americanos,
o que se dá por meio da descrição de práticas educativas de catequização, fundamentadas na
lógica da dominação e da superioridade epistêmica. Wai-wai é uma designação genérica para
um conjunto de grupos indígenas que se uniu em dado momento histórico e hoje habita uma
extensa região que compreende o sul da Guiana (rio Essequibo), o leste do Estado de Roraima
e o noroeste do Estado do Pará (rio Mapuera), na Amazônia setentrional. São falantes da
Língua Wai-wai, além de outras línguas da família Karib. A partir da segunda metade o século
XX, antropólogos e pesquisadores que visitaram a região do rio Mapuera constataram a
grande transformação na cultura e na organização social desse povo indígena, levada a cabo
pela Unevangelized Fields Mission (HOWARD, 2001). O principal objetivo deste estudo é
identificar as estratégias persuasivas utilizadas pelo autor-narrador da obra “O Pajé de Cristo”
para convencer o leitor de que o processo de conversão dos povos Wai-wai ao cristianismo
evangélico foi necessário, mesmo num contexto em que conhecimentos e valores se explicam
e se confrontam. Em termos de perspectiva metodológica, trata-se de um estudo de natureza
teórica, uma vez que está voltado para o exame crítico dos quadros de referência de uma
obra, as suas condições explicativas da realidade (DEMO, 2000, p. 20), tendo em vista, em
termos imediatos, problematizar fundamentos teóricos. Como referência, apresentamos
algumas aproximações entre a corrente teórica Pós-Colonial e a perspectiva Decolonial, no
que toca à crítica epistemológica, sobretudo para questionar o discurso imperialista norte-
americano. Considerando-se tais questões, parte-se da premissa de que as formas de
dominação e as relações de poder não poderiam ser pensadas nem rearticuladas sem se
pensar os níveis de produção do conhecimento e os efeitos de verdade que os sustentam.
Para Mignolo (2017, p. 13), essa forma de colonialidade equivale a uma “matriz ou padrão
colonial de poder”, que se esconde detrás da retórica da modernidade, usadas para justificar
a violência da colonialidade. Portanto, identificar as estratégias persuasivas utilizadas pelo
autor-narrador nessa obra é fundamental, sobretudo porque ajuda desvelar o discurso
imperialista norte-americano, engendrado pelos missionários evangélicos. O resultado deste
estudo tem sido a necessidade de reinterpretação e de reescrita das narrativas sobre os povos
indígenas da Amazônia como resposta ao colonizador.

El discurso contra-hegemónico y el diálogo intercultural en el cine


documental en América Latina (1960 – 1979)

Vicente Castellanos Cerda

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Estudio un corpus de documentales latinoamericanos que circularon entre los años de 1960 y
1979 com la finalidad de conocer el modo en que construyeron un discurso contra-
hegemónico y, a la vez, establecieron puentes de comprensión entre personas con posiciones
sociales diferentes, perspectivas de vida confrontadas y distintas experiencias en el espacio
público con la finalidad de instaurar um diálogo que pretendió ser intercultural al dejarse
afectar mutuamente y cambiar el lugar social desde el cual se mira, se juzga y se siente la
existencia del otro. Parto de la idea de que el documental es un tipo de escritura audiovisual
que no sólo muestra y representa con imágenes y sonidos, sino que también construye
discursos que entran en el ámbito de la discusión pública. El documental es un texto discursivo
que se puede analizar en su lógica interna y em sus referencias extracinematográficas con lo
social y lo político. La escritura audiovisual en su forma de documental ha sido un medio
importante para expresarnos como latinoamericanos. Es una expresión multifacética, plural y
dispersa que tiene argumentaciones compartidas en lo político y en lo social. Esta expresión
se caracteriza por activar mecanismos cognitivos racionales y emocionales en un mismo
mensaje que nos disloca, nos reubica frente a eso que el documental representa y construye
como realidad de América Latina. Es mi interés analizar un corpus de tal tipo para encontrar
las argumentaciones que se sostienen por sí mismas en cada película y confrontarlas con otros
marcos discursivos que caracterizaron este periodo, como pueden ser manifiestos,
documentos orientadores del quehacer del documentalista, posturas políticas explícitas y
otras expresiones que directores y públicos manifestaron en su momento para transformar
realidades en América Latina, al interrogarla, incomodarla, ponerla en discusión en sus
desigualdades e injusticias mediante la representación cinematográfica. Se trata de un trabajo
con los marcos interpretativos para saber cómo se han transformado estos discursos del
activismo a documento histórico re-visitado. Estos documentales son también parte de una
narrativa, otra, de los subalternos, por lo que me interessa el cómo se dice en un relato que
se preocupa por las intenciones y acciones humanas. El documental congeló el tiempo y el
espacio de esas décadas en imágenes y sonidos históricos que reflejaron um tiempo de
conflicto y deseos de emancipación como un modo de hablar de lo que fuimos, somos y por
qué fuimos y somos así.

El regreso del sujeto: los desafíos epistemológicos y metodológicos de las


emociones

Victoria Isabela Corduneanu

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Caderno de Resumos do 3 o Congresso Internacional Povos Indígenas da América Latina (CIPIAL)
ISBN: 978-65-86503-02-9
Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

“El regreso del reprimido” (the return of the repressed) marcaba el giro lingüístico o discursivo
en las ciencias sociales, en la cual se prestaba ya atención a las emociones. Empezaba así una
crítica al racionalismo y la racionalidad, así como de la dominación del paradigma
objetivo/racional en la sociología, con una mirada epistemológica que incluye a Nietzsche,
Bergson, Scheler y a los postmodernistas Deleuze y Guattari. El giro cultural, el giro lingüístico:
todo es cultura, todo es texto (discurso). Y recientemente se abre una discusión en
humanidades y en ciências sociales sobre una nueva epistemología: el giro afectivo o el giro
emocional. Algunas de las preguntas que ocupan a los autores del giro afectivo o emocional,
son: ¿Cómo abordar metodológicamente a las emociones? ¿Cuál es el papel de las emociones
en las políticas culturales? ¿Dónde las podemos observar? ¿Qué hacen las emociones con
nosotros, y qué hacemos nosotros con las emociones? Desde luego, se reconoce que las
emociones, por un largo tiempo, fueron menospreciadas en los análisis culturales y sociales,
donde predominaba la razón y la racionalidade tanto del sujeto, como de las acciones sociales:
la mirada racional se desarrolla com el positivismo y el conductismo que acaparan las ciencias
sociales en el siglo 20. Pero también este menosprecio de las emociones tiene que ver con
una mirada patriarcal y heteronormativa de las ciencias sociales (una mirada que es
eurocéntrica también, cuando la idea de Europa se confunde con la idea de la Ilustración y del
imperio de la razón). En esta ponencia, se van a presentar las actuales tendencias del “giro
emocional” en las ciencias sociales, así como sus desafíos epistemológicos y metodológicos,
ejemplificadas con tres estudios de caso para México. Acotaremos el estudio de las emociones
al caso particular de las movilizaciones sociales, porque es en donde las emociones movilizan,
afloran, mueven y, por lo tanto, se observan mejor, se observan en acción. Nos ocupan en
específico tres casos recientes: la Marcha por la Familia (organizada por el Frente Nacional de
la Familia el 24 de septiembre del 2016); la Marcha anti Trump (organizada por varias
asociaciones de la sociedade civil el 12 febrero del 2017) y la Marcha por la vida (organizada
el 28 de abril del 2018 por varias organizaciones anti-abortistas).

Resistir e organizar: uma perspectiva xamânica

Stephanie Daher e Rene Eugenio Seifert

A conceituação de organização sempre foi uma discussão ampla na área dos estudos
organizacionais. Nos últimos anos, têm sido registrados esforços quanto a proposição de
organizações alternativas na tentativa de estabelecer pontos de resistência a lógica técnica
dominante. Entretanto, se levarmos em conta a abordagem hegemônica nesse tópico, o
âmbito da administração tem se limitado a apresentar uma repaginação do modelo
burocrático de organização, no intuito de promover adaptação ao mercado em constante
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Caderno de Resumos do 3 o Congresso Internacional Povos Indígenas da América Latina (CIPIAL)
ISBN: 978-65-86503-02-9
Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

modificação (CLEGG, 1998). A abordagem crítica nos estudos organizacionais busca trazer um
contraponto, evidenciando que num contexto em que o foco empresarial é o dominante,
considerar iniciativas organizacionais não hegemônicas pode ser uma alternativa. Portanto a
presente pesquisa se situa em bases teóricas e empíricas que visam desmistificar a
apresentação da novidade e da alternativa como uma repaginação de estruturas já existentes;
o alternativo que não se situa em reformulações e flexibilizações, mas em outras formulações
(PARKER,2002; BÖHM, 2006; MISOCZKY, 2010; BARCELLOS, 2012). Frente a esta questão, a
pesquisa se propõe a contribuir com o aprofundamento da crítica a organização hegemônica
no campo de estudos da administração. Refletindo sobre a organização moderna a partir da
perspectiva e cosmologia indígena. Utilizando o método de Análise do Discurso, são analisados
os relatos, entrevistas e publicações de Davi Kopenawa Yanomami (xamã e porta voz da
comunidade Yanomami). Nesta análise são consideradas duas principais categorias contra
hegemônicas: resistência (i) e organização (ii). A obra A Queda do Céu: palavras de um xamã
yanomani (KOPENAWA E ALBERT, 2015) é um dos principais materiais analisados. Nela,
Kopenawa, em sua enunciação, como sujeito individual, coletivo, yanomami, denuncia as
tragédias que afetam e afetaram o seu povo. Desse modo, não se apresenta um narrador em
que o “eu” é indissociável do “nós coletivo” (KOPENAWA E ALBERT, 2015; DANNER E PERES,
2018). O que contribui para a construção de uma pesquisa que rompe com a herança
tradicional da antropologia do “Outro” romantizado. Em uma tentativa da libertação (DUSSEL,
2000) desse “Outro” romantizado-o outro como sujeito, cultura e ideologia – é que realizamos
esse estudo. Onde o organizar e resistir da perspectiva xamânica - que não dissocia a ligação
efetiva entre natureza, cultura-sociedade e individualidade - permite um
descontruir/reconstruir do outro e consequentemente da organização como conceito
(DANNER E PERES, 2018). Conceito esse, que nas vivencias descritas pro Kopenawa (2015) está
sempre associado a uma forma de resistência, uma vez que sua obra e declarações são em si
uma forma de resistir.

Feminismo decolonial e a luta por direitos numa perspectiva intercultural

Lívia Gimenes Dias da Fonseca

O presente trabalho busca refletir acerca da compreensão do conceito de feminismo


decolonial como expressão da luta por direitos das mulheres numa perspectiva intercultural.
A proposta de um feminismo decolonial busca romper com as colonialidades do poder, do
saber, do ser e de gênero, de modo que a voz das mulheres tenha um engajamento a partir
do seu lugar de fala, porém numa relação intercultural de diálogo de múltiplas diversidades

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enquanto prática de construção de noções sobre liberdade. Os sentidos de liberdade são o


que fundamentam os direitos das mulheres se partimos do conceito construído pela linha
teórica O Direito achado na rua para qual o Direito é expressão das lutas sociais pelo fim de
realidades de opressão.

Procesos de descolonización a partir de la “Experiencia de la Extrañeza” como


una epistemología contra-hegemónica para transformaciones globales

Cornelia Giebeler

En esta ponencia se discute un concepto y su realización durante más de veinte años, tratando
de salir de una ciencia occidental-racional con impactos destructivas. Es nombrado como: la
“Experiencia de la Extrañeza”. Este concepto trata de abrir espacios para diálogos
transculturales descolonizadores. Se reconoce que científicos y profesionales se concentran a
una orientación occidental, diferenciando entre saberes cognitivos científicos y saberes
emocionales y corporales que no llegaran – según la ciencia moderna del oeste – a un nível
para ser nombrado científico. Este llamado “científico” está percibida por su larga historia
europea y surgió en la temporada del siglo XV, conjunto con la persecución de las brujas, la
conquista y la implementación de los métodos empíricos por las pruebas de la inquisición.
Desde ahí empezó el famoso desarrollo del hombre a base a esa ciencia, distinguiéndose de
la naturaleza, del cuerpo – sobre todo del cuerpo de la mujer – y de emociones. En este trabajo
que realizamos tratamos de salir de esa interpretación de lo científico desde el comienzo del
nuevo milenio y lo trabajamos en un espacio transcultural, reflexionando lo que llamo “La
experiencia de la Extrañeza (Giebeler 1998, 2003, 2006, 2008, 2018). Retomando el análisis
del mundo sistema (Wallerstein), los conceptos de la periferia/centro (Cordova, Frank,
Quijano, Amin e.o.) y la perspectiva de subalternos (Gramcsi, Spivak, Fanon), tratando de
acallarles o usarles económicamente en trabajos de subsistencia dentro del sistema
capitalista/patriarcal (Mies, v. Werlhof, Lugones). Las preguntas que se formulan son: ¿Qué
salidas existen? ¿Es cierto – según Spivak - que no hay empoderamientos posibles a partir de
un esencialismo estratégico? ¿Qué papel juega la periferia del norte global? ¿Es cierto que
existe una línea “abismal” (Sousa Santos) y lo posabismal sería “ecológico”? Dentro de estas
preguntas posicionaré el concepto de la experiencia de la extrañeza y partes de su realización
en sus ejes personales - emocional, corporal y cognitivo – y políticos en encuentros
transculturales.

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Os saberes indígenas como complementares e fundamentais para a


humanidade

Mirim Ju Yan Guarani

Elucidando quem somos nós povos indígenas, vindos de cada canto do mundo, trazendo à
memória coletiva todo o percurso do tempo da humanidade, assim erros e acertos, foi feito
todo um processo de aperfeiçoamento do ser a partir das tradições ancestrais onde com o
decorrer das gerações foi-se fortalecendo a essência espiritual. Dentro de nossas sociedades,
focos centrais e estruturais foram moldados, atingindo todos aspectos da vida, que chamamos
de cultura, onde o cuidado e o respeito são as diretrizes, influenciando o modo de vida,
educação, alimentação, espiritualidade, coletividade, natureza, ou seja, toda a consciência ao
qual Nhanderu nos ensina através de sua natureza nos é repassado pelos mais antigos,
descendentes diretos dos primeiros homens dentro da criação de cada povo. Assim, os povos
indígenas são os anciões da humanidade, e como todo ancião deve ser muito bem escutado,
respeitado e que haja o aprendizado através de seu exemplo. De modo que a humanidade
que perdeu sua raiz consciente ancestral e se baseia num modo de vida oriunda de uma
sociedade de quando muito 2 mil anos, sendo a maioria presa aos conhecimentos modernos
e contemporâneos, onde a religião, a política, a ciência e tecnologia materialista muitas vezes
não tem dado os melhores exemplos para a humanidade, vemos que os valores e
fundamentos de bem viver das sociedades indígenas necessitam ser conhecidos e
reconhecidos como essenciais para o continuar e o desenvolvimento da consciência humana,
assim como ser reconhecida pela ciência como uma extensão complementar dela.

Descolonizando saberes: um despertar com a terra no estudo de outras


epistemologias

Aida Brandão Leal

Rafaela Werneck Arenari

Janaína Mariano César

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3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

O presente trabalho traz recortes de uma pesquisa com os povos indígenas do Espírito Santo,
Brasil, financiada pela CAPES, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Psicologia
Institucional, na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), que tem como objetivo
problematizar o fazer pesquisa com os povos indígenas, especialmente a população
Tupinikim, situada em Aracruz/ES. Metodologicamente o trabalho busca no diálogo com essa
população gerar modos de produção de conhecimento contra colonialistas, acessando e
afirmando os saberes tradicionais, especialmente àqueles vinculados à memória, saúde e
relação com a terra. Analisa-se em primeiro lugar, que ao longo da história do ocidente, a
produção do conhecimento tem sido solidificada a partir de uma fundação racionalista, que é
princípio basilar para a consolidação do saber científico. Esta ciência se edifica enquanto um
modelo epistemológico hegemônico e colonizador, à medida, que desconsidera outras formas
de conhecimento, como a dos povos indígenas, que são produzidos de modo local, numa
epistemologia baseada na relação intrínseca com a terra e com a ancestralidade. A ciência
moderna, por sua vez, não apenas desconsidera os saberes tradicionais, mas funciona como
instrumento de colonização, submetendo e violentando os saberes dos povos indígenas, como
se fossem inferiores, tratando como folclore, crendices, de modo caricatural, produzindo
dessa forma, invisibilidade e inexistências da sabedoria dos povos. Apostar nas epistemologias
indígenas, ou seja, conhecimentos que se desenvolvem numa relação de pertencimento,
coexistência e interdependência com a terra e com a memória ancestral, significa em primeiro
lugar considerar a diversidade do mundo. Conhecimentos que não são pré-existentes, mas
que existem a partir da relação e da produção de diferenças. Por isso, o mundo é múltiplo,
diverso, portanto, reconhecer a existência da pluralidade do mundo contribui para a
afirmação de outros horizontes, formas diversas de vida, um campo aberto de criação de
possibilidades de experiências e práticas sociais e políticas. Não se trata, porém, de questionar
ou negar a importância e o valor da intervenção científica, como por exemplo, os saberes
biomédicos, problematiza-se, portanto, as práticas de seu monopólio colonial que oculta e
impede de reconhecer a existência e a potência de outras formas de conhecimento, vida e
outros modos de intervenção no real. Pois, o colonialismo escreveu com sangue dinâmicas
históricas de dominações políticas e culturais que submeteu à sua visão etnocêntrica do
conhecimento ao mundo, impondo o modelo de mundo cristão ocidental e o capitalístico,
como se fosse natural e universal. Assim, esta pesquisa aponta para um despertar com a terra
e com a memória ancestral, como caminhos de pesquisa conectada com as epistemologias
indígenas, como âncoras de construção de pesquisas que sejam contra colonizadoras.

Gnosecidização e resistência dos saberes Akrãtikatêjê no Vale do Tocantins-


Araguaia: a experiência de um povo entre a violência e a autodeterminação

Ronnielle de Azevedo-Lopes
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William Bruno Silva Araújo

Este ensaio se propõe a investigar a gnosecidização (tentativa de extermínio de saberes)


imposta pelo colonialismo tecnocientífico aos saberes e vivências do povo Akrãtikatêjê no
Vale do Tocantins-Araguaia, bem como pensar suas estratégias de resistências. A primazia e
hegemonia tecnocientífica, em todas as áreas da teoria do conhecimento, consolidada na
escola convencional e em seus currículos se desdobra desde o início da modernidade
anulando os saberes tradicionais, no caso amazônico, em comunidades indígenas como a
Akrãtikatêjê, tal violência se traduz em genocídio, etnocídio e privação de território. Cabe
ressaltar que, a tecnociência é ainda para o principal argumento dos projetos
desenvolvimentistas na Terra Indígena Mãe Maria no município de Bom Jesus do Tocantins –
PA, onde habitam os Akrãtikatêjê, os Parkatejê e os Kyikatêjê; povos denominados “Gaviões
do Oeste”, os “Timbira das Matas”. Frente a ataques diversos, os Akrãtikatêjê promovem seus
próprios agenciamentos como ressalta a cacique Tônkyré, principal liderança do povo: “Eu
falo assim pra vocês bate no peito que nós somos um povo rico, rico de conhecimento. Nós
pode não ser formado em uma faculdade, mas nós tem nosso conhecimento de como nós
proteger, de como nós não agredir a nossa mata. Todo esse cuidado nós tem. É diferente do
homem branco né?” (2017). Se no início da Colonização, a dominação ocidental se legitimava
por meio da evangelização, na contemporaneidade com a consolidação da colonialidade
(Quijano 1992), tal processo passa pela tecnociência e o dispositivo do gnosecídio. Por meio
da tecnociência, os saberes tradicionais indígenas são secundarizados, ridicularizados,
folclorizados e marginalizados. Neste âmbito, a história do povo Akrãtikatêjê é marcada por
seu envolvimento com o território, deslocamentos, luta e resistência frente aos processos
desenvolvimento e colonização no Vale do Tocantins-Araguaia, Amazônia Oriental.
Hodiernamente os Akrãtikatêjê habitam a Terra Indígena Mãe Maria, onde estão
constantemente reinventando suas estratégias de perpetuação enquanto povo. A partir das
narrativas e da sabedoria da cacique Tônkyré Akhãtikatejê, o artigo busca dialogar com os
saberes e vivências Akrãtikatêjê voltados para o manejo etnoenvolvimentista do mundo. A
pesquisa parte de uma perspectiva qualitativa. A partir dos envolvimentos dos autores com o
povo Akrãtikatêjê, deliberou-se por uma aproximação teórico-metodológica da Investigação
Ação Participativa – IAP. Buscou-se acolher as falas e interpretações a partir de visitas e
durante atividades coletivas da comunidade. A investigação mostrou que o manejo da
natureza na perspectiva Akrãtikatêjê é pautado por um profundo saber etno-ecológico, bem
como por uma relação de respeito, cuidado, afetividade e pertencimento deste povo à
natureza, uma cosmoética (ARAÚJO et al., 2017). Nas palavras de Tônkyré: “nós não explora
a natureza, já basta os Kupên que vem aqui explorar”.

El diálogo de ‘sordos’ investigadores y actores sociales. Códigos diversos


encuentros y desencuentros
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Haydee Quiroz Malca

Se trata de presentar las dificultades surgidas entre los estudiosos de la población de origen
africano en México y los actores sociales involucrados. El precursor del tema fue Gonzalo
Aguirre Beltrán, que publicó su primer trabajo La población negra en México en el año 1946.
Y más tarde Cuijla: esbozo etnográfico de un pueblo negro en 1958. En éste trabajo, Aguirre
Beltrán los denomino afromestizos, nombre que continuó hasta los años 90, época en que
como efecto de las nuevas corrientes de otros países de Latinoamérica de manera paulatina
se va retomando la definición de afrodescendientes, afromexicanos. Al respecto, me gustaría
para proponer un diálogo entre las propuestas académicas y de política pública con los actores
sociales. Con base a entrevistas a los pobladores de la región de la Costa Chica de Guerrero.
Se observará que em la mayoría de los casos no se ‘reconocen’ en ninguna de éstas
‘categorías’. Salvo el caso de los integrantes de las ONG`s o grupos organizados, que toman y
se asumen como afromexicanos, para luchar por sus derechos. En el marco de la discusión en
contra de la discriminación y el reconocimiento de los derechos de los pueblos y la inclusión
de las diversidades. El Instituto Nacional de Pueblos Indígenas (INPI) de reciente constitución,
afirma que: “es la autoridad del Poder Ejecutivo Federal en los asuntos relacionados con los
pueblos indígenas y afromexicano que tiene como objeto definir, normar, diseñar, establecer,
ejecutar, orientar, coordinar, promover, dar seguimiento y evaluar las políticas, programas,
proyectos, estrategias y acciones públicas, para garantizar el ejercicio y la implementación de
los derechos de los pueblos indígenas y afromexicano, así como su desarrollo integral y
sostenible y el fortalecimiento de sus culturas e identidades, de conformidad con lo dispuesto
en la Constitución Política de los Estados Unidos Mexicanos y en los instrumentos jurídicos
internacionales de los que el país es parte”. Esperemos identificar encuentros, desencuentros
estos diálogos de ‘sordos’ entre los diversos actores. Se usaran las propuestas teórico
metodológicas de Aníbal Quijano (2014) y Rita Segato (2015), respecto a los modelos
coloniales y descoloniales y la búsquedas de nuevas rutas y categorías para su compresión.

Los procesos de adaptación de la mujer indígena Oaxaqueña que migra a la


Ciudad de México, desde la interculturalidad

Viridiana Lara Martínez

En mi proyecto de tesis decidí trabajar con cuatro mujeres indígenas Oaxaqueñas quienes
desde niñas migraron a la Ciudad de México por distintas razones, en particular por motivos
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económicos y por salir huyendo de los usos y costumbres de sus comunidades. Cabe
mencionar que Oaxaca es un estado que se rige en la mayoría de sus municipios por los
llamados “usos y costumbres” y en donde la mujer desde muy pequeña, en algunas ocasiones
aun siendo una niña es obligada a casarse y ejercer el papel de una maternidad temprana, sin
su consentimiento; dejando entrever la violencia simbólica hacia su persona solo por ser
mujeres. La presente investigación tiene como función principal analizar los procesos de
adaptación de cuatro mujeres indígenas oaxaqueñas que migran a la Ciudad de México desde
la perspectiva de la comunicación intercultural en donde los conceptos de asimilación,
aculturación, ajustamiento e integración se hacen presentes mediante el análisis de las
historias de vida de cada mujer. Dicho tema nace de la inquietud de demostrar a través de un
análisis detallado las injusticias y la importancia que tiene la situación de las mujeres indígenas
una vez que llegan a la Ciudad de México, debido a que el papel de género y etnia tiene um
gran peso social y cultural en la sociedad, en donde la procedencia étnica puede ser motivo
de exclusión, violencia, discriminación, racismo y cancelación de los derechos humanos.

Colonialidade no cinema brasileiro da virada do século XX-XXI

Narciso Faustino Mendes

O cinema brasileiro sofreu um forte golpe no final dos anos 90 com a dissolução da
Embrafilme. O momento posterior, comumente chamado de Retomada, é marcado pelo
resgate historiográfico brasileiro; Carlota Joaquina, Princesa do Brasil (1995) é tido como
marco desse novo momento em nossa cinematografia. Nesse artigo, trago uma análise desse
e de outros filmes como Hans Staden (2000), Caramuru - A invenção do Brasil (2000) e Brava
Gente Brasileira (2000) a fim de investigar as construções discursivas sobre essas abordagens
históricas da colonização e de como os povos indígenas são retratados tendo em vista a
proximidade do marco de 500 anos desde a invasão portuguesa ao nosso continente,
Pindorama. A se entender o cinema como ferramenta fundamental na construção de
identidade nacional, podemos extrair dele a forma como o Estado vem invisibilizando e
estereotipando as identidades dos povos originários; o audiovisual é, portanto, local de
disputa de narrativa. A pouca visibilidade que se tem do cinema indígena representa, então,
um apagamento identitário que é sistêmico e fundamental para a consolidação da sociedade
colonial. Questionar essas construções narrativas que, pela natureza do audiovisual, tem
caráter reprodutivo é de extrema importância para que construamos uma historiografia
contra-hegemônica.

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Diálogo entre “cristianos” subalternos y católicos hegemónicos en el México


contemporáneo

Patricia Fortuny Loret de Mola

La relación asimétrica entre católicos y cristianos es una construcción social histórica que data
de la llegada de los primeros misioneros protestantes de origen anglosajón a tierras mexicanas
desde fines del siglo xix. Aunque ambas creencias compartan el monoteísmo y el origen judeo-
cristiano, desde el inicio se estableció una relación de religión subalterna y hegemónica, en la
cual los creyentes de la primera ocupan en la práctica, la categoría de ciudadanos de segunda
clase. Esto se puede observar en el presente, no solo en la literatura, en los medios, en la vida
cotidiana sino incluso en los contenidos de análisis y estudios socio-antropológicos. Aquí
analizo diversos ejemplos derivados de trabajo de investigación desde la década de los
ochenta hasta el presente, de las prácticas discursivas utilizadas entre unos y otros, desde las
iglesias llamadas minorías religiosas (en este caso me refiero solo a evangélicos y
pentecostales) y la Iglesia Católica. Los “cristianos” constituyen “el Otro”, en los espacios
públicos y privados en donde se establecen confrontaciones, negociaciones y acuerdos. El
término sectas que aún se utiliza para llamar a las iglesias que no pertenecen al catolicismo,
en cualquiera de sus vertientes, aún constituye un vocablo colonizador del católico.

Hurtos, robos y estafas. Las representaciones de la criminalidad en Manizales,


Colombia. 1930-1936

Mauricio López Noreña

La ciudad de Manizales vivió a principios del siglo XX, un proceso de crecimiento económico
que propició un ambiente de prosperidad, a consecuencia de la expansión cafetera de la
década de 1920. Ubicada inicialmente, al sur de Antioquia en la frontera con el Departamento
del Cauca durante el siglo XIX y después como capital del Departamento de Caldas desde 1905,
ha sido un centro comercial, papel que ha desarrollado fungiendo como centro distribuidor
con participación en el comercio internacional, mejorando las vías que facilitaban el flujo de
bienes, como la construcción del ferrocarril o el cable aéreo. (Valencia Llano 1990, p. 90). Así,
la transición de una ciudad de la frontera interior a capital se tradujo en la presencia de una
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mayor institucionalidad, trabajada por la actual historiografía para el siglo XIX (Bedoya
Sánchez & Monsalvo Mendoza, 2014; López Castrillón & Monsalvo Mendoza, 2014; Monsalvo
Mendoza, 2015). En aquellos trabajos se preocupan por la relación entre la criminalidad y la
frontera, pero el objetivo de este trabajo circunscrito en el siglo XX es acercarse a la
criminalidad de una ciudad próspera y boyante que concentra las oficinas centrales de las
instituciones regionales y tiene una fuerte influencia en el plano nacional (Herrera Uribe,
Monsalvo Mendoza, & Suárez Araméndiz, 2015; Ortiz Mesa 2015, 28-34). Por lo tanto, el lugar
ideal para observar las interacciones como negociaciones entre subalternos y la autoridad, en
el marco de unas instituciones con poderes y presencia plena, cuando la riqueza de la ciudad
demanda una pronta y eficaz normalización de los sujetos, en aras de la productividad y la
riqueza. En otras palabras, un contexto que demandaba y presionaba por un fuerte control de
los pobres. Por otro lado, este estudio tiene lugar entre 1930 y 1936, comenzando con la
republica liberal (Henderson, 2006) y terminando con el cambio del Código Penal de 1890,
después el establecimiento del Código Penal de 1936 que redefinió la situación sobre los
vagos, maleantes, rateros y reducidores (Angulo Rueda, 1945). Por el contexto, se puede
entender que la llegada de los liberales al poder supuso varios cambios, por ejemplo, el
cambio en el sistema penal y leyes, antes mencionado. Esto se torna en otro motivo, que volvía
necesario este trabajo, observándose las condiciones previas que pudieron resultar
determinantes y obligar los cambios en la legislación, los cuales se pueden mirar a partir del
caso de Manizales. Además, se puede conocer el comportamiento de los indiciados, los cuales
respondieron a las leyes de la hegemonía conservadora y la regeneración durante sus últimos
años de vigencia, allí habrían usado una habilidad adquirida durante años, la negociación de
sus actividades con el sistema judicial. Por lo tanto, se podría ver la formación de una tradición
en las formas de negociación con la autoridad que representaba la ley. Como consecuencia,
resulta validó preguntarse ¿Quiénes son los ladrones y por qué cometen hurtos? Responder a
esta pregunta implica aludir a la constante amenaza que tiene la propiedad, incluso en el siglo
XXI, que nos llevaría hasta los orígenes de su existencia en tiempos previos a la constitución
de las sociedades con escritura; es decir, a lo largo de la historia del mundo occidental siempre
han existido ladrones y embaucadores. Sin embargo, el objetivo de este trabajo no fue explicar
el origen de los ladrones, pero sí su relación con la pobreza. Cuando el hurto y la estafa se
ejercen como um medio para sobrellevar su existencia, esperando sobrevivir al hambre y
escasez. Así, se entiende que los ladrones y la criminalidad pueden existir en una relación
directa con la escasez material y psicosocial, algo ampliamente trabajado desde múltiples
disciplinas; no obstante, también se entiende que existen muchos tipos de ladrones o formas
de hurto, pero este trabajo solo se concentró en aquellos que robaban como una forma de
paliar sus necesidades. Teniendo en cuenta lo anterior, este ejercicio intenta comprender las
estrategias y respuestas discursivas que los sectores populares realizan como forma de
resistencia al discurso hegemónico que los convierte en criminales; considerando que en ese
discurso quien se resiste al ambiente (necesidades básicas insatisfechas), se defiende con la
ejecución de acciones que palian su miseria, donde se establece una aprehensión de la

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realidad que lleva a la formación de algunos elementos de identidad de los pobres, que la
autoridad entiende como crimen.

A radical alteridade indígena com relação ao ocidente adulto e prosaico

Patrick Pardini

No decorrer dos últimos 35 anos, aproximadamente, a Ciência fez uma série de descobertas
fundamentais relativas à Amazônia, no campo da Antropologia e da Arqueologia. Avançou-se
consideravelmente na compreensão das ecologias praticadas pelas sociedades indígenas
contemporâneas, das suas filosofias e cosmologias. O que importa, hoje, é a revelação de um
saber radicalmente outro e o reconhecimento, pela sociedade brasileira, dessa ‘alteridade
indígena’, do seu valor. Graças à Antropologia, sabemos que as sociedades indígenas da
Amazônia oferecem um modo de ser e pensar próprio, que não se baseia na relação
antropocêntrica, sujeito-objeto. Essas sociedades, tradicionalmente, conferem dignidade de
pessoa ou sujeito aos não-humanos: plantas, animais, artefatos, fenômenos naturais,
acidentes geográficos... A relação entre sujeitos (simétrica, dialógica, de troca e reciprocidade)
é uma relação ética e também poética. Ao promover uma sociabilidade generalizada entre
sujeitos humanos e não humanos, ela realiza o total predomínio da Cultura sobre a Natureza
(no universo indígena, não há Natureza, pois tudo é Cultura). Por outro lado, o que prevalece
na civilização ocidental é a relação sujeito-objeto (assimétrica, autoritária, de poder e
dominação), da qual se origina a Natureza-objeto, em oposição ao Homem-sujeito, único
detentor de Cultura. Ora, ‘o outro como objeto’ é a negação do outro e a negação da ética.
Há, porém, um Ocidente criança e poeta que se reconhece nos povos indígenas – na sua
experiência ética e poética, na sua capacidade de dialogar com o mundo, na sua adesão ao
invisível e ao sagrado. O que está em questão é a alteridade radical dos modos de ser e pensar
indígenas com relação ao Ocidente adulto e prosaico; essa alteridade indígena tem, para nós,
valor de tesouro e sabedoria. A falência do homem ocidental, do modo ocidental de
relacionar-se com o outro, humano ou não humano (uma relação entre sujeito e objeto,
violenta, autoritária, dominadora), exige uma alternativa radical. Essa alternativa, o Brasil a
possui em grau de excelência: é um dos seus maiores tesouros. Tesouro nativo, vilipendiado
desde o princípio, quando o Ocidente para cá se estendeu com violência surda e cega, com
base na total negação do outro, contra a alma e o corpo indígenas. Tesouro da sabedoria
ameríndia: o não-humano como sujeito – uma relação ética e poética com o outro.

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La horizontalidad, el dialogismo y la colaboración en la investigación social en


el estudio de las dinámicas culturales y los procesos de identificación, con la
niñez indígena

Kathia Núñez Patiño

El problema de las identidades es muy amplio y complejo, debido a la diversidad de contextos


sociohistóricos en los que se inscribe la pluralidad de actores que participan em la estructura
de relaciones y su posicionamiento en ella. En esta estructura de relaciones de desigualdad
sociocultural se configuran las subjetividades personales, en relación com otros y en su
dinamismo, lo que provee de sentido, en proceso, a las diversas identificaciones que
construyen la identidad de las personas. Frente a este panorama tan amplio, abordar el
problema de las identidades se hace más complicado por la enorme cantidad de producción
académica que se ha acumulado y otros conceptos que lo implican. Por ejemplo, los de
“cultura” y “comunidad indígena”, son conceptos articulados que apelan al juego del poder
en la estructura de clasificaciones que jerarquiza las relaciones sociales en el devenir histórico.
Este sistema de clasificaciones configura el mundo desde la colonialidad, por lo tanto, en esta
ponencia se presenta una propuesta metodológica para abordar el problema de las dinámicas
culturales y los procesos de identificación en contextos comunitarios de pueblos originarios,
desde los estudios de las infancias y las metodologías horizontales para la construcción de
diálogos y colaboración en la producción de conocimientos. En la propuesta se destaca la
agencia de la niñez para conocer, de manera histórica y etnográfica, los contextos
comunitarios indígenas en los que se construyen las identidades en permanencia, a través
dibujos-entrevista considerados como textos, desde una propuesta con bases en la semiótica
y la antropología crítica.

Videojuegos para la interculturalidad: una lectura decolonial de la


representación del indígena en los videojuegos

Wilson Alberto Martinez Penagos

Desde los 80 la industria de los videojuegos viene construyendo su propio lenguaje y, junto al
lenguaje video-lúdico, un discurso que refleja el lugar de enunciación privilegiado del primer
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mundo. Japón, Estados unidos y Europa son los principales productores de videojuegos y, a la
vez, tienen los mercados más importantes. El videojuego como medio de comunicación o
como narrativa es una parte importante de la cultura popular de estos países; por medio del
videojuego se realiza una mutua y significativa influencia cultural e ideológica. Desde este
lugar de enunciación, el videojuego refleja un imaginario euro-centrado del indígena en el
esquema colonial civilizado/salvaje. En sus narrativas se evidencia la justificación colonial, el
extermino del otro, la violencia hacia la mujer indígena, el silenciamiento, la apropiación, el
uso de estereotipos y hasta el blanqueamiento. No obstante, lo anterior, algunos procesos de
democratización de la tecnología, tales como motores de videojuegos de licencias
gratuitas(Unity), plataformas de distribución (Steam) y el auge de los celulares, dieron un
impulso a los videojuegos independientes desde los cuales circulan discursos críticos y anti-
hegemónicos. En tal sentido, se considera que los recursos lúdicos y narrativos del videojuego
tienen la capacidad de inmersión diegética y que los pueblos indígenas pueden aprovechar
como estrategia geo-cultural para un diálogo intercultural. La adaptación de narrativas
indígenas a los videojuegos permite nuevos escenarios de transmisión intra-cultural a la vez
que abre un escenario de diálogo con la comunidad alrededor de los videojuegos. Los
videojuegos pueden sumergirnos en el horizonte del otro, en el cual el propio jugador cuenta
la historia mientras que las mecánicas del juego pueden recrear dinámicas de los pueblos
indígenas. La noción de sistema permite una transposición de normas, así como el diseño de
condiciones de victoria. En esta vía, en la ponencia se explorará, de la mano con lo que se
denomina videojuegos indígenas (un grupo de videojuegos coodiseñados desde las
comunidades indígenas) la capacidad del videojuego para reflejar la cosmovisión de los
pueblos.

¿Quién es el prójimo? Indígena, subalterno, oprimido, pobre

Inés María de los Angeles Cornejo Portugal

La presente ponencia explora y sigue la huella de las propuestas fundadoras de Gustavo


Gutiérrez y la Teología de la Liberación, así como de Paulo Freire y la educación popular. Entre
los años sesenta y setenta, en América Latina, ambos parecen haber forjado y promovido
proyectos de comunicación sustentados en programas de alfabetización y uma toma de
conciencia política. El objetivo aquí es interrogar los trazos metodológicos de estos
precursores, es decir, el proceso ―ya sea teórico, práctico o teórico-práctico― que Gutiérrez
y Freire elaboraron en su propuesta social y evangélica para la “liberación del oprimido”. El
propósito es identificar cómo construir, participar y asociarse para signar juntos, investigador-
investigado, educador-educando, el derrotero. Trazos metodológicos, métodos en plural, un
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cuerpo teórico y práctico de investigación para orientarse en cuanto a qué conocer, cómo
conocer y para qué. Además, se analiza el concepto sobre “el otro” (ya sea oprimido o pobre),
la importancia que Gutiérrez y Freire otorgan al lenguaje y la forma en que se apropian de
éste, y el trabajo del científico social (en tanto intelectual educador o teólogo). Por último, se
trata de entender cómo conceptualizan o definen la “liberación social” o la acción preferencial
por los pobres para realizar una reflexión conceptual a partir de sus aportes. La ponencia se
divide en tres apartados: el primero es un abordaje y exposición sobre la Teología de la
liberación de Gutiérrez y su método; en el segundo, expositivo también, hay una breve
revisión de la educación popular en términos de Freire y el caminho metodológico que siguió;
por último, el tercer apartado está subdividido en secciones menores para establecer
reiteraciones, omisiones o preguntas que parecen haber quedado pendientes por resolver en
el camino metodológico. Finalmente, en la conclusión se analiza cómo estos primeros trazos
y propuestas sobre la comunicación popular se filtran o no en las reflexiones actuales, en un
marco de referencia más amplio en torno a la producción de conocimiento en una realidad
como la latinoamericana. Se evidencian los encuentros y desencuentros, los pasos perdidos y,
em algunos casos, los métodos herméticos del investigador social o los cuestionamientos
desde la espiritualidad.

Diálogos sobre el racismo: Narrativas de jóvenes afromexicanos de la Costa


Chica de Oaxaca, México frente a una práctica invisibilizada

Maritza Urteaga Castro Pozo

Alejandra Ramírez López

Esta ponencia es un acercamiento a las narrativas que construyen los jóvenes afromexicanos
de la Costa Chica de Oaxaca acerca del racismo desde su enunciación en el espacio social,
como actores subalternos, a quienes se les han otorgado pocos espacios para hablar de las
experiencias racistas a las que se confrontan. En México, el discurso del mestizaje-que dejó
fuera de su lógica a los grupos afrodescendientes-propició la ilusión de generar una sociedad
con oportunidades para todos. Este fenómeno, aunado al rechazo de la categoría raza, desde
su perspectiva biologicista, fortaleció el hecho de que hasta hace algunas décadas se hablara
poco acerca del racismo, sus prácticas y su reproducción. De Sousa Santos (2006:23) apunta
que las ausencias son producidas y programadas por el Estado, que en este caso había
promovido desde la época posrevolucionaria una idea de universalidad a través del mestizaje,
desde las que se construyeron las “narrativas” hegemónicas (Spivak, 2003) de “lo mexicano”,

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en las que quedó fuera el racismo. En contraposición al discurso nacional, este trabajo implicó,
como lo propone Spivak (2003) escuchar las voces subalternas para entender cuáles son las
narrativas desde las que se están construyendo los jóvenes afromexicanos, frente a las
narrativas hegemónicas. Las “metodologías horizontales”, el hecho de “considerar al sujeto
como otro que se deja ver em el diálogo” (Corona, 2017), nos permitieron construir en
conjunto el racismo como un eje que articula parte de la experiencia juvenil de los jóvenes
afrodescendientes, lo que da pie a hacer visible las prácticas racistas en México, a
desnaturalizarlas y a comprender sus lógicas. Este trabajo se realizó con base en datos
obtenidos a través del trabajo de campo en la comunidad de Santiago Tapextla, Oaxaca,
ubicada en la región Costa Chica en México. Los relatos y narrativas están construidos con
jóvenes estudiantes y migrantes de retorno a través de entrevistas en profundidad y tres
grupos focales, realizados entre 2016 y 2017.

Povos indígenas e descolonização da psicologia

Brisana Índio do Brasil de Macêdo Silva

João Paulo Macedo

As trajetórias de vida e as lutas dos povos indígenas colocam em análise elementos fundantes
da história de nosso país. Essa marcada por um histórico de opressão, extermínio e
invisibilidade desses povos. Apesar do incremento de estudos e discussões sobre a temática,
a relação da Psicologia, enquanto ciência e profissão, com as discussões étnico-raciais ainda é
pouco abordada nos cursos de graduação/pós-graduação e nas produções acadêmicas,
marcados pela tradicionalidade da Psicologia, em meio as relações de colonialidade de poder,
saber e ser. Assim, perpetua-se uma invisibilidade para essas questões, que imprimem
diferentes tipos de preconceitos, de discriminações e de sofrimento psíquico a uma expressiva
parcela da população brasileira até então silenciada e invisibilizada (Berni, 2016; Ferraz &
Domingues, 2016; Rosa, 2016). Desse modo, a fim de possibilitar um campo de aproximação
da Psicologia com a temática dos povos indígenas este trabalho buscará apresentar as
principais categorias teóricas e analíticas que possam contribuir para estabelecer um profícuo
diálogo entre a Psicologia e os povos indígenas no cenário brasileiro. Metodologicamente,
localizaremos, nos estudos sobre povos e comunidades indígenas as principais contribuições
teóricas e analíticas para refletir a realidade dos povos indígenas no Brasil; em seguida,
procuraremos situar a produção acadêmica da Psicologia sobre a temática, a fim de refletir
sobre a atuação do(a) psicólogo(a) junto aos povos indígenas e os principais desafios postos;
para assim, situar a importância de descolonizar a Psicologia, ou seja, de reinventarmos
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teorias, referências de atuação, tendo em vista que a Psicologia enquanto campo de saber foi
fundada tomando como referência o homem burguês e as características do mundo ocidental
moderno. Na ocasião, destacaremos os estudos pós-coloniais e decoloniais que, diante a
tradicionalidade do discurso ocidental e colonial, buscam problematizar o eurocentrismo na
visão de mundo, no ser humano e na história. Para descolonizar essas relações, deve-se
investir no exercício crítico de reflexão sobre esse modelo de ser humano, como o tomamos
e aplicamos na prática e em determinados contextos. Embora a Psicologia já tenha
desenvolvido iniciativas em relação a isso, a exemplo da Psicologia Crítica, Psicologia da
Libertação Latino-Americana, Descolonização da Psicologia, Estudos Africanos em Psicologia,
Psicologia Indígena, ainda é possível observar teorias e práticas ancoradas nesse modelo de
ser humano. Repensar a Psicologia, enquanto campo de saber e prática, não se trata de buscar
abandonar as referências, até então, produzidas; mas sim, refletir sobre os limites e
possibilidades dessas referências europeias.

Ainda precisamos reivindicar o protagonismo indígena na Universidade

Maíra de Mello Silva

Os questionamentos se repetem, a cada espaço protagonizado por indígenas na Universidade


Federal de Pelotas, sobre o uso ou não de roupas nos territórios tradicionais, a perda de suas
identidades, o estar na Universidade, a existência da pluralidade étnica no Brasil e tantos
outros. Assim, partindo de diferentes experiências com indígenas que estão cursando a
educação superior ou que vêm até a Universidade dialogar sobre suas realidades atuais, esse
trabalho se propõe analisar: algumas das questões recorrentes, por parte da comunidade não
indígena de Pelotas/RS; a persistência argumentativa de indígenas sobre suas respectivas
culturas; e a utilização do recurso audiovisual como ferramenta de sensibilização e
informação. Os aparatos teórico-metodológicos perpassam a criação de espaços legítimos à
fala de e sobre os povos indígenas, a utilização de filmes etnográficos protagonizados e/ou
dirigidos por indígenas e a construção de textos e documentários que possam reverberar essas
experiências. Até o presente momento, essa dinâmica se faz frutífera, mas denota a
necessidade de muitos mais espaços de integração, em que a autonomia de fala das e dos
indígenas seja central. É nesse sentido que refletir o que nós, não indígenas, praticamos nos
diversos espaços científicos, é um exercício fundamental, neste momento em que as garantias
constitucionais desses povos estão sob ameaça.

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A política de austeridade do governo Temer aos povos indígenas

Maíra de Mello Silva

Julio Augusto Jesus Lopez

Tratamos neste trabalho dos dados trazidos no relatório O Impacto da Política Econômica de
Austeridade nos Direitos Humanos, a partir da síntese de elementos no tocante aos povos
indígenas que vivem no Brasil. Os vínculos geográficos também estão colocados, de forma a
compreender as políticas econômicas sob um viés regional, entendendo que Terras e
comunidades indígenas são consideradas empecilhos a um mesmo projeto de
desenvolvimento que ocasiona ruptura com direitos fundamentais. Assim, o aparato teórico
e metodológico utilizado neste trabalho toca a Antropologia, quando da compreensão das
dinâmicas práticas das políticas de austeridade infringidas aos povos indígenas, também
quando da revisão sobre a atuação dúbia do Estado brasileiro no que tange à lógica de
desenvolvimento que ocasiona e reafirma o etnocídio dos povos originários. Esse movimento
abstrato é feito através da vinculação da Antropologia e do Direito, pensando a Antropologia
Jurídica como instrumento epistemológico possível, especialmente através dos trabalhos que
possibilitam descolonizar essas ciências, em suas essências. Os resultados obtidos dão conta
de que a política implementada entre 2016 e 2019 pelo presidente Michel Temer fazem parte
de um longo processo genocida, caricato do Estado nacional brasileiro, porém, com requintes
de uma nova leva de investimentos internacionais para a compra de terras, instaurando o
conflito fundiário no campo, incluindo as Terras Indígenas até então asseguradas pela
Constituição.

Indigeneidade e raciocínio geográfico: uma sequência didática de resgate


ancestral a partir do Corpo - Território

Nathalia Vieira da Silva

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Através de uma árvore genealógica dos lugares de origem da ascendência familiar de cada
um/a, partindo de uma reflexão do mapeamento do Corpo como um Território, foram feitos
exercício de colocar em desenho todos aqueles lugares que consideramos necessários
visibilizar em um mapa do território que habitamos, tendo sido feito um recorte interseccional
do público-alvo, trazendo a tona as memórias de Indigeneidade (Balée, 2008) que carregamos,
questionando junto aos participantes como elas vivenciam e sentem sobre seus corpos as
violências que se exercem em seu território. Através do Raciocínio geográfico seria possível
refletir a indigeneidade? Qual é o potencial de traçar um território indígena em nosso corpo?
É possível localizar geograficamente a partir dos relatos de familiares e da análise do nosso
corpo- território nossas etnias ancestrais? A prática da metodologia científica da geografia
feminista decolonial vai de encontro com o processo de auto-afirmação étnica, notamos uma
deficiência evidente de recursos didáticos sobre Indigeneidade nas escolas, e nos
questionamos como isso pode afetar a autoestima das/os alunas/os que descendem de
diversos povos indígenas e que por uma questão material e histórica de etnocídio colonial,
vivem na pele ainda hoje o apagamento e a perda das memórias de nossas/os
antepassadas/os. O pano de fundo histórico dessa pesquisa está cunhado em meio às
perspectivas do giro decolonial na geografia crítica, a partir da Geografia feminista que propõe
algumas possibilidades para romper com as visões eurocêntricas, heteronormativas,
hegemonicamente brancas e que carregam ainda o olhar do colonizador, predominantes
mesmo no pensamento crítico da ciência geográfica (Coletivo Geografía Crítica Ecuador,
2017). A Cartografia Corporal propõe um resgate de nossas emoções através da
conscientização do nosso corpo como um território de disputas e resistências, um corpo-terra,
para isso usamos o exercício da Cartilha: “Mapeando el cuerpo-territorio. Guía metodológica
para mujeres que defienden sus territorios”, idealizado pelas mulheres do Coletivo “Miradas
Críticas del Territorio desde el Feminismo”, com as quais tive contato em um intercâmbio de
curta duração que realizei na Universidad Andina Simón Bolívar no Equador, durante o curso
“Geografia Feminista” ministrado pela Profa. Dra. Sofía Zaragocin, e na necessidade de
produzir recursos metodológicos que apoie e incentive outras pessoas e educadoras/es a
tratar o tema da autodeclaração étnica, nas escolas, em espaços de educação não-formal, e
nas suas trajetórias pessoais, que construímos a sequência didática desta pesquisa.

Diálogo intercultural en el habitar la escuela

Tatiana Aguayo Vidal

¿Cómo en la escuela como espacio habitado toma lugar el diálogo intercultural? Es la pregunta
de una etnografía realizada en una escuela de Alto Bío-Bío, Octava Región de Chile; donde el
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95% del estudiantado es de origen Pewenche. Los hallazgos dan cuenta que en las prácticas
educativas habitan narrativas hegemónicas que significan a lxs niñxs pewenche, su saber ser
y su lugar de vida, como naturalmente carenciados. Reflejado en dichos como “…no quieren
ser más…”, “Aquí está menos instaurado el progreso… no está esa competencia que nosotros
tenemos…”, “es como si tuvieran una venda traslúcida y no logran ver bien” “hay que darle un
objetivo de porqué educarse”. Se confrontan a estas narrativas, prácticas culturales familiares
que concibe el respeto como un valor fundamental “El respeto de la naturaleza se expresa en
lo cotidiano; se toma [de ella] lo que se necesita, antes se [le] pide permiso y después se [le] da
gracias” (Cuaderno de campo, pág. 5). Estas prácticas no encuentran sintonía en el espacio
educativo, impidiendo que el diálogo intercultural tome lugar en la práctica educativa
cotidiana. El diálogo intercultural se juega en la posibilidad de que saberes creados y recreados
en la familia- territorio pewenche, que dan cuenta de lo particular y específico de su cultura,
tengan lugar en el espacio escolar simbolizando y significando las prácticas. Se juega en la
posibilidad de que estas prácticas se autodefinan desde argumentos autónomos, con base en
la filosofía y cosmovisión pewenche. Que explique porqué desde la filosofía occidental no es
posible hacer transferencia de sentidos de los saberes pewenche; provocando un giro,
sacando del paradigma del déficit, de la necesidad educativa, la relación y la práctica educativa
intercultural. Aportando teóricamente, desde un sistema de enseñanza aprendizaje que
privilegia la práctica, y de cuenta que la interculturalidad también se juega dando lugar en el
aula a la pluralidad de saberes existentes. Se juega poniendo fin a relatos que le dan a lo otro
la ubicación de inferioridad en el estatus del saber, expresado en la desvaloración y negación
de sus prácticas y formas de habitar, atribuyéndole falta de legitimidad a las formas, sistemas
de producción y transmisión de conocimientos. Imponer una única y excluyente forma de
entender y vivir la vida, genera una violenta distancia epistemológica entre el conocimiento
pewenche y el conocimiento escolar, imposibilitando que tome lugar la riqueza de otras
formas de saber- ser que dan cuenta de otras maneras de habitar el mundo natural y cultural,
siendo necesario la construcción de un relato contra hegemónico que equilibre las relaciones
de poder y permita la diversidad epistémica en la comprensión del ser y del saber.

ST 08 | Da subordinação à (difícil) construção de relações pluriétnicas e


plurinacionais IV

Lino João de Oliveira Neves (Universidade Federal do Amazonas – UFAM, Brasil); Patricia Zuckerhut
(Universidad de Viena, Austria); Carlos Rafael Rea Rodríguez (Universidad Autónoma de Nayarit,
México).

Este Simposio pretende agregar activistas y profesionales de los distintos campos de las
humanidades, para profundizar la reflexión crítica sobre el proceso continuado de anulación

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y eliminación de los sistemas nativos de producción de conocimiento impuesto por la


modernidad europea en todas las partes del mundo, en particularmente en América Latina.
Tomando como punto de partida la resistencia de los pueblos indígenas el simposio pretende
dar atención especial a la escalada de violencia practicada por el (neo)extractivismo, en
particular en lo que se refiere a la situación de los pueblos aislados, que a cada paso se vuelve
más trágica, con sus espacios vitales de supervivencia – sus territorios – cada día más
amenazados por frentes de explotación (maderera, petrolera y minerária) y el agribusiness,
no quedandoles más espacios para defender sus mundos. Como en ediciones anteriores (I
CIPIAL, Oaxaca/2013; II CIPIAL, Santa Rosa/2016 y 56 ICA, Salamanca/2018), el Simposio invita
a los participantes a avanzar en la búsqueda de fundamentos teórico- -conceptuales y de
estrategias políticas de superación de situaciones de subordinación epistemológica, cultural,
social y política y la deconstrucción del colonialismo que históricamente los pueblos indígenas
están sometidos y la búsqueda, igualmente necesaria, de construcción de relaciones
multiétnicas y multinacionales más acordes con la realidad de las sociedades plurales
existente en América Latina y en todas las partes del mundo.

A interculturalidade nas salas de aula como espaços de construção de


relações interétnicas decoloniais e mais justas: reflexões a partir de um
projeto de extensão em escolas públicas

Lori Altmann e Roberto E. Zwetsch

O Brasil, historicamente, se constituiu sobre a escravidão indígena e de africanos e afro-


brasileiros, o que gerou uma sociedade racista e extremamente desigual. A luta dos povos
indígenas e de escravos africanos pela liberdade nunca deixou de existir, apesar da crueldade
imposta a estes povos pelo sistema colonial e neocolonial. A experiência de realizar um
projeto de extensão enfocando a história indígena em escolas da rede pública do município
de Pelotas, no Rio Grande do Sul, Brasil, concretizando os objetivos da Lei 11.645, de março
de 2008, vem demonstrando que é possível envolver crianças e jovens numa nova abordagem
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dessa realidade histórica, principalmente quando se abre a oportunidade de ouvir nas salas
de aula estudantes universitários e lideranças indígenas que falam de suas histórias e culturas,
a partir de um diálogo criativo e desafiador. Docentes de escolas públicas igualmente estão
envolvidos em um processo de formação continuada que lhes habilita a darem continuidade
aos temas abordados, conforme preveem os projetos pedagógicos dos cursos. A abordagem
teórica desta comunicação fará referência aos estudos decoloniais e interculturais.

Pueblos indígenas y extractivismo: obstáculos para la equidad en el desarrollo

José Del Val Blanco

A partir de la década de 1970, con la crisis del Estado benefactor y la puesta en marcha de la
cultura global del consumo, ilimitado y sin restricciones, a cargo de las empresas y
corporativos industriales y financieros trasnacionales, se empezaron a socavar los
fundamentos de los modelos de identidad nacional y a vulnerar las soberanías de los Estados
nacionales mediante la modificación de las estructuras jurídicas, imponiendo restricciones
formales e ideológicas a los compromisos sociales que tenían los gobiernos con sus
ciudadanos; es decir, se modificaron los términos del “contrato social”, obligando a las
naciones a subordinar el cumplimiento de sus derechos, a las determinaciones y necesidades
de los flujos del Capital y en función de las exigencias estabelecidas por los mercados globales
bajo el imperio de las eufemísticamente denominadas variables “macroeconómicas” (que
obvia y evidentemente ocultan la desigualdad), en ocasiones como en las nuestras,
establecidas y legitimadas, como Pactos de la fuerzas políticas locales. La presente ponencia
tiene como propósito analizar el neoextractivismo en el marco del proceso definido como
neocolonial, cuyos fundamentos se encuentran en la doctrina económica neoliberal,
sustentada en la libertad absoluta de mercado y la liberalización de cualquier restricción
jurídica, a la circulación de bienes materiales y no materiales, humanos y naturales,
concibiendo a todo y a todos como mercancías intercambiables y apropiables. La apropiación
por parte de los dueños del Capital global y del orden internacional, se ha venido
desarrollando de manera compleja y generalizada em todos los órdenes de la vida social,
económica y cultural de las naciones y mantiene su expresión material, en gran parte de los
territorios ocupados por poblaciones originarias.

O grito de que vem da aldeia: a presença Kaingang no Rio Grande do Sul - o


espaço territorial e o tempo dos panelões
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Danilo Braga

As conquistas dos povos indígenas, resultado de décadas de lutas, nunca antes na história
deste país foram tão atacadas. Na verdade, os direitos indígenas sempre foram atacados. O
que assistimos em um Brasil atual é uma grande busca, desenfreada de influenciar a opinião
pública para aquilo que podemos chamar de “sentimento anti-indígena”. Este movimento
camuflado no discurso de democracia é patrocinado pôr deputados federais, representantes
do agronegócio, dos grandes proprietários, a “Bancada Ruralista”. O sentimento dos povos
indígenas, acredito, é recíproco a de muitos brasileiros, no que diz respeito a não ser
representado pela maioria dos deputados, pois sua luta que sempre foi e é pela migalha, da
migalha, encontra se em cheque. Vivemos em pleno século XXI, era de revoluções tecnológicas
e o discurso em nada evoluiu. Na região sul do Brasil onde, ainda vivem os Kaingang, um dos
maiores grupos indígenas que possivelmente soma hoje mais de 40 mil indivíduos. A trajetória
deste povo em sobreviver em uma região de intensa colonização não foi uma tarefa fácil. A
presente abordagem desenvolveu-se no sentido de estar apresentando ao público uma
análise mais atual do caminho, das lutas pela terra de um dos povos indígenas mais numerosos
do Brasil. Este povo vive em uma região muito pequena em comparação com a região norte
de nosso país, mesmo assim sobreviveram. Neste sentido a análise é necessária para
conhecermos melhor a história deste povo autóctone.

Crítica à democracia ambiental brasileira e análise do cenário de conflitos


socioambientais envolvendo povos indígenas sob a ótica do pluralismo
radical

Ruan Didier Bruzaca e Thaís Emília de Sousa Viegas

O atual cenário ambiental brasileiro marca-se por diversos conflitos socioambientais, que vão
desde a implementação de grandes empreendimentos até a imposição de um modelo
conservacionista da natureza. Ao mesmo passo, existem previsões normativas materiais e
processuais que visam tutelar o meio ambiente, caracterizando-se formalmente uma
democracia ambiental (LEITE, AYALA, 2010, passim), mas que pode reproduzir situações de
injustiça e racismo ambiental (ACSELRAD, MELLO, BEZERRA, 2009, passim). Isto é observado
em relação a diversas situações de grupos étnico-sociais, como é o caso de povos indígenas.
Diante da diversidade de conflitos socioambientais, pode-se destacar em especial os conflitos

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decorrentes do modelo de desenvolvimento nomeado neodesenvolvimentismo, fundado no


neoextrativismo (SANTOS, 2013, passim). Com isso, comunidades indígenas, inserem-se em
conflitos socioambientais, buscando proteção nos instrumentos jurídicos. Porém, algumas
formas de ser, viver e criar não são passíveis de tradução conforme as formas da democracia
ambiental, na medida em que não vestem a máscara abstrata e geral do cidadão, seja na
formação do Estado-nação (SEGATO, 2010, passim; HALL, 2006, passim), seja na construção
do ordenamento jurídico nacional (MIAILLE, 2005, passim). Com isso, visando debater no
simpósio “Da subordinação à (difícil) construção de relações pluriétnicas e plurinacionais”,
elege-se o tema da democracia ambiental, delimitando-o na crítica à democracia ambiental
brasileira sob a ótica de conflitos socioambientais envolvendo povos indígenas. O problema
consiste em indagar em que medida a democracia ambiental instaurada formalmente no
Brasil garante direitos àqueles povos. Enquanto resposta provisória, entende-se que não se
atente aos direitos destes na medida em que o direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado e seus instrumentos consolidam um sujeito de direito abstrato e geral que não
alcançam o sujeito subalterno, nos termos de Spivak (2010, passim). O objetivo geral é
elaborar uma crítica à democracia ambiental brasileira, sendo os específicos descrever o
cenário jurídico brasileiro que inaugura a referida democracia, analisar as implicações dos
instrumentos jurídicos face às situações de conflitos socioambientais envolvendo povos
indígenas e, por fim, destacar uma concepção de pluralismo radical que possibilite repensar o
direito ambiental.

Aspectos da assessoria técnica em arquitetura junto a populações indígenas:


planejamento e construção da Casa de Cultura Xakriabá

Thiago Barbosa de Campos

O objetivo deste trabalho é discutir a assessoria técnica no âmbito da arquitetura junto a


populações indígenas, trazendo à tona questões surgidas no encontro entre diferentes modos
de produzir o espaço - o dos assessores e o dos indígenas. Tomo como base a experiência de
atuação de arquitetos ligados à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) junto aos
indígenas da etnia Xakriabá, residentes em terra indígena demarcada no norte do estado de
Minas Gerais, no processo de planejamento e construção da edificação denominada Casa de
Cultura Xakriabá, ocorrido entre 2005 e 2013, concebida com o propósito de fomentar
práticas culturais deste povo. Na primeira parte do trabalho, apresento reflexões teóricas com
o objetivo de deixar claro o que será considerada uma atuação bem-sucedida no âmbito da
assessoria técnica. Na segunda parte, apresento um contexto geral sobre os indígenas
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Xakriabá e detalho como foi concebida e construída a Casa de Cultura. Na terceira e última
parte, realizo a análise crítica da assessoria junto aos Xakriabá e apresento conclusões e
reflexões sobre o tema. As principais conclusões deste trabalho mostram que a interferência
da assessoria contribuiu, em certa parte, para o ganho de autonomia na produção do espaço,
principalmente por parte dos indígenas envolvidos diretamente no processo. Nota-se, por
outro lado, que algumas ações acabaram criando novas relações de dependência entre os
assessorados e os técnicos (assessores), em certa medida devido à ausência de uma análise
crítica durante o processo. A opção por desenvolver projeto de arquitetura em etapa anterior
à construção se mostrou como uma das principais causas da diminuição de autonomia das
decisões por parte dos construtores e futuros usuários do espaço. No que diz respeito à etapa
de construção, o insucesso dos mutirões limitou o potencial ganho de autonomia por uma
parcela maior da população indígena, ficando este concentrado nas mãos do grupo
diretamente envolvido nas obras. A experiência da Casa de Cultura, entre seus erros e acertos,
contribui para reforçar a ideia de que fortalecemos a autonomia de grupos sócio-espaciais
quando possibilitamos ou incentivamos que estes hajam efetivamente de forma autônoma.
Conclui-se que interferências em assessoria técnica no âmbito da arquitetura devem ser
críticas, evitar o planejamento prévio e a imposição de soluções técnicas e devem ser
realizadas apenas quando demandadas.

Ámbito de aplicación de la jurisdicción especial indígena y el derecho


fundamental a la consulta previa en su territorio y territorialidad

Nicolas Felipe Segura Ceballos

La consulta previa ha sido establecida como un derecho fundamental en Colombia, sin


embargo, pese a la jurisdicción especial indígena para aplicarse en su territorio y en los casos
directos sobre sus comuneros se ha omitido que existe un fuero indígena el cual se ve
vulnerado de manera continua y con muchas omisiones por parte del gobierno. Es por esto
que el caso de mayor éxito de la consulta previa es la sentencia SU 123 de 2018, (iniciada en
coautoría por una acción de tutela de quien les suscribe), donde no solo se logra amparar el
derecho de la consulta previa y la forma de protección de cosmovisión de un pueblo en
exterminio protegido por la corte constitucional de Colombia en su estado de cosa
inconstitucional, del pueblo AWÁ, sino también se logran establecer parámetros de ejemplo
internacional donde el desarrollo y su jurisdicción de un pueblo indígena no sobrecae
únicamente en los aspectos geográficos del territorio, sino de su territorialidad que es donde

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desde manera ancestral han desarrollado sus actividades espirituales, culturales y de


subsistencia.

La crítica de Marx al proyecto moderno y las formas de sociabilidad de los


Pueblos Originarios: notas para una reinterpretación en clave política

Hander Andrés Henao

Es necesario atreverse a pensar y actuar como un filósofo latino-americano, es decir, a partir


de la crítica epistémica y de la praxis de libertaria que subvierta todas las lógicas y formas de
vida imperantes. Arriesgarse a pensar así, desde el abismo de un locus de enunciación
latinoamericano, es arriesgarse a encarar toda la filosofía desde sus comienzos, con el objetivo
de que la filosofía se supere a sí misma y venza la parcelación en la que se há visto envuelta,
pues, cuando la filosofía piensa situada y críticamente la realidad de Latinoamérica, deja de
ser mera filosofía y se convierte en historia, sociología, arqueología, antropología, etc., es
decir, se trasciende a sí misma para convertirse en una propuesta de realización ética y
política. El pensamiento de Karl Marx tiene como premisa de su trabajo una visión
«Totalidad», por medio de la cual realiza una crítica al modelo de sociabilidad sustentado por
el proyecto moderno civilización en las esferas económicas, políticas y culturales. Este hecho
lo coloca como antesala para una crítica descolonial y, sin embargo, esta tradición a dicho de
él que es un pensador eurocéntrico. Creemos que es necesario una reinterpretación en clave
política, de su antropología económica, puesto que su referencias a los formas de socialbilidad
de los pueblos amerindios, dan cuenta de su proyecto crítico ante el proyecto de civilización
occidental. En ese sentido, esta propuesta investigativa surge de una necesidad vital: la
búsqueda desesperada de alternativas a los procesos de alienación en América latina. Tres
son nuestros ejes, la Crítica de Marx a la Modernidad, la descolonialidad epistêmica y las
experiencias sociales amerindias, como bases iniciales a un tal proyecto político que nos
oriente a vincular un saber filosófico y sociológico en la reflexión de las cosmovisiones de
nuestros pueblos originarios en tanto modelo de sociedades y proyectos políticos alternativos
a la sociedade capitalista colonial y patriarcal eurocéntrica.

“Nós queremos dialogar, mas vocês não estão deixando a gente”: análise e
descrição da ação judicial sobre a participação indígena no projeto de
construção da Usina Belo Monte

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Lidia Neira Alves Lacerda

A presente apresentação faz parte de uma pesquisa de mestrado realizada com o objetivo de
descrever e analisar os discursos e práticas estatais articulados para efetivar projeto da Usina
Belo Monte – UBM. Utilizei para análise os documentos produzidos na Ação Civil Pública no
20063903000711-8 - ACP, ajuízada pelo Ministério Público Federal-MPF, questionando a
ausência de oitivas e consulta prévia, conforme previstos na Constituição Federal de 1988 –
CF/88 e a Convenção n. 169 Internacional da Organização do Trabalho - OIT. Nesta
apresentação analiso as interpretações utilizadas em torno dos mecanismos legais de
participação, que eclipsaram a participação, o exercício da cidadania e autonomia indígena. A
CF/88, nas situações específicas de aproveitamento dos recursos hídricos, pesquisa e lavra de
riquezas minerais em território indígena determina a autorização do Congresso Nacional -CN,
após realizar as oitivas aos povos indígenas interessados. Em âmbito mundial, a Convenção n.
169, criou o instituto da consulta prévia, um oportuno mecanismo de diálogo intercultural,
que assegura o direito à participação dos povos indígenas em decisões do legislativo e
executivo que lhes afetem diretamente. As análises dos textos da ACP apontaram divergências
no entendimento de como devem se dar as consultas prévias e as oitivas. O modo de
participação dos povos indígenas foi deslocado para o âmbito da legislação ambiental. Para
isso, os defensores do projeto construíram uma narrativa ao logo da disputa judicial que pode
ser sintetizada em quatro pontos: a) o CN aprovou o DL 788/05 e delegou a realização das
oitivas e consultas para o âmbito dos estudos ambientais e laudos antropológicos; b) as
consultas, oitivas e audiência públicas ambientais, foram apresentadas pelos defensores do
projeto como mecanismos semelhantes, e os termos foram operados enquanto sinônimos; c)
os povos indígenas foram caracterizados numa situação de miserabilidade, sendo que o
projeto, junto com os planos de mitigação e condicionantes, promoveriam o desenvolvimento
e melhores condições de vida; d) por último, os interesses indígenas, ou o direito ao usufruto
do território, não poderiam se sobrepor aos interesses e soberania nacional. Em diálogo com
esses argumentos analisei como as categorias cidadania indígena, autonomia e participação
indígenas aparecem no decorrer do processo e de que modo foram obliteradas.

Lo que se pierde cuando se pierde el bosque por actividades extractivistas y la


violación de los derechos de los pueblos indígenas en la Amazonia

José Antonio Martinez Montaño

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Los bosques de la Amazonía destruidos por actividades extractivistas de la minería del oro, la
prospección y explotación hidrocarburíferas, el avance de la frontera agrícola, los
megaproyectos viales y represas hidroeléctricas; afectan: 1. Los Derechos difusos de Pueblos
indígenas en aislamiento voluntario (PIAV) y Pueblos indígenas en aislamiento y contacto
inicial (PIACI 2. Las fuentes de producción de agua dulce y oxígeno, elementos esenciales para
la vida 3. Los territorios indígenas titulados, las áreas protegidas, las reservas de flora y fauna
silvestre y, los parques naturales. Las consecuencias: contaminación ambiental, procesos de
desertificación de suelos, pérdida de biodiversidad, desplazamiento de poblaciones nativas,
cambio climático inexorable, con sequías e inundaciones, lluvias torrenciales y escorrentía de
aguas superficiales, hacen que las actividades humanas estén en riesgo y las agrícolas las
menos seguras. Frente a los “desastres humanos” (en origen y en efecto), es preciso
replantearse los fundamentos teórico-conceptuales respecto a: los bosques, las alternativas
productivas al extractivismo y la cultura del patrón de desarrollo basado en petróleo y
minerales. Un principio del cual partir, “conocimientos equivocados, conducen a prácticas
equivocadas”; por consiguiente, la estrategia de cambios conceptuales sobre los bosques, las
funciones y servicios ambientales que ellos prestan a la humanidad, deberá modificar las
relaciones sociales sobre el hábitat y los bosques. La disyuntiva saberes y conocimientos de
pueblos indígenas, muestran el camino de convivencias en reciprocidad con la naturaleza, no
obstante, la presión política y económica que soportan de los gobiernos y las corporaciones
por los recursos existentes en sus territorios; versus, las pretensiones de gobiernos neo
populistas com prácticas atávicas, que social y políticamente son modernas toparquías con
desdén por el medio ambiente, la naturaleza y los derechos de los pueblos indígenas. La
propuesta pretende esbozar la situación de los pueblos indígenas y los bosques de Bolivia bajo
el “gobierno indígena” de Evo Morales, los casos paradigmáticos de la “pan-Amazonía” y,
reflexionar las encrucijadas del extractivismo y los gobiernos populistas del “socialismo siglo
XXI y gobiernos neo-populistas de extrema derecha, cuyas practicas son comunes respecto a
los bosques y los derechos de los pueblos indígenas; sin olvidar, que los pueblos indígenas son
bio-socio-indicadores del estado de los bosques y la naturaleza: allá donde hay pueblos
indígenas en aislamiento voluntario, los bosques aún son prístinos y primarios; allá donde los
pueblos indígenas están cambiando, los bosques se van degradando y allá donde los pueblos
indígenas van desapareciendo los bosques también.

El poder político en la construcción de relaciones pluriétnicas con el Estado:


políticas públicas, INAI y pueblos/naciones indígenas originarios en Mendoza,
Argentina

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Lautaro Rodríguez Ñancu

El ponencia se propone presentar en el ST 08 del III CIPIAl, busca dar cuenta de los resultados
logrados en la ejecución del proyecto de investigación Tramas de colonialidad de poder en las
políticas públicas. Un análisis del Instituto Nacional de Asuntos Indígenas (INAI) y su relación
con las comunidades indígenas en Mendoza (2003-2016), financiado y avalado por la
Secretaría de Investigación y Publicación Científica de la Facultad de Ciencias Políticas y
Sociales, Universidad Nacional de Cuyo. Se intentará exponer las relaciones existentes entre
las conceptualizaciones realizadas sobre el poder político, las políticas públicas, la
interculturalidad y, especialmente, la colonialidad de poder con los datos empíricos recogidos,
buscando así aportar a la construcción de conocimiento sobre el tema en cuestión: como se
construyen las relaciones pluriétnicas cuando los actores son el Estado y las comunidades de
pueblos/naciones indígenas, y el poder político está presente. Así, en la búsqueda de analizar
las tramas de colonialidad de poder subyacente al accionar estatal del Instituto Nacional de
Asuntos Indígenas como objetivo general del proyecto de investigación finalizado, se
articulará con la matriz teórico política existente en el accionar estatal del INAI, es decir los
fundamentos del accionar del Instituto, desde los estudio descoloniales, principalmente con
el análisis de la colonialidad del poder, teniendo como guía la perspectiva intercultural que
aporta un horizonte teórico para reconocer la distancia existente entre el mundo nor-
eurocéntrico y la posición de las comunidades de pueblos/naciones indígenas originarios de
Mendoza, particularmente a las que se ha podido consultar, desde la perspectiva de los
mismos. Los resultados se han conseguido siguiendo una estrategia metodológica cualitativa
y con diseño metodológico exploratorio e interpretativo. Los/as entrevistados/as,
colaboradores/as de este proyecto, han sido seleccionados/as siguiendo un método de
muestreo no probabilístico e intencional, basado en la técnica de bola de nieve. En los
distintos momentos de la ejecución de nuestro proyecto de investigación, utilizamos
diferentes técnicas de recolección de datos, las que nos permitieron adentrarnos en detalle a
las distintas fuentes de datos. En un primer momento se utilizó el método y la técnica del
análisis documental de fuentes secundarias. En una segunda instancia se realizaron
entrevistas en profundidad como método y técnica.

“Antropologia de isolados”, compromisso radical com os povos em


isolamento

Lino João de Oliveira Neves

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Durante muito tempo os chamados “índios isolados” foram objeto da ação exclusiva do Estado
nacional através das “frentes de pacificação” que buscam inserir esses indígenas nas
sociedades nacionais. Apenas muito recentemente a discussão sobre o destino e a
possibilidade de existência autônoma dos povos indígenas isolados, agora chamados de
“Pueblos Indígenas en Aislamiento Voluntario” (PIAV, sigla em espanhol, usada no âmbito do
Direito Internacional) vem ganhando força na antropologia, enquanto área de conhecimento
acadêmico, e entre os antropólogos, enquanto especialistas no trato das questões
relacionadas aos grupos étnicos. No cenário atual dos países amazônicos em que
continuadamente se fecham aos povos isolados as possibilidades de se defenderem em áreas
distantes do contato, mais do que a antropologia/etnografia buscar estabelecer
procedimentos acadêmicos para a formulação de metodologia adequada à produção de
conhecimento sobre povos ainda etnograficamente desconhecidos, é fundamental uma
“antropologia de isolados” que se posicione criticamente frente as propostas vindas de certos
setores da antropologia que passam a defender o que chamam de “contato controlado”, assim
como também frente as mudanças na política governamental, que da política do “não
contato” defendida pelas Frentes de Proteção Etnoambiental da Funai passa a manifestar
abertamente a intenção de efetivação de contato com grupos isolados com o propósito de
integração destes indígenas à sociedade nacional. Neste cenário crítico, francamente negativo
aos PIAV é urgente uma “antropologia de isolados” que assuma o compromisso radical com o
futuro destes povos que ao adotarem o isolamento voluntário explicitam o propósito de busca
da possibilidade de continuarem a existir enquanto sociedades politicamente organizadas.

Alteridade e desenvolvimento no processo de consulta DGM Brasil: uma


comparação a partir da missionação jesuítica e do Banco Interamericano de
Reconstrução e Desenvolvimento (sécs. XVI e XX-XXI)

Lucas Zalesco de Oliveira

Priscila Ayres Feller

Nos contatos iniciais entre os povos nativos da América e da Europa, o cristianismo foi tomado
como paradigma de civilidade imposto aos primeiros. Lutas em torno da verdade sobre as
populações indígenas foram engendradas, resultando em grande medida na negação de suas
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alteridades: cosmogonias milenares foram tachadas de paganismo; éticas de vida complexas


foram lidas pelo invasor como desordem; organizações sociais baseadas no diálogo e na força
foram reduzidas a selvageria, “para a maior glória de Deus” e grandeza do reino. No mundo
globalizado mecanismos discursivos de dominação/subordinação foram alterados, e
imposição dá lugar a fomento. Inseridos irrevogavelmente em novos contextos regionais
dependentes de configurações nacionais inseridas em paradigmas macroeconômicos globais,
os povos indígenas apresentam complexidade ímpar em termos de desenvolvimento. Esta
reside, além da própria cultura na qual se inserem, na concepção equivocada de atraso na
qual estariam envoltas essas populações já que o ponto de partida para avaliação de suas
condições de bem-estar está associado, como nos lembra Stavenhagen (1985) “à concepção
linear evolucionista no pensar o desenvolvimento”. As agências internacionais de
desenvolvimento e agentes financeiros vêm se atentando a tais questões, adequando suas
políticas a normas supranacionais de modo a considerar os interesses dos povos indígenas, e
relacionando o apoio aos Estados ao atendimento dessas normas, o que impacta no
direcionamento das políticas nacionais. Apresentar e avaliar o Mecanismo de Doação
Dedicado aos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais (DGM, em inglês) auxilia na
reflexão sobre o processo de desenvolvimento fomentado pelo Banco Interamericano para
Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) no Cerrado brasileiro. Na contramão de projetos
financiados até a década de 80, em que o componente indígena era visto como necessário
para garantia da manutenção do bem-estar dessas populações frente aos projetos que os
afetariam, o DGM constitui-se como um projeto próprio de desenvolvimento voltado aos
Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais, diretamente por eles desenhado e gerido. Esse
é um ponto que entendemos positivo para fortalecer a governança territorial e as relações
intra e interétnicas; contudo, uma nova configuração sugere novas problemáticas e um
questionamento emerge: ainda que haja a gestão indígena dos recursos, como esta se dá na
prática? Vale lembrar que uma das mais eficazes formas de subordinação indígena, o
aldeamento jesuítico, foi por vezes entendido pelos próprios missionados como bom
(OLIVEIRA, 2013). O respeito à alteridade, hoje, é tema de investigação que parece extrapolar
limites nacionais, e do qual uma aproximação pode se revelar frutuosa para o indigenismo
contemporâneo.

La construccion del Estado plurinacional de Bolivia, la autodeterminacion de


los pueblos desde la construcción de las autonomias indigenas

Walter Limache Orellana

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Bolivia el año 2009 se refunda y adquiere el nombre de Estado Plurinacional de Bolivia cuando
entra en vigencia la nueva Constitución Política del Estado - CPE viabilizando así la nueva
construcción del Estado a partir de la conquista de los derechos individuales y colectivos de
las Naciones y Pueblos Indígenas Originario Campesinos. Han transcurrido casi 10 años de la
implementación de la nueva Carta Magna pero sin embargo los pueblos indígenas son los
menos beneficiados por el Estado y gobierno boliviano, ya que este ha perdido la brújula de
los ejes centrales que lo postularon y lograron posicionarlo en la mayor responsabilidad del
Estado con la posibilidad real de construir un nuevo país para todos con equidad, justicia y
libertad. La implementación de las autonomías indígena originaria campesinas – AIOC es uma
herramienta fundamental para la conquista de la autodeterminación de los pueblos,
reconocida por las Naciones Unidas, la comunidad internacional y el Estado Plurinacional de
Bolivia, para la gestión de los territorios indígenas y la generación de procesos de desarrollo
desde la mirada de los pueblos indígenas en concomitância con la del Estado Boliviano. La
AIOC es una forma de descentralización con la posibilidad real de estructurar gobierno local
desde las normas y procedimientos propios que ancestralmente tienen los indígenas, sus
formas de organización basadas en valores y principios, niveles de participación y decisión
colectivas, mirada de identidad cultural que lo definen como tal, defensa de su territorio, uso
y aprovechamiento de sus recursos naturales y todo para lograr un desarrollo con equilibrio.
A pesar del reconocimiento de la AIOC por la CPE y la Ley de Autonomías y Descentralización,
el camino recorrido por los demandantes es pedregoso, largo y difícil, no existe voluntad
política de parte del gobierno indígena, la prueba es que desde 2009 apenas hay tres AIOCs
en ejercicio y muchas otras en proceso. Los requisitos exigidos son engorrosos y largos, la
burocracia gubernamental impide la viabilización de su concreción, los principios en los que
se basan consideran la exigencia del ejercicio de sus derechos individuales y colectivos en
defensa de sus territorios y la integridad del mismo. Hoy la política gubernamental vulnera sus
derechos y amenaza con la integridad de sus territorios al implementar un modelo de
desarrollo basado en el extractivismo depredador, y sin respetar convênios internacionales,
fundamentalmente el derecho a la consulta libre, informada y de buena fe, por ejemplo. En el
marco del Simposio 8, la idea es compartir cómo los pueblos indígenas de Bolivia se
encuentran en el camino difícil de contribuir en la construcción del nuevo estado Plurinacional
desde la autodeterminación de los pueblos indígenas.

Direitos territoriais indígenas e fronteiras: um estudo sobre o Brasil e o Peru

Rodrigo Oliveira Braga Reis

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A presente comunicação parte de um estudo comparativo sobre a categoria de indianidade e


a sua influência nas legislações brasileira e peruana concernentes aos direitos territoriais
indígenas. Ao indagar sobre os critérios de indianidade estabelecidos pelo indigenismo oficial
brasileiro e peruano que orientam as medidas políticas e legais sobre as identificações étnicas
e os direitos territoriais que lhes são atribuídos, buscamos contribuir para a compreensão das
dinâmicas sociais que emergem dos processos de territorialização que confluem para a
configuração social, política e territorial atual de povos indígenas que habitam a região
amazônica – neste caso, tanto a brasileira, quanto a peruana. De modo particular,
abordaremos os impactos das legislações e políticas destes países a partir da análise da
situação do povo indígena Matsés que habita a zona limítrofre entre Brasil e Peru. Adotando
a perspectiva de que as regiões fronteiriças configuram espaços que possibilitam observar as
estratégias dos Estados e das populações locais de definição e redefinição territorial –
processos que ainda são influenciados pela atuação de ONG’s e de missões religiosas. Neste
sentido, pretendemos discutir a configuração de novos padrões de territorialidade dos quais
se desenvolvem novas formas de organização social e política.

Culturas Indígenas e sociedade ocidental frente às consequências da falta de


diálogo: o povo Indígena Kaingang do Sul do país

Laisa Erê Sales Ribeiro e Lori Altmann

Falarei sobre os povos indígenas no contexto atual, com foco no povo kaingang,
demonstrando a importância de preservação de alguns espaços para suas práticas culturais.
Aponto para a necessidade de criar relações e diálogos com segmentos da sociedade
ocidental, para assim garantir sua continuidade enquanto povos em seus territórios
tradicionais, considerados sagrados. Os povos indígenas ocuparam todo o território brasileiro.
Em 1.500 antes da invasão eram aproximadamente 5 milhões e viviam livres, cada povo com
sua forma de organização, cultura, língua, crenças e rituais. Apesar da tentativa de extermínio
pelos invasores, sobreviveram 896.917 indígenas, 254 povos, correspondendo a 0,47% da
população brasileira conforme dados do IBGE de 2010. Relatos e documentos explicitam o
impacto para esses povos da chegada de estrangeiros em suas terras. Suas relações sociais,
organizações políticas e religiosas, não foram compreendidas nem respeitadas. Os povos que
sobreviveram ao processo de colonização, de certa forma, conseguiram manter seu modo de
organização e sua visão de mundo, trazendo até hoje suas raízes mais significativas. Os povos
indígenas desenvolveram relações de reciprocidade com as pessoas e com todos os seres da
natureza, no entanto, foram afetados por valores impostos pela sociedade envolvente, para
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a qual o mercantilismo e a acumulação são partes integrantes das relações sociais. Respeito e
reconhecimento da alteridade, passa pelo conhecimento mútuo, por isso, proponho-me a
falar sobre meu povo. O povo kaingang, do tronco linguístico Macro-jê, vive em São Paulo,
Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e é considerado o 3o maior povo indígena do Brasil,
pois possui cerca de 34 mil indivíduos. Destaca-se pelo histórico de resistência frente ao longo
processo de avanço e de expropriação da sociedade envolvente sobre seus territórios
tradicionais. Uma maneira encontrada para garantir sua permanência enquanto povo
indígena na contemporaneidade foi adequar-se ao mundo acidental. Faço parte dessa cultura
de resistência e percebo no cotidiano a necessidade de demarcar nossos espaços diante da
“sociedade nacional brasileira”, para que ela não nos sufoque e invisibilize. As perdas do
passado deixaram marcas profundas e as gerações a seguir pagarão um alto preço por não
terem a chance de vivenciar por completo sua cultura, suas raízes. A resistência dos povos
indígenas ocorre na recriação, readaptação e ressignificação a partir das novas experiências e
relações estabelecidas por cada uma de suas comunidades. Os kaingang sofrem nova tentativa
de extermínio, quando a sociedade tenta invisibilizar sua cultura.

Política de Assistência Social aos Povos Indígenas: reafirmando a luta em


tempos de retrocessos de direitos

Patrício Azevedo Ribeiro

Maria Antônia Cardoso Nascimento

Este trabalho trata dos povos indígenas e o reconhecimento de direitos na esfera pública
brasileira com foco na política de assistência social. O objetivo é refletir sobre o atendimento
realizado pela assistência social aos povos indígenas a partir da criação da Política Nacional de
Assistência Social (PNAS), em 2004, e do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), em 2005.
Apontam-se, ainda, alguns desafios e tendências da referida política no atendimento a esses
povos, haja vista a conjuntura pela qual passa o país, onde o Estado tem reafirmado sua
posição de classe em defesa dos interesses do capital em detrimento dos direitos sociais da
classe trabalhadora. A delimitação temporal não é aleatória, pois, em termos de questões
legais, é com a emergência da PNAS (2004) que os povos de comunidades tradicionais, a
exemplo dos “indígenas” e “quilombolas”, aparecem, ainda que timidamente, na redação da
PNAS conferindo-lhes os direitos de acesso aos serviços socioassistenciais. A metodologia
adotada pauta-se na revisão bibliográfica com destaque, entre outros, para PNAS (2004),
NOB/SUAS (2005), Almeida (2008), IBGE (2013), CFESS (2012), Quermes e Carvalho (2013),
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Mellati (2014), Oliveira (2016a; 2016b), MDSA (2017), Sousa e Costa (2018). Tais materiais
sinalizam que entre 2005 a 2007 o governo federal, por meio do Ministério de
Desenvolvimento Social (MDS) em parceria com a Fundação Nacional do Índio (FUNAI),
assinou acordo de cooperação técnica para a construção de Centros de Referência da
Assistência Social (CRAS) em terras indígenas com o objetivo de realizar o trabalho de proteção
social básica. Em 2018 os dados do MDS indicavam um total de 8.286 CRAS presentes no Brasil;
574 atendiam comunidades indígenas; e 21 encontravam-se implantados nas terras
originárias. Contudo, em que pese a criação dessas instituições, persiste o desafio de diretrizes
e ações específicas que possam garantir os direitos dos indígenas e com isso o fortalecimento
das questões étnico-culturais, sobretudo porque no contexto brasileiro são 305 povos
distintos, 274 línguas, aproximadamente 900 mil indígenas, sendo que 64% vivem em áreas
rurais; a região Norte concentra o maior número com 342.836, isto é, 38,2% dos quais 183.514
vivem no estado do Amazonas; contraditoriamente, no Amazonas não existe nenhum CRAS
em terras originárias, desse modo, o atendimento realizado ocorre em áreas urbanas ou
esporadicamente as equipes volantes dos municípios, quando há, vão até as comunidades. Os
dados também evidenciam que a assistência social malmente consegue responder às
situações de vulnerabilidade social, em razão da perspectiva predominante de elaboração das
políticas públicas que, embora reconheça as particularidades dos povos indígenas no discurso,
na prática lhe é indiferente.

El pueblo Náyeri en lucha: de la defensa del territorio a la producción de


alterhegemonía regional

Carlos Rafael Rea Rodríguez

Ante la amenaza que representaba el proyecto hidroeléctrico Las Cruces, impulsado por el
gobierno federal en el Río San Pedro-Mezquital, las comunidades del pueblo Náyari se
articularon con comunidades mestizas creando el Consejo para el Desarrollo Sustentable de
la Cuenca del Río San Pedro. En poco tiempo, el componente indígena se volvió central en el
movimiento, colocando en la mesa de discusión otras formas de concebir la relación entre el
ser humano y la naturaleza, lo sagrado y el bienestar colectivo. En esta ponencia mostraremos,
cómo esta centralidad simbólico-política se convirtió en potencial hegemónico en el
movimiento, operando como centro gravitacional en la Cuenca, pero también en la relación
con actores sociales y políticos externos. Igualmente, analizaremos el ascenso en el nivel de
generalidad de sus planteamientos, acompañado de la diversificación de las arenas y escalas
de actuación. Con particular detenimiento analizaremos cómo y con qué consecuencias se han
sumado a las labores del Congreso Nacional Indígena, acercándose a experiências
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Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

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autonómicas como la de Cherán y, recientemente, sumándose a la campaña de la indígena


María de Jesús Patricio, como candidata independiente a la Presidencia de la República en
2018.

Resistances in transformation: an approach to the Nahua concept of Vida


Buena as a renewed resistance strategy in the movement of defense for the
life and the territory in the Sierra Norte (Mexico)

Lorena Elizabeth Olarte Sánchez

As the (neo) -extractivist industry in Mexico reinstates its dispossession strategies, the
indigenous peoples that have long defended such territories have redoubled their efforts for
self-determination through the renovation of communal resistances. The proposed article
explores some concepts shaped in the light of the socioenvironmental conflict in the
Northeastern Sierra of Puebla, Mexico, that resulted in the “Defense of the life and the
territory” movement. Special attention will be given to the notion of “Yeknemilis” or “Vida
Buena” as well as other key aspects of the movement in order to understand the emergence
of new experiences and political subjectivities of defiance to the capitalist attempts to control
the means of subsistence. In this sense, the pursue of yeknemilis has served to reintroduce
ideas of well-being that flourish along with traditional forms of organization, cooperativism
and non-predatory forms of appropriation of Nature. The construction of these alternatives
will be analyzed from a critical approach, in the context of a process that seeks to transform
communities beyond capital and neoliberal projects to ensure the reproduction of social life
and the strengthening of the connection between peoples and the territory.

Contribuições da biogeografia contra o epistemicídio indígena: visibilizando


saberes, protegendo sociobiodiversidades

Ivan de Matos e Silva Junior

Rosiléia Oliveira de Almeida

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Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

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Ao longo do processo colonizador a que foram submetidos inúmeros povos indígenas na


América Latina, uma série de práticas e estratégias foram utilizadas a fim de impor uma
monocultura do saber fundado no pensamento europeu. Desse modo, muitos povos nativos
foram submetidos à conversão ou catequização, pensada para garantir o processo de
colonização, ao mesmo tempo em que se instituiu, desde cedo, a obliteração de inúmeras
etnias, tanto a partir da violência física quanto da simbólica, expressa na sujeição epistêmica,
negando as particularidades e importância das culturas locais. Essa supressão de saberes,
também chamada de epistemicídio, constitui-se como uma das estratégias da colonialidade
na/da ciência em seu projeto de redução da diferença ao universal, prescrito pelas nações
centrais. A essas culturas locais, de forte tradição oral, fora imposta uma história única, a partir
de referenciais europeus, especialmente das narrativas e das formas de pensar do mundo
ibérico e, mais tarde, também por referenciais estadunidenses. A essa prática de imposição
de uma única forma cultural de saber, tornando abissal toda forma de saber e toda forma de
saber fazer indígenas, denomina-se epistemicídio indígena. A fim de tecer aspectos que
venham de forma contra-hegemônica combater o epistemicídio, visibilizando sistemas de
conhecimentos indígenas, propõe-se aqui assinalar as contribuições da biogeografia a partir
da ecologia de saberes. Na ciência biogeográfica, uma das questões mais recorrentes, se não
a mais fundamental, diz respeito àquela que busca compreender como e porque os
organismos vivos se distribuem na superfície da Terra. Essa é uma indagação que tem
mobilizado inúmeras gerações de naturalistas, geógrafo(a)s, biólogo(a)s e outro(a)s
profissionais interessado(a)s pelos estudos em torno da biodiversidade. É sabido, sobretudo,
que a diversidade de biogeografias no âmbito da ciência é amplamente reconhecida por seus
praticantes, expressa por uma infinidade de conceituações e abordagens. No entanto, o
esforço epistemológico nesse trabalho é dedicar igual atenção aos saberes indígenas, que
mobilizam formas particulares de compreensão da biodiversidade, informando outras formas
de explicar o mundo vivo em sua espacialidade. Essas biogeografias assinalam outras formas
ontológicas e epistemológicas de relação com a biodiversidade e sua configuração
sociogeográfica. Desse modo, o presente trabalho busca visibilizar saberes historicamente
subalternizados, estabelecendo relações entre os conhecimentos biogeográficos indígenas e
o processo de visibilização destes conhecimentos para a proteção da sociobiodiversidade, com
o fito de assinalar a pluriversidade como condição sine qua non no enfrentamento ao
epistemicídio indígena.

Etnopolíticas mestizas: reflexiones sobre acciones amerindias, identidad y


etnónimos desde la experiencia Térraba, Pacifico Sur de Costa Rica

Denia Román Solano

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A partir de una crítica etnografía y una reflexión conceptual, esta ponencia expone los retos
pragmáticos, políticos y epistemológicos que implica el registro oficial de toda la población de
la etnia térraba, un inédito trabajo genealógico realizado por Tribunal Supremo de Elecciones,
con activa participación de las personas de mayor edad. Como se explica a seguir, este registro
es producto de la demanda legal y la persistencia política de líderes indígenas térrabas. El
Territorio Indígena de Térraba está localizado en el Pacifico Sur de Costa Rica, tiene su origen
en una misión religiosa colonial constituida por familias Teribe provenientes de lo que hoy es
Panamá, a partir de las cuales se reconfiguran social, cultural e identitariamente asumiendo
el etnónimo Térreba. Son uno de los primeros territorios indígenas delimitados en el país en
1956, justo cuando la región experimenta la expansión del proyecto modernizante que
condujo al acaparamiento de tierras bajo economía de enclave por parte la United Fruit
Company (UFCO), así como la colonización agrícola promovida por las políticas progresistas
de estado costarricense. Esta nueva territorialidad capitalista exacerba las contradicciones
entre dos lógicas civilizatorias aumentando la presión sobre las tierras, y unido a la inaplicación
de la legislación estatal, conlleva a la apropiación ilícita de tierras indígenas. A finales del siglo
XX con más de la mitad del territorio en manos de no indígena y bajo el influjo de nuevos
procesos --como el agro negocio, el bio y neo-extractivismo--, se da una dinámica de
reafirmación de su origen restableciendo relaciones políticas y de parentesco con los Teribes
em Panamá. Surge una reafirmación étnica junto a lo que podríamos llamar como una
etnopolítica mestiza que articula tanto, recursos amerindios, como recursos estatales y de
organismos internacionales. Es así que logran una reinterpretación nativa de la legislación
nacional exigiendo el registro oficial de su grupo, una acción fundamental para la recuperación
de sus tierras y su representación política, al mismo tiempo que, se asumen bajo el etnónimo
de Böran. Logran también la legitimación de figuras organizativas propias y muy
recientemente articulan un movimiento de recuperaciones de tierras de hecho. De esta
manera, los conceptos de tradición / modernidad, memoria oral / legislación, son interpelados
y des-construidos en las acciones etnopolíticas térrabas-bröran, implicando un enorme
desafío para la institucionalidad del estado costarricense responder adecuadamente a la
gestión de estas demandas, aún más en una región en plena expansión neoliberal.

Wakoborun a primeira guerreira: as mulheres Munduruku e o Plano de Vida


como estratégia de resistência de um povo

Luiz Cláudio Brito Teixeira e Maria Leusa Cosme Kaba Munduruku

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Esta comunicação é o resultado do estudo que foi desenvolvido no intuito de compreender a


participação política das mulheres Munduruku nas lutas que este povo desenvolve contra os
projetos que o Estado brasileiro e o Capital tentam impor no território da Mundurukânia, e
quais as repercussões que a participação ativa de uma mulher Munduruku trouxe para as
aldeias. Este artigo tem a pretensão de abordar a partir de uma referência mítico-histórica da
Wakoborun, como a luta das mulheres Munduruku potencializou a luta de um povo em favor
da sua autonomia. Nesses tempos obscuros em que o governo atual inicia o desmonte de
todas as políticas de proteção das populações mais vulneráveis é importante ficar atento a
como os povos indígenas reagirão diante da atual conjuntura. As mulheres Munduruku
inspiradas na história da guerreira Wakoborun desafiam a lógica do Estado e da própria
organização social do povo para defender o território da Mundurukânia e o futuro de todo o
povo Wuyjuyu, autodenominação dos Munduruku.

Etnogenocídio silencioso de povos indígenas e a responsabilidade do Estado


pela cumplicidade omissiva

Ângela Irene Farias de Araújo Utzig

Marcia Andrea Bühring

Frente às notícias de massacres contra indígenas, buscando inspiração e fundamentos


teóricos para tratar cientificamente de assuntos relativos a direitos indígenas preteridos e a
considerar o interesse da nossa pesquisa se volta às questões de preservação de Línguas
Maternas, tivemos conhecimento que o professor indígena Marcondes Namblá Xokleng, teria
sido assassinado, em razão de ativismo envolvendo a defesa da Língua Materna de seu povo.
Com isso, lançamos no Google o verbete “Marcondes Namblá Xokleng” e verificamos que as
pesquisas eram encabeçadas por uma matéria da Revista Carta Capital intitulada “Intolerância
é a arma do assassinato do professor Marcondes Namblá ...” disposta no site:
https://cartacapital.com.br.../intolerancia-e-a-arma-do-assassinato-do-professor-i... 10 de
jan de 2018 - Reprodução/Facebook. Marcondes Xokleng.jpg. Assassinato do professor
Marcondes Namblá foi classificado como cometido 'por motivo ... e parava aí. Ao clicarmos no
link informado, abriu a página eletrônica da Revista Carta Capital com as informações que
intitulam este artigo (entre aspas pelas autoras), servindo-nos de reflexão para o
silenciamento ou pouca importância dada a uma situação tão alarmante: a violência contra
indígenas, um fenômeno bastante conhecido desde o início da colonização europeia na
América Latina desde o século XVI, mas o surpreendente é saber que o Professor Marcondes
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desenvolvia, dentre outras, tarefas de preservação da Língua Materna de seu povo,


plenamente justificável em razão da formação do professor indígena. Nesse sentido, o
objetivo central deste artigo é explorar as razões do silenciamento com o qual é tratado o
etnogenocídio de indígenas no Brasil, de para o que nos serviremos de pesquisa bibliográfica,
notadamente, a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio, de 12 de
Janeiro de 1951, e os dados do o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que desde 2017,
alimenta a Plataforma CACI (palavra que, em Guarani, significa “dor”) com dados de
assassinatos de indígenas a partir de 1985, desenvolvida pela Fundação Rosa Luxemburgo, em
parceria com o Armazém Memória e InfoAmazonia, a Plataforma CACI georreferencia dados
de assassinatos de indígenas sistematizados a partir dos relatórios do CIMI e da Comissão
Pastoral da Terra (CPT), tendo até então cerca de 1071 registros de assassinatos de indígenas
nos Estados brasileiros, de 1985 a 2017, salientando que ainda que sejam dados oficiais, não
são exatos. A temática, de cunho descritivo orientado pelo método dedutivo, pretendendo
confirmar a cumplicidade do Estado com o etnogenocídio de povos indígenas pela omissão
com uma questão tão grave que afeta toda a ancestralidade do povo brasileiro.

Consideraciones theóricos y methodologicos para un análisis de los procesos


del extractivismus y la resistencia contra los megaprojectos del capital
transnational en la Sierra Norte Oriental

Patricia Zuckerhut

El epistemicidio del que sufren grandes partes de sistemas de pensamientos y saberes


(específicamente indígenas) desde hace más de un medio milenio consistió en el reniego y la
devaluación en forma de Othering así como Saming (Blaser 2014). A pesar del escepticismo
de aproches decoloniales frente a ontologías indígenas (presentado por antropólog@s)
(Cameron et al. 2014: 19) es importante tomarlas en consideración para una verdadera
decolonización. Mi contribución resume importantes teorías del feminismo para la superación
de dicotomías cartesianas así del cambio ontológico de la antropología cultural y las analiza
respectivo a sus posibilidades de contribuir a una decolonización del pensamiento. Con esa
metodología voy a analizar y discutir la situación en la Sierra Norte de Puebla marcado de
amenazas de megaprojectos pero también de resistencia.

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ST 09 | Diálogos interdisciplinares de temas transversais à educação formal e


informal nos espaços escolares e não escolares da Educação Indígena

Irani Lauer Lellis (Universidade Federal do Oeste do Pará – UFOPA, Brasil); Antônia Lemos Braga
Moraes (Faculdade Educacional da Lapa, Brasil); Riquelme Mella Enrique Hernan (Universidade
Católica De Temuco, Chile).

Debates sobre o indígena em contexto ampliado de inserção como: processos políticos,


econômicos, mercado de trabalho e universidade é frequente e verifica-se o aumento de
intervenções educativas para esses povos. Todavia, abordar essa discussão exige diferentes
perspectivas que transcendem o contexto e temáticas formais da educação. Assim, este
simpósio pertencente ao eixo: Educação Para a Diversidade convoca pesquisadores da
educação, psicologia, antropologia e áreas afins para dialogar temas transversais (afetividade,
habilidades sociais, cognições, crenças, metas, práticas e valores de professores e alunos
indígenas, interações sociais) da educação, vivenciados nos espaços escolares e não escolares,
visando traçar novos rumos sobre a educação formal e não formal dos povos indígenas,
compreendendo a importância de pesquisas nessa temática no sentido de refletir nos desafios
encontrados e superá-los movimentando as fronteiras científicas e desmistificando noções
reificadas e generalizadas sobre os povos indígenas. Este simpósio objetiva: 1) Debater
experiências educacionais não formal para índios. 2) Analisar diversos temas transversais que
são subjacentes a educação. 3) Sistematizar experiências atuais para a educação indígenas. 4)
Aprofundar estudos de temas transversais na educação indígena em contexto escolar e não
escolar na educação formal e informal.

Os índios e os outros: um olhar sobre os brancos e a branquidade na


formação de estudantes indígenas

Cláudia Pereira Antunes


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As mudanças que vêm sendo realizadas no âmbito da educação escolar indígena nas últimas
décadas, impulsionadas pela mobilização dos povos indígenas, especialmente no processo
constituinte (1987-1988) e pelo movimento de apropriação que realizam sobre o espaço
escolar, vêm transformando esse espaço na direção do que alguns pesquisadores apontam
como processos de indianização das escolas nas aldeias (Bergamaschi, 2007). Contudo, esse
não deixa se ser um caminho de resistência frente a ações e projetos que continuam
pressionando os povos indígenas para uma “assimilação” à sociedade nacional. Sem deixar de
reconhecer as conquistas dos povos indígenas no âmbito da educação escolar, o trabalho
pretende refletir, especialmente a partir do discurso de estudantes e professores indígenas,
sobre a atuação dos brancos e sobre a “branquidade” como fatores que muitas vezes colocam
obstáculos aos processos de formação de estudantes indígenas. O estudo tem como aporte
teórico central as análises de intelectuais negros que evidenciam que opera uma
“branquidade” na atuação dos brancos nas relações étnico-raciais, expressa em formas de
pensar e agir que atribuem ao branco uma condição de superioridade e normalidade e
atribuem status de inferioridade e subalternizam as populações negras e indígenas (Pinheiro,
2014; Carone & Bento, 2016). A reflexão também encontra aportes nas análises sobre as
relações coloniais presentes na obra de Frantz Fanon (1968; 1980; 2008), especialmente na
noção de “complexo de superioridade do colonizador europeu”. As noções de “ser alguém” e
“estar” na obra de Rodolfo Kusch (1986) também oferecem aportes para a reflexão sobre a
relação entre os modos de pensar de matriz europeia e de matriz indígena na América. O
trabalho é realizado a partir da análise de depoimentos, pesquisas e publicações de
estudantes e autores indígenas, e também considera a produção bibliográfica de autores não
indígenas que, direta ou indiretamente, abordam a atuação e modo de pensar do branco nos
processos de formação de estudantes indígenas, do ambiente escolar ao universitário. Esse
trabalho faz parte da pesquisa de doutorado da autora que trata sobre a atuação dos brancos
e a branquidade na formação de estudantes indígenas.

O interfaceamento entre alfabetização e letramento digital: um estudo a


partir da perspectiva de um indígena universitário

Iata Anderson Ferreira de Araújo

Elisete Maria Siqueira Ferreira

Karen Jaqueline Bentes

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As Tecnologias de Informação e Comunicação são permanentemente inventadas e


reinventada, ganham novos contornos e funcionalidades, ultimamente elas vêm se tornando
acessíveis as pessoas de baixo nível econômico, às populações tradicionais e os indígenas.
Neste processo de acessibilidade às TIC’s caracterizar como o indígena busca utilizar os
recursos digitais é fundamental para pontuar encaminhamentos formativos para a promoção
do Letramento digital (BUZATO, 2006). O presente trabalho objetivou conhecer qual nível de
compreensão e interatividade do indígena nos grupos em que convive. Para tanto, utilizou-se
como instrumento de coleta de dados a entrevista semiestrutura, a interpretação do relato
do indígena se deu por meio da Análise Textual Discursiva – ATD (MORAES, 2003), por meio
da qual organizamos as seguintes categorias: Alfabetizado digitalmente e Letrado digital
parcialmente. A respeito de ser Alfabetizado digitalmente, resguardadas a diversidade das
TIC’s, compreendemos que o indígena tem contato com os hardwares: celular, notebook,
tablet, computador desktop, projetor de imagem, destes o celular é utilizado com frequência
seja as atividades cotidianas como também para as suas atividades acadêmicas, seguido da
utilização do notebook, os demais utilizou mas possui dificuldade no manuseio; em relação
aos softwares do celular conhece os símbolos dos aplicativos e qual funcionalidade dos que
utiliza em seu celular, principalmente o WhatsApp, Youtube, Chamada, SMS; em relação aos
softwares do computador ele conhece o Word, Excel, PowerPoint, utiliza os sites de busca, o
Gmail, o Youtube, embora mencione a dificuldade no manuseio. Quanto ao ser Letrado digital
parcialmente, embora o indígena consegue manusear alguns aparelhos, evidenciamos que ele
apresenta características de ser letrado digital parcialmente, pois têm dificuldades de
estabelecer o entrelaçamento de códigos, modalidades e tecnologias associadas, isso
perceptível na dificuldade de utilizar os dispositivos digitais para desenvolver atividades
específicas relacionadas ao desenvolvimento capacidade de escrita, interpretação e
comunicação, relacionada principalmente a dificuldade no entendimento do vocabulário de
algumas palavras da Língua Portuguesa são entraves ao desenvolvimento cognitivo frente às
exigências formativas. Os resultados sinalizam para que haja a ampliação do universo de
conhecimento das TIC’s pelo indígena, diversificando os dispositivos digitais utilizáveis, bem
como, como para a efetiva apropriação das funcionalidades e potencias de interação; além
disso, o conhecimento de palavra da Língua Portuguesa se constitui como uma questão a ser
superada para a promoção do Letramento Digital.

Relações parentais e o desenvolvimento de habilidades sociais entre os


indígenas

Karen Jaqueline Bentes

Elisete Maria Siqueira Ferreira

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Iata Anderson Ferreira de Araújo

A interação mãe-filho é alvo de interesse de estudos por ser este vínculo tão importante para
o desenvolvimento infantil. Conhecer as práticas educativas, bem como as habilidades sociais
desta relação é fundamental para se compreender o contexto de desenvolvimento em que os
indígenas se desenvolvem. O presente trabalho objetivou conhecer as habilidades sociais
educativas parentais e a relação com o contexto de indígenas. Para tanto, utilizou-se como
instrumento de coleta de dados o roteiro de entrevista das habilidades sociais educativas
parentais – REHSE-P (BOLSONI-SILVA; LOUREIRO, MARTURANO, 2016). Os resultados da
codificação indicaram classificações diferentes conforme o repertório de mãe e do filho.
Quanto à qualidade da interação e a frequência geral de comportamentos, os resultados
indicaram que a mãe tem repertório clínico pelo déficit de habilidades sociais educativas
parentais, por outro lado a criança possui repertório clínico de habilidades sociais e problemas
de comportamento. No que se refere a frequência com que ocorrem os itens de conteúdos
avaliados nota-se uma classificação clínica para as habilidades sociais de mãe e filho, o que
influencia na classificação do total positivo. Por outro lado, a frequência com que ocorrem as
interações negativas (práticas negativas e problemas de comportamento) é não clínica, apesar
de existirem pouca variedade de contextos de interação positiva. Os resultados apontam para
um treino de habilidades sociais com a mãe, entretanto, é preciso observar mais
profundamente quais a habilidades de contextos que podem interferir no desenvolvimento
de habilidades sociais parentais, se estas variáveis estão relacionadas à cultura indígena ou a
outros aspectos não identificáveis na pesquisa.

Curso de pedagogia intercultural indígena: tecendo discussões sobre currículo


como enunciação cultural

Célia Aparecida Bettiol

Adria Simone Duarte de Souza

O trabalho discute a implantação de cursos de Pedagogia Intercultural Indígena com enfoque


em alfabetização em língua indígena e em produção de material didático para a escola
indígena, ofertados pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), financiados pelo
PARFOR/CAPES, sendo 02 turmas no município de São Paulo de Olivença/AM, Território
Etnoeducacional Alto Solimões iniciadas em agosto de 2014 atendendo aos povos Tikuna.
Kambeba e Kokama, e uma turma em Atalaia do Norte/AM, território Etnoeducacional Vale
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do Javari, iniciada em janeiro de 2016, atendendo aos povos Marubo, Matis, Mayoruna e
Matsés. O grupo articulador da proposta constituiu-se de forma multidisciplinar com
professores das diferentes áreas do conhecimento e o diálogo com as lideranças indígenas. O
currículo proposto inscreve-se como resultado de uma interlocução de culturas,
conhecimentos, saberes e práticas que envolveram tanto a Universidade quanto a
comunidade indígena, num prisma intercultural. Assim, os cursos se apresentam como
espaços importantes de visibilidade e produção de lugar de fala para os diferentes sujeitos
que cursam estas licenciaturas, pois os diferentes momentos formativos pautam-se numa
postura investigativa para a produção de narrativas desses cursistas. Nesse sentido, nossa
reflexão é que os currículos dos cursos de formação de Professores Indígenas possam ancorar-
se numa perspectiva de enunciação cultural. Macedo (2012) defende a ideia de currículo como
instituinte de sentidos, como enunciação da cultura, como espaço indecidível em que os
sujeitos se tornam sujeitos por meio dos atos de criação (p.735-736). Trata-se de entender o
currículo como processo de produção de sentidos, sempre híbridos e, portanto, incapazes de
construir identidades fixadas. Conceber o currículo como uma prática cultural envolve a
negociação de posições ambivalentes de resistência presente nas discussões de Bhabha
(2013). Nesta direção, o cultural não pode ser compreendido como elemento de conflito entre
culturas diversas, mas como práticas em que se produzem as diferenças. Um currículo
caracterizado pelo hibridismo e que produz diferença a partir de uma necessidade incessante
de significação é um currículo concebido como enunciação cultural. A construção do currículo
nessa perspectiva põe em questão a autoridade da cultura como conhecimento referencial e
permite que ela surja como diretriz para falar da diferença.

Espaços de circulação e circunstâncias de comunicação entre os povos


indígenas Wai-wai da Aldeia Mapuera

Raimundo Nonato de Pádua Câncio

Anderson Carlos Elias Barbosa

O objetivo deste estudo é verificar em quais espaços de circulação se dá a aquisição da língua


portuguesa e quais circunstâncias de comunicação são mobilizadas pelas necessidades
comunicativas dos povos indígenas Wai-wai, da Aldeia Mapuera. Metodologicamente,
caracteriza-se como um Estudo de Caso do Tipo Etnográfico, cuja abordagem é qualitativa,
realizado na escola e na aldeia, junto a professores e a sujeitos indígenas, utilizando-se como
recurso de pesquisa a observação e a entrevista semiestruturada. O estudo apresenta como
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base teórica crítica de reflexão a Teoria Decolonial e o Pós-colonialismo (MIGNOLO, 2017),


(HALL, 2011), tendo em vista a relação entre os sujeitos Wai-wai, a aquisição da Língua
Portuguesa e das línguas indígenas e o lugar que estas línguas passam a ocupar na cultura
indígena. A relação linguagem e educação em territórios indígenas precisa ser estudada na
peculiaridade, no espaço e tempo de cada povo, considerando-se os aspectos socioculturais
e sociolinguísticos interligados na dinâmica cultural e no processo de socialização em cada
cultura em particular (ALKMIM, 2001). Considerando tais aspectos, Hamel (1993) observa que
os falantes das línguas “minoritárias” frequentemente são silenciados porque não podem se
expressar em espaços públicos, especialmente nas esferas administrativas. Por vezes, esses
falantes são calados por não utilizarem a língua dominante ou o código escrito; outras vezes,
embora conheçam a língua dominante ou o código escrito, são silenciados pela assimetria dos
tipos de atos verbais ou por não dominarem os padrões de interação na língua dominante.
Para compreender as circunstâncias do discurso e as características dos espaços discursivos
onde interagem os povos Wai-wai, dialogamos com Charaudeau (2008, p. 32), para o qual as
circunstâncias do discurso dizem respeito a um conjunto dos saberes supostos que “circulam
entre os protagonistas da linguagem, saberes supostos a respeito do mundo e saberes
supostos sobre os pontos de vista recíprocos dos protagonistas do ato de linguagem”. Os
resultados deste estudo evidenciam que hoje, para além da escola e da aldeia, a aquisição da
Língua Portuguesa e das línguas indígenas, ali faladas, ocorre tanto na cidade como nos
espaços de circulação com indígenas e não indígenas, na convivência, na interlocução, e nas
circunstâncias de comunicação mobilizadas pelas necessidades comunicativas.

Desenvolvimento de questões do Enem: um olhar crítico para o contexto


teórico e prático das questões ligando-as ao nosso cotidiano

Janduir Clécio Miranda de Carvalho

David Kelvin Galindo Gonçalves

José Celiano Cordeiro da Silva

Vilmar Leandro de Santana

O uso de métodos inovadores e criativos na prática educacional é sem dúvida importante no


ensino da Física, de modo a relacionar o conteúdo ao cotidiano do aluno tornando-se
relevante em sua vida. O objetivo deste trabalho desenvolver aulões de resolução de questões
para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) para alunos do ensino médio, enfatizando
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uma abordagem crítica da relevância dos conceitos teóricos e práticos para o entendimento
do funcionamento do mundo ao nosso redor, buscando sempre solucionar problemas com
relação à falta de interesse dos nas aulas na realização deste exame, importante para o
ingresso em uma universidade. De acordo com REIS (2013), uma educação centrada na
indução da participação dos alunos no processo de ensino aprendizagem, tornando-os
capazes de entender e atuar meio social em que vivem. Com esse pensamento em mente a
iniciativa deste projeto veio através da matéria de Laboratório de Prática do Ensino da Física
5 (LAPEF5), do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE), que além do ensino da física nas
escolas públicas visa também com os aulões ministrados, arrecadar alimentos e doar para
pessoas carentes de nossa cidade. O desenvolvimento das ações desta disciplina é
fundamental na formação do professor, onde a mesma se preocupa com a qualidade e
criatividade das aulas ministrados no ensino médio. Foi nesse contexto que SILVA (2010),
disse: “é fundamental desenvolver estratégias de ensino diferenciado, fazendo que alunos
tenha mais participação e através disto aprendam a observar esse fenômeno e dessa maneira
a entender os cálculos não só para comprovar a teoria mais principalmente pela prática”.

Observatório do esporte e do lazer de diferentes grupos sociais e étnicos do


estado do Pará/Rede CEDES

Pablo Freitas Carvalho

Joelma Cristina Monteiro Parente Alencar

O projeto “Observatório do Esporte e do Lazer” caracteriza-se por ações de pesquisas e


monitoramento de espaços e práticas esportivas e de lazer, sejam elas de caráter público ou
privado, governamental ou não governamental, manifestadas pelos diferentes grupos sociais
e étnicos do Estado do Pará que, historicamente são considerados socialmente vulneráveis, e
pouco têm se beneficiado das políticas públicas de esporte e lazer. Tratando-se dos povos
indígenas com uma diversidade representativa de línguas, culturas e identidades, tais povos
têm, em diversos âmbitos, conquistado, por sua mobilização, o reconhecimento do Estado em
relação aos seus direitos, que legalmente vêm sendo continuamente reforçados desde a
Constituição Federal de 1988, que veio garantir-lhes direitos fundamentais, como educação e
saúde, assim como os direitos às suas terras originárias, o respeito às suas culturas, às
organizações sociais e políticas, às suas línguas e tradições, assim como à sua autonomia.
Todavia, no âmbito dos direitos e acesso às ações esportivas e de lazer, percebe-se lacunas
consideráveis entre os amparos legais e o que acontece de fato nas comunidades (ALENCAR,
2014). Nos estudos de Alencar (2014) foi possível constatar que as políticas públicas de

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esporte e lazer para os povos indígenas, ao longo do tempo e no sentido de uma


democratização ao acesso e de uma diminuição das desigualdades sociais mostram-se
modestas em alcance e lentas em trajetórias. Apesar das conquistas alcançadas pelo
movimento indígena, em se tratando dessas políticas, esse grupo ainda não conseguiu
alcançar a plenitude na inclusão de suas necessidades frente às ações estabelecidas pelo
Governo. Ações como os “Jogos dos Povos Indígenas” e o “Programa de Esporte e Lazer da
Cidade” (PELC), por exemplo, precisam possibilitar melhor democratização de acesso por
outros povos menos articulados politicamente. Os modelos de esporte e de lazer precisam ser
problematizados no sentido do que se quer alcançar em termos de projeto de sociedade
almejado pelos povos indígenas. Este trabalho apresenta alguns dos resultados do
mapeamento e caracterização de práticas e de equipamentos de esporte e lazer dos grupos
pesquisados, identificando suas estratégias de apropriação e as problemáticas contextuais de
acesso e usos do direito ao esporte e ao lazer, que poderão alimentar a ampliação e o
surgimento de novos estudos.

A educação escolar indígena e a surdez: análise de uma realidade à luz da


teoria histórico-cultural

Bárbara Almeida da Cunha

Eleny Brandão Cavalcante

O presente trabalho tem como objetivo analisar os aspectos do processo de ensino-


aprendizagem de criança indígena surda do 2º ano do ensino fundamental de escola também
indígena localizada no município de Santarém-PA. Posto isto, trago os seguintes objetivos
específicos: a) analisar o meio escolar no qual o estudante surdo está inserido; b) verificar se
o aluno surdo de fato possui uma língua que lhe possibilite o aprendizado dos conteúdos de
sala de aula e c) identificar as práticas pedagógicas utilizadas pelos professores do aluno para
interagir com ele. As perguntas norteadoras deste trabalho são: a) Como o aluno indígena
surdo consegue se apropriar do conteúdo das aulas? b) Como o professor promove o processo
de ensino-aprendizagem deste aluno e c) Como a escola estabelece as estratégias para
oportunizar a socialização dos conhecimentos para essa criança indígena surda? Utilizarei o
conceito de ser genérico de Newton Duarte (2013) e as ideias de meio, pensamento e
linguagem de Vygotski (2000; 2001; 2010). Vygotski (2010) afirma que o meio é a fonte do
desenvolvimento, pois os sujeitos precisam estar inseridos em contexto que o propicie.
Newton Duarte (2013) também trata deste chamado processo de humanização defendendo
que é através da relação dinâmica entre apropriação e objetivação que o indivíduo pode ter
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um pleno desenvolvimento, ter a oportunidade de acesso a todos os produtos da objetivação


humana ao longo da história é o que possibilita seu próprio desenvolvimento como um ser
genérico para si. A pesquisa está fundamentada no materialismo histórico-dialético, buscando
compreender as contradições que envolvem o processo educacional da criança indígena surda
em uma aldeia da região Amazônica. Na metodologia utilizo como base o livro de José Paulo
Netto (2011) que trabalha com a totalidade, contradição e mediação. Como instrumento de
produção dados lanço mão da observação em sala de aula, diário de campo e aplicarei
entrevistas semiestruturadas. Por fim, a relevância deste estudo justifica-se na possibilidade
de avançar na reflexão sobre os processos de escolarização da criança surda e indígena. Ao
seu final, poder ser utilizado como fundamentação para outras pesquisas na área da educação
de indígenas surdos bem como servir de subsídio pedagógico para orientar pais e professores
de pessoas surdas com o intuído dos mesmos perceberem o que potencializa ou não, o
processo de ensino e aprendizagem de estudantes indígenas surdos.

Educação escolar indígena no Amazonas e o direito ao currículo específico:


um olhar sobre a política curricular da Seduc/AM para as escolas indígenas do
estado

Ana Paula Diniz

Jonise Nunes Santos

A Constituição Federal de 1988 – CF/1988 é um marco expressivo para os povos originários. A


partir de então, deixam o status legal de tutelado do estado e passam a o de cidadãos, com
direito à autonomia e à manutenção de suas culturas, língua e terras (art. 210). No que diz
respeito à educação, a CF/1988 garante o direito à escolarização nas comunidades indígenas,
mantendo assim os jovens estudantes junto de suas famílias. Em relação aos processos de
ensino-aprendizagem, ao contrário do que vinha sendo realizado até então: um modelo de
educação integracionista e que desconsiderava línguas e culturas tradicionais dos povos
indígenas, as premissas da nova educação escolar indígena a ser materializada estão baseadas
nos princípios de especificidade, diferença, interculturalidade, bi/multilinguismo e
comunitarismo (BRASIL, 1993). Tais princípios devem ser aplicados na construção dos
currículos das escolas indígenas, contemplando diferenciação de conteúdos e processos
educacionais, bem como o ensino em língua materna, de acordo com a especificidade das
etnias, tendo os próprios povos indígenas como protagonistas principais na construção do
currículo de suas escolas. Cabe à União, detentora da responsabilidade da efetivação desses
novos princípios educacionais para os povos indígenas, promover condições legais, técnicas e
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financeiras, de modo a se fazer valer tais determinações (CF/1988, art. 78 e 79). Estados e
municípios são responsáveis pela execução e implantação dos ditames legais relativos à
educação escolar indígena. Este trabalho, fruto de pesquisa bibliográfica e documental
realizada no âmbito do Programa Institucional de Iniciação Científica – PIBIC da Universidade
Federal do Amazonas - UFAM, busca apresentar os resultados relativos à política pública
estadual do Amazonas para a Educação Escolar Indígena, com foco principal na política
curricular para as escolas indígenas sob responsabilidade da Secretaria Estadual de Estado da
Educação e Qualidade de Ensino do Amazonas – SEDUC. Nessa perspectiva, percebe-se que, a
nível estadual, pouco se avançou acerca das políticas públicas para a Educação Escolar
Indígena, se comparado ao nível federal, bem como se percebe o não cumprimento dos
princípios da Educação Escolar Indígena e das determinações legais relacionadas a estes, no
estabelecimento da Matriz Curricular Intercultural de Referência e da Proposta Curricular
Intercultural de Referência, o que pode vir a impossibilitar o estabelecimento de currículos
específicos e diferenciados nas escolas indígenas do estado, já que, tanto a Matriz Referencial
quanto a Proposta Curricular, apresentam caráter mandatário e não apenas referencial.

A escola que queremos: resultados da prática de campo em uma comunidade


indígena Tikuna da tríplice fronteira amazônica (Brasil, Peru e Colômbia)

Jarliane da Silva Ferreira

Gilse Elisa Rodrigues

Ismael da Silva Negreiros

Ismael Carlos Pereira

O presente trabalho traz os resultados de uma prática de campo realizada na comunidade


indígena de Umariaçú II, no município de Tabatinga/AM. A atividade foi realizada no contexto
da disciplina Prática da Pesquisa Pedagógica II, por estudantes indígenas e não indígenas e
professores do Curso de Pedagogia e Letras do Instituto de Natureza e Cultura – INC, em
parceria com o Observatório da Educação do Campo no Alto Solimões/AM- OBECAS. A
atividade contemplou um diagnóstico participativo (FERREIRA & SILVA, 2009) com professores
e alunos da escola pública indígena Metchacuna, a fim de entender as problemáticas
vivenciadas pelos sujeitos e a escola que eles querem. O diagnóstico participativo é uma
atividade já experienciada pelo OBECAS, e se mostrou relevante para o processo de formação
de professores e coleta de dados. No primeiro momento é realiz ado o nó das lamentações,
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com indicação das problemáticas apontadas pelos participantes e no segundo momento já na


tarrafa dos sonhos, os sujeitos apontam potencialidades e indicam por meio de exposição oral
ou por desenhos, a escola que eles sonham. Essa atividade foi priorizada nesta prática de
campo com dois grupos, o dos professores e o dos alunos. O primeiro grupo constituído por
professores, contemplou a discussão entorno das problemáticas a partir de três (03) eixos:
infraestrutura escolar, projeto político pedagógico e valorização de professores. E em seguida
foi montado a tarrafa dos sonhos, a partir da escola que eles consideram importante na
comunidade. Após o momento com os professores em outro turno foi realizado a roda de
conversa com os estudantes indígenas adolescentes e jovens da comunidade. Eles também
apontaram em forma oral e em desenhos as principais problemáticas vivenciadas e a escola
que eles desejam. Como resultado do diagnóstico participativo com os professores e
estudante foi salientado como principais problemáticas no eixo infraestrutura escolar a falta
de biblioteca, climatização nas salas de aula, sala de reforço, muro da escola, quadra
poliesportiva, auditório, sala de informática com acesso à internet, sala de professores. No
eixo valorização do educador foi indicado a falta de formação continuada e específica,
planejamento, salário digno, auxílio alimentação e plano de saúde. No item Projeto Político
Pedagógico (PPP) foi dito pelos professores sobre a ausência de assessoramento técnico na
elaboração do PPP da escola indígena por parte da secretaria de educação. Como resultado
da dinâmica tarrafa dos sonhos foi dado ênfase nas questões que os próprios sujeitos não
conseguem vivenciar na escola cotidianamente, logo as ausências de itens básicos reaparecem
na escola que eles desejam para a comunidade indígena, mostrando uma realidade precária
de escolas que são construídas fora dos padrões locais e culturais, exigindo o mínimo de
infraestrutura como por exemplo a ausência de climatização nas salas de aula, apontado pelos
estudantes do nono ano do ensino fundamental, demonstrando que a escola com padrão de
qualidade no ensino indígena ainda longe de ser atingido. Logo eles solicitam além da escola
com projeto diferenciado, querem uma escola com infraestrutura adequada.

Pesquisa, extensão e ensino: histórias em quadrinhos na formação


continuada de professores Apyãwa/Tapirapé

Lucimar Luisa Ferreira

Adailton Alves da Silva

Este trabalho apresenta uma discussão/reflexão sobre o resultado de dois Projetos (Extensão
e Pesquisa) desenvolvidos na comunidade Apyãwa/Tapirapé. A partir do relato da experiência
de organização de dois livros de histórias em quadrinhos escrito pelos professores em oficinas

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de formação continuada, na área da linguagem, discute-se como a pesquisa, a extensão e o


ensino podem se relacionar na produção de materiais didáticos/pedagógicos específicos para
a escola indígena, com significado cultural para os alunos e comunidade em geral. A partir da
Constituição Federal de 1988, os indígenas conquistaram o direito a uma educação específica
e diferenciada, ou seja, adquiriram o direito de construírem suas escolas a partir de princípios
e concepções próprias do povo, resguardando a memória histórica da etnia e dando suporte
ao fortalecimento da cultura na contemporaneidade. Entretanto, mesmo com essas
conquistas em lei, os povos indígenas têm encontrado diversos obstáculos na construção de
suas escolas, principalmente, na implementação de estratégias pedagógicas que respeite os
seus ritmos de vida na aldeiae valorizem seus conhecimentos tradicionais. Esses obstáculos
estão relacionados a diversos fatores, mas os mais comuns e relevantes são: a construção de
um currículo que contemple tempos próprios, saberes específicos da cultura e produção de
materiais didáticos/pedagógicos que significado cultural para os alunos. Para o povo
Apyãwa/Tapirapé, que tem a escola na comunidade desde a década de 1970, fazer dessa
instituição um espaço de valorização e fortalecimento da cultura tradicional sempre foi e
continua sendo uma das suas principais preocupações. Pelo que é possível observar, as
lideranças sempre estiveram atentas à condução do processo de educação escolar, levando
em consideração as suas necessidades e a política interna do grupo. O povo percebe e valoriza
a necessidade da educação escolar, mas luta para que o ensino na escola da comunidade seja
desenvolvido a partir do respeito aos princípios e fundamentos culturais. O objetivo da
comunicação é discutir como a produção de histórias em quadrinhos pode dar significado para
as práticas de escrita na comunidade Tapirapé e, como isso, ser um material de leitura
significativo culturalmente próprio para ser usado nas escolas. O estudo tem como suporte
teórico autores da área da educação e do ensino de línguas. A metodologia é qualitativa e os
materiais de análise foram os produzidos nas oficinas de formação continuada, realizadas na
Escola Indígena Estadual Tapi’itãwa, situada na Terra Indígena Urubu Branco, Confresa, MT,
no período de 2015 a 2017.

Perfil e percepções das juventudes indígenas do Amazonas: condição social,


identidade e perspectivas futuras de jovens indígenas do Baixo Rio Negro

Arthur Goerck

Leticia Cortellazzi Garcia

O presente trabalho tem como objetivo subsidiar a elaboração de proposta educacional


voltada para jovens indígenas. Desta forma, a pesquisa buscou: 1) mapear o perfil dos jovens
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indígenas da região do Baixo Rio Negro e 2) escutar e analisar as percepções destes jovens
sobre sua identidade e perspectivas de futuro. O Censo de 2010 revela que a população do
estado do Amazonas é predominantemente jovem. Dentre as diversas juventudes existentes
na região, optar por trabalhar junto a uma singular fração do que hoje é entendido como
juventude rural – a juventude indígena - requer um alargamento das percepções e conceitos
utilizados na literatura sobre o tema. Isto porque, a maior parte da produção acadêmica
existente sobre juventude rural diz respeito às experiências ocorridas no sul e nordeste do
Brasil, regiões com ruralidades completamente distintas das amazônicas. Se poucos são os
estudos sobre a juventude indígena amazônica, esta pesquisa pretende contribuir e
aprofundar a discussão sobre a realidade desta região do país. Para tanto, este trabalho
contou com a participação de 51 jovens de 7 comunidades indígenas na Área de Proteção
Ambiental (APA) do Rio Negro e na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Puranga
da Conquista. A metodologia utilizada foi: rodas de conversa e questionário semi-estruturado,
que permitiram a coleta de dados quantitativos e qualitativos sobre as juventudes indígenas
da região. Desta forma, foi possível refletir sobre questões fundamentais à realidade das
juventudes indígenas como: a identidade, a migração, a relação entre o moderno e o
tradicional, o papel da educação nas perspectivas futuras, as novas possibilidades existentes
nos espaços rurais, entre outros. Buscamos assim, evidenciar as condições sociais e as
percepções dos e das jovens indígenas, contribuindo para o debate sobre as juventudes
indígenas da Amazônia e propor caminhos para o desenvolvimento de projetos voltados a
estes grupos. Os resultados preliminares demonstram que as jovens e os jovens indígenas são
representantes de uma transformação social e cultural que vem acontecendo no Baixo Rio
Negro e que demandam ações de fortalecimento da identidade cultural, de acesso à direitos
e a oportunidades. Além disso, evidencia a importância de escutar os jovens e as jovens
indígenas do Baixo Rio Negro para promover ações estruturadas que permitam seu
desenvolvimento integral.

Promovendo cidadania e direitos humanos: Projeto de Apoio aos Estudantes


Indígenas e Quilombolas da Universidade Federal do Pará

Maria Eunice Figueiredo Guedes

Leone Azevedo Gomes da Rocha

Camila Rodrigues e Rodrigues

Dhully Gleyce Souza Xarneiro

Eloisa Mendes Ferreira Freitas

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Silviane Couto de Carvalho

Queila Aiona Cardoso Costa

Daniela farias da Cruz

A política de inclusão abriu as portas da universidade para estas populações que ao longo da
história veem recebendo os impactos negativos de uma sociedade extremamente racista,
porém, somente abrir as portas das universidades ainda não é o suficiente, mas é o primeiro
passo em busca de igualdade, ainda assim há um longo caminho a ser percorrido. Ao sair de
sua comunidade o indígena e quilombola traz sua cultura e deixa a vivência diária com sua
comunidade e é inserido em um novo ambiente, o da universidade, onde se depara com
exigências acadêmicas que estão muitas vezes aquém do seu conhecimento. Adaptar-se a essa
nova realidade estando distante de sua família, dos rituais culturais do seu povo e diante das
dificuldades financeiras, é um desafio, que compromete sua permanência na instituição, e que
acabam acarretando problemas psicológicos, emocionais e de baixa autoestima, que muitas
vezes encaminham para a desistência do curso de graduação por parte desse estudante.
Diante dos desafios e dificuldades enfrentados por discentes indígenas e quilombolas na
universidade federal do Pará, surgiu a necessidade de criar uma rede de apoio psicossocial
que dê suporte para esses estudantes. É diante de tal demanda que o presente projeto se
justifica na tentativa de proporcionar um espaço de escuta que possibilite esse discente trocar
experiência com os demais, para a ressignificação de sua vivência e apropriação desse espaço,
como também criando estratégias que estimule a autonomia dos discentes. As atividades
desenvolvidas partem do princípio de equidade e cidadania para os povos tradicionais e
indígenas. A intervenção se dá por meio de acolhimento e apoio aos interessados através de
escuta individual, grupal e referenciamento da rede. São feitas rodas de conversa e oficinas
com os discentes, com a participação de alunos e profissionais de psicologia. O projeto conta
com o apoio principal das ASSOCIAÇÕES DE ESTUDANTES INDÍGENAS (APYEUFPA) e da
ASSOCIAÇÃO DE ESTUDANTES QUILOMBOLAS (ADQ-UFPA) da UFPA que fazem parte
integrante do projeto. E também com o apoio dos parceiros deste projeto: Distrito Sanitário
Especial Indígena Guamá- Tocantins (DSEI GUATOC), Casa de apoio à Saúde Indígena de
Icoaraci – CASAI Icoaraci/ DSEI GUATOC, Federação De Órgãos Para Assistência Social e
Educacional (ONG FASE), Associação dos Quilombolas do Abacatal – Ananindeua/Marituba –
PA, Faculdade de Psicologia da UFPA, Liga de Saúde Indígena da UFPA- LASIPA, Comissão de
Psicologia e Povos Indígenas do Conselho Regional de Psicologia Pará _ Amapá. CRP10, Liceu
Escola de Artes e Ofícios Mestre Raimundo Cardoso – Icoaraci – Belém – PA. As parcerias
citadas contribuiem na articulação deste projeto para as diversas áreas de inserção dos
estudantes indígenas na UFPA.

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Cultura e emoção: o papel da escola em um contexto multicultural

Riquelme Mella Enrique Hernan

A cultura medeia a maneira pela qual as pessoas regulam suas emoções. Diferentes grupos
culturais enfatizam diferentes formas de expressão emocional e emoções, que estão ligadas
a um estado afetivo ideal compartilhado. Desta forma, as competências socioemocionais
ideais variam de acordo com as expectativas da família. Habitualmente, os grupos culturais
dominantes enfatizam uma educação no próprio plano emocional através dos diferentes
mecanismos de socialização da emoção. A escola é um dos agentes sociais de socialização da
emoção da cultura dominante, no entanto, deixou de considerar o conhecimento emocional
de estudantes pertencentes a culturas minoritárias, onde o ideal emocional construído no
âmbito da educação família pode ser diferente da predominante nas escolas; tem sido o caso
dos estudantes mapuche do Chile. Essa situação da escola e da educação em contextos
indígenas pode gerar choques culturais que, em contextos de diversidade social e cultural,
podem ser desconsiderados ou mal interpretados, gerando processos de discriminação e
desigualdade. O exposto acima pode ser traduzido em sobrediagnóstico devido a problemas
emocionais e comportamentais. É apresentado um estudo que coleta histórias e crenças sobre
as emoções das crianças do ponto de vista ocidental e as contrasta com as crenças sobre o
ideal afetivo das famílias mapuches.

Habilidades sociais em contextos educacionais dos povos indígenas da


Amazônia brasileira

Irani Lauer Lellis

A educação escolar indígena historicamente esteve associada à imposição, à domesticação e


à negação da identidade dos povos indígenas do Brasil. Todavia, com mudanças no âmbito da
legislação educacional e os novos reordenamentos jurídicos que embasam as políticas
afirmativas na atualidade, os indígenas ganham voz e expressam o desejo de protagonizar os
novos cenários da educação dos seus povos. Todavia, ainda é bastante acentuada, nos dias
atuais, a visão social ocidental distorcida sobre o indígena, uma vez, que sempre esteve
arraigada de estereótipos pejorativos. O que leva a estigmatizar, no âmbito das áreas de
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habilidades sociais, a hipótese de que o indígena é um sujeito por natureza inabilidoso. De tal
modo, verificar as categorias de habilidades sociais em contexto dos povos indígenas tende
contribuir com a discussão e até desconstrução desses conceitos errôneos e pejorativos
contribuindo para a diversidade plena e o pluralismo de formas de relação social. A Psicologia
do Desenvolvimento tem evidenciado a relevância da interações sociais no processo de
aprendizagem e de desenvolvimento do ser humano (Camargo & Bosa, 2009; Novak & Peláez,
2004) e portanto, compreender as habilidades sociais dos povos indígenas da Amazônia é
fundamental para manter além da caraterização única de cada povo, seu desenvolvimento
educacional, uma vez que cada vez mais as políticas públicas tem se voltado para a inserção
indígena nas universidades.

Educação diferenciada dos imigrantes indígenas Warao: uma proposta


transterritorial em pedagogia de projetos

Marcos Vinícius da Costa Lima


Bárbara Andressa de Souza Balieiro
Jesus Desiderio Nunez Paredes
Maria do Socorro da Silva
Núlcia Odeleia Costa Azevedo
Omar Jose Rodriguez Sinfontes

Os indígenas Warao são provenientes da região do Delta do Orinoco, principalmente dos estados Delta
Amacuro e Monagas, na Venezuela e desde 2014 têm empreendido emigrações para o Brasil. Com o
agravamento do quadro político e econômico na Venezuela, o fluxo aumentou. Os indígenas
começaram se instalando em cidades do estado de Roraima, em especial Boa Vista, mas depois se
espalharam em outros estados da região Norte do Brasil, como Amazonas e em 2017 chegaram ao
Pará, onde estão presentes nas cidades de Belém e Santarém. Crianças, jovens e adultos do povo
Warao foram identificadas nos logradouros das cidades supracitadas em situação de grande
vulnerabilidade social, submetendo-se a condição de “pedintes” de ajudas econômicas e alimentícias
o que resultou na ação do Ministério Público Federal (MPF) que orientou e notificou diversas
instituições públicas para que apresentassem uma política pública de atendimento aos imigrantes
indígenas Warao venezuelanos em condição de solicitação de refúgio na região da Amazônia brasileira.
A Secretaria de Educação do Estado (SEDUC) do Pará, meio da Coordenação da Educação de Jovens e
Adultos (CEJA) e da Coordenação de Educação Escolar Indígena (CEEIND), realizaram a consulta prévia
aos povos Warao para atendê-los no campo da educação, diante destas necessidades foi criado e
desenvolvido o Projeto Saberes da EJA para os Indígena Warao. O projeto foi implementado para
realizar ações pedagógicas de letramento no tocante da alfabetização a partir de três perspectivas: da

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interculturalidade crítica, trilíngue e transdisciplinar, potencializadas através da pedagogia de projetos,


que visa promover atividades que possam qualificar técnicamente as competências dos educandos
indígenas para assumirem postos alternativos no mercado de trabalho local. Por meio de uma
metodologia inovadora que parte de situações problemas do cotidiano imediato dos Warao na região
metropolitana de Belém, busca-se valorizar a transculturalidade e a cosmogonia indígena Warao,
como meio e os eixos temáticos a serem realizados na articulação dos campos de saberes que integram
e respeitam as diversidades intraculturais e os seus respectivos campos vitais, em particular, no que
tange a luta do povo Warao contra o preconceito e por acesso aos direitos humanos e a
transterritorialidade em contextos urbanos. A educação escolar indígena do e para os indígenas Warao
em território brasileiro tornou-se um desafio a ser superado diante das novas complexidades culturais
provenientes dos novos fluxos migratórios, pois a construção de alternativas educacionais é de suma
importância para a sensibilização e compreensão da necessidades de estudos e proposições sobre a
diversidade sócio-cultural que se exige na atual configuração política do Brasil.

As oficinas de conhecimentos tradicionais como alternativa pedagógica para a


produção e transmissão de conhecimento intergeracional entre os Apinaje

Vanusa da Silva Lima

O presente artigo aborda o atual processo de produção e transmissão de conhecimento


intergeracional entre o povo indígena Apinaje, a partir da realização de oficinas de trançados
e quebra de coco organizadas periodicamente no território indígena. As oficinas se
apresentam dentro do cenário das aldeias como abordagens mais semelhantes à organização
educacional não-indígena a que crianças e jovens estão inseridos no cotidiano escolar. Este
artigo busca compreender as alternativas encontradas pelas lideranças para dar continuidade
à produção e transmissão de conhecimento tradicional utilizando novos formatos
pedagógicos, de que maneiras estas oficinas são organizadas, quais as expectativas da
comunidade e de que forma as atividades se desenvolvem dentro deste espaço programado.
O conceito de “pedagogia Apinayé”, presente em Rodrigues (2015) e o conceito de “aprender
pela prática”, de Sotero Apinagé (2018) são discutidos à luz de paradigmas estabelecidos com
relação à educação formal, buscando compreender a trajetória dos Apinaje com relação ao
conhecimento tradicional.

A música e a Educação do povo Magüta

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Jeane Colares da Silva Machado

Estamos no estado do Amazonas brasileiro, no extremo oeste da região Norte do Brasil. A


cidade chama-se Tabatinga (barro branco em Tupi). Esta região é habitada por muitos povos
de diferentes etnias. A começar pelos “brancos” divide-se entre brasileiros, colombianos e
peruanos. Quanto a outros povos, uma extensa lista, daqueles que são chamados nativos,
indígenas, autóctones, em fim, gente como agente. Magüta é como se auto-determinam os
conhecidos Ticunas. A origem de seus nomes, possuem direções completamente diferentes
do que imaginamos. Iniciamos nossa jornada junto a essa etnia no ano de 2013, quando do
ingresso ao serviço público federal, como professora de Artes, na especialidade de música, no
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas. Desde lá temos procurado
adquirir muitos conhecimentos de valores inestimáveis para vida, para a sociedade, para o
futuro, e tantas outras áreas do processo da educação, seja formal ou não. Nesta proposta de
trabalho, sobre tudo, visamos expor partes da nossa pesquisa, hoje publicada em livro,
resultado da dissertação de mestrado, realizado na Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro em parceria com o IFAM, no período de 2014 a 2016. Em julho de 2018, o trabalho foi
lançado em formato de livro pela editora alemã NEA, como o título “A Prática da Educação
pela Música do Povo Magüta: a música Ticuna”. O livro está dividido em 3 capítulos além de
algumas informações cruciais, para entendimento do trabalho aplicado naquela ocasião. No
capítulo 1, há uma vasta dissertação sobre as questões históricas e sociais do povo Magüta. A
importante exposição sobre o uso do nome original e do popular Ticuna, finalizando com
explanações sobre a difícil luta, a questão da identidade. O capítulo 2, procura comparar
importantes conceitos da educação formal e da educação indígena. Recapitula a luta pelo
direito a educação, e expõe sobre o pensamento indígena e não indígena, de uma educação
nacional. O terceiro capítulo, debruça-se em mostrar os elementos técnicos comparados,
compilados e analisados pela autora, da teoria musical ocidental, procurando demonstrar as
grandes influências sofridas desde o seu contato. Não procuramos fazer nenhum juízo de
gosto aqui, mas apenas analisar e demonstrar dados, segundo a visão musical de uma
professora e artista brasileira, com um desejo enorme de retribuir como amor o valor do povo
Magüta em nossa história.

Zona de Creación: en busca del hábitat, generando espacios de creación,


comunicación y fortalecimiento con niñas y niños de Ixhuatlancillo, Veracruz,
México

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Caderno de Resumos do 3 o Congresso Internacional Povos Indígenas da América Latina (CIPIAL)
ISBN: 978-65-86503-02-9
Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

Indira Rodríguez Martínez

Crecí en un este sector del municipio, en la unidad habitacional “el Cristo” donde como todos
los niños y niñas de mi alrededor salí a jugar con amigas de la cuadra, si bien tuve la fortuna y
el privilegio de asistir a una escuela fuera un poco del sistema educativo público, donde me
acerqué a las artes, además de asistir a clases extra escolares en la ciudad de Orizaba Veracruz
México. Con el paso del tiempo y mi crecimiento me pregunte porqué este tipo de espacios
no se encontraban dentro de mi localidad el municipio de Ixhuatlancillo Veracruz, o porqué
eran diferentes las practicas de mi escuela a la de mis amigas. Por ello desde la infancia y
adolescencia me dediqué a compartir el espacio donde vivía y compartir saberes con niñas y
niños. Menciono esta experiencia para abordar desde el origen de donde proviene este
proyecto y mi búsqueda del hábitat, ubicarme esto me ayudo a contextualizar el porqué mi
inquietud de generar estos espacios, durante la temporada de mis estudios de la licenciatura
de Psicología en Xalapa, reflexioné sobre el territorio en el que crecí y habité cada vez esta
necesidad de espacios era más latente, creer que son necesarios para la población de la cual
soy, por ser afectada por diferentes contextos violentos desde la estructural a la simbólica. Lo
que se percibe al andar en la calle es el acercamiento a diferentes vulnerabilidades del
contexto, entendí la importancia de estos espacios, pues así como obligación por parte del
estado y alternativas ante la diversidad de problemáticas y necesidades de Ixhuatlancilo.
Después de estudiar y habitar casi cinco años en la ciudad de Xalapa, regresé a mi localidad,
las cosas no habían cambiado tanto solo que ahora había nueva generaciones de niñas, niños
y jóvenes, los espacios seguían sin ser propiciados, sólo canchas de fútbol y básquetbol en
condiciones no factibles para la comunidad y sin atención en ello. Es por ello que surge la idea
de este proyecto, en este capitulo se describe el registro de toda la experiencia que desde el
2013 se gesto en el municipio de Ixhuatlancillo Veracruz.

Cognições dos professores indígenas nas Escolas Parakanã sobre habilidades


sociais e desempenho acadêmico

Antonia Lemos Braga Moraes

A temática sobre cognições de professores indígenas no contexto educacional é recente e


incipiente o que justifica a relevância dessa pesquisa visto que as cognições exercem fortes
influências sobre as práticas e consequentemente sobre o desenvolvimento humano. Os
sujeitos participantes foram 26 professores indígenas leigos, servidores temporários
(contratados por um período de 10 meses) pela Secretaria Municipal de Educação, para atuar
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Caderno de Resumos do 3 o Congresso Internacional Povos Indígenas da América Latina (CIPIAL)
ISBN: 978-65-86503-02-9
Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

no magistério indígena nas turmas de Educação infantil, 1° ao 5° ano do Ensino Fundamental


e Educação de Jovens e Adultos EJA, distribuidamente nas 14 escolas, localizadas em 14
aldeias pertencentes ao Município de Novo Repartimento no Pará. Os instrumentos utilizados
para levantamento de dados foram: entrevistas estruturadas e semiestruturadas coletivas. Os
dados foram analisados mediante a técnica do Discurso do Sujeito Coletivo. Os resultados
apontaram para o desconhecimento do termo habilidades sociais, apesar de demonstrarem
estreita relação entre melhor interação professor-aluno e desempenho acadêmico. Conclui-
se que conhecer o que os professores pensam é um primeiro passo para se pensar em políticas
públicas mais eficazes, na criação de instrumentos e estratégias, bem como em insumos
teóricos para compreensão e discussão no que diz respeito a ações interventiva e dessa forma
contribuir para o desenvolvimento e fortalecimento de relações mais saudáveis e
consequentemente repercutir num melhor desempenho acadêmico dos alunos indígenas.

Otros conocimientos, otras prácticas y un mismo problema: algunos retos


para una educación indígena y comunitaria

Yolanda Jiménez Naranjo

En México – y en general en América Latina – la relación entre prácticas escolares y


conocimientos indígenas es enunciada tanto por quienes pretenden fortalecer procesos
educativos compensatorios como por quienes quieren establecer relaciones de mayor
autonomía cultural y política en la gestión de sus procesos educativos. En ambos casos la
relación entre epistemes escolares e indígenas abreva de debates muy diferenciados. Esta
ponencia pretende centrarse en aquellas experiencias que toman como eje central la relación
entre alteridad y escuela y apuestan por procesos de mayor autonomía y reconocimiento de
las epistemes de los pueblos indígenas para dar cabida a otros conocimientos y aprendizajes
para la construcción de formas plurales de construir el mundo social, cognitivo, económico y
político de sus pueblos. En este debate, sin agotarlo, pretendo abordar; a) la difícil – y a la vez,
paradójica – relación entre alteridad y escuela, b) algunos escollos a evitar – tanto los riesgos
de un esencialismo cosificante como la mera transposición de prácticas culturales
comunitarias a contenidos escolarizados, para finalmente c) bajo los marcos anteriores,
ahondar en algunas experiencias en contexto mexicano que nos permiten seguir pensando y
profundizando la relación entre alteridad y escuela de la mano de un diálogo de epistemes
que posibilite erosionar las lógicas y saberes escolares tradicionales para la construcción de
mundos sociales más plurales y equitativos.

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ISBN: 978-65-86503-02-9
Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

Habilidades sociais na pós-graduação: trajetória de uma estudante indígena


no interior da Amazônia

Ana Hilguen Marinho Pereira

Adriane Lima da Silva Oliveira

Milany Santos de Carvalho

Núbia dos Santos Oliveira

A Amazônia no cenário nacional e internacional atualmente representa um papel de destaque


para as gerações futuras, devido apresentar diversidade de riquezas naturais e uma
heterogeneidade sociocultural que poucos lugares no planeta possuem. Os indígenas fazem
parte dessa população, e dentre essas, historicamente convivem com grandes desafios e
conflitos para afirmarem sua identidade, saberes, cultura e constituição social. Neste sentido,
compreender o modo de vida e as habilidades sociais que os indígenas possuem se faz de
grande relevância, pois a construção de um repertorio socialmente habilidoso permite a
manutenção de relacionamentos interpessoais positivos, considerando que empatia,
assertividade, fazer amizades, comunicação entre outros, são comportamentos que
colaboram para o sucesso dessas relações. As trajetórias acadêmicas de estudantes indígenas
são pouco visadas em estudos que versam sobre a inserção destes na pós-graduação. A
pesquisa tem como objetivo geral conhecer o repertorio de habilidades sociais de uma
estudante indígena da pós-graduação do interior da Amazônia. De forma específica pretende-
se identificar as habilidades sociais que a estudante indígena apresenta; averiguar a inserção
de estudantes indígenas na pós-graduação no contexto amazônico; refletir sobre a urgência
de intelectuais indígenas na Amazônia. Para tanto, o estudo classifica-se como um estudo de
caso, tendo como técnicas de coletas de dados a história oral de Meihy (2002), o inventario
de habilidades sociais desenvolvido por Del Prette e Del Prette (2009) e entrevista semi-
estruturada. A análise será feita por meio da Técnica de Elaboração e Análise de Unidades de
Significado desenvolvida por Moreira, Simões e Porto (2005). Tendo em vista que esta
pesquisa se encontra em fase inicial de desenvolvimento, ressalta-se que ainda não existem
dados empíricos que possam ser apresentados e discutidos neste resumo.

Possibilidade de formação de leitores no Rio Arapiuns: quais os efeitos de


“levar a ler” em uma aldeia com pouca circulação literária e científica?

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Caderno de Resumos do 3 o Congresso Internacional Povos Indígenas da América Latina (CIPIAL)
ISBN: 978-65-86503-02-9
Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

Luanna Cardoso Oliveira

Zair Henrique dos Santos

A presente pesquisa vem sendo desenvolvida na aldeia Nova Vista- rio Arapiuns, tem por
objetivo investigar possíveis transformações sociais e percepções que ocorreram ou ocorrerão
da relação do povo com a recente circulação de leitura e as novas dimensões culturais
implantadas através de uma biblioteca. A leitura é um, dos muitos problemas educacionais
que a região amazônica enfrenta, pois, este ato é alvo do descaso e do misticismo pautados
em clichês que acabam por esvaziar o sentido de formação e fonte de conhecimento. Diante
de uma realidade amazônica tão complexa, houve a realização de uma pesquisa inicial Espaço
de leitura aldeia Nova Vista: Leitura, Educação Escolar Indígena e Identidade que consolidou
na criação e adaptação de uma biblioteca dentro da aldeia. Com a implantação e
funcionamento da biblioteca surgiram questionamentos como: Que resultados terá trazido à
medida que se propôs isso? Que tipo de diálogo a aldeia está disposta ou estabelece à medida
que ela encontra novas dimensões de culturas mediadas por alguém de dentro? Para
compreender toda essa relação da leitura, a atual pesquisa (que se encontra em andamento)
utilizará como método investigativo a pesquisa-ação, neste sentido os
participantes/moradores dessa aldeia são parte cruciais da construção, protagonismo e
manutenção deste trabalho, sendo estes coautores. Assim, os direcionamentos deste trabalho
dependem da participação coletiva dos moradores para alcançar: a adesão, o envolvimento
da comunidade e a possibilidade de transformar determinada realidade leitora. Para que seja
efetivada uma circulação de leitura mais organizada e uma compreensão mais consistente
dessas ações, será proposto um projeto de intervenção que consistirá em: encontros com
comunitários e escola, voltados para refletir estratégias de realizações pedagógicas;
observações de como docentes e alunos passaram a conviver com o espaço de leitura e o
material que este proporciona; propor e desenvolver juntos a docentes práticas de leituras
que consistirão em: Rodas de leitura, mostra literária, leitura pública, formação/palestras para
professores; análise do acervo e a constância com que comunitários (de maneira geral) têm
frequentado o espaço de leitura. Como base teórica estão sendo utilizados: FRIGOTTO (1993,
1995, 2012); BRITTO (2003;2012;2015); DUARTE (2003, 2013); SAVIANI (1980, 2005); SANTOS
(2016) e MÈLIA (1999).

Professores e professoras indígenas e a sala de aula: a ênfase na cultura,


língua materna e conhecimentos tradicionais

Andréia Maria Pereira

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Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

Esta comunicação tem como objetivo apresentar algumas discussões de uma pesquisa com
professores e professoras indígenas, fruto de uma tese de doutoramento em andamento, que
tem como objetivo analisar as perspectivas dos docentes indígenas em relação à
interculturalidade presente nos seus processos formativos, bem como nos contextos de sua
atuação docente. Especificamente nesta, apresentaremos um recorte da pesquisa que
enfatiza a análise a cerca do que é considerado relevante no currículo trabalhado na escola
indígena do Povo Gavião de Rondônia. Neste sentido, merece destaque as escolhas feitas
pelos professores e professoras indígenas, articuladas com os anseios da comunidade que dão
ênfase à cultura, língua materna e conhecimentos tradicionais como indispensáveis para
aprendizagem dos alunos e alunas indígenas. A abordagem da pesquisa é qualitativa e os
procedimentos de coleta de dados estão em consonância com a mesma. A produção dos
dados do campo empírico ocorreu, por meio de entrevistas semiestruturadas, com
professores e professoras indígenas Gavião do Estado de Rondônia e observação dos espaços
escolares. A legislação, através da Constituição Federal de 1988, assegura aos povos indígenas
o direito à diferença cultural, reconhecendo que os povos indígenas têm a sua própria cultura,
seus costumes, e garantindo, entre outras coisas, a utilização da língua materna e de
processos próprios de aprendizagem no contexto das escolas indígenas. Os professores e
professora indígenas Gavião tem trabalhado cotidianamente esses aspectos de escola
específica e diferenciada com seus alunos e alunas, através de suas práticas pedagógicas
interculturais. Com base nas análises e reflexões construídas no corpo do texto, enfatizamos
a luta dos professores e professoras indígenas Gavião na construção de uma educação sem
epistemicídio, ou seja, uma educação que dialoga com os diferentes conhecimentos. Portanto,
uma educação que desconstrua o modelo hegemônico, eurocêntrico, monocultural e que
compreenda a diversidade cultural como uma possibilidade de problematização e construção
de diferentes conhecimentos. Construindo assim, uma educação escolar indígena decolonial.

Representação de universidade para os povos indígenas

Aline Karina Ferreira Pinto

Brenda Samille Batista Brelaz

Clenya Ruth Alves Vasconcelos

Compreender o que a universidade representa para alunos indígenas em um país diverso e


marcado pela exclusão social como o Brasil, aponta multifacetados desafios a se superar. As

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Caderno de Resumos do 3 o Congresso Internacional Povos Indígenas da América Latina (CIPIAL)
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Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

instituições de ensino superior aglutinam possiblidades de formação e expansão de


conhecimento, articulando o ensino, pesquisa, e extensão, e oferece oportunidades de incluir
parcelas da população historicamente alijadas desse espaço de formação e construção de
conhecimento. Após muitas mudanças no cenário político e social, com a finalidade de corrigir
paliativamente desigualdades raciais presentes na sociedade há muitos anos, foram criadas
políticas setoriais de ações afirmativas para índios e negros. Nas universidades, começou-se a
pensar condições de acesso a indígenas e negros, considerando outros critérios diferentes dos
já existentes como por exemplo, egressos de escola pública ou carência social (LOBATO;
BENEDETT). Partindo desses pressupostos, constitui- se como objetivo dessa pesquisa, avaliar
como esse processo tem ocorrido na universidade no município de Óbidos-Pará tendo em
vista a política institucional de ações afirmativas implementadas recentemente no campus, e
qual a concepção dos alunos indígenas sobre o ensino superior. Com relação ao aspecto
metodológico, trata- se de uma pesquisa de natureza qualitativa precedida por uma pesquisa
bibliográfica. Utilizou- se como instrumento de coleta de dados entrevista semiestruturada,
realizada com acadêmicos da Universidade Federal do Oeste do Pará- UFOPA. Os estudantes
entrevistados são indígenas pertencentes as etnias Wai-wai e Munduruku, ingressos no curso
de licenciatura em pedagogia (2018). As comunidades estão situadas em regiões diferentes,
no estado do Pará, a população Munduruku concentra-se majoritariamente na Terra Indígena
de mesmo nome, já as comunidades Wai- wai encontram-se dispersas em extensas regiões
das Guianas e na região norte do Brasil. O resultado dos dados obtidos aponta que para os
estudantes indígenas a Universidade representa melhoria de vida, novas oportunidades, e o
objetivo que eles possuem em comum é o de buscar a formação para retornar as suas aldeias
e levar o conhecimento adquirido através do curso. A presença de estudantes indígenas no
ensino superior vem crescendo na universidade, e apesar dos avanços e muitas conquistas,
ainda é preciso dispor de estratégias para garantir a permanência, pois os desafios se tornam
mais complexo após o ingresso. Dentre os desafios apontados pelos sujeitos entrevistados
encontram- se: o choque cultural, a dificuldade de se adaptar, dificuldades linguísticas que
afetam principalmente a comunicação entre estudantes e professores, o que segundo eles
afeta a compreensão e o desempenho acadêmico.

La infancia que trabaja: reflexiones en torno a la escolarización de niñas y


niños P’urhepecha

Ana María Méndez Puga

Irma Leticia Castro Valdovinos

Maria de Lourdes Vargas Garduño

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Caderno de Resumos do 3 o Congresso Internacional Povos Indígenas da América Latina (CIPIAL)
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Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

Nelva Denise Flores Manzano

En los campos agrícolas de Michoacán, en México, grupos de niñas y niños acuden a apoyar a
sus padres en el corte de chile, principalmente. Trabajan jornadas similares a las de un adulto,
ya sea en la cosecha o en cuidando a sus hermanos menores. Esto propicia abandono de la
escuela, no obstante, varios de estos niños y niñas han logrado concluir estudios de
bachillerato (desde 2007 en que inició un proceso de escolarización apoyado por profesores
p’urhepecha). Son familias pobres, originarias de varios estados de México y de varios
municipios del estado de Michoacán, la mayoría de ellos pertenecientes a grupos originarios,
sin acceso a servicios de salud y con escasa escolarización. Méndez Puga, Castro y Vargas
Garduño (2018) han documentado las características de la población y las condiciones en que
niñas y niños se ven a si mismos en ese proceso de ser migrantes. Las niñas y niños participan
en dos o más escuelas durante el ciclo escolar, ya que se inscriben en su comunidad y luego
viajan a los campos agrícolas donde deberían acudir también a la escuela, sin embargo, no
todos lo hacen y quienes sí se inscriben, participan solo de algunas actividades. En 2018,
durante tres meses, se trabajó con las niñas y niños enfatizando la lectura y la escritura y la
revalorización de los aprendizajes escolares, derivada de esa experiencia es que se generaron
una serie de reflexiones, que permitirán replantear algunos elementos de la escolarización.
La formación de docentes: un elemento esencial del proceso es contar con docentes modelos
de lector y escritor, que lean para y con las niñas y niños; que les inviten a leer la diversidad
textual que está presente en el aula. Rediseñar la propuesta educativa contemplando más
situaciones y elementos para la expresión simbólica, de tal suerte que niñas y niños tengan
espacios para exponer lo que les preocupa, lo que sienten y lo que necesitan, aprendiendo a
colaborar entre ellos. Fomentar el trabajo entre pares, de tal suerte que sea posible replantear
la manera en que se relacionan desde las diversas lenguas y culturas, aprendiendo a estar con
el otro, compartiendo algo de lo que cada uno sabe y haciendo posible la “territorialización”
de elementos de las diferentes culturas, para que se convivan en ese espacio “inter” y se
encuentren nuevos modos de habitarlo (Medina, 2009). Finalmente, un elemento esencial es
contribuir al reconocimiento de esa nueva reconfiguración identitaria que fortalece a los niños
y niñas y les brinda un espacio propio, lo que implica un trabajo con los padres y con la
comunidad en la que se insertan.

Por uma educação intercultural e comunitária: a experiência do Povo


Munduruku no Projeto Ibaorebu

André Raimundo Ferreira Ramos

200
Caderno de Resumos do 3 o Congresso Internacional Povos Indígenas da América Latina (CIPIAL)
ISBN: 978-65-86503-02-9
Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

Izabel Gobbi

Ademir Kabá Munduruku

Claudeth Saw Munduruku

O presente trabalho visa apresentar reflexões suscitadas pelo Projeto Ibaorebu de Formação
Integral do Povo Munduruku (Pará – PA/Brasil), uma experiência de formação diferenciada
em Magistério Intercultural, Técnicos em Enfermagem e em Agroecologia. Trata-se de um
processo pautado pela construção e valorização de conhecimentos voltados a uma formação
que dialoga com os significados de “ser homem” e de “ser mulher” Munduruku, mantendo
coerência com o eixo estruturante do Projeto: Cultura e Direitos do Povo Munduruku.
Realizado por meio da pedagogia da alternância, com etapas intensivas ("tempo escola") e
etapas de acompanhamento ("tempo comunidade"), o Projeto Ibaorebu se constituiu como
um espaço privilegiado para o exercício da interculturalidade, da autonomia e do
protagonismo dos Munduruku. A metodologia, centrada na pesquisa e na
transdisciplinaridade, propiciou o envolvimento de pessoas representativas das comunidades,
suas lideranças, sábios e sábias. Dos intensos debates e avaliações constantes, somados à
contribuição dos colaboradores não-indígenas, chegava-se à definição de temas para as
etapas de alternância do chamado “tempo escola”. Assim, assuntos como: os grandes projetos
de empreendimento e seus impactos; território e sustentabilidade; afirmação da identidade
e valorização da cultura; práticas de cuidado e cura; dentre outros, geraram conhecimentos e
práticas que passaram a se fazer presentes no cotidiano dos Munduruku. A complexidade da
proposta resulta da dinâmica com que ela foi apropriada e materializada pelos Munduruku.
Tal fato, mais do que as atividades de “aulas” propriamente ditas, foi o que viabilizou a
constituição de um projeto de educação próprio àquele povo. A partir dos conhecimentos
construídos nas três áreas de formação, o Ibaorebu integrou as questões relativas à saúde, à
educação e ao meio ambiente, sempre buscando soluções e estratégias para os desafios do
cotidiano, num contexto de intensas relações interétnicas, transpondo os limites impostos
pela escolarização e pela formação profissional.

Diálogos entre a educação e saberes indígenas: processos pedagógicos


étnicos da cultura Sateré-Mawé na perspectiva da relação intercultural

Thelma Lima da Cunha Ramos

201
Caderno de Resumos do 3 o Congresso Internacional Povos Indígenas da América Latina (CIPIAL)
ISBN: 978-65-86503-02-9
Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

O enfoque desta comunicação será a relação entre a educação e os saberes indígenas da


cultura Sateré-Mawé nos processos pedagógicos do espaço escolar não indígena numa
perspectiva da interculturalidade e do respeito às diferenças, como estratégia de romper com
a cultura hegemônica na escola. Tem como objetivo analisar o diálogo entre a educação e a
diversidade dos saberes indígenas, a partir da história e cultura do Povo Sateré-Mawé por
meio dos processos pedagógicos para um contexto cultural não indígena, de uma aldeia
Sateré-Mawé em Manaus para o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia,
Campus Salvador. A metodologia utilizada é a abordagem qualitativa, numa perspectiva da
pesquisa participante em que são desenvolvidas atividades educativas, sobre os aspectos
culturais específicos da cultura Sateré-Mawé baseadas na educação intercultural para
estudantes não indígenas do IFBA, Campus Salvador. Uso da pesquisa bibliográfica com a
finalidade de consultar as obras escritas por vários autores e em outras fontes indispensáveis
à elaboração da pesquisa. A reflexão tem a preocupação de problematizar os estudos
relacionados às culturas dos Povos Indígenas no espaço escolar, contrapondo a imagem
generalizada do indígena articulada nos processos pedagógicos. Assim, propõe o estudo a
partir da história e cultura do Povo Sateré-Mawé que são os inventores da cultura do guaraná
isto é, foram eles que transformaram uma trepadeira silvestre em arbusto cultivado. Estão
aproximadamente há 344 anos em contato interétnico em suas relações com a sociedade
ocidental (TEIXEIRA, 2005). Desta forma, consideramos os saberes indígenas para construção
dos processos pedagógicos no espaço escolar não- indígena baseado nos princípios da
educação intercultural.

Saberes tradicionais e técnicas de desenhos no processo de elaboração de


material didático indígena

Altaci Corrêa Rubim

Célia Cristina Rossi

O homem entende, apreende e constrói o mundo sob a ótica de sua cultura, assim como, vai
ao encontro das exigências de uma sociedade marcada por diferentes trocas interculturais. O
presente estudo visa apresentar o resultado do projeto sobre ensino e aprendizagem de
técnicas de desenho para professores indígenas dos Centros de Educação Escolar Indígena-
CEEIs de Manaus-AM/BRASIL, por meio de oficinas de desenho para elaboração de material
didático pedagógico indígena. Os CEEIs são espaços em que professores indígenas ensinam
202
Caderno de Resumos do 3 o Congresso Internacional Povos Indígenas da América Latina (CIPIAL)
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Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

língua e cultura indígena nas periferias da capital do Estado do Amazonas. Trata-se de uma
pesquisa qualitativa, de base etnográfica. Foram levantados dados, por meio de entrevistas
abertas, livres não direcionadas sobre o ensino e aprendizagem durante a oficina. Nesse
sentido, o resultado obtido contribuiu para dar subsídios à maneira de desenhar dos
professores indígenas, tanto com elementos extraídos da natureza como os elementos
produzidos pela cultura ocidental.

Avaliação de habilidades sociais com estudantes indígenas em uma


universidade pública

Janderson Mendes Monteiro

Beatriz Galúcio dos Santos

Tatiana Franco Florenzano

Esta pesquisa investiga o repertório de habilidades sociais de universitários indígenas do


ensino público. Devido a sua aplicação em diferentes contextos e ao impacto que um déficit
em habilidades sociais pode gerar na saúde, qualidade de vida, realização profissional e
satisfação pessoal, o estudo sobre essa temática se faz cada vez mais necessário, visto que
pessoas socialmente competentes estão mais satisfeitas e sentem-se mais realizadas e
saudáveis. Participaram da pesquisa 2 discentes indígenas do primeiro semestre do curso de
pedagogia da Universidade Federal do Oeste do Pará – Ufopa, campus regional de Óbidos,
que foram submetidos à aplicação do inventário (IHS-Del-Prette, 2014), conduzida em uma
sessão, com duração de duas horas. Os dados foram analisados de forma correlacional e
revelaram que os dois participantes da pesquisa, apresentam o mesmo percentil no escore
total, mostrando-se abaixo da média. Considerando-se que os universitários fazem parte de
um segmento da população da qual tem sido cada vez mais exigida a competência nas relações
interpessoais, salienta-se que essas informações influenciam significativamente no
desempenho dos discentes. As habilidades sociais sugerem características da cultura que são
necessárias na avaliação e no planejamento de intervenções para o treinamento dessas
habilidades, assim como determinantes para o desempenho social e acadêmico. Os resultados
obtidos no inventário, indicam aquisições importantes, que corroboram para a necessidade
de treinamento em habilidades sociais, devido à um repertório deficitário dos entrevistados.

Diálogo intercultural: organização escolar indígena e não indígena


203
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Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

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Evanir Gomes dos Santos

Este estudo investigou a organização escolar indígena e não indígena à luz da legislação
voltada à educação indígena, nos últimos trinta anos desde a promulgação da Constituição
Federal de 1988. A pesquisa se motivou pelo reconhecimento da necessidade do diálogo
intercultural crítico na prática didática em que o conhecimento tradicional indígena e o
universal - o mais aceito, socialmente - sirva de ferramenta pedagógica. O aporte teórico ao
tema se sustentou em autores como Geertz (2008), Boas (2005), Aguilera Urquiza (2010; 2017)
Candau (2016), Sacristán e Gómez (1998). A análise transcursou, a um só tempo, através dos
Projetos Políticos Pedagógicos de duas escolas estaduais: uma indígena e outra não indígena,
ambas se localizam na cidade Dourados, MS. Desse modo, a pesquisa se caracteriza
exploratória, do ponto de vista de seu objetivo, bibliográfica e documental, por seus
procedimentos. Os achados esboçam perspectivas e incongruências referentes ao
conhecimento tradicional e universal, no cotidiano escolar, sobretudo da parte pedagógica,
nomeadamente da parte dos professores em relação à temática. A realidade que se apresenta
é a de alunos indígenas sem acesso à escola, o que perpetua a alteridade, a desigualdade, a
iniquidade pela fragmentação social e, por conseguinte, subjugações cujo efeito gera a
exclusão étnica. Espera-se, com o resultado delineado pela análise, contribuir para a reflexão
sobre a necessidade de comunicação entre os dois universos culturais da formação de
professores à correção das insuficiências nas práticas pedagógicas.

Jovens e adultos indígenas na escola da cidade: um estudo na turma do


Primeiro Segmento da Educação de Jovens e Adultos (EJA), em Benjamin
Constant, Amazonas

Joarilson Ramos da Silva

Jarliane da Silva Ferreira

Ismael da Silva Negreiros

Este estudo apresenta os desafios, dificuldades e preconceitos enfrentados por jovens e


adultos ambos estudantes indígenas de diferentes etnias como: Tikuna, Kokama, Mayoruna e
Kanamary. As pesquisas de campo ocorreram através de observações e utilizando-se do
204
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Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

método etnográfico de descrever os acontecimentos que envolverá o espaço escolar, foram


realizadas no ano de 2018, em Escola Municipal da área urbana do município de Benjamin
Constant, Amazonas, com uma turma do primeiro segmento da Educação de Jovens e Adultos
(EJA). Os objetivos desta reflexão estão pautados em analisar os desafios enfrentados pelos
jovens e adultos indígenas que estudam na cidade, observando as relações que são
estabelecidas entre os alunos não indígenas e os professores para com os indígenas no
ambiente escolar da sala de aula, possibilitando ainda identificar quais são as metodologias
que os professores adotam para valorizar a cultura indígena e transmitir os saberes não
indígenas para os estudantes indígenas. Quando nos referimos a educação indígena estamos
falando em processos próprios de educar e transmitir saberes em coletivo, em muitos casos,
diferente dos modelos ocidentais que foram incorporados nas escolas amazônicas e
brasileiras, tornando uma educação colonizadora que não respeita as diferenças e que não
promove a interculturalidade dos saberes entre seus alunados (GERSEM, 2006), entendemos
que os processos educacionais que envolvem a socialização de diferentes culturas promovem
aos seus indivíduos um sistema de aprendizagem amplo e de reciprocidade, regulado na
reprodução de novos conhecimentos e vivências. Os indígenas por outro lado possuem os
mesmos direitos de estarem nas escolas da cidade e nas de suas comunidades, os marcos
legais garantem essa condição. Desse modo a escola da cidade deverá propor metodologias
que venham de encontro com os saberes indígenas e no respeito pelas diferenças culturais,
sociais, étnicas e promovendo a diversidade.

O protagonismo dos Mbya Guarani professores nas escolas indígenas do


território do litoral norte do Rio Grande do Sul

Josieli e Silva

Simone Valdete dos Santos

Nesta comunicação apresentamos alguns elementos que apontam o protagonismo dos Mbya
Guarani professores na construção das escolas indígenas do território do litoral norte do Rio
Grande do Sul. Dados que compõem parte da dissertação do Mestrado Acadêmico, com
defesa prevista para o corrente ano. Os Mbya Guarani, etnia presente em regiões do território
paraguaio, boliviano, argentino e brasileiro, aqui no Brasil principalmente nos estados de São
Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, fazem parte do grupo Tupi-
Grarani e se dividem em 03 subgrupos distintos, os Mbya, Kaiowá e Nãndeva, segundo
classificações linguísticas. A pesquisa está baseada na observação participativa, vivências nas
Aldeias e notas de campo, enquanto assessoria pedagógica e pesquisadora, principalmente
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nos encontros de Formação Continuada entre os indígenas professores (as), da 11a


Coordenadoria Regional de Educação. Regional da Secretaria de Educação do Estado,
composta por 25 municípios, dentre esses 07 com escolas indígenas e 09 professores(as). O
trabalho tem como objetivo apontar os movimentos político- pedagógicos realizados pelos
Mbya Guarani professores, nos encontros de Formação Continuada como protagonistas na
Educação Escolar Indígena em suas Aldeias. Os encontros aqui mencionados aconteceram no
período de 2016 a 2017, por demanda dos (as) professores (as), visto que são contratos (as),
sem formação escolar. No intuito de pensar a construção de suas escolas, muitas vezes no
sentido literal da palavra. Esse movimento se dá com a participação da comunidade, num
grande círculo de conversas e aconselhamentos dos sábios da cultura e das lideranças. É
importante ressaltar o papel dos indígenas professores (as) na interlocução entre a
comunidade e o Estado, fortalecendo a educação tradicional, estando à educação escolar
integrada a esta cosmologia. Para tanto, a formação inicial e continuada específica para esses
profissionais necessita ser o espaço de construção de políticas públicas em educação; os (as)
professores (as) indígenas são os principais agentes para a construção dessas políticas, para
uma educação escolar de qualidade, conforme as necessidades de cada comunidade e de
acordo com o seu modo de ser indígena e suas pedagogias próprias; é necessário proporcionar
esses momentos com recursos financeiros públicos e autonomia indígena, para que esses
possam definir a melhor forma de realização, quanto aos métodos, aos locais, aos temas
abordados, à dinâmica do tempo e à escolha de convidados ou não. Enfim, trabalhar e
pesquisar a Educação Escolar Indígena exige uma imersão nas Aldeias e aproximação à
cosmologia, uma “escuta sensível”, além de bom senso na escolha de metodologias
diferenciadas e específica que permitam essa dinâmica.

Repensando tendências educacionais: a produção de material educativo


indígena e a construção de atribuição de sentidos

Lucilene Julia da Silva

Jovina Mafra dos Santos

A produção de materiais educativos como uma proposta da área de concentração da Ciência


da Natureza, Licenciatura Intercultural, do Instituo Insikiran, da Universidade de Roraima têm
se destacado como resultado das pesquisas dos trabalhos de Conclusão de Curso. Objetiva-se
apresentarmos reflexões contra hegemônicas que explicam a produção de materiais
educativos que pretendem superar fronteiras simbólica e mobilizar o trânsito do
conhecimento, nesse sentido, mostrar os processos que esses materiais são produzidos, assim
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como, considerarmos as complexidades para tal produção de conhecimentos que toma como
referência a compreensão de mundo de cada povo implicado nessa produção, por tal motivo
consideramos que esses materiais são educativos pois consideramos que o aprendizado que
dele advêm é educar para a vida, pressupomos que esses desdobramentos alicerçam o
processo de ensino e aprendizagem. Para tanto, usamos aportes de autores; Bertely (2012),
Meneses e Sousa-Santos (2010), Mignolo (2010), Maldonado Torres (2007), Tassinari (2001) e
Walsh (2009) e a abordagem metodológica qualitativa embasada em Bogdan & Biklen (2010)
para caracterizar que caracteriza um contato mais duradouro e frequente com as situações e
ambiente; a pesquisa de cunho descritivo e exploratório, uma vez que oferece a possibilidade
de proximidade do cotidiano com as experiências vividas pelos próprios sujeitos (MINAYO,
1993), e outras combinações que ajudem a explicar e analisar as experiências em tela.
Também é significativo problematizar como enquadramento metodológico a importância da
pesquisa colaborativa que corresponde a uma necessidade de participação fundamental que
articulada o auxílio de professores, estudantes e de expertos em temáticas específicas que
tratam cada material educativo. Com isso, evidenciar aprendizados que geram atribuição de
sentido e explicitação de elementos da cultura dos contextos sócios histórico-culturais
situados. Esse é um trabalho que se encontra em processo de construção e que evidencia
alguns resultados positivos.

Educação, cultura e aprendizagem: contributos para a construção da


etnopsicología matshiguenga de Mazokiato, Cuzco, Perú

Cástor Saldaña Sousa

Deny Kennedy Borda Pérez

A pesquisa apresentada foi realizada ao longo do ano de 2018 na comunidade nativa de


Mazokiato. A comunidade nativa de Mazokiato pertence ao grupo étnico matshiguenga,
localizado na cumeada da região geográfica da selva, a 1330 metros acima do nível do mar,
no distrito de Villa Kintiarina, da província de Convención, Cusco, Perú. A pesquisa enquadra-
se na psicología cultural, tentando explorar o comportamento humano, crenças, valores,
representações mentais, artefatos culturais, práticas sociais e educacionais com dimensão
cultural. Nesta primeira fase da pesquisa, abordamos o ciclo de vida da infância matshiguenga,
apresentando a classificação étnica da infância, a descrição de cada tarefa e a sua
interpretação correspondente. Investigar o estádio da infância matshiguenga em Mazokiato
é esquadrinhar nos procesos de aprendizagem, desenvolvimento humano, ritos de passagem,
costumes acerca do processo de educação e sobreposição entre a educação não-formal de
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caráter etno-cultural e educação formal ocidentalizada. Além desses fatores, devemos de ter
em conta a mudança cultural que poderá ter gerado na comunidade nativa de Mazokiato a
influência dos modos de vida das sociedades modernas e o impacto da globalização. A
metodologia utilizada é o método etnográfico baseado na convivência direta com os nativos,
a observação participante, as entrevistas em profundidade e o trabalho de campo do día a día.
Com base na apresentação de pesquisa etnográfica, aspira-se a construir a etnopsicologia da
criança matshiguenga da Comunidade nativa de Mazokiato e a análise da sobreposição dos
dois modelos educativos encontrados: a educação informal baseada no paradigma da cultura
local matshiguenga e a ocidentalizada educação formal, com base em moldes de
homogeneização de conhecimento universal. Da mesma forma, analisam-se os dados,
contrastando e gerando um discurso em relação a diferentes autores, conceitos e abordagens
teóricas como a psicologia cultural de Michel Cole e a aprendizagem sociocultural de Vygotsky,
entre outros.

Formación inicial docente en La Araucanía: desafíos para su pertinencia social


y cultural en contexto indígena

Gerardo Muñoz Troncoso

Ekaterina Legaz

Flavio Muñoz

La ponencia expone los resultados preliminares del proyecto de investigación “Formación


inicial docente en La Araucanía: desafíos para su pertinencia social y cultural en contexto
indígena”. El problema de investigación es la desarticulación entre la Formación Inicial
Docente (FID) y la realidad sociocultural, territorial y escolar en contexto mapuche en La
Araucanía, como limitante en la implementación de la educación intercultural en el sistema
educativo. Se sostiene que la FID, el sistema escolar y la escolarización desarrollada en
contexto mapuche son coloniales y monoculturales eurocéntricas, reproduciendo en ellas el
racismo, la discriminación y los procesos de dominación del mapuche por parte de la sociedad
nacional. Aquí, el profesor cumple un rol central, al ser el ejecutor de una política educativa
descontextualizada que se traduce en el fracaso en la construcción de conocimientos
escolares. Por lo anterior, la presente investigación se propone como objeto de estudio la FID,
para explorar la posibilidad de incluir la perspectiva intercultural de manera transversal en la
formación del profesorado en contexto mapuche, como sustento al desarrollo de una
perspectiva de interculturalidad para todos. Lo nuevo que aportará la investigación es una
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base de conocimientos teóricos, empíricos y metodológicos que sustenten la transformación


de la FID en perspectiva intercultural en contexto mapuche y que propicie abandonar
progresivamente su colonialidad y monoculturalidad eurocéntrica. El objetivo es develar
componentes de colonialidad, monoculturalidad eurocéntrica y racismo que están a la base
de la desarticulación entre la FID en Educación Parvularia y la particularidad del contexto
mapuche, desde la narrativa de estudiantes en formación. La metodología del estudio
propuesto es la investigación educativa, la cual tiene por objeto la búsqueda sistemática de
nuevos conocimientos como base para la comprensión de los procesos educativos, por medio
de la aplicación del método científico. El contexto de estudio son los programas de FID de la
Universidad Católica. En el estudio se aplicará un muestreo intencionado que permitió
seleccionar 7 estudiantes de último año de Educación Parvularia que realizan sus prácticas
profesionales en escuelas o jardines infantiles insertos en contexto de comunidades
mapuches. Los instrumentos de recolección de información fueron la entrevista
semiestructurada y la autoetnografía. Las técnicas y procedimientos de análisis fueron la
teoría fundamentada en los niveles de codificación abierta y axial. Los resultados preliminares
permiten observar: 1) la enseñanza de una interculturalidad centrada en el desarrollo teórico
y desde un enfoque funcionalista en la FID; 2) el desconocimiento de contenidos educativos
mapuches por parte de las estudiantes; 3) el desconocimiento de modelos de intervención
educativa intercultural y estrategias de gestión curricular intercultural; 4) la permanencia de
prácticas monoculturales eurocéntricas y coloniales en el medio escolar; y 5) la necesidad de
avanzar hacia un modelo educativo intercultural crítico y decolonial en contexto mapuche.

ST 10 | Direito de ser e existir: relatos de resistência dos povos indígenas no


Brasil

Luiz Felipe Barboza Lacerda (Universidade Católica de Pernambuco e Observatório Nacional de Justiça
Socioambiental – OLMA, Brasil); Johny Giffoni (Defensoria Pública do Pará, Brasil); Aurilene da Silva
(Centro Alternativo de Cultura do Pará – CAC-PA, Brasil).

Através do relato de lutas e resistências de populações indígenas Maruanas, Kambebas e


Assurini o simpósio busca apontar e debater os desafios enfrentados pelas populações
indígenas na garantia de seus direitos frente aos processos de reconhecimento étnico,
regularização de terras tradicionais e consulta prévia, no tocante a relação com o estado
brasileiro. Os relatos demostram como, através das organizações indígenas, da representação
política, mas também da arte, da música e da poesia, desenvolvem-se estratégias de
enfrentamento e superação destas históricas problemáticas. Ampliando a interlocução e a
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possibilidade de compreender tais desafios e alternativas a partir de uma perspectiva ampla


e interdisciplinar, contaremos com análises colaborativas aos relatos indígenas dentro das
perspectivas do direito, da psicologia, do serviço social e das ciências sociais.

Festa da Carnaúba: valorização da cultura indígena em Caucaia-CE

Milena de Lima de Andrade

Esta apresentação faz parte do meu trabalho de conclusão do curso de Bacharelado em


Humanidades da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira
(UNILAB), intitulado “Festa da Carnaúba: Valorização da Cultura Indígena em Caucaia-CE”.
Este trabalho surgiu inicialmente a partir do contato tido a com a Festa da Carnaúba, que
despertou meu interesse pela grandiosidade e visibilidade do evento, e em seguida com o
contato teórico acerca da questão indígena através de disciplinas cursadas ao longo do curso.
A elaboração deste trabalho tem como objetivo analisar os possíveis significados dessa festa,
quais os atores envolvidos, assim como contextualizá-la em um cenário mais amplo de
necessidade de afirmação da identidade e luta por direitos, principalmente o direito à terra,
em meio a conflitos de interesses de grupos a ela ligados. Os Tapeba são um grupo indígena
que habitam na região de Caucaia, região metropolitana de Fortaleza - CE. A questão indígena
é um tema cada vez mais recorrente no cenário nacional marcado pela mobilização de
diversos povos indígenas na luta pela efetivação dos direitos já garantidos em lei. Dentre esses
direitos, a demarcação e titulação da terra são os mais fundamentais e, ao mesmo tempo os
mais polêmicos. Com isso, intensificam-se os debates acerca da identidade e dos conflitos de
interesses antagônicos. De um lado, temos os povos indígenas reivindicando a posse da terra,
e de outro, os interesses de grupos econômicos envolvidos. Assim, sendo, a afirmação da
identidade se torna a principal ferramenta nessa luta pelos direitos, como está previsto na
constituição. Os povos Tapeba se inserem nesse contexto e vivenciam essa mesma
problemática. No caso, a luta pela titulação da terra tem esbarrado nos conflitos com os
posseiros, o que tem dificultado essa efetivação. Como forma de afirmação da identidade, e
preservação cultural, os Tapeba realizam anualmente a Festa da Carnaúba, que é um
momento de realização de práticas culturais e exibição de sua cultura como um todo. O
objetivo deste trabalho é analisar alguns significados dessa festa, quais são os atores
envolvidos assim como os interesses presentes nessa manifestação cultural. Desse modo, o
trabalho divide-se em dois capítulos, sendo o primeiro destinado a conceituação e análise da
cultura e identidade. E o segundo é dedicado à caracterização da comunidade indígena Tapeba

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de Caucaia e da Festa da Carnaúba. Para isso, a metodologia adotada perpassou a revisão


bibliográfica e o método etnográfico, com conversas realizadas com as lideranças e moradores
da comunidade indígena Tapeba durante dois eventos, a Festa de 2013 e a Festa de 2014. A
globalização, no sentido exposto por Giddens (1990), implica em um novo desafio para as
populações e povos tradicionais, isto porque, a cultura é algo vivo e em constante mudança e
adaptação assim como as identidades, com isso, o contato cada vez mais intensificado com
outros povos e culturas tendem a influenciar e a transformar as próprias culturas envolvidas
no processo. Portanto, manter viva as tradições e práticas culturais torna-se um modo de
resistir à tendência homogeneizante, cada vez mais presente em um contexto de capitalismo
global. Não diferentemente de outros povos indígenas, a comunidade indígena Tapeba
enfrenta essas mesmas problemáticas e dificuldades no sentido de manter seus costumes,
repassá-los às gerações presentes e ao mesmo tempo afirmar a sua identidade, e assim lutar
por seus direitos previstos na constituição. Com isso, a comunidade realiza anualmente a Festa
da Carnaúba, um momento em que se exercem diversas práticas culturais e se apresenta um
pouco da cultura Tapeba, com seus artesanatos, danças, seus modos de ser e vestir, práticas
da medicina tradicional, rituais sagrados, mas, sobretudo, essa festa implica na visibilidade
dos povos Tapeba diante da comunidade, como forma de afirmação da identidade, que é um
processo de mão dupla, em que não apenas me autoafirmo indígena, mas sou reconhecido
como tal pela comunidade no geral. Essa questão da identidade é crucial, já que, os indígenas
são, muitas vezes, representados através de estereótipos, como a figura que anda sem roupa
ou com “vestimentas tradicionais”, que usa diversos acessórios, que vive dentro do mato, sem
acesso a tecnologia, que vive em ocas, enfim, um ser primitivo. Isso faz com que tudo que fuja
a esse estereótipo não seja caracterizado como indígena, e, portanto, como possuidor de
direitos. Logo, para afirmar suas identidades, os Tapeba recorrem a práticas que representem
essa figura da qual como foi construída. É o exemplo da Festa da Carnaúba, em que os
indígenas se vestem dessa forma “tradicional”. Ao longo do trabalho, pude identificar diversos
interesses envolvidos nessa manifestação cultural, dentre eles, o já citado interesse em
valorizar, preservar e repassar as práticas culturais Tapeba. Mas também foi possível
identificar, seja nas falas das lideranças seja nas faixas ao longo do espaço em questão, o papel
importante desta festa na luta pela demarcação da terra, já que existem há bastante tempo
conflitos entre o povo Tapeba e posseiros locais por essa terra, o que tem dificultado o
processo de demarcação e titulação. Portanto, conclui-se que além de uma forma de
expressão cultural, a festa da Carnaúba, realizada pelos povos Tapeba é também uma forma
de resistência e luta política e social na garantia de seus direitos, e na afirmação de sua
identidade.

Paraíba Tabajara: processo de luta e resistência de um povo

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Glício Freire de Andrade Júnior

Lusival Antônio Barcellos

A representação do índio como ‘o outro’, ‘selvagem’, ‘exótico’ foi o meio retórico utilizado
para que ocorressem as mais grotescas formas de domínio, escravidão e extermínio em nossa
história com relação a esses povos. Sem dúvida, aspectos de sua cultura como costumes,
língua, culinária, crença, deixaram aí de ser reconhecidos. Pode-se afirmar inclusive, que no
decorrer desse tempo, colonizadores e muitos outros tentaram silenciar os povos indígenas,
negando-lhes sua história, suas práticas. Esse olhar acerca da cultura indígena continuou
existindo e ainda está presente na sociedade, principalmente através de manifestações de
preconceitos e discriminação. Em especial, aqui, analisaremos a situação dos povos Tabajara,
da Paraíba. Veremos que os indígenas Tabajara, na busca pela preservação de seus territórios
e traços étnicos, continuam enfrentando muitos conflitos. Um desses conflitos está no campo
da religiosidade. Neste sentido, busca-se perceber se a relação dos Tabajaras com a fé cristã
professada pelas igrejas pentecostais intervém na manutenção dos sinais diacríticos de sua
indianidade.

“Terra demarcada, vida garantida”: os desafios enfrentados pelo povo


indígena Tapeba no Ceará em seu processo de demarcação territorial

Thaynara Andressa Frota Araripe

Raquel Coelho de Freitas

Adrian Esteban Narváez Moncayo

Zayda Torres Lustosa Coelho

Dos 25 territórios indígenas existentes no Ceará, 24 continuam com seu processo de


demarcação territorial em análise. A mais antiga terra em processo de demarcação no Estado
é a do povo indígena Tapeba em Caucaia que já passou por três estudos de delimitação e
identificação pela Fundação Nacional do Índio. Os três relatórios foram questionados
judicialmente. As duas primeiras tentativas de demarcação foram anuladas pelo Superior
Tribunal de Justiça com o fundamento da não participação do município de Caucaia na
primeira fase do processo. Importa mencionar que, nessa fase inicial, a participação do ente

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federado, segundo o Decreto no. 1775/1996, não é uma exigência legal expressa. O processo
de demarcação atual teve relatório circunstanciado entregue à FUNAI e ao Ministério da
Justiça em 2013. A portaria de declaração dos limites da terra estava pendente desde 2016.
Em 04 de setembro 2017, foi publicada no Diário Oficial da União pelo ministro da Justiça e
Segurança Pública portaria declaratória da terra indígena Tapeba. O objetivo do trabalho,
portanto, é a análise dos três processos de demarcação dos Tapebas até a fase atual,
observando o modo como o Judiciário decide conflitos envolvendo direitos indígenas. Para
isso, será feita uma análise jurisprudencial associada a uma análise legislativa dos
instrumentos legais indigenistas no Brasil. Adiante, será realizada a análise bibliográfica de
obras nacionais e estrangeiras acerca dos conceitos que envolvem o tema como Território,
Auto- afirmação e a Hermenêutica diatópica, focando em suas repercussões jurídicas, por
meio da leitura de livros, revistas e publicações periódicas atinentes ao campo do Direito.
Conclui-se que enquanto os povos indígenas, de um lado, na luta por reconhecimento de suas
especificidades culturais, pressionam o Judiciário a construir uma nova concepção de justiça
que inclua identidades diferenciadas, de outro, os proprietários privados e até o próprio
Estado insistem em manter o modelo conservador de interpretação baseado no paradigma da
inferioridade. Vê-se, então, que o colonialismo, além de anos de exploração e silenciamento,
também deixa um legado epistemológico do eurocentrismo que segue a produzir e a
reproduzir definições jurídicas que subalternizam os povos indígenas.

“Quem somos nós, com flechas, para confrontar armas de fogo?”: uma
abordagem da perspectiva da etnogênese antropológica na efetivação do
direito do povo Gamela no estado do Maranhão

Glauce Cristina Viana Barbosa

O sistema social dos povos indígenas sofreu transformações em virtude da incidência de


institutos estranhos a eles dentro do seu espaço. Essas modificações foram ocorrendo de
maneira aparentemente sutil, porém, de forma muito pontual e com forte influência dentro
das sociedades indígenas afetando a religião, a concepção de trabalho e as relações sociais. O
processo de aculturação dos povos indígenas teve início no cerne de todo o sistema social,
que consiste na forma como o indígena administra a religião. Isso fez toda a diferença, pois a
partir do momento em que se mudava a ideia de religião dos colonizados todos os outros
setores da vida deles também eram afetados, já que a religião servia como base para a vida.
As aldeias indígenas, principalmente do Nordeste brasileiro, foram destruídas para que
ocorresse o processo de civilização contemporânea, consistindo em um processo de
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catequização e alfabetização. Os documentos gerados pelos governantes e missionários,


passaram a alegar que não havia mais índios nas aldeias. Esse acontecimento é em virtude do
processo de aculturação que foi perpassado ao longo do século XVI até o século XIX. Um dos
últimos pontos do processo de aculturação deste período foi a publicação da Lei de Terras em
1850, na qual os Gamelas perderam o único registro que lhe davam o direito de continuar nas
suas próprias terras, vivendo em sociedade e cultuando o que restavam de sua identidade.
Foram obrigados a se dissiparam para outras regiões do Maranhão de forma individualizada.
Atualmente os Gamelas estão se redescobrindo nos seus territórios que possuíam por direito
passando por um processo de redefinição do controle social sobre os recursos ambientais,
reelaboração da cultura e da relação com o passado. Diante disso, entra a analisa da
perspectiva da Etnogênese antropológica como um fundamento do resguardo as garantias e
do Povo Gamela no Estado do Maranhão, com o intuito de legitimar a identidade do povo
Gamela e consequentemente a aplicabilidade dos direitos que lhe são inerentes. A partir
disso, os pontos a serem debatidos de forma secundária ao longo do trabalho, envolve
pontuar o reflexo da aculturação dos povos indígenas brasileiros dentro da perspectiva
Etnogênese antropológica, trabalhando assim o processo aculturativo e a identidade dos
povos indígenas. Sendo necessário expor de forma construtiva quais são as garantias e direitos
dos povos indígenas nas legislações brasileiras e internacionais, para em seguida examinar
quais as repercussões jurídicas e sociais decorrentes da redefinição de identidade do povo
Gamela, detalhando a história do povo e mostrando a aplicabilidade da teoria Etnogênese
dentro da comunidade para efetivar os direitos. Esta é uma pesquisa que possui com uma
abordagem de triangulação de coleta de dados, com método exploratório e análise descritiva.
Com a motivação de que exista uma aplicabilidade dos direitos indígenas, tanto na esfera do
judiciário, quanto na esfera social da baixada maranhense. Além de que, a sociedade deve
possuir consciência do que está acontecendo com os povos marginalizados, pois não se trata
tão somente de uma luta de identidade, mas também de uma luta de minorias.

Sumaúma: raízes afro-indígenas do Brasil e educação para as relações étnico-


racial

Yashodhan CoMPaz
Yamoro CoMPaz
Yashodhara CoMPaz
Ayian CoMPaz
Odara do Black
Iasmim Alabe
Shati CoMPaz
Oranyiam CoMPaz
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As relações de luta e resistência dos povos indígenas e kilombolas é histórico no Brasil e no


mundo. Sumaúma, é uma árvore desde o tempo da pangeia presente nos dois continentes a
América Latina e África. Ao longo da história os sobreviventes dos dois povos continuam
(re)existindo e lutando por dignidade, reconhecimento de seus conhecimentos e culturas, de
sua espiritualidade. A proposta deste artigo é apresentar os caminhos percorridos por espaços
em que (re)existência e (re)exisistir constituem um jeito de ser e viver. O presente texto será
dividido em três momentos. No primeiro momento será apresentado registro da memória que
vem sendo reconstruída desde os tempos de Zumbi e Tupac Amarú, dois líderes que na
memória dos povos que sobreviveram ao massacre de seus ancestrais, por mais que
tentassem apagar a luta resiste e inspira. O segundo momento do texto é apresentado as
trilhas que conectam as lutas, que embora geograficamente distantes territorialmente, são
próximas nas demandas e reinvindicações pelo direito de existir com dignidade e respeito,
desde o Pará, no Norte, aos pampas do Rio Grande do Sul, Brasil. O terceiro e último momento
do texto apresenta uma breve síntese do encontro que ocorre já a quatro anos OKAN ILU:
tambor do coração que reúne indígenas e Kilombolas num grande círculo – ìpádè – na busca
de um diálogo que aponte estratégias de sobrevivência no mundo contemporâneo.

O que é ser indígena na universidade: como a comunidade acadêmica pode


contribuir para a inclusão desses povos?

Larissa Brenda Cordeiro de Souza

Esse simpósio tem por objetivo abordar e dar visibilidade a questão indígena, ações na
universidade, como foi o ingresso desses povos e as políticas que os amparam, relacionando
com o trabalho do assistente social com esses indivíduos. Mostrando também a importância
de um centro de convivência para essa população, a fim de não eliminar sua cultura e
tradições e melhorar seu desempenho acadêmico a partir de uma análise de realidade
concreta para um acompanhamento de qualidade possibilitando inclusão entre o estudante e
a vida acadêmica. O trabalho foi escrito em uma perspectiva do Serviço Social enquanto
estagiária do Centro de Convivência Multicultural dos Povos Indígenas da UnB em relação a
garantia dos direitos de assistência estudantil e também visibilidade da interculturalidade dos
povos indígenas. O simpósio visa problematizar a questão indígena dentro do Serviço Social,
as políticas de assistência estudantil para estudantes oriundos das comunidades indígenas e
também as influências da interculturalidade no espaço acadêmico. Por ser um tema
relativamente novo, a produção nessa área ainda é pouco, principalmente quando fazemos
recorte de assistência estudantil indígena. Esse trabalho se trata do estágio supervisionado

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em Serviço Social sendo supervisionado em campo pela assistente social Claudia Regina dos
Santos Renault e supervisão acadêmica de Karen Santana, que juntas desenvolvemos o
projeto de intervenção durante esse período.

Regularização fundiária de terras indígenas: uma análise dos casos Xákmok


Kásek vs. Paraguai e Povo Xucuru vs. Brasil

Josanne Cristina Ribeiro Ferreira Façanha

Maria Emília de Oliveira Assis

A regularização de terras indígenas sempre foi um tema de grande relevância e envolto de


notórias polêmicas. O processo regulatório dessa categoria de terras envolve em sua imensa
maioria de casos, conflitos entre os povos indígenas ocupantes daquelas terras e terceiros
interessados, seja também pela ocupação de boa-fé seja pelo interesse financeiro que essas
terras possuem. A questão, não raras vezes, chega às portas do Poder Judiciário, ao qual se
atribui a responsabilidade de determinar quem realmente possui o direito real sobre aquelas
propriedades. No entanto, quando esses casos atingem a instância máxima do Judiciário, é
possível observar que raramente se realiza o diálogo das fontes. O presente trabalho se
propõe a analisar se o Poder Judiciário brasileiro se preocupa em realizar tão somente o
controle de constitucionalidade, mas também o controle de convencionalidade, observando
a maneira como julga a Corte Interamericana de Direitos Humanos quando se trata de casos
que envolvam terras indígenas. O estudo se justifica pela relevância do tema para esses povos
quanto aos direitos humanos firmados pela Convenção Americana, utilizando-se para tanto
de uma pesquisa bibliográfica, descritiva e documental através do método exploratório e
dedutivo.

Por uma hermenêutica menor: fundamentos antropológicos para uma nova


interpretação do sistema jurídico

Rodrigo Arthuso Arantes Faria

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Caderno de Resumos do 3 o Congresso Internacional Povos Indígenas da América Latina (CIPIAL)
ISBN: 978-65-86503-02-9
Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

O artigo 231 da Constituição Federal, que instaurou na ordem vigente no Brasil o paradigma
da interculturalidade, mobilizou os povos indígenas a inscreverem um pequeno bulbo no
rizoma jurídico brasileiro. Apesar de seu fluxo normativo ter seu caminho bloqueado por uma
série de entidades que lhe são contrárias, certo é que tal dispositivo carrega consigo a chave
para uma enunciação coletiva dos direitos indígenas em sua acepção mais abrangente.
Através do conceito de rizoma de Deleuze e Guattari, e da cartografia por ele proposta
enquanto estratégias de interpretação do contexto político-institucional em que são travadas
as discussões jurídicas acerca dos direitos dos povos indígenas, em especial na esfera judicial,
é possível pensar em um método hermenêutico que, afastando-se de sua tradicional matriz
europeia, abra-se à radicalidade da alteridade indígena e dela incorpore conceitos
imprescindíveis à plena efetivação dos direitos indígenas, segundo eles próprios os concebem.
Hermenêutica subalterna, por certo, expressão da minoria indígena enquanto ente menor da
“comunhão nacional”, que leva em conta nos processos de construção interpretativa do
ordenamento jurídico a desterritorialização da norma, a ligação do individual com o imediato-
político e o “agenciamento coletivo de enunciação”. Tal hermenêutica afastaria, através da
jurisdição constitucional, o Juiz de seu solipsismo interpretativo, auto-referenciado e limitado
ao processo e à norma positivada, articulando-o junto à alteridade “com efeito infringente”
da agência indígena. Contra a “grande narrativa” do sistema jurídico, pois, uma hermenêutica
“menor”.

Poesia, música, identidade e resistência nas lutas indígenas do Brasil

Márcia Kambeba

Pertenço à etnia Omágua Kambeba. Nasci numa aldeia Tikuna, no Alto Solimões, no
Amazonas, onde minha avó era professora. Atualmente, moro no Pará. Faço poesias que falam
sobre a identidade dos povos indígenas. O meu trabalho é litero-musical. Faço composições
em tupi e em português. Escrevo poesias que trazem um olhar ambiental, geográfico, indígena
e cultural voltado para a valorização da cultura e da informação sobre os povos indígenas.
Como vivem, onde vivem, como estão? Através da poesia, temos a chance de conversar e
informar nosso leitor, não só o público adulto, mas também o infanto-juvenil. Aposto muito
na educação. Sou mestra em Geografia Cultural, a primeira do meu povo e pesquiso sobre
meu povo envolvendo Território e Identidade em um processo de ressignificação da etnia.
Escrevo poemas indígenas relacionados a vivência, território e identidade do povo indígena
Omágua/Kambeba e dos povos indígenas em geral, sou cantora, compositora. Eu moro na
cidade, então também escrevo sobre assuntos voltados para nós indígenas que vivemos na

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Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

3 a 5 de julho de 2019, Brasília - DF, Brasil

cidade e lutamos por nosso respeito e afirmação junto aos que vivem nas aldeias. Lutar com
poesia é meu lema!

Interpretação brasileira do artigo 6º da OIT: efeitos da consulta aos povos


indígenas e comunidades tribais

Rayanne de Sales Lima

A Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho – OIT é um dos principais


instrumentos que simbolizam a transposição do Estado Nacional de caráter hegemônico para
a configuração do pluralismo cultural e étnico. Ratificada pelo Brasil em 2004, por meio do
Decreto no 5.051, essa legislação inovou ao dar relevância e visibilidade aos povos indígenas
e comunidades tradicionais, e ao considerar a pluralidade de interesses na condução das
tomadas de decisões dos Estados (DUPRET, 2015, p.76). Com intuito de viabilizar a
autodeterminação dos povos, o art. 6o dessa Convenção estipulou que os governos devem
consultar, de forma livre, prévia e informada, os povos interessados sempre que forem
apresentados projetos legislativos ou executivos que os impactem, além da inclusão dessas
comunidades nos debates mais amplos da sociedade que de alguma forma se apliquem a eles.
A consulta é um elemento essencial para a efetivação das transformações sociais provenientes
da garantia de autonomia e participação dos povos indígenas e comunidades tribais nas
arenas decisórias, garantias essas determinadas pelo próprio Estado Democrático de Direito.
Esse instrumento estabelece que as partes dialoguem antes da tomada de decisão,
possibilitando a reconsideração do posicionamento inicial e a concepção do consenso em
relação as medidas debatidas. Entretanto, por ainda restarem presentes resquícios do Estado
Nacional hegemônico, em que o Estado é considerado o único ator legítimo para estabelecer
o interesse comum, as vontades de outros agentes apresentam-se como empecilhos a serem
transpostos na tomada de decisões. Em outro diapasão, existe o entendimento de que
determinados grupos dispõem de pleno poder de veto, mesmo em uma sociedade plural, em
razão do seu passado de invisibilidade. A título exemplificativo, em 2012, a OIT dirigiu uma
observação individual ao Brasil, criticando a forma como os povos indígenas foram
consultados no processo de licenciamento da UHE Belo Monte, por não ter sido garantido que
eles estabelecessem as suas prioridades, em desconformidade com a Convenção 169. No ano
seguinte, o Ministro do Supremo Tribunal Federal – STF, Roberto Barroso, no julgamento de
embargos no caso Raposa Serra do Sol, manifestou-se no sentido de que, apesar de ser
necessária a oitiva dos povos indígenas, não é possível que um determinado projeto só tenha
validade com o consentimento dos povos consultados. Contudo, assentado na Declaração das
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Nações Unidas sobre o Direito dos Povos Indígenas e nas decisões da Corte Interamericana de
Direitos Humanos – Corte IDH, vem crescendo o posicionamento de que o consentimento é
condição necessária para a tomada de decisão do Estado. Nesse contexto, observa-se um
cenário de indefinição quanto aos efeitos conferidos à consulta. O ponto 2 do art. 6o da
Convenção 169 estabelece que esse instrumento objetiva alcançar acordo e consentimento
em relação as medidas propostas, mas, não determina se o consentimento dos povos
consultados configura-se como requisito para a decisão estatal. A relevância da pesquisa
proposta consiste na tentativa de contribuir para melhor compreensão dos efeitos de um
instrumento que propõe viabilizar ao Estado Brasileiro a materializar o desenvolvimento
nacional, objetivo da República determinado no art. 3o da Constituição, levando em
consideração o reconhecimento aos povos indígenas e comunidades tribais do direito sobre a
sua organização, costumes, línguas e crenças, bem como sobre sua própria interpretação de
desenvolvimento.

Considerações acerca do engajamento de indígenas Terena na resistência à


emancipação da tutela nas décadas de 1970 e 1980

Victor Ferri Mauro

Esta comunicação visa analisar atos e discursos dos governos militares de Ernesto Geisel
(1974-1979) e de João Batista Figueiredo (1979-1985) na intenção de emancipar da tutela
prevista pela Lei 6.001/73 povos indígenas que consideravam “integrados à comunhão
nacional” e o engajamento de membros da etnia Terena na resistência a essas pretensões,
considerando que esse povo era citado por autoridades oficiais como exemplo emblemático
de capacidade civil plena. A proposta de emancipação sofreu uma forte reação do movimento
indígena, de entidades da sociedade civil e de outros aliados da causa, por se temer o risco de
os povos originários serem prejudicados, especialmente em seus direitos territoriais. Alguns
Terena também tiveram uma participação destacada na criação das primeiras associações de
representação indígena em nível nacional, parte deles sendo contratada posteriormente
como servidores da FUNAI. Devido à repercussão negativa na opinião pública, o projeto de
emancipação foi abandonado e, com a promulgação da Constituição de 1988, a tutela deixou
de ser interpretada com um sentido mais restritivo de liberdades individuais, permanecendo
como um instrumento importante de proteção legal adicional.

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Cartografia das (Re)existências: os conflitos socioambientais e a violação de


direitos dos povos indígenas da tríplice fronteira amazônica Brasil, Colômbia
e Peru

Pedro Rapozo

Reginaldo C. da Silva

Este estudo apresenta uma caracterização dos conflitos socioambientais reflexos dos
processos de territorialização dos bens de uso comum e as estratégias de resistências pelo
dos povos e comunidades rurais na microrregião do Alto Solimões no Estado do Amazonas,
localizados na tríplice fronteira Brasil, Colômbia e Peru. A investigação realizada apresenta
uma tipificação da violência produzida pelos conflitos socioambientais em face dos processos
de territorialização e exploração dos bens naturais de uso comum, estes resultantes das
relações de conflito estabelecidos entre agentes diversos: as sociedades rurais indígenas e
não- indígenas, representações institucionais do Estado, dos grandes capitais da região e
demais agentes externos. A perspectiva metodológica desenvolvida na investigação foi
baseada no uso da pesquisa qualitativa e quantitativa através da realização de pesquisa de
campo com a utilização de entrevistas semi-estruturadas com lideranças comunitárias e do
reconhecimento de seus saberes socioambientais representados na utilização das cartografias
sociais como instrumento metodológico que nos permitiu uma reflexão sobre a atuação crítica
de agentes mobilizados coletivamente em face do reconhecimento de seus modos de vida,
gestão de bens naturais de uso comum e garantia dos seus direitos territoriais. Os inúmeros
conflitos socioambientais na região tem impossibilitado a garantia dos direitos territoriais e
da gestão dos recursos naturais de que dispõem as sociedades rurais, marcadas pela violência
política dos atos de Estado, pela ilegalidade das atividades econômicas transfronteiriças,
impondo um cenário caracterizado pela contradição das políticas econômica
desenvolvimentistas, pela externalização dos fatores ambientais, e pela sujeição de grupos
sociais marginalizados social, econômica e geograficamente perante as transformações do
mundo contemporâneo. Ao mesmo tempo, o resultado destes conflitos tem reorientado as
possibilidades de uma discussão de cenários sobre políticas públicas ambientais e
planejamento institucional governamental quanto ao uso e gestão dos recursos naturais em
face das sociedades rurais locais que, ao enfrentarem as incertezas de uma ausência presente
do Estado, tem acionado os diversos mecanismos de resistência contra o avanço dos grandes
empreendimentos promovidos pelo capital na Amazônia marcados pela violência, conivência
e desrespeito ao uso tradicional das terras historicamente ocupadas pelos povos locais.

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Protagonismo indígena: o cacique Lázaro Gonzaga de Souza na retomada do


território Kiriri

Jardel Jesus Santos Rodrigues

O povo Kiriri está estabelecido na região nordeste do estado da Bahia, nos municípios de
Banzaê, Quijingue e Ribeira do Pombal, em um território com cerca de 12.320 hectares
correspondentes ao octógono regular que, partindo da igreja missionária de Nosso Senhor da
Ascensão, dirige-se para todos os pontos cardeais e colaterais, conforme o costume à época
(BANDEIRA, 1972). No período compreendido entre 1970 e 1999, os Kiriri confrontaram-se
com os posseiros que ocupavam diversos pontos da terra indígena e que, ademais, os
estigmatizavam e marginalizavam (BRASILEIRO, 1996; BRITO e DIAS, 2015). A eleição do jovem
líder Lázaro Gonzaga de Souza como cacique, além da instituição de um conselho formado por
um representante de cada um dos cinco núcleos que compõem a Terra Indígena, tinha como
objetivo imediato a formação de uma estrutura organizacional internamente coesa e
fortemente centralizada que, ao longo de uma muito expressiva mobilização coletiva,
culminasse no desalojamento dos regionais da Terra Indígena (BRASILEIRO; SAMPAIO, 2012).
Foi através dessa bem sucedida articulação que os Kiriri lograram destaque local, regional e
nacional e que, subsequentemente, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), em 1981, sob forte
pressão do coletivo mobilizado em termos étnicos e culturais, desencadeou o processo de
demarcação do território. O objetivo desta proposta de comunicação é buscar descrever, e
examinar, os significados dessa mobilização étnico-política para os Kiriri e para outros povos
indígenas do nordeste, notadamente para os Tuxá e Pankararé que atuaram como aliados
estratégicos no campo ritual e, reciprocamente, valeram-se do protagonismo étnico-político
Kiriri.

Índios do Direito: judicialização, etnicidade e desafios da luta indígena


institucionalizada no Ceará

Laís Almeida Rodrigues

Pensando os embates travados no âmbito da justiça e os poderes envolvidos na construção


argumentativa, o artigo proposto tem por objetivo indicar a judicialização, na forma de seu
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corpo processual, como um dos desafios enfrentados pelos povos indígenas na garantia de
seus direitos. Indo além da morosidade e das questões próprias do funcionamento dos órgãos
jurídicos, pretende-se apontar três elementos aqui entendidos como resistências promovidas
pelo mecanismo de judicialização. O primeiro deles é a escolha das categorias utilizadas pelos
operadores do Direito a fim de mobilizar – ou pôr em xeque – o reconhecimento étnico seja
de indivíduos, seja de todo um povo. Ou seja, compreender a curadoria de tais categorias
enquanto investimento em um imaginário representacional do índio. O Direito, portanto, via
elaboração de seus operadores, age em que direção na composição de estereótipos? Eis a
primeira frente de resistência enfrentada no contexto do corpo processual. A segunda diz
respeito às articulações das categorias anteriormente mencionadas na construção
argumentativa tanto das partes representadas, quanto da sentença. Por último, as disciplinas
e os saberes dos quais se lança mão, ou seja, em que (e se) se ancoram, além do Direito, as
categorias e os argumentos construídos ao longo dos processos. Em outras palavras, se o
entendimento jurídico lida com epistemes outras ou mesmo com a História e a Antropologia
e, em caso positivo, de que maneira é estabelecido esse diálogo. O artigo parte da análise de
processos judiciais que envolvem quatro etnias – Anacé, Jenipapo-Kanindé, Pitaguari e Tapeba
– cujas terras se situam em municípios da Região Metropolitana de Fortaleza e de dados
coletados e produzidos pelo Observatório dos Direitos Indígenas, projeto de pesquisa e
extensão vinculado ao Grupo de Estudos e Pesquisas Étnicas, da Universidade Federal do
Ceará.

O território etnoeducaional do Médio Xingu e a Hidrelétrica de Belo Monte:


coordenação e arranjos institucionais complexos na implementação da
política de educação escolar indígena

Carolina Bernardes Scheidecker

Esta comunicação analisa as relações de coordenação entre um conjunto de agentes públicos,


privados e da sociedade civil na implementação das políticas de educação escolar indígena na
região do Médio Xingu, estado do Pará. O lócus de implementação destas políticas é o
Território Etnoeducacional (TEE) do Médio Xingu, composto por 11 Terras Indígenas que, por
se localizarem na área de impacto socioambiental da Hidrelétrica de Belo Monte em
construção nos municípios de Vitória do Xingu e Altamira (PA), se tornam beneficiárias dos
projetos de compensação ambiental estabelecidos pelo Licenciamento Ambiental do
empreendimento, o Plano Básico Ambiental – Componente Indígena (PBA-CI). Através do
Programa de Educação Escolar Indígena do PBA-CI, o empreendedor é responsável por
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executar ações que objetivam o fortalecimento das políticas públicas pré-existentes na


temática. A sobreposição de três vetores de políticas públicas – educação escolar indígena,
infraestrutura e ambiental – agrega complexidade a implementação das políticas de
educação, pois seus resultados se tornam condicionados a ação coordenada entre as
instituições envolvidas e os beneficiários desta ação. Este estudo considera a política de
educação escolar indígena vinculada ao TEE do Médio Xingu uma política pública complexa
pois sua implementação pressupõe o envolvimento de diversos fatores: múltiplas camadas
federativas, múltiplos níveis hierárquicos, múltiplos vetores de políticas públicas, relações
assimétricas de poder em múltiplas organizações sendo elas, públicas ou privadas, e as
relações com a pluralidade de grupos e interesses da sociedade civil, no caso, os povos
indígenas. A partir do conceito de arranjos institucionais (Pires e Gomide, 2014; Lotta e
Favaretto, 2016) foram analisadas como as interações entre os agentes públicos – políticos e
burocratas, os agentes privados – empreendedor e empresas de consultoria – e a sociedade
civil – povos indígenas – estabeleceram regras, mecanismos e procedimentos que
caracterizam a implementação da política pública de educação escolar indígena, seus
problemas e resultados, entre as anos de 2011 e 2018. As relações de coordenação
observadas podem ser divididas em três dimensões: intersetorialidade; subsidiariedade;
territorialidade/participação pública. Por fim, observou-se que as interações apresentam alto
grau de conflito, dificultando a consolidação de mecanismos de coordenação. Entretanto, a
confluência entre as ações do TEE e do PBA-CI possibilitaram transformações positivas em
como os indígenas concebem os direitos educacionais e como os reivindicam, se
responsabilizando na construção de soluções práticas. O principal achado da pesquisa é que a
participação pública dos povos indígenas é o principal mecanismo de coordenação entre as
instituições.

Resistências para ser e existir indígena no Brasil

Carla Bethania Ferreira da Silva

Mas cadê o índio? Não existem mais índios no Marajó! Mas você se pinta! Como? No Marajó
não tem mais índios foram exterminados! Estas perguntas são persistentes. Trago comigo a
certeza do pertencer a um povo milenar! Contudo, a lógica do estado brasileiro não aceita,
não reconhece e não compreende isto. Historicamente a Ilha de Marajó se constituí em um
dos maiores polos de produção de carne bovina. Assim, a escravidão também se estabeleceu
com os primeiros possuidores da terra promovendo o primeiro aniquilamento indígena.
Numerosas tribos foram dizimadas em pouco tempo. Escasseando os índios houve a

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necessidade da introdução de negros diversificando, desta forma, as faces étnicas marajoara.


A miscigenação entre índios e negros confundem ainda mais os legisladores que não
conhecem a história e as comunidades. Por fim, com uma política demarcatória arbitrária, em
2001 é criada a Reserva Extrativista Marinha de Soure, a primeira reserva marinha criada no
Estado do Pará. A partir de sua criação, um novo processo de negação das identidades
indígenas que há séculos vive no local, desencadeou-se. Para o governo, ali todos são
pescadores ribeirinhos e extrativistas. Sem reconhecimento étnico, sem terras demarcadas,
sem políticas públicas começa nossa luta para Ser e Existir na Amazônia brasileira, terra, na
verdade, de onde nascemos e sempre estivemos.

Produção mineral e impactos sociais: o caso da comunidade indígena Xikrin


do Catete

Daniel Nogueira Silva

Jessica Costa de Sousa

Antônia Larissa Alves Oliveira

Rowan Lucas Veras de Souza

O grande dinamismo econômico, social, demográfico e político torna a mesorregião do sul e


sudeste paraense um espaço de suma importância no cenário estadual e nacional. Na região
estão instalados os maiores empreendimentos minerais do Estado do Pará gerando um
grande dinamismo econômico para o Estado. Apesar da importância econômica, o setor
mineral tem deixado muitos efeitos perversos na região (BECKER, 2005). Problemas
ambientais, crescimento desenfreado dos centros urbanos, pobreza, violência, conflitos
agrários são alguns dos muitos desafios que a região enfrenta (LOUREIRO, 2005). Nesse
trabalho, um olhar especial será dado nos impactos provocados na terra indígena Xikrin do
Catete. A Constituição Federal de 1988 trouxe em seu bojo importantes avanços jurídico-
legais em favor da causa indígena no Brasil. Contudo, ainda que de posse do artigo 231 que
garante a esses povos um conjunto de garantias, após 30 anos de promulgação da Carta
Cidadã, as populações originárias seguem afetadas e se mostram em situação de
vulnerabilidade, especialmente quando diante dos grandes projetos de colonização e
desenvolvimento que marcam a ocupação do território amazônico (COELHO, 2005). Sobre
este, a exploração mineraria vem desenhando e pautando a agenda política, econômica e
ambiental, desconsiderando os povos originários e populações tradicionais que secularmente
e mesmo milenarmente nele habitam (WANDERLEY, 2009). Para esse cenário de pressão
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socioambiental o caso da etnia Xikrin, e aqui em particular a Terra Indígena (TI) Xikrin do
Cateté, se destaca, pois apresenta em seu processo demarcatório os movimentos de
invisibilização dos desejos e dos direitos ao território Xikrin (RAUPP, 2011). Os impactos
impostos aos Xikrin pelos empreendimentos minerais implantados ao redor do seu território
são gigantescos. Esses empreendimentos minerais têm criado cenários de fragilidade
socioambiental para as populações e povos tradicionais que secularmente ocupam a região
sem que o devido tratamento seja dado à questão. Tais cenários vêm desenhando-se
exclusivamente como prejuízo para os Xikrin do Cateté, dado que estes, na maioria dos
empreendimentos acima descritos, para não dizer em sua quase totalidade, sequer
receberam atendimento integral das condicionantes que exigem mitigação dos impactos
ambientais impostos aos povos e comunidades tradicionais (RAUPP, 2011). Nesse sentido, o
objetivo desse trabalho é avaliar os principais impactos sociais e econômicos dos
empreendimentos desenvolvidos pela Companhia Vale sobre TI Xikrin do Catete e os
instrumentos de luta e resistência utilizados por esse povo.

Como o povo Pankararu lida com a não efetivação da desintrusão de seu


território tradicional

Douglas Gomes da Silva

A não regularização das terras indígenas no Brasil faz com que diversos povos indígenas não
tenham sua sobrevivência física, cultural, social e linguística garantida colocando em risco
esses povos que á 518 anos lutam por suas vidas e por respeito aos seus costumes tradicionais
que fazem parte da grande diversidade sociocultural brasileira. O território para os povos
indígenas se distancia do conceito capitalista de propriedade onde o lucro é o principal
objetivo da propriedade, sendo para esses povos o território a marca de sua ancestralidade,
identidade e cultura. A luta por estes territórios é marcada por seguidos conflitos por muitas
vezes violentos contra essas comunidades, onde o estado brasileiro que tem o dever de dirimir
os conflitos sociais atua de forma morosa na resolução destes conflitos. No Brasil existem
817,9 mil indígenas falantes de 274 línguas e agrupados em 305 etnias (IBGE, 2010) a terra
indígena Pankararu situa-se entre a Serra Grande e a Serra da Borborema, próxima às margens
do Rio São Francisco, no limites dos municípios de Petrolândia, Tacaratu e Jatobá (ATHIAS,
2002) no estado de Pernambuco á 459,4km da capital Recife. Atualmente cerca de 9.000
Pankararus moram divididos em duas terras indígenas a primeira T.I Pankararu homologada e
registrada no SPU (Secretaria de patrimônio da União) em 1987 e a segunda TI Entre Serras
Pankararu homologada e registrada no SPU em 2006 as duas terras são contínuas e localizadas
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entre os municípios anteriormente citados. O povo pankararu foi reunido onde se localiza
atualmente por padres de uma missão da ordem de são Felipe Néry onde fundaram o
aldeamento que ficou conhecido como Brejo dos padres. Em 1878 um ato imperial extinguiu
esse aldeamento (ARRUTI, 1996) o aldeamento posteriormente volta a ser reconhecido pelo
SPI (serviço de proteção ao índio) em meados de 1940. Após a extinção do aldeamento no
período imperial a área Pankararu foi sendo ocupada por não- índios fato gerador de conflitos
ate os dias atuais, as reivindicações pela retomada do território em sua integralidade é
registrada desde 1930 por documentos do SPI onde o povo Pankararu procurava o seu
reconhecimento étnico anteriormente negado pelo estado Brasileiro com o fim da missão
jesuíta e com isso poder recuperar seu território para que a sobrevivência povo Pankararu
fosse assegurada. Em 1987 a primeira TI do povo Pankararu foi reconhecida pelo estado
brasileiro demarcando seus limites territoriais que correspondem 8.376 ha, em 1988 com a
promulgação da constituição Federal, alguns direitos sobre povos indígenas foram garantidos
como o direito a sua organização social diferenciada, costumes, línguas, crenças e tradições
que o povo detenha além dos direitos territoriais descritos na carta magna. O legislador
constituinte resguardou estes direitos dos povos indígenas no Título VIII, Capítulo VIII da
Constituição federal fruto de muitas lutas de um movimento indígena articulado pela defesa
de seus territórios. O povo Pankararu com esse amparo jurídico desde então busca que suas
terras sejam totalmente ocupadas por indígenas e que detenham o usufruto exclusivo do
local. Os indígenas recorrem ao poder judiciário para que seja realizado o processo
desintrusão que é especificamente uma das fases da regularização de uma terra indígena onde
os moradores não indígenas são indenizados pelas benfeitorias de boa fé feitas na terra e
sendo comprovado que não possuem outras propriedades fora da área indígena são
reassentados pelo INCRA desocupando assim a área indígena. Os moradores não indígenas
recorrem contra esta desintrusão em um processo que se prolonga por mais de 30 anos,
ocasionando muitos conflitos entre índios e não índios dentro da terra indígena o poder
judiciário que deveria dar celeridade ao processo devido ao conflito social posto, atua de
forma pouco célere e como conseqüência disso os conflitos no local se acirram cada vez mais.
É preciso que entendamos as causas desta morosidade em decidir do poder judiciário,
analisando juridicamente o processo em questão suas nuances e todas as suas problemáticas.
E no campo prático entender como este povo indígena lida com a falta deste território
tradicional e suas estratégias políticas e jurídicas para que a retomada deste território seja
realizada. Este trabalho se mostra de fundamental importância para o povo devido á urgência
que a retomada da terra tem para o povo levando em conta sua sobrevivência tradicional,
física e cultural dentre outros aspectos e um relevante significado pessoal como indígena do
povo Pankararu em dar este retorno no âmbito acadêmico ao meu povo que sempre batalhou
por direitos e um deles o de que seus jovens estejam na universidade publica. Entendo que
este estudo sobre meu povo servirá de ferramenta para a comunidade continuar pleiteando
o seu território tradicional e trazendo visibilidade a esta questão no âmbito acadêmico.

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Mulher e lutas de classe - feminismo indígena na Amazônia

Thainá dos Reis de Souza

Antonio Janio Ferreira Soares Junior

Kássya Christinna Oliveira Rodrigues

A história do feminismo e da mulher contemporânea ocidental é marcada por diversas formas


de opressão causadas em grande parte pelo sistema em que estão inseridas e pela sociedade
que se debruça no patriarcado. Contudo, não se pode pensar o feminismo indígena da mesma
maneira, pois este contexto se configura de forma antagônica ao mundo contemporâneo
ocidental. Desse modo este estudo objetiva: identificar como se configura a luta feminista
indígena; problematizar sobre as semelhanças e diferenças do feminismo indígena e do
feminismo contemporâneo ocidental. Trata-se de um estudo bibliográfico qualitativo que tem
como metodologia a análise do contexto político-social para comparar as diversas atuações
de mulheres, bem como a sua visão antropológica de sociedade, através da pesquisa
bibliográfica foi feito um estado arte para a análise de textos que abordam a temática. Como
resultados da pesquisa, pode-se observar que o posicionamento político entre a mulher
contemporânea ocidental e a mulher indígena, se dá de diferentes formas na história da
humanidade, isso se dá pelo fato da mulher indígena estar inserida em muitos ritos e mitos,
momentos que a tornam protagonista em diversos contextos, como por exemplo, no ritual do
çapó da tribo indígena Sateré-Mawé em que a mulher indígena desempenha um papel
importante na execução do rito, assim Matos (2012) afirma que na história Tariana (grupo
linguístico Arawak) a mulher indígena tinha um posicionamento importantíssimo para a
constituição do povo; identificou-se ainda que em meados da década de 1970 e 1980 teve
início o movimento de mulheres indígenas no Brasil, esse, no entanto, possuiu objetivos que
em nada se assemelhavam aos das chamadas “sufragetes” que buscavam o direito de voto
nos continentes europeu e americano; identificou-se que as mulheres indígenas buscavam
maior participação nas lutas de classe – classe indigenista, não feminina – que eram geridas
por membros masculinos das comunidades como disposto nas reflexões de Matos (2012)
quando ressalta que no inicio das lutas lideradas pelos homens, as mulheres posicionavam-se
em segundo plano na execução dos feitos. Segundo Ruth Benedict citada por Laraia (2001)
escreveu em seu livro O crisântemo e a espada que os hábitos e costumes de um determinado
povo em que o indivíduo está inserido é diferente de outros povos e isso faz com que o modo
dele ver o mundo é diferente. Nesse viés, podemos afirmar que as mulheres não se sentem
apartadas das tomadas de decisões, pois veem o ambiente em que vivem através da lente de

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sua cultura, ou seja, como um espaço político em que ela tem o poder de externar as suas
opiniões.

Crun Shurin. Una experiencia de recuperación Brörán, en el sur de Costa Rica

Víctor Madrigal Sánchez

La ponencia busca presentar la situación territorial de los pueblos indígenas en Costa Rica, en
particular se enfoca en el sur del país, en el pueblo Brörán, del territorio indígena de Térraba.
La presentación de la experiencia Brörán muestra el conflicto en progreso, sus causas, actores,
escenarios y tendencias, vivido por un pequeño, pero representativo grupo de 17 familias
indígenas que han recuperado un espacio de 1000 hectáreas usurpadas en las tres últimas
décadas. La ponencia analiza un evento histórico como es la recuperación territorial de hecho,
por un grupo de familias, dentro de un contexto amplio de pérdidas progresivas del territorio,
iniciado en el periodo de conquista y colonización del siglo 16 en adelante. Lo novedoso no
son las pérdidas, sino la recuperación del territorio y el proceso que las promueve. Sobre la
metodología seguida para obtener la información, se han realizado entrevistas en profundidad
a líderes de la recuperación, a miembros del consejo de mayores Brörán, que respaldan la
acción; así como del Frente Nacional de Pueblos Indígenas (FRENAPI), que impulsan el proceso
de afirmación territorial autónomo (PATA). CRUN SURIN es una experiencia ejemplar de
resistencia descolonizadora contra un estado racista y oligárquico.

Direito ao território sagrado e o caso da aldeia multiétnica Uyka Kwara

Kwarahý Tembé

Historicamente os povos indígenas tem sofrido extinção pela aglutinação sociocultural não-
indígena com esquecimento cultural das origens. Tem-se desenvolvido nas crianças indígenas
nascidas na cidade o sentimento de vergonha em se identificarem como indígenas. Eles não
têm o reconhecimento dos indígenas que vivem nas aldeias. Sofrem também exclusão na
cidade, pelo processo social classificatório e excludente já instituído pelos não-indígenas. A
proposta ALDEIA MULTIÉTNICA UYKA KWARA é trabalhar o resgate da tradicionalidade
indígena dentro do contexto urbano. A Aldeia tem caráter organizacional filantrópico com
finalidade e objeto social de resgate da ancestralidade e do pertencimento, o que
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fundamentará o resgate das práticas culturais. Este projeto combate o desaparecimento de


práticas antigas que pelo avançar das cidades para perto das aldeias, costumes são absorvidos
comprometendo as práticas tradicionais. A cidade Belém bem como todas as outras nestas
terras também foi construída sob terras indígenas com destruição das suas referenciais como
os cemitérios e aldeias, deixando como referência e memória histórica apenas os nomes das
ruas que homenageiam a destruição de tais povos. Nossa resistência parte do direito à terra
e nela o resgate da ancestralidade e do bem viver que promova inclusão social, cultural e
econômica, principalmente para os indígenas em situação urbana.

ST 11 | Direitos indígenas, pós-modernidade e epistemologias decoloniais

Luiz Fernando de Oliveira (Universidade Federal de Goiás – UFG, Brasil); Eva Cristina Franco Rosa dos
Santos (Universidad do Museo Social Argentino, Argentina).

Diante da visão opressora acerca do outro legada pelo séc. XX e suas guerras neocolonialistas, como
as famosas I e II Guerras Mundiais, as quais ocorreram em contextos de uso da violência contra os
povos considerados inferiores por potências europeias, surgiram teorias do conhecimento que
buscaram dirimir as visões dos povos nativos baseadas na hierarquia classificatória pautada no
eurocentrismo. Ao final do séc. XX populariza-se o paradigma pós-moderno, com base no esgotamento
das teorias materialistas de grande vulto nos anos 1970, que apesar de grande valia para as teorias
contra a opressão social, não permitiam um recorte mais focado no estudo das diferenças culturais.
Surge então uma forma de pensar o moderno vinculada à decadência das grandes narrativas
generalistas, o assim chamado pós-moderno abre-se para a pluralidade, a ausência de narrativas
globalizantes. O indígena, então, passou a figurar não apenas como local de estudos acerca do social,
mas também como fonte de saberes, as narrativas plurais promoveram o surgimento de espaços
epistemológicos para abrigar essa alteridade, bem como o surgimento de dispositivos jurídicos
inseridos em diversas cartas constitucionais, resultando, posteriormente, no início do séc. XXI, em
políticas públicas de inclusão. O presente simpósio visa, portanto, fortalecer o argumento da
pluralidade, abrigando comunicações que tenham por base as epistemologias não vinculadas às
violências neocoloniais, contribuindo para a ampliação dos direitos indígenas. Busca-se com esse
simpósio, desta feita, abrigar comunicações que abordem a questão dos direitos indígenas, sua base
teórica, suas aplicações práticas sejam em termos de pesquisa ou em termos de atuação tanto estatal

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quanto da sociedade civil. Serão aceitas comunicações baseadas em quaisquer recortes temporais e
espaciais, o simpósio está pautado ainda na interdisciplinariedade.

A construção de saberes sobre direitos indígenas e a importância dos


referenciais de-coloniais

Priscila de Aguiar

Rodrigo Mariano

Evanise Kei Claudino

Renata Blini Strasser

Os povos indígenas desde o período colonizador resistem frente às violências materiais e


simbólicas que sofrem de maneira direta ou via omissão do Estado. No período de
redemocratização do Brasil, com a conquista da Constituição da República Federativa do Brasil
de 1988, parte das demandas dos povos indígenas foram recepcionadas frente aos Art. 231o
e 232o da CF e seus incisos. Conquista-se o entendimento por parte do Estado Brasileiro
desses povos como cidadãos de direito, de acordo com suas demandas, pressionando o Estado
à discussões e implementações de políticas públicas voltadas às pautas elencadas pelos
mesmos. Neste contexto, através de pressões sociais e forte atuação do movimento indígena
dá-se a construção do Sistema Único de Saúde (SUS) que tem como princípios doutrinários a
universalidade, equidade e integralidade e a saúde passa a ser um direito de todos e um dever
do Estado, entendida em sentido amplo, que segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS)
“é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença
ou enfermidade”. Apesar de terem seus direitos garantidos na CF (88) e em outros dispositivos
legais como na Convenção 169 da OIT da qual o Brasil é signatário, os povos indígenas
continuam sofrendo inúmeras violações de Direitos Humanos, e tanto os regimes políticos
ditatoriais quanto os que se propõe democráticos não contemplam as maneiras de ser e estar
desses povos, uma vez que não lhes garante de fato nem mesmo seus territórios, que é um
pressuposto para a garantia de quaisquer outros direitos. No contexto do neocolonialismo
que impera sob o paradigma hegemônico do capitalismo colonial global, protagonizam lutas
em diversos campos em disputa sob diferentes estratégias, dentre estes o das ciências não
indígenas. O objetivo do presente artigo é discutir acerca da importância de gestores,
pesquisadores, educadores, demais profissionais e quaisquer outros sujeitos que atuem nas
áreas da saúde, educação, direito e demais áreas do conhecimento reconhecerem os etno
direitos conquistados pelos povos indígenas e sua relevância para além dos limites dos
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referenciais da ciência catedrática hegemônica e do caráter jurídico normativo que


comumente se dá de maneira descontextualizada dos processos históricos de lutas e disputas
que levaram às suas conquistas, mas sim refletirem a respeito destes sob o viés dos
referenciais De-coloniais. É imprescindível que se respeite as especificidades de diferentes
povos indígenas, nas suas diferentes maneiras de ser e estar, através de diálogos interculturais
para que de fato possa se construir saberes diversos e políticas de cidadania pluriculturais que
os contemple, principalmente em tempos de judicialização da vida e com o neo-facismo em
curso.

Princípio constitucional da ecodignidade pluralista: breve introdução aos


caracteres do processo de etnodemocratização

Antonio Armando Ulian do Lago Albuquerque

A comunicação estabelece uma abordagem bibliográfica de orientação dedutiva dialogando,


implicitamente, com as teorias democráticas latino-americanas por constituírem um campo
teórico discursivo que leva a sério a diversidade cultural e a participação política índia. A
delimitação da teoria de fundo priorizou os conceitos de hegemonia de Laclau e Mouffe
(1987), multiculturalismo crítico de Mclaren (1997), perspectivismo ameríndio de Viveiros de
Castro (1996, 2018) por considera-los aptos a articular a formulação de caracteres que contra-
hegemonizam a interpretação homogênea não índia. As categorias de análise (caracteres do
processo de etnodemocratização pluralista) elaboradas a partir da cosmogonia indianista
favorece a apreensão da compreensão contra-hegemônica tanto no âmbito epistemológico
como instrumentais-meios, por exemplo, o princípio da ecodignidade pluralista, o orçamento
participativo intercultural; os mecanismos representativos-participativos interétnicos, o
pluralismo etnojurídico e a gestão compartilhada pluricultural. São esses caracteres
apresentados brevemente para a formação de agenda de pesquisa e variáveis de análise a
eles associados que favoreçam avaliar os limites e as possibilidades do processo de
etnodemocratização pluralista que, em hipótese, está em curso no País.

A interculturalidade como possibilidade para a efetivação da garantia à


territorialidade aos povos indígenas no Sistema Interamericano de Direitos
Humanos

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Raysa Antônia Alves Alves

Bruna Marques da Silva

No intento de garantir o direito à propriedade aos indígenas, o Sistema Interamericano de


Direitos Humanos (SIDH) tem reconhecido, como bem jurídico protegido, a propriedade
comunal destes povos sobre os territórios de ocupação tradicional. Entretanto, esta
construção jurídico-argumentativa relativa à propriedade comunal demonstra insuficiências
quanto aos desdobramentos que a garantia da propriedade, nestes casos, implica. Isso porque
o território, para os povos indígenas, é dotado de um significado que vai muito além do
conceito estendido à propriedade privada pelos padrões hegemônicos da cultura ocidental,
pois traduz uma relação típica de vida, materializada através da relação de pertença pautada
na convivência com suas ancestralidades, na conservação e exercício de suas cosmovisões,
bem como na consagração identitária destes grupos. A problemática que permeia a
consagração de direitos humanos fundamentais pode ser refletida à luz da fundamentação
filosófica que embasa e circunscreve a materialização destes direitos. O estudo sistematizado
das normas protetivas de proteção dos direitos humanos dos povos indígenas no SIDH
realizado pelos desperta a necessidade de avaliar se a construção jurisprudencial da Corte
Interamericana de Direitos Humanos foi afetada pelas limitações da fundamentação
hegemônica eurocêntrica dos direitos humanos, no que tange a capacidade da construção
argumentativa da Corte ter sido capaz de expressar um entendimento que proteja da maneira
mais efetiva a relação entre os povos indígenas e seus territórios, a qual ultrapassa os limites
do conceito de propriedade desenvolvido pelas sociedades europeias, sob o marco das teorias
liberais. Nesta linha, a fundamentação convencional dos direitos humanos, pautada no
discurso racional-individualista, encontra-se atrelada a concepções hegemônicas ocidentais
que (de)limitam tanto a ideia de humano e de sujeito de direitos, quanto à própria noção e
extensão de conceitos jurídicos-normativos, como o da propriedade. Assim, a partir dos
pressupostos relacionados à matriz teórica descolonial de conhecimento, a interculturalidade
configura-se como uma filosofia crítico-cultural, que se apresenta tanto como um elemento
necessário para estabelecer um discurso de direitos humanos a partir das realidades plurais
latino-americanas, como para estabelecer um diálogo equitativo entre as diferentes culturas,
sem estabelecer o predomínio de uma sobre a outra. Diante disso, o principal problema desta
pesquisa consiste em analisar em que medida a interculturalidade pode ser tida como uma
possibilidade de efetivação do direito à territorialidade em substituição a atual noção de
propriedade comunal. O problema parte da hipótese de que se a interculturalidade é capaz
de propiciar o diálogo intercultural, desmantelando a lógica-colonial moderna que é
estabelecida não apenas em nível político (poder), mas também epistêmico (saber) e
ontológico (ser), então é possível considerar a interculturalidade como um elemento
substancial à consagração da territorialidade. Esta análise será realizada a partir do método

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hipotético dedutivo, meio de investigação bibliográfica e documental, que englobe a revisão


da literatura nacional e internacional, com foco nas investigações latino-americanas acerca
dos direitos humanos e das transformações de seu discurso a partir da perspectiva
intercultural.

Pueblos indígenas, DD.HH. y Estado

Diana Alzogaray
Florencia Maciel

Durante el siglo XVI comienza el proceso del periodo colonial con la invasión de los españoles
a las tierras de américa. Con la mal llamada conquista del desierto, los pueblos indígenas
latinoamericanos, los/as indígenas sufren de un violento genocidio que busca su exterminio,
desaparecer sus vivencias, su cultura y su identidad A partir de finales del siglo XVIII, comienza
un proceso de construcción de los Estado Nación en la sociedad contemporánea
latinoamericana que tiende a la unificación y la homogeneización de los distintos conjuntos
humanos y sus respectivos sistemas y relaciones culturales, que responden a una lógica liberal
propia de los países del primer mundo de Europa Occidental. Toda lectura biologicista por
parte de los sectores dominantes, deja de lado lo que es la historia y la cultura como sistema
de relaciones que hacen a la conformación de estos pueblos Los pueblos indígenas deben ser
comprendidos desde la particularidad. No existe una determinada y una única cultura de los
pueblos indígenas. Más bien, estos pueblos se caracterizan por la diversidad de sus culturas,
es decir, de la diferencia que hay entre sus valores, creencias y tradiciones. El reconocimiento
de la existencia de los distintos grupos étnicos y culturales es fundamental, creemos, en la
conformación de nuevos Estados Plurinacionales para ejercer el derecho a la identidad y el
derecho a la cultura de las distintas comunidades indígenas. Los pueblos indígenas como
organización colectiva se han convertido en un nuevo movimiento social y político que
demanda a los sectores hegemónicos el derecho a la autonomía y a su autodeterminación.
No significa, la creación de un nuevo gobierno que pertenezca a los pueblos indígenas
independiente de un Estado Nación, sino más bien, de generar lugares de encuentro entre los
diversos grupos étnicos por un lado, y los sectores nacionales, por otro; que establezcan la
creación de un gobierno multicultural.

Representação e auto-representação indígena na literatura brasileira

Tiago Hermano Breunig

Silvely Brandes

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Retomar criticamente o importante problema da identidade, considerada de diferentes


maneiras em diferentes momentos da organização social do Brasil, requer perguntar qual o
sentido de uma identidade que se quer nacional. E, diante do problema a que nos propomos
aqui, qual a função da (auto)representação indígena como elemento constitutivo da
construção da identidade nacional. A questão é, evidentemente, política, e corresponde aos
interesses dos grupos sociais na sua relação com o Estado. Como analisar, sob essa
perspectiva, as diferentes representações indígenas na literatura brasileira em diferentes
momentos? O que elas representam? E o que a auto-representação indígena significa nesse
contexto? Para tanto, propomos analisar a (auto)representação indígena na literatura
brasileira, desde o Neoclassicismo brasileiro, com o surgimento do nativismo, o Romantismo,
com o indianismo idealizante e europeizante, e o Modernismo, com a reconfiguração das
representações estereotipadas. Com a problematização da construção da identidade nacional
e das teorias raciais dos intelectuais tradicionais brasileiros, o Modernismo representa, assim,
um momento de ruptura, tal como a auto- representação que caracteriza, atualmente, a
literatura indígena no Brasil. Nesse aspecto, importa constatar que o fim do Romantismo
assinala o surgimento dos precursores de uma sociologia interessada no “caráter nacional”
explicado a partir de conceitos como meio e raça, em que o evolucionismo justifica a
inferiorização dos povos nativos em contraste com as sociedades ocidentais, colonizadoras,
reproduzindo, aqui, as representações indígenas da literatura de informação ou dos cronistas
do descobrimento. Assim, enquanto Couto Magalhães, ainda nos anos 1870, aparece como
um dos primeiros teorizadores da mestiçagem indígena, Gilberto Freyre, nos anos 1930,
representa a continuação dessa tradição, com o conceito de miscigenação deslocado para o
culturalismo. O mito das três raças, em que os elementos índio, negro e branco operam, desde
a obra de Gilberto Freyre, como pluralidade étnica, cultural e física, encobre, assim, uma
ideologia de harmonia, apagando os conflitos da sociedade sob o signo da unidade nacional.
Portanto, a construção da identidade implica, como sugere Renato Ortiz, a mediação, de modo
que devemos nos perg