na transformação
do mundo
segundo
J. Herculano Pires
Por Rita Foelker
Este livro
Ele nasceu da pesquisa para uma palestra realizada na 2ª Semana J. Herculano Pires,
promovida pela Fundação Maria Virgínia e José Herculano Pires , em setembro de
2019.
Tendo o livro Pedagogia Espírita como ponto de partida, percorri também páginas de
outras obras, especialmente O Homem Novo e O Espírito e o Tempo.
Rita Foelker
Isso se torna mais claro quando vemos como os temas da educação e a pedagogia se
espalham nos seus escritos e nos programas radiofônicos. Quando observamos sua
atuação social e cultural na comunidade humana.
Na década de 1970, ele criou uma revista intitulada “Revista Educação Espírita”. Uma
coleção de verdadeiros livros, cheios de conteúdo de alta relevância! Publicada em seis
edições impressas. Consideremos que eram tempos mais difíceis que os atuais. Hoje
em dia, se quisermos lançar uma revista, criamos um PDF, colocamos na rede e, em
segundos, ela pode estar do outro lado do planeta. Mas quatro décadas atrás, as
dificuldades e obstáculos eram muito maiores. Não obstante, foram superados.
Quando participou do Clube dos Jornalistas Espíritas do Estado de São Paulo, do qual
foi um dos fundadores, iniciou um curso de espiritismo por correspondência, o
pioneiro nessa modalidade, para espalhar as luzes da doutrina espírita a lugares
distantes. Hoje esse curso é publicado pela Editora Paidéia, com o nome de Curso
Básico de Espiritismo.
Tudo isso reforça a minha convicção de que Herculano mantinha, em lugar destacado
do seu pensamento espírita, a Educação como fonte principal da melhoria de nós
mesmos.
Mas é justamente essa disparidade que torna possível a educação, em que os seres
mais adiantados procuram auxiliar e orientar aqueles mais atrasados, para que
aprendam, se eduquem e elevem!
As diferenças entre nós não são essenciais, elas são “acidentais” no sentido de serem
“superficiais”. Nós falamos idiomas diferentes, temos crenças diversas, vivemos em
ambientes e culturas cheios de contrastes, nossos hábitos variam. Mas todos somos
espíritos encarnados na Terra para evoluir. Hoje somos pessoas que se vestem de certa
forma e que se expressam em variados idiomas, mas também já fomos outras pessoas,
inseridas noutros tempos, noutras paisagens do planeta. Em cada cultura que vivemos,
absorvemos uma infinidade de elementos que criou nossas personalidades em vidas
passadas. Em cada encarnação, compartilhamos signos e símbolos que nos
identificavam naquela vida.
Paidéia (em grego antigo: παιδεία) foi o nome dado à editora que Herculano fundou. O
termo traduz o ideal grego de educação para a formação geral/integral do ser humano,
como homem e como cidadão. E, acrescentamos, como espírito imortal.
E quando refletimos na natureza do ser humano, sobre quem somos e para que
estamos na Terra, no decorrer dessas indagações e construções do pensamento,
podemos criar uma forma de entender o homem e a vida que se torna uma visão
filosófica. No mundo e pelo correr dos séculos, inúmeras visões filosóficas surgiram.
Sendo, uma filosofia, um pensamento que reflete uma forma de entender a vida e é
compartilhada por uma comunidade, isso significa que toda filosofia se traduz numa
moral, isto é, numa forma de definir o que é justo ou injusto, certo ou errado, bom e
mau. Afinal, não somos apenas criaturas que pensam, mas que principalmente agem
no mundo, e essa ação tem os parâmetros morais para orientá-la. A moral pode ser
mais rígida ou mais maleável, dependendo da filosofia que a inspirou.
Essa moral, por sua vez, precisa de uma Educação para ser transmitida às novas
gerações.
Nós mesmos fomos essas criaturas no passado, reencarnadas hoje com novas
propostas de renovação moral e evolução espiritual!
Mas qual parcela, de todos nós, ainda permanece mais influenciada ou, mesmo,
atrelada a um desses perfis do passado? Às suas virtudes, mas também aos seus
desvios e manias? Quando iremos transcendê-los, quando iremos nos livrar das antigas
vestes, dos antigos hábitos, para nos tornarmos o “homem novo”?
A tarefa Educação, segundo o Espiritismo, se anuncia para essas almas que, cansadas
de errar nos antigos descaminhos, procuram renovar sua compreensão do mundo e
seu propósito de vida.
Pois a substância das transformações é feita das escolhas e atitudes que as tornam
realidade, na comunidade onde vivemos.
Essas mudanças não podem ser impostas, nem provocadas artificialmente. O “homem
velho” sempre irá se utilizar dos meios que conseguir, mesmo diante do melhor
governo do mundo, na sociedade mais equilibrada e justa, para saciar o seu egoísmo e
o seu oportunismo, prejudicando pessoas, sabotando boas iniciativas e usurpando
cargos para servir aos seus estritos interesses pessoais.
Uma estrutura perfeita constituída por espíritos imperfeitos tende a colapsar, reverter
ao estado de miséria, injustiça, sofrimento, perseguição de opositores e crimes. O
cinema nos oferece muitos exemplos, em Equilibrium (2002), na série Jogos Vorazes (4
filmes entre 2012 e 2015), entre outros. Os bons precisam, primeiro, superar o número
dos maus, para que a sociedade comece se transformar em profundidade.
Nos filmes que citamos, notamos que criar estruturas sociais perfeitas para que o
homem a elas se adeque resulta, frequentemente, em violência, repressão e
exploração dos mais fracos. Desse modo, tais movimentos acabam servindo apenas
aos seus líderes, aos corruptos e aos ricos e aos que galgam altos postos na sociedade.
Objetivos mesquinhos criam a desunião, a guerra, a doença e a miséria.
Quando a consciência elevada funciona com base na Lei de Amor, cada qual sabe como
agir bem e não hesita em fazê-lo.
A transição do estilo de vida utilitário, baseado em ganhos e vantagens (“o que eu vou
ganhar com isso”), comandado pela busca individualista e egoísta de bem estar e
desligado das demandas da sociedade, para uma vida fundada em valores morais é
uma transição de tipo pedagógico. Ela subentende desaprender antigos hábitos,
enquanto se aprende outros.
Nesse novo modelo, cada pessoa não irá se destacar pelo que possui, mas pela
capacidade de viver com ética, em princípios cristãos. É muito provável que você
esteja, neste momento, na sua casa ou no seu trabalho, exercitando esses valores
morais. E este é o exercício mais importante, em favor da transformação da sociedade
e do mundo.
Ele destaca a dinâmica social da caridade, que é muito ativa entre os espíritas e
também entre outras denominações. E essa dinâmica gera mais do que participação de
uma atividade social, mas pressupõe um novo olhar para a condição humana e a
necessidade do próximo, a percepção do outro com fundamento na caridade e na Lei
de Progresso ou de Evolução.
Esse novo olhar rompe com o egocentrismo social, a visão utilitária e pragmática que
vê no outro, não um Espírito, mas um consumidor de bens, um voto em tempos de
eleição, alguém que só serve quando rende dinheiro ou poder político para uma
minoria. As entidades espíritas têm atuação social reconhecida. Esse exercício faz com
que o Ser pare de olhar só para si mesmo e seu pequeno círculo social, para
reconhecer o outro em bases de fraternidade.
Cada ser imortal está trilhando, neste planeta, uma jornada de aprendizado e
desenvolvimento. Mas necessitamos aprender e exercitar esse altruísmo moral. E
como faremos isso? Diz Herculano: na “prática da caridade”.
Ele visa nos apresentar e nos familiarizar com as realidades da vida espiritual.
Em toda criança, a Pedagogia Espírita vê o ser que ele foi, as tendências que traz e que
necessitam ser modificadas, mas também os efeitos da sua sensibilidade para o
ambiente espiritual que o rodeia, em razão de suas afinidades espirituais. O educador
não somente o enxerga assim, como o ajuda, ele próprio, a se ver e se compreender
como tal.
Se estamos desejando construir um mundo “novo”, não devemos mais educar crianças
para o mundo “velho”, de ganâncias, violências e desamor.
FIM