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Ana Maria Gama Florencio

Bclmira Magalhães
Helson Flávio da Silva Sobrinho
Maria do Socorro Aguiar de Oliveira Cavalcante

Análise do Discurso:
Fundamentos &
Práticas
Reimpressão da 1ª edição

/Edufal
Edi1oradaUniver$ldade FeOOraldeAlagoas

Macejó/AL
2016
~
~~~
UN IVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
Reitora
;\·faria Vulérla Costa Corre ia

Vice-reitor
]o:"lé Vit:"ira da C ruz

Diretor da Ednfal
Osvaldo Ba1i s1a Acioly Mai..:iel

Conselho Eilitori;1I Etlufal


Osnlclo Bati s ta Acioly M ac iel (Pre sidente)
Fe rna nda Lins d e Li m a (Sc.:rn.:t;iria)
Ad ria110 Nasc in 1cn10 Sil\'a
Ana Cris tin a Co uceição S antos
C id Olival Fcit <>sa
Cristiane Cvrino Es tevüo Oliveira
Janay ;1a da S il va Áv il a
Maria Crist in;.1 S o ~1ri:s Fi g11cinx!o Tt'L'ZZa
Nilton José Melo de Resend e
Ricardo C arvalho Ca bús
'T alva n~s Eugén io Mac~no
Tania Ma rta Carvalho do s Santos

Coo nl c na ç ão editorial: Fc rnand::i Lins


Capa: Luci:mo Acc io1y
Díagrmnaçao: Jorgl: s~1ntos
Supervisão gráfi c a: Márcio Ro bi. : rto Vi e ira de Nk\ o

Rei mpressão da 1" edi ção em 20 16

Cata logação na f o nte


Uni ve rsidade Federal de Alagoa>
Bibliotcc<t Ccntrul - Div is::i.o de Tratame nto T úc nico
Bibliotecária Responsáv e l: Hele na C ri s tina Pime ntel <l n Vale

A5 32 Análise do c.Jisc urso : fundumc ntos & prá ticas I A na Jvlariu Ga ma Florencio .... lct
al.j . - M aceió : E D UFA L, 2009.
131 p.
Bibliog rafia: f. Ll 25 J-131.

l. Teoria do di scu rso. 2. A nálise d o di snirso. 3 . Pdt ii.:as Ui sc ursivas. 4 . Ideo logi a.
!. Florcncio, A na Maria Gama.

C DU : 800.5
Dedicamos este livro aos
ISBN 97 8-85-7 177-5 14-5
nossos a lunos que nos
Edilorn atil inda :
instigaram a produzir uma
Oin•ilos dcsla 1.:di\·fio r csc rrndos i1
Ed uíal - Edi 1 o r~1 da U11i vcr:o;i<h1dc Fcd l!ral de AliLgnas reflexão entre os fundamentos
Ccn\ro ele ln11.:rl!~sc Comuni lário (C IC J
Av. Louri val ML'lll tvlo1a. s/n - Campus A. C. Si môcs
- - - -1
da AD e a perspectiva da
Cilbdc Univcrsil1iri:1 , Mace ió/AI.. Ccp: 57072 -970
Con1atos: www.cdu íal .com.h r 1cont;11o @t:dul"al.co111.br1(82) J2 I-i - l l l l /I 1 1~
ASSOC IA ~/\O DRf,SIU'.!lf!.I\
1OE EDI TORi S UtJ!VERS ITAR IAS ontologia marxiana.
As armas da crítica não podem, de
fato , substituir a crítica das armas; a
força material tem de ser deposta por
força material, mas a teoria também
se .converte em material , uma vez
que se aposse dos homens. A teoria é
capaz de prender os homens desde que
demonstre sua verdade face ao homem,
desde que se torne radical. Ser radical
é aprender algo cm suas raízes. Para
o homem, porém, a raiz é o próprio
homem. (MARX, Introdução à crítica
da filosofia do direito de Hegel)
SUMÁRIO

ÀS LEITORAS E AOS LEITORES DESTE LIVRO ..... 11

ESCLARECIMENTOS INICIAIS ..... .. .. ... ..... ............. 13

CAPÍTULO 1
SITUANDO A ANÁLISE DO DISCURSO .... ..... ........ 17
O que entendemos por Análise do Discurso .. ... .. ... ......... 19
Considerações sobre discurso ...... ...... .... ....... ..... .......... ... 26
uanto à Ideologia .............. .... .. ......... ....... ..... ............ ..... 33

APÍTULO 2
A APREENSÃO DO CONHECil\1ENTO:
PROCESSUALIDADE TEÓRICO-
METODOLÓGICA ........... ... ...................... ... ... .. .... ...... 41
/\relação sujeito/objeto nas ciências humanas ........... .... 43
l !ist:ória, Sujeito e Discurso ... .......... .... .... ... ......... ... .. ...... 45
) sujeito na sociedade capitalista .......... ..... .. ... ........... .... 55

C:APÍTULO 3
OISPOSITIVOS TEÓRICO-ANALÍTICOS ....... .. .. ... 63
l iscurso e relações sociais ...... ........... .... ..................... .... 65
'ond ições de produção, formações ideológicas,
lormações discursivas ................. .... ...... .. ...... ...... .. ... ...... . 66
Interdiscurso e Intradiscurso .... .... .............. ........... ... .. ..... 78
Discurso: procedimentos de análise ... .. ........ .................. 85

CAPÍTULO 4
PRODUÇÃO DE SENTIDO E RELAÇÕES
HISTÓRICAS ............ ...... .... ... ............. .. ....................... 91 ÀS LEITORAS E AOS LEITORES
Desvelando sentidos ..... .. ................. ............. ........ ........... 93
O discurso sobre o MST na imprensa .... ......................... 94 DESTE LIVRO
O discurso e as tentativas de "controle" sobre o
trabalhador ............................... .................... ................. 107
A ambiguidade do discurso: a mulher trabalhadora e
inãe ... ..... ..................... ... ............................ .... ................ 115 A reimpressão deste livro tem sido cobrada pelas/
os leitoras/es preocupados/as com a divulgação do
conhecimento e com a prática política, há, pelo menos, dois
anos. Seus autores avaliaram a premência de realizá-la, pois
CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................... ......... ....... 125
sua ausência já estava, cada vez mais, se tornando uma lae1ma
nas aulas de análise de discursos e ·também em relação ao
entendimento dos posicionamentos tomados pelo Grupo de
REFERÊNCIAS ........................ ......... ................... ...... 127
Estudos Discurso e Ontologia Marxiana (GEDOM), ou seja,
da especificidade de nossa inscrição na linha Pecheuxtiana
ele estudos do Discurso, consolidada no Brasil.
Optamos por não fazer nenhuma modificação em
relação à primeira edição, pois embora tenhamos avançado nas
discussões teóricas e nas práticas analíticas, entendemos que a
essência de nosso lugar teórico está presente na primeira edição.
Nosso livro não é uma introdução aos estudos discursivos,
mas apresenta simultaneamente urna linguagem acessível
aos iniciantes, e levanta problematizações teóricas cm relação
à apreensão dos silenciamentos produzidos pelas relações
de classes no sistema capitalista e seus efeitos ideológicos,
Cundamentais na constituição dos sujeitos discursivos.
Esperamos que, seguindo a trajetória da primeira,
sta edição nos possibilite realçar a necessidade de
12 Análise do Discurso:
--- · -- -- --~-

compreensão da totalidade de cada discurso, decorrente


da intrínseca relação entre a determinação das relações
de produção (estrutura) e a realização do discurso
(acontecimento). Sem essa, sabemos, que os desvelarnentos
da dialética entre os fios que ligam e, ao mesmo tempo, ESCLARECIMENTOS INICIAIS
desligam posições-sujeitos na realidade social, não
conseguem ser alcançados .
Oferecemos este livro , principalmente, úqueles
analistas do discurso que, com seu fazer, buscam perceber Um galo sozinho não tece uma manhã
que sem o sujeito não há história, e que os entraves ele precisará sempre de outros galos,
das determinações sociais podem ser radicalmente de um que apanhe esse grito que ele
revolucionados . e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
Maceió-AL, setembro de 2016 os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
Tecendo a manhã

(João Cabral de Melo Neto)

Como o poema de João Cabral de Melo Neto,


este livro não resulta de uma única autoria . É tecido
por muitos fios de vozes que se cruzam, dialogam, se
omplctam, respondem umas às outras e às vezes até
polemizam. Isso se constata não apenas pela tessitura dos
c~1pítulos, resultante da contribuição dos vários autores -
que apanham "o grito de um e o lançam a outro" - mas
também pelo diálogo que esses autores estabelecem com
lifcrentcs teóricos que, de lugares diferentes, porém não
14 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 15

antagônicos, produziram significativas contribuições para Discurso, como meio de estabelecer-se urna relação entre o
os estudos da Análise do Discurso. sujeito pesquisador e o discurso - como objeto de esh1do -
Essa produção nasceu da necessidade de atender a deixando claro que tal relação só acontece vinculada a um
algumas dificuldades demonstradas pelos alunos do curso campo teórico-metodológico.
de graduação e da pós-graduação, ante a complexidade O capítulo de número três traz uma descrição teórica
desse campo de estudo. Nossa pretensão é tratar com clareza de categorias da Análise do Discurso, imprescindíveis para
e coerência questões complexas, a fim de despertar nos a compreeensão do funcionamento do discurso, no intuito
leitores a necessidade de aprofundamento de estudos na de fundamentar o leitor para as análises que se processarão
Análise do Discurso. no capítulo quatro. São, pois, dispositivos analíticos que
Outra necessidade que sentimos é a de deixar clara dão sustentação teórico-científica aos caminhos percorridos
a posição do grupo de Análise do Discurso da Universidade pelo analista, na descoberta das relações entre discurso,
Federal de Alagoas que vem desenvolvendo pesquisas em história e ideologia.
Análise do Discurso, nas áreas de linguística, educação No último capítulo, elegemos três momentos
e ciências sociais, tomando como referencial teórico- de análise, com o intuito de desvelar o discurso no seu
metodológico a Análise do Discurso, dialogando com o funcionamento efetivo nas práticas sócio-históricas . No
materialismo histórico-dialético, a partir do próprio Marx, primeiro movimento, nos debruçamos na análise do di scurso
Bald1tin e Lukács. da imprensa sobre o MST (Movimento dos Trabalhadores
Com esse intuito, no primeiro capítulo, iniciamos Rurais Sem Terra), compreendendo corno, nas repo1iagens, se
do nascedouro da Análise do Discurso, na França, na institucionalizam sentidos dominantes, tomando posição nas
década de 60, num contexto de evolução das teorias lutas de classes. Em seguida, derivamos para uma propaganda
linguísticas e de transformações no campo politico. Saindo de uma empresa de telefonia celular que lança sentidos sobre
da França, a Análise do Discurso espalha-se por diversos o trabalhador. E, por fim, analisamos a contraditoriedade do
lugares, encontrando terreno fértil na América Latina e, discurso que simula uma homenagem à mulher trabalhadora,
particularmente, no Brasil. Concebida como teoria crítica da ·nquanto se produz em seus efeitos ambíguos de sentidos.
linguagem, elege o discurso corno objeto de estudo. .Esperamos, pois, que o leitor, ao percorrer as páginas
Como todo campo de saber, a Análise do Discurso que co~npõem este livro, não somente se fundamente na
é constituída de um corpo teórico e de um método próprio, 1 ·o ria da Análise do Discurso, mas sinta-se encorajado a
pois o método, determinante de todo processo de produção ~· mpreender voos mais altos e mais arriscados.
do conhecimento científico, direciona e explicita não só o
caminho pautado pelo pesquisador, mas, também, possibilita
a obtenção de resultados efetivos. É disso que tratamos
no segundo capítulo, da questão do método na Análise do
Capítulo 1

SITUANDO A ANÁLISE DO
DISCURSO
O que entendemos por
Análise do Discurso

Em se tratando do tema referido, essa não é


uma questão fácil de ser respondida. Quando dizemos
implesmentc que a Aná lise do Discurso é um campo de
estudo ou urna área do conhecimento que tem por objeto de
estudo o discurso, estamos correndo o risco de incorrer cm
implificações ou generalizações perigosas, uma vez que
a discussão em torno do que é Análise do Discurso não é
uma questão simples nem tranquila; tampouco concluída,
principalmente, pelas diferentes interlocuções teóricas que
tem estabelecido e pelas diferentes tendências que têm
marcado seu curto espaço de existência, a partir de meados
do século XX. Podemos dizer o mesmo com relação a seu
objeto de estudo - o discurso 1
Nesse breve percurso, esse campo de saber não
apenas tem produzido um fé1iil construto teórico; muito mais
que isso : tem atravessado fronteiras , deslocado territórios,
mov imentado o campo das ciências humanas, constituindo-se
um campo transdisciplinar. Face esse movimento constante
de expansão e de transtcrritorialização, quando falamos
de Análise do Discurso hoje, é necessário explicitar de

1
Trataremos desse conceito mais adiante.
20 Análise do Discurso:
lJ/ Fundamentos & Práticas 21

qual Análise do Discurso estamos falando, pois diferentes torno da episte no\ogia, na França, pois que, como
posições teóricas possibilitam diferentes olhares sobre um afirma Marx (19 3,j) .24), "o modo de produção da vida
mesmo objeto de estudo . Em se tratando de língua e de ma~r~_dic~ o desenvolvimento da vida social,
discurso, esses lugares sinalizam diversas formas de concebê- pol~ti~a e intelectual em geral". Ou seja, toda produção
los e nos possibilitam destacar vários pontos de vista, a partir intelectual de uma época, resulta das contradições sociais
dos quais são analisados. determinantes daquela sociabilidade, de sua conjuntura
Por essa razão, mesmo quando nos referimos à Análise política e econômica.
do Discurso de linha francesa, ainda não podemos abrigar A França dos anos 60 não estava alheia ao turbilhão
sob essa denominação uma única corrente teórica, uma dos acontecimentos mundiais da época; pelo contrário, na
vez que, nos anos 60 e 80, na França, a partir de diferentes Emopa ocidental era mn dos seus centros motrizes. O desfecho
pressupostos teóricos (semiótica, linguística, lexicologia) da segunda guerra mundial dependeu exclusivamente de dois
vários teóricos franceses 2 realizavam trabalhos de análise países não situados na Europa ocidental: Os Estados Unidos
de discursos. Embora considerando de grande relevância a (não europeu) e a União Soviética (leste europeu e parte da
caracterização dessas análises, para compreender as bases Ásia). A Europa ocidental é deslocada do centro do poder
epistemológicas que sustentam essas diferentes abordagens, internacional e passa a viver as inseguranças da guerra fria.
a fim de entender as perspectivas teóricas, filosóficas e A nova ordem mundial, marcada pela disputa geopolítica
metodológicas que caracterizam os vários campos de estudos, ~dois modelos eéÕnômicos _?qtagônicos - capitalismo
não nos ocuparemos dessa tarefa, neste livro. x "socialismo" 3 - gerou uma corridã armamentista sem
Aqui, trataremos, especificamente, da Análise do precedentes. A "prosperidade" da Europa ocidental -
Discurso, fundada por Michel Pêcheux, na França, no final consequência dos investimentos norte-americanos e das
da década de 60 e de sua recepção e seus desdobramentos no inovações tecnológicas - não ocorreu sem o aumento
Brasil, a partir da década de 80. Segundo ORLANDI ( 1994, da desigualdade social, da exploração de classes e do
p.7), "a análise do Discurso [... ]é o acontecimento teórico afloramento dos movimentos sociais. Por isso, segundo
mais importante, depois do estruturalismo, na França.". CARNEIRO (2007, p. 2),
Para entender a relevância atribuída por Orlandi a
esse acontecimento , é necessário abordar alguns fatores Os anos 60 também ficaram conhecidos
que contribuíram para que ele ocorresse - as condições para uns corno a década da contestação
sócio-históricas da época e os intensos debates em e para outros como os anos rebeldes.

'Algun s teóricos marxista s questionam o uso dessa denominação para referir-se ao regime
instituído na União Soviética, a partir de outubro ele 191 7 . C f Chas in: "Da razão cio mundo
' Lé vi-Strauss , Todorov, Banhes, Grcimas, Duboi s, entre outros. 110 mundo sem razão"'.
Análise do Discurso:
Fundamentos & Práticas 23
22

As contradições daqueles anos constitutiva, isto é, seu caráter ao mesmo tempo formal e
foram sentidas por todos , desde atravessado pelo social, pela história e, consequentemente, pela
os jovens. Os livros de Karl Marx
foram popularizados. As n:azelas do
- -----
ideologia. A materialidade da língua funde-se à materialidade
- ._ - - ----
--......._____
d<01istó..ria e opera nas relações sociais. ssa relação
capitalismo eram denunciada s . Os indissociável entre língua, história e ideologia ~
valores foram questionados e os tabus É nessa conjuntura que, em 1969, Michel Pêcheux,
que b ra dos . [ ··· ] No dia 22 de maio _ele elegendo o discurso e não a língua como objeto de estudo
1968 , 10 milhões ele trabalhador~~ funda, na França, a Análise do Discurso, inaugurando
entram em greve. Foi a maior greve.Ja uma região teórica própria, tanto em relação à Linguística,
realizada na França, até então e a maior como em relação às Ciências Sociais em geral. Introduz na
ele toda a Europa. reflexão sobre a língua o sujeito, a história, a ideologia e o
inconsciente. Isso representa uma virada, um acontecimento
Além desses fatos, não podemos esquecer o ~ovimento na história das práticas linguísticas.
, . de 1968 em Paris, quest10nando o ~egunclo Orlandi, (2007, p. 2), "a Análise do Discurso
dos estudantes, em maio ' .. _
modelo de sociedade vigente, a estrutura conservadora e eh tista se constitui na conjuntura intelectual [... ] do final dos anos
da universidade francesa, clamando por mudanças. .- 60, em que a g1:9nde questão _é_a rela_çãQ.. cl-ª estrutura com a
' O impacto desses acontecimen_tos repercutrn istória, cio indivíduo com o sujeito, da língua com a fala".
mundialmente. Tod<!_essa_convulsão na cc:~rm_tura fr~i:~~~a ,
Segundo Maldidier (1997), a AD surge de uma dupla
filiação. De um lado , Jean Dubois, linguista de renome,
no fi na1 dos a
~ 60 incidiu no campo ep.1stemo cog1LOO ,
' d , b · e: de outro, Michel Pêcheux, filósofo. Ambos marxistas
onde também ocorreu um questionamento o~ ~a ete -
(Althusserianos) na contramão das ideias dominantes na
. dos dentre eles o estruturalismo remante na
estab e l ec 1 ' ' . , · d~ havia França, partilham as mesmas evidências sobre a história,
, da de 60 Também na hngmstica, on e '
França na d eca · - a luta de classe, o movimento social e têm em comum um
.d de em tomo das idéias saussunanas, o
uma aparente um a - . projeto político: "usar a arma da Linguística como um novo
estruturalismo começou a ser questionado. . - do meio de abordar a política". Entretanto, já a partir dos dois
Estudiosos passam a buscar uma compreens~o fundaçlore , a-A - segue caminhos diferentes. Na perspectiva
fenômeno da linguagem, não mais centrado ª?enas na h~gua'. de----le"an Dubois, la é pensada como um progresso da
como dizia Saussure, considerada como um s1stema de_ s_1gnos LinguÍSBca - ssa-se do estudo das palavras, da frase, para
. t. e como uma estrutura estabilizada, o estudo do enunciado, ficando a questão do sujeito falante
i·deologicamente neu 10 _ ~-
- · ·t re 1açoes presa ainda ao psicológico.
ouco sujeita a mudanças. A fala, o sujet_o, as . .,
p . . - exclusões operadas por Saussure - sao tra_z1~las pai a Na perspectiva de Michel Pêcheux, a AD é pensada
sociais , e l mttados a em oposição aos dois quadros teóricos existentes no campo
as discussões linguísticas. Os estudos, ate en ao l ' .
uma "linguística da língua"' passam a considerar sua dualidade da linguística- o estruturalismo saussuriano e o gerativismo
24 Análise do Discurso : Fundamentos & Práticas 25

chomskiano - e corno ruptura epistemológica com a ideologia que foi dito antes. Nesse arranjo sintático, o que nos autoriza
que dominava as ciências humanas - o psicologismo. Elege a classificar a segunda oração de adversativa é o conectivo
o discurso e não a língua como objeto de estudo; teoriza a mas, cuja função é conectar idéias que se opõem. Ponto final.
relação da linguística com a história e a ideologia; concebe Na perspectiva da Análise do Discurso, ao proferir
o discurso como sempre determinado, apreendido dentro de esse enunciado , não se está apenas transmitindo uma
relações que o sujeito estabelece no seu mover-se no mundo ; informaçã.o sobre Pedro - que ele é negro e bonito. Está-se
pensa a enunciação no quadro de uma teoria não subjetiva atribuindo a Pedro uma qualidade que, socialmente, não é
do sujeito. Ou seja, toda e qualquer enunciação é resultado atribuída à cor negra. Daí a escolha do operador mas. "É
t\ das relações sociais que o sujeito estabelece. O sentido ele negro, mas é bonito." Enuncia-se a partir de um lugar social
m~palavra, ele uma frase não é assegurado-- pe 9 arranjo
j/Z sintático de seus elementos. que estabelece como padrão de beleza o branco, o louro,
1 de cabelos lisos ou levemente ondulados. Nes se diálogo,
O sentidõ , afirma Pêcheux, (1988, p.60) , " não
Pedro continua sendo negro, no entanto, esse possível
pertence à própria palavra, não é dado em sua relação com
"incoveniente" é amenizado pela sua beleza. Dessa forma,
a 'literalidade do significante'; ao contrário, é cletenninaclo
o preconceito permanece, mas é suavizado discursivamente.
pelas posições ideológicas que estão em jogo no processo
Esse padrão de beleza resulta de uma construção social em
sócio-histórico no qual as palavras, expressões e proposições
que a classe dominante, cm sua grande maioria , possui essas
são produzidas.". Para explicar essa afirmação de Pêcheux,
trazemos aqui , um diálogo (ouvido em um ônibus) de duas características. Essa escolha pelo modalizador mas (que
jovens que falavam sobre seu final de semana. não é inocente) denuncia a posição, o lugar a p artir do qual
se enuncia e, a partir desse lugar, beleza e negritude são
Você foi ao Maikai, sábado? disse uma delas. antagônicas, logo, Pedro se constihli uma exceção - mesmo
- Fui - responde a segunda. sendo negro, apesar de ser negro, ele é bonito - pois a beleza
-A Paula apareceu por lá? seria, na sociedade ocidental, uma característica própria da
-Apareceu, ficou o tempo todo com Pedro. cor branca ; não da negra. /
-Que Pedro? aquele negro? Essa é a função da AQ· -~x licar os_caminhos do
- Sim, qual é o problema? Pedro é negro, mas é bonito. sentido e os meca111smos e estrutura - do-tex o Ou seja:
explicar porque o texto produz sentido; não os sentidos
Tomemos o último enunciado: Pedro "é negro mas contidos no texto. Daí que, segundo Orlandi (1996 , 60),
é bonito" . Na perspectiva da análise da estrutura, temos aí a pr~ost é!_ da AD é: "a) remeter o texto ao discurso; b)
um período composto por coordenação, constituído de uma esclarecer as relações dest-e co1:1 as Formações :Õiscu rs-ivas4, ,
oração coordenada assindética - Pedro é negro - e uma pensando as relações destas com a ideologia.
oração coordenada sindética adversativa- mas é bonito. Ora,
uma oração adversativa sugere uma oposição com relaç,ão ao 1
Essa cat egoria será desenvolv ida no ca pítulo seguinte
1
\ 1 1 ~ • ')...: {
~-tOir'. iQ.-e ~ ·~léJ..Ald, J ·--'-< ~/'Q_ 0 '_."- ,\i...Á,
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.

26 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas
27

Fundada num contexto de evolução das teorias em Pêcheux e em Bakhtin (1992, p.313), "toda época, em
linguísticas e de transformações no campo político, no cada momento histórico, em cada uma das esferas da vida
França, a AD é pensada para se constituir, ao mesmo e da realidade tem tradições acatadas que se expressam e
tempo, corno intervenção científica e _ olítica, consolidando se preservam ,sob o invólucro das palavras, das obras, dos
uma teoria rn~do discurso. É influenciada no seu enunciados". E ainda BAHKTIN (op. cit, p.319) quem afirma,
[' nascedouro por Althusser e F01:1eatÜ{'-- az;enta-se em dois
· conceitos nucleares&eologj_a e discurso. Àssim, a Análise o objeto do discurso de um locutor, seja
\ ' do Discurso fundada por Michel Pêcheux não nasce apenas ele qual for, não é objeto do discurso
t omo um simples campo d~ estudo, como mais t+i:Ha-:ir a de pela primeira vez neste enunciado, e
\ V conhecimento, mas corn~H~~ento de luta pol~ este locutor não é o primeiro a falar dele.
-1 Nesse sentido, a proposta do próprio P°êcheux 1988, p.24) O objeto, por assim dizer, já foi falado,
~ era "contribuir para o avanço dos estudos na perspectiva do controvertido esclarecido e julgado ele
diversas maneiras, é o lugar onde se
, -'~*imaterialismo hist~·ico, d" efeito das relações de classe sobre
cruzam, se encontram e se separam
o que se pode chamar as 'práticas linguísticas"'. diferentes pontos ele vista, visões de
mundo, tendências.

Considerações sobre discurso A partir daí podemos entender que todo discurso
é uma resposta a outros discursos com quem dialoaa
Com relação à concepção de discurso , há tmnbém reiterando, discordando, polemizando. Sendo produzido º'
posições divergentes, seja nas diversas áreas dos estudos socialmente, em um determinado momento histórico, para
da linguagem (Filologia, Linguística do texto, Análise do responder às necessidades postas nas relações entre os
discurso), seja nas diversas tendências ~ntr da uma homens, para a produção e reprodução de sua existência,
dessas áreas. Na perspectiva de Pêcheux, o~ ' se carrega o histórico e o ideológico dessas relações.
confunde com a língua, nem com a fala, nem com o texto; Magalhães (2003, p_]J ) também explicita sua
não é a mesma coisa que transmissào de informações, rosição, assumindo o~'enquanto "práxis humana
tampouco surge do psiquismo individual de um falante. "é ttue só pode ser compreendida a partir do entendimento das
acontecimento que articula uma atualidade a uma rede de
~ ·--·---- '0~1ções s ociais que possibilitam a sua objetivação", pois
memória[ .. .]. Todo discurso é índice de agitação nas filiações lodo discurso -tem a ver com o tipo de relação do sujeito no
sócio-histórrc;,Ú;" (PÊCí-IEUX, 2002 p.45) . prôCesso- deprodução da vida de uma sociedade.
Ou seja, nenhum discurso nasce do nada, mas de um Não há, pois, discurso neutro ou inocei1te uma vez ue
trabalho sobre outros discursos. Essa afirmação apóia-se no p1:?duzi-l_o, o sujeito o faz~tirdc~i"m-Tug-;;-~ial, de
Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 29
28

uma perspectiva ideológica e, assim, veicula valores, crenças, mercados e tem como efeito a manutenção da visão maniqueísta
visões de mundo que representam os lugares sociais que ocupa. :fimdamental para a reprodução capitalista.
, . C\ . •ç\C Numa fase bem anterior a Pêcheux, em_ l 9_ '?:_9/ Essa perspectiva teórica que propõe um novo
olhar para o sentido, o sujeito e a história , introduz
~ ·,' · Bakhtin (1981, p.4l)já afirmava que" s palay~das
questionamentos, não apenas nos estudos da linguagem,
(âJ?artir de uma multidão de fios ideológico~ ~serve121 de
mas, também , no âmbito das ciências humanas , espalha-
trama a todas as relações soci!'lis". É ainda de Bakhtin (Idem,
se por inúmeros lugares, especificamente na América
p. 47), a afirmação de que "toda crítica viva pode tornar-se
Latina e encontra terreno fértil no Brasil. Na França,
elogio, toda verdade viva não pode deixar de parecer para
entretanto, por conta das mudanças históricas ocorridas
alguns a maior mentira". nos anos 80, dos embates dentro do próprio Partido
Explicando essa citação de Bakhtin: no episódio da cornun!sta francês entre althusserianos, garaudyanos 6
destruição das torres gêmeas de 11 de setembro de 2001, o e do desaparecimento de Michel Pêcheux, inicia-se
então presidente dos Estados Unidos, em tom de indignação um processo de desconstrução e de reelaboração dos
declara para o mundo, via televisão: "De hoje em diante, trabalhos franceses em Análise do Discurso.
estamos deflagrando uma guerra - será uma guerra do bem Assim, enquanto na França a AD fundada por
contra o mal.". Ora, naquele momento, quem é o bem na Pêcheux inicia um processo de re-elaboração que culmina
perspectiva da posição do presidente Bush? Os Estados com a suspensão do projeto iniciado por seu fundador e a
' Unidos que, naquele momento, aparecem para o mundo sa ída do althusserianismo, essa corrente chega ao Brasil onde -
como vítima de agressões terroristas. Quem é o mal ? Esse encontra aceitação - tanto no que se refere aos estudos da
é representado pelos agressores - os terroristas. Entretanto, linguagem, quanto à perspectiva teórica de Althusser.
na perspectiva dos países, que veem as ações terroristas /~ A grande contribuição para sua consolidação no
como estratégia de se contrapor às retaliações do governo 1 rasil parte de Eni P. Orlandi. "A AD se instih1cionalizou )

americano, eles são o bem que combate o mal, representado ' nquanto disciplina, como paiie dos cunículos de graduação
pelo "imperialismo norte-americano". Logo, o sentido de pós-graduação, representando organismos de pesquisas
bem ou mal é produzido em função da perspec!~co­ o que garantiu a estabilidade institucional "(ORLANDI,
2007,p.85). Ainda, segundo a referida autora, (op. cit, p.81),
ideológicã de ca da enunciante.
Esse jogo discursivo se ancora nas relações sócio-
econôrnicas contemporâneas de busca de controle dos

' Quare nta anos antes de os teóricos francese s co meça rem a questionar o estruturali smo " Os althusserianos criti cava m a validade elas posições do PCF que sustenta va n lese do
sau ss uriano, o russo Michail Bakhtin, na então União Soviética, jú publicava Marxismo 111nrxismo humani sta. Os intcleclu ais li gados a Garaudy cri1i cava 111 o afn starn cnto que os
e lilosofia da lin guagem, questi onando Sai1ss ure e desenvolvendo uma teoria marxi sta de 1dlhu sscrian os rea li zavam ern rela ção à prá tica co ncreta , encerrando as teses nrnrxislas
d ·111ro de urn tcorici srno anti-humani sta.
linguage1n .
30 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 31

No Brasil, a análise do discurso entre o político e o teórico, com os americanos e com os


institucionaliza-se amplamente - não europeus. [... ]Os pontos de atrito, diferentemente da França,
sem algumas resi stê ncias, alguns são com a relação sujeito/língua/ideologia", abordada a partir
antagonismos. [ .. .] Na contramão,
de interlocuções estabelecidas com teóricos de diferentes
há aqueles que, incompreendenclo
ancoragens, resultando em diferentes filiações. Há grupos
a relação ela análise do discurso
com a linguística (relação que é ele de pesquisas que se mantêm fiel às elaborações teóricas
'pressuposição') pretendem 'preservar', de Michel Pêcheux; há os que, embora afetados por essa
tal qual, a linguística - e os formalismos filiação, estabelecem interlocuções com a Nova História,
dominantes - e há os que, inscritos com a Psicanálise e com o Materialismo Histórico Dialético.
na filiação linguístico-discursiva [ ... ] Corno diz Silva Sobrinho (2007, p. 32), "é necessário tomar
reconhecendo e deslocando o corte partido dentro da Lingüística pela AD, e, em seguida, tomar
epistemológico saussuriano, procuram partido dentro da AD". 7
compreender a relação entre a linguística Nesse sentido, na Universidade Federal de Alagoas,
e a análise do discurso no quadro das
o grupo de estudos em Análise do Discurso, desenvolve
relações de entremeio, elaborando
suas contrndiçõcs. Os que pretendiam/
pesquisas nesse campo de estudo, articulando essa teoria
pretendem que a teoria do discurso com a perspectiva ontológica Marxista, e, como as leituras
não pode (não deve) produzir um do mar~ismo não são homogêneas, é importante explicitar
deslocamento de terreno dos es tudos os teóricos marxistas com quem estabelecemos interlocução
linguísticos mantinham/mantêm - Lukács, Bakhtin. Esses teóricos , a nosso ver, produziram
componentes da reflexão que vem de ontribuições relevantes para a AD, no que concerne às
dois campos afins: a pragmática (os atos "' concepções de língua, ideologia e sujeito.
de linguagem) e a teoria da enunciação. Em sua obra Marxismo e Filosofia da linguagem, _...,, f._;, '--
Bakhtin critica os dois marcos teóricos que orientaram r~ ,:_
Toda produção científica é resultado da busca de a linguística de sua época: o subjetivismo idealista e o À~.._
respostas para questões postas pela realidade, logo, nenh~1ma objetivismo abstrato. Na ótica do subjetivismo idealista, o "?. "
produção surge do nada , mas de um trabalho sobre o objeto, f'undamento da língua é o ato de criação individual; as leis \ S.
no sentido de reproduzi-lo ou no sentido de transformá- da criação linguística são as leis da psicologia individual; o ,~ ·"'
lo mediante um trabalho de (re) elaboração conceitual de p iquismo individual constitui a fonte da língua; a língua é mnar:;
'
ruptura. Com relação às pesquisas em Análise do Discurso atividade, um processo criativo ininterrupto que se materializa '
no Brasil, é possível perceber esses dois movimentos , sob a forma de atos individuais de fala ; a criação linguística -
produzindo efeitos. É ainda Orlandi (op.cit, p.80) quem
afirma que, no Brasil, a AD surge de "uma relação híbrida 1 (!rifo nosso.

j
32 Análise do Discurso:
Fundamentos & Práticas
33

é análoga à criação artística. Para o objetivismo abstrato o


comunicá-las, portanto, [ ... ] forma um
centro organizador da língua é o sistema linguístico. As leis complexo total onicompreensivo, sólido
da língua são leis linguísticas que estabelecem ligações entre e sempre tão em movimento quanto a
os signos linguísticos no interior de um sistema fechado. A própria realidade social que reflete.

~ É a essa concepção de língua enquanto atividade


língua é tida como um sistema estável, imutável de formas
linguísticas submetidas a uma norma fornecida tal qual à
consciência individual. As ligações linguísticas nada têm a ver especificamente humana, concreta, histórica que nos filiamos.
com valores ideológicos. Contrapondo-se a essas orientações, Líng~ia enten~ida como uma entidade inacabada, imprecisa,
BAKHTIN (1981, p.123-124) afirma que a língua é expressão amb1gua, CUJOS elementos assumem funções sintáticas
das relações sociais. Vive e evolui na interação social. e configurações semânticas não de todo definidas nem
defini~ivas, o que implica poder observar sua incompletude.
A verdadeira substância da língua não ~u seJ_a, as_ palavras, embora podendo conter significados trans-
,_
é constituída por um sistema abstrato s1tuac:onais, produz_em sentidos específicos, quando utilizadas
de formas linguísticas nem pelo ato em d1fer~n~es posições ideológicas. Como se produzem /

psicofisiológico de sua produção, mas essas pos1çoes? Para responder a essa pergunta teremos de
pelo fenômeno social da interação verbal , desenvolver, ainda que sumariamente, o conceito de ideologia.
realizada através da enunciação .[ ... ] As
leis ela evolução linguística não são leis
ela psicologia individual, mas também não Quanto à ideologia
podem ser divorciadas da atividade dos
falantes. As leis da evolução linguística
são essencialmente leis sociológicas. Reiteradas vezes encontramos, em livros que tratam desse
tema, uma adve1tência a respeito das mais diversas possibilidades
de entendimento e utilização do te11110. Michael Lõwy apud
Consideramos importante também acrescei-, aqui,
Konder (2002, p. 9) c01rnbora essa afinnação quando diz que,
uma interlocução com Lukács, ( 197 6), para quem a língua
medeia tanto a troca orgânica da sociedade com a natureza,
existem poucos conceitos na história
como as relações dos homens entre si e se renova, na vida
da ciência social moderna que sejam
cotidiana, guiada pelas mais diversas necessidades reais que
tão enigmáticos e polissêmicos como
emergem nessa última. Diz Lukács (op. cit, p.80), esse de ideologia. Ao longo dos últimos
dois séculos ele se tornou objeto de
A língua é um complexo em si, [ ...] que acumulação incrível de ambigüidacles,
acolhe todas as manifestações ela viela paradoxos, arbitrariedades, contra-
humana e dá a elas uma figura capaz ele sensos e equívocos.
34 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 35

Não é nossa intenção, aqui, mergulhar nesse emaranhado trabalho revela, como sua condição sine qua 1zo11, não apenas
de sentidos e controvérsias. Trataremos apenas da perspectiva a reprodução de sua "qualificação", mas também a reprodução
de ideologia à qual nos :filiamos sem tecer comentários sobre de sua submissão à ideologia dominante ou da prática dessa
as demais concepções. No máximo, algumas questões pontuais ideologia, pois é nas fomrns e sob as formas de sujeição
sobre a utilização desse conceito dentro da AD e os principais ideológica que se assegura a reprodução da qualificação da
pontos de permanente tensionamento. fôrça de trabalho. Isso equivale a reconhecer "a presença de
Criado pelo filósofo Destrutt de Tracy, em 1801, (para urna nova realidade: a ideologia." Althusser (1987, p.85)
designar a análise das sensações e das ideias) na obra E!ements Para explicar o funcionamento dessa "nova realidade",
de idéologie, o termo ideologia nasce como sinônimo da Althusser (Idem, p.85) formula três teses. Primeira, "A ideologia
atividade científica e tendo por função analisar a facu ldade é uma 'representação' da relação ima inária dos indivíduos
de pensar, devendo constituir-se o fundamento de todas as com s~011aições de existência.". Essa tese acé~tua
ciências. A partir ele então, o termo tem sido abordado sob o caráter imaginário da ideologia, como podemos constatar a
variadas nuances e diferentes perspectivas teóricas. partir da afirmação de Althusser (op.cit. p.88): "Toda ideologia
Segundo VAISMAN (1989, p.17), representa, em sua deformação necessariamente imaginária, não
as relações de produção existentes [... ] mas sobretudo a relação
embora em algumas abordagens o termo (imaginária) dos indivíduos com as relaçõe_s de produção e
ideologia tenha sido trntado a partir de demais relações daí derivadas". ·. . .,;. ~ l ' '
uma fundamentação ontológica, n grande Vale ressaltar q - --imaginário , sentido supracitado,
maimia dos trabalhos sobre o assunto - dos não se refere a irreal, mas a um conjunto de imagens, ou seja,
mais consistentes e densos teoricamente o modo através d ual os ho..Q1ens cJi 111 formas simbo icas
até os mais débeis exemplares da flexão de~entaçã9 da~laçã~-;om a realicia e concreta
política - tem como denominador crnnutn - as coisas, o bem e o mal, o justo e o injusto, o certo e o )
o fato de tornar a questão ideológica a ~ --
errado, os bo~ os mauscosh.lm ~s etc. Para explicar porque
)
partir do ptisma gnoseológico. a representação dos indivíduos "de sua relação individual )
co m as relações sociais que governam suas condições de
Ou seja, segundo a autora, o tratamento do tema existência" é necessariamente imaginária e qual a natureza
tem estabelecido um vínculo estreito com a problemática desse imaginário, Althusser (idem) formula sua segunda
do conhecimento critério gnoseológico. A seguir, traremos lese: ~o_gLa tenú1ma existência material' . Ou seja, as
alguns teóricos que tratam a questão da ideologia, a partir representações imaginárias não têm uliiãeXistência espiritual, ...
de perspectivas diferentes - Althusser (perspectivas mas material, concretizada nos aparelhos ideológicos do
gnoseológica) e Lukács (perpectiva ontológica). Estado (reli ioso jurídico, escolar, familiar etc) e em suas
Em sua obra Ideologia e aparelhos ideológicos de práticas. Sobre a refé"ilda te se, oãl.itOC-(ibidem. p. 90), nos
Estado, Althusser afirma que a reprodução da força ele l'ornece a seguinte explicação:
36 Análise do Discurso:

Um indivíduo crê em Deus, ou no Dever,


\,;.~ '-~
,l,~' ~.,1.:-' l
'vº
'
*
Fundamentos & Práticas

esse sentjdo, paitiU!_ando a opinião de Vaisman (1989),


_.--..i.-- -
37

ou na Justiça, etc. Esta crença provérn ser su·~n ~feito de sujeição ã ldeOTõgíã:Na perspectiva
[... ]elas idéias do dito indivíduo enquanto das teses altlmsserianas, é, ríols, sob a forma de interpelação do
sujeito possuidor de uma consciência indivíduo, como sujeito ideológico, que a instância ideológica
na qual estão as idéias de sua crença. A
contribui para a reprodução das relações sociais.
partir disso, [... ]o indivíduo em questão
Na abordagem Lukácsiana, o fenômeno da ideologia
se conduz de tal ou qual maneira, adota
é analisado sob o fundamento ontológico-prático. Segundo
tal ou qual comportamento prático, e o
que é mais, participa ele certas práticas
Vaisman (op.cit.18)
regulamentadas que são as do aparelho
falar de ideologia em termos ontológico-
ideológico do qual 'dependem'.
práti cos significa analisar esse
fenômeno essencialmente pela função
Ou seja, a ideologia existente em um aparelho id~ológico social que desempenha, ou seja,
prescreve práticas, reguladoras de rituais materiais que: ~1a enquanto veículo de conscientização
perspectiva a1thusseriana, passam a existir nos atos (rnatenms) e prévia-ideação da prática social dos
de um sujeito. Por exemplo: se o individuo crê em Deus ele homens. (Grifo nosso).
cumpre os rituais prescritos pela religião; se ele crê n~ justiça
ele se submete, sem discussão, às regras do direito, etc. E a partir Essa concepçã9_ de ideologia apóia-se na noção
desse entendimento que Althusser extTai a noção de sujeito e de h~m como um ser prático que reage às demandas
formula sua terceira tese, considerada or ele, central: (op. cit.) vos!_?s pela realidade objetiva, um ser que dá respostas a
~eologia inter~cla os i~~i vídL;os c~q;~ant.Q_Sujeit~~. As_si1~;: necessidades determinadas. Segundo LUKÁCS (1978, p.5),
através o mecamsmo da mterpelaçao , a 1deologia recrnta
ou transforma indivíduos em sujeitos. Nessa perspectiva, a O homem torna-se um ser que dá
função da ideologia é não só constituir indivíduos em sujeitos, respostas, precisamente na medida em
mas também, conduzir sua auto-sujeição. que - paralelamente ao desenvolvimento
Segundo Pêcheux & Fuchs (1997, p.166), social e em proporção crescente - ele
generaliza, transformando em perguntas
isso ocorre de tal sorte que cada um é seus próprios carecimentos e suas
conduzido, sem se dar conta, e tendo a possibilidades de satisfazê-los ; e,
impressão de estar exercendo sua livre quando, em sua resposta ao carecimento
vontade, a ocupar o seu lugar em uma que a provoca, funda e enriquece a
ou outra das classes sociais antagôn icas própria atividade com tais mediações,
do modo de produção. frequentemente bem articuladas.
38 Análise do Discurso:
Fundamentos & Práticas
39

Ainda segundo Lukács (op.cit. ), a produção e reprodução "tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo
da existência dos homens em sociedade é um processo que se dá fora de si mesmo. Em outros termos tudo que é ideológico é
a partir de posições teleológicas, que são uma especificidade do um signo . Sem signos não existe ideologia."
ser social. Ou seja, só o ser humano é capaz de pré-estabelecer O funcionamento da ideologia se dá, pois, nas relações
um fim para seus atos e antever o resultado de sua ação. Essas sociais ~ e abrange as etermhfações de classe (na
posições teleológicas recebem, de acordo com seu nível de sociedade capitalista) e os horizontes culturais dos integrantes
complexificação, a denominação de "primárias" - rquelas de l~11a formação social, urna vez que a culhtra é a condição
em que o homem transfom1a a natureza para responder às dada para consolidação e desenvolvimento da ideologia.
necessidades de sua sobrevivência (comer, proteger-se dos - A partir desse entendimento de ideologia qu e
efeitos naturais) e "secundárias" - as que orientam as ações assumimos, podemos afirmar que o processo de constihtição
dos homens entre si, induzindo-os a assumirem posições (de dos sujeitos, não ocorre da mesma forma, mas através de
mando, de subordinação, de cooperação, de contestação, de diferentes formas específicas de ideolo ia. Essas formas
adesão, de resistência etc.), frente a situações postas por urna ' pecíficas são denominadas d~ fonIJa ões _ideológicas ,
fmmação social. É das posições teleológicas secundárias nas uma das categorias centrais da Análise do Discurso que será
quais se realiza "a prévia-ideação da prática social dos homens", trabalhada nos próximos capítulos.
no sentido de influenciar outros homens a assumirem posições,
que surge a ideologia.
É oportuno também lembrar o que nos diz Bakhtin
(1981.p.35) sobre essa questão:

a ideologia não pode derivar da


consciência, como pretendem o idea lismo
e o positivismo psicologista. A consciência
adquire forma e existência nos signos
criados por um grupo organizado no curso
de suas relações sociais.

Para esse autor, tanto um corpo físico, um instrumento


de trabalho e um produto de consumo fazem patie ele uma
realidade, mas diferente desses, o produto ideológico, além
de fazer parte de uma realidade também reflete e refrata uma
outra realidade. Nesse sentido, afirma Bakhtin (idem, p.31)
Capítulo 2

A APREENSÃO DO
CONHECIMENTO:
,
PROCESSUALIDADE TEORICO-
METODOLÓGICA

1 1
1

1:
A relação sujeito/objeto nas
ciências humanas

O principal marco delimitador entre o


conhecimento não científico e o científico está vinculado
ao esclarecimento da processualidade que dá origem a
um novo conhecimento, isto é, o método empregado para
o dcsvclamcnto da realidade. O método ele urna pesquisa
precisa esc1areccr com objetividade sua vinculação com
o escopo teórico que sustenta o pensamento teórico
nortcador do trabalho e , ao mesmo tempo , mostrar a
forma utilizada, o caminho percorrido pelo pesquisador
para explicar o objeto ele sua investigação.
Percebe-se no parágrafo anterior que há uma relação
entre o sujeito (pesquisador/cientista) e a realidade a ser
estudada, que terá como mediação o método da investigação.
O método de uma pesquisa não surge a partir do sujeito que
onhcec, como se fosse urna escolha pessoal do investigador;
sua determinação é dada pela vinculação ao campo tcórico-
metodológico ao qual se fi li a o pesquisador8 .
Estamos enfatizando que a supjetividade que vai
nduzir_o processo está submetida ou à !~ idealista

1 Muitas vezes o pesqui sador não lcm consciênc ia pl ena dessa vinculação e ac redi ta qu e
11 escolha do n1 é todo é uma opção pessoal.
44 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 45

(que prioriza a ideia sobre a matéria) _ou à lógica l~!e~ia}_is'ta Todavia não é suficiente afim1ar que o
(que_prioriza a matéria sobre a ideia) de abordagem do real. mundo dos homens é uma síntese de
,•,
Cada--Ürna (!ess as vertentes condL1zirá a pesquisa para a ideia e matéria. Pois isso pode levar ao
necessidade de procedimentos que respondam às exigências equívoco de cancelar a prioridade da
do pensamento adotado. matéria sobre a ideia, em dois momentos
No caso particular da Análise do Discurso francesa, fundamentais. O primeiro fato é que a
peucheutiana, sua filiação ao materialismo histórico-dialético matéria é anterior à ideia; que a natureza
deve levar seus pesquisadores a buscarem o discurso em
---· ·- -
existia antes de os homens surgirem;
sua processualidade histórica. Isto significa que o analista ~e a ideia é um desenvolvimento

não pode se restringir apenas à materialidade empírica do tardio da matéria. O segundo é que,
em se tratando ela reprodução dos
discurso e nem tomar ideias abstratas que circulam nas
homens , as determinações materiais
sociabilidades, mas tem que tratar os discursos como prática
(que são fundadas prioritariamente pelo
ele sujeitos, no seu fazer histórico-discursivo, buscando a
desenvolvimento das forças produtivas)
posição do sujeito discursivo, pois,_para esse método , constituem o momento predominante das
ideias. (LESSA E TONET, 2008, p.44) .
o mundo cios homens nem é pura
ideia nem só matéria, mas sim uma
Essas colocações ele Lcssa e Tonet se contrapõem à
síntese de ideia e matéria que apenas
acusação, sempre presente, ele que o materialismo histórico-
poderia existir a partir da transformação
da realidade (portanto , é matéria)
conforme um proj e to previamente
__
dialético não dá importância devida ao papel cio sujeito cm
sua teoria. Como vamos discutir mais adiante , Marx confere
icleado na consciência (portanto, possui à.._subietiv.i.dacle uma ênfase que faz com que essa categoria
um momento ideal). (LESSA e TONET, se.' a rqponsável pela possi bilidade de mudança da realidade.
2008, p.43 ).

Não obstante essas duas instâncias - a ideia e a História, Sujeito e Discurso


matéria-formarem uma totalidade, é necessário frisar, desde
o início, que há uma precedência da objetividade, como há Nesse momento abordaremos o lugar do sujeito na
urna precedência do corpo em re1ação à consciência e ao AD, enfatizando sua radical historicidade, isto é, o sujeito
inconsciente, como afirmam Marx (2004) Leontiev (2004) ' sempre o sujeito de seu tempo e de sua sociabilidade.
e Freud (1976), cada um em seu ramo ele estudo, mas todos Esse sujeito será construído através das práticas sociais
indo além da noção de síntese entre essas duas instâncias. ela ideologia que darão as bases do complexo psíquico
de indivíduo.
46 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 47

A discussão teórica a que nos referimos acima para mover-se


é belamente representada no Poema Sujo,- de -Ferreira sentar-se
Gullar, que faz a relação entre a materialidade corpQrea e levantar-se
as determinações so~iaís que condicionai11 â .íwodução da meu corpo de 1.70111 que é meu tamanho no mundo
subjetividade. Matéria corpórea e sociedade constituindo o meu corpo feito de água
ser social. V ejarnos alguns versos: e cmza
que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio
e me sentir misturado
Do corpo. Mas que é o corpo?
Meu corpo feito de carne e osso . [... J
Esse osso que não vejo, maxilares, costelas
Flexível armação que sustenta no espaço mas sobretudo meu
Que não me deixa desab::u- como Lm1 saco corpo
Vazio nordestino
. .
que guarda as vísceras todas mais que isso
funcionando maranhense
. .
como retortas e tubos rna1 s que 1sso
fazendo o sangue que faz a carne e o pensamento sanluiscnsc
mais que isso
e as palavras
ferre irense
e as mentiras
newtoniense
alzircnse
[.. .J
meu corpo nascido numa porta-e-janeía
dos Prazeres
Meu co rpo
ao lado da padaria
que deitado na carna vejo sob o signo de Virgo
corno um objeto no espaço sob as balas do 24 / BC
que mede 1.70111 na revolução de 30
e que sou eu: essa coisa deitada
barriga pernas e pés [ ... ]
com cinco dedos cada um (por que
não seis?) O poeta parte da materialidade do corpo para as
joelhos e tornozelos tktcrminações sociais que envolvem a familia, os lugares
48 Análise do Discurso: Funda m e nt os & Práti cas 49

e a história do povo. Essa é a síntese da materialidade da são essas características que fazem do corpo orgânico um ser
subjetividade que só pode pensar tendo um corpo e que não humano. Finalmente, demarca o tempo histórico e o lugar de
pensa o que quer porque está submetida às determinações nascimento, que vêm incorporar-se ao corpo matéria, ao sujeito
da materialidade social, mas que é capaz de criar outras de uma fami lia e agora ao sujeito de uma sociabilidade específica:
materialidades, como nos prova esse belíssimo poema ao
fazer a vincu1acão sem el iminação das características de meu corpo nascido numa po1ia-e-janela dos Prazeres
' '
cada uma, entre a materialidade corpórea, ao lado da padaria
sob o signo de Virgo
Meu corpo de 1.70 é meu tamanho no mundo sob as balas do 24 / BC
Meu corpo feito de água na revolução de 30
E cinza
Uma porta e janela e não uma casa com eira e beira,
e as determinações histórico-sociais que prendem esse corpo tão comum no Maranhão dos anos trinta, destinada aos
a uma familia, uma ascendência com sua historicidade: abastados, mas uma casa de porta de rua, de uma família
que está submetida às balas provenientes do quartel , sempre
mas sobretudo meu submisso aos poderes maiores da ditadura Vargas.
corpo Essas são a lgumas das variáveis que se tem de levar
nordestino em conta, quando se pretende compreender o lugar do sujeito
do discurso e dos efeitos discursivos da sua práxis.
mais que isso Segundo a onto logia de Marx, o ser social tem corno \ i.- -
maranhense pr~ssualidadc de sua reprodução a criação do novo, isto ~~-
é, a_ marca elo sujeito humano é criar o novo, a partir do já \
mais que isso constituído.
sanluisense Nesse sentido, para Marx, cada ato do sujeito
indiv idual 9 , que é o único que tem possibilidade do pôr
mais que isso tcleológico 1º, de pressupor, necessariamente, uma avaliação -\ r
ferreirense ª
consciente obr~ objetividade, que não significa eficúci a
newtoniense
alzirense ''S ujeito indi vi dua l dete rm inado pelns re lações de produçfio de urnn dada rea lidnd e e
submetido ús pr<ix is ideo lógica s de sua hi storicid ade , e ao seu in co nsc iente .
'ºA capac idade de impri mi r uma marca na realidade através de prévias-ideações, que
O próprio poeta aponta, com o uso da adversativa, o que se ma nifestam a pa rtir da necess idade de agir sobre a objetividade, isto é, pensa r co m o
é mais importante na definição do corpo (mas sobretudo), pois obj etivo de agir. Por exemplo: Planejar uma mesa a ntes de fazê-la.
-\ '
Fundamentos & Práticas 51
Aná lise do Discurso:
50

garantida nem controle sobre a objetivação empreendida, [ ... ]


pois nem a objetividade pode ser abarcada em todas as O que existe transcende para mim o que
suas dimensões, nem o inconsciente pode ser inteiramente julgo que existe.
A realidade é apenas real e não
controlado pela consciência.
Para Marx, a objetividade é atividade humana pensada.
concreta sobre a realidad.~ Por i~so ele afirma ernA ideologia
alemã (1998) que o homem faz história. Para Chasin, na [ ... ]
primeira tese so~Feuerbacl1, Marx está dizendo que: ASSIM COMO falham as palavras quando
querem exprimir qualquer
A forma do mundo, ela coisiclade do pensamento.
mundo, tem, na sua essência, a forma da Assim falham os pensamentos quando querem
subjetividade. O objeto da mundanidade exprimir qualquer
humana é nma subjetividade tornada realidade.
objetiva , ou melhor, a mundnniclade Mas, como a realidade pensada não é a dita,
humana é uma objetividade na forma mas a pensada.
de subjetividade. O real tem forma Assim a mesma dita real idade existe
'
subjetiva. É a subjetividade que está nas simplesmente existe.
coisas. (CHASIN, 1999, p.103).
Nos primeiros versos o poeta faz a relação a partir da
No caso particular do discurso, essa lógica não se distinção de dois momentos da objetividade: a realidade que
altera. O discurso é a objetividade feita subjetividade, através 1.: xiste independente da subjetividade e a realidade pensada
de um pôr social feito de lingLtagern. que pressupõe um sujeito que reflete sobre a mesma realidade.
Essa é a grande marca da originalidade do pensamento
de Marx: a conversão da subjetividade em objetividade. Há um O que existe transcende para mim o que julgo que existe.
trânsito dialético entre objetividade e subjetividade, que não se A realidade é apenas real e não pensada.
conftmdem, mas que estão presentes na realidade. "Paca Marx
o mundo real, objetivo, concreto, sensível, efetivo, tem a forma Em seguida, o poeta adverte para uma nova relação:
da subjetividade" (Chasin,1999, p. l 04). Os versos de Albc1to n da realidade pensada (ainda no interior do sujeito) e a
1 'alidade dita, isto é, produzida por uma práxis que torna
Caeiro nos mostram como é possível essa relação dialética
que traz a criação do novo pela subjetividade, a impo1tância nhjctivo o que havia sido apenas pensado: "Mas, como a
1 ·:li idade pensada não é a dita, mas pensada."
da linguagem e a precedência da objetividade.
Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 53
52

É dessa realidade que tratam os analistas do discl:~·so, é a produção do novo. Tanto há transformação quando de
aquela füta-âe discurso, isto é, uma subj etividade objetivada, uma árvore se produz uma casa, como quando se constroem
como a:finua Pêcheux (1988). discursos que contribuem para a mudança da subjetividade,
Enfim, podemos sintetizar dizendo que o objeto de que passará a agir sobre a realidade posta de forma diferente.
estudo da Análise do Discurso, se constitui nesses processos Embora dê ênfase à subjetividade, enquanto
tão bem explicitados pela poesia. Algo que parte de um transformadora, para o materialismo histórico-dialético, os
pensamento prévio de um sujeito (hist~rico-soc.ial, ~ue sofre critérios de verdade são sem pre objetivos, pois a subjetividade
todas as determinações que essa condição lhe impoe) e que tem o poder de mudar a realidade, de captar a realidade,
se materializa em um discurso. E como di z o poeta - "Assim mas ela depende da lógica dessa mesma realidade, para
a mesma dita realidade existe, simplesmente existe" . conseguir realizar essas duas atividades. Não há nenhuma
Outra questão fundamental, tanto para o autonomia plena da subjetividade, que é determinada pelas
materialismo histórico-dialético corno para a Análise relações sociais e que escolhe as alternativas apresentadas
do Discurso, se refere à capacidade que só o ser social pelo seu tempo histórico. Por mais _iq_d ividuais que pareçam
possui ele imprimir uma finalidade a sua práxis . Estamos ~ escollias do suj eito elas são sociais. Embora o sujeito,
chamando atenção para o pôr teleológico de qualqu er na maioria das vezes, tenl~ ilusª-o de autonomia, em
prática humana, inclusive a discursiva. f:i.?Ciedades divididas em classes, todas as escolhas, das mais
Nesse sentido é que precisamos fazer um resgate na pessoais - como a quem se pode amar, até as econômicas, à
11 forma de exp !orar o traba lbado r - são determinações sociais.
teoria do discurso do ser consciente •
No entanto, nenhuma realidade oferece apenas urna
O po nto ele partida de Ma r x são all.ernativq, e é nesse espaço de escolha que a subjetividade
bornens dotados de consciência. Não e ~~a capacidade de produzir o novo cm todas as práticas
há atividade humana se m consciência, h ~~ inclusive a discursiva. Entende-se, pois, a afirmação
sem subjetividade. Não há ato hum ano da concepção rnarxiana de que_a vicia individual e a genérica
sem consciência. [ .. .] o homem não é não co_nstituem entidades autônomas que se relacionam,
meramente um ser racional ou um ser mas, ao contrário, são partes de um todo impossível de ser
dotado de alm a ou um ser a quem se di ssociado . Na verdade, não há individl!_ajidade. sem gênero
atribui algum princípio, mas o homem é llurn_.9J10, como não há gcncriaãCfe s em indivíduos capazes
atividade (CI-IASIN, 1999, p. l 08/1 1O). dt.: se_r.econhecerem como tais, e por isso conscientes de seu
l'i-;la.I:::.l10-mundo 12 • Nas palavras ele Marx,
A atividade (prática humana) é transformadora , já
que a lógica de reprodução do ser social, corno já foi dito, 1 ' l\s lc tema se r{i desenvolvido mai s adiant e. No cntanlo, é important e se destacar, desde já,
'!"'~ cssc contínuo é qu e marca a cli ícrcnça entre uma ind ividua lidade que não consegu irá. se
ili' lucar do cotidiano, de outra que scró capa?.., por c.xcmr lo, de produzir uma obra prima.
N ilo estamos focaliz;1nclo ainda o papel do in consciente na íornrnçiio da indi vidua lidade,
p11i s que remos aqui dar ê nfa se ao papel da co nsciên cia nas práticas humanas.
11 Que r-:flcte, põe finali<la<l e nas açõ-:s.
Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 55
54

A vida individual e a vida-espécie não assumidas pela coisa: a mercadoria


são coisas diferentes , conquanto o o dinheiro, o capital , etc. É com~
modo de existência da vida individual ~~sª§_ c0..11di_ções de estruturação
seja um modo m a is específico ou histórica surgisse a figura de um grande
mais geral da vida-espécie, ou a vida- sujeito, um Sujeito que põe sujeitos. E
espécie seja um modo mais específico estes últi ~s - su· e ito_~__físiç_qs - não
ou mai s geral ela vida individual se determinam senão corno máscaras
m~ personificação do grande Sujeito: o
(MARX, 2001, p.1 25).
cap ital , a mercadoria, o dinheiro, etc. É
a própria coisa que se dá como sujeito,
O que queremo s cnCatizar com essa di sc ussã o é
a e ºgir.._c_Q mportamentos adequados
a importância dada à subjetividade pelo materialismo à re a lização de suas determinações
histórico-dialético. Não estamos falando de -um sujéito formais. (MARX, 2001, p.125).
idealista que pode tudo e comanda o mundo , apenas, atrãvés
de seus desejos e vontade, mas ele tii11 sujcifo -aaêin1inado E acrescentaríamos: mas reagem diferentemente,
por uma 9bjeti '!jclade, que introduz as n.1arcaB_das relações c!ependcndo elas formações inc-onscicntcs ele cada indivíduo.
sociais através ga i~~ol ~gia _que, por sua vez, desencadeia E ess e sujeito determinado pela s relações de class e de
ª inculcação incon sciente cm cada individuo. t C omo ~eu ~empo, interpelado pela ideologia e atravessado pelo
Marx (2001) diz, a cada tempo e espaço soc ial cabe uma ~nconsc1ente que Pêcheux traz para os estudos linguísticos
individualidade que reage às determin ações, a partir das isto é2 uma subjetividade objetivada, passível de se;.
possibilidades da própria objetividade e da forma como foi ·ornpreendida cientificamente.
13
elaborado individualmente pelo complexo psiquico de
cada um.
Corno ressalta Marx, ao se referir ao mundo r egido O sujeito na sociedade capitalista
pelo capital, a individualidade está sempre submetida à lógica
desse sistema: Embora as questões discursivas não digam respeito
Sob as condi ções ela produção elo 1pcnas à sociedade capitalista, mas fonnem um corpo teórico-
capital, como suj eitos físicos, significa
111et_o dológico ele explicação do fenômeno discursivo, foi a
precisamente qu e eles são po st os
.·oc1edade_ contemporânea, com todas as suas contradições
enqu anto ta is, sujeitos, pela s formas
l' ·o nhec1mento acumulado , que possibilitou a Pêcheux
l' lllpreender os estudos que resultaram na AD frances a.
< 'o mo vimos, essa compreensão vai busca r no materialismo
"Es trutura ps íquica composta pela es trutura consciente e pe la estru tura inconsc iente. Ver
lli stórico-dialético uma das bases para a explicação do
Lukács ( 1997) e Freud ( 1976).
56 Análise do Discurso:
Fundamentos & Práticas
57
discursivo . A outra base da constituição do sujeito discursivo
historicidade só pode ser rea li zada,
vem a partir dos estudos que tiveram origem na descoberta
efetivad a pela mediação do valor de
de Freud (1976) - o inconsciente. Disc utiremos agora, esse
troca , da mercadoria. E essa mediação
sujeito contemporâneo, submetido ao Sujeito do c~1p~tal, por co nst ituindo-se num a co ndi ção v ita l
isso estranhaclo 14 em sua própria constituição subjetiva. m es m a - a relação com a natureza,
a d os indivíduo s en tre si e , nessa
Corno se nota claramente é a alienação a li ena ção àquele nexo, consigo mesmo
(e o estranhamento) interna ao próprio - de termina tanto a forma da própria
suj e ito, portanto , a cisão ci o s uj e ito individualidade como o co njunto das
m es mo que está implic ad a e m su a formas possíveis ele soc iab ilid ade.
relação al ienacla e estranhada com outros Nessa alienação do indivíd uo frente a
sujeitos. E mai s ainda: qu e o critério si m es mo e aos demais , o que aparece
interno ao sujeito, portanto a dimensão co mo naturali za do não são as formas
da subjetividade envolvida c m s u a pessoais e socia is, mas o próp ri o nexo
relação alienada e estranhada com os
material. (SILVEIRA, 1989,p.61).
outros é aquela em qne o próprio sujeito
se en co ntra como trabalh ado r, qu e r
di ze r, como força- de -traba lho, como O ü1divíduo necessita, a todo o momento, participar
m erca dori~ (_§IL VEIRA, 1989, p.61)
da concorrência própria do sistema, o que produz homens
e mulheres cada vez menos preocupados com o futlu-o da
Como vimos , esse estranhamento que tem sua humanidade. Todos querem apenas sobreviver e usufruir
fonte no es tranhamento do trabalho nas sociedade s se mpre, para fazer jus a seu lu ga r no mundo , como
capitalistas , produz uma subjetividade v o ltad~ ~ ara. si representante maior do ícone ela sociedade contemporànea:
o consumo.
própria, indiferente aos ditames sociais, não part1c1pat1va
e, necessariamente, viol enta.
Co m isso qu ero dizer também que nas
E m contraposição, o indivíduo in- pró prias s ubj etividades está pla smada,
diferente, iso lado, separado dos demai s soldada, a diferen ça que por excelência
e de si próprio é profund a m ent e torna os indivíduos, sob o capitalismo,
histórico. Co ntudo essa s u a indifere ntes: a diferen ça quantitativa,
a co mparab ilidade qunntitativa de s i
mes mo, dos outros e do conjunto das
1< A essênc ia da alienação da soci edade capita l i s ta~ qu<.: e la trata como mercado ri a o q~e
relações: a universa lidade da ,;1i enaçi1o.
é hum ano, e co rno men:adoria ~co i sa e não ge nte, a de sumani dade desse trata,menlo nao
pod.:ria ser maior (!..essa& Tonel, 2008, p. 100). [.. .] Este "estamos todos s ubmeti dos
ao fe tichi smo" também necess ita ser
58 Análise do Discurso: Fu ndamentos & Práticas 59

precisado para que não fique a falsa mercadoria e o fetichismo inscrevem-


impressão de que essa sujeição é algo se nas dimensões vitais dos sujeitos:
que nos atinge externamente e que, seu corpo c sua psique. Esta inscrição
portanto, somos capazes, através de profunda implica que os suj ei tos
rneios voluntários e conscientes, de nos determinem-se pe1111anentemente muna
proteger da incidê ncia cio fet ichismo. basculaçào dialética entre a coisa - sua
(S ILVEIRA, 1989, p.63). força de trabalho como mercadoria e o
correspondente fetichismo e a pessoa.
Para se r mais preciso: os efeitos
Todas as dimensões da individualidade estão
desse moldamento das determinações
submetidas à lógica da mercadoria 15 , fazendo con1 que desde da forma mercadoria, na carne, na
a forma material, cm que a estrutura ps íquica se manifesta, psique dos indivíduos resultam numa
o corpo do indivíduo, e suas ideias e práticas, inclusive a dialética conflitiva entre uma dimensão
discursiva, estejam a ela subsumidas. externalizada elo sujeitamento: a coisa,
a mercadoria pondo sujeitos - o sujeito
A sujeição ao fetichismo nos envolve físico do manuscrito - e outra dimensão
de modo mais profundo , faz parte igualmente profunda cuja tendência
mesmo de nossa própria estruturaçf\o apontaria na direção da subversão -
psíquica. Esta precisão pode ser melhor ainda que reca lcada, reprimida, inibida,
(sic) esclarecida se considerarmos sufocada - de condições internas que
que a fórmula mercadoria , (1a qual tornam possivel o indivíduo determinar-
decorre o fetichismo, é a forma de se suje ito. (SILVEIRA, 1989, p.74).
todas as mercadorias, incl ui também a
mercadoria força de trabalho. Esta, como Para que esse "moldamcnto" seja eficaz é preciso
vimos anter iormente, constitu i-se nmn produzir nos sujeitos, desde o inicio do estar-no-mundo,
conjunto de disposições e habilidades marcas que estarão para sempre cm sua estrutura psíquica.
qu~ envolvem cérebro, músculos,
Desta forma agem as práticas ideológicas sobre a estrutura
nervos, etc., portanto, materializa-se
psíquica do sujeito em formação, fazendo com que o
no próprio corpo e na estrutura psíquica
dos s ujeitos . Deste modo, a forma
inconsciente de cada sujeito individual seja o resultado de uma
fala ideológica que será dita antes do nascimento de cada ser
humano e a reação do aparelho psíquico de cada individuo
is A lóg ica ela mercadoria é a base Cundante da soc iedade cap itali sta , que faz co m que os (cm formação) a essas determinações sociais traduzidas pela
scn;s soc ia is sejam relegados cm funçiio da necess idade que o capi tal possui de sempre
luc rar mai s e concomitantemen te explora r mais o trab alhador. As necess idacks hum anas
ideologia e ressignificadas pelo aparelho psíquico de cada um.
sfio subsumida s às necess idades do capital.
60 Análise do Discurso:
Fundamentos & Práticas
61

Por esse motivo, Freud (1976) afirma que o inconsc iente 6


se realiza precisamente no sujeito sob
individLial, já que a reação às determinações sociais passa pelo a jàrma da autonomia, não estamos,
crivo das relações inte111essoais de quem diz ao sujeito quem pois, fazendo ape lo a nenhuma forma de
ele é, e a internalização, a inculcação, a forma de significação tran scendência (um Outro ou Sujeitos
que cada indivíduo elabora. Sem chegar ao nível inconsciente reais); [... ]compreende-se, pois, que o
as determinações não teriam a eficácia necessária à reprodução idealismo não é, de início, uma posição
da lógica da sociabilidade capitalista 16 epistemológica, mas, sobret ud o, o
funcionamento espontâneo da forma-
Essa distinção não apenas permite que sujcito, por meio do qual se dá corno
se considere o fetichismo da rnercadoria essência real aquilo que constitui seu
irredutível às formas da consciência, ef~ito representado por um sujeito
corno situa urna internali zação, a (PECHEUX, 1988, p.163).
tal nível de profundidade que,
indiscutivelmente, não pode ser outro
se não o do inconsciente. (SILVEIRA, . ~omo foi salientado, toda essa engrenagem ideológico/
l989, p.75). mconsc1entc, ao ser compreendida, leva o analista do discurso
a perceber a necessidade de um método investigativo que a
Essas formas farão parte dos processos de identificação enfrente, dando conta da forma-sujeito que está dominando
e de identidade de cada SL1jeito que elabora urn Discurso, º.discu:so e de como isso foi possível naquela materialidade
fazendo-o filiar-se a determinadas Formações Discursivns d1scurs1va específica.
a partir de uma posição de classe que delimita a Formação
Ideológica que domina o discurso. É nesse sent ido que
Pêcheux (1988) afirma que o funcionamento da ideologia Permite, ainda, dizer que, na verdade, a
burguesa de exaltação à autonomia, que aprisiona todos os tomada de posiçJo não é de modo algum
aspectos ela SL1bjetividacle, inclusive o discursivo, tenta apagar concebível como um 'ato originário' do
o processo subordinação-assujeitamento, fazendo com que sujeito falante: ela deve , ao contrário,
ser compreendida como o efeito da
os sujeitos do discurso se julguem fontes de seus discursos
forma-sujeito, da determinação do
e afirmem a transparência da linguagem:
interdiscurso com discurso-transverso,
isto é o efe ito da 'exte rioridade' do real
"'Essa é a grande dificuldade de se e nfrentar a ideologia dominante, pois e la não se inculca
ideológico-discursivo, na medida em
apena s na consc iência dos indivídu os, mas atua também no inconscie nte criando marcas que ela ' se volta sobre si mesma' para
difícei s de se rem des feitas dentro da soc iabilidade que a crio u.
se atravessar (PÊCHEUX, 1988, p.] 7 l ).
62 Análise do Discurso:

Sintetizando essa discussão, podemos ressaltar que


a nova forma ele analisar a materia lidade discursiva que é
desenvolvida pela AD, possib ilita uma anális9 obj_etiva_do
s1~jeito do discurso, que não é tomado enquanto suj eito da fala
mas enquanto lugar discursivo determinado historicamente.

Capítulo 3

DISPOSITIVOS TEÓRICO-
ANALÍTICOS
Discurso e relações sociais
" O homem age cm uma
determinada situação concreta da
realidade e tem e deve ter como
escopo elo seu agir a mudança
clesta."(LUKÁCS , 1981 ,p. IV)

Toda e qualquer sociedade constituída de classes se


sedimenta pela via das relações conflituosas de exploração/
dominação, como relações de força que se manifestam, de
forma especial no discurso, em seus efeitos ele sentido sobre
a realidade.
Convém notar que estamos falando de d.i§cursQs cqmo
lugar onde se produzem os sentidos. Tais sentidos podem ser
reconhecidos pelas formulações - materialidades discursivas
- em que sujeitos e sentidos se constituem.
Como se dá, então, esta constituição?
Diante da conceituação de discurso assumida e
já declarada nesse livro, consideramos o discurso como
práxis, pois, produzido nas relações sociais, em determinado
momento histórico, pelas necessidades impostas na produção
e reprodução ela existência humana, tra z cm si o histórico e
o ideológico, próprios a essas relações 17 •

17
CfCa va lcantc (2007).
66 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 67

Sendo, como se vê, resultado e possibilidade de relações transformação e/ou estabilização dessa mesma realidade em
sociais, o discurso, deduz-se, é essencialmente ideológico, visto que é produzido.
que o sujeito que o produz o faz de rnn lugar social, de uma Para a AD, não há um sentido dado, único, verdadeiro,
posição ideológica, como explicitado no capítulo anterior. mas sentidos vários que estão além das evidências. Procura-se
Ratificamos, então, que concebemos o discurso como compreender como se constituem os processos de produção
ideológico, pois sua produção requer um sujeito socialmente de sentidos que se fazem presentes no texto e dão lugar,
situado; e é este lugar que define uma posição ideológica e ao analista do discurso, a investigar como tal texto produz
aponta como o sujeito participa da produção de uma sociedade. sentidos. Isso mostra que os dizeres não podem ser vistos
A circularidade ele discursos na sociedade como 111ensagens que são transmitidas e compreendidas em
propicia, pois, a manutenção ou alteração de regras sociais sua transparência, mas em seus efeitos de sentido, produzidos
determinadoras das relações de dominação, que somente por sujeitos que realizam suas escolhas, em determinadas
podem ser detectadas no empreendimento da descoberta situações, que se mostram no modo como dizem.
ele sentidos silenciados ou obscurecidos no dizer. É a partir Mas, para que possamos entender como esta categoria
desse entendimento que, neste capítulo, serão trabalhadas as - Condições de Produção - é fundamental na análise de um
categorias da Análise do Discurso, tais como: condições de discurso, precisamos concebê-la em seus dois sentidos: amplo
produção, formações discursivas, interdiscurso, intradiscurso, e estrito. O primeiro, expressa as relações de produção, com
pré-construído, memória, esquecimento, silenciamento, etc sua carga sócio-histórico-ideológica. O segundo, diz respeito
que dão sustentação para que sentidos latentes venham à às condições imediatas que engendram a sua formulação.
tona, por se tratar de uma teoria que trabalha as diferenças Vejamos a notícia veiculada na Revista ISTO É,
e contradições que, em permanente confronto no âmbito de sessão Semana, no. 2045, ano 32, 21 de janeiro de 2009:
uma conjuntura sócio-histórica, SLtbjazern ao discurso.

"VAI QUE ELA VIRA PRESIDENTE"


Condições de produção, formações ideológicas, formações O prefeit o de BH, Márcio Lacerda (PSB ), deu cartão
discursivas vermelho para o desemprego. Pelo menos o dos arrigo s.
1'-hrr.e. só canetada, recontratou Igor Rousseff e C13udio
Para que compreendamos melhor essas relações do G3.le311o, irrr.B.o e ex-rr.arido eh ministra Dilma Rowseff,
sujeito em sua participação na produção social, pela via dos
cpe tinham sido exonerados com outrns 250 funciotritios,
sentidos no discurso, necessário se faz que tratemos das
Condições de Produção desses discursos, corno categoria afustados por FenIBndo Pirr.ental (P1). B ce. parte dos outros

essencial no entendimento de como os discursos se ::.48 não teve a mesma so1te.".


constituem, seus sentidos, sua atuação na realidade - como
68 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 69

Ano de 2009, com fottes indícios - divulgados pela na verdade, o desemprego recebeu cartão vermelho
mídia - de que a ministra Dilma Rousseff é a escolhida pelo apenas para duas pessoas, de acordo com as conveniências
Presidente Lula para candidatar-se à Presidência da República, políticas, o que confirma o modelo de sociedade explicitado
como sua possível substituta. Este é um enfoque constante na no parágrafo anterior.
imprensa, que divulga até a trnnsforrnação física e de postura A O prefeito de BH, Márcio Lacerda (PSB),
pública da provável candidata. Daí a notícia poder ser lida e deu cartão vermelho para o desemprego segue-se Pelo
interpretada pelos leitores, produzindo efeito de sentido de menos o dos amigos. Pelo menos, restringe a ação de corte
campanha eleitoral, pois a própria revista vem sendo um forte no desemprego apontando para as condições materiais
veículo de divulgação do processo de preparação da candidatura. especificas em que o discurso foi produzido: numa sociedade
Essas são algumas condições imediatas: Brasil, ano que antecede constituída de contradições ideológicas que afetam os
eleições para a Presidência da República, a escolha- sutilmente sujeitos e os sentidos em suas posições políticas.
insinuada - do Presidente, a atuação da imprensa, que divulga
a questão, tanto positiva, quanto negativamente. Nessas situações, os sujeitos do discurso
As condições amplas atuam no processo de interagem na constituição das relações
constihüção de sentidos trazendo à memória a formação de discursivas, trazendo elementos que
derivam da história, da sociedade e de
uma sociedade capitalista subdesenvolvida que se fez, e ainda
suas contradições ideológicas, para a
pennanece, com suas instituições impregnadas pelo abuso
produção dos efeitos de sentido que se
de poder, favoritismos , nepotismos, concretizados no uso mostram na materialidade discursiva
de empregos públicos como moeda de troca entre políticos. e se articulam teoricamente com o
É a língua fazendo sentindo, como trabalho simbólico, pelo conceito de formação discursiva. É
movimento do discurso nas relações sociais. pela inscrição da língua na história que
Em O prefeito de BH, Márcio Lacerda (PSB), deu o sentido acontece, como relação do
cartão vermelho para o desemprego, deu cartão vermelho sujeito - perpassado pela língua - com
configura-se como outro elemento que introduz o discurso a história (FLORENCIO, 2007 p. 38).
do futebol, com seu sentido de retirada do jogador do campo.
A cor vermelha traz um sentido de exclusão, produzindo, Desse modo, vê-se, as relações sociais e a luta de
na relação com desemprego, um efeito de sentido de fim ~lasses são as condições materiais da produção do discurso, .?

do desemprego, mas subvertido pela ironia 18, visto que, compreendendo sujeito e situação, em suas relações sociais,
abrangentes da culhtra, economia, política, de um determinado
momento histórico e de momentos outros , resgatados pela
" Na ironia o enunciador se responsabiliza pelo linguístico, mas não pelo sentido, pois el e memória sócio-histórica e ideológica, ratificando, assim, o
(J
sub vcrlc sua própria fala. (cf. Main gucncau, 1997) caráter histórico e ideológico do discurso. !'
) 1
70 Análise do Discurso:
r Fundamentos & Práticas 71

O sujeito constituído historicament ~ embora--


im determina~o, tem a possibilidade de ~rariar ~is
/~ol~g; como vimos, no seu sentido restrito, se
constitui pelas contradições de classes, cujas visões de mundo
~ erminações, JUStamente pelo processo de produçao-
em conflito se apresentam nas determinações rnaleriai s.
/"-. tran; formação das relações de produção existentes, que
Constantemente, o sujeito se vê diante de situações - próprias
apontam, na prax1s discursiva, para o equívoco, para a
de suas relações sociais - que apelam para a sua compreensão,
negação da transparência de ~l~Í~;., pelo fato de que tal compreensão é imprescindível para a
Quando falamos d ~ em relação com a
sua existência como ser social, como partícipe da formação
história, estamos falando de sujeito ideológico, produtor
e organização da sociedade.
de efeitos de sentidQ.., pela relação com o simbólico. A
Ele (o sujeito) busca respostas a J?..arti ~ d~ seu lugar
~logia co1~;titui, então, o sujeito e os sentidos, em sua
social, assumindo posições ideológicas que, ~m s.u.as p~áticas
função de estabelecimento da relação necessári~ entre o
sÕciais de relações de classe, produzem eu.tidos.
linguístico e o social. Para Orlancli (2001, p.47) "E o gesto
As formações ideológicas são representadas pela
de interpretação que realiza essa relação do sujeito com a
via de práticas sociais concretas, no interior das classes
língua, com a história, com os sentidos". Daí não podermos
em conflito, dando lugar a discursos que põem à mostra as
pensar na existência de discurso sem sujeito e de sujeito
posições em que os sujeitos se colocam/são colocados. _ft-..s
sem ideologia.
formações ideológicas se constituem, por conseguinte, por
Segundo LUKÁCS (1981, p.II),
" um conjunto complexo de atitudes e representações que
~·a é acima de tu~o aquela nem são individuai s, nem universais , mas di zem respeito
forma d~ elaboração da ~·eahdade gue às po sições ele classe em conflito" (Haroche e alli (1971, p.
serve para tÕrnar-ã ~ is social dos 102), logo, como diz Lukács (1978), são particulares.
homens consciente e operativa[ ... ] toda Pêcbcux ( 1988, p. 146), nos afirma que as formações
ideologia tem seu ser-precisamente- ideoló_gicas ' ossuern um caráter 'regional' e .comportam
assim social: ela nasce direta e p9sições de classe''. E, adiante, na p.147 , acrescenta:
necessariamente do hi ç_ et ..m111c social
dos horneps _gue agem so~_ialmente na a objcti vida de material da instância
sociedade [sic]. ideológica é caracterizada pela es trutura
de desigu aldade-subordinação do 'todo
complexo com dominante' das formações
ideológicas de uma formaçã.o social
11
' Essa é urna perspectiva teó ri ca de estudo da linguagem que admite um sentido dorni1'.an t.e,
dada , estrutura que não é senão a da
mas rnnstituído pela rnultiplicicl aclc de sentidos outros, apagados, mas latent es, dcs locavc 1s,
conform e as pos ições assumidas por responsúveis pt:lo di ze r. contradição reprodução/transformação
' " S ujt:ito e ideo log ia são conceitos j ú di sc utidos no capítu lo anterior. que constitui a luta ideológica ele classes .
72 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 73

Esse complexo, em sua contraditoriedade, constitui como organização de posições políticas e ideológicas,
a sociedade, em dado momento histórico, objeto e lugar constituem suportes indispensáveis para as formações
da práxis humana. Assim, a ideologia tem em si a função discursivas, conceituadas por Pêcheux (1988, p. 160), corno
de estabelecer um mecanismo estruturante do processo ele
significação que acontece nas relações sociais, e é no discurso aquilo que numa formação ideológica
que as fonnações ideológicas se materializam. dada, isto é, a partir de uma posição dada,
Assim, ao analisar um discurso, o analista eleve numa conjuntura dada, determinada pelo
recorrer, dentre ou.tras categorias, à identificação das estado de luta de classes, determina o
fonnações ideológicas que representam uma estrutura sócio- que pode e deve ser dito (articulado sob
ideológica de uma formação social. Elas - as formações a forma de uma arenga , de um se1111ão,
ideológicas - dão sustentação ao dizer, produzindo sentidos de um panfleto, de urna expos ição, de
que discursivamente procuram camuflar conflitos e deixar um programa, ele).
passar a idéia de ausência de contradições ele classes.
A ilusão de urna transparência de sentidos é que Os sentidos se produzem, pois, nas formações
conduz ao efeito ideológico e às posições assumidas pelo discursivas representativas das formações ideológicas.
sujeito do discurso, como responsável pelo sentido do dizer. Retornando à sequ ência discursiva:
É o complexo de valores, atitudes e representações históricas "VAI QUE ELAVIRAPRESIDENTE"
das diferentes classes que deixa entrever que se pode falar
O prefeito de BH, I\·1árci o L3.cerct3. (PSB ), deu rartão
das mesmas coisas, uti li zanclo a mesma linguagem, a partir
de diferentes lugares, ou seja, atribuindo-lhes diferentes vermelho paia o desemprego. Pelo menos o dos arr.ri.gos
sentidos. Para PÊCHEUX (1988 , p.160), '\ Nu.ma só c3.netada, recontratou. Igor Rou.sseff e Cláudio
Gale3!10, itm.ão e ex-rm.rido da ministra Dilma Rousseff,
As palavras, expressões proposições, que tinharn sido e:xonetados com outros 250 füncionários,
etc., mudam de sentido segundo as
afl.stados por Fernanck1 Pimet1tal (PT) Boa p:ute dos
posições sustentadas por aqueles que
as empregam, o que quer dizer que elas outros 248 não teve a mesma smte.
adquirem seu sentido em referência a
essas pos ições, isto é, em referência às Podemos constatar que este é um discurso próprio da
formações ideológicas, [ ... ] nas quais formação social neo-liberal, em seu caráter confuso e polêmico
essas posições se inscrevem. de defesa da liberdade, visto que, no campo político - dessa
formação - , a liberdade acontece numa visão individualista de
Ou seja, o sentido se configura nas posições (formações benesses particulares, em decorrência das relações de poder
ideo lógicas) em que se inscrevem. As formações ideológicas, solidificadas. Essa fornrnção social está, pois, representada pela
74 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 75

formação ideológica do capital, principalmente em sociedades a Márcio Lacerda, mas aponta para a imprensa que já começa
subdesenvolvidas, em que o dominante pode agir conforme suas a ser mais cuidadosa em suas críticas e denúncias que possam
questões pessoais, corno no caso acima, citado pela imprensa. se direcionar a alguém, com a possibilidade de deter o poder,
A imprensa denuncia e nos traz um não-dito: o prefeito ocupando o mais alto cargo político do País.
que reconduz os funcionários é do PSB: "O prefeito de BH, Essas são pistas que apontam para um funcionamento
Márcio Lacerda (PSB)"; e o que anteriormente exonerou os do discurso midiático, em suas relações tendenciosas com o
funcionários , do PT: "tinham sido exonerados com outros discurso político eleitoral de partidarismos e disputas: ambos
250 funcionários, afastados por Fernando Pimental (PT)" se direcionam para a sedimentação de sentidos unívocos, no
- ambos são partidos ligados ao governo. Ou seja, denuncia intento de estabilizá-los corno "verdades".
um favoritismo - do PSB - em relação a pessoas ligadas ao Desse modo, lembramos PÊCI-IEUX (1997a, p.77),
alto escalão do governo federal, mas, ao mesmo tempo abre a ao se referir ao discurso proferido por um político:
possibilidade de provocar efeitos de sentido ético em relação
ao PT. No entanto, não cita quem fez a contratação inicial. O que diz ou que anuncia, promete ou
Como se pode ver, a imprensa oscila entre posições oriundas de denuncia, não tem o mesmo estatuto
.1
diferentes formações ideológicas e seu discurso (da imprensa), conforme o lugar que e le ocupa; a
consequentemente, aponta para difrrentes fmmações discursivas mesma declaração pode ser uma arma
temível ou uma comédia ridícula
que deixam vir à tona o lugar do dominado, procurando produzir
segundo a posição do orador e do que
um sentido de denúncia, mas escapa, na pista discursiva PT, ao
ele representa, em relação ao que diz.
apontar para uma possível posição ética do dominante (também
ligado ao governo) no ato de exoneração.
A perspectiva de Pêchcux na Análise do Discurso diz
Assim, deixa ele dizer quem contrntou primeiro, em
respeito à questão da existência da luta de classes, pois, para
que circunstâncias o PT exonerou, tentando conduzir o leitor
Pêcheux, não há como teorizar sobre algo, sem uma posição
a um possível sentido de ética para um representante do PT. ideológica. Ou seja, sem se posicionar perante uma sociedade
Melhor dizendo, a imprensa, reconhecida pela sociedade como de classes, pelo fato ele não admitir uma separação entre
veículo neutro de infonnações, oscila entre diferentes formações t~2Eia e política, pois a AD se configura corno uma política de
ideológicas representadas pelas formações discursivas que leitura, uma reflexão teórica na a1iiculação entre o linguístico,
propiciam o discurso e permitem a divisão do sujeito: acusa, o histórico e o social.
mas atenua as posições políticas, visto que ela também faz Jntrocluzida por Pêchcux na Análise do Discurso, as
uso de uma medida preventiva: "VAI QUE ELA VIRA formaçÔes discursivas são concebidas como provenientes ele
PRESIDENTE". E ela (Dilma Rousseff) é elo PT. Desse uma formação ideológica que lhes dá supo1ie, corno lugar ele
modo, se ELA VIRA PRESIDENTE, não diz respeito apenas articulação entre língua e discurso. Cada formação ideológica
76 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 77

traz em si, como um de seus elementos de composição, uma ou Podemos constatar, ainda, uma outra vari ação de
várias formações discursivas, como lugar em que as formações sentido para a expressão cartão vermelho, con sagrada no
ideológicas realizam um traball10 de estabelecimento de sentidos futebol, mas aqui utilizada no discurso político, rcferindo-
- aceitáveis pela formação dominante, ou não. Desse modo, se, ironicamente - pelo menos o dos amigos e boa parte
pode-se falar das mesmas coisas, _il tril;mindo-lhes di ferent~s dos outros 248 não teve a mesma sorte - ao pretenso fim
sentidos, porque as palavras mudam de sentido ao passai~ de do desemprego na prefeitura da cidade de Belo Horizonte,
uma fonnação discursiva para outra. desinstalando-se da formação discurs iva do futebol e sendo
Se a formação discursiva estabelece o que pode e deve in troduzida no discurso jornalí stico sobre desmandos
ser dito, é porque algo existe - em conflito com esta afirmação políticos. Percebe-se, na crítica, a formação discursiva que
- que não pode e (ou) não deve ser dito e que, vindo de outro
provém de um lugar que questiona as relações políticas de
lugar, de outras formações discursivas, ah se imiscui, cm
apadrinhamento - recontratou Igor Rousseff e Cláudio
diferentes efeitos de sentidos, muitas vezes rejeitados, mas
Galeano, irmão e ex-marido da ministra Dilma Rousseff,
que se evidenciam, sob a forma de discursos outros. Assim,
fa lando sobre a ~m1ção ideológica do dominante. Para
a formação discursiva assume caráter plural, com fronteiras
qu e se fale elas mesmas coisas, em diferentes lugares, isto
tênues e instáveis , sempre passíveis ele deslocamentos
é, atribuindo-lhes sentidos outros, acionam-se valores,
provocados por contradições ideológicas.
atitudes, representações históricas das diferentes classes. E
Na sequência di scursiva em questão,
mais, quando se co loca urna ocorrência corno sorte, retira-
"VAI QUE ELA VIRA PRESIDENTE" se a responsabilidade de qualquer atitude. A sorte não tem
autoria, 2 1 é destino, predestinação, fortuna, ventura. Nesse
O prefeito de BH, Márcio Lacerda (PSB), deu cartão caso, a recontratação não é privil égio para uns em detrimento
vermelho para o desemprego. Pelo menos o dos dos outros 248, não se configura nepotismo, não se direciona
amigos. N urna só canetada, recontratou lgor Rousseff e .. , . a "prevenir" um reconhecimento do favor, se a Ministra
Cláudio Galeano, irmão e ex-marido da ministra Dilma :;.---- '\~irar" Pres idente, ou mesmo, no momento presente, em
~ou~se~f, _que tinham sido exonerados c~m outros lSO J que, como Ministra , já detém um forte poder.
func10nanos, afastados por Fernando Pimental CP:JI No entanto, essa heterogeneidade discursiva 22 (que
Boa paiie dos outros 248 não teve a m~sma sorte.". ) se mostra na sequência discursiva em ques tão , pelo tom de

verifica-se que a admissão dos funcionários produz diferentes 21


Vocábulo definido 110 Novo D i c i on~ ri o Auré li o (I" ed ição , 15".impressão) co m o
" força que <letermina ou regula lud o quanto ocorre, e cuja causa se atribui ao aca so da s
sentidos na fala da imprensa que noticia urna re-admissão circun stâncias ou a uma suposta predestinação".
com bases em interesses pessoais, mas silencia como se deu " Esta mos falando de heterogeneidade di scursiva. con s iderando as diferentes pos ições
ideológ icas do suj eito e a noção de formações discursivas como divididas. in st<íve is em
a admissão inicial. SlW S tênues fronteiras.
Fundamentos & Práticas 79

denúncia e ao mesmo tempo pela tentativa de isenção da eixos: a primeira pensada num eixo ve1iical, como lugar do já-
1
( , responsabilidade), acontece nos constantes pr9cessos de d ito anteriormente e esquecido. O sujeüo, então, empreende
reprodução e transformação e se marca pela identidade e_rela um movimento de retorno e identificação, escolhendo o
)
divisão, sem abandonar seu lugar de constituição ele s~nttclos. que é relevante para a possibilidade de produção de novos
Ainda que determinado por uma formação sentidos para o seu discurso. A segunda - o intradiscurso -
discursiva que determina o seu dizer, o sujeito enfrenta como eixo horizontal em que os discursos são produzidos,
contradições ideológicas que se fazem presentes e desfazem em determinadas condições, em dado momento, no propósito
a homogeneidade, expressando a divisão, própria de urna de entendimento do que está sendo dito. Entretanto, isso
complexidade social, pelo compartilhamento de seu espaço somente acontece numa relação entre os eixos, sempre
discursivo com outros sujeitos. numa remissão ao que já foi dito anteriormente, em outras
condições de produção. Desse modo, não se pode pensar
em efetivação de discursos, em instituição de sentidos sem
Interdiscurso e Intradiscurso a relação entre estes dois eixos.
Os discursos formulados (interdiscurso) que
A relaçãQ_entTe o já-dilo e o que se diz, i'nelhor dizendo, permitem o dizer (intracliscurso) constituem o lugar elo já-
entre sentidos anteriom1ente constituídos e uma formulação atual dito, do pré-construído, em que o sujeito se identifica com
é 0 que a AD vai denominar de lnterdiscurso e Intraclisc~1r~o, as formações discursivas que sustentarão a produção do
respectivamente. O primeiro, discursos já constituídos que entram seu dizer, sempre num movimento de ressignificação. Para
na produção discmsiva ressignificando o já-dito antes, noutro COURTINE e MARANDIN (1981, p.58),
lugar, como espaço de confrontos ideológicos das relações de
dominação/subordinação. Dessa forma, está intrnduzida na AD O intcrdiscurso consiste cm um processo
a noção de interdiscurso, como o que é falado antes, em outrn de reconfiguração incessante no qual urna
lugar e como o que possibilita dizeres outrns, convoc~ldos na formação discursiva é conduzida [ ... ] a
história, ideologicamente marcados, que vão afetar os discursos inc01vorar elementos pré-construídos
produzidos pelo sujeito, em dada condição de produção. produzidos no exterior dela própria; a
O seoundo (o intradiscurso) é compreendido como o produzir sua redefinição e seu retorno,
b f' a suscitar igualmente a lembrança de
que está sendo dito em situação e momento dados, como LO
do discurso, corno füncionamento discursivo, atravessado seus próprios elementos, a organizar
sua repetição, mas também a provocztr
pelo intercliscurso, por isso indissociados.
eventualmente seu apagamento, o
Essas categorias - intercliscurso e intradiscurso - são
esquecimento ou mesmo a denegação.
pensadas por Courtine (1984) num entrelaçamento entre dois
Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 81
80

E cm 2006 (p.69), Courtine afirma que "todo já-dito, como um objeto ideo lógico que atravessa o sujeito
discurso concreto produzido por um sujeito no interior num proce ~§.2 e assujcitmnento, mas dando lugar, também,
de uma formação discursiva está, portanto, dependente ~ransgress~o~pqrque, ao rn~s~1o-tempo em qu e este sujeito
do intcrdiscurso que lhe é fornecido pelos elementos pré- reproduz o já-dito, identificando-se com uma determinada
construídos " 23 . formação discursiva, ele o faz de um novo lugar, produz
O discurso da imprensa, aqui cm questão, traz em diferentes sentidos para o pré-construído que retorna , mas
sua formulação o discurso do futebol deu cartão vermelho, se faz novo.
pela via de um pré- _s~n..§.!!;~J do umjá-di!.9 que penetra o s~u_ ·' ~ Assim, o sujeito, ao r to m ai: a di sc ursos pertencentes
discurso p ~.-a sL~steotação de seu di zer. Canetada, expressao A tra(s)J:o_rmação(ões) cliscursiva(s), sempre realiza
reconhecida como própria ao poder de decisão de pessoas que escolhas relevantes ao seu discurso, ao tempo em que se
ocupa~ cargos de comando, no abuso de autoridade. E, como marca pela alteridade, pela historicidade, apesar da constante
2
já foi visto, além desses (elo futebol, do abuso de poder) \ no ~ busca pela unicidade. A presença do outro no entrelaçamento
seu discurso de denúncia , traz, também, o discurso atenuai1te de vários di scursos (interdiscurso) provindos de outro lugar
para atitudes de pessoas ligadas ao governo, ao tentar trazer é que abre possibilidades p ara novos efeitos de sentido que
um efeito de sentido ao que poderia ser uma atitude ética do se concretizam no di scurso.
prefeito do PT afastados por Fernando Pimental_ (~T). A esse lugar anterior, onde estão os já-ditos, prontos
Mas a contradição se instaura quando se sabe que a M1mstra , a serem convocados, a AD denomina memória discursiva,
autoridade que motiva a ação "preventiva" - vai que ela vira como um lugar de retorno a outros discursos, não como uma
presidente-, é membro do partido dos Trabalhado~es - PT. repetição, mas corno ressignificação. Ao mes mo tempo em
Assirn, vejamos: o PT afastou pessoa s ligadas a que a ciona a memória, essa rnen!Ória sofre alterações na
um membro do PT que havi a permitido, numa gestão não
medida em gue ocorrem lactlirns, fá JEa s, ;_pagaii~1entos do
citada na notícia, que seus parentes fossem contratados, o
que não pode e ou não deve ser dito. Sentidos historicamente
que justifica o ato de recontratação como prevenção de uma
sedimentados vêm à superfície pela via do esquecimento,
possivel retaliação, em caso de a Ministra ser eleita: vai que
pelo não-dito que , embora funcionem pela interdição,
ela vira presidente. propiciam a produção de novos sentidos , num misto de
Os pré-construídos expressos por - deu cartão
memória e esquecimento, pelo mo vimento de idas e vindas
vermelho e canetada - se configuram, pois, como o sempre
entre as diferentes formações discurs ivas. Há, então, uma
oi Noção desenvolv ida por Pêchc ux ( 1988), a part ir da defini ção de Pa ul 1k nry: "o que
constante tensão entre lembrar e esquecer. Sujeitos não se
n.: 1111..!W a u1na co nstrução anterior, ex teri or". constituem sem memória, da mesma forma que discursos não
,., Estes últimos configurado s também em: " Pe lo menos o dos amigos" e "Boa parle dos
outros 248 n5o teve a mesma so rte".
se produzem sem memória e sem inconsciente.
82 Análise do Discurso:
Fundamentos & Práticas 83

Todavia, no apagamento da memória, surge para o Para Orlandi (2001, p.82), "há sempre no dizer um
sujeito a ilusão necessária de que o discurso que ele produz é não-dizer necessário. Quando se diz 'x', o não-dito 'y'
original, inicia-se com ele, sem vínculo histórico. A isso PêchetLX
permanece como uma relação de sentido que informa o
(1988, p.173) nomeia "esquecimento no. l '', da instância do
dizer de 'x'".
ideológico, do inconsciente, necessário para que se efetive a
Há, pois, um silêncio necessário que é presença,
identidade do sujeito, embora essa identidade não se fixe, pois
condição para que se realize o processo de constituição do
a memória não permite este "esquecimento", abrindo brechas
que possibilitam o surgimento de diferentes dizeres. Está aí a sentido, do sujeito e da incompletude própria da linguagem.
possibilidade de o sujeito transitar por diferentes formações Ao falar, o sujeito tem necessariamente uma relação com o
discursivas, de ser habitado por diferentes discursos, pois isto é silêncio, pois não se pode dizer tudo; se assim o fizesse, estaria
o resu1tado de um sujeito histórico que é afetado pela memória. incorrendo, no excesso do dizer, na ausência de sentido. Desse
Há, ainda, um a outra forma de esquecimento, modo, o silêncio é fundamento para que o sujeito produza
denominada por Pêcheux (1988) corno "esquecimento no. sentido e o reinstaure em cada dizer. Nas palavras de Orlandi
2". Este provoca no sujeito a i.lusão de que o seu discurso (l 993, p.71), "mais se diz, mais o silêncio se instala, mais os
é formulado com determinadas palavras, e não outras, sentidos se tomam possíveis e mais se tem ainda a dizer".
porque tais palavras são por ele (o sujeito) controladas. Portanto, o silêncio de que se trata aqui não se
Melhor dizendo, há uma ilusão de autonomia elo suj eito confunde com o ato de calar, da ausência de sentido; é a
sobre a escolha ela forma do dizer. Pêcheux (op.ciL) assim possibilidade do dizer que se imiscui no discurso e estabelece
o denomina: "'esquecimento' pelo qual todo sujeito-falante uma relação necessária com o sujeito, o que prova a
'seleciona' no interior de uma formação discursiva que o impossibilidade do não-sentido.
domina, isto é, no sistema ele enunciados, formas e sequências
Melhor dizendo, há um eterno e contínuo movimento
que nela se encontram em relação de paráfrase". Ao fazer uso
entre silêncio e sentido, porque não existe um vazio no antes
de determinadas palavras, o sujeito recorre a paráfrases que
do dizer. O que existe é o silêncio que é sentido, possibilidade
subjazem ao seu dizer, pela necessi dade ele se fazer entender,
o que confirma que o dizer não prescinde elos sentiC:os. de di zer. O sujeito passa ininterruptamente "das palavras ao
Conclui-se, pois, que em todo processo discursivo silêncio e do silêncio às palavras"(ORLANDI, op cit., 72),
os sentidos são múltiplos, instáveis, sempre apontando para porque há sempre um sentido a ser produzido . Daí poder-
a incompletude da linguagem, para sentidos que não são se falar de instabilidade e multiplicidade de sentidos, de
ditos, que poderão irromper a qualquer momento , porque incompletude da linguagem. O silêncio é, portanto, fundador
constituem o ponto de sustentação da relação entre os do sentido, tem primazia sobre o dizer.
discursos. Há uma tentativa de unidade de sentidos que se Ainda em Orlandi (1993, p. 75) vamos encontrar,
desfaz na fugacidade constitutiva da linguagem. também a noção de política do silêncio, definida
84 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 85

pelo fato de que ao di zer algo apagamos Essa mesma autora (idem 75-76) nos diz ainda que
necessariamente outros sentidos
possíveis, mas indesejáveis, em uma Se diz 'X' para não (deixar) dizer 'Y',
situação discursiva dada. [... ] a política este sendo o sentido a se descartar do
do silêncio produz um recorte entre o dito. É o não dito necessaria mente
que se diz e o que não se diz, enquanto o excluído. Por aí se apagam os sentidos
silêncio fundador não estabelece nenhuma que se quer evitar, sentidos que pode1iam
divisão: ele significa em (por) si mesmo. instalar o trabalho significativo de uma
'outra' formação discursiva.
Algo é dito para que não seja dito o indesejável, o
não permitido, porcj_'ue há sentidos que, se não evitados, No entanto, o silenciamento imposto em determinadas
podem trazer à tona sentidos outros que apontam para uma situações não se sustenta, em virtude do constante movimento
formação discursiva que precisa ser excluída. Há um dizer do sujeito que, em sua dispersão constitutiva, ultrapassa os
que se faz necessário ao apagamento de possíveis sentidos limites do dizível, para produzir sentidos outros que lhe são
não convenientes e que impõem limites à presença de proibidos, mostrando, então, o movimento constitutivo entre
detenninadas fonnações discursivas. A política do silêncio as tênues fronteiras das formações discursivas.
produz sentidos necessários ao apagamento de todo um
conjunto de sentidos que não devem ou não podem ser
produzidos. . Discurso: procedimentos de análise
Outra forma de realização da política do silênc10
trabalhada por Orlandi (op.cit) é o silêncio 1oca1, que é a Após discutirmos os pressupostos que permitem
interdição, a censura. Esta forma impositiva de silêncio - elaborar um caminho para análise, vamos desenvolver as
constituída nas fronteiras de diferentes fom1ações discursivas - etapas necessárias para a análise discursiva do ponto de vista
funciona pelo impedimento de detem1inadas palavras, ou seja, metodológico.
de sentidos que, necessariamente excluídos, interditam aos Conforme demonstramos no desenvolvimento das
sujeitos a inserção em uma determinada fo1mação discursiva . categorias analíticas, o primeiro aspecto a ser abordado
Nesse sentido, acontece, portanto, um silenciamento, diz respeito ao objeto discursivo a ser analisado . Devemos
como uma política do sentido, diferentemente do silêncio precisar qual o recorte da realidade que será ponto de
fundador. O primeiro, "produz um recotie entre o que se diz e partida para nossas análises. Temos de ter o entendimento
o que não se diz, enquanto o silêncio fundador não estabelec~ de que todo discurso é o resultado de uma intervenção do
'---
nenhuma divisão: ele significa em (por) si mesmo". Orlandt sujei to_ sobre um aspecto da realidade, que objetiva, na
(idem, 75). materialidade discursiva, o ponto de vista da subjetividade;
86 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 87

este, como vimos anteriormente, tem as classes sociais capitalismo, ressalta que partiu de homens e mulheres, isto é,
como determinante e sofre, através das diversas mediações ela população, para chegar à exploração realizada no sistema
ideo1ógicas recalcadas no inconsciente, condicionamentos capitalista, isto é, ao conceito de mais-valia25 .
que se revelam na materialidade discursiva. Na verdade, estamos trabalhando com os conceitos
O segundo aspecto diz respeito ao papel do de fenômeno, essência e totalidade, imprescindíveis para
funcionamento da língua para as práxis discursivas, como, a descoberta da lógica da realidade estudada. Para o
por exemplo, a metáfora e a metotJim~ que possibilitam ao materialismo histórico-dialético, naqa cll1e é humano escapa
sujeito fazer desfocai~ e c nâénsaÇôêS), estabelecendo _a<2_J1istórico, significando que não há explicação definitiva
um jogo discurs~ie fYrdbura encobrif"o que o sujeito tem e única para nenhum aspecto da vida humana, embora haja
a ilusão de não revelar. Analisando o livro sobre os sonhos ti3 õs µe essencialidade, tais como a característica do ser
ele Freud, Zizek afirma: social ~e criar o n.9v_o sempre. No entanto, dependendo
de corno se dá o fenomênico, essa característica sofre
A constituição essencial do sonho, modificação, pois, cm cada momento histórico dado "as
portanto, não é seu 'pensamento latente', formas ideológicas não se equivalem, e o efeito simulação-
mas sim esse trabalho (os mecanismos recalque que elas engendram não é homogêneo" (PÊCHEUX,
de deslocamento e condensação, a 1988, p. 77). É a categoria da totalidade que faz com que se
figuração dos contelielos ele palavras relacionem o essencial e o fcnomênico, produzindo sempre
e sílabns) que lhe confere a form:1 ele algo novo.
sonho. (ZIZEK,1996, p.298).
Essas características meto cio 1ó gicas possibilitaram
à Teoria do discurso elaborar um caminho que leva ao
Estamos ressaltando que só a partir da materialidade desvelamento discursivo. Estamos nos referindo a três
discursiva, isto é, do fenômeno é que se pode chegar ao conceitos essenciais para a realização da análise discursiva.
silenciado. Marx em A ideologia alemã (1998) ressalta que O primeiro é o dito, isto é, a materialidade discursiva
para que haja qualquer relação social é necessário que homens apresenta uma forma que pretende dizer, um conteúdo. Essa
e mulheres estejam vivos. Isto é, para que se busque explicar forma precisa ser pesquisada, pois funciona corno a porta
essas relações temos que levar em conta, em primeiro lugar, a de entrada para a elucidação de sentidos do discurso. A
realidade fenoménica, que, no caso, está dada pelas relações maneira de elaborar essa primeira fase é fazer uso do processo
efetivas entre os seres sociais, para chegar à explicação dos descritivo, nomeando as diferentes possibilidades de análise
fatores essenciais que determinam a forma de se relacionar dessa materialidade, os recursos Linguísticos empregados.
das pessoas, num determinado tempo e espaço.
Em O Capital ( 1985), esse mesmo autor, ao explicitar 25
O conceito de mais-valia se refere ao tempo ele trab alho que é apropriado pelo patrão,
a metodologia empregada para sua elaboração teórica sobre o gerando o lucro da empresa.
88 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas

A descrição é uma fase fundamental para a análise, embora e ntão , formação discursiva aquil o llll l'
saibamos que nem tudo o que foi descrito será efetivamente num a formação ideo lóg ica clad:1, is to l'.
empregado na explicação, na interpretação . 3 partir de um a posição numa con ju nlur :r

Concluída essa etapa, passamos para o não-dito, dada, determin ada pela luta de cL rs SL'.',
que só poderá ser apreendido através elo dito. Aqui os dete rmina o que pode ser e deve ser clil() ,
processos metafóricos, metonímicos, os lapsos, os equívocos, (Pl~C H EUX , 1988, p. 160).
constituirão chaves elas expl icações, mas sempre tendo como
pre1mssa Sintetizando, temos que a interpretação rca li zad:1
pelo analista do di scurso se dá sempre a partir de u111
que a "indiferença" da língua em relação lu gar di scursivo , e, nesse se ntido, será também arct:1d :1
à luta ele classes caracte1iza a autonomia ideo lo gicamente pela posição de classe. No entant o, o
relativa do s istema lin g üí stico e que, analista do discurso tem que buscar a objetividade qu <..:
dissirnetricamente, o fato de as classes não será possível através dos dispositivos teóricos da teori n do
sere m " indiferentes" à língua se traduz di sc urso e dos di spositivos analíticos que o objeto discurso
pelo foto de que todo processo discursivo ac iona. F inaliza ndo, ratifi ca mos o que já assinalamos: o f~1lo
se inscreve numa relação ideo lógica de 1
ele ser ideológico não isenta o conhecimento científi co d:1
cl asses (PÊCHEUX,1988, p .92). busca da explicação cio objeto.

Finalmente, o clesvelamento elo silenciado, que só


acontece a partir do não-dito , isto é, a partir da captação
elo interdiscurso que atravessa a materialidade discursiva,
derivado das condensações e deslocamentos. A explicação, a
interpretação cio lugar discursivo, da posição do sujeito, será
efetuada levando-se sempre em conta que, como já foi dito:

as palavras , expressões, proposições


etc. mudam de se ntido segu nd o as
posições sus tentadas por aqueles qu e
as empregam, o que quer di zer que e las
adquirem seu sentido e m referência a
essas posições, isto é, e m referência às
posições ideológicas n as quais essas
posições se inscrevem . Chamaremos,
Capítulo 4

-
PRODUÇAO DE SENTIDO E
RELAÇÕES HISTÓRICAS
Desvelando sentidos

Neste capítulo propomos ao leitor que nos vem


acompanhando nessa trajetória teórico-analítica um momento
de praticar/exercitar a Análise do Discurso, a partir de
materialidades variadas. Ressaltamos que nosso intuito não
se reduz ao desejo de ver a teoria e os instrumentais teóricos
mobilizados, mas, sobretudo, buscamos, no exercício da
análise, compreender questões contundentes da fom1ação
social capitalista da qual fazemos parte. Não se trata
de apresentar exemplos, mas de analisar materialidades
discursivas presentes e atuantes em nossa história. Esse é
o sentido que atribuímos à AD. Não há como esquivar-se
de trabalhar com a linguagem sem levar em consideração
a interpretação, a ideologia, o inconsciente, a história e,
sobretudo, os sujeitos nos seus limites e possibilidades.
Com efeito , frente a tantas materialidades
discursivas é importante que o analista possa perguntar:
o que escolher para pesquisar? Como começar a análise?
Qual a melhor maneira de desenvolvê-la? Como ter
certeza de alcançar resultados que efetivamente desvelem
o funcionamento do discurso? São muitas as perguntas;
no entanto, é significativo ainda desdobrá-las um pouco
mais: Por que eleger algumas materialidades entre
tantas outras que nos afetam e nos surpreendem em seu
94 Análise do Discurso:
Fundamentos & Práticas 95

efeito de transparência? Por que não escolher aquelas Alan Marques/Folha Imagem

que, de tão distantes, parecem não nos dizer respeito?


Corno ser sensíveis àqueles discursos que circulam com
tamanha rapidez que nem sequer nos permitem parar para
compreendê-los em seu acontecimento?
Enfim, debruçar-se nas análises, emaranhar-se nos
discursos e, ao mesmo tempo, buscar se deslocar para
compreender os efeitos de sentidos, não é uma tarefa simples.
Buscar as raízes do dizer em suas condições de produção,
desconfiar do óbvio, sentir a necessidade de investigar
outras pistas. Tudo isso é bastante complexo. Essas e tantas
r
outras inquietações afetam, de detem1inado modo, todos É importante perguntar que foto é essa? Afinal , se o
os analistas de discursos. discurso possui uma materialidade que é linguística, então,
por que começar analisando uma imagem? Para responder,
é preciso lembrar que o discurso é efeito de sentidos
O discurso sobre o MST na imprensa entre interlocutores, desse modo, a imagem, por ser uma
materialidade significante, também produz sentidos entre os
SLtjcitos, por isso, é também uma materialidade discursiva.
Urna questão importante a ser considerada é que a
Podemos iniciar nossa entrada na análise perguntando:
AD não se reduz a urna análise do conteúdo, nem ao que
O que se pode ver na foto? Onde e quando foi publicada? O
poderíamos conceber como o seu extremo, uma análise do que ela pode nos dizer? Como a interpretamos? O analista
funcionamento linguístico em si e por si mesmo. Há um de discurso pode fazer inúmeras perguntas. São os primeiros
deslocamento teórico-analítico como vimos afirmando e questionamentos diante da materialidade que será, logo em
sustentando durante toda nossa reflexão . Esse deslocamento, seguida, transformada em nosso objeto de estudo.
a nosso ver, é também uma posição do sujeito diante do Fazer perguntas , questionar o que se mostra
fazer científico. na imediaticidadc é fundamental, porque mexe com a
Iniciaremos nossas análises a partir de uma foto capacidade do analista de desconstruir o óbvio. Trata-se de
exercitar a possibilidade de des-naturalizar aquilo que nos
divulgada em uma reportagem da Revista Veja em 20 de
parccc . ~v id ente. Vale lembrar que descrever a imagem já é
outubro de 1999. Observemos a foto:
sempre interpretação, para Pêchcux (2002) toda descrição
abre para interpretação.
96 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 97

Voltando à imagem, vemos pessoas pisoteando a As primeiras pistas que temos já foram postas: trata-se de uma
placa de concreto que tem escrito "Estados Unidos"; pessoas reportagem da revista Veja sobre o MST, publicada em outubro
de mochilas; outras de bonés. No fundo, avistamos fotógrafos de 1999. Como sabemos, é preciso buscar o aprofundamento
captando outras imagens do mesmo acontecimento. Como das condições de produção desse discurso, isso quer dizer que
bom observador, poderemos notar que há bandeiras não se pode ficar apenas nas condições de produção imediatas,
tremulando ao vento, que se olharmos com cuidado, pois limitar-se a elas é restringir a possibilidade de ir à raiz
identificaremos como bandeiras do MST; em urn a das desse funcionamento. Por isso, é impo1iante ter clareza de que
bandeiras também é possível ver a imagem de Chc G~1cvara. para a Análise do Discurso:
O que será isso que descrevemos agora? São pistas que o
analista precisa seguir. Os dizeres não são, como dissemos,
Poderemos, nesse sentido, exercitar as possibilidades apenas mensagens a serem decod ificadas.
da interpretação. Numa primeira aproximação muitos podem São efeito s ele sentidos que são
dizer que a foto revela uma "manifestação", outros que é um produz idos em condições determinadas
"protesto", um "movimento grevista'', uma "revolta", enfim, e que estão ele alguma forma presentes
no modo como se diz, deixando vestígios
vá1ias possibilidades de dizer algo sobre o mundo. No entanto,
que o analista ele discurso tem ele
temos materializada na reportagem urna forma determinada
apreender. São pistas que ele aprende a
de dizer sobre este acontecimento. Esta forma é reveladora
seguir para compreender os sentidos aí
de outros caminhos de sentido também determinados pela
produzidos, pondo em rel ação o dizer
formação social capitalista. Acima ela foto seguia uma legenda com sua exterioridade, suas condições
que descrevia o acontecimento que vimos na imagem. ele produção. Esses sentidos têm a ver
com o que é dito ali mas também em
Ato do MST em frente da Embaixada dos Estados outros lugares, assim como com o que
Unidos em Brasília: baderna não é dito, e com o que poderia ser dito
e não foi. Desse modo, as margens do
É preciso esclarecer que o leitor está ainda diante da dizer, do texto, também fazem parte dele.
26
materialidade discursiva em sua manifestação fenornênica . (ORLANDI, 2001, p. 30)
É preciso agora ir adiante buscando compreender como o
discmso funciona, ou seja, tomá-lo enquanto objeto discursivo. O trabalho do analista se torna mais complexo quando
buscamos compreender as determinações mais profundas
da sociedade brasileira. Compreender essas determinações é
lançar luzes para a compreensão do discurso. Nessa direção,
' " Segundo Marx ( 1988, p.253) "toda ciênc ia seria supérflua se a forma de man ifestação
e a essênc ia das coisas coincidissem imediatamente" . o dispositivo de análise exige maiores aprofundamentos. Será
98 Análise do Discurso:
Fundamentos & Práticas 99

preciso questionar: que sociedade é esta onde essa materialidade


Buscando fundamentos em estudos j á realizados
discursiva foi posta em circulação? E também perguntar o que
sobre o MST, podemos afirmar junto com CALDART (2001,
é o MST? Para isso é necessário buscar subsídios históricos, p.207) que:
buscar pesquisas que fundamentem e contribuam ' para a
compreensão do discurso. Vale ressaltar que acrescentar às
O MOVIMENTO DOS Trabalhadores
análises leitmas outras, ajuda o analista a fundamentar seus
Rurais Sem Terra, também conhecido
questionamentos sobre o discurso que está sendo analisado
como Movimento dos Sem Terra ou
constituindo assim o seu dispositivo analítico 27 .
MST, é fruto de uma questão agrária que é
Para entender o que estamos realizando é necessário
estrutural e histórica no Brasil. Nasceu da
ir por partes. Primeiramente, diante da materialidade
discursiva, é preciso fazer a pergunta norteadora da análise. articulação das lutas pela terra, que foram
Ela precisa ser elaborada com clareza em seu objetivo. retomadas a partir do final da década de
Como estamos diante de uma análise de uma materialidade 70, especialmente na região Centro-Sul
discursiva singular, podemos restringir a pergunta dizendo: do país e, aos poucos, expandiu-se pelo
Quais os efeitos de sentidos sobre o MST produzidos na Brasil inteiro. O MST teve sua gestação
reportagem apresentada acima? no período de 1979 a 1984, e foi criado
Depois de feita a pergunta que norteará a análise, formalmente no Primeiro Encontro
vamos buscar fundamentos para a compreensão desse Nacional de Trabalhadores Sem Terra )

discurso. Por isso, voltemos às condições de produção , que se realizou de 21 a 24 de janeiro


buscando seu aspecto amplo, ou seja, a sociedade brasileira de 1984, em Cascavel, no estado do
enquanto paiie da formação social capitalista. Paraná. Hoje o MST está organizado
Nesse instante, colocaremos a materialidade em 22 estados, e segue com os mesmos
apresentada acima em suspenso para desenvolver uma objetivos definidos neste Encontro de 84
reflexão sobre o MST e a Imprensa que será mobilizada nas e ratificados no I Congresso Nacional
análises. Nesse sentido, é interessante para todo analista realizado em Curitiba, em 1985, também
retomar trabalhos já realizados sobre essa temática a fim de no Paraná: lutar pela terra, pela Refonna
tornar mais específicas nossas considerações. Agrária e pela construção de uma
sociedade mais justa, sem explorados
27
Para Orlandi ( 1999, p. 27) "q uando nos referimos ao dispos itivo analítico, es tamos nem exploradores.
pensando no d ispositivo teó r-ico já "ind ividuali zado" pelo anal ista em uma análi se especí fi ca.
Daí di zermos que o dispositi vo teórico é o mesmo ma s os d ispositivos analítico s, não. O
que define a forma cio dispositi vo analít ico é a questão posta pelo ana li sta, a natureza cio Nessa direção, o MST tem como objetivo "lutar
material que anal isa e a finalidade da análi se''.
pela terra, pela Reforma Agrária e pela construção de uma
100 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas

sociedade mais justa, sem explorados nem exploradores". Os trabalhadores destituídos de terra. O campo é um lugar
objetivos do Movimento pretendem transformar a estrutura contrnditoriamente marcado por riqueza e, também, por muita
agrária brasileira e, por isso, questionam, a partir de suas miséria. Essa ordem social contraditória foi fundada pela
práticas de ocupação, a forma de ser da sociedade capitalista exploração do homem pelo homem, logo não é algo natural,
desnaturalizando a desigualdade social. é efeito de processos históricos 28 . Trata-se do resultado do
Diante disso, as práticas do MST podem ser tomadas tipo de colonização ao qual o Brasil foi submetido (colônia
como Acontecimento. O estudo de RODRIGUES (2006 , p. de exploração) que dividiu as terras brasileiras entre uma
46-8) destaca isso ao afirmar que: pequena elite. Essa situação também reflete o resultado
de conquistas territoriais, além do extermínio de povos
O Discurso de Reforma Agrária pela indígenas e, consequentemente, apropriação de suas terras.
Ocupação não é apenas um . trabalho Além disso, revela as consequências do modelo econômico
de re-configuração discursiva, mas já (agropecuário) implantado na década de 1960 que continuou
se configura em um discurso novo, um
privilegiando os capitalistas e agora privilegia o agronegócio,
acontec imento, em relação aos demais
tornando ainda mais pobres os pequenos agricultores.
discursos dos movimentos de luta pela
terra que antecedera m ao MST. Esse Numa nanativa mais sucinta, podemos dizer ainda
discurso novo representa, entre outros que o conflito se expressa devido à existência de grandes
aspectos, a contribuição histórica do latifúndios. De um lado, os proprietários querem preservar
MST [... ].É um discurso que questiona "suas" tenas e, de outro lado, o Sem Terra, busca uma paiiilha
o próprio Estado, sua função social, de terras onde possa trabalhar e sobreviver, o MST luta pela
seus princípios e suas ações . Esse Reforma Agrária. Segundo INDURSKY (1995 , p. 129),
tipo de posicionamento culmina por
fundar uma nova prática social para
esse novo sujeito emerge como sujeito
os sem-terra cujo enunciado de base
político que passa a contestar a ordem
esse discurso representa : "ocupar,
jurídica, promovendo um confronto de
resistir e produzir". As unidades desse
interpretações: de um lado, encontram-
enunciado representam os objetivos e
se aqueles que defendem o direito
concepções do MST, é uma superação
de propriedade e que só vêem a
dos movimentos que o antecederam.
questão por esse ângu lo ; de outro lado,

Essas afirmações nos exigem fundamentar também " Es tamos nos re ferindo ;io trabalho estranhado que segundo M;irx é uma produção de
que a zona rural brasileira é um espaço de conflitos de re lações soc iai s determinadas: "Se o produ to do trabalho niio pertence ao trabalhador, se
a ele se contrapõe como poder estranho, isto só é poss íve l porque o produto cio trabalho
classes. Há, no campo, alta concentração de terra (grandes pert ence a outro homem di stinto do trabalhador. Se a sua atividade constitui para e le um
latifúndios) e, ao mesmo tempo, um grande número de martírio, tem de ser fonte de deleite e de praze r para outro. (MARX, 200 l ,p.119)
102 Análise do Discurso:
Fundamentos & Práticas 103

encontram-se os que defendem o direito interpretação cio mundo juridicamente


à propriedade, ou, tal como dito no
assegurada. Ou melhor, que assegura,
discurso desse sujeito, o direito à teITa,
juridicamente, a fronteira entre o que
colocando em cheque a perpetuação do
pode e deve ser dito. O resultado deste
direito de propriedade.
processo é a ilusão do jornalismo-
verdade, ou seja, a ilusão de que
Agora, sabendo um pouco mais sobre a
os jornais são apenas testemunhas,
problemática vivenciada pelo MST na sociedade meios de comunicação ou veículos
brasileira, é preciso também buscar conhecimento sobre informativos. (1999, p. 59)
o funcionamento da imprensa, afinal, a materialidade
discursiva que estamos analisando foi retirada ele uma Ao divulgar a notícia, a imprensa se impõe como
revista de grande circulação nacional. autoridade que pode falar sobre o mundo, tornando
Em decorrência desses apontamentos, sustentamos o determinados fatos visíveis e conhecidos para seus leitores.
pressuposto de que a imprensa não é autônoma e no seu modo A imprensa informa os acontecimentos como se o leitor, ali
de produzir a notícia revelam-se os interesses econômicos e estando, pudesse ver exatamente aquilo que foi descrito por
políticos em jogo que são constitutivos do dizer. Desse modo, ela. Segundo STEINBERGER (2005, p. 19),
a imprensa emite seus julgamentos de valor que vão atuar na
institucionalização social dos sentidos sobre o MST~ 9 . Mas A linguagem jornalística estrutura
nem sempre esses julgamentos são assumidos como tais. percepções de mundo valendo-se de
Como diz Mariani (1999), a imprensa vai se colocar perguntas (Quem? O quê? Quando?
como autoridade que fala sobre o mundo, retratando-o e Onde? Como? Por quê?) que já delineiam
tornando-o compreensível para os leitores através do efeito o perfil dos atores envolvidos na trama
ilusório da informatividade. Isto acontece, segundo a autora, noticiosa. Tal perfil, independente
por que: dos traços específicos que venha a
a instituição jornalística 'esquece' adquirir no âmbito particular de cada
que foi obrigada a fundar-se com uma notícia, já carrega, per se, um valor
social de resposta.

29
Para Bakthin ( 198 1, p. 32), "um signo não existe apenas como parte de uma realidade; É a partir dessa maneira de dizer (atividade
ele também reflete e refrata uma outra. Ele pode distorcer essa n:alidade, ser-lhe fiel, ou
apreendê-la de um ponto de vista espec ífico. etc. Todo signo está suj eito aos critérios de
jornalística) que a imprensa se insere nas práticas históricas;
ava liação ideológica (isto é: se é verdadeiro, falso, correto, justificado, bom, etc.). O domínio mas vale lembrar que ela também tem sua gênese nessas
do id eo lóg ico coincide com o domínio dos signos: são mutuamente corresponde nt es".
mesmas práticas, pois compreendemos que o discurso
104 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 105

jornalístico não está dissociado da processualidade histórica meio social, tomando-se óbvio (evidência), rnna vez que aquilo
e, por isso, é também espaço de lutas de classes. que é visto/lido se apresenta como tendo um sentido natmal,
É bom relembrar que o modo de dizer, bem como e, a linguagem aparece como algo neutro e transparente.
os efeitos de sentido produzidos são regidos pela formação Como foi dito, o trabalho com o discurso exige uma
social. Desse modo, o discurso da imprensa traz as marcas abordagem crítica diante da linguagem, visto que se trata
da lógica e dos interesses do capitaPº. de aprynder, pela análise da materialidade discursiva, os
O que acabamos de refletir nos ajuda a avançar processos de sentido que atuam na história. A linguagem
nas análises. Nesse sentido, já podemos retomar nossas é sempre lugar de conflito, segundo Bakhtin (1981, p. 46),
considerações sobre o MST como acontecimento discursivo, "em todo signo ideológico confrontam-se índices de valor
destacando que suas práticas são interpretadas, ou seja, as contraditórios. O signo se torna a arena onde se desenvolve
ações do Movimento são noticiadas em toda a imprensa a luta de classes".
brasileira e, nos anos noventa, o MST é discursivisado com Munidos dessas reflexões vamos buscar questionar,
uma crítica negativa nos principais órgãos da imprensa escrita a partir da materialidade discursiva, o que seria "baderna"?
e televisava do país. Cabe observar que a palavra "baderna" produz o
Retomando a materialidade discursiva "Ato do MST efeito de sentido de desordem, confusão, e, por fim , conflito.
em frente da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília: É importante levar em consideração que estamos tomando
baderna", podemos observar que o funcionamento do para nossa análise a materialidade da língua onde está sendo
discurso da imprensa sobre o MST encaminha os sentidos realizado o processo discursivo 3 1• É importante destacar que
para repudiar o Movimento: "Ato do MST: baderna". entre o enunciado "Ato do MST" e a palavra "baderna" há
Em virtude das práticas sociais do MST, ou seja, sua o sinal gráfico (dois pontos) que atua como uma form a de
inscrição nas relações sociais, a imprensa se percebe obriga,da definição do acontecimento "Ato do MST: baderna". A ação
a falar sobre o MST, descrevê-lo, infonná-lo à sociedade. E o do MST é definida como "baderna" e esses sentidos negativos
que faz a revista e, nessa prática de tomar a palavra, sempre são o que, de modo dominante, têm circulado nos noticiários
uma prática social, ela instaura um processo de significação, e nas falas cotidianas. Pela sua repetição (paráfrase) se produz
de tal modo, que se confunde o fato em si e o dizer sobre ele. o efeito de evidência que associa MST a baderna.
Isso faz instalar várias interpretações sobre o acontecimento
histórico, atribuindo-lhe sentido e, nessa luta, algumas
interpretações tornam-se dominantes, outras são silenciadas.
11 É importante ressa ltar qu e : "a lín gua na An áli se do Di scurso é tomada cm sua fo rma
Alguns sentidos vão-se discursivisando e se cristalizando no materíal enqu anto orde m s ig nificante capaz de equívo co , de des li ze. de falha , ou seja,
enquanto s istema s intáti co intrin secamen te pa ss íve l de jogo que co mporta a ínscri ção
cios efe itos lin guís ti cos materiai s na hi stória para produz ir sentidos [ ... ]. Para o an ali sta
de di scurso a lín g ua não será obj eto de in vestigação primordial , mas um pressuposto
"' Ver G a ia (2 005). fundamental pa ra anali sar a materíaliclacle ci o di scurso ". (FERR EIRA, 200 3, p. 196 e 197).
106 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 107

O discurso dominante reinscreve o "ato" do MST Diante do que estudamos, podemos concluir que o
como "ato" ilícito e sinaliza que as práticas estão fora da discurso sobre o MST é uma manifestação do movimento
ordem. Aqueles objetivos do MST que citamos no início de de reprodução/transformação da sociedade capitalista. A
nossa análise "lutar pela terra, pela Reforma Agrária e pela imprensa, ao relatar os fatos, já está determinando e (re)
construção de uma sociedade mais justa, sem explorados produzindo sentidos sobre os Sem Terra. Esses sentidos, urna
nem exploradores" ficam comprometidos com a associação/ vez texh1alizados, vão constituindo a representação sobre o
definição produzida MST=baderna. MST para os leitores e para a sociedade em geral. Se esse
Para finalizar nossa análise, poderemos citar o discurso faz parte do movimento de reprodução/transfo1111ação
enunciado, publicado na Veja em 23 de janeiro de 2009, das relações sociais é porque ele está afetado pelos conflitos e
que voltou a circular durante a comemoração dos 25 anos interesses de classes, tornando a posição dos dominantes, mas
do MST: aparect(ndo como parte da opinião pública. Considerando, por
outro lado, que os leitores da revista são vistos como aqueles
Os 25 anos do MST: invasões, badernas e desafio à lei que reproduzem os sentidos dominantes, para a sociedade como
um todo, a dita classe média, pessoas que exercem atividades
Como resultado, podemos afirmar que os sentidos sobre fundamentais para a prática ideológica, em instituições como
o MST vão sendo textualizados e a imprensa fala tomando escola, Estado, igrejas, etc., percebemos como a representação
posição nos conflitos de classes e, assim, busca salvaguardar negativa do MST, hoje, domina praticamente todos os discursos,
a propriedade privada tida, na sociedade capitalista, como independente da posição de classe dos sujeitos sociais.
natural. Como vimos, definir o MST corno ''baderna" serve
aos interesses da classe dominante, que o vê como inimigo a O discurso e as tentativas de "controle" sobre o trabalhador
ser eliminado. Segundo INDURSKY, (1995. p. 127 e 129),
Quando tratamos de discurso, o linguístico e o
O discurso jornalístico assume histórico são instâncias constitutivas do dizer do sujeito. Se
a posição-sujeito elos fazendeiros, o discurso é mediação entre os homens, efeitos ele sentido
apontando a ilegalidade das ações elos entre interlocutores, isto significa que não estamos tratando
sem-terra[ ... ]. Em sua ótica, fica apenas
de transmissão ele info1111ação, mas sim de efeitos de sentido
uma única leitura, que é dada como a
leitura. E fica assim instituída a visão que elevem ser levados em consideração junto com as relações
hegemônica sobre a problemática da entre os sujeitos e as condições ele produção elo discurso.
terra no Brasil. Visão esta que acaba É pensando nisso que vamos avançar no exercício
sendo repassada para o leitor da mídia analítico a partir da propaganda ela companhia ele telefonia
como a "opinião pública". móvel Claro.
108 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 109

o texto em negrito localizado no centro do cartaz. Notamos


que o texto se apresenta como urna pergunta retórica e traz
em seguida uma resposta: "Já pensou em definir como cada
funcionário vai usar os celulares da sua empresa?" "A Claro
Empresas já."
A resposta imediata que se apresenta ao final
da pergunta põe um ponto final à indagação suscitada,
produzindo um efeito de conclusão da questão, de "problema"
resolvido. O que nos chama a atenção é que, antes de ser uma
necessidade pensada pelos empresários, ela se apresenta
iá p i.l'M(!U em clf3fi nfr
como ~ada fom:fon,irlo como já-pensada e já-resolvida por outra empresa.
!;lal u sar os coh1l.,.rcu. O analista de discurso pode começar a pensar como
dai is-u ;i. u nrp r' !!JJ •~?
o texto traz em sua historicidade as posições sujeito em
jogo no processo sócio-h istórico . Certamente, o leitor já
pode perceber que estamos em uma formação discursiva,
ou sej a,, espaço onde se delimitam os dizeres do que pode
e deve ser dito . Aqui , esse espaço se manifesta sob a fom1a
de propaganda de uma empresa de telefonia móvel. Nessa
direção , as palavras vão produzindo sentidos em referência
às posições ideológicas em jogo.
No caso em estudo, compreendemos que há, no
intracliscurso, marcas que revelam a existência de sujeitos
históricos da formação social capitalista. Ou seja, temos
na materialização do discurso o movimento contraditório
das re lações de produção onde duas posições de sujeito
antagônicas se manifestam:

Patrão X Empregado

Quando observamos a materialidade discursiva acima , Estamos constatando isso a partir das propriedades
nosso olhar é direcionado para a imagem e, cm segui.da, para discursivas encontradas no corpo do texto:
11 o Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 111

Proprietário da empresa/do negócio = "sua empresa/ Corno sujeito e sentido não são transparentes, precisamos
seu negócio" desconfiar do óbvio, pois não há discmso sem sujeito, nem
sujeito sem ideologia. Desse modo, ao volvermos o olhar
Trabalhador= "funcionário" sobre a palavra "controle", podemos constatar como ela vai
produzindo sentido quando se vai desvelando a posição de onde
ela é dita. Podemos entender, primeiramente, que ela incide
Pelas pistas da materialidade discursiva observamos: sobre a palavra "celulares" (você controla todos os celulares da
há funcionários e há donos de empresas. Além disso , sua empresa). Mas, no movimento de paráfrase-polissemia que
especifiquemos ainda, há também outra empresa "pensando" presenciamos, a palavra "controle" vai incidir, essencialmente,
corno se deve "definir" o modo como o funcionário "vai usar sobre os "funcionários". Ou seja, essa palavra que, em seu efeito
os celulares" da empresa. Essas pistas revelam a determinação de transparência, direcionava para os celulares, vai revelando
da constituição histórica do sentido e do sujeito 32 . os interesses emjogo (posição sujeito) de quem a dita. Ela vai
Em seguida, podemos analisar o que se diz no topo da incidir sobre os dias, os horários e os tipos de ligação e, até
propaganda que aparece em letras menores: mesmo, de modo individualizado, sobre o consumo mensal "de
cada tm1" dos ft.mcionários. Desse modo, é sobre os ftmcionários
Gestor Online: Você controla pela que o "controle" quer/precisa atuar.
Internet todos os celulares da sua Compreendemos esse movimento porque "as palavras,
empresa. É só acessar o site da Claro e expressões, proposições, etc., mudam de sentido segundo as
pronto: você economiza escolhendo os
posições sustentadas por aqueles que as empregam[ ... ], isto é, em
dias, os horários e os tipos de ligação
referênciaàsformações ideológicas[ ... ] nas quais essas posições
que os seus funcionários podem fazer,
se inscrevem." (PÊCI-:IEUX, 1988, p. 160). Por isso, o argmnento
e até o consumo mensal de cada um.
Tudo para dar mais tranqüilidade para da empresa de telefonia é que o empresário "economiza"
você e sua empresa. Claro Empresas. "controlando" as "ligações" dos "seus funcionários". E argumenta
A gente pensa mais no seu negócio. que essa "economia" (reduzindo gastos a pa1tir do controle sobre
os celulares/funcionários) tem por finalidade "tudo para dar mais
tranquilidade para você e sua empresa".
30É importante destacm· que: "Quando trabalhamos com a produção de discursos dos
Desde as primeiras críticas de Marx em relação à
sujeitos, temos de compreender que eles estão se movendo na s contradições da s relações lógica liberal, um ponto é constantemente ressaltado por
sociais de uma determinada sociedade; especialmente , trabalhamo s com a sociedade
burguesa e a forma de ser desta , que tem por lógica transformar tudo em mercadorias, tem
este autor: o tempo de trabalho precisa ser controlado, pois é
impli cações forte s na constituição dos sujeitos e elos di sc ursos. Essa questão é int eressante através desse controle que se obtém a possibilidade de maior
porque permite abordar os sujeitos hi stóri co-sociai s inseridos em práticas obj etivas que
con stituem sua subjetividade e que concomitantemente constituem a própria objetividade" .
exploração da mais valia. Diversas formas de se efetivar
(S ilva Sobrinho, 2007 , p. 77) esse controle foram usadas ao longo da história do sistema
112 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 11 3

capitalista, fazendo com que uma área do saber humano - a funcionário (que não pensa na empresa) que é utilizada/
Administração de Empresas - fosse sempre crucial para o enfatizada para interpelar os empresários. O uso tido como
bom desempenho das unidades produtoras. Embora com inadequado do celular da empresa pelos funcionários para
diferentes abordagens e abrangência, administrar uma atividades outras, e não da razão comercial, é sinalizado
empresa é ter o controle do trabalhador com o objetivo de como prejuízo para a empresa. Podemos constatar isso
obter maiores lucros. na finalização do enunciado da propaganda onde a Claro,
Essa é a tranquilidade que a CLARO oferece aos que também é uma empresa, diz: "A gente pensa mais no
outros empresários. seu negócio" revelando que é o empresário falando para o
O analista pode questionar, por outro lado, o que é empresário. É a classe dominante falando para seus iguais e
tranquilidade? Quais os sentidos mobilizados para afetar os dando possibilidades de exercer maior "controle" sobre "seus
empresários e levá-los a aderirem ao "gestor on1ine" da Claro? funcionários'', ou seja, exercer poder sobre os trabalhadores.
Antes de responder, voltemos a Pêcheux (1988 , A forma comparativa que absolutiza a própria Claro
p. 145), pois ao falar sobre as condições ideológicas da como a empresa que "pensa mais no seu negócio'', revela
reprodução/transformação das relações de produção, esse os interesses dos sujeitos de classes , ou seja, manter a
filósofo enfatiza que essas condições contraditórias são exploração e o "controle'' das relações de trabalho a fim de
constituídas em um dado momento histórico e avança na sua permitir mais tranquilidade para o empresariado e para a
reflexão ao considerar que: empresa e, assim, por consequência, reproduzir a manutenção
das relações de exploração dos homens sobre os homens
os 'objetos' ideológicos são sempre como preconiza a lógica do capital 33 •
fornecidos ao mesmo tempo que a
Nessa materialidade discursiva , podemos constatar
'maneira de se servir del es ' - seu
que, nas relações de trabalho, há resistência dos sujeitos.
'sentido', isto é, sua orientação, ou
seja, os interesses de classe aos quais Funcionários que fazem outras ligações, que conversam
eles servem -, o que se pode comentar durante as horas de trabalho, que burlam as regras da
dizendo que as ideologias práticas são empresa , que afetam o processo de extração da mais-
práticas de classes (de luta de classes) na valia. Isso confirma que "não há identificação plenamente
Ideologia. (PÊCHEUX, 1988, p.146). bem sucedida, isto é, ligação sócio-histórica que não seja
afetada, de uma maneira ou de outra, por uma 'infelicidade',
Sendo assim, como o discurso é materialidade do no sentido performativo do termo" (PÊCHEUX, 2002,
ideológico, ele manifesta as lutas de classes. Nessa direção,
"Segundo Marx: "O capit a l é entã o o poder de do111i11io sobre o trabalh o e sobre os seus
podemos compreender, a partir da propaganda, a construção produt os. O capitali sta tem este poder, não em ra zão das suas virtud es pessoai s ou humanas.
de uma imagem dos funcionários corno indivíduos ma s co mo 11m111·ictário ci o capital. O seu poder é o poder de co mpra cio se u ca pital, a que
nada se pode contrapor"'. (MARX, 2001 , p. 80)
prejudiciais à empresa. No intradiscurso é a imagem cio
114 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 1J5

p. 56). Na análise que estamos desenvolvendo , podemos fatalidade mecânica, ela é histórica.
compreender que tal propaganda revela seu outro, revela (ORLANDI, 2006, p. 20).
que há resistência do trabalhador, por isso, a necessidade
de tentar "controlar o trabalho " (tempo de trabalho) do Podemos constatar que há determinação histórica dos
funcionário pelo "controle do celular". sentidos e dos sujeitos e que como afim1a Pêcheux, não há
Por fim, se voltamos à imagem da propaga nda , dominação sem resistência. É impo1iante ressaltar, por fim,
ficamos em dúvida se na imagem apresentada trata-se que esses efeitos de sentidos não se restringem às propagandas,
de uma foto do dono da empresa ou de um funcionário pois perpassam as práticas sociais da sociedade capitalista.
usando o celular da empresa. Essa ambiguidade faz parte da Certamente, podemos encontrar esses discursos em outros
sociedade em que vivemos, pois nem sempre é possível ter lugares e em outras condições de produção. Cabe a nós analistas
clareza de quem manda e de quem obedece, ou mesmo, de desvelá-los em sua concretude histórica e buscarmos caminhos
quem manda e de fato manda e de quem obedece pensando para que possamos, de fato, vislumbrar novos sentidos.
que está mandando. Essas questões são orientadas pela
posição do sujeito nas relações sociais e pelos efeitos ela
projeção do imaginário que afeta a produção do discurso. A ambiguidade do discurso: mulher trabalhadora e mãe
Segundo Orlandi:
Neste momento desenvolveremos urna análise a paiiir de
A materialidade dos lugares dispõe a duas materialidades discursivas que trntam da profissionalização
vida dos sujeitos e, ao mesmo tempo, da mulher. A primeira é assinada pelo Coren (Conselho Regional
a resistência desses sujeitos constitui de Enfermagem de São Paulo) e circulou no Jornal Folha de
outras posições que vão materializar
São Paulo. A segunda materialidade é um panfleto assinado
novos, outros lugares, outras posições.
pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e circulou
É isso que significa a determinação
histórica dos sujeitos e dos sentidos:
no campus universitário. São discursos que "homenageiam" as
nem fixados ad etemwn, nem desligados mulheres que desempenham atividades de trabalho fora de casa.
corno se pudessem ser quaisquer uns. Diante dessas materialidades reafi1111aremos nosso
Porque é histórico é que muda e é posicionamento, enquanto analistas, ressaltando a impo1iância
porque é histórico que se mantém . Os de considerarmos o caráter determinante das relações de
sentidos e os sujeitos poderiam ser classes na produção do discurso retornando a centralidade
sujeitos ou sentidos quaisquer, mas não do trabalho a fim de fundamentar a nossa compreensão do
são. Entre o possível e o historicamente processo histórico de produção e reprodução da vida humana .
determinado é que trabalha a análise de A esse respeito , partimos de pressupostos teóricos e
discurso . A determinação não é urna
rnetod0lógicos que consideram ser a reprodução dos seres
11 6 Aná lise do Discurso:
Fundamentos & Práticas li 7

humanos integrante de um sistema que inclui a produção e


A nosso ver, toda essa realidade da condição da
a reprodu ção da vida. Na verdade, uma é condição da outra, mulher faz parte da lógica do sistema para acumular capital,
isto é, há uma subordinação da reprodução à produção, que tanto pela manutenção de um trabalho gratuito (por mais
se apoia sempre numa divisão sexual do trabalho, que terá que mudanças tenham ocorrido) como pelo rebaixamento
diferentes variações , dependendo da lógica da produção de do salário feminino na produção direta.
cada sociabilidade. A paiiir de nossa filiação à Análise do Discurso (AD),
Nas sociedades de classes, as relações entre os sexos tomaremos como objeto de análise, nesse momento, o discmso
foram sempre estabelecidas pela exclusão das mulheres que homenageia a profissional mulher. Como veremos, as
do campo sociopolítico, pois a imbricação entre produção materialidades discursivas revelam os gestos de interpretação
e reprodução dos seres se manifesta a partir de uma dominantes na sociedade regida pela lógica do capital.
subordinação das mulheres aos homens.
Esse aspecto é importante porque entendemos que
a reprodução social na sociedade capitalista se utilizará
ideologicamente desta divisão, determinando que as tarefa s
necessárias à manutenção do sistema sejam executadas em
espaços diferenciados: a reprodução biológica e cotidiana
é reali zada pela família no espaço da casa, e a reprodução
econômica, jurídica e política se realizam no espaço da rua,
nas fábricas e órgãos públicos da administração e de poder.
O que dissemos até agora permite fundamentar nossa
reflexão sobre as condições de produção amplas do discurso que
iremos analisar. Implica destacar, também, que na sociedade
contemporânea, essa situação se desestabiliza, uma vez que as
mulheres passam a realizar tarefas fora do espaço da casa. Essa
"ausência" da esposa/mãe no espaço doméstico é tida como uma
Temos aqui a primeira materialidade discursiva.
ameaça à estn1turação da família. Por isso, as mulheres acabam
Em nossa aproximação, entendemos que se trata de uma
se submetendo à dupla jornada, pois a responsabilidade com homenagem, em virtude do dia das mães , "as mulheres
os cuidados dos filhos , as tarefas de reprodução cotidiana são que se dedicam a arte cio cuidar". Mas é preciso destacar
eminentemente apresentadas como femininas, o que as vincula que o Coren ao lon go de sua história vem lutando para
como algo próprio da natureza da mulher. consolidar a enfermagem como profissão fundam ental
118 Análise do Discurso:
Fundamentos & Práticas 119

dentro do complexo das atividades dos trabalhadores da


saúde, no Brasil. Suas reivindicações sempre sali entam
a necessidade de profissionalização das enfermeiras e de ~ : <cltl t'.frth:~ ~. !f!':br-1~mo~ -0'.t r~ i t;o-"J: ·~x:~Smk~ff ~m-k, r}~ ~ :'J;tWJ•.,41,
-o·t c.(11"tÇ~!!I reitt ntdtcr. ·
salários compatíveis com a importância e a responsabilidade
das atividades desenvolvidas por essas trabalhadoras. Ser rrv.J-1her é .,.,
Ser mil.e , esposo e ·fí lhcc
Como a linguagem não é transparente, é importante É ter respvrist.lbilid.;,de , $~!l$1b 11'idotfo e ousadia.
questionar o gesto de interpretação, a partir da própria É l~r· inluit;ifo, Ctwu9en:1,
ÇQ'f1'1p~ l €!1cia <!;estar préti l ú ptH' d llQ\IQS' iJMafioS .
materialidade discursiva, pois se trata de um discurso que
parte de um órgão profissional "conselho de enfennagem"
que homenageia a profissional (enfermeira) por ela ser "mãe"
dizendo que é esta a "diferença". Essa segunda materialidade discursiva é semelhante
A articulação entre "ser mãe" e "esta é a diferença à que apresentamos acima. O nosso olhar analítico sobre a
na arte de cuidar'', mobiliza sentidos dominantes que fom1a material (linguístico-histórica) pe1111ite compreender
reforçam a naturalização do lugar da mulher que, para que há uma sobredeterrninação dos sentidos de maternidade
ser reconhecida como uma profissional, precisa antes de sobre os sentidos de profissional mulher. O enunciado aponta
tudo ser definida como mãe. Trata-se aqui de um retorno inicialmente para o dia 08 de março (dia internacional da mulher)
de sentidos construídos historicamente ; é o retorno do e, em seguida, desliza os sentidos de urna posição para outra.
já-dito que se reinscreve nessa materialidade discursiva Há, inicialmente, um retorno à memória do movimento
revelando uma forma de administrar os sentidos sobre a feminista destacando que:
posição das mulheres nas relações de trabalho. Segundo
Courtine (1999, p. 20), o interdiscurso fornece os objetos "Nesta data celebramos os feitos
econômicos, políticos e sociais
do discurso em que a enunciação se sustenta, assim,
alcançados pela mulher."
podemos compreender o modo como se dá a relação da
língua com a história na produção de sentidos, ou seja,
No entanto, os sentidos deslizam e o dizer se reinscreve
os sentidos são produzidos nas filiações sócio-históricas
em outra fo1111ação discursiva que faz ressurgir sentidos de
que retomam e atualizam o já-dito.
maternidade como atributos que definem essencialmente as
Contudo, esse tipo de manifestação do já-dito não
mulheres. Assim, ternos o movimento do discurso definidor:
é um caso isolado, pois o caráter ambíguo do discurso se
materializa em várias instâncias sociais e volta a aparecer Ser mulher é ...
no panfleto da UFPE de homenagem ao dia internacional da Ser mãe, esposa e filha.
mulher (08 de março de 2007): É ter responsabilidade,
120 Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 12 l

sensibilidade e ousadia. o risco de reduzir o debate sobre a exploração e submissão


É ter intuição, coragem, da mulher simplesmente ao poder masculino (patriarcalismo),
Competência e estar pronta para
como se esse poder fosse dado naturalmente. É preciso pensar
novos desafios.
o gênero como uma construção social que vem se modificando
ao longo da história, que divide e dá sentido às tarefas humanas,
Conforme a materialidade discursiva em análise,
a ambiguidade do discurso, que fala inicialmente da f-t.mdadas na base material ela produção da vida.
profissional destacando sua "diferença" pela maternidade, faz A sociedade brasileira, como toda sociedade capitalista,
parte da constituição da representação simbólica da mulher é hierarquizada. Além de uma divisão em classes sociais há
'
moderna. O caráter ambíguo do discurso coloca a mulher na também uma divisão sexual do trabalho que é afetada pelas
contradição entre o espaço da casa (rainha do lar) e o da rua relações de apropriação do trabalho alheio. A nosso ver, gênero
(dos feitos econômicos, políticos e sociais) numa relação de e classe social não se excluem; ao contrário, complementam-
dependência dos valores tidos como naturalmente femininos: se, sob a determinação das relações de classe. No entanto,
ser mãe, esposa e filha, enfim, ser cuidadora. O que temos grande paite elas mulheres aparece como se não fizesse pmte
aqui é um funcionamento da memória discursiva que segundo da classe trabalhadora. Essa barreira social e cultural é sempre
PÊCHEUX (1999, p. 52) "tende a absorver o acontecimento, justificada por questões da natureza biológica da mulher,
como uma série matemática, e prolonga-se, conjecturando voltada para a reprodução, gestação, parto, aleitamento.
o termo seguinte, em vista do começo da série". Para nós, Em decorrência do tratamento que põe a mulher
o panfleto em homenagem à mulher se reinscreve na ordem
como fazendo parte fundamentalmente da ordem da natureza
do repetível, mesmo que com diferentes enunciações, ele
(reprodução biológica), é comum interpretar que ela tenha
retoma a memória e delimita o que pode e deve ser dito 3 ~.
como função natural cuidar do âmbito doméstico. Portanto,
Dentro desse caminho de análise, é necessário
institucionaliza-se a imagem da mulher filha, zeladora do
voltarmos ao pressuposto ele que a posição ela mulher e do
homem na sociedade é determinada pelas relações sociais lar, esposa e mãe devotada à família, fazendo-a assumir os
ele produção e esse é seu caráter fundante. Isso inclui levar serviços domésticos de manutenção da vida, como alimentar
em consideração a maneira como os sujeitos paiiicipam, na e socializar os filhos, de modo paciente (sensível), ou mesmo,
sociedade capitalista, do mercado de trabalho assalariado e da produzindo sentimento de culpa quando não é possível
produção e reprodução da própria vicia. Com isso, afastamos realizar tais tarefas tidas como naturalmente "próprias" de sua
condição de mulher que a define como mãe, esposa e filha.
11
·• I~ importante destacar que a memó ria não é homogênea e nem estabilizada. Segundo Está aí o funcionamento da ideologia que tem detern1inação
Pêc heu x ( 1999 , p. 56) a memória "'é necessariamente um espaço móvel de divi sões, de
di sjunções, de des locamentos e de retomada s, de conflitos, ele regulari zações ... Um espaço
em última instância nas relações de base econômica. Segundo
de desdo bramentos, réplic as , pol êmi cas e co ntra-di scurso". PÊCHEUX e FUCHS (1997, p. 165),
Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas 123
122

o funcionamento da instância ideológica do trabalho. Os sentidos de ser mulher (profissional), e ser


deve ser concebido como determinado mulher:( mãe responsável/sensível) resultam de um complexo
em última instância pela instância onde se entrelaçam as relações de gênero, fundadas nas
econômica, na medida em que aparece relações de trabalho.
corno uma das condições (não- É esse complexo contraditório qu e sustenta a
econôrnicas) da reprodução da base
formulação e circulação do discurso e a produção de sentidos
econômica, mais especificamente ,elas
e, certamente, esse discurso tem afetado e continua afetando,
relações de produção inerentes a esta
enquanto efeito de retorno sobre o real, a constituição do
base econômica.
lugar ela mulher e do homem em nossa sociedade. Trata-se
aqui ele um discurso conservador que continua acontecendo
Na verdade, o que se tem na base fundante dessa
dia a dia, hora a hora, e sua eficácia está em que ele simula
problemática é um aumento da individuação feminina (fruto
hom enagear a mulher, mas faz questão de reconduzi-la ao
da luta das mulheres), tornando contraditória sua participação
espaço doméstico .
na sociedade. Se se comparar a mulher de hoje com a do início
Consideramos, por fim, que a constituição de uma
do século passado, a diferença é enorme. A grande maioria subj etividade autônoma ainda encontra sérios obstáculos para
hoje está sob a lógica do modo de produção capitalista e o gênero feminino, na medida em que representa a negação de
vem conseguindo obter certo status de cidadã, próprio de estruturas simbólicas que a fazem dependente do outro sexo.
cada sociabilidade deste sistema. No entanto, a individuação Por isso, ao mesmo tempo em que buscam a autonomia as
se choca com a submissão e opressão. Por isso, o discurso mulheres são responsabilizadas pelo bem comum familiar.
que diz homenagear a profissional se mostra dúbio , pois, na Cria-se uma luta entre os diferentes membros da família
medida em que enaltece a liberdade, a profissionalização, os em busca de suas próprias individuações, cabendo à mãe/
feitos econômicos e políticos conquistados pelas mulheres, esposa o papel de zelar pelo coletivo, por exemplo, através da
ao mesmo tempo, cria um efeito discursivo de retorno de realização pessoal/profissional, o que só é aceito quando não
determinados sentidos que não deixa as mulheres esquecerem vem a acarretar problema para o bom andamento da casa. Por
que "seu lugar" primordial/natural é a casa, que "seu espaço" isso , muitas mulheres desistem e só se encaminham para essa
fundante é o da família e que "sua função" é ser mãe, ser busca por necessidade financeira, ou quando os filhos não
esposa, ser filha, ser cuidadora. precisam mais de assistência diuturna ; no entanto, continuam
Como vimos , é dessa forma que as relações de sendo responsabili zadas pelo bom/mau andamento do lar.
produção estabelecem/reproduzem as relações entre os
sexos na sociedade contemporânea. Essas contradições
discursivas são constituídas nas relações contraditórias da
formação social capitalista, especificamente na divisão sexual
CONSIDERAÇÕES FINAIS

:'bestacamos, por fim , que procuramos desenvolver,


ao longo dos capítulos, aspectos que demonstram a
impossibilidade de uma análi se do discurso que não leve em
conta as contradições sociais de uma sociabilidade divida
cm classes sociais. Enfatizamos esse ponto por perceber que
tanto na França, origem desse pensamento, quanto no Brasil,
se produzem pesquisas em Análi se do Discurso, com base em
diferentes ancoragens teóricas. Essa diversidade, ao tempo
em que amplia os horizontes teóricos, também pode se afastar
da compreensão da totalidade da sociedade contemporânea.
Em Aná li se do Discurso pecheutiana já existem
bons livros de introdução, mas a especificidade desse livro
está numa abordagem da AD de perspectiva ontológica do
materialismo histórico-dialético, o que constitui o ponto
central de nossas pesquisas. Por essa razão, procuramos
aliar uma escrita clara a uma discussão teórica precisa, o que
muitas vezes foi difícil de conciliar, devido à complexidade
dos referenciais teóricos utilizados .
A AD , pois, articula o lin guístico ao sócio-histórico
e ao ideológico. O discurso pensado, então, como práxis,
como ação de sujeitos históricos, é o lugar onde os sentidos
se produzem, onde os sujeitos atuam, em decorrência de
envolvimentos socia is, históricos e ideológicos. Essa visão
de discurso oferece uma abertura para ressignificações ,
126 Análise do Discurso:

associações, transformações, mediante uma perspectiva


histórica da língua e do sujeito.
Nosso interesse, em todo o trabalho, foi desvelar
as determinações históricas dos sentidos produzidos pelos
discursos que circulam nas práticas sociais. Esses foram, REFERÊNCIAS
apenas, alguns discursos que em nosso percurso buscamos
desvelar. No entanto, muitos outros perpassam e constituem
as relações sociais e precisam ser compreendidos em sua
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