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Política Partida

246 - julho de 2015

Debates
A transmissão - Encerramento do 9º Congresso da Escola Freudiana de Paris

Jacques Lacan

09 de julho de 1978

Eu devo encerrar este Congresso. É isso, ao menos, o que foi previsto.

Freud esteve profundamente preocupado com a transmissão da psicanálise. O comitê que ele tinha encarregado de cuidar disso
se transformou na Associação Psicanalítica Internacional, a I.P.A. Devo dizer que a I.P.A., se acreditarmos em nosso amigo Stuart
Schneiderman, que falou ontem, no momento não é valorosa. Certamente este Congresso representa, com esta sala cheia,
alguma coisa que equilibra a I.P.A.

Freud, designando o que ele chamava seu “bando” [sa bande], sem que se saiba muito bem se “seu bando” [sa bande], isso deve
se escrever “ç-a” [1], Freud inventou esta história, é preciso dizer, um pouco maluca, que chamamos o inconsciente; e o
inconsciente é talvez um delírio freudiano. O inconsciente, isso explica tudo, mas, como articulou muito bem um chamado Karl
Popper, isso explica demais. É uma conjectura que não pode ter refutação.

Nos falaram de sexo sem sujeito. Isso quer dizer que haveria uma relação sexual que não comportaria sujeito? Isso seria ir longe
demais; e a relação sexual, que eu disse que não existia, supostamente explica o que chamamos as neuroses. É por isso que me
indaguei sobre o que eram as neuroses. Tentei explicá-las no que chamamos um ensino. É preciso pensar que, mesmo assim,
este ensino teve um certo peso, pois consegui ter toda essa assistência.

Esta assistência, devo dizer, não me assiste. Eu me sinto, no meio desta assistência, particularmente só. Eu me sinto
particularmente só porque as pessoas que eu trato como analista, estas, que chamamos meus analisantes, têm comigo uma
relação completamente diferente do que esta assistência. Elas tentam me dizer o que nelas não vai bem. E as neuroses, isso
existe. Quero dizer que não é certo que a neurose histérica exista sempre, mas certamente há uma neurose que existe, é o que
chamamos a neurose obsessiva.

Estas pessoas que vêm me ver para tentar me dizer alguma coisa, é preciso dizer que eu nem sempre lhes respondo. Eu tento
que isso ocorra; ao menos é o que eu desejo. Eu desejo que isso ocorra, e é preciso dizer que muito dos psicanalistas são
reduzidos à isso. É por isso que tentei ter algum testemunho sobre o modo como nos tornamos psicanalistas: o que faz com que,
após termos sido analisantes, nos tornemos psicanalistas?

Eu, devo dizer, me indaguei sobre isso, e é por isso que fiz minha Proposição [2], aquela que instaura o que chamamos o passe,
em que confiei à alguma coisa que se chamaria transmissão, se havia uma transmissão da psicanálise.

Tal como agora chego a pensar, a psicanálise é intransmissível. É bem chato. É bem chato que cada psicanalista seja forçado –
pois é preciso que ele seja forçado – a reinventar a psicanálise.

Se eu disse, em Lille, que o passe tinha me decepcionado, é por causa disso, pelo fato que seja preciso que cada psicanalista
reinvente, segundo o que ele conseguiu retirar do fato de ter sido por um tempo psicanalisante, que cada analista reinvente o
modo como a psicanálise pode durar.

Eu ainda assim tentei dar a isso um pouco mais de corpo; e é por isso que inventei um certo número de escritas [écritures], tais
como o S barrando o A, isto é, o que eu chamo o grande Outro, pois é o S, que eu designo o significante, que, este grande A, o
barra; quero dizer que, o que enunciei naquela ocasião, a saber, que o significante tem por função representar o sujeito, mas e
somente para um outro significante – é, ao menos, o que eu disse, e é fato que eu o disse – o que isso quer dizer? Isso quer dizer
que, no grande Outro, não há outro significante. Como o enunciei na ocasião, só há um monólogo.

Então, como pode que, pela operação do significante, existam pessoas que se curam? Pois é exatamente disso que se trata. É
fato que existem pessoas que se curam. Freud bem sublinhou que não era preciso que o analista estivesse possuído pelo desejo
de curar; mas é fato que há pessoas que se curam, e que se curam de sua neurose, até mesmo de sua perversão.

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Como isso é possível? Apesar de tudo o que disse sobre isso na ocasião, eu não sei de nada. É uma questão de trucagem. Como
é que sussurramos ao sujeito que chega a vocês em análise alguma coisa que tem por efeito curá-lo, é uma questão de
experiência, na qual tem um papel o que eu chamei de sujeito suposto saber. Um sujeito suposto é um redobramento. O sujeito
suposto saber é qualquer um que sabe. Ele sabe o truque, pois eu falei de trucagem na ocasião; ele sabe o truque, o modo pelo
qual se cura uma neurose.

Devo dizer que no passe, nada anuncia isso; devo dizer que no passe, nada testemunha que o sujeito sabe curar uma neurose.
Eu sempre espero que alguma coisa me esclareça sobre isso. Eu gostaria muito de saber por alguém que testemunharia isto no
passe, que um sujeito – pois é de um sujeito que se trata – é capaz de fazer mais do que o que eu vou chamar de tagarelice
ordinária; pois é disso que se trata aqui. Se o analista não faz mais do que tagarelar, pode-se estar certo que ele perde sua vez, a
vez que é definitivamente de remover o resultado, isto é, o que chamamos o sintoma[symptôme].

Tentei falar um pouco mais sobre o sintoma. Até mesmo o escrevi com sua antiga ortografia. Porque eu a escolhi? S-i-n-t-h-o-m-a,
isto seria evidentemente um pouco demorado para explicar a vocês. Eu escolhi esta forma de escrever para sustentar o nome
sintoma, que se pronuncia atualmente, não se sabe muito porque “symptôme”, isto é, alguma coisa que evoca a queda de alguma
coisa, “ptoma” que quer dizer queda.

O que cai junto é alguma coisa que não tem nada a ver com o conjunto. Um sinthoma [sinthome] não é uma queda, embora tenha
o ar de uma. Ao ponto que considero que vocês todos, enquanto vocês são, vocês têm como sinthoma cada um a sua cada qual.
Existe um sinthoma ele e um sinthoma ela. É tudo isso que sobra do que chamamos a relação sexual. A relação sexual é uma
relação intersinthomática. É por isso que o significante, que é também da ordem do sinthoma, é por isso que o significante opera.
É por isso que temos a suspeita do modo pelo qual ele pode operar: é por intermédio do sinthoma.

Como então comunicar o vírus deste sinthoma sob a forma do significante? É isso que eu tentei explicar ao longo de meus
seminários. Acho que hoje não posso falar mais nada.

Tradução de André Oliveira Costa

Autor: Jacques Lacan

* Publicado em Lettres de l’École, 1979, n° 25, vol. II, pg. 219-220.

[1] Em francês, a expressão “sa bande” (= seu bando), torna-se homófona à “ça bande”, na qual “bande” é a conjugação do verbo
“bander” na terceira pessoa do singular do presente do indicativo, que tanto tem os significados de vendar, “imobilizar com
atadura”, como também de esticar, aumentar, estender e, vulgarmente, é utilizado para indicar ereção, excitação.

[2] Referência ao texto “Proposição de 9 de outubro de 1967”.

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