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Apenas Um Beijo
Série: O Clube dos Sobreviventes
Livro: 6
Autora: Mary Balogh

Sobre a Série – O Clube dos Sobreviventes

1 - A Proposta (Gwen e Hugo - Lorde Trentham)

1.5 - O Pretendente (Philippa e Julian – Sobrinho do Duque)

2 - O Acordo (Sophia e Vincent - Visconde Darleigh)

3 - A Fuga (Samantha e Ben - Sir Benedict Harper)

4 - Apenas Encantado (Agnes e Flavian - Visconde Ponsonby)

5 - Apenas uma promessa (Chloe e Ralph – Conde de Berwick)

6 - Apenas um Beijo (Imogen e Percival Hayes – Conde de Hardford)

7 – Apenas Amado (Dora e George – Duque de Stanbrook)

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SINOPSE

Seis homens e uma mulher, feridos nas Guerras


Napoleónicas,
Napoleónicas, suas amizades forjadas em aço e lealdade.
Mas por um lado, suas provações não acabaram ... Desde
que testemunhou a morte de seu marido durante as
guerras, Imogen, Lady Barclay, se isolou nos confins de
Hardford Hall, sua casa na Cornualha. O novo
proprietário não tinha assumir a sua herança, e Imogen
esperava desesperadamente que ele nunca viesse
perturbar a sua frágil paz.
Percival Hayes, conde de Hardford, não tem nenhum
interesse nas florestas da Cornualha, mas quando ele
impulsivamente decide fazer
fazer uma visita à sua propriedade
lá, ele fica chocado ao descobrir que não é uma pilha
arruinada que ele esperava encontrar. Ele fica igualmente
chocado ao encontrar a linda viúva do filho de seu
antecessor.
Logo Imogen desperta em Percy uma paixão que ele nunca
pensou ser capaz de sentir. Mas ele pode salvá-
salvá-la de sua
miséria e despertar sua alma? E o que isso significará
para ele se ele tiver sucesso?

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Percival William Henry Hayes, conde de Hardford, visconde


Barclay, estava imensamente, maciçamente, colossalmente entediado.
Todos os descritores são basicamente a mesma coisa, é claro, mas
realmente ele estava entediado até a medula de seus ossos. Estava quase
entediado demais para se levantar da cadeira para encher seu copo no
aparador do outro lado da sala. Não, ele estava muito entediado. Ou
talvez apenas muito bêbado. Talvez ele tivesse ido tão longe quanto beber
todo o oceano.
Ele estava comemorando seu trigésimo aniversário, ou pelo menos
ele achava que estava comemorando isso. Ele suspeitava que já era bem
depois da meia-noite, fato que significaria que seu aniversário já tinha
acabado e passado, assim como os seus vinte e tantos anos de folia.
Estava descansando em sua poltrona favorita, de couro macio, em
um dos lados da lareira da biblioteca de sua casa da cidade. Ele estava
satisfeito em observar, mas não estava sozinho, como realmente deveria
estar a esta hora da noite, qualquer que fosse o diabo do tempo que era.
Através da névoa de sua embriaguez, ele parecia lembrar que houve
comemorações no Clube White's com um bando satisfatório de
camaradas, considerando o fato de que era muito cedo em fevereiro e não
era um momento de moda estar em Londres.
O nível de ruído, lembrava-se, tinha aumentado ao ponto em que
vários membros mais velhos haviam reclamado severamente – a maioria
deles velhos conservadores e antigos membros – e os garçons ansiosos,
começaram a mostrar inseguranças se comportando tensos e indecisos.
Como se tirava um grupo de cavalheiros embriagados – alguns
deles da nobreza – sem ofendê-los totalmente e a todos os seus outros
membros da família, à terceira e quarta geração do passado e do futuro?
Mas como é que não se expulsava esses cavalheiros embriagados quando
a permanência deles incorreria e causaria a ira dos igualmente nobres
nascidos conservadores?

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Com certeza, uma solução amigável deve ter sido encontrada, pois
aqui estava ele em sua própria casa com um pequeno e fiel grupo de
camaradas. Os outros devem ter ido para outras folias, ou talvez apenas
para suas camas.
— Sid. — Ele virou a cabeça no encosto da cadeira sem correr o risco
de levantá-la. — Em sua opinião, eu tenho bebido todo o oceano esta
noite? Seria surpreendente se eu não tivesse. Ninguém me deteve?
O honorável Sidney Welby estava olhando para o fogo – ou o que
restou do fogo antes que eles o deixassem queimar sem colocarem mais
pás de carvão ou chamando um servo para fazer isso por eles. Sua testa
franziu em pensamentos antes de entregar sua resposta. — Não foi
possível, Perce — disse ele. — Conselhos reabastecido – constantemente
por rios e riachos e tudo isso. Ribeiros e córregos. Enche-se tão rápido
quanto se esvazia.
— E também derramou, — falou Cyril Eldridge acrescentando, —
assim como mostra o chão. Apenas só parece que estamos embriagados.
Se o chão estivesse seco, porém, se não choveu ultimamente, todos nós
teríamos uma parte em drenar isto. Minha cabeça vai se sentir pelo menos
três vezes o seu tamanho normal amanhã de manhã, e vomitar tudo, mas
eu tenho uma forte suspeita que eu concordei em escoltar minhas irmãs
para a biblioteca ou algo assim, e como você sabe, Percy, a m-mãe não vai
permitir que elas saiam apenas com uma criada. Elas sempre insistem em
madrugar também, para que ninguém chegue antes delas e levem todos
os livros dignos de ser lidos. Que não é um grande número, na minha
opinião. E o que elas estão fazendo na cidade tão cedo, afinal? Beth não a
está fazendo sair até depois da Páscoa, e ela não pode precisar de muitas
roupas. Ela pode? Mas o que um irmão sabe? Nada se você ouvir as
minhas irmãs.
Cyril era um dos muitos primos de Percy. Havia doze deles no lado
paterno da família, filhos e filhas das quatro irmãs de seu pai, e vinte e
três deles contaram pelo lado de sua mãe, embora ele parecesse lembrar-
se dela mencionando que a tia Doris, a mais nova Irmã, estava de uma
forma delicada novamente por volta da décima segunda vez. Sua prole
era responsável por uma grande proporção daqueles vinte e três, logo em
vinte e quatro. Todos os primos eram amáveis. Todos o amavam, e ele
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amava a todos, bem como a todos os tios e tias, é claro. Nunca houve uma
família mais próxima, mais amorosa que a dele, de ambos os lados. Percy
refletiu com profunda melancolia, ele era o mais afortunado dos mortais.
— A aposta, Perce, — acrescentou Arnold Biggs, visconde
Marwood, — era que você poderia embebedar Jonesey em estado do
coma antes da meia-noite – não é pouca coisa. Ele deslizou debaixo da
mesa às dez para as doze. Foi o seu ronco que finalmente nos fez decidir
que era hora de deixar o White's. Foi francamente perturbador.
— E foi assim como aconteceu. — Percy deu um grande bocejo. Esse
foi um mistério resolvido. Ele ergueu o copo, lembrou-se de que estava
vazio e colocou-o com brusquidão na mesa ao seu lado. — O diabo que
me carregue, mas a vida se tornou um aborrecimento.
— Você vai se sentir melhor amanhã depois que o choque passar,
por você ter hoje se tornar um trintão, — disse Arnold— ou eu quero
dizer hoje e ontem? Sim eu quero. A pequena mão do relógio na mantilha
aponta para três, e eu acredito. O sol não está brilhando, no entanto, por
isso deve ser o meio da noite. Embora nesta época do ano é sempre o meio
da noite.
— Por que você tem que estar entediado, Percy? — Cyril perguntou,
soando agravado. — Você tem tudo que um homem poderia pedir. Tudo.
Percy voltou sua mente para contemplar suas muitas bênçãos. Cyril estava
certo. Não havia como negar. Além da já mencionada família amorosa, com pais
que o adoravam como seu único filho, ele cresceu – seu único filho homem como
havia acontecido, embora, aparentemente fizeram um valente esforço para povoar
o berçário com irmãos e irmãs para ele. Eles tinham dado tudo que ele poderia
possivelmente querer ou precisar, e eles tinham tido os meios para fazê-lo com
estilo. Seu bisavô paterno, como o filho mais novo de um conde e apenas a
poupança de sua geração em vez do herdeiro, tinha se lançado para o comércio
elegante e acumulado uma grande fortuna. Seu filho, o avô de Percy, tinha-se
feito em uma fortuna enorme e tinha-se realçado mais quando casou com uma
mulher rica, frugal, que supostamente tinha contado cada penny que
receberam. O pai de Percy herdara tudo, exceto os dotes bastante generosos que
as suas quatro irmãs levaram em seus casamentos. E então ele duplicou e depois
triplicou sua riqueza através de investimentos astutos, e ele, por sua vez, tinha

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se casado com uma mulher que trouxera um dote saudável com ela.
Após a morte de seu pai, três anos atrás, Percy se tornara tão rico que
levaria metade do restante de sua vida apenas para contar todos os centavos que
sua avó guardara tão cuidadosamente. Ou mesmo as libras para esse assunto. E
havia Castleford House, a grande e próspera casa e propriedade em Derbyshire
que seu avô comprara, supostamente com um maço de notas, para demonstrar
suas consequências para o mundo.
Percy também tinha boa aparência. Não fazia sentido ser modesto sobre o
assunto. Mesmo que fosse míope ou a percepção do que se via no monóculo
estivesse fora de foco. Existe o fato de que ele se tornou admirável, por vezes
invejado, onde quer que ele fosse - tanto pelos homens quanto pelas mulheres. Ele
era, como várias pessoas lhe haviam dito, um homem essencialmente alto, escuro
e bonito por excelência. Ele gozava de boa saúde e sempre tinha, – bater na
madeira – levantou a mão e fez exatamente isso com os nódulos de sua mão
direita, batendo na mesa ao lado dele e colocando o copo vazio e fazendo Sid
saltar. E ele riu. Tinha todos os dentes, todos decentemente brancos e em boa
ordem mostrados agora.
Ele tinha cérebro. Depois de ter sido educado em casa por três tutores,
porque seus pais não suportaram mandá-lo embora para a escola, ele havia ido a
Oxford para estudar os clássicos e voltou três anos depois, tendo conseguido o
primeiro diploma duplo em latim e grego antigo. Ele tinha amigos e conexões.
Homens de todas as idades pareciam gostar dele, e mulheres... Bem, as mulheres
também gostavam, o que era uma sorte, porque ele gostava muito delas. Ele
gostava de encantá-las e cumprimentá-las e compor música para elas e dançar
com elas e levá-las a caminhar e passear de carruagem. Ele gostava de flertar com
elas. Se elas eram viúvas e dispostas, ele gostava de dormir com elas. E ele
desenvolveu experiência em evitar todas as armadilhas matrimoniais que foram
colocadas para ele em cada turno.
Ele tivera várias amantes, é verdade, – embora no momento não tivesse
nenhuma – todas elas extraordinariamente adoráveis e maravilhosamente
habilidosas, todas elas atrizes ou cortesãs caras muito cobiçadas por seus colegas.
Ele era forte, apto e atlético. Ele gostava de montar, de boxe, de esgrima e
tiro, e em tudo o que ele se destacou e tudo o que tinha deixado ele de alguma
forma inquieto ultimamente. Ele tinha assumido mais do que sua justa parcela

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de desafios e atreveu-se ao longo dos anos, o mais imprudente e perigoso possível.
Ele tinha saído numa corrida para Brighton em três ocasiões separadas, uma vez
em ambas as direções, e se deparou com uma diligência pesadamente carregada
na Great North Road, mas depois de subornar o cocheiro... ultrapassou os
cavalos. Havia atravessado metade de Mayfair inteiramente sobre telhados e
ocasionalmente o ar vazio entre eles, tendo sido desafiado a realizar o feito sem
tocar no chão ou fazer uso de qualquer transporte que tocasse o chão. Atravessara
também quase todas as pontes do rio Tamisa, nas proximidades de Londres – por
baixo delas. Tinha passeado por algumas das mais notoriamente aristocráticas
casas de Londres, em plena noite, sem nenhuma arma mais mortal do que uma
bengala – não uma bengala de espada. Ele tinha brigado ferozmente contra três
assaltantes daquela última façanha depois que sua bengala se quebrou em dois
pedaços, e um grande olho negro, além de um assassinato feito à sua elegância,
muito para o sofrimento quase não contido de seu valete.
Ele havia lidado com irmãos, cunhados e pais irados, sempre injustamente,
porque ele sempre teve o cuidado de não comprometer as mulheres virtuosas ou
criar expectativas que ele não tinha intenção de cumprir. Ocasionalmente, esses
confrontos também resultaram em socos, geralmente com os irmãos. Os irmãos,
por sua experiência, tendiam a ser mais atormentados do que os pais. Ele
participou de um duelo com um marido que não gostou da maneira como Percy
sorriu para sua esposa. Percy nem sequer falou ou dançou com ela. Ele sorriu
porque era linda e sorria para ele. O que ele deveria ter feito? Franzir o cenho
para ela? O marido disparou primeiro na manhã marcada, perdeu o lado da
cabeça de Percy por um quarto de milha. Percy tinha disparado, perdido a orelha
esquerda do marido por dois milímetros – ele tinha pretendido que fosse um
milímetro.
E, se tudo isso não fosse suficiente para um homem, ele tinha o título.
Títulos. Plural. O velho conde de Hardford, também o Visconde Barclay, era uma
espécie de parente de Percy, cortesia daquele grande bisavô paterno dele. Houvera
uma briga de família e estranhamento envolvendo os filhos daquele ancestral, e o
ramo mais antigo, que tinha o título e estava instalado em um lugar abandonado
perto da encosta da Cornualha, tinha sido sempre ignorado pelo ramo mais jovem
dele. O conde mais recente daquele ramo mais velho tinha tido um filho e
herdeiro, aparentemente, mas por alguma razão insondável, já que não havia
outro filho para agir como um sobressalente, esse filho tinha ido para Portugal
como um oficial militar para lutar contra os antigos exércitos de Boney e tinha
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sido morto pelos seus adversários Franceses.
Todo o drama de tal catástrofe familiar tinha se perdido no ramo atual, que
havia sido felizmente inconsciente disso. Mas tudo isso veio à tona quando o
velho conde morreu há mais de um ano, quase um dia após a morte do pai de
Percy, e descobriu-se que Percy era o único herdeiro dos títulos e do
desmoronamento da Cornualha. Pelo menos, ele supunha que provavelmente
estava desmoronando, já que a propriedade certamente não parecia estar gerando
uma renda vasta. Percy tinha aceitado o título – ele não tivera escolha, e na
verdade, em vez disso, ele se mostrara como Hardford ou, melhor ainda, como
meu senhor e não como o simples Sr. Percival Hayes. Ele aceitou os títulos e
ignorou o resto – bem, a maior parte do resto.
Ele havia sido admitido na Câmara dos Lordes com a devida pompa e
cerimônia, e proferiu seu discurso inaugural em uma tarde memorável depois de
muita escrita e reescrita, ensaiando e testando e segundo e terceiro e quarenta e
três pensamentos e noites de sonhos vívidos que beiravam um pesadelo. No final,
ele se sentou depois de agradecer os aplausos e se sentiu aliviado de saber que
nunca mais ele teria que falar uma palavra na Casa, a menos que ele escolhesse
fazê-lo. Na verdade, ele havia escolhido tantas vezes sem perder uma piscadela.
Ele estava acertando os termos com o rei e todos os duques reais, e tinha
sido mais procurado do que nunca socialmente. Ele já havia patrocinado os
melhores alfaiates e fabricantes de botas, armarinhos e barbeiros e tal, mas ele foi
reverenciado e adulado em um nível totalmente elevado depois que ele se tornou
conde. Ele sempre foi popular com todos eles, já que ele era uma raridade entre os
cavalheiros da sociedade – um homem que pagava suas contas regularmente. Ele
ainda o faz, para o evidente espanto deles. Ele passou os meses de primavera em
Londres para a sessão parlamentar e a temporada, e os meses de verão em sua
própria propriedade ou em um dos spa’s, e os meses de outono e inverno em casa
ou em uma das várias festas em que ele estava sempre sendo convidado, se
socializando, atirando, pescando, caçando de acordo com o que era mais propício
na época. A única razão pela qual esteve em Londres no início de fevereiro deste
ano foi o fato de ter imaginado o tipo de festa para seu trigésimo aniversário que
sua mãe gostaria de organizar para ele em Castleford. E como alguém diz não à
sua mãe amada? Ele não, é claro. Em vez disso, retirou-se para a cidade, como
um garoto travesso escondido das consequências de alguma brincadeira.
Sim. Para resumir. Ele era o homem mais afortunado do mundo. Não havia
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tristeza em sua vida e nunca realmente tinha havido. Existia reamente uma
grande calmaria e aura de felicidade. Ele não era um tipo de herói revoltado, ferido
e sombrio. Ele nunca tinha feito algo em que se apoiar ou algo verdadeiramente
heroico, na verdade o que era um pouco triste. Principalmente a parte heroica.
Todo homem deveria ser um herói pelo menos uma vez na vida.
— Sim, tudo — ele concordou com um suspiro, referindo-se ao que
seu primo havia dito há alguns momentos. — Eu tenho tudo isso, Cyril. E
afastar tudo isso, é o problema. Um homem que tem tudo não tem mais
nada para viver.
Um de seus dignos tutores o teria batido nitidamente sobre os nós
dos dedos com sua bengala sempre presente para quando terminasse
uma frase com uma preposição.
— Filosofando às três horas da manhã? — disse Sidney, levantando-
se para cruzar-se para o aparador. — Eu deveria ir para casa antes de
você amarrar nossos cérebros em um nó, Perce. Nós celebramos seu
aniversário com estilo no White's. Deveríamos ter ido para a cama em
nossas casas. Como chegamos aqui?
— Em uma carruagem de aluguel. —Arnold o lembrou. — Ou você
quis dizer por que viemos aqui, Sid? Porque estávamos prestes a ser
expulsos e Jonesey estava roncando e você sugeriu que viéssemos aqui e
Percy não manifestou nenhum protesto e todos nós pensamos que era a
ideia mais brilhante que você tinha tido em um ano ou mais.
— Lembro-me agora — disse Sidney enquanto enchia o copo.
— Como você pode se entediar, Percy, quando você mesmo admite
ter tudo? — Cyril perguntou, soando completamente abalado agora. —
Parece-me ingrato.
— É ingrato — concordou Percy. — Mas estou muito entediado,
mesmo assim. Pode ser que só me resta correr para Hardford Hall, nos
desertos da Cornualha, nada menos que isso. Pelo menos seria algo que
nunca fiz antes.
E agora, o que tinha colocado essa ideia em sua cabeça?
— Em fevereiro? — Arnold fez uma careta. — Não tome decisões

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precipitadas até abril, Perce. Haverá mais pessoas na cidade até lá, e o
desejo de fugir para outro lugar desaparecerá sem deixar rastro.
— Abril está a dois meses de distância — disse Percy.
— Hardford Hall! —Cyril disse com certa repulsa. — O lugar está
no fundo do além, não é? Não haverá nenhuma ação para você lá,
Percy. Nada além de ovelhas e charnecas vazias, posso te prometer. E
vento, chuva e mar. Levaria uma semana só para chegar lá.
Percy levantou as sobrancelhas. — Só se eu fosse montar um cavalo
coxo, — disse ele. — Não tenho cavalos coxos, Cyril. Vou tirar todas as
teias de aranha das vigas da casa quando eu chegar lá, devo fazer isso, e
convidá-los para uma grande festa?
— Você não está falando sério, não é, Perce? — perguntou Sidney
sem se corrigir.
Ele estava? Percy pensou um pouco no assunto, de forma confusa. A
sessão do parlamento e a alta temporada entrariam em ação assim que
passasse a Páscoa e, além de alguns novos rostos e algumas mudanças
inevitáveis na moda para garantir que todos continuassem indo para
alfaiates e modistas, não haveria absolutamente nada de novo para
reavivar seus espíritos. Ele estava ficando um pouco velho para todos os
atrevimentos e frivolidades que o tinham mantido divertido através da
maioria dos seus vinte anos. Se ele fosse para casa em Derbyshire em vez
de ficar aqui, sua mãe, independentemente dele, organizaria uma festa
de aniversário tardia em sua honra, que o céu o ajudasse. Ele poderia
tentar envolver-se possivelmente em negócios na propriedade se ele fosse
lá, mas ele logo iria encontrar-se, como de costume, sendo visto com
tolerância dolorosa por seu administrador muito competente. O homem
intimidava-o bastante.
Por que não ir para a Cornualha? Talvez a melhor resposta para o
tédio não era tentar fugir dele, mas sim correr para ele, fazer tudo em seu
poder para torná-lo ainda pior. Agora havia um pensamento. Talvez não
devesse tentar pensar quando estava embriagado. Certamente não era
sábio tentar planejar enquanto a mente racional estava em tal condição
prejudicada. Ou falar sobre seus planos com homens que esperariam que
ele os transformasse em ação só porque era o que sempre fazia. Ele
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poderia muito bem querer mudar de ideia quando a manhã e sobriedade
viesse. Não, melhor fazer aquela tarde.
— Por que não falaria a sério? — Ele não perguntou a ninguém em
particular. — Eu já tenho o lugar há dois anos, mas nunca o vi. Eu deveria
aparecer mais cedo ou mais tarde – ou, neste caso, mais tarde, em vez de
mais cedo. Senhor da mansão e tudo isso. Indo lá vai passar algum tempo,
pelo menos até que as coisas se animem um pouco em Londres. Talvez
depois de uma semana ou duas eu ficarei feliz em voltar para cá,
contando minhas bênçãos com cada milha percorrida. Ou quem
sabe? Talvez eu me apaixone pelo lugar e permaneça lá para todo o
sempre, amém. Talvez eu seja feliz por ser Hardford de Hardford Hall.
Ainda não tive muita chance para isso, não é? Você pensaria que o conde
original teria imaginado formular um nome melhor para o acervo, você
não acha? Monte Hall, talvez? Hardford de Monte Hall?
Senhor, ele estava bêbado.
Três pares de olhos estavam olhando para ele com vários graus de
incredulidade. Os donos daqueles olhos também pareciam ligeiramente
despenteados e no seu pior estado.
— Se todos vocês me derem licença, — Percy disse, empurrando-se
abruptamente para levantar-se e descobrindo que pelo menos ele ainda
não estava caindo bêbado. — É melhor eu escrever para alguém em
Hardford e avisá-los para que eles comecem a varrer as teias de aranha. A
governanta, o mordomo se houver. O administrador, se... sim, por Jove!,
há um desses. Ele regularmente me envia um relatório de cinco linhas em
caligrafia microscópica regularmente todos os meses. Vou escrever para
ele. Avisá-lo para comprar uma grande vassoura e encontrar alguém que
saiba como usá-la.
Ele bocejou atá que sua mandíbula rangeu e ficou de pé, e foi então
que ele viu que todos seus amigos tinham se levantado, caminharam
direto pela porta da frente e desceram os degraus para a praça além. Ele
observou para se certificar de que todos permanecessem andando e
encontrassem seu caminho para fora da praça.
Ele sentou-se para escrever sua carta antes de desistir, e depois outra
para sua mãe, explicando para onde ele estava indo. Ela se preocuparia
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com ele se simplesmente desaparecesse da face da terra. Deixou as duas
missivas na bandeja no corredor para ser enviadas pela manhã e seguiu
para seu quarto. Seu criado estava esperando por ele em seu camarim,
apesar de ter sido informado de que não precisava fazê-lo. O homem
gostava de ser um mártir.
— Estou bêbado, Watkins — anunciou Percy — e tenho trinta
anos. Eu tenho tudo, como meu primo acaba de me lembrar, e eu estou
tão entediado que sair da cama de manhã está começando a parecer um
esforço inútil, pois eu só tenho que voltar para ela na noite seguinte.
Amanhã - ou melhor, hoje - você pode fazer as malas para o campo.
Estamos indo para a Cornualha. Para Hardford Hall. A moradia do
conde. Eu sou o conde.
— Sim, senhor — disse Watkins, a indiferente dignidade de sua
expressão imutável. Ele provavelmente teria dito o mesmo e pareceria o
mesmo se Percy tivesse anunciado que eles estavam indo para a América
do Sul para fazer uma excursão pelo rio Amazonas em busca de
caçadores de cabeças. Havia caçadores de cabeças na Amazônia?
Não importa. Ele estava indo para a Cornualha. Ele deve estar
louco. No mínimo. Talvez a sobriedade traria um retorno da sanidade.
Amanhã.
Ou ele quis dizer mais tarde hoje? Sim, era isso. Ele acabara de dizer
isso a Watkins.

VtÑ•àâÄÉ
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Imogen Hayes, Lady Barclay, estava a caminho de Hardford Hall,


sua atual casa, vindo da aldeia de Porthdare, a duas milhas de distância.
Normalmente ela andava aquela distância no cabriolé, mas hoje ela tinha
decidido que ela precisava de exercício. Ela tinha caminhado até a aldeia
ao longo da estrada, mas escolheu voltar pelo caminho do penhasco.
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Acrescentaria uma meia milha extra para a distância, e a subida pelo vale
do rio em que a aldeia estava situada era considerado muito mais
íngreme do que a inclinação mais gradual da estrada. Mas ela realmente
gostava de forçar os músculos de suas pernas e ver a paisagem aberta do
mar para a direita e para trás, para a aldeia mais abaixo, com suas casas
de pescadores agrupadas ao redor do estuário e os barcos balançando em
suas águas.
Ela apreciava o choro triste das gaivotas, que se entrelaçavam e
mergulhavam acima e abaixo dela. Ela amava a selvageria dos arbustos
de tojo que cresciam em profusão ao seu redor. O vento estava frio e
cortante, embora fosse nas suas costas, mas ela amava o som selvagem e
o cheiro salgado no ar e a profunda sensação de solidão que trazia. Ela
segurou as bordas de sua capa de inverno com as mãos enluvadas. Seu
nariz e suas bochechas provavelmente estavam escarlates e brilhavam
como faróis.
Ela tinha ido visitar sua amiga Tilly Wenzel, a quem não via desde
antes do Natal, já que Imogen tinha ido passar o mês de janeiro na casa
de seu irmão, em sua antiga casa de infância, a vinte milhas a nordeste.
Havia uma nova sobrinha para conhecer, além de três sobrinhos para se
preocupar. Ela gostara daquelas semanas, mas não estava acostumada ao
barulho e à agitação e à incessante obrigação de ser sociável. Ela estava
acostumada a viver sozinha, embora nunca tivesse planejado ser eremita.
O Sr. Wenzel, o irmão de Tilly, tinha se oferecido para traze-la para
casa, apontando que a viagem de regresso era toda subindo, e bastante
inclinada em algumas partes. Porém, ela tinha recusado, usando como
desculpa que ela realmente deveria visitar a velha Sra. Park, que estava
confinada em sua casa desde que ela tinha caído recentemente e tinha
machucado seu quadril. Fazer aquela visita, é claro, significara ficar
sentada durante quarenta minutos, ouvindo cada detalhe horrível
daquele acidente. Mas as pessoas idosas às vezes eram solitárias, Imogen
entendia, e quarenta minutos de seu tempo não eram realmente um
grande sacrifício. Caso ela tivesse permitido que o Sr. Wenzel a trouxesse
para casa, ele teria relembrado como sempre fazia, sobre seus dias de
infância com Dicky, o falecido marido de Imogen, e então ele teria
entrado para as intrigas amorosa incomuns usuais para ela.

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Imogen parou para recuperar o fôlego quando estava acima do vale
e o caminho do penhasco se nivelou um pouco ao longo do planalto
acima dele. Ainda inclinava-se gradualmente para cima na direção do
muro de pedra que cercava o parque em torno de Hardford Hall em três
lados – os penhascos e o mar formaram o quarto lado. Ela se virou para
olhar para baixo enquanto o vento chicoteava a aba de seu chapéu e quase
lhe tirou seu fôlego. Seus dedos formigavam dentro de suas luvas. O céu
cinzento se estendia acima, e o mar cinza, coberto de espuma, se estendia
por baixo. Penhascos rochosos cinzentos caíam abruptamente depos da
borda do trajeto. Cinza estava em toda parte. Até sua capa era cinza.
Por um momento, seu humor ameaçou seguir o mesmo caminho.
Mas ela balançou a cabeça, afastando firmemente esses pensamentos e
continuou seu caminho. Ela não cederia à depressão. Era uma batalha
que ela lutava frequentemente, e ela não tinha perdido ainda.
Além disso, haveria a visita anual a Penderris Hall, a trinta e cinco
milhas de distância, no lado leste da Cornualha, que aconteceria no
próximo mês, muito em breve. Era a propriedade de George Crabbe,
duque de Stanbrook, primo segundo de sua mãe e um de seus amigos
mais queridos neste mundo – um dos seis desses amigos. Juntos, os sete
formavam o denominado Clube dos Sobreviventes.
Eles tinham passado três anos juntos em Penderris, todos sofrendo
os efeitos de várias feridas sofridas durante as Guerras Napoleônicas,
embora nem todas essas feridas tivessem sido físicas. Sua própria não
tinha sido. Seu marido havia sido morto em cativeiro e sob tortura em
Portugal, e ela tinha estado lá e testemunhado o seu sofrimento. Ela havia
sido libertada do cativeiro depois de sua morte, e retornou ao regimento
com toda a pompa e cortesia de um coronel francês sob uma bandeira de
trégua. Mas ela não tinha sido poupada.
Depois desses três anos em Penderris, eles haviam se separado, os
sete, exceto George, é claro, que já estava em casa. Mas eles haviam
concordado em reunir-se novamente a cada ano durante três semanas no
início da primavera.
No ano passado, eles tinham ido para Middlebury Park, em
Gloucestershire, que era a casa de Vincent, visconde Darleigh, porque sua

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esposa acabara de parir seu primeiro filho e ele não estava disposto a
deixar qualquer um deles.
Este ano, para a quinta reunião, e eles estavam voltando para
Penderris. Mas aquelas semanas, onde quer que eles estivessem, eram de
longe as favoritas de Imogen durante todo o ano. Ela sempre odiou ter
de partir no final de cada encontro, embora ela nunca tenha mostrado
muito aos outros. Ela os amava muito e incondicionalmente, aqueles seis
homens adoráveis. Não havia nenhum componente sexual para o seu
amor, mesmo com todos eles sendo muito atraentes, sem exceção. Ela os
conhecera num momento em que a ideia de tal atração, atrativo amoroso
ou qualquer atração estava fora de questão. Então, em vez disso, ela
passou a adorá-los. Eles eram seus amigos, seus companheiros. Seus
irmãos, seu coração e alma.
Ela limpou uma lágrima em sua bochecha com uma mão impaciente
enquanto caminhava. Apenas mais algumas semanas para esperar...
Ela chegou no limite que separava a estrada pública da estrada
privada, na entrando no parque. Lá havia uma bifurcação em dois
caminhos, e por puro hábito pegou o da direita, esse que conduzia a sua
pequena casa ao invés do que levava a casa principal. Era a casa da viúva
no canto sudoeste do parque, perto dos penhascos, mas ficava num
terreno protegido dos vendavais por rochas altas e salientes, cercada por
arbustos, em forma de uma ferradura. Ela tinha perguntado se poderia
viver lá depois que ela voltou daqueles três anos em Penderris. Ela
gostava do pai de Dicky, o Conde de Hardford, por mas indolente que
ele fosse, e gostava muito da tia Lavínia, sua irmã solteirona, que morara
toda sua vida em Hardford. Mas Imogen tinha sido incapaz de enfrentar
a perspectiva de morar na mesma casa com eles.
Seu sogro não ficara nada satisfeito com seu pedido. A casa da viúva
tinha sido negligenciada por um longo tempo, ele tinha protestado, que
não era muito habitável. Mas, pelo que Imogen podia ver, não havia nada
de errado que um bom esfregão e ventilação não iria resolver, embora
mesmo assim o telhado não estivesse no seu melhor estado.
Foi só depois que o conde cedeu aos seus argumentos que Imogen
entendeu a verdadeira razão para sua relutância. A adega da casa da

16
viúva tinha sido usada regularmente como um lugar de armazenamento
para mercadorias contrabandeadas. O conde era parcial ao seu conhaque
francês e, presumivelmente, era mantido bem abastecido a um custo bem
baixo, ou talvez sem nenhum custo, por uma gangue de contrabandistas
agradecidos a ele por permitir suas operações na área.
Tinha sido perturbador, no entanto, descobrir que seu sogro
continuava envolvido nesse negócio clandestino, vicioso, exatamente
como ele tinha estado ainda quando Dicky encontava-se em casa. Seu
envolvimento tinha gerado sérias controvérsias entre pai e filho e foi o
fator principal na decisão de seu marido ter se juntado ao exército em vez
de ficar e guerrear contra seu próprio pai.
O conde tinha concordado em esvaziar a adega de qualquer
contrabando restante e selar a porta de acesso externo. Ele tinha mudado
a fechadura da porta da frente e depois de juntar todas as chaves,
entregou-as a Imogen. Ele mesmo lhe assegurou espontaneamente que
iria pôr fim ao comércio de contrabando no trecho particular da costa que
fazia fronteira com a propriedade de Hardford, embora Imogen nunca
tivesse depositado muita fé em sua palavra. Ela nunca tinha feito
nenhuma menção sobre contrabando para qualquer pessoa, na teoria de
que “se ela não sabia logo não a machucariam”. Era uma atitude moralmente
fraca para se ter, mas... bem, ela não pensou muito sobre isso. Ela tinha
se mudado para a casa da viúva e tinha sido feliz lá desde então, ou tão
feliz como ela poderia ser, de qualquer maneira.
Ela parou agora no portão do jardim e olhou para cima. Mas não...
nenhum milagre aconteceu desde ontem. A casa ainda não tinha telhado.
O telhado vazava desde que Imogen fora morar na casa, mas no ano
passado tantos baldes tiveram que ser colocados para pegar os pingos
quando choveu que mover-se no andar de cima tinha começado a se
assemelhar a uma pista de obstáculos. Claramente, remenda-lo já não
seria suficiente. Todo o telhado precisava ser substituído, e ela tinha
planejado providenciar para que todo o trabalho fosse feito na primavera.
Durante uma tempestade particularmente terrível em dezembro, no
entanto, uma grande porção do telhado tinha sido arrancada apesar da
posição protegida da casa, e ela não tinha tido outra escolha senão fazer
os arranjos para que o trabalho fosse realizado no pior momento do ano.
17
Felizmente havia um carpinteiro na vila de Meirion, seis milhas rio acima.
Ele havia prometido ter o novo teto no lugar antes que ela voltasse do seu
irmão, e o tempo tinha cooperado.
Quando retornou há apenas uma semana, porém, foi que descobriu
que o trabalho ainda não havia nem começado. O carpinteiro, quando
confrontado, tinha explicado que ele estava esperando que ela voltasse
para que ele soubesse exatamente o que ela queria – aparentemente um
novo telhado não tinha sido suficientemente claro. Seus trabalhadores
deveriam estar aqui esta semana, mas até agora eles tinham sido notáveis
em sua ausência. Ela ia ter que enviar um dos cavalariços com outra carta
de queixa.
Foi muito frustrante, pois ela tinha sido forçada a mudar-se para
Hardford Hall até que o trabalho estivesse terminado. Não era nenhuma
dificuldade particular, ela dizia a si mesma. Pelo menos ela tinha um
lugar para onde ir. E ela sempre amou a tia Lavínia. Durante o primeiro
ano após a morte de seu irmão, porém, ocorreu a tia Lavínia, gentilmente,
que ela deveria ter uma companheira. A senhora que ela escolhera era a
Sra. Ferby, a prima Adelaide, uma viúva idosa, que gostava de explicar
com sua voz profunda e penetrante a qualquer pessoa que não tivesse
escolha a não ser ouvir que ela estivera casada havia sete meses quando
tinha dezessete anos. Ficara viúva antes de completar dezoito anos, e
assim fugiu afortunadamente da escravidão do matrimônio.
Durante alguns anos após o falecimento do seu marido, a prima
Adelaide tinha feito visitas supostamente curtas a seus parentes infelizes,
uma vez que ela tinha sido deixada mal financeiramente, então ela ficava
por ali até que alguém na família a convidava a fazer uma visita curta em
algum outro lugar. Tia Lavínia, no entanto, a convidara voluntariamente
a morar indefinidamente em Hardford, e a prima Adelaide chegara
prontamente e se instalara. Tia Lavínia tinha recolhido mais um. Ela os
coletava como outras pessoas podem coletar conchas ou caixas de rapé.
Não, não era uma grande dificuldade ser forçada a ficar na casa
principal, Imogen disse a si mesma com um suspiro enquanto se afastava
da visão deprimente de sua casa sem telhado. Só que agora, muito em
breve, estar lá ia ficar muito pior, pois o conde de Hardford estava vindo
para Hardford Hall.
18
Esse carpinteiro merecia ser chicoteado.
O novo conde estava chegando por um período indeterminado de
tempo. Seu título, na verdade, não era muito novo. Ele tinha estado na
posse dele desde a morte do sogro de Imogen, dois anos atrás, mas ele
não tinha nem escrito na época, nem comparecido, nem monstrou
qualquer outro interesse na sua herança. Não houve nenhuma carta de
condolências a tia Lavínia, nada. Tinha sido fácil esquecer tudo sobre ele,
na verdade, fingir que ele não existia, e esperar que ele tivesse esquecido
tudo sobre eles.
Eles não sabiam nada sobre ele, por estranho que parecesse. Ele
podia ter qualquer idade entre os dez e os noventa anos, embora noventa
parecessem improváveis, assim como dez, uma vez que a carta que fora
entregue ao mordomo de Hardford esta manhã aparentemente fora
escrita pelo próprio conde. Imogen a tinha visto. Tinha sido rabiscada em
uma mão bastante desleixada, embora inequivocamente adulta, e tinha
sido breve. Tinha informado ao Sr. Ratchett que sua senhoria pretendia
vagar até a ponta da Cornualha, já que ele não tinha muito mais o que
fazer no momento e que ele ficaria agradecido se ele pudesse encontrar
Hardford Hall em condições razoavelmente habitáveis. E na posse de
uma vassoura.
Era uma carta extraordinária. Imogen suspeitou que o homem que
o escrevera, presumivelmente o próprio conde, já que tinha assinatura na
mesma mão que a própria carta, estava bêbado quando a escreveu.
Não era uma perspectiva tranquilizadora.
De posse de uma vassoura?
Eles não sabiam se ele era casado ou solteiro, se ele estava vindo
sozinho ou com uma esposa e dez filhos, se ele estaria disposto a
compartilhar o corredor com três parentes do sexo feminino ou esperaria
que eles se mudassem para a casa da viúva, com telhado ou sem telhado.
Eles não sabiam se ele era amável ou irritante, gordo ou magro, bonito ou
feio. Ou um bêbado. Mas ele estava vindo. Vagando sugeria um lento
progresso. Eles quase certamente tinham uma semana para se preparar
para sua chegada, provavelmente mais tempo.

19
Vagando até a ponta da Cornualha ...de fato. Em fevereiro.
Não tinha muito mais o que fazer no momento.
Qual tipo de homem ele era?
E o que uma vassoura tem a ver com alguma coisa?
Imogen seguiu para a casa principal, com passos lentos, apesar do
frio. A pobre Tia Lavínia tinha estado agitada quando Imogen saiu mais
cedo. Assim como a Sra. Attlee, a governanta e a Sra. Evans, a cozinheira.
A prima Adelaide, bastante serena e firmemente instalada em sua cadeira
habitual junto ao fogo da sala de visitas, declarara com firmeza que o
inferno iria congelar antes que ela se empolgasse com a chegada iminente
de um mero homem. Embora aquele homem estivesse inconscientemente
lhe proporcionando uma casa naquele exato momento. Imogen havia
decidido que era um bom momento para caminhar até a aldeia para fazer
uma visita para sua amiga Tilly.
Mas ela não poderia atrasar mais seu retorno. Oh, como ela desejava
a solidão da casa da viúva.
Um dos cavalariços estava conduzindo um cavalo na direção dos
estábulos, ela podia ver quando se aproximou pelo gramado. Era um
cavalo desconhecido, um castanheiro magnífico que ela certamente
reconheceria se pertencesse a algum de seus vizinhos.
Quem... ?
Possivelmente...
Mas não, era cedo demais. Talvez fosse outro mensageiro que ele
havia enviado adiante. Mas... Naquela esplêndida montanha? Ela se
aproximou das portas da frente com uma sensação de mau presságio. Ela
abriu uma delas e entrou.
O mordomo estava lá, parecendo impassível como sempre. E um
estranho cavalheiro estava lá também.
A primeira impressão de Imogen sobre ele foi de uma energia
masculina quase esmagadora. Ele era alto e bem formado. Ele estava
vestido para viagem em um longo casaco com pelo menos uma dúzia de
capas de ombro e em botas de couro preto que pareciam flexível e caras,
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apesar da camada de poeira com a qual estavam cobertas. Ele usava um
chapéu alto e luvas de couro bege. Em uma das mãos ele segurava um
chicote. Seu cabelo, ela podia ver, era muito escuro, seus olhos muito
azuis. E ele era absolutamente bonito e muito atraente.
Sua segunda impressão, logo após a primeira, foi que ele pensava
muito em si mesmo e muito pouco nas outras pessoas. Ele parecia
impaciente e insuportavelmente arrogante. Ele se virou, olhou para ela,
olhou para a porta atrás dela, que ela tinha fechado, e olhou para ela com
sobrancelhas erguidas e perfeitamente arqueadas.
— E quem diabos você poderia ser? — Ele perguntou.

******
Tinha sido uma longa e tediosa – para não mencionar fria – jornada,
a maio parte da qual Percy tinha realizado a cavalo. Seu cavalariço estava
dirigindo sua carruagem, em algum lugar atrás dele, e na sua carruagem
de bagagem, vinha um Watkins estupidamente amuado, cercado por
tantos baús, malas e bolsas, tanto dentro como fora do veículo, que seu
esplendor cintilante deve estar praticamente perdido sobre os mortais
potencialmente admiradores de menor importância por quem ele tinha
passado em sua jornada. Watkins não gostaria disso. Mas ele já estava
emburrado – amuado – porque queria acrescentar mais uma carruagem
de bagagem, não para espalhar a carga entre o condução e a carruagem,
mas para dobrá-lo. Percy se recusara.
Eles ficariam aqui por uma ou duas semanas no máximo, pelo amor
de Deus. Sentira, cavalgando de Devon a Cornualha, que ele estava
deixando a civilização para trás e fazendo um caminho para o deserto. O
cenário era acidentado e sombrio, o mar sempre presente era cinzento
combinando com o céu. O sol nunca brilha nesta parte do mundo? Mas a
Cornualha não era considerada ser mais quente do que o resto da
Inglaterra? Ele não tinha acreditado muito.
Quando avistou Hardford, Percy estava mais do que entediado. Ele
estava irritado. Com ele mesmo. O que na terra o tinha possuído? A
resposta era óbvia, claro. O licor o possuíra. No ano que vem, ele iria
encontrar uma maneira diferente de comemorar seu aniversário. Ele
colocaria uma cadeira perto do fogo em casa, se embrulharia num xale de
21
lã sobre os ombros, apoiaria os pés em frente a lareira, colocaria a chícara
de chá com leite ao lado dele e leria Homero - em grego. Ah, e adicionaria
uma bebida para sua cabeça.
Hardford Hall foi construída à vista do mar, um fato que não o
surpreendia. Onde mais alguém poderia construir na Cornualha? Os
quartos voltados para a frente, especialmente os da parte superior, teriam
uma visão panorâmica muito apreciada sobre o vasto abismo – se esses
quartos fossem habitáveis, e pelo que ele estava vendo não era apenas
uma fachada vazia que escondia escombros. E como evidências perante
seus olhos mostrava que também não era uma pilha desmoronada.
A fachada da casa era em pedra sólida cinzenta, estilo palladiano,
mais como um palácio do que uma casa de campo, e embora houvesse
hera nas paredes, parecia que tinha sido mantida sob controle por alguma
mão humana. A casa tinha sido construída em um ligeiro declive, tipo
subindo, presumivelmente para que parecesse impressionante. Mas
também era protegida por trás e parcialmente de cada lado, dentro dos
braços de uma rocha com árvores e do que provavelmente eram jardins
de pedras coloridas durante o verão. Seu posicionamento, assim,
provavelmente a salvou de ser levada pelos ventos predominantes e
colocada em algum lugar em Devon ou Somerset. O vento parecia ser
uma característica sempre presente nesta parte da Alegre Inglaterra.
Havia penhascos íngremes bem a vista, mas pelo menos a casa não
estava construída na borda deles. Na verdade, ficava a uma distância
considerável. E, até onde ele podia ver, a casa estava cercada por um
parque murado, que, como a hera, parecia ter sido mantido em ordem
decente. Alguém tinha aparado a grama antes do início do inverno e
poldado as árvores. Havia canteiros de flores vazios de flores, claro, mas
também vazios de ervas daninhas. Parecia que uma linha de arbustos de
tojo, em vez de uma parede, separava o parque dos penhascos.
No momento em que ele entrou cavalgando no terraço da casa e
esperou que o cavalariço que tinha colocado a cabeça para fora do bloco
do estábulo, viesse e levasse seu cavalo embora, Percy estava esperançoso
de que pelo menos ele não teria que gastar o resto do dia varrendo teias
de aranha arrebatadoras. Talvez ele realmente tivesse uma equipe aqui –
uma governanta, de qualquer maneira. Havia, afinal, pelo menos um
22
cavalariço do lado de fora, e deve haver um jardineiro ou dois. Talvez –
ousasse esperar? – havia até uma cozinheira. Talvez houvesse até mesmo
uma lareira em um dos quartos. E de fato, um olhar para cima em direção
ao telhado revelou a visão bem-vinda de uma linha de fumaça saindo de
uma das chaminés.
Subiu os degraus até as portas da frente, observando que o chão fora
varrido recentemente, ele podia ver, que a aldrava de latão havia sido
polida também. Ele desprezou seu uso, no entanto, e girou as duas
maçanetas, e descobriu que as portas estavam destrancadas, e entrou –
num salão agradavelmente proporcionado com lajotas preto e branco sob
os pés, móveis velhos e pesados de madeira escura polidos e brilhosos, a
um brilho permanente, e velhos retratos pendurados nas paredes em suas
molduras pesadas, o mais proeminente deles, mostrava um cavalheiro
em uma grande peruca branca, um casaco pesadamente bordado, calções
nos joelhos com meias brancas e sapatos com rosetas e saltos altos
vermelhos. Quatro elegantes cães de caça foram dispostos em um quadro
agradável sobre ele.
Um antigo conde, ele assumiu. Talvez um de seus antepassados?
Por alguns instantes, o salão permaneceu vazio, e Percy sentiu-se
aliviado pelo lugar estar obviamente limpo e bem cuidado, mas também
a mistificação quanto ao motivo. Para quem exatamente a casa e os
terrenos estavam sendo mantidos? Quem diabos estava morando aqui?
Um homem idoso de cabelos grisalhos rangia no corredor das
regiões inferiores. Ele poderia muito bem ter a palavra “mordomo”
tatuado em sua testa. Ele não poderia ser qualquer outra coisa. Mas... um
mordomo para uma casa vazia?
— Eu sou Hardford, — disse Percy secamente, batendo o chicote
contra o lado de sua bota.
— Meu senhor — disse o mordomo, inclinando o corpo para a
frente, mais ou menos uns dois centímetros, e rangendo alarmantemente.
Espartilhos? Ou apenas ossos velhos?
— E você é? — Percy fez um movimento impaciente circular com a
mão livre.

23
— Crutchley, meu senhor.
Ah, um homem de poucas palavras. E então um gato malhado de
aparência sarnenta correu para o corredor, parou no meio do caminho,
arqueou as costas, rosnou para Percy como se tivesse o confundido com
um cão e saísse correndo novamente.
Se havia algo que Percy abominava, ou melhor, uma classe de
coisas, eram gatos.
E então uma das portas da frente se abriu e fechou atrás de suas
costas, e ele se virou para ver quem tinha tido o descaramento de entrar
na casa pela entrada principal, sem um único toque sobre a aldrava.
Era uma mulher. Ela era jovem, embora não fosse uma menina. Ela
estava vestida com um casaco cinza e chapéu, talvez para que ela se
misturasse em invisibilidade no exterior. Ela era alta e esguia, embora
fosse impossível com o manto saber se havia algumas curvas para torná-
la interessante. Seu cabelo era quase loiro, mas não completamente. Não
estava muito visível sob o chapéu, nem um único cacho. Seu rosto era um
oval longo com maçãs do rosto altas, olhos larguíssimos de cinza ardósia,
nariz reto e uma boca larga que parecia estar cobrindo dentes levemente
salientes. Ela parecia um pouco como se tivesse saído de uma saga
nórdica. Poderia ser um rosto bonito se houvesse alguma expressão para
animá-lo. Mas ela apenas olhava para ele, como se o estivesse avaliando.
Em sua própria casa.
Essa foi a primeira impressão de Percy. E, seguindo rapidamente a
primeira, notou que ela parecia tão sexualmente atraente quanto um pilar
de mármore1. E, estranhamente ele sabia, que ela era um problema. Ele não
estava acostumado a lidar com mulheres frias – e que andavam sem ser
anunciadas e sem convite em sua própria casa e olhavam para ele sem
admiração, sem vergonha ou qualquer artifício feminino reconhecível.
Embora os blushes fossem difíceis de detectar. Ambas as bochechas mais
a ponta do nariz eram de um vermelho brilhante do frio. Pelo menos a
cor provou que ela não era literalmente de mármore.
— E quem diabos você poderia ser? — Ele perguntou a ela.

1
Pilar de Mármore – Pessoa que não costumam demonstrar reação alguma. Pessoa frígida.
24
Ela tinha provocado a grosseria nele ao entrar sem sequer a cortesia
de uma batida na porta. No entanto, ele não estava acostumado a ser rude
com as mulheres.
— Imogen Hayes, Lady Barclay, — ela disse a ele.
Bem, isso era um golpe certeiro. Se tivesse chegado ao fim de um
punho, certamente o teria colocado no chão.
— Estou sofrendo de amnésia? — Perguntou ele. — Eu casei com
você e esqueci tudo sobre isso? Parece que me lembro que sou Lord
Barclay. O visconde, para ser exato.
— Se você tivesse se casado comigo — disse ela, — que, o céu seja
louvado, você não o fez, então eu teria me apresentado como condessa
de Hardford, não é mesmo? Você é o conde, presumo?
Ele se virou para encará-la mais plenamente. Ela tinha uma voz
baixa e aveludada – que se sobrepunha ao veneno. E os dentes dela não
se projetaram. Era apenas que seu lábio superior tinha uma leve
ondulação para cima. Era uma característica potencialmente interessante.
Pode até ser uma característica atraente se ela estivesse seduzindo. Ela
não estava, no entanto.
Ele não estava acostumado a sentir animosidade em relação a
nenhuma mulher, especialmente a uma jovem mulher. Parecia que ele
estava fazendo uma exceção no caso desta mulher.
A compreensão apareceu.
— Você é a viúva do filho do meu antecessor — disse ele.
Ela ergueu as sobrancelhas.
— Eu não sabia que ele tinha um, — explicou ele. — Uma esposa,
quero dizer. Uma viúva agora. E você mora aqui?
— Temporariamente — disse ela. — Geralmente, eu moro na casa
da viúva que fica ali. — Apontou para o que ele pensava ser uma direção
ocidental. — Mas o telhado da casa está sendo substituído.
Suas sobrancelhas se juntaram. — Eu não fui informado da despesa
— ele disse a ela.

25
Suas próprias sobrancelhas levantaram-se. — Não é sua despesa —
informou ela. — Não sou uma pobre coitada.
— Você está gastando dinheiro em uma propriedade que se
presume pertence a mim? — ele erguntou a ela.
— Sou a nora do falecido conde — disse ela, — a viúva do filho. Eu
considero a casa da viúva minha para todos os propósitos práticos.
— E o que vai acontecer quando você voltar a casar? — perguntou.
— Será então solicitado a mim que lhe reembolse o custo do telhado?
E por que diabos ele estava entrando nisso quando mal tinha pisado
na soleira da porta? E por que ele estava sendo tão abominavelmente
deselegante? Porque ele achava mulheres frias ofensivas? Não, não no
plural. Ele nunca tinha conhecido uma antas. Seus olhos, potencialmente
adoráveis, eram absolutamente frios.
— Isso não vai acontecer — disse ela. — Não me casarei novamente
e não pedirei o retorno do meu dinheiro.
— Ninguém vai ter você? — Agora ele tinha mergulhando sobre a
borda de civilidade. Ele deveria se desculpar logo e agora. Ele fez uma
careta para ela. — Quantos anos você tem?
— Não estou convencida, — disse ela, — de que a minha idade é
uma das suas preocupações. Nem tampouco a lista de meus futuros
pretendentes ou falta dela. Sr. Crutchley, atrevo-me a dizer que o conde
de Hardford gostaria de ser levado aos seus aposentos para lavar a poeira
da viagem e tocar de roupa. Coloque a bandeja de chá na sala de estar em
meia hora, por favor. Lady Lavínia está ansiosa para conhecer seu primo.
— Lady Lavínia? — Ele perfurou-a com um olhar.
— Lady Lavínia Hayes — explicou, — irmã do falecido conde. Ela
mora aqui. Assim, no momento, faz a Sra. Ferby, sua acompanhante e
prima materna.
Seus olhos penetraram mais profundamente nela. Mas não havia a
menor possibilidade de que ela estivesse brincando com ele. — Não na
casa da viúva quando esta tem um telhado?
— Não, aqui — disse ela. — Sr. Crutchley, por favor?
26
— Siga-me, milorde — disse o mordomo quando Percy ouviu o
barulho de rodas que se aproximavam do lado de fora. Sua carruagem,
ele adivinhou. Por um breve momento, ele pensou em atravessar a porta
e descer as escadas e pular dentro da sua carruagem e ordenar que seu
cocheiro saltasse sobre os cavalos, de preferência em direção a Londres.
Mas seria uma pena deixar seu cavalo favorito para trás.
Voltou-se, em vez disso, para seguir o retrocesso do mordomo.
Watkins e a bagagem estariam por algum tempo, ainda. Lady Barclay e
Lady Lavínia Hayes e Mrs. Ferby teriam que levá-lo em toda a sua glória
empoeirada para o chá.
Três mulheres. Maravilhoso! Uma cura certa para o tédio e tudo o
mais que o afligia.
Isso o ensinaria a tomar decisões impulsivas, enquanto ele estivesse
embriagado.

VtÑ|àâÄÉ F

— Senti os lençóis com minhas próprias mãos — disse tia Lavínia.


— Tenho certeza de que eles foram bem arejados. Espero que ele fique
confortável ao dormir com eles.
— Claro que ele vai — Imogen assegurou-lhe. Todos os lençóis em
Hardford eram bem arejados, já que eles estavam armazenados no
armário de ventilação quando não estavam em uso.
— A menos que ele seja um homem idoso e já tenha reumatismo —
acrescentou tia Lavínia. — Ele é idoso, Imogen?
— Ele não é — Imogen disse a ela.
— E ele é casado? Há crianças? E eles e sua esposa vieram juntos
para cá? Oh, é muito triste que nós sabemos tão pouco sobre ele. Eu não
mantenho brigas familiares. Eu nunca tenho. Se não pode haver paz,
27
harmonia e amor entre as famílias, então para que servem as famílias?
— Mostre-me uma família que afirma viver em paz, harmonia e
amor, Lavínia — disse a prima Adelaide — e eu vou liderar a caçada por
todos os esqueletos nos armários. Tanta confusão sobre um homem.
— Não posso acreditar — disse tia Lavínia — que eu estava tão
ocupada vendo se tudo estava pronto para ele, que não o ouvi chegar.
Mas não poderíamos saber que ele viria tão cedo, poderíamos? O que ele
vai pensar de mim?
— Você precisa ser mais como eu, Lavínia, — disse a prima
Adelaide, — e não se importar com o que alguém pensa de você. Pelo
menos um homem.
Tia Lavínia tinha ficado realmente horrorizada ao saber que ela
tinha perdido a chegada do conde e o dever de fazer-lhe uma reverência
em sua chegada e desejar-lhe boas-vindas. Agora ela estava sentada na
sala de visitas, um pouco envergonhada, aguardando a aparição do
conde para o chá.
— Eu não pensei em perguntar se ele é casado — disse Imogen. Se
ele fosse, ela sentia pena da condessa, do fundo do coração. Ela não
costumava levar as pessoas em aversão, pelo menos não no primeiro
contato. Mas o conde de Hardford era tudo o que ela mais abominava em
um homem. Ele foi rude, autoritário e arrogante. E, sem dúvida, nunca
houve ninguém para contradizê-lo. Ele era o tipo de homem que seria
admirado e seguido servilmente pelos homens e adulado e endeusado
pelas mulheres. Ela conhecia o tipo. As grosserias e desavenças dos
oficiais com os quais ela tinha conhecido haviam abundado com tal tipo
de homem. Felizmente, muito felizmente, seu marido não fora um deles.
Mas então ela não teria se casado com ele se ele tivesse sido.
— Você não viu Prudence, por acaso, Imogen? — perguntou tia
Lavínia. — Todos os outros foram verificados e fechados com segurança
no quarto da segunda governanta, embora Bruce não tenha gostado nem
um pouco. Mas Prudence não estava em lugar nenhum. Espero que ela
não esteja se escondendo em algum lugar, esperando para aparecer em
um momento embaraçoso.

28
— Eu não a vi — Imogen disse. — Fique sabendo que o conde de
Hardford não sabia da minha existência. E da sua. E nem da Adelaide.
— Oh, querida — disse tia Lavínia. — Isso é estranho. Mas ele
realmente deveria ter feito investigações. Ou talvez devêssemos ter
enviado uma carta de felicitações quando ele conseguiu o título e então
ele teria sabido. Mas na época eu estava muito chateada com a morte do
pobre Brandon. O pai de Dicky, — acrescentou, como se Imogen ou sua
prima Adelaide não entendessem quem era Brandon.
A porta da sala de visitas se abriu abruptamente e, sem sequer uma
batida no painel externo ou o Sr. Crutchley para entrar e anunciar a nova
chegada.
O conde de Hardford não havia mudado de roupa. Imogen duvidou
que sua bagagem tivesse chegado ainda, desde que ele tinha vindo a
cavalo. Não havia dúvida de que haveria um treinador a caminho. Ou
dois. Ou três, ela pensou maldosamente. Seu casaco e chapéu de montaria
tinham sido descartados, mas as roupas de montaria que ele ainda usava
eram obviamente muito caras e feitas sob medidas. Seu casaco e calça
moldavam seu corpo alto e poderoso, no qual não havia nenhuma
imperfeição discernível. Sua roupa era admiravelmente branca e nítida,
considerando o fato de que ele tinha viajado nela. Ele tinha encontrado
algo para restaurar o brilho de suas botas.
Ou ele era um homem muito rico, concluiu Imogen – mas a
propriedade de Hardford não era particularmente próspera, não é
mesmo? – ou suas contas que eram aparentemente incrivelmente altas,
com seu alfaiate e fabricante de botas, não eram pagas. Provavelmente o
último – ela pensou simplesmente porque queria pensar o pior dele. Seu
cabelo estava penteado. Era escuro, grosso, brilhoso e bem estiloso.
Ele estava sorrindo – e até mesmo seus dentes eram saudáveis e
perfeitamente brancos.
Ele curvou-se com elegância, enquanto Tia Lavínia se levantava e
mergulhava em sua reverência formal. A prima Adelaide ficou onde
estava. Imogen estava de pé porque não queria que sua rudeza anterior
a provocasse a retaliar com rudeza própria.

29
— Senhora — disse ele, lançando toda força de um encanto
devastador sobre a tia Lavínia. — Lady Lavínia Hayes, presumo? Tenho
o prazer de finalmente conhecê-la, e pedir desculpas por descer sobre vós
com tão pouca atenção. Devo pedir desculpas também por antar tão à
frente da minha bagagem e meu criado que eu sou obrigado a aparecer
no salão tão inadequadamente vestido. Hardford, senhora, a seu serviço.
Bem!
— Você nunca deve se desculpar por ter ido à sua própria casa,
primo — assegurou tia Lavínia, com as mãos entrelaçadas no peito, duas
manchas de cor florescendo em suas bochechas — ou por se vestir
informalmente quando você está nela. E você deve me chamar de prima,
não Lady Lavínia como se nós fossemos estranhos.
— Serei honrado, prima Lavínia — disse ele. Ele virou seu sorriso
para Imogen, e seus olhos azuis ficaram imediatamente zombeteiros. —
E, se eu puder me atrever... Prima Imogen? Eu devo ser Primo Percy,
então. Nós seremos uma família feliz.
Ele voltou seu charme para a prima Adelaide.
— E posso apresentar a sra. Ferby, primo Percy? — disse tia Lavínia,
soando ansiosa. — Ela é uma prima do lado de minha mãe e, portanto,
nenhuma relação com você. Contudo...
— Sra. Ferby — disse ele com uma reverencia. — Talvez possamos
nos considerar primos honorários.
— Você pode considerar o que quiser, meu jovem — ela disse a ele.
Mas, em vez de desequilibra-lo, sua implicância de que ela não
consideraria tal coisa simplesmente transformou seu sorriso em uma
diversão genuína, e ele parecia ainda mais bonito.
— Eu te agradeço, senhora — disse ele.
Tia Lavínia passou a acomodá-lo na cadeira grande à esquerda do
fogo que sempre fora do seu irmão e em que ninguém mais tinha sido
permitido sentar-se, mesmo depois de sua morte. A bandeja de chá
chegou quase imediatamente com um grande prato de bolinhos e taças
de creme coalhado e conservas de morango.

30
Infelizmente, as criadas deixaram a porta da sala de estar aberta
atrás delas quando entraram. Assim como infelizmente, alguém deve ter
aberto a porta do quarto da segunda governanta – chamado assim por
nenhuma razão que Imogen já tenha sido capaz de entender, já que nunca
houve qualquer pessoa desse tipo no pessoal doméstico. Quase antes que
a bandeja de chá ser colocada e Imogen sentar-se atrás dela para servir o
chá, a sala foi invadida. Cachorros latiam, saltitavam, ofegavam e
perseguiam suas caudas e olhavam os bolinhos com olhos cobiçosos.
Gatos miavam e arranhavam – essa era Prudence, que parecia não estar
mais perdida – saltou para a mobília e olhou para o jarro de leite.
Não havia um animal realmente bonito entre todos deles. Alguns
eram francamente feios.
Imogen fechou os olhos brevemente e depois os abriu para observar
a reação do conde. Isso apagaria o sorriso de seu rosto e acabaria com o
encanto que emanava de cada poro. Blossom, o mais furioso dos gatos e
também o que mais derramou, saltou para seu colo, olhou-o com um
olhar maligno e depois se enrolou em uma bola desgrenhada.
— Oh, querido céu— disse tia Lavínia, de pé novamente e torcendo
as mãos. — Alguém deve ter aberto a porta do quarto da segunda
governanta. Fora daqui, todos vocês. Shoo! Sinto muito, primo Percy.
Haverá cabelos em toda parte... — Suas bochechas arderam novamente.
— Blossom, abaixe-se. Essa é sua cadeira favorita, você vê, porque está
perto do fogo. Talvez ela não percebeu... Oh céus.
Imogen pegou o bule.
Bruce, o bulldog, tinha se apossado do tapete diante da lareira, com
muito barulho, antes de se deitar. Fluff, que não era fofo, e Tiger, que não
era feroz, se acomodaram de cada lado dele. Eles eram gatos. Benny e
Biddy, ambos cães, um deles alto e desajeitado com seus olhos
esbugalhados, orelhas e bochechas caídas e o outro, curto e longo, quase
como uma salsicha, com pernas tão curtas que eram invisíveis de cima,
circularam um sobre o outro, farejando a retaguarda – foi um trecho
considerável para Biddy – até estarem satisfeitos e terem se reconhecido,
então se sentaram juntos na janela. Prudence, o gato malhado, estava
perto da bandeja de chá, as costas arqueadas, rosnando para Hector.

31
Héctor, a mais nova adição à sua casa – se desconsiderasse o conde – era
um cão pequeno de raça muito misturada, suas pernas finas, alarmante
finas, suas costelas claramente visíveis através da pele opaca e desigual,
suas orelhas, de uma e outra meia estavam eretas, seus três quartos de
cauda ligeiramente balançando. Ele ficou ao lado da cadeira do conde e
olhou para ele com os olhos que saltavam de um rosto repicado e feio,
implorando silenciosamente por alguma coisa. Misericórdia, talvez?
Amor, talvez?
Tia Lavínia agitava os braços em um gesto assustador. Nenhum dos
animais deu a menor atenção.
— Imploro, sente-se, prima Lavínia — disse o conde, um monóculo
se materializando na mão direita de algum lugar sobre sua pessoa. —
Suponho que eu encontraria o zoológico, mais cedo ou mais tarde, e
poderia muito bem ser mais cedo. De fato, eu acredito que eu já tenho um
breve conhecimento com o gato malhado que rosna. Ela – ou ele? –
passou pelo corredor enquanto eu estava lá mais cedo e expressou
descontentamento com a minha chegada.
— Ela não sabe — disse Imogen, sentando a xícara e o pires ao lado
dele — que os gatos silvam e os cães rosnam.
Ela olhou para o rosto dele, um pouco mais perto dela agora. Ele
não estava mais sorrindo. Mas ele não tinha, para dar crédito a ele,
perdido seu equilíbrio. Nem havia levantado o monóculo até o olho. Ela
se abaixou e pegou Blossom para seu colo, inadvertidamente escovando
sua coxa com as costas de seus dedos quando ela fez isso. Ele levantou
uma sobrancelha e olhou para ela. Ela se inclinou e colocou o gato no
chão.
— Talvez — o conde disse com civilidade sinistra enquanto Imogen
se preparava para lhe dar um bolinho — alguém se importaria de me
explicar por que minha casa parece estar invadida pelo que eu acho que
é um bando de vadios.
— Certamente, ninguém teria escolhido qualquer um deles como
um animal de estimação. — Disse a prima Adelaide. — Eles são todos
singularmente desagradável.

32
— Sempre há animais perambulando pelo campo sem casa — disse
a tia Lavínia. — A maioria das pessoas os espanta ou os persegue com
paus, vassouras e até armas. Eles sempre parecem acabar aqui.
— Talvez, senhora — disse ele, com a voz sedosa, — seja porque
você tem pena deles.
Ele parecia ter esquecido que ela era prima Lavínia e que eles eram
uma família feliz.
— Eu sempre quis um animal de estimação quando eu era criança,
— ela explicou com um suspiro. — Meu pai jamais permitiria isso. Eu
ainda queria um depois que eu cresci e papai morreu, mas Brandon
também não queria ouvir falar. Brandon era meu irmão, o falecido conde,
seu antecessor.
— Naturalmente, — ele disse enquanto mordeu o bolo, sem colocar
creme ou conservas nele.
— Ele me repreendeu quando um dia me pegou alimentando um
gato perdido, — disse ela. — Coitadinho. Os restos de comida só teriam
ido para a lixeira. Depois que Brandon morreu, outro gato veio. Blossom.
Ela era terrivelmente magra e fraca e quase não tinha pelo. Eu a alimentei
e peguei ela e dei-lhe um pouco de amor, e olha para ela agora. E então
havia outro, Tiger. E então Benny veio, o cão alto, como se ele estivesse
morrendo de fome. O que eu deveria fazer?
O conde colocou seu prato vazio de lado, apoiou os cotovelos nos
braços da cadeira, e bateu seus dedos.
— Quatro gatos e quatro cães — disse ele. — Esses são todos,
senhora?
— Sim — ela disse. — Oito desde que Hector veio na semana
passada. Ele é o cão que está ao seu lado. Ele ainda é terrivelmente magro
e tímido e também deve ter sofrido abuso e rejeição toda a sua vida.
O conde olhou para o cachorro, e o cachorro olhou para ele. Desdém
– ou o que Imogen imaginava ser desdém – olhou firmemente de volta, à
esperança oscilando. O rabo do Hector sacudiu uma e outra vez.
Os olhos do conde se estreitaram.

33
— Eu não tenho amor algum por gatos, — disse ele, — a não ser que
ganhem a vida comendo ratos e permaneçam em partes da casas de onde
eles pertencem. E os cães devem ser tolerados se forem bons caçadores.
— Ele levantou os olhos para dirigir um olhar duro para Imogen. — É de
se esperar, suponho, que mulheres solitárias sejam sentimentais e
bastante impraticáveis. E qual deve ser o limite máximo de... vadios
permitidos a invadir minha casa?
A prima Adelaide bufou.
Imogen tomou um gole do seu chá. Ele estava se comportando bem
de acordo com o personagem que ela lhe tinha designado. Tipo “as
mulheres precisavam de homens para mantê-las na linha.” Ela não respondeu.
Nem tia Lavínia.
— Como eu pensei — ele disse secamente. — Nenhum limite foi
definido. Nenhum plano foi feito. E assim devo aprender a compartilhar
minha sala de estar e talvez minha sala de jantar, assim como minha
biblioteca e aposentos privados com um número crescente de felinos e
caninos desagradáveis, não devo?
— O segundo quarto da governanta foi criado para eles, primo
Percy — disse tia Lavínia.
— Com grades nas janelas e portas? — Ele perguntou. — E eles são
sempre mantidos lá? Quando eles não escapam em grupo, como agora, e
encontram acomodações mais confortável aqui? E como a segunda
governanta gosta de compartilhar seu quarto com eles?
— Não há segunda governanta — disse ela. — Eu não tenho certeza
se alguma vez houve. Eu certamente não me lembro de nenhuma dessas
pessoas. Não há grades nas janelas. E eles não podem ficar lá o tempo
todo. Eles precisam de exercício. E afeto.
Ele olhou de volta para Hector.
— Afeto, — ele disse, degosto claro em seu tom. Mas o cão deu um
passo à frente e apoiou o queixo na coxa do conde. Foi a primeira vez que
Imogen tinha visto Hector tocando voluntariamente qualquer humano.
Ele obviamente não era um cão muito exigente. O conde falou-lhe
severamente. — Você não está planejando se apegar a mim, não é? Você
34
pode esquecer disso sem mais delongas, se estiver. Você não receberia
nada em troca. Olhares implorantes não me comove. Eu não tenho um
coração mole feminino.
— Agora há uma surpresa — prima Adelaide funou em seu xícara.
O conde retirou o queixo do cachorro de sua perna, depois de fazer
um carinho na orelha inteira do cão por alguns momentos, e ficou em pé.
— Vamos discutir o assunto mais uma vez, senhora — disse ele,
olhando para a tia Lavínia. — Eu não vou ter Hardford Hall transformada
em um refúgio de animais, mesmo na minha ausência. E se existe alguma
outra cadeira à espreita em algum lugar que não seja utilizada ou
escondida em algum lugar num sótão que seja mais confortável do que
aquela em que eu tenho sentado, quase qualquer outra cadeira, na
verdade, eu seria muito agradecido se ela fosse trazida para substituir
esta antes que eu seja obrigado a sentar aqui novamente. Talvez você
possa passar meus elogios ao cozinheiro sobre a qualidade superior dos
bolos. Vou ver todos vocês novamente no jantar. Prima Lavínia? Prima
Imogen? Sra. Ferby?
Ele se curvou para cada uma delas e saiu do quarto.
Hector choramingou e se deitou perto da cadeira desocupada.
— Um presente de Deus para a metade da espécie feminina— disse
a prima Adelaide.
— Acho que ele está certo, no entanto — disse tia Lavínia com um
profundo suspiro. — Nós, mulheres, somos impraticáveis porque temos
corações. Não que homens não tenha, mas eles sentem de maneira
diferente. Eles não sentem o sofrimento em torno deles, ou, se o fazem,
sabem endurecer seus corações quando não tem nada a ver com eles.
— O conde de Hardford — disse Imogen — é definitivamente um
homem sem coração, tia Lavínia. Eu estaria disposta a jurar sobre isso. Ele
é um homem mal-humorado que pensa que ninguém vai notar sua
maldade se ele mostrar um pouco de charme quando lhe for conveniente.
Ela odiava pensar de acordo como a prima Adelaide, mas aquele
homem tinha severamente lhe irritado. Seu charme, na melhor das
hipóteses, era superficial, bem aparente.
35
— Oh, querida — disse tia Lavinia, pegando outro bolo. — Eu não
diria isso, Imogen.
— Eu o faria — disse sua prima.

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Os aposentos do conde, como era de se esperar, ficavam em um


lugar privilegiado, no centro da casa, na parte superior e ofereciam a
melhor vista panorâmica, através de gramados, canteiros de flores e
seguiam para uma faixa de arbustos e penhascos que beiravam o mar,
que se estendia até o infinito. Era uma visão verdadeiramente magnífica.
Os joelhos de Percy ficaram fracos com puro terror.
Seu quarto também estava úmido, descobriu quando ele se deitou
sobre lençóis visivelmente encharcados. A empregada ficou horrorizada
e mistificada e se desculpou. Ela tinha verificado os lençóis com as
próprias mãos antes de colocá-los em cima da cama, ela assegurou a sua
senhoria, assim como fez a prima Lavínia. Mas eles estavam úmidos
agora, e ela não podia negar a evidência quando confrontada com isso.
— Talvez, — sugeriu Percy, — é o próprio colchão que está úmido.
Colchões, lençóis e cobertores foram trocados por um bom lacaio e
por um exército de criados, que sem dúvida tinham sido arrancados de
suas camas para que seu amo pudesse dormir sem se afogar.
Percy também descobriu quando ele se afastou das cortinas das
janelas, antes de voltar a se deitar em sua cama recém-feita, uma grande
mancha de umidade encharcada no papel de parede abaixo do peitoril
da janela. Um pouco misterioso, ele pensou, já que ele não havia
encontrado nenhuma chuva durante sua jornada e não tinha notado
aquela mancha antes.
Na manhã seguinte, o sol brilhava no mar quando Percy saiu da
36
cama e olhou com cautela. A água estava calma. O mar e o céu eram de
um azul claro. – Finalmente. Tudo parecia muito bem, na verdade, e a
extensão do parque entre a casa e os penhascos parecia tranquilamente
ampla. Certamente levaria apenas uns cinco minutos para caminhar da
casa para os arbustos de tojo. No entanto, ele desejou que seus quartos
estivessem nos fundos da casa, de frente para aquelas rochas sólidas.
A mancha úmida abaixo do peitoril da janela parecia incrivelmente
menos úmida esta manhã, ele notou.
Ele podia ouvir Watkins trabalhando em seu camarim e passou uma
mão sobre a barba áspera em sua mandíbula. Era hora de enfrentar o dia.
Ele fez uma careta, porém, com a perspectiva. Alguém poderia ter
pensado, em algum momento durante os últimos dois anos, em
mencionar que o falecido conde morreu deixando uma irmã solteirona
residente e de uma nora viúva. E havia a prima de língua afiada,
misericordiosamente alheia a ele, que falava com uma voz de barítono
que poderia fazer com que alguém a confundisse com um homem se não
pudesse vê-la. E também havia os animais...
Ele ansiava, de repente, pela sanidade de sua casa em Londres e pelo
White's Club e seus amigos e familiares... tédio. Mas ele não tinha
ninguém para culpar, a não ser a ele mesmo.
Tomou o café da manhã com lady Lavínia e Mrs. Ferby. A primeira
explicou o que ela achava que devia ser a relação exata entre eles do que
ele tinha dito na noite passada. Eles tinham claramente compartilhado
um tataravô, mesmo que suas idades relativas levariam alguém a assumir
que eram uma geração separada. O primo Percy era primo terceiro de
Lady Lavínia. Dicky, o filho de seu falecido irmão, teria sido seu primo
terceiro, agora falecido. Portanto, Imogen era terceira prima-em-lei.
A senhora em questão não apareceu. Ela estava, Percy assumiu, se
levantado tarde.
— Dicky! — disse a Sra. Ferby, dirigindo-se à comida no prato. —
Ele era Richard, não era, Lavínia? Estou surpresa por ele não ter se
rebelado contra um nome tão infantil. — Ela Fez uma pausa em sua
refeição e fixou Percy com um olhar. — Suponho que você seja Percival?

37
— Eu sou, senhora — concordou ele.
— A única vez em que meu marido se dirigiu a mim como Addy,
— disse ela, — também foi a última vez. Ele morreu sete meses depois
que me casei com ele.
Percy não perguntou se havia uma conexão entre os dois incidentes.
— Eu tinha dezessete anos — acrescentou, — e ele tinha cinquenta
e três anos. Não foi um jogo de maio a setembro. Era mais como um
desajuste de janeiro a dezembro.
Seu breve casamento, concluiu Percy, não fora uma maravilha do
céu, embora ele achasse que Ferby poderia muito bem ter ficado muito
feliz em se aposentar depois de sete meses com sua jovem noiva.
Lady Lavínia se ofereceu para mostrá-lo o salão matinal depois do
café da manhã, supondo que ele desejasse colocar os pés para cima e fosse
desfrutar do lugar enquanto pudesse. Era uma câmara grande e o que ele
chamaria de biblioteca, embora, de fato, estivesse voltada para o leste e,
portanto, captasse o sol da manhã. Havia uma impressionante variedade
de livros guardados ali. Ele gostaria de navegar através deles em outro
momento.
Dois gatos estavam deitados à vontade diante das janelas, cada um
em um raio de sol quente. Gatos sábios. A grande parte de um bulldog
tinha tomado posse do tapete diante do fogo e estava esticado lá,
aparentemente adormecido. O cão esguio dos olhos esbugalhados estava
encolhido debaixo de uma mesa de carvalho, mas se afastou quando viu
Percy abanando a cauda e olhando para cima com abjeta esperança. Percy
treinou seu monóculo e ordenou que se sentasse. Ele poderia ter pedido
que fizesse uma pirueta nos dedos pontiagudos de uma das patas.
Ele ia ter que fazer alguma coisa com aqueles vadios, Percy pensou
pelo menos pela décima vez desde à tarde de ontem.
Ele não fez. A pedido seu, Lady Lavínia levou-o ao escritório do
mordomo nos fundos da casa e deixou-o nas mãos de Ratchett, que
parecia estar com oitenta anos, e tão empoeirado quanto a montanha da
propriedade e dos livros contabilísticos que estavam empilhados em toda
parte, inclusive no topo de sua mesa.
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O homem balançou sua cabeça calva várias vezes – ou foi apenas
por causa dos tremores? – e apertou os olhos na direção do ouvido
esquerdo de Percy. Ele indicou as pilhas empoeiradas e perguntou-lhe se
sua senhoria deveria estar desejando passar o dia verificando os livros.
Seu senhorio não desejava tal coisa, mas ficou olhando, pensativo, para o
seu bom e fiel servo, que não tinha olhado uma vez sequer diretamente
em seu rosto. E foi então que ele tomou a decisão instantânea de não pedir
ao homem que o levasse pessoalmente à propriedade.
Ele precisava fazer algo a respeito dos vadios e sobre o antigo
mordomo, ele pensou. E o mordomo estava um pouco rangendo também.
— Algum outro dia, talvez — disse ele. — Eu pretendo passar o
resto da manhã vagando, vendo como que é lá fora. — O que era
reconhecidamente um plano vago.
E então, quando estava prestes a sair para o exterior, foi apanhado
pelo mordomo, que lhe informou tristemente que o dormitório do conde
sempre esteve mais sujeito à umidade do que qualquer outro quarto da
casa, embora pior agora do que tinha sido na época de seu último
senhorio. Ele cuidaria pessoalmente de que sua senhoria fosse transferido
para o mais espaçoso dos quartos na parte de trás da casa.
Era exatamente o que Percy queria. Se a oferta tivesse sido feita
ontem, antes dele se recolher para a noite, ele poderia ter aceitado de bom
grado. Mas... Bem, seus servos poderiam muito bem tornar o quarto
habitável. Ele não tinha feito muitas exigências sobre eles durante dois
anos completos, não é?
— Não precisa se preocupar — disse. — Mas providencie para que
um fogo permaneça aceso lá.
O mordomo inclinou a cabeça e andou para abrir as portas da frente.
Percy saiu e tomou algumas respirações profundas do ar salgado,
que foi no mínimo revigorante. Ele desceu os degraus e caminhou por
todo o gramado áspero em direção oeste. Mas deixar as portas abertas na
casa deve ser um hábito, concluiu um minuto mais tarde, quando
percebeu que o cão o seguia – o esguio, que devia estar a beira da morte,
quando Lady Lavínia teve pena dele. Não parecia muito estabelecido na

39
terra dos vivos, mesmo agora.
— É assim — disse Percy, parando e falando com alguma
exasperação. — Hector, não é? Eu nunca ouvi um nome mais inadequado
em toda a minha vida. Entenda, Hector. Eu pretendo ir, caminhar. Se você
é tolo o suficiente para me seguir, eu não desperdiçarei energia tentando
impedi-lo. Eu não vou parar para esperar por você se você hesitar, nem
vou carregá-lo se você encontrar-se esgotado e encalhado longe da casa e
de sua tigela de alimento e água. E, quanto ao assunto da alimentação, eu
não tenho cachorrinho tratado sobre a minha responsabilidade. Nem um.
Isso está claramente entendido?
O patético pedido de desculpas por um rabo de cachorrinho acenou
sem gestos e, quando Percy se virou para seguir em frente, Hector trotou
também em sua direção.
Talvez ele entendesse o grego antigo.
O parque foi agradavelmente montado e certamente mostrava uma
visão deslumbrante da própria casa durante o verão, quando a grama
seria mais verde e as árvores teriam folhas e as flores floresceriam nos
canteiros. Sua atração principal para a maioria das pessoas, é claro, seria
sua posição no alto de um penhasco com vistas abertas para infinitas
extensões do mar. Algumas pessoas – na maioria das pessoas, na verdade
– se engraçavam justo por isso. Alguns dos canteiros de flores tinham
sido artisticamente situados em cavidades, onde seriam protegidos dos
ventos. Assentos de ferro forjado tinham sido colocados neles, na certeza
de que o espectador pudesse apreciar as flores sem ter seu chapéu nem a
cabeça dele arrancada.
A parede que cercava o parque em três lados foi construída de
pedras de todos os tamanhos e formas, sem argamassa ou qualquer outra
coisa para amarrá-las, ele notou com interesse. Tudo foi mantido no lugar
pela habilidade do construtor em combinar uma pedra com outra e... mas
ele não entendia como isso era feito para que a coisa toda simplesmente
não desmoronasse assim que o construtor saísse. Ele deveria perguntar
sobre isso a alguém.
Sobre a parede oeste ele podia ver o começo de um vale, embora não
conseguisse ver o que havia lá embaixo. As terras, presumivelmente suas,
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se estendia para o norte. Porém, a maioria dos campos que ele podia ver
estavam cheios de ovelhas e muitas delas, mas não havia nada que
parecia um campo cultivado. Era apenas fevereiro, é claro.
Ele se perguntou por que a propriedade aparentemente prosperava
tão pouco. Talvez ele tentasse descobrir. Ou talvez não se incomodasse.
Como alguém poderia viver aqui? Ele expiraria de tédio em pouco tempo
– o que, pensando bem, era exatamente o que ele estava fazendo em
Londres também. Talvez o tédio tivesse menos a ver com um lugar do
que com a pessoa que o sentia. Agora havia um pensamento descendente.
Considerou seguir o muro ao redor do lado norte, por trás do
afloramento de rocha nos fundos da casa, de modo que ele pudesse ver
mais de sua terra. Mas o caminho parecia acidentado, em vez disso, ele
se virou para seguir uma triha que levava para o sul ao longo da muralha,
embora percebesse que a cada passo se aproximava mais da beira dos
penhascos. Antes de alcançá-los, porém, ele chegou a uma casa no canto
sudoeste do parque, aninhada confortavelmente em um buraco e cercada
por três lados, como a própria casa principal, em menor escala, por altas
rochas e arbustos. Era uma casa sem telhado. Ou, pelo menos, tinha a
estrutura de um telhado, mas não a cobertura que manteria os elementos
fora. Não foi preciso muito poder de dedução para concluir que esta
deveria ser a casa da viúva, a casa de Lady Barclay – sua prima terceiro
grau por parte de seu primo já falecido. Havia dois homens nas vigas. Um
deles estava martelando enquanto o outro estava de pé e observava.
Percy avançou. A casa parecia quadrada e sólida e razoavelmente
bem dimensionada. Ele imaginou que havia pelo menos quatro quartos,
talvez seis, no andar de cima, e várias salas no andar de baixo. Havia um
jardim limpo, a leste, o lado aberto, margeado com uma cerca baixa. Um
portão de madeira rústico no meio dela se abria em um caminho reto que
conduzia à porta da frente.
Percy parou do lado de fora do portão. Os dois homens o tinham
visto aproximar-se. As marteladas tinham parado.
— Como o trabalho está progredindo? — Ele chamou.
Os dois homens puxaram os cabelos, balançaram a cabeça e não
disseram nada. Talvez eles entendessem o grego antigo?
41
— Está progredindo, — disse uma voz fria e aveludada, e sua dona
apareceu ao lado da casa, com uma cesta do que parecia ser erva daninha
sobre um braço, uma pequena espátula na outra mão. Presumivelmente
as ervas daninhas cresciam em fevereiro, mesmo que as flores não.
Ela estava usando o manto e o chapéu cinza novamente, embora a
capa tivesse sido empurrada para trás sobre seus ombros para revelar um
vestido azul simples adequado nela. Ele descobriu ontem que ela tinha
uma excelente figura. Não era voluptuosa, mas havia curvas em todos os
lugares certos, e tudo estava em perfeita proporção com sua altura. Ela
tinha pernas compridas, o que ele poderia ter considerado interessante se
ela tivesse feito qualquer apelo sexual para ele. Nunca imaginara a ideia
de fazer amor com o mármore. Parecia frio.
Seu cabelo também era mais atraente sem o capô2. Ele era grosso,
brilhante, suave e de estilo simples. Ele imaginou que fosse reto – e longo.
Mas ele não nutria nenhuma fantasia de passar os dedos por eles.
— Seria mais rápido se houvesse mais homens lá em cima — disse
ele. — Ou se os dois trabalhassem juntos ao invés de um de cada vez. Vou
ter uma palavra com Ratchett. Esse telhado precisa estar pronto antes que
o tempo produza algo desagradável.
— Você não vai fazer isso — ela disse a ele, suas sobrancelhas
erguidas até a metade da testa. — Minha casa não tem nada a ver com o
Sr. Ratchett. Ou com você.
Ele olhou deliberadamente para ela enquanto apertava as mãos
atrás das costas. O cão, ele notou, ainda estava com ele, e agora estava
sentado a seus pés como um cão fiel.
— Isso é ou não é minha terra? — Perguntou a ela. Ele olhou para o
prédio. — É minha casa? Os reparos na minha propriedade não são
preocupação e despesas minhas? Ratchett não é meu mordomo?
Esse último ponto, na verdade, pode ser questionável.
— Por lei, — ela disse, — é sua, é claro. Na realidade, é minha. Tenho
direito a viver aqui como a nora do falecido conde e viúva do seu único

2
Capô – certo tipo de chapéu de tecido com aba só na frente (tipo touca), muto usado naquela época.
42
filho. Sua manutenção é minha responsabilidade e minha despesa.
Ele olhou firmemente para ela, e ela olhou duramente de volta.
Um impasse.
Esses argumentos não eram geralmente o inverso deste? Não
deveriam estar discutindo quem não deveria pagar pelos reparos?
— Vamos ver — disse ele.
— Sim, nós vamos — ela concordou.
Eles certamente estavam se enfrentando de maneira errada. Ele não
estava acostumado a ter relações contraditórias com as mulheres. Ou com
qualquer pessoa, de fato. Ele era geralmente o mais amável dos mortais.
Talvez ela se ressentisse pelo fato de ter herdado de seu sogro. Ela deve
ter se casado com Dicky na expectativa de que ela seria Lady Hardford
de Hardford Hall um dia. Em vez disso, deve ser desagradável para ela
ser uma viúva dependente, com apenas o título de cortesia menos ilustre
– viscondessa – e estar vivendo em uma casa modesta em um canto
obscuro do parque.
— De volta ao trabalho — disse ele, levantando os olhos para o
telhado, onde os dois homens estavam olhando para baixo, interessados
assistindo a briga deles aqui embaixo. — Lady Barclay, posso persuadi-
la a abandonar sua capina3 para andar comigo?
Talvez eles pudessem dar um passo para trás e começar tudo de
novo. Ele lamentou o modo como ele a cumprimentou ontem – “e quem
diabos você poderia ser?” Não era de estranhar que ela se ressentisse,
especialmente quando seu marido deveria ter possuído a propriedade
que ele próprio tinha ignorado durante todos aqueles dois anos. Mas o
que ela poderia esperar quando o homem a abandonasse para ir a
Portugal e à Espanha para estar em guerra?
Ela considerou sua oferta, olhando para ele o tempo todo. Então ela
tirou as luvas, que certamente haviam sido colocadas para a jardinagem,
e colocou-as em cima da erva daninha em sua cesta com a espátula,
depois colocou a cesta ao lado dos degraus da entrada da casa, e puxou

3
Capina - ato ou efeito de capinar; capinação.
43
seu manto de volta sobre seus ombros. Outro par de luvas apareceu de
um bolso.
— Sim — disse ela.
— Você deve se ressentir de mim — disse ele enquanto caminhavam
para o leste pelo caminho do penhasco, o qual, ele percebeu tarde demais,
que estava desconfortavelmente muito perto da borda do penhasco, que
era separado do parque apenas pela cerca espessa de arbustos de tojo. E,
sendo um cavalheiro, ele foi forçado a caminhar do lado de fora.
— Eu devo?
— Você esperava que seu marido estivesse no meu lugar. Você
esperava ser a condessa.
— Se eu fiz isso, — ela disse, — eu tive bastante tempo em que
ajustar minhas expectativas. Meu marido está morto há mais de oito anos.
— Oito? — ele falou. — Ainda não se casou de novo?
— E você não se casou? — perguntou em troca. No começo ele não
entendeu, mas então ele compreendeu o ponto que ela estava fazendo.
— É certamente diferente para uma mulher — disse ele.
— Por quê? — Ela perguntou. — Porque uma mulher não pode
funcionar na vida sem um homem para protegê-la e ordenar sua vida?
— Foi isso que seu marido fez? — Ele perguntou. — Ordenou sua
vida? Ele deixou você para ir a guerra e ordenou que ficasse para trás,
fazendo o papel de esposa paciente e obediente enquanto você aguardava
seu retorno?
— Dicky era meu amigo — disse ela. — Meu querido amigo. Nós
éramos companheiros iguais. Ele não me deixou para trás quando foi à
guerra. Ele me levou com ele. Não, correção. Fui com ele. Eu estava com
ele até o fim.
— Ah, uma mulher que seguiu o tambor — disse ele, virando a
cabeça para olhá-la. Sim, ele podia imaginar. Tratava-se de uma mulher
que não se encolheria em condições difíceis ou se acovardaria diante do
perigo. — Admirável. Ele morreu em batalha, não é?

44
Ela estava olhando para frente, com o queixo erguido. As gaivotas
estavam gritando em algum lugar abaixo do nível de seus pés. Achou que
era um ácaro perturbador.
— Ele morreu em cativeiro — disse ela. — Ele era um oficial de
reconhecimento. Um espião.
Ah, pobre diabo. Mas os oficiais capturados não eram tratados com
dignidade, honra e cortesia, desde que dessem a liberdade condicional –
ou seja, sua promessa como cavalheiros que não tentariam escapar? A
menos que, eles estivessem sem uniforme quando apanhados, como um
oficial de reconhecimento poderia muito bem ter estado. Ele não
perguntaria. Ele não queria saber. Mas...
— Você estava com ele até o fim? — Ele franziu o cenho.
— Eu fui para as colinas com ele no início daquela missão em
particular, — disse ela, — como sempre fazia quando era considerado
seguro ir junto com ele. Seu batman4 teria me escoltado de volta. Nós
ainda estávamos bem atrás de nossas próprias linhas. Fomos ambos
capturados.
— E o batman?
— Ele estava procurando por lenha na época, — disse ela, — e
conseguiu escapar.
Um cativo tinha sobrevivido e outro não. De repente, ele viu seu
comportamento duro sob uma luz totalmente nova. O que aconteceu com
ela durante o cativeiro? Especialmente se o marido não estivesse fardado?
Era realmente horrível demais para pensar e ele não iria fazê-lo. Ele
certamente não ia fazer mais perguntas. Ele não queria saber.
— E assim você voltou para a Inglaterra sozinha — disse ele. — Você
se mudou imediatamente para a casa da viúva?
— Fui para casa — disse ela — para a casa de meu pai, a vinte
quilômetros daqui. Mas eu não falava, não dormia, não comia ou saía do
meu quarto. Minha mãe é prima do Duque de Stanbrook. Ele mora em
Penderris Hall, no lado leste da Cornualha. Ele abriu sua casa para

4
Batman - Soldado que atua como o servente de um oficial.
45
oficiais militares que haviam retornado das guerras severamente feridos
de formas variadas, e ele havia contratado um médico e pessoas
qualificadas para cuidar deles. Minha mãe, em desespero, escreveu-lhe e
ele veio me buscar. Eu estive lá por três anos. Havia seis de nós, sete
contando George – o duque – e ficamos muito tempo juntos lá. Nós nos
denominamos o Clube dos Sobreviventes. Ainda o fazemos. Ainda nos
reunimos durante três semanas a cada ano durante o mês de março.
Tinham parado de andar. Havia uma ruptura no penhasco aqui, ele
notou, e que parecia ser um caminho em ziguezague para a praia abaixo
– uma descida bastante íngreme e seguramente perigosa. O cão sentou-
se ao lado dele, sua cabeça contra o lado da bota de Percy.
— Quando alguém se imagina andando por aí sobre a terra, um cão
fiel ao calcanhar, — disse ele, — tende-se a imaginar um cão de pastor
robusto e inteligente ou algo assim.
Ela olhou para Hector. — Talvez, — ela disse, — quando um cão
imagina seguir os calcanhares de seu mestre, ele espera palavras gentis e
um toque suave.
Touché. Ela tinha uma língua perversa.
— Eu não sou seu mestre — disse ele.
— Ah, — ela disse, — mas quem escolhe?
— Três anos — disse ele. — Você esteve em Penderris por três anos?
Bom Deus! Quão danificada ela esteve? E por que ele estava
seguindo essa linha de questionamento? Ele não lidava com a escuridão.
Ele esperava que ela respondesse com um simples monossílabo ou nada.
— Ben-Sir Benedict Harper, tinha as pernas quebradas e se
recusava a amputá-las — disse ela. — Vicente, o visconde Darleigh,
estava cego em sua primeira batalha com a idade de dezessete anos, e
ensurdecido também no início. Ralph, duque de Worthingham, foi
cortado quase ao meio com um sabre quando foi derrubado de seu cavalo
em um confronto inimigo. Flavian, visconde Ponsonby, foi baleado na
cabeça e depois caiu ferido de seu cavalo. Hugo, Lorde Trentham, não
foi ferido em absoluto. Ele não teve nem mesmo um arranhão, apesar dele

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ter liderado um destacamento5 que matou quase todos os seus homens e
feriu gravemente os poucos que sobreviveram. Ele saiu de sua mente.
George, duque de Stanbrook nem sequer foi à guerra, mas seu único
filho morreu nela, em seguida, sua esposa pulou para a morte sobre os
penhascos na borda de sua propriedade. E eu?... Bem, eu estava presente
quando meu marido morreu, porém, eles não me mataram. Sim, três
anos. E esses homens são meus amigos mais queridos neste mundo.
Percy se encontrou acariciando a meia orelha danificada de Hector
e desejando, de novo, que ele não tivesse começado com aquela conversa.
“Pernas quebradas.”
“Cego aos dezessete anos – e também surdo.”
“Filho morrendo e esposa se suicidando – sobre a borda de um penhasco.”
E o que diabo tinha acontecido a Lady Barclay enquanto seu marido
estava em cativeiro, presumivelmente sendo torturado? Era algo terrível,
já que ela teve que passar três anos em Penderris Hall. Ele sentiu um fio
de suor serpentear por sua espinha. Ele não queria saber.
— Quando deixei Penderris — disse ela — vim para cá. Meu pai
havia morrido durante esses três anos, minha mãe tinha ido morar com
sua irmã, minha tia, em Cumberland, meu irmão tinha tomado o lugar
do meu pai com sua esposa e filhos, e eu não achava justo ir para lá,
embora minha cunhada muito graciosamente tenha me
convidado. Também não suportaria viver juntamente com meu sogro e
tia Lavínia aqui, mesmo que tivesse passado mais de três anos. Eu pedi a
casa da viúva, e meu sogro, relutantemente, me permitiu ir para lá. Essa
é a minha história, lorde Hardford. Você tinha o direito de ouvi-la, pois
você veio passar um tempo tão curto por aqui, e me encontrar vivendo
em sua terra. Vamos descer para a praia?
— Lá em baixo? — perguntou ele bruscamente. — Não.
Ela virou a cabeça para olhá-lo fixamente.
— Eu nunca vi atração nas praias, — ele disse — bem, não por muito
tempo, de qualquer maneira. Eles são apenas um monte de areia e

5
Destacamento - Parte da tropa que se separa do regimento.
47
água. Por que Hardford não é mais próspera do que é? Ou não sabe?
— Paga o seu sustento — disse ela. — Pelo menos, era o que meu
sogro sempre gostava de dizer.
— Sim — concordou ele. — E ele estava satisfeito com isso?
Ela virou o rosto e não respondeu imediatamente.
— Ele nunca foi um homem particularmente ambicioso — disse
ela. — Dicky costumava ficar impaciente com ele. Ele tinha todo tipo de
ideias e planos, mas elas nunca foram implementadas. Ele decidiu que a
vida militar seria uma saída melhor para sua energia. Acredito que seu
pai perdeu todo o coração depois que Dicky morreu.
— E Ratchett? — ele perguntou. — Ele foi sempre um mordomo
eficiente?
— Talvez uma vez — disse ela. — Meu sogro o herdou.
— E ele nunca considerou que poderia ser hora de colocar o homem
para pastar e contratar alguém mais... vigoroso? — Percy estava com a
testa franzida. E estava desejando de todo o coração que pudesse voltar
à noite de seu aniversário e apagar o súbito impulso bêbado de vir à
Cornualha. Às vezes, o que não se sabia era melhor deixá-lo assim.
— Duvido que ele tenha pensado nisso — disse ela. — Sr. Ratchett
mantém livros muito limpos e ordenados. Ele passa seus dias cercado por
eles e faz novas entradas neles, conforme necessário. Se você quiser saber
alguma coisa sobre aluguéis, colheitas e rebanhos ou qualquer outra coisa
na propriedade dos últimos quarenta ou cinquenta anos, você certamente
encontrará a resposta em detalhe meticuloso nessas páginas.
— Sinto-me melhor, Lady Barclay — disse ele impaciente, — como
se eu tivesse entrado em um universo diferente.
— Suponho — disse ela — que a situação é reversível. Você poderia
voltar para onde você... — Ela parou abruptamente.
... onde você veio?
... onde você pertence?
— E deixar essa casa, minha casa, para ser transformada em um
48
zoológico? — perguntou. — Você percebe que, eventualmente, se Lady
Lavínia continuar a acrescentar todos os vadios que são suficientemente
astutos para vagar até essas portas – e a palavra deve estar se espalhando
rapidamente no reino animal – eventualmente a casa vai se tornar
inabitável pelos humanos? Que estará irremediavelmente revestida com
pelos e cheirar a cachorro e gato?
— Você gostaria que eles fossem enxotados para morrer de fome,
então? — Ela perguntou.
— Não é possível alimentar todos os famintos deste mundo.
— Tia Lavínia nem sequer tenta enfrentar os problemas do mundo
— disse ela. — Simplesmente alimenta os famintos que chegam até a
porta – à sua porta.
Ele sentiu uma súbita suspeita. — Estamos falando apenas de cães
e gatos? — Ele perguntou.
— Há pessoas, que por alguma razão, não conseguiam encontrar
um trabalho — disse ela.
Ele parou de novo e olhou para ela, horrorizado. — Se eu vagasse
para as regiões inferiores da casa, — disse ele, — ou para os estábulos, eu
encontraria todos os vadios mutilados e criminosamente inclinados do
mundo, comendo fora de casa e em casa, não é?
Uma das criadas que haviam vindo preparar sua cama ontem à
noite era coxo e parecia que ela poderia ser um pouco ingênua também.
— Nem todos — disse ela. — E aqueles que você encontraria são
úteis e ganham o alimento pelo qual você paga. Mais jardineiros e mãos
estáveis eram necessários na época em que meu sogro morreu, e a equipe
interna ficou escassa. Tia Lavínia tem um coração terno, mas ela nunca
conseguiu dar espaço enquanto seu irmão vivia. Ele estava contente com
a vida como sempre era. Ele não gostava mais de mudanças à medida
que envelhecia e depois de perder Dicky.
— Uma dessas pessoas é, suponho, sra. Ferby — disse ele. — Prima
Adelaide, que não quer em qualquer circunstância ser chamada Addie.
— Suponho que você escutou sua história no café da manhã; do

49
casamento de sete meses, não é? — disse ela. — Ela tem que viver da
caridade de seus parentes, já que não tem quase nenhum meio privado,
e tia Lavinia se convenceu de que trazer uma dama de companhia para a
casa era uma coisa respeitável a fazer depois que ela ficou sozinha. Talvez
ela estivesse certa. E sua acompanhante escolhida é um parente.
— Não é meu — disse ele, irritado. — Posso entender por que você
preferiria que eu voltasse de onde eu vim, Lady Barclay.
— Bem, você parece ter se saído muito bem sem Hardford Hall nos
últimos dois anos — disse ela. — Agora, tendo vindo aqui no que parece
ser algum tipo de capricho, você se irrita completamente. Então, por que
não ir embora e esquecer nossos modos peculiares e ser novamente
temperamental?
— Se irrita completamente? — O cão choramingou e encolheu em seus
pés. — Você não me viu irritado, senhora.
— Deve ser uma visão muito desagradável, então — disse ela. — E
como todos os homens mal-humorados, você tem uma tendência para
transformar sua ira sobre a pessoa errada. Não fui eu quem negligenciou
Hardford e as fazendas. Não fui eu quem encheu a casa com vagabundos
sem um plano claro para o que fazer com eles. Não fui eu quem trouxe a
prima Adelaide aqui como companheira, com o pleno conhecimento de
que ela permanecerá aqui pelo resto de sua vida. Em circunstâncias
normais, eu me ocupo do meu próprio negócio na minha própria casa e
não faço exigências sobre a propriedade ou qualquer pessoa nela.
— O tipo mais abominável de uma pessoa nesta terra, — disse, de
olhos estreitos, — é aquela que permanece fria e razoável quando se
brigam com ela. Você está sempre bem, Lady Barclay? Você é sempre
como um bloco de mármore?
Ela ergueu as sobrancelhas.
— E agora veja o que você fez — disse ele. — Você me provocou em
rudeza imperdoável. Novamente. Eu nunca sou rude. Normalmente sou
toda doçura e encanto.
— Isso é porque você está geralmente em um universo diferente, —
ela disse, — um que gira em torno de você. A Península estava cheia de
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oficiais grosseiros e zangados que acreditavam que as outras pessoas
haviam sido criadas para prestar-lhes homenagem. Eu sempre pensei que
eles eram meramente idiotas e melhor serem ignorados.
Então ela lhe deu as costas e começou a andar de volta pelo mesmo
caminho que eles tinham vindo. Ela não olhou para atrás para ver se ele
a estava seguindo. Ele não estava. Ele ficou lá, os braços cruzados sobre
o peito, até que ela estava fora de alcance. Depois olhou para o cachorro.
— Se há um tipo de mulher que irrita meus nervos mais do que
qualquer outro, — Percy disse — é aquele que sempre tem que ter a
última palavra. Rude e arrogante. Boba. BOBA! Sempre achei que elas
eram melhor quando ignoradas. Quase que fui direto aos estábulos,
montava meu cavalo e seguiria direto para Londres. Esquecer desse lugar
ímpio. Deixar você e todos seus companheiros invadirem a casa até que
ela seja abandonada. Deixar os aposentos do conde se transformarem em
mofo. Deixar esse mordomo se transformar em um fóssil em seu
escritório empoeirado. Deixar Lady Lavínia Hayes sozinha com sua
prima e seu coração sangrento. Deixar aquele pilar de mármore lidar com
a conta para o seu telhado e todos os outros reparos que são necessários.
Deixaria a maré baixar e bater contra os penhascos até que a eternidade
os desgaste e as duas casas caiam.
Hector não tinha opinião para oferecer, e não havia nenhum ponto
para Percy estar parado aqui, inutilmente desabafando sua frustração
enquanto ele observava, a causa dela, recuar ao longe.
— Pelo menos eu não iria me encontrar desabafando absurdamente
com um cão — disse ele. — Suponho que você se esgotou, embora se você
tiver feito isso é inteiramente sua própria culpa. Você não pode dizer que
eu não o avisei. E eu suponho que você está pronto para o seu jantar para
que você possa ganhar alguma gordura para esconder esses ossos que
estão à vista. Vem então. O que você está esperando?
Procurou uma abertura nos arbustos de tojo e encontrou uma parte
que deixaria apenas alguns arranhões superficiais em suas botas quando
ele empurrou através dele. Watkins olharia horrorizado. Mas quando ele
entrou na brecha, ele olhou de volta para o cão, franziu o cenho, inclinou-
se para levantá-lo sobre a espinhosa barreira, tomando o cuidado de

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esconder-se para que ninguém pudesse vê-lo. Depois ele partiu, andando
ligeiramente pelo gramado em direção da casa.
Pelo menos - ele pensou - ele não estava se sentindo entediado.
Embora lhe ocorreu que, o tédio, talvez não fosse um estado tão triste
depois de tudo.

VtÑ•àâÄÉ
VtÑ•àâÄÉ H
A tarde trouxe visitantes.
De alguma forma, espalhou-se a notícia de que o conde de Hardford
estava em casa, e uma vez que a coisa certa a fazer era visitá-lo, as pessoas
vieram. Além disso, todos estavam curiosos para finalmente conhece-lo.
Imogen tinha planejado passar a tarde na casa da viúva, embora
naquele estado sem teto, tornasse as salas do andar de baixo quase que
insuportavelmente frios. Tinha perdido o almoço porque não suportava
a ideia de conversar educadamente com aquele homem, que a provocara
e a levara a grosseria, mas que, sem dúvida, seria um amável encanto
com as senhoras mais velhas. Ela também estava se sentindo agitada
depois de contar sua história, breve e detalhada, embora ela tivesse
conseguido. Ela quase nunca falava do passado ou pensava nisso quando
podia evitar. Mesmo seus sonhos raramente eram pesadelos agora.
No entanto, antes que ela pudesse partir para sua própria casa, o
primeiro dos visitantes chegou, e teria sido mal educado se fosse embora,
se eles não tivessem falado que tinham vindo, estritamente, para vê-la.
Ela só queria que não tivesse que ser sociável, particularmente nesta
tarde. Pois todos estavam enamorados do conde de Hardford, assim que
o conheceram. Sua própria presença aqui era suficiente para agradá-los,
é claro. Mas sua juventude e extraordinária aparência, juntamente com a
excelência de suas roupas, deslumbraram as senhoras e impressionaram
os senhores. Seu charme, seu sorriso e sua pronta conversa completaram

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o processo de entretê-los. Ele assegurou a todos que estava encantado por
finalmente estar aqui, que certamente não havia outro lugar na Terra para
comparar com Hardford e seus arredores pela beleza, natural ou não.
Essas palavras e outras foram ditas, como se por acaso, enquanto
seus olhos repousavam sobre a Sra. Payne, esposa do Almirante Payne,
um senhor aposentado. A Sra. Payne, cujo humor geralmente flutuava no
limite da acidez, quando não concordava com ele, inclinava a cabeça em
graciosa aceitação do elogio implícito.
O Reverendo Boodle, no entanto, foi o primeiro a chegar com a Sra.
Boodle e suas duas filhas mais velhas. O almirante e sua esposa vieram
em seguida, e logo eles foram seguidos pelas senhoritas Kramer, filhas
de meia-idade de um ex-vigário falecido, com sua mãe idosa. Essas três
senhoras não podiam admitir a gafe social de visitar um único cavalheiro,
é claro. Elas tinham vindo, disse a senhorita Kramer, para visitar a
querida lady Lavínia, Lady Barclay e Sra. Ferby, e que surpresa foi ao
descobrir que seu senhorio estava em casa. Elas só poderiam esperar que
ele não pensasse que elas eram muito para a frente, na verdade ter se
intrometido todos involuntariamente assim sobre ele. Sua senhoria, é
claro, respondeu com as garantias previsíveis e logo as três senhoras se
esqueceram de que tinham vindo ver tia Lavínia.
Imogen sem dúvida teria se divertido com tudo isso se ela não
tivesse tomado aversão ao homem. Embora na verdade, ela pensasse, que
essas visitas eram provavelmente semelhantes a tortura excruciante para
ele e eram, portanto, não menos do que ele merecia. Ela encontrou seu
olhar quando esse pensamento malicioso passou por sua mente e soube
pelo leve levantamento de suas sobrancelhas que ela estava certa.
Quando o Reverendo Boodle e sua comitiva feminina estavam
saindo, depois de uma meia hora correta, Wenzel apareceu com sua irmã,
Tilly. Imogen a recebeu com um breve abraço e sentou-se ao lado dela na
sala de estar. Mas mesmo Tilly não era imune ao charme do conde. Ela se
inclinou para Imogen depois de alguns minutos e murmurou sob o som
da conversa geral.
— É preciso admitir, Imogen, — ela disse, — que ele é um espécime
perfeitamente lindo.

53
Mas seus olhos estavam brilhando ao dizer isso, e as duas trocaram
um breve sorriso.
Sr. Soames, o médico idoso, veio com sua segunda esposa muito
mais nova e suas três filhas e um filho desse segundo casamento. O Sr.
Alton chegou em último lugar com seu filho, um jovem desajeitado que
lutava com espinhas faciais durante o último ano, pobre garoto. Ele logo
se encontrava em meio a um grave caso de adoração de heróis, tendo sido
elogiado por seu senhorio no nó de sua gravata, que parecia um nó
perfeitamente comum a Imogen.
Ela deu ao conde um olhar penetrante. Ela realmente não queria
acreditar que ele era gentil. Ele não tinha feito nenhum elogio ao Sr.
Edward Soames, um jovem bonito que tinha se comportado de maneira
galantiadora, e se vagloriado de uma breve visita a Londres na primavera
passada para ficar com uma de suas meias-irmãs mais velhas.
No momento em que o último dos visitantes se despediu, os quatro
moradores foram deixados em posse de uma série de convites: para um
jantar, para uma noite de cartas, para uma noite musical informal, para
um piquenique na praia – se o tempo permitisse, é claro – para o décimo
oitavo aniversário de Miss Ruth Boodle, embora isso não seria até o final
de maio. Eles também tinham sido informados por cada visitante de que
a próxima dança no salão de reunião acima da pousada da aldeia seria
realizada cinco noites depois, e era de esperar que o conde de Hardford
concedesse a graça com a sua presença, bem como as das senhoras, claro.
“Cavalos selvagens não conseguiriam mantê-lo afastado,” o conde tinha
assegurado a todos. Ele tinha solicitado uma dança com a filha mais velha
Boodle, a mais velha Miss Soames, e a Sra. Payne. A senhorita mais velha
Kramer entretanto prometeu-se um clima confortável com tia Lavínia e
prima Adelaide quando os jovens dançassem. E o Sr. Wenzel e o Sr. Alton
tinham reservado um conjunto de danças com Imogen.
— Bem — disse Tia Lavínia quando todos se foram — foi tudo muito
gratificante, não foi? Como você viu, primo Percy, não estamos sem
vizinhos e entretenimentos gentis aqui no Campo. Há pouca chance de
você encontrar tempo ocioso por aqui.
— Aquela mulher do Kramer que fala por sua mãe e irmã é chata —
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observou a prima Adelaide. — Você pode ter um confortável encontro
com ela durante a assembléia, Lavínia. Eu scolherei uma companhia mais
agradável.
— Parece — disse Imogen — que está condenado a permanecer aqui
pelo menos nas próximas duas semanas, primo Percy, uma vez que
aceitou convites que se estendem tão distante no futuro. Sem mencionar
a festa de aniversário de Ruth Boodle daqui a três meses.
— Condenado? — Ele sorriu com o que ela reconheceu como seu
sorriso mais ensaiado, mais devastadoramente encantador para ela. —
Mas que destino tão feliz será, prima Imogen.
“O presente de Deus para as mulheres,” disse a prima Adelaide. E
para a humanidade também. Era o que ele achava que era, e parecia que
todos os que tinham vindo aqui hoje estavam ansiosos para concordarem
com aquela opinião. Ele era na realidade uma concha vazia de vaidade,
artificialidade, arrogância e temperamento rabugento quando ele estava
frustrado. Ele estava precisando ser menos prepotente.
Mas realmente não se permitiria continuar a ser perturbada por
alguém que não tinha feito nada mais letal para prejudicá-la do que exigir
dela “e quem diabos você poderia ser?” Ela não costumava guardar rancor.
Seu sorriso se tornou mais genuinamente divertido, e ela percebeu
que ela estava segurando seu olhar. Ela se levantou e puxou a corda do
sino para chamar uma empregada para remover a bandeja de chá.
Ele tinha estado certo quando ele disse que ela se ressentia dele
porque ele estava no lugar que Dicky deveria estar? Ela odiava pensar
que poderia ser assim.
Seus olhos, por um momento, pousaram com carinho na tia Lavínia.
A mãe de Imogen e a tia Lavínia, tinham estado juntas em uma escola de
meninas, em Bath, por vários anos e tinham seguido amigas. Imogen
tinha vindo aqui muitas vezes quando ainda era uma menina, às vezes
com sua mãe, às vezes sozinha – por longos períodos. Tia Lavínia sempre
declarara que Imogen era a filha que nunca tivera. Sendo um pouco como
um garoto, Imogen tinha brincado com o filho da casa desde o início.
Tornaram-se amigos e camaradas. Eles realmente nunca se apaixonaram.

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A própria ideia parecia um pouco absurda. Mas em algum momento,
depois que eles cresceram, eles tinham tomado a decisão mútua de
continuar com aquela amizade, através do casamento, para que eles
pudessem permanecer juntos. Imogen nem sequer se lembrava se havia
uma proposta de casamento e, em caso afirmativo, qual deles tinha feito.
Ela o amava muito. Havia, naturalmente, o componente sexual
também depois que se casaram. Isso sempre foi vigoroso e satisfatório,
embora nunca tivesse sido central no relacionamento deles. Talvez ela
fosse incapaz daquela condição emocional que as pessoas chamavam de
"estar apaixonada". O que também estava bem nas circunstâncias.
— Quem, com o nome de Alton — perguntou o conde a ninguém
em particular — chamaria seu filho Alden?
Era claramente uma pergunta retórica.
Ele sacudiu a cabeça, como se quisesse limpá-la e fixar seu olhar em
tia Lavinia.
— Sobre os vadios — disse ele.
— Oh, céu — disse ela. — Mas eles permaneceram no quarto da
segunda empregada toda a tarde, primo Percy. Por favor, não me faça
mandá-los embora. Seria pior para eles se tornarem vadios novamente
agora que eles têm experimentado um teto sobre suas cabeças e
alimentação regular. E um pouco de amor. Por favor, não me faça mandá-
los embora.
— Eu não vou — ele assegurou. — Aqueles que estão aqui agora
podem permanecer, embora eu viva, sem dúvida, para lamentar essa
decisão. Mas não deve haver mais.
— É tão difícil afastar-se — disse ela, apertando as mãos ao peito —
quando estão famintos e olham implorando com tal desespero.
— Posso fazer uma sugestão? — disse Imogen.
Aqueles olhos azuis se voltaram para ela, as sobrancelhas escuras
arqueadas acima deles.
— Por favor faça.

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— Os vadios sempre parecem muito mais atraentes, — ela disse, —
depois de terem sido cuidados e alimentados por um tempo. Eles ganham
peso, e seus pelos tornam-se mais espesso e brilhante. Há certamente um
número de pessoas que estariam dispostos a aceitar um animal de
estimação atraente que precisa de uma casa do que um mero vagabundo
que nunca teve uma.
— Oh, querida Imogen — disse tia Lavínia, — tenho certeza de que
tem razão. Todas as meninas e meninos querem um gato ou um cão, eu
diria. Eu fiz. E talvez as senhoritas Kramer ou...
— Eu nunca quis um animal — disse a prima Adelaide, ganhando
para si um olhar de angústia aguda de tia Lavínia e um de diversão fugaz
do conde.
Ele havia se afastado da porta para permitir que duas empregadas
entrassem e pegassem as bandejas. Imogen percebeu que seus olhos
pousavam pensativamente sobre uma delas, uma moça magra, surda-
muda, embora ele não tivesse como saber disso, já que não havia falado
com ela. Mr. Soames, o médico, estava no processo de encontrar um asilo
para ela depois que seu pai, um trabalhador agrícola, morreu. Mas tia
Lavínia entrou com uma solução própria.
— Você está sugerindo, prima Imogen — disse o conde quando as
bandejas foram levadas — que, administremos aqui gratuitamente, uma
espécie de negócio para cuidar de animais de estimação e fornecer aos
nossos vizinhos lindos gatos e cachorros bonitinhos, sobre os quais as
crianças e as mulheres podem acolherem com ternura?
Tia Lavínia parecia que estava segurando a respiração.
— Em uma palavra, sim — disse Imogen. — Embora acredito ter
usado o pronome errado. Eu não suponho por um momento que
faríamos tal coisa. Não consigo imaginar você cuidando ou acariciando
animais vadios, primo Percy, especialmente os feios. Ou amá-los.
— Oh, Imogen, querida — disse Tia Lavínia com ar reprovador.
O conde apertou os lábios. — Minha contribuição seria a casa e a
comida, suponho, — disse ele.
— Sim — disse ela, — embora eu ache que talvez em um canto dos
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estábulos pudesse ser preparado um lugar para Fluff, que logo dará à luz
seus gatinhos.
— O quê? — Suas sobrancelhas se juntaram.
— Oh, todo mundo ama um gatinho — disse Imogen. — Serão fáceis
de colocar quando estiverem prontos para deixar a mãe.
Ele olhou para ela de olhos estreitos e depois transferiu sua atenção
para tia Lavínia.
— Não mais vagabundos na casa, senhora, — ele disse suavemente.
— Além disso, é de se esperar que você tenha desnudado todo o povoado
deles até agora. Vou dar instruções para prepararem um lugar nos
estábulos. Possivelmente... Fluff vai provar ser uma comedora de ratos
decente e pode ganhar sua vida lá fora, depois de entregar seus gatinhos.
Falarei mais uma vez sobre os seres humanos. Acredito que acabo de ver
um deles sob a aparência de uma empregada doméstica.
— Annie Prewett? — Tia Lavínia disse. — Ela é uma boa garota. Ela
faz exatamente o que se diz quando entende o que é. Desde que ela possa
ver seus lábios enquanto fala e fala devagar, ela entende.
Ele continuou olhando para ela por alguns momentos antes de olhar
para Imogen.
— A valsa penetrou tão longe no deserto? — Perguntou. — Se sim,
você vai reservar a primeira delas para mim na assembleia da aldeia. Se
você concordar, por favor. Não vou pisá-la no chão com alguém que não
sabe como é feito, e eu acredito que você sabe.
Parecia um comando para Imogen, embora tivesse acrescentado as
palavras, por favor.
O Sr. Alton era quem costumava valsar com ela, suas mãos gordas
e sempre úmidas na cintura dela e apertadas sobre as dela. Valsar com o
conde de Hardford seria certamente uma melhoria em cima desse
julgamento severo. Ela sentiu um frisson inesperado de antecipação
prazerosa.
— Obrigada — disse ela. — Vou consultar o meu cartão de dança.
Ele sorriu para ela de repente, e esse frisson saltou para algo que
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perturbou seu estômago. Pois aquele sorriso não era seu sorriso habitual
de charme praticado, mas parecia ser um de apreciação genuína.
— Vou desafiar duelar ao amanhecer qualquer outro homem que
não seja eu mesmo que ouse escrever seu nome junto à primeira valsa em
seu cartão — disse ele, fazendo-lhe uma ligeira reverência.
Bom Deus, ele estava flertando com ela? Sua arrogância era tal que
ele achava que poderia atraí-la até mesmo dentro da órbita de seu
encanto?
Ela ergueu as sobrancelhas e olhou friamente para ele enquanto Tia
Lavínia ria e a prima Adelaide bufava.

****
Havia uma imagem do cavalheiro rural que sempre fora um pouco
atraente para Percy. Era a do dono da terra que perambulava por elas
desajeitadamente em casacos, calças, chapéus e botas disformes, com
criados robustos a disposição, cão fiel no calcanhar, discutindo gado,
cavalos e tratando de colheitas com seus capatazes e trabalhadores,
comentando sobre as mudanças de mercados de culturas e sobre o tempo
com seu mordomo, e o clima com seus vizinhos, e o Senhor sabia o que
mais havia, enquanto passavam por seus vários entretenimentos e
admiravam suas filhas esperançosas filhas recém-chegadas.
O céu o ajudasse, ele pensou nos dias seguintes, mas estava em sério
perigo de se tornar exatamente como aquele modelo de cavalheiro do
Campo. Ele poderia estar em Londres agora, pensou na tarde seguinte à
primeira onda de visitas – havia outras pessoas – se divertindo, mesmo
que a temporada ainda não tivesse começado e a cidade estivesse fraca
de companhia. Ele poderia estar no salão de boxe de Tattersall ou Jackson
ou chamar seu alfaiate ou seu fabricante de botas ou ficar em sua cama
dormindo com os efeitos da noite passada com amigos – ou desfrutando
os favores de uma nova amante.
Em vez disso, ele estava no escritório empoeirado do mordomo e
sugeriu, como seu superior, que Ratchett deveria contratar outro
mordomo, um homem mais jovem, menos qualificado e experiente, um
subalterno, de fato, que apreendesse a rotineira tarefa cotidiana de

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administrar as fazendas e sugerir ideias para mudanças e melhorias. Um
segundo mordomo, que poderia se beneficiar do conselho e orientação
do chefe. Um subordinado, é claro. Uma espécie de discípulo, de fato. E
então Ratchett seria capaz de passar todo o seu tempo no escritório, na
tarefa inestimável de manter os livros em ordem.
Ratchett olhou para a orelha esquerda de Percy e murmurou
alguma coisa sobre fazer perguntas no povoado, embora ele não soubesse
o que um homem novo poderia fazer que não estava sendo feito. Mas
Percy já havia escrito a Higgins, seu homem de negócios em Londres,
orientando-o para encontrar um administrador experiente, um homem
que estivesse disposto a ser conhecido oficialmente como mordomo,
embora na realidade ele não seria tal coisa, e quem iria também estar
disposto a encarcerar-se nas profundezas do nada por um salário um
pouco melhor do que a média. Quanto mais cedo fosse encontrado um
tal modelo, melhor, acrescentou Percy. Mais ele ficaria satisfeito.
Ele tinha escrito a carta ontem à noite enquanto seu quarto estava
sendo limpo. Ele descobriu ao recolher-se que o fogo estava apagado e
que toda uma chaminé de fuligem havia descido no quarto com um
pássaro levemente carbonizado e muito morto. Crutchley, que havia
chegado em resposta a sua convocação momentos depois de uma
perturbada Sra. Attlee, tinha dado como sua opinião que os quartos da
frente, especialmente nesta parte da frente, eram mais propensos a ter
esses tipos de coisas acontecendo do que nos quartos de trás, já que eles
ficavam com o peso de qualquer vento forte.
Mais uma vez ele havia aconselhado Percy a se mudar para a melhor
câmara de hóspedes na parte de trás. Mais uma vez Percy, por nenhuma
razão que fosse aparente para ele, tinha escolhido ser teimoso. Os
apartamentos do conde ficaram habitáveis para o conde, e ele era o
conde. Pelo menos sua cama, quando ele finalmente deitou nela.
Percy tinha descoberto durante a manhã que quase nenhuma de
suas terras tinham sido cultivadas já há muitos anos e não seria neste ano,
se os planos em contrário não fossem feitos em breve. Ratchett e o velho
conde, aparentemente, não haviam se ocupado com as colheitas, o que
exigia muitos trabalhadores para semeá-los, depois para cuidar deles e
depois para colhê-los, e que estavam muito à mercê do tempo em todas
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as três etapas. Havia abundância de ovelhas, porém, e alguns dos novos
cordeiros já haviam nascido, ninguém lhes avisando que ainda era
inverno e que poderiam ser bem aconselhados a permanecer dentro de
suas mães, onde estava quente e fora do vento por um pouco mais.
A maior parte da renda da propriedade veio, na verdade, de lã. Mas
as ovelhas estavam reproduzindo uma taxa exuberante demais para que
todos pudessem ficar confortavelmente na terra até que a velhice os
tirasse. Alguém precisava administrar o rebanho, assim como alguém
precisava gerenciar a terra. Percy não era um gerente, nem tinha a menor
ambição de se tornar um. A própria ideia já o horrorizava! Mas ele
reconheceu a necessidade quando ele viu, bem como a má gestão ou
quase nenhuma gestão em tudo.
O terreno, mais além, pelo lado norte do parque, inclinava-se
consideravelmente para baixo. Era possível ver algumas vacas leiteiras e
que em breve ostentaria alguns bezerros também – Percy não perguntou
onde estava o touro que tinha feito este último possível. Havia algumas
cabras, que pareciam não ter nenhuma função específica, e tantas
galinhas que era difícil não tropeçar nelas a cada passo enquanto bicavam
no quintal. Era completamente impossível também não pisar em suas
fezes. E, para complementar, uma lagoa com alguns patos. No aprisco,
havia uma área reservada para o parto das ovelhas e, presumivelmente,
outra área para abrigar o rebanho durante a estação de corte e, em
particular, abrigá-los durante o mau tempo. Os currais se mostravam
perfeitamente necessitados de melhorias urgentes.
O feno no celeiro imundo parecia um pouco cinza, como se ele
pudesse ter estado lá, há tanto tempo quanto o celeiro em si. Os ratos
dentro dele provavelmente viveram com conforto e morreram em uma
velhice madura.
Os trabalhadores da fazenda pareciam ser principalmente idosos
enrugados, seus filhos presumivelmente haviam partido há muito tempo
para pastos que eram literalmente mais verdes. Os cavalariços e os
jardineiros mostraram um pouco mais de juventude e vigor, embora
parecessem incluir mais do que a sua parte justa do jovem coxo e
decrépito, mais uma prova da delicada sensibilidade de Lady Lavínia.

61
Percy esperava que um novo mordomo fosse encontrado o mais
rápido possível e que ele logo iria galopar até aqui sem parar para comer
ou descansar ao longo do caminho. Ele esperava que o homem, quando
chegasse, não se arrependesse depois de ver o lugar, se virasse e fugisse.
Percy usara suas roupas mais velhas enquanto caminhava, embora
o fato era que ele não possuía nada que fosse muito mais velho do que
um ano. Watkins não teria defendido. O mesmo se aplicava às botas de
montaria, que não eram merecedoras da punição sofrida no pátio.
Ele não tinha um bastão, mas tinha um cão fiel no calcanhar, aquele
embaraço de um vira-lata magro com o nome grandioso de Hector. O
grande herói de Tróia, Héctor, matou o poderoso e aparentemente
imortal Aquiles no calcanhar. Pelo menos Hector o cão não tentou
morder seu calcanhar. Percy acreditava que ele se unira a ele, só porque
os outros cães da casa, incluindo aquele buldogue maciço e letárgico e o
cachorro salsicha, evitavam-no e não compartilhavam suas bacias de
alimentação com ele, nem lhe permitiam um acesso incontestado ao seu
próprio – e porque os gatos, especialmente a Prudência rosnada, a
intimidavam. Hector era, na verdade, um covarde choramingante e não
fazia nada para melhorar a imagem masculina de Percy enquanto andava
por sua terra negligenciada.
Era o suficiente para fazer com que qualquer cavalheiro respeitável,
chorasse. Não que ele quisesse ser um cavalheiro agricultor, pelo menos
não um cavalheiro que se comportasse como um. Deus me livre.
Na manhã seguinte, depois de uma noite tranquila em seu quarto,
Percy caminhou deliberadamente pelo gramado em direção à casa da
viúva e descobriu exatamente o que suspeitava que encontraria, ou seja,
uma casa sem telhado, sem nenhum trabalhador ou qualquer outro sinal
de vida. Ele voltou para casa principal e trocou de roupa. No momento
em que Watkins terminou com ele, ele teria assustado quem olhasse para
ele, mesmo na Bond Street – especialmente na Bond Street, de fato.
— Minha bengala de ébano, Watkins — disse ele. — Nós trouxemos
o ébano, eu suponho?
— Nós trouxemos, milorde. — Watkins produziu.

62
— E o meu monóculo.
— O com joias, senhor?
Percy fixou-o com um olhar, e o monóculo foi produzido sem mais
comentário.
— E um lenço de renda — disse Percy. — E minha caixa de rapé de
rubi, eu acredito. Sim, a caixa de rapé de rubi.
Watkins estava muito bem educado para comentar essas adições
ostentatórias a um horário tão cedo da manhã para aquelas roupas, mas
a expressão de madeira com a qual ele sempre demonstrou desaprovação
se tornou quase fossilizada.
— Seja tão bom e olhe através da janela para ver se minha
carruagem está na porta — disse ele.
Isso era. E um pedaço de obra grandiosa também. Ele a herdara do
pai e raramente a usava. Ele a trouxera para cá apenas porque Watkins
ficaria estupidamente decepcionado se tivesse sido forçado a viajar em
um exemplar menor de treinador.
Percy tinha verificado, após o retorno à casa, que Lady Barclay havia
levado o cabriolé para Porthdare, como havia dito no café da manhã que
pretendia fazer. Aparentemente, havia uma senhora idosa com um
quadril dolorido que ela precisava visitar. As mulheres realmente
poderiam ser anjos de vez em quando, embora fosse preciso uma grande
imaginação para considerar sua prima-em-lei terceiro uma vez viúva e
anjos no mesmo pensamento.
Algum tempo depois, tendo descoberto o nome e o local de trabalho
do carpinteiro de seu mordomo, Percy desceu sem pressa de sua
carruagem fora da loja do homem, que estava situada em Meirion, uma
aldeia a seis milhas acima do vale do rio. Ele olhou languidamente para
ele, ignorando o papel dos garotos que haviam parado para assistir ao
show – ou, isso é, a ele.
Ele acenou com a cabeça para seu cocheiro, que antes tinha sido
surpreendido pela instrução de usar sua libré.
— Sua senhoria, o conde de Hardford — anunciou agora o cocheiro

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com franca alegria depois de abrir a porta da loja.
Sua senhoria entrou, sacudiu o lenço, abriu a tampa de sua caixa de
rapé com a ponta de um polegar, fez uma pausa, mudou de ideia – ele
não gosta de tomar rapé de qualquer maneira – e fechou novamente,
guardou e levantou seu monóculo a seu olho.
— Ocorreu-me perguntar por que é, — ele disse com um suspiro
enquanto olhava para três homens de olhos arregalados através de seu
monóculo, — que a casa da viúva em Hardford Hall perdeu seu teto em
dezembro e ainda está sem um telhado em Fevereiro. Eu me perguntei
também por que há ocasionalmente dois homens para ser visto nas vigas,
um martelando pregos enquanto o outro só olha. E ainda, nenhum sinal
de progresso. Chamou-me a atenção que é perfeitamente possível
descobrir as respostas aqui. Na verdade, devo insistir em fazê-lo.
Menos de quinze minutos mais tarde, sua carruagem se movia de
volta pela rua da aldeia, observando muito mais do que um punhado de
espectadores alinhados em cada lado como se fosse um desfile. Todos os
trabalhadores do carpinteiro aparentemente estavam indispostos ou
ocupados com outros empregos, mas todos haviam milagrosamente
recuperado a sua saúde ou completado os trabalhos naquela mesma
manhã e estavam prestes a irem para a casa da viúva em Hardford Hall
quando seu senhorio chegou e atrasou-os. A sutil sugestão de que a
presença de todos os trabalhadores em um único trabalho elevaria o
preço dos reparos, juntamente com o monóculo de sua senhoria,
brilhando com esplendor cegante em um raio de luz da entrada, o preço
tinha sido instantaneamente baixado e ficado abaixo da cotação original
para uma quantidade, que Percy logo adivinhou, fora apenas
ligeiramente inflacionados.
O conde de Hardford tinha assinalado o seu cocheiro, que tinha
aberto uma bolsa de couro gordo e pagou o marceneiro metade da
quantia antecipadamente. A outra metade seria paga após a conclusão
satisfatória do trabalho por Lady Barclay, prima de seu senhorio - não
havia nenhum ponto em confundir a edição falando sobre graus e
também falar em-de-leis. Sua senhora devia ser informada de que o preço
tinha sido abonado em compensação pelo atraso injustificável.

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Percy refletiu durante a viagem aparentemente interminável para
casa, que as vezes, ser um aristocrata titulado poderia ser uma vantagem
distinta para um homem. Não que ele teria sido incapaz de punir esse
comerciante em particular, mesmo como Percival liso Hayes.

VtÑ•àâÄÉ
VtÑ•àâÄÉ I

Imogen sentia-se quase alegre enquanto se sentavam para um


jantar mais cedo no mesmo dia. Eles iriam assistir a uma noite musical na
casa dos Kramers depois, e era uma perspectiva bem-vinda, já que ela
ainda era incapaz de passar a noite sozinha em sua própria casa com um
livro, algo que ela estava desejando fazer novamente. No entanto, a
expectativa de uma noite passada com os vizinhos não era o que havia
levantado seus espíritos.
— Uma visão muito bem-vinda me aguardava quando eu
caminhava até a casa da viúva esta tarde, esperando que estivesse deserta
como de costume, — ela disse aos outros três reunidos em torno da mesa.
— Sr. Tidmouth, o marceneiro, estava lá pessoalmente, supervisionando
o trabalho com, não menos, seis trabalhadores, que estavam todos
ocupados acima nas vigas.
— Seis? — Tia Lavínia disse, sua colher de sopa pausando a meio
caminho de sua boca. — Eles devem concluir logo, então.
— Se voltarem amanhã — acrescentou a prima Adelaide.
— Ah, mas acredito que vão. — Imogen assegurou-lhe. — Sr.
Tidmouth se desculpou por todos os atrasos. Ele me disse que estave
doente desde o Natal e que seu segundo homem em comando tinha
enviado os homens para outros trabalhos menos importantes sem o seu
conhecimento. Ele cuidara pessoalmente que cada um de seus homens
venha a Hardford todos os dias até que o trabalho esteja terminado. Ele
até me assegurou que tendo agora visto a casa por si mesmo, ele percebeu
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que ele superestimou o custo dos reparos e reduzirá a nova estimativa,
ainda mais, como um pedido de desculpas pelo longo atraso.
— Nunca confie em um homem que se desculpa a uma senhora, —
prima Adelaide disse, — ou um homem de negócios que reduz seu preço.
— Estou muito feliz por você, Imogen — disse a tia Lavínia, —
embora o reparo no telhado signifique sua remoção de volta para a casa
da viúva, suponho. Sentirei sua falta.
— Mas eu estarei por perto — disse Imogen — e te visitarei todos os
dias, como sempre fiz.
Ela ficaria tão feliz em voltar para casa e ficar completamente
sozinha, exceto quando ela escolhesse sair. Ela ficaria muito feliz por estar
longe da presença perturbadora do conde.
Ele não tinha comentado nada na conversa sobre seu telhado. Em
vez disso, concentrou-se em sua comida e seu vinho e apenas a olhou um
pouco sonolento de vez em quando, de olhar baixo, com as pálpebras
baixas. Era uma expressão nova, uma afetação irritante.
— Eu diria — disse ela, dirigindo-se a ele diretamente, — foi a carta
que escrevi ontem que trouxe o Sr. Tidmouth aqui hoje com suas
desculpas e seus homens. Boas maneiras são frequentemente mais
eficazes do que a intriga. Se eu tivesse ido até Meirion apenas para atacá-
lo, como você aconselhou ontem, primo Percy, eu provavelmente teria
esperado uma semana ou mais como punição.
— Muito bem, prima Imogen — disse ele com agrado, erguendo o
copo para ela. — Eu tiro meu chapéu para você.
Mas, enquanto cortava a carne assada, de repente sentiu uma
suspeita extremamente horrível. “Nunca confie em um homem que pede
desculpas a uma senhora, ou a um homem de negócios que reduz seu preço.” Ela
olhou para o conde, mas a atenção dele estava em sua própria carne
assada, e a suspeita deu lugar a irritação sobre o fato de que ele parecia
simplesmente esplêndido em seu casaco de noite azul escuro com um
colete de cetim azul pálido e uma gravata branca como a neve e um lenço
de pescoço tão intrincadamente organizado que o pobre Alden Alton, se
estivesse na casa dos Kramers esta noite, certamente morreria de inveja.
66
Mas qual foi a verdadeira explicação para a súbita aparição de
tantos trabalhadores, todos diligentemente ocupados, esta tarde? E pelas
desculpas oleosas que o Sr. Tidmouth tinha pronunciado? E para a gota
d’água, na estranha baixa drástica no preço? Teria sido muito ingênua
ficar encantada com tudo isso?
Ela não teve chance de confrontar suas suspeitas ou ao homem que
as despertou. Todos cavalgaram juntos para a aldeia na opulenta
carruagem de viagem do conde. Ele deve, concluiu Imogen, ter outras
fontes de renda, além de Hardford. Talvez o ramo mais jovem da família
Hayes tivesse sido um pouco mais ambicioso do que o ramo mais velho.
Imogen sentou-se de costas para os cavalos, assim como o conde, de
modo que as senhoras mais velhas pudessem ter as mais desejáveis
visões. Mas a carruagem, ela descobriu, embora luxuosa, não era mais
ampla do que a mais humilde que ficava parada na cocheira. Ela podia
sentir o calor dele ao seu lado, fato que teria sido reconfortante naquela
noite fria de fevereiro, se o calor não estivesse carregado com o leve odor
de uma colónia almiscarada cara e uma poderosa aura de masculinidade.
Esse último fato a incomodava intensamente. Ela não conseguia se
lembrar de que já ter se sentido sufocada pela masculinidade de outro
homem, embora conhecesse muitos homens viris e atraentes.
Oh, ela ficaria muito feliz quando estivesse voltado para casa, em
sua própria casa.
******
E foi por isso que ele correu para a Cornualha para escapar de seu
tédio, Percy estava pensando. Embora isso não fosse estritamente preciso,
era? Ele não esperava escapar do tédio, mas decidira conscientemente
viajar, só para ver o que acontecia. Bem, isso foi o que aconteceu.
Ele estava sentado em sua carruagem de viagem com três senhoras,
uma das quais sofria de terna sensibilidade e tinha enchido sua casa e
estábulos com vadios; Outra falava com voz de barítono e, desde a sua
chegada, não tinha falado uma única palavra de cortesia sobre a metade
masculina da espécie, mas tinha chamado a muitos de desprezíveis; E a
terceira das quais era frígida. E se esta viagem não era suficiente para
mergulhá-lo na mais profunda escuridão, havia o fato de que seu destino

67
era a casa Kramer, onde eles seriam entretidos pelos talentos musicais
das senhoras Kramer e os vizinhos em geral.
As senhoritas Kramer, descobriu após a sua chegada, se
imaginavam como pianistas e vocalistas, e prosseguiram ao longo das
duas horas seguintes à chegada de todos os seus outros convidados para
demonstrar a verdade ou a falsidade dessa fantasia. Para ser justo, no
entanto, eles não monopolizaram o entretenimento da noite. Algumas
outras senhoras cantaram e tocaram o pianoforte. Alton trouxera seu
violino e seu filho, parecendo que ele preferia ser lançado na fornalha
ardente com os leões jogados para a boa medida, tocou com ele em uma
flauta. O Reverendo Boodle cantou para o acompanhamento de sua
esposa em uma voz de baixo que poderia ter colocado os decantadores
de bebidas para chocalhar se houvesse algum no quarto.
Lady Barclay conversou com lady Quentin, esposa de Sir Matthew
Quentin, e com a srta. Wenzel antes do recital começar. Quando todos se
sentaram para o entretenimento, foi Wenzel, cavalheiro fazendeiro, que
sentou-se ao lado dela, puxando a cadeira um pouco mais para perto
dela, enquanto o fazia. Ele passou a mantê-la em conversa – ou melhor, a
entregar um monólogo – enquanto ignorava a música. Era doentio da
parte dele, para dizer o mínimo, embora mantinha a voz baixa o
suficiente para não perturbar os que o rodeavam, que escolheram ser
educados e escutar, entre os quais, o virtuoso Percy se incluía. Wenzel
nem fingiu ouvir. Seus olhos e toda a sua atenção estavam fixos na
senhora, que, sem dúvida, parecia estar procurando um vestido azul
suficiente para complementar cada curva de seu corpo à perfeição – além
de complementar seu próprio colete, Percy notara no jantar. Wenzel não
aplaudiu nenhum dos artistas. O homem não deve ter visitado um
alfaiate durante os últimos cinco anos, e ele era mais do que meio careca
– com esses pensamentos pouco bondosos Percy não parou para
repreender a si mesmo.
A própria Lady Barclay ouviu, ou pelo menos manteve os olhos em
cima, nos artistas. E ela aplaudiu. Apenas duas vezes Percy a viu fazer
uma breve observação a Wenzel, e apenas uma dessas vezes ela virou a
cabeça para olhar para ele.
O homem irritou Percy. A coisa realmente irritante, porém, era que
68
ele estava percebendo essas coisas. Wenzel estava tentando demostrar
seu interesse por Lady Barclay, como se ele tivesse todo o direito de fazer.
Ele era o único cavalheiro de aproximadamente sua idade, e ela era uma
viúva. Boa sorte para ele se ele aspirava casar com ela. Ele precisaria de
sorte, no entanto. Ela não estava lhe dando nenhum encorajamento. Nem,
na verdade, ela estava dando qualquer sinal de que ela se sentiu
assediada por suas atenções. Ela estava sendo seu habitual mármore.
Percy não tinha desculpa alguma para querer expressar seu desagrado.
Mas por que ele deveria se sentir irritado? Teria ele se tornado todo
proprietário apenas porque a mulher vivia debaixo de seu telhado? A
própria ideia ameaçava causar-lhe um suor frio.
A Sra. Payne, a esposa do almirante, tinha uma voz de soprano com
um pronunciado vibrato e mais do que viveu até o nome dela durante a
aria Handel que ela escolhera. Percy cumprimentou, quando terminou, e
concordou com a Sra. Kramer em uma voz ligeiramente levantada,
porque este era surdo que sim, de fato, tinha sido um dia feliz para o
bairro quando o Almirante Payne decidiu estabelecer-se entre eles em sua
aposentadoria.
O grande final do entretenimento da noite foi uma peça de Bach com
um trabalho de dedo inteligente executado por Miss Gertrude Kramer, a
irmã mais nova. Era claramente o sinal para os empregados trazerem os
refrescos, que foram colocados ao longo de um grande aparador em um
lado da sala, enquanto chá e bandejas de café foram colocados em uma
mesa para a mais velha Miss Kramer para derramar. Não havia nenhum
sinal de qualquer coisa alcoólica fazendo sua aparência.
Wenzel se inclinou para Lady Barclay antes de se levantar e dirigir-
se para o aparador. Percy parou sem pressa, parabenizou dois ou três
artistas da noite que estavam por perto dele, incluindo um balbuciante,
corado Alden Alton, passeou pela sala longe do aparador e tomou o
assento vazio ao lado de sua prima-terceira, uma vez viúva.
Ela olhou para ele com alguma surpresa e com o que ele teria
interpretado como alívio se não tivesse sido altamente improvável.
— Espero, — disse ele, — você tenha gostado do entretenimento
musical, madame?
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— Eu fiz. Todos são importantes e muito esforçados. — ela disse.
O que prejudicava os artistas com lânguido elogio, pensou com
apreço. — Muito bem — concordou ele. — E você também gostou da
conversa?
Ela ergueu as sobrancelhas. — Eu teria preferido concentrar toda
minha atenção na música.
— Por que não o instruiu para fazer isto, então? — Perguntou ele.
— Talvez, lorde Hardford — disse ela, — porque sempre tento
observar as boas maneiras.
— Talvez você estivesse desfrutando das atenções do cavalheiro, —
disse ele, — mesmo se você preferisse ouvir a música primeiro. Devolvo-
lhe a cadeira quando ele voltar com um prato para você? Acho que é isso
que ele tem ido buscar.
— Creio que não é da sua preocupação cujas atenções eu gosto ou
não gosto — disse ela. — Mas não. Por favor, fique onde está.
Quase no mesmo instante Wenzel estava de volta, um prato
carregado em cada mão. Ele olhou para Percy, as sobrancelhas erguidas.
— Ah, — disse Percy, — o quão bom de você, Wenzel. — E ele pegou
um dos pratos e entregou a Lady Barclay com um sorriso antes de tomar
o outro para si mesmo.
Wenzel foi deixado com as mãos vazias e uma expressão insondável
em seu rosto.
— Mas você deve voltar e encher um prato para si mesmo, — disse
Percy gentilmente, — antes de toda a comida acabe. Embora pareça haver
uma abundância delas. A Sra. Kramer e suas filhas nos orgulharam.
Espero que tenha gostado dos recitais?
Wenzel olhou em voz alta para a dama antes de murmurar algo
indecifrável, curvando-se e se afastando.
— Obrigada — disse Lady Barclay.
— Oh, não foi nada, madame — assegurou Percy. — Montando-lhe
um prato não fez nenhum esforço em tudo.
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E ela riu.
Foi um choque horrível. Quase o derrubou da cadeira e ele caiu no
chão. Foi uma risada breve que iluminou todo o seu rosto com diversão,
deu uma impressão de beleza deslumbrante, vibrante, e se foi sem deixar
vestígios. E isso o deixou com a compreensão chocante de que ele queria
fazer amor com ela.
Foi uma muita sorte que a conversa tivesse se tornado geral e que
Sir Matthew Quentin estivesse pedindo sua opinião sobre o que parecia
ser uma questão interessante para todos.
— E você, Hardford — disse ele, — qual é a sua opinião sobre o
brandy contrabandeado?
Como não havia licor à vista, Percy supôs que era uma questão
acadêmica. — Sem dúvida, é geralmente de uma qualidade superior, —
disse ele. — No entanto, o fato de ter sido trazido para o país ilegalmente
torna um deleite proibido.
Parecia-lhe que quase todo mundo sorria como se tivesse acabado
de dizer algo espirituoso, e ao fazê-lo tinha sido admitido como membro
de um clube secreto.
— Ah, mas não são as frutas proibidas sempre as mais doces? —
Perguntou o jovem dandy, Soames.
Seu pai franziu o cenho para ele, duas de suas irmãs riram, e as
senhoritas Kramer pareciam chocadas. A terceira irmã Soames e uma das
meninas Boodle juntaram suas cabeças juntas no pianoforte e riram atrás
do ventilador, uma delas aberta.
— É verdade — disse Percy, acenando gentilmente na direção do
jovem, que sem dúvida estaria no fim da ira de seu pai mais tarde esta
noite.
Lady Quentin começou uma determinada discussão sobre os vários
méritos do chá chinês e indiano. Percy ouvia meio atento e estava fazendo
algumas conexões. Engarrafado conhaque. Contrabandistas. Cornualha,
especificamente a costa sul da Cornualha.
— Há alguma atividade de contrabando por aqui? — Perguntou às

71
senhoras no caminho de volta.
— Não muito agora, — Lady Lavínia disse em um silêncio que
durou uma batida muito tempo. — Costumava haver, acredito, durante
as guerras.
— Mas ainda há algum?
— Ah, é possível, suponho — disse ela, — embora eu não tenha
ouvido falar de nenhuma.
— E não há nada que seja vagamente romântico sobre isso —
acrescentou Lady Barclay.
— Romântico? — Ele se virou para encará-la o máximo que pôde,
devido aos estreitos limites do assento da carruagem. Não que ele
pudesse vê-la claramente mesmo então. Era uma noite escura e a
lâmpada da carruagem lançava a luz para a frente em vez de para trás.
— Contrabandistas, piratas, salteadores de estradas — disse ela. —
Eles são muitas vezes endeusados como heróis bastante arrojado.
— Levar a heroína desmaiada amarrada ao mastro do navio ou
jogada sobre a traseira do cavalo ou jogada sobre o ombro de um homem
e carregada por força sobre-humana para o topo de um penhasco? —
Disse ele. — Você não é romântica, prima Imogen?
Mrs. Ferby bufou.
— Não no assunto de valentões, criminosos e assassinos — disse
Lady Barclay.
Ele continuou a olhar seu caminho na escuridão. Havia uma
verdadeira amargura em sua voz.
— Mas ele não é sempre o filho injustiçado de um duque? — Ele
perguntou. — O filho mais velho, aquele que através de atitudes e atos
aparentemente suicidas e de grande luta, fica mostrando ao mundo sua
inocência e tentando conquistar o amor imortal da donzela em perigo,
que é muito possivelmente uma princesa, e, como uma recompensa final,
ser restaurado à sua herança e ele reintegrado ao seio de sua família e
finalmente casar com a princesa e viver felizes para sempre?

72
Mrs. Ferby bufou de novo. — É preciso dar ao homem o que lhe é
devido, Lavínia — disse ela. — Ele tem senso de humor.
— Você deveria estar escrevendo para a Minerva Press — disse
Lady Barclay.
Ele se perguntou se ela estava sorrindo, mesmo que apenas
interiormente. Seria uma coisa digna e heroica de fazer, pensou ele, fazer
aquela mulher rir de novo, como ela rira na casa de Kramer, e fazê-la
fazer isso de novo e de novo. Talvez ele devesse fazer dela a missão de
sua vida. Seria um objetivo alcançável, embora? Ele sorriu meio na
escuridão. Às vezes, perguntava-se de onde vinha essa fantasia absurda.
Ele deve ainda estar horrivelmente entediado.
De acordo com as senhoras mais velhas, era muito tarde quando
chegaram em casa. De acordo com o relógio do avô em seu esplêndido
estojo velho no salão, não eram onze horas. Percy deu as boas-vindas às
senhoras, averiguou que Crutchley acendesse o fogo na biblioteca e se
retirou para ler e beber antes de ir para a cama por pura falta de algo mais
interessante para fazer.
Inevitavelmente, havia animais na sala – dois gatos na lareira e
Hector sob a mesa. Percy os ignorou.
Ele estava servindo-se de um porto no aparador quando a porta se
abriu e Lady Barclay entrou. Ela tinha tirado seu manto e chapéu e
vestido um xale de lã sobre seu vestido de noite azul. Não foi
elaboradamente estiloso. Nenhum de seus vestidos era, pelo que ele tinha
visto. Eles não precisavam ser, no entanto. Tinha a figura mais perfeita
que já tinha visto. Não que nada pudesse ser mais perfeito ou ainda mais
perfeito, já que o perfeito era um absoluto em si mesmo. Ele podia ouvir
essa explicação na voz de um de seus tutores.
— Vinho? — perguntou.
— Por que o Sr. Tidmouth estava na minha casa esta tarde? — Ela
perguntou. — E por que havia seis operários com ele? Por que o custo do
novo telhado caiu pela metade?
Ah!
73
— Vinho? — perguntou novamente.
Ela deu alguns passos em sua direção. Ela tinha vindo para a
batalha, ele podia ver. Ela não respondeu sua pergunta.
— Minha casa? — Ele disse. — Como no seu? Eu ainda sustento que
é minha, Lady Barclay, embora você possa viver nela com minha bênção
até seu oitavo ano, se você assim escolher, ou seu nonagésimo, se você
viver tanto tempo. Depois disso, vamos renegociar.
— Você foi vê-lo. — Ela deu outro passo mais perto. — Você o
criticou. Você o ameaçou.
Ele ergueu as sobrancelhas. Ela parecia bastante magnífica quando
estava zangada. A raiva colocou alguma cor em suas bochechas e um
brilho em seus olhos.
— Vociferou? — Ele disse fracamente, fechando uma mão sobre a
alça de seu monóculo - não o de joia - e levantando isto a meio caminho
a seu olho. — Ameaçado? Você está engana, madame, eu garanto.
— Oh. — Seus olhos se estreitaram. — Suponho que você tenha se
comportado como um aristocrata altivo.
— Me comportado? — Brevemente ele levantou o monóculo todo o
caminho até seu olho. — Mas qual é o ponto de ser aristocrata, senhora,
se não se pode também brincar de ser o que se é? Eu lhe asseguro, ele fez
reclamações e ameaças completamente desnecessárias. Os subordinados
marceneiros, se curvaram completamente na presença altiva de um
monóculo refinado e de um lenço de renda.
— Você não tinha o direito. — Ela tinha ficado ainda mais perto.
— Pelo contrário, senhora — disse ele, — eu tinha todo o direito.
Ele estava se divertindo bastante, ele percebeu. Isso era melhor do
que ler seu livro, que era a poesia de Alexander Pope de todas as coisas.
— Era minha batalha para eu lutar, — disse ela. — Eu me ressinto
pela sua interferência.
— Apesar de seu título, senhora, — disse ele, — e o impressionante
fato de que você é a minha prima em terceiro grau, uma vez que é viúva

74
do conde de Hardford, você parece não ter superado o que deve ser
desprezível para as mulheres. Indubitavelmente, o marcineiro pertence a
uma subespécie inferior da raça humana, e deve haver pena de sua
esposa e de suas filhas, se houver tais pessoas. Mas o fato é que você
precisa de seus serviços, uma vez que ele parece não ter nenhuma
concorrência para pelo menos cinquenta milhas ao redor. Eu preciso de
seus serviços também. Sem eles eu poderia estar condenado a ter que
oferecer-lhe minha hospitalidade continuada aqui em Hardford Hall por
mais um ano ou mais.
Isso tirou o vento de suas velas. A dele também, na verdade. Ele
nunca era rude com as mulheres. Bem, quase nunca. Só para esta mulher
parecia.
— Você não é um cavalheiro, lorde Hardford — disse ela.
Poderia não ter provado que estava certa se não estivesse tão perto,
inteiramente por conta própria, já que ele não se afastara nem um
centímetro do aparador. Mas ela estava perto, e ele nem sequer precisou
esticar o braço ao máximo para enrolar a mão sobre sua nuca. Ele não
precisou dobrar muito para a frente, a fim de pôr sua boca na dela.
Ele a beijou.
E ele não precisou nem da fração de um segundo para saber que
tinha cometido um grande erro.
Do seu ponto de vista, era certamente isso. Ela parou o beijo depois
de talvez dois segundos e o bofetiou com a palma aberta.
E do seu ponto de vista – ele a queria. Mas ela era a mulher mais
imprópria para querer que ele pudesse ter escolhido – exceto que ele não
tinha escolhido. Isso seria absurdo. Ela era a mulher frígida.
Sua bochecha ardia e seu olho lacrimejou. Foi uma experiência
nova. Ele nunca tinha sido esbofeteado no rosto.
— Como você ousa?
Ele lhe devia uma desculpa rasteira – pelo menos.
— Foi apenas um beijo — disse ele em vez disso.

75
— Apenas... — Seus olhos se arregalaram. — Não foi um beijo, lorde
Hardford. Isso foi um insulto. Foi insuportável. Você é insuportável. E eu
suponho que você pagou o Sr. Tidmouth pela metade do meu telhado?
— Na minha experiência, — disse ele, — metade de um telhado é
mais ou menos inútil.
— Eu posso pagar a coisa toda — ela disse a ele.
— Eu também posso — ele assegurou. — Você vai notar, senhora,
que eu ganhei ao seu orgulho o suficiente quando deixei a metade da
conta não paga.
Ela olhou para ele. Ela provavelmente estava admirando seu
trabalho manual. Não duvidava que sua bochecha tivesse a marca
escarlate de sua palma e de todos os cinco dedos. Ainda estava ardendo
como o diabo. Seria sábio não provocá-la no futuro.
— Devemos concordar com o compromisso? — Perguntou.
— Será o maior dos prazeres, — disse ela, — voltar para minha
própria casa. Para mim, assim como para você.
— Você vê? — Ele disse. — Quando tentamos o suficiente, podemos
chegar a um acordo mútuo sobre mais de um tema. Mas me diga, quão
ruim é o contrabando nesta parte do mundo? Você gostaria de um pouco
de vinho?
— Sim — ela disse depois de uma pequena hesitação.
Ela pegou o copo dele depois que ele serviu o vinho, mas não se
afastou em direção a uma cadeira.
— Meu sogro gostava de seu conhaque — disse ela, — como a
maioria dos cavalheiros desta parte do mundo. Ele não viu nada errado
em defraudar o governo de alguns impostos e tarifas. Ele via os oficiais
da alfândega e os oficiais de montaria como o inimigo natural do luxo e
da liberdade, enquanto os contrabandistas eram heróis que defendiam o
direito de um cavalheiro ao melhor brandy que seu dinheiro poderia
comprar.
— Esta casa está perto do mar — disse ele. — Suas adegas foram
usadas para armazenar mercadorias contrabandeadas, suponho?
76
— Perto, mas não perto o suficiente — disse ela, rodando o vinho
em seu copo por um momento antes de levantá-lo para seus lábios.
— A casa da viúva?
Ela ergueu os olhos para ele. — Você pode ter notado, — ela disse,
— que não é muito longe daquele caminho precipitado para a praia. Há
uma passagem e uma entrada no lado da casa de frente para o mar que
levam diretamente à adega. Eu insisti para que todos os itens de
contrabando fossem retirados e a porta bloqueada por dentro e por fora
antes de eu ir viver lá. O meu sogro cuidou disso. Ele gostava muito de
mim para querer que eu estivesse segura e não fosse ameaçada de
qualquer forma por toda essa selvageria. E ele sabia que Dicky sempre se
opusera veementemente em permitir o contrabando na terra de Hardford
e os produtos do contrabando na casa da viúva.
Bem. Interessante.
— Selvageria?
— Não é um negócio romântico, — disse ela, — apesar de todas as
histórias em contrário que você contou no caminho para casa. — Ela
drenou seu copo e colocou-o no aparador. — Boa noite, lorde Hardford. E
se você tentar me beijar de novo, eu responderei com meu punho ao invés
de minha mão aberta.
Ele sorriu para ela. — Um erro tático, Lady Barclay — disse ele. —
Nunca se advertem a um adversário. A prevenção é o objetivo.
Ela se virou e saiu. Ela fechou a porta silenciosamente atrás dela.
Não, para Lady Barclay, nenhuma paixão desenfreada ou portas batidas.
Sua bochecha ainda estava ardendo.
O que diabo o tinha possuído? Mas se aquele beijo tinha durado dois
segundos, e ele acreditava que tinha, então por pelo menos um daqueles
segundos ela o beijou de volta. Foi como aquela risada na casa das
senhoras Kramer – se piscar você perdeu.
Ele não tinha piscado em nenhuma das ocasiões.
Quando a frígida não era frígida? E por que a frígida era frígida?
Especialmente quando não era frígida realmente mas uma mulher. Por
77
que ela era frígida? Deve haver milhares de mulheres que ficaram viúvas
pelas Guerras Napoleônicas. Se todas tivessem se voltado para a frigidez,
a Inglaterra seria uma nação de frígidas, ou metade frígida, de qualquer
maneira. Ainda haveria homens humanos, supunha ele. Homens
humanos bastante frustrados.
Ele considerou seu livro. Talvez poesia – verso em branco, não
menos – era exatamente o que sua mente precisava para se compor para
dormir.
Voltou para o vestíbulo e vestiu o casaco, o chapéu e as luvas. Ele
deveria subir as escadas para trocar de calçado, mas os sapatos da noite
teriam que servir. Ele saiu pela porta da frente e atravessou o gramado
em direção aos penhascos. As nuvens haviam se afastado o suficiente
para permitir que algum luar e luz das estrelas pudessem iluminar seu
caminho e assegurar-se de que ele não se afastasse da borda. Um
pensamento alarmante – mas ele seria picado até a morte primeiro pelos
arbustos de tojo.
Hector, ele percebeu de repente, estava em seus calcanhares.
Senhor, aquele cachorro estaria dormindo ao lado da cama no final.
— Você está me protegendo de fantasmas, contrabandistas e outros
vilões? — Perguntou Percy. — Esse é o meu garoto.

VtÑ•àâÄÉ
VtÑ•àâÄÉ J

A palma de Imogen ainda estava ardendo. Ainda estava vermelha,


viu à luz da vela na penteadeira.
Ela o odiava. Pior, ela odiava a si mesma. Odiava a si mesma.
Ela poderia ter evitado esse beijo. Ela poderia ter mantido sua
distância dele. Mas mesmo além disso, havia tempo para realizar sua
intenção e se afastar. Havia um olhar em seus olhos para adverti-la, o

78
levantamento de sua mão para definir na parte de trás de seu pescoço, a
inclinação de sua cabeça em direção a dela. Oh, sim, tinha havido tempo.
Ela não tinha se afastado.
E embora, no primeiro momento em que a boca dele tocou na sua,
não só os lábios, sua mente estava em branco com o choque, também
havia o momento seguinte, em que sua mente não estava em branco,
quando ela o desejava com um anseio feroz e o beijou de volta. Só um
momento.
Mas quanto tempo foi esse um momento? Alguém já o definiu?
Definir limites de tempo sobre ele? Foi esse um momento um segundo
longo? Meio segundo? Dez minutos? Ela não tinha ideia de quanto tempo
seu momento de fraqueza tinha durado. Mas não importava. Tinha
acontecido, e ela nunca iria se perdoar.
Apenas um beijo, de fato.
Apenas um beijo!
Não fazia ideia. Mas poderia esperar que ele...? Ele era um homem
simples – um homem bonito, viril, arrogante, que provavelmente tinha
exatamente sempre o que queria da vida, incluindo qualquer mulher que
desejasse. Ela tinha visto a forma como todas as mulheres, independente
da idade e estado civil, tinham olhado para ele esta noite. Oh, não, ele
certamente não tinha ideia. Eles estavam sozinhos na biblioteca tarde da
noite, eles estavam parados um ao lado do outro, e eles estavam
brigando. É claro que seus pensamentos se transformaram em luxúria.
Teria sido surpreendente se eles não tivessem.
Imogen sentou-se no banco diante da penteadeira, de costas para o
espelho. Sua vida estava de repente em frangalhos novamente, e ainda
havia várias semanas antes da reunião anual do Clube dos Sobreviventes
em Penderris Hall. Seu anseio pela companhia e conforto desses seis
homens de repente era tão agudo que se debruçou até que sua testa quase
tocou seus joelhos. George, duque de Stanbrook, provavelmente estava
em casa. Se ela fosse mais cedo...
Se ela fosse mais cedo, ele a receberia calorosamente e sem
questionar. Ela iria encontrar-se em paz e segura e...
79
Mas ela tinha que aprender a lidar sozinha com sua vida. Era o que
pensava ter feito no final daqueles três anos em Penderris. Ela tinha feito
um pacto com a vida. Ela iria percorrer os movimentos de vivê-lo, voltar
para Hardford, ser uma nora atenta e sobrinha, uma vizinha alegre e
sociável, uma filha e irmã e tia. Vivia sozinha, sem se permitir tornar-se
uma reclusa. Ela seria gentil - acima de tudo ela seria gentil. E ela
respiraria um suspiro após o outro até que não houvesse mais, até que
seu coração parasse e trouxesse seu esquecimento final, abençoado.
Ela continuaria, decidira, mas não viveria. Ela não tinha o direito de
fazer isso. O médico de Penderris tinha tentado trazê-la para fora, mas
ela permaneceu inflexível. Seus seis amigos ofereceram conforto,
encorajamento e amor, abundantes e incondicionais. Eles também teriam
oferecido conselhos se ela os tivesse solicitado, mas ela nunca lhes pedira
para falar com ela sobre o futuro que ela havia estabelecido.
Ela estendeu as mãos sobre o rosto e ansiava por vê-los a todos
novamente, ouvir suas vozes, sentir-se aceita por quem ela era, conhecida
por quem ela era e amada de qualquer maneira. Ah, sim, durante três
semanas de cada ano ela se permitia ser amada.
Agora, sua frágil paz tinha sido destruída – por um momento, e o
que o conde de Hardford tinha negligentemente a dobrado com apenas
um beijo.
Imogen trocou-se para a cama, embora ela não tinha nenhuma
expectativa de que ela iria dormir.
******
Percy se ausentou de casa durante a maior parte do dia seguinte.
Atacar uma senhora que estava vivendo sob a proteção de seu próprio
telhado não era decididamente a coisa certa a fazer, e ele certamente
deve-lhe um pedido de desculpas, que ele iria fazer a tempo. Primeiro,
porém, ele precisava se ausentar de sua vista por um tempo.
Ele verificou que os carpinteiros estavam trabalhando na casa da
viúva novamente – todos os seis deles estavam lá, bem como Tidmouth,
que estava no lado de dentro do portão no jardim, recostando-se contra
ele, braços cruzados, olhando magistralmente. Percy não demorou no

80
caso de Lady Barclay vir na mesma missão.
Ele convocou Alton e Sir Matthew Quentin, que possuíam terra e a
cultivavam, mesmo que nunca tivessem empunhado uma enxada ou
tosquiado uma ovelha. Ele se sentiu lamentavelmente ignorante. Não, ele
era lamentavelmente ignorante, e ele precisava fazer algo sobre isso.
Encontrou-se vagando pela terra de cada um deles durante o dia inteiro
e falando sobre praticamente nada além de agricultura – mesmo com
Lady Quentin no almoço, desde que ela definiu os tópicos da conversa.
Ele percebeu, de forma alarmante, que quando ele voltou para casa no
final da tarde, ele se divertiu enormemente e não sentiu nenhum buraco,
nenhum sentimento de tédio. Começara a ter ideias para sua própria
terra. Estava mesmo excitado com a perspectiva de conversar com seu
novo mordomo quando ele chegasse.
Animado?
Ele iria candidatar-se a loucura se não saísse da Cornualha em breve
e voltasse à civilização e sua familiar existência ociosa.
Ele passou a noite na biblioteca lendo, enquanto as damas
conversavam e bebiam chá e se ocupavam com os projetos dignos e
produtivos que as senhoras se ocupavam na sala acima. Lady Barclay
tinha estado quase que totalmente em silêncio durante o jantar e mais
parecida com granito que com mármore. Ele obviamente devia um sério
pedido de desculpas para ela.
Ele seguiu o caminho para a casa da viúva novamente na manhã
seguinte, Hector trotando inevitavelmente em seu encalço, embora não
fosse seu destino pretendido. Isso era algo completamente diferente, algo
para o qual ele tinha se endurecido na noite passada depois que o livro
perdeu seu apelo – vinte páginas de verso em branco poderiam fazer isso.
Ela estava em sua casa antes dele hoje. Ela estava de pé no portão –
um lugar popular, que – conversando com Tidmouth, que estava
escorrendo uma obsequia oleosa, especialmente depois que ele percebeu
Percy se aproximando. E bom Deus, havia realmente um telhado na casa,
seis trabalhadores trabalhando sobre ele, parecendo cuidadosos e
aplicados.

81
Percy pensou em se afastar e prosseguir com seu plano principal
para essa manhã, mas mais cedo ou mais tarde ela teria que ser
confrontada em mais do que uma mesa de jantar com sua tia e o barítono
feminino para ficar entre ele e a vergonha e torta humilde.
— Ah, Tidmouth, — disse ele depois de desejar bom dia a Lady
Barclay, — você está nos agraciando com sua presença e sua perícia
novamente hoje, está? Quebrando o chicote?
— Qualquer coisa e tudo para abrigar uma senhora, Vossa Senhoria,
— disse o homem com uma careta, revelando um bocado de dentes
quadrados e amarelos. — Frio como o tempo está, sendo apenas fevereiro
e normalmente não a época do ano para um trabalho tão amargo ao ar
livre, vou colocar a mim e aos meus homens a disposição para qualquer
problema e inconveniente necessário para que a senhora tenha um teto
sobre sua cabeça. Nenhum chicote necessário.
— Muito bem — disse Percy. — Vou deixar você, então. Prima,
acompanha-me em um passeio?
Ela olhou para ele como se andar com ele fosse a última coisa que
ela desejava fazer. Mas talvez reconhecesse a inevitabilidade de um
encontro de cara a cara com ele mais cedo ou mais tarde.
— Claro — disse ela.
Ele não ofereceu o braço, e ela não mostrou nenhum sinal de que ela
precisava ou esperava tomá-lo quando ela caminhou ao lado dele.
— Acredito — disse ela, rígida, quando se afastaram do alcance do
homem do portão, — devo agradecer-lhe por ter intervindo em meu
nome com o Sr. Tidmouth. Eu estava desesperada de voltar para minha
casa este ano, mas ele prometeu que eu estarei na próxima semana.
— Você me está agradecendo, então — disse ele — por permitir que
você me deixe tão cedo?
— Isso soaria desagradável.
— Mas é verdade?
— Posso lembrá-lo — disse ela — que fora você que há duas noites
lamentou o fato de que quanto mais tempo minha moradia fosse
82
inabitável, mais tempo você era obrigado a me oferecer hospitalidade na
sua casa.
— Sinto muito pelo beijo — disse ele. — Nunca deveria ter
acontecido, especialmente sob o meu próprio teto, onde eu deveria estar
protegendo você contra insulto, não oferecendo eu mesmo.
— Mas como você observou na ocasião — disse ela, virando a cabeça
para que ele não pudesse ver o rosto em volta da borda do chapéu, — foi
apenas um beijo.
Parecia que ele não devia ser perdoado.
Eles pararam no topo do penhasco, justo naquela fenda com seu
caminho em ziguezague levando para baixo. Ele havia parado um pouco
antes, duas noites atrás, do outro lado dos arbustos de tojo, quando ele
viera para ver se havia algum contrabandista na praia, lâminas prontas –
pelo menos, era isso que ele supunha que tinha vindo ver. Ele estava um
pouco agitado na época. Seus joelhos se sentiam decididamente fracos
agora, e sua respiração acelerou.
Não era um dia ventoso, mas havia bastante brisa fazendo o ar frio.
A maré parecia baixa – ou a meio caminho. Ele não tinha ideia de qual.
Ondas estavam quebrando em uma linha de espuma ao longo da praia. O
mar além deles também era espumado. Além disso, estava cinzento.
— Você gostaria de descer? — Ele perguntou a ela.
Por favor, diga não. Por favor, diga não.
— Pensei que tivesse medo do mar e dos penhascos — disse ela.
— Com medo? — Ele ergueu as sobrancelhas, incrédulo. — EU? O
que lhe deu essa ideia?
Seus olhos procuraram seu rosto por um momento desconcertante,
e então ela se virou e desapareceu sobre a borda. Oh, nada tão drástico
quanto isso. Ela saiu do caminho do penhasco para cima e para a pista
para baixo e então ela continuou. Ela não olhou para trás.
Ele olhou para Hector. — Fique aqui ou volte para casa — ele
aconselhou. — Ninguém, menos do que eu, poderá chamá-lo de covarde.

83
E ninguém o chamaria de covarde, por trovão. Ninguém nunca
chamou. Ninguém jamais teve motivo - bem, exceto uma vez. Aconteceu
de estar apavorado com o mar. Idem de falésias escarpadas. Também não
gostavam muito das areias douradas, principalmente porque tinham um
hábito desagradável de se alargar e estreitar com a maré - às vezes se
estreitando até um ponto em que o mar e as falésias uniam forças.
Por que diabos ele precisava provar alguma coisa para si mesmo?
Mas agora era tarde demais para mudar seu plano. Ele mal podia se
levantar e esperar para acenar para ela quando ela alcançou a praia.
Ele se lançou para o espaço.
Não era nem mesmo uma trilha perigosa, naturalmente. Na
verdade, era uma via bem utilizada. Tinha sido escalada inúmeras vezes,
se não, por bandos de contrabandistas quando eles levaram barris de
aguardente e Senhor sabia que outro contrabando, para ser armazenado
no porão da casa da viúva. Lady Barclay provavelmente tropeçara aqui e
ali milhares de vezes por puro prazer – embora a escolha da palavra dele
de tropeçar causava seu estômago um momento de angústia.
Havia apenas alguns lugares onde o caminho desapareceu, para ser
substituído por rochas grandes e resistentes o suficiente para
proporcionar uma base perfeitamente segura. Ele estava na praia quase
antes que ele soubesse, sua sensação de alívio e triunfo temperado apenas
pelo conhecimento de que, de alguma forma, ele teria ter que voltar lá no
futuro próximo.
Algo estava balindo. Não havia nenhum sinal de ovelha. Mas
Hector, ele podia ver, estava encalhado na rocha saliente logo acima do
nível dos ombros e não conseguia encontrar o caminho que o traria no
resto do caminho para baixo.
— Acredito — disse ela — que tem um amigo, lorde Hardford.
— Só um? — disse ele. — Eu poderia ser tão patético?
Ele estendeu a mão e pegou o cão em seus braços. Ele fez isso com
cuidado. As pernas da criatura ainda parecesse como se pudessem ser
quebradas tão facilmente como galhos secos. Suas costelas ainda estavam
claramente visíveis, embora estivessem começando a adquirir uma fina
84
camada de gordura. Ele se virou, o cão ainda em seus braços, e deu uma
olhada no rosto de Lady Barclay que certamente estava à beira da risada.
— O quê? — Ele perguntou.
— Nada — disse ela.
— Alguma coisa.
— Lembrei-me, de uma imagem que tia Lavínia tem pendurado em
seu quarto, — ela disse. — É uma representação sentimental de Jesus
segurando um cordeiro.
Bom Deus!
Ele colocou Hector na areia e o cão se dirigiu para visitar um par de
gaivotas, que não esperou para ser recebida.
— Espero, senhora — disse Percy — que você nunca tenha a chance
de fazer essa observação na presença de qualquer um dos meus
conhecidos. Minha reputação estaria em farrapos.
— Sua reputação de virilidade, suponho que você quer dizer —
disse ela. — Acho que isso é mais importante para você do que qualquer
outra coisa.
— Você tem uma língua ferina, senhora — ele disse, apertando as
mãos atrás das costas e olhando para a praia em direção ao mar. Na
verdade, tudo parecia um pouco melhor daqui. O mar ainda estava longe
o suficiente para parecer não ameaçador.
— Eu apenas pretendia sugerir, — ela disse, — que não há nada
particularmente impróprio sobre cuidar de um cão que não pode cuidar
de si mesmo.
Ele não tinha nenhum desejo de seguir essa linha particular de
conversa. — Eu posso ver, — ele disse, — que este seria um lugar perfeito
para contrabandistas.
— Sim — concordou ela. — A baía está abrigada, e não há pedras
perigosas para fazer um desembarque traiçoeiro. Há um caminho até os
penhascos também. Existe até uma caverna.
— Mostre-me — disse ele.
85
Ele permaneceu convenientemente dentro do caminho até o longo
topo. Esticando-se profundamente nos penhascos. Percy estava no
umbral, olhando para frente.
— A maré alcança esta altura? — Ele perguntou.
— Quase nunca — disse ela. — A maré alta está bem abaixo daqui.
Sim, ele podia ver a linha divisória entre a areia macia, pulverulenta
e a praia dura, muito lisa que rega cada doze horas pela maré.
— Não há mais contrabando nesta baía particular?— Ele perguntou.
— Se houver, — ela disse, — eles não vêm até as terras de Hardford.
Não que eu tivesse certeza, suponho, a não ser que estivesse sentada em
uma janela escurecida nas profundezas das noites mais negras. Eles
certamente não usam a adega da casa da viúva agora.
— Por que você usou a palavra vicioso? — Ele perguntou a ela
enquanto eles se viraram da caverna para passear ao longo da praia, a
brisa fria de sal em seus rostos.
Ela encolheu os ombros.
— Os líderes podem ser valentões e tiranos. Às vezes, pressionam
os homens para o serviço, eu ouvi. E eles são conhecidos por reforçar a
lealdade e segredo com ameaças e até mesmo violência. Havia aqui um
jovem cavalariço que adorava meu marido e adorava trabalhar para ele.
Ele implorou para ir para a Península como seu ordenança, mas ele tinha
apenas 14 anos na época e seu pai recusou sua permissão. Ele ficou aqui
em segurança. Eu não sei exatamente qual foi a transgressão dele – nós
estávamos longe daqui – e ele não disse nem uma única vez das que eu
perguntei a ele depois que eu voltei, mas eles quebraram suas duas
pernas. Ele ainda trabalha nos estábulos – tia Lavínia cuidou disso. Mas
os ossos não se ajustaram bem. E seu espírito estava quebrado.
Senhor, ele não precisava disso, pensou Percy. Sua vida até a idade
de trinta anos tinha sido notavelmente serena e livre de problemas. Tinha
sido cuidadoso para mantê-lo assim. E ele não queria mudar as coisas.
Por que ele deveria? Ele gostava de sua vida do jeito que era. Bem, exceto
o tédio, talvez, e o sentimento geral de inutilidade e tempo perdido.

86
— Wenzel gosta de você — disse ele, curvando-se para pegar um
pedaço de madeira para lançar como entretenimento de Hector.
Ela virou a cabeça bruscamente para ele na repentina mudança de
assunto. — Ele é um bom homem — disse ela. — Ele era o amigo mais
próximo do meu marido.
— Mas você não gosta dele? — perguntou ele.
— Eu não acredito, lorde Hardford, — ela disse, — que minha vida
pessoal e fantasias são qualquer preocupação suas.
— Ah, — ele disse, sorrindo para ela.
Suas bochechas eram cor-de-rosa - do vento, em vez de indignação,
ele adivinhou, pois seu nariz estava um pouco rosado também. Ela
parecia muito saudável – nem mármore nem granito. Embora
definitivamente zangada.
— Mas você é minha prima em terceiro grau, uma vez viúva e,
portanto, de preocupação familiar para mim.
— Não estou absolutamente convencida de que tia Lavínia tenha
certeza de seus fatos. Mas mesmo se ela estiver certa, é uma conexão
muito remota e não de sangue — disse ela. — Eu não gosto do Sr. Wenzel
ou de qualquer outro homem, Lord Hardford. Não tenho interesse em
namoro ou casamento, como creio ter lhe dito isso antes.
— Por quê? — Ele perguntou. — Oh, sim, eu sei que nós começamos
esta conversa antes, mas não foi muito longe. Eu perguntei a sua idade,
eu me lembro, mas você não iria dar, e quem pode culpá-la? É descortês
fazer tal pergunta a uma senhora. Eu estou supondo que você tem a
minha idade. Comemorei meu trigésimo aniversário dois dias antes de
vir para a Cornualha.
— Não há nenhuma vergonha em ser trinta, — disse ela, — mesmo
para uma mulher.
Que, ele supostamente, lhe deu a resposta.
— Na minha experiência, — ele disse, — há uma diferença marcada
entre homens e mulheres quando se trata de matrimônio. As mulheres
querem isso, ponto final; Os homens o querem ou pelo menos toleram-
87
no em seu próprio tempo bom.
— E você vai tolerar isso em seu tempo bom? — Ela perguntou.
Hector estava diante dele, ofegando e olhando para cima com seus
olhos abaulados e sempre esperançosos. Esse cachorro não ia ser bonito,
mesmo quando tivesse engordado. A vara estava na areia entre eles.
Percy se inclinou para pegá-lo e atirá-lo novamente.
— Provavelmente — disse ele. — Há a sucessão para garantir e tudo
mais, uma vez que parece haver uma escassez alarmante de possíveis
herdeiros no momento. Há quanto tempo o seu marido se foi?
— Mais de oito anos — disse ela, virando-se para seguir em frente.
Provavelmente já lhe dissera isso antes. — Então você tinha vinte e
dois anos — disse ele.
— De acordo com seus cálculos — disse ela, — suponho que sim.
— E quanto tempo você ficou casada? — Ele perguntou.
— Quase quatro anos.
— Oito anos não foram tempo suficientemente longo para curar? —
Ele perguntou. — Duas vezes o tempo que você se casou? — Ele estava
genuinamente perplexo. Ele não podia imaginar um amor tão duradouro
ou uma dor tão intensa. Ele não queria particularmente imaginá-lo.
Ela parou novamente e se virou para olhar para o mar. — Algumas
coisas não se curam — disse ela. — Nunca.
Ele não podia deixar isso quieto — Não há alguma... Indisciplina?
— Ele perguntou. — Alguma auto-indulgência? Outras pessoas não
sofreram viuvez e superaram isso? Não há um ponto em que continuar a
sofrer torna-se... Quase ostensivo? Usado como um emblema de honra
para colocá-lo acima de outros, mortais comuns, cujos sofrimentos não
podem coincidir com os seus?
Ele estava sendo claramente ofensivo. E a cada palavra acrescentada
ele estava piorando as coisas. Ele estava quase com raiva dela. Mas por
que? Porque ele a beijou uma vez por dois segundos e não conseguiu tirar
o beijo de sua mente? Porque ela já riu de algo que ele disse, mas não riu

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mais desde então? Porque ela era a única mulher fora das legiões que ele
conhecera e que era bastante impermeável aos seus encantos?
Ele estava começando a não gostar muito de si mesmo. Ele deveria
ter se desculpado, mas estava em silêncio em vez disso. Hector estava
ofegante a seus pés novamente, e mais uma vez foi enviado em busca da
vara. Onde essa criatura esquelética encontrava energia?
— Você já me viu em qualquer ocasião mostrar sofrimento aberto,
lorde Hardford? — ela perguntou, seus olhos sobre as ondas – eles
estavam definitivamente chegando. — Se você tiver, peço-lhe que me
informe para que eu possa fazer os ajustes necessários no meu
comportamento. — Ela esperou por uma resposta.
— Você não mostrou nenhum sofrimento, é claro — admitiu. — Mas
não posso deixar de me perguntar, quando se encontra uma mulher
jovem e bela que se vestiu de mármore, o que está dentro dela. E não se
pode deixar de adivinhar que deve ser sofrimento.
— Talvez, — ela disse, — não há nada. Talvez o mármore é sólido,
ou talvez seja oco e não há nada além de vazio dentro.
— Talvez — reconheceu. — Mas se for esse o caso, de onde veio o
riso de duas noites atrás? E o beijo? Por um momento naquela noite não
foi só eu beijando você. Estávamos nos beijando.
— Você tem imaginação de um homem completamente presunçoso,
lorde Hardford
— Ah, e você tem uma língua mentirosa, Lady Barclay.
Hector parecia ter se cansado. Ele pegou a vara e se sentou aos pés
de Percy. Ele ficou instantaneamente em coma...
— Se é um consolo para você — disse ela, — minha total falta de
interesse em você não tem nada a ver com você pessoalmente. Sem
dúvida, eu nunca encontrei um homem mais bonito do que você ou um
mais atraente. Se eu estivesse interessada em flerte ou no namoro ou no
casamento, eu poderia muito bem considerar colocar meu boné em você,
embora eu esteja plenamente ciente de que fazê-lo estaria convidando a
certa decepção e mágoa. Felizmente, talvez, eu não estou interessada.
Não em você e não em qualquer outro homem. Não desse jeito. Nunca. E
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se ofender sua sensibilidade masculina em ouvir eu dizer isso, então
conforte-se com o pensamento de que dentro de uma semana eu estarei
de volta vivendo na casa da viúva.
— Totalmente falta de interesse, — disse ele, — mas ainda assim
você me beijou.
— Você me pegou de surpresa — ela disse, as palavras soltas entre
eles quase como se eles tivessem algum significado além de seu
significado superficial.
O que sua autodisciplina escondia? Por que ela não deixaria
acontecer? O luto por oito anos depois de um casamento de quatro anos
certamente era excessivo e absorvido. Mas ele não iria tentar mais. Ela
não diria a ele, e se o fizesse, ele tinha a sensação que ele realmente,
realmente não gostaria de saber.
O que realmente acontecera com ela quando estava em cativeiro?
— Se eu usar mármore como uma armadura — disse ela, quebrando
o estranho silêncio, que o havia tornado muito consciente do rugido
elementar do mar e do grito áspero e solitário das gaivotas, — então você
usa charme, Lord Hardford. Um tipo descuidado de charme. Pergunto-
me o que pode estar por trás disso.
— Oh, nada, eu garanto a você, — ele disse a ela. — Nada em
absoluto. Eu sou o encanto puro até o coração.
Embora a aba do chapéu cinza escondesse o rosto dela, ele podia ver
que ela sorria. E de alguma forma fez seu coração doer – seu coração
muito charmoso.
Ela virou a cabeça para olhar para ele. O sorriso tinha desaparecido,
mas seus olhos estavam abertos. Bem, claro que sim. Quase não olharia
para ele com os olhos fechados, se não estivesse convidando a outro beijo,
o que ela decidiu não ser. Mas eles estavam... aberto. O único problema
era que ele não conseguia interpretar o que via dentro deles.
Lady Barclay realmente era muito incrivelmente linda. Ele apertou
as mãos atrás das costas para evitar tocar naquele lábio superior curvado.
— Acredito — disse ela suavemente — que depois de tudo você é

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quase agradável, lorde Hardford. Vamos deixar isso aí, não é?
Quase agradável.
Tolo, ele sentiu que poderia ser o mais precioso elogio que ele já
tinha recebido.
— Eu estou perdoado, então? — Ele perguntou. — Por te beijar?
— Não tenho certeza se você é agradável — disse ela, virando-se
para voltar pelo caminho para o topo.
Na verdade, ela tinha feito uma piada, pensou Percy, olhando para
Hector, que havia despertado do seu coma e estava se levantando.
— Eu não vou ter que te carregar, espero — disse Percy.
Hector acenou com a cauda esguia.

VtÑ•àâÄÉ
VtÑ•àâÄÉ K

Acredito que depois de tudo você é quase agradável.


Envergonhou Imogen lembrar que ela tinha dito isso em voz
alta. Ficou intrigado com ela, porque ela poderia ter pensado nisso, com
a reserva de que quase, é claro.
Ela adoraria tê-lo visto enfrentar o Sr. Tidmouth em sua loja. Teria
feito uma deliciosa anedota que conquistaria seus amigos em Penderris
no próximo mês. Ela apostaria que ele não tinha nem zombado nem
levantado a voz. Ela se perguntou o que ele poderia ter feito para se
esconder atrás de seu charme superficial. Ele nem sempre foi charmoso
com ela, é claro. Passaria um longo tempo antes que ela esquecesse de
suas primeiras palavras para ela – e quem diabos você poderia ser? Ele pode
ser nada além de vaidade. Esse pobre cão estava firmemente ligado a ele,
porém, e os cães eram muitas vezes mais exigentes do que as pessoas. É
claro que Hector não fez nada para melhorar a imagem masculina de seu
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mestre escolhido.
Lady Barclay se viu pensando demais no conde de Hardford
durante o resto daquele dia e do próximo. Sua presença muito masculina
na casa, embora ela não visse muito ele, era bastante sufocante. Mas ela
definitivamente não podia se ressentir dele. Pois esta era a sua casa. O
salão e o parque e propriedade pertencia a ele. Até mesmo a casa da viúva
pertencia a ele – como ele não se envergonhou em apontar para ela em
mais de uma ocasião. O título pertencia a ele.
Como desejava estar de volta à casa da viúva, onde não teria que
ver o conde de Hardford frequentemente. Ela esperava que ele não
ficasse. Mas certamente não o faria. A nova sessão parlamentar e a
temporada começariam em Londres após a Páscoa. Certamente ele
também não desejaria se ausentar. Talvez pelo tempo em que ela voltasse
de Penderris ele já teria ido embora. E talvez ele nunca mais voltasse. Ele
parecia não ser amante do mar. Jurava que tinha tido que se esforçar para
descer pelo caminho até a praia, como se fosse um desafio que ele próprio
tinha estabelecido. E ele tinha parado cautelosamente no umbral da
caverna em vez de ir para dentro para explorá-la. Ele tinha olhado a maré
subindo com um mal-estar notável.
Ele também não achava a casa muito confortável. Ele tinha dito a tia
Lavínia que ele pretendia dar a ordem para ter todas as chaminés limpas
e parecia surpreso quando ela informou que todas tinham sido varridas
antes do Natal. Aparentemente, toda uma chuva de fuligem havia caído
da chaminé no seu quarto numa noite e enegrecido metade do seu quarto.
E ele também mencionou a roupa de cama úmida que ele teve que
substituir em sua primeira noite aqui, um fato que era intrigante, desde
que tia Lavínia tinha sido tão certa que os lençóis tinham vindo
diretamente do armário de ar. Ela mesmo as verificou. A umidade
provavelmente tinha sido sua imaginação. Roupas de cama poderia ser
frias em uma noite de inverno e parecerem umedecidas.
Imogen verificou sua aparência no espelho do quarto. Felizmente,
não precisava vestir-se com grande formalidade para uma assembleia na
pousada da vila. Seu vestido de seda verde, com seu sobretudo de gaze
prateada, sempre uma de suas favoritas, faria bem, mesmo que fizesse
quase dois anos desde que ela tinha comprado em Londres para o
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casamento de Hugo, e que também ela já tinha usado a uma série de
entretenimentos na aldeia. Ela ajustou a fita prateada sobre a cintura alta
e sacudiu a saia, que caiu reta e solta antes de quebrar ligeiramente na
bainha. As mangas eram curtas, o decote quadrado e baixo, mas não
impudicamente. Ela correu as mãos levemente sobre o seu coque liso
para ter certeza de que não precisava de mais grampos, e então puxou
em suas luvas de prata longas e pegou seu leque.
Ele lhe pedira que reservasse a primeira valsa para ele, Imogen
lembrou-se com um ligeiro balanço no estômago enquanto ela deixava
seu quarto. Seria a única valsa, na verdade. Havia sempre apenas uma,
uma vez que a maioria das pessoas aqui nunca tinha aprendido os passos
e alguns simplesmente desaprovavam a dança por causa da intimidade
que compartilhava com seus parceiros. Felizmente, outras opiniões mais
liberais prevaleceram, de qualquer maneira.
Imogen gostava de valsar, embora não houvesse um cavalheiro aqui
que pudesse realizar os passos com verdadeira graça. Esta noite ela
valsaria com o conde de Hardford.
Ele estava esperando no hall de entrada com a prima Adelaide, que
parecia formidável em púrpura, sua roupa habitual para as assembleias.
Incluía três altas plumas roxas, que se erguiam em sua cabeça. Dois
círculos de vermelho tinham sido pintados em suas bochechas com
admirável precisão geométrica.
Os olhos do conde varreram Imogen da cabeça aos pés. Ela
devolveu o elogio e viu seu franzir de lábios quando ele entendeu o que
ela estava fazendo.
Não havia nada com que achar defeitos em sua aparência, é claro.
Vestia-se imaculadamente de preto, branco e prata, e parecia elegante
como um verdadeiro cavalheiro. Com sua aparência e físico, é claro, ele
não precisava de preenchimento.
— Não há joias, Lady Barclay? — Ele perguntou. — Mas então, você
não precisa de nenhuma. Ou adornos ou de qualquer enfeites também.
Na verdade, ela estava usando os pequenos brincos de pérola que
seu pai lhe dera em seu casamento, e seu anel de casamento. Mas... Ela

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tinha sido apenas elogiada? Ela pensou que sim. E ele o fez muito bem.
Ela sentiu um certo calor sobre o coração sem perceber exatamente o que
tinha causado. Um certo calor para com ele. Ele tinha, supostamente,
aperfeiçoado a arte da galanteria - provavelmente de sedução também.
Tia Lavínia apareceu na escada antes que ela pudesse responder, e
ela virou-se para tirar o manto do Sr. Crutchley. Mas outra mão a tomou
do mordomo, e o conde de Hardford a envolveu em seus ombros,
enquanto, ao mesmo tempo, cumprimentava a tia Lavínia pelo vestido
de noite que fizera no começo do inverno.
E então eles foram amontoados dentro de sua carruagem de viagem
novamente, com o mesmo arranjo de assentos como antes. Eles chegaram
à estalagem pouco antes da viagem poderia tornar-se demasiado
desconfortavelmente fria. Já havia uma multidão nas salas de reunião do
andar de cima. Imogen notou o zumbido extra de excitação que a
aparição do conde de Hardford causou quando ele entrou no recinto,
todo o charme e facilidade de maneira. Os fãs começaram a vibrar a um
ritmo acelerado.
— Vocês nos envergonham como de costume, Imogen — disse lady
Quentin, ligando um braço ao seu enquanto seu marido se comprometia
a apresentar o conde a algumas pessoas que ainda não conhecera. — Você
sempre faz a simplicidade parecer muito requintada. No entanto, você
tem o rosto e a figura para carregá-lo. O resto de nós pareceria simples
ou pior se a imitássemos.
— Você está perfeitamente maravilhosa, como sempre, Elizabeth —
assegurou Imogen. Lady Quentin era pequena e gordinha também, mas
ela tinha o cabelo escuro brilhante, usado em intrincados cachos esta
noite, e ela tinha um rosto bonito e animado.
— Você não tem estado, eu suponho, — disse ela, — caída de
repente apaixonada por Lord Hardford? Você nunca se apaixona, não é?
Às vezes desejo que você ficasse, embora ele tivesse que ser o cavalheiro
certo. Meu palpite é que o conde não é definitivamente o certo. Você não
é do tipo de estar disposta a compartilhar seu companheiro com todo o
resto do mundo feminino. Estou sendo rancorosa?
— Terrivelmente, — Imogen disse, virando-se com sua amiga para
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olhar para ele trabalhar seu encanto em um coro de risadas, rindo e
adorando. — Embora eu acredite que seu charme é uma espécie de
armadura. Ele vai sorrir para todas aquelas garotas e lisonjeá-las e pagar-
lhes elogios ultrajantes. Ele dançará com quantas delas o tempo
permitir. Mas ele não se casará com nenhuma delas, ou, mais importante,
fará qualquer coisa especificamente para separar qualquer uma ou elevar
suas esperanças ou comprometer sua virtude.
Suas próprias palavras a surpreenderam. Ela estava tão certa disso
– que ele não iria magoar qualquer dama ou menina virtuosa? Oh, céu,
ela realmente deve estar começando a gostar dele - ou caindo presa em
algum de seu encanto, ela mesma.
Tilly Wenzel chegou com seu irmão naquele momento e veio para
se juntar a elas, e as três passaram um divertido quarto de hora a observar
seus vizinhos e amigos quando eles chegaram e comentando sua
aparência e comportamento e um ocasional vestido novo ou corte de
cabelo, antes que a dança começasse. No entanto, não houve nada
rancoroso em suas observações. Em geral, eles eram um povo amigável.
Ela teve a sorte nisso, Imogen percebeu. Todos ficaram particularmente
satisfeitos por ver a Sra. Park fazer uma entrada lenta entre seu filho e o
vigário. Ela estava se recuperando da lesão no quadril. O jovem Sr.
Soames ofereceu a cadeira mais confortável na sala para ela se sentar, e
então ele preparou uma cadeira para a prima Adelaide e outra para a sra.
Kramer para que as três pudessem conversar confortavelmente.
Por alguns anos depois de deixar Penderris Hall, Imogen não
dançara. Como fora uma menina que sempre tinha gostado de dançar –
tinha amado, na verdade, e dançara durante muito tempo na noite
sempre que a chance se apresentava. Depois – ela tendia a pensar em sua
vida em termos de antes e depois – ela não se permitiria tal indulgência.
Mas finalmente ela percebeu que sua recusa em dançar quando ela ainda
estava apenas em seus vinte e poucos anos era uma decepção para seus
vizinhos. Pois, além de sua juventude, era a viscondessa Barclay, nora do
conde de Hardford, viúva do jovem visconde de quem todos haviam sido
excessivamente afeiçoados. Eles realmente esperavam vê-la recuperada
de seu luto e perda. Todos queriam ajudar a fazê-la feliz novamente.
Nunca tinha sido sua intenção fazer um desfile de sua dor. Sofrimento

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não era atraente quando colocado em exposição. E então ela começou a
dançar novamente.
Hoje à noite, ela fez a dança country inicial com Wenzel, que
esperava que Alton ainda não tivesse reservado a valsa com ela e que ele
pudesse fazê-lo. E então ela dançou com Sir Roger de Coverley com o Sr.
Alton, que se lisonjeou de que Lady Barclay já devia ter reservado a valsa
para ele. Ela tinha que explicar a ambos que o conde de Hardford já tinha
falado para essa peça particular. Ela dançou com o almirante Payne e, em
seguida, Sir Matthew Quentin, antes da ceia.
E depois, depois de tomar uma farta refeição, a prima Adelaide
anunciou que estava pronta para ir para casa. Tia Lavínia admitiu que ela
também estava se sentindo um pouco cansada, embora a noite tivesse
sido muito agradável e ela estava arrependida de cortá-la por amor de
Imogen. Mas, Imogen reprimiu seu desapontamento – a valsa ainda
estava por vir.
— Vou mandar levar a carruagem até a porta — disse ela — e ver se
o senhorio pode arranjar alguns tijolos quentes para os seus pés.
Mas o conde de Hardford veio para perto delas à mesa onde
estavam sentadas para o jantar.
— Não precisa se preocupar, prima Imogen. Vou arrumar tudo
sozinho. Minha carruagem vai levar tia Lavínia e Mrs. Ferby de volta
para casa e voltar mais tarde para nos pegar. — disse ele.
E afastou-se enquanto Tia Lavínia ainda lhe agradecia.
— Estou muito feliz por você poder ficar — disse ela, colocando a
mão no braço de Imogen enquanto ela falava baixinho sob o zumbido da
conversa em torno deles. — É muito cedo para que os jovens voltem para
casa quando há tanto prazer ainda a ser tido aqui. Primo Percy é muito
gentil e pensativo.
Sim, ele estava, Imogen concordou. Sua saída tão cedo poderia ter
causado um distúrbio na aldeia, é claro, mas ele poderia ter mandado ela
para casa na carruagem e permaneceu aqui sozinho, desembaraçado por
parentes do sexo feminino. Ela queria que ele tivesse feito exatamente
isso? Ela ainda podia insistir em ir, ela supôs. Mas... Houve a valsa. E ele
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dança bem. Ela tinha notado. Tinha dançado cada conjunto até agora com
uma dama diferente, e ele tinha dado a cada uma sua plena atenção,
sorrindo e falando sempre que as figuras o aproximavam de seu parceiro.
Ele dançava com segurança e graça fácil.
Foi tão difícil de encontrar falha com ele.
Mas... havia algo em seu caráter além do encanto? Alguma
substância? Ela ainda não tinha decidido. Mas não importava. Logo ela
estaria de volta em sua própria casa e precisa ter pouco a ver com ele,
mesmo se ele ficou em Hardford Hall, que era duvidoso.
Fez os arranjos para a carruagem e os tijolos quentes e viu as duas
senhoras em seu caminho antes de levar Ruth Boodle, a segunda e mais
simples das filhas do vigário, em um bailado vigoroso. Ele logo a teve
corada e rindo e parecendo realmente muito bonita. Imogen voltou sua
atenção para seu próprio parceiro.
E então era hora da valsa e ele estava parado diante dela, uma mão
estendida para a ela, sem sorriso no rosto, sem cumprimento, sem
palavras, apenas um olhar muito direto em seus olhos. Os seus eram
muito extraordinariamente azuis, pensou ela como uma tonta, como se
estivesse percebendo a cor pela primeira vez. Mesmo neles não havia
imperfeição.
Tudo era muito deliberado, pensou. E, sim, muito eficaz também.
Pois é claro que seus músculos estomacais se apertaram e seu estômago
revirou e ela esperava - oh, ela esperava – que suas bochechas não
estivessem corando.
Ela colocou a mão na dele e permitiu que ele a conduzisse para a
pista de dança quase vazia. Sempre estava quase vazia para a valsa.
Poucas pessoas conheciam os passos, embora fossem bastante simples, e
menos ainda tiveram a coragem de executá-los diante de seus vizinhos.
Mas quase todo mundo gostava de ver aqueles que tinham coragem. E a
própria escassez dos dançarinos permitia todos os tipos de giros e fadigas
de pés, em todos os quais o Sr. Alton, seu habitual parceiro de valsa, era
adepto.
Nessa ocasião, ela podia ver, que o Sr. Alton estava a dançar com

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Tilly. O jovem Sr. Soames estava seguindo para fora com Rachel Boodle,
quando o senhor Matthew Quentin tinha tomado ao assoalho com a Sra.
Payne. Elizabeth estava com o Sr. Wenzel. E isso era tudo. Havia sempre
um sentimento de exposição pouco antes de uma valsa começar, uma
alegria antecipada, um certo medo de que alguém tropeçasse sobre os
próprios pés ou pisasse sobre o parceiro de alguém, ou então fizesse um
bolo de si mesmo.
O conde de Hardford não tinha tirado os olhos dela. Ela juraria que
não. Nem tinha sorrido – nem falado. Era tudo muito diferente da
maneira como ele havia tratado suas outras parceiras de dança. Imogen
olhou-o de novo nos olhos e descobriu que estavam concentrados nela.
— Que parte você está jogando agora? — Ela perguntou.
— Parte? Como em uma peça? — Ele levantou as sobrancelhas. —
Agora? Ao contrário de... quando?
— Você não está nem sorrindo nem fazendo charme, — ela disse, —
como você tem feito com suas outras parceiras de dança.
Oh, céu, ela nunca foi rude com as pessoas.
— Mas se eu estivesse fazendo isso, prima, — disse ele, — você
certamente me acusaria de jogar uma parte. Você não faria? Parece que
não posso ganhar sua aprovação, não importa o que eu faça. Talvez
ajudasse se eu soubesse que jogo nós estamos jogando.
Por que a música não começou? Parecia que o violinista tinha
quebrado uma de suas cordas e ainda estava ajustando o novo com a
ajuda do pianista.
— Pensei em parecer sóbrio e sério aos seus olhos — disse ele. —
Mesmo meditando. Pensei em impressioná-la.
— Vamos esquecer minha grosseria? — Ela sugeriu. — Peço
desculpas por isso.
— E você tem me observado, não é? — Ele perguntou.
Ela franziu o cenho de sua incompreensão.
— Você notou que eu estava sorrindo e fazendo charme para

98
minhas outras parceiras — explicou.
— Como eu poderia não notar? — Ela perguntou bruscamente.
— Muito bem. — Sua cabeça tinha se inclinado um pouco mais perto
dela, e ele... Sorriu Oh, não o sorriso de charme praticado que ele tinha
usado para todas as outras esta noite, mas um que enrugou os olhos nos
cantos e parecia quente e genuíno e... afetuoso?
A maneira que um primo sorriria a uma prima estimada?
Imogen pressionou os lábios com força e tentou controlar sua
indignação. Ela estava muito consciente de que eles estavam de pé no
meio da grande sala de reunião, cercados por espaço vazio, os olhos de
várias pessoas sobre eles.
A orquestra veio em seu socorro com um acorde decisivo antes que
ela pudesse fazer qualquer outro comentário afiado.
Ele colocou a mão direita contra a parte de trás de sua cintura e
pegou a mão direita em sua esquerda enquanto colocava a mão em seu
ombro. E... Ah, e ele era muito diferente do Sr. Alton. Ele era bem mais
alto. Suas mãos eram firmes e de dedos longos e quentes. Seu ombro era
musculoso e largo. E ele tinha... uma aura? Havia calor no corpo,
certamente, acentuado por uma colônia fraca e sedutora. Mas era mais do
que o calor do corpo e mais do que a colônia. Seja o que for, envolvia-se
sobre ela, embora ele estivesse a uma distância muito correta. Era mais
do que uma aura também. Uma aura sem sexo, ou pelo menos pensava
que era. Esta era uma pura masculinidade crua.
Poderia isso ser feito de propósito? Ou era uma parte dele, assim
como os olhos azuis eram, os cabelos escuros e o rosto bonito?
A música começou.
O primeiro pensamento de Imogen foi que ele certamente sabia
como valsar. Seu segundo pensamento foi que ele tinha uma sensação
para a alma da dança a um grau que ele não precisava se exibir com
passos de fantasia e giros exagerados. Seu terceiro pensamento foi que a
dança nunca tinha sido tão excitante. E então todo o pensamento cessou.
Ela estava muito presa no momento, em puro sentimento. E sentindo-se
envolvida, todos os cinco sentidos, e assim ela viu cores e luz giratória
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sobre eles e ouviu a melodia e o ritmo e cheiro de sua colônia e de alguma
forma o gosto do vinho que ela tinha bebido na ceia e sentia o calor das
mãos tocá-la e levá-la e fazia ela se sentir acarinhada e exaltada e mais
feliz do que ela tinha se sentido desde... Bem, desde então.
Mas, inevitavelmente, o pensamento voltou finalmente, pouco antes
da música terminar, e com ela veio uma onda de ressentimento. Contra
ele, pois tudo era deliberado com ele, todo artifício. E contra si mesma.
Oh, esmagadoramente contra si mesma. Pois ela permitiu-se ser
enganada, ser varrida além do prazer simples em euforia estúpida. Ela
não podia sequer culpá-lo inteiramente ou talvez em tudo. Ela tinha
consentido sem luta.
— Obrigada, — disse ela quando a dança terminou e todos
aplaudiram, como sempre fizeram depois de uma valsa.
Ela deixou cair a mão de seu ombro, mas seu braço ainda estava
sobre sua cintura, e seu fecho na outra mão ainda estava firme. Seus
olhos, ela viu quando ela olhou dentro deles, estavam olhando-a afiado. E
então recuou, curvou-se e sorriu.
— Ah, não — disse ele. — Eu que agradeço, prima Imogen.
Ele estava em sua maneira polida e encantadora novamente. Seu
escudo de desconhecimento.
Ele pegou sua mão mais uma vez e colocou-a em sua manga antes
de levá-la do chão para se juntar a Elizabeth e Sir Matthew. Ele ficou
conversando por alguns minutos antes de dar uma volta para pedir a mão
de Louise Soames, que parecia em perigo de ser uma galinha para o final
da noite. Mr. Wenzel reclamou Imogen pela segunda vez naquela noite.
Ela desejou – oh, ela desejou, desejou, desejou mesmo – ter ido para
casa com tia Lavínia.
E ela tinha que compartilhar uma carruagem com ele no caminho
de volta. Apenas os dois.
******
Ele estava aqui exatamente a uma semana, pensou Percy, e parecia
um ano. Isso o surpreendia que ele ainda estivesse aqui, quando seria a

100
coisa mais fácil do mundo partir. Hardford não era o epítome do conforto
- quando ele foi para a cama ontem à noite, ele tinha encontrado as
cortinas das janelas, que antes combinavam com a capa de sua cama,
agora tinham sido substituídas por cortinas de um pesado brocado
escuro, e elas estavam de alguma forma presas em uma vara e não seria
aberta, a não ser que fosse mantido à mão. Elas haviam sido colocadas lá
para segurar um pouco a corrente de ar, Crutchley tinha explicado
quando convocado. Ele tinha sido afortunado até agora que não havia
muito vento. Quando havia, ele logo descobriria que soprava pela janela
do seu quarto quase como se não estivesse ali. Ele ficaria muito mais
confortável no quarto de hóspedes na parte de trás.
Percy estava começando a se perguntar a sério se alguém estava
deliberadamente tentando empurrá-lo para fora de seu próprio quarto -
e talvez fora de sua própria casa?
Ele não deveria precisar de um empurrão. Não havia quase nada
aqui para aliviar seu tédio. E ninguém com quem iniciar uma amizade
íntima. Ninguém como seus amigos habituais, no entanto, ele se sentiu
disposto gentilmente em relação ao Sir Matthew Quentin e até a Wenzel,
quando o homem não estava preso a Lady Barclay. Ele era forçado a
compartilhar sua casa com três mulheres e uma mistura de animais, um
dos quais preso a ele como cola. Era uma maravilha que Hector não havia
aparecido nas salas de reunião esta noite. Havia também os outros
vagabundos, os da variedade humana. E havia um mordomo que parecia
estar acumulando poeira junto com os livros da propriedade e devia de
alguma forma ser persuadido a se aposentar. Havia uma propriedade
indo para a ruína. Havia...
Bem, havia a mulher ao lado dele na carruagem, silenciosa, rígida,
tão fria quanto o mármore novamente. Ele não tinha ideia do que tinha
feito para ofendê-la desta vez. Se eles tivessem brigado, ela tinha
começado.
Que parte você está jogando agora?
Você não está nem sorrindo nem jogando charme.
Ela parecia ter descongelado um pouco depois disso. Ela até mesmo
pediu desculpas por sua rudeza. Mas agora... Ele não tinha ideia por que
101
ela estava tão espinhosa. O que era mais importante, ele não se importava
– ou não devia se importar. Ela o irritou além da resistência. Só ela era
suficiente para levá-lo de volta ao seu próprio mundo, exceto que ele
havia descoberto uma raia teimosa em si mesmo esta semana. Sempre
esteve lá? Ele estava quase certo de que ele não gostava dela. E não havia
nada particularmente atraente nela. Ou bonito – apesar de um
pensamento anterior em contrário.
Havia aquele lábio enrolado, no entanto.
Um lábio superior enrolado não fazia uma mulher atraente.
Ele se manteve em seu próprio lado no assento da carruagem e
olhou para a escuridão. Ela permaneceu ao seu lado e fez o mesmo. Não
que fosse possível distanciar-se muito entre si em um banco de
carruagem ou evitar o toque ocasional quando a carruagem fazia a menor
das curvas ou atingia uma rotina, o que ocorria lamentavelmente com
frequencia nas estradas inglesas. O ar estava frio. Eles poderiam ter visto
sua respiração se houvesse alguma luz para ver.
Percy sempre gostava de valsar, desde que pudesse escolher sua
própria parceira. Por alguma razão totalmente insondável, considerando
o ambiente e a qualidade da música, ele tinha encontrado a valsa desta
noite mais do que normalmente encantadora. E ela também, por júpiter.
Essa foi a coisa mais irritantemente possível sobre Lady Barclay. Era
como se tivesse decidido deliberadamente nunca acabar com seu luto,
para nunca se permitir um momento fugaz de felicidade, mesmo na pista
de dança.
Deixe-a se chafurdar em sua própria autocomiseração, então. Não
lhe importava. Ele permaneceria em silêncio em sua presença para
sempre. Lábios trancados. A chave Jogada fora.
— Suponho que você foi estuprada — disse ele.
Bom Deus! Oh, o diabo leva-o e mil raios caem sobre sua cabeça.
Bom Deus! Ele havia falado essas palavras em voz alta? Mas é claro que
ele tinha. Ele podia ouvir o eco deles, quase como se estivessem
ressoando sobre o interior da carruagem como balas de uma arma e não
conseguiu escapar. E se havia algum vestígio de dúvida a ser agarrado,

102
havia o fato de que ela tinha girado sobre para enfrentá-lo e desenhado
em uma respiração afiada, muito audível.
— O que?
— Suponho que você foi estuprada — disse ele com mais suavidade,
fechando os olhos e desejando estar em qualquer outro lugar, exceto ali.
Preferivelmente dobrado em sua própria cama chegando ao fim de um
pesadelo.
— Em Portugal, quer dizer? — disse ela. — Em cativeiro?
Ele manteve os olhos e a boca fechados, um pouco tarde demais. Por
favor, não responda. Por favor, não. Para alguém que se tornou um
grande especialista em evitar tudo o que era desagradável na vida, ele
havia desenvolvido uma enorme capacidade durante a semana passada
para convidar a calamidade.
Ele não queria saber.
— Você pensa erroneamente — disse ela, com voz suave e calma. Ele
teria sido muito mais feliz se ela estivesse com raiva dele, até mesmo
batendo nele com os punhos.
Ele não deveria acreditar nela. Afinal, o que se poderia esperar dela,
mas negá-lo? Que mulher gostaria de admitir ter sido estuprada
enquanto mantida em cativeiro? Especialmente para um estranho perto.
Mas ele acreditava nela. Ou talvez ele só
queria. Desesperadamente.
— Você pensa erroneamente — ela disse de novo e ainda mais
silenciosamente.
Ele virou a cabeça. Ele não podia vê-la claramente na escuridão, mas
é claro que estavam muito próximos um do outro, e sua boca não
precisava de olhos. Encontrou a dela com muita precisão sem sua ajuda.
Ele recuou depois de não mais do que alguns segundos e esperou
pela picada de sua bofetada em sua bochecha - ou um soco no queixo.
Nenhum deles veio. Em vez disso, ela suspirou, um mero sopro de som,
e quando seus braços se aproximaram para atraí-la mais perto, a boca
dela se envolveu sobre ele, e seus lábios se separaram quando seus
103
próprios os tocaram novamente, e ela não fez nenhum protesto quando
sua língua pressionou em sua boca.
Era uma boa coisa que ele estar sentado. Quando ela chupou sua
língua, sentiu os joelhos moles e ele aprofundou o beijo até que ela gemeu
suavemente e ele percebeu o que estava fazendo.
Viúva apaixonante e calorosa.
A quem ele queria com uma ferocidade que parecia ir além da
simples luxúria por sexo.
Quem poderia girar para o mármore na mera gota de seu chapéu.
De quem ele não gostava muito.
Quem ia odiá-lo mais do que já fazia quando se lembrasse de seu
marido morto mais uma vez.
Mil condenação, e outra jogada para boa medida!
Foi ele que se moveu para trás, liberando-a e cruzando os braços
sobre o peito, enquanto acomodava os ombros no canto do assento. Era
fevereiro ou julho?
— Desta vez, Lady Barclay — disse ele, sem gargalhadas, — uma
bofetada no rosto seria dificilmente justificada. Por todos os dois minutos
você foi uma participante voluntária.
— Você não é um cavalheiro — disse ela.
O que quer que isso significasse. Não era a primeira vez que ela
dizia isso também.
Ela não tinha sido estuprada. Então o que?
Ele lembrou-se de um estudante preocupado com uma crosta em
seu joelho em vez de deixá-la sozinha para curar, sabendo que ele só faria
sangrar novamente.

104
VtÑ•àâÄÉ
VtÑ•àâÄÉ L

Imogen voltou para a casa da viúva na manhã seguinte. O trabalho


no telhado não estava bem terminado e o andar superior era uma
bagunça. A mobília que tinha sido deixada lá em cima estava coberto com
capas de Holanda e revestido com poeira e detritos. O andar inferior
estava cheio com muito do mobiliário do andar superior. A casa não tinha
sido aquecida ou limpa por dois meses. Não havia comida no dispensa
ou carvão na caixa de carvão.
Ela não se importava. Ela voltou de qualquer maneira.
Um exército de criados chegou dentro de uma hora de seu retorno,
embora não por suas instruções. Eles trouxeram seus pertences pessoais,
todos cuidadosamente embalados, e alimentos, velas e carvão, bem como
baldes, esfregões e vassouras e outras parafernálias de limpeza – como se
ela não tivesse sua própria. Eles não pediram instruções para ela, mas
definiram sobre iluminação em todos os compartimentos do andar de
baixo e limpeza em todos os lugares e garantindo ter a cozinha ordenada
e funcional, e fazendo uma centena de outras tarefas. Eles foram
supervisionados por uma ferozmente energética Sra. Primrose, a
governanta e cozinheira de Imogen, que ficara com a irmã na parte baixa
da aldeia durante o confinamento, mas tinha chegado quase correndo
quando um lacaio da casa principal levou para ela a notícia de que minha
senhora estava de volta na residência.
Ela logo colocou uma xícara de chá nas mãos de Imogen na sala de
estar e alguns biscoitos de passas frescos fora do forno, e professou-se
estar em seu sétimo céu em voltar a trabalhar onde ela pertencia. Essas
últimas palavras foram ditas com uma nota de reprovação. Imogen tinha
escolhido viver sozinha quando veio pela primeira vez, muito para a
consternação de seu sogro e a decepção da Sra. Primrose – era um título
de cortesia desde que ela nunca fora casada – que tinha sido promovida
de camareira sênior da casa e ainda vivia lá em seu quarto no sótão.
Blossom fora levada para a casa da viúva na cesta de uma camareira.

105
Ela não tinha expressado qualquer objeção particular, nunca tendo se
recuperado de ter levado a cadeira ao lado da sala de visitas e substituída
por uma que ela não achava quase tão confortável, e ela também deveria
renunciar a cada vez que um certo homem estivesse na sala para
reivindicá-lo para si mesmo. Ela rondava sobre o novo ambiente, lá em
cima e para baixo, antes de escolher uma cadeira em um lado da lareira
na sala de estar. Ninguém a ordenou para descer. Ela foi alimentada com
saborosos víveres na cozinha e atribuído uma cama confortável para as
noites em um canto ao lado do forno. Ela prontamente esqueceu a antiga
casa e adotou o novo lar.
O som de martelos na direção do telhado estava perto de ser
ensurdecedor durante todo o dia, mas Imogen não se importava. Pelo
menos o barulho deu indicação de que o trabalho estava sendo feito. E
viver em uma casa barulhenta, gelada, ligeiramente húmida, muito
empoeirada – pelo menos durante a primeira hora ou duas – era
certamente preferível à alternativa.
Ela não pôs os pés fora de casa durante todo o primeiro dia, até
mesmo para verificar seu jardim para ver se alguma flor tinha adiantado
e feito sua aparição. Ela mal tinha deixado a sala de estar desde que tinha
sido limpa e tudo era tumulto e atividade em outro lugar. Ela até comeu
lá, quando a Sra. Primrose declarou a sala de jantar ainda imprópria para
sua senhoria.
Imogen sentiu que estava no céu. Ela sentou-se a noite, como esteve
toda a tarde, com seu cesto de costura ao lado dela e um livro aberto em
seu regaço. Na maior parte, entretanto, ela gostava do silêncio e da
solidão. Sua governanta e os trabalhadores do telhado tinham ido embora
no final do dia, e todos os criados extras voltaram para a casa principal.
Ele leu Alexander Pope, ela pensou enquanto girava uma página de
seu próprio livro. Pelo menos, aquele era o volume que tinha estado sobre
a mesa ao lado de sua cadeira na biblioteca quando ela olhou uma
manhã. Talvez ele tivesse dado uma olhada nele e o fechado e
negligenciado e depois devolvê-lo para a prateleira. Talvez não tivesse
sequer olhado.
E talvez ele tivesse lido.

106
Por que ela sempre queria acreditar no pior dele?
Ela pôs a mão no livro para mantê-lo aberto, fechou os olhos e
apoiou a cabeça na parte de trás da cadeira. Se a noite passada pudesse
ser apagada da memória. Não, não apenas da memória - do fato. Se nada
disso tivesse acontecido. Se ao menos ela tivesse voltado para casa com
tia Lavínia e prima Adelaide.
Mas se apenas não tivessem sentido aquela emoção. Passara três
anos aprendendo essa lição.
Não poderia simplesmente ter desfrutado daquela valsa sem... Bem,
ela não conseguia sequer completar o pensamento. Não sabia o que mais
sentia, mas gozo. Encantamento, talvez?
Ele fez a pergunta no caminho para casa. Muito poucas pessoas
tiveram essa vontade, inclusive sua própria família, embora ela
suspeitasse que muitos se perguntaram. Somente seus companheiros
Sobreviventes e o médico de Penderris sabiam a verdade - a verdade
completa, e ela tinha oferecido as informações para eles.
Como ele ousou perguntar? Ele era um estranho. “Suponho que você
foi estuprada.” Mas ela adivinhou que ele era o tipo de homem que ousava
perguntar qualquer coisa, que acreditava que era seu direito dado por
Deus de se intrometer nos segredos de outras pessoas.
Odiava-o com paixão.
Ela se perguntou se ele tinha acreditado em sua resposta.
Ela o odiara por perguntar. No entanto, ela o beijou imediatamente
depois. Oh, sim, ela tinha beijado. Não havia como negar isso desta
vez. Ele a beijou por alguns segundos, era verdade. Mas depois disso ela
tinha beijado com tanto abandono apaixonado quanto ele a beijou.
Provavelmente mais, pois duvidava que sua paixão tivesse sido algo mais
que luxúria, enquanto a dela... Ela não sabia o que tinha sido. E se tivesse
sido pura luxúria da parte dele, por que ele tinha posto um fim tão
abrupto em seu abraço? Por que ele não tinha tomado mais liberdades
enquanto podia? Deve ter sido óbvio que ela não estava resistindo a ele,
e havia ficado vários minutos da viagem em sua proximidade e
privacidade forçadas.
107
Ela não o entendia nem o conhecia. Ela gostaria de acreditar que ela
fazia as duas coisas. Que ela não gostava dele e queria desprezá-lo. E ele
tornou fácil para ela acreditar que estava vazio de tudo, exceto arrogância
e presunção ...e charme.
Ela gostaria de acreditar que ela não gostava dele. No entanto, na
praia, ela tinha admitido que ele era quase simpático. Oh, isso era tudo
muito confuso e muito perturbador.
Foi ele o único quem enviou aquele exército de servos depois dela
ter vindo para a casa da viúva esta manhã. Um deles tinha admitido,
quando ela ainda estava esperando que fosse tia Lavínia. Ele poderia ter
feito isso, é claro, por puro prazer de se livrar dela e determinado a não
lhe dar nenhuma desculpa possível para retornar. Mas seria rancoroso
acreditar nisso.
Ela realmente não o conhecia. E às vezes, pensou ela, a beleza
extraordinária, mesmo a beleza masculina, deve ser uma desvantagem
para a pessoa que a possuía, pois era fácil olhar apenas para o pacote
exterior e assumir que não havia nada de qualquer valor igual por dentro.
Quando confrontado, ele assegurou-lhe que não havia nada dentro
dele senão charme. Apesar de tudo, Imogen sorriu com esse pensamento.
Ele tinha um dom para o absurdo – um fato que sugeria um certo
conhecimento, uma certa inteligência, até mesmo uma certa disposição
atraente de rir de si mesmo. Ela não queria acreditar nisso.
Ela foi para a cama cedo depois de um dia cansativa por não fazer
nada e ficar acordada até algum tempo depois das quatro horas.

******
A primeira coisa que Percy fez quando saiu da cama na manhã
seguinte à assembleia foi derrubar as cortinas ofensivas de suas janelas,
varas e tudo. Tinham feito seu quarto tão escuro durante a noite que
quando acordou em alguma hora desconhecida não conseguia enxergar
nada na sua frente. Se ele tivesse saído de sua cama e dado alguns passos,
poderia ter levado uma hora para encontra o caminho de volta. Teria
Lady Barclay lhe contado que um de seus amigos de Sobreviventes era
cego? Não me importava pensar. Nem pensar nela. A noite passada...

108
Bem, isso não suportava pensar de qualquer maneira.
Não suportava pensar em um monte de coisas da semana passada.
Ele instruiu Crutchley para que as antigas cortinas fossem restauradas
em seu quarto, os ventos que fossem condenados, e se assegurasse que
não houvesse mais surpresas desconfortáveis esperando por ele quando
ele fosse deitar à noite. Seu coração poderia não suportar a tensão. E ele
pretendia ficar nas câmaras do conde, ele acrescentou, mesmo que ele
encontrasse enguias ou rãs ou ambos em sua cama esta noite.
Ele preparou-se para a provação de entrar na sala de jantar para o
café da manhã. Ele ainda não tinha certeza se devia um pedido de
desculpas a Lady Barclay, embora ele estava bastante inclinado a
acreditar que não. Se ela não gostava de ser beijada, então ela poderia
muito bem manter-se fora de seu alcance. O que era, como rapidamente
se tornou aparente, exatamente o contrário. Lady Lavínia quase não
conseguia se conter em sua ânsia de transmitir as notícias terríveis de que
a querida Imogen tinha ido embora. Mas antes que Percy pudesse
conceber mais do que uma imagem piscando dela fugindo sobre os
mouros desolados na direção geral do Parque Nacional de Dartmoor
ainda mais sombria, ele foi informado que ela tinha retornado à casa da
viúva, mesmo que todos aqueles homens ainda estivessem trabalhando
em seu telhado.
Lady Barclay não levara nada com ela, naturalmente, mulher
impraticável como ela era. Presumivelmente ela preferiria congelar e
morrer de fome e viver para sempre nas mesmas roupas e ser
ensurdecida por golpes de martelo, em vez de passar mais um dia sob o
mesmo teto com ele. Bem, ele preferia também, essa última parte, de
qualquer maneira.
Ele saiu da sala de jantar sem mais delongas e deu ordens para
arrumar suas roupas e outros pertences pessoais e enviá-los após ela,
juntamente com todos e quaisquer suprimentos que ela precisaria,
incluindo sua própria governanta. Ele deu instruções para que os criados
que levassem a mudança só retornassem depois de deixar a casa dela
totalmente habitável, mesmo que durasse o dia inteiro, como
provavelmente aconteceria. O telhado, ele acreditava, mesmo que não

109
estivesse terminado, nenhum dos elementos entraria.
No momento que entrou na sala de visitas, a gata que sempre
manteve a cadeira quente para ele o olhou com fúria e desafiou-o a bani-
la, então ele deu a ordem de mandá-la para a casa da viúva para ficar com
Lady Barclay e talvez dar-lhe alguma companhia. Ele também iria se
livrar de um desprezado.
Ela não ia se permitir ficar sofrendo pelo simples fato de sentir-se
culpada. Isso era exatamente como ela - uma conclusão que não tinha
nenhuma evidência sólida e certamente indigna dele.
Ele precisava sair da casa e do parque. Ele precisava clarear a mente.
Ele passou a maior parte do dia em Porthmare, portanto, embora
não na parte em que a maioria de seus novos conhecidos tinham suas
casas, na parte calma no vale do rio, abrigada do mar e do vendaval, suas
casas dispostas nas encostas com vistas agradáveis para ambos os lados
do rio e o pitoresco par de pontes de pedra arqueada que se estendia
sobre ele. Ele decidiu em vez disso ver a vila de pescadores abaixo, suas
casas caiadas de branco construídas sobre o largo estuário que ligava o
rio do mar e estava totalmente exposta a este último. As pessoas ali, na
maioria pescadores, não pertenciam a ele e não trabalhavam para ele,
exceto talvez em alguns trabalhos sazonais, quando precisavam de mais
mãos. Mas eram uma parte do povoado em que ele tinha seu assento
principal, e enquanto ele estava aqui ele poderia muito bem familiarizar-
se com alguns deles, se ele pudesse. Ele pode até ser capaz de pensar em
algumas perguntas inteligentes.
Deixou seu cavalo na estalagem onde a assembleia tinha sido
realizada na noite anterior e caminhou até a aldeia abaixo. Havia muito
espaço aberto aqui, ele descobriu, as falésias íngremes a alguma distância
de cada lado do largo estuário. Barcos de pesca balançando em seus
canais abrigados, com gaivotas voando e grasnando acima. Parecia um
pouco mais quente aqui do que em Hardford. A paisagem era
definitivamente mais ampla, embora. O ar estava mais salgado. A maré
estava baixa.
Passou várias horas apenas vagando e trocando cumprimentos com
moradores que estavam ao ar livre, trabalhando em um barco virado ou
110
em uma rede, ou de pé, em grupos fofocando enquanto as crianças
corriam em exuberante perseguição um do outro. Ele acabou na taberna
de uma pousada, menor do que a da aldeia, mas razoavelmente limpa e
útil no entanto. Havia vários homens ali, curvados sobre copos de
cerveja, e Percy chamou alguns deles para uma conversa.
Isso não foi perfeitamente fácil, é claro. Era impossível misturar-se
em quase invisibilidade entre esses aldeões, onde provavelmente todos
se conheciam de qualquer maneira. Eles pareciam surpreendidos ao vê-
lo ou claramente desconfiados, até mesmo ressentidos, de sua presença,
assim, entre eles, em seu próprio ambiente, em vez de estar em Hardford,
onde ele pertencia. Bem, ele não podia culpá-los, ele supôs. Ele também
se ressentiria se eles fossem vagar sem convites, sobre o seu parque e
esperasse que ele não só balançasse a cabeça e balançasse a mão para eles,
mas também para trocar saudações respeitosas. E quando alguns homens
da estalagem responderam a suas tentativas de conversação, pareceu
inicialmente quase como se estivessem falando uma língua estrangeira,
tão pesado era seu sotaque Cornish.
Ele não começou a conversa com qualquer agenda em mente, além
de ficar mais familiarizado com este canto remoto da Inglaterra. Mas
depois de algum tempo ele se viu inclinando sua tagarelice
aparentemente sem rumo em uma certa direção e reunindo alguns
trechos de informações interessantes, mesmo que fazendo isso envolvia
peneirar as mentiras descontroladas, ele foi instruído a entender a
verdade.
Contrabando nessa área? Esta área? Olhos confusos e cabeças
sacudindo lentamente. Cabeças sendo coçadas. Não nunca. Não em cem
anos ou mais, de qualquer maneira. Não como nos dias de seus
antepassados há muito tempo. Os antigos, agora, seriam capazes de lhe
contar um conto ou dois, mas mesmo eles só podiam contar as histórias
que lhes tinham contado ao redor de um fogo de inverno quando eram
garotinhos. O contrabando não vingaria nestes dias, mesmo supondo que
alguém estivesse interessado em iniciá-lo. Não com os homens de receitas
respirando no pescoço e os oficiais de equitação desperdiçando seu
tempo com isso e sobre os promontórios procurando o que simplesmente
não estava lá. O governo estava desperdiçando seu dinheiro em seus

111
salários, era isso. Não havia nada para eles encontrar aqui. Por que eles
deveriam usar seus barcos para o contrabando, de qualquer forma?
Gangues? Violência? Execução? Nos velhos tempos, talvez. Os
antigos contaram alguns contos altos que levantavam os cabelos na parte
de trás do pescoço, mas sem dúvida eles eram apenas isso – grandes
contos sem nenhuma real verdade para eles. Tudo era pura e
simplesmente bom para fazer os olhos dos garotos crescerem como pires
e levá-los correndo chamando por suas mamães no meio da noite. Estes
dias eram um povo que respeitavam a lei, eles eram desses.
Havia definitivamente contrabando na área, então, Percy concluiu
enquanto caminhava de volta para o cavalo e voltava para casa. E era
claramente organizado para a máxima eficiência, com um líder e regras e
uma maneira segura de reforçar o sigilo.
Ele não se importava particularmente se havia contrabando ou
não. Era um fato da vida e nunca ia acabar. Não fazia questão de ficar
todo excitado e justo a menos que fosse um homem de renda ou um
oficial da guarda – ou a menos que a própria propriedade fosse às vezes
usada como uma rota de transporte ou até mesmo para o
armazenamento, como a adega da casa da viúva tinha sido uma vez. E a
menos que os servos em seu emprego fossem aterrorizados e até mesmo
prejudicados, presumivelmente para que eles pudessem manter suas
bocas fechadas.
E, perguntou-se de repente, preso pelo pensamento, a menos que o
quarto ocupado à noite estivesse de frente para o mar, de modo que, em
alguma noite escura e sem lua, alguém pudesse estar acordado, e visse
uma frota de pequenos barcos remando para a baía abaixo vindos de um
navio maior ancorado a alguma distância mais além e de um bando de
contrabandistas que aparecem através das brechas das falésias,
carregados até o topo com caixas e barris?
Era essa a explicação para camas e paredes úmidas, fuligem e
também grossas e opacas cortinas? Ele tentou imaginar Crutchley com
um cutelo entre os dentes e um remendo sobre um olho. Ele se viu
sorrindo para essa imagem que sua mente criou. Mas ele despertara
completamente sua própria curiosidade.

112
Percy voltou para casa e amarrou seu cavalo no pomar atrás dos
estábulos, em vez de levá-lo diretamente para dentro para ser
cuidado. Ele instruiu Mimms, seu próprio cavalariço, para sumir por pelo
menos a próxima meia hora, e foi em busca do jovem manco que ele tinha
visto algumas vezes pelo estábulo.
Ele era um homem magro, de cabelos negros, que deveria estar em
seus vinte anos, se tivesse 14 anos quando Lady foi para a guerra com seu
marido, embora agora pudesse facilmente passar por trinta, quarenta ou
até mais. Suas pernas estavam visivelmente deformadas. Seu rosto estava
pálido e curiosamente olhar morto. Ele estava limpando uma baia
quando Percy o saudou.
— Baines?
— Milorde? — Ele parou o que estava fazendo e olhou na direção
de Percy, de ombros redondos e olhos cambaleantes.
— Caminhe até o pomar comigo — disse Percy. — Estou um pouco
preocupado com a perna direita do meu cavalo.
O homem pareceu surpreso. — Devo chamar o sr. Mimms? —
perguntou.
— Acabei de enviar Mimms para uma missão importante — disse
Percy. — Eu quero que você dê uma olhada. Você foi cavalariço pessoal
do falecido visconde Barclay uma vez, não foi?
Baines ficou ainda mais surpreso. Mas deixou de lado o ancinho,
limpou a palha do casaco e dos calções, e saiu. Percy esperou até que ele
tinha apaziguado o cavalo com mãos habilidosas e voz cantando e estava
dobrado sobre sua pata dianteira. Eles estavam fora de alcance dos
estábulos.
— Quem fez isso com você? — Percy perguntou.
Ele não esperava uma resposta, é claro, e ele não conseguiu
nenhuma. Bem, quase nenhum. Baines se endireitou acentuadamente.
— Quem fez o quê, milorde?
— Continue trabalhando — disse Percy, apoiando os braços ao
longo da cerca. — Com toda a justiça, eu não esperava que você saísse
113
com um nome. Você vai responder algumas perguntas com sim ou não,
embora? O visconde Barclay se opôs ao contrabando que estava
acontecendo nesta área, não foi?
Baines estava examinando cuidadosamente a perna do cavalo.
— Eu era apenas um rapaz, — disse ele. — Eu não era o cavalariço
pessoal de sua senhoria.
— Ele se opôs ao contrabando?
— Eu sabia suas opiniões sobre cavalos — disse o homem. — Isso
era tudo.
— Você também expressou uma objeção ao contrabando depois que
ele tinha partido? — Perguntou Percy. — Porque você o admirava tanto?
— Eu queria ir com ele — disse Baines. — Eu queria ser seu
ordenança, cuidar de suas coisas e dele. Meu pai não me deixou ir. Tinha
medo de me machucar.
— Isso é irônico — disse Percy. — Você gostava do visconde
Barclay?
— Todo mundo gostava dele, — disse Baines.
— E o admirava?
— Ele era um bom cavalheiro. Ele deveria ter sido...
— O conde após o falecimento do pai? — Percy disse. — Sim, é
verdade. Mas ele morreu em vez disso.
— Mawgan foi com ele em vez disso — disse Baines. — Só porque
ele era sobrinho do Sr. Ratchett e tinha corpo e tinha dezoito anos de
idade. Mas ele não era bom. Ele fugiu no final. Disse que estava
procurando lenha naquelas colinas estrangeiras quando os soldados
vieram e levaram seu senhorio e sua senhoria. Mas eu apostaria qualquer
coisa que ele estava escondido entre as rochas assustado como qualquer
coisa e então fugiu. Eu os teria salvo se tivesse estado lá. Mas eu não
estava. Não há nada de errado com a perna desse cavalo, milorde.
— Devo ter apenas imaginado que ele estava sustentando-o no
caminho de volta da aldeia, então — disse Percy. — É sempre boa pedida
114
verificar, no entanto, não é? Você tentou parar o contrabando aqui para
que Lord Barclay estivesse orgulhoso de você?
— Há algum contrabando acontecendo no canal Bristol, ou assim
eles dizem, — disse Baines, endireitando-se novamente. — E alguns
sobre Devon. Mas eu nunca estive mais longe de casa do que dez milhas,
se isso, então eu não sei ao certo.
— Ou você se recusou a se juntar à gangue? — Percy perguntou. —
Ou ameaçam dedurá-los aos homens da receita? Não, não responda. Não
há necessidade. Dê uma última olhada naquela perna. Eu vou fazer isso
também. Nunca se sabe quem está olhando, alguém pode ver, mesmo
que não sejamos ouvidos. Nada? Estou contente de ouvir isso. Pode ir,
então. Você também pode levar o cavalo com você.
Baines voltou para os estábulos, conduzindo o cavalo. Era óbvio que
cada passo era doloroso para ele. Percy perguntou-se se o velho conde
havia contratado um médico respeitável para pôr as pernas quebradas no
lugar. Soames? Ele se perguntou o quanto eles haviam sido quebrados.
Ele ia ter que parar com tudo isso, pensou enquanto voltava para a
casa. Ele deve estar muito entediado, de fato, se ele estava começando a
fantasia-se como algum tipo de agente da Bow Street. Ele estava se
metendo em problemas se não tivesse cuidado. E ele realmente não
queria pensar em pernas quebradas e enseadas escuras, em noites sem
lua e barris pesados sendo levados até aquele caminho de penhasco e
personagens obscuros que invadiam a adega da casa da viúva sob os pés
da senhora de mármore.
Ou de si mesmo correndo em seu socorro, espada em uma mão,
pistola empunhada na outra.
Ele lhe devo um pedido de desculpas? Ela tinha sido totalmente
participante naquele beijo na noite passada. Mas que cavalheiro
perguntava a uma senhora descaradamente se ela tinha sido estuprada?
O próprio pensamento de que ele tinha feito exatamente isso era
suficiente para fazê-lo nervoso e suar frio.

******
Imogen estava ajoelhada na grama na manhã seguinte, olhando
115
para o que era definitivamente um Snowdrop6, embora não havia
nenhuma flor ainda. Mesmo o tiro frágil, porém, foi um prenúncio bem-
vindos da primavera. E certamente o ar estava ligeiramente mais quente
hoje. O sol estava brilhando.
O trabalho em seu telhado estava concluído. Tidmouth tinha sido
pago, e ele e seus homens tinham ido embora. Ele tinha assegurado que
o telhado era bom para os próximos duzentos anos no mínimo. Ela
esperava que não voasse na próxima vez que houvesse chuva.
Ela deveria caminhar até a aldeia e visitar a Sra. Park para ver como
ela estava depois de sua saída para a assembleia. Ela devia ir ao vicariato
e deixar que as meninas tagarelassem com ela sobre a dança e suas
conquistas lá – seus pais sempre desencorajavam conversas frívolas, mas
às vezes, as meninas precisavam de alguém a quem pudessem falar sobre
o conteúdo de seus corações. Ela deveria ir até a casa principal para
assegurar à tia Lavínia que a casa da viúva estava perfeitamente
confortável novamente. Ela devia escrever uma carta para Gwen, Lady
Trentham, a esposa de Hugo, que escrevera para informá-la de que a
jovem Melody, sua nova filha, parecia ter se recuperado de sua cólica,
quão maravilhosa que ela tenha nascido antes do Natal e estava
ansiosamente esperando sua jornada para Penderris Hall com sua mãe e
papai em março. Ela deveria...
Bem, havia muitas coisas que deveria fazer. Mas ela podia se
contentar sem fazer nada, embora ela continuasse dizendo a si mesma
que era puro céu estar de volta em sua própria casa. Sozinha.
E solitária.
Ela deve estar se sentindo deprimida. Ela nunca admitiu a solidão –
simplesmente porque não havia solidão para admitir.
E então ela não estava mais sozinha. Uma sombra caiu sobre ela em
direção ao portão do jardim, e ela olhou para cima, esperando
desesperadamente que fosse Tia Lavínia ou Tilly ou mesmo o Sr. Wenzel

116
ou o Sr. Alton. Qualquer um mas...
— Dizendo suas orações ao ar livre, prima Imogen? — perguntou o
conde de Hardford.
Ela se levantou e sacudiu as saias e o manto.
— Há um snowdrop aqui, — ela disse, — embora não tenha
florescido ainda. Eu sempre procuro o primeiro.
— Você acredita na primavera, então? — perguntou ele.
— Acredita em que? — Ela olhou interrogativamente para ele.
— Nova vida, novos começos, nova esperança, — ele sugeriu,
circulando uma mão enluvada no ar. — Fora com o velho, com o novo, e
toda essa reunião dos espíritos velhos e cansados?
— Quero apenas um fim para o frio, — ela disse, — e a visão de
flores e folhas sobre as árvores.
Se ele pedisse que ela andasse com ele hoje, ela diria que não. Mas
mesmo quando pensou nisso, ele abriu o portão e entrou, com Hector nos
calcanhares.
— É um dia lindo — disse ela.
Ele olhou para o céu azul acima e então de volta para ela.
— Precisamos falar sobre o tempo? — perguntou ele. — Falta uma
certa... originalidade como tema de conversa, você não concorda? Mas
está um dia lindo, devo admitir. Eu vim trazer notícias alegres. A querida
Fluff apresentou ao mundo gatinhos; seis deles, aparentemente tão
saudáveis quanto cavalos. Nenhum nanico. E eu acredito que eles são as
coisas mais doces do mundo.
— Tia Lavínia?
— E de algumas criadas e um lacaio, que deveriam estar de serviço
na casa, mas que tinham, inexplicavelmente tomado uma direção errada
e acabaram nos estábulos — disse ele. — Sra. Ferby, como de costume,
não se impressiona com esse tipo de coisa sentimental. Eu posso até ter
ouvido um rumor de afogamento falado em sua voz quando eu saí da
sala depois do café da manhã, mas pode ter sido apenas o ruído de um
117
pouco de dispepsia vindo do, ah, estômago dela.
Não tinha escolha, pensou Imogen. Ela não podia ser abertamente
rude, até mesmo para ele. Especialmente quando ele estava falando
absurdos novamente.
— Você gostaria de entrar, lorde Hardford? — Ela perguntou. —
Você gostaria de uma xícara de chá, talvez?
— Ambos, obrigado. — Ele sorriu para ela, seu sorriso espontâneo,
genuíno – que de alguma forma não parecia espontâneo ou genuíno.
Se ela não soubesse tanto, Imogen pensou enquanto caminhava para
dentro, ela diria que ele estava muito à vontade. Ela não o queria aqui. Ele
não percebeu isso? Será que ele não entendeu que ela tinha voltado para
cá ontem, mesmo antes que a casa estivesse pronta para ela, para escapar
dele? Embora isso tenha sido um pouco injusto. Ela tinha voltado para
escapar de si mesma, ou melhor, do efeito que ela tinha permitido que ele
tivesse sobre ela. Ela não queria sentir a atração de sua masculinidade e
a agitação correspondente de sua feminilidade.
Ele e Blossom se entreolharam na sala de estar. Blossom ganhou o
confronto. Ele tomou a cadeira do outro lado da lareira depois que
Imogen se sentou firmemente no meio de uma poltrona namoradeira.
Hector se abaixou a seus pés, ignorado pelo gato. A Sra. Primrose os tinha
visto entrar e trazia uma bandeja de chá sem esperar instruções. Os
visitantes sempre foram servidos com seu chá e qualquer doce delicioso
que ela tinha assado naquele dia.
Ele falou com grande entusiasmo sobre o tempo até que a bandeja
chegou e Imogen derramou seu chá e serviu-se e colocou sua xícara ao
lado da dele com dois biscoitos de farinha de aveia apoiados no pires. Ele
fez previsões terríveis para o futuro com base no fato de que eles estavam
desfrutando de uma série de belos dias e certamente deveriam sofrer
como consequência. Ele quase a fez rir com seu monólogo, e mais uma
vez ela foi forçada a admitir a si mesma que ela quase gostava dele. Ela
poderia até mesmo retirar a qualificação do quase se ele não enchesse sua
sala de estar a tal ponto que parecia haver quase nenhum ar para respirar.
Ela se ressentia desse carisma que ele parecia levar com ele onde

118
quer que fosse. Parecia indigno.
Ele pegou um de seus biscoitos e mordeu-o, mastigou e engoliu em
seco.
— Se não, então o que aconteceu? — Ele perguntou abruptamente,
e curiosamente ela sabia exatamente o que ele estava falando. Todo seu
jeito havia mudado, e assim também a atmosfera na sala. Se não estupro,
ele estava perguntando a ela, então o que aconteceu?
Ela deveria se recusar a responder. Ele não tinha o direito. Ninguém
mais havia perguntado a ela diretamente. Em Penderris, todos – até
mesmo o médico, até mesmo George – esperaram até que ela estivesse
pronta para oferecer as informações. Levou dois anos para que tudo
saísse. Dois anos. Ela o conhecia há... quantos dias? Oito? Nove?
— Nada — disse ela. — Você estava enganado em sua suposição.
— Oh, — ele disse, — eu acredito em você. Mas algo aconteceu.
— Meu marido morreu — disse ela.
— Mas você não apenas chora — disse ele, olhando para o biscoito
na mão como se ele tivesse acabado de perceber que estava lá, e tomando
outra mordida. — Você também se recusa a continuar a viver.
Ele era muito perspicaz.
— Eu respiro ar em meus pulmões, — disse ela a ele, — e expiro
novamente.
— Isso — disse ele — não é viver.
— Como você chama, então? — Ela perguntou, irritada. Ele não
poderia dar uma dica e falar sobre o tempo novamente?
— Sobreviver — disse ele. — Mal. Viver não é apenas uma questão
de permanecer vivo, não é? É o que você faz com sua vida e o fato de sua
sobrevivência que conta.
— Falado com autoridade? — Ela perguntou.
Mas ela achava, mesmo sem querer, que seus companheiros
Sobreviventes tinham feito muito com suas vidas e sua sobrevivência nos

119
anos desde Penderris. Ben, embora ainda se esforçasse para andar, tinha
adquirido uma grande mobilidade desde que assumiu uma cadeira de
rodas e era o gerente muito ocupado de prósperas minas de carvão e
ferrovias no País de Gales. Ele também estava felizmente casado.
Vincent, apesar de sua cegueira, andava, cavalgava e fazia exercícios, até
mesmo boxe, e compunha histórias infantis com sua esposa, histórias que
ela então ilustrava antes de serem publicadas. Eles tiveram um filho.
Flavian, Hugo, Ralph – eles também eram casados e viviam vidas ativas,
presumivelmente felizes. No entanto, ela podia se lembrar de todos eles
quando estavam tão quebrados que até mesmo puxar outra lufada de ar
tinha sido um fardo. Ralph em particular, tinha sido suicida por um longo
tempo.
Mas nenhum deles carregava seu fardo particular. Assim como ela
não carregava nenhum deles. E se ela não pudesse ver a primeira gota de
neve, não este ano ou nunca? E se ela nunca pudesse caminhar ao longo
do caminho do penhasco ou a praia abaixo?
Ele não respondeu à pergunta. Ele estava mastigando o último
bocado de seu primeiro biscoito.
— O que aconteceu? — Ele perguntou.
— Oh, confissão é uma coisa de duas vias, Lord Hardford, — ela
disse bruscamente. — A menos que um seja padre, talvez. Você também
tem histórias que prefereria não contar.
O progresso de seu segundo biscoito foi suspenso a dois centímetros
de sua boca. — Mas ninguém desejaria escandalizar uma dama — disse
ele, abaixando-o, — ou queimar os ouvidos com histórias desagradáveis.
— Você está apavorado com o mar, — disse ela, — e com os
penhascos. Eu diria que era apenas seu orgulho porque eu, uma mera
mulher, estava lá, quando te levei para o caminho pela praia há alguns
dias atrás.
Ele colocou o biscoito de volta em seu pires.
— Estamos trocando aqui, prima Imogen? — perguntou. — Sua
história pela minha?
Oh... Oh. Não.
120
Ela devia ter pensado antes de falar. Ela não devia ter começado
nada disso.
— Eu devo ir primeiro? — Ele perguntou.

VtÑ•àâÄÉ
VtÑ•àâÄÉ DC

Ele não esperou pela resposta.


— Eu tinha dez ou onze anos — disse ele. — Eu estava nessa idade
desagradável, que todos os meninos passam e talvez as meninas também,
quando eu não sabia de nada e achava que sabia tudo. Nós estávamos
passando algumas semanas pelo mar. Não tenho lembranças de onde,
embora estivesse em algum lugar na costa leste. Havia praias douradas,
penhascos altos, acidentados, um cais e barcos, o mar para mergulhar e
ondas espumantes para se jogar embaixo. Um paraíso para garotos, na
verdade. Mas – a praga da existência de um menino – havia um exército
de adultos comigo, unidos em sua determinação de ver que eu não
desfrutei de um único momento do meu tempo lá – meus pais, um dos
meus tutores, vários criados, até mesmo a minha velha enfermeira. O mar
era perigoso e afogava meninos; os barcos eram perigosos e derrubavam
meninos na água antes de afogá-los; os penhascos eram perigosos e
destruíam garotinhos até a morte em rochas pontiagudas abaixo – tudo
era perigoso. A única coisa que poderia me manter seguro era a
supervisão constante de um adulto, de preferencia da várias “segure-
minha-mão-não faça-isso”. Eu me ressentia cada vez que foi proferida e
todas as mãos que foram estendidas para as minhas.
— Suponho — disse Imogen — que encontrou uma maneira de
chegar ao luto.

— De forma espetacular — concordou ele. — Eu escapei uma noite,


só Deus sabe como, e desci para a praia sozinho. Estava deserto. O mar
estava calmo, os barcos estavam sacudindo convidativamente pelo cais,
121
e eu decidi tentar minha mão nos remos de um deles, algo que eu não
tinha sido permitido fazer apesar dos meus apelos que eu sabia como
usá-los. Eu fiz também. Eu mesmo descobri a arte de realizar um curso
paralelo à praia em vez de um que me levaria através dela na direção
geral da Dinamarca. Depois de um tempo eu avistei uma enseada que
parecia um covil de piratas perfeito e decidi pousar e brincar um
pouco. Arrastei o barco até a praia e me tornei um rei pirata. Eu subi o
penhasco até chegar a uma saliência plana que fez um vigia perfeito e
continuei com o meu jogo até que eu notei várias coisas de uma só vez. Eu
acredito que a primeira foi que eu estava um pouco com frio. Eu estava
com frio porque o sol tinha ido para baixo e o crepúsculo estava
chegando. Então, em rápida sucessão, notei que, enquanto procurava o
horizonte para os navios do tesouro saquear, a maré subiu e reclamou
quase toda a praia abaixo de mim, que o barco tinha sido levantado do
seu lugar de repouso e tinha flutuado para longe, e que os penhascos
atrás de mim e para cada lado de mim eram todos muito altos e muito
selvagem e muito ameaçador.

— Oh — disse Imogen, — sua pobre mãe.


— Bem, sim, — ele concordou, — embora fosse apenas medíocre o
que eu pudesse pensar na época. Passei a noite lá e uma boa parte do dia
seguinte. Parecia uma semana ou um ano. A maré baixou e voltou a subir
novamente, mas mesmo a maré baixa não me ajudou. Não havia
nenhuma maneira de contornar o fim das rochas até a praia principal. E
mesmo se houvesse, eu estava tão paralisado pelo terror que eu não
conseguia mover um cílio ou uma polegada de onde estava, empoleirado
precariamente sobre uma borda que parecia se tornar mais estreita e mais
alta na praia a cada hora que passava. E então o vento se levantou e
tentou me tirar fora do meu poleiro e o céu ficou cinzento e o mar subiu
e espumava, e eu fiquei enjoado mesmo sem estar nele. Quando um barco
finalmente apareceu, atirando e lançando bastante alarme, e o barqueiro
e meu tutor me viram no penhasco, eles tiveram o desembarque do diabo.
E então eles foram obrigados a praticamente me arrancar daquele
penhasco. O barqueiro teve de me jogar por sobre o ombro e ordenar que
eu fechasse os olhos antes de me carregar e me colocar no barco. Eu ouso
dizer que meus olhos estavam rolando em minha cabeça e eu estava

122
espumando pela boca. Eu estava doente novamente no caminho de casa.
Ele olhou para o copo e para o biscoito, mas não moveu a mão em
direção a eles. Talvez – Imogen pensou – tivesse medo que sua mão
pudesse estar tremendo.
— Eles pensaram que eu estava morto, é claro — disse ele —
especialmente quando um barco foi encontrado balançando-se no mar
aberto logo após o amanhecer – vazio e misteriosamente sem um remo.
Meu pai celebrou minha ressurreição dos mortos, assim que eu fui
introduzido em nossos alojamentos; primeiro me abraçando com tanta
força que era surpreendente ele não ter me sufocado e quebrado cada
osso em meu corpo, e então dobrando-me sobre a parte traseira da
cadeira mais próxima, puxando meus calções e espantando as luzes do
dia com mão nua – a única vez que consigo me lembrar de que ele me
bateu. Então ele me enviou para pedir desculpas à minha mãe, que tinha
ido para a cama com sais aromáticos e outros restauradores, mas pulou
para fora, a fim de esmagar meus ossos novamente e me afogar em meio
às lágrimas. Depois que eu tinha comido – em pé – de uma bandeja que
o cozinheiro mandara, carregada de comida suficiente para alimentar um
regimento, eu me esgueirei para o meu quarto, onde meu tutor estava me
esperando com a bengala na mão. Ele me fez dobrar, de joelhos, antes de
me dar doze dos melhores. Então ele me mandou para a cama, onde eu
permaneci até que partimos para casa na manhã seguinte. Eu dormi sobre
minha barriga, numa posição que eu sempre achei desconfortável.
— E você ficou apavorado com todas as coisas relacionadas ao mar
e as falésias desde então.
Ele virou a cabeça e sorriu para ela – uma expressão tão totalmente
natural sem nenhum dos seus habituais artifícios que acabou tirando o
fôlego dela.
— Um destino que mereci completamente — disse ele. — Deve ter
sido uma noite e uma manhã de inferno para eles. Eu era amado, você
sabe, embora às vezes eu pudesse ser um filhote inútil. Só algumas vezes,
no entanto, era justo.
Sim, imaginava que fora amado.

123
— Fiquei orgulhoso de mim algumas manhãs atrás — disse ele. —
Foi indelicado de sua parte notar meu desconforto e observá-lo.
— Bem, — ela disse, — é preciso coragem para enfrentar o pior
medo e se mover para ele e através dele. Talvez tenha sido sua coragem
que eu estava comentando.
Ele riu completamente e ela percebeu algo que ela realmente
preferiria não saber. Ela gostava dele. Ou, ao contrário, ela tinha que
admitir que ele era um homem simpático que perturbou uma calma
interior – aquela que ela tinha passado anos estabelecendo. Não gostava
do que ele fizera com aquela disciplina duramente conquistada.
— Sua vez — ele disse tão suavemente que ela quase perdeu as
palavras.
Mas seu eco permaneceu.
Imogen engoliu. Sua garganta estava seca. Seu chá estava intocado,
assim como o único biscoito que ela tinha pegado. Embora o chá estivesse
provavelmente frio agora, e ela odiava o chá frio. E se ele temia que sua
mão pudesse estar tremendo, ela sabia que a dela estava.
— Não há muito a dizer — disse ela. — Eles sabiam que meu marido
era um oficial britânico, embora o fato de que ele não estava de uniforme
deu a eles toda a desculpa que precisavam para fingir que não
acreditavam nele e usar todos os meios à sua disposição para forçá-lo a
tirar informações dele.
— Tortura — disse ele.
Ela estendeu as mãos sobre o colo e olhou para elas.
— Eles me trataram com o maior respeito — disse ela. — Me foi
dada uma sala privada em sua sede temporária e os serviços de uma
camareira, a esposa de um soldado de pé. Jantei todos os dias com os
mais antigos oficiais franceses, e fizeram um esforço para conversar
comigo em inglês, embora eu fale francês razoavelmente bem. Eu não
tinha sido tão bem tratada desde que tinha saído da Inglaterra.
— Mas você não viu seu marido — disse ele.
— Não. — Ela respirou fundo e lambeu os lábios secos com a língua
124
seca. — Mas às vezes, aparentemente por acidente, para o qual sempre se
desculparam profusamente depois, me deixaram ouvi-lo gritar.
Sua saia estava plissada entre os dedos.
— Ele não divulgou seus segredos? — Ele perguntou, depois do que
parecia ser uma longa pausa.
— Nunca. — Ela alisou os vincos. — Não, nunca.
— Eles não tentaram obter informações de você? — Ele perguntou.
— Eu não sabia nada, — disse ela. — Eles entenderam isso. Teria
sido um desperdício de tempo.
— E eles não usaram você para tirar informações dele?
E ele entendeu demais. Sua saia se dobrou entre seus dedos
novamente.
— Ele nunca disse nada, — ela disse novamente, levantando os
olhos para ele. Ele estava um pouco pálido e sombrio sobre a boca. — E
eles nunca... fizeram qualquer coisa para mim. Eles nunca me machucam.
Depois da sua... morte, um coronel francês me levou de volta à sede
britânica sob uma bandeira de trégua. Ele até fez com que a esposa de um
soldado nos acompanhasse por causa do decoro. Ele foi gentil e cortês. E
é claro que ele ficou surpreso e arrependido quando foi informado de que
eu era de fato a esposa – a viúva – de um oficial britânico.
— Você estava presente quando seu marido morreu? — Ele
perguntou.
Seus olhos estavam trancados com os dele, parecia. Ela não
conseguia desviar o olhar.
— Sim. — Ela estendeu os dedos, soltando o tecido enrugado.
Ele olhou por um momento mais e então ficou abruptamente de pé.
O cão se aproximou dele, e Blossom olhou para os dois sem levantar a
cabeça, viu que sua posse da cadeira não estava prestes a ser contestada,
e fechou os olhos novamente. Lord Hardford colocou um antebraço ao
longo da lareira e botou um pé na lareira e olhou para o fogo.
— Ele era um homem corajoso — disse ele.
125
— Sim.
— E você o amava.
— Sim.
Ela fechou os olhos e os manteve fechados.
Ela os abriu com um alarme quando ele falou de novo. Ele tinha
cruzado a sala para a poltrona namoradeira, sem ela perceber e estava
inclinado sobre ela. Seu rosto estava a poucos centímetros do seu. Mas
sua intenção não era sexual. Ela percebeu isso imediatamente.
— A guerra é a coisa mais maldita, não é? — Ele disse sem pedir
desculpas por sua linguagem ou esperando por sua resposta. — Ouvimos
sobre aqueles que foram mortos e sentem tristeza por seus parentes.
Alguém ouve sobre aqueles que foram feridos e estremece em simpatia e
solidariedade ao acreditar que eles eram os sortudos. Imagina-se que,
uma vez curados, na medida do possível, eles continuam com suas vidas
de onde eles a tinham deixado antes deles irem para a guerra. Mal se
pensa nas mulheres, exceto com um pouco de tristeza pela perda de seus
entes queridos. Mas para todos os envolvidos, mortos ou vivos, é a coisa
mais maldita e danada. Não é?
Desta vez, esperou sua resposta, seu rosto pálido e sombrio e quase
irreconhecível.
— É — ela concordou suavemente. — É a coisa mais terrível.
— Como eles sabiam que você estava lá? — Ele perguntou.
Ela ergueu as sobrancelhas.
— Os franceses — ele explicou. — Eles estavam atrás das linhas
inimigas quando eles te levaram, não estavam? Seu marido achou que
era seguro o suficiente para levá-la com ele até lá. Como eles sabiam que
você estava lá? E como eles sabiam que ele era importante o suficiente
para tomar? Ele não estava de uniforme.
— Foi uma facção de escoteiros — disse ela. — As colinas estavam
cheias deles, e dos nossos, em ambos os lados da linha. A linha não era
uma coisa física, como uma parede entre o parque aqui e a terra além, e
mudava diariamente. Não há nada de arrumado sobre a guerra. Mesmo
126
assim, ele foi assegurado que aquela parte particular das colinas era
segura para mim.
Ele se endireitou e se virou, impaciente e arrogante mais uma vez.
— Haverá aquela noite de cartas com a família Quentin hoje à noite
— disse ele. — Quer que a carruagem te espere? Vou levar meu
cabriolé. Ou prefere que eu diga alguma desculpa por você?
— A carruagem, por favor — disse ela. — Posso escolher viver
sozinha, lorde Hardford, mas não sou um reclusa.
Ele a olhou por cima do ombro. — Você já esteve tentada a ser?
— Sim.
Ele a olhou em silêncio por alguns segundos. — Deve-se considerar
também as mulheres — disse ele. — Seu marido não foi o único bravo em
seu casamento, Lady Barclay. Bom dia para você.
E saiu andando da sala, o cão trotando em seus calcanhares. Poucos
momentos depois que a porta da sala de estar se fechou atrás dele,
Imogen ouviu o portão externo se abrir e fechar também.
“Seu marido não foi o único bravo em seu casamento...”
Se ela tivesse morrido junto com Dicky, os dois juntos, a poucos
segundos de distância. Se ao menos a tivessem matado, como esperava
que fossem, como Dicky esperava que fossem. Coragem... aquele seu
último olhar tinha me dito tão claramente como se ele tivesse falado a
palavra em voz alta.
Coragem.
Às vezes se esquecia de que aquela era a última palavra que seus
olhos haviam falado. Eu tinha chegado um segundo antes. Eu, Imogen. E
mesmo aquelas palavras não ditas às vezes eu esquecia – ou não confiava
porque não tinham sido faladas em voz alta. Embora ela e Dicky sempre
soubessem o que estava na mente um do outro. Eles tinham sido aquele
tipo de casal próximos, irmãos e irmãs, camaradas, melhores amigos.
Eu. E então, coragem.
Ela sentou-se onde estava enquanto uma camada acinzentada se
127
formava sobre o chá frio em sua xícara – e também na xícara do Conde
de Hardford.
******
Ele quase se odiou, Percy pensou enquanto fechava o portão do
jardim atrás dele e, sem pensar conscientemente, tomou o caminho do
penhasco até que ele estava no fosso. Caminhou pela encosta íngreme até
a praia, sem se importar com o possível perigo, e caminhou a curta
distância até a caverna. Entrou sem parar, atrevendo-se pela maré que
poderia subir galopando sobre a areia e prendê-lo ali e afogá-lo. A
caverna era muito maior do que ele esperava.
Sim, ele decidiu, enquanto colocava uma mão sobre uma rocha
saliente e olhava para a luz do dia. Ele odiava a si mesmo.
— Você veio até o fim dessa vez sem ajuda, não é? — Perguntou a
Hector, que estava deitado na entrada da caverna, com a cabeça em suas
patas, os olhos esbugalhados olhando para dentro. — Bem feito.
Por que o cão estava tão apegado a ele quando ele era um pedaço
inútil de humanidade? Os cães eram supostamente discriminados.
Ele acabara de confessar a grande mancha negra sobre o progresso
relativamente sereno de sua vida – o grande terror de que nunca se
recuperara. A loucura desobediente de um menino que deu errado. A
humilhação horrível que o havia perseguido até a idade adulta, embora
o tivesse escondido, sempre pelo simples expediente de ficar longe do
mar e enfrentar todos os outros desafios que lhe surgissem, quanto mais
perigoso melhor, com um descuido imprudente por sua própria vida. Era
sutilmente irônico, que quando supostamente ele herdou o título de
forma totalmente inesperada há dois anos, tinha vindo com uma casa e
um parque que não só estavam na Cornualha, mas também estavam
empoleirados espetacularmente sobre um alto penhasco.
Esse episódio de infância tinha sido praticamente a única mancha
negra em sua vida. Bem, tinha havido a morte de seu pai há três anos, e
que tinha sido terrivelmente doloroso. Mas tais perdas ocorreram no
curso natural de sua vida, e uma delas se recuperou ao longo do tempo.
Parecia-lhe que passara o resto de sua vida evitando cuidadosamente a

128
dor e fazendo realmente um bom trabalho. Mas quem não faria o mesmo,
dada a escolha? Quem deliberadamente cortejaria a dor e o sofrimento?
No entanto, ele não estava disposto a dar desculpas. Sua vida adulta
tinha sido uma escapada empilhada em cima da outra. Desde que voltou
de Oxford há quase dez anos, ele cuidou em não se envolver com
problemas, exceto superficial, sem sentido, muitas vezes estúpida
frivolidade. Ele tinha trinta anos e não tinha feito nada em sua vida de
que ele pudesse se sentir orgulhoso. Bem, exceto seu duplo primeiro grau
com o qual ele não tinha feito nada desde que obteve.
Era normal?
Certamente não era admirável.
Ele havia dito alguma coisa ... naquela mesma manhã. Ele franziu o
cenho por um momento.
Viver não é apenas uma questão de permanecer vivo, não é? É o que
você faz com sua vida e o fato de sua sobrevivência que conta.
E ele tinha dito isso em crítica a ela, burro pomposo que ele era.
Ele também era um sobrevivente, não era? Ele sobreviveu ao seu
próprio nascimento, não é um feito sem importância quando tantos
recém-nascidos não o fizeram. Sobrevivia a todos os perigos e doenças
da primeira infância. Ele havia sobrevivido a essa provação no
penhasco. Ele sobreviveu a corridas irresponsáveis de cavalos e
carruagens e um duelo com pistolas e saltos de largas lacunas entre casas
de quatro andares acima, uma vez durante uma forte tempestade. Ele
tinha feito muita sobrevivência. Ele tinha chegado aos trinta anos mais
ou menos intacto física, mental e emocionalmente.
É o que você faz com sua vida e o fato de sua sobrevivência que conta.
Que diabos ele tinha feito com a dele? Que uso real ele tinha feito
do precioso dom do hálito?
Ele deixou a caverna e andou pela praia até que estava na beira da
água. O sal do ar era mais pronunciado aqui. Sentia-se exposto, cercado
de vastidão, meio ensurdecedor pelo rugido elementar do mar e pela
quebra das ondas. O sol brilhava sobre a água, meio cegando-o. Hector

129
galopava nas águas rasas, com os joelhos na água, enviando cascatas atrás
dele. Ia ser enrolado com areia para levar de volta para a casa.
O que ele temia exatamente do mar? Perguntou Percy. Será que toda
aquela água poderia prendê-lo e afogá-lo? Ou era algo mais fundamental
do que isso? Seria o medo de desaparecer em nada em tal vastidão? Ou o
medo de ficar cara a cara com o vasto desconhecido? Era apenas que era
mais fácil agarrar-se ao seu pequeno mundo interior trivial?
Mas ele não estava acostumado a introspecção e voltou sua atenção
para seu cão, que obviamente estava se divertindo.
O cachorro dele?
— Malditos sejam os teus olhos, Hector — murmurou. — Você não
poderia ter sido um mastiff inglês orgulhoso e bonito? Ou gostado da Sra.
Ferby em vez de mim?
Ela não tinha jogado justo – Lady Barclay, não a Sra. Ferby. Ele
contou-lhe toda a sua história, até a puxar das calças para a palmada. Ela
só lhe contara apenas uma parte dela. Um pedaço dela, a parte chave
dela, tinha sido omitido. E era a própria parte que ele suspeitava que iria
explicar tudo.
Ele não tinha o direito de saber. Em primeiro lugar, ele não tinha o
direito de pedir. Ele tinha apenas mais ou menos enganado ela em contar
sua história, oferecendo a sua própria em troca. E ele não queria saber o
que ela tinha retido. Ele se encolheu, mesmo com o que ela lhe dissera. Ele
tinha a sensação – não, ele sabia – de que os detalhes perdidos seriam
insuportáveis.
Ele sempre evitava o que era insuportável.
Ela passara três anos no Penderris Hall. E logo se via que ela ainda
não estava remendada. Longe disso. Não era simples aflição que a
mantinha quebrada.
Ele não queria saber.
Ele não costumava tentar a vida de outras pessoas. Ele não era
geralmente curioso sobre o que não era de preocupação pessoal para ele,
especialmente se ele prometeu algo doloroso.

130
Lady Barclay não era de nenhum interesse pessoal para ele. Ela não
era de modo algum do tipo de mulher para atraí-lo. Na verdade, ela era
tudo o que normalmente ele repelia.
O que era anormal em seus negócios com ela, então?
Diabo, pensou abruptamente, precisava sair. Não apenas da praia,
embora ele se virou para andar de volta, de qualquer maneira, deixando
Hector para alcançá-lo. Hardford Hall. Cornualha. Ele precisava colocá-
los atrás dele, esquecê-los, mandar um decente mordomo para gerenciar
a propriedade e contentar-se com o conhecimento de que ele tinha feito
o seu dever ao vir e ajustar as coisas em ordem. Ele precisava voltar para
sua própria vida, para seus amigos e sua família.
Ele precisava esquecer Imogen Hayes, Lady Barclay – e ela
certamente ficaria encantada demais para ser esquecida. Ela não teria que
esconder tanto na casa da viúva quando ele tivesse partido.
Ele definitivamente partiria, ele decidiu enquanto subia o caminho
até o topo, sem fôlego, mas sem vontade de diminuir a velocidade. Hoje.
Ou na pior das hipótese, nas primeiras horas da manhã seguinte. Ele iria
pedir a Watkins para arrumar seus pertences e mandaria uma mensagem
para Mimms nos estábulos. Mas ele não teria que esperar por nenhum
deles. Ele podia montar seu cavalo e ir para casa como ele tinha vindo.
Ele partiria hoje.
Ele mandaria uma desculpa para os Quentins.
Sentia-se decidido, até alegre, enquanto empurrava um buraco nos
arbustos de tojo sem assassinar suas botas, e depois caminhou pelo
gramado em direção à casa. A única decisão que restava era se ele levaria
Hector com ele – não correndo ao lado de seu cavalo, é claro, mas na
carruagem. Watkins poderia muito bem abandonar o estoicismo e a mão
em seu aviso. E Percy seria o riso de Londres. Mas quem se importaria?
Estaria a muitas milhas em seu caminho antes de escurecer. Ele se
animou pelo simples pensamento de sua partida e seu passo aumentou
com a perspectiva agradável de ir para casa – e nunca mais voltar.
Não havia ninguém na sala quando ele entrou na casa. Mas havia
duas cartas em uma bandeja de prata na mesa de frente para ele. Percy
131
olhou para elas, esperando que fossem para qualquer um menos ele,
como provavelmente eram. Ninguém tinha escrito desde que ele tinha
chegado.
Ele reconheceu a escrita em ambas – a de Higgins, seu secretário em
Londres, por um lado e... Sua mãe está no outro.

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Percy franziu a testa para as cartas. Ele poderia ter terminado com
tudo isso sem essa distração, quando ele estava pronto para subir ao
andar de cima e ordenar a Watkins para arrumar tudo e partirem. Mas
isso foi antes de seu propósito ser resfriado.
Talvez Higgins tivesse encontrado alguém para assumir o cargo de
mordomo. Agora isso seria uma notícia bem cronometrada – e rápida
também. Mas como diabos sua mãe sabia que ele estava aqui? Ele tinha
sido muito negligente e não escrito desde que ele chegou aqui. Talvez o
primo Cyril tivesse passado a palavra. E então seu cenho franzido se
aprofundou quando ele rejeitou sua mente. Ele tinha escrito para
ela? Naquela noite, ele partiu para Cornualha depois de escrever para
avisar Ratchett que ele estava vindo aqui e sugerir que as teias de aranha
fossem varridas das vigas antes que ele chegasse? Demônio, se ele
realmente acrescentou isso à letra? Isso era o que dava, em colocar a
caneta no papel quando alguém estava embriagado. Ele tinha escrito para
a mãe também? E se sim, que diabos ele disse?
Ele quebrou o selo e abriu a única folha. Os olhos dele escrutinavam
as linhas estreitamente espaçadas de sua pequena e limpa caligrafia.
Sim, de fato recebera sua carta de Londres, e estava encantada por
estar finalmente cumprindo seu dever ao descer à propriedade da
Cornualha. No entanto, ela estava profundamente perturbada ao saber
como ele estava infeliz com sua vida e como estava solitário...
132
Ele iria jurar sem licor a partir deste momento. Nem uma única gota
jamais passaria por seus lábios. Que tipo de bobagem sentimental e auto
piedosa ele tinha escrito naquela carta para sua mãe? Ele continuou a ler.
Talvez assumir suas responsabilidades em Hardford Hall seria a
salvação dele, e ela não iria se surpreender se seus vizinhos estivessem
recebendo ele de braços abertos após dois longos anos de espera. Ele
certamente descobriria o propósito e a amizade lá – e talvez até alguém
especial?
Percy fez uma careta. Sua mãe era sempre esperançosa e sempre
romântica sem esperança. Ele deveria escrever para tranquilizá-la – e
esmagar suas expectativas – antes de ir para Londres. Mudou tudo, ele ia
atrasar sua partida por pelo menos meia hora.
E dobrar tudo isso, ele estava indo para deixá-la para baixo.
Novamente.
E desapontando ela.
Novamente.
Ela nunca disse tanto, mas ele sabia que ela ainda estava esperando
que um dia ele faria dela realmente orgulhosa dele. Ela estava declarando
para sempre seu amor e seu orgulho, mas ele sabia que ele a tinha
decepcionado desde o momento em que deixou Oxford depois de escalar
alturas acadêmicas inebriantes lá e deslizou em uma vida de ociosidade
e frivolidade.
Seus olhos se tornaram desfocados e olharam pela página em vez de
olhar para ela. Havia apenas uma ou duas frases, entretanto,
provavelmente apenas as cortesias com que se sentia sempre obrigado a
terminar uma carta. Ele focou seus olhos neles.
“Farei tudo o que estiver ao meu alcance para levantar o ânimo, Percy” —
ela escrevera. — “Eu e talvez algumas de suas tias, tios e primos. Nós nunca
tivemos a chance de celebrar o seu aniversário juntos como uma família. Vamos
fazê-lo tardiamente. Vou partir para a Cornualha amanhã de manhã.”
Ele olhou para a última frase na esperança de que, de alguma forma,
por alguma bruxaria, as palavras mudassem diante de seus olhos, se

133
dissolvessem e evaporassem, se tornassem algo diferente ou nada.
Sua mãe estava vindo! Aqui!
Com outros parentes sortidos e não identificados.
Ficar aqui. Para comemorar seu aniversário tardiamente. Para
levantar o ânimo.
A essa altura já estavam a caminho. Dada a maneira usual de sua
mãe de se mover com sua bagagem e comitiva de um local geográfico
para outro, levaria para sempre para chegar aqui, já que ela estava vindo
todo o caminho de Derbyshire. Mas mesmo assim... Ela estava a caminho.
Isso significava que não havia chance de detê-la. E talvez houvesse
hordas de tias e tios e primos todos convergindo gradualmente para este
lugar particular no globo também. Não havia como detê-los, supondo
que nenhum deles tivesse ouvido o grito de guerra de sua mãe.
Era uma suposição bastante segura que alguns deles tinham.
Tudo seria uma alegria cordial em Hardford. Uma festa em família.
Uma grande. Não seria apenas sobre seu aniversário ou, ou apenas sobre
a família, ele suspeitou. Seria sobre seu regresso a casa como conde de
Hardford também. Havia um salão de baile na parte de trás da casa, um
salão amplo, sombrio, gasto e tristemente negligenciado. Ele estaria
disposto a apostar metade da sua fortuna que sua mãe iria assumi-lo em
uma grande explosão de energia como seu projeto especial. O aniversário
com a família com festa de boas-vindas se tornaria um grande baile como
os que a Cornualha nunca tinha visto antes – e jogar em Devon e Somerset
para a boa medida. Apostaria a outra metade de sua fortuna nele.
Uma coisa era clara. Afinal, ele não iria galopar em qualquer lugar
hoje. Ou amanhã.
Crutchley rangeu seu caminho para o corredor. Prudence veio
correndo atrás dele e rosnou para Percy antes de se afastar novamente.
Isso era como um déjà vu.
— Crutchley, — Percy disse, — dar a ordem para virar a casa de
cabeça para baixo e de dentro para fora, por favor. Minha mãe é esperada
dentro das próximas semanas, com a possibilidade de um número
indeterminado de outros convidados chegando antes ou depois dela. Ou
134
mesmo com ela, suponho.
Se o seu mordomo foi surpreendido, ele não mostrou.
— Sim, senhor, — disse ele, e voltou de onde tinha vindo.
Percy subiu as escadas para ver se Lady Lavínia estava em algum
lugar a ser encontrado. Ele estaria disposto a apostar outra metade de sua
fortuna – não, isso faria três e não havia três metades em um todo,
estavam lá? De qualquer maneira, ele iria apostar algo que ela estaria em
êxtase quando ele lhe dissesse a notícia.
Então, ele estava condenado a vê-la de novo. Ele não queria vê-la.
Ela o incomodava.
Ele desejou não ter pressionado ela para contar qualquer história
dela. A lacuna nele fez seu estômago revirar ainda mais do que a coisa
toda tinha antes dela lhe contar.
******
Dois dias depois Imogen admitiu a si mesma que estava inquieta e
infeliz. E solitária. E muito, muito deprimida. Ela tinha se abatido
profundamente, parecia, um lugar temido para estar. Não tinha
acontecido desde que ela deixou Penderris há cinco anos. Não que ela
tivesse sido feliz durante os anos que se passaram. Ela nunca quis estar.
Seria errado. E certamente sentira momentos de solidão e depressão. Mas
ela nunca se permitiu ser envolvida em quase desespero sem qualquer
maneira discernível de arrastar-se livre.
Ela tinha mantido a sua vida em um barco mesmo, matando todos
os sentimentos profundos, vivendo sobre a superfície da vida. As únicas
vezes em que se permitiu que seus espíritos se aproximassem do
aumento eram aquelas três semanas de cada ano em que ela se reunia
com seus companheiros Sobreviventes. Mas essa era uma espécie de
euforia controlada. Embora ela adorasse esses amigos, simpatizava com
seus contínuos sofrimentos, se alegrava com seus triunfos, ela não estava
intimamente envolvida em suas vidas.
Agora sua vida sentia-se assustadoramente vazia. Talvez tenha sido
porque quase um ano se passou desde a última reunião e desde então ela
não tinha visto nenhum deles. Ela estaria com eles novamente em breve.
135
Mas mesmo essa perspectiva não significava que poderia animá-la.
Ela se manteve ocupada. Seus canteiros de flores estavam desnudos
de ervas daninhas e ela tinha cortado a cerca quadrada de cada lado do
portão, embora fosse muito cedo no ano para que houvesse qualquer
crescimento real. Ela tinha trabalhado em um fino crochê que ela tinha
começado na casa do seu irmão durante o Natal e leu um livro inteiro,
embora não tinha certeza se lembrava do seu conteúdo. Ela tinha escrito
cartas para sua mãe e sua cunhada; Para Lady Trentham e Hugo; A Lady
Darleigh, que o lia para Vincent; Para George. Ela tinha estado em
Porthmare para fazer algumas compras e fazer algumas visitas. Ela tinha
assado um bolo mais cedo para levar a irmã da Sra. Primrose na aldeia
mais baixa – ela havia dado à luz recentemente seu quarto filho. Ela tinha
verificado cada quarto no andar superior e cada armário e guarda-roupa
e gaveta para garantir que tudo estava em ordem.
Não restava mais nada a fazer além de mais leitura ou crochê. Ela
estava sozinha e não havia nenhum evento social planejado para a noite.
A auto piedade era uma coisa horrível.
Ela o tinha visto pela última vez na noite passada na festa de cartas
dos Quentins. Ele tinha sido seu habitual charmoso auto, e tinha-se
comportado em sua presença como se ela nem sequer existisse. Ela não
acreditava que seus olhos se encontraram nem uma só vez durante a
noite. Eles não haviam falado uma palavra entre si e tinham se sentado
em diferentes mesas para cartas.
Tudo tinha sido um enorme alívio. Ela ainda estava se sentindo mal
de contar sua história. Por que diabos ela permitiu que ele a manuseasse
em fazê-lo?
Mas ele não poderia ter olhado para ela pelo menos uma vez? Ou
tivesse dado boa noite para ela no início ou boa noite no final? Ou ambos?
A confusão de seus sentimentos a intrigou e alarmou. Era tão
diferente dela, permitir que alguém dominasse seus pensamentos ou
controlasse seus humores.
Estavam esperando companhia na casa principal. Graças a Deus que
ela tinha sido capaz de voltar para a casa da viúva. Sua mãe estava vindo

136
e talvez outros parentes também. Sua mãe estava decidida a organizar
uma espécie de trigésima festa de aniversário para ele, avisara a todos na
noite social dos Quentins, mas todos, é claro, ficaram encantados. Imogen
não conseguia lembrar-se de quando tinha passado a companhia em
Hardford Hall ou qualquer tipo de festa ali. Para o décimo oitavo
aniversário do Dicky, talvez?
Ela esperava que ela não precisasse se envolver de forma alguma,
com a visita ou a festa. Talvez tudo acontecesse depois que ela partisse
para Penderris.
Ela desejava que ele simplesmente fosse embora, embora isso
parecesse uma esperança remota agora, pelo menos por um tempo.
Talvez, se ele fosse embora, ela seria capaz de recuperar um pouco de sua
serenidade.
Ela fez uma xícara de chá depois de lavar os pratos que ela usara
para fazer o bolo, e levou-a para a sala de estar, onde Blossom estava
perto do fogo. Pelo menos o gato era um ser vivo, Imogen pensou,
colocando sua xícara e pires e coçando-a entre suas orelhas. Ela sentiu
mais do que ouviu um ronronar de contentamento. Ela estava tão feliz
que Blossom tinha vindo e ficado. Ela nunca tinha pensado em ter um
animal de estimação, alguma criatura viva para confortá-la e manter sua
companhia.
Houve uma batida na porta. Imogen olhou para cima,
assustada. Não era tarde, mas era fevereiro e já estava escuro lá
fora. Também estava chovendo. Podia ouvir contra as janelas – a primeira
chuva que tiveram por algum tempo.
Quem... ?
Houve outra batida e ela correu para abrir a porta.
******
Até que sua mão soltou a aldrava e bateu contra a porta, Percy se
convenceu de que ele estava apenas fora para um passeio à noite, mas
iria verificar se o telhado ainda estava intacto na casa da viúva enquanto
ele estava aqui, antes de circular de volta para o salão.
Era uma noite escura, mas ele não trouxera uma lanterna com ele. As
137
doze capas de seu casaco faziam um trabalho digno de manter fora a
chuva e o frio. A aba de seu chapéu alto fazia um trabalho tolerável de
proteger seu rosto, embora só se ele mantivesse a cabeça em um certo
ângulo, e mesmo assim havia pequenas fugas cada vez que água
suficiente tinha coletado na borda para escorrer, um dos quais tinha
encontrado o seu caminho até a parte de trás do pescoço. O caminho ao
longo do qual ele andava estava se tornando um pouco liso sob os pés e
ameaçava se transformar em lama se a chuva continuasse. Um vento
estava se levantando. Não era exatamente uma tempestade, mas não era
nem uma brisa suave, nem uma brisa quente.
Em outras palavras, era uma noite miserável para estar fora, e
somente quando sua mão tinha liberado a aldrava ele admitiu a si mesmo
que um passeio não era afinal o que ele estava fazendo para. E aqui ele
estava terminando uma frase novamente, mesmo que apenas em sua
própria cabeça, com uma preposição.
Ela não correu para abrir a porta para ele. Talvez não tivesse ouvido
a aldrava. Talvez ainda tivesse oportunidade de escapar, de voltar aos
degraus e secar diante do fogo da biblioteca com um copo de vinho em
uma das mãos e o volume de Papa na outra.
Ele bateu a aldrava contra a porta novamente, e em segundos a
porta se abriu.
Ela tinha voltado aqui para escapar dele. Um bom momento para se
lembrar disso.
— Você está realmente sozinha em casa? — Ele perguntou. — Não
vai fazer diferença, você sabe.
Descobrira só no café da manhã que sua empregada não morava lá.
Perguntava-se se aquela ideia era da governanta ou dela. Ele apostaria no
último.
— É melhor você entrar, — ela disse nada graciosa.
Ele fez isso e ficou pingando por todo o pequeno corredor.
— Não — ele disse firmemente enquanto ela começava a estender a
mão. — Você não é um mordomo e não há nenhum ponto em que ambos
estejamos encharcados. Ele tirou o chapéu e o casaco enquanto falava e
138
os colocou ali perto enquanto ela cruzava as mãos na cintura.
Ela observou enquanto passava um dedo por baixo das costas de
sua gravata. Não havia nada que ele pudesse fazer sobre a sua umidade,
exceto colocar-se com ele.
— O fato e a propriedade de estar sozinha em casa não são de sua
responsabilidade, lorde Hardford — disse ela. — Eu não vou ter você
ditando regras aqui em minha própria casa.
Ele abriu a boca para disputar o último ponto, mas fechou-a
novamente sem dizer nada. Seria insignificante argumentar. Mas não
podia capitular completamente. — Mesmo abrir a porta depois que sua
criada saiu pode ser perigoso — disse ele. — Como você sabia que era
seguro fazê-lo agora?
— Eu não sabia — ela disse. — E claramente não era. Mas não vou
viver com medo.
— Quanto mais te enganar, então — disse ele. Ele não tinha perdido
o insulto, mas talvez ele o tivesse devolvido. Normalmente não
chamávamos de idiota uma dama. — Vamos ficar congelando aqui no
corredor?
— Peço desculpas — ela teve a bondade de dizer enquanto se virava
para abrir o caminho para a sala de estar, que era acochegante e
acolhedora. — Espero, entretanto, que não tenha vindo aqui para ser
desagradável. Tome a cadeira junto ao fogo enquanto eu faço um chá.
— Não por minha conta — disse ele, aproveitando-se da cadeira que
indicava. — E eu não sou nem sempre nem mesmo muitas vezes
desagradável.
— Eu sei — disse ela. — Você é encanto até o coração.
Ah, uma citação direta de sua própria boca. Bem, e assim ele estava
com quase todo mundo que ele conhecia. Todos, na verdade, exceto Lady
Barclay. Ele a olhou enquanto ela arrumava suas saias sobre ela no
assento de amor. Era injusto pensar nela como feita de mármore. Por
outro lado, ela também não era todo o calor feminino. Ele não tinha ideia
do por que tinha vindo.

139
— Eu não tenho ideia por que eu vim — disse ele.
Ah, o polido cavalheiro de boas maneiras consumadas com uma
infinidade de assuntos educados sobre os quais conversar.
— Você veio para me desaprovar e encontrar culpa e repreender, —
disse ela. — Você veio porque eu sou um estorvo em sua propriedade e
você está muito irritado simplesmente para me ignorar.
— Ohou! — Ele disse. — Você não seria decentemente submissa o
suficiente para me permitir pagar seu telhado.
— Exatamente — ela concordou. — Mas você encontrou uma
maneira de pagar metade de qualquer maneira e de me fazer agradecida
a você para fazer o trabalho sem mais demora.
—Você está tão irritada comigo como supostamente estou com você.
— Mas eu não procurei você esta noite — ela apontou com uma
lógica condenadamente impecável. — Eu não fui à sua casa, lorde
Hardford. Você veio para a minha. E se você se atrever a assinalar que
minha casa é realmente sua, vou lhe mostrar a porta.
Ele se recostou em sua cadeira, não um movimento particularmente
sábio, uma vez que pressionou sua camisa úmida contra suas costas. Ele
tamborilou os dedos nos braços da cadeira. — Eu não quero brigar com
ninguém, — disse ele, — especialmente as mulheres. O que há com você?
— Eu não venero e nem adoro você, — disse ela.
Ele suspirou. — Estou sozinho, Lady Barclay — disse ele.
Sim, o que era sobre ela? Que diabos era?
— Acho que talvez entediado seria uma palavra mais apropriada,
— disse ela.
Ela estava certa.
— Você presume me conhecer, então? — Ele perguntou.
Ela abriu a boca, respirou fundo e, curiosamente, corou.
— Peço desculpas — disse ela. — Por que você está sozinho? É
apenas que você está longe de sua família e amigos? Há muitos deles?
140
— Família? — ele disse. — Muitos. Todos os que me amam, e todos
os que eu amo também. E amigos? Outro tanto, a maioria deles
conhecidos amigáveis, um pouco mais perto do que isso. Eu sou, como
um de meus primos me informou em meu aniversário recentemente, o
mais afortunado dos homens. Eu tenho tudo.
— Exceto? — Ela disse.
Ele ergueu as sobrancelhas, mas não falou nada
— O que você não tem, lorde Hardford? — perguntou ela. — Porque
ninguém tem tudo, você sabe, ou mesmo quase tudo.
— Bem, isso é um alívio saber. — Ele sorriu para ela. — Ainda há
algo para viver?
— Você faz isso muito bem — disse ela.
— O que?
— Dando a impressão de que não há nada para você, mas... Encanto
— disse ela.
— Ah, mas não me decepcione, lady Barclay, e torne-se a típica
mulher — disse ele. — Você não deve acreditar que em algum lugar
dentro de mim há um coração.
Seu estômago virou uma cambalhota completa então. Ela sorriu de
volta para ele – lábios, olhos, todo o rosto.
— Oh, eu nunca faria essa suposição tola, — ela disse. — Por que
você está sozinho?
Ela não ia deixar isso passar, não é? Por que ele usou aquela palavra
estúpida quando queria dizer simplesmente que estava entediado?
Ela fez outra pergunta antes que ele pudesse responder. — O que
que você fez em sua vida que fez você se orgulhar de si mesmo? — Ela
perguntou. — Deve haver alguma coisa.
— Deve haver?
— Sim. — Ela esperou.
— Eu me saí muito bem em Oxford — disse ele timidamente.
141
Ela ergueu as sobrancelhas. — Você fez?
Bem, isso a surpreendeu e ela parecia cética. De repente, sentiu-se
picado. — Um duplo primeiro — disse ele. — Nos clássicos.
Ela olhou para ele. — Suponho — disse ela — que você está
realmente lendo o volume da poesia do Papa.
— Você tem me verificado? — Ele disse. — Você esperava algo da
imprensa Minerva? Sim, eu realmente fui forçado a ler poesia – em inglês
– enquanto eu estou na Cornualha.
— Por que você está sozinho? — Ela perguntou mais uma vez.
— Talvez, — disse ele, — ou provavelmente é a necessidade de sexo,
Lady Barclay. Eu não tenho nenhum por um tempo. Fui lamentavelmente
celibatário.
Se ele esperava algum sinal de choque, ficou desapontado. Ela
apenas balançou a cabeça lentamente. — Não vou pressionar o assunto
— disse ela. — Você não quer responder à minha pergunta. Talvez você
não possa. Talvez você não saiba por que está sozinho.
— Você está? — perguntou ele.
— Solitária? — Ela disse. — Não frequente. Sozinha, sim. Solitária,
sim. Eu escolho esses estados o mais que posso, embora eu não me
permita tornar-me uma reclusa. Todos nós precisamos de outras
pessoas. Não sou nenhuma exceção a essa regra.
— Eu suponho, — ele disse, — você estar celibatária durante os
últimos oito anos. Você sente falta de sexo? Você anseia por isso?
De onde veio isso? Se alguém se limitasse a obrigá-lo a apertá-lo, ele
concordaria alegremente, mas só depois de ouvir sua resposta. Ela ainda
não parecia chocada, ofendida ou envergonhada. Ela estava olhando
diretamente para seus olhos. Meu Deus, se ela tinha trinta anos, ela não
fazia sexo desde os vinte e dois anos. Era um pedaço muito grande de
seus anos de juventude.
— Sim — ela o surpreendeu dizendo. — Sinto falta disso. Escolho
não pensar muito nisso — Ela olhou para as mãos, que estavam apertadas
frouxamente em seu colo. — Escolhi — ela disse, mudando o verbo do
142
que ela tinha dito e no processo mudando o significado também.
Um pedaço de carvão deslocou-se na lareira, enviando faíscas pela
chaminé e Percy ficou consciente da enorme tensão na sala. Ele não tinha
ideia por que ele viera aqui, mas certamente não esperava nada
disso. Isso não era conversa. Nem era flerte. Isso era... Que diabo era?
— Eu acho, — disse ele, — que eu vim para a Cornualha na
esperança de me encontrar, embora eu não percebesse isso até este
momento. Eu vim porque eu precisava me afastar da minha vida e
descobrir se, a partir dos trinta anos de idade, eu poderia encontrar
algum propósito novo e que valesse a pena. Mas minha velha vida está
prestes a me recuperar de novo sob a forma de números desconhecidos
da minha família, liderados por minha mãe. Eu os amo e eu os ressinto,
Lady Barclay. Posso buscar refúgio aqui ocasionalmente?
Pergunta estúpida! Ela tinha se mudado para ficar longe dele. E
tinha ficado feliz em vê-la partir.
O gato acordou e se esticou, suas patas se espalharam diante dela,
suas costas arqueadas. Saltou para o chão, se aproximou do assento de
amor e saltou para o colo de lady Barclay, onde se enrolou e se endireitou
para dormir novamente para se recuperar de seus esforços. Percy
observou sua mão suave sobre as costas do gato. Ela tinha dedos finos
com unhas bem cuidadas.
— Você me quer como uma amiga, lorde Hardford? — Ela disse. —
Alguém não do seu velho mundo? Alguém que não te venere e te adore?
— Eu quero você como amante — disse ele. — Mas fora isso, a
amizade vai bem.
Era uma coisa boa que ela estivesse mais distante do que o
comprimento do braço, pensou, e que sua liberdade de movimento era
dificultada pelo gato em seu regaço, ou era inteiramente possível que
estaria nutrindo umas bochechas ardidas agora ou a mandíbula rachada.
Era verdade? Ele a queria como amante? Senhora Barclay? A mulher
de gelo? Ela não poderia ser menos como seu tipo usual de amor, se ela
pudesse. Mas talvez esse fosse o ponto?
— A amizade parece improvável, mas possível, — disse ela. Ela
143
estava olhando para o gato.
Ele não disse nada. Ele estava mesmo segurando a respiração, ele
percebeu antes de soltá-la. Ela ia permitir que ele voltasse, não é? E ele
queria? Era sábio – nas noites como esta quando não havia sequer um
criado na casa, muito menos uma acompanhante? Ela se importava? E ele
também se importava?
Seus olhos estavam sobre ele.
— Eu não tenho certeza sobre o outro — disse ela.
Ele a entendia corretamente? Mas ela não poderia significar nada
além do que ele pensava que ela queria dizer. O ar estava chiado – e não
tinha nada a ver com o fogo, que tinha queimado bastante baixo. Ele
levantou-se abruptamente para colocar mais carvão nele.
— Devo voltar — disse quando terminou. — Já te incomodei o
suficiente por uma noite. Não, você não precisa se mover. Mas lembre-se
de trancar a porta quando você se levantar.
Ficou de pé diante dela por alguns momentos, olhando para ela.
Então ele se inclinou sobre ela, sem perturbar o gato, e beijou-a
brevemente. Seus lábios eram macios e quentes. Não responsivo, mas não
insensível. Ele se endireitou.
— Imogen — disse ele, puramente por ouvir o nome dela deslizando
em sua língua.
— Boa noite, Lorde Hardford — disse ela suavemente.
A chuva tinha diminuído um pouco e o vento tinha caído, ele
encontrou como ele pisou fora, embora ele estava cercado por quase
preto-escuro. Ele tinha começado algo esta noite – talvez. Mas o que?
Amizade? Um caso?
Parte dele estava exultante. Parte estava francamente
aterrorizada. Mas por que? Ele tinha tido amigos antes, embora não
muitas amigas, era verdade. E certamente tinha muitos assuntos.
Nenhum deles, entretanto, tinha estado com Imogen Hayes, Lady
Barclay.

144
VtÑ•àâÄÉ
VtÑ•àâÄÉ DE

— Tenho de confessar — disse Sir Matthew Quentin — que


ocasionalmente gostei de um copo de bom brandy com um conhecido ou
vizinho sem inquirir muito de perto o seu local de origem.
— Suponho que fiz o mesmo — admitiu Percy. — No entanto, nunca
me interessei pela ideia do contrabando. Não só porque o governo é
defraudado de receita, mas mais porque as pessoas que realmente se
beneficiam não são homens comuns que fazem o trabalho mais difícil e
assume o maior risco, mas os poucos que dirigem operações de longe e
aterrorizam quem ameaça sua operação. Eles fazem uma fortuna com o
terror e a opressão e o conhecimento seguro de que sempre haverá um
mercado de bens de luxo e que mesmo pessoas sem envolvimento direto
irão juntar-se a uma conspiração de silêncio. Ninguém quer colar os olhos
sobre algo que não pode ser parado de qualquer maneira.
— Oh, eu concordo — disse Sir Matthew. — Suponho que você
tenha descoberto, é verdade, que o velho conde encorajou o comércio e
permitiu-lhe um porto seguro em terra de Hardford em troca de alguns
confortos? Mais cerveja?
Eles estavam sentados à vontade na biblioteca de Sir Matthew
esperando o almoço, ao qual Percy fora convidado. Paul Knorr, seu novo
mordomo, havia chegado de Exeter no dia anterior, três dias depois de
uma carta de Higgins informar Percy de sua nomeação. O homem estava
agora conversando com o mordomo de Quentin durante o almoço e a
cerveja na estalagem da vila. Percy estava otimista com Knorr. Ele era
jovem e bem educado, filho de um cavalheiro do conhecimento de
Higgins, e ele estava ansioso para continuar com seus novos deveres. Ele
tinha administrado a terra de sua família por vários anos antes da morte
de seu pai, mas agora seu irmão mais velho herdara e ele havia procurado
emprego em outro lugar.
— Obrigado — disse Percy, e esperou que seu copo fosse servido.
— A praia e a adega da casa do dote, você quer dizer? No entanto, isso

145
tudo foi interrompido, quando Lady Barclay se estabeleceu lá?
Sir Matthew olhou para ele com as sobrancelhas levantadas. — Mas,
mesmo que não, então provavelmente chegou ao fim há dois anos. Não
se pode imaginar Lady Lavínia sendo agradável à ideia de ter
contrabandistas e seus bens em sua casa.
Em sua casa? Dentro da casa, ele quis dizer?
— Suponho que não — disse Percy. — Agora, Sra. Ferby... — Ambos
riram.
Foram interrompidos por Lady Quentin, que veio informá-los de
que o almoço estava pronto. Ela queria saber mais sobre Paul Knorr e se
Ratchett provavelmente se aposentaria em breve. Percy satisfez sua
curiosidade como pôde. Mas a menção do velho comissário lembrou-o
de outra coisa.
— Ratchett tem um sobrinho, — ele perguntou, — quem foi para a
Península com o visconde Barclay como seu batman, eu acredito?
— Em vez do pobre rapaz que quebrou as duas pernas um mês ou
dois mais tarde — disse lady Quentin. — Ele estaria mais seguro em
Portugal. Que terrível acidente, caindo do telhado estável. Nós nunca
descobrimos o que ele estava fazendo lá em cima.
— Um sobrinho-neto, creio — disse Sir Matthew. — Ele foi nomeado
jardineiro-chefe em Hardford depois de seu retorno, embora ele não era
muito popular com alguns de nós. Ele não podia dar conta do que
acontecera a Barclay e sua esposa além do fato de que haviam sido
capturados por um bando de olheiros franceses ferozes enquanto trazia
lenha e estava sem mosquete. Suponho que ele não poderia ter feito nada
para ajudá-los de qualquer maneira. Havia aqueles, porém, que sentiam
que ele deveria pelo menos ter esperado até que ele tivesse palavra, de
um modo ou de outro. Se ele tivesse ficado, poderia ter ajudado a escoltar
Lady Barclay para casa. Ela estava, eu acredito, em algo de um
estado. Compreensivelmente.
— Pobre Imogen — disse Lady Quentin. — Ela e seu marido eram
bastante dedicados um ao outro. Mas esse homem, aquele chamado
jardineiro-chefe, não sabe a diferença entre um gerânio e uma margarida,
146
ou entre um carvalho e um arbusto de tojo, eu juro. Seu título é uma
mamata. Oh, peço desculpas, Lord Hardford. Estou sendo rancorosa.
Você deve estar impaciente pela chegada de sua mãe. Todos os seus
vizinhos, inclusive nós, estamos ansiosos para encontrá-la.
O dia estava quase desaparecendo quando Percy e Knorr voltaram
para Hardford.
— Eu devo lembrar de me referir a você como o mordomo — disse
ele. — Não se deseja ferir os sentimentos de um octogenário.
— Sr. Ratchett tem uma letra que eu invejo — disse Knorr com um
sorriso. — E os livros são muito claros e fáceis de entender.
Perdera a visita de Lady Barclay, descobriu Percy. Lady Lavínia
achou uma grande pena. Percy não o fez. Ele saiu do seu caminho, de
fato, para evitá-la durante os últimos dias, como tinha feito ontem e
hoje. Ele não sabia o que o possuíra naquela noite na casa dela. Ainda não
sabia por que tinha ido lá. Ele também não sabia por que tinha dito
algumas das coisas que ele tinha.
Acho que vim para Cornwall na esperança de me encontrar, embora eu não
percebesse até este momento.
Posso buscar refúgio aqui ocasionalmente?
Eu quero você como uma amante. Mas, falhando isso, a amizade vai servir.
Ele se contorceu das lembranças, especialmente daquela última
troca. Senhor! Jurava que não tinha ideia do que estava prestes a sair de
sua boca quando ele a abriu.
A amizade parece improvável, mas possível – ela respondeu. – Não tenho
certeza sobre o outro.
Esse foi o ponto em que ele se levantou e fugiu. Mas não, ele
lembrou, antes de beijá-la.
Não, ele preferiu manter tanto a sua pessoa e seus pensamentos bem
longe de Lady Barclay até que ele tinha-se bem na mão. O que quer que
isso significasse.
******

147
Imogen não fixou os olhos no conde de Hardford por quatro dias
inteiros depois de sua visita à casa da viúva, apesar de, no segundo dia,
ter a coragem de visitar tia Lavínia e prima Adelaide. Estava fora com o
novo mordomo, visitando as fazendas bem administradas de Sir
Matthew Quentin e o Steward experiente, eficiente. O Sr. Knorr era um
jovem cavalheiro de inteligência afiada e de aparência e maneiras
agradáveis, relatou sua tia, embora por que o primo Percy fosse à custa
de contratar um segundo mordomo quando já havia o Sr. Ratchett, ela
não sabia.
Imogen pensou que era provavelmente porque um mordomo ativo
era necessitado desesperadamente para Hardford, mas o conde era
demasiado amável forçar o Sr. Ratchett na aposentadoria. Ela admitiu,
embora relutantemente, que ele era realmente capaz de bondade.
Ela também admitiu que o achava mais atraente do que tinha
encontrado qualquer outro homem – e que, perturbadoramente, incluía
seu falecido marido. Nunca pensara em ser atraída por Dicky. Ele tinha
sido seu melhor amigo, e tudo sobre ele a agradara - mesmo isso. Lord
Hardford ousara dar-lhe um nome. Realmente tinha sido bastante
chocante dele. Sexo. Lá. Sim, o sexo com Dicky tinha agradado. Também
lhe agradara. Mas... atração?
A atração não era apenas sexo? Separado do gostar, da amizade ou
do amor? Parecia desagradável. Ela queria isso. Ela queria satisfazer um
desejo que ela tinha reprimido durante a maior parte de sua vida adulta.
Mais de oito anos. E ela queria fazê-lo com um homem de experiência
óbvia e perícia. Não duvidava que lorde Hardford tivesse os dois.
Ela até tinha se expressado: não tenho certeza sobre o outro.
Ele não poderia ter confundido o seu significado. Ela ainda não
tinha certeza.
Talvez não seja tão errado. Não era como se ela estivesse planejando
comprometer-se a qualquer relacionamento de longo prazo, afinal,
qualquer coisa que traria a sua felicidade real. Apenas a satisfação de um
desejo natural. Era natural, não era? Para mulheres assim como para
homens?

148
Talvez ela voltasse a ficar em paz se deixasse acontecer. Ele iria
embora depois de algum tempo - ela não tinha dúvidas quanto a isso,
especialmente agora que tinha contratado outro administrador, que era
jovem, inteligente e presumivelmente competente. Lord Hardford iria
embora, provavelmente para nunca mais voltar, e ela ficaria em paz mais
uma vez, ou tão em paz quanto poderia ficar.
Mas, enquanto isso... Seria tão errado?
Os pensamentos e o debate mental atravessavam a mente de
Imogen, mesmo enquanto ela ouvia a conversa animada de sua tia sobre
os visitantes que se esperavam, embora não soubesse quantos vinham ou
mesmo exatamente quando e o primo Percy também não sabia. Foi muito
inquietante. Tia Lavínia passou a falar sobre os entretenimentos que
deviam planejar. Tinha sido há um longo tempo, disse ela, desde que
tinha havia algum entretenimento noturno em Hardford. O querido
Brandon não tinha se segurado com essas coisas. Mas agora...
Imogen deixou que ela tagarelasse feliz. E ela ficou muito aliviada –
e desapontada? – que o conde não voltasse para casa enquanto ela estava
lá. Ele não voltou para a casa da viúva já há quatro dias, e Imogen
passeou, lá em cima e para baixo, incapaz de se instalar em qualquer
atividade por mais de alguns minutos de cada vez. Ela andou pelo
caminho do penhasco e na praia, mas ela estava com medo de correr para
ele. O mais distante que ela foi, exceto para que uma visita ao salão, foi
no jardim, onde ela descobriu que o primeiro snowdrop tinha florescido.
Ele não veio, e ela estava a salvo de sua própria fraqueza e
indecisão. Ela não tinha que decidir se seria errado ou não. No quinto dia,
a Sra. Primrose trouxe notícias com o almoço de Imogen. Um criado,
enviado da casa principal com ovos frescos, trouxe a notícia da chegada
de duas grandes carruagens viajando cheias de passageiros e alguns
cavaleiros além disso e uma grande quantidade de bagagem e barulho e
agitação. E mais tarde, na mesma tarde, o mesmo criado voltou com uma
nota apressadamente rabiscada na mão da tia Lavínia, convidando
Imogen para jantar, para que ela pudesse encontrar um número de
primos há muito perdidos, embora alguns deles não fossem estritamente
familiares, pois pertenciam ao grupo Materno da família do primo Percy.
Sua mãe não tinha vindo sozinha, então.
149
Mesmo enquanto Imogen estava pensando em desculpas para não
ir, seus olhos se concentraram nas duas últimas frases – Primo Percy
pediu-me particularmente para escrever-lhe em seu nome, querida
Imogen, com desculpas por não fazê-lo ele mesmo. Ele está ocupado com
seus familiares.
O convite veio dele, então, mesmo se o pedido de desculpas fosse
provavelmente invenção da tia Lavínia. E era justo que ele a convidasse,
Imogen supôs relutantemente. Ela era, afinal, a viúva do único filho de
seu antecessor. E da mesma forma, seria imperdoável grosseiro ela não
ir. Ela suspirou e foi até a cozinha para informar à Sra. Primrose que não
precisava preparar uma refeição à noite.
******
Podia ter sido pior, Percy pensou enquanto se vestia para o
jantar. Todos os seus parentes, tanto paternos como maternos, podiam
ter caído sobre ele – como ainda podiam, é claro. Poderia haver uma
dúzia de carruagens repletas de boliche ao longo da rodovia neste
momento na direção de Hardford. Não se pode saber ao certo.
A tia Edna, a irmã de seu pai, chegara tarde com o tio Ted
Eldridge. Seu filho, Cirilo, tinha vindo com eles, assim como as três
meninas, Beth e os gêmeos, Alma e Eva. Eles haviam estado em Londres,
a toa de acordo com Cyril, esperando que a temporada começasse para
que Beth pudesse ser apresentada a sociedade e ao mercado de
casamento. A perspectiva de passar algum tempo com Percy em seu
próprio ambiente e celebrar seu trigésimo aniversário, ainda que
tardiamente, apelara a todos, sem exceção.
A tia Nora Herriott, irmã de sua mãe, tinha sido igualmente
entusiasmada com o convite e tinha vindo com o tio Ernest e seus filhos,
Leonard e Gregory. Eles também tinham vindo de Londres e tinham
encontrado os Eldridges por acaso em uma estalagem e viajaram com eles
depois disso.
Uma família grande e feliz veio para se divertir com ele, Percy
pensou enquanto ajustava sua gravata com um olhar crítico e deu a
Watkins um aceno de aprovação. Foi feliz a ideia? Se não fosse, então
deveria ser, pois descrevia perfeitamente o que sua família claramente
150
tinha em mente para a próxima semana ou assim. Ele estremeceu com o
próprio pensamento.
E pode não ser apenas família. De acordo com Cyril, Sidney Welby
e Arnold Biggs, visconde Marwood, estavam pensando em virem
também e já poderiam estar a caminho.
E então, no meio da tarde, quando as coisas estavam acalmando-se
na casa, a mãe de Percy tinha chegado em companhia do tio Roderick
Galliard, seu irmão e sua filha viúva, a prima Meredith, e seu jovem filho,
Geoffrey.
A chegada da criança tinha eclipsado tudo o mais e tinha trazido
todo mundo e seu cão – ou melhor, todos e os perdidos de Hardford, que
haviam escapado do quarto da empregada doméstica – convergindo na
criança para oferecer abraços e beijos não solicitados e gritos e
exclamações e latidos e um grunhido de Prudence. Ele era, sem dúvida,
uma criança bonita, com seus cachos bonitos e grandes olhos azuis. Percy
também tinha feito o seu bocado ao arrebatar o menino e atirá-lo para o
teto para gritos de alegria da criança, alegrias de encorajamento dos
primos masculinos e gritos de assombro e gritos de alarme das primas e
tias – enquanto Meredith olhou placidamente.
Sua mãe ficara cheia de êxtase ao chegar. Até a sra. Ferby, a quem
insistia em chamar prima Adelaide, não pôde escapar de seus braços e
abraçou exclamações de cordialidade. Encontrar algum sangue
compartilhado entre os dois provavelmente levaria o dedicado
pesquisador todo o caminho de volta para Adão e Eva, mas para sua mãe,
a Sra. Ferby era família. Sua mãe e Lady Lavínia eram, na verdade, uma
dupla e tinham levado uma a outra como abelhas para o pólen.
Ele já estava sonhando em aproveitar a paz e a sanidade da casa da
viúva, Percy pensou sombriamente quando ele ergueu o queixo para
Watkins para posicionar seu pino de diamante na gravata. Embora a paz
não era provavelmente a palavra certa. Lady Barclay não gostava muito
dele, e ele não tinha certeza se ele gostava muito dela. Só que ele lhe
dissera que queria ser seu amante, mas se contentaria com a amizade. E
ela lhe dissera que a amizade era possível embora improvável e que não
tinha certeza sobre o outro.

151
Então eles eram amigos ou não eram? Poderiam ser? Eles deveriam
ser? Ele não podia, pela vida dele, fazer qualquer sentido. Ela estava
vindo para o jantar. Pelo menos, ela tinha sido convidada e
provavelmente sairia de um senso de dever se por nenhuma outra
razão. De qualquer forma, não podia esperar esconder-se na casa da
viúva por muito tempo antes de ser descoberta e invadida por sua
família, e ela deve ter o senso de perceber isso. Sua mãe já sabia sobre sua
existência e simplesmente não podia esperar para abraçá-la – não
encontrar, mas abraçar. Isso era o suficiente para fazer um homem
estremecer.
— Não, não, — disse ele em resposta ao olhar abalado no rosto de
seu criado. — Você não fez nada de errado, Watkins. Continue.
Senhor, ele esperava que ela viesse. E esperava que não o fizesse.
Ela chegou. Eles estavam todos reunidos na sala quando Crutchley
a anunciou – sim, ele realmente fez, seu peito inchado, sua voz projetando
suas palavras na sala, silenciando o tumulto enquanto todos olhavam
curiosos para ele. Ele estava se comportando como uma importante
autoridade. Ter todos esses visitantes sob sua carga tinha subido à sua
cabeça.
Deve ter sido um pouco intimidante andar sozinha pela sala em
uma espécie de silêncio, com todos os olhos virados, mas ela o fez com
calma e graça. Seu cabelo louro estava liso e brilhante, mas foi dominado
simplesmente, especialmente quando se comparou com todas as cabeças
onduladas e franzidas e cacheadas de suas tias e primos. Seu vestido era
de veludo verde escuro, de mangas compridas, apenas um pouco
escorregadio e caindo em dobras soltas, de baixo do seu seio até os
tornozelos. Era completamente sem adornos, e ela não usava joias, exceto
pequenas pérolas em seus lóbulos das orelhas e seu anel de casamento.
Ela não estava brilhando com sorrisos brilhantes, embora ela não estava
olhando também.
Ela colocou todas as outras mulheres na sala à sombra, incluindo
Beth, que estava vestindo algumas de suas novas roupas de Londres e
que ele estava certo de que estava destinado a se tornar uma das belezas
aclamadas da próxima temporada.

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O diabo! Quando ele tinha começado a pensar nela como
deslumbrante?
Ele deu um passo à frente e curvou-se. — Senhora Barclay, prima
Imogen — disse ele, voltando-se para seus avidamente interessados
membros da família — é a viúva de Richard Hayes, visconde Barclay, que
teria estado em meu lugar aqui se ele não tivesse morrido heroicamente
na Península. Ela vive – por escolha – na casa da viúva. Posso apresentar
minha mãe, Prima Imogen – Sra. Hayes?
Sua mãe correu para a frente e abraçou-a e exclamou sobre ela e a
chamou de prima Imogen. Percy a levou para a sala, apresentando a
todos e explicando os relacionamentos. Ele não tinha certeza se lembraria
depois, mas ela prestou muita atenção e murmurou algo a todos eles. Ela
era uma verdadeira dama.
Quero-te como amante, disse-lhe há menos de uma semana. Ela
parecia tão remota quanto a lua hoje à noite – e tão desejável como
sempre. Qualquer esperança de que ele estivesse por um tempo fora de
sua mente desde aquela noite ou de que os dias que passavam esfriasse
seu ardor foi esmagado.
Crutchley, ainda em sua persona mordomo, foi logo de volta para
anunciar que o jantar foi servido. Percy tomou sua mãe em seu braço,
enquanto tio Roderick ofereceu o seu para Lady Barclay e tio Ted
escoltado Lady Lavínia.
Era meio vertiginoso ver uma multidão na sala de jantar, Percy
pensou algumas vezes durante o jantar. Lugares extras tinham sido
acrescentadas à mesa, e a sra. Evans na cozinha se saiu bem para a
ocasião, como ela dissera que faria quando ele sugeriu empregar alguém
para ajudá-la.
Não deveria ser vertiginoso. Ele passara boa parte de sua vida em
companhia de multidões de pessoas. Mesmo quando criança, quando
tinha ficado em casa com tutores em vez de ir para a escola, sempre havia
primos e outros parentes e vizinhos e amigos de seus pais na casa. Ele
não estivera aqui há muito tempo, mas já se acostumara à calma de
Hardford, entregava ou levava alguns primos distantes e um zoológico.
Ele gostou bastante, ele pensou com alguma surpresa, embora ele não
153
fosse ficar. Ele partiria junto com sua família. Agora que Knorr tinha
chegado, não havia nenhuma razão real para ele ficar. Haveria colheitas
este ano, um desbaste do rebanho, um celeiro novo, reparos no curral das
ovelhas, e muitas outras melhorias. Ratchett teria mais detalhes para
adicionar aos seus livros – e isso o manteria feliz.
— Você está estranhamente quieto, Percy — comentou tia Edna
sobre o curso de carne assada.
— Eu estou? — Ele sorriu. — Deve ser o efeito sóbrio de ter trinta
anos de idade.
— Ou pode ser — disse o tio Roderick — que é difícil falar uma
palavra. O que você acha de nós, Lady Lavínia?
— Eu poderia chorar positivamente com felicidade — ela
respondeu. — Todo esse tempo houve um distanciamento entre os dois
ramos da família por causa de uma discussão tola há tanto tempo que
ninguém se lembra de sua causa.
Ninguém lhe indicou que cerca de metade deles eram a família de
sua mãe e não tinham nenhum relacionamento com ela. Ela estava
claramente feliz, e também a mãe de Percy, que estava sorrindo de volta
para ela e limpando o canto de um olho com seu lenço. Ninguém poderia
chamar sua família de sentimental.
— E nos redescobrimos, prima Lavínia, porque Percy finalmente
decidiu vir para cá, aonde ele pertence – disse sua mãe. — E também por
causa da triste morte do marido da prima Imogen. Como a vida é
estranha. Coisas boas podem surgir de maus.
Todos pareciam solenemente solenes sobre esse pronunciamento
menos profundo. Os olhos de Percy se fixaram no de Lady Barclay. Ela
ainda estava procurando um pouco de mármore.
As primas se apropriaram de sua atenção no salão depois do jantar,
e Percy, que se sentou com seus tios e se viu falando de todas as coisas,
sobre a agricultura, percebeu a partir dos fragmentos da conversa que
ouviu que tinham descoberto que ela estava na Península com seu
marido e foi cravada com perguntas sobre sua experiência. Alma queria
saber se ela tinha sido muito requisitada em bailes de regimento e achou
154
que devia ser simplesmente divino estar em um baile e ninguém além de
oficiais com quem dançar.
Felizmente, talvez, Percy não ouviu a resposta de Lady Barclay, mas
parecia estar se divertindo com seus ouvintes. Ela se levantou para sair
depois que a bandeja de chá tinha sido removida.
— Você tem sua carruagem, querida? — Tia Nora perguntou.
— Oh, não, — ela respondeu. — A casa da viúva não está longe.
— Mas o caminho está escuro mesmo em uma noite brilhante,
Imogen — disse Lady Lavínia. — Pegue um lacaio para levar uma
lanterna para você.
— Vou acompanhá-la prima Imogen — disse Percy.
— Não há necessidade — disse ela.
— Ah, mas existe — disse ele. — Devo impressionar meus parentes
com o quão bem eu faço o papel de senhor responsável da mansão.
A maioria dos parentes riu. Ela não. Ela não discutiu, no entanto.
— Estou ansiosa para ver sua casa, primo Imogen, — disse sua
mãe. — Posso visitar?
— Mas é claro, senhora — disse Lady Barclay. — Ficarei encantado
ao ver você e qualquer outro hóspede de Lord Hardford que se preocupe
em visitar-me.
— Somos um grupo gregário — advertiu Percy depois que saíram
da casa, sem uma lanterna. — Você não pode esperar que permaneçamos
dentro do salão para ocupar-se de nosso próprio negócio quando há uma
outra casa próxima e companhia de outra pessoa e mente preferível.
— Você tem uma família amável — disse ela.
— Eu tenho — ele concordou. — Você vai pegar meu braço para que
eu possa me sentir mais protetor e, portanto, mais viril? Tenho a sorte de
fazer parte de uma família como essa – tanto do meu pai como da minha
mãe. Mas às vezes eles podem ser um pouco... Intrusivos.
— Porque eles se importam — disse ela.

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— Sim.
A noite estava razoavelmente brilhante. Parecia não haver nuvens
acima. Também estava um tempo frio. Ela colocou a mão no braço
dele. Nenhum dos dois assumiu a folga da conversa.
Ele podia ver o esboço da casa da viúva à frente. Era, naturalmente,
na escuridão total. Ele não gostava do fato de que não havia serventes lá
esperando por ela. Mas não podia dizer nada. Tinha deixado claro que
não toleraria sua interferência.
— Obrigada — disse ela, deslizando a mão livre do braço quando
chegaram ao portão. — Eu aprecio o sua companhia mesmo não sendo
necessário. Eu fiz a caminhada muitas vezes sozinha.
— Vou vê-la entrar na casa — disse ele.
— Eu coloquei uma lâmpada perto da porta, como sempre faço —
disse ela. — Eu vou acendê-la assim que eu puser o pé dentro e, varrer
todos os fantasmas e monstro que espreitam lá. Não precisa ir mais longe.
— Você não quer que eu vá mais longe? — perguntou ele.
Seu rosto, virado para o dele, estava iluminado levemente pelo
luar. Era impossível ver sua expressão, mas seus olhos eram grandes
poças de... alguma coisa.
— Não. — Ela balançou a cabeça e falou suavemente. — Não essa
noite.
Ou alguma noite? Ele não fez a pergunta em voz alta.
— Muito bem — disse ele. — Vê como você tem reprimido o macho
naturalmente dominador em mim? Não inteiramente, entretanto. Eu
ficarei aqui até que você esteja dentro e eu veja a luz de sua lâmpada. —
Ele abriu o portão enquanto falava e fechou-o depois que ela atravessou.
— Muito bem — disse ela, virando-se para olhá-lo. — Você pode vir
e quebrar a porta para baixo se a luz não aparecer e você ouvir um grito
arrepiante.
E maldita seja, mas ela sorriu novamente com o que parecia na
escuridão próxima para ser diversão genuína.

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— Não é costume — lhe perguntou — oferecer um beijo ao homem
que o escoltou para casa?
— Oh, meu Deus, — ela disse. — É isso? Os tempos devem ter
mudado desde que era uma menina.
Ele sorriu para ela, e ela estendeu as duas mãos enluvadas para
cobrir seu rosto antes de se inclinar pelo portão e beijá-lo. Não era apenas
um breve, divertido sinal de um beijo também. Seus lábios
permaneceram sobre os dele, macios, ligeiramente entreabertos e muito
quentes, em contraste com o frio do ar noturno.
Ele se inclinou sobre ela, seus braços se aproximando para atraí-la
contra ele, e seus braços deslizaram sobre seu pescoço. Não era um beijo
lascivo. Era algo muito mais delicioso do que isso. Foi muito deliberado
em ambas as partes. Suas bocas se abriram e ele explorou o interior
húmido dela com a língua. Desta vez, quando ela chupou, ele gostou da
sensação. Era um beijo curiosamente desprovido de intenção sexual, no
entanto. Foi em vez disso... Pura diversão.
Foi uma experiência totalmente nova para ele. Foi um pouco
alarmante, na verdade.
Ela terminou o abraço, embora seus braços permaneciam
frouxamente sobre seu pescoço.
— Pronto, lorde Hardford — disse ela. — Você teve o seu obrigado
por esta noite.
— Posso escoltá-la para casa todas as noites? — Ele perguntou.
E ela riu.
Ele poderia ter chorado de felicidade – para tomar emprestado uma
frase de Lady Lavínia.
E então ela se foi. Ficou onde estava, com as mãos no portão, até que
ela abriu a porta com a chave e entrou – sem olhar para trás – e fechou-a
atrás dela. Ele esperou até que viu uma luz fraca sobre o marco da porta
e depois luz se movendo em sua sala. Voltou-se então para sair.
E foi somente assim que percebeu que Hector estava em seus
calcanhares. O que era sobre Hector e saltos? Ele era Aquiles? E Lady
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Hayes – Imogen, seu calcanhar de Aquiles? Ou a sua salvação?
Pensamento curioso.
— Maldito animal tolo — ele resmungou. — E como você consegue
passar por portas fechadas? E por que? Está frio aqui fora e não havia
necessidade de você vir também.
A cauda raquítica acenou quando Hector caiu em passo um pouco
atrás dele.

VtÑ•àâÄÉ
VtÑ•àâÄÉ DF

O dia de Imogen começou pacificamente, embora ela não


esperasse que esse agradável estado continuasse.
O correio da manhã trouxe-lhe duas cartas, ambas das esposas de
seus companheiros sobreviventes. Ela estava sempre satisfeita por ouvir
falar deles. Ela gostava de todos, embora ainda não tivesse conhecido
pessoalmente a duquesa de Worthingham, a esposa de Ralph. Ela
gostava deles não só porque cada um tinha se transformado em um de
seus amigos mais queridos. E ela gostava delas porque eram mulheres
fortes e interessantes por direito próprio. No entanto, nunca tinha certeza
de que gostassem dela. Ela era uma das sobreviventes, e durante suas
reuniões anuais eles passavam um tempo sozinhos, os sete,
especialmente à noite. As esposas respeitavam essa necessidade e nunca
se intrometiam, embora em outras ocasiões, naqueles dias, todos se
misturassem e desfrutassem muito da companhia um do outro.
Imogen frequentemente se perguntava se as outras mulheres
estavam completamente confortáveis com ela. Ela sentiu a diferença
deles e suspeitava que eles deveriam sentir isso também. Ela se
perguntou se eles às vezes a achavam distante.
Em todo caso, ela sempre gostou de ter uma carta de um deles. E

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hoje houve o dom especial de dois. Ela se estabeleceu para uma boa
leitura durante o café da manhã. A esposa de Ralph, a duquesa de
Worthingham – ela assinou simplesmente com Chloe – escreveu para
dizer que ela estava muito ansiosa para encontrá-la no Penderris Hall,
bem como Sir Benedict e Lady Harper, a quem ela ainda não tinha
conhecido. E ela estava vindo apesar das preocupações de Ralph sobre
sua saúde perfeitamente boa. Algumas pessoas, naturalmente,
insistiriam em chamá-lo de saúde "delicada" e assustar o pobre homem,
mas ela nunca se sentira melhor.
A duquesa, Imogen deduziu, estava esperando uma criança. E
assim, no final do ano, três deles seriam pais. A vida seguia em frente de
todos, exceto ela – e George. Mas George, duque de Stanbrook, tinha
quarenta e poucos anos, e se supunha, talvez erradamente, que nunca
pensaria casar-se novamente.
Imogen terminou de ler a deliciosamente longa carta da duquesa e
depois leu a de Sophia, viscondessa Darleigh. Seu filho, que acabara de
ter seu primeiro aniversário, estava andando por toda parte – as duas
palavras estavam sublinhadas – e Vincent tinha desenvolvido uma
estranha habilidade para segui-lo, para se certificar de que ele não
chegasse a um maior dano do que um buraco ou um arranhão ocasional.
Claro, o cão de Vincent ajudou, tendo aparentemente decidido que o
jovem Thomas era simplesmente uma extensão de Vincent. Outro de seus
livros para crianças acabara de ser publicado – outra aventura de Bertha
e Blind Dan. Sophia levaria uma cópia para Penderris.
Vincent estava montando diariamente apesar do tempo frio. Na
verdade, ele estava galopando ao longo da pista de corrida especialmente
construída cerca de metade do perímetro do seu parque. Era suficiente
para fazer com que os cabelos de Sophia estivessem em pé – e seu cabelo
cresceu muito desde o ano passado – mas como ela era a única que tinha
tido a ideia da trilha para tal propósito, ela não podia reclamar, não é?
Imogen estava sorrindo quando ela se levantou da mesa do café da
manhã. Logo estaria com todos eles. Olhando pela janela, viu que o sol
brilhava de um céu azul claro. Tanto quanto ela podia dizer de dentro de
casa, também não havia vento significativo. Ela vestiu uma pelisse morna
e boné e saiu para certificar-se de que nenhuma erva nova tinha invadido
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seus canteiros de flores e ver se havia mais snowdrops na grama. Blossom
acolchoado fora com ela e enrolado no primeiro passo na luz do sol
depois rondando sobre o jardim.
Imogen puxou algumas ervas daninhas ofensivas e encontrou cinco
mais snowdrops. O ar, embora não exatamente doce, mas não era
frio. Pode-se acreditar na primavera de manhã.
Ela se sentou sobre os calcanhares e olhou para o portão do jardim.
Tinha-o impedido de entrar com a sua última noite, mas tinha
desfrutado de alguma brincadeira com ele ali. Parecia há tanto tempo –
uma vida inteira – desde que ela se sentira alegre, como ela tinha feito
por alguns minutos na noite passada. E ela o beijou de forma voluntária
e completa... Ansiosamente, quando teria sido a coisa mais fácil do
mundo evitar fazê-lo.
Não é costume oferecer um beijo ao homem que a escoltou para casa?
Ele tinha perguntado a ela. E ele sorriu. Não, ela sorriu. Ela tinha
sido capaz de ver a diferença mesmo que eles não tinham trazido uma
lanterna. Ela sorriu para a memória. Ela gostava dele tanto naquele
estado de espírito – um pouco coquete, mas de uma forma divertida, não
ameaçadora.
Ela esperava que sua paz fosse quebrada em algum momento no
decorrer do dia, e agora era o momento, parecia. Através do portão ela
podia ver a Sra. Hayes vindo pelo caminho do corredor em companhia
de sua irmã e cunhada. Imogen levantou-se, limpou a grama de sua
pelisse e foi abrir o portão para elas, pois adivinhou que a casa da viúva
era seu destino.
Ela não tinha esperado a noite passada, mas surpreendeu-se quase
desfrutando o barulho e as gargalhadas e o senso de família que tinha
recebido dos parentes de lorde Hardford. Tinha sido óbvio que ele
gostava tanto deles quanto era amado, mas ela entendeu por que ele se
sentia de alguma forma... Invadido
Talvez ele viesse agora que eles estavam aqui – para se refugiar na
casa do dote.
As três senhoras abraçaram Imogen e a beijaram na bochecha como
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se fossem parentes próximos. Todos eles também exclamaram sobre a
beleza da casa e sua posição perto das falésias, mas aninhado
aconchegante em seu pequeno oco com seu próprio jardim bem cuidado.
— Eu poderia estar perfeitamente feliz vivendo aqui — declarou a
Sra. Hayes. — É um deleite absoluto, não é, Edna e Nora?
— Vamos vir aqui para ficar com você e com a prima Imogen, Julia
— respondeu a irmã — e deixar nossos maridos e filhos em casa.
As três senhoras riram alegremente, e a Sra. Hayes pôs um braço
sobre a cintura de Imogen e a abraçou ao seu lado.
— Você não deve nos importar, prima Imogen — disse ela. — Somos
uma família que gosta de brincar e rir. O riso é sempre o melhor remédio
para quase tudo, você não concorda?
Todos passaram para o café e alguns dos bolos da Sra. Primrose. As
senhoras conversavam com grande entusiasmo sobre ir visitar a aldeia
durante a tarde com a prima Lavínia – todas se referiam a ela por esse
nome. E a Sra. Hayes falou sobre seu plano para fazer algo sobre aquele
salão de baile terrivelmente sombrio e negligenciado em Hardford Hall e
torná-lo adequado para uma grande festa, talvez até um Baile, para
comemorar o trigésimo aniversário do filho – tardiamente, infelizmente,
porque ele tinha ido fora de Londres para o seu aniversário real. E
também celebrariam sua chegada à sua nova casa, também atrasada.
— Oh, definitivamente um baile, Julia, — disse a Sra. Herriott. —
Todo mundo gosta de dançar.
— Você simplesmente precisa subir ao corredor e ajudar com ideias
e planos, primo Imogen — disse a Sra. Hayes.
— Vou roubar sua cozinheira, prima Imogen — disse a Sra.
Herriott. — Estes são certamente os melhores biscoitos que eu já provei.
Eles saíram depois de uma meia hora mais ou menos, abraçando
Imogen novamente quando eles foram beijando sua bochecha e
esperando que elas a veriam no corredor novamente durante a noite. Ela
só podia rir suavemente para si mesma depois que elas tinham ido. Ela
sentiu como se estivesse emergindo de um turbilhão.

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Pouco tempo depois, sua casa foi invadida, desta vez pelas irmãs
gêmeas Eldridge – era possível distingui-las? – e os dois irmãos Herriott
e Cyril Eldridge. Eram todos primos do conde, Imogen lembrou-se da
noite passada. Hoje eles estavam fora para uma caminhada e tinha
chamado para implorar Imogen para ir com eles.
— Você simplesmente tem que vir, prima — uma das irmãs
Eldridge implorou. — Nossos números são desiguais.
— Percy diz que há um caminho até a praia perto daqui, — disse
Eldridge, — e que você poderia nos mostrar, Lady Barclay. Você será tão
gentil? Ou você está ocupada com outra coisa?
— Eu ficaria encantada — disse ela, e ficou surpresa ao descobrir
que ela estava falando sério. Quatro dos primos eram muito jovens -
todos eles com menos de vinte anos, ela adivinhou. Os gêmeos
provavelmente tinham quinze ou dezesseis anos. Os rapazes tinham uma
tendência a gargalhar com a menor provocação e as moças a rir. Mas não
havia engano neles, tinha notado na noite passada. Eles estavam apenas
agindo de acordo com a idade. Ela se sentiu mais tocada que eles tinham
pensado em pedir-lhe para se juntar a eles quando ela deve aparecer
bastante idosos em seus olhos. Mas, é claro, o sr. Eldridge provavelmente
estava muito mais perto dela em idade do que era para eles. Talvez eles
tivessem considerado isso.
— Beth foi visitar com minha mãe e minhas tias e Lady Lavínia, —
explicou Eldridge enquanto eles saíam pelo caminho do penhasco. —
Eles devem ter sido horrivelmente esmagados na carruagem. Meredith
voltou a brincar com o jovem Geoffrey quando acordou da sesta da
tarde. Meu pai e meus tios saíram com Percy para olhar as ovelhas. Ele
estava realmente solicitando seus conselhos. Não dá para pensar, Lady
Barclay. Percy interessado na agricultura? Em seguida, ele vai falar sobre
o estabelecimento aqui. Oh, peço desculpas.
— Porque eu poderia estar ofendida que a própria noção de alguém
querer se estabelecer aqui choca você, Sr. Eldridge? — ela disse. — Não
estou ofendida.
— É só, — ele disse, — que eu não consigo imaginar Percy estar
contente aqui por muito tempo. Ele só veio porque ele disse que viria
162
quando ele estava muito entediado e embriagado no seu aniversário, e
Percy nunca gosta de voltar em sua palavra. Eu aposto que ele já estava
planejando sair daqui quando tia Julia decidiu vir e nos trazer com
ela. Aposto que ele quase teve uma apoplexia.
Imogen pensou com um sorriso interior. Mas, amplamente
entediado. E totalmente bêbado. E este era o homem que ela beijara
voluntariamente e com algum prazer ontem à noite? O homem que ela
gostava? O homem com quem ela ainda estava pensando em ter um caso?
Não era nada que ela não sabia ou adivinhava sobre ele, no
entanto. Ele também era um homem muito inteligente, bem-educado, e
um homem que tinha perdido a direção há cerca de dez anos e não a
encontrou desde então. Ele o encontraria? Sempre? Aqui, talvez? Ela
esperava não estar aqui. Por favor não aqui. Talvez ela pudesse se
permitir um pouco de indulto em companhia dele, mas não podia ser
prolongada.
— É isso? — Um dos irmãos Herriott - Leonard? - estava chamando
de um pouco adiante pelo caminho.
— É sim — Imogen chamou de volta. — O caminho parece um
pouco assustador, mas você vai ver que ele ziguezagueia para minimizar
a inclinação da descida, e é realmente muito largo e firme sob os pés.
— Reivindico Gregory — disse um dos gêmeos. — Ele tem um braço
mais resistente.
— Quer dizer que sou gordo, Alma? — disse Gregory Herriott.
— Quer dizer que você tem um braço robusto — disse ela, e riu. —
E eu sou Eva.
— Não, você está correndo bem, não, — disse ele. — Não, a menos
que você tenha mudado de roupa com a sua irmã depois do almoço.
Houve uma explosão de riso dos outros três.
Imogen deu um passo à frente para abrir caminho.
Se não tivesse bebido exageradamente no dia do seu aniversário,
talvez não lhe tivesse ocorrido vir a Cornualha. Ele tinha negligenciado
muito feliz por dois anos. Tudo isso poderia não estar acontecendo se ele
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não tivesse ficado bêbado. Mas se ele não tivesse, então ela ainda estaria
no salão agora, esperando que o telhado fosse substituído na casa da
viúva. Ela não iria até a casa grande esta noite, ela decidiu. Não podia
esperar que ela fosse lá todas as noites, afinal.
Posso escoltá-lo para casa todas as noites?
Ele perguntou ontem à noite depois de seu beijo. Ele pedira para
fazê-la rir - e ele tinha conseguido. Mas ela não deve fazer uma realidade
dessa piada. Mas quando ela rira antes de vir para cá? Ela tinha feito pelo
menos duas vezes desde que ela se lembrva.
Oh, ela gostava dele, ela pensou com um suspiro enquanto ela
permitia que Mr. Eldridge, desnecessariamente, se movesse em frente
dela e a ajudasse a descer na praia. E ela abandonou-se a uma tarde de
brincadeiras junto ao mar.
******
Percy passou a manhã com sua família, embora sua mãe e tias
saíram para um passeio, declarando a necessidade de algum ar e
exercício após vários longos dias de viagem. Ele suspeitava que eles iriam
tomar a direção para a casa da viúva e pagar seus respeitos à prima
Imogen se ela estivesse em casa.
Percy desfrutou da manhã, levando todos em um tour da casa e fora
para os estábulos - para ver os gatinhos, é claro - e jogar bilhar com alguns
dos primos, conversando sobre o café. Ele desfrutou de um almoço com
uma conversa rápida, e ele desfrutou de uma tarde passada com seus tios,
mostrando-lhes a fazenda, conversando sobre alguns de seus planos e
alguns de Knorr.
E foi um prazer voltar à casa para a descoberta de que havia mais
dois recém-chegados. Sidney Welby e Arnold Biggs, visconde Marwood,
tinham realmente feito a viagem. Houve muitos aplausos de volta e
barulho e riso - e foi quando apenas Percy e eles e Cyril foram envolvidos.
Uma vez que a chegada de Welby e de Marwood foi anunciada, os
tios e os primos masculinos estiveram satisfeitos, e a mãe e tias de Percy
e a senhora Lavínia deleitaram-se. As primas estavam atordoadas com a
excitação de que haviam dois cavalheiros jovens e simpáticos que não
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eram seus primos que ficavam na casa - um deles com um título. Se eles
tivessem gorjeado e rir antes, eles voaram para novas alturas agora.
O jantar na noite passada, eram ocasiões de tal amizade e alegria
coletiva que, num certo momento, Percy sentiu que poderia sair
alegremente e berrar para a lua ou algo assim. Ele poderia ter feito isso
também se não houvesse a possibilidade de que ele seria ouvido.
Ele não sabia como era possível amar a família e os amigos, apreciar
sua companhia e sentir-se grato a todos – e ainda por cima se sentir tão
constrangido e constrangido por eles também. O que era sobre ele? Seja
lá o que for, foi um desenvolvimento bastante recente. Tinha chegado
com o trigésimo aniversário, talvez, esse sentimento de que não era
suficiente ter tudo, até mesmo a família, até mesmo os amigos, até o amor.
Foi a constatação de que havia um vasto vazio dentro dele que tinha
sido inexplorado toda a sua vida porque ele estava muito ocupado com
o que estava acontecendo fora de si mesmo. Sentiu-se como uma concha
oca e lembrou-se de Lady Barclay perguntando-lhe se havia alguma coisa
dentro do escudo de charme que ele vestiu para a exibição pública.
Ele tinha brincado sobre isso, disse-lhe que era charme até o próprio
coração. Ele não tinha certeza de que seu coração fizesse nada além de
bombear sangue em seu corpo. Só que ele amava. Ele não deve ser muito
duro consigo mesmo. Ele amava sua família.
— Você voltou a ficar muito quieto, Percy — comentou tia Edna.
— Estou apenas curtindo o fato de que todos vocês vieram de tão
longe por minha causa — disse ele. E a coisa estranha era que ele não
estava mentindo – não inteiramente assim, de qualquer maneira. Ele
queria sua paz e tranquilidade de volta. O que? Ele sempre evitava tanto
como se fosse praga.
A reunião começou a mudar depois que a bandeja de chá tinha sido
removida. Alguns da geração mais velha, bem como Meredith foi para a
cama. Alguns dos primos estavam indo para a sala de bilhar e convidou
Sidney e Arnold para se juntar a eles. Um par dos tios iam se retirar para
a biblioteca para uma bebida e um olhar para as escolhas de leitura.
— Venha conosco, Percy? — sugeriu o tio Roderick.
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— Eu acho que vou ter uma lufada de ar fresco, — disse ele. —
Esticar minhas pernas antes de me deitar.
— Você quer companhia, Perce? — perguntou Arnold.
— Não necessariamente — disse ele.
Seu amigo olhou para ele e disse — Certo. Ao ar livre no mar em
uma noite de fevereiro não me chamam, devo admitir. Aproveite
sua... Solidão? — Ele ergueu as sobrancelhas.
— Bilhar, Arnie? — Cyril perguntou, e os dois saíram juntos em
busca dos outros jovens.
Percy saiu depois de se agasalhar e de deliberadamente ir buscar
Hector do quarto da empregada, embora sem saber por que ele se
incomodou. O cão certamente teria encontrado uma maneira de segui-lo
de qualquer maneira. Seu nome seria mais apropriadamente Phantom do
que Hector.
Era um pouco antes das onze horas. Não era muito tarde para um
passeio antes de encerrar a noite. Era tarde demais, tarde demais para
fazer uma visita social. Mas o que dizer de um chamado de necessidade?
Posso buscar refúgio aqui ocasionalmente?
Ele tinha perguntado a ela. Não podia chamá-la às onze horas da
noite. Parece que ele tinha vindo para uma coisa só. E isso seria verdade?
Seus passos o levaram para a direita do lado de fora das portas da
frente e em volta do caminho que levava para além da casa do patrão. Ele
andaria no passado, no entanto?
Ele a deixaria decidir, pensou, ou melhor, sua lâmpada ou velas ou
o que quer que ela costumava ver no escuro quando ela não estava
dormindo. Se sua casa estivesse na escuridão, ele passaria por ali. Se
houvesse luz lá dentro, ele bateria na porta - a menos que a luz viesse de
um quarto no andar de cima.
Havia luz na sala de estar. Percy ficou de pé no portão para o que
poderia ter sido cinco minutos até que seus pés dentro de seus sapatos -
ele não tinha se transformado em botas - tornou entorpecido com frio e
seus dedos dentro de suas luvas formigavam desagradavelmente. Até
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mesmo seu nariz parecia entorpecido. Ele quis que a luz se movesse, para
ir para cima, para dar-lhe a sugestão de se afastar e ir para casa. E ele quis
que ficasse onde estava.
Hector tinha desistido sentado a seus pés. Ele estava deitado ali,
com o queixo sobre as patas. Ele estava começando, pensou Percy,
olhando para ele na luz fraca da lua, a parecer quase como um cachorro
normal. O que estava bem, já que ele parecia estar preso com o vira-lata.
E, irritante, sentiu o amor começar a se arrastar sobre ele. Maldito cão.
A luz ficou onde estava. Percy abriu o portão e fechou-o
silenciosamente atrás dele depois que ele e Hector passaram. Não queria
assinalar sua chegada. Ainda havia tempo para escapar. Ele levantou a
aldrava da porta, hesitou e a soltou. Ele fez uma horrível din. Senhor, era
provavelmente depois das onze horas desta vez.
A porta se abriu quase que imediatamente, muito antes de estar
pronto. E ele não disse nada. Não só não podia pensar em nada para
dizer, mas nem sequer lhe ocorreu que talvez devesse dizer alguma coisa.
Mas, ela também não disse nada. Eles se entreolharam, a lâmpada que ela
segurava em uma mão iluminando seus rostos de baixo. Hector precisou
quebrar o feitiço. Deve ter ocorrido ao cão que o calor dentro da casa era
preferível ao frio lá fora. Ele entrou trotando e virou, como se por direito
de propriedade, para a sala de estar.
Ela virou para um lado, convidando silenciosamente Percy para
dentro.
— Não é exatamente o que parece — disse ele enquanto fechava a
porta. — Tarde demais, eu não vim aqui esperando dormir com você.
Ele nunca soube o que aconteceu com sua língua quando estava em
sua presença. Ele nunca tinha falado com nenhuma outra senhora, pois
ele muitas vezes parecia falar com ela.
— Você veio para se refugiar aqui. — Não era uma pergunta. Ela se
virou para olhar para ele com olhos e rosto calmos. — Vem então.
E ela conduziu o caminho para o calor da sala de estar.

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VtÑ|àâÄÉ DG

Imogen tinha decidido não ir até o salão para jantar, embora tia
Lavínia tivesse enviado uma breve nota novamente, assegurando-lhe que
ela seria bem-vinda, que ela era sempre bem-vinda, como ela sabia, e não
precisava esperar por um convite. E, acrescentou, havia mais dois
convidados: os senhores amigos de primo Percy, de Londres.
Imogen gostava de todas aquelas pessoas que tinham vindo destruir
sua paz em Hardford, mas ela estava achando o barulho e a agitação um
pouco esmagadora. Ela estava muito grata pela sua própria casa, mesmo
que ela devesse esperar que fosse invadida frequentemente durante o dia
até que todos saíssem.
Ela se questionou se ele estava achando esmagadora também. Mas
eram do seu mundo, e seu mundo era um lugar ocupado, barulhento, ela
adivinhou, com pouco espaço para a introspecção silenciosa. Talvez ele
estivesse desfrutando de sua companhia e tinha esquecido toda aquela
noite quando ele tinha perguntado se ele poderia se recolher aqui
ocasionalmente.
Mas lembrou-se do livro de poesia de Alexander Pope sobre uma
mesa ao lado de sua cadeira na biblioteca - e seu duplo primeiro grau nos
clássicos. E ela se lembrou de algo que ele tinha dito antes de perguntar
se ele poderia vir aqui - acho que vim para Cornualha na esperança de
me encontrar, embora eu não tenha percebido que até este momento. Eu
vim porque eu precisava me afastar da minha vida e descobrir se, a partir
dos trinta anos de idade, eu poderia encontrar algum propósito novo e
que valesse a pena.
Mas ele não tinha sido autorizado a se afastar de sua vida por muito
tempo. Tinha conseguido alcançá-lo aqui.
Ela ficou acordada mais tarde do que deveria, embora a visita
matinal com as senhoras mais velhas e a tarde na praia com um grupo de

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jovens exuberantes a tivessem cansado. Ela não conseguia se contentar
com a leitura, o que poderia tê-la relaxado. Ela pensou em escrever para
a mãe, mas decidiu esperar até a manhã, quando estaria mais
acordada. Ela fazia crochê, mas não podia admirar o que ela fazia. Ela
entrou na cozinha para fazer uma xícara de chá e acabou cozinhando um
lote de biscoitos doces e lavando depois de si mesma. Ela voltou a
crochetar e acariciou Blossom, que sempre ficou fascinada pelo fino fio
de seda e pelo brilho do crochê.
E finalmente ela admitiu que ela estava esperando por ele para vir e
simplesmente não faria. Ela estava permitindo que sua paz e disciplina
duramente conquistada fosse quebrada. Ela iria para a cama, ter uma boa
noite de sono, e amanhã tomar-se firmemente na mão. Isso não faria.
Ela colocou o crochê e ficou de pé, lembrando-se de que ela não
tinha comido nenhum dos biscoitos que ela tinha assado ou fez qualquer
chá depois de ferver a chaleira e medir as folhas de chá no bule. Agora
era tarde demais. E ela não estava com fome nem sede. Estendeu a mão
para a lâmpada, olhando ao mesmo tempo para o relógio da lareira. Eram
dez e onze.
E foi quando uma batida soou na porta, fazendo-a pular e Blossom
abrir os olhos.
Imogen pegou a lâmpada e foi abrir a porta. Não lhe ocorreu ser
cautelosa em fazê-lo.
Por um momento terrível, ficaram olhando um para o outro, um de
cada lado do limiar da porta. Uma corrente de ar frio veio de fora. A
lâmpada, iluminando seu rosto de baixo, o fez parecer mais alto e um
pouco ameaçador, especialmente porque ele não estava sorrindo nem
falando. Mas ela sabia, naquele momento, que ela o desejava, que
realmente não havia nenhuma decisão a tomar - ou se havia, então ela já
tinha feito isso. E ela sabia também que não era só isso - oh, ela poderia
muito bem pensar nisso como sexo - que a fez desejar-lhe. Não era só
sexo. Isso foi... mais que isso. Foi isso que fez dele um momento
verdadeiramente terrível.
E então ele estava lá dentro e tinha dito isso por não ter vindo
esperar dormir com ela - se ele realmente tivesse dito isso em voz alta e
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não a tivesse chocado além das palavras? E ela tinha reconhecido que ele
tinha vindo para procurar refúgio e levou o caminho para a sala de
estar. Hector já estava sentado ao lado da cadeira em que estivera sentada
a noite toda, a cadeira onde ele sempre se sentava quando ele estava aqui.
Sempre?
Quantas vezes ele esteve aqui? Parecia que ele sempre estivera aqui,
como se aquela cadeira sempre tivesse esperado por ele quando não
estava, como se, quando ela se sentasse sobre ela, estivesse confortando
o fato de que era dele. Essa combinação de cansaço e uma noite avançada
estava jogando truques estranhos e perigosos com sua mente.
Esperou que ela se sentasse no assento de amor e se sentasse. Tinha
deixado o casaco e o chapéu no corredor, ela notou. Ele ainda não
sorria. Ele deve ter deixado sua armadura de fácil charme no salão
também.
— Você deveria ter ido para a cama, — disse ele. E então ele sorriu
– um pouco triste. — Esse não foi o melhor abridor de conversa, foi?
— Ainda estou acordada — disse ela.
Ele olhou ao redor do quarto e para o fogo, que tinha queimado
baixo. Levantou-se, quando se lembrou de sua última vez, pegou o taco
para espalhar as brasas, e depois empilhou mais do escaninho de carvão
ao lado da lareira. Ficou de pé, com um dos antebraços apoiado sobre a
lareira. Ele observou o fogo apanhar os carvões novos.
— E se eu tivesse? — Perguntou ele.
Estranhamente, ela sabia exatamente o que ele estava pedindo, mas
ele elaborou de qualquer maneira.
— E se eu tivesse vindo esperando dormir com você?
Ela considerou a resposta.
— Você teria me jogado para fora? — Ele virou a cabeça para olhá-
la por cima do ombro.
Ela balançou a cabeça.
Eles olharam um para o outro por alguns momentos antes que ele

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cutucou o fogo novamente para dar mais ar e retomou seu assento.
— É possível que as pessoas mudem, Imogen? — perguntou.
Ela sentiu um pouco balançar o estômago ao som de seu nome em
seus lábios – novamente.
— Sim — disse ela.
— Como?
— Às vezes é preciso uma grande calamidade, — disse ela.
Seus olhos examinaram seu rosto. — Como a perda de um cônjuge?
Ela acenou com a cabeça novamente.
— Como você era antes? — Ele perguntou.
Ela estendeu as mãos no colo e plissou o tecido de seu vestido entre
seus dedos – algo que ela costumava fazer quando sua mente estava
agitada. Ela soltou o tecido e apertou as mãos vagarosamente no colo.
— Cheia de vida, energia e risos — disse ela. — Sociável. Peralta
como uma menina – eu era o desespero de minha mãe. Não era realmente
uma dama, mesmo depois que eu cresci. Ansiosa para viver minha vida
ao máximo.
Seus olhos percorriam-na como se visse os sinais daquela garota há
muito tempo abandonada.
— Você gostaria de ser essa pessoa novamente? — Ele perguntou.
Ela balançou a cabeça. — Você leu as canções de inocência e
experiência de William Blake? — ela perguntou.
— Sim.
— É impossível recapturar a inocência depois de ter sido exposta
pela ilusão que é — disse ela.
— Ilusão? — Ele franziu a testa. — Por que a inocência deveria ser
mais irreal, mais falsa do que o cinismo?
— Não sou cínica — disse ela. — Mas não, eu não poderia voltar.
— A experiência e o sofrimento não podem ser usados para
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enriquecer a vida de alguém, em vez de amortecer ou empobrecer? —
Perguntou.
— Sim. — Ela pensou em seus companheiros Sobreviventes. Eles
estavam em um lugar muito diferente em suas vidas do que poderia ter
sido previsto oito ou nove anos atrás, mas cinco deles, pelo menos, tinha
subido acima do sofrimento e forjado vidas que eram ricas e
aparentemente felizes. Talvez eles não fossem tão felizes agora se não
tivessem passado por aquela noite longa e escura de dor e
quebradiço. Pensamento perturbador.
— Você é de alguma forma afortunada, Imogen — ele disse
suavemente, e seus olhos bateram para os dele. — Como alguém, aos
trinta anos, pode aprender com a experiência de nada além de prazer
vazio e frivolidade?
— E amor — ela disse ferozmente. — Sua vida tem sido tão cheia de
amor, lorde Hardford, que é bastante estourar nas costuras com
ele. Mesmo aquele cão te ama, e você adora. Não é incondicional admitir
isso. E sua vida incluiu um período de intenso aprendizado sobre duas
das maiores civilizações que nosso mundo conheceu. Você pode ter
desperdiçado os anos desde que você deixou Oxford, mas mesmo essa
experiência não tem que ser para nada. Nenhum tempo é realmente
desperdiçado a menos que alguém nunca aprenda as lições que oferece.
Ele se sentara na cadeira e a olhava com um meio sorriso nos
lábios. — Você está gastando paixão por um malandro, Lady Barclay? —
Ele disse. — Que lições?
Ela suspirou. Ela permitiu-se tornar-se bastante forjado. Mas ele não
era um malandro. Uma semana ou mais atrás, ela poderia ter acreditado,
mas não mais. Ele poderia ter vivido a vida de um malandro, mas isso
não fez dele um. Ele não foi definido pelo que ele tinha feito ou não feito
nos últimos dez anos.
— Talvez reconhecendo como não se deve viver, se pode aprender
a viver — disse ela.
— É assim tão fácil? — Perguntou. — Deveria virar a noite toda,
pensa, num cavalheiro digno de um país, um cavalheiro da Cornualha, e

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me enterrar pelo resto da minha vida no fundo do além com minhas
colheitas, minhas ovelhas e o cão feio que supostamente venho
amar? Criando herdeiros e sobressalentes e filhas esperançosas? Amando
a minha esposa e ajudando-me e se unindo apenas a ela, enquanto ambos
vivermos?
E ela riu. Apesar da tensão quase insuportável que suas palavras
tinham começado a construir, ele também criou uma imagem que era
simplesmente muito absurda.
Seus olhos sorriram - oh, céu! - e então seus lábios.
— Você é realmente muito impressionante quando você rir assim —
disse ele.
Isso ficou sóbrio. Mas ela estava tendo exatamente o mesmo
pensamento sobre ele e seu sorriso.
— Isso dá um vislumbre da pessoa que você diz que era e da pessoa
que você sempre quis ser, — disse ele. — Você não pode ser feliz de novo,
Imogen? Você não vai ser?
Ela sorriu, descobriu que não podia vê-lo claramente, e percebeu
que seus olhos se encheram de lágrimas.
— Não, não chore, — ele disse suavemente. — Eu não queria te fazer
infeliz. Quer vir para a cama comigo?
Ela piscou as lágrimas. E seu exílio auto-imposto de sua própria
vida parecia de repente inútil. Tempo desperdiçado – entre oito e nove
anos para igualar os dez.
Ele tinha feito uma pergunta.
— Sim — disse ela.
E, levantando-se, aproximou-se dela. Estendeu a mão. Ela olhou
para ele por vários momentos, a mão de um homem, uma mão que a
tocava... Ela colocou pegou a sua mão e ficou de pé. Ele não deixou muito
espaço entre ele e o assento. Ela colocou os braços em volta do pescoço
dele e se inclinou sobre ele enquanto seus próprios braços a rodeavam, e
suas bocas se encontraram.

173
Era uma coisa muito deliberada, decidiu. Não era sedução, nem
tentação desenfreada. Não era algo pelo qual ela sentiria culpa, algo que
ela lamentaria. Era algo que ela queria e permitiria. Não, nada tão passivo
como isso. Era algo pela qual ela retornaria à vida, algo que ela daria sem
reservas, algo que ela se permitiria desfrutar. Mas não
sozinha. Juntos. Era algo que eles desfrutariam juntos. Apenas por um
breve tempo. Umas curtas férias da vida que ela tinha imposto sobre si
mesma e deve viver até o fim. Ela afastou a cabeça e olhou nos olhos dele,
que eram muito azuis mesmo na penumbra da luz da lâmpada.
— Eu não espero para sempre — disse ela, — ou quero. Eu não
espero que você volte aqui de manhã sem nenhum sentimento de culpa
para me oferecer casamento. Eu diria que não se você o faz. Isso é só por
agora. Por um tempinho.
Seus olhos sorriram novamente antes que sua boca seguisse o
exemplo. Era uma expressão devastadora e completamente inconsciente
e, portanto, impraticável, ela adivinhou. Ela estava vendo ele, ou pelo
menos uma parte dele, como ele realmente era.
— Se eu fosse oferecer para sempre, eu seria um tolo, — disse ele. —
Ninguém tem para sempre em sua posse. Pegue a lâmpada, e porei a
proteção sobre o fogo.
Ela se virou para liderar o caminho de cima. Blossom estava se
aproximando de sua cama na cozinha.
— Fique — ouviu-o dizer a Hector.

******
Um fogo estava aceso no quarto. Algumas das brasas, agora viradas
quase cinzas, ainda brilhavam fracamente vermelhas. O quarto estava
não exatamente quente, mas não estava frio.
Deixou a lâmpada na penteadeira, acendeu uma vela e apagou a
lâmpada. Imediatamente a luz era mais escura, mais íntima. Era um
compartimento lindo, não pequeno, mas dada a um efeito acolhedor por
um teto que seguia a inclinação do telhado de um lado e uma janela
quadrada que chegava quase ao chão. Ela desenhou as cortinas - bonitas
cortinas brancas com um padrão de flores corajoso em tons pastel para
174
combinar com a capa da cama. Ele não costumava notar essas coisas, mas
suspeitava que elas inconscientemente, haviam sido escolhidas, mesmo
que, para se adaptarem a como Imogen era antes da morte de seu marido.
Percy estava perto da porta, com as mãos cruzadas atrás dele,
saboreando a estranheza do momento. Isso não era sedução de sua parte
ou mesmo persuasão habilidosa. Ela estava totalmente aquiescente. Nem
sequer tinha havido qualquer flerte. Esta foi uma nova experiência para
ele e ele não tinha certeza do que esperar. Essa também foi uma
experiência nova.
Ela levantou os braços, afastando-se dele, e começou a remover os
pinos de seu cabelo. Ele se moveu então para caminhar em direção a ela.
— Permita-me — disse ele.
Baixou os braços sem se virar.
Seus cabelos eram quentes, grossos e brilhantes à luz das velas. Era
também absolutamente reto e chegava quase até a cintura. Seria o
pesadelo de uma empregada, pensou ele, quando a moda era para
cachos, cachos e agulhas. Era glorioso em vários tons de loiro. Ele
penteou com os dedos dele. Não havia emaranhados que precisariam de
um pente.
Sua coroa de glória, ele pensou em um vôo tolo de fantasia clichê e
estava feliz que ele não tinha falado em voz alta.
Ele a girou pelos ombros. Ela parecia anos mais jovem com seu
cabelo para baixo, e ela pareceu duas vezes... Não, ela não poderia
parecer mais desejável para ele do que ela tinha no andar de baixo,
dizendo-lhe seriamente que seu tempo durante os últimos dez anos não
tinha sido desperdiçado, os olhos se encheram de lágrimas quando ele
perguntou se ela se permitiria ser feliz novamente.
Ele a faria feliz. Não, talvez não isso. O bom sexo não era sinônimo
de felicidade. Ele lhe daria um bom sexo. Era a única coisa de valor que
ele podia dar. Nenhuma experiência foi desperdiçada, ela disse. Bem, ele
tinha muito disso.
Ele sorriu para ela. Ela não sorriu de volta, mas havia uma
suavidade e uma abertura para ela que ele sabia que era deliberada. Ela
175
estava permitindo isso, tanto para ele como para si mesma. Ela tinha
escolhido ele, pensou em alguma maravilha. Deve ter havido outros
homens em mais de oito anos, outros candidatos mais dignos do que
ele. Ele sabia de um dois daqui do povoado. Mas ela o tinha escolhido –
por enquanto. Por um tempinho.
Talvez porque ela sabia que ele iria embora assim que a família dele
partisse? Talvez porque ela sabia que não havia chance de permanência?
Ele não era um tipo permanente de homem. Ou talvez porque ela
realmente não queria permanência, mas apenas um breve caso de sexo
bom.
Importava porque ela o tivesse escolhido? Ou por que ele a
escolhera?
Ele estendeu a mão para trás e abriu os fechos de seu vestido. Tirou-
a dos ombros e descendeu pelos braços. Ele deslizou para o chão caindo
sobre seus pés. Ela não estava usando espartilho. Ele percebeu isso lá
embaixo antes. Ela não precisava deles. Ele se ajoelhou, tirou primeiro
um chinelo e depois o outro, enrolou suas meias de seda sobre suas
panturrilhas e fora de seus pés. Suas pernas eram longas e bem
formadas. Ele parou. Ela estava usando apenas sua camisa, que mal lhe
cobria o peito e não chegava até os joelhos.
Ele respirou fundo e estendeu a mão para a barra, mas suas pontas
dos dedos chegaram levemente aos seus pulsos.
— Eu ficaria desconfortável — disse ela.
Com sua própria nudez? Ele assentiu. Ele a deixava confortável
quando estavam na cama. Não havia pressa. A experiência lhe tinha
ensinado isso, e estava contente por esta noite ser experimentada, embora
sua mente nem sequer lembrava em todas as mulheres com quem ele
tinha dormido. Pois esta noite só havia ela. Imogen. Um pouco de um
nome desajeitado, ele tinha pensado no início. Agora ele pensava que era
perfeito para ela. Individual. Forte. Bonito. Imogen.
Ele não tinha nenhuma inibição sobre sua própria nudez. Ele se
despiu enquanto ela observava, colocando suas roupas em uma cadeira
ao lado da janela. E ele não parou quando chegou a suas cuecas, sua

176
última vestimenta restante. Ele a removeu, então voltou para ela e tomou
seu rosto com as mãos, e escovou seus lábios nos dela. Ele estava quase
completamente excitado, mas ela não era virgem para se tornar
vaporizada ao ver. Ela tinha visto um homem em seu desejo antes.
— Eu sabia que você seria tão bonito sem suas roupas como vestido
— ela disse, soando quase ressentida.
— Sinto muito se a ofendi — ele sorriu. — E eu apostarei que você
é tão bonita sem a sua como você está vestida. Um homem não
necessariamente gosta de ser descrito como bonito, você sabe.
— Nem mesmo quando ele é?
Seus ombros e seus braços, ele observou, foram seixos com arrepios
de ganso.
— Mas eu deixo você com frio, não é? — Ele moveu suas mãos até
seus ombros e puxou-a contra ele. — Devo estar perdendo o jeito.
— Eu duvido muito — disse ela, e suas mãos – suas mãos frias se
espalhando sobre seu peito.
— Venha — ele disse, levando-a para a cama e jogando para trás as
coberturas. — Deixe-me esquentar você.
Não demorou muito. Não que ele fizesse todo o aquecimento. Ela
decidira que deixaria isso acontecer, ele já tinha percebido, mas não havia
nada de passivo ali. Ela ia fazer isso acontecer, e se abandonou à paixão
assim que suas costas encontraram o colchão. Ele duvidou que ela ainda
percebeu quando sua camisa íntima foi descartada fora sobre sua cabeça
ou que tinham deixado a vela queimando. Ela o beijou como se nunca
tivesse o suficiente – assim como ele a beijou, na verdade. E quando suas
mãos e sua boca exploravam cada centímetro dela, provocando e
despertando à medida que seguiam, suas mãos e boca estavam ocupadas
com ele. Não precisavam nem de fogo na lareira nem de cobertores na
cama. Eles criaram seu próprio forno de calor, desejo e paixão.
Quando sua mão foi entre suas pernas, ela abriu e levantou para
ele. Ela estava quente e molhada até os dedos, e seu polegar acariciou-a
para um quase instantâneo desejo e liberação. Ela suspirou em voz alta e
rolou para ele, relaxada por um momento, mas sem sinais. Sua boca
177
encontrou a dele.
— Percy — ela sussurrou contra seus lábios.
Isso o inclinou sobre a borda – apenas isso, o som de seu nome em
seus lábios.
Ele a atraiu debaixo dele, deslizou suas mãos sob ela enquanto ela
ergueu suas longas pernas e as enroscou sobre as dele, e foi duro para
dentro dela. A experiência quase o decepcionou então. Quase quebrou
nela como um estudante de rua. Ela estava quente e úmida e deu-lhe
boas-vindas com um aperto lento, firme de músculos internos. Levou
apenas alguns minutos para controlar a si mesmo enquanto ele a
segurava profundamente, num êxtase quase de dor.
E então eles fizeram amor lento, deliberado, esquisitamente
satisfatório. Nunca antes pensara em sexo com aquele eufemismo
particular. Não havia amor envolvido com o sexo. Era puramente,
terrivelmente, maravilhosamente físico. Mas com ela – com Imogen – o
sexo era mais do que isso. Não amor, mas... Mas havia uma deficiência
de linguagem.
Era estranho como os pensamentos estavam presentes em sua
mente, mesmo enquanto seu corpo estava totalmente concentrado no ato
sexual. Ou ao fazer amor. Ou qualquer que seja o diabo...
Então seus músculos internos apertaram quando ele empurrou, mas
não se afrouxou como fizeram nos últimos minutos, em ritmo perfeito
com suas retiradas. E não eram apenas os músculos internos. Seu corpo
inteiro estava tenso e esforçando-se e erguendo-se mais forte contra o
dele. Ele pressionou novamente e ficou imóvel. E. . .
Bom Deus. Que o Céu o ajude... Bom Deus.
Ele esperava que ela chegasse ao clímax e continuasse em direção à
sua própria libertação. Mas havia algum tipo de explosão que aconteceu
simultaneamente dentro de sua cabeça e em seus lombos - e nela também.
E, às vezes, não havia experiência para se aproveitar.
E absolutamente nenhum vocabulário.
Ele estava deitado e pesado e ofegante nela, e ela ofegou debaixo

178
dele, tudo relaxado, quente e suado, e o que tinha acontecido com todos
os seus arrepios?
— Desculpe — ele murmurou, desprendendo-se dela e rolando e se
abaixando para puxar os cobertores sobre eles. — Eu estava esmagando
você.
— Mmm. — Ela rolou em seu lado, toda mulher macia e cabelo
morno, sedoso.
Talvez ela tivesse os mesmos problemas de vocabulário.
— Obrigado — ele murmurou. Ele estava se afundando
rapidamente no esquecimento quente e confortável.
— Mmm, — ela disse novamente. Muito eloquente.
Ele mudou de posição, deslizou um braço sob seu pescoço para
cobrir seu ombro com a mão.
— Você se importa se eu dormir aqui por um tempo? — Ele
perguntou.
— Não.
Ele estava deslizando mais fundo, como ele supunha que ela era,
quando um trote trot-trotting som foi seguido por um grande pedaço
quente de algo aterrissando pesadamente na cama e rastejar seu caminho
entre suas pernas.
— Maldito cão, — ele murmurou, mas ele estava com muito sono
para pedir desculpas por sua linguagem ou para ordenar que o cão
maldito saísse e deixasse ele sozinho com sua amante.

******
Imogen acordou quando os lábios quentes se fecharam brevemente
sobre os dela. Ela manteve os olhos fechados por alguns momentos. Ela
não queria perturbar o sonho. Ela sabia que não era um sonho, que era
real, mas ela meio que desejava que fosse apenas um sonho, algo para o
qual ela não precisa assumir a responsabilidade.
Mas ela só meio que desejou. Seu rosto estava acima do seu. Ela
podia vê-lo muito claramente. A vela ainda estava queimando. Ela não
179
tinha ideia de que horas eram, quanto tempo tinham dormido. O cão, ela
percebeu, tinha saído de entre eles.
— Eu deveria me levar de volta para casa, antes de qualquer dos
servos acordar — disse ele.
Ele parecia exuberantemente lindo, seu cabelo escuro despenteado,
suas pálpebras sonolentas, seus ombros nus. Ele estava na cama dela com
ela – pensou tolamente. Eles tinham feito isso juntos, e tinha sido
maravilhoso. Se houvesse culpa, ela ainda não sentiu isso. Ela tinha
decidido conscientemente fazer isso, para apreciá-lo. Ela deslizou suas
mãos sobre seus ombros, acariciou os lados de seu pescoço, esfregou seus
polegares sobre a parte inferior de sua mandíbula.
— Você precisa se barbear — disse ela.
Ele sorriu lentamente, aquele sorriso genuíno e devastadoramente
atraente que começou em seus olhos.
— Você tem medo da queimadura de bigodes, Lady Barclay? — Ele
perguntou.
— Não. — Ela se viu sorrindo de volta para ele. — Você vai embora,
não é, Lorde Hardford?
— Sim — disse ele. — Depois de...
— Depois de?
— Depois de ter dito um bom adeus — disse ele. — Não, isso parece
muito final. Depois de ter dado uma completa despedida. Posso?
Ela puxou seu rosto para o dela em resposta.
— Deixe-me fazê-la — ele murmurou contra seus lábios enquanto
ele se moveu sobre e entre suas coxas e entrou nela, duro e pronto e
profundo. — Relaxa.
Não era o que ela pretendia, mas... Bem, ele era o especialista.
Estava deliciosa além das palavras – para estar aberta sobre suas
costas, todos seus músculos relaxados, até mesmo os interiores que doía
para fechar sobre ele. Para sentir o ritmo duro e constante de seu amor
no calor suave de seu corpo. Render-se. Receber e não dar nada em troca,
180
exceto sua rendição. Era contra sua própria natureza ser submissa. Era
algo inteiramente novo para ela. Isso era... Bem, era delicioso além das
palavras.
E, totalmente surpreendentemente, ela estremeceu em libertação –
mas libertação de quê? – depois de alguns minutos. Ele a sentiu e ficou
imóvel e firme nela até que ela estivesse gozado, e então continuou até
que sentiu o jorro quente de sua liberação profundamente dentro dela.
Por um momento – ah, loucura de fato! – ela desejou não ser
estéril. Mas ela deixou o pensamento ir e apreciou todo o peso de seu
corpo relaxando sobre ela. Ela até podia ouvir o cachorro fungar em seu
sono de algum lugar no quarto.
Como ia ser, ela se perguntou enquanto olhava para o teto, depois
que ele fosse embora? Não apenas de sua casa esta noite, mas... Depois
de ter ido de Hardford e Cornualha, e talvez nunca mais voltasse.
Ele inalou profundamente e audivelmente e se levantou longe dela
e fora da cama. Ela o viu vestir-se. Ele se virou para observá-la enquanto
o fazia. Percebeu que não tinha consciência de seu corpo. Ela
desesperadamente queria tirar os cobertores de sua cintura, mas não
fez. Seria absurdo cobrir-se de embaraço à luz do que haviam feito duas
vezes nas últimas horas.
— Quando eu procurar refúgio aqui novamente — ele disse
enquanto puxava seu casaco, — eu estarei muito feliz em conversar e
talvez um pouco de chá. E não vou ter um ataque de raiva mesmo se você
me expulsar. Eu não quero que você pense que eu vou vir aqui no futuro
só para dormir com você. Eu não quero pensar em você como minha
amante. Você não é isso.
— Mas que decepcionante — disse ela. — Eu estava ansiosa para
negociar com você sobre o tamanho do meu salário.
O que ele respondeu. — Meio telhado não é suficiente?
— Ah, mas as duas metades realmente pertencem a você —
lembrou-lhe, — assim como a casa embaixo deles. Você mesmo disse
isso. Você se tornou muito senhorial e bastante detestável, na verdade,
quando você disse isso.
181
— Eu? — Ele inclinou a cabeça para um lado e olhou para ela com
um sorriso preguiçoso – outra nova expressão. — Mas eu não tenho a
mulher dentro da casa, não é? Nem eu desejo. Você pode me desviar
sempre que quiser, Imogen, ou me oferecer chá, ou me levar para a cama.
E ali estava. O homem de verdade. O verdadeiro Percy Hayes,
conde de Hardford, todo artifício despojado. Um homem decente, de
princípios, a quem ela gostava. Oh, também domar uma palavra. Ela
gostava dele enormemente.
— Você pode trazer meu cachorro para a cama também, se quiser,
— disse ele, — para abraçar entre nós depois.
Ela riu.
Sua cabeça inclinou um pouco mais para o lado.
— Imogen, — disse ele, — deixe-se fazer isso com mais
frequência. Por favor?
Mas ele não esperou por uma resposta. Ele caminhou em direção à
cama, beijou-a firmemente nos lábios e puxou os cobertores até o queixo.
— Eu sei que você tem estado desejando fazer isso nos últimos dez
minutos — disse ele. — Fique ai. Vou me virar. A chave que vi pendurada
ao lado da porta do salão não é a única que você possui, não é?
Ela balançou a cabeça.
— Eu vou tomar, então, — ele disse, — e trancar a porta atrás de
mim. Eu não vou também desbloqueá-la a qualquer momento para me
deixar entrar, no entanto. Isso será por convite só depois de bater. Boa
noite.
— Boa noite, Percy — ela disse, e viu um piscar de algo - desejo? -
em seus olhos antes dele virar.
— Venha, Hector — disse ele. — Este é um momento em que você
definitivamente deve seguir ao longo dos passos do mestre.
Imogen ouviu seus passos descendo as escadas - ele não levara a
vela com ele – e a porta da frente se abrindo e fechando. Ela ouviu o ruído
da chave girando na fechadura. E ela colocou os calcanhares das duas

182
mãos sobre os olhos e chorou.
Ela não sabia por quê. Não eram lágrimas de tristeza – ou de alegria.

VtÑ•àâÄÉ
VtÑ•àâÄÉ DH

Percy não tinha ideia de que hora era quando ele chegou em casa,
mas pelo menos ele não podia ver nenhuma luz em qualquer janela como
ele se aproximou. Ele esperava que isso significasse que todos, incluindo
seus amigos recém-chegados, estavam na cama. Ninguém iria acreditar
que ele estivesse esticando as pernas por várias horas. E ele não estava de
bom humor para qualquer homem se gabar de sua própria parte ou fazer
nervuras com os deles.
Ela morava em uma casa que ele possuía em um canto de seu parque
ao redor de sua casa principal. Ela compartilhava seu nome e assim como
também a metade feminina de um dos títulos que era dele. Era o de
visconde Barclay: Era a viscondessa Barclay. Era tudo bastante incômodo.
E ele não tinha nem ideia se ela sabia como evitar a concepção. Ele não
pensou em perguntar. Ele nunca o fez, mas todas as mulheres que tinham
sido suas amantes ou seus amores casuais durante a temporada tinha
sabido como cuidar de si e não tinha necessidade de ser perguntado. Ele
suspeitava que Imogen Hayes, Lady Barclay, não era esse tipo de mulher.
Ela não ficaria satisfeita se ela fosse forçada a casar com ele. Nem
tampouco ele.
Ele acendeu uma vela e olhou para Hector, que estava olhando para
trás com seus olhos esbugalhados e expressão sempre esperançosa.
— O problema é, Hector — disse ele, embora baixasse a voz por
deferência à casa adormecida — que eu não estou acostumado a pensar
e agir com responsabilidade. É hora de eu aprender, você acha?
Hector olhou ansiosamente para trás e acenou para pedir desculpas

183
por uma cauda.
— Sim? — perguntou Percy. — Tive medo de dizer isso. Mas eu não
quero desistir dela. Ainda não. E ela precisa de mim. Que diabo estou
dizendo? Como alguém poderia precisar de mim? Ela precisa... de algo,
embora. Riso. Ela precisa de riso. Puta merda, eu posso fazer ela rir.
Senhor, aqui ele estava conversando com um cachorro e ele nem
estava bêbado.
Se ele trouxesse Hector de volta para o quarto da segunda
governanta – por que se chamava isso? – ele provavelmente acabaria
deixando o alojamento das feras inteiro sair.
— Oh, vamos lá, então, — ele disse, e subiu as escadas. Hector trotou
atrás dele, parecendo quase arrogante. Homem e cão fiel.
Ele não estava pronto para desistir dela. Ele tinha acabado de tê-la.
Ela tinha sido uma mulher de um homem só até agora. Não tinha
nenhuma dúvida sobre isso. E que esse homem tinha morrido há mais de
oito anos – depois de um casamento de quatro anos. Ela tinha sido um
barril de paixão esta noite. No entanto, não foi apenas o derramamento
de oito anos de sexualidade reprimida. Pelo menos, ele não pensava
assim. Tinha sido muito deliberado. Ela estava ali com ele. Ela o chamara
pelo nome.
Maldito seja, ele não poderia simplesmente desfrutar da sensação
de relaxamento deixada por algum sexo vigoroso e completamente
agradável? Era estranho, dele pensar sobre a experiência. Até mesmo, ele
se preocupar com isso. Mas, ele estava preocupado.
Ela ia se arrepender do que tinha feito? Teria ele seduzido ela ou,
pelo menos, levou-a a tentação? Ela estava com uma criança? Ou em
perigo de estar com uma se continuassem sua ligação? Ele não estava
pronto para a paternidade. Ou ser um marido também. Era uma palavra?
Marido? Provavelmente não. Ele deveria escrever seu próprio dicionário.
Daria-lhe algo marginalmente útil de fazer.
Watkins, o idiota, estava sentado quieto em seu camarim, esperando
por ele.— Que maldita hora é essa? — Perguntou Percy, franzindo a testa.
Watkins olhou para o relógio, visível agora que Percy trouxera uma
184
vela para o quarto. — Doze minutos depois das três, senhor.
Não havia sentido em repreender ou o que brigar. Percy permitiu
que seu ajudante o despisse e vestiu uma camisa de dormir aquecida pelo
fogo no quarto de dormir. E então ele subiu na cama e imediatamente
adormeceu com Hector enrolado e bufando contente ao lado dele.

******
A Sra. Wilkes, que pediu para ser chamada de Meredith, passou
pela casa da viúva na manhã seguinte com o Sr. Galliard, seu pai e seu
filho. O Sr. Galliard, lembrou Imogen, era o irmão da Sra. Hayes. Ela
estava gradualmente classificando quem era quem entre os parentes.
Eles não tinham vindo para visitar, no entanto, e recusou sua oferta
de café, mas agradeceu. Eles estavam levando Geoffrey para baixo nas
areias para que ele pudesse correr livre e gastar alguma energia. A criança
estava sentada na soleira da porta, com os braços em volta de um feliz e
ronronante Blossom. Tinham vindo com uma mensagem. As senhoras
mais velhas estariam se reunindo no salão de baile depois do café da
manhã e pretendiam fazer planos para a próxima festa de aniversário.
— E, claro, — Meredith disse com um sorriso, — é para ser o maior
entretenimento que esta parte do Campo já viu. Pobre Percy... ele
odiará. Embora eu diga que ele vai sobreviver à provação. E ele merece
de qualquer maneira depois de correr para Londres, a fim de escapar de
tal festa em Derbyshire direito em seu aniversário. A tia Julia estava
esmagada de decepção.
— Aquele jovem foi estragado toda a vida — acrescentou o Sr.
Galliard com carinho. — Embora ele tenha se saído relativamente ileso. O
que Meredith esqueceu de acrescentar, Lady Barclay, é que você deve
comparecer no salão o mais rápido que puder – se você for tão ágil. Sua
opinião está sendo solicitada, jovem. E minhas irmãs não devem ser
ridicularizadas quando estão fazendo planos. Nem é Edna Eldridge. Eu
ainda não dimensionei Lady Lavínia, embora ela parece ser feliz o
suficiente para ser puxada para a ação. O dragão, no entanto, não terá
nada a ver com qualquer plano para celebrar qualquer coisa que diga
respeito a um homem.

185
— Papai! — Meredith exclamou, rindo. — A Sra. Ferby ficou
realmente casada apenas alguns meses, com dezessete anos, primo
Imogen? Ela realmente cuidou de seu marido até a morte?
Menos de meia depois Imogen caminhou até o salão em outra
manhã brilhante e ensolarada. Ela esperava, esperava, esperava que ela
pudesse chegar ao salão de baile sem correr para o conde de Hardford.
Os acontecimentos da noite passada parecia irreal hoje, apesar da
evidência física de uma ligeira e agradável dor. Ia parecer estranho e um
pouco embaraçoso vê-lo novamente. Hoje ela não podia sequer pensar
nele como Percy.
Por sorte, ela o avistou ao longe, junto aos estábulos, com o Sr. Cyril
Eldridge e dois cavalheiros estranhos que ela supunha serem seus amigos
recém-chegados de Londres. Eles estavam conversando com James
Mawgan, ex-batman de Dicky, agora o jardineiro chefe.
Lord Hardford a viu, ergueu a mão e saiu andando pelo gramado,
os outros cavalheiros com ele. Ela apertou suas próprias mãos enluvadas
na cintura e esperou. Oh, céu, ele parecia muito bonito e viril em sua
roupa de equitação. E eles devem ter cavalgado. Ele estava carregando
um chicote. Imogen sentiu uma lembrança maçante e latejante onde ele
tinha estado ontem à noite.
— Lady Barclay. — Ele tocou a borda de seu chapéu alto com o
chicote. — Posso ter o prazer de apresentar o visconde Marwood e Sidney
Welby? Lady Barclay é a viúva do filho do meu antecessor, que morreu
na Península. Ela mora na casa da viúva lá. — Ele acenou com a cabeça
na direção de onde ela tinha vindo.
Os senhores se curvaram e Imogen fez uma reverência.
— Você vai ficar longe do caminho de minha mãe e de minhas tias
se você souber o que é bom para você, Lady Barclay — disse Eldridge, e
sorriu. — Elas estão prestes a forçar toda a aldeia a comemorar
grandiosamente o aniversário de Percy.
— Uma grande festa, eu entendo — disse ela. — Fui convocada para
discutir o que poderia ser feito com o salão de baile.
— Bem, todos sabemos o que são os salões de baile, — disse
186
Welby. — Você está condenado a fazer o delicado com todas as donzelas
da aldeia, Perce.
— Você também, Sid — disse ele. — Por que mais você veio de
Londres? Para um chá de aniversário privado e decoroso? Você conheceu
minha mãe antes, não é? Permita-me escoltá-la até o salão de baile, Lady
Barclay. — Ele lhe ofereceu o braço.
Imogen hesitou. Ela teria dito não, mas seus amigos poderiam
considerá-lo mal-educado e ela poderia deixá-lo se sentir tolo.
— Obrigada — disse ela, passando a mão pelo braço.
— Vou lhe mostrar o caminho até a praia — ouviu Eldridge dizer
aos outros dois cavalheiros. — Eu estava lá ontem.
— Imogen, — o conde disse suavemente enquanto se aproximavam
da casa. Ele estava olhando diretamente para ela.
— Lorde Hardford.
— Sou Lord Hardford esta manhã, então? — ele perguntou.
Ela virou o rosto involuntariamente para ele. Ela desejou que seus
olhos não fossem tão azuis.
— Você sente muito? — Perguntou ele.
— Não.
Ela nunca iria se arrepender. Ela estava determinada a não se
arrepender.
— Posso voltar? — perguntou. — Se você não mudou de ideia na
fria luz do dia. Embora não necessariamente para ir para a cama.
Ela respirou fundo. — Você pode vir — ela disse, — para chá e
conversa. E ir para a cama também. Eu espero.
Tendo decidido tirar uma espécie de férias de sua vida, ter um caso
com um homem que estaria aqui apenas por um curto tempo, ela queria
tudo isso. Ele teria ido embora em breve. E ela teria ido logo para
Penderris Hall. Ela queria dormir com ele de novo e de novo e de novo
entretanto – mesmo que o preço fosse lágrimas, como tinha sido ontem à

187
noite depois que ele partiu.
— Eu vou, então — ele disse. — Para os três. Imogen.
Com essas palavras, eles estavam dentro da casa, onde as gêmeas
estavam perseguindo Prudence pelo corredor, tentando pegá-la o que era
claramente uma causa perdida. Elas estavam coradas e rindo e
anunciaram sua intenção de sair para ver os gatinhos se alguém não se
importaria de acompanhá-las. Uma delas – era impossível distingui-las –
bateu as pálpebras em lorde Hardford, e ambas riram novamente. A
outra perguntou onde o Sr. Welby e Lord Marwood tinham ido – e ambas
riram. Não havia mais chance de conversa privada. O conde abandonou
Imogen às portas abertas do salão de baile depois de fazer uma careta ao
ver sua mãe e suas tias e tia Lavínia em um amontoado dentro.
— Divirta-se — disse ele.
— Oh, — ela assegurou, — eu vou. Eu quero ver você dançando em
um ambiente tão esplêndido quanto possível.
— É melhor você salvar todas as valsas para mim — disse ele.
—Se você pedir muito bem — ela disse, — talvez eu vou salvar uma.
Ele riu e se afastou, e ela percebeu que ela estava sorrindo atrás dele.
******
O ombro de Percy estava apoiado contra a divisória de madeira que
havia sido construída em torno do ninho de Fluff nos estábulos, os braços
cruzados sobre o peito e o cão fiel assentado com atenção em seus pés
botados. Ele sempre gostara dos jovens da família, especialmente aqueles
com faixa etária meio que complicada entre cinco e dezoito anos, quando
riam ou choravam ou escalavam árvores, que não deveriam escalar ou
nadar em lagos em que não deveriam nadar ou colocar sapos nas camas
de seus tutores ou aranhas pelo pescoço de suas governantas. A idade,
de fato, quando a maioria dos adultos os achava tentadores e cansativos
e ocasionalmente repugnantes e melhor apreciados na ausência deles.
Ele gostava deles.
Sua família abundava tanto com os jovens quanto com os menores
de cinco anos, e todos adoravam suas bochechas gordas, pernas gordas e
188
vozes gasguitas. Mas hoje apenas Alma e Eva estavam disponíveis, então
aqui estava ele, porque elas queriam que ele viesse. Elas estavam
guinchando sobre os gatinhos e pegando-os um por um enquanto Fluff
olhava inquieto. Elas estavam tentando decidir qual deles gostaria de
levar para casa delas - e pareciam estar de acordo sobre a posse comunal
de apenas um. Os gatinhos não estariam prontos para deixar sua mãe até
algum tempo depois que elas partissem, é claro, mas ele deixou que
sonhassem.
Como resultado da visita de sua mãe e de suas tias à vila ontem à
tarde com Lady Lavínia, parece que quatro dos seis gatinhos já haviam
sido falados. E as senhoritas Kramer e sua mãe tinham aparentemente
achado Biddy, o cão “salsicha”, em algum momento e tinham-na
declarado ser a coisa a mais doce que tinham visto. Talvez, Lady Lavínia
tinha dito no jantar na noite passada, elas poderiam ser persuadidas a
levá-lo, embora, seria perda de tempo.
Ele tinha ouvido a si mesmo concordando, mas insistiu que isso
somente aconteceria se eles tomassem Benny também, o melhor amigo
de Biddy, já que os dois eram inseparáveis. E ele tinha dito isso, ele tinha
percebido, não apenas na esperança de se livrar de dois dos vadios em
vez de um, mas por pura preocupação com o bem-estar de ambos os cães.
Embora seria bom para esgotar o zoológico. Blossom estava firmemente
estabelecida na casa da viúva. Fluff tinha aprendido habilidades
divertidas em algum lugar durante seus dias pré-Hardford, parecia, e
estava demonstrando com sucesso notável desde sua mudança para os
estábulos. Ela ficaria aqui.
Contudo... Se a visão de Percy não o tivesse enganado, um felino
horrivelmente grande e feio de raça desesperadamente misturada e sexo
desconhecido, com pelo emaranhado, rosto feroz e bigodes longos, tinha
atravessado seu caminho quando desceu para tomar café da manhã. Um
estranho, nada menos. Mas logo para se tornar um residente? Lady
Lavínia estava esperando que ele não percebesse? Ou ela o tinha avaliado
e tirado suas próprias conclusões. Uma possibilidade perturbadora.
Houve um desacordo. As moças discutiam com vozes elevadas e
indignadas – até que dissolveram-se novamente em risos.

189
Os olhos de Percy pousaram pensativamente sobre Baines, a mão
estável e com as pernas, que estava espalhando palha fresca na cabine
usada para o cavalo de Sidney. E ele pensou em Mawgan, o jardineiro-
chefe, com quem ele tinha tido algumas palavras antes dele ver Lady
Barclay. Baines tinha feito um acordo bruto. Ele tinha ficado para trás
quando ele se ofereceu para ir para a Península e teve suas pernas e seu
espírito quebrado. Ele ainda era uma mera mão nos estábulos. Mawgan,
em contraste, tinha ido à guerra como o ordenança de Barclay, e tinha
retornado com a ligeira, embora talvez injustificada mancha de covarde
sobre ele, e tinha sido recompensado com o que parecia ser uma
mamata. Ele era jardineiro-chefe, mas, de acordo com Knorr, foi outro
homem que realmente desempenhou essa função, já que os outros
jardineiros se voltavam para ele para obter instruções.
Talvez ele apenas devesse deixar ele quieto, o suficiente sozinho,
pensou Percy. Talvez o homem tivesse ganhado algum reconhecimento
por seu serviço a Barclay, mas não era adequado para qualquer tarefa
particular na propriedade. Ele cresceu na aldeia mais baixa, filho de um
pescador, agora falecido. Ele aparentemente também não tinha aptidão
para pescar.
As meninas já haviam tido o suficiente dos gatinhos por agora e
estavam mexendo sobre Hector, a que elas estavam declarando ser tão
feio, coitado, mas tão doce. Ele deveria levá-las para a praia, pensou
Percy. Mas havia algo que o incomodava.
Era algo a ver com se manter bem o suficiente sozinho, deixando os
cães adormecidos mentir. Ele parecia estar pensando essas frases com
bastante frequência, talvez por uma boa razão. Por que se meter e talvez
agitar um vespeiro? E que confusão medonha de imagens.
— Você deveria ir para a praia — sugeriu ele. — É um belo dia para
a época do ano. Cyril está lá embaixo com Welby e Marwood. Leve Beth
com você.
— Não, na verdade — gritaram ao uníssono.
— Se Beth vier — explicou Eva – ela sempre era a que falava pelas
duas, às vezes para seu desgosto — então ela certamente vai descer esse
caminho íngreme e simplesmente tem que se apoiar no braço do
190
Visconde Marwood ou do Sr. Welby, E Alma ou eu estaremos presas a
andar com Cyril.
— Para ser justo — ele disse, sorrindo, — que provavelmente seria
tanto de um julgamento para o seu irmão assim como seria para você.
Ambos puxaram rostos idênticos para ele e se apressaram na
direção do caminho do penhasco antes que ele pudesse tentar insistir
para que incluíssem sua irmã no passeio.
Percy voltou para a casa. Encontrou Crutchley adequadamente na
despensa do mordomo, usando um avental grande e limpando um par
ornamentado de castiçais de prata que normalmente viviam na lareira da
sala de jantar.
— Eu vou dar uma olhada ao redor da adega — Percy disse a ele, e
recebeu um olhar bastante nítido em troca. — É a única parte da casa que
eu não vi.
— Não há nada lá embaixo, meu senhor — disse o mordomo, —
além das teias de aranha e do vinho.
— Talvez — disse Percy, — ou você ou a Sra. Attlee poderiam
mandar remover as teias algum dia, Crutchley, e as aranhas que vão com
elas. Enquanto isso, descerei para as entranhas da terra de qualquer
maneira, já que não tenho medo de aranhas ou de vinho. Você pode me
acompanhar se quiser, embora não seja necessário abandonar sua
importante tarefa aqui. Vou levar uma vela comigo e espero que não
fique trêmula e me deixe encalhado no tipo de escuridão que
experimentei no meu quarto na noite em que você teve aquelas pesadas
cortinas erguidas na minha janela.
Crutchley veio com ele.
Na verdade, havia muito mais lá embaixo do que apenas vinho –
tudo o que se espera encontrar na adega ou no sótão de qualquer casa. E,
curiosamente, nem uma única teia de aranha, tanto quanto Percy podia
ver. Uma porta de um lado, fechada e trancada, abriu na adega de vinho,
que estava adequadamente, embora não abundantemente abastecido.
Uma porta do outro lado, também fechada e trancada, abriu-se...
Bem, na verdade, não abriu nada. Crutchley examinou seu anel de
191
chaves, resmungou algo, e lembrou-se de que aquela chave havia
desaparecido já há algum tempo e ele não sabia o que tinha acontecido.
Mas não importava. Nada era mantido lá.
— Ah — disse Percy. — Eu ouso dizer que é por isso que há uma
porta, então, com uma fechadura. Nunca se pode ter muito cuidado com
os espaços vazios. O vazio pode escapar e fazer dano incalculável.
O mordomo apertou os olhos e olhou incompreensível.
— Se a porta e a fechadura não servem de nada — prosseguiu Percy
— então só arrancaremos a porta e abriremos mais espaço para
armazenamento. Há um espaço considerável lá, eu acho. A adega se
estende por baixo de toda a casa?
— Creio que sim, milorde — disse o mordomo. — Nunca pensei
nisso. Não me lembro dessa sala como sendo muito grande, embora. E é
úmida. Era por isso que o velho conde a tinha forrado e a porta
acrescentada - para manter a terra úmida.
Percy olhou de volta para a porta da adega. No entanto, estava fora
do alcance da luz de sua vela e ele foi forçado a caminhar de volta. E sim,
ele podia ver agora que esta porta e a parede em que estava posta eram
consideravelmente mais antigas do que aquelas que levavam para a sala
vazia e úmida.
— Duro, então — disse ele — que seria melhor deixar a porta no
lugar e esquecer a chave perdida.
— Sim, meu senhor — concordou o mordomo.
Percy saiu de casa pela porta da frente e se virou para caminhar até
as traseiras. Havia portas de trás, ele sabia, conduzindo para a horta e
outras áreas mais frequentadas pelos criados. Havia também uma
entrada dos criados ao lado da casa mais próxima dos estábulos – o
mesmo lado da casa que a adega. Percy já tinha visto isso antes. Agora
ele foi olhar o outro lado. E com certeza, havia uma porta lá também, uma
que estava fechada e seguramente trancada – nenhuma surpresa nisso.
Também parecia negligenciado, como se não tivesse sido usado em anos.
Não havia nenhum caminho que conduzisse a ela e nenhuma evidência
de ter sido utilizada por qualquer pessoa recentemente. Porém, em uma
192
inspeção mais minuciosa, havia talvez algum sinal de que recentemente
teria sido formada algumas pegadas que vinham direto da porta.
Maldito fosse, pensou ele, o velho conde, seu antecessor, tinha
fechado a adega na casa da viúva para que os contrabandistas não
pudessem usá-la. Mas eles tinham substituidos por um bom pedaço da
adega da casa principal? Se Percy não estava enganado, esses pedaços de
grama eram de data mais recente do que há dois anos, quando o velho
conde morrera.
Deve ter havido uma consternação geral quando ele apareceu aqui
um par de semanas atrás. Um esforço valente tinha sido feito para movê-
lo pelo menos para o fundo da casa, onde ele era menos provável de ver
um bando de contrabandistas transportando seus bens até a casa numa
noite escura e tempestuosa. E, quando esse plano falhou, uma tentativa
desesperada tinha sido feita para bloquear qualquer visão de alguma
atividade exterior que poderia possivelmente penetrar na escuridão de
seu quarto.
Isso significava que Crutchley estava envolvido? E quem mais entre
os servos? Todos eles? Droga de inferno. Ele ia ter que fechar os olhos –
essa frase de novo – ou fazer algo sobre a situação? Normalmente se
fechariam os olhos, preferencialmente os dois. Parecia ser o que seus
vizinhos também faziam, se eles se beneficiavam do comércio ou não.
O que lhe importava se as pessoas nestas partes gostassem de seu
brandy e outros bens de luxo, e se alguém – provavelmente alguém –
estivesse explorando e aterrorizando os habitantes locais, incluindo,
talvez, seus próprios empregados, e ficando muito rico do comércio? E
quebrando as pernas de um mero rapaz que provavelmente tinha
encontrado a coragem louca para fazer uma objeção porque seu herói,
Lord Barclay, tinha falado antes de ir para a guerra.
Afinal, quem era aquele alguém? Alguém que ele conhecia? Ele
esperava que não.
E claro que importava. Tudo, importava. E aqui estava ele. Hora da
decisão. Será que ele continuaria flutuando na vida, buscando o prazer e
evitando a dor, como ele tinha feito por pelo menos os últimos dez anos?
Ou ele estava indo para avançar como um maldito atravessado e mártir,
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agitando ninhos de vespas e aborrecendo pessoas, perturbando a paz do
povoado e todos nele, e tudo para quê? Para que todos pudessem beber
conhaque inferior? Ou para que ele pudesse ter as pernas quebradas? Ele
considerou suas opções de forma sombria.
Sempre, depois de seus aniversários, ele não só iria sentar sozinho
diante de seu próprio fogo, envolto em um xale, um drinque na cabeça,
chinelos em seus pés, bebendo chá encharcado com leite. Ele também ia
fazer tricô. Por que diabos ele tinha decidido vir aqui?
Ele tinha tudo. Não. Ele tinha tido tudo. Ele já não tinha. Faltava
algo. Auto-respeito, talvez.
E ele não a teria conhecido se não tivesse vindo, pensou enquanto
voltava para a frente da casa. E ele não a teria enganado em sua própria
terra. Não, absurdo, não houve nenhuma devassidão envolvida. O que
tinha acontecido ontem à noite fora absolutamente mútuo e bom
demais. Na verdade, ele teria que inventar uma maneira de voltar esta
noite. Ela tinha emitido o convite, não tinha? Para a conversa e chá e sexo?
No entanto, havia algo de incômodo nisso, e ele não tinha certeza do que
era. Não tinha certeza de mais nada. Aquele era o problema inteiro.

VtÑ•àâÄÉ
VtÑ•àâÄÉ DI

O baile seria realizada dentro de dez dias, dois dias antes de


Imogen ser esperada em Penderris Hall. Ela esperava que a baile fosse
mais tarde. Ela não queria se aprofundar demais... o que? A atração da
família e do riso? Viver novamente?
Sua mente a incomodava quando ela participava dos planos e
ajudava tia Lavínia a se lembrar de cada pessoa por milhas ao redor que
devia ser convidada.
Os limpadores deviam ser enviados para o salão de baile. Cada
centímetro dele de cima a baixo era para ser lavado e vasculhado e
194
espanado e polido. Havia bancos de flores em todos os lugares – um
desafio para a primeira semana de março, mas não um insuperável – e
haveria um banquete pródigo para o jantar e uma orquestra completa.
Haveria salas de cartão – e jogos de cartas, é claro, para aqueles que
desejassem - e um salão tranquilo ou dois onde os hóspedes pudessem
relaxar longe da agitação do salão de baile.
Apesar de seus pensamentos, Imogen ficou surpresa com o quanto
ela gostou da manhã e da interação com as outras senhoras, que todas
borbulharam com energia e entusiasmo. Ela estava feliz por não estar no
salão, no entanto. Foi um alívio saber que ela tinha sua própria casa para
se retirar. Ela nunca deveria perder de vista quem ela era ou da vida que
ela escolhera viver.
E, oh, seria muito fácil ser retirada do curso. Todas as terminações
nervosas em seu corpo tremiam quando o conde entrou na biblioteca - ou
assim parecia. Ela podia dizer pelo olhar amável em seu rosto que ele
tinha sido pego de surpresa e não estava muito feliz com isso.
Como ela sabia disso?
Ela recusou um convite para ficar para o almoço, mas prometeu
aproveitar-se de um assento em uma das carruagens após o jantar. Eles
foram convidados, todos eles, para uma noite informal com o almirante
e a Sra. Payne. Era bastante corajoso, pensou Imogen, abrir sua casa para
uma multidão tão grande de pessoas, a maioria deles estranhos.
— Deve levar a nossa prima para casa, Percival — disse a mãe.
Imogen abriu a boca para protestar, mas foi impedida.
— Mas é claro, mamãe — disse ele, e sorriu educadamente para
Imogen.
— Isso é completamente desnecessário — ela disse quando eles
estavam lá fora. — É plena luz do dia. — E, ainda assim, alarmantemente,
seu coração cantou.
— Pelo contrário. — Ele ofereceu seu braço e ela pegou. — É a coisa
mais necessária do mundo. Eu sempre faço o que minha mãe me diz,
exceto quando eu não faço. Além disso, pode haver lobos.

195
Ela riu. Mesmo para seus próprios ouvidos o som era estranho. Mas
o mundo parecia um lugar brilhante hoje. O sol estava brilhando e havia
uma sugestão de calor em seus raios. Ele tinha perguntado a ela apenas
um par de horas atrás, se ele poderia vir para a casa da viúva novamente.
Ele queria vir, então. E a vida parecia perfeita – para a próxima
semana. Só para a próxima semana. E então haveria Penderris, e depois
disso uma retomada de sua vida normal. Enquanto isso, seu braço era
sólido, seu ombro era largo, mesmo sem a ajuda de todas as capas de seu
casaco, e sua habitual aura de masculinidade a envolveu.
— Imogen — ele perguntou, — você sabe como evitar a concepção?
E o feitiço estava quebrado. Seus músculos do estômago apertaram-
se de choque e embaraço.
— É desnecessário — ela assegurou. — Sou estéril.
— Em quatro anos de casamento, — disse ele, — não houve abortos
espontâneos? Não há natimortos?
— Não — ela disse, — nada. — Eles estavam tomando o atalho
através do gramado, ela percebeu.
— E como você sabe, — ele perguntou, — que a... culpa, se essa é a
palavra correta, não estava em seu marido? Ele tinha outros filhos?
— Não! — Ela olhou indignada para ele. — Ele não tinha. Ele não
era assim. Eu fui ver um médico. — Suas bochechas ficaram quentes com
a memória.
— Quem? — perguntou. — Soames?
— Sim. — Tinha sido há muito tempo - mais de dez anos. Já fazia
muito tempo que ela esteve em companhia do médico sem pensar sobre
isso, sem aquele embaraço lembrado. E mesmo na época ela tinha
mantido lembrando-se que ele entregou bebês e estava acostumado a
todos os tipos de pontos de vistas.
— E ele lhe disse que você era estéril? — ele disse. — Seu marido
também o viu?
— Não — disse ela. — Não havia necessidade. A culpa estava em
mim. Você não precisa temer ser preso no casamento, Lord Hardford.
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— Percy não é o melhor nome do mundo para ser selado — ele disse,
— e Percival é pior. Mas eu prefiro qualquer um a lorde Hardford. Em
seus lábios, de qualquer maneira.
— Não vou atrapalhar você para o casamento, Percy — disse ela.
— Nem eu — assegurou ele, — apesar de eu ter-te ameaçado
perigosamente ontem à noite, antes de saber que não havia perigo.
Um fluxo de gente estava abrindo caminho através de um atalho
nos arbustos de tojo no fundo do gramado, acompanhado por ruído e
risos e exuberância geral - Cyril Eldridge, Suas irmãs gêmeas, O Sr.
Galliard com o jovem Geoffrey segurado firmemente pela
mão, Meredith, e os dois cavalheiros que haviam andado mais cedo com
o conde. O garotinho escorregou a mão livre do avô à vista do conde e
correu pelo gramado, os braços abertos, a boca falando sobre a construção
de um castelo de areia e colocando seus sapatos e meias molhados no mar
e indo para dentro de uma caverna grande, escura e não ser nem um
pouco assustado.
O conde abriu seus próprios braços, apanhou a figura em
movimento e girou-o num círculo alto antes de pousá-lo novamente.
O coração de Imogen estreitou-se um pouco. Ela tinha se
disciplinado em pensar em sua esterilidade como uma bênção disfarçada.
Se tivesse havido filhos, ela não teria sido capaz de acompanhar Dicky
para a Península. Ela teria ficado sem a lembrança do último ano e um
pouco com ele – as boas lembranças. Mas talvez, pensou agora, se
houvesse crianças, ele não teria ido sozinho. Talvez ele tivesse ficado e de
alguma forma se reconciliado com a situação difícil com seu pai. Talvez
ele ainda estaria vivo e aqui agora.
Pensamentos inúteis!
Era desconcertante, no entanto, ver que o conde de Hardford
gostava de crianças, ou dessa criança, de qualquer maneira. Seria um
bom pai? Ou ele seria negligente do seu próprio filho, deixando-o aos
cuidados de sua esposa e enfermeiras e tutores e governantas? Ele tinha
o exemplo de pais amorosos, entretanto, e de uma família muito unida.
Por um momento, permitiu-se a indulgência de anseio pela vida da
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maneira que poderia ter sido, mas ela logo sufocou o sentimento. Aquele
era o problema dela deixar baixar a guarda. Ela se permitiu umas curtas
férias para ter um amante, e agora outros pensamentos e sentimentos
estavam tentando rastejar - ou galopar.
— E nós estamos ansiosos para o grande baile em comemoração ao
aniversário de Percy, Lady Barclay? — Perguntou o visconde Marwood
com um sorriso enquanto o resto do grupo se aproximava deles. Ele tinha
uma gêmea presunçosamente feliz em cada braço. Meredith estava no
braço do Sr. Welby.
— Oh, mais grandioso mesmo que isso — Imogen assegurou-lhe, e
houve gritos gerais e risos como se ela tivesse feito a piada da década.
— E você pensou que só poderia ter trinta anos uma vez, Perce. Boa
sorte, velho. — disse Welby.
Ela e Percy continuaram para a casa da viúva enquanto o grupo
continuava seu caminho de volta para a casa grande, mas Imogen não
perdeu a piscada que o Sr. Welby dirigiu ao conde.
Caminharam em silêncio o resto do caminho para a casa da viúva.
— Os entretenimentos no Campo geralmente terminam em uma
hora decente no final da noite, em vez de uma hora indecente no início
da manhã, como fazem na cidade, — disse ele quando eles estavam em
pé no portão, um de cada lado dele. — Você acha que nós estaremos de
volta antes da meia-noite hoje à noite?
— Normalmente eu diria um sim definido — disse ela. — No
entanto, o povoado estará zumbindo de emoção com a presença de tantos
visitantes no salão, e a Sra. Payne gosta de demonstrar que ela não é
rústica. Pode ser mais tarde.
Ele colocou suas mãos em ambos os lados das suas no portão, sem
realmente tocá-las.
— E como tarde seria tarde demais, Lady Barclay? — Ele perguntou.
— Amanhecer — disse ela. — Amanhecer seria tarde demais.
— Temos que esperar, então — disse ele — que a Sra. Payne nos
deixe ir muito antes do amanhecer. Eu não gosto de ser apressado na
198
busca do meu prazer.
— Vamos esperar — concordou ela. Sob a aba do chapéu alto, seus
olhos pareciam um tom mais escuro do que o céu.
Ele acenou com a cabeça, acariciou o dorso de sua mão direita, e
virou-se, as pesadas dobras de seu casaco balançando sedutoramente
contra o exterior de suas botas ao caminhar para o salão.
Imogen foi procurar snowdrops. Havia cinco flores novas.
A primavera havia sido definida nos últimos cinco anos pela
reunião com seus companheiros membros do Clube Sobreviventes, em
março. E agora? Oh, e agora havia um despertar de alegria nela que a
terra estava voltando a viver novamente, como sempre fez sem falha,
para vencer o inverno. Luz para dissipar a escuridão, cor para substituir
a escuridão, esperança de...
Mas não. Ela o manteria como uma alegria externa. O mundo estava
lá fora, além dos limites de seu próprio ser. E estava brotando para uma
vida nova e exuberante novamente, como sempre faria. Seu coração
levantou um pouco com ele.
Ela piscou as lágrimas – novamente?, – antes de entrar em casa.

******
A sra. Payne seria capaz de se manter como anfitriã de um salão de
Londres, Percy decidiu durante a noite. Ela era um pouco frágil e dura
quando não estava jogando charme sobre ele e seus convidados, mas
sabia como controlar uma grande festa de diversos indivíduos.
As irmãs Kramer, que pareciam gostar de assumir o cargo – ele
apostaria que estavam em todos os comitês já planejados pela igreja local
– sugeriram música logo depois que todos chegassem e até mesmo
puxaram suas cadeiras e a da mãe para os pequenos ingredientes de um
círculo sobre o piano que estava em um lado do salão. Eles realmente
teriam música, a Sra. Payne disse com uma graciosidade que cortou como
uma faca, depois da ceia, quando poderia torná-los suaves antes de ir
para casa.
Ela ordenou ao almirante para ver que todos tinham uma bebida –

199
havia uma impressionante variedade de garrafas e decantadores em um
aparador longo, bem como um jarro de limonada e uma grande cafeteira
de prata e um bule correspondente coberto com uma aconchegante
tampa. Ela guiou alguns dos hóspedes mais velhos para uma sala menor
que ficava próxima a sala de jogos e estabeleceu-os sobre algumas mesas
que tinha sido configuradas para cartas. Ela escolheu Sidney e Arnold
como líderes de equipe para escolher equipes para charadas - uma
escolha perfeita de atividade quando um grande número de seus
convidados eram jovens. E até algumas pessoas mais velhas gostavam de
ser bobas de vez em quando. Miss Wenzel, quase saltando de excitação
em sua cadeira, era particularmente boa em adivinhar até mesmo as
palavras mais obtusamente interpretadas, e Alton era um excelente ator
e não parecia se importar em fazer uma bunda de si mesmo.
Antes que a excitação do jogo pudesse se perder, a Sra. Payne
convocou um grupo de criados para fazer retroceder o tapete e, em
seguida, sentou-se ao piano para tocar algumas danças de campo
vigorosas para os jovens. Quatro casais podem ter se levantado com
facilidade, seis com um pouco de dúvida. Havia oito casais para cada
dança e alguns cotovelos colidindo e dedos pisados e uma bainha
levemente rasgada e uma boa dose de riso. Um nono casal foi uma
impossibilidade física, no entanto, Percy descobriu durante a terceira
dança tal quando ele tentou avançar no final da linha com Lady
Quentin. A Sra. Payne realmente parou de tocar para dizer isso a eles.
Um jantar excelente foi servido em uma sala espaçosa para o
acompanhamento de conversa animada. Depois, como prometido,
alguns poucos dos convidados forneceram música até que Mrs. Payne
dirigisse seu mordomo para que as carruagens fossem trazidas até a
porta. Era um pouco antes das onze e meia. Estavam em casa antes da
meia-noite.
As primas e as tias e a mãe de Percy se retiraram para a cama depois
de uma longa conversa animada no salão. A maioria dos homens não
subiu com eles, mas reuniu-se na biblioteca, onde sitiaram o licor de
Percy e se instalaram em todas as cadeiras mais confortáveis. O zoológico
estava lá também em vigor, tendo alguém ficado vagaroso ao ver que
ficavam dentro do quarto da segunda empregada quando não estavam

200
sendo exercidos sob supervisão. Ou talvez fosse mais exato dizer que
alguém tinha continuado a ser frouxo, uma vez que essa regra particular
nunca tinha sido aplicada com qualquer rigorosa regularidade, tanto
quanto Percy podia ver.
Os vagabundos incluíam o novo gato, que tinha sido atribuído o
nome improvável de Pansy, embora Percy suspeitasse que era um
macho. Estava enrolado na borda da lareira ao lado do balde de carvão e
olhou ferozmente para os recém-chegados como se esperasse encontrar-
se a voar da ponta da bota de alguém a qualquer momento. Era
indescritivelmente fino e desalinhado.
Os tios, os primos e os amigos se instalaram no tipo de conversa que
duraria horas. Depois de meia hora Percy olhou duro para Hector, que
estava escondido debaixo da escrivaninha, e o cão, abençoando seu
coração, veio trotando para ficar diante dele e olhá-lo fixamente com
olhos protuberantes e língua de fora e uma e meia orelhas e três Quartos
de uma cauda todos eretos.
— Você precisa ser levada para fora, não é, Heck? — Percy
perguntou com um suspiro. — E você espera que eu faça isso? Oh, muito
bem. Eu preciso esticar minhas pernas de qualquer maneira.
Sidney Welby não se deixou enganar por um momento. Ele deu um
piscar de olhos a Percy quando este se levantou e não disse uma palavra.
— Meu Deus, Percival — disse tio Roderick, parecendo indignado,
— há criados para levar cachorros para se aliviarem, se precisarem de ser
acompanhados. Eu me consideraria afortunado se eu deixasse aquele cão
para fora e nunca retornasse. É o epítome da feiura patética, se você me
desculpar por eu falar assim. É uma afronta para qualquer amante da
beleza.
— Mas ele tem um grande nome, — Percy disse, — e está fazendo
seu melhor mortal para viver de acordo com isso. Qualquer um com o
nome de Aquiles seria melhor assistir seus calcanhares.
E ele saiu fora para obter seu casaco e chapéu, enquanto Hector veio
trotando após ele.
Sidney tinha expressado seus pensamentos no início da tarde. —
201
Você e a viúva alegre, estão ficando, então, Perce? — Ele havia dito. —
Ela é bastante bonita, por Jove. Mas um pouco mais formidável do que o
seu costume, talvez?
— E a que alegre viúva você se refere? — perguntou Percy. Mas
tinha sido uma retorta fraca, ele tinha que admitir até mesmo para si
mesmo, embora o tivesse acompanhado por seu monóculo.
— Ela perdeu a aquisição da outra metade do título quando seu
marido foi morto, não é? — Arnold tinha acrescentado. — Cuidado,
Perce. Ela pode ter desejo na outra metade, casando com o novo conde
de Hardford.
— Você pode no entanto, — Percy disse agradavelmente, seu
monóculo quase todo o caminho a seu olho, — ir para o inferno com
minha bênção. E vocês dois desistirão de colar o nome da senhora sobre
isso quando ela vive em minha terra em uma casa que eu possuo e,
portanto, merece respeito de qualquer hóspede meu.
— Ele está no seu cavalo alto, Sid — disse Arnold. — Não se usa a
frase desistir do discurso ordinário. E nós mencionamos o nome de
qualquer senhora, Perce?
— Alguma coisa lhe confundiu o cérebro, Arnie — acrescentou
Sidney. — Ninguém consagra alguém ao inferno com as maldições de
alguém, não a bênção de alguém, não é? Uma contradição em termos,
Perce, velho. Acredito que seja Percy e a alegre viúva, Arnie.
— Acredito que tem razão, Sid — disse Arnold. — Um item
definido.
Percy os havia relegado ao diabo de novo - com sua bênção - e
mudou de assunto.
Era muita esperança, pensou Percy enquanto caminhava pelo
caminho até a casa da viúva - era uma noite escura e diabólica, mas não
voltaria para uma lanterna - que não haveria conversa entre seus parentes
como já havia com seus dois amigos. Eles não eram um lote não
inteligente, e as fêmeas entre eles podiam cheirar um potencial romance
de quinhentas milhas de distância. No entanto, os homens ficariam
calados, dariam ou tomariam um pouco de nervuras de bom humor
202
quando não houvesse nenhuma dama dentro da distância auditiva. E as
senhoras só pensariam em termos de namoro e casamento. Se ele não era
cuidadoso, estariam planejando seu casamento mesmo antes que
tivessem terminado com sua festa de aniversário.
Só esperava que não houvesse mexericos entre os vizinhos. Não
importaria para ele – ele partiria em breve. Mas ela continuaria vivendo
aqui. Ele não acreditava que haveria fofoca, no entanto. Ele tinha sido
cuidadoso esta noite para não ignorá-la – que em si poderia ter parecido
suspeito – mas não para isolá-la para qualquer atenção em particular. Ele
tinha vadiado com ela na assembleia, mas isso tinha sido quase duas
semanas atrás.
Ele passara a metade da noite tentando ignorar o fato de que Wenzel
raramente deixara seu lado durante toda a noite, mesmo que estivessem
em equipes opostas para charadas, e a outra metade notando que Alton
também tinha um olho para ela. O fato de que ele percebeu que isso era
suficiente para fazer um homem pegar os dentes.
Havia ainda uma luz na janela da sala de estar. Esta noite ele não
tentou fechar o portão silenciosamente. Nem ele segurou a aldrava
suspensa acima da porta por vários segundos antes de deixá-la cair. E
esta noite ele estava preparado para a porta abrindo rapidamente. Ela
ainda estava vestida como tinha estado para o entretenimento da
noite. Suas bochechas estavam ruborizadas, seus olhos brilhantes. Passou
por cima da soleira enquanto Hector passava trotando até a sala de estar,
tirava a lâmpada de sua mão e colocava-a na cadeira onde deixara sua
roupa ao ar livre na noite passada, a tomou em seus braços sem primeiro
fechar a porta e a beijou.
Sentia-se como um homem que voltasse para sua mulher depois de
um dia de trabalho árduo – um pensamento levemente alarmante.
— Não se case nunca com Wenzel ou Alton — ouviu-se dizer
quando tentou respirar. — Prometa.
Seria uma coisa boa se, às vezes, pensasse antes no que estava
prestes a dizer.
Ela ergueu as sobrancelhas e passou por ele para fechar a porta. —

203
Você veio tomar uma xícara de chá, não é, lorde Hardford? — perguntou
ela.

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VtÑ•àâÄÉ DJ

Imogen sentia-se abalada. Depois de fechar a porta, ele voltou a


segurá-la nos braços. Ele estava rindo.
— Pretendo ser um amante ciumento, possessivo, ditatorial,
completamente desagradável, a quem nenhuma mulher poderia resistir
— ele disse antes de beijá-la novamente.
E em vez de ficar brava ou indignada, ou qualquer outra coisa que
deveria ter sido – pois ele tinha sido pelo menos meio sério quando lhe
dissera que nunca se casaria com o Sr. Wenzel ou o Sr. Alton – ela também
rira.
— Ah — ela tinha dito com um suspiro exagerado, batendo cílios,
— apenas meu tipo de homem. Magistral.
E eles tinham vindo direto para a cama – depois que ele tinha ido
para a sala de estar para colocar a guarda sobre o fogo, para a decepção
provável de Blossom e Hector, e depois tomou a lâmpada da cadeira ao
lado da porta, entregou a ela, e colocou seu casaco e chapéu lá em seu
lugar.
Não muito tempo depois, ela percebeu que ela nem sabia onde
estavam todas as suas roupas. Eles estavam dentro de seu quarto em
algum lugar, mas nenhuma roupa tinha encontrado o caminho para a
cadeira perto da janela ou para o banco antes da penteadeira. Suspeitava
que estivessem espalhadas por todo o chão ficando horrivelmente
enrugadas.
Eles estavam deitados na cama agora, fazendo amor duas vezes em
rápida sucessão, com grande vigor ambas as vezes. A lâmpada estava

204
sobre a penteadeira, o brilho dobrado pelo reflexo no espelho. Os
cobertores estavam sobre eles para mantê-los quentes contra o frio da
noite, embora ela tinha acendido um fogo aqui depois de chegar em casa
mais cedo. Ela não conseguia se lembrar de como as cobertas tinham
chegado aqui do pé da cama, onde haviam sido chutadas enquanto
estavam ocupadas demais para pensar em estar frio, mas ela estava
agradecida de que fossem. Ele estava esparramado meio sobre ela, seu
rosto contra seu peito, um braço arremessado em torno de sua cintura,
sua mão em seu braço, uma perna aninhada entre a dela. Seu cabelo fez
cócegas em seu queixo. Ela alisou seus dedos. Era quente, espesso e suave
ao toque. Ele estava dormindo, exalando o hálito quente entre seus seios,
e ela pensou que não havia nada mais agradável do que um homem em
toda a vulnerabilidade indefesa do sono.
Ela não estava nem perto de dormir, embora seu corpo fosse saciado
e lânguido. Ela também se sentia abalada – por sua própria terrível
ignorância. Por ter um caso com um homem atraente não era apenas uma
coisa física. Não era nem sequer uma coisa mental – era com a sua mente
que ela tomara a decisão de permitir-se esta curta pausa de sua vida. Ela
estava achando que era também uma coisa das emoções. Na verdade,
parecia-lhe agora que devia ser principalmente das emoções. Seu corpo
se recuperaria da privação que se seguiria ao fim do caso. Assim como
sua mente, com um pouco de disciplina – ela era boa em disciplina
mental. Passara três anos aprimorando as habilidades necessárias e os
cinco anos desde que as praticava constantemente.
Mas suas emoções? Como seriam nos meses e talvez anos à
frente? Quanto tempo levaria para recuperar seu equilíbrio e
tranquilidade? Será que ela faria isso? Pois corpo, mente e emoções não eram
coisas separadas. Eram de algum modo todos interligados, e se um dos
três dominava, era provavelmente a emoção. Ela não tinha tido isso em
conta quando ela fez dele seu amante.
Amante.
Mas ela não estava apaixonada por ele. Ela gostava dele. Ela gostava
de estar na cama com ele, e isso era um eufemismo. Nenhuma dessas
coisas era estar apaixonada. Mas então ela não sabia como se sentia no
amor. Ela nunca sentiu esse tipo de euforia romântica com Dicky, aquela
205
que é descrita em toda a grande poesia amorosa. Ela não precisava dsso
com ele. Ela o amava.
O que sentia, quando a pessoa estava apaixonada? Mas ela nunca
saberia. Pois mesmo que fosse possível para ela, ela nunca se permitiria
saber. Ela não tinha esse direito. Ela ia sofrer, ela sabia. Ela merecia.
Ele inalou profundamente e exalou em um longo suspiro de
contentamento. — Este é o melhor travesseiro sempre — disse ele.
Ela baixou o rosto em seu cabelo e beijou o topo de sua cabeça. —
Estou me sentindo desprovida de chá e conversa.
Quando ergueu o rosto, estava cheio de riso e contentamento sexual.
Ele se ergueu sobre um cotovelo e apoiou a cabeça em sua mão. Ele
arrastou as costas dos dedos da outra mão para um lado da mandíbula e
para cima do outro.
— Quando você era uma criança, você frequentemente desejava que
pudesse começar uma refeição com sobremesa e deixar a comida
principal para mais tarde? Ainda sou uma criança no coração, Imogen.
Ela virou a cabeça para beijar sua palma onde se uniu ao seu
pulso. — Mas duas ajudas de sobremesa? — Ela disse.
— Quando é especialmente delicioso, sim, de fato, e com o apetite
grande, saudável, sem remorso — disse ele. — Você tem um roupão
quente para vestir?
— Sim.
— Coloque-o — disse ele, — desça e coloque a chaleira para ferver.
Este sou eu sendo o amante ditatorial. Vou vestir-me e segui-la, em que
ponto eu vou me transformar no amante manso e acumular o fogo na sala
de estar e vir para carregar na bandeja de chá. Então vamos continuar a
beber e conversar. Não pode ser muito mais tarde do que duas da manhã.
Foi com uma curiosa mistura de alegria e inquietação que Imogen
desceu alguns minutos mais tarde, envolta calorosamente em sua
camisola e roupão velho, com uma lâmpada na mão – ele tinha acendido
uma vela para seu próprio uso. Havia algo maravilhosamente, e
perturbadoramente, doméstico sobre tudo isso. Ele ia acender o fogo para

206
ela? E levar a bandeja? E ficar para conversar – às duas da manhã?
Ele estava Louco.
Eles estavam loucos.
Ah, mas às vezes a insanidade parecia tão... libertadora.

******
Foram doze minutos passados, Percy podia ver do relógio da
lareira, talvez treze. O fogo ardia pela chaminé. Ele tomou uma xícara de
chá na mão com dois biscoitos salpicados de açúcar no pires. E ele estava
sentado a uma curta distância do fogo em uma metade do assento do
amor, o mais próximo possível do centro, assim como ela estava ao seu
lado. Este sofá acomodaria quatro pessoas em uma fileira se necessário,
especialmente se os dois médios estivessem abraçados, juntos, e a cabeça
deitada em seus ombros.
Quando ele tinha mencionado um roupão, ele esperava... bem, uma
camurça de renda e fitas. O dela era de veludo pesado e pelo menos um
milhão de anos de idade. Seu tecido estava usado quase surrado em
alguns lugares, notavelmente - e curiosamente - na região de seu traseiro.
Era pelo menos um tamanho demasiado grande e tinha crescido um
bocado disforme. Cobria cada centímetro dela do pescoço aos pulsos até
os tornozelos. Deveria fazer com que ela parecesse com o mais bela viúva,
especialmente quando combinado com um par de chinelos com certeza
meio milhão de anos de idade. Ela não tinha puxado o cabelo para cima
ou deixado para baixo. Ela tinha puxado envolta do pescoço e amarrado
ali com uma fina tira de fita.
Ela parecia deliciosamente linda – muito boa para a sobremesa. Ela
era toda a festa. Ele estava um pouco alarmado com o pensamento. Ela
não deve parecer apetitosa em tudo, especialmente quando comparada
com... Bem, com todas as outras mulheres. E o tipo de desempenho do
diabo que ele colocou no andar de cima em sua cama? Tomou-a duas
vezes, e tudo dentro de quinze minutos, o mais longo. Não, correção –
eles tinham um ao outro. Mas ele não tinha nenhuma queixa em tudo
sobre seu desempenho, embora não tivesse usado nenhuma artimanha
feminina para prolongar ou intensificar seu prazer. Ela tinha

207
acabado... Ido nisso.
Ele pegou um biscoito de seu pires e mordeu.
— Se você simplesmente for dormir no meu ombro — ele disse, —
eu ficarei chateado. É hora da conversa, Lady Barclay. Em que tópico você
deseja conversar? O tempo? Nossa própria saúde e de todos os outros
que conhecemos, quanto mais horripilante o detalhe melhor? Chapéus
ou sombrinhas? Caixas?
Hector tinha se aproximado enquanto falava e afundou em um dos
seus pés. O gato, que tinha estado confortavelmente disposto em sua
própria cama quando ele entrou na cozinha, tinha saltado para o espaço
vazio do outro lado do assento do amor e enrolado lá para se recuperar
dos esforços de caminhar todo o caminho até a sala.
— Oh, eu adoraria saber sobre as últimas modas em chapéus —
disse ela. — Abas grandes ou pequenas? Ostensivamente aparado ou
elegantemente desadornado? Palha ou feltro? Amarrado sob o queixo ou
empoleirado na cabeça para tentar o vento? Mas suponho que sendo um
homem, você não pode me dar as respostas que eu desejo.
— Hmm — disse ele. — E quanto a tabaco de rapé, então? Talvez eu
possa entender sobre eles.
— Mas, infelizmente, — ela disse, — eu não tenho o menor interesse
sobre caixas de rapé.
— Hmm. — Ele mastigou o resto do biscoito e franziu o cenho em
pensamentos. — monóculos?
— Estou prestes a quebrar em um ronco — disse ela.
— Hmm. — Ele pegou o outro biscoito. — Devemos então, Lady
Barclay, chegar à conclusão lamentável de que somos completamente
incompatíveis em tudo menos no sexo?
— Infelizmente — disse ela com um enorme suspiro – e depois
começou a rir.
Era um som de pura tolice, e o pensamento ocorreu-lhe com um
choque de alarme que ele poderia apenas, estar se apaixonando por essa
mulher – o que quer que o diabo fosse se apaixonar.
208
Ele a silenciou com a boca.
— Infelizmente, somos sexualmente compatíveis, você quis dizer?
— Ele perguntou.
— Você tem gosto doce. — Ela levantou um dedo, escovou o que ele
supôs era um cristal de açúcar do canto de sua boca, e colocou a junção
superior do dedo em sua boca.
A assanhada. Naquele momento, ela era pura cortesã flagrante, e ele
não tinha a certeza de que ela não soubesse disso. Seus olhos estavam
firmes sobre os dele.
— Doce? — Ele disse.
— Não era você depois de tudo. — Ela sorriu para ele. — Era o
açúcar do biscoito.
— Hmm — disse ele.
— Conte-me mais sobre sua infância — disse ela.
— Foi realmente muito chata e tranquila — ele assegurou, esticando
as pernas na sua frente e cruzou nos tornozelos. – Hector fez os ajustes
necessários. — A maior aventura, de longe, foi aquele episódio no
penhasco sobre o qual eu falei. Além disso, eu era um rapaz dócil e
obediente. Como eu poderia não ser? Fiquei constrangido pelo amor.
Meus pais me adoravam, assim como minha enfermeira, que, para meu
desgosto, ficou comigo até que eu fui para Oxford aos dezessete anos.
Meus tutores também, mesmo aquele que gostava de balançar sua
bengala para pontuar sua instrução e não hesitou em usá-la nas minhas
costas quando eu estava particularmente espesso sobre fornecer as
respostas certas para suas perguntas ou quando em um pedaço de escrita
eu anexado um plural a um sujeito singular ou algum tipo de indignação.
Ele me amava.
— Você odiava suas lições? — Ela perguntou.
— De jeito nenhum — ele disse a ela. — Eu era a mais rara de todas
as raças de menino – eu gostava de aprender, e eu também gostava de
agradar os adultos que cuidavam de mim. Você não me reconheceria
naqueles dias, Imogen.

209
— Você estava sozinho? — Ela perguntou.
— Oh, Senhor, não — ele disse. — Havia regimentos de parentes e
outros. Tias e tios em abundância e primos abundante. Eu não vi os
parentes com grande regularidade, mas quando eu fiz, tive um grande
tempo. Eu estava entre os primos mais velhos e sempre fui grande para
a minha idade – e eu era um menino. Eu, sem mérito, encontrei-me o líder
da matilha, e eu era esperado para levar os meus jovens para o mal. Até
os adultos esperavam isso. Eu quase sempre fazia o que era esperado de
mim. Mas era uma tragédia inocente – subir árvores proibidas, nadar em
lagos proibidos, atravessar poças enlameadas proibidas pela pura alegria
de nos deixarmos completamente sujos, escondidos nas sebes e pulando
em viajantes incautos, gritando como coisas dementes.
Sua cabeça estava virada em seu ombro e o lado de seu dedo
indicador acariciou levemente ao longo de sua mandíbula.
— Eu deveria ter sido mandado para a escola — disse ele.
— Você estava sozinho.
— Se eu estivesse, — ele disse, — eu não tenho certeza que eu
particularmente notei. Eu era tão terrivelmente inocente, no entanto.
Fiquei chocado com as unhas dos pés quando descobri que estudar era a
última coisa que um sujeito deveria fazer na universidade. A altura da
realização lá era beber com seus colegas bêbados sob a tabela e dormir
com cada garçonete em Oxford e em seus arredores. Bem, você sabe,
Imogen, você perguntou.
— Sobre sua infância — ela o lembrou. — E você adquiriu essas
realizações, não é?
— De jeito nenhum — ele disse. — Eu pensei que eu estava lá para
aprender, e foi isso que eu fiz. Não foi até o fim que de repente me ocorreu
que eu era um companheiro completamente estranho e completamente
fora de passo com o que era ser um cavalheiro em tudo. Eu era virgem
quando retornei de Oxford. E isso, minha senhora, é algo que eu não disse
a nenhuma outra alma viva. Estou descobrindo que é fatal conversar com
uma mulher depois das duas da manhã.
Foi embaraçoso, na verdade. O que o diabo tinha possuído para
210
divulgar esse detalhe particular de seu passado inglório? Uma virgem de
vinte anos, nada menos.
— Gostaria que você não tivesse me contado — disse ela. —
Preferiria me agarrar, pelo menos em parte, à minha impressão original
de você.
— Oh, agarre-se — ele disse. Ele tirou o braço dela e sentou-se para
beber o chá antes que ficasse muito frio. — Eu logo me tornei o homem
que você pensa de mim, Imogen – e você não sabe a metade dele. Esse
velho inocente que uma vez eu fui há muito se desvaneceu na história
antiga.
— Claro que não — disse ela. — Nós somos feitos de tudo o que
sempre fomos, Percy. É a alegria e a dor de nossa individualidade. Não
somos dois.
Ele colocou sua xícara e olhou para ela por cima do ombro. — O
mundo ficará muito feliz por haver apenas um de mim — disse ele.
— Mas você me disse muito mais do que o fato de que você ainda
era virgem com a idade de vinte ou mais — disse ela. — E é outra coisa
que provavelmente ninguém mais sabe. Sua imagem de si mesmo tem
sofrido um duro golpe durante os últimos dez anos. Sua vida tornou-se
desequilibrada, talvez porque os primeiros vinte anos foram a felicidade
quase completamente descontrolada e diligência e segurança. Vocês
foram afortunados e infelizes nisso, Percy. E agora você se sente inseguro
e um pouco sem valor e nem mesmo certeza de que você gosta de si
mesmo. Você precisa encontrar o equilíbrio, mas não sabe bem como.
Ele olhou para ela por vários momentos antes de se pôr de pé
abruptamente, desalojando o pobre Hector novamente enquanto se
movia. Ele ocupou-se cutucando o fogo e colocando mais brasas.
— Mas muitos de nós nunca sabem muito bem — ela continuou
calmamente para o silêncio, e ele teve a sensação de que ela estava
falando mais para si mesma do que para ele. — A vida é composta de
pares opostos – vida e morte, amor e ódio, felicidade e miséria, luz e
escuridão, e sobre o infinito. Encontrar equilíbrio e contentamento é como
tentar caminhar numa corda bamba entre todos os opostos sem cair de

211
um lado ou do outro e acreditar que a vida deve ser toda luz ou toda
escuridão, quando nem é um a verdade em si mesmo.
Bom Deus! O que acontecia com as conversas tardias e noturnas?
— Você e eu — disse ele, virando-se completamente para encará-
la. — Outro par de opostos.
O gato estava em seu colo. Ela estava acariciando suas costas e
orelhas, e estava ronronando, seus olhos fechados em êxtase. Ele estava
com inveja.
— Eu imploro seu perdão — ela disse. — Como presunçoso de
minha parte tentar analisar sua vida e pregar em você.
Ele pôs um pé na lareira e descansou um braço ao longo da lareira. O
que havia com ela? Seu cabelo foi alisado de volta tão severamente de seu
rosto que quase fez seus olhos inclinados. Seu vestido sem forma estava
preso na cintura como um saco. Ela tinha acabado de arengá-lo como uma
governanta certinha. E ele a queria mais do que jamais desejara qualquer
outra mulher.
Ela nem sequer era particularmente feminina – não em babados e
em um pêlo em pó, perfumado e inchado. Ela não era cativante e de olhos
grandes e adorável com uma cabeça cheia de pelúcia.
Diabo, percebeu que estava descrevendo o tipo de mulher cuja cama
ele geralmente procurava?
Ela era... Qual era a palavra que Sidney usara antes – ou ontem, para
ser preciso? Formidável. Era isso. Ela era formidável. Esse fato deve
repeli-lo. Em vez disso, atraiu. Ah, outro par de opostos – atração e
repulsão.
— Você e eu — ele disse de novo. — Mas não houve equilíbrio esta
noite, Imogen. Foi tudo para mim, como é certo para um amante
masculino dominador.
Ela sorriu para ele – e a desconfortável suspeita cresceu novamente
que ele estava se apaixonando por ela. Algo desconhecido estava
acontecendo com ele, de qualquer maneira, algo que estava atacando seu
intestino. E não era apenas o desejo de levá-la para a cama e ter seu

212
caminho com ela até que ambos estivessem ofegantes de exaustão. Era o
que ficava além do desejo sexual que não era familiar e não identificado
– a menos que estivesse sendo apaixonado. Ele esperava que não.
Ela nunca deveria sorrir.
Ela deve sempre sorrir.
Sentia-se como se estivesse em sua escala equilibrada de opostos.
— Sim, mestre e senhor — disse ela.
Ele apontou um dedo diretamente para ela.
— Na próxima, será a sua vez — disse ele. — Você me desnudou,
Imogen, e eu não quero dizer apenas acima das escadas em seu quarto de
dormir. Vou retirá-la na próxima vez - e não quero dizer apenas te
resgatar no seu quarto de dormir.
Ele sorriu para ela mesmo quando seu próprio sorriso desapareceu.
— Mas não esta noite — disse ele. — Tenho um criado a
considerar. Não importa o que eu diga a ele, ele insistirá em esperar por
mim. Ele está sentado no meu camarim neste exato momento, sem fogo,
sem luz, como paciência em um monumento. É hora de eu ir para casa.
Ela levantou o gato suavemente do colo e colocou-o ao lado dela - o
animal agradeceu com um miado indignado. E ela se levantou e escovou
os pelos de gato do antigo veludo de seu roupão e olhou para ele.
Ele fechou a distância entre eles e a beijou, seus braços em volta
dela. Não havia desejo, porém, de levá-la de volta para a cama, e isso em
si era um pouco irritante. Havia apenas o calor de abraçar uma mulher
com quem ele estava se tornando cada vez mais confortável em estar
junto, mesmo se ela arengasse com ele, quando pudesse levá-lo sozinho
às duas da manhã.
Ela o seguiu em seu caminho, segurando a lâmpada no alto com
uma mão para iluminar o caminho para o portão e apertando seu roupão
de banho em sua garganta com a outra. Ele olhou para trás depois de
fechar o portão atrás dele e tentou convencer-se de que ela não
apresentava a visão mais atraente que ele já tinha visto em sua vida.
Quanto mais cedo ele saísse daqui depois dessa baile infernal, pensou ele,
213
melhor seria para sua paz de espírito. Ele tocou a aba do chapéu com uma
mão enluvada e se virou.

VtÑ•àâÄÉ
VtÑ•àâÄÉ DK

As senhoras tinham tomado posse da biblioteca e do salão de baile


novamente. Imogen, Beth e Meredith, na última observação, estavam
escrevendo convites. Um casal de tios tinha ido embora com Knorr para
ver como parte da parede do parque foi reconstruída sem
argamassa. Leonard e Gregory tinham andado a Porthmare com Alma e
Eva para entregar alguns convites e visitar alguns novos conhecidos. O
tio Roderick e Cyril tinham levado Geoffrey para a praia novamente.
Percy estava andando ao longo do topo do vale com Sidney e
Arnold.
— Se eu fosse você, Perce — Arnold estava dizendo — eu me faria
de cego. Você diz que nada específico aconteceu desde que você chegou
aqui para obrigar você a agir.
— Além de uma cama encharcada, um assoalho de fuligem
completo com pássaro morto e fuligem, e uma cortina de janela projetada
para manter fora a luz mesmo do sol no dia de verão, não — admitiu
Percy. — Nada do que eu saiba.
— Você vai embora daqui em breve, Perce — disse Sidney. — E eu
duvido que você volte logo. Não há muito aqui para você, não é? Além
da viúva, é claro.
Isso atraiu Percy para baixo – e seu cavalo também. — A viúva? —
Ele perguntou, sua voz fria.
A montaria de Arnold percorreu-a enquanto ele a controlava. Ele
estava sorrindo. — O último de nós cambaleou para a cama pouco antes
das três na noite passada — disse ele. — Um de seus tios comentou que

214
você era mais sábio do que o resto de nós e deve ter levado para a cama
depois de andar com o cão. Sid e eu demos uma olhada no seu
quarto. Fogo crepitante, camisa de dormir espalhada sobre uma cadeira
em frente do fogo, cobertores de cama virados nitidamente para baixo,
nenhum Percy.
E a coisa era, Percy pensou enquanto contemplava arrastando os
dois homens de seus cavalos e batendo as cabeças juntas, que esperavam
que ele sorrisse, confessasse seu paradeiro naquela hora ímpia, e fizesse
algum vangloriar-se sobre sua nova conquista. Eles tinham todos os
motivos para esperar. Era o que ele faria normalmente. O que foi tão
diferente desta vez?
Será que ele estava diferente? Que ele tinha mudado, ou, uma vez
que uma mudança de caráter não aconteceu da noite para o dia ou mesmo
mais de uma centena de noites, será que ele estava mudando? Diabo, ele
precisava sair desse lugar.
Ele olhou para o vale, verdejante, o rio fluindo através dele, e mais
distante para a aldeia em volta do mar.
— Vou partir em breve — disse ele. — E eu duvido que eu voltarei. É
o último remanso.
E, no entanto, sentia-se desleal, sendo desleal a Lady Lavínia, aos
Quentins e Alton e até mesmo a Wenzel, ao vigário, ao médico e às
senhoras Kramer e aos robustos pescadores. E havia Baines com suas
pernas tortas e espírito quebrado, e Crutchley, que poderia ter algum
envolvimento voluntário com o contrabando ou que apenas poderia ser
vítima de intimidação. Havia aquela meia adega abaixo de sua casa que
poderia estar recheada com contrabando ou aguardando um novo
carregamento. Houvia... Imogen.
Há quanto tempo ele estava aqui? Duas semanas? Três? Não era
tempo. Um simples piscar de olhos. Ele esqueceria tudo em outro piscar
de olhos uma vez que estivesse longe daqui.
Ele a esqueceria.
Eles continuaram seu passeio.
Não se lembrava de lamentar nenhuma das ligações que tinha tido
215
com as mulheres. Ele tinha acabado com a maioria delas, mas nunca
porque tinha se arrependido de iniciá-los. Gostava de ter negócios. Eram
um prazer mútuo, sem compromisso e sem responsabilidades.
Ele já lamentava o que tinha começado com Imogen.
Ele a esqueceria, no entanto. Ela estava partindo daqui alguns dias
depois desta bale infernal. Ele iria embora antes que ela retornasse.
Foi simplesmente estúpido ele ter se apaixonado. Ele presumiu que
foi o que tinha acontecido com ele. Certamente ele não poderia explicar
seus sentimentos de outra maneira. Ele não gostava de ficar apaixonado
nem um pouco.
— Ele não quer falar sobre a viúva, Arnie — disse Sidney.
— Cheguei à mesma conclusão, Sid — concordou Arnold. — Mas
eu ignoraria o contrabando se eu fosse você, Perce. Todo mundo faz
isso. Você não vai parar de qualquer maneira. Aqueles homens da renda
nunca podem. E você deve admitir, eles são um lote sem humor. É um
prazer vê-los enganados.
— E você deve admitir, Perce — acrescentou Sidney — que o brandy
que entra no campo rural pela porta dos fundos, por assim dizer, sempre
parece ter um gosto melhor do que o material legal. Sem contar que custa
muito menos também.
O mundo inteiro estava de acordo, ao que parece, que era melhor
ignorar o que estava acontecendo sob o nariz de todos. Quem era ele para
se tornar um intrometido? Jamais lhe ocorreu ser um até chegar aqui. Ter
uma consciência e agir sobre isso o fez parecer desconfiado como o seu
antigo egoísmo fora de sintonia e fora do passo com todo o resto do
mundo. Um estraga prazeres. Um pobre esportista. Um idiota.
— Muito bem — disse ele. — Supõe-se que existam algumas antigas
minas de estanho lá do outro lado do vale. Vou descobrir exatamente
onde e levantar uma festa para ir explorar um dia.
E a conversa afastou-se tanto do contrabando como de seu caso.

******
No final da manhã, todos os convites tinham sido escritos. Imogen
216
permitiu que seus espíritos fossem seduzidos por um senso de família
quando as senhoras mais velhas entraram e saíram da biblioteca e os mais
novos conversaram entre convites.
A Sra. Hayes, sua irmã e cunhada muitas vezes tinham alguns
desentendimentos, alguns deles bastante aquecidos. Mas elas nunca
pareciam guardar rancor, e de alguma forma sempre encontraram um
compromisso sobre um plano disputado para o grande partido. Os
primos jovens também, ela tinha notado em ocasiões anteriores,
frequentemente brigavam entre si, mas sempre acabavam rindo ou
gargalhando. As gêmeas às vezes evitavam a irmã mais velha de forma
deliberada, mas uma vez que ela as viu sentadas a cada lado dela no
pianoforte enquanto ela escolhia uma melodia, cada uma com um braço
sobre seus ombros. O irmão da Sra. Hayes parecia preferir a companhia
de sua filha e de seu neto à de qualquer outra pessoa, mas era
perfeitamente amável quando estava em companhia, e convidara mesmo
o Sr. Cyril Eldridge, que não era parente de sangue, para andar na praia
com ele e o menino esta manhã. Os outros dois cavalheiros mais velhos
discutiam frequentemente assuntos atuais uns com os outros e cresciam
bastante acalorados em seus desentendimentos, mas também pareciam
finalmente satisfeitos em concordar em discordar.
De repente Imogen sentiu saudades de seu irmão e de sua mãe no
distante Cumberland. Família – esse profundo sentido de conexão, em
oposição a uma mera observação e escrita de cartas – era algo que ela
havia desistido, de tudo o mais, há cinco anos. Ela não tinha direito ao
calor e ao conforto que proporcionava – nem às brigas e às risadas.
Ela sentiu um pouco como se o seu coração estivesse congelado por
um longo tempo e agora estava gradualmente descongelando. Ela não
podia permitir que isso acontecesse completamente, é claro, mas durante
a próxima semana e meia ela talvez se permitisse relaxar um pouco. Ela
iria se recompor quando estivesse em Penderris, cercada por seus amigos
companheiros sobreviventes. Ela pediria ajuda deles caso precisasse,
embora apenas uma consciência de seu amor e apoio provavelmente seria
suficiente. Ela faria isso, no entanto. Ela nunca tinha estado tão carente
de força de vontade. Mas, nesse meio tempo, ela agora se permitiria
algum prazer. Parecia uma idade longa – outra vida – desde que ela tinha

217
se divertido pela última vez.
Se ao menos tivesse conseguido ter uma ou duas crianças com
Dicky, pensou enquanto saía da casa principal para voltar a sua casa e
puxava seu manto mais perto contra o frio de um dia mais frio. Geoffrey
estava atravessando o gramado, uma mão em seu avô, a outra em Mr.
Eldridge, e ela podia ouvir o canto de suas três vozes, "um, dois, três,
pula." Os dois homens levantaram a criança gritando alto entre eles na
última palavra.
Imogen nem sempre lamentava sua esterilidade. Qual era o
ponto? E teria mudado tudo se ela tivesse sido fértil. Ela não estaria aqui
agora, sorrindo melancólica para uma criança que não tinha nascido
mesmo quando Dicky morreu. Quem sabia o que ela estaria fazendo? Foi
tolice até pensar nisso.
Percy se aproximava dos estábulos com seus dois amigos e Hector
brincando ao lado deles – sim, realmente brincando. A criança, vendo-os,
abandonou os outros dois cavalheiros e saiu correndo para ser levantada,
girando e depositando-se sobre os ombros de Percy. Uma explosão de
riso e um grito agudo e alegria seguiu quando o chapéu alto de Percy foi
batido fora e insistiu em dobrar-se para recuperá-lo ele mesmo,
deliberadamente quase derramando o menino sobre sua cabeça enquanto
ele assim fazia.
Houve uma troca geral de cortesias enquanto todos se
aproximavam da casa.
— Os convites estão todos escritos, então, Lady Barclay? —
perguntou o Sr. Galliard.
— Eles estão, — ela disse a ele. — Estamos todos de acordo que não
podemos esperar muito o tipo de tristeza pelo curto período de tempo
que poderíamos ter esperado se este fosse um baile de Londres durante
a temporada que estávamos planejando, mas o salão de baile deve ser
preenchido com bastante credibilidade.
— Boa sorte, velho — disse Welby, batendo no ombro de Percy e
levantando Geoffrey para brincar com Hector.
— Deve-se sempre olhar para o lado positivo — disse Percy. —
218
Quão reduzido seria se eu pudesse esperar nada mais do que meus
próprios familiares e dois amigos já reunidos aqui, amontoados em um
canto do salão de baile fingindo desfrutar da minha festa de aniversário
atrasada. Não tenho a menor certeza de que é uma boa ideia deixar Heck
te lamber, Geoff, meu rapaz.
— Você está no caminho de casa, Lady Barclay? — Perguntou o
visconde Marwood. — Permita-me acompanhá-la, senhora. — E ofereceu
seu braço junto com o que parecia um sorriso travesso.
— E como você tem dois braços, senhora — disse Welby, inclinando-
se para ela com um gesto cortês — deixe-me acompanhá-la também.
Imogen riu e mergulhou em uma profunda reverência. — Ora,
obrigada, senhores — disse ela, tomando um braço de cada um. — Eu fui
advertida ontem que pode haver lobos.
— Plural — disse Percy. — Pelo menos três deles, ou assim me
disseram. É melhor eu ir também.
E eles partiram, os quatro, atravessando o gramado na direção da
casa da viúva, com uma continuação da brincadeira boba e estúpida – na
qual Imogen se juntou. Ela se viu quase desejando que alguém sugerisse
o jogo de um-dois-três-saltos. E então, quando chegaram à sua casa, Percy
abriu o portão com um floreio, ela entrou, ele fechou-o, e os homens se
revezaram, os estúpidos tolos, levantando a parte de trás de sua mão para
seus lábios e garantindo-lhe que ela tinha iluminado o seu dia e fez o fato
do sol oculto bastante irrelevante.
Ela estava parada no portão, observando-os irem andando a pé,
Hector trotando atrás. Eles ainda estavam conversando, ainda rindo, e ela
percebeu que estava sorrindo – e percebeu também que era um
sentimento estranho. E então ela estava piscando as lágrimas – mais uma
vez. Outro sentimento estranho. Percy virou a cabeça brevemente antes
de desaparecer de vista atrás de uma árvore e sorriu para ela. E ela ainda
estava sorrindo, apesar das lágrimas.
Oh, bondade, oh, bondade – ela estava tão profundamente
apaixonada por ele. E era tudo culpa dela. Não tinha ninguém a quem
culpar senão a si mesma.

219
******
— Você tem a minha permissão — disse ela — para usar a minha
chave à noite – para entrar e sair. Então não terei que esperar, querendo
saber se você está vindo ou não, pois nem sempre poderá vir, não é?
Ele a apoiou contra a parede do corredor e beijou sua boca aberta.
Estava mais perto das doze e meia do que da meia-noite. Ele esperava
encontrar a casa da viúva na escuridão e não sabia se iria bater na porta
de qualquer maneira. Sua chave estava queimando um buraco no bolso.
— Desculpe-me — disse ele. — Eu não pude fugir mais cedo. Nós
tivemos um visitante.
— Eu sei — disse ela. — Sr. Wenzel, não foi? Ele trouxe Tilly e
Elizabeth Quentin e foi para o salão em vez de voltar para casa e voltar
para pegá-las depois. Mas estou feliz por você ter vindo.
— Eu também. — Ele esfregou seu nariz sobre o dela.
Ela estava usando seu antigo fóssil de roupão outra vez, e ele ficou
maravilhado com o fato de que ela não tinha se enfeitado para seu
amante, como todas as outras mulheres com quem ele tinha sido íntimo
sempre tinha feito. Seu cabelo estava amarrado no pescoço novamente,
embora estivesse coberto frouxamente sobre suas orelhas e costas nesta
noite. Seus lábios estavam ligeiramente entreabertos, o superior com seu
elevador atraente. Seus olhos estavam... abertos. Ele ainda não tinha
pensado em uma palavra melhor do que isso. Suas mãos estavam
descansando em seus ombros, empurrando sob as capas de seu casaco.
Deus, mas eu te amo. Ele a olhou nos olhos, congelada por um
momento. Ele não falara em voz alta, não é? Mas ele não ouviu nenhum
eco das palavras e não viu nenhum choque em seu rosto.
— Você está me convidando para entrar? — Ele perguntou.
— Você ainda não entrou? Mas para onde você quer ir? Andar de
cima? Sala de estar?
Devia ter sido óbvio. Era quase meia-noite e eram novos amantes.
— A sala de estar — disse ele. — Mas sem chá, obrigado. Eu tenho
bebido bastante chá desde a chegada de minha família. Até mesmo o
220
pobre Wenzel foi convidado duas vezes esta noite.
Ela pegou a lâmpada para que ele pudesse colocar suas coisas livre
na cadeira e abriu o caminho para a sala de estar. Ele estava louco? Ou
senil? Era o meio da noite, havia uma cama grande e confortável no andar
de cima, ela estava disposta a recebê-lo em cima dela e para ela, ela
parecia tão deliciosa quanto o bolo e a crosta gelada e o creme de recheio,
tudo em um apesar do fato de que ela não tinha se enfeitado ou talvez
por causa disso – e ele tinha escolhido a sala de estar em vez disso?
— Estou surpresa que ele não ficou aqui em vez de ir nos visitar —
disse ele.
— Sr. Wenzel? Com Tilly e Elizabeth, você quer dizer? — Ela
perguntou. — Ele nunca fica. Nem Sir Matthew quando é a sua vez de
trazê-las. Nós gostamos de discutir nossos livros só mulheres.
— Um clube de leitura? — ele disse.
— Nos reunindo mensalmente nos últimos três anos — explicou ela
enquanto pousava a lâmpada na chaminé e pegou o taco. Mas já estava
em sua mão, e ela se sentou no assento do amor enquanto ele agitou as
brasas e colocou mais alguns. Os animais haviam se instalado perto do
calor confortavelmente. — Lemos o mesmo livro ou conjunto de poemas
ou ensaios e depois discutimos com chá e biscoitos ou bolo. Nós
desfrutamos em uma noite do mês.
— E o que foi esta noite? — Ele perguntou enquanto se endireitava.
— Apenas um poema, embora um longo — ela disse. — As linhas
de William Wordsworth escritas algumas milhas acima da abadia de
Tintern. – Você leu isso? Um dos meus amigos, um dos meus
companheiros Sobreviventes, vive no País de Gales, embora sua casa
fique no lado ocidental do que em vez do vale Wye, no leste. Eu fui lá
com George no ano passado para o seu casamento.
— George? — Isso não era ciúme queimando nele, não era?
— Duque de Stanbrook, dono do Penderris Hall — explicou ela. —
Uma espécie de primo, apesar de um relacionamento mais próximo do
que o seu e o meu. Ele é outro dos Sobreviventes.

221
— Aquele cuja esposa saltou de um penhasco?
— Sim — disse ela.
Desejou não se lembrar desse detalhe em particular. O homem
também tinha perdido um filho para as guerras e deve ser tão velho
quanto as colinas. Percy tentou lembrá-lo da Câmara dos Lordes, mas
sem sucesso. Talvez o reconhecesse se o visse.
Ele olhou para a cadeira vazia ao lado do fogo e foi sentar-se no
assento do amor. Ele se virou e a pegou e colocou-a em seu colo com os
pés no assento ao lado deles. Ela estava no lado alto, mas ela se contorceu
para baixo – o céu o ajudou – até que ela estivesse aconchegada contra
ele, o lado de sua cabeça em seu ombro. Ela inalou audivelmente.
— Eu amo o jeito que você cheira — ela disse. — É sempre o mesmo.
— Misturado liberalmente com suor em duas ocasiões recentes —
disse ele.
— Sim. — Ela riu suavemente.
— E eu adoro o som do seu riso — disse ele. E se ele a tivesse
conhecido pela primeira vez hoje, ele percebeu, ou mesmo ontem, nem
sequer teria pensado nela como a dama de mármore. Ele se perguntou se
ela estava se apaixonando por ele, ou se era apenas o sexo.
Mas não era só o sexo, não era? Se fosse, então eles estariam lá em
cima agora, nus, indo para a cama. Por um momento, sentiu-se quase
tonto alarmado. Isso era o que deveriam estar fazendo.
— Eu não sou muito dada a rir — disse ela.
— É isso, — disse ele, — é por isso que sua risada é tão preciosa.
Não, corrigindo o que eu disse: seria tão precioso se você risse com
frequência. Você costumava rir?
Ela inalou e exalou, mas ela não tinha ficado tensa, ele notou.
— Em outros tempos — disse ela. — Eu gosto de seus amigos.
— Eles não têm duas células cerebrais entre eles para esfregar juntos
— disse carinhosamente.

222
— Ah, mas é claro que sim, — disse ela. — Eu poderia ter dito isso
de você se eu tivesse visto você apenas com eles. Às vezes precisamos de
amigos com quem podemos simplesmente ser bobos. A tolice pode
ser... cura.
— Você é sempre boba com seus amigos? — Ele perguntou a ela.
— Sim, às vezes. — Ele podia senti-la sorrindo contra o lado de seu
pescoço. — A amizade é uma coisa muito, muito preciosa, Percy.
— Somos amigos? — Agora, de onde o diabo tinha essa pergunta
infantil vindo? Sentia-se tolo.
Ela levantou a cabeça e olhou em seu rosto. Ela não estava sorrindo.
— Oh, eu acredito que nós poderíamos ser. — Ela soou quase
surpresa. — Mas não vamos ser. Não nos conheceremos o suficiente. Será
suficiente que sejamos amantes, não é? Apenas por um breve período. É
tudo o que queremos. Não vou tentar me agarrar a você quando tudo
terminar, e essa é uma promessa muito firme.
Ele sentiu como se alguém tivesse deixado cair um iceberg muito
grande na chaminé e apagou o fogo e toda a memória dele.
Sim, isso era tudo o que qualquer um eles queria. Isso era tudo o
que ele queria – uma ligação sexual vigorosa e prazerosa enquanto ele
estava vivendo aqui em um deserto social.
Por que, então, eles estavam sentados em sua sala de estar?
Ele puxou a cabeça dela de volta para o ombro. — Você ficaria
surpresa ao saber, — ele disse, — que o contrabando ainda está ativo
nesta área? Mesmo nessa terra?
Houve um longo silêncio. — Eu não ficaria muito chocada, — disse
ela eventualmente, — embora eu não saiba nada disso.
— Nada do envolvimento de nenhum dos criados aqui? —
perguntou. — Ou se esse envolvimento é voluntário ou forçado? Nada
do uso da adega no salão para guardar o contrabando?
— Oh. — Ela fez uma pausa. — Definitivamente não é isso. Com tia
Lavínia e primo Adelaide na casa? É verdade?

223
— As portas internas e externas que conduzem à metade da adega
estão trancadas, e as duas chaves estão faltando, — disse ele. — Ninguém
está se esforçando para encontrá-las, pois aparentemente essa área foi
fechada para manter a umidade do resto da adega.
— Oh — ela disse de novo. — Pensei – esperava – que tudo tivesse
terminado com a morte do meu sogro e mesmo antes disso quando me
mudei para cá.
— Fui avisado — disse ele, — por todos com quem eu falei, para
deixar quieto, fechar os olhos, deixar os cães adormecerem e assim por
diante. O comércio vai continuar, me disseram, e ninguém está realmente
ferido por ele.
Ela ficou em silêncio. O que o diabo tinha induzido a ele a levantar
esse assunto de conversa para uma senhora, e em algo perto de uma da
manhã? Ele olhou para o relógio. Faltava cinco minutos.
— Quem é prejudicado por isso, Imogen?
— Colin Baines foi — disse ela.
— Sim.
— Ele era um rapaz tão esperto — ela disse. — Ele adorou Dicky. Ele
queria tanto vir para a Península conosco.
— Seu marido foi bastante contrário ao contrabando? — perguntou.
— Ele era — disse ela. — Mas ele não conseguiu convencer seu pai
de que havia algo muito errado. Na superfície não havia. Há uma
pequena perda de receita para o governo e um monte de gozo de bens de
luxo, especialmente brandy pelos cavalheiros, é claro. Mas eu acho que o
que vemos e sabemos é a melhor dica do iceberg, e o que não vemos é
feio e vicioso. Mesmo a ponta visível pode ser desagradável. Ele recebeu
ameaças antes de irmos embora.
— Baines?
— Não, Dicky — disse ela. — Havia duas cartas, uma ameaçando
sua vida, outra a minha. Elas foram escritas em uma mão infantil, quase
analfabeta, e seu pai riu delas. Mas Dicky já estava no processo de
comprar sua comissão. Nós nunca soubemos se as ameaças eram sérias
224
ou não.
Bom Deus. E se eles tivessem sido? E se eles tivessem sido realmente
sérios? Bom Deus.
— Oh, — ela disse, — eu tenho sdo tão covarde. Eu não sei nada
ultimamente porque eu escolhi não fazer perguntas e não olhar para fora
de minhas janelas tarde em noites escuras.
Ele levantou seu queixo com a mão que estava sobre seus ombros. —
Peço desculpas, Imogen — disse ele. — Eu imploro seu perdão por
levantar este tópico com você. Esqueça que eu fiz. Continue sem saber
nada. Promete-me? Prometa.
Ela assentiu depois de um momento. — Eu prometo — ela disse, e
ele a beijou.
— Estou me sentindo muito preguiçoso mesmo para subir com você
nesta noite, — disse ele, colocando sua cabeça contra uma almofada. —
Você já fez amor em um assento de amor? Parece um lugar lógico para
fazê-lo, não é?
— Não demoraria o suficiente — disse ela, — a menos que fôssemos
extremamente curtos.
— Quer que eu lhe mostre?
— Parece... desconfortável — ela disse, mas ela estava meio sorrindo
de volta para ele.
— De jeito nenhum — ele disse. — O que você está vestindo debaixo
do seu roupão e camisola?
— Nada. — Suas bochechas ficaram um pouco rosadas.
— Perfeito — disse ele. — Eu, por outro lado, preciso fazer alguns
ajustes. Eu mal podia deixar o salão principal vestido apenas em minha
camisola.
Ele a tirou do colo e a colocou ao lado dele enquanto desabotoava
os botões de sua cintura e baixava suas calças e separava as dobras de
suas ceroulas. E ele a pegou novamente, suas mãos passando por baixo
de suas roupas para tirá-las do caminho. Ela veio montada nele, apoiou-

225
se com seus joelhos, e colocou as mãos nos ombros dele, enquanto se
inclinava ligeiramente para trás e olhava para baixo. Ela assistiu – ambos
fizeram – enquanto ele se colocava dentro dela e a puxava para baixo com
as mãos nos quadris dela até que ele estivesse completamente embutido.
Seus músculos se apertaram lentamente sobre ele.
— Oh — ela disse.
Oh sim. Ele estava envolto em calor úmido e na agonia do desejo
pleno. Ele manteve um aperto firme em seus quadris e levantou-a
parcialmente longe dele de modo que ele pudesse trabalhar com firmeza
para cima. E ela o montou com um ritmo audacioso que combinava com
o dele, e ele queria que isso nunca terminasse, e ele precisava acabar com
isso agora, e ele continuaria para sempre porque era o sentimento mais
requintado do mundo e ela também sentia e eles devem terminar agora,
mas eles devem prolongar o prazer apenas um pouco mais.
Ele não sabia por quantos minutos eles fizeram amor. Ele não sabia
qual deles quebrou o ritmo primeiro. Isso não importava. Eles
terminaram juntos, e era como ... ah, aquele velho clichê, embora nunca
tivesse tido significado para ele antes, era como uma pequena morte.
Isso foi... requintado. Ele teria de inventar um vocabulário próprio,
uma vez que a língua inglesa era muitas vezes totalmente inadequada às
suas necessidades.
Enquando ele se acalmava aos poucos, ela estava relaxada sobre ele,
seus joelhos abraçando seus lados, sua cabeça em seu ombro, seu rosto
virado para longe do dele, e ela estava dormindo. Ele ainda estava
enterrado nela, ainda ligeiramente latejante. O gato estava no banco do
amor ao lado deles. Hector estava coberto por um de seus sapatos.
Nunca se sentira mais relaxado em sua vida, pensou Percy.
E nunca fora tão feliz. Ele estava muito relaxado até mesmo para
ficar alarmado com o pensamento.

226
VtÑ•àâÄÉ
VtÑ•àâÄÉ DL

— Todos os criados? — disse Paul Knorr. — Dentro e fora?


— O mordomo, o mordomo-chefe, o cozinheiro, o garoto, o
cavalariço, o jardineiro mais baixo e a mão estável, a empregada de Lady
Lavínia, as empregadas de cozinha — disse Percy. — Todos, exceto
aqueles trazidos pelos meus visitantes.
— A cozinheira certamente tem algo no forno às dez da manhã —
disse Knorr com um sorriso alegre. — E ela é uma tirana. Estremeço e
tremo.
— Se ela vier até você com um rolo, — disse Percy, — corra rápido.
— O Sr. Ratchett já se aventurou além do quarto do comissário? —
perguntou Knorr.
— Ele o fará hoje — disse Percy. — Você vai cuidar disso, Knorr, por
ser seu eu habitual profundamente deferente. Você faz isso muito bem.
Pode ir agora.
Knorr partiu para cumprir sua tarefa de reunir todos os que
trabalhavam dentro dos limites do parque, inclusive a governanta de
Imogen, até Watkins, Mimms e o cocheiro de Percy.
Todos se dispersaram depois do café da manhã, exceto a Sra. Ferby,
que guardava o fogo no salão. A mãe de Percy tinha ido com a tia Nora,
Lady Lavínia, e Imogen, o senhor sabia onde, fazer arranjos sobre flores
e música para a festa. Tia Edna, Beth e as gêmeas estavam no estábulo
com Geoffrey, olhando o gatinho. Meredith partiu no próprio cabriolé de
Percy, dirigido por Sidney, para visitar Miss Wenzel e seu irmão. Percy
achou que havia um pouco de atração mútua entre sua prima viúva e o
futuro pretendente de Imogen na noite passada. Arnold estava
explorando a caminhada do penhasco com o tio Ernest e seus dois
meninos – eles pretendiam dar uma olhada na aldeia de pescadores
também. Os tios Roderick e Ted haviam ido montados ao vale na direção
oposta. Todos foram contabilizados.
227
— Você vai ficar em casa envolvido com os negócios da fazenda,
Perce? — perguntou Arnie com uma expressão de incredulidade quando
Percy explicou por que não iria se juntar à caminhada ao penhasco. —
Isso é mais do que um pouco alarmante, devo dizer.
— Você vai ficar para conversar com o seu mordomo, Percy? — Tio
Ted tinha dito quando seu sobrinho recusou o pedido de ir andando. —
Estou impressionado, meu rapaz. Fazer trinta anos fez maravilhas para
você. Seu pai ficaria orgulhoso.
— Espero que sim — disse Percy, mansamente.
Ele tinha acertado cada nervo. Ele provavelmente estava prestes a
fazer totalmente a coisa errada. Mas por uma vez ele estava determinado
a fazer algo que precisasse fazer, mesmo que, como um idiota, ele devesse
ficar sozinho contra o mundo inteiro e mesmo que nada de qualquer
significado pudesse ser realizado. Mesmo que ele estivesse simplesmente
se inclinando para moinhos de vento.
Afinal, ele fora criado para ficar sozinho e sempre fazer o que
acreditava estar certo. Ele não tinha percebido isso completamente antes.
Ele não tinha ido para a escola, onde, em uma idade impressionável, ele
teria aprendido a se tornar como qualquer outro rapaz de sua classe
social. Ele havia permanecido em casa para ser educado e treinado – e
amado – por um número de adultos retos. Ele havia permanecido sob a
influência daquela educação durante seus anos universitários e tinha se
afastado de seus companheiros como um polegar dolorido enquanto
adquiria uma excelente educação em seu campo escolhido. Passara os
últimos dez anos repudiando mais ou menos seu passado e
compensando o tempo perdido – com interesse. Ele era agora como todos
os outros cavalheiros ociosos de sua geração, mas ainda mais.
Mas a educação nunca poderia ser completamente apagada. Se o seu
pudesse ser, ele o faria alegremente, pois talvez ele não estivesse sentindo
essa súbita insatisfação com sua vida, este ataque de consciência, esse
desejo de se intrometer.
Foi idiota. Era absurdo. Ele poderia - e provavelmente o faria - se
arrepender. Mas talvez fosse melhor agir de consciência e sentir pena do
que enterrar a cabeça na areia e se esquivar de sua própria vida, porque
228
não podia ser incomodado para vivê-la.
Alguém tinha organizado a equipe, Percy viu assim que ele entrou
no salão de visitantes raramente utilizado no piso térreo. Eles estavam de
pé à atenção rígida em tais linhas retas que alguém certamente tinha
usado uma régua longa. E eles foram organizados estritamente de acordo
com a classificação. Todos os olhos encarados. Percy se sentia um pouco
como um general prestes a inspecionar suas tropas, o duque de
Wellington, talvez.
— À vontade — ele disse, de pé apenas dentro da porta com as mãos
cruzadas atrás dele.
Houve um pequeno relaxamento de postura. Muito pequeno.
— Estou declarando a guerra — disse ele, e pelo menos vinte pares
de olhos giraram seu caminho embora as cabeças pertencentes aos olhos
não seguissem o exemplo — contra o contrabando.
Os olhos avançaram novamente. Cada rosto permanecia em branco.
Ratchett, Percy viu, estava tendo dificuldade em manter a coluna reta. Na
verdade, ele parecia um arco apenas esperando para ser amarrado.
— Sr. Knorr, — Percy disse, — você colocará uma cadeira para seu
superior, por favor. Pode sentar-se, Sr. Ratchett.
A cabeça do mordomo se virou e ele olhou para a orelha esquerda
de Percy, mas ele não fez nenhum protesto quando Paul Knorr colocou
uma cadeira atrás dele. Ele se sentou.
— Eu não estou pretendendo reunir um exército para sair numa luta
contra as forças do mal, você sem dúvida ficará aliviado de saber —
continuou Percy. — O que se passa além das fronteiras de minha própria
terra é, pelo menos por agora, não é minha preocupação. E estou ciente
de que seria preciso um exército muito grande para livrar a terra
inteiramente do contrabando. Mas terminará dentro das fronteiras do
que é meu. Isso inclui a casa, o parque e a fazenda, e até mesmo a praia
abaixo da minha terra, uma vez que a única rota de terra longe da praia
é o caminho até o penhasco e o outro lado do parque. Qualquer pessoa
que se opuser à minha decisão é bem-vinda para coletar o salário que lhe
é devido pelo Sr. Ratchett ou Sr. Knorr, sem qualquer penalidade, e partir
229
daqui com seus pertences. Todo aquele que permanecer será meu
empregado e viverá e trabalhará aqui de acordo com minhas regras, quer
ele esteja de serviço ou fora. Há alguma pergunta?
A pausa que se seguiu lembrou a Percy daquele no serviço nupcial
quando os membros da congregação são convidados a relatar qualquer
impedimento ao casamento do qual eles estavam cientes. Ele não
esperava que o silêncio fosse quebrado, e não foi.
— Se — disse ele, — há bens contrabandeados em qualquer lugar
na minha terra no momento – no porão desta casa, por exemplo – vou
permitir que dois dias, hoje e amanhã, para que sejam removidos. Depois
disso, não haverá mais, e espero que o Sr. Ratchett ou o Sr. Crutchley ou
a Sra. Attlee tenham as duas chaves da sala trancada do porão – do
interior e as chaves externas. Se eles permanecerem perdidas após os dois
dias, então as fechaduras serão forçadas e novas fechaduras instaladas –
e eu mesmo conservarei um conjunto das novas chaves.
Uma criada – a surda-muda – tinha a cabeça ligeiramente virada e
os olhos fixos nos lábios, percebeu Percy pela primeira vez. Ele passeou
pelo centro da fila, olhando primeiro de um lado e depois do
outro. Sentia-se mais marcial do que nunca.
— Qualquer um que receba represálias — disse ele, parando e
olhando fixamente para o rosto da mão do estábulo ao lado de Colin
Baines, um garoto de cabelos ruivos com sardas metade do tamanho de
uma moeda — falará ao Sr. Knorr ou a mim.
Isso foi um ponto complicado, na verdade. Qualquer um que
temesse como a gangue reagiria ao seu - ou a ela – a retirada do comércio
dificilmente faria uma queixa pública e atrairia mais atenção para ele –
ou para si mesma. Estariam todos em perigo de represálias? Era um risco
que ele tinha escolhido tomar.
— Falarei abertamente disso onde quer que eu vá nos próximos dias
— disse Percy, voltando ao seu lugar junto à porta e deixando seus olhos
se moverem de face a face ao longo das fileiras. Não havia absolutamente
nada a ser lido em qualquer um deles. — Eu vou ter certeza de que é
claramente entendido que esta é a minha regra e que todos empregos
daqui são obrigados a viver de acordo com essas regras ou perdem a sua
230
posição. Há alguma pergunta?
— Sr. Crutchley — disse ele quando ninguém falou, — você enviará
os criados sobre seus negócios, se você quiser. James Mawgan, vou vê-lo
na biblioteca assim que você for demitido.
O jardineiro virou sua cabeça em surpresa e tornou-se quase
instantaneamente em branco novamente.
A sala de manhã que parecia mais como uma biblioteca foi
desocupada por qualquer humano, Percy estava feliz em descobrir. No
entanto, foi ocupada pelos restos da casa de animais. O buldogue-Bruce?
– tinha reivindicado a lareira, e estava flanqueado por seus companheiros
habituais, dois dos gatos. O novo gato estava ao lado da escotilha de
carvão, limpando as patas com a língua. Hector estava ereto e alerta ao
lado da cadeira que Percy geralmente ocupava. Ele não estava nem
encolhendo nem se escondendo, um desenvolvimento interessante. Os
outros dois cães – o longo e o curto – tinham sido levados ontem para a
casa Kramer, onde aparentemente tinham recebido uma efusiva bem-
vindos e uma grande tigela de petiscos saborosos cada. Todos os gatinhos
de Fluff já haviam sido falados, embora eles não tivessem de deixar sua
mãe por um tempo ainda.
Percy perguntou-se se ele tinha acabado de colocar o gato entre os
pombos, ou pisou no ninho de uma vespa, ou despertou um cão
dormindo, ou de outra forma o que teria sido melhor para ele não fazer. O
tempo diria.
— Entre — ele chamou quando alguém bateu na porta.
Mawgan entrou, fechou a porta atrás de si e ficou de pé, com os
braços pendurados ao lado do corpo e o olhar fixo no tapete a dois pés à
sua frente.
— Você foi batalhador do visconde Barclay por quase dois anos,
Mawgan? — perguntou Percy.
— Sim, meu senhor.
— Você não gostou da vida de um pescador? — Perguntou Percy.
— Não me importei — disse Mawgan.

231
— Como aconteceu, então? Será que Barclay não tinha um criado?
— Ele certamente teria sido a escolha óbvia para a posição de batman. Ele
poderia ter sido idoso, é claro, mas era improvável que o próprio Barclay
fosse um homem muito jovem.
— Ele morreu, meu senhor.
— O criado?
— Ele se afogou — explicou Mawgan. — Ele estava em um dia de
folga e queria sair pescando no barco do meu pai. Ele caiu dentro. Ele não
podia nadar. Eu pulei e tentei salvá-lo, mas ele lutou comigo em seu
pânico e nós fomos debaixo do barco e eu fui atingido, bati a cabeça.
Alguém me puxou para fora, mas eu fiquei sem memória por dois dias.
Ele não conseguiu, pobre covarde, implorando seu perdão, meu senhor.
Percy olhou para ele. Mawgan não mudara nada a postura. Ainda
estava olhando para o tapete.
— Sua nomeação era da natureza de ser uma recompensa, então,
por tentar salvar a vida do criado? — Ele perguntou. — Você é o sobrinho
de Ratchett, acredito?
— Acho que ele falou por mim, meu senhor, — disse Mawgan, —
depois que Baines não deixou o menino partir. Mas seu senhorio nos
visitou em nossa casa para me ver depois que eu cheguei, e me requisitou.
— Você viu ele e a viscondessa sendo capturados por um pequeno
destacamento de escoteiros franceses? — Perguntou Percy.
— Eu vi, meu senhor — disse Mawgan. — Não havia nada que eu
pudesse fazer para detê-los. Havia seis deles, e eu nem tinha meu
mosquete comigo. Teria sido suicídio se eu tivesse tentado. Pensei que a
melhor coisa a fazer era voltar ao regimento o mais rápido que podia e
buscar ajuda. Mas foi um longo caminho e eu me perdi nas colinas
durante a noite. Levei mais do que um dia.
— Você assumiu, — perguntou Percy — você pensou que ambos
haviam sido mortos?
— Obviamente não eram franceses — disse Mawgan, — e seu
senhorio não estava de uniforme e não tinha nada para provar que era

232
oficial. Eu pensei que eles estavam com certeza ambos mortos. Eu teria
ficado na Península se eu acreditasse que havia alguma esperança. Mas
nem sequer fui autorizado a ir com pequeno destacamento que os
procurava. Como procurar uma agulha em um palheiro, que era, mas eu
queria ir todos os mesmos. Teria sido algo a fazer. É pior de tudo não ter
nada para fazer.
E, no entanto, pensou Percy, seu jardineiro chefe parecia estar
fazendo uma carreira de fazer exatamente isso. — E então você chegou
em casa — disse ele.
— Eu gostaria de ter ficado, milorde — garantiu-lhe Mawgan. — Eu
me senti tão mal quando eu soube que sua senhoria ainda estava viva e
tinha sido liberada e trazida para casa completamente fora de sua
mente. Eu poderia ter sido um consolo para ela, um rosto familiar.
... completamente fora de sua mente.
Imogen!
— Obrigado, — Percy disse rapidamente. — Gostaria de ter
conhecido o visconde Barclay. Era um primo distante meu e um homem
corajoso. Um herói. Você teve o privilégio de conhecê-lo e servi-lo.
— Eu tive, meu senhor — concordou o homem.
— O que você sabe sobre esse negócio de contrabando? —
Perguntou Percy.
— Oh, eu não sei nada — garantiu Mawgan. — E não me
surpreenderia, milorde, se não houver nada para saber. Eu acho que
alguém deve estar tramando e fazendo você pensar que há contrabando
acontecendo aqui. Aconteceu no passado talvez, mas não agora. Eu sei
que a maioria dos criados não me diz nada porque eu sou jardineiro
chefe, mas eu teria pego alguns sussurros. Não ouvi nada.
Percy sabia muito sobre negativos duplos. Alguns de seus
conhecimentos haviam entrado em sua pessoa através da bengala de um
de seus tutores em sua parte traseira, embora a maior parte tivesse
entrado pela porta da frente de seu cérebro. Eu não sei nada era
provavelmente a verdade exata. Mas, além de aplicar agulhas quentes
nas unhas de Mawgan, não havia mais informações, ele entendeu. Ele só
233
queria ser bem claro sobre o assunto. Ele suspirou em voz alta.
— Talvez você tenha razão — disse ele. — No entanto, está bem
assim, desde que todos aqui entendam exatamente como penso. Você
manterá seu ouvido atento, Mawgan? E me diga imediatamente se você
ouvir alguma coisa, certo? Você tem sido um servo leal, eu posso ver.
— Certamente, meu senhor — disse Mawgan, — embora eu não
espere que não haja nada para contar. Estas são boas pessoas aqui. Meu
tio-avô sempre disse isso e eu vi isso por mim.
— Obrigado — disse Percy. — Eu não vou mantê-lo de seus deveres
ocupados por mais tempo.
Mawgan recuou sem olhar para cima.
Percy sentia frio mesmo estando de costas para o fogo. Barclay
recebeu duas cartas ameaçadoras antes de ir para a Península. Seu criado,
que certamente o teria acompanhado como seu batman, tinha morrido
acidentalmente em um acidente de barco. Baines, que havia implorado
para ir em seu lugar, tinha sido considerado por seu pai por ser muito
jovem, embora quatorze não era realmente muito jovem para um
menino. Mawgan tinha sido nomeado por uma combinação de heroísmo
numa causa perdedora e a influência de Ratchett, que era o tio de sua
mãe. Mawgan fora convenientemente afastado – sem o mosquete –
quando facção de escoteiros franceses tomou Barclay e Imogen. Então ele
se perdeu no caminho de volta para obter ajuda. Quando chegou aqui,
recebeu o cargo de jardineiro-chefe.
Não havia nada sinistro em nenhum desses detalhes, exceto as
cartas ameaçadoras. Mesmo quando se juntavam todos, não havia nada
convincente, nada que não fosse ridicularizado em qualquer tribunal da
terra.
... quando eu soube que sua senhoria ainda estava viva e tinha sido liberada
e trazida para casa completamente fora de sua mente.
O estômago de Percy se contraiu, com as palavras lembradas.
Imogen completamente fora de sua mente. Viver por um tempo na
casa de seu irmão incapaz de dormir, comer ou sair de seu quarto.
Vivendo por três anos no Penderris Hall até que ela se transformou em
234
uma senhora de fria e poderia lidar novamente com o mundo exterior de
dentro de seu escudo rígido.
E então, Imogen rindo e enrolada em seus braços. Dormindo com a
cabeça no seu ombro e resmungando incoerentemente quando a acordou.
... completamente fora de sua mente.
O amor – ele pensou quase cruelmente – era a coisa mais maldita, e
ele tinha sido muito sábio em evitá-lo todos estes anos. Não aquele tipo
de amor que sentia pela família, mas o tipo de que os grandes poetas
escreviam. Euforia por um minuto, se isso, e desespero mais escuro por
uma eternidade depois. Mas como é que alguém não gostava?
Ele amava Imogen Hayes, viscondessa Barclay, tão profundamente
que quase a odiava.
E deixe que sua mente trabalhe nisso se ousar.
Ele tinha que vê-la.
Mas primeiro...
******
Imogen deveria ter lido ou feito crochê ou escrito uma carta. Ela
deveria, pelo menos, ficar sentada na cadeira como uma dama, as costas
retas como ela tinha sido ensinada a sentar-se quando ela era uma
menina. Em vez disso, ela estava jogada numa das cadeiras perto do fogo,
curvada confortavelmente, as pernas estendidas na frente dela e cruzadas
nos tornozelos. Sua cabeça estava aninhada em uma almofada. Blossom
estava enrolada em seu colo e Imogen tinha uma mão enterrada no pelo
do gato. Ela estava vagamente entre cochilando e consciente. Ela não
tinha dormido muito a noite passada ou nas duas noites anteriores – seus
lábios curvados sorrindo pela recordação de tal evento – e tinha sido uma
manhã longa e ocupada. Agora era tarde e ela pretendia relaxar. Ela
esperava, e ansiava, por outra noite de pouco sono hoje à noite.
Ela estava apenas começando a dormir quando algo sólido veio
entre ela e o calor do fogo e uma sombra obstruía sua luz. Ao mesmo
tempo, seu sonho incoerente tornou-se perfumado com um cheiro
familiar e ela sorriu um de seus sorrisos presunçosos. Blossom

235
ronronou. Imogen fez um som muito parecido.
— Bela Adormecida — a sombra perfumada murmurou, e então
seus lábios eram claros e quentes e se separaram dos dela e ela entrou
mais fundo em seu sonho.
— Mmm. — Ela sorriu para ele e levantou suas mãos para seus
ombros.
Suas pernas estavam em cada lado dela, suas mãos apoiadas nos
braços da cadeira, seu rosto a poucos centímetros do seu e, ele parecia
grande e ameaçador e lindo. Ele cheirava delicioso.
— Eu não usei a chave — ele assegurou. — Sua governanta me
deixou entrar, respeitavelmente, embora estivesse olhando um pouco
desconfiada. É melhor eu não ficar sozinho aqui com você por muito
tempo. Ela vai ter ideias.
Blossom pulou de seu colo, desdenhosamente perto de Hector, que
ladrou uma vez bruscamente, mostrou os dentes, rosnou e depois ladrou
mais uma vez. O gato cruzou para a outra cadeira com pressa desajeitada.
— Meu Deus — disse Imogen. — Essa é a primeira vez que escuto a
voz de Hector.
— Estou treinando-o para ser feroz — Percy disse, endireitando-se.
— O que você está treinando com ele, — disse ela, — é ter alguma
confiança em si mesmo.
— Desça à praia comigo — disse ele.
Imogen levantou as sobrancelhas enquanto se sentava. — É um
pedido, Lord Hardford, ou um comando?
— Um comando — disse ele. — Por favor? Eu preciso de você.
Ela olhou para ele. Ele estava olhando severo sobre a boca. Ela se
levantou e foi buscar seu manto e capota e vestiu sapatos adequados para
andar na areia.
Havia vários snowdrops florescendo em seu jardim, e um grupo de

236
prímulas7 estava começando a aparecer em um canto. Ela não parou de
olhar para eles ou chamar a atenção para eles. Ela seguiu caminho para o
portão.
— Você não está com nenhum de seus convidados esta tarde? — Ela
perguntou, embora a resposta fosse perfeitamente óbvia.
— Todos os mais de quarenta anos se cansaram esta manhã, — disse
ele, — e estão dispostos de diversas maneiras sobre a casa com atividades
sedentárias. O grupo mais jovem saiu em um corpo com os jovens
Soames e suas irmãs para dar uma olhada em algum castelo arruinado
do outro lado do vale. Diz-se que é pitoresco, e eu diria que é.
— E você escolheu me arrastar para baixo na praia em vez de ir com
eles? — Ela disse.
Ele não respondeu. E ela estava interessada em notar que quando
eles chegaram ao caminho para a praia, ele se virou para ela sem
hesitação e abriu o caminho com passos ousados, quase imprudentes.
Havia uma grande quantidade de energia desencadeada dentro dele, ela
sentiu. Talvez uma energia irritada.
Ela não iria bisbilhotar, ela decidiu. Poderia aborrecê-lo antes que
ele estivesse pronto para fazer algo mais construtivo com isso. Talvez,
apesar de suas palavras e seu beijo quando ele a encontrou adormecida
há pouco tempo, ele estava lamentando seu caso. Talvez não soubesse
como dar a notícia para ela de que tudo estava acabado.
Oh, por favor, por favor, não deixe que seja isso. Ainda não.
Ele se virou e a levantou da rocha acima da praia sem esperar que
ela se movesse para a última seção curta do caminho e descesse sozinha.
Ele a colocou no chão e olhou severamente para ela, suas mãos duras em
sua cintura.
— Você não mencionou o criado — disse ele.
Ela esperou por alguma explicação. Nenhuma veio, apenas um

7
As prímulas - é um género botânico constituído por 400 a 500 espécies, da família Primulaceae.
Muitas destas espécies são cultivadas para uso das suas flores como ornamento.
237
brilho acusador. — O criado? — Ela ergueu as sobrancelhas.
— O do seu marido — ele disse.
A compreensão surgiu. — Sr. Tanoeiro? Oh, foi uma terrível
tragédia. Ele se afogou.
— Ele teria sido o ordenança de seu marido — disse ele.
— Ele estava ansioso para isso, — disse ela, — embora Dicky tenha
oferecido libertá-lo e dar-lhe uma carta de recomendação se ele preferisse
ficar e procurar uma nova posição. Foi terrivelmente triste. Ele tinha
apenas vinte e cinco anos.
— E então Baines se ofereceu para ir em seu lugar — disse ele.
— Sim — disse ela. — Dicky gostava dele, e ele estava muito ansioso
para ir. Ficamos surpresos que seu pai não concordasse. Esperávamos
que ele o visse como uma grande oportunidade para seu filho. Mas acho
que ele queria mantê-lo em casa, onde ele estaria seguro.
— E assim foi Mawgan — disse ele. — Ele arriscou sua própria vida
tentando salvar o valete.
— Sim, eu acredito que ele tentou — ela disse. — Mas não foi só
isso. O Sr. Ratchett falou com meu sogro e ele teve uma palavrinha com
meu marido, e Dicky precisava de um batman com pressa.
— Foi uma escolha relutante? — Ele perguntou.
— Não particularmente. — Ela franziu o cenho. — Nós não o
conhecíamos muito bem e não havia tempo para conhecê-lo antes que
todos nós partíssimos. Mas Dicky nunca reclamou dele. Ele era só um
pouco... mal-humorado ou talvez seja uma palavra muito dura. Ele era
reticente.
O que era tudo isso?
— Fui fazer uma visita ao pai de Baines esta manhã — disse ele. Ele
ainda estava segurando-a pela cintura, e ele ainda estava franzindo a
testa para ela.
— Oh, mas ele morreu, — ela disse, — não muito antes do Natal. Eu
assei um bolo e levei para a Sra. Baines porque Dicky – e eu – sempre
238
gostamos de Colin. Eu ainda estava na casa da viúva, assim que deve ter
sido antes que o telhado fundiu fora.
— O Senhor Baines estava todo orgulho e alegre, ou assim ouvi,
quando soube que o visconde Barclay tinha escolhido levar seu filho para
a Península com ele como seu batman — disse ele.
Imogen franziu o cenho e sacudiu a cabeça lentamente. — Foi o que
a senhora Baines lhe disse?
— E então, de repente, por nenhuma razão discernível, ele mudou
de ideia — disse Percy. — E ele era muito inflexível. As montanhas não o
teriam movido. Nem os argumentos e até mesmo as lágrimas de seu filho.
Ele não deu nenhuma razão – nem nunca falou nisso.
— O quê? — Seu carranca se aprofundou.
Ele a soltou de repente e se virou para olhar o penhasco no lado
oeste do caminho. Ele parecia mais sombrio agora. Ele parecia granito.
— Vou subir — disse ele.
Eles não tinham dado nem um passo ao longo da praia depois de
chegar até aqui. Nem Hector. Estava sentado a seus pés.
— Muito bem — disse ela. Sua mente estava se sentindo um pouco
aborrecida. Tinha havido vários fios em sua conversa nos últimos
minutos, fios aparentemente aleatórios que, no entanto, deveriam de
algum modo se conectar em um tecido e um padrão, ela sentia. Mas ela
ainda não tinha feito as conexões. Ou talvez ela estivesse com medo de
tentar com muita força.
— Quero dizer lá em cima — disse ele, apontando para a esquerda
do caminho até a praia.
— No alto do penhasco? — Ela perguntou. — Você vai escalar?
— Vou — disse ele, tirando o chapéu e jogando-o na areia. Suas
luvas e seu casaco em seguida, e depois o cachecol, a gravata e o casaco.
Não era um dia particularmente frio, mas tampouco era de forma alguma
um caloroso no qual estar de pé na praia em mangas de camisa e colete.
— Mas por quê? — Ela perguntou. — Você tem medo dos

239
penhascos.
— Exatamente por isso.
E afastou-se dela.

VtÑ•àâÄÉ
VtÑ•àâÄÉ EC

Era o que ele pretendia desde o momento em que tinha visto seus
primos e amigos em sua excursão. Eles ficaram desapontados por ele não
ter acompanhado eles, e seus amigos pareciam intrigados.
Percy sabia que ele iria escalar os penhascos. Por que ele não tinha
se esforçado para realizar o feito tolo sozinho, ele não sabia. Por que
arrastar Imogen junto com ele? Para resgatá-lo se ele ficasse preso ou ir
em busca de ajuda? Para assistir e admirar enquanto ele desafiava a
morte em uma escapada tão ousada? Para pegar os pedaços se ele
caísse? Ele tinha achado bem melhor não cair. Ela não precisava daquela
memória para acrescentar a todos os outros.
Ele tinha escolhido o que parecia ser uma rota escalável até o topo
enquanto ele estava de pé ao lado dela, e caminhou nessa
direção. Percebeu que tinha escolhido uma subida que não estava muito
à esquerda do caminho, a ideia inconsciente, que talvez, caso chegassem
a um ponto em que não houvesse um caminho viável, não teriam que
encontrar seu caminho de volta para baixo – afastou o pensamento. Então
poria a borda de lado e andaria o resto do caminho para o topo.
Ele olhou para baixo quando ele provavelmente não estava muito
mais do que sua própria altura acima da praia e decidiu, no mesmo
instante, que ele não faria isso novamente. Nem ele olhou para cima,
exceto para a próxima passada – e apoio. Escalar, ele descobriu, era como
um número de outras atividades concentradas. Foi uma coisa momento,
momento por momento – não olhe para cima, não olhe para baixo,
concentre-se no que deve ser feito aqui e agora.
240
O terror começou em sua mente, depois invadiu seu coração e
colocou-o em bombeamento e batendo através de seu peito e até em seus
ouvidos e sua cabeça e, em seguida, assumiu residência em cada osso e
músculo e terminação de nervo em seu corpo. Em um ponto ele era todos
os pinos e agulhas. Em outro, ele estava tão fraco que se sentia como um
bebê recém-nascido. Tudo nele gritava para parar enquanto ele ainda
estava seguro. Só que ele nunca estivera mais longe de estar seguro em
sua vida e parar estava fora de questão. Se ele parasse, ele nunca mais se
moveria – não até que seu tutor e um barqueiro chegassem para tirá-lo
da face do penhasco e levá-lo até o barco.
Havia um vento, que ele não tinha percebido quando saiu de casa
ou quando desceu o caminho para a praia. Ele rugia sobre sua cabeça e
seus pés no que deve certamente ser força de furacão. As pedras a que se
agarrou estavam manchadas de gelo, e o sol assava suas costas e o topo
de sua cabeça. E tal imaginação significava que ele estava saindo de sua
mente – que poderia ser o melhor lugar para estar no momento. Tanto
melhor se ele pudesse sair de seu corpo também.
Escale. Não pense. Escale. Não pare. Não se pergunte o quão longe
já chegou. Escale. Não se pergunte o quão longe está o topo. Não se
pergunte onde está Imogen. Não se pergunte se aquele criado foi mesmo
assassinado. Pare de pensar e suba. Não se pergunte se o pai de Baines
foi ameaçado e intimidado. Não pense. Não pare. Não se pergunte se
Barclay foi atraído à sua morte e se Imogen tinha escapado pela sua
aparência, pele e dentes. Escale. Não pare.
Em um ponto ele olhou para baixo inadvertidamente. Ele sabia que
o mar não estava diretamente abaixo dele – a maré não chegava tão
longe. No entanto, o mar era tudo o que via, cinza e agitado e distante,
muito abaixo do furacão que estava rugindo em seus pés. Ele desejou ter
tirado seu colete. Ele desejou que todos os ossos de seus joelhos não
tivessem migrado para outro lugar. Ele esperava como o diabo que ele
não ia chegar ao topo com calças molhadas. Ele esperava como mil
demônios que ele chegasse ao topo.
Escale. Não pare. Escale.
Ele deveria ter usado suas outras botas.

241
Um par de vezes ele se sentiu preso, aparentemente sem nenhum
outro lugar para ir, mas, a cada vez ele encontrou um caminho. Na
terceira vez que aconteceu, ele estava assustado, fora de seu juízo – do
que restou dele. Não havia nada lá acima dele. Não havia nenhum outro
lugar para ir, embora ele esticasse uma mão e tocasse numa rocha sólida.
Ele se arrastou ao longo de uma superfície horizontal, ainda olhando, e
algo desceu plana sobre suas costas – uma mão?
— Nunca mais volte a fazer isso — disse uma voz trêmula e, por um
momento, confundiu-a com a voz de um anjo e pensou que talvez ele
estivesse rastejando em seu ventre em direção aos portões perolados. —
Nunca, você me ouviu? Ou eu poderia te matar.
— Isso seria uma pena— ele disse para a grama no topo do penhasco
– ele estava segurando dois punhos — quando parece que eu sobrevivi
ao penhasco.
Ele deitou e rolou sobre suas costas, e ela veio e se joelhou ao lado
dele, e de alguma forma – por alguma razão idiota – ambos estavam
rindo. Ele a envolveu em seus braços – eles se sentiam moles como geleia
– e a puxou para baixo sobre ele enquanto eles bufavam e tremiam de
alegria. Por Jove, ele tinha feito isso.
— Por Jove, eu fiz isso!
— Por quê? — Ela perguntou, levantando-se de joelhos novamente.
Dois olhos esbugalhados, olhando fixamente para ele do outro lado,
fizeram a mesma pergunta.
— Eu tenho alguns dragões para matar — explicou. — Mas primeiro
eu tive que matar aquele das minhas costas.
Ela balançou a cabeça, mas não disse o que obviamente queria
dizer. Hector apenas olhou.
— Percy — ela disse então, — você deve estar congelado.
— Congelado? — ele disse. — Tem certeza de que alguém não atirou
mais carvões para o sol?
Ela olhou para cima e sorriu. — Que sol?

242
Senhor, mas ele adorava vê-la sorrir. Ele estava feliz por ter
sobrevivido apenas para ver isso. Nuvens esticadas ininterruptamente de
horizonte a horizonte. Sem sol. E o que aconteceu com o furacão?
— Que dragões? — Ela perguntou. Suas mãos estavam apertadas
em seu colo.
— Eu fiz uma reunião com o pessoal esta manhã — disse ele.
— Sim. A Sra. Primrose me disse — disse ela, — embora não me
dissesse de que se tratava. Ela apenas disse que se tratava de negócio.
Você chamou disso?
— Eu deixei claro, — disse ele, — que minha terra e a praia aqui
embaixo estão a partir de agora e sempre fora de limites para o
contrabando, e que nenhum funcionário meu estará envolvido de alguma
forma nisso. Dei um par de dias para quaisquer demissões voluntárias e
para a remoção de quaisquer bens ilegais da casa e dos terrenos,
enquanto eu olho cuidadosamente para o outro lado. Todo mundo me
aconselhou a fechar os olhos, mas eu não fechei nem me virei.
Ela olhou firmemente para ele por vários momentos de silêncio
antes de se inclinar sobre ele e beijá-lo nos lábios. — Quando eu te conheci
— disse ela, — eu diria que você era tão diferente de Dicky de todas as
formas imagináveis como é humanamente possível ser. Eu estava errada.
Não era a melhor sensação do mundo para um homem ser
comparado ao marido morto de sua amante, mesmo que fosse uma
comparação favorável – especialmente como essa, de fato.
Mas seus olhos brilhavam com lágrimas não derramadas. — Isso é
exatamente o que ele teria feito — disse ela. — Seu idiota, Percy.
Não foi ótimo ter a sua amante chamando-o de tolo também.
— Eu... — Ela apertou seus lábios juntos e voltou para a posição
vertical. — Eu o honro.
Eu te amo? Era isso que ela havia parado de dizer a tempo?
Ele cobriu as mãos dela que estavam em seu colo com uma das suas.
— Eu sou um pouco tolo, na verdade — ele disse. — Tendo

243
conquistado as alturas impossíveis, eu agora tenho que voltar me
arrastando pelo mesmo caminho para pegar meus pertences.
— Aí — apontou para trás, e viu o casaco, o chapéu, a gravata e o
cachecol. Eles estavam até mesmo bem dobrado e empilhados. — Como
você pode caminhar usando tudo isso, Percy? Eles pesam uma tonelada.
— Porque eu sou forte. Um homem de verdade, de fato. — Ele sorriu
para ela. — Eu sabia que a pequena mulher iria carregá-los para mim.
Ele agarrou seu punho antes que batesse contra seu ombro e levou-
o aos lábios. — Sinto muito, Imogen — disse ele. — Eu sinto muito por
tudo isso. Você provavelmente teve outros planos mais agradáveis para
a tarde.
— Não — disse ela. — Dediquei esse tempo para isso, e pretendo
aproveitar cada momento dele.
Ela mordeu o lábio inferior, recuperou a mão, e se colocou em pé.
Intervalo? De que? Sua existência sofrida?
“Pretendo aproveitar cada momento de que disponho”.
Como se houvesse um limite de tempo.
Como havia. Isso tinha sido claramente acordado entre eles. Ele
havia preparado um para si mesmo. Ele pretendia sair daqui logo depois
do baile, e provavelmente nunca mais voltaria. Ela estava saindo para sua
reunião com aquele grupo do Clube dos Sobreviventes.
Ele também estava simplesmente dando um tempo, então? De que,
embora? Sua existência sem sentido? Ele iria voltar para as brincadeiras,
os atrevimentos e as amantes e a aparição ocasional na Casa como uma
lembrança na sua consciência?
— Hoje à noite, — ele disse, — eu vou ter certeza que eu venha com
energia suficiente para subir as escadas para sua cama. E faremos pleno
uso dela, Imogen, por horas e horas. Esteja preparada.
— Oh, eu vou estar — ela disse, mas ela não olhou para ele. Ela
estava ocupada puxando as luvas enquanto ele se levantava.
E levantar-se, é claro, colocava à vista da casa sobre os arbustos de
244
tojo e para cima do gramado. Não puxaria ela em seus braços para beijá-
la. Todos os parentes mais velhos, bem como os criados, poderiam muito
bem estar alinhados nas janelas olhando para o mar.
Suas pernas ainda estavam decididamente instáveis, e um olhar
para a longa descida não longe de seus pés lhe assegurou que ele ainda
tinha um medo muito saudável de ficar muito perto da borda. Mas por
Jove, ele tinha subido.
Caminharam para a casa da viúva sem falar, e ele pegou sua mão
quando estavam de cada lado do portão e apertou-a sem levantá-la até os
lábios. Ele não tinha esquecido o olhar no rosto de sua governanta
quando ela abriu a porta para ele mais cedo.
Ele temia que ele realmente tivesse entrado em algum ninho de
vespas esta manhã.
— Até mais tarde — disse ele.
— Sim.
Ele atravessou o gramado sem olhar para trás.

******
Para sua vergonha, Imogen estava quase uma hora mais tarde do
que o habitual levantando-se na manhã seguinte. Ela pretendia estar na
aldeia e visitar algumas pessoas, incluindo Tilly e Elizabeth. Ela estava
maravilhosamente bem abençoada, ela percebeu, de ter duas amigas tão
próximas – perto em mente e temperamento, bem como em idade.
E ela iria precisar delas no futuro previsível. Mas ela não pensaria
nisso ainda. Ela se esticou luxuosamente e virou a cabeça para o
travesseiro ao lado dela. Não, ela não tinha se enganado. Ele tinha
deixado o cheiro de sua colônia para trás. Ele tinha vindo pouco antes da
meia-noite e não saiu até bem depois das quatro e meia. E, como ele havia
prometido, ele a manteve muito ocupada durante horas, com apenas
breves intervalos para relaxar e arranhar o sono. Tinham feito amor
quatro vezes. Mas fazer amor com Percy, ela estava descobrindo,
consistia não apenas na união de seus corpos e na atividade vigorosa que
se seguia. Tratava-se também de falar – muitas vezes absurdos – e rir e
tocar, beijar e rolar e... sim! – almofadas de urso entre si e esquecer tudo
245
sobre a reserva e o decoro e a dignidade dos adultos. Tratava-se de jogo
sexual que precedia a penetração.
Mas ela tinha aprendido a dar o melhor que conseguiu nesse aspecto
de fazer amor. Se ele pudesse fazê-la implorar – e ele poderia – então ela
poderia fazê-lo implorar também. Oh, sim, ela podia. E a união de seus
corpos! Ah, não havia nada mais maravilhoso nesta vida depois de longas
brincadeiras e ainda mais jogo de sexo prolongado. E os duros ritmos de
fazer amor, e os sons rítmicos de umidade e respiração difícil, e a
construção gradual de tensão e excitação. E a liberação no final de tudo –
o momento mais maravilhoso de todos e o mais triste, para seguir esse
momento, veio a consciência gradual da separação, mesmo quando eles
ainda estavam unidos, o conhecimento de que eram dois. Mas havia
também o conhecimento de que ainda lhes restava algum tempo – mais
de uma semana.
Ele saiu depois de se sentar, completamente vestido, no lado da
cama e beijá-la lentamente e completamente como se as horas anteriores
não tivesse sido suficiente, nunca seria suficiente.
— Esta noite — ele murmurou contra seus lábios, — e amanhã à
noite e...
Ela riu então, pois Hector estava olhando para o lado da cama, com
o queixo nos lençóis, os olhos inchados. Ele era um cão tão feio e adorável.
Tinha-os escutado sair, ao som da chave girando na fechadura, e ela
se entregara a seu pequeno choro habitual antes de cair tão
profundamente adormecida que nem sequer se lembraria se tivesse
sonhado. E agora estava acordada, embora realmente não importasse.
A Sra. Primrose trouxe seu café da manhã para a sala de jantar assim
que ela desceu.
— Você foi sábia em dormir até tarde, minha senhora, — ela disse
enquanto despejava o café de Imogen. — Um dia desagradável e sombrio
está lá fora.
Era demais. Imogen não tinha notado. Havia chuva nas janelas, e
elas estavam mesmo chocalhando ao vento. O céu além estava chumbo
escuro.
246
— Pelo menos, — ela disse, — nós não temos que correr para cima
com todos os baldes para pegar os pingos.
Ela agitou seu café e voltou sua atenção para as cartas ao lado de
seu prato. Uma delas era de George, duque de Stanbrook – ela
reconheceu sua escrita. Outra era de Elizabeth – um convite,
provavelmente, a algum entretenimento que incluía todos os convidados
no salão. Elizabeth conversara sobre isso na reunião do clube de leitura. A
outra carta foi endereçada em uma mão redonda e infantil. Uma de suas
sobrinhas ou sobrinhos, talvez? Não tinha acontecido antes. Ela quebrou
o selo daquele primeiro por curiosidade.
Era uma mão totalmente descontrolada, uma mistura confusa de
letras maiúsculas e minúsculas, algumas grandes, algumas pequenas,
algumas apertadas, mais como rabiscos. Quem na terra...?

Você vai persuadir aquele seu caso para deixar aqui e ficar longe, ele lê, ou você
pode sofrer danos, sua senhoria. Este é um aviso amigável. Preste atenção.

Não havia assinatura.


Imogen segurou o papel com ambas as mãos, ambas trêmulas. Ela
deveria ter entendido assim que viu a letra. Mais de dez anos se
passaram, mas ela deveria ter percebido de qualquer maneira. Se ela não
estava enganada, a mesma pessoa que tinha escrito as cartas ameaçadoras
para Dicky e para si mesma antes de partir para a Península tinha escrito
assa. Oh, Percy, ela pensou, o que você começou?
Imogen tinha aprendido muito sobre autocontrole e autocontenção
durante os últimos oito anos. Ela não abriu as outras cartas, mas comeu
uma rodada inteira de torradas e bebeu seu café antes de dobrar seu
guardanapo e deixá-lo perfeitamente ao lado de seu prato e levantar-se.
— Vou subir a casa principal esta manhã — disse ela à
governanta. — Você pode deixar o fogo morrer na sala de estar.
— Pegue seu guarda-chuva, minha senhora, — disse a Sra.
Primrose, — isso é, se você puder mantê-lo do vento lá fora.

247
******
Percy estava na sala de estar, assim como quase todos os outros,
exceto as senhoras mais velhas, que estavam na reunião delas na sala da
manhã. Percy estava planejando um torneio que incluía, entre outras
coisas, jogos de cartas, bilhar, dardos e caça ao tesouro. Todos estavam
de bom humor, apesar da chuva que estava batendo contra as
janelas. Parecia que todo mundo se voltava para Imogen.
— Você chegou a tempo de se juntar a nós, Lady Barclay — disse o
visconde Marwood. — Você pode ficar na minha equipe. Isso nos dará
mais um jogador que a outra equipe, mas os outros têm Percy, que
realmente conta como dois quando se trata de jogos. Você é boa em
dardos? Você pode escolher um ou dois de nossos inimigos, se você
desejar – desde que você não cause nenhum dano permanente, eu
suponho. Isso pode aborrecer as outras senhoras.
E o bizarro foi que ela se uniu, embora o concurso durou muito mais
do que ela esperava. Na verdade, houve até mesmo uma pausa a meio
caminho para o almoço, que deveria durar uma hora e realmente durou
uma hora e meia.
Todos estavam se divertindo, incluindo os cavalheiros mais
velhos. E mesmo a prima Adelaide, que não participava, parecia menos
dura do que de costume, embora se queixasse de que muitas atividades
estavam acontecendo além das portas da sala de estar.
Os gatos disparavam por toda parte. Bruce não se moveu do tapete
perto do fogo. Hector sentou-se ao lado da cadeira vazia de Percy,
batendo a cauda em qualquer sinal de ação. Era tudo o que uma festa de
família deveria ser, pensou Imogen.
As gêmeas discutiam uns com os outros pelo menos meia dúzia de
vezes, embora estivessem na mesma equipe. Leonard Herriott acusou seu
irmão de fazer batota durante a caça ao tesouro e se encontrou no lado
errado de uma retorta antes que seu pai interviesse para restaurar a
ordem e lembrá-los de que havia damas presentes. Mas a boa natureza e
o riso prevaleceram sempre, assim como um espírito competitivo, até que
finalmente todos completaram todas as atividades e as pontuações foram
somadas por um comitê de duas pessoas de cada equipe – e descobriu-se
248
que a equipe de Percy tinha vencido por uma pequena margem.
Vaias dos perdedores misturados com as felicitações desagradáveis
dos vencedores, e a tia Lavínia chamando atenção para a bandeja de chá,
tendo o encontro das senhoras terminado há muito tempo.
— Lord Hardford, — Imogen disse, — posso ter uma palavra
privada com você?
Talvez não fosse a melhor maneira de fazer isso, ela percebeu tarde
demais. Ele parecia surpreso – e talvez um pouco aborrecido? E todos os
outros pareciam um pouco surpresos também. Imogen estremeceu
ligeiramente quando notou o Sr. Welby piscando para o Visconde
Marwood.
— É uma questão de negócios — acrescentou.
— Mas é claro, prima. — Ele conduziu o caminho até a porta e abriu-
a para que ela passasse. Ele a precedeu até a sala da manhã e a seguiu
para dentro antes de fechar a porta atrás deles.
Ele parecia um pouco sombrio, ela pensou enquanto se virava para
encará-lo.
— O que é? — Ele perguntou.
Ela tirou a carta de um bolso do vestido e entregou-a para ele.
Ele abriu-a e olhou-a, depois falou uma palavra que ela só tinha
ouvido antes em Portugal, nos lábios de soldados que não tinham
percebido que estavam sendo ouvidos por uma mulher. Ele não pediu
desculpas.
Ele levantou a cabeça e olhou para ela por um longo tempo em
silêncio. — Ele poderia fazer algumas lições de ortografia, não acha? —
Ele comentou. — Sem mencionar caligrafia.
— Não é brincadeira, Percy — disse ela.
— Não, de fato não é — ele concordou. — Em vez de me ameaçar, o
que eu poderia ter tomado como uma piada, ele tem ameaçado minha
dama, o que, muito seriamente me incomodou.
Poderia ter-se eximido daquela descrição de si mesma, como minha
249
dama em qualquer outro momento, mas não era em nenhum outro
momento.
Ele continuou a olhar para ela sem se mexer por mais alguns
instantes.
— Com a sua permissão, — disse ele, — vou convocar mais algumas
pessoas aqui. Homens. Devo convocar minha mãe também? Ou lady
Lavínia, talvez?
— Não — ela disse, lembrando-se de uma frase da carta “aquele seu
caso” — Que homens?
— Meu mordomo — disse. — Sr. Knorr, isso é. Meus dois
amigos. Cyril Eldridge. Os meus tios.
Repentinamente ocorreu a Imogen que era realmente possível que
o criado de Dicky tivesse sido assassinado; que o Sr. Baines fora coagido
a retirar sua permissão para que Colin os acompanhasse a Portugal como
batman de Dicky; que James Mawgan fora plantado deliberadamente
naquela posição. Ontem, tudo parecia muito absurdo para ser levado a
sério. Até mesmo ainda hoje. Mas alguém acabara de ameaçá-la de
novo. Isso também parecia ridiculamente melodramático, mas tinha
acontecido.
— Muito bem — disse ela.
Ele caminhou até a porta, deu algumas instruções ao Sr. Crutchley
e aproximou-se dela depois de fechar a porta de novo. Ele pegou ambas
as mãos com um aperto forte
— Talvez eu devesse ser chicoteado, — disse ele, — exceto que esta
é precisamente a razão pela qual eles precisam ser confrontados. Eu sinto
muito, meu a.... Ah, dane-se tudo, sinto muito, meu amor. Não vou
permitir que nada aconteça com você. Eu não farei. Disso você pode ter
certeza. E quando isso acabar, você pode me mandar ao inferno e eu vou
lá sem um murmúrio.
Ele ergueu as mãos, uma de cada vez para seus lábios e beijou-as
ferozmente antes de soltá-las e caminhar até a janela ficando de costas
para a sala. A carta saía de um dos bolsos de seu casaco.

250
Os tios, os primos e os amigos foram os primeiros a chegar, todos
ao mesmo tempo, assim como claramente estourando com curiosidade.
— Esperaremos por Knorr — disse Percy depois de um olhar por
cima do ombro.
Eles esperaram em silêncio até que houve uma batida firme na porta
e o Sr. Knorr entrou.
Pouco depois a porta abriu-se de novo, e o Sr. Crutchley anunciou –
de todas as pessoas – a prima Adelaide. Ela olhou ao redor dela
desagradavelmente e foi para a cadeira mais próxima ao fogo.
— Os outros podem dizer, até que seus rostos fiquem azuis, que as
senhoras não foram convidadas, mas há uma senhora aqui, uma jovem e
ela não será deixada sozinha à mercê de uma sala cheia de homens,
enquanto eu tenho algo a dizer sobre o assunto. — Ela disse, depois
sentou-se e continuou a olhar desagradável.

VtÑ•àâÄÉ
VtÑ•àâÄÉ ED

Percy percebeu desde o começo que ele estava lutando um tipo


perigoso de desafio, algo com o qual ele era muito familiar. A diferença
desta vez era que ele não estava fazendo isso meramente para sua própria
diversão. Ele não esperava que fosse fácil. Hardford era uma base
conveniente para o contrabando – bem na costa, mas longe do vale, com
um lugar de pouso isolado e seguro com um caminho até o topo, e que
era terreno privado – propriedade de um conde, de fato – e, portanto,
lugar menos provavelmente ser alvo de patrulhas por oficiais da
alfândega. Havia adegas espaçosas tanto na casa da viúva quanto na Casa
Principal, e até recentemente o dono de ambas estava disposto a ajudar e
promover o comércio mesmo que ele não estivesse ativamente envolvido
nisso. E mesmo depois da morte do velho, o novo conde tinha sido levado
a ficar longe por dois anos completos.
251
Oh, ele não esperava que retirar-se permanentemente da
propriedade de Hardford seria fácil. Tinha mesmo percebido que estava
se colocando em perigo possível por ser tão aberto e determinado em sua
oposição. Não conseguia esquecer Colin Baines com suas pernas
quebradas. Ele nunca tinha sofrido de uma imaginação selvagem, mas
ele não acreditava que estivesse tecendo um conto fantástico sobre a série
de acontecimentos que precederam – e seguiram – a partida do falecido
Ricardo, visconde Barclay, para a Península. No entanto, a possibilidade
de perigo não o incomodado particularmente. Ele tinha prosperado sobre
isso, afinal, há dez anos.
Jamais imaginara que a ameaça do perigo viria não para ele, mas
para Imogen.
Quão diabolicamente inteligente, tinha sido o seu primeiro
pensamento ao ler a carta. Como é que ele sabia? tinha sido o seu segundo
pensamento. Mas não foi totalmente surpreendente. Percy tinha
realmente sido muito imprudente colocando em perigo a sua reputação,
correndo para a casa da viúva para cada uma das últimas várias noites e
não saia de lá até de madrugada. Seria mais surpreendente se ninguém
soubesse. O mundo inteiro provavelmente já sabia.
Estava mais zangado do que jamais tinha estado em sua vida. Mas
era uma raiva silenciosa e furiosa. Não havia nenhum sentido em zombar
e atacar para fora com palavras ou punhos – não a menos ou até que
tivesse um alvo para aqueles punhos, de qualquer maneira. E pelo menos
metade de sua raiva estava dirigida contra si mesmo. Tirou a carta do
bolso e se virou da janela.
— O contrabando é abundante ao longo deste trecho do litoral —
disse ele. — Eu fiz uma reunião de todo o meu pessoal na manhã de
ontem e deixei claro que eu não mais abrigaria nem contrabandistas nem
contrabando em minha terra.
— O contrabando é abundante em todos os trechos do litoral, Percy
— disse o tio Roderick. — Não há como detê-lo, receio. E devo admitir
que gozo uma gota de brandy francês de vez em quando, embora tenha
cuidado de nunca perguntar ao meu anfitrião de onde veio. — Ele riu.
— Isso provavelmente não foi sábio para você, Percy — disse o tio
252
Ernest. — E não vai ficar nada bem, você sabe. Seus servos podem pagar-
lhe o serviço de lábios por um tempo, mas eles certamente vão escorregar
de volta para seus velhos caminhos em breve. Se eu fosse você, eu
deixaria o assunto cair agora que você fez o seu ponto.
— É melhor você afiar seu cutelo mesmo assim, Perce — Sidney
disse com um sorriso.
— E carregue sua pistola — acrescentou Cyril.
— Quanto mais cedo o levarmos de volta a Londres, Perce — disse
Arnold, — será melhor para todos, eu acho. — Mas ele se virou e olhou
para Imogen, notou Percy. Ela se sentou em uma cadeira ao lado da Sra.
Ferby, que estava lhe dando tapinhas no braço.
— Mas há vícios subjacentes a tudo isso — disse Percy. — Um pouco
de brandy, um pouco de renda que eu poderia ser tentado a ignorar. Mas,
pernas quebradas e o assassinato não posso.
— Assassinato? — Tio Ted disse bruscamente.
— Não tenho provas — disse Percy, — mas sim, assassinato. Há dez
anos houve cartas ameaçadoras quando o falecido visconde Barclay
expressou suas preocupações sobre o comércio que invade a terra de seu
pai. Hoje Lady Barclay recebeu outra carta. Eu não perguntei, mas
acredito que posso adivinhar a resposta. Pelo que se lembra, Lady
Barclay, este parece estar escrito na mesma mão?
A sra. Ferby tinha a mão de Imogen na dela, os dedos entrelaçados.
— Sim — disse Imogen.
— Gostaria que todos o lessem — disse Percy, — com a permissão
de Lady Barclay.
— Sim — ela disse de novo.
Percy entregou a carta a Cyril, que era mais próximo dele, e passou
de mão em mão até que todos os homens a tivessem lido. A Sra. Ferby
estendeu a mão livre e Knorr a entregou.
— Um pouco analfabeto, não é? — Tio Ted comentou. — O homem
mal pode escrever.

253
— É perturbador para qualquer senhora receber algo assim — disse
o tio Roderick. — Mas é um pouco difícil levá-lo a sério. É tudo absurdo,
na minha opinião. Difícil, no entanto.
— Eu costumo concordar — disse tio Ernest. — Mas se isso vem de
um dos criados aqui, Percy, o homem deve ser expulso e demitido
imediatamente. Ele não assinou, claro, mesmo com um X.
— A Lady Barclay deve ser oferecida proteção, Perce — disse
Arnold. — Você mora sozinha, senhora, naquela casa com um criado, não
é? E eu entendo até ela sair à noite?
— Você deve se mudar para cá imediatamente, prima Imogen —
disse tio Roderick, até que este assunto tenha sido investigado, como
suponho que deve ser. Você nunca deve estar sozinha. Sua empregada
deve dormir no seu quarto com você à noite.
— Mas não quero deixar a minha casa — protestou Imogen, falando
pela primeira vez.
— Será melhor assim, senhora — disse Sidney, — pelo menos por
um tempo. Há muitos de nós aqui para protege-la adequadamente sobre
a improvável suposição de que há um louco à solta.
— Dificilmente um louco — disse a Sra. Ferby, e todos os olhos se
voltaram para ela. — Isto — disse ela, acenando com a carta na mão —
foi escrito por um homem muito inteligente. Eu não o subestimaria se eu
fosse você, lorde Hardford.
— Não acredito que o esteja subestimando, senhora — disse Percy.
— Inteligente? — perguntou Sidney.
— A multiplicidade de erros na carta sugere alguém que os está
fazendo deliberadamente — disse Knorr. — E as mudanças vastas no
estilo da escrita manual no curso de uma nota tão curta sugerem uma
tentativa deliberada de enganar. Mas há uma certa ameaça sobre o tom,
que vai além das próprias palavras. Talvez seja o contraste entre a
aparência infantil da nota e a mensagem que transmite.
Percy olhou para seu novo administrador com aprovação.
— De onde veio? — perguntou Cyril. — Daqui ou de fora?
254
— Essa reunião foi ontem de manhã, você disse, Percy? — Tio Ted
perguntou. — Quem deixou a casa ou a propriedade durante o dia?
— Além de nós, quer dizer? Perguntou Percy. — Knorr, você sabe?
— Ninguém até onde eu sei, meu senhor — disse Knorr, depois de
pensar no assunto. — Mas é difícil dizer com certeza. Todos nós sabemos
como notícias e fofocas parecem viajar no vento.
— Quem quer que seja — disse a sra. Ferby — é alguém cuja escrita
é bem conhecida.
— Sim, senhora — concordou Arnold. — Ele certamente saiu do seu
caminho para disfarçá-lo.
— Estamos assumindo que é um homem, não é? — Sidney
perguntou.
— Ah, é um homem — assegurou a Sra. Ferby com um pouco de
espírito. — Uma mulher faria sua ameaça diretamente ao homem. Uma
mulher seria apunhalar direto para o coração ou disparar direito entre os
olhos. Somente um homem ameaçaria a mulher para quem seu inimigo
se importa.
Imogen, percebeu Percy, tinha ficado branca como giz. Seus lábios
pareciam azuis em contraste. Ele quase caminhou em direção a ela para
pegá-la, para que ela não desmaiasse, mas a carta tinha feito bastante
dano à sua reputação como era. E ela estava se mantendo muito
erguida. A sra. Ferby ainda segurava a mão dela.
— Estamos fazendo uma montanha de um montículo? — Tio
Roderick perguntou. — Estamos na realidade lidando apenas com um
criador de travessuras?
— Não. — Várias vozes falaram juntas.
— Eu suponho — disse Percy — que foi precipitação de minha parte
agitar todo esse problema em um momento em que tenho uma casa cheia
de convidados e um baile está sendo planejado.
— Você não pensaria em deixar que soubessem que você vai sair
daqui depois do baile, Percy? — perguntou o tio Ernest. — Suponho que
vai subir à cidade para a Sessão do Parlamento? E que nada mais será
255
dito sobre o assunto do contrabando?
Percy respirou fundo para responder.
— Não — disse Imogen.
Todos se voltaram para ela.
— Não — ela disse de novo. — Lord Hardford fez a coisa certa. É o
que meu marido teria feito em seu retorno das guerras se ele tivesse
sobrevivido. O que Lord Hardford pode realizar é uma mera gota no
oceano, é claro. Haverá muito tempo, antes que o contrabando perca sua
atração para os criminosos ou antes que deixe de ser extremamente
lucrativo, se alguma vez isso acontecer. Mas mesmo uma gota do oceano
é uma parte essencial do todo. Violência e intimidação e até assassinato
têm sido autorizados a florescer sem contestação por tempo suficiente.
Muitos olhos cegos foram virados.
Houve um curto silêncio.
— Bravo, Imogen — disse a Sra. Ferby com sua voz de barítono. —
Você restaurará minha fé em todo o seu sexo, lorde Hardford, se
continuar o que começou ontem – mesmo se eu fosse a próxima a ser
ameaçado.
Como Percy podia sorrir e se sentir genuinamente divertido, ele não
sabia. Mas havia sempre uma linha tênue entre comédia e tragédia. —
Vou manter isso em mente, senhora — disse ele.
— Eu seria muito audaciosa — disse Imogen com um suspiro —
ficar na minha casa, e isso causaria problemas desnecessários, enquanto
todo mundo tenta fazer com que eu esteja devidamente protegida. Vou
mudar para cá até que seja seguro voltar para casa.
— Obrigado — disse Percy, e por alguns momentos seus olhos se
encontraram e seguraram e ele podia ouvir em memória as palavras que
ele tinha falado muito cedo esta manhã – esta noite e amanhã à noite
e... — Permaneça aqui na casa, e eu vou ter seus pertences trazidos.
A sra. Ferby empurrou-se para seus pés, atraindo Imogen para cima
com ela.
— Venha, Imogen — disse ela. — Perdemos nosso chá. Vamos ter
256
Lavínia pedindo um bule fresco.
Paul Knorr manteve a porta aberta para elas.
A carta foi deixada deitada na cadeira abandonada da Sra. Ferby.

******
Depois de alguns minutos de reflexão sobre a situação para nenhum
propósito prático, Percy sugeriu que todos voltassem para o salão para
retomar o chá interrompido. Ele e Knorr ficaram, no entanto.
— Qual é a sua opinião, Paul? — Ele perguntou quando eles
estavam sozinhos.
— Se há uma gangue altamente organizada de longa data, — disse
Knorr, — e tudo indca que esse é o caso, então certamente engloba uma
grande área – todo o estuário e vale do rio e muito mais. Essa organização
não toleraria a concorrência. Será extremamente difícil desalojá-la.
— Essa não é minha intenção — disse Percy. — Vou deixar isso para
os oficiais da alfândega. Mas eu tenho essa terra, Paul. Sou responsável
pela segurança e bem-estar de todos os que vivem e trabalham nela. Isso
pode soar um pouco pretensioso, mas há uma atmosfera geral de segredo
e medo aqui. O medo é uma palavra muito forte? Não, acho que não. E
há aquele jardineiro-chefe, com pernas quebradas e que provavelmente
assassinou o criado do barclay. Talvez até o próprio Barclay, embora
indiretamente e não diretamente, já que ele certamente foi capturado e
torturado e executado pelos franceses.
Ele já havia dito a seu novo administrador todos esses detalhes.
Knorr era pelo menos alguém em quem ele podia confiar. Ele respirou
fundo para dizer mais.
— Mas você está pensando, não está, — disse Knorr antes que Percy
pudesse falar, — que o núcleo da quadrilha está bem aqui? O líder, pelo
menos? E eu acho que você está certo.
Percy olhou para ele e assentiu lentamente. Algo dentro dele ficou
frio. Ele deveria estar agradecido, pelo menos, que Imogen tenha sido
sensata o suficiente para concordar em ficar nessa casa, onde ela nunca
deveria ser permitida ficar sozinha. Mas... Direto na jaula do leão?

257
Mas demônio, era o covil dele. E ela era sua mulher, embora não
duvidasse que ela não gostasse dessa descrição de si mesma.
Provavelmente, ele também ficaria desconfortável se ele parasse para
pensar, mas não tinha tempo para pensar no estado de seu coração.
— Chame Crutchley, se você quiser — ele disse. — Diga-lhe para
trazer mais porto.
O mordomo veio rangendo em alguns minutos depois, carregando
uma bandeja.
— Coloque-o ai — instruiu Percy. — Não vou mantê-lo por muito
tempo para que ninguém fique suspeitando. Tenho algumas perguntas
para você. Eu não espero que você me dê o nome da pessoa que ordenou
que você me persuadisse, a sair do meu quarto de dormir com vista para
a baía, para um na parte de trás da casa. Mas eu ainda te pergunto isso:
foi uma lealdade voluntária que te fez obedecer, ou medo de represálias,
se você não o fizesse?
O mordomo olhou para ele com aparente incompreensão.
— Eu não tenho a menor intenção, — Percy acrescentou, — de
disciplinar você, de alguma forma, por lençóis úmidos, um pássaro morto
e fuligem.
— Quem é importante em sua vida, Sr. Crutchley, além de você
mesmo? — perguntou Paul Knorr.
A cabeça de Crutchley virou-se para ele. Sua expressão não mudou,
mas ele falou. — Tenho uma filha na aldeia, — disse ele, — e dois netos,
e um deles tem uma esposa e dois pequeninos.
— Obrigado — disse Percy. — Mais uma vez eu não peço um nome,
a menos que você escolha ser voluntário, mas você sabe quem é o líder
desta gangue em particular?
Crutchley acenou com a cabeça uma vez depois de um longo tempo.
— Sua identidade é geralmente conhecida? — Perguntou Percy.
Um rápido movimento da cabeça.
— E ele vive e trabalha dentro desta propriedade? — Perguntou

258
Percy.
Mas não houve resposta desta vez – apenas um ligeiro aperto dos
lábios do mordomo e um apagamento de sua expressão.
— Obrigado — disse Percy. — Você pode ir embora.
Olhou fixamente a porta fechada por algum tempo antes de olhar
para Knorr.
— Onde Mawgan é encontrado quando ele não está ocupado com a
jardinagem? — Ele perguntou.
Saíram da casa uns minutos depois, em vez de convocar o homem
para a casa.
******
— O que você deve pensar de mim? — Imogen disse enquanto
subiam as escadas juntas. A prima Adelaide tinha puxado seu braço
através do seu.
— Eu nunca encontrei um homem que eu pudesse amar e admirar,
Imogen — disse ela. — Sempre tive a convicção de que tal homem não
existia, embora eu nunca conhecesse seu Richard, exceto uma ou duas
vezes, talvez, quando ele era apenas um rapaz. Até muito recentemente
eu teria dito que lorde Hardford estava entre os mais inúteis de
todos. Estou mudando minha opinião sobre ele, mesmo que ele tenha um
ar de descuido sobre ele e é muito bonito para seu próprio bem. Eu acho
que se eu fosse da sua idade, eu poderia me apaixonar por ele também.
— Ela riu, um barulho profundo baixo que Imogen não conseguia se
lembrar nunca ter ouvido.
— Oh, mas não estou apaixonada por ele — protestou ela.
Aproximavam-se da escada e da sala de estar.
— Então você não tem desculpa para conversar com ele — disse a
prima Adelaide com firmeza. — Ou não teria desculpa se você estivesse
dizendo a verdade. Eu nunca pensei que eu diria a qualquer menina para
seguir seu coração, mas é isso que eu estou dizendo a você.
A prima Adelaide estava morando ali há algum tempo. Imogen

259
nunca a tinha aborrecido, mas nunca lhe ocorrera amar a prima
Adelaide. Não até agora.
— Obrigada, — disse ela, — por descer e oferecer para ser minha
acompanhante.
— Acompanhante? — Prima Adelaide riu novamente. — Eu vim
porque eu estava queimando com curiosidade.
E foi a vez de Imogen não acreditar.
Uma das gêmeas estava sentada na cadeira da velha senhora
quando entraram no salão, e a moça imediatamente se levantou e se
afastou. A prima Adelaide parecia antiquada quando estava sentada e
supostamente em voz alta e com óbvio desagrado falou que o chá
provavelmente estava frio como pedra na panela.
Todos olharam expectantes para Imogen, e ela tomou uma decisão
precipitada. Ela contou tudo – omitido o único detalhe da carta que se
referia a Percy como seu amante.
Quase antes que as senhoras parassem de exclamar e a Sra. Hayes
se apressasse a sentar-se ao lado de Imogen e tomar ambas as mãos dela,
os homens voltaram para a sala – todos exceto Percy. Todo mundo
zumbiu com o choque e indignação enquanto chá fresco e outro prato de
bolo foi trazido.
Então, surpreendentemente, o resto do dia prosseguiu com quase
normalidade, exceto pelo fato de que Imogen estava de volta em seu
quarto no andar de cima, quase como se a casa da viúva ainda estivesse
sem seu teto. Uma cama de armar foi montada em seu pequeno camarim
para a empregada particular da Sra. Hayes. Imogen não questionou a
escolha dessa criada em especial, mas adivinhou que quem quer que
tivesse tomado a decisão tinha medo de confiar em qualquer um dos
criados do salão, incluindo sua própria Sra. Primrose. Privacidade, é
claro, estava fora de questão. Aonde quer que fosse, alguém ia com ela,
geralmente mais de uma pessoa, incluindo pelo menos um cavalheiro,
exceto dentro dos limites de seus próprios aposentos. Foi tudo muito bem
feito, é claro. Nunca houve uma sensação de ser cercada por guardas.
A noite foi passada em torno do pianoforte na sala de estar ou
260
sentados em cerca de duas mesas de cartas. Na manhã seguinte,
domingo, todos foram para a igreja, Imogen se espremeu dentro de uma
carruagem fechada com dois tios de Percy e duas tias. Ela estava sentada
entre os mesmos casais em um banco da igreja com a família, tanto na
frente deles e atrás.
Ela estava flanqueada pelo Sr. Welby e pelo Sr. Cyril Eldridge,
quando todos saíram da igreja e ficaram parados por algum tempo no
pátio trocando notícias e cortesias com os vizinhos. Eldridge a devolveu
para a carruagem para a viagem de volta, e ela se espremeu entre as tias.
Era tudo bastante assustador, talvez mais ainda porque toda a
família permanecia tão alegre como sempre, como se nada tivesse
acontecido, como se eles não tivessem feito apenas a descoberta de que
estavam vivendo entre uma gangue de traficantes cruéis e que sua vida
estava em perigo se ela não conseguisse persuadir Percy, seu amante, a ir
embora e esquecer sua campanha para livrar sua terra do flagelo. Ela não
tinha dúvidas de que todos sabiam que ela tinha sido acusada de ser sua
amante, embora ela não tivesse dito às senhoras e tinha certeza de que a
prima Adelaide não teria feito isso. Talvez nenhum dos cavalheiros
tivesse dito qualquer coisa às senhoras tampouco, mas nenhum deles
eram estúpidos. A carta ameaçara-lhe o mal se não o fizesse sair. Porque
ela? A resposta deve ser óbvia.
E, através disso tudo, Imogen sentiu terrivelmente sua falta. Não
havia como, é claro, que o caso deles pudesse continuar enquanto ela
permanecesse nessa casa. Mas mesmo que ela pudesse voltar para sua
casa nos próximos dias, uma parte da nova situação não mudaria. Todos
agora sabiam ou suspeitavam. Seria sórdido continuar. Não tinha
parecido sórdido antes, embora talvez tivesse sido.
Seu caso, suas pequenas férias de sua vida, tinham se acabado.
Terminara abruptamente e muito antes que ela estivesse pronta. Mas
talvez fosse melhor assim. Ela estava gostando demas dele. E seus
sentimentos haviam se tornado muito envolvidos. Era bem melhor assim,
que terminasse agora, antes de se envolver ainda mais profundamente.
Mas oh, a dor de perde-lo...
O fim de seu caso pareca, de certa forma, doer mais do que a ameaça
261
daquela terrível carta, embora tivesse revelado que alguém sabia e estava
preparado para usar esse conhecimento de forma bastante implacável.
Era ainda pior saber que havia alguma conexão entre agora e depois.
Aqueles acontecimentos de dez anos atrás pareciam muito tristes na
época, mas podiam ter sido terrivelmente sinistros. Dez anos era muito
tempo. Mas ela estava tão certa, quanto poderia ser, que a pessoa que
tinha escrito esta carta também tinha escrito aquelas anteriores.
Ela estava muito assustada. Não apenas por si mesma – ela estava
sendo muito bem protegida – mas ela temia por Percy, que estava
perseguindo o assunto de forma bastante agressiva. Estava aterrorizada
por ele. Tinham matado o criado de Dicky. Ela estava convencida disso
agora, embora nunca lhe tivesse ocorrido naquela época. Mas por que? E
tinham quebrado as pernas de Colin Baines.
E, no entanto, com tudo isso misturado juntamente com o terror,
talvez até mesmo superando-o, o pior era a dor do fim abrupto de um
caso de amor.

VtÑ•àâÄÉ
VtÑ•àâÄÉ EE

A raiva tornou-se um estado permanente para Percy, embora ele


mantivesse sob controle enquanto ele continuava a se misturar com sua
família e amigos. Ele evitou ficar sozinho com Imogen. Ele pediu a seus
tios e amigos que ficassem de olho nela, e eles o fizeram. Não que eles
precisassem contar. Tampouco tinham as tias, primos e primos mais
jovens, que tinham sido informados sobre a situação, embora não
tivessem mostrado a carta. Eles se fecharam sobre ela, todos deles, como
as pétalas sobre o núcleo de um botão de rosa.
A maior parte da raiva de Percy estava dirigida contra si mesmo. Ele
havia colocado Imogen em risco em mais de uma maneira quando ele
tinha sido auto-indulgente o suficiente para começar um caso com ela. E

262
fazer uma declaração aberta de guerra contra o contrabando em sua
propriedade sem dúvida foi precipitado e mal considerado.
Ele merecia ser chicoteado.
Infelizmente, ele não poderia voltar atrás. Nunca poderia. Ele não
poderia reviver as últimas três semanas e tomar decisões diferentes. Nem
tampouco ele poderia viver como nos últimos dez anos. Ele só poderia
seguir em frente.
Sentia falta de Imogen com uma saudade que era quase bem-vinda.
Ele merecia toda dor e pior.
Sua determinação para chegar ao fundo das coisas em resposta a
essa carta tinha encontrado alguma frustração. James Mawgan tinha uma
casa de campo atrás dos estábulos, em um pequeno aglomerado de tais
casas. Ele não estava em casa quando Percy foi lá com Knorr no sábado à
tarde. Era o meio-dia do Sr. Mawgan, um vizinho explicou depois de
reverenciar a Percy, e às vezes ele ia ver sua mãe.
Ele não estava lá no domingo, um dia completo para a maioria dos
trabalhadores ao ar livre. E na segunda-feira ele partiu cedo com outro
dos jardineiros para ver sobre como obter algumas novas mudas para os
canteiros de flores e para a horta da cozinha.
— Finalmente, — comentou Knorr secamente, — o homem está
fazendo algo para ganhar seu salário. Vou colar nele quando voltar, meu
senhor.
Após o almoço, Percy e um grupo de primos mais jovens, incluindo
Meredith e Geoffrey, subiram ao topo das rochas atrás da casa, onde
foram recompensados com um vento forte e nuvens escorregadias sobre
uma extensão azul do céu e uma vista magnífica em todas as quatro
direções. Não teria surpreendido Percy se alguém lhe tivesse dito que
num dia realmente claro se podia ver Gales no norte e Irlanda no oeste e
França no sul.
E isso tinha agarrado algo nele. Seu coração? Não deveria estar
girando seus joelhos para geleia?
Geoffrey estava correndo ao longo do topo, seus braços esticados
para os lados, um iate de corrida gritando para o vento. Gregory estava
263
em perseguição.
O mal não podia continuar a prosperar aqui, pensou Percy, como
um crescimento canceroso no corpo de seu próprio povo. Não seria
permitido.
O Sr. Knorr o aguardava no salão de visitantes, informou Crutchley
quando voltaram para a casa.
Mawgan estava lá também.
— Ah — disse Percy enquanto o mordomo fechava a porta atrás
dele. — Espero que em breve os canteiros de flores ardem de esplendor,
Mawgan?
— É o meu plano, meu senhor — disse Mawgan.
— Ótimo — disse Percy. — Eu esperarei vê-la durante a primavera,
o verão e o outono.
Lá! Isso foi um desafio entre eles. Se ele realmente iria ficar era
incerto. Mas era bom que aqueles que o desejassem partir acreditassem
que ele estava planejando ficar, que sua determinação não tinha sido
abalada por nenhuma ameaça.
— Diga-me, Mawgan — perguntou Percy. — Você é um nadador
forte?
O homem parecia um pouco confuso. — Você tem que ser, se você
é um pescador — disse ele.
— Mas você não poderia salvar um homem que caiu ao mar? —
Perguntou Percy. — Não imagino que o mar tenha sido particularmente
duro. Como um pescador experiente você não ficaria de fora se tivesse
sido, não é? Certamente não com uma pessoa inexperiente.
— Ele lutou contra mim — disse Mawgan. — O idiota. Ele entrou
em pânico.
Knorr pigarreou.
— E então ele foi debaixo do barco, e bateu a cabeça — Mawgan
acrescentou.

264
— Eu pensei que foi você. — Percy olhou para ele.
— Nós dois fomos — disse Mawgan. — Eu estava tentando pegá-lo.
— Quem mais estava no barco? — Perguntou Percy.
— Meu pai, alguns outros — disse Mawgan vagamente. — Não me
lembro.
— Eu teria pensado — disse Percy — que todos os detalhes relativos
a esse trágico incidente estariam chamuscados em sua memória.
— Eu bati minha cabeça — Mawgan disse.
— E enquanto você estava se recuperando, — disse Percy, — Colin
Baines se ofereceu para ocupar o lugar do criado e seu pai ficou orgulhoso
com a perspectiva de ter um filho como ordenança para um visconde,
herdeiro de um condado, e então de repente, em uma inversão peculiar
de atitude, recusou-se categoricamente a deixar seu filho ir.
— Não sei nada sobre isso — disse Mawgan.
— Então Ratchett conseguiu o emprego — disse Percy.
— Ele falou por mim — respondeu Mawgan. — E Lorde Barclay
veio me ver.
— E quando você voltou da Península — disse Percy, — você foi
recompensado por seu serviço com sua posição atual junto ao meu
pessoal ao ar livre.
— Não foi culpa minha, o que aconteceu com o senhorio — disse
Mawgan.
— Não foi? — Percy perguntou suavemente, e os olhos do homem
se encontraram com os dele pela primeira vez. — Ou você foi enviado
para ter certeza de que de alguma forma, por meios justos ou sujos, o
visconde Barclay não voltasse para casa?
E foi outro desafio. Realmente não havia volta agora, podia?
Eles se entreolharam. Percy esperava incredulidade, choque,
indignação, algum olhar de forte negação. Em vez disso, conseguiu
apenas o olhar entrecerrado, que finalmente escorregou para longe dele,

265
e então a resposta mais antiga conhecida pelo homem.
— Eu não sei do que você está falando, — disse ele, — Meu Senhor.
— Eu não tenho certeza de como foi feito — Percy disse a ele, — mas
estou certo de que estava tudo acertado. Você recebeu suas ordens e você
as seguiu. Alguém deve ter tido muita confiança em você. Era uma
missão importante, não era? Mas não impossivelmente difícil – longe de
casa, uma guerra que estava matando milhares de altos e baixos graus,
nenhum vento de culpa para explodir sobre esta parte particular da
Cornualha. As probabilidades eram altas que aconteceria de qualquer
maneira sem qualquer intervenção de sua parte. Mas você estava lá há
mais de um ano, eu entendo. Você deve estar ficando impaciente e um
pouco ansioso.
— Eu não sei do que você está falando — Mawgan disse novamente.
— Se você acha que eu o matei, então é melhor você perguntar a sua... É
melhor você perguntar Lady Barclay. Os franceses o pegaram e o
mataram. Ela estava lá. Ela vai te dizer.
Sua...? Amante, talvez? Era o mais próximo que tinha chegado a um
deslize da língua.
— Suas ordens vieram, suponho, — disse Percy — de seu tio. Mas
me diga, Mawgan, ele estava agindo apenas como um agente para
alguém acima dele? O chefe, talvez, o líder da quadrilha, o chefão? Ou
estava agindo por conta própria?
Parecia impossível, inacreditável, risível – aquele velho empoeirado
e cambaleante, cercado pelos livros da propriedades, sempre escrevendo
neles com sua meticulosa e perfeita escrita, quase nunca deixando seu
escritório. Mas em que outros livros e relatos ele trabalhou alí? E ele nem
sempre fora velho, não é?
Paul Knorr não se mexera desde que Percy entrou no quarto. O
relógio na lareira, que Percy não tinha notado até agora, assinalou alto.
Foi permitido um terceiro desafio? Se assim fosse, ele também o
tinha lançado.
— Não sei do que está falando, — disse Mawgan — Meu Senhor

266
— Nesse caso — disse Percy — é melhor você voltar para sua casa.
Sr. Knorr, você pedirá a Mimms, meu criado pessoal, para acompanhar o
Sr. Mawgan, e ficar com ele? Eu falei com ele – por isso saberá o que você
está pedindo.
Quando eles se foram, Percy olhou sombriamente para o fogo
apagado por um minuto ou assim e então tomou-se fora com passo firme
ao escritório do administrador. Ele provavelmente deveria ter convocado
os oficiais da receita, pensou. Mas como poderia chamá-los para o mero
sopro de uma ideia sem sequer uma pitada de evidência real? Ele seria
motivo de chacota.
Ele supôs que todos os envolvidos perceberam – ou disseram-lhe –
que se ninguém dissesse mais do que “eu não sei sobre o que você está
falando” em resposta a qualquer pergunta sobre o assunto, todos estavam
perfeitamente seguros. Não havia nenhuma evidência contra alguém.
O único erro real cometdo até agora foi aquela carta para a Imogen.
Para alguém que era obviamente muito inteligente, tinha sido um erro
estúpido. Mas não eram provas.
Ele abriu a porta do escritório sem bater primeiro nela.
Os livros da propriedade estavam empilhados em prateleiras e
tampos de mesa e em um dos lados da mesa. Mas certamente metade do
seu número habitual estava faltando.
Assim como o mordomo.
É melhor ele nunca pensar em se candidatar a um cargo de
investigador com os agentes Bow Street, pensou Percy. Ele vinha
sinalizando suas suspeitas desde à tarde de sábado, quando ele tinha ido
bater na porta de Mawgan.
Ratchett tinha desaparecido, assim como todos os livros e livros
contábeis que presumivelmente, não eram registros da propriedade.

******
Eles estavam na praia novamente, uma grande festa deles, em uma
tarde gloriosamente ensolarada que parecia mais como primavera
completa do que mesmo início de março. E todos estavam felizes depois

267
de todas as tensões do dia anterior.
Imogen ainda se sentia um pouco entorpecida pelo choque. Sr.
Ratchett! Não só ele estava envolvido no círculo de contrabando que
tinha atormentado sua parte da costa por anos, mas também parecia
muito possível que ele era o líder, o organizador implacável e beneficiário
do comércio, o homem que governou seus subordinados com um punho
de ferro, mas cuja identidade muito poucos mesmo de seus próprios
homens sabiam ou suspeitavam. Não havia nenhuma prova que se
levantasse em um tribunal, mas o fato de que ele tinha desaparecido e de
que ele aparentemente tinha levado com ele metade do conteúdo do
escritório do mordomo era uma forte evidência corroborativa.
Ele vivia entre eles há mutos anos, um excêntrico aparentemente
inofensivo.
Imogen perguntou-se se seu sogro tinha alguma ideia.
Não era de admirar que tivessem tentado fazer Percy partir assim
que chegasse. Não era de admirar que eles tivessem recorrido a ameaças
quando ele não só se recusou a ceder, mas também declarou guerra ao
comércio em sua terra.
Oh, como tinham tido tudo à sua maneira durante os últimos dois
anos, com apenas duas mulheres inocentes vivendo na casa principal e
uma na casa da viúva!
E parecia mais do que provável que Mr. Mawgan tivesse afogado o
criado de Dicky. Mas o que tinha perturbado Imogen mais do que
qualquer outra coisa e a manteve acordada durante a maior parte da noite
passada, ouvindo o ronco leve da criada da Sra. Hayes, era a teoria
igualmente não comprovada de que James Mawgan era um tenente de
confiança do exército de Ratchett, seu herdeiro aparente, e que tinha sido
cuidadosamente organizado para ele tosse acompanhar Dicky para a
Península com missão de garantir que ele não voltasse.
Mas... Foi uma penca de escoteiros franceses que os tinha apanhado
nas colinas de Portugal. James Mawgan não poderia ter nada a ver com
isso. Ele poderia?
Ele tinha sido posto brevemente sob prisão domiciliar ontem. Mas
268
com o desaparecimento do Sr. Ratchett não havia motivos para prendê-
lo, e o cavalariço de Percy, que estava guardando sua casa, fora retirado.
James Mawgan também tinha desaparecido quando Sir Matthew
Quentin mandou buscá-lo mais tarde à noite para interrogá-lo ainda mais
na qualidade de magistrado local.
Percy mandara chamá-lo e Sir Matthew, por sua vez, convocara um
funcionário da alfândega, que chegara tarde. Os três, bem como o Sr.
Knorr, tinham conferido bem na noite. Enquanto isso, Elizabeth, que
acompanhara o marido, sentara-se na sala de estar segurando uma das
mãos de Imogen e ouvindo a história contada e recontada por todos os
demais que ali se reuniam.
Os quatro homens haviam passado toda manhã juntos novamente,
conduzindo entrevistas tanto na casa como em Porthmare. Já as senhoras,
com uma escolta masculina, haviam falado sobre – o que para Imogen
pareceu – preparações inúteis para a festa que se realizaria dentro de
quatro dias. Os criados tinham as tarefas de limpeza e manutenção bem
adiantadas, e a cozinheira tinha o cardápio totalmente organizado.
Esta tarde, finalmente, eles estavam relaxando. O Sr. Wenzel e Tilly
tinham chegado à casa logo após o almoço, cheio de preocupação com as
notícias. As três irmãs Soames chegaram logo depois com seu irmão para
ver se os jovens se importavam em caminhar com eles. O Sr. Alden Alton
veio atrás deles, acompanhando Elizabeth, que tinha vindo para estar
com Imogen já que o senhor Matthew não tnha conseguido entregar
nenhuma notícia muito reconfortante no almoço. E todos na casa estavam
explodindo por ar e exercício. Pelo menos, os mais jovem estavam. As
pessoas mais velhas pareciam muito agradecidas ao ver Imogen ser
levada para longe, cercada por um grande corpo de jovens exuberantes,
bem como pelo Sr. Welby, pelo Visconde Marwood, pelo Sr. Cyril
Eldridge e Percy.
Uma série de destinos possíveis tinha sido sugerido, mas quase
inevitavelmente eles tinham acabado por descer o caminho para a praia
como uma serpente longa e lenta e, em seguida, brincado na areia. Um
certo número de Guarda-sol foram levantados acima das capotas
enquanto seus proprietários conversavam e riam e flertavam. Os chapéus

269
altos foram pressionados mais firmemente em cima das cabeças embora
não houvesse muito vento, e seus proprietários olharam pesarosamente
para baixo em cima das botas que perderam rapidamente seu brilho sob
uma fino camada de areia. Hector, com tantas pessoas querendo jogar
itens para ele perseguir, acabou perseguindo seu rabo atrofiado.
E, no entanto, Imogen notou que a cena não era tão despreocupada
quanto poderia parecer a um estranho. Ela caminhou por um tempo com
seus dois amigos, um de cada lado dela, cada um com um braço ligado
através do seu próprio. Mas um número de cavalheiros, sem fazer nada
óbvio, formou um círculo solto sobre ela e dirigiu olhares frequentes para
o topo das falésias.
Sr. Wenzel, Imogen estava interessado em notar, depois de mostrar-
lhe toda a devida preocupação na casa, estava andando de braços dados
com Meredith, um pouco para além de todos os outros.
E então, quase como se o movimento tivesse sido orquestrado,
Elizabeth e Tilly se afastaram para conversar com outros membros do
grupo, todos os outros voltaram um pouco para que o círculo sobre
Imogen se tornasse maior e ela se encontrasse andando ao lado de
Percy. Ele não ofereceu seu braço, e ela apertou suas mãos firmemente
atrás de suas costas. Eles pareciam de repente isolados em um pequeno
casulo de quase privacidade.
— Eu sinto sua falta — ele disse suavemente.
Ela sofreu por ele enquanto levantava o rosto para o céu azul e
observava um par de gaivotas perseguindo-se sobre a cabeça.
— Dicky nunca ia voltar para casa, não é? — Ela disse. — Deve ser
um negócio extremamente lucrativo. Sr. Ratchett, se é realmente for ele,
deve ser enormemente rico, bem como poderoso. Por favor, encontre-o,
Percy, e destrua seu poder e libere todas as pessoas que fazem o seu lance
por medo.
— Eu vou — prometeu, embora ambos soubessem que suas chances
de cumprir aquela promessa eram mínimas na melhor das hipóteses.
— Imogen — disse ele, — reserve cada valsa no baile para mim. Por
favor?
270
Ela virou a cabeça e olhou para ele por um instante. Era quase sua
ruína.
— Não posso fazer isso — disse ela. — Talvez nem mesmo
uma. Todos – todos eles – acreditam que somos amantes, e a coisa terrível
é que elas estão certas. Ou estavam certos. Fui justamente punida. Você
vai partir daqui depois do baile, quando todos os seus convidados forem
embora?
— Provavelmente, — disse ele, — mesmo que apenas
temporariamente. Quero levá-la para a segurança. Quero levá-la para
Londres.
— Eu vou estar indo para Penderris na próxima semana — ela
lembrou. — Eu estarei lá por três semanas. Eu acho que George vai tentar
persuadir-me a ficar mais tempo e que cada um dos outros vai tentar me
convencer a ir com ele. Eles são bons amigos.
— E eu sou seu amante — disse ele. — Vá lá primeiro, se quiser, mas
depois venha para Londres comigo e case comigo. Eu prefiro um
casamento grande sociedade em St. George's na Hanover Square. Não
é? E eu nunca pensei que iria me ouvir dizer isso. Venha comigo e case
comigo, Imogen, e deixe-me mantê-la segura para o resto de sua vida.
A infelicidade a assaltou como uma grande bola de chumbo em seu
estômago, pesando-a, congelando-a, para que ela não visse mais o céu
azul e o sol. As duas gaivotas, brincando há um momento, agora
choravam tristes.
— Não posso me casar com você, Percy — disse ela.
— Você não me ama? — Ele perguntou.
Ela fechou os olhos brevemente quando ele parou para acariciar
Hector na cabeça e depois olhou para o alto do penhasco.
— Eu gosto muito de você — disse ela.
Ele falou a mesma palavra chocante que tinha pronunciado quando
viu sua carta. Desta vez ele se desculpou.
— Mas eu preferiria que você me odiasse — acrescentou. — Há
paixão no ódio. Há esperança nisso.
271
— Você não precisa se casar comigo — disse ela. — Eu tenho
amigos.
— Malditos sejam seus amigos, — ele disse, e pediu desculpas
novamente. — Suponho que você está falando sobre os companheiros
Sobreviventes em vez de seus vizinhos aqui. Estou começando a não
gostar deles intensamente, você sabe, Imogen. Algum deles te ama? Há
um bilhão de graus de amor, eu sei. Mas você sabe o que quero dizer.
Algum deles te ama, do jeito que eu te amo?
Sua boca estava seca. Seus joelhos estavam fracos. A luta para parar
de chorar fez sua garganta se sentir crua com dor.
— Para usar sua própria palavra, — ela disse, — nós fizemos sexo
juntos, Percy, e foi bom. Não deveria ter acontecido, mas aconteceu e foi
bom. No entanto, já passou. Eu gosto de você. Eu sempre gostarei. Mas
tudo acabou.
— Você não sabe como me tenta, — disse ele, — para desencadear
sobre você o arsenal cheio de vocabulário colorido que eu normalmente
reservo para orelhas masculinas e que apenas em raras ocasiões.
— Sim — disse tristemente. — Acredito que sei. Mas você voltará a
Londres e logo me esquecerá.
— Bem, — disse ele, — que exige o menos ofensivo e mais
insatisfatório item desse arsenal. Droga! Maldito! E não espere um
pedido de desculpas. Ah, eu sinto muito, meu amor. Eu realmente
sinto. Eu perguntei, você respondeu, e como um cavalheiro eu deveria
ter começado a conversar educadamente sobre o tempo. Me perdoa?
— Sempre — disse ela.
— Perguntarei de novo — disse ele — talvez na noite do baile. Seria
um cenário adequado e romântico, você não concorda, e nós poderíamos
fazer o anúncio aos nossos convidados reunidos. Eu acredito em você,
você vê, quando você diz que gosta de mim. No entanto, eu não acredito
que você tenha falado a verdade completa e nada mais que a
verdade. Perguntarei novamente, mas tentarei não incomodá-la. Que é
precisamente o que estou fazendo agora. Você confia neste tempo? Ou
seremos obrigados a sofrer com tempestades e resfriados para o resto da
272
primavera? Eu nunca confio no tempo. Dá com uma mão e depois oferece
um golpe de nocaute com o outro punho. Se, é claro, fingimos não estar
desfrutando do sol e do calor um pouco, então talvez possamos enganar
a fada do tempo para nos dar mais do mesmo apenas para nos manter
infelizes. Você não acha? Você é um bom ator? É um dia terrivelmente
cansativo, não é? A luz do sol obriga alguém a esbugalhar.
E, incrivelmente, ela acabou rindo. Ele continuou, tudo sobre o tema
do tempo, ficando cada vez mais absurdo. E ele estava rindo também.
Cortou como uma faca, o som de seu riso e essa sensação
borbulhando dentro dela. Doía que ele a amasse, e que acreditasse que
ela o amava.

VtÑ•àâÄÉ
VtÑ•àâÄÉ EF

Em menos de um mês, Percy pensou várias vezes nos próximos


dias, ele tinha feito uma bagunça completa de sua própria vida e
inúmeras outras pessoas. E não havia conclusão satisfatória para
qualquer coisa e muito provavelmente não seria.
Sir Matthew Quentin achou que estava louco. Ele não tinha
exatamente dito isso, era verdade. Na verdade, ele até elogiou Percy por
ter a coragem de falar quando ninguém mais havia há anos. Mas ele ainda
achava que Percy estava louco. E Quentin poderia ter sido um amigo ...
bem, ainda poderia, de fato. Percy gostava dele.
O funcionário da alfândega estava simplesmente frustrado, mas
isso, concluiu Percy, era provavelmente seu estado natural. Perseguir os
contrabandistas quando eles estavam envoltos por uma conspiração de
silêncio não era o mais invejável dos empregos.
Todos na casa e na vizinhança haviam sido agitados, mas sem
propósito. Tudo parecia inútil, exceto que talvez toda a organização
pudesse desmoronar se os líderes tivessem sido abalados o
273
bastante. Embora fosse a palavra-chave. Talvez Ratchett não fosse o chefe
ou Mawgan seu braço direito. E mesmo que fossem, eles podem muito
bem estar se estabelecendo em outro lugar sem ter perdido nenhum de
seu controle sobre seus seguidores.
Talvez Imogen ainda estivesse em perigo. E talvez as ações de Percy
até agora apenas os tivessem feito mais inclinados à vingança. Eles
sabiam muito bem que a pior coisa que podiam fazer com ele era ferir
Imogen.
Inferno, mas ele estava desesperado para levá-la para longe daqui,
de preferência para Londres, onde ele conhecia um monte de gente e
talvez ela também, onde uma quadrilha de contrabandistas da Cornualha
seria improvável para persegui-la. E ele estava desesperado para se casar
com ela para que ele pudesse mantê-la segura dentro de sua própria casa,
cercada por seus próprios servos escolhidos a dedo, e segura dentro de
seus próprios braços, dia e noite.
Ele pensou que ela poderia concordar. Ele realmente tinha pensado
nisso. Oh, ela havia dito que nunca mais se casaria, era verdade, e ele
sabia que muito mais dano lhe tinha sido causado pelos acontecimentos
dos últimos oito ou nove anos do que ela tinha admitido a ele. Ele sabia
que havia uma lacuna em sua história, e que saber o que estava naquela
lacuna iria explicar tudo. Mas... Ela nunca poderia deixá-lo ir? Ele tinha
pensado – maldito seja tudo, ele estava ciente – que seu caso tinha sido
mais que sexo para ela, mais do que gratificação sensual. Ele tinha tido
casos antes. Ele sabia a diferença entre esses e isso.
E maldita seja tudo para o inferno, ele tinha dito a ela que ele a
amava, grande imbecil que ele era. Ele não sabia que iria dizer isso, esse
era o problema com ele. Ele não tinha sequer noção que ele queria dizer
isso até que as palavras saíram. Ele tinha percebido que ele estava
apaixonado por ela, mas isso era apenas uma emoção eufórica
dependendo fortemente do sexo. Ele não tinha percebido plenamente que
a amava até que ele disse a ela. E havia o problema com a linguagem
novamente. De quem foi a ideia de inventar uma única palavra – amor –
para cobrir mil e dois significados?
Ela o havia recusado, e – o corte mais cruel de todos, para citar

274
algum – ela lhe dissera que gostava dele. Era quase o suficiente para fazer
um homem querer explodir seu cérebro para fora de ambas as direções
ao mesmo tempo.
Ela estaria segura aqui novamente? E ele já seria capaz de viver aqui
novamente, mesmo se ela estivesse segura? Se ela não se casasse com ele,
ele teria que ficar longe. Esta era a casa dela.
Mas, inferno e condenação, era dele também. O engraçado era que,
embora tivesse crescido em Castleford House e tivesse tido uma infância
feliz lá, agora nunca pensava nisso como em casa. Era a casa de seu pai,
e de sua mãe, mesmo que ele fosse o dono. Hardford Hall – logo pensa –
e sente-se como em casa. Sente-se como em sua casa.
E ele tinha estragado tudo. Se tudo isso tivesse sido um curso de
salto de cavalo, ele teria deixado cada cerca isolada em farrapos atrás
dele. Esses pensamentos e emoções chocalharam seu cérebro enquanto
dividia seu tempo entre suas obrigações sociais e reuniões e
entrevistas. Com apenas dois dias antes de seu baile de aniversário
atrasado, sua mãe e as tias ficaram quase febris com ansiedade de que
elas tinham esquecido algo essencial, como enviar os convites. Ao mesmo
tempo, a casa, que parecia limpa e arrumada para ele a partir do
momento em que ele tinha pisado sobre a soleira e olhou em volta para
as teias de aranha, assumiu um brilho e um brilho que quase forçado a
usar um olho sombra. Não era só o salão de baile que estava sendo
reformado e limpo de tronco para popa, parecia.
A prima Lavínia foi ao banco de piano no salão várias vezes ao dia
para tocar várias músicas de dança enquanto os primos jovens – e alguns
dos mais velhos também – praticavam os passos. Cirilo, a quem Percy às
vezes acusara de ter dois pés esquerdos, empreendeu ensinar os passos
da valsa. Esse foi um exercício que resultou em algum progresso e um
acidente espetacular no chão quando o jovem Gregory pôs os pés
irremediavelmente emaranhados com o de Eva – ou quando ela
conseguiu enredar o dele com o dela, dependendo de qual deles estava
contando a história. Nenhum osso estava quebrado.
Dois dias antes da baile, houve finalmente progresso na outra área
também. Alguém quebrou o silêncio. Paul Knorr, que se instalara no

275
escritório do mordomo e dispunha da maior parte, se não da poeira, e
encontrou casas para todos, exceto os livros de contas correntes dentro
de armários, enviou Crutchley para a sala de visitas para pedir que sua
senhoria viesse vê-lo.
— A sala tem o dobro de tamanho, — disse Percy quando chegou
lá. — Finalmente eu vou gostar de passar o tempo aqui. Acho que isso foi
deliberado, embora – fazendo com que a sala parecesse um lugar que
ninguém queria.
— Baines — disse-lhe Knorr depois de se pôr de pé — a mão estável
com as pernas tortas, falou com Mimms há pouco, milorde.
— E? — Percy fez um gesto para que seu mordomo se sentasse de
novo, e puxou uma cadeira para si mesmo do outro lado da mesa.
— Foi uma troca muito breve, — disse Knorr. — Ele não queria ser
visto conversando com seu cavalariço pessoal. Ele pediu a Mimms para
lhe dar uma mensagem – de Annie Prewett, a empregada doméstica
surda-muda.
Percy se inclinou para frente na cadeira e levantou as
sobrancelhas. — Uma mensagem de um surdo-mudo?
— Eu entendo por Mimms — disse Knorr — que Baines a conheceu
desde que eram crianças e sempre esteve perto dela. De alguma forma
eles aprenderam a se comunicar. Ela ajudou a alimentá-lo depois que
suas pernas estavam quebradas. Eles ainda são amigos, talvez até mais
do que isso.
— E? — Percy olhou para ele.
— Ela estava limpando a casa de Mawgan, um de seus deveres
regulares, aparentemente, quando Ratchett veio lá logo após sua reunião
— Knorr disse. — Eles fizeram planos para fugir para Meirion e se
esconder.
— Eles planejaram isso na presença dela? — Percy estava franzindo
a testa.
— Em sua presença, meu senhor? — Knorr meio que sorriu. — Mas
ela não pode ouvir, não é? Ou falar. Acho que a maioria das pessoas

276
assume que ela é uma imbecil, se a notarem em tudo. Ela é um pouco
invisível, na verdade, eu diria.
— Por que Meirion? — Percy ainda estava franzindo a testa.
— Baines disse a Mimms para lhe dizer que há um carpinteiro lá —
disse Knorr. — Eu acredito que ele fez reparos para o telhado da casa da
viúva há pouco tempo, embora eu não posso ver nenhuma menção da
despesa nos livros. Ele é casado com uma irmã de Henry Mawgan,
falecido pai de James Mawgan. E Mawgan às vezes fica com sua tia em
seus dias de folga, porque ele está saindo com uma garota da aldeia – ou
é essa a razão que ele dá, de qualquer maneira.
— Tidmouth? — Percy olhou para ele. E as peças de alguma forma
cairam no lugar. Imogen longe na casa do seu irmão por várias semanas
durante o Natal. Tidmouth atrasando o trabalho de reparo mesmo que
ela tivesse dado as instruções necessárias antes dela patir e o trabalho era
provável ser lucrativo. Continuando a demorar após o seu regresso,
embora ela fosse uma senhora titulada e alguém poderia ter esperado que
ele iria cair sobre si mesmo em sua ânsia de servi-la. A adega da casa da
viúva tinha sido usada novamente para o armazenamento de
contrabando durante aqueles meses, como sendo muito mais seguro e
conveniente do que a casa principal? Percy não imaginou que algumas
fechaduras e selos teriam colocado muito problema, especialmente com
o telhado aberto para os elementos e qualquer pessoa que se preocupasse
em subir por ele.
Ele colocou a mão sobre a mesa.
— Eu conheço a loja do homem, com sua casa acima dela — disse
ele. — É lá que eles estão se escondendo, Paul? Eu quero eles. Quero este
círculo esmagado. Não basta simplesmente expulsá-los da minha terra.
Eles continuarão a aterrorizar todo mundo e ser uma ameaça à segurança
de Lady Barclay enquanto eles tiverem permissão para se instalarem em
outro lugar e tratar o que aconteceu aqui como um mero revés.
— Eu tomei a liberdade — disse Knorr — de enviar Mimms para
convocar Sir Matthew Quentin, meu senhor, e o oficial da alfândega se
ele ainda estiver na estalagem.

277
— Obrigado — disse Percy. — Eu acredito que você vai valer o seu
peso em ouro, Paul.
— É melhor não dizer isso de novo — disse Knorr. — Posso exigir
um aumento pesado.
Sir Matthew chegou dentro de uma hora, trazendo o oficial da
alfândega com ele. E cinco horas depois disso, uma inspeção foi feita na
loja de Tidmouth e em sua casa em Meirion. Ambos Ratchett e Mawgan
estavam lá. Ambos juraram por sua inocência. Ratchett alegou ter
decidido se aposentar. Mawgan alegou ter renunciado como resultado de
seu tratamento insultuoso nas mãos de sua senhoria e do subcomissário.
Eles tinham vindo para uma curta estadia na casa de um parente, ambos
disseram. E isso poderia ter sido o fim da questão se um grande número
de livros empoeirados não tivesse sido descoberto dentro de dois troncos
trancados em um canto distante do sótão de Tidmouth sob pilhas de lixo
descartado do tipo que tende a preencher sótãos em todos os lugares.
Ambos os homens foram levados sob custódia, assim como
Tidmouth, protestando em voz alta contra sua inocência.
Foi na manhã seguinte, quando Mawgan quebrou o
questionamento combinado de Sir Matthew e do funcionário
alfandegário, enquanto Percy estava em um canto do escritório de
Quentin e ouviu. Ele poderia ser acusado de assassinato em conexão com
a morte de afogamento do falecido Henry Cooper, criado do visconde
Barclay, Sir Matthew informou a ele. Mawgan poderia estar disposto a
correr o risco de não haver provas suficientes para uma condenação, mas
devia ser avisado que os outros dois homens que estavam no barco com
seu pai, ele e o criado tinham sido identificados e encontrados. Suas
evidências o condenariam – a menos que ele pudesse depositar uma
confiança absoluta em seu silêncio restante. A escolha era dele – ariscar
tudo em um julgamento de assassinato com a certeza de que ele iria ser
enforcado se ele fosse condenado, ou ser julgado a acusação menor de
contrabando, se ele admitisse o assassinato e contasse toda a história em
torno dele, incluindo suas ações em Portugal.
Mawgan empalideceu com a menção de enforcamento.
Parecia que tinha sido realmente enviado a Portugal para ter certeza
278
de que Lord Barclay nunca voltasse para casa. Ele esperara
pacientemente pela guerra para dispor de sua senhoria, que tinha
teimosamente se recusado a fazer por mais de um ano. Então, quando
eles estavam nas montanhas um dia, ele estava procurando por lenha –
ele realmente estava – jurou – quando foi surpreendido por um grupo de
soldados franceses que estavam examinando atrás das linhas inimigas.
Eles perceberam que ele era inglês, mas antes que eles pudessem fazer
qualquer coisa para ele, ele lhes disse que poderia levá-los a um prêmio
muito mais valioso na forma de um oficial de reconhecimento britânico
de uniforme e em seu caminho para realizar uma missão secreta por trás
das Linhas francesas, sua cabeça cheia de segredos, sua esposa com ele.
Ele os levaria ao par se eles o deixassem ir. Eles fizeram, em uma rédea
muito solta, e ele levou-os para Lorde e Lady Barclay e, em seguida, fez
a sua fuga para elevar o alarme.
— Eu não tinha escolha — disse ele mal-humorado. — Era eu ou
eles, e por que deveria ser eu? Eu tinha colocado em mais de um ano do
meu tempo lá fora, naquele inferno. Eu não o matei por tudo isso. Você
não pode colocar esse assassinato em mim.
Percy falou, embora estivesse lá por causa do sofrimento, sabia ele,
não sendo qualquer tipo de oficial da lei.
— Você pode ser aconselhado a falar toda a verdade, Mawgan, —
disse ele, — considerando as apostas altas pelas quais você joga.
Todos ficaram surpresos em seu caminho.
— Você quer que acreditemos — perguntou Percy — que procurar
lenha sozinho em colinas potencialmente perigosas, permitiu que você
fosse tomado de surpresa? E que seus captores o deixaram ir livre para
conduzi-los em o que pôde bem ter sido uma perseguição selvagem ao
ganso?
— Posso lembrá-lo, Mawgan — disse Sir Matthew — das possíveis
consequências de ser julgado pelo assassinato de Henry Cooper.
— Eu os vi — disse Mawgan depois de um curto silêncio. — Mas
eles estavam indo no caminho errado. Era a única chance real que eu
tinha tido em mais de um ano, menos de matá-lo eu mesmo. Tirei minha

279
camisa e amarrei-a ao meu mosquete e segurei-a e mostrei a mim
mesmo. Foi um dia ventoso.
— Então, você tinha o mosquete com você? — perguntou Sir
Matthew.
— Claro que sim — disse Mawgan com desdém. — Eu entrei sob
uma bandeira da trégua e disse-lhes que tesouro eu poderia os conduzir
se jurassem me deixar ir. Felizmente dois deles falavam inglês. Eles me
perguntaram por que, e eu disse-lhes que era pessoal. O resto aconteceu
como eu disse. Eu não o matei. Lady Barclay pode atestar isso.
— Não diretamente — concordou Sir Matthew, — embora possa ser
argumentado que você o vendeu em sua morte. Mas pode haver outros
também, Mawgan. Houve uma série de mortes e mutilações com
conexões óbvias ao comércio do contrabando. Podemos muito bem ser
capaz de pegá-lo por assassinato ainda. Pelo menos eu acredito que você
vai passar muitos anos atrás das grades e colocado em trabalho duro.
Percy saiu da sala e fechou a porta atrás dele. Ele não tinha certeza
se ele se sentia triunfante ou não. Na verdade, ele se sentiu um pouco
achatado, ele decidiu. Ele supôs que ele tinha imaginado o clímax
envolvendo-o em uma luta feroz de espada no caminho do penhasco, ele
mesmo contra uma meia dúzia de vilões cruéis e, em seguida, uma
descida para combater uma dúzia mais, a fim de entrar na caverna para
resgatar uma Imogen amarrada antes da maré excepcionalmente alta
chegasse a ela primeiro. E então uma desesperada subida pelo penhasco,
sua forma desmaiada sobre um ombro, porque a maré tinha cortado o
acesso ao caminho. Vivas e elogios de todos. Uma mulher chorosa e
agradecida, ele mesmo todo ardor, em um joelhos, propondo casamento
– novamente – e levando-a para o altar e felizmente, sempre com os sinos
das igrejas tocando e as flores caindo em cascata ao redor de suas cabeças.
Às vezes, mesmo na privacidade de sua própria mente, ele poderia
se envergonhar horrivelmente. Ele deveria escrever a história e tê-la
publicada pela Minerva Press – sob seu próprio nome.
Mas havia algo anticlímax sobre este fim menos glorioso para o
negócio, embora fosse satisfatório em todos os aspectos essenciais. Eles
sem dúvida tinham os líderes. Ratchett, quando confrontado novamente,
280
se veria incapaz de manter qualquer pretensão de inocência à luz da
confissão de seu sobrinho-neto e da evidência dos livros que haviam sido
encontrados. Não significava necessariamente que o contrabando iria
parar na área para todos os tempos, mas isso significava que ele poderia
controlá-lo em sua própria terra, e seria consideravelmente enfraquecido
em outro lugar se ele de alguma forma sobreviver.
Imogen estava segura, embora ele ainda não quisesse que ela ficasse
sozinha por um tempo ainda. Não até que os julgamentos tivessem
ocorrido e os principais autores – incluindo aqueles que ainda não
haviam sido apreendidos – estivessem atrás das grades para sempre e a
sensação de que tudo tinha acabado.
Ele se sentiu triste que o assassinato do valet, Cooper, não tinha sido
vingado por tanto tempo e que agora a decisão tinha sido feita para
oferecer Mawgan uma anistia condicional sobre essa acusação dada a sua
confissão sobre todo o resto. Mas a decisão não fora sua. E tinha
funcionado. Se Mawgan e Ratchett não foram finalmente acusados de
acessórios para o assassinato de Richard Hayes, o visconde Barclay, no
entanto, ele gostaria de saber o porquê.
No momento, não era mais seu negócio.
E amanhã havia uma baile para a qual se preparar.
A vida era um negócio estranho.
******
Imogen sentia-se tão plana quanto uma panqueca, se essa era uma
imagem adequada para descrever o sentimento vazio por dentro que ela
não tinha conseguido abalar desde ontem. Ratchett e James Mawgan
estavam sob custódia, assim como o Sr. Tidmouth, e ambos, Percy e Sir
Matthew, estavam confiantes de que o comércio de contrabando iria
desmoronar sem eles. Tinha havido mais algumas detenções também de
homens de alto escalão da quadrilha que James Mawgan tinha nomeado,
e havia outros a serem perseguidos por ações criminosas que não podiam
ser ignorados – os homens que tinham quebrado as pernas de Colin
Baines, por exemplo. Mas, além disso, não haveria caça às bruxas para os
soldados, para aqueles que haviam feito o trabalho de contrabando, quer

281
por um pouco de dinheiro extra, ou porque não tinham escolha. Tais
homens eram improváveis reorganizar sem seus líderes.
Ela devia estar feliz, Imogen disse a si mesma enquanto se vestia
para o baile. Todos haviam sido exuberantes ontem quando Percy voltou
da aldeia com suas notícias. Tinha havido elogios e risos e até
champanhe. Todas as damas e primos, assim como Tilly, que estava
visitando na época, abraçaram Imogen e até a beijaram. Dois dos tios a
abraçaram também. E assim também Percy.
Ela não acreditava que ele tinha a intenção de fazê-lo, mas sua mãe
tinha acabado de abraçá-la e se virou para colocar uma mão em seu
braço. E de algum modo seus braços vieram sobre Imogen e os dela sobre
ele e eles se abraçaram mais forte e por um pouco mais do que
deveriam. Ele não a tinha beijado, mas ele levantou a cabeça e olhou
profundamente em seus olhos por alguns momentos antes de soltá-la.
Todos à sua volta estavam felizes. Sua mãe tinha as mãos
entrelaçadas ao peito e lágrimas nos olhos. Imogen tinha se afastado para
curvar-se sobre a cadeira da prima Adelaide e sorrir para ela e beijar sua
bochecha. Então, ela deu um tapinha na cabeça de Bruce, que se esforçara
o suficiente para se pôr de pé e vir farejar suas saias.
Todos, sem exceção, haviam aconselhado a ela, para sua própria
segurança, que não voltasse para a casa da viúva até que ela voltasse do
Penderris Hall no final do mês. Entretanto, ela tinha liberado a
empregada da Sra. Hayes ontem à noite para dormir em seu próprio
quarto novamente.
Mas a empregada havia voltado esta noite, sob as estritas instruções
da Sra. Hayes, para arrumar o cabelo de Imogen para o baile. Suave e
elegante simplesmente não seria, era o que parecia. Tinha de haver pelo
menos alguns redemoinhos e cachos e algumas ondulações para rastrear
ao longo de seu pescoço e sobre suas têmporas.
Ela estava usando um vestido de cetim marfim e cintura alta,
coberto com uma túnica de renda dourada, que comprara em Londres há
dois anos atrás e usado apenas duas vezes lá. Sempre parecia muito
elegante para o Campo. Mas esta noite era uma ocasião especial. A casa
estava quase irreconhecível, o que com todas as superfícies reluzentes e
282
lustres brilhantes e as margens de flores da primavera em todos os
lugares. E, como os espíritos de Imogen estavam meio para baixos e
soltos, ela deveria se aproximar da ocasião. Era a trigésima festa de
aniversário de Percy, para a qual um número impressionante de sua
família e amigos haviam viajado longas distâncias e em que todos os
vizinhos de um raio mais largo do que apenas Porthmare e seus arredores
se reuniriam para acolher o Conde de Hardford finalmente em casa.
Ela parecia bem o suficiente, ela pensou enquanto a empregada
apertava suas pérolas sobre seu pescoço e ela olhava para si mesma no
espelho. As cores eram um pouco mudo, talvez, mas com a adição de um
sorriso...
Ela sorriu.
— Obrigada, Marie — disse ela. — Você fez maravilhas.
— É fácil fazer maravilhas com você, minha senhora — disse a
criada, curvando-se antes de sair.
Imogen celebrou com deliberada intenção toda a longa noite – quase
toda. Ela sorriu e dançou com um parceiro diferente a cada vez. Ela
dançou a primeira valsa com o Sr. Alton, a segunda com um elegante
cavalheiro que ela mal reconheceu desde que ele vive vinte milhas de
distância e eles concordaram que deve ter dois anos desde que eles se
viram pela última vez. E na ceia, para qual refeição ela se sentou com o
visconde Marwood e o Sr. Welby e Beth, um anúncio de noivado foi
feito. Levou todos de surpresa, exceto talvez aqueles que estavam mais
preocupados. – Sra. Meredith Wilkes, o Sr. Wenzel anunciou, olhando
decididamente com rosto vermelho, tinha acabado de fazer dele o mais
feliz dos homens. Depois de um namoro de duas semanas! Mas Meredith,
também corando, parecia que era a mulher mais feliz.
A família celebrava, como sempre, com exclamações de alegria e
abraços e beijos gerais.
— Mas Tilly — disse Imogen, repentinamente atingida ao abraçar a
amiga, — o que vai acontecer com você?
— Bem, — Tilly disse a ela com um sorriso, — eu gosto muito de
Meredith, mesmo que eu esperasse, não há muito tempo, que talvez fosse
283
você quem seria minha cunhada. Você tem perspectivas mais brilhantes,
no entanto, e Andrew está mais feliz do que eu já vi ele. Eu acredito que
Meredith gosta de mim também. Mas não estou sem esperanças,
Imogen. Minha tia Armitage quer que eu vá para Londres para a
temporada para lhe fazer companhia, agora que todas as suas filhas
voaram do ninho. Ela afirma ter todo um regimento – suas palavras – de
cavalheiros elegíveis aguardando minha inspeção. Talvez eu seja
mimada pela escolha se eu for, e eu acredito que vou. Já sei que vou, isso
é. — Seus olhos cintilaram.
Tilly tinha vinte e oito anos de idade. Tinha uma figura elegante e
um rosto aberto e agradável, mesmo que não fosse muito bonita. Ela
também tinha uma disposição agradável e uma tendência para ver o
humor na maioria das situações.
E então a Sra. Hayes abraçou Imogen.
— Bem, — ela disse, — eu não poderia estar mais encantada com o
anúncio. Meredith perdeu seu marido antes mesmo de Geoffrey ter
nascido e antes de completar vinte anos. Ela merece felicidade. Mas devo
confessar que eu poderia estar tão feliz com outro anúncio semelhante.
Suponho que Percy tenha desenvolvido pés frios, o homem
provocador. Mas dê-lhe tempo. Eles vão aquecer, e parece-me que eles
estão bem no seu caminho para fazê-lo.
Ela riu alegremente quando se virou para oferecer seus parabéns ao
Sr. Wenzel.
E então, com o final da ceia todos voltando ao salão de baile, Percy
veio pedir a mão de Imogen para o que seria um conjunto energético de
danças campestres. Ele não a levou para a pista de danca, no entanto.
— Vá buscar seu manto — disse ele. — Por favor?
Ela hesitou. Ela não queria ficar sozinha com ele. Ela nem queria
dançar com ele. Ela estava dizendo a si mesma o dia todo que havia
apenas hoje para viver e amanhã e então ela estaria em seu caminho para
Penderris. Ela iria descobrir de alguma forma antes do final do mês, se
ele ainda estava aqui e fazer outros planos para si mesma, se ele estivesse.
Apenas hoje e amanhã.
284
Ela foi buscar seu manto e luvas. Ela puxou em um capô, mesmo
que era susceptível de arruinar seu penteado.
Eles passeavam pelo gramado na direção dos penhascos, sem tocar,
sem falar. O céu estava claro e brilhante, com luar e luz das estrelas. O
som da música e vozes e risos derramado da casa, embora o salão de baile
estava na parte de trás. Os sons acentuavam apenas a quietude do ar livre
e o silêncio entre eles.
— Você se tornou fria novamente — disse ele. — Sorrindo
friamente.
— Eu sou grata por tudo o que você teve a coragem de fazer, —
disse ela. — Não só por mim, mas por todos daqui e do povoado. E estou
feliz por você, que tantos de sua família e amigos e vizinhos tenham
vindo para celebrar com você esta noite. Tem sido uma bela festa. Será
lembrado por muito tempo.
Ele disse aquela palavra novamente - muito distintamente e sem
remorso. Ele parou abruptamente, e Imogen parou um par de passos à
frente dele.
— Não quero sua gratidão, Imogen — disse ele. — Eu quero seu
amor.
— Eu gosto de você — disse ela.
Ele falou essa palavra mais uma vez.
— Você vê, — ele disse, — eu tenho sido estragado toda a minha
vida. A mim sempre foi dado tudo o que eu quero, basta querer. Eu fico
petulante quando não entendo. É hora de eu mudar, não é? E eu vou
mudar. Mas por que eu deveria mudar sobre isso? Ajude-me. Olhe nos
meus olhos e me diga que você não me ama. Mas diga a verdade.
Somente a verdade. Diga-me, Imogen, e eu irei embora e nunca mais
voltarei. Você tem minha promessa solene sobre ele.
Ela respirou fundo e suspirou. — Não posso me casar com você,
Percy — disse ela.
— Não foi isso que eu lhe perguntei — disse ele. — Diga-me que
você não me ama.

285
— O amor não tem nada a ver com isso — disse ela.
— Isso não deveria ser tudo? — Ele perguntou a ela. — O amor tem
tudo a ver com isso.
Ela não disse nada.
— Diga-me — ele disse suavemente. — Ajude-me a entender. Há
uma lacuna, um enorme buraco na história que você me contou. É um
buraco cheio de horror e parte de mim não quer saber. Mas eu preciso
saber se devo entender. Eu não vou ser capaz de viver com isso, a menos
que eu entenda. Conte-me.
E assim ela fez.
Mas quando ela respirou fundo para falar, ela perdeu o controle de
sua voz, e ela gritou as palavras para ele.
— Eu o matei! — ela gritou para ele. E então ela ficou ofegante por
um minuto antes que ela pudesse continuar. — Você entende agora?
Matei o meu marido. Eu peguei uma arma e eu atirei nele entre os olhos.
Foi bastante deliberado. Meu pai me ensinou a atirar apesar da
desaprovação de minha mãe. Ele ensinou meu irmão e eu, e logo eu
poderia atirar melhor do que qualquer um deles. E quando eu costumava
vir aqui, eu atirava com Dicky – sempre em um alvo, é claro, nunca em
nada vivo. E mais frequentemente do que não, eu poderia ultrapassá-lo.
— Ela fez uma longa pausa, respirando levemente. — Eu atirei nele. Eu o
matei.
Ela estava ofegante. Seu corpo pulsava com pinos e agulhas da
cabeça aos pés.
Ele estava imóvel e olhando para ela.
— Agora me peça para me casar com você — disse ela. — Peça-me
para te dizer que te amo. Você entende agora? Eu não mereço viver,
Percy. Estou respirando e existindo como uma penitência. É minha
punição, ir ano após ano, sabendo o que eu fiz. Eu esperava morrer com
ele, mas não aconteceu. Então eu tenho que sofrer, e eu aceitei isso. — Ela
parou um momento para acalmar sua respiração. — Eu fiz uma coisa
terrível há quase duas semanas atrás. Eu decidi dar-me um feriado para
o que eu esperava ser uma breve aventura sensual. Eu não tinha intenção
286
de envolver seus sentimentos e feri-lo. Que eu fiz ambos é apropriado
para mim. Eu mereço esse peso extra de culpa e miséria. Mas para
você? Vá embora daqui, Percy, e encontre alguém digno do seu amor. E
depois volte se quiser, pois esta é a sua casa agora. Vou partir daqui. Você
nunca mais me verá novamente.
Ele ainda estava parado como uma estátua, com a cabeça
ligeiramente inclinada para frente, o chapéu baixo sobre a testa,
escondendo o rosto de seus olhos.
— Eu matei Dicky — disse ela, sua voz aborrecida agora. — Eu
matei meu marido, meu mais querido amigo no mundo.
E ela se afastou, voltando na direção da casa.
— Imogen... — ele a chamou, sua voz desolada, cheia de dor.
Mas ela não parou.

VtÑ•àâÄÉ
VtÑ•àâÄÉ EG

Percy estava convencido de que voltar para o salão de baile –


sorrindo, misturando-se, falando, dançando – era a coisa mais difícil que
tinha feito em sua vida. E não foi mais fácil quando sua mãe e depois
Lady Lavínia e Miss Wenzel e várias outras pessoas perguntaram o que
tinha acontecido a Imogen e ele tinha que dizer-lhes que ela estava
cansada e tinha ido para a cama. Ele não tinha certeza se algum deles
acreditava nele. Provavelmente não. Sem dúvida, não, de fato.
— Oh, Percival! — Foi tudo o que sua mãe disse, mas sua expressão
facial falou de reprimenda. E ela só o chamava pelo seu nome completo
quando ela estava exasperada com ele.
Levantar-se na manhã seguinte para ser alegre e hospitaleiro
novamente com sua família e amigos e os poucos vizinhos de partes mais
distantes que ficaram para a noite foi mais uma tortura, especialmente
287
depois de uma noite em grande parte sem dormir. Tinha ficado do lado
de fora do quarto de Imogen talvez uns quinze minutos em alguma hora
da manhã, com a mão a uma polegada do botão da porta, que poderia ou
não estar trancada. Tinha retornado a seu próprio quarto sem pôr o
assunto à prova.
Ela não desceu para o café da manhã. Ele se perguntou se ela iria
descer em tudo. Talvez ela estivesse olhando pela janela, esperando que
ele saísse da casa antes de fazer uma aparição. Ele a levou a isso, ele se
convenceu depois de ter visto todos os convidados durante a noite
partirem. Ele foi cavalgar com Sidney e Arnold e um grupo de primos. E
não, ele disse a Beth quando ela perguntou, ele não tinha visto prima
Imogen hoje. Ela provavelmente estava cansada depois de ontem à noite.
Foi só quando o almoço foi anunciado muito mais tarde que Lady
Lavínia decidiu que ela deveria subir e ver se Imogen estava talvez
indisposta. Era diferente dela não se levantar cedo de manhã, mesmo
depois de uma, tarde da noite – e ela tinha ido para a cama antes do final
do baile.
Ela não estava lá. No entanto, uma nota estava presa a seu
travesseiro e dirigida a sua tia, que a lia em voz alta quando voltou para
a sala de jantar.
“Não se preocupe comigo”, ela tinha escrito depois da saudação de
abertura. “Decidi sair cedo para Penderris Hall. Escreverei quando chegar
lá. Por favor, transmita minhas desculpas a Lord Hardford e a sua família por
não ter me despedido deles. Foi um prazer conhecê-los”.
Uma hora mais tarde estavam todos – com exceção de Percy – ainda
zumbindo sobre a estranheza da partida súbita da prima Imogen, dois
dias antes do planejado. Uma busca em seu quarto convencera sua tia de
que não levara quase nada com ela – só, talvez, uma pequena valise e
tudo o que teria segurado. Todas as carruagens e cavalos eram
contabilizados no galpão e nos estábulos. Como ela tinha deixado
Hardford? A pé?
Foi exatamente assim que ela havia partido, como se
verificou. Assim que terminaram o almoço, Wenzel e sua irmã foram
anunciados.
288
— Acabamos de voltar de uma curta viagem, — explicou Wenzel
após algumas saudações de abertura e um sorriso para sua noiva, — e
achei melhor vir direto aqui. Tilly e eu chegamos em casa do baile ontem
à noite para descobrir Lady Barclay sentada à nossa porta – ela não queria
acordar os criados batendo na porta. Ela pensou esperar na estalagem
para a diligência, mas todas as portas lá estavam trancadas para a
noite. Ela perguntou se ela poderia ficar com a gente até ela poder voltar
para a estação. Eu não achava apropriado para ela viajar por meio
comum, e Tilly me apoiou quando eu disse a ela.
— Oferecemos levá-la a Penderris Hall — disse a srta. Wenzel — ou,
pelo menos, mandá-la na nossa carruagem, mas ela não quis ouviu falar
de nos incomodar tanto. O melhor que podemos fazer foi persuadi-la a
deixar que a levássemos para a casa de postagem em Meirion. Fizemos
isso esta manhã e acabamos de voltar de lá, depois de vê-la em seu
caminho. Ela estará bastante segura, Lady Lavínia, embora ela se
recusasse a levar minha empregada com ela. E ela tem apenas um
pequeno saco de pertences.
— Vou providenciar que um baú seja enviado para ela — Percy
disse, e encontrou os olhos de Miss Wenzel descansando pensativamente
sobre ele.
— Acho que você sabe do que se trata, meu senhor. Imogen não
disse nada.
Era o que todo mundo estava pensando, é claro, e estava pensando
desde que ele voltou para o infernal salão de baile só, ontem à noite. De
repente, a atenção de todos se fixou nele. O ar pulsava com um silêncio
expectante.
Mas não era o momento para o charme ou a conversa social fácil. Ou
mentiras. Ou a verdade.
Percy virou-se e saiu da sala, fechando a porta firmemente atrás
dele.
“Eu o matei! Você entende agora? Matei o meu marido. Eu peguei uma
arma e eu atirei nele entre os olhos. Foi bastante deliberado.”
E o diabo era, ele acreditava nela.
289
E ao fazê-lo, ele mergulhou profundamente no coração da escuridão
com ela – um lugar que ele tinha estado em grandes dores toda a sua vida
para evitar.
“Eu o matei.”
******
Imogen chegou dois dias mais cedo a Penderris, e ela tinha chegado
ao posto, sozinha, com apenas um pequeno saco. No entanto, George,
Duque de Stanbrook, não bateu uma pestana. Ele deve ter visto a chaise
chegar e estava no terraço à espera para recebe-la.
— Imogen, minha querida — disse ele. — Que prazer!
Mas então ele a olhou penetrantemente e puxou-a até os braços e
segurou-a firmemente.
Ela não sabia quanto tempo eles ficaram assim ou o que aconteceu
com a espreguiçadeira. A tensão afrouxou gradualmente fora de seu
corpo como ela respirou no cheiro dele e de casa – ou o que tinha sido um
refúgio seguro de um repouso por três anos e era ainda seu refúgio e
força.
Ele tomou a mão dela em seu braço quando ela finalmente deu um
passo para trás e levou-a para dentro, falando facilmente para ela, como
se a sua chegada precoce e a maneira dela não fossem completamente
inconvenientes. Ele falou com ela de maneira semelhante durante o resto
do dia e todo o seguinte, até que Hugo e Gwen, Lady Trentham chegaram
na metade da tarde, também cedo. Lady Trentham, explicou, todos os
sorrisos e alegria, porque eles pensaram que talvez eles precisariam viajar
por etapas mais fáceis do que o habitual com o bebê. Eles estavam
errados, no entanto, e aqui estavam eles.
Hugo, grande e imponente e tão severo como sempre, com seu
cabelo bem cortado e sua tendência a franzir a testa, bateu no ombro de
George e empurrou a mão ao declarar que ele era agora o escravo de duas
fêmeas. — Um escravo mais do que disposto, porém, eu me apresso a
acrescentar — disse ele, virando-se. — Chegou ainda mais cedo que nós,
Imogen? Isso me faz sentir melhor.
E ele sorriu para ela e abriu os braços e depois parou, franziu a testa
290
e inclinou a cabeça para um lado. — Venha e seja abraçada, então, moça
— disse ele com mais suavidade, e mais uma vez ficou envolta em
segurança.
Mas havia Gwen a ser abraçada também e a criança Melody Emes
para ser admirada – sua enfermeira estava apenas levando-a para dentro
e Hugo estava pegando-a entre suas mãos enormes, cheio de orgulho.
Os outros chegaram no dia seguinte. Ben e Samantha, Lady Harper,
vieram direto de Gales. Ben entrou na casa e subiu as escadas com as duas
bengalas, mas ele se lançou na maior parte do tempo em uma cadeira de
rodas, tendo decidido que não era uma admissão de derrota, mas sim um
novo avanço, diferente fase ativa de sua vida.
Ralph e chegou em seguida com sua duquesa de cabelos ruivos, a
quem Imogen não tinha conhecido antes e que pedia para ser chamada
Chloe. Imogen também não tinha visto Ralph desde que herdou o ducado
na morte de seu avô no ano passado. Seu rosto ainda estava mal
cicatrizado por uma ferida de guerra, mas havia uma nova serenidade
em seu rosto.
Vincent veio com Sophia, Lady Darleigh, e seu filho, e como de
costume era difícil lembrar que ele não podia ver, ele se movia tão
facilmente, especialmente com a ajuda de seu cão. Flavian veio em último
lugar com Agnes, Lady Ponsonby, e o anúncio quase tão logo eles
entraram pela porta que ele estava esperando para ser um pai nos
próximos seis ou sete meses e eles devem ser muito gentis com ele porque
era tudo uma tensão sobre seus nervos. E ele falou, Imogen estava
interessado em notar, com muito pouco daquele gaguejar que tinha
permanecido teimosamente com ele, mesmo depois de ter recuperado a
maioria de suas faculdades depois que suas lesões na cabeça foram
curadas.
— Nesse caso, Flave, — disse Ralph, — então eu preciso de uma
manipulação delicada também. Não importa Chloe. Ela é feita de coisas
mais duras.
Trocaram tapinhas nos ombros e sorriram um para o outro de uma
maneira masculina, muito satisfeita, um pouco envergonhada.

291
Todos, exceto Vincent, olhavam com imensos olhos para Imogen
antes de abraçá-la. Todos a abraçaram mais fortemente do que o habitual
e olharam-lhe de novo nos olhos antes de serem apanhados no abismo
geral de saudações. E mesmo Vincent, depois de abraçá-la, olhou-a nos
olhos – ele tinha um jeito estranho de fazer isso – e falou suavemente.
— Imogen?
Mas ela apenas beijou sua bochecha e se virou para abraçar Sophia
e exclamar sobre o quanto Thomas, seu filho de um ano, tinha crescido.
Passaram-se dois dias e duas noites, durante as quais os sete
sentaram-se tarde, como invariavelmente faziam durante estas semanas,
falando mais profundamente do coração do que tinham durante todo o
dia.
Na primeira noite, Vincent relatou que seus ataques de pânico
estavam muito menos frequentes com o passar do tempo. Vinha, às
vezes, quando ele percebia que sua cegueira não era uma coisa
temporária da qual ele acabaria se recuperando, mas uma sentença de
prisão perpétua.
— Nunca voltarei a ver — disse ele. — Eu nunca vou ver minha
esposa ou Thomas. Eu nunca vou ver o novo bebê quando ele chegar...
ah, eu não deveria mencionar que há outro no caminho, porque ainda
não é certo. Terei que confessar a Sophie quando eu for para a cama. Mas
por que é que, apesar de eu aceitar minha condição há muito tempo e ter
uma vida maravilhosamente abençoada e raramente pensar em ser cego,
pode de repente me bater como um clube gigante, como se eu estivesse
apenas percebendo?
— O problema é, Vince — disse Hugo, alcançando Imogen no sofá
que os três compartilharam para acariciar seu joelho — que na maioria
das vezes também não notamos.
— Vince é cego? — Flavian disse. — É por isso que ele entra em p-
portas de vez em quando?
Na segunda noite, George admitiu que ainda tinha os sonhos em
que pensava apenas nas palavras certas para falar com sua esposa para
impedi-la de saltar do penhasco e estava perto o suficiente para pegar em
292
sua mão e puxá-la para trás. Mas sempre as palavras e as mãos eram tarde
demais. Na realidade, embora ele tivesse visto isso acontecer, ele estava
muito longe para salvá-la.
Imogen quase não falava desde sua chegada, exceto em momentos
puramente sociáveis. Na verdade, ela tinha conversado mais com as
esposas do que com seus amigos. Mas na terceira noite ninguém tinha
muito a dizer. Aconteceu assim às vezes. Suas vidas nem sempre estavam
cheias de problemas e dificuldades. Na verdade, cinco deles, pelo menos,
parecia contente com suas vidas, mesmo feliz. E três deles – oh, bondade,
três – eram pais expectantes. Suas reuniões futuras seriam muito
diferentes. Mesmo este ano, havia Thomas andando e tagarelando em
uma língua que até mesmo sua mãe e seu pai não entendiam, embora
Hugo fizesse algumas maravilhosas interpretações enquanto fazia
cócegas em sua filha sob o queixo para ver seu sorriso largo e desdentado.
Agora, na terceira noite, Imogen emitiu um suspiro audível durante
um longo e compassivo silêncio e fechou os olhos. — Eu disse a ele — ela
deixou escapar.
O silêncio tomou um elemento de incompreensão.
Mas é claro, eles não sabiam nada. Ela não lhes disse nada. Parecia
incrível para ela que não soubessem tudo o que tinha sido tão central para
sua vida por mais de um mês.
— O conde de Hardford — explicou ela. — Ele veio para Hardford
no início do mês passado. Eu... nós...
Hugo, sentado a seu lado de novo, pegou sua mão e puxou-a
firmemente pelo braço antes de cobri-la com a sua. Vincent, do outro
lado, acariciou-lhe a coxa e agarrou-a.
— Eu contei a ele a minha história — disse ela. — Mas ele não estava
satisfeito. Ele sabia que havia algo faltando e ele perguntou
novamente. Foi a noite antes de eu vir aqui. Era impossível não dizer a
ele. Então eu disse.
Ela inclinou a cabeça para trás, os olhos ainda fechados – e a parte
de trás da cabeça bateu contra o peito de Flavian. Ele tinha chegado atrás
dela, e suas mãos pousaram sobre seus ombros. Sua mão livre estava de
293
repente em um aperto forte. Ralph estava debruçado na frente dela.
E ela percebeu que ela estava lamentando, um som alto e agudo que
não parecia estar emanando dela, mas deve ser.
A voz de George era calma e suave – ah, que lembranças evocava!
— O que você disse a ele, Imogen? — Ele perguntou.
— Que eu matei Dicky — ela gritou.
— E o que mais?
— O que mais há para contar? — Ela mal reconheceu sua própria
voz. — Não há nada mais. Em todo o mundo, só existe isso. Eu o matei.
— Imogen. — Esta era a voz de Ben. — Há muito mais do que
apenas isso.
— Não, não há n-não — ela disse, balançando a cabeça de um lado
para o outro. — Só existe isso.
Por trás dela, Flavian segurou sua mandíbula em suas mãos.
— É preciso perguntar — disse ele com a voz suspirada, um pouco
aborrecida - era deliberada, pensou ela, para tentar acalmá-la com
normalidade. — Esse companheiro Hardford te ama, por acaso,
Imogen? Ou será que ele apenas gosta de brincar de senhor da mansão?
Ela abriu os olhos e levantou a cabeça. — Não importa — ela
disse. — Oh, mas ele não é grosseiro, nem ditatorial, nem desagradável,
embora eu pensasse que ele era no início.
— E você, por acaso, o ama? — perguntou Flavian.
— Não posso — disse ela, tirando as mãos dos braços de Ralph e
Hugo e colocando os calcanhares das mãos contra os olhos. — Eu não
farei. Vocês todos sabem disso.
Ralph e Flavian voltaram a sentar-se. Hugo pôs um braço sobre seus
ombros e puxou a cabeça para baixo em seu ombro.
— Por que você está tão chateada? — Ele perguntou. — Quero dizer,
por que você está tão perturbada?
— Outra pessoa o traiu — disse ela. — Dicky, quero dizer. Ele nunca
294
poderia voltar para casa vivo da Península. Alguém o traiu, e o entregou
aos franceses.
E ela derramou a história dos contrabandistas e do Sr. Ratchett e
James Mawgan e do criado de seu marido, e como Percy os tinha
confrontado quando ninguém mais o fizera desde a época de Dicky e
perseguira o assunto imprudente e implacavelmente até que ele
expusesse a verdade e os dois homens haviam sido presos e aguardavam
julgamento. Ela não tinha ideia se sua história fazia sentido.
Vincent ainda estava acariciando sua coxa quando ela terminou.
— Vim para cá mais cedo — disse ela, baixando as mãos para o
colo. — Eu precisava me sentir segura. Eu precisava... Eu precisava...
— Nós — disse Flavian. — Todos nós precisamos uns dos outros de
nós também, Imogen. Você pode descansar aqui. Todos nós podemos.
— Sim — concordou ela. — Mas deve ser horrivelmente tarde. Eu
deveria deixar vocês todos irem para a cama de vocês. Estou exasperada
se vocês não forem. Obrigado. Eu amo todos vocês.
George, sorrindo gentilmente, estendeu uma mão para a dela.
— Venha — disse ele. — Acompanho você até sua porta. Você sabe
que sempre pode vir aqui, Imogen.
— Eu também sei — disse ela, levantando-se — que devo viver
minha própria vida. E eu vou. Este é apenas um breve contratempo, como
os ataques de pânico de Vincent. Boa noite.
Ela esquadrou os ombros e olhou para cada um deles por sua
vez. Ela nem percebeu que nenhum deles estava fazendo um movimento
para segui-la da sala.
******
Percy não sabia por que estava zangado, mas estava. Não, não
exatamente com raiva. Desapontado. Todos fora do tipo. Em um mau
humor como ele poderia ser, sem realmente agarrar a todos que vieram
em seu caminho.
Estava com ciúmes.

295
Mas isso era absurdo. Por que ele ficaria com ciúmes de um monte
de homens que ele nem conhecia? Homens que se chamavam pelo nome
pretensioso de Sobreviventes – com um “S” maiúsculo, por favor? Não
era todo mundo um sobrevivente? Não era assim? O que lhes deu o
direito exclusivo à palavra? E quanto poderiam amá-la quando um
número deles – ele não conseguia se lembrar se todos – tinham ido
embora e se casado com outras mulheres.
Mas foi para eles que ela tinha saído correndo – no meio da noite
sem uma palavra para ele. Até mesmo sua nota tinha sido dirigida a sua
tia.
E agora ele estava jogando de mensageiro e entregador
combinado. Na carruagem com ele estavam as cartas de Lady Lavínia,
Mrs. Ferby, sua mãe, Beth, Lady Quentin e Miss Wenzel. Era ridículo. Se
muitas mais pessoas tivessem escrito, ele precisaria de um vagão para
puxar para trás. E havia um grande baú com seus pertences na bota da
carruagem, deixando quase nenhum espaço para sua própria bagagem.
E aqui chegava a Penderris Hall, que era tão grande e imponente
como ele esperava e muito mais perto dos penhascos sempre presentes
do que Hardford Hall, e ele estava tendo segundo - ou era quarenta e dois
pensamentos sobre eles. Mas era tarde demais para voltar atrás porque
sua chegada parecia ter sido notada e as portas principais se abriram e
um homem alto com cabelos elegantemente grisalhos – maldito! – estava
saindo para ver quem o diabo estava chegando quando ele não tinha sido
convidado e Percy podia ver que ele era o duque de Stanbrook. Ele tinha
visto o homem algumas vezes na Câmara dos Lordes.
Sentia-se estúpido e beligerante, e se o homem se interpusesse em
seu caminho, primeiro iria esticar o nariz e depois desmontá-lo com as
mãos e talvez também com os dentes. Ele ia vê-la – ele devia vê-la – e era
isso. Ela não tinha que ter saído correndo fora naquela noite sem lhe dar
uma chance de coletar seus pensamentos e responder ao que ela tinha
dito a ele. Ele ia falar com ela agora. Ela lhe devia isso, pelo amor dos
céus.
Stanbrook estava estendendo a mão direita enquanto Percy descia
da carruagem e fechava a porta em Hector.

296
— Hardford, eu acredito — Stanbrook disse, e Percy apertou sua
mão.
— Trago o baú de Lady Barclay — disse ele — e algumas cartas para
ela. E vou vê-la.
As sobrancelhas ducais subiram. — Entre, — ele disse, — e tome
alguns refrescos. Seu criado pode proceder aos estábulos depois de
descarregar o tronco. Alguém vai vê-lo lá. — E ele se virou para guiar seu
caminho para dentro.
Havia um exército alinhado no corredor, é claro. Bem, havia apenas
quatro deles além de Stanbrook, mas eles pareciam um exército. Ou uma
fortaleza inexpugnável. Mas deixe-os apenas tentar ficar em seu
caminho. Percy quase esperava que o fizessem. Ele estava esperando
briga.
Stanbrook o apresentou com uma cortesia perfeitamente suave –
maldito de novo. O fortão, grande lutador com o cabelo bem cortado era
Trentham; aquele com a desagradável cicatriz em seu rosto era o Duque
de Worthingham; o louro que parecia que o mundo inteiro fora criado
para sua diversão era Ponsonby; E o pequeno rapaz de olhos azuis era
Darleigh. Percy olhou para ele, desviou o olhar e olhou novamente. Não
era ele o cego? E então ele viu que os olhos que pareciam estar olhando
diretamente para ele estavam realmente perdendo o rosto por alguns
centímetros. Foi um pouco estranho.
As felicitações civis foram trocadas, e então outro homem apareceu
na escada, cambaleando lentamente para baixo deles com a ajuda de dois
bastões que envolviam seus braços inferiores.
— Sir Benedict Harper — disse Stanbrook.
Seis deles. Faltava o sétimo.
— Vou ver Lady Barclay — disse Percy secamente. As boas
maneiras poderiam ter servido melhor, mas para o inferno com boas
maneiras. Estava de mau humor.
— Talvez haja um pequeno problema — disse o loiro em um
suspiro, como se mesmo falar aquelas poucas palavras fosse um
julgamento para ele. — Para você saber, Hardford, lady Barclay talvez
297
não o veja.
— E, francamente — acrescentou a cicatriz, — eu não a culparia.
O grande robusto cruzou os braços e ficou mais duro.
— Então pergunte a ela — disse Percy — e descubra. E diga a ela
que não vou me partir até que ela me veja.
Sentiu-se como se estivesse de pé atrás de si mesmo e observando
seu mau comportamento com um tremor um pouco incrédulo da
cabeça. Onde tinha fugido todo o seu charme famoso?
— Pergunte, por favor — acrescentou, olhando para eles.
— Talvez você queira entrar no salão de visitantes — sugeriu
Stanbrook — e tome um drinque enquanto espera. Os outros irão com
você, enquanto falo com Lady Barclay. Mas, devo adverti-lo, no entanto,
que ela pode se recusar a falar com você. Ela viu você chegar e estava
menos do que encantada.
Percy sentiu um pouco como um balão de ar quente que tinha
saltado um vazamento.
— Deixe-me ir, George — disse Darleigh. — Deixe-me falar com
ela. E eu vou me lembrar de dizer por favor, Hardford. — Ele sorriu com
grande doçura. — Vá e tome alguns refrescos. Você está chateado.
E lá foi o resto do ar quente, deixando Percy sentindo-se manco e
desinflado.
Deus bom e mil demônios, e se ela não o visse? Ele mal podia
acampar debaixo da sua janela – mesmo que soubesse qual era – para
sempre e sempre, podia? Não com o exército à espreita. Ele
particularmente não gostava do olhar do gigante.
Ele se virou na direção da sala que Stanbrook estava indicando,
enquanto o cego Darleigh partia na direção oposta, conduzido por um
cachorro que Percy só estava percebendo pela primeira vez. Lembrou-se
de que deixara Hector na carruagem. O infeliz cão recusou-se
categoricamente a ficar em casa.

298
VtÑ•àâÄÉ
VtÑ•àâÄÉ EH

Imogen estava no conservatório, onde se refugiou depois de ver o


carro familiar se aproximando. Ela não teria sequer tido esse aviso se não
estivesse de pé na janela da sala de estar naquela ocasião, balançando
uma sonolnta Melody Emes em seus braços e pensando que certamente
não poderia haver sentimento mais bonito no mundo.
Ela estava olhando através das janelas do jardim de inverno agora
em alguns narcisos florescendo na grama, embora ela não estava
realmente vendo eles. Ela ouviu alguém vir – alguém com um cachorro –
mas não virou a cabeça.
Vincent sentou-se ao lado dela, primeiro tateou para se sentar. Seu
cão se assentou pelo joelho.
— Imogen — disse ele, estendeu a mão e lhe deu um tapinha no
dorso da mão. — Ele sempre se comporta mal assim?
— Oh. — E estranhamente, estranhamente, ela se viu sorrindo. —
Ele se comportou mal?
— Há um sorriso em sua voz — ele disse, e isso a devolveu. — Ele
estava cheio de beligerância. Não teria tido muita provocação para ele
nos levar todos de uma vez com seus punhos nus. Eu não podia vê-lo, é
claro, mas eu podia ouvi-lo. Ele é um homem grande?
— Sim — disse ela. — Não enorme, embora.
— Então Hugo sozinho poderia tê-lo derrubado com um soco, —
disse ele, — embora eu tenha a sensação de que ele teria saltado
novamente para mais punição. Como ele é?
— Oh — ela disse, franzindo a testa, — alto, escuro, bonito - todos
os velhos clichês.
— E ele é um clichê? — Ele perguntou.
— Não. — Ela ainda estava franzindo a testa. — Eu pensei que ele
era no início, Vincent. Mas não agora que eu o conheço melhor. Ninguém
299
é menos de um clichê. Ele é... Oh, não importa. Ele estava calado?
Ela sentiu como se houvesse um peso de chumbo no fundo do seu
estômago quando ela percebeu o seu carro de condução se aproximando
de Penderris. Na verdade, ele estava lá desde a noite de sua festa de
aniversário, aquele frio, peso pesado. Nunca iria desaparecer?
— Ele está no salão com os outros homens — disse ele. — Ele quer
ver você. Ele exigiu que um de nós viesse e lhe dissesse isso. Mas então
ele adicionou um por favor.
Seus lábios se curvaram novamente em um sorriso, embora ela se
sentisse mais perto de lágrimas do que de riso.
— Diga-lhe que não — disse ela. — E adicione obrigado, se você
quiser.
— Todos nós esperávamos que ele viesse, você sabe — ele disse. —
Todos nós concordamos com isso na noite anterior, depois que você foi
para a cama. Não fazia sentido colocar apostas. Estávamos todos do
mesmo lado. E Sophie concordou comigo, e as outras senhoras também.
Todos esperávamos que ele viesse.
Não havia nada a dizer na pausa que se seguiu.
— Ele está terrivelmente chateado — disse Vincent.
— Eu pensei que ele era um adversário — disse ela.
— Precisamente — disse ele. — Mas não havia nada nele para ser
um adversário, veja, Imogen. George saiu para cumprimentá-lo como um
anfitrião cortês, e todos nós nos comportamos com a maior cortesia.
Podia imaginá-los todos alinhados no corredor, sem perceber o
quão formidáveis eles podiam olhar quando estavam de pé entre alguém
e o que alguém queria.
Pobre Percy! Ele não tinha feito nada para merecer nada disso.
— Vou mandá-lo embora, se quiser — disse Vincent. — Eu acredito
que ele vai mesmo que ele nos disse que não iria se mover até que ele a
visse. Ele é um cavalheiro e não continuará a incomodá-la se sua resposta
for não. Mas acho que você deveria vê-lo.

300
— É inútil, Vincent — disse ela.
— Então diga isso a ele.
Ela emitiu um profundo e audível suspiro e deixou
escapar. Vincent, notou irrelevante, precisava de um corte de cabelo. Seu
cabelo justo e ondulado quase tocava seus ombros. Mas quando ele nunca
precisou de um corte de cabelo? E por que deveria ser cortado? Isso o
fazia parecer um anjo. Seus amplos olhos azuis só realçavam essa
impressão.
— Mande-o vir aqui — disse ela.
Ele se levantou e seu cachorro ficou ao seu lado. Mas ele hesitou. —
Nós nunca nos intrometemos uns aos outros com conselhos não
solicitados, Imogen, não é? — Disse ele.
— Não, nós não nos intrometemos — ela disse firmemente, e ele se
virou. — Mas considere seu conselho solicitado. O que você deseja me
dizer?
Ele se virou para trás. — Eu acredito, — ele disse gentilmente, —
todos temos o direito perfeito de nos tornarmos infelizes se é isso que nós
escolhemos livremente. Mas não tenho certeza se temos o direito de
permitir que nossa própria infelicidade cause a de outra pessoa. O
problema com a vida às vezes é que estamos todos juntos.
E ele saiu sem dizer mais nada. Isso foi um conselho? Ela nem sabia
o que ele estava tentando dizer. Só que fazia todo o sentido enquanto
esperava e ponderava suas palavras. Não somos todos responsáveis
apenas por nós mesmos? ela pensou. Por que devemos ser responsáveis
por outra pessoa? Isso não seria apenas intromissão e interferência?
“O problema com a vida às vezes é que estamos todos juntos.”
E lembrou-se de sua pequena decisão de dançar novamente nas
assembleias da aldeia.
Ouviu mais passos. Firme, pés botados desta vez. Pés beligerantes,
talvez. Novamente ela não virou a cabeça. Ele parou a uma curta
distância. Ele não se sentou.
— Imogen — ele disse suavemente.
301
Ela apertou as mãos no colo, entrelaçando os dedos. Ela tocou as
pontas dos polegares.
— Você não joga bem — disse ele.
— Eu não estou envolvida em qualquer jogo com você, Percy —
disse ela. — Eu não posso jogar de forma justa ou injusta se eu não jogar
de todo.
— Você me contou uma história, — disse ele, — e deixou um buraco
tão grande e que teria feito uma cratera em qualquer estrada ampla o
suficiente para se esticar em toda a estrada. Quando eu implorei que você
me dissesse o resto, você me ofereceu uma pedra para preencher esse
grande buraco.
— O que eu lhe disse era um seixo? — Ela olhou para ele pela
primeira vez, a cólera provocando. Ela ficou chocada com o que viu. Não
fazia nem uma semana que eles se encontraram pela última vez, mas seu
rosto parecia esticado e pálido com manchas sob os dois olhos que
sugeriam falta de sono. Os próprios olhos eram insondáveis.
“O problema com a vida às vezes é que estamos todos juntos.”
— Você atirou nele, — ele disse, — entre os olhos, deliberadamente.
Eu acredito em você. Mas por que, Imogen? Como você chegou até ele?
De onde veio a arma? Por que o usou para matá-lo? Talvez eu não tenha
feito nada para merecer respostas, exceto se me atrevo a pensar que foi
por amá-lo, mas me diga, por essa razão, se não for qualquer outra.
Ajude-me a entender. Diga-me tudo.
Ela respirou fundo e depois outra vez. — Durante vários dias, — ela
disse, — eles não conseguiram quebrá-lo. Eu não tenho ideia de quantos
dias isso foi. Todos correram juntos para mim. Eles devem ter pensado
que ele trouxe informações dentro de sua cabeça que era essencial para
eles. Talvez eles estivessem certos – eu nem sei. Finalmente me levaram
até ele – quatro deles, todos oficiais. Havia outros dois homens lá
também. Ele estava acorrentado na vertical em uma parede. Eu mal o
reconheci.
Ela abaixou a cabeça e tocou seus olhos com as mãos por um
momento.
302
— Oh, meu Deus — ela pensou que ele murmurou.
— Eles disseram a ele o que iam fazer — disse ela. — Eles iam se
revezar comigo enquanto ele e os outros observavam. Eu não tenho
nenhuma ideia porque um deles pôs sua pistola para baixo em uma
recipiente não longe de onde eu estava. Desprezo por uma mulher
indefesa, talvez? Desatento, talvez? Ou talvez ele fosse primeiro e
precisasse se livrar de algumas coisas. Eu peguei e segurei todos eles na
baía, suas mãos no ar. Mas a desesperança da situação era imediatamente
aparente. Se eu atirasse em um deles, os outros estariam sobre mim em
um instante e nada teria sido realizado. Eles teriam me estuprado e ele
provavelmente teria quebrado – talvez antes mesmo de começar, talvez
depois de um ou dois. Ele não poderia ter vivido consigo mesmo, mesmo
se o tivessem deixado viver, o que é duvidoso. Se eu forçasse um deles a
libertá-lo, eu podia ver que ele não seria capaz de sair de lá. E mesmo que
eu idealizasse um caminho, havia dezenas de soldados mais no prédio e
centenas, ou mesmo milhares mais lá fora. Eu não acredito que me levou
mais de um segundo para saber qual era a única solução. E Dicky sabia
disso também. Ele estava olhando para mim. Oh, Deus, ele estava
sorrindo para mim.
Ela teve que fazer uma pausa por alguns momentos para estabilizar
sua respiração.
— E eu sabia o que ele estava pensando e ele sabia o que eu estava
pensando – sempre poderíamos fazer isso. Sim, faça-o, disse-me sem
dizer uma palavra. Atire em mim, Imogen. Não desperdice sua bala em
um dos oficiais franceses. E pouco antes de eu fazer o que ele me mandou
fazer, seus olhos disseram, Coragem. E eu fiz isso. Eu atirei nele. Eu
esperava – ele esperava – que eu também estivesse morta momentos
depois. Não aconteceu. Aqueles muito cortês... Cavalheiros, por mais
furiosos que fossem, souberam punir uma mulher, e não foi com estupro.
Eles me deixaram ir, até mesmo me escoltaram de volta para o meu
próprio povo. Eles me deixaram em um inferno.
Ela não sabia quanto tempo o silêncio se esticava.
— Parta agora, Percy — disse ela. — Eu sou um poço sem fundo de
escuridão. E você está cheio de luz, mesmo se você sente que você

303
desperdiçou os últimos dez anos de sua vida. Vá e esqueça sobre mim. Vá
e seja feliz.
Ele murmurou aquela palavra novamente. Realmente estava
começando a ser um hábito.
— Ele te amava, Imogen — disse ele. — Se seus olhos pudessem
falar com você por um pouco mais, se soubesse que eles o deixariam
viver, o que ele teria dito a você?
— Oh. — Ela engoliu em seco.
— Não evite a questão — disse ele. — O que ele teria dito para você
fazer?
De alguma forma, ele compeliu a honestidade – uma que penetrou
a camada sobre a camada de culpa em que ela se envolveu desde aquele
momento mais terrível nos lugares mais terríveis.
— Ele teria me dito para ser f-feliz — ela disse, sua voz fina e alta
novamente, como tinha sido na noite anterior.
— Se ele pudesse de alguma forma estar ciente dos últimos oito ou
mais anos, — disse ele, — e como você os viveu e como você pretende
viver o resto de sua vida, como ele se sentiria, Imogen?
Ela olhou para ele novamente. — Oh, isso é injusto, Percy — ela
gritou. — Ninguém mais ousou perguntar isso a mim... nem o médico,
nem nenhum dos meus companheiros Sobreviventes.
— Eu não sou nem o médico nem nenhum desses seis homens —
disse ele. — E eu ouso fazer a pergunta. Como ele se sentiria? Você sabe
a resposta. Você o conhecia até as profundezas de seu ser. Você o amava.
— Ele estaria terrivelmente chateado. — Ela puxou o lábio superior
entre os dentes e mordiscou-o, mas não conseguiu evitar que as lágrimas
quentes penetrassem em seus olhos e derramassem em suas
bochechas. — Mas como posso me deixar viver, Percy? Sorrir e divertir-
me, amar novamente, fazer amor? Tenho medo de esquecê-lo. Tenho
pavor de que vou esquecê-lo.
— Imogen, — disse ele, — alguém teria que cortar sua cabeça e
remover seu cérebro e esmagá-lo em pedaços. E mesmo assim seu
304
coração e seus próprios ossos se lembrariam.
Ela procurou um lenço, mas ele deu alguns passos mais perto e
apertou sua própria grande mão na sua. Ela o segurou nos olhos. Ele
estava de joelhos na frente dela, então, ela percebeu, suas mãos no banco
em ambos os lados dela.
— Imogen, — disse ele, — eu tremo com a minha presunção em
tentar ganhar o seu amor por mim mesmo quando você tem amado um
homem assim. Mas eu não espero tomar seu lugar. Ninguém pode tomar
o lugar de outra pessoa. Todo mundo deve esculpir o seu próprio. Eu
quero que você me ame por meu eu triste, que eu vou tentar muito, para
o resto da minha vida para me fazer digno de você e digno de mim. Eu
posso fazer isso. Podemos sempre fazer qualquer coisa enquanto
estivermos vivos. Podemos sempre mudar, crescer, evoluir para uma
versão muito melhor de nós mesmos. É certamente para o que é a
vida. Me dê uma chance. Deixe-me te amar. Deixe-se amar-me. Eu lhe
darei tempo se você precisar. Apenas me dê esperança. Se você puder. E
se você não pode, então que assim seja. Vou deixá-la em paz. Mas por
favor, tente me dar uma resposta definitiva, talvez se você puder.
Ela baixou o lenço depois de secar os olhos. Ele parecia um
estudante pobre e ansioso, esperando, pelo menos, evitar um tapa. Ela
esticou a mão e tomou seu rosto com as mãos.
— Eu não quero drenar toda a sua luz, Percy — disse ela.
Algo brilhou em seus olhos.
— Mas nunca há um fim à luz, Imogen, — disse-lhe, — ou ao
amor. Eu vou encher você tão cheia de luz que você vai brilhar no escuro,
e então quando eu quiser te amar de uma maneira muito física eu vou ser
capaz de encontrá-la.
Oh, absurdo, absurdo Percy. Ainda tão pálido e ansioso apesar de
suas palavras ridículas.
— Eu ouso fazer isso? — Ela perguntou, mas mais para si mesma do
que de ele.
Ele não respondeu. Mas alguém fez, profundamente dentro dela em
uma voz que ela reconheceu – coragem. E pela primeira vez em mais de
305
oito anos sua mente escutou o tom em que aquela palavra silenciosa tinha
sido falada. Era de profunda paz.
Ele tinha recebido a morte – em suas mãos. Tinha-o libertado de
uma dor intolerável e do certo conhecimento de que haveria mais dela
antes de morrer. E a tinha libertado dos horrores do estupro – ele
acreditava que, ao morrer, ele tinha razão, embora não da maneira
esperada.
Ele estava em paz quando morreu. Ela tinha sido o instrumento de
sua morte, ou de sua libertação, dependendo de como se olhasse.
Ela poderia viver novamente. Certamente ela podia. Ela devia isso
a ele, e talvez a si mesma. E talvez para Percy. Oh, ela poderia viver
novamente.
— Vou me enrolar da cabeça aos pés em um cobertor grosso, — ela
disse, — e você terá que procurar por mim. Será mais desportivo e mais
divertido dessa maneira.
Ela viu o sorriso crescer em seus olhos e gradualmente iluminar o
seu rosto todo cansado. E seus braços fechados sobre ela como faixas de
ferro, e sua testa veio para descansar em seu ombro, e ele chorou.
******
Era a segunda semana de maio, antes do dia do casamento de Percy
finalmente amanhecesse. Ele pensou que era o mesmo ano de calendário
como aquele em que ele tinha se tornado prometido a Imogen, mas
poderia facilmente ser qualquer coisa até cinco anos depois. Parecia uma
eternidade.
Tinha desejado levantar-se de joelhos no conservatório de Penderris
e fugir em busca da licença especial mais próxima, levá-la de volta a
Hardford Hall e, em seguida, arrastá-la para a igreja em Porthmare para
as núpcias – tudo dentro de um instante se fosse humanamente possível.
Infelizmente, a sanidade havia prevalecido, embora não
necessariamente sua.
Aqueles amigos dela tinham assegurado a ela que se ela tinha que
sair da reunião mais cedo, então eles entenderiam e ficariam muito

306
satisfeitos por ela – ou palavras para esse efeito. As esposas haviam
concordado também com abraços e beijos e lágrimas sentimentais. Mas
todos tinham conseguido, ao mesmo tempo, olhar juntos desamparados,
e foi o próprio Percy que declarou que não havia nenhuma maneira nesta
terra que ele iria ficar entre sua noiva e os queridos amigos que esperava
também ser seu queridos amigos no futuro – ou palavras tolas para esse
efeito.
Ele havia ficado alguns dias, tempo durante o qual quase perdeu o
afeto de Hector por uma criança de um ano que o perseguiu e magoou e
riu sobre ele e adormeceu no estômago de seu cachorrinho e geralmente
o escravizou.
Percy tinha escrito uma biblioteca inteira de cartas – perecia a ele –
enquanto Imogen fazia o mesmo ao lado dele na biblioteca de Stanbrook,
e as enviou. E depois voltou para Londres, onde viu avisos nos jornais
matutinos e arranjos para que os proclames fossem lidos e – em breve –
apanhados num feroz tornado de planos de casamento, enquanto sua
família se reunia em torno dele, sua mãe chegou de Derbyshire – eu vim
para Londres a partir da Cornualha através da rota cênica através de
Derbyshire tinha se tornado sua piada do momento.
Então o contingente de Penderris havia chegado em vigor, trazendo
Imogen com eles – ela estava hospedada em Stanford House com o duque
e tinha se juntado a sua mãe e a irmã da mãe, que de alguma forma
estavam relacionadas com Stanbrook.
Lady Lavínia e Mrs. Ferby, o irmão de Imogen e sua esposa, e muitas
outras pessoas que vieram para o casamento, tinham enchido o Hotel
Pulteney até o teto.
Tinha havido jantares, festas e soires nas casas de várias tias e tios
de Percy; um baile de noivado para Meredith e Wenzel no tio Roderick,
no qual o noivado de Percy fora celebrado também; um baile no duque
de Worthingham, em que havia um bolo de noivado no centro da mesa
de ceia; e outra baile organizado conjuntamente por Lady Trentham e sua
prima, a viscondessa Ravensberg, na qual Percy se viu felicitado por um
número bastante grande de Bedwyns, incluindo o formidável duque de
Bewcastle. Percy ouviu-o falar na casa dos Lordes uma ou duas vezes e,

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sem nenhuma razão aparente, ficou maravilhado com o homem. Talvez
seus intensos olhos prateados claros tivessem algo a ver com isso, ou seu
comportamento austero e altivo.
Tudo tinha sido suficiente, Percy decidiu quando Watkins vestiu-o
para o seu casamento todo em prata, cinza e branco, para fazê-lo lamentar
arrependido por ele ter sido forçado a concordar em casar no caminho
adequado – que era a maneira de Imogen de colocá-lo, de qualquer
maneira.
— Oh, Percy — ela disse com um suspiro quando ele ainda estava
fazendo falando esperançoso sobre sair em busca de uma licença
especial. — Eu gostaria que pudéssemos nos casar dessa maneira. Mas
um casamento não é apenas sobre a noiva e o noivo, não é? É sobre sua
família e amigos também. É um daqueles raros eventos comemorativos
que pontuam uma vida feliz. Vamos esperar e casar da maneira correta.
Ele não tinha perguntado se se casar do outro jeito seria
impróprio. Ele teria dado a ela o sol se ela tivesse pedido para ele, ou a
lua, ou um casamento adequado.
Um noivo adequadamente foi à igreja – St. George ficava na praça
de Hanover – vestido de prata, cinza e branco, com metros de renda
avolumando no pescoço e punhos e um diamante do tamanho de um
pequeno ovo piscando nas dobras de linho e rendas no pescoço e anéis e
corrente de relógio e o Senhor sabia que outro ornamento sobre sua
pessoa. E com joelhos instáveis. E duas mãos cheias de dedos, dois ou
três dos quais estavam obrigados a soltar o anel de casamento no
momento certo. Cyril não ajudou, e Percy se perguntou se ele deveria ter
escolhido outra pessoa para ser seu padrinho de casamento.
— E se eu derrubar o anel? — Perguntou Cyril no caminho para a
igreja.
Certamente uma das funções de um padrinho de casamento – a
função principal, na verdade – era acalmar os nervos do noivo.
— Então você rasteja pelo chão até recuperá-lo — disse Percy. —
Isso não vai acontecer.
— Nunca fiz isso antes — acrescentou Cyril.
308
— Eu também não — disse Percy.
Todos os bancos dentro da igreja certamente teriam sido
preenchidos apenas com membros da família e amigos próximos. Mas é
claro que, como se tratava de um casamento apropriado, todos os que
tinham uma conexão remota com a alta sociedade haviam sido
convidados, e como a temporada estava ficando muito bem lançada e este
era o primeiro casamento da moda do ano – haveria outros, desde que a
estação era também o grande mercado matrimonial – todos e seu cão
tinham aceitado. Bem, não cães, na verdade. O nariz de Hector estava
severamente desarticulado. Quando ele tentou trotar discretamente para
a carruagem, Percy tinha posto o pé, não uma coisa fácil de fazer com um
animal que às vezes tinha dificuldade com a distinção de mestre x
criatura.
A igreja estava cheia. Poderia até haver algumas pessoas sentadas
no telhado. Deve haver algumas fileiras de cadeiras lá em cima.
Os dentes de Cyril tagarelavam quase que audivelmente. Percy,
sentado com ele na frente da igreja, concentrou-se em seus dez dedos na
necessidade de converter oito deles em dedos antes de chegarem ao anel
da cerimônia. Flexionou-os e fez uma verificação mental de seus
joelhos. Ele não poderia se casar sentando, poderia?
E então estava começando – realmente começando. O clérigo,
magnificamente investido, chegou à frente da igreja, o zumbido da
conversa morreu para um silêncio expectante, a congregação se levantou
e o órgão atingiu algo impressionantemente apropriado.
Os joelhos de Percy trabalharam, e ele se virou para observar sua
noiva se aproximar ao longo da nave, no braço de seu irmão.
Senhor, querido Senhor.
Ela era toda simplicidade e elegância em azul-gelo. Não havia
babados, laços ou até mesmo rendas à vista. Não tinha uma onda ou um
cacho ondulado de cabelo escapando de seu chapéu de palha simples
aparado apenas com uma fita larga para combinar com seu vestido. Não
havia uma joia, exceto por algo pendurado em suas orelhas.
Ela produziu um deslumbramento elaborado nos bancos em ambos
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os lados dela quando ela passou. Eles empalideceram em insignificância.
Ela parecia uma deusa nórdica ou uma princesa viking ou algo assim.
Ela era Imogen.
Por um momento, quando se aproximou, pensou que era a mulher
de mármore. Seu rosto estava pálido e fixo, seus olhos fixos nele. E
então... oh, Deus! – ela sorriu. E não havia necessidade de velas ou
qualquer outra iluminação em St. George's. A igreja estava inundada de
luz. Ou talvez fosse apenas seu coração. Ou sua alma.
Ele fez uma verificação mental de seus músculos faciais e descobriu
que ele estava sorrindo de volta para ela.
Era realmente uma pequena vergonha, pensou mais tarde, para um
companheiro perder seu próprio casamento. Mas ele efetivamente fez
exatamente isso, tão deslumbrado estava ele pela luz que ela trouxe com
ela e o calor que o alcançou para envolvê-lo também. Ele pensou que se
lembrava de alguém que dizia: Queridos irmãos, no tom que um clérigo
jamais usou, e lembrou-se de um momento de ansiedade ao ver a mão de
Cyril tremer como uma folha em uma brisa forte enquanto segurava um
anel de ouro, e certamente se lembrou de ouvir que ele e Imogen agora
eram marido e mulher, casados e nenhum homem deveria sequer sonhar
em separá-los e essas outras coisas que tudo significava simplesmente
que um estava amarrado no outro para toda a eternidade. Mas ele perdeu
tudo o resto.
Ele voltou a si só quando ele e sua noiva estavam na sacristia
assinando o registro e Imogen estava assinando seu antigo nome pela
última vez.
— Embora permaneça o mesmo — comentou o irmão com uma
risada, — com a adição da condessa de Hardford.
— Não — ela disse suavemente, — isso muda. Tudo isso. Estou
casada com Percy agora.
Percy poderia ter sido baleado, mas – felizmente – não.
E então eles estavam andando juntos ao longo da nave – lembrou-
se de imitar a velocidade de uma tartaruga – enquanto o órgão tocava um
hino que parecia projetado para levantar a parte superior direita da
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cabeça para que a alma pudesse voar direto para o céu, e Imogen, mãe e
tias e Mrs. Ferby e sua própria mãe e várias tias choravam sem vergonha
e todos sorriram o suficiente para causar rugas.
— Por dois pinos — murmurou para a noiva, — eu começaria a
pular como um menino.
— Por dois pinos — ela murmurou de volta, sorrindo para a direita
e esquerda, — eu iria me juntar a você.
— Mas estamos em um bom casamento — disse ele.
— Sorte minha.
E então eles estavam lá fora e o céu que antes estava nublado, agora
brilhava com o sol aparendo entre as nuvens e uma multidão de pessoas
admiradas aplaudindo e os meramente curiosos os cumprimentando,
bem como um pequeno exército de Sobreviventes sorridentes, e primos e
amigos armados com pétalas de várias flores infelizes. As pétalas
estavam logo chovendo sobre eles e arruinando completamente a palidez
bonita de seu traje de casamento.
E Imogen estava rindo. Jamais se cansaria de ouvir - e de ver – ela
rir. Ele estava rindo também, é claro, mas isso era pelo menos uma
raridade. Na verdade, talvez ela apreciava a rara visão dele olhando
sério.
— Oh, olhe — ela lamentou, embora fosse um lamento feliz. — Olhe,
Percy.
Ele não precisava. Ele tinha esperado isso, tendo sido envolvido em
sua parcela justa de casamentos nos últimos dez anos ou assim. A sua
carruagem aberta, bem decorada com flores, também estava preparada
para arrastar o que parecia ser metade das quinquilharias de cozinha de
Londres por trás dele, e também uma ou duas botas antigas, até
Stanbrook House, onde o duque insistira no café da manhã a ser
realizado lá.
— Afinal de contas — disse Percy quando a entregou à carruagem
e a congregação começou a sair da igreja atrás deles — pode haver uma
ou duas pessoas na cidade que não ouviram dizer que nos casamos
hoje. Eles devem ser obrigados a ouvir.
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— Acho que todos os vizinhos da Cornualha também vão ouvir —
disse ela, enquanto ele sentava-se no assento tomando seu lugar ao lado
dela. — Não me surpreenderia se Annie Prewett em Stanbrook House
pudesse ouvir o barulho.
Annie, a criada surda-muda, que tinha tido a coragem de transmitir
informações sobre o paradeiro de Ratchett e Mawgan, tinha sido
promovida à criada pessoal de Imogen depois de ter demonstrado que
tinha alguma habilidade no desempenho dos deveres necessários. E na
frente deles agora, na caixa da carruagem de casamento, esperando o
sinal para sair, sentou-se o cocheiro de Percy e seu novo lacaio, Colin
Baines, ambos resplandecentes em nova libré.
— E uma vez que este é um casamento apropriado, Lady Hardford
— disse Percy nos preciosos momentos que restavam antes que a
carruagem se movesse empurrando com o ruído profano do metal
afogando o alegre gemido dos sinos da igreja — devemos fazer o que é
agora apropriado.
Ela virou um rosto risonho para ele quando ele colocou um braço
sobre seus ombros e segurou seu queixo entre o polegar e o indicador de
sua outra mão.
— Mas é claro que temos que fazer isso — disse ela. — Meu amor.
Os elogios, as gargalhadas, as campainhas, o ressoar e o carrapato
dos cavalos, o estrondo e o ruído ensurdecedor das ferragens – nada
importava quando ele beijava sua noiva e sua mão chegava a seu ombro.
Percy estava, pelo menos por enquanto, em outro mundo. E Imogen
estava ali, junto com ele.

Y|Å

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