Sei sulla pagina 1di 9

ENTRE TRAÇOS, ENTRE LAÇOS: (RE)CONFIGURAÇÕES DO CORPO E

DO HOMOEROTISMO FEMININO NA NARRATIVA BRASILEIRA


CONTEMPORÂNEA

Adenize Franco

Universidade Estadual do Norte do Paraná

Resumo: Proponho, nesse artigo, a discussão e análise acerca da (re)configuração


literária e discursiva do corpo feminino em dois contos do escritor Marcelino
Freire. Os traços e os laços que configuram a representação de relações
homoeróticas nos contos Minha flor (2003) e Declaração (2010) repercutem não
somente o tema da lesbianidade na narrativa contemporânea brasileira quanto
indagam entrelaçamentos discursivos de poder e silenciamento do amor que,
atualmente, já ousa dizer seu nome. Assim como, busco salientar que tais
narrativas (re)configuram a construção do corpo dentro das relações homoafetivas
distintamente de narrativas literárias que as precederam.

Palavras-chave: Narrativa Contemporânea Brasileira; corpo; homoerotismo


feminino; Marcelino Freire.

Abstract: Among traces, among bonds: (re)configuration of the body and of


the female homoerotism in the brazilian contemporary narrative. I propose in
this article the discussion and the analysis about the literary and discursive (re)
configuration of the female body in two short stories from the writer Marcelino
Freire. The traces and the bonds that configure the representation of the
homoerotics relationship in the short stories My flower (2003) and Declaration
(2010) deflect not only the lesbianity theme in brazilian contemporary narrative as
inquire discursives entanglements of power and silencing of the love that nowadays
dare already to say his name. Therefore, I seek emphasize that those narratives (re)
configure the construction of the body inside the homo-affective relationships
distinctly from literary narratives that precede them.

Keywords: Brazilian Contemporary Narrative; body; female homoerotism;


Marcelino Freire.

Entre corpos, entre traços: Léonie e teremos já formado um painel que destaca,
Pombinha apresenta, analisa as obras ficcionais que
trazem personagens gays e/ou relações
Se observarmos as pesquisas voltadas para homoafetivas masculinas1. O marco
a configuração do homossexual (ou do
1
homoerotismo, da homocultura ou da Para uma análise mais aprofundada consultar o
homossociabilidade) na literatura brasileira capítulo Essas histórias de amor maldito, de Devassos
no paraíso (2004), de J. Silvério Trevisan.

REDISCO Vitória da Conquista, v. 5, n. 1, p. 7-15, 2014


8 FRANCO

evidencia-se em O cortiço (1890), de Aluísio somente uma preocupação pessoal mas,


Azevedo, com a presença do homossexual também, política.
Albino, e em O bom crioulo (1895), de A entrada do séc. XXI, portanto, irá colher
Adolfo Caminha, que de maneira mais os frutos dessas gerações anteriores. Bernardo
enfática constrói a trama tendo como núcleo o Carvalho, João Gilberto Noll, Denílson
romance entre Amaro e Aleixo. Esse romance Lopes, Marcelino Freire e outros já podem
é tido por muitos como o fundador do tratar a temática do homoerotismo sem a
homoerotismo na literatura brasileira. O preocupação de serem estigmatizados como
Ateneu (1888), de Raul Pompéia, também autores de literatura gay ou vilipendiados por
figura entre as obras do final do séc. XIX que, focarem suas narrativas nas configurações de
marcada pelo realismo-naturalismo, procura identidades do mesmo sexo. Observe-se o
trazer à discussão as relações homossexuais caso de O filho da mãe (2009), de Bernardo
dentro das instituições de ensino, atacando a Carvalho, que possui como personagens
moral que estas prezavam. Ou seja, centrais um casal homossexual (Andrei e
denunciando as relações homossexuais Ruslan).
existentes no internato como marca de uma Ao mesmo tempo em que a representação
instituição hierarquizada (fracos X fortes – do homossexual masculino é delineada em
feminino X masculino) e que, considerando as narrativas da literatura brasileira, algumas
discussões de Michel Foucault em Vigiar e delas também, ainda que com menos destaque
Punir (1999) sobre os estados de coerção e – apresentam personagens femininas que
aos espaços pequenos, tais instituições apresentam orientação sexual lésbica. Aluísio
reputam os corpos a um estabelecimento da Azevedo, em O cortiço (1890), não somente
ordem moral a partir do poder. tipifica o homossexual masculino Albino
Ao entrarmos no séc. XX, teremos a quanto o faz em relação à lésbica e prostituta
emergência de figuras decisivas da identidade Léonie. Assim como seu contemporâneo
homoerótica masculina, a partir das figuras do Adolfo Caminha, em A normalista (1893),
culpado e o solteirão que podem ser insinua uma relação de tônica homoerótica
observados em A crônica da casa assassinada entre as personagens Maria do Carmo e
(1959), de Lúcio Cardoso, ou no conto Campelinho, em que estas refazem a cena da
Frederico Paciência, de Mário de Andrade. Na “sensação nova” advinda da leitura do
década de 60, a organização de Gasparino romance O primo Basílio, de Eça de Queirós.
Damata, Histórias do amor maldito (1967),
surge como a primeira obra de temas - É isso menina, que eu não pude
propriamente gays dentro da literatura compreender bem. – E, abrindo o livro
brasileira. Conforme Santos e Wielewicki leu: “...e ele (Basílio) quis-lhe ensinar
(2005), “nesse período, a literatura então a verdadeira maneira de tomar
champagne. Talvez ela não soubesse! –
homoerótica caracteriza-se por colocar em
Como é? – perguntou Luísa tomando o
cena a repressão política e sexual, por buscar copo. – Não é com o copo!
uma imagem que se distancie da autonegação Horror! Ninguém que se preza bebe
e por uma narrativa direta (neonaturalista)” champagne por um copo. O copo é bom
(SANTOS; WIELEWICKI, 2005, p. 297). para o Colares... – Tomou um gole de
Nos anos 90, as produções de Caio F. champagne e num beijo passou-o para a
Abreu, João Silvério Trevisan e Silviano boca dela (sic). Luisa riu...”, etc., etc.
Santiago tornaram-se expoentes de uma - Como explicas tu isso?
geração que transita entre a melancolia, a - Tola! – fez a Campelinho. – Uma coisa
realidade incisiva e a utopia. O temor imposto tão simples...Toma-se um gole de
pela AIDS transforma a experiência e o champagne o de outro qualquer líquido,
junta-se boca à boca, assim... e juntou
contato com a doença em fonte de reflexão e
ação às palavras.
criação de narrativas intimistas. Além disso, a [...] Depois, as duas curvadas sobre o
necessidade de marcar um território, de se livro, unidas coxa a coxa, braço a braço,
fazer notar e, evidentemente, demonstrar uma
literatura de qualidade dá a perceber não

REDISCO Vitória da Conquista, v. 5, n. 1, p. 7-15, 2014


ENTRE TRAÇOS, ENTRE LAÇOS 9

passaram à ‘sensação nova’(CAMINHA, se cerram, o sangue que folgueia. Atrelada a


1998, p. 65-6). comparações zoomórficas (“espolinhar”,
“irracional”, “feroz”, “corcovos de égua”), a
A cena descrita revela o beijo entre as imagem busca comprovar o caráter de tese
adolescentes, a união das coxas e dos braços que o romance implica e detem-se às
evidenciando a relação entre os corpos contrações físico-corporais que os corpos das
femininos com maior destaque para a amantes revelam. A tônica da relação sexual
concretização da cena homoerótica. No entre as personagens é descrita dentro desses
romance de Aluísio Azevedo, na relação entre dois elementos: o físico absoluto e o
Léonie e Pombinha, a cena da relação comparativo animalesco. O homem movido
homoerótica feminina é levada à pelos seus impulsos expõe a relação anormal
materialização corporal, inclusive dentro as que a homossexualidade prognostificava e
prerrogativas que norteavam a estética que, portanto, tendia às condições
naturalista, como a comparação zoomórfica animalizantes da natureza. Por outro lado, a
com a qual o narrador finaliza a passagem que relação “predadora” de Léonie institui uma
segue: tomada de posição social de Pombinha que,
ao subverter a passividade de sua vida
Pombinha arfava, relutando; mas o atrito
anterior, se lança à atividade, consciente, de
daquelas duas grossas pomas irrequietas
sobre seu mesquinho peito de donzela
prostituta ao seguir os desejos de seu corpo,
impúbere e o roçar vertiginoso daqueles como afirma Silviano Santiago no artigo O
cabelos ásperos e crespos nas estações mais homossexual astucioso (2004), “Pombinha
sensitivas da sua feminilidade, acabaram deixa o noivo para seguir o corpo e os passos
por foguear-lhe a pólvora do sangue, da madrinha” (SANTIAGO, 2004, p. 201).
desertando-lhe a razão ao rebate dos Ainda nesse artigo, Silviano Santiago
sentidos. recupera as considerações de Peter Fry em
Agora, espolinhava-se toda, cerrando os Léonie, Pombinha, Amaro e Aleixo2 (1982),
dentes, fremindo-lhe a carne em crispações atentando para o fato de que
de espasmo; ao passo que a outra, por cima,
doida de luxúria, irracional, feroz, Pombinha não só inverte a retórica da
revoluteava, em corcovos de égua, bufando atividade dos homens e da passividade das
e relinchando” (AZEVEDO, 1998, p.89). mulheres, assumindo a ‘ambição’, a
‘originalidade’, que são normalmente
O fragmento citado refere-se ao momento atribuídas ao papel masculino, mas também
em que a personagem Pombinha é seduzida embarca numa profissão que tem por
por Léonie, enquanto a mãe tira um cochilo objetivo explorar ao máximo as fraquezas
no quarto ao lado. Como podemos observar, do ‘sexo forte’´.” E complementa: “Ao
enquadrada na estética naturalista, a narrativa rejeitar o casamento, elas rejeitam a
não deixa de explorar tanto as relações sociais convivência com os homens e as relações
quanto as relações de gênero. Estas relações, sexuais produtivas em favor de uma relação
de amizade e prazer sexual uma com a outra
por sua vez, são alicerçadas tanto em valores
(FRY apud SANTIAGO, 2004, p.201).
biológicos quanto morais, uma vez que
Léonie é representada como a ‘predadora’, 2
por disvirginar a jovem e, ainda, irá Nesse artigo Silviano Santiago recupera o artigo de
Peter Fry, Léonie, Pombinha, Amaro e Aleixo,
desencadear o futuro de Pombinha que, publicado em Caminhos Cruzados (1982), de
depois de abandonar e trair o marido, vai ao Alexandre Eulálio. Nesse artigo, Fry discute as formas
encontro de Léonie e continua o ciclo inicial: divergentes como os homossexuais são tratados em
abre sua própria casa de prostituição e determinadas manifestações culturais (como é o caso
solícita, prestativa e amiga mantém relação da literatura de Aluísio Azevedo ou Adolfo Caminha)
ou matizados em suas representações enquanto a
com os moradores do Cortiço. sociedade da época, através de seu saneamento básico
Ambas as personagens estão condicionadas de saúde, “tenta controlar a sexualidade e taxar todas as
aos ímpetos corporais: os seios que se tocam, atividades sexuais fora da vida em família de
os pelos pubianos que se roçam, os dentes que degeneradas e imorais” (FRY apud SANTIAGO, 2004,
p.204)

REDISCO Vitória da Conquista, v. 5, n. 1, p. 7-15, 2014


10 FRANCO

Essa passagem, bastante determinante no Adultas, Clara se casa e Ana vai para Paris.
trajeto que Silviano Santiago endossa em seu Mais tarde, acabam se reencontrando quando
artigo, corrobora o início da prerrogativa do Ana está com uma doença terminal e retorna
crítico, o homossexual astucioso que, na linha ao Brasil. Clara passa a cuidar dela e as duas
do malandro, deveria deixar de explicitar a revivem, momentaneamente, esse amor
violência social contra si mesmo, ao movido tanto por culpas e dúvidas quanto por
autoclamar para si termos, atualmente, alegrias e prazeres.
considerados pejorativos, “sapatão”, “bicha”, Diferentemente das narrativas de cunho
“viado” etc… introjetando a culpa “[…] pela homoerótico que a antecederam, a narrativa
conduta dita desviante, punindo a si pela de Cíntia Moscovich apresenta o amor entre
expiação e, por aí, chegando a adotar normas Clara e Ana que ousa dizer o nome, porém
contratuais de vida pública em que ele se não se concretiza com final feliz por conta de
auto-exclui da sociedade como um todo em suas subjetividades e por questões temporais.
vias de normatização” (SANTIAGO, 2004, Mesmo a morte, categoria crucial a que é
p.202). Para o crítico, é necessário romper conduzido o romance, não aparece aqui como
com essa normatização e se reler dentro da castigo moral e sim, o ponto de contato que
marginalidade sem buscar expiar uma culpa move as duas e possibilita a realização
que não possui. amorosa. A passagem que segue demonstra a
No que concerne à literatura de autoria primeira relação amorosa de Clara e o
feminina, Lygia Fagundes Teles figura como primeiro contato físico das duas e converge, à
uma das autoras que apresenta em suas semelhança da passagem amorosa entre
narrativas a configuração da Léonie e Pombinha, para a união dos corpos
homossexualidade feminina. Em um de seus femininos.
principais livros, As meninas (1973), tematiza
o contexto político ditatorial brasileiro e Eu a abracei e a trouxe para mim,
apresenta uma personagem lésbica. Tal querendo a saliva dela, querendo cada
constatação nos conduz ao século XX e à poro. Queria – como queria – ela inteira, a
configuração da personagem lésbica que, na alma dela se pudesse. (...)As pernas de
Aninha, roliças, o sexo de Aninha, escuro.
literatura, terá destaque com uma autora
Estirou-se a meu lado, colando o corpo no
marginal: Cassandra Rios. Na década de 70, a meu, me abraçando com todos os braços e
escritora chegou a vender cerca de 300 mil pernas do mundo, e o que eu percebia era
livros por ano no Brasil. Entretanto, o teor o algodão de que ela era feita, assim
devasso de suas obras levou-a à obscuridade e branca, assim leve. (...)Enroscada em
à própria exclusão da crítica literária. mim, me apertando como uma tenaz de
Atualmente, pesquisas voltadas para os força desconhecida, começou um
estudos de gênero e de exclusão buscam movimento de vaivém, roçando com
resgatar a autora e suas obras desse quase ferocidade o sexo contra minha
obscurescimento. coxa, e eu entendi que era assim que duas
Contemporaneamente, além de obras mulheres faziam. Aninha se masturbava
em minha perna, a respiração muitíssimo
especificamente voltadas paro o público
alterada, me levando junto com ela.
LGBT, encontramos autoras e autores que Percebi que eu podia fazer o mesmo, que
apresentam a temática da homossexualidade uma das suas pernas estava entre as
dentro de perspectivas que se voltam para o minhas. (...) Minha amiga buscava saciar-
mercado deste público alvo ou na esfera se e encontrava calma. Eu, mais
literária buscando (re)configurar o modo impaciente, queria o gozo que estava ali,
como as minorias sexuais são projetadas na bem perto, acumulado no meu ventre,
narrativa brasileira. É o caso do romance quase doendo na minha barriga. Ela me
Duas iguais (2004), de Cíntia Moskovich. pedia que não, que eu me lembrasse que
Trata-se da história da adolescente Clara que não estava só, que estávamos finalmente
se vê apaixonada pela melhor amiga Ana, juntas e que não era preciso ter pressa
(MOSCOVICH, 2004, p.37-9).
entretanto, impossibilitadas de viver esse
amor, acabam seguindo rumos diferentes.

REDISCO Vitória da Conquista, v. 5, n. 1, p. 7-15, 2014


ENTRE TRAÇOS, ENTRE LAÇOS 11

E perambulamos de coturno pela rua


Como é possível observar, a passagem Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
ilustra o momento de relação amorosa entre as A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
personagens sem as comparações zoomórficas
(Hilda Hilst, Alcoólicas)
estabelecidas na passagem do romance de
Aluísio Azevedo. Em Duas iguais temos a
distinção clara que o amor entre o mesmo
sexo já não é mais tratado como doença ou O poema de Hilda Hilst ilustra a segunda
desvio da moral e que resplandecem os corpos parte dessa discussão, a vida é dura para os
sobre o corpo do texto. As partes corporais, as corpos do mesmo sexo que se enroscam e se
pernas, a boca, o ventre, os braços são descobrem. A vida dura em sua metáfora
seguidos por adjetivos que os enaltecem. As corporal: antebraços, ossos, unhas. Corpo
pernas roliças, os sexo escuro, braços e pernas faminto como o “bico dos corvos”. As vigas-
brancos e leves como o algodão, sublimam o ossos que sustentam o corpo não são mais os
contato entre as amantes. A ferocidade do ato “ombros que suportam o mundo”, do poema
está centrada, não mais, num discurso de de Drummond, porque se a vida é crua, além
“predador sobre a caça” mas de autoridade de dura, ela precisa ser devorada.
sobre seu próprio corpo e sua sexualidade. O sujeito poético do poema Alcóolicas
Se para Silviano Santiago, Pombinha já revela sua “experiência lésbica” com a vida,
revelava esse domínio, quando a partir da “Deita-te comigo. Apreende a experiência
relação amorosa com Léonie perde a atitude lésbica:/O êxtase de te deitares contigo.
passiva que a caracterizava, o fragmento de /Beba./Estilhaça a tua própria medida”. Os
Duas iguais (distante mais de um século do versos em destaque sinalizam a relação
romance naturalista) endossa ainda mais essa “apreendida” que a vida tem consigo própria,
mudança. dentro de uma subjetividade expressa no
No caso do romance de Cíntia Moscovich, poema e recorrente ao desencanto, à morte e
a relação homoerótica entre Ana e Clara é aos amores líquidos, como a vida que por ser
entrelaçada pelo discurso autônomo das líquida, se esvai. A metáfora da liquidez no
personagens e suas ações. Não é mais um poema de Hilst (associada à própria ideia da
puro determinismo que tenta ser comprovado embriaguez que atravessa, também, o poema)
pelas atitudes homossexuais. Ao contrário, a pode ser compreendida dentro das concepções
relação homossexual entre as duas é pós-modernas discutidas pelo sociólogo
estabelecida por discurso próprio dentro das Zigmunt Bauman, tanto das identidades
identidades – cambiantes ou instáveis, como fluídas quanto dos relacionamentos fugazes.
pontua Zigmunt Baumban – sexuais definidas Não há mais solidez e sim liquidez, já que a
e sem a implicação de subalternidade a que própria vida é líquida.
era condicionada a leitura da relação amorosa No poema em referência, é visível a
entre Pombinha e Léonie. contradição de um corpo que se percebe
faminto como os corvos, dentro de uma vida
paradoxalmente: líquida e dura. E, talvez, por
essa inconstância que o corpo, dentro das
Entre corpos, entre laços: Minha flor e esferas que constituem a vida: a social,
Declaração política, histórica e sexual, engendra
posicionamentos e relações dentro daquilo
que Michel Foucault irá denominar
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora. dispositivo histórico.
Como-a no livor da língua Conforme Guacira Lopes Louro em
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me Pedagogias da sexualidade (2000), as
No estreito-pouco identidades de gênero e sexuais são “(…)
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha compostas e definidas por relações sociais,
vida elas são moldadas pelas redes de poder de
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso. uma sociedade” (LOURO, 2000, p.06) E é,

REDISCO Vitória da Conquista, v. 5, n. 1, p. 7-15, 2014


12 FRANCO

portanto, nesse sentido que compreendemos, apresenta uma narrativa de teor temporal
de acordo com Foucault, que a sexualidade contemporâneo. O monólogo da mãe situa o
pode e deve ser compreendida como um ocorrido “no ano 2000”, ao tratar inclusive,
dispositivo histórico quando verificamos que esse período como “moda liberada”. Esta
ela se trata de uma invenção social que se noção não está condicionada à relação com
constituiu historicamente a partir dos vários Flor apenas, e sim com o entrelaçamento do
discursos que “regulam, normatizam, seu gênero feminino: mulher num mundo “tão
instauram saberes, produzem ‘verdades’” evoluído, moderno”, como a mãe caracteriza.
sobre o sexo. Estão entrelaçados a este discurso de mulher,
O poema Alcoólicas ilustrou aqui, o que dona de seu corpo e seus desejos (“Flor está
Guacira Lopes Louro, a partir de Jeffrey comigo, passeia nas minhas coxas”) o
Weeks, assinala em seu texto: “Num mundo discurso de mãe e homossexual (“Filho, sua
de fluxo aparentemente constante, onde os mãe é homossexual”).
pontos fixos estão se movendo ou se Para além da representação corpórea
dissolvendo, seguramos o que nos parece subentendida apenas na menção das partes
mais tangível, a verdade de nossas físicas como as coxas, os cabelos e os lábios
necessidades e desejos corporais” (LOURO (metaforizados na frase “Beijo o batom de
apud WEEKS, 2000, p.08). Esta assertiva Flor, arranco o batom fora, a pétala”), a
converge para a necessidade de afirmação do relação entre a mãe e Flor é caracterizada pelo
corpo; a partir disso é que podemos nos sentimento e pelo desejo homossexual: “Flor
reconhecer dentro de nossos desejos e me beija, Flor me aquece”. Assim como, a
interesses aos múltiplos pertencimentos necessidade de constituir-se dentro de uma
sociais. No dizer da autora, “(…) Precisamos identidade homossexual a partir do discurso
de algo que dê um fundamento para nossas monológico esbarra, contudo, nos dispositivos
ações, e então construímos nossas “narrativas históricos que regulam as identidades sexuais
pessoais”, nossas biografias de uma forma e de gênero, como mencionado anteriormente.
que lhes garanta coerência” (LOURO, 2000, Uma das regulações que é referida no
p. 07). discurso da mãe, trata-se dos papéis sexuais
Filho, sua mãe é homossexual. É com essa desempenhados numa sociedade
frase que se inicia o conto Minha Flor, de heteronormativa:
Marcelino Freire. Integrante do livro de
contos BaléRalé (2003), a narrativa centra-se Querido, não precisa chamar ninguém de
na conversa de uma mãe ao filho. Ao retornar madrasta. Padrasto então, não tem isso, o
a casa, às três horas da manhã, no percurso de pessoal pergunta: quem é o homem?
chegada ao prédio até o quarto do filho, vai Quem é a mulher? Absurdo. Eu e seu pai
fazíamos coisas que até a vida duvida.
assumindo (em pensamento) para o filho sua
Filho hoje eu quero chorar, desabafar, eu
orientação homossexual, o famoso “sair do quero me libertar. Preciso (FREIRE,
armário”. O monólogo relata toda sua 2003, p. 108).
história: a referência à viuvez com o pai do
menino há cinco anos, a entrada da jovem A passagem acima evidencia a menção ao
Flor em sua vida, da relação homossexual que discurso normativo das relações
se constituiu entre as duas, o amor que as heterossexuais nos quais os papéis homem X
entrelaça, as características de cada uma, os mulher, construídos historicamente, é que
telefonemas e encontros marcados pelo rubor validam a sociedade. É fato a necessidade de
e pela sensação de desconfiança dos outros, a atribuir rótulos aos papéis sexuais em uma
necessidade de assumir sua condição para o relação homossexual configurando-as dentro
filho e o encontro com este já dormindo. Tal do enquadramento “homem” ou “mulher” da
condição anuncia o silenciamento novamente relação, numa tentativa de imposição de
e retorno ao “armário” com a frase “Deixa, relacionamento heteronormativo e, muitas das
filho, pra lá”.
O conto Minha flor, como foi possível
perceber nessa breve síntese do conto,

REDISCO Vitória da Conquista, v. 5, n. 1, p. 7-15, 2014


ENTRE TRAÇOS, ENTRE LAÇOS 13

vezes, buscando evidenciar uma relação de Mais do que qualquer uma, eu precisava
domínio de gênero sobre o outro3. estudar. A professora não misturava as
Nesse sentido, o entrelaçamento de corpos coisas. Dava zero, se fosse o caso. Dez, na
entre a mãe e Flor subjaz o entrelaçamento hora dos beijos.
Veio o psicólogo: uma menina de 13 anos
afetivo entre as duas que, ainda, esbarra na
fantasia sentimentos.
diferença de idade, “Flor se preocupa comigo. Qual estrutura tem?
Faz chá, põe fita no meu cabelo. Flor tem sua Fui morar no silêncio (FREIRE, 2010, p.
idade” (FREIRE, 2003, p. 108). Na sequência 133-134).
narrativa, entretanto, a mãe busca justificar
essa diferença de idade recorrendo à Semelhante ao conto Minha flor,
aproximação de maturidade da jovem com o observamos nesta narrativa de Marcelino
pai do menino. Processo que será recorrente Freire entrelaçamentos não somente sexuais,
no monólogo discursivo como recurso, mas também de posição social dos indivíduos:
possivelmente, para minimizar o conflito da aluna e professora, adulta e menor que, à parte
relação. as transgressões sociais que dramatizaram,
Conflito marcado pela série de quebras e unem-se pelo sentimento amoroso: “A
rupturas nos papéis sexuais, sociais e de professora não chegou assim: como se ela
gênero que revelam, sobremaneira, a fosse de plástico. Deu a ela arrepios. E uma
subjetividade eminente dessa mãe que se vontade madura” (FREIRE, 2010, p. 136).
revela homossexual, “Olho minha vida no A “vontade madura”, sentimento que
espelho. Hoje não tenho medo” (FREIRE, aproxima a adolescente da personagem Flor
2003, p. 109) e que se constitui no discurso (“Ela parece mais velha”), será força
monológico tateando em busca da maçaneta propulsora das suas ações no decorrer da
que abrirá a porta, futuramente, de sua narrativa. A adolescente inominada inscreve-
completa revelação. Por enquanto, o discurso se num grupo de teatro na Fundação Casa
revelador ainda é mantido no emudecimento. para se apresentar na penitenciária com o
Situação oposta se dará no conto intuito de se declarar à professora.
Declaração, também de Marcelino Freire,
presente no livro Amar é crime (2010). Como A peça era uma homenagem a Monteiro
o título da obra sinaliza, os contos integrantes Lobato.
perfazem o caminho dos crimes passionais, Não seria o caso de um outro texto, mais
muitos deles extraídos de fatos corriqueiros e, adulto? Isso não é presídio infantil.
inclusive, noticiados pela mídia brasileira. Era, de alguma forma.
Neste trajeto, a narrativa em destaque, Falaram para ela que a mulherada, muito
Declaração, centra-se na história da aluna tempo trancafiada, volta para o útero. Para
a infância. Algumas presas chupam
apaixonada pela professora e a prisão desta
chupetas. Lacinhos débeis na cabeça.
por abuso de menor. Entretanto, a narrativa Pelo menos, agora, ora, não haverá
revela, sob inserções da voz narrativa da diferença entre a gente. Colocará sua
adolescente, o amor entre as duas. professora nos braços. E ninará (FREIRE,
2010, p. 139).
Descobriram que a gente saía junto. Eu ía
na casa da professora. Dormia à tardinha e A passagem demonstra a inversão de
ela lia histórias. E tratava de me lamber. E papéis entre a adolescente e professora-
de me lavar.
presidiária. Se antes, a adolescente era tratada
como criança, no discurso acima assume
3
Ressaltem-se as brincadeiras ou insultos feitos a outro lugar, “Colocará sua professora nos
casais homossexuais masculinos que retratam a braços. E ninará.” Além disso, é reveladora da
subjugação, assim como relações sexuais de dominação condição carcerária feminina – a
nas quais os homossexuais masculinos não assumem infantilização que toma conta das identidades
identidade homossexual, justamente por pensarem que
ao dominarem não se inscrevem como tal porque
das mulheres em cárcere. A narrativa em
continuam, em seu ponto de vista, agindo como destaque, portanto, explora as condições de
“homem” violência, familiar e social, às quais as

REDISCO Vitória da Conquista, v. 5, n. 1, p. 7-15, 2014


14 FRANCO

personagens são sujeitadas, integrando-as a não haverá diferença entre a gente”) e na


três dispositivos autoritários (escola, família, diferença se reconhecem. O motim,
justiça) que buscam de todas as maneiras substantivo que caracteriza um ato de
emudecer seus sentimentos. indisciplina, um levante contra as autoridades,
E esse aspecto é o ponto de divergência é utilizado aqui como expressão de resistência
entre os contos de Marcelino Freire e em a um espaço patriarcal, autoritário e que não
discussão neste artigo. O conto Declaração, aceita corpos, identidades e sexualidades que
como o próprio título emblematiza, configura- não possam ser enquadradas em cárceres
se como um discurso de afirmação amorosa sociais ou discursivos.
que agrega a identidade homossexual à sua
verbalização. A declaração, situada no campo
semântico da relação amorosa, consubstancia- Laços feitos e desfeitos
se à revelação das vontades cerceadas pelos
dispositivos sociais. Quando a aluna sobe ao As considerações expostas partem de um
palco para se apresentar às presas, expressa projeto inicial de pesquisa sobre narrativas (a
sua condição de subjetividade (apaixonada princípio romances) em língua portuguesa que
pela professora) e tal afirmação vem apresentem em seu enredo relações
atravessada pelos elementos corporais. homossexuais femininas. Como procurei
ressaltar no início do artigo, a configuração
Coraçãozão na mão. do corpo feminino e das relações
Enxergou, de longe, o olhar da professora. homoafetivas observados na literatura
Ao que parece, tranquila. Talvez uma brasileira tiveram exposição na estética
cicatriz ou outra. Ainda mais bonita. realista-naturalista em que as teses científicas
Minha querida.
“determinavam” linguisticamente, inclusive, a
Vim aqui para gritar. O meu amor, para
todo o sempre, meu amor, seu juiz, sem
composição desse quadro.
fim. Não obstante, como revela Peter Fry, as
Ninguém consegue segurar esse motim personagens Pombinha e Léonie sejam
(FREIRE, 2010, p.140). tratadas com simpatia e compreensão no
romance de Aluísio Azevedo, o autor indica
A primeira frase, metaforicamente, indiretamente, através delas, que há apenas
expressa a ansiedade amplificada da aluna- dois caminhos possíveis para as mulheres do
adolescente (coraçãozão), no espaço-corpo cortiço: casar-se e continuar a vida
em que esta sensação é delineada. Na produzindo filhos e lavando roupa para as
continuidade das ações, a cicatriz – reveladora madames ou ascender socialmente como
não somente de marcas físicas, mas também, Bertoleza. No caso da dupla de personagens,
das condições adversas às quais a professora fogem à regra ao serem associadas à
foi submetida – sinaliza as adversidades. O prostituição e, principalmente, no fato do
passar do tempo e imposição aos maus tratos autor representar a lógica da prostituição.
do cárcere não diminuiu sua beleza, ao Conforme Fry (1982, p.41):
contrário, é reiterada pelo advérbio ainda. Ou
seja, embora presa, no espaço violento do (…) é a visão que elas tem dos homens que
cárcere, marcada pelas cicatrizes, a beleza as distingue das outras mulheres do cortiço.
Tanto Léonie quanto Pombinha invertem as
sobrevive. E o grito de amor e de afirmação é,
relações de poder que se supõe,
finalmente, enunciado. Inclusive para as convencionalmente, existirem entre os
autoridades que normatizam as relações sexos. Pombinha fica convencida da
amorosas (“seu juiz”). superioridade do seu sexo sobre os homens
A frase final do conto pode ser que são apenas escravos.
compreendida como metáfora para o
“entrelaçamento” amoroso entre as duas Ou seja, a relação homoafetiva que se
iguais, como sinalizou a adolescente na estabelece entre Pombinha e Léonie revela a
passagem anterior (“Pelo menos, agora, ora, rejeição à relação com os homens em

REDISCO Vitória da Conquista, v. 5, n. 1, p. 7-15, 2014


ENTRE TRAÇOS, ENTRE LAÇOS 15

detrimento da amizade entre as duas e, Linguagem, Antropologia e Ciências


também, da satisfação sexual que encontram Naturais. São Paulo: Brasiliense, 1982. p. 33-
entre si. O romance de Aluísio Azevedo, de 51.
certa forma, guardadas as ressalvas temporais,
abre para a possibilidade de exploração da HILST, Hilda. Do desejo. São Paulo: Globo,
temática, em outras vertentes, conforme 2004.
enunciamos: As meninas, de Lygia F. Telles,
Duas iguais, de Cíntia Moscovich, Efeiro LOURO, Guacira Lopes. (org.) O corpo
Urano, de Fernanda Youg, foram alguns dos educado: pedagogias da sexualidade. 2ed.
exemplos que podem ser revelados. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.
Detive-me à exploração dos contos de
Marcelino Freire para, em função do curto MICCOLIS, Leila; DANIEL, Herbert.
espaço desse artigo, discutir a configuração Jacarés & Lobisomens: dois ensaios sobre a
não somente do corpo feminino e lésbico na homossexualidade. Rio de Janeiro: Achiamé,
narrativa contemporânea, mas sobretudo, para 1983.
refletir sobre seus entrelaçamentos
discursivos e relações de poder, cujas MOSCOVICH, Cíntia. Duas iguais. Rio de
narrativas acabam por constituir. Janeiro: Record, 2004.
Em ambos os contos, há o
posicionamento das mulheres em sua SANTIAGO, Silviano. O homossexual
compreensão identitária (mais evidente no astucioso. In: ____. O cosmopolitismo do
monólogo não dito da mãe, em Minha flor) e pobre: Crítica literária e crítica cultural. Belo
sua colocação nos espaços de poder sociais (a Horizonte: Editora UFMG, 2004. p. 194-204.
família, a escola e a casa de correção). Há o
conflito interno no momento de se colocarem SANTOS, Célia Regina dos; WIELEWICKI,
diante da sociedade que resulta ou no Vera Helena Gomes. Literatura de autoria de
silenciamento ou no enfrentamento. De toda minorias étnicas e sexuais. In: BONNICI,
forma, configuram-se como entrelaçamentos Thomas; ZOLIN, Lúcia Osana. Teoria
discursivos dos corpos iguais em situações literária: Abordagens históricas e tendências
divergentes, nas quais a liberdade do corpo contemporâneas. Maringá: EDUEM, 2005, p.
transforma-se em discurso individual ou 285-99.
coletivo para a expressão de si.
TREVISAN, João Silvério. Devassos no
paraíso (a homossexualidade no Brasil, da
colônia à atualidade. 6ed. Rio de Janeiro:
Referências Record, 2004.

AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. 33 ed. Rio de


Janeiro: Ediouro, 1998. Recebido em: 19 de outubro de 2013
Aceito em: 23 de novembro de 2013.

CAMINHA, Adolfo. A normalista. Rio de


Janeiro: Artium, 1998.

FOUCAUL, Michel. Vigiar e punir:


Nascimento das prisões. Petrópolis: Vozes,
1987.

FRY, Peter. Léonie, Pombinha, Amaro e


Aleixo: prostituição, homossexualidade e raça
em dois romances naturalistas. In: EULÁLIO,
Alexandre. [et al]. Caminhos cruzados:

REDISCO Vitória da Conquista, v. 5, n. 1, p. 7-15, 2014