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M I S T I C I S M O l C I Ê N C I A l A R T E l C U L T U R A

PRIMAVERA 2016
Nº 298 – R$ 10,00

ISSN 2318-7107
I Concurso de Teatro Amador
da Ordem Rosacruz, AMORC
“ESPIRITUALIDADE, HUMANISMO E ECOLOGIA”

T odos, estudantes rosacruzes e martinistas, jovens da Ordem Guias do Graal – OGG e Amigos da
AMORC estão convidados a mostrar seus talentos artísticos no I Concurso de Teatro Amador da
Ordem Rosacruz, AMORC.
O concurso tem por objetivo incentivar os trabalhos artísticos desta categoria, promovendo a cria-
ção e produção de peças teatrais relacionadas aos temas “Espiritualidade, Humanismo e Ecologia”, que
também poderão gerar apresentações sociais beneficentes.
Com a contemplação dos temas acima propostos, a AMORC está se inserindo num contexto ade-
quado à expansão dos propósitos rosacruzes, dentro de sua missão, visão e valores, quais sejam, des-
pertar o potencial interior e criador do ser humano através de princípios éticos e humanistas, inovan-
do processos e formas de atuação para o bem-estar do indivíduo, da sociedade e do meio ambiente.

Premiação:
1º Lugar – OURO: O grupo vencedor receberá um incentivo financeiro de R$ 10.000 (dez
mil reais) para a produção e apresentação da peça teatral na XXV Convenção Nacional Rosacruz de
2018 no teatro Guaíra em Curitiba.
2º Lugar – PRATA: O grupo vencedor receberá um incentivo financeiro de R$ 7.000 (sete mil
reais) para a produção e apresentação da peça teatral em evento e local a serem definidos pela Ordem
Rosacruz, AMORC.
3º Lugar – BRONZE: O grupo vencedor receberá um incentivo financeiro de R$ 5.000
(cinco mil reais) para a produção e apresentação da peça teatral em evento e local a serem definidos
pela Ordem Rosacruz, AMORC.

*A Ordem Rosacruz custeará ainda as despesas com logística para o evento de apresentação da peça teatral
(transporte aéreo e local, alimentação e hospedagem) de até 10 integrantes de cada grupo vencedor.

Participe!
Para mais informações, acesse: www.amorc.org.br/i-concurso-de-teatro-amador-da-ordem-rosacruz-amorc
n MENSAGEM

Prezados fratres e sorores,


© AMORC

Saudações rosacruzes!

É com alegria que volto aos amados irmãos e irmãs para mais esta edição
da revista “O Rosacruz”.
Como se pode notar, reeditamos a capa com a Bandeira Rosacruz
recebida em suas cores exatas em outubro de 2016, durante a reunião da
Suprema Grande Loja, em Lachute.
Reproduzimos também alguns artigos que são sempre atuais, como “O
redentor oculto”, do frater A. A. Taliaferro, e “O que torna uma sociedade
doente?”, do nosso saudoso Imperator Ralph M. Lewis. Esses textos foram
editados já há alguns anos e muitos dos nossos novos membros não
tiveram a oportunidade de desfrutar das verdades que eles contêm.
Toda a revista está ótima, mas o artigo sobre o “O carma em termos
ocidentais”, do frater Edgard Wirt, merece ser estudado na mais ampla acepção do termo. É uma investigação
reflexiva que aprofunda o sentido que normalmente, mesmo estudantes de misticismo, dão à lei do Carma.
“O poder dos olhos” também traz aos nossos leitores leis místicas que devem ser consideradas.
O artigo do frater Luis Fábio Miranda nos convida a olhar para a experiência dos sonhos sob uma
perspectiva diferente.
“A beleza da natureza não esconde sua crueldade?”, do frater Serge Toussaint, é uma reflexão assertiva
sobre um tema muito atual e em concordância com os ensinamentos rosacruzes.
Enfim, saboreiem intelectual e filosoficamente esta edição. Espero que todos gostem!
Antropologicamente, “cultura” é tudo aquilo que o homem faz que pode ser material ou não-material.
Neste universo, as artes cênicas representam uma expressão cultural. O cômico, o trágico, o drama, a
música e a dança se entrelaçam na vivência de uma experiência lúdica. Sob esta perspectiva, concebemos
o I Concurso de Teatro Amador da Ordem R+C – AMORC; Espiritualidade, Humanismo e Ecologia, com o
apoio da URCI – Universidade Rose-Croix Internacional. Entendemos que os nossos Organismos Afiliados
são locais onde também se faz e se pratica cultura. Caso o frater ou a soror deseje participar ou tenha
alguma experiência com o assunto e possa somar a esta iniciativa, nós ficaremos muito gratos em contar
com a sua valiosa colaboração.
O Banco Central do Brasil passou a exigir o CPF em boletos bancários, porém nem todos os membros
atualizaram o seu cadastro com este dado. Solicito a gentileza, se for este o seu caso, que entre em contato com
atendimento@amorc.org.br ou pela Área do Afiliado em nosso Portal https://afiliado.amorc.org.br/ ou ainda pelo
telefone (41) 3351-3000 e faça sua atualização cadastral. É importante para manter sua afiliação ativa e regular.
Em breve anunciaremos importantes medidas que serão muito favoráveis às nossas Columbas.
As monografias pela internet já estão disponíveis e podem ser acessadas no endereço https://afiliado.
amorc.org.br/ por aqueles que fizerem esta opção.
Neste ano de 2017 ocorrerão diversas Convenções Regionais. Espero encontrá-los durante esses eventos.
Com meus melhores votos de Paz Profunda, sou

Sincera e fraternalmente
AMORC-GLP

Hélio de Moraes e Marques


Grande Mestre

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


1
n SUMÁRIO

04 Exortação para uma ecologia espiritual


Por CHRISTIAN BERNARD, FRC – Imperator da AMORC

08 O redentor oculto
04
Por A. A. TALIAFERRO,FRC

16 Sonhos lúcidos
Por LUÍS FÁBIO MIRANDA, FRC

21 Via Láctea

16
Por OLAVO BILAC

22 I Congresso Internacional da URCI


Por EMANUELLE SPACK, SRC

27 Reunião anual da SGL / Novos Grandes Mestres


AMORC NO MUNDO

30 O carma em termos ocidentais


Por EDGARD WIRT, PhD, FRC

30
36 A beleza da natureza não esconde sua crueldade?
Por SERGE TOUSSAINT, FRC – Grande Mestre da Jurisdição de Língua Francesa

40 O poder dos olhos


Por JACK ROLAND COCCINS, FRC

44 XXIV Convenção Nacional Rosacruz


Por EMANUELLE SPACK, SRC

52 Sanctum Celestial
“O QUE TORNA UMA SOCIEDADE DOENTE?” por ralph M. LEWIS, frc

56 Ecos do passado
UMA HOMENAGEM À HISTÓRIA DA AMORC NO MUNDO
40
2 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016
O
s textos dessa publicação não representam a palavra oficial da
AMORC, salvo quando indicado neste sentido. O conteúdo dos
artigos representa a palavra e o pensa­mento dos próprios autores
Publicação trimestral da e são de sua inteira respon­sabilidade os aspectos legais e jurídicos que
Ordem Rosacruz, AMORC
possam estar interrelacionados com sua publicação.
Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa
Bosque Rosacruz – Curitiba – Paraná Esta publicação foi compilada, redigida, composta e impressa na Ordem
Rosacruz, AMORC – Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa.
Todos os direitos de publicação e repro­dução são reservados à Antiga
e Mística Ordem Rosae Crucis, AMORC – Grande Loja da Jurisdição de
Língua Portu­guesa. Proibida a reprodução parcial ou total por qualquer meio.
As demais juris­dições da Ordem Rosa­cruz também editam uma revista
do mes­mo gênero que a nossa: El Rosacruz, em espanhol; Rosicru­cian
Digest e Rosicrucian Beacon, em inglês; Rose+Croix, em francês; Crux
Rosae, em alemão; De Rooz, em holandês; Ricerca Rosacroce, em italiano;
Barajuji, em japonês e Rosenkorset, em línguas nórdicas.
CIRCULAÇÃO MUNDIAL

Propósito da expediente
Coordenação e Supervisão: Hélio de Moraes e Marques, FRC
Ordem Rosacruz n

A Ordem Rosacruz, AMORC é uma orga- n Editor: Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa
nização interna­cio­nal de caráter templário,
místico, cul­tural e fraternal, de homens e
n Colaboração: Estudantes Rosacruzes e Amigos da AMORC
mulheres dedicados ao estudo e aplicação

como colaborar
prática das leis naturais que regem o uni-
verso e a vida.
Seu objetivo é promover a evolução da
huma­nidade através do desenvolvimento
das potencia­lidades de cada indivíduo e
n Todas as colaborações devem estar acom­panhadas pela declaração do
propiciar ao seu estudante uma vida har- autor cedendo os direitos ou autori­zando a publicação.
moniosa que lhe permita alcançar saúde,
felicidade e paz.
n A GLP se reserva o direito de não publicar artigos que não se encaixem
Neste mister, a Ordem Rosacruz ofe- nas normas estabelecidas ou que não esti­verem em concor­dância com a
rece um sistema eficaz e comprovado de pauta da revista.
instrução e orientação para um profundo
auto­c onheci­mento e compreensão dos n Enviar apenas cópias digitadas, por e-mail, CD ou DVD. Originais não
processos que conduzem à Iluminação. serão devolvidos.
Essa antiga e especial sabedoria foi cui-
dadosamente preservada desde o seu n No caso de fotografias ou ilustrações, o autor do artigo deverá providenciar
desenvolvimento pelas Escolas de Misté- a autorização dos autores, necessária para publicação.
rios Esoté­ricos e possui, além do aspecto
filosófico e metafísico, um caráter prático. n Os temas dos artigos devem estar relacionados com os estudos e práticas
A aplicação destes ensinamentos está ao rosacruzes, misti­cismo, arte, ciências e cultura geral.
alcance de toda pessoa sincera, disposta a
aprender, de mente aberta e motivação
positiva e construtiva. nossa capa
A Bandeira Rosacruz foi desenhada por
uma comissão da Loja São Francisco EUA
e apresentada formalmente pelo Frater
Spencer Lewis em 1935. A cor vermelha na
parte de baixo e os raios púrpura na parte de
cima representam a evolução da Consciência.
Rua Nicarágua 2620 – Bacacheri Os raios brancos, que denotam a fusão
82515-260 Curitiba, PR – Brasil
Tel (41) 3351-3000 / Fax (41) 3351-3065
harmoniosa de todas as cores, representam
www.amorc.org.br o influxo da Consciência Cósmica.

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3
n IMPERATOR

Exortação para uma

ecologia
espiritual
Por CHRISTIAN BERNARD, FRC – Imperator da AMORC

4 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


E
sta revista me dá a oportunidade de o que existe em estado natural. Negar esta
abordar alguns princípios funda- evidência redunda em negar a vida em si. É
mentais que me parecem essenciais assim que, quando esta força vital abandona
neste período difícil para a huma- o corpo, este se torna matéria morta.
nidade e para nosso planeta. Certamente, Para colocar em ação suas leis, Deus
o assunto que vou abordar é bem clássico precisa dos seres viventes, assim como
e conhecido pelos membros da AMORC, nós temos uma necessidade vital de sua
mas eu sinto que é importante compartilhá- essência divina para manter nosso corpo
-lo com um número maior de leitores. físico vivo. À medida em que o homem
Todos vocês sabem que o humano é uma destrói seu envoltório físico, ele diminui
criatura dual, com um corpo físico e um a capacidade de evolução de sua alma.
outro espiritual, chamado geralmente de Mas o que será da humanidade se esta su-
“alma”! É dito que Deus criou o ser com o blime harmonia e este acordo perfeito forem
pó da terra e que lhe insuflou pelas narinas rompidos? O que é válido para o corpo físico
o sopro da vida. Se trazemos esta afirmação do homem também o é para a Terra. Em
para uma linguagem menos poética, porém algumas décadas, teremos destruído nosso
mais científica, podemos dizer que o homem meio ambiente e escasseado nossos melhores
é composto de elementos materiais da recursos. Os elementos físicos aos quais me
terra e que cada uma de suas referia anteriormente correm o
células é formada de ele- risco de logo não serem mais
mentos físicos vivos e do que uma lembrança
revitalizantes de nosso classificada nos grandes

“ … podemos
planeta. Por tão com- arquivos do tempo.
plexo, admirável e Esta força divina
maravilhoso que agir e ser agentes que anima todos
os seres viventes
seja o mecanismo
do corpo huma- desta corrente não terá mais
receptáculo, ao
no, quer seja na
sincronização que trabalha para menos em nosso
de seus movi-
mentos ou na sua
a salvaguarda da planeta deterio-
rado, se conti-
faculdade de se terra e da espécie nuarmos com
nossas más ações.


movimentar etc.,
não se deve esquecer humana. Sem dúvida nós
desenvolvemos há-
que ele é composto de
elementos terrestres e bitos de vida que não
que não pode existir senão estavam no plano original
graças a uma lei imutável. das coisas. Muito rapidamente
Não haveria vida sem a essência nos afastamos da via traçada. Culti-
divina que existe não apenas neste mecanis- vamos nossos erros e, infelizmente, nossa
mo, neste todo, denominado homem, mas tomada de consciência é muito falível, apesar
também nos elementos individuais que o das vozes que se elevam e, sobretudo, das
compõem. A essência divina está presente na terríveis provações e dramas que recebemos
água, nos minerais, na vegetação e em tudo como lições suficientes, infelizmente nem

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5
n IMPERATOR

sempre reconhecidas como tais e não com- nosso planeta, eu continuo a pensar que não
preendidas. Nossa violação das leis quebra o é tarde demais e que a luz pode vencer as
nosso acordo com a natureza e nos distancia trevas. Mas para tanto, é necessário que vozes
cada dia um pouco mais de Deus. de protesto se elevem e que elas se tornem
Se Deus criou o homem à sua imagem, tão numerosas que o som por elas produzido
não é para que ele se atribua o direito de perturbe por fim a consciência de nossos
transgredir ou de mudar as leis fundamen- dirigentes, se isto ainda é possível. Enquanto
tais da natureza. O homem se afasta do bom místicos e rosacruzes, podemos agir e ser
caminho, da luz do sol, do magnetismo da agentes desta corrente que trabalha para a
Terra, das benesses da água pura e de todas salvaguarda da Terra e da espécie humana.
as boas vibrações cósmicas. Brincamos de Eu certamente sei que a grande maioria de
aprendizes feiticeiros ou de pseudo-cientis- vocês dedica-se já há muito tempo àquilo
tas. Acreditamos poder dominar o mundo que geralmente chamamos de ecologia, e
e moldar suas leis conforme a nossa conve- isto em várias competências e de diversas
niência, não para nosso bem-estar e nem maneiras. Mas muitos dentre nós ainda têm
tampouco sem reservas, mas para uma frui- dúvidas ou são muito hesitantes. Outros
ção imediata, por ganância e por orgulho. ainda são influenciados por seu modo de
Não somos muito ridículos e pequenos vida, sua profissão ou suas leituras. Ainda
face a uma onda de quinze metros destruin- ficamos demasiado impressionados quando
do um muro que afirmávamos ouvimos um professor exaltar os
indestrutível? Não é patético maravilhosos poderes destes
que os pretensos homens ou daqueles medicamentos


de espírito, armados de ou vacinas, ao passo
suas certezas e de seus …a que, sem alma e sem
diplomas, nem mes-
mo sonhem que
ecologia deve consciência, ele tem
plena consciência
a construção de caminhar lado a dos males que eles
centrais nucleares acarretam. Eu po-
seja perigosa, lado com a espiri- deria lhes dar mil
sobretudo nas
regiões sujeitas a
tualidade, pois uma e um exemplos de
coisas das quais
abalos sísmicos? não pode existir e nós deveríamos
Ai de nós, três recusar a influên-
vezes ai de nós… perdurar sem a cia, mas vocês são
outra…

Não merecemos o bastante observa-
nome de homens; não dores, instruídos e in-
merecemos o santuário teligentes e sei que fazem
que nos foi ofertado: a Terra. parte do grupo que reflete
No entanto, há muitas décadas e medita diariamente sobre o
que se diz que todos os seres de boa von- porvir da humanidade e da Terra.
tade deveriam se unir, dar-se as mãos e tra- Eu gostaria simplesmente de dizer-lhes
balhar em e para a harmonia. que vocês não devem hesitar em fazer ouvir
Apesar de tudo isto e da constatação ne- seu ponto de vista, mesmo se o seu meio for
gativa que se pode fazer sobre o estado de refratário a respeito das suas ideias. Para os

6 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


rosacruzes, deve repousar
a ecologia deve no reino divino.
caminhar lado a lado com a es- Lá ela sempre en-
piritualidade, pois uma não pode contrará refúgio e
existir e perdurar sem a outra. É conforto. Quando a
por isto que, no começo de minha mágoa, a dúvida e a falta
mensagem, eu lhes fiz lembrar que o ser é de coragem lhe submer-
uma criatura dual. girem, deixem-se acalentar pela
Assim como vocês devem empregar todos mãe divina. Voem mais alto do que todos os
os seus esforços para proteger a saúde do seus medos e penetrem a consciência de Deus.
planeta e de seus habitantes, é preciso desejar Eu sei que as recomendações que lhes dou
se elevar sempre mais alto no domínio do são mais fáceis de se dizer e de ouvir do que
espírito. Alcem-se para além das coisas feias, de se pôr em prática, e que nossos temores,
sórdidas e cruéis da vida, e sirvam-se do as- nossas angústias e nossos múltiplos defeitos
pecto material das coisas como um degrau são suficientes placas de lama que aderem a
que lhes permite se elevar mais alto e ter uma nossos pés e nos retêm, impedindo-nos de
concepção mais grandiosa do mundo. Com nos elevar às mais altas esferas espirituais.
o olhar voltado para o horizonte, vivam er- Contudo, não devemos jamais desistir.
guidos e não se ponham de joelhos senão no Mesmo se estivermos perdidos pelo caminho
sanctum do belo e do virtuoso. Este está alo- desta existência, devemos manter a espe-
jado no coração da catedral da alma, da nossa rança. Haverá outras vidas, outras sendas a
alma, da grande alma universal! É neste lugar serem tomadas, e a experiência que teremos
que se encontra a Paz Profunda onde é pos- adquirido nos servirá como guia e como luz.
sível ouvir a música celeste e as vozes melo- Que assim possa ser, apesar da lou-
diosas dos Mestres reunidos num coro, e que cura destruidora dos homens!
impregnam todo aquele sagrado edifício. Eis então uma breve exortação para uma
Seu corpo deve servir no mundo dos ho- ecologia espiritual e, como gosto de dizer aos
mens e seu espírito e sua boa vontade ser úteis membros da AMORC, sejam orgulhosos de
à sua tarefa e aos seus irmãos. Mas sua alma serem homens e mulheres de boa vontade. 4

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7
n REFLEXÃO

O redentor
oculto
Por A. A. TALIAFERRO, FRC*

8 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


E
ntre os mais poderosos de todos os de sementes, há também inúmeros tipos de
símbolos místicos está a semente. corpos. Há o corpo do Homem, dos animais,
O conceito de semear ou plantar dos peixes e dos pássaros. Há os corpos ce-
é abrangido pelos ensinamentos lestiais e terrestres. O significado e objetivo
Rosacruzes. Esta é, também, uma das prin- de cada espécie é inerente àquilo que o corpo
cipais técnicas usadas por Jesus para a apre- é e será. Cada corpo tem sua própria glória
sentação dos mistérios dos Reinos dos Céus ou significado. São Paulo refere-se mesmo
àqueles que quisessem ouvir. Este conceito ao sol, à lua e às estrelas como corpos. Se ele
está encerrado na rosa entreaberta e na vinha ainda hoje vivesse, poderia usar a mesma
e seus ramos. A realização da importância da espécie de analogia ao se referir a uma árvore
semente era inerente aos ritos agrários dos que, quando enterrada no chão, transforma
povos primitivos. A “Semente de Abraão” a seu corpo em diamante, após passar por um
ser espalhada por toda a Terra, obviamente, processo de transformação que inclui a cria-
se refere a algo que está para acontecer à raça ção da substância conhecida como carvão.
humana. Brotará o fruto final da existência? Sabemos que a constituição da rocha,
Um dos mais compensadores assuntos sob pressão e pelo misterioso processo da
da meditação é a concentração sobre a vida vida, tornar-se-á uma rocha diferente. Nas
e o que acontece de modo que a finalidade formas de vida mais elevadas, a bolota,
da semente seja cumprida. Sem uma espé- quando plantada, dá origem ao carvalho.
cie de vida, que é a sua própria substância, A lagarta, transformando-se em crisálida,
a semente não germinaria ou entraria num produz uma borboleta. O ovo, ao ter sua
processo de decomposição. A vida no in- casca quebrada, pelo crescimento de uma
terior da semente é a força misteriosa, que vida interior que não pode ficar sujeita
quando obtém liberdade pela quebra da aos limites da casca, produz o maravi-
casca desenvolve-se naquilo que está po- lhoso milagre do nascimento – o pinto.
tencialmente na semente. O olho humano, Em cada
na interpretação da semente, pode ver sua um desses
casca, porém não pode ver a vida no inte- casos podem
rior da semente. Com o auxílio da analogia ser notados
da vida da semente, a mente é capaz de determina-
transferir a lição material, objetiva, para o dos estágios.
nível espiritual de consciência e compre- O corpo
ender que o mesmo princípio que atua na original deve
semente atua, também, em toda a vida. ser criado
Este é o conceito de São Paulo no misteriosa-
Capítulo XV, de sua primeira epístola aos mente, de
Coríntios, quando, pela semente, simboliza uma gera-
o significado e o objetivo do corpo mate- triz – em
rial. Ele faz referência às muitas espécies de outras palavras, aquilo que possa produzir e,
corpo. Há o corpo chamado semente que por um processo de nutrição e proteção, dar
produz o grão – talvez o trigo ou outro qual- existência aos seus rebentos. Esta é a semen-
quer. Está de acordo com a vontade de Deus te que, por sua vez, possui em sua própria
que o corpo assuma qualquer forma que lhe natureza o poder de tornar-se o mesmo que
seja inerente. Assim como há muitas espécies seus pais. Todavia, a casca desta semente

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9
n REFLEXÃO

um. São Paulo prossegue comentando que


o corpo humano é também uma semente.
Contida no corpo humano, está a vida do
corpo espiritual que faz com que o corpo
humano viva, dando-lhe poder. O termo
corpo espiritual pode ser mudado por alma,
corpo psíquico e mente, ou qualquer outro
que melhor transmita significado à pessoa
que esteja estudando os mistérios da vida.
Assim, o corpo humano é uma semente,
porém, uma manifestação mais elevada do
que a dos exemplos já mencionados. Em
seu próprio interior tem o poder da vida,
da mesma forma que as outras sementes. O
corpo humano tem a espécie de vida que lhe
dá liberdade de locomoção e de manifestar
sua vitalidade de maneira muito diferen-
te da manifestada pelas formas inferiores
de vida. Além disso, a inteligência da vida
deve ser quebrada. No caso da semente do em seu interior confere-lhe poder mental
trigo, da bolota e várias outras formas vege- para raciocinar e pensar em conceitos e
tais, a semente deve ser enterrada no chão ideias. Isto torna o corpo autoconsciente,
aguardando-se que o seu corpo se descom- permitindo-lhe usar sua vida para criar uma
ponha. Contudo, ela realmente se quebra, concepção do Eu e exercer o seu poder em
pelo poder impulsionador da vida em seu seu meio ambiente. Ele recorda e cria, pro-
interior – a vida do trigo ou do carvalho que jetando no futuro objetivos determinados.
surgirá. Esta força é tão poderosa que pode-
rá fender o chão e, ao fazê-lo, propiciar um
lugar para a vida e segurança de um novo A última etapa
corpo. Da mesma forma o corpo da lagarta, Não obstante, com todas essas chamadas
tão limitado em seu tamanho como o do faculdades privadas, o Ser humano é, ainda,
ovo, deve também ser quebrado por um pro- uma semente. É necessário que esta semente
cesso impulsionador provindo do interior. seja quebrada e passe por uma transfor-
Em cada caso, ao observarmos o traba- mação de morte aparente, a fim de que o
lho maravilhoso da Natureza, vemos que que estava contido em seu interior possa
o que procede da semente é tão diferente desabrochar na plenitude de sua própria
da própria semente quanto se possa possi- natureza. São Paulo alude ao fato de que em
velmente imaginar. A borboleta não é de determinada época a raça humana estava
nenhum modo semelhante à lagarta. Nem é adormecida. Isto se refere ao estado de cons-
o pinto semelhante ao ovo. A mente huma- ciência em que a raça não estava cônscia de
na não poderia conceber o carvalho como sua potencialidade.
estando contido na bolota; não obstante, há Somente em um estado mais elevado de
uma relação entre os dois, tão íntima, que consciência é a raça ou o indivíduo elevado
se pode dizer que os dois são, realmente, da morte da consciência a uma nova espécie

10 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


de vida. Jesus, o Cristo, é chamado o
“primeiro fruto daqueles que estavam
adormecidos”; ele representa um novo
estado de vida. O velho Adão morre
e um novo Adão, ou o Cristo, nasce.
De acordo com o pensamento de São
Paulo, todo homem em seu próprio
tempo chega a penetrar esse novo es-
tado de consciência; Jesus primeiro e,
depois, todos aqueles que receberam
a consciência crística quando ela a
eles chegou. Esta transformação ocor-
rerá num piscar de olhos, da mesma
forma que “em um momento, num
piscar de olhos” os mortos ressuscita-
rão. Isto é a mortalidade tornando-se
imortalidade. O que é corruptível, o
corpo, torna-se incorruptível, espi-
ritual. Esta transformação tem lugar
no momento em que a pessoa passa
pela transição de uma vida limitada,
material, objetiva, física, a uma ilimi-
tada, imaterial, espiritual e metafísica.
Esta segunda espécie de vida tem
lugar porque é inerente à primei-
ra espécie. Assim como a semente
que está na bolota transforma-se
em carvalho, assim a semente que
está no corpo humano, sendo en-
terrada e retornando ao pó de onde
proveio, torna-se uma nova espé-
cie de manifestação espiritual.
A carne e o sangue não podem
herdar os reinos do céu; em ou-
tras palavras, o indivíduo, por sua
consciência física, não pode estar
consciente da nova vida. Todavia,
pela compreensão, a consciência no
interior do corpo pode ter percepção
de si mesma do que lhe acontecerá
quando deste se libertar. Esta nova
compreensão traz um sentimento de
significado e objetivo que procede da
consciência da vida total. O sentimen-

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


11
n REFLEXÃO

to de unidade é uma percepção Cósmica.


É a ressurreição para uma nova vida.
Vemos isto dramatizado nos ritos e ce-
rimônias das escolas de mistérios quando
relatavam a história do nascimento de um
deus que era gerado de uma mãe (a raça)
e assassinado, a fim de que sua verdadei-
ra natureza divina pudesse redimir a raça
humana. Nessa analogia, o deus-redentor
é enterrado na consciência humana. No
caso do deus egípcio Osíris, o corpo foi
desmembrado e espalhado de modo que o
sangue que lhe dava vida pudesse ser sim-
bolicamente distribuído durante toda a vida
da raça. Por esse desmembramento, a vida
divina de Deus é transmitida e torna-se
una com a vida humana do corpo material.
Dessa forma a raça recebe a divindade e o
indivíduo se apercebe inconscientemen-
te, nas cerimônias de iniciação, do fato de
que ele é parte do corpo divino de Deus.
Um processo de união tem lugar quando
o corpo é restaurado à sua forma origi-
nal, na ressurreição. O pro­cesso de união
oposto ao de desmembramento recaptura
a unidade original. É, contudo, diferente
no sentido de que ele é a vida que existirá.
Esta história é contada repetidas vezes e,
finalmente, chega ao seu clímax no dra-
ma pleno de significado do nascimento
de Jesus, o Cristo. Ele nasce pela perfei-
ção da humanidade e, como a semente de

“Tendo comido Deus, brota e se infunde na humanidade.


Por seus pensamentos, suas orações,
do fruto da Árvore suas aspirações e ensinamentos, seus atos
de cura e bênção e criação decorrentes de
do Conhecimento seus desejos e esperanças, em estado per-
feito de união entre o Homem e Deus, Ele
do bem e do mal comunica à raça humana a natureza divi-
o Homem tornou- na do Pai. Está sepultado na humanidade
há tempo suficiente para permitir que seja
se consciente de realizado o trabalho que, eventualmente,


trará o florescimento da raça à sua fruição
si mesmo… na qual ela se torna o que por sua própria

12 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


natureza jamais poderia se tornar. Quando
se ele­var à sua nova vida, em um estado Divindade na
glorificado, levará consigo a humanidade e
a sensualidade da raça. Sua ascensão é um humanidade
símbolo do crescimento da Árvore da Vida O Cristo é referido como a Semente de
em direção ao céu, o qual a natureza mate- Abraão. Abraão é um símbolo do pai da
rial, física do Homem, não pode perceber. raça, a própria palavra significa pai de
Todavia, ele promete por esse ato de ascen- todos. Ela leva à existência uma árvore
são retomar o Homem ao estado original do humana que floresce finalmente na pessoa
Paraíso, no Jardim do Éden, de onde veio. de Jesus, o Cristo, que é a Rosa de Charon
Tendo comido do fruto da Árvore do – um lugar rochoso e desolado. É o lírio do
Conhecimento do bem e do mal o Homem vale. Causa-nos impressão o fato de que a
tornou-se consciente de si mesmo, e verifi- Rosa ou o lírio, a mais bela das flores, pode
cou que pelo uso de sua consciência pessoal florescer em lugares áridos e não cultiva-
perdeu a percepção de sua unidade com o dos. O Vale simboliza as profundezas da
divino. Ele não poderia, por seus próprios consciência humana, o inconsciente do
esforços, voltar nova­mente ao seu estado qual proviemos. Mesmo no mais profundo
original; assim tornou-se necessário que abismo de nosso inconsciente a flor flo-
Deus plantasse a semente do Cristo no resce. Esses símbolos do Cristo traduzem
Homem, de modo que ele pudesse retor- um conceito que a mente humana pode
nar, pela Árvore da Cruz, ao estado divino visualizar ideias que são poderosamente
do Jardim do Éden. A Árvore da Vida, no ativas na inconsciência da raça. Sabe­mos,
Jardim do Éden, é inacessível à raça hu- quer entendamos ou não, que há esperan-
mana. É guardada pelos serafins até que o ça e futuro para a raça que é simbolizada
Homem tenha se elevado ao estado em que na Pessoa do Cristo que, para nós, é umap
possa usar, devidamente, a sua vida Divina. forma de consciência mais elevada.
Ele deve se tornar plenamente conscien-
te da Árvore do Conhecimento antes que
possa se tornar digno da Árvore da Vida.
Este conceito do Cósmico como a
Árvore da Vida, a Árvore com seus ra-
mos, suas folhas, suas flores e seus frutos,
deve criar na mente humana a ideia da
expansão da consciência. O indivíduo é
parte desta maravilhosa árvore da huma-
nidade, cuja vida é a consciência Cós­mica.
O Cristo, ou Consciência Cósmica, está
enterrado na consciência humana que Lhe
serve como semente. A consciência huma-
na deve ser despertada e cada indivíduo
deve passar pela consciência de dominar
sua vontade, todas as suas antigas ideias
tradicionais e modo de vida, a fim de li-
bertar a vida que está em seu interior.

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


13
n REFLEXÃO

Uma outra forma desta analogia é a do a espécie de consciência a que nos referimos
próprio Cósmico. A mente universal, da qual como consciência animal, humana.
todas as coisas provêm, que opera por uma Isso ela faz pela criação da Árvore da
lei absoluta, perfeita e invariável, traz à exis- Vida, enterrando-a em seu próprio uni­verso
tência o seu Eu, provindo de si mesma. Ela criado o mundo material.
realiza isso por um processo andrógino pelo As próprias raízes de nossa consciência
qual dá nascimento ao seu Eu, em suas várias estão no mundo material; todas as substân-
formas. O mundo, como o conhecemos, é cias desse mundo estão no interior do corpo.
trazido à existência dessa mesma maneira, Do mundo material é formado um tronco
repetidamente. Uma árvore provém de uma que é a substância mineral do universo.
semente. A árvore produz ramos que partem Deste, saem os ramos da árvore com suas
do tronco, folhas e flores dos ramos e, das folhas e frutos, símbolo da percepção animal-
flores, frutos. O fruto, que é o estágio final do -humana, com sua capacidade de pensar e
processo de reprodução da árvore, decom- conhecer em sua mais alta forma. O plan-
põe-se, deixando as sementes caírem ao solo. tio da se­mente, que é o fruto da Árvore do
A semente transforma-se novamente em raí- Conhecimento do bem e do mal, é a morte
zes, tronco, ramos, folhas, botão, flor e fruto. do indivíduo como ele se considera na forma
Da mesma forma, o Cósmico ou cons- humana. A semente da vida individual é,
ciência crística do universo, que é sempre então, retornada ao solo Cósmico e, nova-
criativo, respondendo sempre à sua própria mente, por um processo de união como o
necessidade de existir, produz, de si mesmo, poder criativo do Cósmico, é transformada

14 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


em outra forma de vida que é uma repetição bons frutos é derrubada e lançada ao fogo”.
da forma original. Esta é a Mente Cósmica A árvore que produz bons frutos é regada,
do próprio Cristo, pelo qual, de acordo com podada e cuidada pelo Cósmico, a fim de que
os ensinamentos cristãos e filosóficos, todas possa produzir frutos mais saborosos. O reino
as coisas foram feitas, as quais repetidamente dos céus é como uma semente que quando
se implantam no solo do universo, a criação plantada produz uma árvore tão forte que as
de seu próprio Ser. Este processo é referido, aves podem nela fazer ninho. Se tivermos fé
na filosofia oriental, como reencarnação. ou percepção espiritual, tão pequena quanto
No sistema filosófico Ocidental, psico- o menor grão de mostarda, se plantado na
logicamente interpretado, pode ser re­ferido consciência, ela crescerá e tornar-se-á sufi-
como aquilo que o Dr. C. G. Jung chama de cientemente poderosa para mover montanhas.
inconsciência coletiva, com o inconsciente Quando chegou a ocasião de o corpo de Jesus
individual e a percepção da mente subcons- se desintegrar, foi plantado na terra. Isto é
ciente. O Cósmico planta suas sementes e simbolizado pela colocação do corpo no tú-
faz crescer seus filhos, a fim de que eles, a mulo de José de Arimathéa, o rompimento do
raça humana, possa, por seu turno, crescer túmulo ou da terra e a descoberta do Senhor
e se tornar o Cósmico. ressuscitado, por Maria, no


Em consciência, a raça jardim, na manhã da Páscoa.
humana deve estar cônscia A árvore Não há dúvida de que a des-
de si mesma, como o filho,
do pai, e deve ser capaz de
que produz coberta de Jesus por Maria
deu-se num jardim. É num
usar os poderes que lhe
foram conferidos e que her-
bons frutos é jardim que a Rosa floresce
e que o fruto final da vida
dou pela qualidade de filho regada, podada pode se manifestar. Em sua
de Deus. O próprio indiví- ressurreição, Jesus, como
duo coopera com este pro- e cuidada pelo Cristo, estava no estado de
Cósmico…

cesso compreendendo que percepção e consciência
todos os seus pensamentos do Ser que é prometido
e sentimentos são uma se- à raça quando nos pro-
mente. O estudante do verdadeiro misticismo pusermos a passar pelo mesmo processo.
não pode deixar de compreender, se for sin- Dizem-nos que somos membros de seu
cero, que é pessoalmente responsável por sua corpo, que somos parte Dele e que Ele vive
própria evolução pessoal. Ele planta a semente em nós, e nós Nele. Esta é uma referência
do pensamento e sentimento pelo poder da direta ao fato de que em nossa consciên-
imaginação, permitindo que as ideias e con- cia humana há consciência Cósmica, que
ceitos criados na mente consciente passem ao estamos ligados à Consciência Cósmica e
inconsciente. Ali, pelo miraculoso poder de evoluindo por sua vida no Cristo. Portanto,
transformação que é o poder da própria vida, vivemos, movimentamo-nos e temos no
a semente é regada e se torna o que deverá ser. nosso Ser manifestando-se pela eterna
O indivíduo, portanto, produz frutos, al- transformação de uma espécie de vida em
guns para perfeição, outros para imperfeição; outra, em todos os níveis de vida, o po-
porém, todos produzem frutos. Jesus usou der criativo e maravilhoso de Deus. 4
esta analogia quando disse: “Eu sou a vinha e
vós sois os ramos” e “A árvore que não produz * Publicado originalmente em "O Rosacruz", edição nº 5, 1960.

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


15
n COMPORTAMENTO

Por LUÍS FÁBIO MIRANDA, FRC*

Comprovados cientificamente há 40 anos, os sonhos lúcidos


continuam sendo um mistério para muitas pessoas.

S
e, em algum momento de sua vida, rio pela primeira vez pelo Psicólogo Keith
estando adormecido, você teve a Hearne, em 1975. Quem visita o Museu da
consciência clara de se encontrar Ciência, em Londres, pode ali observar o
sonhando, depois de acordar deve polisonógrafo que ele utilizou para registrar
ter se perguntado: “Como isso é possível? Há tal experimento. Posteriormente, em 1978,
alguma explicação científica para tal fenôme- Hearne defendeu sua Tese de Doutoramento
no?”. E se nunca passou por essa experiência, na Universidade de Liverpool, Inglaterra,
deve estar agora questionando: “Sonhos lúci- intitulada Lucid Dreams – an electrophysio-
dos realmente existem?”. logical and psychological study.
A resposta é simples: sim, é possível estar O fenômeno foi comprovado também nos
dormindo, sonhando, e ao mesmo tempo laboratórios da Universidade de Stanford,
lúcido. O fato foi comprovado em laborató- nos Estados Unidos, e constituiu a Tese de

16 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


Doutoramento do pesquisador Stephen La-
Berge, em 1980, intitulada Lucid Dreaming Ciência
Exploratory Study of Consciousness O assunto, porém, vinha sendo olhado pela
During Sleep. O americano ficou mais comunidade acadêmica de forma cética,
conhecido do que o britânico, pois logo pu- embora muitos dos próprios cientistas ti-
blicou um livro em linguagem simples, cha- vessem experimentado tal fenômeno, em
mado “Sonhos Lúcidos”. LaBerge fundou o algum momento de suas vidas, ou mesmo
The Lucidity Institute (www.lucidity.com) e conseguissem repeti-lo frequentemente. O
conduz, atualmente, Seminários de oito dias problema era que não se conseguia demons-
sobre Sonhos Lúcidos no Havaí, uma ou duas trar e provar, em laboratório, que o indiví-
vezes por ano, para o público em geral, sendo duo se encontrava efetivamente dormindo
apenas indispensável ter inglês fluente. durante a experiência. O sonho sempre foi
O fato é que, embora Keith Hearne e associado ao estado de não lucidez e, assim
Stephen LaBerge não se conhecessem, vi- sendo, fora do nosso controle. Como ainda
vendo em continentes separados, e sem as não estavam disponíveis máquinas para
facilidades de comunicação de que desfru- comprovar o fato, tentava-se explicá-lo como
tamos hoje, ambos chegaram às mesmas sendo “lampejos de lucidez” durante alguns
conclusões, com experiências que foram di- segundos de sono mais superficial; assim,
vulgadas e reproduzidas em diversos países. procurava-se justificar o fenômeno com o
Agora você poderá estar se pergun- argumento de que a pessoa, naqueles mo-
tando: “Será que eu também conseguiria mentos, não estaria realmente adormecida.
ter sonhos lúcidos? Existe algum trei-
namento para atingir tal estado?”.
O fenômeno pode ocorrer de forma es- Controle
pontânea, mas, a princípio, qualquer ser hu-
mano interessado em desenvolver essa habi- dos sonhos
lidade é perfeitamente capaz de fazê-lo; há Também acontece com frequência que mui-
técnicas específicas para tanto, que abordare- tos indivíduos que se conscientizam de estar
mos de forma resumida um pouco adiante. sonhando não sabem que podem passar
para o próximo estágio, ou seja: controlar

História o conteúdo do sonho, tomando decisões


conscientes sobre o que deseja que acon-
O que chamamos hoje de “sonho lúcido” de teça a partir de então, e assim dirigindo o
certa forma já era citado desde os antigos desenrolar do sonho de forma semelhante
gregos, mas foi descrito detalhadamente ape- ao que o diretor faz com um filme. Quanto
nas em 1867, por Marie-Jean-Léon Marquis mais se desenvolve tal habilidade, maior
d’Hervey de Saint-Denys, que descobriu, controle se obtém e mais longos se tornam
sozinho, formas de comandar os próprios os períodos em tal estado. A perfeição e a
sonhos. O seu livro Les Revês et les moyens vividez das imagens e demais sensações
de les diriger chamou a atenção até mesmo durante um sonho lúcido podem ser de tal
de Freud, que não conseguiu, em sua época, ordem superior às nossas experiências em
um exemplar para estudo. Hoje, essa obra vigília que geralmente, ao acordar, a pessoa
pode ser adquirida facilmente pela Internet se pergunta se o “mundo do sonho” não
na linguagem original, o francês. é o que costumamos chamar de “real”.

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


17
n COMPORTAMENTO

O primeiro passo
Como ter um Para ser bem sucedido em um experimento
de sonho lúcido é preciso, antes de qualquer
sonho lúcido coisa, dar mais atenção aos períodos de
sonhos, tentando registrar o seu conteúdo
Muitas vezes, o simples conhecimento do por escrito, como fez Saint Denys. Porém,
assunto – através de uma conversa, uma é necessário ter cuidado, pois muitos dos
palestra ou de leituras como a do presente nossos sonhos não justificam o registro,
artigo – já dispara o processo e a pessoa expe- uma vez que são decorrentes de estímulos
rimenta um sonho lúcido na mesma noite ou externos ou internos – que a mente associa
no máximo dois ou três dias depois. É impor- imediatamente a eventos passados – ou en-
tante saber que o ser humano que dorme oito tão são devidos ao processo de organização
horas cada noite passa em média por cinco do conhecimento que ocorre todas as noites,
períodos de REM (Movimento Rápido dos onde o cérebro arquiva fatos e sensações
Olhos, durante os quais sonha), alternados para eventual uso futuro. Os sonhos que
com cinco períodos chamados não-REM. Tais valem a pena registrar são aqueles de origem
ciclos ocorrem de forma que, se em uma noite psicológica, psíquica ou mística – estes sim,
a pessoa dorme oito horas, ela sonha cerca importantes para análise e autoconhecimen-
de duas horas! Muitos não acreditam nisto e to – e podemos até nos condicionar, a fim
dizem que “não sonham”, o que é absoluta- de que ocorram no último período REM
mente impossível, pois não sonhar provocaria (aquele da manhã, imediatamente antes de
um grande estresse e complicações emocio- nos levantarmos), de forma que possamos
nais, mentais e da saúde em geral, como já então recordá-los com facilidade, escrevê-
comprovado em laboratório. Estas pessoas -los, analisá-los. Tal condicionamento é
afirmam que não sonham simplesmente por- simples, muito parecido com aquele que
que se esquecem dos próprios sonhos, devido muitas pessoas já dominam, de acordar em
a uma ou mais das seguintes razões: voltar a determinada hora, sem auxílio externo – de
dormir logo após sonhar; acordar e já levan- outra pessoa ou de um despertador – bas-
tar, ocupado com o dia à frente; não dar a tando um pedido à mente subsconsciente,
devida importância aos sonhos; estar muito antes de adormecer. Quanto mais confiante
voltado para o mundo material; ter medo. no processo, mais ele funciona.

18 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


sonhos. Assim sendo,
se condicionada a
associar tal ação com
a questão de estar ou
não dormindo, ela
poderá surpreender a
si própria tornando-
-se então consciente
O segundo passo no meio de um sonho. Mas também é pos-
sível desenvolver um hábito novo, associado
É desejar muito ter a experiência do sonho à mesma pergunta. Por exemplo: olhar as
lúcido, afirmando, sempre no tempo presen- próprias mãos, várias vezes por dia, questio-
te: “Quando sonho, descubro que estou so- nando se aquilo que está vendo é realidade
nhando e então controlo o meu sonho”. Isto ou é um sonho; em cada repetição deste ato,
pode ser feito ao longo do dia, mas torna-se repetir para si mesmo, mentalmente: “Vejo
mais efetivo se repetido à noite, antes de minhas mãos em sonhos, e então fico cons-
adormecer. ciente de estar sonhando”. Outro exemplo
– sempre a ser repetido ao longo do dia, por
O terceiro passo várias semanas – é, ao chegar a determina-
do lugar, perguntar-se: “Como cheguei até
Desenvolver o hábito de realizar os chama- aqui?”. Se conseguir determinar o caminho
dos “testes de realidade”. Isto é feito ao longo que fez, significa que está acordado. Final-
do dia, associado a uma ação comum e habi- mente, é muito efetivo também desenvolver
tual, como, por exemplo, olhar o relógio ou o o hábito de analisar inconsistências nos fatos
celular. Assim, em cada uma dessas ocasiões, observados ao longo do dia, pois, nos so-
podemos também nos perguntar: “Neste nhos, objetos mudam de posição e forma, e
momento, estou acordado ou estou sonhan- até mesmo pessoas já falecidas se apresentam
do?”. O fato é que, inconscientemente, re- como ainda vivas. Se for possível notar uma
petimos ações da vigília no mundo onírico. inconsistência, podemos no mesmo momen-
Uma pessoa que age de certa forma várias to perceber que aquilo não é uma atualidade,
vezes durante o dia vai fazê-lo, também, em mas pertence ao mundo mental.

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


19
n COMPORTAMENTO

O que fazer então? Vantagens


Uma vez tendo se tornado consciente de que Mais e mais pesquisas científicas têm sido
está sonhando, há uma atitude necessária de conduzidas para descobrir se há bene-
imediato: tentar permanecer nesse estado fícios em se manter o hábito de sonhar
(chamado pela ciência de “liminar”, ou seja, na lucidamente. O primeiro fato positivo que
fronteira entre a consciência e a inconsciência, tem sido constatado é que um autoconhe-
e onde se manifestam muitos fenômenos psí- cimento maior ocorre imediatamente,
quicos). Isto é obtido pelo controle emocional uma vez que se testa e comprova o quanto
– tentando não se alterar muito – e pode ser a mente pode se expandir além do tempo
ajudado se, no sonho, olharmos para as nossas e do espaço. Talvez por causa disto, um
mãos ou rodopiarmos um pouco, girando o dos efeitos dos sonhos lúcidos é tornar a
nosso chamado “corpo de sonho” algumas pessoa mais segura e assertiva no mundo
vezes. Adquirida tal estabilidade – muitas ve- real, aprendendo a focar melhor nos seus
zes conquistada aos poucos, ao longo de várias interesses e ideais. Mas os benefícios não
tentativas onde acabamos acordando, frustra- param por aí; há o caso de profissionais
dos – o estágio final é reconhecermos: “Se isto que conseguem “ensaiar” o que farão no
é um sonho, posso dirigi-lo, à minha vontade”. dia seguinte através de um sonho lúcido,
E então determinar o que deseja fazer: voar, melhorando assim o seu desempenho; e,
visitar algum lugar conhecido ou desconhe- finalmente, é uma excelente maneira de
cido, ver determinada pessoa ou até mesmo superar medos e fobias, pois ao encarar
namorar. Tudo o que ocorrer não se passará tais problemas no mundo onírico você
no mundo real (como acontece na chamada sabe que não são “reais”; assim eles per-
“Projeção Psíquica” ou “Viagem Astral”), mas dem o poder sobre sua vida quando em
sim no domínio mental, onde limitações de vigília. Estudos realizados com sonhado-
espaço e tempo não existem. res lúcidos (ou “onironautas”) compro-
vam que eles vivem de forma mais segura,
Quando não funciona serena, e melhoram inclusive a memória.

O medo é um grande inibidor dos fenômenos


psíquicos, mas pode ser trabalhado e supe- Quantas vezes?
rado. A nossa consciência também funciona Estatísticas mostram que dois sonhos
como “guardiã”, e, se não estivermos prontos lúcidos por mês já produzem resultados
para alguma experiência, não permitirá que muito positivos na vida da pessoa. É
ela ocorra. A preparação se dá através de um bom número para começar, e pode-
adotarmos uma vida interior mais rica, pres- -se, com o passar do tempo, aumentá-lo
tando mais atenção aos nossos pensamentos, – à medida que se esteja mais prepa-
sentimentos, emoções, ao invés de focarmos rado para isto – sempre rumo ao que
demais no social, no exterior. Nesse sentido, a os monges do Tibete chamam de “a
afiliação Rosacruz é uma excelente ferramenta. maestria da lucidez permanente”. 4
Finalmente, uma última pergunta que
pode lhe ocorrer é: “O que se ganha quando
* Luís Fábio Miranda é engenheiro, escritor no idioma inglês,
temos sonhos lúcidos? Há alguma utilidade Membro da Ordem Rosacruz desde 1964. Palestrante da
prática na vida diária?”. AMORC desde 1977.

20 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


n POESIA

(trecho XIII)
“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…
E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora! “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.” 4

Por OLAVO BILAC

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


21
n ESPECIAL

I Congresso
Internacional da URCI
Universidade Rose-Croix Internacional
Por EMANUELLE SPACK – Assessora de imprensa da GLP

URCI realizou seu I Congresso Internacional com resultado positivo.

Pesquisadores que participaram do evento levantaram questões importantes


para o desenvolvimento de uma consciência mais humanista.

22 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


C
onsolidando a vertente científica respectivas jurisdições. “Um trio de peso que
do rosacrucianismo e oferecendo se somou aos palestrantes nacionais, pro-
a todos assuntos de vanguarda, o vando que o Rosacrucianismo traz para as
campus metropolitano da Univer- pessoas temas da ciência também”, diz Hélio.
sidade Rose-Croix Internacional (URCI), Os congressos da URCI são sempre rea-
em Curitiba, realizou entre os dias 16 e lizados com um viés transdisciplinar, permi-
18 de setembro de 2016 o seu I Congresso tindo o diálogo entre os vários saberes, como
Internacional. O tema central trabalhado a ciência e a espiritualidade. Para a soror
foi Espiritualidade, Humanismo e Ecolo- Beatriz Philippi, que fez parte da equipe or-
gia – uma abordagem transdisciplinar. O ganizadora do congresso, “o tema deste ano
evento reuniu pesquisadores rosacruzes e proporcionou aos conferencistas trabalharem
acadêmicos em geral, que trouxeram aos contextos bem diversificados e em linha com
congressistas conhecimentos especiais resul- os últimos Manifestos da AMORC, especi-
tantes de pesquisas científicas sobre o tema ficamente o Appellatio Fraternitatis Rosae
do congresso. Para o Reitor da URCI, frater Crucis, publicado em 2014, que aborda jus-
Hélio de Moraes e Marques, esta foi uma tamente o tripé que foi tema do Congresso –
grande oportunidade de enriquecimento Humanismo, Ecologia e Espiritualidade”.
pessoal para aqueles que estiveram presentes. A conferência que abriu o Congresso foi a
“Esse congresso começou a ser desenvolvi- do pesquisador francês Jean-Guy Riant, PhD
do há dois anos e meio, aproximadamente, – pesquisador da URCI de língua francesa
com o sucesso que tivemos em 2014 com o –, que apresentou a palestra “Do animal ao
II Congresso Nacional da URCI. Este ano ser humano”. Para ele, a escolha desse tema
demos sequência com um desafio maior: objetivou despertar a sensibilidade quanto
trazer palestrantes das URCIs de outras à questão animal. “Pareceu-me um tema
jurisdições”. Três acadêmicos que desenvol- interessante para este Congresso justamente
vem importantes pesquisas científicas foram porque este primeiro Congresso Interna-
indicados pelos Grandes Mestres de suas cional da URCI tem uma abordagem trans-

Palestra “Do animal


Jean-Guy
ao ser humano”
Riant

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


23
n ESPECIAL

Mesa de Ben
debate. Ogunkua

disciplinar. Trazer essa questão do animal fora da organização”, explica frater Alfredo,
e da relação filosófica que podemos ter com que ficou bem impressionado com a quanti-
ele e o modo como os animais contribuíram dade de perguntas feitas sobre essa conferên-
justamente para a edificação da identidade cia. Para ele, “o tema central do congresso é
humana me pareceu interessante nessa abor- atual, essa vinculação entre espiritualidade,
dagem”, conta Jean-Guy. humanismo e ecologia vai ao encontro das
Frater Luiz Eduardo Valiengo Berni, grandes questões da sociedade humana
PhD, falou sobre Os manifestos rosacruzes contemporânea. Pela reação que estamos
da AMORC e as convergências com a Carta vendo nos participantes, conclui-se que
da Transdisciplinaridade: uma perspectiva esta foi uma iniciativa muito importante”.
social e de direitos humanos. Para ele, esse O nigeriano Ben Ogunkua, PhD, médi-
tema é fundamental para todos os cidadãos, co – pesquisador da URCI de língua inglesa
e os manifestos rosacruzes trazem isso com para as Américas –, empolgou a plateia ao
muita clareza. “Do ponto de vista da URCI, é falar sobre O DNA, sua influência no destino
fundamental que o pesquisador possa enten- do homem e sua relação com as antigas tra-
der a dimensão que os manifestos têm nesse dições: a Cabala, o Tarô e a Árvore da Vida
âmbito social. Eles são importantes para o – uma abordagem científica e antropológica.
pensar social”, diz Luiz Eduardo. “Eu sempre me interessei em como esses dois
Frater Alfredo dos Santos Junior, m.e., tipos diferentes de instituição, a ciência ele-
argumentou sobre o tema abordado pelo mentar e os Mistérios, se relacionam, e como
frater Luiz Eduardo Valiengo Berni e avaliou a verdade que existe em ambas complementa
positivamente todos os trabalhos apresenta- uma a outra. Esta é a razão pela qual eu decidi
dos. “Frater Berni tem a condição de apre- escolher esse tópico em especial”, conta Ben.
sentar seus trabalhos de uma maneira muito Outros pesquisadores da URCI também
didática, muito clara. Ele apresentou uma contribuíram muito com suas conferências.
síntese muito clara e soube correlacionar os Julio Cesar Mendonça Gralha abordou o
assuntos dos manifestos com outros campos tema Antiguidade, História e esoterismo:

24 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


os usos do passado e no-
vas abordagens teórico-
-metodológicas. O italiano
Giuseppe Carollo, PhD
– pesquisador da URCI de
língua italiana –, discorreu
sobre O jardim da Renas-
cença e o humanismo do
século XXI. A soror Lúcia
Siqueira Campos, PhD,
emocionou o público pa-
lestrando sobre A Terra O Grande Mestre, frater Hélio de
e seus mistérios numa Moraes e Marques e os convidados
italianos, Giuseppe Carollo e
perspectiva ecológica: re- Claudio Mazzucco.
levância do ser humano,
conhecer sua morada, seus
irmãos planetários e suas
interações para manter a
saúde. Para fechar o Con-
gresso, o frater Fábio Men-
dia, PhD, fez o público re-
fletir sobre O Rosacrucia-
nismo e as espiritualidades
de vida contemporâneas.
Durante o evento fo-
ram realizados os minicur- Minicurso “Física
sos Física quântica e espi- quântica e
espiritualidade”.
ritualidade e dos Templá-
rios ao Rosacrucianismo.
O orientador educacional,
frater Rodrigo Marinho,
de Recife, participou do
evento e ficou muito feliz
com o resultado. “Para
mim foi uma honra par-
ticipar deste Congresso
histórico, já que se percebe
a maturidade que a URCI
conseguiu alcançar em
nossa jurisdição, propor-
cionando conferências
com diversos temas com-
plexos”, comenta Rodrigo, Minicurso “Dos
templários ao
salientando que a URCI se Rosacrucianismo”.

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


25
n ESPECIAL

as três dimensões do tema do Congresso


e o conhecimento sobre tão relevantes as-
suntos abre espaço para o debate sadio e
contribui para a reflexão e ações práticas
em prol de um mundo melhor, mais pacífi-
co e sustentável que queremos deixar para
as futuras gerações, e compartilho as cita-
ções do livro Deus na religião, na ciência,
na ecologia, na música, nas tradições, na
psicologia, na filosofia1, obra coletiva es-
crita por pesquisadores da URCI Francesa
que reforçam as ideias centrais da obra:

Porque na verdade, a ciência se prende


Lançamento do livro
“Espiritualidade, ao “como” das coisas, como existem,
Humanismo e Ecologia”. como são. Ela observa os fenômenos, os
descreve, tenta extrair os princípios e, a
partir deles, estipular leis. E estas leis não
consolida como algo muito importante den- poderão ser reconhecidas como tal se não
tro do Rosacrucianismo. puderem ser verificadas pela experimen-
Destacamos também a excelente quali- tação, os fenômenos passando, então, a
dade da exposição de pôsteres que trouxe ao ser reproduzíveis.
conhecimento do público presente as pesqui- A espiritualidade, por sua vez, se
sas que estão sendo desenvolvidas pelos in- interessa pelo aspecto existencial da vida,
tegrantes da URCI. Foram 15 pesquisadores aqui embaixo e lá no alto, no além: nossa
que contribuíram com seus trabalhos para razão de ser na encarnação; a hipotética
abrilhantar o evento. sobrevida do ser, qualquer que seja sua
O Congresso passou, mas todo o conhe- modalidade, depois da morte; a existência
cimento que ali foi exposto poderá ser pro- e a natureza de Deus, qualquer que seja o
porcionado em forma de leitura, pois aqueles nome que se lhe dê e a natureza de nossas
que não puderam prestigiar o evento podem relações com Ele. Em uma palavra, o
agora adquirir o livro Espiritualidade, Huma- “porquê” das coisas, num sentido bem
nismo e Ecologia: uma abordagem transdisci- amplo (artigo Deus e a Ciência, por
plinar, que foi lançado durante o Congresso Bernard VAILLAN).
e constitui o 7º volume da série O Homem
Alfa e Ômega da Criação. O livro apresenta Foi uma oportunidade de demons-
em forma de artigos todas as conferências trar para os rosacruzes e a sociedade de
apresentadas no Congresso, e alguns outros modo geral que a Ordem está acompa-
relacionados ao tema e selecionados para a nhando os grandes temas mundiais e
edição do livro. tem desenvolvido ações para aplicá-las
Para o Reitor da URCI o livro é muito visando um futuro melhor, diz Hélio. 4
importante para deixar registrado todo o
trabalho desenvolvido no Congresso. “A Nota: 1. Obra coletiva da Diffusion Rosicrucienne, tradução
Raul Passos e Lucia Helena Borges Figueiral, publicada pela
perspectiva como seres humanos perpassa AMORC GLP.

26 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


n AMORC NO MUNDO

Reunião anual da Suprema Grande Loja


Como acontece todos os anos, os dirigentes da AMORC se reuniram em Lachute, Québec,
no Canadá, de 03 a 06 de outubro de 2016. Nessa reunião são tomadas importantes decisões
sobre o destino da AMORC, bem como são feitos os planejamentos, sempre sob a orienta-
ção do Imperator, Frater Christian Bernard. A maioria dos dignitários esteve presente.

Na foto podemos observar, da esquerda para a direita (em pé):


Frater Michal Eben – Grande Mestre de Línguas Tcheca e Eslovaca
Frater Kenneth Idiodi – Grande Administrador para a Nigéria
Frater Claudio Mazzucco – Grande Mestre de Língua Italiana
Frater Atsushi Honjo – Grande Mestre de Língua Japonesa
Frater Serge Toussaint – Grande Mestre de Língua Francesa
Frater Hugo Casas Irigoyen – Grande Mestre de Língua Espanhola para Europa, África e Australásia
Frater Christian Bernard – Imperator da AMORC
Michiel Schillhorn Van Veen – Grande Mestre para a Jurisdição de Língua Holandesa
Frater Hélio de Moraes e Marques – Grande Mestre para a Jurisdição de Língua Portuguesa
Frater Maximilian Neff – Grande Mestre de Língua Alemã e Diretor-Tesoureiro da Suprema Grande Loja
Soror Julie Scott – Grande Mestre de Língua Inglesa para as Américas

Da esquerda para a direita (agachados):


Frater José Botello – Grande Mestre para a Jurisdição de Língua Hispana para as Américas
Soror Live Söderlund – Grande Mestre para as Línguas Escandinavas
Frater Sven Johansson – Grande Mestre de Língua Inglesa para Europa e África
© AMORC

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


27
n AMORC NO MUNDO

Novos
Grandes Mestres
MICHIEL SCHILLHORN VAN VEEN
Grande Mestre da Jurisdição de Língua Holandesa
Frater Michiel Schillhorn van Veen nasceu em Haia no dia 8 de setembro de 1960. Com autorização
especial do Grande Mestre Eduard van Drenthem Soesman, em 1976, Michiel, então com 15
anos de idade, tornou-se membro
da Ordem Rosacruz, AMORC.

Serviu à Ordem como Oficial em


muitas funções, dentre as quais
Mestre da Loja Isis, em Haia, Monitor
Regional e Grande Conselheiro.
É igualmente ativo na Tradicional
Ordem Martinista, na qual serviu
como Mestre da Heptada Clementius,
também em Haia, Mestre fundador do
Atrium Saint Michael, em Bruxelas,
e Mestre Provincial para a Holanda
e a Bélgica. Desde 2001, Michiel
tem trabalhado meio período na
Grande Loja Holandesa, em Haia.

Na vida cotidiana, frater Michiel é


psicólogo infantil atuando em Leiden,
onde vive com sua namorada e
quatro gatos. Suas atividades favoritas
são mergulho, ciclismo e escrever
romances fantásticos. Em 2016 ele
publicou seu segundo romance.

28 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


JOSÉ BOTELLO
Grande Mestre da Jurisdição de Língua
Hispana para as Américas
José Botello é casado, pai de duas adoráveis meninas e avô de dois maravilhosos netos.
Cidadão dos Estados Unidos, nasceu em 5 de outubro de 1953 no Panamá.

Afiliou-se à AMORC em fevereiro de 1972, sendo, portanto, membro há 44 anos. Serviu como
Mestre de Pronaos, de Loja e da
Classe dos Artesãos, mas também
como Grande Conselheiro e Mestre
Provincial da Tradicional Ordem
Martinista. Orador Oficial da juris-
dição hispana há 8 anos, é também
membro do Conselho de Adminis-
tração da Grande Loja há 3 anos.

Profissionalmente, frater José Botello


é especialista contábil e consultor
fiscal registrado nos Estados Unidos.
Representante dos contribuintes jun-
to ao fisco norte-americano desde
1991, frater José Botello é membro do
Conselho de Administração da Socie-
dade dos Contadores da Flórida. Ele
é também porta-voz da Associação
Nacional dos Contadores e da Asso-
ciação da Flórida dos Representantes
junto ao fisco. Além disso, há 26 anos é
Diretor-Presidente Geral de uma em-
presa de contabilidade, de fiscalização
e de auditoria em Miami, na Flórida.

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


29
n TRADIÇÃO

Por edgard wirt, PhD, FRC

O
conceito hindu de carma tem “caiu em sua própria armadilha”. E também:
alguns equivalentes no pensa- “quem com ferro fere, com ferro será ferido”.
mento ocidental, mas é com fre­ Nosso senso de conveniência é satisfeito
quência erroneamente equipara- sempre que “o crime encontra o seu castigo”.
do a outras ideias do Ocidente que não refle- Estes são exemplos de justiça poética, em
tem seu verdadeiro e universal significado. que o mal ou a virtude são recompensados
O carma é às vezes confundido com jus- num modo que parece ironicamente apro-
tiça poética. Costuma-se dizer, por exemplo, priado. Mas esta não é a essência do carma.
quando uma trama de alguém sai pela cula- Em alguns aspectos, o carma funciona como
tra e a própria pessoa é preju­dicada, que ela uma re­tribuição, mas nunca é irônico.

30 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


Identificar o carma com retribuição é
também inadequado e enganoso, porque Carma como
ele implica mais do que isto. Retribuição
é, principalmente, “pagamento na mesma Compensação
moeda”, de modo que a situação se equi- O carma é também chamado de lei de com-
libre - olho por olho, medida por medida. pensação, que implica mais do que retribuição
Segundo esta limitada concepção, o carma para equilibrar a situação. Sugere também
nos coloca na posição de sofrer o mal que expiação, pela qual compensamos os outros
fizemos a outrem – o inverso da Regra de por males que lhes fizemos – mas não, in-
Ouro, ou seja, de “fazermos aos outros versamente, por males que nos tenham feito.
aquilo que gostaríamos que nos fizessem”. Todavia, nem o carma nem a compensação se
Por exemplo, um indivíduo que escar­ restringem aos efeitos de más ações. A mesma
necesse de um outro, porque este apresen- ideia pode ser invertida, no sentido de com-
tasse alguma deficiência, teria, no futuro pensarmos os outros por boas ações que nos
ou numa vida posterior, uma deficiência tenham feito – mas sem exigirmos recompen-
– não necessariamente a mesma, porém, sa pelas boas coisas que tenhamos feito.
equiva­lente – que o viria expor igualmente Isto constitui comportamento unila­teral,
a escárnio ou ridículo. A finalidade, po- bem diferente de retribuição ou de justiça
rém, é de ensinar ao escarnecedor uma poética. Corresponde à máxima bíblica:
lição de caridade e compaixão que ele “amai os vossos inimigos; fazei o bem aos
precisa apren­der, e não apenas de equi- que vos odeiam”. Não se trata de pagar o bem
librar as coisas por questão de justiça. com o bem e o mal com o mal. Num sentido
Uma pessoa que pensa no carma como esotérico (destinado à iniciados), compen­
simples retribuição pode sofrer muita difi- sação significa colher o bem do bem, e igual-
culdade que, inclusive, poderia amenizar, mente do mal. Este é também um aspecto
porque decidiu que alguma coisa constitui importante do carma, que pode se tornar
seu carma, como retribuição por algo que mais claro considerando-se outros aspectos
deve ter feito numa vida anterior, e que não do funcionamento da compensação.
há como escapar, que nada pode fazer, exceto Ralph Waldo Emerson, em seu tratado so-
curvar-se a esse carma. Isto, então, torna-se o bre Compensação, introduziu este assunto em
seu pretexto, a sua desculpa; essa pessoa faz termos de polaridade inexorável. “Se induzi-
do carma o seu bode expiatório, não apenas mos forte magnetismo num extremo de uma
para os seus infortúnios, mas também para agulha, o magnetismo oposto se manifesta no
o seu próprio fracasso em fazer alguma coi- outro extremo. Se o sul atrai, o norte repele.
sa construtiva a respeito dos mesmos. Nem Para esvaziar aqui, temos de condensar ali”.
todos os seus infortúnios podem ser atri- Nas atividades humanas, em ação como
buídos ao carma. Os altos e baixos da vida em reação, há também uma polaridade ou
não são todos predetermi­nados, mas todos um efeito de equilíbrio, que não provém de
constituem situações de aprendizagem. A influências externas, mas é inerente à própria
maneira como a pessoa enfrente esses altos e ação. “Mesmo que não se mani­festem repres-
baixos – ou não os enfrenta e simplesmente sões a um novo mal, essas repressões existem
se entrega – produz mais carma, que se ma- e se manifestarão. Se um governo é cruel, a
nifesta agora e no futuro. Conforme ela luta vida do governante não é segura. Se os im-
hoje, é estabelecido o padrão para amanhã. postos forem pesados demais, não haverá

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


31
n TRADIÇÃO


Não o que fazemos a outrem, e sim o
que fazemos a nós mesmos, compõe o fardo
principal do nosso próprio carma.
receita pública. Se a legislação criminal for

teia cármica que tecemos em torno de nós
sanguinária, os jurados não condenarão. Se a mesmos – para o nosso bem ou o nosso mal.
lei é por demais branda, a vingança particular Toda grande religião proclama seus funda-
é prati­cada… A retribuição… é inseparável mentos morais, e toda cultura destilou seus
da­quilo que é retribuído, mas às vezes está sábios provérbios, destinados a maximizar
distribuída num longo período e, assim, não o bem duradouro. Do budismo, por exem-
se torna evidente senão após muitos anos”. plo, vem a ampla prescrição quanto ao reto
A mesma polaridade inerente, disse Emer- pensar, etc. As religiões ocidentais tende-
son, manifesta-se em vidas particulares”… certa ram a expressar isto mais especificamente:
compensação equilibra cada dom e cada defei- “Bem-aventurados os humildes”, e, “Não
to. Para cada coisa que perdemos, ganhamos furtarás”. Algumas promoveram a ideia
uma outra coisa; e para cada coisa que ganha- de culpa como motivação para mudança.
mos, perdemos alguma coi­sa… Assim como Entretanto, o carma não é um policial
nenhum homem teve um motivo de orgulho nem um juiz, nem o executor de tais siste­
que não lhe fosse prejudi­cial, nenhum homem mas, embora se possa dizer que a intui-
teve um defeito que em algum momento não se ção da operação do carma está na raiz de
lhe tornasse útil… Todo homem, no curso de todos esses sistemas. Carma é, antes, o
sua vida, deve agradecer suas imperfeições …”. mecanismo de causa e efeito, em sua mais
Esta é, também, a história natural da ca- universal aplicação. Assim como Emerson
lamidade. As mudanças que frequentemente falou de “uma natureza cuja lei é evolução”,
interrompem a prosperidade dos homens são o carma poderia ser chamado de meca-
avisos de uma natureza cuja lei é evolução. nismo dessa lei de evolução espiritual.
Toda alma, por esta necessidade intrínseca,
deve deixar todo o seu conjunto de bens, seus
amigos, seu lar, suas leis e sua fé, assim como Estorvos à Evolução
o molusco abandona sua bela, mas petrifica- Não o que fazemos a outrem, e sim o que
da concha, porque ela não mais permite o seu fazemos a nós mesmos, compõe o fardo prin-
crescimento, e constrói uma nova casa”. cipal do nosso próprio carma. Nisto estão
Estes exemplos de Emerson devem aju- incluídos os efeitos, sobre nós mesmos, do
dar a dissipar a ideia de que o carma está que fazemos a outrem. Mas também algumas
associado estritamente ao que é certo ou outras coisas que fazemos, mesmo em boa-
errado, bom ou mau. Mais precisamente, -fé, limitam nossa possibilidade de escolha e
trata-se de um princípio de causa e efeito, estorvam nossa evolução espiritual. Se uma
dentro do qual podemos maximizar os efei- pessoa venda seus próprios olhos, tateia e
tos que consideramos bons. Haveremos de tropeça. Pode tê-lo feito por crer que fosse
perceber, contudo, que aquilo que temos correto ou obrigatório, pode então atribuir
em conta de bom, ou de mau, é parte da sua desvantagem ao destino, ou ao carma, ou

32 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


a um Deus injusto. Mas a ela mesma se deve outras reações ou consequências; de que as
a sua cegueira. Analogamente, se essa pessoa coisas existem independentemente umas das
negligencia algum aspecto essencial do mun- outras no universo, sem qualquer interliga-
do em que vive, sua resultante ignorância e ção. Neste particular, disse ainda Emerson:
sua privação a ela mesma se devem. Isto está
resumido no provérbio: “Se alguém se põe na “A verdadeira doutrina da onipresença
sombra, pode invocar o Sol?”. consiste em que Deus reaparece com todas
Concentramos esforços para reduzir al- as suas partes em cada musgo e teia de ara-
guns estorvos externos à evolução, como nha. A excelência do universo se projeta
ao promovermos liberdade política e opor­ em todos os pontos… Isso que chamamos
tunidade para educação e progresso. Os mais de retri­buição é a necessidade universal
insidiosos obstáculos, porém, são de nossa pela qual o todo aparece onde quer que
própria lavra, e muitas vezes não os reconhe­ uma parte apareça”.
cemos. Sem o percebermos, podemos fechar a
porta a algum aspecto de nossa própria liber-
dade e abrir a porta a que nós mesmos seja- A Origem
mos explorados. Por exemplo, o indiví­duo que A grande dificuldade (e provavelmente o que a
engana a outros não tem expediente adequado princípio se quis dizer com “pecado original”)
quando é enganado. Aquele que quer que os é o nosso fracasso em reconhecer esse todo,
outros creiam em suas mentiras está mais in- essa fonte onipresente de toda vida, energia
clinado a acreditar nas mentiras que ouve. e inteligência. Muito se enfatiza este conceito
A escravização, que pareceu certa e respei- na literatura ocidental. Disse São João: “O
tável em diferentes lugares e épocas, restringe, Verbo… estava no mundo, e o mundo foi feito
não somente os escravos, mas, também os por ele, e o mundo não o conheceu”. E um
seus senhores. Se um indivíduo aceita a ideia discípulo de Mary Baleer Eddy: “Pecado, isto
de que um outro pode ser escravizado, se é, erro, é uma negação da plenitude de Deus,
acha que uma pessoa tem direito de mandar e qualquer negação deste gênero é pecado,
em outra, então, deve aceitar o inverso – isto quer o reconheçamos como tal ou não”. Se um
é, que um outro indivíduo tenha o direito de indivíduo não tem consciência dessa fonte
mandar nele. Escreveu Emerson: “Se pomos onipresente, ou para ela volta as costas, fecha a
uma corrente no pescoço de um escravo, a porta ao poder primordial para evolução, des-
outra extremi­dade se prende no nosso pró- coberta e com­preensão. Ele tem então de lidar
prio pescoço”. E Abraham Lincoln: “Este é um com o mundo, suas pessoas, circunstâncias e
mundo de compensação; e quem não quer ser seus problemas, como partes independentes.
escravo não deve consentir em ter escravos”. Mas nem tudo está perdido. O despre­
Estas são operações elementares e cotidia- zarmos essa fonte universal, essa energia mo-
nas do carma, que acontecem todo o tempo, triz, não nos libera de seu domínio. Nem nos
não somente nos grandes momentos e gran- isola dessa própria fonte ou de seus benefícios
des atos, mas, em todos os instantes de nossa básicos. O fato de estarmos vivos e podermos
vida diária. Daí foi extraída a Regra de Prata: realizar coisas – aparentemente por nós mes-
“Não façamos aos outros aquilo que a nós mos – é uma expansão ou um dom dessa fonte.
mesmos seja odioso”. Inclusive a própria inte­ligência com que pode-
O erro generalizado está na suposição de mos, se preferimos, repudiar a fonte e negar a
que qualquer ato pode ser isolado e não ter operação e a eficácia de suas leis. Mas, então,

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


33
n TRADIÇÃO

considera­mos nossa capacidade de realização Medidas parciais são às vezes propostas,


como nosso particular talento inato, e não um como a ênfase sobre o aspecto positivo das situ-
dom ou uma participação em algo superior. ações, ou seja, em esperarmos algum bem em
Com efeito, graças a seus poderes de obser- todo mal. Isto não dissipa as nuvens escuras, os
vação e engenhosidade, por Deus outorgados, o males atuais, porém, põem em jogo o princípio
homem aprendeu a arranjar e controlar coisas de compensação a ponto de buscarmos algum
tecnicamente, para seu maior proveito, sem que benefício paralelo. Mais construtivas são as oca-
tivesse de reconhe­cer ou consultar sua fonte siões em que enca­ramos um infortúnio passado
espiritual a qualquer nível mais alto do que o de como uma bênção disfarçada, e não apenas
sua própria tecnologia. Esses esquemas, porém, como um evento com algum benefício paralelo.
são desconexos e imperfeitos, e geram alguma Isto pode ser uma bênção no sentido de
retribuição desditosa – por exemplo, nossos nos forçar a nos tornarmos emancipados de
atuais problemas ecológicos e outros perigos qualquer padrão de comportamento que te-
desencadeados pelo homem, etc. Persistindo nha restringido a nossa evolução e que deve-
em atacar esses problemas separadamente, ten- ríamos ter superado (e a maioria dos padrões
tamos um sistema de regulamentos complexos de comportamento de fato restringe a nossa
(como fizeram os hebreus), alguns dos quais evolução). Assim, o bem emana do mal, e
funcionam com propósitos conflitantes. não apenas acompanha o mal.
Haverá um outro caminho? A mensagem Este é o grande princípio construtivo e re-
de todas as religiões e muitas filosofias é de que construtivo do carma. Aquilo que parece car-
a salvação geral depende de que um número ma adverso, que parece opor-se à nossa atual
suficiente de pessoas se tornem emancipadas, felicidade, ao nosso atual bem-estar, na rea-
não do domínio político, mas, do erro ou da lidade está se opondo somente à nossa auto
cegueira básica que gera infindáveis dificulda- escravização, cegueira e preguiça. A preguiça,
des. Para problemas que surgem quando uma um dos pecados capitais, consiste em nada
pessoa entra na sombra, a solução evidente é fazermos quanto aos nossos proble­mas, em
voltar para a luz do Sol. A sombra é recusa, não levantarmos um dedo para providenciar
negação, ou desprezo dos fatos espirituais da a nossa reconstrução. Para nos valermos deste
vida, inclusive quanto às operações do carma. princípio, devemos ter alguma compreensão
da operação do carma, a fim de que, mental
Carma como e emocionalmente, ­possamos virar a situação
pelo avesso, para perceber mais claramente
instrutor como ela aponta para a nossa emancipação.
A solução, como já foi dito, está em vol-
A função do carma é ensinar estes fatos, tarmos completamente para a luz do Sol, en-
não por palavras, e sim através de exemplo. trarmos em cooperação com os fatos da vida
Para dissolvermos as teias de um carma e, especialmente, estabelecermos uma ade-
infeliz, que tenhamos tecido em torno de quada e normal relação com os poderes cós-
nós mesmos, devemos escutar suas adver­ micos ou divinos, com a fonte de todo viver,
tências, que Emerson chamou de “avisos”. fazer, pensar, sentir e lutar. Mas esta solução
Devemos parar de fazer o que quer que simples parece cheia de dificuldades; muito
possa redundar em perda e infortúnio para do que aconteceu no passado ainda paira
nós mesmos, o que quer que nos mantenha sobre ela. Em lugar de sairmos da sombra
em trevas, desorientados e primitivos. para a luz do Sol, queremos fazer o Sol bri-

34 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


lhar sobre nós nas trevas. E po­demos orar e Na sombra, as coisas parecem desco­nexas.
suplicar por este benefício. Parece demais o À luz do sol da regência cósmica, elas se tor-
exigirmos de nós mesmos que renunciemos nam, não apenas relacionadas entre si, mas,
às trevas e ao que quer que nelas nos esteja integradas e novamente unificadas. Então,
mantendo, assim escapando às mesmas. não há distinção entre o que é bom para o
Se de fato voltamos para a luz do Sol, os leitor, para mim, ou para outros. O que quer
males da vida na sombra praticamente de- que ameace ou afete negativamente uma
saparecem; isto é, muito carma desfavo­rável parte, afetará tudo o mais – em con­sonância
parece evaporar. Qualquer restrito padrão de com a doutrina de Emerson, da onipresença,
comportamento a que nos apegá­vamos como da “necessidade universal pela qual o todo
bom ou desejável era, em si mesmo, parte de aparece onde quer que uma parte apareça”.
nossa própria teia cármica, como um antepa- Estes são alguns corolários, ou rami­ficações,
ro restringindo o nosso horizonte; sair desta do princípio do carma. Em outras palavras, são
situação é ser liberado e absolvido de sua princípios de religião mística, da qual o carma
restrição. Isto se relaciona com os conceitos é uma expressão. Resumin­do então o carma:
teológicos ocidentais de remissão e graça. trata-se da lei – da amorosa lei – de evolução,
Entretanto, em termos ocidentais, al­guma que ensina pelo exemplo, que constantemente
retribuição específica talvez tenha de ser ainda incita o homem a se emancipar, se integrar, e
enfrentada. O que fizemos por ignorância e erro entrar em harmonia com o universo e o seu
pode ter prejudicado a outrem. O renunciarmos seme­lhante. Para desfrutar de seus benefícios,
às raízes dessa ação nem sempre nos liberta das devemos aprender a escutar suas mudas adver-
consequências da mesma – não até tentarmos tências. Qualquer coisa que a ele se oponha há
de algum modo expiá-las. Muitas vezes não é de evocar as reações compensatórias que são
possível en­contrarmos e compensarmos as pes- popularmente associadas ao carma, mas que são
soas que prejudicamos. Na concepção hindu do popularmente entendidas como penalidades, em
carma, a alternativa é um esforço ainda maior lugar de pro­veitosos sinais de advertência. 4
para adquirir mérito, ou seja, para fazer com-
pensação beneficiando a outros. Embora isto * Publicado originalmente em "O Rosacruz", edição XXIII nº 2,
não compense diretamente o malefício original, de 1980.
constitui compensação
indireta (devido à unidade
imanente de todas as coi-
sas), e também nos facilita
lidar com qualquer legítima
retribuição, se e quando te-
mos de enfrentá-la. Embo-
ra essa compen­sação possa
ser entendida como um
equilibrar das coisas, até
certo ponto, sua finalidade
é, ao invés disto, completar
a nossa pró­pria emancipa-
ção – que é uma questão de Concepção egípcia do carma: o coração da princesa é pesado em
interesse pessoal. relação a Maat, o pai da verdade, na presença de Osíris.

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


35
n NATUREZA

Por SERGE TOUSSAINT, FRC – Grande Mestre da Jurisdição de Língua Francesa

36 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


É “
um fato que a natureza é bela e
que ela constitui um patrimônio … a espécie
universal que os seres humanos
devem abso­lutamente preservar.
humana é a única
Nisto a ecologia é parte integrante do mis-
ticismo, pois não se pode interessar pelos
que se mostra
mistérios da Criação sem se preocupar cruel e que destrói


com a própria Terra, pelo menos pelo fato
que ela serve de âmbito para a evolução a si mesma.
da humanidade e se inscreve num Plano
Divino. Como escreveu François Jollivet-
-Castellot, célebre rosacruz do século XX: que deles se nutrem. Aliás, é isto que faz
“A natureza pode ser comparada ao corpo dizer-se comumente que o mundo animal
do Ser imenso que chamamos de Deus e não tem piedade e que ele é regido pela
que concebemos como Infinito e Eterno. lei do mais forte. Isto posto, diante dessa
Ela realiza então o Pensamento Divino, aparente crueza, cabe explicar a ternura e
assim como nosso próprio corpo é o ins- o amor que muitos animais demonstram
trumento mais ou menos dócil da nossa para com indivíduos da sua própria espé-
vontade. Podemos dizer que Deus trabalha cie, principalmente para com seus filho-
na natureza e fala por ela, pois a natureza tes. Além disso, quando um animal mata
é Seu Grande Livro”. Do ponto de vista outro, é quase sempre para se nutrir ou
rosacruz, a natureza é a expressão das leis se defender, e não com o objetivo delibe-
que a Inteligência Divina utiliza a servi- rado de fazê-lo deixar de existir ou de lhe
ço da Evolução Cósmica tal como ela se infligir sofrimentos. Todo mundo deveria
manifesta na Terra. Os próprios animais, então convir que a palavra “crueldade” não
por sua vez, são veículos dessa Inteligên- pode ser aplicada à natureza. De fato, a
cia e agem sob a sua impulsão. É isto que espécie humana é a única que se mostra
explica porque eles manifestam tanta ha- cruel e que destrói a si mesma, no sentido
bilidade na sua maneira de encontrar sua
alimentação, de cuidar dos seus filhos, de
construir suas covas ou seus ninhos, de se
defender contra os predadores etc.
Se nós admitirmos que a natureza é a
expressão das leis divinas e também que
estas leis são fundamentalmente constru-
tivas, podemos efetivamente ficar perple-
xos ao imaginarmos o sofrimento da zebra
que é devorada por um leão, da foca que
é despedaçada por uma orca, da rã que é
engolida por uma serpente etc. À primei-
ra vista, é verdade que a natureza parece
cruel, pois a sobrevivência da maioria dos
animais requer a morte de outros animais,
geralmente mais fracos do que aqueles

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


37
n NATUREZA

de que os seres humanos são capazes de fa- sua agonia é geralmente muito breve. Você
zer voluntariamente seus congêneres sofrer vai notar, aliás, que o ser humano se benefi-
e de sentir prazer em vê-los morrer. Assim cia desse processo no caso de dor violenta, a
é porque eles são dotados de livre-arbítrio e ponto de não senti-la no momento em que ela
podem então agir em oposição às leis divinas, ocorre. Persiste, no entanto, o fato que sempre
a ponto de fazerem mal e ferirem. nos entristecemos com a morte de uma presa,
Se é verdade que a crueldade é própria do principalmente se ela é jovem. Mas devemos
ser humano e não do animal, não é menos nos consolar com a ideia de que o animal,
verdadeiro, retomando um dos exemplos pre- contrariamente ao ser humano, ignora as no-
cedentes, que a zebra sofre no momento de ser ções de tempo e duração, de modo que não
devorada por um leão. Neste particular, é um tem consciência de morrer prematuramente
fato que o sofrimento faz parte, senão das leis e talvez mesmo, em muitos casos, de morrer
naturais, pelo menos do estado natural. Dito (pura e simplesmente). Esta visão das coisas
isto, sinto que esse sofrimento não é o que nós pode parecer “angelical”, mas eu acho since-
imaginamos como seres humanos. Para além ramente que a natureza é regida por leis que
das aparências, penso na realidade que, quan- não são injustas nem cruéis. O simples fato
do um animal é capturado por um predador de a acharmos tão bela não será em si mesmo
na natureza, seu estresse é tal que seu corpo a prova de que o nosso eu interior, para além
segrega endorfinas que neutralizam em gran- das aparências, sabe que ela está certa assim?
de parte a sensação de dor. Pode-se mesmo Seja como for, uma coisa é certa: o ser huma-
pensar que ele morre mais frequentemente no nunca deveria usar de crueldade para com
antes de ter “conscientizado” isto, dado que os animais, pois nada a justifica. 4

38 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


Monografias e
revistas digitais
Esclarecendo
algumas dúvidas

É com satisfação que anunciamos a disponibilização das monografias pela internet e as novas
modalidades de afiliação.
A disponibilização das monografias digitais exigiu que oferecêssemos novas modalidades de afiliação, o
que tem gerado algumas dúvidas. Portanto, esclarecemos que passamos a oferecer as seguintes modalidades:
Modalidade 1 – As monografias e revistas continuarão sendo oferecidas no formato impresso, não
havendo nenhuma alteração na forma de envio para aqueles que preferirem permanecer nesta modalidade.
Modalidade 2 – Nesta modalidade o estudante poderá optar por receber as monografias impressas bem
como acessá-las com as facilidades da tecnologia através da internet.
Modalidade 3 – Formato Digital: recebimento somente pela internet.
Revistas digitais – Independente da modalidade escolhida, todos podem acessar as revistas em seu for-
mato digital (O Rosacruz, AMORC GLP e Revista da OGG) através da Área do Afiliado.
Tendo em vista o compromisso de nossa Ordem com a preservação do meio ambiente e sua adesão ao
Pacto Global da ONU e à iniciativa da Carta da Terra, além da facilidade e do conforto representados
pelo acesso às revistas a qualquer momento e de qualquer dispositivo, recomendo que optem pelas revistas
apenas em formato digital, uma vez que todos os membros cadastrados podem acessá-las. Há ainda a
opção de salvar as revistas digitais em seu acervo pessoal.
Sua escolha de acesso às revistas apenas no formato digital pode ser feita pela Área do Afiliado no
Portal da AMORC ou pelos canais de atendimento da GLP.
Para efetivar sua adesão aos novos formatos de monografias, a solicitação poderá ser feita através do
Portal da AMORC, por telefone ou por e-mail.

Área do Afiliado no Portal da AMORC: https://afiliado.amorc.org.br/


Telefone do Atendimento a Membros: (41) 3351-3000
E-mail: atendimento@amorc.org.br

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


39
n MISTICISMO

O poder
dos olhos
Por Jack Roland Coccins, FRC*

40 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


“R “
aramente desembainhei
minha espada; ganhei mi- As imagens
nhas batalhas com os meus
olhos, não com as minhas
da nossa agitação
armas”. Napoleão, talvez o maior conquista-
dor militar da história, foi quem pronunciou
secreta estão
essas enigmáticas palavras. Josephine de pintadas, de modo
Beauharnais, antes do seu casamento com
o General Bonaparte, escreveu o seguinte: particular, nos
“Seu olhar inquiridor tem algo de singular e
inexplicável que se impõe mesmo aos nossos olhos. Pertencem
Diretores; não é de admirar que tal olhar pos-
sa intimidar uma mulher”. Heinrich Heine,
mais à alma, do
ao observar Napoleão cavalgando vitoriosa- que a qualquer


mente em Dusseldorf, pensou que os olhos
do grande general fossem como deuses das outro órgão.
lendas hindus: firmes, imóveis, sem piscar.
O notável “guerreiro” foi apenas um dos
muitos grandes homens que possuíam olhos doutrina iogue pro­clama que um místico
dominadores. Goethe, o gênio alemão, foi ou consumado iogue pode ser identifi-
outro, tal como o imperador hindu Akbar cado só pela expressão dos seus olhos.
que construiu um grande império usando sua
personalidade magnética, juntamente com a
força militar. Os missionários jesuítas, em seus Revelando o
escritos, comentavam que seus olhos eram
“vibrantes como o mar sob o brilho do sol”. Ser Interior
Também as mulheres, para dominar os Edgar Allan Poe, poeta e historiador ameri-
homens, têm usado o poder do olhar. Diz- cano, costumava usar a frase: “Os olhos são
se que, dessa maneira, Salomé conquistou o as janelas da alma”. Será que qualquer pessoa
rei Herodes, e Cleópatra escravizou Marco revela o seu ser real através dos seus olhos?
Antônio. Personalidades cinematográficas Muitos pensadores profundos acreditam
tais como Greta Garbo e Rodolfo Valentino, que sim. Como exemplo, citamos Buffon, o
através da tela, lançavam olhares dominado- grande historiador natural do século 18, ao
res que mantinham as plateias literalmente concluir que: “As imagens da nossa agitação
enfeitiçadas. Claude Raias, ator famoso por secreta estão pintadas, de modo particular,
suas representações de tipos misteriosos, nos olhos. Pertencem mais à alma, do que a
também faz parte deste rol. Os olhos de Yul qualquer outro órgão; parecem ser afetados
Bryner foram chamados de dominadores. por todos os movimentos daquela, deles par-
Os olhos do russo Rasputin por vezes ticipando. Explicam tais movimentos, em
brilhavam como carvões “incandescen- toda sua pujança, em toda sua pureza, a pon-
tes”. Retratos de personagens bíblicas, to de infundir, nas outras mentes, o fogo, a
muitas vezes revelam olhos com uma ex- atividade, a própria imagem com a qual eles
pressão aguda, fixa, dominadora, talvez próprios se inspiram. Os olhos, de imediato,
pelos pintores colocada intuitivamente. A recebem e refletem a inteligência do pensa-

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


41
n MISTICISMO

mento e o calor da sensibilida-

© ILYA MAUTER
de. São os sentidos da mente,
a língua da compreensão”.
Lord Leverhulme, homem de
negócios extraordinariamente
vitorioso, explicou: “Quando eu
entrevistava candidatos a em-
prego, minha primeira atenção
era dedicada aos olhos”.

Recebendo
e irradiando
Para os anatomistas, o olho é
Brâmane
uma câmara fotográfica. As im- executando o
pressões são criadas por ondas ritual do fogo.

luminosas refletidas de objetos


externos, a seguir focalizadas
sobre a retina e fotografadas por reações à sua vontade. Outros experimentado-
químicas. A energia nervosa transmite as res ainda foram capazes de movimentar
“fotografias”, através do nervo ótico, ao cére- uma agulha de cobre, suspensa num jar-
bro, onde a consciência se encarrega do tra- ro de louça de barro, fechado e imóvel
balho seletivo e interpretativo. Consideram – usando apenas o “olhar magnético”.
os olhos como um órgão passivo, receptivo. Montandon concluiu que “era de fato
Entretanto, experimentos científicos uma realidade a existência de um cam-
apresentam fortes indícios de que os olhos po de vibração magnética dos olhos”.
constituem também um canal para uma for- Os experimentos efetuados pelo Dr.
ça ativa que deles emana. Aparentemente, Charles Russ, no Congresso Oftalmológico
não apenas entram pelos olhos energia celebrado em Oxford, no decorrer do ano
e luz, mas, também, deles se despren- de 1921, convenceram muitos observadores
de uma irradiação, com força cinética! que “todo” ato da visão humana é acompa-
Em relatório científico intitulado Les nhado por uma força emanante. Colocou-se
Radiations Humaines, Raoul Montandon um solenoide de fio de cobre delgado numa
escreveu a respeito da ação mecânica das caixa metálica, dependurado por uma linha
irradiações oculares. O Sr. Jounet, um ex- de seda. Quando olhos humanos dirigiam
perimentador, mediante a concentração do a visão para o solenoide, através de uma
seu olhar sobre o ponteiro de um zoomag- pequena abertura na aludida caixa metáli-
netômetro, fê-lo oscilar, de acordo com a ca, ele se punha a mover, quase sempre se
sua vontade. Outro experimentador, disse afastando do observador. Podia-se re­verter
Montandon, fixou seu olhar sobre anéis a direção do movimento, me­diante a trans-
metálicos (de preferência ouro, servin- ferência do olhar para a extremidade oposta
do também prata, platina etc.) suspensos do solenoide. Experimentação adicional
por uma linha de seda, fazendo-os oscilar, demonstrou que o movimento causado por

42 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


um simples olhar, isto é, sem a atuação da “Se, por conseguinte, o vosso olho (olhar)
“vontade”, estava de acordo com a visão. for simples (concentrado), vosso corpo
No hinduismo antigo, os braços cor- inteiro estará cheio de luz”. Inumeráveis
respondiam à terra; a língua à água; mas o investigadores têm falado de uma extrema
fogo, a maior energia da Natureza, estava leveza do corpo e de uma grande refulgência
relacionado com os olhos. Acreditava-se que de luz, quando absorvidos num olhar fixo,
os olhos de uma pessoa expressavam sua mas abstrato. As experiências dessa forma de
grandeza interior. Leis religiosas de caráter concentração, pelos iogues hindus chamada
estrito determinavam ao brâmane hindu de Trataka, pelos experimentadores ociden-
que jogasse fora qualquer alimento sobre tais têm sido consideradas como “relaxante,
o qual incidisse o olhar de não-brâmane agradável, energizante e frutífera”.
– e a lavar os utensílios, imediatamente. Qual é o potencial da visão concentra-
Desta forma, impedia-se que o magnetis- da? A ciência ainda é silente, porém aceita
mo inferior do não-brâmane poluísse as discussões a respeito. Apenas podemos
vibrações mais elevadas do brâmane. conjeturar sobre as estranhas alegações
Tal convicção na capacidade do olho contidas num livro brâmane de sabedoria, o
humano em projetar e imprimir sua ener- Mandala Brahmana Upanishad: “Quando
gia sobre pessoas ou objetos externos é a a visão espiritual é interna, estando os olhos
base da crença a respeito da força do mau- físicos vendo externamente, sem piscar, é
-olhado. O possuidor de tais olhos poderia esta a grande ciência que se acha oculta em
acarretar sobre sua vítima, sem querer e todos os Tantras (Livros Sagrados do Poder).
silenciosamente, doença, infortúnio e até Quando se conhece isso, não mais se perma-
mesmo destruição total. Todavia, da mes- nece sob as limitações da matéria”. 4
ma maneira podia-se transmitir bênçãos
* Publicado originalmente em “O Rosacruz”, edição nº 4, de 1959.
sob a forma de compreensão e saúde, assim
como prosperidade. Mesmo hoje em dia os
místicos Sufis usam certo ritual em que o
candidato devidamente habilitado permite Trataka,
exercício
que um adepto olhe intensamente em seus da Yoga.
olhos, transmitindo-lhe conhecimento im-
possível de ser transmitido por palavras.

Interesse
científico
À medida que a ciência pondera, mais apro-
fundadamente sobre os mistérios dos olhos,
passa a entender e a dar algum crédito a
estranhos enunciados do passado. Será “o
olho ... a luz (energia) do corpo?” – Isto é,
será que a energia se irradia através desse
órgão? “Aparentemente sim” – deve respon-
der a ciência, embora relutante.

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


43
n ESPECIAL

XXIV Convenção
Nacional Rosacruz
Uma chama pela paz mundial
Por EMANUELLE SPACK, SRC

XXIV Convenção Nacional surpreendeu participantes.

44 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


Rosacruzes na
Convenção.

E
ntre os dias 21 e 24
de setembro deste
ano foi realizada, no
Teatro Guaíra, em
Curitiba, a XXIV Convenção
Nacional Rosacruz, que teve
como tema central “Uma
Chama pela Paz Mundial”.
Esta Convenção foi especial
para os rosacruzes, pois fez
parte da comemoração do 60º
aniversário da AMORC no
Brasil e nos países de língua
portuguesa. Uma festa de luz,
companheirismo e harmonia.
De acordo com o Grande Mestre da AMORC para
a jurisdição de língua portuguesa, frater Hélio de
Moraes e Marques, o tema escolhido é de extrema
importância para a atualidade. “A paz é um assunto
muito caro aos rosacruzes. Desde sempre nossa
tradição confirma que buscamos a tolerância e a
harmonia entre os seres humanos”.
E a harmonia foi geral! Era perceptível o olhar de
contentamento de todos os que prestigiaram o evento,
rosacruzes e simpatizantes da Ordem de todo o Brasil Frater Jean
e de outros países onde o português é idioma oficial, Guy Riant.
a exemplo de Portugal e Angola. Neste ano a Conven-
ção contou com a presença do presidente mundial da
AMORC, frater Christian Bernard, e do Grande Mestre
da jurisdição de língua italiana, frater Claudio Mazzucco.
Duas palestras foram ministradas por conferencistas
de outros países. O pesquisador francês Jean-Guy Riant,
PhD, pesquisador da Universidade Rose-Croix Interna-
cional (URCI) de língua francesa, que falou sobre “Cons-
ciência Animal”. Esta conferência convidou os parti-
cipantes a descobrir, sob um ângulo ao mesmo tempo
científico e filosófico, as maravilhas da consciência
animal e a refletir sobre os aspectos espirituais que disto
derivam – pois, efetivamente, já que a consciência é um
atributo da alma, o elo do ser humano com o animal já
não depende mais da biologia, mas de uma comunidade Frater Giuseppe
de destino: seria o animal um ser humano por vir? Carollo.

O italiano Giuseppe Carollo, PhD, pesquisador da


URCI de língua italiana, discorreu sobre os “Quatros

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


45
n ESPECIAL

Inauguração do
Complexo Luxor.

mensageiros da paz na música do século XX”, tísticas integraram a grade da programação.


uma referência aos Beatles. A palestra trouxe Houve ainda a inauguração do Complexo
em sua essência aquilo que a banda apresen- Luxor – composto pela Alameda das Esfinges
tou ao seu público. Os Beatles representaram e pelo Obelisco de Tutmés III – e do Atrium
uma revolução cultural que, através da músi- Romano, com a estátua do imperador Au-
ca popular, mudou o rumo dos acontecimen- gusto César. Para completar, foram instalados
tos do século XX. dois bustos: um da soror Maria Aparecida
Além das palestras, convocações ritualís- Moura e outro do frater Charles Vega Paru-
ticas, vivências místicas e apresentações ar- cker, ex-Grandes Mestres da AMORC e per-

Busto da Soror Busto do Frater


Maria A. Moura. Charles Vega Parucker.

46 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


A Alameda
das Esfinges.

Atrium
Romano.

sonalidades importantes para a história da mete ser muito interessante e instrutivo para
Ordem Rosacruz nesta jurisdição. “Acredita- todas as gerações”, explica Hélio.
mos que as grandes coisas da vida precisam Durante a inauguração desses espaços foi
ser celebradas. O Museu Egípcio, a Biblioteca depositada uma cápsula do tempo com docu-
Alexandria e o Bosque Rosacruz fazem parte mentos rosacruzes e uma lista com os nomes
do campus metropolitano da nossa univer- dos convencionais presentes que será aberta
sidade. Assim, consolidando ainda mais a em 2116.
Ordem Rosacruz como um ponto turístico As atividades das Convenções Nacionais
e cultural, inauguramos um espaço que pro- da AMORC são voltadas ao misticismo, mas

Cápsula
do tempo.

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


47
n ESPECIAL

Frater Claudio
Mazzucco.

Roberto
Crema.

apresentou a palestra “Levantando o Véu”,


que mostrou que há experiências na vida
de um ser humano nas quais aspectos
contemplam também a ciência, a filosofia, a desconhecidos da própria natureza parecem
arte e o humanismo – todos elementos que emergir num instante, descortinando
gravitam em torno do Rosacrucianismo. uma realidade totalmente diferente
A primeira palestra da Convenção foi daquela à qual estamos acostumados.
“Cuidar da Paz: uma visão integral”, do psi- O Martinismo também esteve presente
cólogo, antropólogo e mestre em ciências com a palestra “A Prosperidade na Tradição
humanas e sociais pela Universidade de Paris, Martinista”, proferida pelo frater Marcos
Roberto Crema, que também é o reitor da Medeiros, que apresentou a prosperidade
Universidade Internacional da Paz – a UNI- sob uma nova ótica, trazendo elementos da
PAZ. A paz é uma consequência natural da cabala judaico-cristã e do Martinismo. Seria
consciência de inteireza, já que tudo o que é a prosperidade uma potencialidade a ser de-
inteiro é belo, é justo, é saudável, é pacífico e é senvolvida ou um atributo inerente ao ser?
sagrado. A sua primeira morada é na ecologia A palestra apresentou uma breve evolução
individual, de onde poderá se expandir para a das teorias econômicas em face da tomada
social e a planetária. O grande desafio é intro- de consciência do poder para transformar a
duzir ordem, harmonia e paz no pedacinho de realidade. Ao final, foi realizado um expe-
praça pública que cada ser humano encarna. rimento que fortaleceu a união da egrégora
O Grande Mestre da jurisdição de com a essência crística, visando à ativação da
língua italiana, frater Claudio Mazzucco, prosperidade em nosso ser. Foi contagiante!

48 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


Frater Marcos
Medeiros.

Soror Lucia
Rodrigues Alves.

Frater Lino José


Carvalho Rolo.

Pautava-se no conhecimento do ser


humano sobre suas próprias poten-
cialidades, a fim de desenvolver uma
cultura e uma sociedade aptas a de-
senvolver as capacidades da condição
humana. A Ordem Rosacruz sempre
“Ralph M. Lewis: um místico e filósofo ergueu o estandarte do humanismo
rosacruz” foi o tema da palestra do frater e, através de seus três últimos manifes-
Lino José Carvalho Rolo. O mundo é um tos, propôs um retorno a esse movimento
grande campo de energia vibratória, percep- em uma perspectiva moderna e atual.
tível através da nossa consciência. Nele há A soror Beatriz Philippi e o frater Antônio
vida, que é energia em movimento, numa Carlos Niglio falaram respectivamente sobre
dança cósmica de transformação. A palestra as ações que podem ser desenvolvidas para
apresentou um pouco da vida e da obra da- atender os jovens através da parceria entre
quele que foi o segundo Imperator da Ordem a Ordem, a OGG e a sociedade civil. A pri-
Rosacruz e que tanto contribuiu para a gran- meira palestra apresentou a atual estrutura
deza de nossa amada Ordem. organizacional da Universidade Rose-Croix
A soror Lucia Rodrigues Alves falou Internacional, as perspectivas para o futuro
sobre “Humanismo – uma nova visão”. da URCI e como cada rosacruz interessado
Movimento intelectual nascido na Europa pode participar da mesma. Em seguida, o
renascentista, o Humanismo foi muito in- frater Niglio falou sobre a sociedade civil
fluenciado pela civilização greco-romana. e a Ordem Guias do Graal – OGG. Nesse

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


49
n ESPECIAL

Frater Hélio de
Moraes e Marques.

Movies
Classic Show.

ção com o tema “Missão Cósmica Cumprida”.


A palestra versou sobre a natureza mística do
primeiro Imperator para o atual ciclo de ati-
vidades da AMORC, frater Harvey Spencer
Lewis. Que o doutor Lewis foi um Mestre da
Rosacruz, o bom estudante da AMORC sabe.
contexto, frater Niglio falou sobre família, Entretanto, pesquisas de fontes esotéricas e
escola, aprender a conhecer, aprender a fazer, depoimentos do próprio Spencer nos reme-
aprender a ser e aprender a conviver. tem a possibilidades extraordinárias sobre
O frater Luciano Bastos, coordenador do quem realmente foi nosso amado fundador.
departamento de TI da GLP, fez uma apre- Algumas vivências inspiradoras e ri-
sentação sobre o “Portal da AMORC - Área tuais rosacruzes e martinistas ocorreram
do Afiliado”. Estamos vivenciando uma era durante o evento, elevando e inspirando
de revolução da informação e de familia- a todos, dado o seu impacto místico. As
rização com os desafios que a tecnologia convocações ritualísticas oficiadas pelo
nos traz. Neste momento damos mais um Grande Mestre da GLP, frater Hélio de
importante passo no caminho da trans- Moraes e Marques; pelo Grande Mestre
missão do conhecimento rosacruz através da Itália, frater Claudio Mazzucco; e pelo
de um canal digital exclusivo ao estudante Imperator da AMORC, frater Christian
da AMORC. Nesta exposição inaugural, o Bernard, trouxeram mensagens e experi-
sistema foi apresentado, assim como suas mentos muito significativos. Na convoca-
principais funcionalidades e dicas de acesso. ção rosacruz, o Imperator abordou o tema
Fechando o ciclo de palestras, o Grande “Seja Rose-Croix!”, uma grande mensagem
Mestre de língua portuguesa, frater Hélio de de reflexão que transformou o coração e a
Moraes e Marques, apresentou uma exposi- mente dos que puderam estar presentes.

50 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


Ju
Martins.

Maria
Rita.

rito artístico para o enlevo espiritual dos


Ralph
Grima. presentes, trazendo temas de filmes con-
sagrados e tornando-os ainda mais emo-
cionantes e interativos com a projeção de
imagens e uma breve narrativa sobre cada
tema escolhido. O público se identificou
profundamente com a genialidade dos com-
A Convenção Rosacruz também mar- positores e com a riqueza dos arranjos.
cou com seus momentos artístico-musicais Soror Ju Martins e frater Ralph Gri-
– a começar pela abertura, que trouxe ma se apresentaram no Momento Ar-
o concerto “Movies Classical Show”, da tístico Musical e a cantora Maria Rita
Eruditu Philharmonic Orchestra, que fez brindou a todos com um show mais do
uma apresentação única e de grande mé- que especial: o “Samba da Maria”. 4

2018 será o ano da XXV Convenção Nacional Rosacruz

A próxima Convenção Nacional Rosacruz já está sendo pensada e trará muitas novidades e
surpresas. Programe-se e venha comungar conosco, com a sua Grande Loja e com seus ama-
dos fratres e sorores! Uma Convenção Nacional Rosacruz, como comprovado por todos que a ex-
perimentam, é um momento único e transformador na vida do estudante da AMORC. Até 2018!

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


51
O que torna
uma sociedade
doente?
Por RALPH M. LEWIS, FRC*
Ex-Imperator da AMORC

A
nossa sociedade mo- A atividade coletiva da so- melhor para a maioria. Por
derna está doente? ciedade deve ser livremente outro lado, a sociedade de-
O termo “doente” motivada. Ela não deve ser pende da unidade de acordo
implica uma condição anor- o resultado de uma força e de ações de seus membros
mal; ele sugere o abandono militante contrária à von- para a sua existência. Mas
de uma regra, de uma nor- tade de seus membros. essa liberdade do indivíduo
ma considerada sã. Quais Esta liberdade requer dá a ele o direito de contra-
são então os elementos que uma análise para saber em -atacar a decisão livremente
possuem a tendência de qual medida ela serve à tomada pela maioria?
destruir uma sociedade sã? sociedade. Nesta última, o Deve-se admitir que
O primeiro elemento indivíduo se encontra diante a concordância da maio-
de uma sociedade sadia é de uma dicotomia da liber- ria numa sociedade não
a cooperação. É o trabalho dade; em outras palavras, a é sempre justa; a história
coletivo de pessoas traba- liberdade possui uma natu- frequentemente o provou.
lhando juntas em direção reza dupla. De um lado, o No entanto, a sociedade só
a um objetivo comum. Se indivíduo deve ter a escolha existe porque certos precei-
a sociedade quer estar “sa- de compartilhar atividades tos e certas ações têm por
dia”, sua atividade coletiva com outros e escolher esse resultado um esforço con-
precisa ter certa qualidade. objetivo que é considerado o centrado para fins particula-

52 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


res. Numa sociedade sadia, sociedade uma unidade de cência pessoal, para qualquer
o indivíduo deveria ter a objetivo e de ação. Cada in- que seja o desejo? O prazer é
liberdade de expressão e de divíduo não pode se afastar o bem e a o verdadeiro valor
ação para desaprovar as me- de uma tangente de pensa- da vida. Na Antiguidade,
didas tomadas pela mesma. mento e de ação somente a esta atitude foi chamada
A liberdade de expres- fim de manifestar uma liber- de hedonismo; em termos
são pode compreender a dade pessoal sem restrição. atuais, permissividade.
expressão de várias ideias. O efeito contrário que O recurso à permissi-
A liberdade de ação pode surge dessa concepção de li- vidade constitui-se num
influenciar os membros da berdade individual absoluta isolamento egocêntrico.
sociedade, através de uma é o desafio à disciplina pes- Digamos simplesmente que
persuasão razoável, para soal. Na verdade, se diz: Por o indivíduo fica à margem
fazê-la adotar concepções que não podemos recorrer à da sociedade; ele acredita
e objetivos diferentes. No satisfação total dos apetites que a ordem social possui
entanto, o exercício da força e das paixões? Por que não influência inibidora sobre
para proteger a liberdade podemos recorrer à compla- sua individualidade. Ele
individual não deve ser
um obstáculo para a von-
tade coletiva da maioria.
Impedir esta vontade seria
recusar à sociedade seu di-
reito à liberdade e à ação.
O segundo aspecto da
liberdade concerne o direito
de pensamento e de expres-
são pessoais, mesmo se este
pensamento e esta expressão
não estejam de acordo com
aqueles da sociedade. Este
direto à liberdade pessoal
não pode ser de natureza
absoluta a ponto de impedir
a expressão dos mesmos
direitos dos outros. Hoje em
dia, a insistência a respei-
to do direito de liberdade
absoluta constitui um dos
maiores males da sociedade.
Como nas células do corpo
humano, deve existir na

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


53
rejeita a gritos os códigos homem além de sua natu- pela felicidade; a segurança
de ética e morais como se reza primitiva e animal. das pessoas e de suas posses?
fossem formas perniciosas Com o declínio progres- Todos estes ideais são lou-
de limitação da motivação sivo na crença segundo a váveis, mas frequentemente
humana. Em outras pala- qual os códigos morais pos- simbolizados materialmente.
vras, cada um deveria viver suem uma origem sobrena- Os sinais de sucesso hoje em
por ele mesmo. É o extremo tural inerente, a imoralidade dia são, mais do que nunca,
oposto da base e do objeti- se desenvolveu particular- a riqueza e o luxo. Nume-
vo original da sociedade. mente nas nações “avança- rosas são as pessoas que se
O objetivo principal da das” do mundo. A moralida- esforçam para adquirir esses
moralidade é fazer prevale- de está perdendo sua eficácia símbolos de prestígio sem
cer essas qualidades do ho- porque ela está sendo con- fazer o esforço da realiza-
mem que transcendem sua siderada por muitos como ção que eles representam.
natureza animal. A morali- uma outra regulamentação, Desta forma, o materia-
dade, então, é considerada uma outra restrição liga- lismo adquiriu uma influên-
como um bem mais elevado da à liberdade pessoal. cia motivadora no mundo
e mais refinado que a sensu- A partir desta concepção de hoje, mas esse tipo de
alidade. No entanto, a mora- errônea de uma liberdade objetivo não é acessível a
lidade razoável não sugere o absoluta e de seu efeito de todos. A felicidade hoje é
celibato e nem um ascetismo permissividade, a crimina- constantemente considera-
extremo. Em geral, a mora- lidade emergiu em escala da, erroneamente, como o
lidade é considerada como a tão grande como nunca na resultado do desejo imode-
vontade de Deus, inspirada história moderna. O crimi- rado por riqueza, ou seja,
por Deus, mais particular- noso é aquele que persegue por um amor desordenado
mente como um decreto um fim que ele acredita ser por possessões e por sua
que concerne à conduta melhor para ele, sem nenhu- exibição. As coisas tangíveis
humana revelada ao homem. ma restrição de disciplina do mundo são apreciadas
O Decálogo, ou os Dez Man- pessoal. Por todos os lugares enquanto vários valores in-
damentos, é um exemplo. onde a moralidade não exis- tangíveis são negligenciados.
Consequentemente, a mo- te, a consciência é inibida. O A educação não é de forma
ralidade é muito associada bem se torna somente aquilo alguma considerada como
a uma obrigação religiosa. que serve ao eu pessoal. O portadora do prazer do co-
Existe, no entanto, um único mal, acredita-se, é nhecimento. A ênfase é colo-
lado pragmático da mora- aquele que contradiz o inte- cada, sobretudo, em seu va-
lidade que é essencial para resse pessoal do indivíduo. lor utilitário, ou seja, como
a sociedade, e que não tem Quais são, segundo nós, um meio de ganhar a vida.
conexão com nenhuma os ideais fundamentais de A sociedade moderna en-
implicação religiosa. Os pre- uma sociedade avançada, de xerga o lazer como o topo do
ceitos morais são um guia um estado soberano hoje em sucesso. Este é interpretado
de equidade para os direitos dia? Não seriam eles a liber- como sendo o abandono do
humanos. Eles procuram dade de expressão e de ação trabalho pessoal e a recor-
impedir a exploração do dentro dos limites necessá- rência aos bens materiais. Os
fraco pelo forte. Eles exaltam rios à sociedade; a oportuni- lazeres podem ser uma justa
as virtudes que elevaram o dade de realização; a busca recompensa de uma vida

54 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


frutífera e laboriosa, mas Existe ainda, uma fixação “eles” designa o Estado ou
pensar no trabalho como da consciência em relação a instituição privada. A
algo imposto ao homem e ao trabalho que, finalmente, responsabilidade é desta
como algo a ser, se possível leva à fadiga mental e torpor. forma transferida a outro,
evitado, contribui para a Esse tipo de trabalho enquanto que, geralmente,
regressão da sociedade. extenuante inculca geral- ela deveria ser assumida pelo
A vida é dinâmica; ela se mente no homem o ódio próprio indivíduo. É isso que
esforça sempre para sê-lo. pelo trabalho. O trabalho mais asfixia sua iniciativa
Ela não procura a inércia. é então considerado pelos e seus potenciais latentes.
É este esforço dinâmico, a indivíduos envolvidos pelas O indivíduo pode pro-
aplicação das energias físicas circunstâncias como uma testar veementemente
e mentais do homem em seu das torturas da nossa or- contra a burocracia, mas
meio, que elevou o homem dem social de hoje, o que, ele a piora no momento em
da forma inferior de primata por sua vez, leva inquietude que transfere para esta bu-
até o seu estado atual. O co- ao trabalho e faz do lazer rocracia elementos de sua
nhecimento traz o orgulho um falso ideal na vida. responsabilidade pessoal. O
da realização. É somente A partir da necessidade tratamento de cura de uma
fazendo nascer algo através fundamental da cooperação sociedade doente não é um
de nossos próprios esforços, de seus membros, a socieda- tratamento de ausente; ele
que chegamos a conhecer a de impõe certas responsa- não se dá através da espera
dignidade do ser humano. bilidades para cada pessoa. de remédios externos. Ele
Do mesmo modo que certos Estas responsabilidades são demanda principalmente
músculos que não são utili- geralmente de dois tipos. O uma introversão, uma aná-
zados atrofiam, ocorre com primeiro é universal, signifi- lise pessoal daquilo que nós
as iniciativas quando não as ca que ele se aplica da mes- mesmos, como indivíduos,
levamos em consideração. ma forma a todos os mem- fazemos pela sociedade da
Sem o estímulo e a exigência bros da sociedade. O segun- qual somos parte. Casos
do trabalho, constatamos do tipo de responsabilidade históricos podem nos ajudar
que a retidão, o talento e a que deve ser assumida varia com tal diagnóstico e numa
criatividade são atenuados. conforme as capacidades avaliação pessoal. Pode-
A produtividade diminui do indivíduo. Existe ainda mos olhar para a história
e uma repulsão crescente uma crescente repugnância de grandes civilizações do
pelo trabalho acaba apare- dos indivíduos a assumi- passado que ascenderam
cendo se um trabalho monó- rem suas responsabilidades e em seguida caíram. Po-
tono é exigido. A tecnologia diante dos grandes proble- demos notar as causas que
em larga escala nas grandes mas de suas sociedades. contribuíram com a sua
indústrias possui a tendên- Hoje em dia, um núme- doença social e sua morte.
cia, nas formas de trabalho ro crescente de indivíduos Será que conhecemos sinto-
onde é empregada, a trans- acredita que o Estado é mas similares hoje em dia?
formar em robôs aqueles uma entidade distinta de- Desenvolvemos doenças tão
que a utilizam. Muitas dessas les mesmos. Esta atitude é graves quanto a deles? 4
obrigações estimulam a roti- frequentemente expressa
na na atividade psíquica com pela frase: Eles deveriam * Excerto do livro “Ralph Maxwell Lewis,
pouca ou nenhuma variação. fazer (isso ou aquilo). O um rosacruz dos tempos modernos”.

PRIMAVERA 2016 · O ROSACRUZ


55
Nesta seção sempre
homenagearemos a história
de nossa Ordem no mundo
e na língua portuguesa,
lembrando por meio de
imagens os pioneiros que
.com

labutaram pelo Ideal Rosacruz


© thinkstock

e plantaram as sementes cujos


frutos hoje desfrutamos. A
todos eles, a nossa reverência.

Morada do Silêncio –
Chaminé da Serra
E mais de 20 anos se passaram…
O dia 4 de novembro de 1995 foi especial
para a Ordem Rosacruz, AMORC no
Brasil. Era inaugurada pelo então Grande
Mestre, frater Charles Vega Parucker, e
pelo Imperator, frater Christian Bernard,
a Morada do Silêncio.
Local único, com o esplendor da Mata
Atlântica ali ao lado, visível aos olhos de todos. 1
Mais um ideal rosacruz estava se concreti-
zando. Um sonho que se tornava realidade.
E seu propósito continua firme até os
2
dias de hoje: lá recebemos nossos ama-
dos fratres e sorores nos ERINs, nas
semanas de elevação espiritual, nas
visitas pessoais ou em grupos, fortale-
cendo a Egrégora Rosacruz.
… e do silêncio da Morada continuam
sendo irradiadas vibrações de Luz,
Vida e Amor para toda a humanidade!
Foto 1: Morada do Silêncio recebendo seus primeiros
convidados; Foto 2: Momento histórico em que o
Imperator e o então Grande Mestre desataram a fita para
celebrar a inauguração.

56 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2016


Tradicional Ordem M artinista
A Peregrinação Interior
A interioridade do Ser não precisa da exterioridade para existir mas precisa dela para se manifestar
no plano formal. Para o espírito humano, o mundo exterior é o reflexo do interior. O mundo é
tal como o concebemos, de modo que, se queremos mudar o mundo, precisamos primeiro mudar
a concepção que dele temos. Tudo está bem resumido na máxima “contemplamos o que somos”.
Por exemplo, o homo economicus das nossas sociedades materialistas só vê na natureza recursos a
explorar e não a beleza a contemplar.

Para o Ser humano tradicional, a natureza é um cosmo ordenado segundo uma estrutura vertical
(há uma parte alta e uma baixa) e uma estrutura horizontal ao mesmo tempo temporal (passado,
presente e futuro) e espacial (os quatro pontos cardeais).

O Templo é um perfeito símbolo disto.

Quanto ao Ser humano, microcosmo desse macrocosmo, é a sua imagem reduzida, um condensado.

Mas há algo mais, a consciência do eu, que lhe permite ter a experiência do seu Ser e conhecer a Si
mesmo. Ele é o espelho privilegiado, o olhar pelo qual DEUS pode contemplar o mundo, como
dizia Mestre Eckhart: “DEUS olha o mundo através do nosso olhar”.

O místico sabe então por que está aqui em baixo. Seu caminho está orientado a exemplo do Ini-
ciado que caminha no Templo do Ocidente para o Oriente, fonte de toda Luz.

Sua vida é um caminho Iniciático para o horizonte no qual se desenha a reintegração na Unidade Divina.

Até aqui, está peregrinação interior está apenas começando....

Amados Fratres e Sorores, Irmãos e Irmãs, sigamos a orientação do Guardião. Caminhemos!


– Texto inspirado em O Pantáculo nº 16, 2008 – “A Peregrinação Interior – Do Exílio ao Êxodo: O caminho do Retorno”.

S.I.
A
humanidade recebe de tempos em tempos personalidades-
alma que são “divisoras de águas”, ou seja, o mundo é um
antes delas e outro após elas.
Como verdadeiros mensageiros de Luz a serviço da
humanidade, esses seres receberam do Cósmico a missão de causar
uma forte influência na sociedade em que estavam inseridos,
recebendo postumamente o reconhecimento pela visão, liderança
e iluminação que abrangeram todo o nosso mundo. Vieram para
mudar, romper paradigmas e deixar os seus pensamentos, palavras
e ações como exemplos de seres humanos especiais.
Esta capa da revista “O Rosacruz” é dedicada a esses seres de
luz que, como Mestres, nos ensinaram o sentido da vida.

Nelson Rolihlahla Mandela foi um


líder político sul-africano e o mais importante representante do
movimento contra o regime do Apartheid, que negava aos negros
da África do Sul direitos políticos, sociais e econômicos. Cari-
nhosamente chamado de Madiba (nome do seu clã), foi conside-
rado o pai da moderna nação sul-africana. Doou muito tempo de
sua vida para uma luta digna em favor de seu povo, e este extra-
ordinário trabalho lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz em 1993. Foi presidente da África do Sul entre 1994 e
1999. Mas antes disso este guerreiro passou quase 30 anos preso.
Rolihlahla Dalibhunga Mandela era de origem humilde, tendo sido o primeiro membro da família a ir
para a escola. Lá, uma professora passou a chamar-lhe de Nelson, nome que passou então a usar. Deixando
uma vida interiorana, Nelson foi estudar Direito na Universidade de Fort Hare, uma das primeiras a ofere-
cer cursos para negros. Já no primeiro ano de faculdade se envolveu com o movimento estudantil contra a
falta de democracia racial. Foi expulso, mas conseguiu concluir seus estudos por correspondência em 1943,
morando em Johanesburgo.
Em 1942 se uniu ao Congresso Nacional Africano e em 1944, com o apoio dos amigos Walter Sisulu e
Oliver Tambo, fundou a Liga Jovem do CNA. Na década seguinte começaram as manifestações contra o
governo e as políticas segregacionistas. Como resultado desses protestos surgiu a “Carta da Liberdade”, um
significativo documento no qual a população negra expressava sua indignação.
Mas as coisas não foram fáceis. Mandela enfrentou um processo judicial que o condenou à prisão per-
pétua. Foi levado para a penitenciária da Ilha Robben, situada junto à costa da Cidade do Cabo. O povo,
porém, não desanimou, e assim foram surgindo outros movimentos. A própria comunidade internacional
se mobilizou conta a prisão de Mandela. Em 1990 ele foi solto sob a tutela do governo do presidente Frede-
rik Willem de Klerk. A partir de então trabalhou para acabar com o Apartheid. Em 1992 as leis segregacio-
nistas foram abolidas e em 1994 foram realizadas as primeiras eleições multirraciais da África do Sul, nas
quais Mandela foi eleito presidente do país. Com a vitória, expurgou as práticas racistas do Estado. Após
exercer seu mandato, Mandela continuou trabalhando em diversas causas humanitárias e na luta contra a
AIDS. Faleceu em 2013 aos 95 anos, em Johanesburgo, em decorrência de uma infecção pulmonar.

“Sonho com o dia em que todos levantar-se-ão e compreenderão que foram feitos
para viverem como irmãos.”
– Nelson Mandela