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APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.

º ANO

A RACIONALIDADE ARGUMENTATIVA DA FILOSOFIA


E A DIMENSÃO DISCURSIVA DO TRABALHO FILOSÓFICO
SUMÁRIO

1. TESE, ARGUMENTO, VALIDADE, VERDADE E SOLIDEZ


A lógica como estudo da validade dos argumentos …………………………………………………………………………. 4
O que se entende por argumento? ……………………………………………………………………………………………………. 5
O que são proposições? ……………………………………………………………………………………………………………………… 6
Como se distinguem as noções de validade e de verdade? ……………………………………………………………… 7
Quais as diferenças entre argumentos dedutivos e argumentos indutivos? …………………………………. 10

2. QUADRADO DA OPOSIÇÃO
O que são proposições categóricas …………………………………………………………………………………………… 12
Quantidade: proposições universais e particulares ………………………………………………………………………. 13
Qualidade: proposições afirmativas e negativas …………………………………………………………………………… 13
Quadrado da oposição …………………………………………………………………………………………………………………. 15
Proposições contraditórias ……………………………………………………………………………………………………………… 16
Proposições contrárias …………………………………………………………………………………………………………………… 16
Proposições subcontrárias ……………………………………………………………………………………………………………… 16
Proposições subalternas ………………………………………………………………………………………………………………… 16

3. FORMAS DE INFERÊNCIA VÁLIDA


Conectivas ou operadores verofuncionais ……………………………………………………………………………… 17
Negação ………………………………………………………………………………………………………………………………………… 17
Conjunção ………………………………………………………………………………………………………………………………………. 18
Disjunção inclusiva …………………………………………………………………………………………………………………………. 20
Disjunção exclusiva ………………………………………………………………………………………………………………………… 21
Condicionalização …………………………………………………………………………………………………………………………… 22
Bicondicionalização ………………………………………………………………………………………………………………………… 23
Tabelas de verdade e avaliação das proposições …………………………………………………………………… 23
Tautologia ………………………………………………………………………………………………………………………………………. 25
Contradição ……………………………………………………………………………………………………………………………………. 26
Contingência ………………………………………………………………………………………………………………………………….. 26
Formas de inferência válida ………………………………………………………………………………………………………… 27
Modus ponens ………………………………………………………………………………………………………………………………… 27
Modus tollens …………………………………………………………………………………………………………………………………. 28
Contraposição ………………………………………………………………………………………………………………………………… 29
Silogismo disjuntivo ………………………………………………………………………………………………………………………. 29
Silogismo hipotético ………………………………………………………………………………………………………………………. 29
Leis de De Morgan …………………………………………………………………………………………………………………………. 29
4. PRINCIPAIS FALÁCIAS FORMAIS

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O que é uma falácia? ……………………………………………………………………………………………………….…………… 31


Afirmação da consequente ……………………………………………………………………………………………………………. 31
Negação da consequente ………………………………………………………………………………………………………………. 32

5. O DISCURSO ARGUMENTATIVO E PRINCIPAIS TIPOS DE ARGUMENTOS E FALÁCIAS


INFORMAIS
O que são argumentos não dedutivos? …………………………………………………………………………………… 34
Principais tipos de argumentos não dedutivos ……………………………………………………………………… 37
Argumentos indutivos …………………………………………………………………………………………………………………… 38
Argumentos por analogia ……………………………………………………………………………………………………………… 40
Argumentos de autoridade ……………………………………………………………………………………………………………. 42
Principais tipos de falácias informais ………………………………………………………………………………….…… 43
Contra a pessoa (ad hominem) …………………………………………………………………………………………………….. 43
Apelo à ignorância ……………………………………………………………………………………………………………………….… 44
Falsa relação causal ……………………………………………………………………………………………………………………….. 45
Petição de princípio ………………………………………………………………………………………………………………………… 45
Derrapagem (ou bola de neve) ……………………………………………………………………………………………………… 46
Boneco de palha (ou espantalho) …………………………………………………………………………………………………. 46
Falso dilema ……………………………………………………………………………………………………………………………………. 47
Generalização precipitada ……………………………………………………………………………………………………………… 48
Amostra não representativa …………………………………………………………………………………………………………… 48
Falsa analogia …………………………………………………………………………………………………………………………………. 48
Ad populum ……………………………………………………………………………………………………………………………………. 49

EXERCÍCIOS COMPLEMENTARES
Tese, argumento, validade, verdade e solidez ………………………………………………………………………………… 50
Quadrado da oposição ………………………………………………………………………………………………………………………. 54
Formas de inferência válida ……………………………………………………………………………………………………………… 55
O discurso argumentativo e principais tipos de argumentos e falácias informais …………………………. 59

ANEXO
Estrutura do ensaio filosófico …………………………………………………………………………………………………………… 63

1. TESE, ARGUMENTO, VALIDADE, VERDADE E SOLIDEZ

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APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

A LÓGICA COMO ESTUDO DA VALIDADE DOS ARGUMENTOS

Embora desde muito cedo os seres humanos se tenham tornado capazes de usar a linguagem para
elaborar argumentos e detetar falhas nos argumentos uns dos outros, a fundação da lógica enquanto
disciplina filosófica situa-se na Antiguidade grega. Aristóteles (c. 384322 a.C.) é geralmente
reconhecido como o primeiro pensador a estabelecer um sistema de lógica e a fornecer uma distinção
ordenada dos argumentos válidos e inválidos. Para realizar esta tarefa, criou um vasto vocabulário
técnico, que foi traduzido em muitas línguas. A lógica aristotélica permaneceu vinte e dois séculos
praticamente inalterada. Só a partir do século XIX, Gottlob Frege (1848-1925) e Charles Pierce (1839-
1914) revolucionaram os fundamentos da disciplina, dando origem a uma nova era na lógica. No
século XX, a ciência da inferência conheceu progressos relevantes.

Todos queremos ser capazes de apresentar argumentos rigorosos e estar aptos a acautelar raciocínios
defeituosos. A razão e a lógica natural são os procedimentos que utilizamos quotidianamente (nem
sempre de maneira muito rigorosa) para atingir esse objetivo. Mas, para que os nossos raciocínios
possam ser claros e traduzir-se em bons argumentos, é importante saber evitar o erro. A
sistematização dos princípios ou fundamentos com os quais é possível argumentar validamente, isto é,
defender uma tese, é tarefa da lógica. A lógica científica é a disciplina que sistematiza os princípios
ou fundamentos com os quais é possível argumentar validamente. Interessa-se por aqueles processos
a que chamamos «raciocínios» ou «inferências», quando pensamos neles como processos mentais, e a
que chamamos «argumentos» quando atentamos de modo especial no seu aspeto linguístico.

Os argumentos são os tijolos com que se constroem as teorias filosóficas; a lógica é a argamassa que
une todos esses tijolos. As boas ideias de pouco valem a menos que sejam sustentadas por bons
argumentos – têm de ser justificadas racionalmente, e isso não pode fazer-se devidamente sem uma
firme e rigorosa sustentação lógica. Os argumentos apresentados com clareza estão sujeitos à
avaliação e à crítica, e é esse contínuo processo de reação, revisão e rejeição que impulsiona o
progresso filosófico.

B. Dupré, 50 Ideias – Filosofia que precisa mesmo de saber, Dom Quixote, 2011, p. 108.

1. Partindo do excerto, esclareça a importância da lógica.

Não nos servirá de muito esta apresentação prévia da lógica se não soubermos o que se entende por
validade de um argumento e, antes ainda, o que é um argumento. Importa, por conseguinte, clarificar
cada uma destas noções.

O QUE SE ENTENDE POR ARGUMENTO?

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APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Um argumento é um complexo formado por uma ou várias proposições (premissas), a partir da(s)
qual(ais) se infere uma única proposição (conclusão). A relação que se estabelece entre as premissas
e a conclusão é uma relação de justificação, conseguida ou não, frequentemente assinalada com
expressões como «logo», «portanto», «por conseguinte», etc. O movimento ou passagem das
premissas para a conclusão designa-se inferência ou raciocínio.

As premissas são o ponto de partida de um argumento. Devem apoiar racionalmente a conclusão e


visam, no seu conjunto, fornecer os fundamentos para que a conclusão seja aceite. Premissas e
conclusão são muitas vezes acompanhadas de expressões que nos ajudam a identificar umas e outra.

Exemplos:
→ Conclui-se que as galinhas não são peixes, uma vez que os peixes têm guelras e as galinhas
não têm guelras.
→ Sabendo nós que as galinhas não têm guelras e que todos os peixes possuem guelras, segue-se
que as galinhas não são peixes.
→ Porque as galinhas não têm guelras e os peixes têm, infere-se que as galinhas não são peixes.
→ Já que as galinhas não têm guelras e os peixes têm-nas, então concluímos que as galinhas não
são peixes.

O QUE SÃO PROPOSIÇÕES?

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APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Cada uma das premissas de um argumento, bem como a sua conclusão, são proposições. As
proposições, aquilo que é proposto ou declarado, são asserções: dizem como as coisas são, foram ou
serão. No entanto, nem todas as frases são proposições. Só as frases indicativas, por vezes também
enunciados declarativos, suscetíveis de serem encaradas como verdadeiras ou falsas, são
proposições.

Uma proposição é necessariamente portadora de valor de verdade. Por esta razão, as frases usadas
para exprimir ordens, preces, pedidos ou perguntas, por exemplo, não constituem proposições.

Exemplos de frases que são proposições:


→ Está a chover.
→ Hoje não faz sol.
→ Existem animais estranhos.
→ As hienas e os chacais são animais carnívoros.
→ Se não estudar para o teste de lógica, a lógica será uma disciplina difícil.
→ A Terra é um planeta do sistema solar. → Lisboa não é a capital de Espanha.

Exemplos de frases que não são proposições:


→ Qual o significado da palavra meditabundo?
→ Tens de estudar para o teste de lógica.
→ Traz-me aquele lápis, por favor.
→ Desejo-lhe boa sorte.
→ Oxalá chova.
→ Esteja atento.
→ Golo!

1. Indique as proposições no conjunto que se segue.


a) Nem todos os insetos têm asas.
b) É verdade que nem todos os insetos têm asas?
c) Se acordar cedo, irei correr.
d) Não te atrases com os trabalhos de casa.
e) Suricatas, lobos e abelhas não são animais solitários.
f) Declaramo-lo culpado.
g) Se é maior do que 2, então não será 1.
h) Ou vou estudar ou vou dormir.
i) A que horas pensas estar disponível

COMO SE DISTINGUEM AS NOÇÕES DE VALIDADE E DE VERDADE?


Procuremos resposta para esta questão auxiliados pelo texto que se segue.

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As partes relevantes de um argumento são, em primeiro lugar, as suas premissas. As premissas são o
ponto de partida, ou o que se aceita ou presume, no que respeita ao argumento. Um argumento pode
ter uma ou várias premissas. A partir das premissas, os argumentos derivam uma conclusão. Se
estamos a refletir sobre um argumento talvez por termos relutância em aceitar a sua conclusão,
temos duas opções. Em primeiro lugar, podemos rejeitar uma ou mais das suas premissas. Em
segundo lugar, podemos também rejeitar o modo como a conclusão é extraída das premissas. A
primeira reação é que uma das premissas não é verdadeira. A segunda é que o raciocínio não é válido.
É claro que o mesmo argumento pode estar sujeito a ambas as críticas: as premissas não são
verdadeiras e o raciocínio aplicado é inválido. Mas as duas críticas são distintas (e as duas expressões,
«não é verdadeira» e «não é válido», marcam bem a diferença). No dia a dia, os argumentos também
são criticados noutros aspetos. As premissas podem não ser muito sensatas. (…) Mas «lógico» não é
um sinónimo de «sensato». A lógica interessa-se em saber se os argumentos são válidos, e não se
são sensatos. E vice-versa, muitas das pessoas a que chamamos «ilógicas» podem até usar
argumentos válidos, mas serão patetas por outros motivos. A lógica só tem uma preocupação: saber
se não há maneira de as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa.

S. Blackburn, Pense. Uma Introdução à Filosofia Gradiva, 2001, pp. 201-202.

1. Que partes constituem um argumento?


2. O que distingue verdade de validade?
3. Qual o objeto de estudo da lógica?

A partir da leitura do texto anterior, podemos concluir que:

→ Das proposições dizemos que são verdadeiras ou falsas.


→ Dos argumentos afirmamos que são válidos ou inválidos.
→ A validade refere-se à forma/estrutura dos argumentos.
→ A verdade diz respeito ao conteúdo/matéria das proposições.

Consideremos os exemplos que se seguem.


Argumento 1
Os ursos-polares são mamíferos.
Todos os mamíferos respiram por pulmões.
Logo, os ursos-polares respiram por pulmões.

Argumento 2
Os carapaus não são mamíferos.
Todos os mamíferos respiram por pulmões.

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APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Logo, os carapaus não respiram por pulmões

As conclusões dos argumentos apresentados são ambas verdadeiras. Efetivamente, os ursos-polares


respiram por pulmões, o mesmo não acontecendo com os carapaus. Mas não precisamos de ser
especialistas em zoologia para rapidamente percebermos que há qualquer coisa de errado com o
argumento 2. Quanto ao primeiro, independentemente de sabermos ou não o que são ursos-polares,
se reconhecermos como verdadeiras as premissas, somos forçados a aceitar a conclusão.
Dizemos então que o argumento 1 é válido. Não há alternativa à conclusão apresentada. A
conclusão não é apenas verdadeira, é também uma consequência lógica das premissas. Percebemo-
lo a partir da forma lógica ou estrutura formal do argumento. Qualquer outro argumento que
respeite rigorosamente a mesma forma lógica será também válido.

No caso do argumento 2, tanto as premissas como a conclusão são verdadeiras, mas o argumento
carece da propriedade de validade: é, por isso, inválido. A conclusão não é uma consequência lógica
das premissas. Uma das premissas do argumento diz que os mamíferos, todos eles, respiram por
pulmões, mas não diz que apenas os mamíferos respiram por pulmões.

O argumento 2 é, assim, um exemplo de mau argumento. Diz-se que um argumento é mau quando
apresenta, para a sua conclusão, um suporte débil ou nenhum suporte em absoluto. Inversamente, o
argumento 1 é um bom argumento. Um argumento é bom quando é válido ou quando as
premissas apoiam, no sentido mais forte que há, a sua conclusão. Reserva-se frequentemente o termo
sólido para nos referirmos a argumentos válidos com premissas verdadeiras.

Um argumento inválido pode ter premissas e conclusão verdadeiras, do mesmo modo que um
argumento válido pode ser constituído por premissas e conclusão falsas. A virtude essencial de um
argumento válido não reside no facto de as premissas serem verdadeiras ou falsas, mas no facto de a
conclusão se seguir necessariamente das premissas, o que acontece no argumento 1 – por isso
se disse que a sua conclusão era consequência lógica das premissas – e não no argumento 2 – por
isso se disse que a sua conclusão não era consequência lógica das premissas.

Sabemos que é impossível que, num argumento válido, as premissas sejam verdadeiras e a conclusão
falsa. Consequentemente, se um argumento possui premissas verdadeiras e conclusão falsa, então
podemos rejeitá-lo de imediato: é inválido. Mas, em todas as demais circunstâncias, teremos de
analisar a forma como a conclusão é extraída do conjunto das premissas para podermos determinar se
o argumento é válido ou inválido.

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APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Concluímos assim que:


→ A validade é uma propriedade que se refere exclusivamente à forma lógica ou estrutura formal
do argumento.
→ O conteúdo específico das premissas e da conclusão não é relevante para determinar a validade
dos argumentos.

A validade é uma importante propriedade dos argumentos. Se, e apenas se, nos basearmos em
informação verdadeira e, simultaneamente, raciocinarmos validamente, é seguro que não chegaremos
a uma conclusão falsa.

Nota: O tópico Tese, argumento, validade, verdade e solidez remete para o ensaio filosófico. Nesse
sentido, disponibilizamos, na página 63 deste documento, uma proposta de estrutura para o ensaio
filosófico.
1. Identifique, no conjunto que se segue, as afirmações verdadeiras.
a) Um argumento válido pode ter uma ou mais premissas falsas.
b) Um argumento válido pode ter uma conclusão falsa.
c) Um argumento válido pode ter premissas falsas e conclusão verdadeira.
d) Um argumento válido pode ter premissas verdadeiras e conclusão falsa.
e) Um argumento inválido pode ter premissas e conclusão verdadeiras.

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QUAIS AS DIFERENÇAS ENTRE ARGUMENTOS DEDUTIVOS E ARGUMENTOS INDUTIVOS?

Consideremos o seguinte argumento:

Todos os marsupiais são mamíferos.


O canguru é um marsupial.
Logo, [é necessariamente verdade que] o canguru é mamífero.

O exemplo considerado é um argumento dedutivo e, neste caso, válido, pois a conclusão é


consequência lógica das premissas. Alguém que aceite as premissas mas rejeite a conclusão incorre
em contradição, uma vez que a conclusão está implicada pelas premissas. Se as premissas forem
verdadeiras, a conclusão será garantidamente verdadeira. Dizemos, por isso mesmo, que o argumento
é válido. Por outras palavras, argumentos como este (por vezes ditos dedutivamente válidos)
preservam a verdade. Mas, num certo sentido, eles não são ampliativos: a conclusão não vai
além das premissas, isto é, não diz mais do que aquilo que estas implicam.

Afirmar que um argumento dedutivo válido preserva a verdade não nos deve levar ao equívoco de
imaginar que tal acontece com qualquer argumento dedutivo. Como já referimos, apenas nos
argumentos dedutivos válidos (e só nesses) é impossível a conclusão ser falsa e as premissas serem
verdadeiras.

Nem só as deduções válidas são bons argumentos. Um argumento pode ainda ser um bom argumento
quando as premissas sustentam a conclusão de alguma maneira não dedutiva, por exemplo,
indutivamente.

Todas as nozes observadas até hoje têm casca.


Assim sendo, [com um forte grau de probabilidade] todas as nozes terão casca.
ou
Todas as nozes observadas até hoje têm casca.
Portanto, [com um forte grau de probabilidade] a próxima noz a ser observada terá casca.

Ao contrário dos argumentos dedutivos, as inferências indutivas não nos levam a uma conclusão que
realmente deriva das premissas, mas a extrapolações: do particular para o geral, do observável para
o não-observável, do conhecido para o desconhecido, do passado e presente para o futuro, etc. A
conclusão de uma inferência indutiva ultrapassa as premissas, no sentido em que a verdade conjunta
das premissas não garante a verdade da conclusão.

Todos os argumentos pretendem, em geral, justificar a sua conclusão. Quando a pretensão é, mais
especificamente, a de garantir ou estabelecer a verdade da conclusão, o argumento é dedutivo;
quando a pretensão é, mais especificamente, suportar ou apoiar a probabilidade da verdade da
conclusão, o argumento é indutivo. Quando estas pretensões mais específicas são conseguidas, os
argumentos dizem-se, respetivamente/tecnicamente, válidos e fortes.

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Os argumentos indutivos, conduzem-nos sempre a conclusões prováveis, plausíveis ou verosímeis.


São ampliativos, mas não são demonstrativos, dado que a conclusão é uma extrapolação a partir
das premissas. Os argumentos indutivos nunca provam algo definitivamente. É sempre perfeitamente
possível que as premissas sejam verdadeiras, mas a conclusão seja falsa.

2. QUADRADO DA OPOSIÇÃO

O QUE SÃO PROPOSIÇÕES CATEGÓRICAS?


Uma proposição categórica é uma frase sujeito-predicado. É composta por dois termos ( sujeito e
predicado) ligados por uma cópula (negada ou não) – «S é P» ou «S não é P».

O termo é a palavra, ou conjunto de palavras, que denota um indivíduo ou classe de indivíduos. É a


expressão verbal de um conceito ou, por vezes, de uma ideia. No plano puramente lógico, podemos
admitir a equivalência entre termo e conceito.

A lógica aristotélica ocupa-se em especial de um tipo particular de proposição – a chamada proposição


declarativa categórica. Uma proposição declarativa categórica é uma proposição do seguinte género:
«S é (respetivamente, não é) P». Nesta estrutura representativa temos, por assim dizer, três lugares.
O lugar representado pela letra S, o lugar representado pela letra P e o lugar ocupado pela partícula
«é». Ao lugar representado pela letra S nesta estrutura chama-se o lugar do sujeito; ao lugar
representado pela letra P chama-se o lugar do predicado e ao lugar representado pela partícula «é»
chama-se o lugar da cópula. A cópula é uma partícula de ligação que conecta de determinado modo os
ocupantes dos outros dois lugares. Às entidades representativas que podem ocupar os lugares do
sujeito e do predicado numa proposição chama-se termos.

A. Zilhão, Lógica. 40 Lições de Lógica Elementar, Colibri, 2001, p. 10.

1. Que elementos caracterizam as proposições categóricas?

Quando queremos mostrar que há algo de errado com um dado argumento, podemos fazê-lo
negando/refutando uma ou várias proposições que o constituem.

Imagina que alguém nos apresenta o argumento que se segue:

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APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Premissa 1: Nenhum mamífero põe ovos.


Premissa 2: O elefante é um mamífero.
Conclusão: O elefante não põe ovos.
Trata-se de um argumento válido e a conclusão é, sabemo-lo, verdadeira. Contudo, não se trata de
um argumento sólido e a primeira premissa pode ser negada/ refutada. Como? Afirmando que todos
os mamíferos põem ovos? Não. Apresentando pelo menos um mamífero que ponha ovos, neste
caso, o ornitorrinco, isto é, afirmando que existem mamíferos que põem ovos. As proposições
«alguns mamíferos põem ovos» e «nenhum mamífero põe ovos» podem ser simultaneamente
verdadeiras? Não. Trata-se de proposições inconsistentes: se uma delas for verdadeira, a outra é
necessariamente falsa e vice-versa.

Para negar proposições categóricas podemos recorrer à lógica aristotélica e ao quadrado da


oposição.

Quantidade: proposições universais e particulares


Um elemento fundamental das proposições categóricas aristotélicas é o quantificador, que nos
mostra se a relação entre sujeito e predicado respeita à totalidade ou apenas a parte dos elementos
da classe do termo sujeito.

O quantificador que introduz a proposição – «todos» ou «alguns» – determina a sua quantidade.

Quanto à quantidade, as proposições aristotélicas podem ser universais ou particulares.

Consideremos os exemplos:
→ Todos os patos são aves.
→ Todas as portas não são janelas ou Nenhuma porta é janela.
→ Alguns caracóis são comestíveis.
→ Algumas manhãs não são frias.
As duas primeiras proposições começam com a palavra «todos» ou «nenhum» (ou «todas» ou
«nenhuma»). Aristóteles designou-as, por isso, proposições universais.

Em contraste, os dois últimos exemplos são introduzidos pelo quantificador «alguns» (ou «algumas»).
Aristóteles chamou a este tipo de frases proposições particulares.

Qualidade: proposições afirmativas e negativas


A quantidade não é o único fator relevante para a classificação das proposições categóricas. Estas
proposições são também classificadas quanto à sua qualidade. É a partir da cópula ou partícula de
ligação entre sujeito e predicado – «é» ou «não é» – que se identifica a qualidade de uma proposição
categórica. No que respeita à qualidade, as proposições podem ser afirmativas ou negativas.

Consideremos os exemplos:

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APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

→ Todos os gregos são europeus.


→ Alguns gregos são atenienses.

Trata-se, claramente, de duas proposições afirmativas, uma vez que em ambos os casos se atribui
um determinado predicado ao sujeito, ou seja, se afirma algo sobre o sujeito. No primeiro caso temos
uma proposição universal afirmativa (Todo o S é P) e no segundo uma proposição particular
afirmativa (Algum S é P).

Atentemos agora nos exemplos:

→ Todos os chineses não são japoneses ou Nenhum chinês é japonês.


→ Alguns chineses não são agricultores.

Conseguimos, intuitivamente, perceber a diferença entre afirmar que algo se verifica e negar que algo
se verifica. Os exemplos agora propostos dão conta de proposições negativas, dado que em
qualquer dos casos se recusa um determinado predicado ao sujeito. À primeira proposição, Aristóteles
chamou universal negativa (Nenhum S é P) e à segunda particular negativa (Algum S não é
P).

Dois quantificadores e duas cópulas dão assim origem a quatro formas categóricas possíveis.

As quatro primeiras vogais do alfabeto latino – A, E, I, O –, utilizadas para designar habitualmente as


proposições aristotélicas, têm origem nas palavras latinas AfIrmo e nEgO.

Nem sempre uma proposição categórica surge na forma canónica da lógica aristotélica: Todo o S é P;
Nenhum S é P; Algum S é P; Algum S não é P. Consideremos alguns exemplos de outras expressões
possíveis.

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APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

1. Classifique as seguintes proposições quanto à quantidade e qualidade.


a) O triângulo é uma figura plana.
b) O triângulo não é um quadrilátero.
c) Alguns triângulos não são equiláteros.
d) Alguns triângulos são equiláteros.

2. Construa proposições na forma canónica da proposição categórica, considerando as


seguintes propostas:
a) Proposição do tipo A. Sujeito: dia de chuva. Predicado: aborrecido.
b) Proposição do tipo E. Sujeito: universo. Predicado: finito.
c) Proposição do tipo I. Sujeito: gregos. Predicado: divertidos.
d) Proposição do tipo O. Sujeito: legumes. Predicado: couve-flor.

QUADRADO DA OPOSIÇÃO
Estes quatro tipos ou formas de proposições podem ser organizados num diagrama conhecido como
quadrado lógico ou quadrado da oposição. O quadrado da oposição resume as relações lógicas que
ocorrem entre as quatro formas de proposições categóricas quantificadas.

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APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Proposições contraditórias: Duas proposições contraditórias não podem ser ambas verdadeiras
nem ambas falsas simultaneamente.

Proposições contrárias: Duas proposições contrárias não podem ser simultaneamente verdadeiras,
mas podem ser ambas falsas.

Proposições subcontrárias: Duas proposições subcontrárias não podem ser simultaneamente


falsas, mas podem ser ambas verdadeiras.

Proposições subalternas: Duas proposições subalternas serão ambas verdadeiras se a proposição


universal for verdadeira e ambas falsas se a proposição particular for falsa. Contudo, nada podemos
concluir da proposição universal falsa ou da particular verdadeira.

Com o auxílio deste quadrado podemos então concluir que, relativamente às proposições categóricas:
Exemplo Negação
Todos os portugueses são Alguns portugueses não são
A – Universal afirmativa
continentais. continentais.
Nenhum português é continental. Alguns portugueses são continentais.
E – Universal negativa
Alguns portugueses são Nenhum português é continental.
I – Particular afirmativa
continentais.
Alguns portugueses não são Todos os portugueses são
O – Particular negativa
continentais. continentais.

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APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

3. FORMAS DE INFERÊNCIA VÁLIDA

A lógica proposicional é o ramo da lógica que se ocupa dos argumentos cuja validade depende
exclusivamente do modo como as frases declarativas são modificadas por uma partícula como não ou
ligadas entre si por partículas como e, ou, ou… ou, se… então, se e somente se. As partículas
anteriormente referidas são chamadas por conectivas ou operadores verofuncionais.

CONECTIVAS OU OPERADORES VEROFUNCIONAIS

Na lógica proposicional há uma correspondência entre fórmulas e proposições, de tal modo que umas
e outras têm um valor de verdade, que pode ser o verdadeiro (V) ou o falso (F). A ideia básica é,
por vezes, a de que assim se representam factos e combinações de factos através de operações
lógicas. Deste ponto de vista, uma conectiva corresponde a uma operação lógica – e introduzem-se
símbolos diferentes das anteriores letras proposicionais.

São seis as conectivas ou operadores verofuncionais de que nos ocuparemos.

Negação

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APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

A negação de uma frase tem o valor de verdade oposto ao da frase de partida.

A expressão «não é verdade que» ou «é falso que» é uma conectiva de formação de frases.
Chamamos negação à função de verdade e «não P» à proposição que se obtém pela negação de P.

Usamos o símbolo  para substituir a expressão «não é verdade que» ou «é falso que» e, por

consequência, «não P» denota-se por meio da seguinte expressão:  P

Admitamos que P representa a proposição «Os direitos humanos são universalmente respeitados».

Assim, poderemos escrever  P em vez de:

→ Os direitos humanos não são universalmente respeitados.


→ Não é verdade que os direitos humanos sejam universalmente respeitados.
→ É falso que os direitos humanos sejam universalmente respeitados.

A negação de uma frase tem o valor de verdade oposto ao da frase de partida. A situação pode ser
representada por meio de uma tabela de verdade como a que se segue.

A negação é uma função unária porque se aplica a uma única proposição. Todas as demais funções de
verdade são binárias por se aplicarem a duas proposições.

1. Considere a proposição «É falso que a pena de morte tenha sido abolida em todos os
países europeus».
a) Se a proposição supra for falsa, qual o valor de verdade da proposição «A pena de morte foi
abolida em todos os países europeus»?
b) Se a proposição dada for verdadeira, qual o valor de verdade da proposição «A pena de morte foi
abolida em todos os países europeus»?

2. Apresente a negação da proposição «É verdade que chove».

Conjunção

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APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

A conjunção é verdadeira se, e apenas se, todas as proposições que a compõem forem
verdadeiras.

Uma proposição composta por duas proposições simples unidas por e é uma conjunção: P e Q.

Usamos símbolo  para substituir a expressão e. Por consequência, a função P e Q simboliza-se do


seguinte modo: P  Q

Se P representar a proposição «Estamos no século XXI» e Q a proposição «A escravatura existe»,

então poderemos escrever P  Q em vez de:


→ Estamos no século XXI e a escravatura existe.
→ Estamos no século XXI, mas a escravatura existe.
→ Apesar de estarmos no século XXI, a escravatura existe.

A conjunção é verdadeira se, e somente se, todas as proposições conjuntas forem também elas
verdadeiras. Basta, pois, que uma das proposições conjuntas seja falsa para que a conjunção também
o seja.

1. Considere a proposição «Ainda que goste de filosofia, não aprecio lógica».


a) Transforme a proposição numa conjunção.
b) Se soubermos que a proposição «Gosto de filosofia» é falsa, o que podemos dizer sobre o valor de
verdade da proposição composta?
c) Se a proposição «Não aprecio lógica» for verdadeira, será possível determinar o valor de verdade
da conjunção? Porquê?

2. Considere as proposições P «O livro tem muitas páginas» e Q «O livro é muito bom».


Passe para linguagem simbólica as proposições seguintes:
a) O livro tem muitas páginas, mas é muito bom.
b) O livro é muito bom, apesar de ter muitas páginas.
c) O livro é muito bom e é falso que o livro tenha muitas páginas.
d) É falso que o livro tenha muitas páginas, mas é certo que é muito bom.

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APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Disjunção inclusiva

Uma disjunção inclusiva é verdadeira se, e apenas se, pelo menos uma das frases disjuntas
for verdadeira.

A expressão ou é também muito frequente na nossa língua. Trata-se da disjunção, que pode assumir
duas formas: a inclusiva a exclusiva.

Uma disjunção inclusiva (e/ou) é a proposição complexa que se forma quando colocamos
proposições (denominadas frases disjuntas) antes e depois de um P ou de um Q. Usamos o símbolo

 para substituir a expressão ou e, portanto, a função P ou Q escreve-se do seguinte modo: P Q


Daqui decorre que se P representar a proposição «As mulheres conquistaram direitos» e Q a

proposição «A violência de género persiste», então poderemos escrever P  Q em vez de:


→ As mulheres conquistaram direitos ou a violência de género persiste.

Uma disjunção inclusiva é verdadeira se, e somente se, pelo menos um dos seus componentes – ou
frase disjunta – o for. A tabela de verdade da disjunção inclusiva elabora-se como se apresenta de
imediato.

1. Considere a proposição «Procuram-se gatos ou cães para adoção».


a) Adotando o dicionário P «Procuram-se gatos para adoção» e Q «Procuram-se cães para adoção»,
formalize a proposição complexa.
b) Se soubermos que a proposição P é verdadeira, o que poderemos concluir sobre a proposição
complexa? Porquê?
c) Se a proposição «Procuram-se cães para adotar» for falsa, será possível determinar o valor de
verdade da disjunção inclusiva? Porquê?

Disjunção exclusiva

18
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Uma disjunção exclusiva é verdadeira se, e só se, apenas uma das suas frases disjuntas for
verdadeira.

A maior parte das vezes que usamos a expressão ou usamo-la no sentido exclusivo. Se dissermos «ou
vou dormir ou vou estudar», significa que planeamos fazer uma das duas coisas – ou dormir ou
estudar –, mas não ambas.


Uma disjunção exclusiva lê-se ou P ou Q. Usamos o símbolo  para substituir a expressão ou… ou


e, portanto, a função ou P ou Q escreve-se do seguinte modo: P  Q

Daqui decorre que se P representar a proposição simples «Irei pescar» e Q a proposição simples «Irei

nadar», então poderemos escrever P  Q em vez de:

→ Ou irei pescar ou irei nadar.


→ Só penso fazer uma de duas coisas: pescar ou nadar.

Uma disjunção exclusiva é verdadeira quando apenas um dos seus


componentes o for. A tabela de verdade da disjunção elabora-se como se
apresenta de imediato.

1. Considere a proposição «A Presidência da República será ocupada nas próximas eleições


ou por um homem ou por uma mulher».
a) Adotando o dicionário P «A Presidência da República será ocupada nas próximas eleições por um
homem» e Q «A Presidência da República será ocupada nas próximas eleições por uma mulher»,
formalize a proposição complexa.
b) Se soubermos que a proposição P é verdadeira, o que podemos concluir sobre o valor de verdade
da proposição composta? Porquê?
c) Se soubermos que nenhuma das proposições é falsa, o que podemos concluir sobre o valor de
verdade da proposição composta?

Condicionalização (ou implicação)

19
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Uma proposição condicional é falsa se, e apenas se, a antecedente (condição) for
verdadeira e a consequente falsa.

Uma proposição condicional é uma frase formada a partir da expressão se… então. À frase que se
segue a se chamamos antecedente e à que se segue a então chamamos consequente: se P então
Q.

Usamos o símbolo  para substituir a expressão se… então e, por conseguinte, a função de verdade
se P então Q denota-se do seguinte modo: P  Q

Seja P a representação da proposição simples «A discriminação étnica existe» e Q da proposição

simples «Os direitos humanos são violados». Assim, poderemos escrever P  Q em vez de:

→ Se a discriminação étnica existe, então os direitos humanos são violados.


→ Basta que exista discriminação étnica, para que os direitos humanos sejam violados.
→ A discriminação étnica é condição para que os direitos humanos sejam violados.

Uma proposição condicional é falsa quando a antecedente (condição) é verdadeira e a consequente


falsa. Em todos os outros casos é verdadeira. A tabela de verdade da condicional elabora-se como se
segue.

1. Considere a afirmação «Os brincos serão muitos caros se forem de ouro».


a) Atribua uma letra precisa a cada uma das proposições simples.
b) Escreva a proposição complexa em linguagem simbólica.
c) Que valor de verdade deve ser atribuído a Q  P, sendo ¬Q falsa e P falsa?

2. Sejam as proposições P «Negligenciamos os trabalhos de casa» e Q «Sofremos as


consequências», passe para linguagem simbólica as proposições seguintes.
a) Sofreremos as consequências se negligenciarmos os trabalhos de casa.
b) Se não negligenciarmos os trabalhos de casa, então não sofreremos as consequências.

 Bicondicionalização (ou equivalência)

20
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Uma proposição bicondicional é verdadeira quando, e só quando, as proposições que a


compõem assumem em simultâneo o mesmo valor de verdade.

A função de verdade que corresponde ao operador verofuncional se e somente se chama-se


bicondicionalização ou equivalência. Uma equivalência é, assim, a proposição complexa que se
forma quando colocamos proposições antes e depois de se e somente se: P se e somente se Q.

Usamos o símbolo  para substituir a expressão se e somente se e, portanto, P se e somente se Q

denota-se do seguinte modo: P Q

Seja P a representação da proposição simples «A dignidade humana existe» e Q da proposição simples

«Os direitos humanos são respeitados». Assim, poderemos escrever P  Q em vez de:

→ A dignidade humana existe se e somente se os direitos humanos forem respeitados.


→ O respeito pelos direitos humanos é condição necessária e suficiente para que a dignidade
humana exista.
→ A dignidade humana existe se e somente se os direitos humanos forem respeitados.
→ O respeito pelos direitos humanos é condição necessária e suficiente para que a dignidade
humana exista.

Uma proposição bicondicional é verdadeira quando, e só quando, as


proposições que a compõem assumem em simultâneo o mesmo valor de
verdade, isto é, são ambas verdadeiras ou ambas falsas. Assim, a sua
tabela de verdade constrói-se como se mostra abaixo.

Considere a proposição «Recebemos salário se tivermos emprego e vice-versa».


a) Adotando o dicionário P «Recebemos salário» e Q «Temos emprego», escreva em linguagem
simbólica a proposição supra.
b) Que valor ou valores de verdade pode assumir a proposição complexa se for verdade que
recebemos salário?
c) Que valor ou valores de verdade pode assumir a proposição complexa se tanto P como Q forem
falsas?

EM SÍNTESE:

21
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

TABELAS DE VERDADE E AVALIAÇÃO DE PROPOSIÇÕES


O modo como cada operador verofuncional determina o valor de verdade das proposições em que
ocorre é representado numa tabela de verdade, ou seja, num diagrama que mostra todos os valores
de verdade possíveis para uma determinada fórmula proposicional.

Há um padrão relativamente fixo para elaborar tabelas de verdade. Se seguirmos esse padrão, elas
serão de fácil leitura; se não o seguirmos, serão caóticas. Ao construirmos uma tabela de verdade,
para que todas as combinações possíveis (circunstâncias ou casos) sejam tidas em consideração,
importa saber:

→ Se a fórmula for constituída por uma única proposição simples, teremos duas combinações
possíveis (2¹, isto é, dois valores de verdade – V e F – e uma proposição).
→ Para as fórmulas constituídas por duas proposições simples, teremos quatro combinações possíveis
(2²).
→ Quando a fórmula incluir três proposições simples, teremos oito combinações possíveis (2³).

→ E assim sucessivamente (2ⁿ).

O método das tabelas de verdade permite estabelecer se uma dada proposição complexa é uma
tautologia, uma contradição ou uma contingência.

Assim, se utilizarmos o método das tabelas de verdade para calcular os valores de verdade de todas

as circunstâncias possíveis da proposição ¬(¬P→Q  R) teremos:


22
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Dado que a conectiva dominante determina o


caráter da fórmula, constata-se que a proposição

¬(¬P→Q  R) é uma negação.


A tabela de verdade acima permite igualmente
concluir que se trata de um exemplo de fórmula
contingente.

Só as proposições sãotautológicas, contraditórias


ou contigentes. Os argumentos são, como
sabemos, válidos ou inválidos.

1. Determine, com recurso a tabelas de verdade, se as proposições que se seguem são tautológicas,
contraditórias ou contingentes.
a) Romeu ama Julieta, mas Julieta não lhe retribui o amor.
b) Romeu e Julieta não se amam, nem um nem o outro.
c) Para que a pena aplicada tenha sido justa, é necessário que o condenado tenha sido culpado, a
menos que o seu advogado possa recorrer.
d) Quando os gatos dormem os ratos dançam, mas o gatos não dormem.

Tautologia
Uma fórmula diz-se tautológica se, e apenas se, resultar verdadeira em todas as
atribuições de valores de verdade às suas letras.

Chamam-se tautológicas as fórmulas em que a proposição composta é verdadeira para todas e cada
uma das circunstâncias possíveis, independentemente do valor de verdade atribuído às frases
atómicas. Trata-se de uma proposição verdadeira, cuja verdade depende inteiramente da sua forma
lógica. Exemplo:

→ A Etiópia é um país africano ou a Etiópia não é um país africano (P V¬P).

Contradição
Uma fórmula diz-se contraditória se, e apenas se, resultar falsa em todas as atribuições de
valores de verdade às suas letras.

23
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Designam-se contraditórias as fórmulas em que a proposição composta é falsa para todas e cada uma
das circunstâncias possíveis, independentemente do valor de verdade atribuído às frases atómicas. Ou
seja, uma fórmula é contraditória unicamente no caso de não existir nenhuma circunstância possível
que a torne verdadeira. Trata-se de uma falsidade lógica, isto é, de uma proposição cuja falsidade se
pode determinar exclusivamente por meios lógicos. Exemplo:

→ A Etiópia é um país africano e não é um país africano (P V ¬P).

Contingência
Uma fórmula diz-se contingente se, e apenas se, existem atribuições de valores de verdade
às letras que a tornam verdadeira e outras atribuições que a tornam falsa.

Denominam-se contingentes as fórmulas que tenham o valor V em pelo menos uma circunstância e,
simultaneamente, o valor F em pelo menos uma circunstância. Exemplo:

→ A Etiópia é um país africano e o Nepal é um país asiático (P^Q).

FORMAS DE INFERÊNCIA VÁLIDA

Um raciocínio é válido quando é impossível que as premissas sejam verdadeiras e a


conclusão falsa.

Desde Aristóteles que sabemos que a validade é uma propriedade que pode ser captada recorrendo
apenas à estrutura do raciocínio ou argumento. Se a estrutura de um raciocínio tiver certas
características, isto é, se possuir uma determinada forma lógica, qualquer outro raciocínio com a
mesma forma ou estrutura será igualmente válido.

24
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

É esta precisamente a tarefa da lógica formal: estudar exaustivamente as formas lógicas distinguindo
aquelas que são válidas das que são inválidas.

Muitas são as formas de inferências válida já identificadas pelos lógicos. Analisemos algumas das mais
frequentes.

Modus ponens ou afirmação da antecedente

Se A, então B. A. Logo, B.

A regra do modus ponens - «o modo de pôr» - permite inferir a consequente de uma implicação,
da afirmação conjunta dessa implicação e da sua antecedente. Esta regra pode ser
representada pela seguinte formalização:

A antecedente é então A e a consequente é B.


Consideremos um exemplo. Suponhamos que extraímos a conclusão «O ano tem 366 dias» da
afirmação conjunta das seguintes premissas:

→ Se estamos em ano bissexto, então o ano tem 366 dias.


→ Estamos em nao bissexto.
Podemos usar a regra do modus ponens para validar, desde logo, a conclusão – «O ano tem 366 dias»
- a partir das premissas dadas, sem necessidade de recorrer à construção de uma tabela de verdade.

Considerando os argumentos, selecione o único que obedece rigorosamente à regra do modus


ponens:
(A) Se defendemos valores democráticos, então não somos a favor da discriminação das minorias
étnicas. Somos a favor da discriminação das minorias étnicas. Portanto, não defendemos valores
democráticos.
(B) Se não defendemos valores democráticos, então somos a favor da discriminação de minorias
étnicas. É certo que não defendemos valores democráticos. Sendo assim, somos a favor da
discriminação de minorias étnicas.
(C) Ou defendemos valores democráticos ou não somos a favor da discriminação das minorias
étnicas. Defendemos valores democráticos. Portanto, somos a favor da discriminação das minorias
étnicas.
(D) Se defendemos valores democráticos, então não somos a favor da discriminação das minorias
étnicas. Não somos a favor da discriminação das minorias étnicas. Logo, defendemos valores
democráticos.

Modus tollens ou negação da consequente

Se A, então B. Não-B. Logo, não A.

25
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

A regra do modus tollens – «o modo de tirar» – permite inferir a negação da antecedente de uma
implicação, da afirmação conjunta dessa implicação e da negação da sua consequente. Esta
regra pode ser representada pela seguinte formalização:

Recordemos que A é a antecedente e B a consequente. Consideremos o exemplo anterior.

Consideremos o exemplo anterior. Suponhamos que extraímos a conclusão «Não estamos em ano
bissexto» da afirmação conjunta das seguintes premissas:

→ Se estamos em ano bissexto, então o ano tem 366 dias.


→ O ano não tem 366 dias.

Podemos usar a regra do modus tollens para validar desde logo a conclusão – «Não estamos em ano
bissexto» – a partir das premissas dadas sem necessidade de recorrer à elaboração de uma tabela de
verdade.

26
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

1. Considerando as premissas abaixo, escreva a conclusão dos argumentos usando uma das
formas válidas de inferência. Em cada um dos casos, indique a regra utilizada.
a) Se eu mantiver a cabeça fria, não falharei este conjunto de exercícios. É certo que mantenho a
cabeça fria.
b) Não é possível ouvir música sem sentir emoção. Neste momento, a verdade é que não sinto
qualquer emoção.
c) Para ser galo, basta ter crista. Eu não sou certamente um galo.
d) Se é açoriano, não é natural do Porto Santo.
e) Ou falho este exercício ou é verdade que a lógica é uma disciplina fácil. Não falho de forma alguma
este exercício.
f) Se chove, o caracol sai.
g) Se o preço da gasolina subir, as pessoas tenderão a usar menos o automóvel. Se as pessoas
usarem menos o automóvel, os níveis de dióxido de carbono na atmosfera diminuem.

27
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

4. PRINCIPAIS FALÁCIAS FORMAIS

O QUE É UMA FALÁCIA?


É um erro de raciocínio que, muitas vezes, passa despercebido. A divisão mais comum
distingue falácias formais – quando um mau argumento pretende ser um raciocínio dedutivo
válido, não o sendo, ou seja, quando a invalidade é percetível unicamente com base na
própria estrutura do argumento – e falácias informais (que incluem outro tipo de erros
argumentativos). As falácias formais não preservam a verdade, uma vez que a estrutura do
argumento não garante uma conclusão verdadeira a partir de premissas verdadeiras.

Frequentemente, as regras do modus ponens e do modus tollens são indevidamente


aplicadas, incorrendo-se em erros de raciocínio conhecidos como falácia da afirmação
consequente e falácia da negação da antecedente.

Falácia da afirmação da consequente


Se A, então B. B. Logo, A.

Esta falácia reside na utilização incorreta do modus ponens, ou seja, no facto de se afirmar a
consequente e não a antecedente. Consideremos o exemplo:

Se estamos em março, o mês tem 31 dias.


O mês tem 31 dias.
Logo, estamos em março.

Atribua-se a P e Q a seguinte interpretação:


P: Estamos em março.
Q: O mês tem 31 dias.

Com este dicionário, podemos representar o argumento original do seguinte modo:

O argumento é inválido. Com este exemplo concreto, depressa percebemos que extraímos
incorretamente a conclusão «Estamos em março» da afirmação conjunta das premissas: «Se estamos
em março, então o mês tem 31 dias» e «O mês tem 31 dias».

As premissas, embora verdadeiras, não sustentam a conclusão. Poderemos estar num mês com 31
dias e não ser março, mas maio, dezembro ou outros.

28
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Falácia da negação da antecedente

Se A, então B. Não-A. Logo, não-B.

Esta falácia reside na utilização incorreta do modus tollens, ou seja, no facto de se ter negado a
antecedente e não a consequente. Retomemos o exemplo anterior:

Se estamos em março, então o mês tem 31 dias.


Não estamos em março.
Logo, o mês não tem 31 dias.

Atribua-se a P e Q a seguinte interpretação:


P: Estamos em março
Q: O mês tem 31 dias

Com este dicionário podemos representar o argumento original do seguinte modo:

O argumento é inválido. Extraímos incorretamente a conclusão «O mês não tem 31 dias» das
seguintes premissas: «Se estamos em março, então o mês tem 31 dias» e «Não estamos em março».

Como é evidente, ao considerarmos este exemplo concreto, as premissas, mesmo que verdadeiras,
não sustentam a conclusão. Poderemos não estar em março e, mesmo assim, o mês ter 31 dias.

1. Os argumentos que se seguem são válidos? Justifique a sua resposta.


a) Ninguém pode estudar e simultaneamente estar a conversar nas redes sociais. O Pedro conversa
nas redes sociais. Logo, não estuda.
b) Para tirar positiva no teste, bastaria ter estudado pelo menos uma tarde. Ora, tirei positiva no
teste. Portanto, estudei pelo menos uma tarde.
c) Ninguém pode estudar e simultaneamente estar a conversar nas redes sociais. É  certo que a Marta
não está a conversar nas redes sociais. Portanto, estuda.
d) Para tirar positiva no teste, bastaria ter estudado pelo menos uma tarde. Tirei negativa no teste.
Logo, é certo que não estudei sequer uma tarde.

29
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

5. DISCURSO ARGUMENTATIVO E PRINCIPAIS TIPOS DE ARGUMENTOS E


FALÁCIAS INFORMAIS

O QUE SÃO ARGUMENTOS NÃO DEDUTIVOS?

Quando queremos justificar ou refutar um ponto de vista, condenar ou enaltecer pessoas, situações ou
ações, quando necessitamos de avaliar os prós e os contras de uma teoria, escolha ou decisão, em
todos estes momentos ou outros semelhantes somos levados a fornecer razões a favor ou contra
uma conclusão. Fazemo-lo usando argumentos dedutivos e/ou não dedutivos.

Com o auxílio da lógica formal podemos examinar os primeiros e estabelecer se são ou não válidos.
Porém, os argumentos dedutivos e a determinação de padrões de inferência válida não esgotam toda
a análise do discurso. A verdade é que existem outros aspetos relevantes na argumentação, para
além dos argumentos dedutivos e da validade deste tipo de inferências.

Foi Aristóteles quem, pela primeira vez, distinguiu o âmbito dos argumentos lógico-formais daquilo
que é apenas arguível, estabelecendo três tipos distintos de argumentação legítima:

→ Argumentação científica, na qual se faz uso da demonstração ou prova.


→ Argumentação dialética, na qual se infere dedutivamente a partir de premissas apenas
hipotéticas, razoáveis ou prováveis.
→ Argumentação retórica, que inclui procedimentos não dedutivos e que se desenvolve
em torno de um elemento fundamental, a persuasão.

A par dos modos próprios do discurso científico, Aristóteles cria um espaço para o discurso que escapa
à necessidade – a argumentação retórica e a argumentação dialética.

Demonstração: Sinónimo de prova ou de inferência dedutiva válida que parte de premissas


universalmente reconhecidas como verdadeiras para delas extrair uma conclusão verdadeira. Opõe-se,
tradicionalmente, aos argumentos dialéticos e retóricos, quer pela natureza das suas premissas quer
ainda pelo caráter constringente da sua conclusão. Corresponde ao que hoje chamamos argumento
sólido (argumento dedutivo válido, com premissas verdadeiras).

Dialética: Segundo Aristóteles, compreende qualquer argumento dedutivo válido cujas premissas são
apenas opiniões respeitáveis abertas à discussão, isto é, afirmações verosímeis e não verdades
estabelecidas. Tradicionalmente, designa ainda a arte da conversação ou de bem debater e a
disciplina que versa sobre essa arte.

Retórica: Segundo Aristóteles, é a faculdade de considerar, para cada questão, o que pode ser
adequado para persuadir. A sua natureza intrínseca define-se, portanto, por relação com a persuasão.
Tradicionalmente, significa tanto a arte da persuasão como a disciplina que versa sobre essa arte.

30
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Inclui procedimentos não dedutivos e é o objeto de estudo, por excelência, da lógica informal. É, por
vezes, também definida como arte oratória, da palavra ou arte de bem falar.

Tanto no caso da retórica como no da dialética, o ponto de partida não são verdades estabelecidas,
mas premissas verosímeis, abertas à discussão. Porém, ao contrário da dialética, que se apoia
sobre argumentos dedutivos, a retórica faz também uso de argumentos não dedutivos e
desenvolve-se em torno de um elemento específico – a persuasão –, que define a sua natureza e a
distingue de todas as outras maneiras de estudar a argumentação.

O objetivo da retórica é suscitar a adesão de um interlocutor - ou de um auditório - a uma


crença e levá-lo a adotar um comportamento. Está presente nas situações de comunicação da
vida social, ética, estética, religiosa ou política, caracterizadas pelo confronto entre crenças hipotéticas
e por discordâncias profundas sobre a verdade e a falsidade destas. Por exemplo:

→ Como é possível uma sociedade justa?


→ Como podemos alguma vez saber se de facto alcalamos a verdade?
→ O valor da vida de uma pessoa vai diminuíndo à medida que envelhece?

A arte da palavra eficaz ou persuasiva, a retórica, está, desde sempre, presente em grande parte
da nossa comunicação quotidiana. Depois de uma época áurea na Antiguidade greco-romana, a
retórica, como ciência, permaneceu adormecida durante séculos, até que, na época contemporânea,
conheceu um renascimento importante. Grande parte da renovação e do interesse atual pela retórica
ficaram a dever-se às teorias de Chaïm Perelman e do seu discípulo Michel Meyer (1950-).

Para Perelman, a argumentação informal (ou retórica) é algo com uma natureza radicalmente
diferente de uma demonstração. Enquanto a demonstração é definida como um processo lógico-formal
de derivação ou de prova, a argumentação informal tem um caráter dialógico: implica uma resposta
por parte do auditório (conjunto de todos aqueles que o orador quer influenciar com a sua
argumentação) e o confronto de pontos de vista.

31
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Argumentar é fornecer argumentos, ou seja, razões a favor ou contra uma determinada tese. Uma
teoria da argumentação [retórica ou informal], na sua conceção moderna, vem assim retomar e ao
mesmo tempo renovar a retórica dos Gregos e dos Romanos, concebida como a arte de bem falar, ou
seja, a arte de falar de modo a persuadir e a convencer (…). A prova demonstrativa diz respeito à
verdade de uma conclusão ou, pelo menos, à sua relação necessária com as premissas. (…) A prova é
impessoal, e a sua validade não depende em nada da opinião: aquele que infere no seio de um dado
sistema só pode aceitar o resultado das suas deduções. Em contrapartida, toda a argumentação
[retórica ou informal] é pessoal; dirige-se a indivíduos em relação aos quais ela se esforça por obter a
adesão, a qual é suscetível de ter uma intensidade variável. Enquanto um sistema dedutivo se
apresenta como isolado de todo o contexto, uma argumentação [retórica ou informal] é
necessariamente situada. Para ser eficaz, esta exige um contacto entre sujeitos. É necessário que o
orador (aquele que apresenta a argumentação oralmente ou por escrito) queira exercer mediante o
seu discurso uma ação sobre o auditório, isto é, sobre o conjunto daqueles que se propõe influenciar.
Por outro lado, é necessário que os auditores estejam dispostos a escutar, a sofrer a ação do orador, e
isto a propósito de uma questão determinada. Querer persuadir um auditor significa, antes de mais,
reconhecer-lhe as capacidades e as qualidades de um ser com o qual a comunicação é possível e, em
seguida, renunciar a dar-lhe ordens que exprimam uma simples relação de força, mas sim procurar
ganhar a sua adesão intelectual. Não se pode persuadir um auditório senão tendo em conta as suas
reações, de modo a adaptar o seu discurso a estas reações. O discurso argumentativo não é um
monólogo onde não existe qualquer preocupação em relação aos outros. (…) A argumentação [retórica
ou informal] é essencialmente comunicação, diálogo, discussão. Enquanto a demonstração é
independente de qualquer sujeito, até mesmo do orador, uma vez que um cálculo pode ser efetuado
por uma máquina, a argumentação [retórica ou informal] por sua vez necessita que se estabeleça um
contacto entre o orador que deseja convencer e o auditório disposto a escutar.

C. Perelman, «Argumentação», in AAVV, Enciclopédia Enaudi, vol. 11, INCM, 1987, pp. 234-237.

1. Aponte as características da demonstração.


2. Anote as características da argumentação retórica ou informal.
3. Mostre o que se entende por auditório.
4. Justifique a importância do auditório no contexto da argumentação informal.

Por esta razão, diz Perelman, a argumentação informal é sempre necessariamente pessoal e
situada. A demonstração, pelo contrário, é um exercício racional impessoal, isolado do
contexto.

Ao contrário da argumentação informal, a demonstração não exige um auditório para ser concretizada
ou construída. É essencialmente cálculo: deduz de um modo constrigente conclusões a partir de
premissas, segundo regras puramente formais.

32
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

PRINCIPAIS TIPOS DE ARGUMENTOS NÃO DEDUTIVOS


Desde a Antiguidade que as diversas teorias da argumentação se esforçaram por identificar e
caracterizar tipos distintos de argumentos. Apontaremos aqui alguns exemplos de argumentos não
dedutivos e respetivos critérios para estabelecer a sua força:

→ Argumentos indutivos (generalização e previsão)


→ Argumentos por analogia
→ Argumentos de autoridade

33
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Argumentos indutivos

Um argumento diz-se indutivo quando se pretende que algo que está para além do
conteúdo das premissas seja de alguma maneira apoiado por elas ou se torne provável
devido a elas.

As inferências indutivas são sempre extrapolações: a conclusão ultrapassa as premissas, no sentido


em que a verdade conjunta das premissas não garante a verdade da conclusão. Mesmo que as
premissas sejam verdadeiras e a conclusão esteja baseada num forte grau de probabilidade, nenhuma
inferência não dedutiva, por muito boa que seja, pode garantir absolutamente uma conclusão.

É sempre logicamente possível, mesmo quando é improvável, que as premissas sejam verdadeiras e a
conclusão falsa. Apesar desta fragilidade, o raciocínio indutivo é omnipresente e imprescindível.

Generalização e previsão são dois casos particulares de argumentos indutivos.

Na generalização, argumenta-se partindo do que é verdade para um dado conjunto de casos


particulares e conclui-se, com base nisto, que também o é para todos os casos em geral.

→ Todos os A observados são X. Logo, todos os A são X.

Por exemplo: «É verdade que os pêssegos observados têm caroço. Logo, todos os pêssegos têm
caroço».

Já no que respeita à previsão, a estratégia argumentativa passa por partir de um conjunto de casos
ocorridos para deles concluir que no futuro o mesmo se verificará.

→ Todos os A observados (até este momento) são X. Logo, todos os A observados (no
futuro) serão X.

Por exemplo: «É verdade que os pêssegos já observados têm caroço. Logo, o próximo pêssego que for
observado terá caroço».

Para garantirmos que os nossos argumentos indutivos são fortes, isto é, para acautelarmos que o
vínculo que une premissas e conclusão está baseado num forte grau de probabilidade:

→ A amostra deve ser ampla.


→ A amostra deve ser relevante, isto é, representativa do universo em questão.
→ Não deve omitir-se, a propósito da amostra, informação relevante.

34
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Neste cartaz da Amnistia Internacional pode ler-se:


«Ele não fez nada. Só está a divulgar o telefone da Amnistia.
Discriminar não é humano».
Após os ataques de 11 de setembro de 2001 às Torres Gémeas
de Nova Iorque, tornou-se frequente, no Ocidente, discriminar
negativamente pessoas conotadas com o mundo muçulmano.

Este

fenómeno tem por base uma inferência


indutiva fraca, uma vez que se conclui que
todos os muçulmanos são terroristas com
base numa amostra claramente reduzida e
pouco representativa dos muçulmanos no seu todo. Este cartaz põe em evidência o preconceito
islamofóbico e força-nos a refletir sobre as fragilidades de uma generalização precipitada.

1. Considere a imagem.

Cartaz de uma campanha da WWF (2007). Nele podemos ler: «Tu podes ajudar. Para o aquecimento global.
Animais de todo o mundo estão a perder os seus habitats em virtude do aquecimento global. Desligando a TV, a
aparelhagem e o computador quando não os estás a usar, contribuis para prevenir isso.»

1.1. Formule um argumento dedutivo válido a partir da imagem.


1.2. Construa uma generalização a partir da imagem.
1.3. Apresente uma previsão, considerando a imagem.
1.4. Formule um argumento por analogia, considerando a imagem.
1.5. Construa um argumento de autoridade a propósito da imagem.

2. Considere o cartaz da Amnistia Internacional (Portugal, 2008).

35
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

2.1. O preconceito islamofóbico tem subjacente uma generalização precipitada. Apresente as


premissas e a conclusão do argumento.

Argumentos por analogia


São argumentos baseados numa comparação entre duas coisas supostamente semelhantes. Parte-se
do princípio que se duas realidades são semelhantes em certos aspetos conhecidos é provável que
também o sejam noutros.

A inferência por analogia decorre, assim, do estabelecimento de uma relação entre o que se pretende
argumentar e um aspeto que se vai procurar a outro elemento do real. Pode ser um tipo de
argumento extremamente persuasivo, principalmente quando aquilo que se pretende estabelecer na
conclusão é do domínio do complexo ou invisível. Mas, tal como acontece com a generalização e a
previsão, a analogia gera, na melhor das hipóteses, conclusões prováveis.

Argumentar por analogia é argumentar que uma vez que A e B são idênticos em alguns aspetos
conhecidos, então, sê-lo-ão também noutros.

→ A é como B em x e y. B é z. Logo, A também é z.

A argumentação por analogia é também utilizada nos casos em que queremos convencer o nosso
interlocutor de que uma dada situação comummente percebida como positiva (por exemplo, o
sofrimento dos mamíferos que são utilizados como cobaias em laboratórios de todo o mundo) é,
afinal, negativa. Se utilizarmos analogias fortes, colocamo-nos em terreno favorável. Vejamos o
exemplo da argumentação dos ativistas dos direitos dos animais a favor do bem-estar dos animais
não humanos.

Quando os ativistas dos direitos dos animais argumentam que nos devíamos preocupar mais com o
bem-estar dos animais, os seus argumentos normalmente apoiam-se numa analogia implícita entre as
capacidades dos humanos e dos animais para sentir dor. Sabemos que os seres humanos sentem dor
e que, nas suas formas extremas, é uma coisa terrível que a quase todo o custo procuramos evitar: é
por isso que a tortura pode ser tão eficaz. Os mamíferos são muito parecidos com os seres humanos
em diversas coisas. São geneticamente muito próximos de nós e têm respostas fisiológicas
semelhantes quando sofrem danos físicos. Como nós, procuram evitar ser feridos e em determinadas
circunstâncias fazem ruídos que pensamos poder reconhecer como indicadores de dor, porque são
semelhantes aos ruídos que fazemos quando a temos. Assim, parece razoável concluir com base na
analogia entre seres humanos e mamíferos que os mamíferos são capazes de sentir determinados
géneros de dor.
N. Warburton, Pensar de A a Z, Bizâncio, 2012, p. 71.

1. Identifique as premissas e a conclusão do argumento dos ativistas dos direitos dos animais.

36
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Argumentar por analogia pode parecer, à primeira vista, uma forma de raciocínio segura. Todavia,
para que um argumento por analogia possa ser considerado forte, devemos poder responder
afirmativamente às duas primeiras perguntas do conjunto que se segue e negativamente à terceira.
→ As semelhanças apontadas são relevantes para a conclusão?
→ A comparação tem por base um número razoável de semelhanças?
→ Não haverá diferenças importantes entre o que está a ser comparado?

Este cartaz publicitário, da agência


TBWA, promove uma marca de pão
industrial. Nesta imagem compara-se a
fatia de pão de forma a uma almofada,
sugerindo-se que, tal como esta, as
fatias de pão de forma da marca são
agradáveis e fofas. A analogia é eficaz
mas encerra, do ponto de vista lógico,
alguns problemas. Por exemplo, são
ignoradas diferenças significantes entre
os elementos que estão a ser
comparados (almofadas e fatias de pão).

Dizemos, por isso, que se trata de uma analogia fraca ou de uma falsa analogia.

1. Considere o cartaz publicitário da TBWA (França, 2006).


1.1. O argumento por analogia estabelece uma comparação. Apresente as premissas e a conclusão
do argumento implícito neste anúncio publicitário.
1.2. Que elementos relevantes sobre o que está a ser comparado são ignorados?

Argumentos de autoridade
São argumentos cuja conclusão é sustentada pela opinião de um especialista ou pelos dados de uma
instituição confiável.

Uma vez que a vida é demasiado breve e as nossas capacidades intelectuais são limitadas, não nos é
possível investigar e descobrir tudo sozinhos. Somos, por isso, frequentemente levados a argumentar
apoiando-nos no trabalho e opinião de especialistas. Sem eles ser-nos-ia impossível reunir toda a
informação e conhecimento que existe sobre o nosso mundo.

→ X (uma fonte com a obrigação de saber) diz A. Logo, A é verdade.

Uma fonte tanto pode ser uma pessoa como uma organização ou instituição.

Para que um argumento de autoridade possa ser considerado forte:

37
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

→ As fontes devem ser citadas.


→ As fontes devem ser qualificadas para a afirmação.
→ As fontes devem ser imparciais.
→ Deverá existir acordo relativamente à informação.

Suponhamos que a APAV (Associação Portuguesa de Apoio à


Vítima), uma reputada instituição que tem como objetivo apoiar as
vítimas de crime, suas famílias e amigos, afirma que, em Portugal,
todos os anos milhares de crianças, mulheres e idosos são vítimas
de violência doméstica, sob a forma de maus tratos psicológicos e
físicos. Logo, devemos admitir que é verdade que o crime de
violência doméstica, sob a forma de maus tratos psicológicos e
físicos, persiste em Portugal, atingindo milhares de vítimas a cada
ano.

A APAV é uma autoridade qualificada para dados sobre violência


doméstica, mas não, por exemplo, para os números relativos ao pão
consumido por ano pelos portugueses ou para calcular a distância da
Terra à Lua.

1. Considere o cartaz da APAV (Portugal, 2011).


1.1. O argumento de autoridade subjacente ao cartaz é forte ou fraco? Porquê?

PRINCIPAIS TIPOS DE FALÁCIAS INFORMAIS

38
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Uma das preocupações da lógica informal é a investigação e identificação de erros ou lapsos


argumentativos não formais, conhecidos como falácias informais.
Da mesma maneira que há padrões típicos de argumentação informal legítima, também há padrões
típicos de argumentação informal falaciosa. Conseguir detetar estes raciocínios imperfeitos é uma
competência argumentativa e filosófica importante. Mas nem sempre é fácil, até porque as falácias
informais podem ser formas perfeitamente válidas de argumento, no que respeita à sua estrutura
lógica.

Vejamos alguns exemplos frequentes e particularmente enganosos.

Falácia contra a pessoa (ad hominem)


Atacar pessoalmente o opositor e não as suas afirmações.

A falácia contra a pessoa ou ad hominem (do latim, dirigido à pessoa) acontece


quando se procura refutar determinado argumento denegrindo o seu autor e não
o argumento em si mesmo. Trata-se de um ataque pessoal direto contra quem
argumenta, isto é, contra o indivíduo, a pessoa.

→ X afirma A. X tem alguma característica reprovável. Logo, A é falso.

Os argumentos ad hominem são geralmente considerados falaciosos, uma vez que uma dada opinião
pode estar correta, ainda que o seu autor seja mentalmente confuso, hipócrita, indigno de confiança,
desonesto, etc. Exemplos de argumentos ad hominem são frequentes, por exemplo, nas discussões
políticas e nos debates jurídicos.

Na classificação clássica e mais generalizada deste tipo de falácia, distinguem-se três tipos diferentes
de argumentos ad hominem:
→ Ad hominem abusivos (quando se ataca o caráter da pessoa).
→ Ad hominem circunstanciais (quando se referem circunstâncias da pessoa).
→ Tu quoque (quando se invoca o facto de a pessoa não praticar o que diz).
Por exemplo, se um político defende que baixar o limite de velocidade em áreas densamente povoadas
reduziria acidentes envolvendo crianças e um jornalista o ataca com base no facto de ele ter sido
multado em diversas ocasiões por conduzir sob o efeito do álcool e por excesso de velocidade, este
último estaria a fazer um ataque pessoal. O jornalista desviou a atenção do argumento em causa para
a alegada hipocrisia da pessoa que apresentou o argumento. Contudo, é evidente que os hipócritas
podem apresentar excelentes argumentos: muitos fazem-no.
N. Warburton, Pensar de A a Z, Bizâncio, 2012, p. 79.

1. Que tipo de ataque pessoal foi usado pelo jornalista? Justifique.


2. Por que razão o argumento apresentado pelo jornalista é falacios
Falácia do apelo à ignorância

39
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Argumentar que uma afirmação é verdadeira/falsa, só porque não se


mostrou o contrário.

Consiste em inferir que uma afirmação é verdadeira, uma vez que não se provou que seja falsa, ou
vice-versa, isto é, concluir que é falsa dado que não se provou ser verdadeira. Acontece que a falta de
prova não é prova do que quer que seja.

→ Ninguém provou que A é falsa. Logo, A é verdadeira.


Nenhum dos argumentos a favor da existência de Deus é indiscutivelmente sólido; logo, Deus não
existe.

→ Ninguém provou que A é verdadeira. Logo, A é falsa.


Nenhum dos argumentos a favor da inexistência de Deus é indiscutivelmente sólido; logo, Deus
existe.

Consideremos os dois exemplos propostos:

Ninguém provou que A é falsa. Logo, A é verdadeira.


Nenhum dos argumentos a favor da existência de Deus é indiscutivelmente sólido; logo, Deus não
existe.
→ O facto de não ter sido possível, até ao momento, provar a existência de Deus não nos
autoriza a concluir pela sua inexistência.
Ninguém provou que A é verdadeira. Logo, A é falsa.
Nenhum dos argumentos a favor da inexistência de Deus é indiscutivelmente sólido; logo, Deus
existe.
→ O facto de não ter sido possível provar, até ao momento, a inexistência de Deus não nos
autoriza a concluir pela sua existência.

Falácia da falsa relação causal


Assumir precipitadamente uma relação causal com base na mera sucessão
temporal.

Este argumento falacioso é um tipo particular de falsa causa (conclusão discutível


acerca de causas e efeitos) e resulta da convicção de que dois eventos que ocorrem
em sequência cronológica estão necessariamente interligados através de uma relação de causa-efeito.
Esta falácia é muito característica das superstições.

→ Quando o evento A acontece, em seguida o evento B também ocorre. Portanto, o


evento A é causa do evento B.

Vejamos um exemplo. Corria o ano de 1811, quando o astrónomo francês Honoré Flaugergues
descobriu um cometa brilhante, visível a olho nu. O cometa Flaugergues foi visível durante 9 meses,

40
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

tornando-se num dos cometas com maior período de visibilidade da história da astronomia. Na mesma
altura, em Portugal era produzido um vinho do Porto que se revelaria de excelente qualidade,
classificado como um vintage de cinco estrelas. O nexo entre a qualidade do vinho do Porto de 1811
(conhecido como Cometa) e o grande cometa do mesmo ano parecia assim perfeita – uma colheita
excecional só poderia ter resultado da passagem de um cometa notável.

Porém, o facto de um evento ocorrer depois de um outro, por si só, não justifica a crença de que
exista qualquer ligação entre ambos.

Falácia da petição de princípio


Usar implicitamente a conclusão do argumento como premissa.

Um argumento é uma petição de princípio quando – explícita ou implicitamente


– a verdade da conclusão é pressuposta pelas premissas. Para aceitar as
premissas do argumento teremos de aceitar previamente a sua conclusão. A
petição de princípio é o tipo de argumentação a rejeitar por se tratar de um argumento circular ou
vicioso.

→ A. Logo, A.

Vejamos um exemplo.
Suponhamos que Platão nos convida a aceitar uma qualquer afirmação de Sócrates com base no
seguinte argumento: «Sócrates quando discursa não mente. Sócrates está a discursar neste
momento. Logo, Sócrates diz a verdade». Aceitar a verdade da premissa «Sócrates quando discursa
não mente» exige, à partida, que admitamos a conclusão: «Sócrates diz a verdade».

Falácia da derrapagem (ou bola de neve)


Assumir que se dermos um pequeno passo numa dada direção não
conseguiremos evitar ser conduzidos a um passo muito mais substancial
na mesma direção.

A metáfora da derrapagem é frequentemente usada para clarificar esta falácia: se


dermos um pequeno passo num declive íngreme, corremos o risco de dar por nós a
deslizar a uma velocidade crescente e progressivamente incontrolável e assustadora. A determinada
altura, à medida que descemos, deixaremos de ser capazes de parar, mesmo que queiramos.

→ X defende a posição A. Y encadeia de forma exagerada consequências que podem


resultar se se aceitar A.

Vejamos um exemplo.

41
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Se não praticarmos desporto ou qualquer outra atividade física, não demorará muito tempo até
começarmos a engordar. Se começarmos a engordar, é certo que nos transformaremos rapidamente
em pessoas obesas. Desenvolveremos diabetes, problemas nas articulações e estaremos condenados
a ter pouca qualidade de vida, acabando por morrer muito jovens. Portanto, devemos praticar
desporto.

Falácia do boneco de palha (ou espantalho)


Caricaturar uma opinião oposta para que assim seja mais fácil refutá-la.

É uma das táticas falaciosas mais repetidas na comunicação e no debate


quotidianos. Consiste em começar por deturpar o sentido das afirmações
adversárias, reconstruindo-as numa perspetiva enganadora e dificilmente
sustentável, claramente mais fraca, a fim de poder refutá-las mais facilmente.

→ X defende a posição A. Y apresenta a posição B (que é uma perspetiva distorcida da


posição A). Y ataca a posição B. Logo,a proposição A é incorreta.

Por exemplo, contra um oponente que se apresenta como defensor da preservação de uma
determinada floresta começa-se por enfraquecer a sua posição apresentando-a como o desejo de
converter todo o planeta num lugar exclusivamente natural onde não há lugar para a industrialização.

Este boneco de palha, anunciado como se fosse de facto a posição defendida pelo oponente, é
seguidamente derrubado sem grande esforço argumentativo.

Falácia falso dilema


Reduzir as opções possíveis a apenas duas.

A falácia do falso dilema acontece quando se ignoram alternativas, quando se


reduzem as opções possíveis a apenas duas, muitas vezes claramente opostas e
injustas para o interlocutor, quando se insiste que só temos duas opções
mutuamente exclusivas.

→ Ou A ou B (ignorando-se outras alternativas). Não é A. Logo, B.

Os falsos dilemas são muito comuns em política: «Ou votam em mim ou será o caos», «Ou temos
armas nucleares ou corremos o risco de ser atacados», «Quem não é por César é contra César», etc.
Surgem, por vezes, camuflados sob perguntas retóricas: «Está Vossa Excelência do nosso lado ou do
lado das forças do mal?!». Os políticos usam frequentemente falsos dilemas quando pretendem fazer-
nos aceitar conclusões que não queremos admitir.

Quando as duas opções apresentadas não são de facto mutuamente exclusivas, isto é, quando
existem outras alternativas, devemos rejeitar o argumento por se tratar de um falso dilema.

42
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Vejamos um exemplo.
O objetivo do anunciante é apoiar publicamente os testes em animais, valendo-se para isso de um
falso dilema: ou temos testes em animais ou morrem crianças. Existem, todavia, alternativas que
foram intencionalmente ignoradas no anúncio.

Cartaz publicitário da Foundation for Biomedical Research (EUA).


Falácia da generalização precipitada
Consiste em extrair uma conclusão com base num número muito limitado de casos, ou seja,
numa amostra insuficiente.

Por exemplo:
1. Fred, o australiano, roubou a minha carteira. Portanto, os australianos são ladrões.
(É evidente que não devemos julgar os australianos tendo por base um exemplo.)
2. Perguntei a seis dos meus amigos o que pensavam sobre as novas restrições ao consumo e eles
concordaram que é uma boa ideia. As novas restrições são, portanto, populares.
Stephen Downes. Stephen’s Guide to the Logical Fallacies (adaptado).

Falácia da amostra não representativa


Quando a generalização é feita a partir de dados insuficientes para sustentar essa
generalização.

Por exemplo:
1. Para ver como os canadianos vão votar na próxima eleição, entrevistámos cem pessoas em
Calgary. Isso mostra, de forma conclusiva, que o Partido da Reforma vai varrer as eleições.
(As pessoas em Calgary tendem a ser mais conservadoras, portanto, mais propensas a votar no
Partido da Reforma, que é conservador, do que as outras pessoas do resto do país.)
2. As maçãs de cima da caixa parecem boas. Todas as maçãs desta caixa devem ser boas.
(As maçãs podres, claro, estão escondidas no fundo!)
Stephen Downes. Stephen’s Guide to the Logical Fallacies (adaptado).
Falácia da falsa analogia

43
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Ocorre quando o número de objetos comparados é reduzido, as semelhanças entre si são


escassas e pouco ou nada relevantes.

Por exemplo:
Os estudantes deviam ser autorizados a consultar os seus apontamentos durante os testes. Afinal, os
cirurgiões levam radiografias para se guiarem durante uma operação, os advogados consultam as
suas anotações durante um julgamento, os construtores têm plantas que os orientam na construção
de uma casa. Então, por que razão os estudantes não estão autorizados a consultar os seus
apontamentos durante um exame?
Max Shulman, “Love is a fallacy”. In Fred D. White e Simone J. Billings (2013),
The Well-Crafted Argument. Boston: Cengage Learning, pp. 184-192.

Falácia ad populum
Ocorre quando se sustenta que uma proposição é verdadeira por ser aceite como verdadeira
por uma parte significativa da população.

Esta afirmação é desmentida pelo estudo do Alto Comissariado para as Migrações, que situa em
33.5% a percentagem de famílias ciganas beneficiárias do Rendimento Social
de Inserção (RSI).

EXERCÍCIOS COMPLEMENTARES

44
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

TESE, ARGUMENTO, VALIDADE, VERDADE E SOLIDEZ


A partir da imagem, distinga validade de verdade.

Cenário de resposta: A verdade é uma propriedade que diz respeito ao conteúdo material das proposições
(premissas e conclusão). A validade refere-se ao modo como a conclusão é extraída das premissas, isto é, à
estrutura formal do argumento. Um argumento pode ser válido mesmo que parte (ou a totalidade) das proposições
que o compõem seja falsa e, inversamente, pode ser inválido ainda que as proposições que o constituem sejam
verdadeiras.

Selecione a única opção que permite obter uma afirmação correta.


1. Considere os seguintes enunciados relativos à validade e à verdade.
1. A validade é uma propriedade exclusiva dos argumentos.
2. As premissas e a conclusão de um argumento são válidas ou inválidas.
3. Dizemos que um argumento é verdadeiro se a sua conclusão o for.
4. A validade é uma propriedade exclusiva das proposições.

(A) 1 e 2 são incorretos; 3 e 4 são corretos.


(B) 1 é correto; 2, 3 e 4 são incorretos.
(C) 1 e 4 são corretos; 2 e 3 são incorretos.
(D) 1, 2 e 3 são corretos; 4 é incorreto.

2. Considere os seguintes enunciados relativos à validade e à verdade.


1. A verdade é propriedade comum às proposições e aos argumentos.
2. Os raciocínios, quando correspondem à realidade, são verdadeiros.
3. As inferências cujo conteúdo não corresponde à realidade são falsas.
4. A verdade é uma propriedade exclusiva das proposições.

(A) 1, 2 e 3 são incorretos; 4 é correto.


(B) 4 é incorreto; 1, 2 e 3 são corretos.
(C) 1 e 4 são corretos; 2 e 3 são incorretos.
(D) 2 e 3 são corretos; 1 e 4 são incorretos.
3. Um argumento dedutivamente válido não pode ter:
(A) Premissas e conclusão verdadeiras.

45
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

(B) Premissas e conclusão falsas.


(C) Premissas verdadeiras e conclusão falsa.
(D) Premissas falsas e conclusão verdadeira.

4. Num argumento dedutivamente válido:


(A) As premissas tornam altamente provável a conclusão.
(B) A conclusão apoia logicamente o conjunto de premissas.
(C) As premissas seguem-se necessariamente da conclusão.
(D) A conclusão segue-se necessariamente das premissas.

5. Considere os argumentos seguintes.


1. Se pratico desporto, sou saudável. Sou saudável. Portanto, pratico desporto.
2. Se é proposição, então não é argumento. Não é argumento. Logo, é proposição.
3. Se o rato é comestível, não é venenoso. Logo, se é venenoso, não é comestível.
4. A tartaruga ou é uma planta ou é um réptil. É uma planta. Portanto, não é um réptil.

(A) 1, 2 e 3 são válidos; 4 é inválido.


(B) 4 é válido; 1, 2 e 3 são inválidos.
(C) 1 e 2 são válidos; 3 e 4 são inválidos.
(D) 3 e 4 são válidos; 1 e 2 são inválidos.

6. Considere os seguintes enunciados relativos à distinção entre validade e verdade.


1. A validade é uma propriedade dos enunciados declarativos.
2. O valor de verdade das premissas determina a validade/invalidade de um argumento.
3. Só dos argumentos ou inferências podemos afirmar que são válidos/inválidos.
4. Num argumento válido, a verdade das premissas implica a verdade da conclusão.

(A) 2 é correto; 1, 3 e 4 são incorretos.


(B) 1 e 2 são incorretos; 3 e 4 são corretos.
(C) 1 é incorreto; 2, 3 e 4 são corretos.
(D) 1 e 2 são corretos; 3 e 4 são incorretos.

7. «Se o Luís ficou alcoolizado com água gaseificada e vinho; se o Guilherme ficou alcoolizado com
água gaseificada e licor; se a Joana ficou alcoolizada com água gaseificada e aguardente; se a Micaela

46
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

ficou alcoolizada com água gaseificada e rum, conclui-se que a água gaseificada provoca embriaguez.»
Neste argumento:
(A) É impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa.
(B) A conclusão deriva lógica e necessariamente das premissas.
(C) A conclusão não sustenta logicamente as premissas.
(D) É possível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa.

8. Compete à lógica formal:


(A) Determinar que proposições são verdadeiras.
(B) Sistematizar os critérios de validade das inferências.
(C) Ocupar-se do valor de verdade efetivo das proposições.
(D) Ocupar-se da racionalidade das crenças dos indivíduos.

Leia o texto seguinte.


Um exemplo de falácia formal é dado pela manobra familiar da caça às bruxas. Por exemplo, alguém
preocupado com a prevalência das bruxas poderá argumentar do seguinte modo. Todas as bruxas têm
gatos pretos. A minha vizinha tem um gato preto. Logo, a minha vizinha deve ser uma bruxa. Trata-se
de um raciocínio falacioso, pois a estrutura do argumento é inválida ainda que não o pareça. Do facto
de a vizinha ter um gato preto não se pode inferir que é uma bruxa, mesmo que a primeira premissa
seja verdadeira.
N. Warburton, Pensar de A a Z, Bizâncio, 2012, p. 141.

a) Explicite, a partir do texto, o que se entende por validade.


b) Distinga, a partir do texto, validade de verdade.

Leia o texto seguinte.


Os filósofos são entusiastas dos argumentos válidos. Procuram e conseguem que concordemos com
algumas pequenas premissas inocentes, oferecendo depois o que pretendem ser argumentos válidos
que têm todo o tipo de conclusões surpreendentes e grandiosas. Nas Meditações, Descartes começa
por uma premissa inócua – penso – e conclui: Deus existe. Claro que temos tendência para pensar
que ele se apoiou implicitamente em mais algumas premissas que foram suprimidas, com as quais
podemos discordar, ou que cometeu um erro no seu argumento. Mas se as premissas fossem
verdadeiras e o raciocínio válido, a sua conclusão de que Deus existe seria verdadeira. E se nós
aceitássemos as suas premissas e o seu argumento, estaríamos obrigados a aceitar a sua conclusão.

W. H. Newton-Smith, Lógica. Um Curso Introdutório, Gradiva, 2005, p. 16.

a) Distinga, a partir do texto, validade de verdade.


b) Clarifique o objetivo da lógica.

47
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Assinale com V as afirmações verdadeiras e com F as falsas.


(A) Ao lado da lógica científica existe uma lógica natural, que quotidianamente usamos para
raciocinar.
(B) A lógica formal avalia o modo como a conclusão de um argumento indutivo é extraída das
premissas.
(C) Um argumento pode ser constituído por uma ou mais premissas, mas apenas por uma única
conclusão.
(D) A conclusão do argumento «Porque as galinhas não têm dentes e os seres humanos têm-nos,
infere-se que as galinhas não são seres humanos» é «As galinhas não têm dentes».
(E) «Faz sol», «Não gosto de futebol», «Paris é a capital da Rússia», «Se estamos no outono, as
folhas caem» são exemplos de proposições.
(F) As frases «Tens de ajudar mais!», «Sabes quem ganhou o jogo ontem?», «Queria tanto que não
chovesse amanhã» são exemplos de proposições.
(G) As proposições possuem valor de verdade, os argumentos, pelo contrário, não.
(H) Das proposições dizemos que são válidas ou inválidas; dos argumentos que são verdadeiros ou
falsos.
(I) A verdade refere-se ao conteúdo de uma proposição; a validade à forma como a conclusão é
extraída das premissas.
(J) A virtude essencial de um argumento dedutivo passa por a conclusão se seguir necessária e
logicamente das premissas.
(K) A forma lógica de um argumento é a sua estrutura, que pode ser partilhável com outros
argumentos ou inferências.
(L) O argumento «Todos os seres humanos observados até hoje são bípedes implumes; logo, o
próximo ser humano que observar deverá ser bípede e implume» é um argumento dedutivo.
(M) As proposições «Os filósofos são adeptos da dúvida e os cientistas são adeptos da certeza» e «Se
é domingo, então é fim de semana» são proposições simples ou elementares.
(N) A negação da proposição «É falso que os racionalistas tenham defendido o valor da experiência» é
«Os empiristas defenderam o valor da experiência».
(O) A negação da proposição «É falso que os empiristas tenham defendido o valor da indução» é «Os
empiristas defenderam o valor da indução».

QUADRADO DA OPOSIÇÃO
Apresente as proposições que se seguem na forma canónica da proposição categórica.

48
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

a) Há pelo menos um país que não é democrático.


b) Cada um dos cientistas é rigoroso.
c) Certas doenças são contagiosas.
d) Não existem tiranias democráticas.
e) Se é ser humano livre, então não é escravo.
f) Há notícia de cisnes negros.
g) Qualquer computador é máquina.
h) Existem dias aborrecidos.

Selecione a única opção que permite obter uma afirmação correta.


1. A proposição «Os primeiros filósofos não eram atenienses» é:
(A) Universal afirmativa.
(B) Universal negativa.
(C) Particular afirmativa.
(D) Particular negativa.

2. A proposição «Pitágoras foi matemático» deve ser classificada como sendo:


(A) Uma proposição de tipo A.
(B) Uma proposição de tipo E.
(C) Uma proposição de tipo I.
(D) Uma proposição de tipo O.

Considerando o conjunto de proposições abaixo:

A. Transforme cada uma delas na sua forma canónica.


B. Classifique as proposições quanto à quantidade e à qualidade.
C. Aponte o tipo de proposição.

a) Há dados preocupantes sobre a fome no mundo.


b) Não há um único camelo que habite nas regiões polares.
c) Cada um dos zoólogos é especialista em animais.
d) Existem filósofos que não são alemães.
e) Há pelo menos um mamífero ovíparo.

FORMAS DE INFERÊNCIA VÁLIDA


Assinale com V as afirmações verdadeiras e com F as falsas.

49
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

(A) A conjunção será verdadeira se, e apenas se, pelo menos uma das proposições conjuntas o for.
(B) A proposição «Estamos no verão, mas, apesar disso, faz frio» é uma conjunção.
(C) As regras da disjunção inclusiva são em tudo idênticas às da disjunção exclusiva.
(D) Se a proposição antecedente de uma implicação for falsa e a consequente verdadeira, a
implicação será falsa.
(E) P e a dupla negação de P são proposições equivalentes.
(F) A proposição P Q e a proposição PVQ são equivalentes.
(G) A proposição (P  Q) ↔(PVQ) é tautológica.
(H) Uma proposição contraditória é uma falsidade lógica.
(I) O argumento «Se é inverno, faz frio; não é inverno; logo, não faz frio» é válido.
(J) O argumento «Se é inverno, faz frio; não é inverno; logo, não faz frio» obedece à forma do modus
tollens.
(K) O argumento «Se é inverno, faz frio; não é inverno; logo, não faz frio» obedece à forma do
modus ponens.

Sejam as proposições P «Realizo argumentos válidos», Q «Uso premissas verdadeiras» e R «Realizo


bons argumentos». Reconstrua em português corrente os seguintes argumentos:

a)

b)

c)

Considere o seguinte argumento.


Se Pitágoras esteve no Egipto, então terá contactado com os construtores de pirâmides. Se contactou
com os construtores de pirâmides, então foi aí que formalizou o seu teorema. Pitágoras nunca esteve
no Egipto. Logo, não contactou com os construtores de pirâmides nem foi no Egipto que formalizou o
seu teorema.

a) Formalize o argumento, incluindo um dicionário adequado.

50
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Considere o seguinte argumento e respetiva tabela de verdade.

P?  Q, P ╞ Q P? P
P Q
Q ╞Q

V V V V V

V F F V F

F V F F V

F F V F F

a) Identifique a conetiva em falta.


b) Justifique a validade ou invalidade do argumento.

Considere o seguinte argumento e respetiva tabela de verdade.


 P ? Q, P ╞  Q P P 
P Q
?Q Q

V V V V F

V F V V V

F V V F F

F F F F V

a) Identifique a conetiva em falta.


b) Justifique a validade ou invalidade do argumento.

Considere o argumento incluído no seguinte diálogo.


Arménio: Olá, como vais?
Lucrécia: Olha, estudo para o teste de filosofia.
Arménio: O que estudas?
Lucrécia: Estudo lógica.
Arménio: Então tens de te aplicar. Tens noção de que os lógicos são pessoas rigorosas?
Lucrécia: Sim, e que há pessoas rigorosas que são apreciadoras de argumentos válidos, isso já
percebi.
Arménio: Bem, daí já podes concluir que os lógicos são apreciadores de argumentos válidos.
Lucrécia: Calma, não sei se podemos retirar essa conclusão. Parece que há qualquer coisa de errado
com o nosso raciocínio.

a) Reescreva as proposições do argumento na forma padrão.

51
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

1. O argumento «Se as formigas fornecem proteínas, são um bom alimento. Se são um bom alimento,
devem existir receitas apetitosas a propósito. Logo, se as formigas fornecem proteínas, devem existir
receitas apetitosas a propósito» corresponde a uma utilização correta da regra:
(A) Da contraposição.
(B) Do silogismo disjuntivo.
(C) Do silogismo hipotético.
(D) Das Leis de De Morgan.

2. A expressão [(P  Q) (  P  Q)]  Q é:


(A) Tautológica.
(B) Contraditória.
(C) Contingente.
(D) Impossível.

3. O argumento «Se é um elefante, não é um carneiro. É certo que não é carneiro. Portanto, é um
elefante» é:
(A) Válido (modus ponens).
(B) Válido (modus tollens).
(C) Inválido (falácia da afirmação da consequente).
(D) Inválido (falácia da negação da antecedente).

4. O argumento «Ou é sarampo ou é papeira. Não é sarampo. Logo, é papeira» obedece a uma forma
válida conhecida como:
(A) Contraposição.
(B) Silogismo disjuntivo.
(C) Silogismo hipotético.
(D) Lei de De Morgan.

5. A conclusão do argumento «As ostras não são fósseis, pois nenhum fóssil pode ter relações sexuais
e uma ostra pode ter relações sexuais» é:
(A) «Uma ostra pode ter relações sexuais.»
(B) «Nenhum fóssil pode ter relações sexuais.»
(C) «As ostras não são fósseis.»
(D) «As ostras não podem ter relações sexuais.»

52
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

DISCURSO ARGUMENTATIVO E PRINCIPAIS TIPOS DE ARGUMENTOS E FALÁCIAS


INFORMAIS

Escreva a letra que identifica as características da argumentação retórica.

A. Infere dedutivamente a partir de verdades estabelecidas.


B. O discurso deve ser adaptado às circunstâncias e ao próprio auditório, no sentido de atingir o seu
objetivo – a persuasão.
C. É pessoal e necessariamente situada, pois dirige-se a indivíduos em relação aos quais ela se
esforça por obter a adesão. D. É impessoal e independente de qualquer sujeito, até mesmo do orador.

Nomeie o tipo de argumento utilizado em cada um dos pontos.

1. Desde que se observa que, ano após ano, milhares de pinguins-imperador percorrem cerca de
100 km pelos gelos inóspitos da Antártida rumo ao local de reprodução. Isto significa que no próximo
ano milhares de pinguins-imperador migrarão para se reproduzirem.

2. Desde que Portugal é uma república que todos os seus presidentes, desde Manuel de Arriaga até à
atualidade, são homens. Logo, nunca existirá em Portugal uma mulher Presidente da República.

3. Segundo um estudo realizado em 2010 por cientistas sociais e especialistas em tráfego automóvel
para o Departamento de Transportes de Nova Iorque, as mulheres são melhores condutoras do que os
homens. Logo, é verdade que as mulheres são melhores condutoras do que os homens.

Considere a imagem e respetiva legenda.

a) Aponte o tipo de argumento utilizado na campanha supra.


b) Escreva o argumento implícito na imagem.

53
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Identifique as falácias abaixo cometidas.

1. Não foi possível provar que Edmundo tenha estado no local do crime à hora a que a vítima foi
assassinada. Portanto, o Edmundo não esteve no local do crime à hora a que a vítima foi
assassinada.

2. O meu médico afirma com frequência que fumar faz mal e que eu devia deixar de fumar.
Acontece que ele próprio fuma. Assim sendo, é falso que fumar faça mal ou que eu deva
deixar de fumar.

3. Ou aceitamos produzir energia nuclear ou não seremos capazes de reduzir as emissões de


gases com efeito estufa resultantes da utilização de combustíveis fósseis. Não aceitamos
produzir energia nuclear. Logo, não seremos capazes de reduzir as emissões de gases com
efeito de estufa resultantes da utilização de combustíveis fósseis.

Estabeleça, justificadamente, se os argumentos que se seguem são fortes ou fracos.

1. As ilhas de São Miguel, Santa Maria, Terceira, Graciosa, São Jorge, Faial, Pico, Flores e Corvo
são ilhas de origem vulcânica localizadas no nordeste do oceano Atlântico. Logo, todas as ilhas
dos Açores são ilhas de origem vulcânica localizadas no nordeste do oceano Atlântico.

2. Os aviões são como as aves, no que respeita ao facto de possuírem um par de asas que
permite a sustentação e a deslocação no ar. As aves põem ovos. Logo, os aviões põem ovos.

1. O argumento «Desde que se observa que agosto tem 31 dias. Portanto, no próximo verão agosto
terá 31 dias» é um:
(A) Argumento indutivo (generalização).
(B) Argumento indutivo (previsão).
(C) Argumento por analogia.
(D) Argumento de autoridade.

2. O argumento «Desde há milhares de anos que existem gorilas na Terra. Logo, nunca deixaremos
de ter gorilas na Terra» é um:
(A) Argumento indutivo – generalização (forte).
(B) Argumento indutivo – previsão (forte).
(C) Argumento indutivo – generalização (fraca).
(D) Argumento indutivo – previsão (fraca).

3. No argumento «Não possuímos dados que confirmem a existência de vida em Marte. Logo, não há
vida em Marte» comete-se a falácia:

54
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

(A) Da petição de princípio.


(B) Do apelo à ignorância.
(C) Da derrapagem.
(D) Do espantalho.

Considere o exemplo.

Um estudo do Centro Nacional de Investigação Científica francês, publicado hoje na revista


Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences concluiu que as origens da domesticação da
oliveira, árvore emblemática da mitologia, paisagem e cozinha mediterrânicas, não estão nos países
mediterrâneos, mas na que é atualmente a zona curda entre a Síria e a Turquia. Logo, é verdade que
as origens da domesticação da oliveira estão na que é atualmente a zona curda entre a Síria e a
Turquia.
«Estudo mostra que a oliveira tem as suas raízes em regiões curdas», in SIC Notícias em linha,
06-02-2013 (adaptado) [consultado em 21-11-13].

a) Nomeie o tipo de argumento utilizado no texto.


b) Apresente os critérios para avaliar a força deste tipo de argumento.

Considere o exemplo.

Alguém que defenda que as pessoas devem atender aos seus próprios interesses, poderá afirmar que
se o leitor não colocar sempre os seus interesses em primeiro lugar, a única alternativa é ser um
mártir, sacrificando constantemente os seus desejos em função de outras pessoas.

N. Warburton, Pensar de A a Z, Bizâncio, 2012, p. 147.

a) Enuncie, justificadamente, a falácia presente no exemplo.

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APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Considere a imagem e identifique as afirmações falsas.

(A) «Todos os cisnes são brancos; todos os cisnes são aves; portanto, algumas aves são brancas» é
um argumento dedutivo válido.
(B) «Todos os cisnes observados até ao momento são brancos; logo, não existem cisnes negros» é
um argumento indutivo forte.
(C) «Todos os cisnes são aves; algumas aves são negras; portanto, alguns cisnes são negros» é um
argumento dedutivo válido.
(D) «Todos os cisnes observados até ao momento são aves; logo, o próximo cisne que for
observado será uma ave» é um argumento indutivo fraco.

ANEXO

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APRENDIZAGENS ESSENCIAIS 10.º ANO

Estrutura do ensaio filosófico

Como devemos estruturar um ensaio filosófico?


Ao longo deste ensaio procurarei discutir 1. Formulo claramente o problema
Introdução

o problema «Será que…?»


O objetivo deste ensaio é… 2. Enuncio qual o objetivo do meu ensaio
Considero que a discussão deste 3. Mostro a importância ou interesse do problema
problema filosófico é importante, pois…
Vou defender a ideia de que Q. 4. Mostro a proposição que quero defender, isto é,
a tese
Desenvolvimento (corpo argumentativo)

Há x razões para se pensar que é verdade 5. Apresento os argumentos a favor dessa


que Q. proposição
Primeiramente...
Em segundo lugar...
Em terceiro lugar...

Ou

Penso que as considerações seguintes


oferecem argumentos convincentes em
defesa de Q.

A objeção mais forte a Q é que... 6. Exponho as principais objeções ao que acabou de


ser defendido
Todavia, esta objeção não é bem- 7. Respondo às objeções
sucedida, pela seguinte razão...
Por conseguinte, concluo este meu ensaio 8. Tiro conclusões
Conclusão

afirmando que…

57