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Hipócrates e os Tratados Hipocráticos, ou o Primado da Salubridade


e do Ambiente na Escolha de Lugar para a Cidade
o ar é aquilo de que todo o resto se origina (ἀέρα τὸ ἐξ οὗ πάντα γίνεται τὰ ἄλλα)1.

Embora se admita, tal como para Homero em relação à epopeia, que tenha sido mais
um compilador, do que o autor, que começou por ordenar e fixar em forma escrita
toda uma ancestral tradição grega de conhecimentos e práticas de medicina, é como
médico e fundador da Ciência Médica ou, se se quizer, dos fundamentos teóricos da
Arte da Medicina2, que se vê Hipócrates (460-366 a.C.)3, no âmbito dos Tratados
Hipocráticos (a maioria dos quais não serão de sua autoria, mas seguramente de outros,
possivelmente, discípulos seus4), pronunciar-se sobre a natureza dos ares, das águas,
e dos lugares (περὶ ἀέρων, ὑδάτων, τόπων)5 benéficos para a vida, logo, também para

1
Diógenes de Apolónia (c. 499-28 a.C.), seg. Teofrasto Phys. op. Fr. 2 ap. Simplicium in Phys. 25
(DK 64 A 5), in Kirk, Raven, Schofield, ob. cit. (1983, ed. portuguesa 2008), p. 462.
2
Na verdade, mais que Ciência, considera-se a Medicina uma Arte, embora com fundamentos teóricos e
enfoque de carácter científico; ver: M.ª L. Couto Soares (coord.), obra descrita na nota a seguir.
3
Sobre Hipócrates, ver: Edelstein, L., Peri Aeron und die Sammlung der hippokratischen Schriften,
Berlin, 1931; id., Ancient Medicine: Selected Papers of…, ed. by O. Temkin and C. L. Temkin, transl.
from the German by C. L. Temkin, Baltimore, 1967, new ed. 1987; Jouanna, J., Hippocrate. Pour une
archéologie de l’école de Cnide, Paris, 1974; Smith, W. D., Hippocratic Tradition, Ithaca / New York,
1979; Jouanna, J., Hippocrate, Paris, 1992; Pinault, J. R., Hippocratic Lives and Legends, Leiden, 1992;
Jouanna, J., «Hippocrate et la Collection hippocratique dans l’Ars medicinae», in Revue d’Histoire des
Textes XXIII, 1993, p. 123-158; Vitrac, B., Médecine et philosophie au temps d’Hippocrate, Paris, 1995;
Jori, A., Medicina e medici nell’antica Grecia. Saggio sul “Perì téchnes” ippocratico, Bologna, 1996;
Couto Soares, M.ª L. (coord.), Hipócrates e a Arte da Medicina, Lisboa, 1999.
4
Jouanna, ob. cit. (1992), p. 85: Sous le nom d’Hippocrate, la tradition nous a conservé une soixantaine
d’écrits médicaux de langue ionienne (…) l’ensemble des traités ne peut pas avoir été écrit par un seul
homme (…) Malgré une unité indéniable de cet ensemble de traités médicaux, qui tient à l’esprit rationnel
d’une médecine dégagée de toute magie apparente, l’œuvre n’est pas homogène. C’est la raison pour
laquelle on la désigne actuellement sous le nom de Collection hippocratique ou de Corpus hippocratique.
5
Hipócrates, «Sobre los aires, aguas, y lugares», introd., trad. y notas por J. A. López Férez, in Tratados
4

o estabelecimento de cidades. Esta mesma obra aparece intitulada, na mais recente


edição alemã, dos anos 70, considerada das mais conceituadas, Über die Umwelt6, o
que quer dizer, Sobre o Ambiente, título bem significativo, pelo que indicia do tema
geral da obra, e também como sinal de uma leitura interpretativa de sentido actuali-
zado7, ou seja, compreendida à luz das actuais preocupações com die Umwelt8, ou seja,
o Ambiente, e a sua decisiva importância para o estabelecimento do Habitat humano,
de que, hoje em dia, as cidades são a componente mais significativa. De certa forma,
também na Grécia, do tempo de Hipócrates, com o aumento da população; as guerras
que assolavam os campos e levavam as populações a refugiar-se nas cidades; a trans-
formação da economia, com uma componente comercial, monetária e industrial já
bastante desenvolvida9; e a mudança em geral dos paradigmas culturais10, em que
paulatinamente se vai operando a passagem do poético µῦθος para o prosaico, inda que
fundamentado (?), λόγος, a constatação da antítese φύσις-νόµος, a formulação de um

Hipocráticos II: Sobe los aires, aguas y lugares. Sobre los humores. Sobre los flatos. Predicciones I.
Predicciones II. Prenociones de Cos, introd., trad. y notas de…, y E. García Novo, Madrid, 1997. – Foi
esta a edição usada, confrontando-a com a francesa, bilíngue, Hippocrate, Airs, eaux, lieux (Περὶ ἀέρων,
ὑδάτων, τόπων), texte établi et trad. par J. Jouanna, Paris, 1996, 2e tirage 2003; consultou-se também as
edições, em inglês, bilíngue, Jones, W. H. S., Hippocrates: Airs, Waters, Places, London-Camb. / Mass.,
1923, reprinted 1972, Vol. 1, p. 66-137; e em alemão, bilíngue, descrita na nota a seguir.
6
Hippocrates, Über die Umwelt (De aere, aquis, locis), H. Diller (Hrsg. und Ubers.), Corpus medicorum
Graecorum, I, 1, 2, Berlin, 1970. – Com comentário e tradução em alemão.
7
Ver, Gadamer, H.-G., Wahrheit und Methode. Grundzüge einer philosophiscen Hermeneutik,
Tübingen, 1960, in GW 1, 6. Aufl. 1990 (durchgesehen), S. 346 ss..
8
Sobre a génese, significado e importância do conceito de Umwelt, ver: Uexküll, J. von, Umwelt und
Innenwelt der Tiere, Berlin, 1909; id., Streifzüge durch die Umwelten von Tieren und Menschen: Ein
Bilderbuch unsichtbarer Welten, Berlin, 1934, neue Aufl., Hamburg, 1956 – (ed. portuguesa, Dos
Animais e dos Homens: Digressões pelos seus mundos próprios, trad. de A. Candeias e A. G. Pereira,
Lisboa, s/d.); Helbach, Ch., Die Umweltidee Jacob von Uexkülls. Ein Beispiel für die genese von
Theorien in der Biologie zu Beginn des 20. Jahrhunderts, Aachen, 198; Mildenberger, F., Umwelt als
Vision. Leben und Werk von Jakob von Uexkülls (1864-1944), Stuttgart, 2007.
9
Glotz, G., Le travail dans la Grèce ancienne – Histoire économique de la Grèce depuis la période
homérique jusqu à la conquête romaine, Paris, 1920.
10
Jaeger, W., Paideia. Die Formung des Griechischen Menschen, Berlin, 1934 – (ed. portuguesa,
Paideia. A Formação do Homem Grego, trad. de A. Parreira, Lisboa, s/d.).
5

novo conceito de ἀρετή, baseado na παιδεία, e a questionação sobre a πόλις; tudo


isso provocara o crescimento das cidades, e levara à fundação de muitas cidades novas,
a maioria em espaços geográficos distantes e bem diferentes, o que não deixaria de
levar à preocupação e indagação sobre as características e qualidades do ambiente,
ou acerca dos ares, das águas, e dos lugares onde as cidades se localizavam. – Mas
veja-se o que, Hipócrates, começa por afirmar:

Quem queira estudar perfeitamente (ὀρθῶς ζητεῖν) a ciência médica (Ἰητρικὴν) deve fazer
o seguinte: em primeiro lugar, ocupar-se dos efeitos (δύναται) que pode ocasionar cada uma
das estações do ano, pois não se parecem em nada mutuamente, mas diferem (διαφέρουσι)
muito não só entre si, mas também nas suas mudanças (µεταβολῇσιν). Depois, tem de conhe-
cer os ventos (πνεύµατα), quentes (θερµά) e frios (ψυχρά), especialmente os que são comuns
a todos os homens, e, além disso, os típicos de cada país. Também deve ocupar-se das pro-
priedades (δυνάµιας) das águas (ὐδάτων), pois tal como diferem na boca e no peso, assim
também é muito distinta (διφέρει) a propriedade (δύναµις) de cada uma11.

A importância do clima, nas diferentes estações do ano e nas suas mudanças (µεταβο-
λῇσιν); dos ventos, na sua variedade de quentes e frios, especialmente os que são
comuns a todos os homens, e também os típicos de cada país; assim como as pro-
priedades das águas, são os primeiros factores a ser nomeados, por Hipócrates, como
tendo importância para a medicina, o mesmo é dizer que para uma vida saudável,
equilibrada e, por extensão, para a felicidade ou eudaimonia (εὐδαιµονία), postulada
pelos filósofos desse tempo como o que de melhor se podia desejar nesta vida, embora
não estivesse ao alcance de todos. – E denotando que a vida, nesse tempo, já se proces-
sava, em boa parte, dentro de cidades, e que seriam os citadinos e os seus médicos,
ou os médicos itinerantes, que se deslocavam de umas cidades para outras12, o seu
“público alvo”, veja-se a continuação do texto:

Assim, quando se chega a uma cidade (πόλιν) desconhecida (ἄπειρός), é preciso preocupar-
se com a sua posição (θέσιν): como está situada (κεῖται) com respeito aos ventos (πνεύµατα)
e ao nascer do sol (ἀνατολὰς τοῦ ἡλίου). Pois não tem as mesmas propriedades (δύναται) a

11
Hipócrates, «ob. cit.», 1, in ob. cit. (1997), p. 39-40; id., Hippocrate, ob. cit., I, 1-2 (2003), p. 186-87.
12
Jouanna, J., «Notice», in Hippocrate, ob. cit. (2003), p. 10-11: Le traité des Airs, eaux, lieux a pour objet
déclaré, comme l’indiquent plusieurs notations du préambule, d’être un manuel de médecine à l’intention
des médecins itinérants qui doivent se rendre dans les cités inconnues d’eux pour y exercer leur métier.
6

que mira ao Norte (πρὸς βορέην) da que está voltada para o Sul (πρὸς νότον), nem a orien-
tada para o Sol Nascente (πρὸς ὴλιον ἀνίσχοντα), que a que mira ao Poente (πρὸς δύνοντα).
Há que ocupar-se (ἐνθυµεῖσθαι) disso da melhor maneira (κάλλιστα), e, também, de que
águas (ὐδάτων) dispõem (ἔχουσι) os habitantes: se consomem (πότερον) águas pantanosas
e chocas (ἑλώδεσι χρέονται καὶ µαλακοῖσιν), ou frescas (σκληροῖσί) e procedentes de luga-
res elevados e rochosos (µετεώρων καὶ πετρωδέων), ou salgadas e crúas (ἁλυκοῖσί τε καὶ
ἀτεράµνοισι). A respeito do solo (γῆν), há que saber se é pelado e seco (ψιλή τε καὶ ἄνυδρος),
ou frondoso e húmido (δασεῖα καὶ ἔφυδρος), se está encaixado e é sufocante (κοίλῳ ἐστὶ
καὶ πνιγηρὴ), ou elevado e frio (µετέωρος καὶ ψυχρή)13.

Hipócrates é cerca de dez anos mais novo que Sócrates (nasc. 470 a.C.), e cerca de trinta
e dois anos mais velho do que Platão (nasc. 428/427 a.C.), tendo decorrido a parte mais
significativa da sua vida no século de Péricles e, embora não se lhe conheçam estadias
em Atenas, é um homem no centro da indagação cultural característica desse tempo.
Assim, além de toda a anterior tradição filosófica pré-socrática, de carácter fisiológico,
em que avultará a influência de Anaxímenes e Diógenes de Apolónia, pela importância
que concedem ao ar e aos ventos14, terá convivido com as doutrinas dos pitagóricos – a
doutrina pré-socrática, devida a Empédocles e aos pitagóricos, dos quatro elementos
primordiais, ar e fogo, água e terra15, reflecte-se na doutrina dos quatro humores cor-
porais16, que comandavam a vida e a saúde dos homens –, de Anaxágoras, dos sofistas,

13
Hipócrates, «ob. cit.», 1, in ob. cit. (1997), p. 40; id., Hippocrate, ob. cit., 1,3-4 (2003), p. 187-88.
14
Ver, Kirk, G. S., Raven, J. E., Schofield, M., The Presocratic Philosophers: A Critical History with a
Selection of Texts, by…, Camb./Mass., 1983 – (ed. portuguesa, Os Filósofos Pré-Socráticos: História
Crítica com Selecção de Textos, trad. de C. A. L. Fonseca, Lisboa, 6.ª ed. 2008, p. 145-165; idem,
Simões Ferreira, J. M., «A Teoria da Arquitectura nos Filósofos Pré-Socráticos: de Tales aos Atomistas,
ou os Primitivos Fundamentos Filosóficos da Teoria da Arquitectura», neste estudo, Cap. 2.7, da II.ª
Parte, p. 209-250. – É de lembrar que Anaxímenes declarou que o ar (ἀέρα) é o princípio (ἀρχὴν) das
coisas que existem (ὄντων); pois é dele que provêm todas as coisas e é nele que de novo se dissolvem.
Tal como a nossa alma, continua ele, que é ar, nos mantém unidos e nos governa, assim também o vento
[ou sopro](πνεύµατος) e o ar cercam o mundo inteiro. (Ar e vento são aqui sinónimos) (Écio I, 3, 4).
15
Ver, Kirk, Raven, Schofield, ob. cit. (2008), p. 293-337 e p. 339-368.
16
Com efeito, no corpo humano observar-se-iam quatro humores fundamentais: o sangue, a linfa (tam-
bém chamada fleugma ou pituíta), a bílis amarela e a bílis negra (ou atrabílis), de cuja mistura equilibrada
dependia a saúde, e cujo desequilíbrio provocava a doença. Esses humores estavam relacionados com
7

dos atomistas e dos socráticos, todos eles parecendo reflectir-se na sua obra, ora de
modo mais directo, ora mais difusamente, como será o caso da analogia entre os qua-
tro elementos primordiais e os quatro humores corporais, que se apresenta nestas pri-
meiras considerações sobre a importância das estações do ano, o nascer do sol e os
ventos, ou seja, dos elementos primordiais, ar e fogo, bem como a influência das águas
e do solo, isto é, dos elementos, água e terra, para a vida, e para o estudo da ciência
médica, que tinha como objectivo primordial assegurar uma vida saudável.

Estas questões das características climáticas nas suas versões de exposição solar, orien-
tação em relação aos ventos, propriedades da água, e natureza do terreno, ressoarão na
Teoria da Arquitectura, tal como ela começaria a ser fixada por Vitrúvio, para quem o
cuidado mais elementar na escolha de lugar para implantar a cidade era, precisamente,
a escolha de loci saluberrimi17, ou seja, de lugares saudáveis, avultando como compo-
nentes dessa almejada salubridade a insenção de brumas e geadas; a temperatura, nem
quente nem fria, mas temperada; a exposição solar, de que se devia evitar os lados
sul e oeste, por não serem temperados; a natureza dos solos, procurando em todas as
coisas a salubridade18; e a qualidade das águas, que, apesar de aludida e implícita
também no Livro I, será privilegiada e exaustivamente tratada no Livro VIII19. Mas,

os elementos primordiais (sangue/ar, linfa/água, bílis amarela/fogo, bílis negra/terra) e ao predomínio


de um deles correspondiam os temperamentos, também em número de quatro: sanguíneo, linfático,
melancólico e colérico, e o regime dietético aconselhável, uma vez que os alimentos sendo, predominan-
temente, secos ou húmidos, e quentes ou frios, podiam contribuir para equilibrar o organismo humano,
além de serem mais ou menos apropriados consoante as estações do ano e as condições climáticas e
ambientais, em geral. A teoria dos humores, que se apresenta formulada de maneiras divergentes nos
vários tratados, nalguns considerando-se apenas o sangue e a linfa ou fleugma, tem a sua mais completa
formulação, no tratado intitulado A Natureza do Homem, cuja autoria é atribuída a Políbio, um médico,
que terá sido genro de Hipócrates. – Ver, Hippocrate, La nature de l’homme (Περί φύσιος ἀνθρώπου),
édité, trad. et commenté par J. Jouanna, Corpus Medicorum Graecorum I, 3, 1, Berlin, 1975.
17
Vitruve, De l’architecture (De architectura), Livre I, 4, 1, texte établi, trad. et commenté par Ph. Fleu-
ry, Paris, 1990, p. 20: En ce qui concerne les enceintes, voici les principes. D’abord le choix d’un lieux
très sain – (em latim: In ipsis uero moenibus ea erunt principia. Primum electio loci saluberrimi).
18
Vitruve, ob. cit., Livre I, 4, 2-12 (1990), p. 21-27 (...omnibus rebus salubritatem, 4, 9).
19
Vitruve, De l’architecture (De architectura), Livre VIII, texte établi, trad. et commenté par L.
Callebat, Paris, 1973. – Este livro, onde Vitrúvio começa por evocar Thales Milesius omnium rerum
8

e sobretudo, avulta em Vitrúvio a preocupação com a orientação e protecção da cida-


de e seus arruamentos em relação aos ventos, que trata exaustivamente no Cap. 4, do
Livro I, onde chega a identificar vinte e quatro ventos, todos eles, mais ou menos
maléficos, porque si frigidi sunt, laedunt; si calidi, uitiant; si umidi, nocent20. – Torna-
se evidente que Vitrúvio se inspira em Hipócrates, a quem se refere, explicitamente,
logo no Livro I, quando, ao enunciar as disciplinas e erudições várias necessárias à
ciência do arquitecto, inclui a Medicina, de que era conveniente conhecer a discipli-
na…, por causa da inclinação do céu, que os gregos dizem climata (κλίµατα), assim
como dos ares e dos sítios, quais os salubres ou quais os pestilentos, assim como do
uso das águas; sem estes conhecimentos nenhuma habitação se poderá construir21,
mas lembrando que o arquitecto não deveria ser médico, como Hipócrates, se bem
que não deva desconhecer a medicina22. – E de resto, veja-se como esta questão, da

principium aquam est professus (Praef. 1, p. 2), divide-se em três partes: 1) prospecção de águas (1, 1-
2, 9, p. 4-11); 2) qualidades das águas (3, 1-4, 2, p. 11-25); 3) adução, captação e depuração das águas
(5, 1-6, 14, p. 25-32); e nele, tal como acontece com Hipócrates («ob. cit.», 8 (1997), p. 53), é postulada
a superior qualidade da água das chuvas: Aussi l’eau que l’on recueille des pluies possède-t-elle des
propriétés plus salubres parce qu’elle est un bouquet des éléments les plus légers, les plus subtils, les
plus délicats de toutes les sources, et que, se liquéfiant dans les orages, elle vient toucher terre filtrée
par l’agitation de l’air; – em latim: Itaque quae ex imbribus aqua colligitur salubriores habet uirtutes,
quod eligitur ex omnibus fontibus leuissimis subtilibusque tenuitatibus, deinde per aeris exercitationem
percolata tempestatibus liquescendo peruenit ad terram (Cap. 2, 1, p. 7).
20
Vitruve, ob. cit., Livre I, 6, 1 (1990), p. 31. – Na trad. francesa: s’ils sont froids, ils blessent; s’ils
sont chauds, ils corrompent; s’ils sont humides, ils nuisent.
21
Vitrúvio, Tratado de Arquitectura, Livro I, 1, 10, trad. do latim, introd. e notas por M. Justino Ma-
ciel, ilust. de Th. N. Howe, Lisboa, 2006, p. 33; id., Vitruve, De l’architecture (De architectura),
Livre I, 1, 10, texte établi et trad. par Ph. Fleury, Paris, 1990, p. 9: Disciplinarum uero medicinae nouisse
oportet propter inclinationem caeli, quae Graeci κλίµατα dicunt, et aeris et locorum, qui sunt salubres
aut pestilentes, aquarumque usus; sine his enim rationibus nulla salubris habitatio fieri potest. – Usa-se
a edição portuguesa sempre que se façam citações extensas de Vitrúvio. De resto, trata-se de uma edição
despretensiosa, mas que se reputa de rigorosa, e de cuidado assinalável. Para a citação e transcrição de
passagens do texto original, em latim, usa-se, preferencialmente, a edição crítica, bilingue, da Collection
des Universités de France / Les Belles Lettres, como se tem feito nos outros capítulos.
22
Vitrúvio, ob. cit., I, I, 13 (2006), p. 35; id., Vitruve, ob. cit., Livre I, 1, 13 (1990), p. 11: ...nec denuo
medicus Hippocrates, sed non aniatrologetus...
9

orientação solar, eólica e ambiental das cidades, se desenvolve em Hipócrates, ou


melhor, nos tratados hipocráticos:

As cidades (πόλεων) que estão bem orientadas (κέονταί τε καλῶς) a respeito do sol (ἡλίου)
e dos ventos (πνευµάτον) e gozam de boas águas (ὔδασι τε χρέονται ἀγαθοῖσιν) sentem
menos (ἧσσον αἰσθάνονται) as mudanças (µεταβολέων) de estação; porém as que têm águas
pantanosas e estagnadas (ἐλείοσι χρέονται καὶ λιµνώδεσι) e não desfrutam de boa orien-
tação (κέονταί τε µὲ καλῶς) com referência aos ventos (πνευµάτων) e ao sol (ἡλίου), essas
sentem-nas mais (αὗται δὲ µᾶλλον)23.

Vitrúvio, e a história, por ele narrada, do consul romano, Marco Hostilio24, e da mu-
dança de uma cidade, de um local pantanoso para outro salubre, por este empreendi-
da a pedido dos cidadãos, está aqui antecipada e explicada. De resto, o que se costu-
ma chamar de orientação solar e eólica das cidades, o cuidado com as águas e a
natureza dos terrenos, a salubridade, em suma, tal como na Teoria da Arquitectura se
formularia, está contido, nas suas linhas gerais, em Hipócrates, cujos conceitos sobre
o ambiente, parecem também prefigurar o homónimo conceito de ambiente ou regio,
tal como ele viria a aparecer formulado no De re aedificatoria25, de Alberti, obra onde
Hipócrates é citado por quatro vezes, e sempre a propósito de questões relativas ao
ambiente propício à vida, e à salubridade e saúde.

O factor sanitário, ou da salubridade – que chegaria a ser promovido a categoria finalís-


tica da arquitectura com Pierre Le Muet (1591-1669), que nomeia, a par e na imediata
sequência de durée (a vitruviana firmitas), aisance ou comomodité (utilitas), la belle
ordonnance (venustas), la santé26, como uma das finalidades básicas da arquitectura

23
Hipócrates, «ob. cit.», 10, in ob. cit. (1997), p. 63; id., Hippocrate, ob. cit., 10, 8 (2003), p. 215-16.
24
Vitruve, ob. cit., Livre I, 4, 12 (1990), p. 27.
25
Alberti, L. B., L’architettura (De re aedificatoria, 1485), I, 2-6, 4v-11, trad. di G. Orlandi, introd. e
note di P. Portoghesi, Milano, 1966, Vol. I, p. 20-52: Gli antichi facevano ogni sforzo per poter dis-
porre di un ambiente [regio, no original em latim] che presentasse, per quanto possibile, tutti i vanta-
ggi e fosse scevro di ogni elemento nocivo: e anzitutto facevano molta attenzione ad evitare un clima
molesto e malsano. Precauzione, questa, assai saggia e anzi indispensabile (3, p. 24).
26
Le Muet, P., Maniére de bastir pour toutes sortes de personnes, Paris, 1623. – Desta edição existe
um exemplar em bom estado na BNL. – Todavia, hoje, as que são tidas como edições de referência para
estudo é a 2.ª ed. de 1647, acrescida de Augmentations de nouveaux bastiments faits en France par les
10

–, foi decisivo no Séc. XVIII na reformulação da Teoria da Arquitectura, principalmente


no que ao ordenamento urbano caberia. Os médicos nisso tiveram, senão o papel de
chefes de fila da opinião27, um papel muito importante, talvez demasiado até, pois
muitos outros actores sociais estavam interessados na estratégia de confinamento28
que decretou a expulsão para os confins das cidades de hospitais, asilos, prisões e
cemitérios, e para a qual as preocupações com a higiene e salubridade talvez tenham
sido mais um pretexto, ou uma máscara ideológica, ocultadora de interesses e desejos
inconfessáveis, do que outra coisa29. – Mas, voltando a Hipócrates, veja-se o que nele
se encontra, ainda, a propósito da orientação das cidades:

Assim, a propósito da cidade voltada a Sul, exposta aos ventos quentes:

A cidade (πόλις) que está exposta aos ventos quentes (πνεύµατα κεῖται τὰ θερµά) – estes
sopram entre (µεταξὺ) os pontos do nascer e pôr do sol no Inverno (χειµερινῆς ἀνατολῆς
τοῦ ἡλίου) –, quando recebe esses ventos (πνεύµατα) como habituais (ξύννοµα) e está ao
abrigo (σκέπη) dos ventos do Norte (ἄρκτων πνεύµατα), nessa cidade (πόλει) é forçoso
(ἀνάγκη) que as águas sejam abundantes (ὕδατα πολλὰ), algo salgadas (ὑφαλυκὰ) e estejam
à flor da terra (µετέωρα), quentes no Verão (θέρεος θερµά) e frias no Inverno (χειµῶνος
ψυχρά); que os seus habitantes (ἀνθρώπους) tenham (ἔχειν) a cabeça húmida (κεφαλὰς
ὑγρὰς) e cheia de fleugma (φλεγµατώδεας), e se lhe transtornem (ἐκταράσσεσθαι) frequen-
temente (πυκνὰ) os intestinos (κοιλίας30), por causa da fleugma (φλέγµατος) que fluie
(ἐπικαταρρέοντος) para eles procedente (ἀπὸ) da cabeça (κεφαλῆς); que possuam aspecto

ordes & desseins du Sieur Le Muet, de que há reed. de Anthony Blunt, Richmond, 1972, e a 3.ª ed. de
1664, reed. por C. Mignot, Clamecy, 1981. Ambas as edições contêm estudos introdutórios e notas. – A
edição de 1647 e uma Notice bibliographique, de C. Mignot, datada de 2005, são consultáveis através
do site www.architectura.cesr.univ-tours.fr/traite/.
27
Ariès, Ph., L’homme devant la mort, Paris, 1977, nouv. éd. 1985, Vol. II, p. 217.
28
Ver, Foucault, M., Surveilleir et punir. Naissance de la prison, Paris, 1975; também, Finzsch, N.
and Jutte, R. (eds.), Institutions of Confinement: Hospitals, Asylums, and Prisons in Western Europe
and North America, 1500-1950, New York, 1997.
29
Simões Ferreira, J. M., Arquitectura para a Morte: A Questão Cemiterial e seus reflexos na Teoria da
Arquitectura, Dissertação de Doutoramento em Teoria e História das Ideias, Lisboa, 2005, FCSH / UNL,
3 vols.; agora em livro, Lisboa, 2009, Fundação Gulbenkian / FCT / MCTES.
30
Κοιλίας tem a acepção de concavidades (cavités, como traduz Jouanna), logo, seria algo mais geral
do que os intestinos, tendo a ver com todas as concavidades do interior do corpo.
11

(εἴδεα) bastante frouxo (ἀτονώτερα), em geral, e que não sejam (εἶναι) bons (ἀγαθοὺς)
comedores (ἐσθίειν) nem bebedores (πίνειν). Efectivamente, os que têm (ἔχουσιν) a cabeça
débil (κεφαλὰς ἀσθενέας) não podem ser bons bebedores (οὐκ ἂν εἴησαν ἀγαθοὶ πίνει), pois
a borracheira (κραιπάλη) ataca-os mais (µᾶλλον πιέζει). As enfermidades (νοσήµατά) típi-
cas daqui (τάδε ἐπιχώρια) são (εἶναι) as seguintes: em primeiro lugar (πρῶτον), as mulheres
(γυναῖκας) são (εἶναι) enfermiças e propensas a fluxos (νοσερὰς καὶ ῥοώδεας), e, além do
mais, muitas são estéreis (πολλὰς ἀτόκους) por enfermidade (νούσου), não por natureza
(οὐ φύσει), e abortam com frequência (τιτρώσκεσθαί τε πυκνά). Às crianças (παιδίοισιν)
sobrevêem-lhes espasmos (ἐπιπίπτειν σπασµοὺς), asmas (ἄσθµατα) e a afecção (νοµίζουσι
τὸ παιδίον) que, segundo se crê, é causada (ποιεῖν) por uma divindade e é sagrada (ἱερὴν
νοῦσον εἶναι)31; aos homens (ἀνδράσι), disenterias (δυσεντερίας), diarréias (διαρροίας),
calafrios (ἠπιάλους), febres crónicas de Inverno (πυρετοὺς πολυχρονίους χειµερινοὺς),
muitas pústulas nocturnas (ἐπινυκτίδας πολλὰς) e hemorróidas no traseiro (αἱµορροΐδας ἐν
τῇ ἔδρῃ) (…) quando as pessoas passam dos cinquenta anos (πεντήκοντα ἔτεα ὑπερβαλ-
λωσι), uns fluxos (κατάρροοι) procedentes (ἐπιγενόµενοι) do cérebro (ἐγκεφάλου) deixam-
nas paraplégicas (παραπλητικοὺς), se de repente lhes dá o sol (ἡλιωθέωσι) na cabeça
(κεφαλὴν) ou passam frio (ῥιγώσωσι)32.

Ao contrário, oposta à anterior, a cidade virada para Norte e exposta aos ventos frios:

As cidades que, ao contrário das anteriores (ἀντικέονται), estão expostas aos ventos frios
(πνεύµατα τὰ ψυχρά) que sopram entre (µεταξὺ) os pontos do nascer (ἀνατολῆς) e pôr do
sol (δυσµέων τῶν θερινῶν τοῦ ἡλίου) no Verão (θερινῆς), em tais cidades (πόλεων), que têm
esses ventos (πνεύµατα) como habituais (ἐπιχώριά) e estão ao amparo (σκέπη) do vento do
Sul (νότου) e dos ventos quentes (θερµῶν πνευµάτων), ocorre como segue: em primeiro lugar
(πρῶτον), as águas (ὕδατα) são, em geral (πλῆθος), duras (σκληρά), frias (ψυχρὰ) e doces
(γλυκέα). Os habitantes (ἀνθρώπους) são, por força (ἀνάγκη), vigorosos (ἐντόνος) e magros

31
Que era a epilepsia, segundo a tradição da medicina mágico-religiosa, doença causada por uma divinda-
de, a virginal Artemísia, ou outras divindades, consoante os sintomas manifestados; etiologia que nos
Tratados Hipocráticos se rejeitará, procurando-se uma causa natural, de tipo fisiológico, que podia ser
uma perturbação no movimento do sangue, ou no movimento do ar, e que acometeria o cérebro, o coração
ou o diafragma. Um dos tratados do Corpus Hippocraticum é dedicado a essa doença, dita sagrada, como
é referida, que seria causada por um fluxo de humores frios provocado pela mudança de ventos; ver,
Hippocrate, La maladie sacrée (Περὶ ἰερῆς νόσον), texte établi et trad. par J. Jouanna, Paris, 2003.
32
Hipócrates, «ob. cit.», 3, in ob. cit. (1997), p. 42-44; id., Hippocrate, ob. cit., 3, 1-4 (1990), p. 189-192.
– O sistema de cotas na edição espanhola só refere os capítulos, omitindo os parágrafos.
12

(σκελιφροὺς) (…) são (εἶναι) mais biliosos (χολώδεάς) que fleugmáticos (φλεγµατίας). Têm
(ἔχουσι) a cabeça (κεφαλὰς) sã (ὑγιηρὰς) e dura (σκληρὰς), e estão (εἰσιν) expostos, geral-
mente (πλῆθος), a roturas (ῥηγµατίαι) internas. Entre eles (ἐπιδηµεῖ) dão-se as seguintes
enfermidades (νοσεύµατα): muitas pleurites (πλευρίτιδές τε πολλαὶ) e as consideradas (νοµι-
ζόµεναι) doenças agudas (ὀξεῖαν ... νοῦσοι) (…) produzem-se (γίνονται) muitos abcessos
(ἔµπυοί τε πολλοὶ) por qualquer motivo (προφάσιος). A causa (αἴτιόν) disso é (ἐστι), tanto
a tensão (ἔντασις33) do corpo (σώµατος), como a dureza (σκληρότης) do ventre (κοιλίης).
Pois a constituição seca (ξηρότης ) e a frialdade da água (ὕδατος ἡ ψυχρότης) os expoêm
(ποιεῖ) a roturas internas (ῥηγµατίας). É forçoso (ἀνάγκη) que tais naturezas (φύσιας) sejam
(εἶναι) comedoras (εδωδοὺς) e não muito bebedoras (πολυπότας), pois não é possível que
sejam (εἶναι) ao mesmo tempo (ἅµα) muito dados à comida (πολυβόρους) e à bebida (πολυ-
πότας). Ao fim de algum tempo (χρόνου) surgem oftalmías (ὀφθαλµίας) que são secas e fortes
(σκληρὰς καὶ ἰσχυράς), e, imediatamente (εὐθέυς), se formam feridas nos olhos (ῥήγνυσθαι
τὰ ὄµµατα). Nos que têm menos de trinta anos (τριήκοντα) produzem-se fortes hemorragias
(αἱµορροίας) pelo nariz (ῥινῶν), no Verão (θέρεος); as enfermidades chamadas sagradas
(ἱερὰ νοσεύµατα καλεύµενα) são raras (ὀλίγα), mas violentas (ἰσχυρὰ). Como é natural,
essas pessoas (ανθρώπους) são de vida mais comprida (µακροβίους) que as outras (ετέραν).
(...) O seu carácter (ἤθεα) é mais selvagem (ἀγριώτερα) do que apascível (ἡµερώτερα)34.
Entre os homens (ἀνδράσι), essas são (ἐστι) as doenças (νοσήµατα) próprias daqui (επιχώ-
ριά), e, além disso, qualquer outra enfermidade geral (πάγκοινον) que predomine (κατάσχῃ)
por causa da mudança de estação (µεταβολῆς τῶν ὡρέων). No que toca às mulheres (γυναι-
ξί), em primeiro lugar (πρῶτον), muitas ficam estéreis (στέριφαι πολλαὶ) em consequência
(γίνονται) das águas (ὕδατα), que são duras (σκληρά), crúas e frias (ἀτέραµνα καὶ ψυχρά).
Efectivamente, as suas menstruações (καθάρσιες35) não são as apropriadas (ἐπιτήδειαι), mas
escassas e dolorosas (ὀλίγαι καὶ πονηραί). Além disso, dão á luz (τίκτουσι) com dificuldade
(χαλεπῶς) e por vezes abortam (τιτρώσκουσί τε οὐ σφόδρα). Quando dão à luz (τέκωσι), são

33
Note-se como a palavra ἔντασις – de significado tão discutido na Teoria da Arquitectura –, surge
traduzida por tensión (ed. esp.), tension (ed. fr.), Spannung (ed. al.) e, mais, tensão do corpo (τοὐ
σώµατος ἡ ἔντασις). – Um achado! Pois que se pode dizer do processo de “deformação” das colunas,
do estilóbato, e demais elementos, senão que é um modo de intensificar a tensão do corpo do edifício?
34
O clima e o ambiente não afectariam apenas o corpo, mas também o carácter. – É o princípio em que se
fundamentará a Antropogeografia, desenvolvida mais adiante (XVI, 1 ss.), e de que Aristóteles (Pol.
VII, 1327b,20 ss., foi continuador, quase parafraseando esta passagem de Hipócrates.
35
καθάρσιες, palavra cujo significado na Estética tanto tem dado que falar, surge com o sentido de puri-
ficação, purgação, que são as primeiras acepções registadas in Isidro Pereira, S. J., ob. cit. (1990), p. 285.
13

(εὶσί) incapazes (ἀδύνατοι) de alimentar (τρέφειν) os seus filhos (παιδία), pois se lhes seca
o leite (γάλα ἀποσβέννυται) por causa da dureza e crueza (ςκληρότητος καὶ ἀτερµνίης)
das águas (ὑδάτων). Sobrevém-lhes tísica (φθίσιές), com frequência (συχναὶ), depois dos
partos (τοκετῶν), pois, pela violência (βίης) dos mesmos, sofrem desgarramentos e convul-
sões (ῥήγµατα καὶ σπάσµατα). Aos rapazes (παιδίοισιν) formam-se hidropsías (ὕδρωπες)
nos testículos (ὄρχεσιν), enquanto são pequenos (µικρὰ), mas, depois, com o avançar da
idade (προϊούσης τῆς ἡλικίης), desaparecem-lhes (ἀφανίζονται). Nesta cidade (πόλει) os
rapazes (ταύτῃ) chegam à puberdade (ἡβῶσί) bastante tarde (ὀψὲ)36.

Como se vê, as cidades viradas para o quadrante Sul, ou seja, expostas aos ventos
quentes, ou as viradas para Norte e, como tal, expostas aos ventos frios, não eram
saudáveis, observando-se nelas muitas doenças, principalmente, nas que sofriam de
ventos quentes, cujos habitantes eram fleugmáticos, e tinham um aspecto bastante frou-
xo; as de ventos frios produziam habitantes vigorosos e magros, mais biliosos do que
fleugmáticos, de vida mais comprida do que os outros, mas também estavam sujeitos a
uma série de doenças, além de perturbações no carácter (ἤθεα), que seria mais selvagem
(ἀγριώτερα) do que apascível (ἡµερώτερα). Eram cidades situadas em pontos extre-
mos e opostos, assim, naturalmente anfibólicas, devendo-se-lhes preferir, cumprindo o
sábio princípio do µέσον, as orientadas para os quadrantes intermédios (διάµεσον), ou
seja, situadas entre (µεταξὺ) as polaridades antagónicas de Norte e Sul. – E é para as
cidades orientadas para esses quadrantes, Nascente e Poente (os διάµεσον), e com
diferentes tipos de exposição aos ventos, que se vai seguir. – Veja-se:

A cidade virada para Nascente, onde o calor e o frio são mais moderados (...µὲν γὰρ
µετριώτερον ἔχει τὸ θερµόν καὶ τὸ ψυχρόν):

nas cidades expostas (κέονται) aos ventos (πνεύµατα) que sopram desde a zona compreen-
dida entre (µεταξὺ) o nascer do sol (ἀνατολέων τοῦ ἡλίου) no Verão (θερινῶν) e no Inverno
(χειµερινῶν) [ou seja, expostas aos quadrantes intermédios, διάµεσον], e também naquelas
que ocupam uma posição oposta (ἐναντίον) às anteriores, ocorre como segue (ὧδε ἔχει): as
orientadas (κέονται) para o nascer do sol (ἀνατολὰς τοῦ ἡλίου) são (εἶναι), como é natural
(εἰκὸς), mais sãs (ὑγιεινοτέρας) que as que miram (ἐστραµµένων) para o Norte (ἄρκτους) e
do que as orientadas para os ventos quentes (θερµὰ πνεύµατα), ainda que só haja um está-

36
Hipócrates, «ob. cit.», 4, in ob. cit. (1997), p. 44-46; id., Hippocrate, ob. cit., 4, 1-5 (1996), p. 192-96.
14

dio [177,6 m] de separação entre elas (µεταξὺ ᾖ). Pois, em primeiro lugar (πρῶτον), o calor
e o frio (τὸ θερµὸν καὶ τὸ ψυχρόν) são mais moderados (µετριώτερον), e, para mais, todas as
águas (υδατα) orientadas para o nascer do sol (τοῦ ἡλίου ἀνατολὰς) são (εἶναι), por força
(ἀνάγκη), claras (λαµπρά), de odor agradável e macias (εὐώδεα καὶ µαλακὰ). Não se produz
nevoeiro (ηέρα τε µή εγγίνεσθαι) nessa cidade (πόλει), pois o impede o sol (ἥλιος κωλύει),
quando se levanta e resplandece (ἀνίσχων καὶ καταλάµπων) (…) Os habitantes (ἀνθρώπων),
pelo seu aspecto (εἴδεα), gozam de boa cor (εὔχροά) e de vigor (ἀνθηρά), mais (µᾶλλον) do
que em qualquer outro sítio (ἄλλη), se não o impede (κωλύῃ) alguma enfermidade (νοῦσος).
Têm a voz clara (λαµπρόφωνοί) e são de melhor (βελτίους εἰσί) atitude (ὀργήν) e inteligência
(ξύνεσιν) que os orientados para o Norte (βορέην), do mesmo modo que são (ἐστίν) também
melhores (ἀµείνω) os demais seres (ἄλλα τὰ ἐµφυόµενα) que nascem neste lugar. A cidade
(πόλις) assim orientada (κειµένη) parece-se muitíssimo (µάλιστα) à Primavera (ἦρι) pela
moderação (µετριότητα) do calor e do frio (τοῦ θερµοῦ καὶ τοῦ ψυχροῦ). As enfermidades
(νοσεύµατα) são menos numerosas (ἐλάσσω) e mais fracas (ἀσθενέστερα) e parecem-se
com as que sobrevêm (γινοµένοισι) nas cidades (πόλεσι) orientadas (ἐστραµµένησιν) para
os ventos quentes (θερµά πνεύµατα). As mulheres (γυναῖκες) são ali muito fecundas (ἀρικύ-
µονές) e dão à luz (τίκτουσι) com facilidade (ῥηϊδίως)37.

Em oposição, as cidades voltadas para Poente, a coberto dos ventos que sopram de
Oriente, e, inclusivé, dos ventos quentes e frios, procedentes do Norte, eram as piores,
o que, de certo modo, marca uma notável independência de Hipócrates em relação ao
modelo pré-estabelecido de pensamento, ou de mentalidade, que privilegiava sempre o
intermédio. Aqui, parece sobrepor-se, a observação e a experiência, embora também se
faça sentir uma oposição, do tipo de à melhor, a voltada para Nascente, corresponder a
pior, a orientada para Poente, o pólo (βόλος) oposto. – Mas, veja-se:

As [cidades] voltadas (κέονται) para o pôr do sol (δύσιας), e que estão (ἐστι) a coberto
(σκέπη) dos ventos (πνευµάτων) que sopram (πνεόντων) de Oriente (ἠοῦς), e, inclusivé, dos
ventos (πνεύµατα) quentes (θερµὰ) e dos frios (ψυκρὰ), procedentes (παραρρεῖ) do Norte
(ἄρκτων), essas cidades (πόλιας) estão, forçosamente (ἀνάγκη), numa posição (θέσιν κεῖσ-
ται) muito malsã (νοσερωτάτην). Pois, em primeiro lugar (πρῶτον), as suas águas (ὕδατα)
não são claras (οὐ λαµπρά). A razão (αἴτιον) disso é que pela manhã (ἑωθινὸν) predomina
(κατέχει) geralmente o nevoeiro (ἠὴρ), que, ao misturar-se (ἐγκαταµιγνύµενος) com a água
(ὕδατι), tira-lhe a transparência (τὸ λαµπρὸν ἀφανίζει), pois o sol (ἥλιος) não brilha (οὐκ

37
Hipócrates, «ob. cit.», 5, in ob. cit. (1997), p. 46-48; id., Hippocrate, ob. cit., 5, 1-5 (1996), p. 196-197.
15

ἐπιλάµπει) antes (πρὶν) de se ter elevado para o alto (ἄνω ἀρθῆναι). No Verão (θέρεος)
sopram (αὖραι) pela manhã (ἔωθεν) brisas frescas (ψυκραὶ πνέουσι) e cai orvalho (δρόσοι
πίπτουσι), e, durante o resto do dia (λοιπὸν), o sol (ἥλιος), na sua marcha para o Poente
(ἐγκαταδύνων), abrasa especialmente (µάλιστα διέψει) as pessoas (ἀνθρώπους). Por isso,
como é (εἶναι) natural (εἰκὸς), estas são de má cor (ἀχρόους) e débeis (ἀρρώστους); parti-
cipam (µετέχειν) de todas as doenças (νοσυµάτων πάντον) mencionadas, sem que nenhuma
lhes esteja especialmente reservada (µέρος τῶν προειρηµένων). Como é de esperar
(ἀποκέκριται), têm a voz grave (βαρυφώνους) e rouca (βραγχώδεας) em consequência do
ar (ἠέρα) que é ali, em geral, impuro (ἀκάθαρτος) e malsão (νοτώδης). Com efeito, nem
sequer é limpa de todo (ἐκκρίνεται σφόδρα) pelos ventos do Norte (βορείων), pois esses
ventos (πνεύµατα) não se acercam (προσέχουσι). E os que se acercam (προσέχουσιν) a essas
cidades e ali dominam (προσκέονται) são muito húmidos (ὑδατεινότατά ἐστιν), pois são os
ventos de Ocidente (ἑσπέρης πνεύµατα). Tal situação (θέσις) duma cidade (πόλιος) asseme-
lha-se muitíssimo ao Outono (µετοπώρῳ µάλιστα), a respeito das mudanças do dia (ἡµέρης
µεταβολάς), porque há uma grande diferença [ou un grand intervalle38] (ὅτι πολὺ τὸ µέσον
γίνεται) entre a manhã (ἑωθινοῦ) e a tarde (δείλην)39.

Como se constata, a orientação das cidades, tendo em conta o quadrante solar e o


regime dos ventos, seria decisiva para a obtenção de boas condições de salubridade,
ou, no caso de orientações desfavoráveis, para a identificação e caracterização etioló-
gica do tipo de enfermidades que podiam afectar as populações. A mais favorável das
orientações era para o lado Nascente, comparada com a Primavera, pela moderação
do calor e do frio; a pior seria para Poente, que ficava a coberto dos ventos [tempera-
dos] que sopram de Oriente, e, inclusivé, dos ventos quentes e dos frios, procedentes
do Norte; esta situação é comparada com o Outono, a respeito das mudanças do dia,
porque há uma grande diferença entre a manhã e a tarde. A orientação solar e a expo-
sição aos ventos, para mais, parecem determinar também a qualidade das águas e as
características dos solos, e, o conjunto de todos esses factores, determinar o tipo ou

38
Com efeito, assim traduz Jouanna, fazendo correspondendo à expressão τὸ µέσον, intervalle, que
corresponde à noção geral que os gregos tinham da sua existência e da realidade, elas próprias situadas
num intervalo (τὸ µέσον, µεταξὺ) entre a vida e a morte, entre o ser e o não ser... Estava-se no meio de
polaridades antagónicas, como a saúde (ὑγίεια) e a doença (νόσος), e tinha-se consciência disso.
39
Hipócrates, «ob. cit.», 6, in ob. cit. (1997), p. 48-49; id., Hippocrate, ob. cit., 6, 1-4 (2003), p. 198-199.
16

natureza dos habitantes. No total, pode-se considerar que esta obra, de Hipócrates,
tende a sublinhar a dependência do homem com respeito ao seu ambiente geográfico,
bem assim como a interdependência entre o mundo circundante e o estado de saúde,
alongando-se ainda, numa segunda parte, sobre as características dos povos, do ponto
de vista da relação do meio ambiente com toda a população de um país, como o sinte-
tiza, interpretativamente, o seu editor espanhol40, referindo-se à extensa descrição das
diferenças entre povos europeus e asiáticos, apresentada por Hipócrates, e explicadas a
partir das diferenças climático-ambientais (φύσις), embora tendo em atenção também
como factores condicionantes as diferenças políticas, modos de vida e hábitos culturais
(νόµος). Os europeus, desfrutando de um clima árduo, eram menos engenhosos e
dotados para as artes, mas mais corajosos e belicosos do que os asiáticos, que, embora
beneficiando de melhor clima (voltados para Oriente), tinham contra si instituições
políticas adversas, de tipo monárquico e tirânico, o que os levava a furtarem-se ao
cumprimento das obrigações militares, pois que não combatiam para si, mas na defesa
dos interesses dos seus superiores. – Esta teoria aparecerá reelaborada em Aristóteles,
numa formulação tripartida, Europeus-Gregos-Asiáticos, em que o predomínio da força
e coragem é atribuído aos Europeus nórdicos, o da inteligência e engenhosidade aos
Asiáticos, e aos Gregos, uma vez que se situavam no meio (µέσος), entre (µεταξὺ)
uns e outros, participando (µετέχειν) das qualidades de ambos, e desfrutando equili-
bradamente dessas qualidades, é destinado o predomínio sobre os povos dos outros
quadrantes, desde que conseguissem alcançar a unidade política41.

Na Teoria da Arquitectura a tese das diferentes aptidões e capacidades das “raças


humanas” reaparecerá no Séc. XIX, com E.-E. Viollet-le-Duc (1814-79)42, denotando

40
Ver, López Férez, J. A. «Introducción», a Hipócrates, «ob. cit.», in ob. cit. (1997), p. 27.
41
Aristóteles, Política, VII (Η), 7, 1327b,20-33, ed. bilíngue, trad. e notas de A. C. Amaral e C. de
Carvalho Gomes; índices de conceitos e nomes de M. Silvestre; nota prévia de J. B. da Câmara; pref. e
revis. literária de R. M. R. Fernandes; introd. e revis. científica de M. C. Henriques, Lisboa, 1998, p.
505. – Foi esta a edição utilizada confrontando-a com a edição crítica francesa, Aristote, Politique,
texte établi et trad. par J. Aubonnet, Paris, 1960-1989, tirages de 2002, 5 vols..
42
Viollet-le-Duc, E.-E., Histoire de l’habitation humaine, Paris, 1875, ed. facsimil, Bruxélles, 1986. –
Sobre Viollet-le-Duc, ver: Gout, P., Viollet-le-Duc, sa vie, son œuvre, sa doctrine, Paris, 1914; Abra-
17

imediatas influências da Teoria das Raças, do seu contemporâneo, Arthur de Gobineau


(1816-82)43, e não pode deixar de ser uma referência, ainda que remota, da Antropo-
geografia e Geografia Política, de Friedrich Ratzel (1844-1904)44; autores e obras,
como se sabe, tão nefastamente aproveitadas, no Séc. XX, por movimentos políticos
de expressão racista e totalitária, através de uma leitura abusiva e distorcida.

Mas, voltando a Hipócrates, e às questões relativas à orientação e exposição das cida-


des, que é o tema base deste capítulo e da investigação em que se insere, que procura
aquilatar dos antecedentes, ou melhor, da origem e formação da Teoria da Arquitec-
tura, tal como ela se veio a estabelecer com Vitrúvio e seus sucessores, imediatos ou
renascentistas, qual é, ao fim e ao cabo, a raíz das preocupações com os factores climá-
ticos, nomeadamente, com a exposição aos ventos?

Os ventos, título de outra das obras do corpo hipocrático, Περὶ φυσῶν, eram vistos, e
justamente, como deslocações do ar (ἀήρ), e o ar, por sua vez, era tido como o elemento
primordial (ἀρχή) em certos sistemas cosmológicos, como nos dos pré-socráticos,
Anaxímenes e Diógenes de Apolónia, além de ser tido como o elemento mais precioso
à vida, pois o homem podia passar alguns dias sem água nem comida, mas muito
pouco tempo resistia se fosse privado de ar, e não pudesse respirar. No entanto, esta
dependência, e a correlativa importância do ar para a vida e a saúde, parece ter um

ham, P., Viollet-le-Duc et le rationalisme médiéval, Paris, 1934; Summerson, J., «Viollet-le-Duc and
the Rational Point of View», in Summerson, J., Heavenly Mansions and other essays on architecture,
New York, 1948, new ed. 1963, p. 135-158; De Fusco, R., L’idea di architettura. Storia della critica
da Viollet-le-Duc a Persico, Milano, 1968; Pevsner, N., Ruskin and Viollet-le-Duc, London, 1969;
Tagliaventi, I., Viollet-le-Duc e la cultura architettonica dei revivals, Bologna, 1976; Auzas, P. M., Eu-
gène Viollet-le-Duc, 1814-1879, Paris, 1979; Bekaert, G. (dir.), A la recherche de Viollet-le-Duc,
Bruxelles, 1980; Foucart, B. (éd.), Viollet-le-Duc. L’écletisme raisonné. Choix de textes, Paris, 1984;
Midant, J.-P., Eugène Viollet-le-Duc, Paris, 2008.
43
Gobineau, A. de, Essai sur l’inégalité des races humaines, Paris, 1853-1855, nouv. éd. 1967.
44
Ratzel, F., Anthropogeographie 1. Teil: Grundzüge der Anwendung der Erdkunde auf die Geschichte;
2. Teil: Die geographische Verbreitung des Menschen, Stuttgart, 1882-1891, 2 Bde; idem, Politische
Geographie oder die Geographie der Staaten, der Verkehrs und des Krieges, München-Berlin, 1897. –
Foi Friedrich Ratzel que formulou o conceito de Lebensraum (espaço vital), um dos alibis ideológicos
do nazismo, «justificador» da expansão alemã, causadora da hecatombe de 1939-1945.
18

contraponto, pois, ao mesmo tempo, o ar, nas suas múltiplas formas (ἀήρ, φῦσα, πνεῦ-
µα), é concebido e apresentado como a origem de todas as doenças. – Ora, veja-se:

O corpo (τὰ σώµατα) dos seres vivos em geral (ἄλλων ζῴων) e do homem (ἀνθρώπων) em
particular nutre-se (τρέφεται) de três espécies (τρισσῶν) de nutrições (τροφέων), cujos
nomes (ονόµατά) são os seguintes: alimentos sólidos (σῖτα), bebidas (ποτά) e sopro (πνεῦµα).
O sopro (πνεῦµα) no interior do corpo (σώµασιν) chama-se (καλεῖται) vento (φῦσα), no
exterior do corpo, ar (ἀήρ). O ar é (ἐστίν) um soberano (µέγιστος) muito poderoso (δυνάσ-
της) que reina em tudo e sobre todos (πᾶσι τῶν πάντων), e vale a pena (ἄξιον) contemplar
(θεήσασθαι) a sua potência (δύναµιν). O vento (ἄνεµος) é (ἐστιν) um fluxo (ῥεῦµα) e uma
corrente (χεῦµα) de ar (ἠέρος). Quando o ar em grande quantidade (πολλὸς ἀὴρ) provoca
(ποιήσῃ) um fluxo (ῥεῦµα) violento (ἰσχυρὸν), as árvores (δένδρεα) são arrancadas (ἀνασ-
παστὰ) de raíz (πρόρριζα) pela violência (βίην) do vento (πνεύµατος), o mar (πέλαγος)
enche-se de vagas (κυµαίνεται), e navios de transporte (ὁλκάδες) de um tamanho imenso
(ἀπείρατοι µεγέθει) são projectados em todos os sentidos (διαρριπτεῦνται). Tal é pois a
potência (ἔχει δύναµιν) que ele detém nesses domínios. Todavia, é invisível para a vista
(ὄψει ἀφανής), embora seja visível para a razão (λογισµῷ φανερός). Pois, que ser poderia
existir sem ele (Τί γὰρ ἄνευ τούτου γένοιτ’ ἄ)? ou de que ser está ele ausente (ἢ τίνος οὗτος
ἄπεστιν)? ou em que ser não está ele conjuntamente presente (ἢ τίνι οὐ συµπάρεστιν)?45

E reforçando a interpretação para que aponta este estudo, a importância dos conceitos
de estar entre (µεταξὺ) e no meio (µέσον), repare-se no que vem a seguir:

Porque tudo (ἅπαν) entre (µεταξὺ) a terra (γῆς) e o céu (οὐρανοῦ) está (ἐστιν) cheio (σύµπ-
λεόν) de ar (πνεύµατος). Ele é a causa (αἴτιον) do Inverno e do Verão (χειµῶνος καὶ
θέρεος), tornando-se (γινόµενον) denso e frio (πυκνὸν καὶ ψυχρὸν) no Inverno (χειµῶνι), e
cálido e sereno (πρηῢ καὶ γαληνόν) no Verão (θέρει). Além disso, o curso (ὁδὸς) do Sol
(ἡλίου), da Lua (σελήνης) e dos astros (ἄστρων) efectua-se graças ao vento (πνεύµατός),
pois o vento (πνεῦµα) serve de alimento (τροφή) ao fogo (πυρὶ), e o fogo privado de ar
(πῦρ δὲ ἠέρος στερηθὲν), não poderia viver (οὐκ ἂν δύναιτο ζώειν); em consequência
(ὥστε), o que assegura (παρέχεται) ao Sol (ἡλιου) uma vida eterna (βίον ἀέναον), é o ar
(ἀὴρ) que é eterno e subtil (ἀέναος καὶ λεπτὸς). Por outro lado, que o mar (πέλαγος) parti-
cipa (µετέχει) igualmente do sopro (πνεύµατος) é uma evidência (φανερόν). Porque os seres
vivos (ζῷα ζώειν) que nadam (πλωτὰ) não poderiam (ἐδύνατο) viver um instante, se não par-

45
Hipócrates, Sobre los flatos, 3, in ob. cit. (1997), p. 134-35; também, Hippocrate, Des Vents (Περὶ
φυσῶν), III, 1-3, texte établi et trad. par J. Jouanna, Paris, 1988, deux. tirage 2003, p. 105-106.
19

ticipassem no sopro (µετέχοντα πνεύµατος). E de que forma (πῶς) poderiam participar


(µετέχοι) senão obtendo o ar (ἠέρα) a partir da água (ὕδατος)? De resto, a terra é uma
base para o ar; o ar é um veículo para a terra; e não há nada vazio de ar (Καὶ µὴν ἥ τε γῆ
τούτῳ βάθρον, οὗτός τε γῆς ὄχηµα, κενεόν τε οὐδέν ἐστιν τούτου)46.

A potência e omnipresença do ar, ora designado como sopro (soplo ou flato, segundo
o tradutor espanhol, souflee, segundo o francês), ora como vento, e a sua importância
para a vida dos seres animados, e para a existência do cosmos, começa por ser afirmada
claramente, denotando-se nisto a influência das teorias de Anaxímenes, para quem o ar
era o princípio (ἀρχή) e elemento primordial, actualizadas e desenvolvidas ao tempo
por Diógenes de Apolónia (c. 460-425 a.C)47, um filósofo e talvez também médico,
contemporâneo de Hipócrates, a quem se deve a elaboração da última das cosmologias
pré-socráticas, e para o qual, o ar seria aquilo de que todo o resto se origina (ἀέρα τὸ ἐξ
οὗ πάντα γίνεται τὰ ἄλλα). – Mas o texto prossegue, inflectindo para a consideração da
importância que o ar tinha, aquém do universo, para os seres mortais, uma vez que era a
causa da vida, e também das enfermidades (assim, como é característico do enfoque
que se pretende científico, auto-limitando-se num domínio específico):

que o ar (ἀὴρ ἔρρωται48) é poderoso (ὅλοισιν49) no universo (ἐν [?]), eis o que foi exposto
(εἴρηται). Agora, para os seres mortais (θνητοῖσιν), esse princípio (οὗτος = isto) é a causa da

46
Hipócrates, Sobre los flatos, 3, in ob. cit. (1997), p. 134-36; também, Hippocrate, Des Vents (Περι
φΰσων), III, 1-3, texte établi et trad. par J. Jouanna, Paris, 1988, deux. tirage 2003, p. 105-107.
47
Sobre Diógenes de Apolónia: Zafiropulo, J., Diogène d’Apollonie, Paris, 1956; Kirk, G. S., Raven, J. E.,
Schofield, M., The Presocratic Philosophers: A Critical History with a Selection of Texts, Camb., 1983
– ed. port., Os Filósofos Pré-Socráticos: História Crítica com Selecção de Textos, trad. de C. A. L.
Fonseca, Lisboa, 2008, p. 459-78; Laks, A., Diogène d’Apollonie. La dernière cosmologie présocratique,
Lille, 1983; Laks, A. (ed.), Diogène d’Apollonie: édition, traduction et commentaire des fragments et
témoignages, Sankt Augustin / Köln, 2008 (edição revista e aumentada do volume precedente).
48
ἀὴρ ἔρρωται: esta expressão não tem tradução perceptível, nem no texto espanhol, nem no francês,
muito diferentes; ἔρρωται é uma verbalização derivada do verbo ἔρρω, que tem a acepção de ir lenta-
mente, vaguear tristemente, perecer, caminhar para a destruição, etc. (seg. Isidro Pereira, S. J., ob. cit.
(1990), p. 230; id., Bailly, ob. cit. (1901), p. 361). Isto, conjugado com ὅλοισιν, parece querer dizer
que, o funesto (ὅλοισιν) ar (ἀὴρ), erra tristemente (ἔρρωται) por tudo (ἐν, a unidade, que também
significa o todo, pois o termo l’univers, ou las demás cosas, não têm lugar estrito do texto original) eis
o que foi exposto (εἴρηται), seria uma tradução mais fiel, e mais expressiva. – O funesto ou pernicioso
20

vida (αἴτιος τοῦ βίου), e também das enfermidades (νούσων) para os enfermos (νοσέουσι).
Tão grande (τυγχάνει) é a necessidade (χρείν) de ar (πνεύµατος) para todos (πᾶσι) os corpos
(σώµασι), que o homem (ὥνθωπος), se for privado (ἀποσχόµενος) de tudo o mais (ἄλλων
ἁπάντων), alimentos e bebidas (σιτίων καὶ ποτῶν), poderia (δύναιτ’) subsistir (διάγειν)
durante dois ou três (δύο καὶ τρεῖς) dias (ἡµέρας) ou mais (πλέονας), porém se lhe fecharem
(ἐπιλάβοι) as entradas (διεξόδους) de ar (πνεύµατος) para o corpo (σῶµα), bastará uma
pequena (βράχει) parte do dia (µέρει ἡµέρης) para que ele morra (ἀπόλοιτ’ ἄν), tão grande
(µεγίστησ) é a necessidade (χρείης) de ar (πνεύµατος) para o corpo (σώµατι). Para mais
(ἄλλα), enquanto que para todas (πάντα) as actividades (διαλείπουσιν) em geral os homens
(ἄνθρωποι) observam pausas (πρήσσοντες) – pois que a vida (βίος) é cheia (πλέος) de
mudanças (µεταβολέων) – esta é a única (µοῦνον) actividade (διατελέουσιν) contínua
(πρήσσοντα) entre todos (ἅπαντα) os seres vivos mortais (θνητὰ ζῷα), tanto o expirar
(ἀναπνέοντα) o ar, como o inspirar (ἐµπνέοντα)50.

E, considerando que a importância, ou mesmo, a indispensabilidade do ar e da respira-


ção para a vida do homem, como para a de todos os seres mortais, ficava demonstra-
da, o texto começa a debruçar-se, a seguir, sobre a relação do ar com a saúde, e como
causa (αἴτια), fonte (ποθεν = donde), ou princípio (γίνεσθαι) das afecções:

Assim pois, que todos (ἅπασι) os seres vivos (ζῴοισι) têm grande participação (µεγάλη
κοινωνίν) do ar (ἠέρος), eis o que foi exposto (εἴρηται). Imediatamente (εὐθέως), após isso, é
preciso expôr (ῥητέον) que a fonte (ποθεν) das afecções (ἀρρωστίας) não é outra (οὐκ
ἄλλοθέν), segundo tudo parece (εἰκός), senão esse princípio (γίνεσθαι), quando o ar resulta
(ἐντεῦθεν) demasiado abundante (ἀθροώτερον), ou demasiado escasso (πλέον ἢ ἔλασσον),
ou demasiado espesso (γένηται ἢ µεµιασµένον), ou quando, infectado por miasmas mórbidos
(νοσηροῖσι µιάσµασιν), penetra no corpo (σῶµα ἐσέλτῃ). Assim pois, para a questão tomada
no seu conjunto (ὅλου), estas observações (πρήγµατος) parecem-me suficientes (ἀρκεῖ). De-
pois disto, abordando os próprios factos (ἔργα) neste mesmo (αὐτῷ) discurso (λόγῳ), vou

ar, errando tristemente, pressagiando a doença e a morte – qual desfile de megeras Euménides (Εὐµε-
νίδς) ou Erínias (Ἐρινύες), acenando com o castigo vingador –, é uma imagem de tragédia grega!
49
ὅλοισιν, ὀλοός, ή, όν, que os editores, espanhol e francês, traduzem por fuerza e puissant (o que
determinou a versão que se usou na transcrição, poderoso), na realidade parece mais ter a acepção de
funesto, pernicioso, destrutivo, ou funeste, pernicieux, perdu, détruit. – Ver, Isidro Pereira, S. J., ob. cit.
(1990), p. 403; id., Bailly, ob. cit. (1901), p. 611. – Mas o termo poderoso ajusta-se bem ao contexto.
50
Hipócrates, «ob. cit.», 4, in ob. cit. (1997), p. 136-37; id., Hippocrate, ob. cit., 4, 1-3 (1988), p. 107-08.
21

mostrar (ἐπιδείξω) que as doenças se originam e derivam do ar, na sua totalidade (τὰ
νοσήµατα τούτου ἀπόγονά τε καὶ ἔκγονα πάντα ἐόντα)51. – Sublinhado nosso.

A esta declaração, explicitando um fundamento unitário, o ar, segue-se toda uma des-
crição extensiva, enunciando e descrevendo vários casos que confirmariam a tese da
fundamentação do ar como princípio (ἀρχή, ou γίνεσθαι), e causa principal de todas as
doenças. Assim, vem à colação a enfermidade mais comum: a febre, de que havia duas
classes e de que em ambas era causa o ar (ἀήρ αἴτιος52), porque o ar está impregnado de
miasmas (µιάσµασιν) que têm por propriedade a de ser inimigos da natureza humana
(ἀνθρωπίνῃ φύσει πολέµιά)53. Mas, além desta nocividade, provocada de imediato
pelos ares exteriores que se respiravam, havia um outro tipo de enfermidades, provoca-
das por aquilo que designa de dieta nociva ou mau regime (τοιήδε δίαιτα54), e que con-
sistiria em comer demasiado, mais do que o corpo pode tolerar, ou comer alimentos
complicados e desiguais, difíceis de digerir. A questão reside no facto de que com uma
grande quantidade de alimentos é necessário que penetre também uma grande quan-
tidade de ar (πνεῦµα), pois, junto com tudo o que se come e bebe, o ar penetra no corpo
em maior ou menor quantidade55. Prova disso eram os arrotos, que sobrevinham, após
as comidas e bebidas, porque as bolhas em que o ar (ἀήρ) estava encerrado se rom-
piam56. Mas no total, os flatos ou ventos (φῦσαι), espalhavam-se precipitadamente por
todo o corpo, e quando se lançam sobre as partes mais sanguíneas do corpo, arrefecem-
as, o que provocava calafrios que corriam por todo o corpo57. Depois, são mencionados
e descritos os suores, as dores de cabeça, as obstruções dos intestinos, cólicas, dores
de barriga, a tosse e as irritações de garganta, o pús, que seria sangue corrompido,
hemorragias, os inchaços das pernas ou hidropsia, apoplexias, e por fim, a doença

51
Hipócrates, «ob. cit.», 5, in ob. cit. (1997), p. 137; id., Hippocrate, ob. cit., 5, 1-2 (1988), p. 108-09.
52
Hippocrate, ob. cit., 6, 1 (1988), p. 109.
53
Hipócrates, «ob. cit.», 6, in ob. cit. (1997), p. 138; id., Hippocrate, ob. cit., 6, 2 (1988), p. 110.
54
Hippocrate, ob. cit., 7, 1 (1988), p. 111. – O ed. francês traduz por mauvais régime; o espanhol, por
dieta nociva. – Lembrar que o regime, ou dieta, era um dos pontos essenciais da medicina hipocrática.
55
Hipócrates, «ob. cit.», 6, in ob. cit. (1997), p. 138; id., Hippocrate, ob. cit., 6, 2 (1988), p. 110.
56
Hipócrates, «ob. cit.», 6, in ob. cit. (1997), p. 138; id., Hippocrate, ob. cit., 6, 2 (2003), p. 111-12.
57
Hipócrates, «ob. cit.», 7, in ob. cit. (1997), p. 139; id., Hippocrate, ob. cit., 7, 2 (1988), p. 112.
22

sagrada, ou seja, a epilepsia. Tudo isso era provocado pelo ar, fosse directamente
através de miasmas malsãos que havia no exterior, e que penetravam no corpo com a
respiração, fosse indirectamente através do ar que se ingeria com a comida e a bebida,
ou a que os próprios alimentos davam origem, fermentando no interior do corpo (as
tais bolhas, que se rompiam), e que provocariam, por assim dizer, ventos ou correntes
de ar interiores, altamente perturbadoras da equilibrada quietude (ou tranquilidade) em
que o corpo deveria permanecer. O que se designa, em quase todos os casos, por ar, e
os editores espanhol e francês, ora por ar, soplo e flato, ou air, souffle e vent, aparece no
texto original, ora como αήρ, ora como πνεῦµα, ora como πνεύµατα e φῦσαι, e parece
distinguir três estados diferenciados da mesma substância, correspondendo ἀήρ a ar ou
ares; πνεῦµα a ar expirado ou inspirado, logo à respiração; πνεύµατα e φῦσαι, o mais
importante, que dá origem ao título da obra (Περὶ φυσῶν), a ventos, quer exteriores,
quer interiores (razão que terá levado o editor espanhol a traduzir por flatos), devendo
estes ser entendidos como fluxos de ar transtornado que percorriam o interior do corpo
humano. Mas, exteriores ou interiores – e não obstante ser lembrada, logo no início da
obra58, a sua indispensabilidade para a vida – todo o ar provocaria doenças. Está-se,
assim, perante uma situação paradoxal, das muitas em que a cultura grega foi fértil: o
mesmo elemento, o ar, é visto ora como benéfico, ora como maléfico. A mudança
(µεταβολής), de benéfico para maléfico, dever-se-ia à transformação do ar em vento,
ou seja, a uma perda de compostura, de medida e proporção justa (µεσότης), equiva-
lente aos tão criticados excessos impetuosos (ὕβρις) no comportamento humano, o que
poderia ocorrer no exterior, mas também acontecia no interior dos corpos dos seres
vivos, e em ambos os casos dando origem a várias doenças, tanto mais que a doença é
vista como uma mistura desproporcionada ou desequilibrada (δὔσχρασιε) dos humores.
De resto, a obra é intitulada Περὶ φυσῶν, ou seja, Os Ventos, e basta atender-se à
descrição da potência do vento em III. 2 (O vento (ἄνεµος) é (ἐστιν) um fluxo (ῥεῦµα) e
uma corrente (χεῦµα) de ar (ἠέρος). Quando o ar em grande quantidade (πολλὸς ἀὴρ)
provoca (ποιήσῃ) um fluxo (ῥεῦµα) violento (ἰσχυρὸν), as árvores (δένδρεα) são

58
Hipócrates, «ob. cit.», 3, 4, in ob. cit. (1997), p. 135-136; idem, Hippocrate, ob. cit., 3, 2-3, 4, 1
(1988), p. 106-107.
23

arrancadas (ἀνασπαστὰ) de raíz (πρόρριζα) pela violência (βίην) do vento


(πνεύµατος), o mar (πέλαγος) enche-se de vagas (κυµαίνεται), e navios de transporte
(ὁλκάδες) de um tamanho imenso (ἀπείρατοι µεγέθει) são projectados em todos os
sentidos (διαρριπ-τεῦνται). Tal é pois a potência (δύναµιν) que ele detém nesses domí-
nios), para se perceber, quanto ele, nos seus excessos e turbulência, é sentido como
causador de doenças, o que, aliás, não faz mais que confirmar a descrição dos ventos
quentes e frios, e dos seus malefícios, tal como se viu em Περὶ ἀέρων, ὑδάτων, τόπων.
Há ainda uma outra obra do corpo hipocrático, Sobre los humores (Περὶ χυμῶν) onde
a importância dos ventos para a saúde, é também referida. – Veja-se:

Os ventos do Sul (νότοι) produzem ouvido duro (βαρυήκοοι), olhar turvo (ἀχλυώδεες), cabeça
pesada (καρηβαρικοὶ), preguiça (νωθροὶ); são laxantes (διαλυτικοί). Quando reina (δυνασ-
τεύῃ) este vento, as pessoas padecem (πάσχουσιν) tal tipo de afecções (νούσοισι). Úlceras
húmidas (ἕλκεα µαδαρὰ), especialmente na boca (µάλιστα στόµα), partes sexuais (αἰδοῖον)
e noutros lugares (τἄλλα). Se há vento do Norte (βόρειον): tosses (βῆχες), enfermidades de
garganta (φάρυγγες), ventre preso (κοιλίαν σκληρότεραι), dificuldade de micção acompa-
nhada de calafrios (δυσουρίαι φρικώδεες), dores nas costas (ὀδύναι πλευρέων) e no peito
(στηθέων). Quando reina (δυνασεύῃ) este vento, há que esperar (προσδέχεσθαι), de preferên-
cia (µᾶλλον), tais enfermidades (νουσέµατα). Se predomina (πλεονάζῃ) de forma especial
(µᾶλλον), as febres (πυρετοὶ) seguem-se (ἕπονται) às secas (αὐχµοῖσιν) e chuvas (ὄµβροι-
σιν), dependendo de quais (ὁποίων) sejam as circunstâncias (µεταπέσωσι) donde se há pro-
duzido o predomínio (πλεονασµοι); em que estado (ὅκως ἂν ἔχοντα) recebeu (παραλάβωσιν)
os corpos (σώµατα) por parte da estação anterior (ἑτέρης ὥρης), e que humor (χυµοῦ),
qualquer que seja (ὁκοιουτινοσῦν), predomina (δυναστεύοντος) no corpo (σώµατι)59.

Assim, e sintetizando, conjugando-se os testemunhos das três obras interpretadas, não


pode haver dúvidas sobre a nocividade que aos ventos é atribuída no corpo hipocrático,
e que tanto terá influenciado Vitrúvio, levando-o a postular a necessidade do traçado
das cidades (Figs. 97, 98, 99) ser determinado por uma estratégia de defesa em relação
aos ventos, de modo a evitar que estes enfiassem a direito pelos arruamentos, levando-
os a embater contra as esquinas dos quarteirões, de maneira a quebrar o seu ímpeto,
59
Hipócrates, Sobre los humores, 14, in ob. cit. (1997), p. 113-14; id., Hippocrate, Des humeurs, in
Oeuvres complètes d’Hippocrate, trad., introd., commentaires, variantes et notes philologiques par É.
Littré, Vol. 5, p. 496-497; acessível in http://www2.biusante.parisdescartes.fr/.
24

enfraquecerem, e dissiparem-se60. – De resto, veja-se como Vitrúvio descreve os


ventos, e como a sua visão parece influenciada pela de Hipócrates:

Pois o vento é uma onda de ar que flui movido com uma incerta redundância. Nasce quando o
calor vai de encontro à humidade e o ímpeto da exalação faz sair à força o sopro do ar. Que
isto é verdade, é possível verificar a partir dos éolos de bronze e, com essas artificiosas inven-
ções, representar a verdade do poder divino sobre os ocultos mecanismos da abóbada celeste.
Fazem-se, efectivamente, cabeças de Éolo ocas, de bronze – que têm uma apertadíssima aber-
tura –, introduz-se nelas água e colocam-se ao fogo; antes de aquecerem, elas não produzem
qualquer efeito, mas logo que começam a ferver produzem veemente sopro. Deste modo é pos-
sível ter conhecimento e ajuizar, a partir dum pequeno e brevíssimo espectáculo, das grandes
e fantásticas disposições da natureza, no que respeita à abóbada celeste e aos ventos61.

Se eles não forem deixados entrar, não só o lugar ficará saudável para os corpos sãos, como
também, se eventualmente se originarem doenças a partir de outros condicionalismos, a que
em outros lugares se opõem tratamentos médicos, nestes lugares, devido à mistura de ven-
tos na devida proporção, essas doenças mais facilmente serão tratadas. São os seguintes,
com efeito, os males que dificilmente se curam nas regiões que acima referimos: catarro da
traqueia, tosse, pleurisia, tísica, expectoração de sangue e outros, que são curados não
por supressões mas por aditivos. Estes males dificilmente são medicados, porque, primeiro,
são originados a partir de resfriamentos e, depois, porque, estando as forças debilitadas
pela doença, a respiração torna-se agitada; além disso, esta enfraquece devido à turbu-
lência dos ventos, retira o vigor dos corpos enfermos e torna-os mais frouxos. No sentido
oposto, um ar brando e espesso, que não apresenta brisas nem frequentes turbulências,
devido à sua imóvel estabilidade (inmotam stabilitatem)62, reforçando os seus membros,
alimenta-os e restaura aqueles que estão atacados por estes males63. – Sublinhado nosso.

60
Vitruve, ob. cit., Livre I, 6, 1-8 (1990), p. 31-36.
61
Vitrúvio, ob. cit., Livro I, 6, 2 (2006), p. 49; id., Vitruve, ob. cit., Livre I, 6, 2 (1990), p. 32: Ventus
autem est aeris fluens unda cum incerta motus redundantia. Nascitur cum peruor offendit umorem et
impetus inflationis exprimit uim spiritus flatus. Id autem uerum esse ex Aeolis aereis licet aspicere et
de latentibus caeli rationibus artificiosis rerum inuentionibus diuinitatis exprimere ueritatem. Fiunt
enim Aeoli pilae aereae cauae – hae habent punctum angustissimum – quae aqua infunduntur conlo-
canturque ad ignem; et antequam calescant, non habent ullum spiritum, simul autem ut feruere
coeperint, efficiunt ad ignem uehementem flatum. Ita scire et iudicare licet e paruo breuissimoque
spectaculo de magnis et inmanibus caeli uentorumque naturae rationibus.
62
A expressão inmotam stabilitatem e outras similares surgem em vários contextos do De architectura,
25

Pela comparação, em que se evidenciam as semelhanças e analogias, constata-se a


influência do pensamento médico em Vitrúvio, nesta sua visão dos ventos e das doen-
ças por eles causadas, e do próprio vento, em si mesmo, visto como uma onda de ar que
flui movido com uma incerta redundância. E parece ser esta fluência, ainda por cima
movida pela incerta redundância mencionada, o busílis da questão da nocividade do ar
e dos ventos, quer em Vitrúvio, quer em Hipócrates. – Como explicar? – Hoje, vive-se
inserido num tempo e numa mentalidade que privilegia a fluência, o movimento, a
impetuosidade, a mudança, a transformação, etc.; assim, as objecções dos nossos auto-
res em relação a esses fenómenos, que veêm como inconvenientes, senão como malig-
nos, e a sua preferência pela imóvel estabilidade (inmotam stabilitatem), só se torna
compreensível, tomando como referência todo o quadro cultural predominante (mas
não exclusivo64) na Antiguidade Clássica, com a sua preferência pelos valores que
relevavam da estabilidade, do equilíbrio, do intermédio, da justa medida, do nada em

designadamente em I, 4, 2 (perpetuo et inmutabilis, a propósito da luz do Norte), e são bem represen-


tativas da Weltanschauung da Antiguidade, privilegiando a estabilidade e imutabilidade em detrimento
da instabilidade e mudança. – Enfim, tempos em que o Mercado já existiria, mas ainda não mandava.
63
Vitrúvio, ob. cit., I, 6, 3 (2006), p. 49; id., Vitruve, ob. cit., Livre I, 6, 3 (1990), p. 33: Qui si exclusi
fuerint, non solum efficient corporibus ualentibus locum salubrem, sed, etiam si qui morbi ex aliis uitiis
forte nascentur qui in ceteris salubribus locis habent curationes medicinae contrariae, in his propter
temperaturam [exclusiones] uentorum expeditius curabuntur. Vitia autem sunt quae difficulter curantur,
in regionibus quae sunt supra scriptae, haec: grauitudo arteriace, tussis, pleuritis, phthisis, sanguinis
eiectio et cetera quae non detractionibus sed adiectionibus curantur. Haec ideo difficulter medicantur,
primum quod ex frigoribus concipiuntur, deinde quod, defatigatis morbo uiribus, eorum aer agitatus
est; uentorum agitationibus extenuatur unaque a uitiosis corporibus detrahit sucum et efficit ea exilio-
ra. Contra uero lenis et crassus aer, qui perflatus non habet neque crebras redundantias, propter in-
motam stabilitatem adiciendo ad membra eorum alit eos et reficit qui in his sunt impliciti morbis.
64
Ver, Assmann, J., Tod und Jenseits im Alten Ägypten, München, 2001; ver, neste estudo, «Condições
de Habitabilidade ou Naturae Decor no Antigo Egipto, segundo um Canto de Carpideiras do Império
Médio», I.ª Parte, 1.7, p. 103-110. – Na obra de Jan Assmann, que além de notável egiptólogo, se tem
distinguido no domínio da Kulturtheorie, chama-se a atenção para as características antitéticas ou
contraditórias que sobre os mesmos fenómenos se exprimem na Cultura Egípcia e, por extensão, em
todas as culturas, entre as quais a grega avultará, como uma cultura rica em antíteses e contradições,
dada a sua visão dos fenómenos como situados sempre entre dois polos (βόλος), e o seu comportamento
e compreensão afectados pela tensão confusa (ανφυβολια) estabelecida entre esses dois polos.
26

excesso, da temperança, e até da imobilidade: a monista imobilidade que se afirma


nas concepções ontológicas dos eleáticos, Parménides e Zenão, que levaram o último
à formulação dos paradoxos da negação do movimento. O ar, com a sua contínua
fluência, por vezes, turbulentamente, transformado em ventos tempestuosos e destem-
perados, demasiado quentes ou frios, não podia deixar de ser visto com apreensão.
Ao fim e ao cabo, era uma manifestação da indomável Natureza (φύσις), com os seus
incontroláveis excessos (ὔβρις), a que os Antigos, desde muito cedo, intentaram sobre-
por a Razão (λόγος) e a Cultura (νόµος). E é essa Razão e Cultura que terão levado
Hipócrates a empreender toda uma ampla indagação sobre os condicionamentos para
a vida e a saúde que a Natureza, vista como o Ambiente que envolvia toda a existência
humana, impunha. Análogos motivos terão levado Vitrúvio a conceber um modelo de
cidade (la chose humaine [logo, cultural], par excellence), o qual domesticaria a natu-
reza, designadamente essa sua manifestação incerta e redundante, que eram os ventos,
furtando os arrumentos e praças ao seu ímpeto, e fazendo-os quebrar e dissipar de
encontro aos cunhais angulosos e empedrados65 dos quarteirões (assim, como uma
espécie de quilhas de navios, quebrando o ímpeto das ondas do mar encapelado), e
contra a robustez maciça dos sólidos muros e paramentos dos edifícios.

A nocividade dos ventos aparece referida em Alberti, embora discretamente, sem a


ênfase de Vitrúvio66; mas a cidade eólica, de traçado contra os ventos, será uma
constante da Tratadística da Arquitectura da Idade Moderna, a partir de Filarete, e até
ao Séc. XVIII. Embora, mesmo nos alvores da Idade Moderna, o tema tenha valido a
Rabelais, além de escritor, médico, tradutor e editor de Hipócrates67, e episodicamente
crítico da Arquitectura e da sua Teoria, uma valente rábula68, pois este, como médico,

65
Supõe-se ser esta uma das razões para o ancestral costume de reforçar com pedra os cunhais dos
edifícios, em especial, os situados nos cunhais (ângulos extremos) dos quarteirões – como entre nós,
no Bairro Alto, acontece com o conhecido Cunhal das Bolas –, o que, se não aumentaria a sua eficácia
estática, intensificaria a sua expressividade simbólica, e o sentimento de segurança correlativo.
66
Alberti, ob. cit. (1485, ed. 1966), I, 3, 5-7, Vol. I, p. 24-32; id., IV, 2, 56v-59v, p. 272-87; id., X, 1,
176-178, Vol. II, p. 868-80.
67
Ver, Jouanna, ob. cit. (1992), p. 119 e 510.
68
Rabelais, F.. L’Abbaye de Thélème [capítulo do seu romance Gargântua] éd. critique, introd. et
27

já teria outro conceito dos ventos e da sua acção dissipadora dos ares malsãos e epi-
démicos que ao tempo assolavam a Europa. – De resto, mesmo na Antiguidade, já
para o fim, surge uma outra visão da relação dos ventos e da exposição solar com as
cidades, e até com os países, numa das obras de Oribase (circa 325-395 d.C.)69, a
que é tida como uma enciclopédia das ciências médicas. – Veja-se:

Os países (χωρίων) que estão voltados (κατά) para o Sul (πρὸς µεσηµβρίαν) são os mais
saudáveis (µάλιστά ἐστιν ὑγιεινά), porque gozam (µεταλαµβάνοντα) do Sol (ἡλίον) durante
todos (πάσας) os dias do ano (ἐνιαντοῦ) e durante quase (σχεδὸν) todo (ὃλας) o dia (ἡµέρας);
os países voltados (κατάντη) para o Norte (ἄρκτον) são os menos salubres (ἥκιστα ὑγιεινά),
atendendo a que não recebem (δεχόµενα) a luz (αὐγὴν) do Sol (ἡλίον), nem durante todos
(πάσαις) os dias do ano (ἐνιαντοῦ), nem durante todo (ὃλαις) o dia (ἡµέρας), assim não sendo
iluminados (φωτίζεται) senão durante uma muito pequena parte do dia (ὀλιγοστὸν), e, em
certas épocas, a luz (φῶς) atinge-os (προσπίπτει70) obliquamente (ἐγκεκλιµένον µάλιστα) e
com pouca intensidade (ἀτονώτερον)71.

A nítida diferenciação, em relação a Hipócrates, começa aqui, e sem ambiguidades,


pois a orientação para Sul e a consequente exposição ao Sol são reconhecidas como
as melhores, e para Norte, como as piores, ao invés de Hipócrates, que, como se viu,

commenté par R. Morçay, Génève, 1947. – A rábula é a propósito da descrição da orientação da abadia,
de forma exagonal, e das suas seis torres, situadas nos ângulos (cunhais) do exágono, dispostas defensiva-
mente em relação aos ventos, que é feita num tom de paródia, todos os seis principais ventos vitruvianos
(os mais nocivos) estando contemplados, ou, no caso, enfrentados, ironicamente, claro...
69
Sobre Oribase, ver: De Lucia, R., «Doxigraphical Hints in Oribasius’Collectiones Medicae», in
Eijk, Ph. van der, Ancient Histories of Medicine: Essays in Medical Doxography and Historiography
in Classical Antiquity, Leiden, 1999, p. 473-89; Guardasole, A., «Nuovi escerti di Oribasio», in Cultura,
societá e diritto nel Tardoantico: da Constantino a Teodosio il Grande, Actes du Colloque international,
Naples, 26-28 avril 2001, Napoli, 2003, p. 177-196.
70
προσπίπτει, esta palavra, forma do verbo προσπίπτω, que os editores franceses traduziram por frappe, e
na sua esteira se traduziu em português por atinge, comporta, no infinito, as acepções de cair contra,
correr para, arrojar-se a, prostar-se, cair sobre, atacar, etc. (seg. Isidro Pereira, S. J., ob. cit. (1990),
p. 496; id., Bailly, ob. cit. (1901), p. 755, acepções similares). – E mostra que embora a percepção do
Sul e do Sol em Oribase já fosse outra, na linguagem, ainda se mantinha a sua perigosidade.
71
Oribase, Collections médicales, IX, 19, 1-3, in Œuvres d’Oribase, éd. bilingue avec texte grec et
trad. franç. établie para les drs. Ch. V. Daremberg et U. C. Bussmaker, Paris, 1851-1876, Tome 2, p.
317; disponible sur http://web2.bium.univ-paris5.fr/livanc/?intro=oribase.
28

prescrevia, como melhor, a orientação para Nascente ou para Norte (zonas frias e pouco
soalheiras), e proscrevia a exposição para Sul e Poente, que seriam as piores. – Mas
Oribase vai continuar, e fundamentar a sua tese, com um tipo de argumentação baseado
na empírea dos sentidos (legado romano, epicurismo?). – Veja-se:

Eis aqui a prova (∆ῆλον δέ ἐστιν): um país (χώρα) que está inteiramente (πᾶσα) voltado (κέκ-
λικεν) para o Sul (πρὸς µεσυµβρίαν) é mais odorífero (εὐωδεστέρα), e está sob a influência
de um calor (πέπεπται) mais intenso (µᾶλλον) que um país voltado (κεκλιµένης) para o
Norte (πρὸς ἄρκτον); de resto, os frutos (καρποὶ) das árvores (δέυδρων), quaisquer que
sejam (πάντων), são melhores (κρείττους) quando recebem (µεταλαµβάνοντα) bastante Sol
(πλέον ἡλίου) do que quando recebem pouco (ἧττον µεταλαµβάνοντων): com efeito, eles
são (εἰσι) maiores (µείζους), mais perfumados (εὐωδέστεροι), amadurecem (πεπαίνονται)
mais depressa, e têm um gosto (γεύσει) mais agradável (κεχαρισµένοι); o mesmo, para as
árvores (δένδρου), a parte da copa (τετραµµένον τῆς περιφερείας) voltada para o Sul (πρὸς
µεσυµβρίαν) está mais (µέρος) carregada de seiva (ὑγρότερον), menos densa (µανότερον),
menos fechada (ἁπαλώτερον), mais flexível (εὐκαµέστερον), mais ligeira (ἐλαφρότερον),
mais resistente (εὐτονώτερον), mais cómoda (εὐχερέστερον) para os carpinteiros (τέκτονι)
e cresce (αὔξει) mais em largura (πλέον εἰς εὖρος), enquanto que a parte voltada para o
Norte (πρὸς ἄρκτον) é mais seca (ξηρότερον), mais compacta (πυκνότερον), mais pesada
(βαρύτερον), menos flexível (δυσκαµπέστερον), causando mais esforço (ἐργωδέστερον) aos
trabalhadores (ἐργαζοµένοις) e cresce (αὔξεται) menos (ἔλαττον) na sua copa (περιφερεία).
É pois claro (καταφανὲς) não somente (οὐ µόνον) que os países (χωρία) voltados para o Sul
(πρὸς µεσηµβρίαν) são mais saudáveis (ὑγιεινότερα) que os países voltados para o Norte
(πρὸς ἄρκτόν), por causa da sua posição (ἕνεκα) em relação (σχέσεως) ao Sol (ἡλίον);
mas também, que os países (ἀλλὰ) voltados (κατάντυ) para o Levante (πρὸς ἀνατολὰς) e o
Ocaso (δύσεις) cedem na salubridade (ἧττον ἐστιν ὑγιεινά) aos países que pendem (καταν-
τῶν) para o Sul (πρὸς µεσηµβρίαν) e ganham aos que estão voltados para o Norte (ἄρκτον
ὑγιεινότερα), porque recebem (µεταλαµβάνει) mais Sol (µᾶλλον ἡλιου) que os últimos (ὅτι
τούτων) e menos que os primeiros (ἐκείνων δὲ ἧττον)72.

O texto não deixa dúvidas: para Oribase, médico grego do Séc. IV, que terá estudado
Medicina em Alexandria, e cuja vida terá decorrido, a partir dos trinta anos, em
Constantinopla, como médico do imperador Julião, o Apóstata, os países mais bem
orientados eram os voltados para Sul, e bem expostos ao Sol, o mesmo se observando

72
Oribase, ob. cit., IX, 19, 241, 1, 242, 2-3, in Oeuvres d’Oribase (1851-1876), Tome 2, p. 317-318.
29

em relação às cidades, como se verá a seguir, pois as mais bem orientadas seriam as
voltadas para Sul, ao contrário de Hipócrates e Vitrúvio, que defendiam a orientação
para Nascente ou para Norte. E o argumento, além da exposição aos ventos, vistos
como benéficos, é a maior quantidade de luz solar e de calor, o que também é contra as
prescrições dos autores referidos ou, pelo menos, não está contemplado por estes, como
constituindo uma vantagem. – Agora, veja-se em relação às cidades e suas ruas:

Se, numa cidade (πόλει), todas as ruas (ἀγυιαὶ) são paralelas (παράλληλοι ὑπάρχωσιν73),
umas no comprimento (µῆκος), outras na largura (πλάτος); se as ruas da mesma ordem
(ὁµοταγέσι) olharem directamente (εὐθείας κείµεναι), umas o Levante (ἀνατολῇ) e o Poente
(δύσει) equinociais (ἰσηµερινῇ), as outras o Norte e o Sul (ἄρκτω καὶ µεσηµβρίᾳ); se todas
cortarem (παᾶσαι δὲ τέµνωσι) a cidade (πόλιν) seja em todo (ὅλον) o seu comprimento
(µῆκος) seja em toda a sua largura (τὸ πλάτος), até às extremidades (µέχρι περάτων); se
nenhuma delas (ἑκάστη) contiver (ἔχουσά) no seu percurso (ἐνιστάµενον) nenhum edifício
que faça obstáculo (οἰκοδόµηµα τὸ µεταξὺ74); se as estradas (ὁδούς) dos subúrbios
(προαστείων), que dão seguida (ἐνιστάµενον) a cada uma delas (ἑκαστη), as continuem
(ἔχουσα) segundo a mesma linha direita (καθαρὰς επὶ εὐθείας) e se encontrem desemba-
raçadas (καθαρὰς) até uma grande distância (επὶ πολὺ), essas ruas (ὁδοὺς) tornarão
(παρέχουσιν) a cidade (τὴν πόλιν) bem arejada (εὐάερον), bem exposta aos ventos
(εὐήνεµον75), bem iluminada pelo Sol (εὐήλιόν), e limpa (καθαρὸν), porque os ventos
(ἄνεµοι), ou seja, os do Norte (βορέας), do Sul (νότος), de Leste (εὖρός) e de Oeste
(ζέφυρος), que são (εἰσὶ) de todos os ventos (ἀνέµων) os mais importantes (κορυφαιότατοι)
e os mais bem regrados (εὐτακτότατοι), atravessem (διαῤῥέουσι) facilmente (εὐπετῶς) as
ruas (ἀγυιῶν), atendendo a que elas estão situadas (κειµένων) na mesma direcção (εὐθείας)
que eles, e que assim, os ventos (ἄνέµων), não encontram nenhum obstáculo (οὐδὲν
ἔχοντες) à sua passagem (ἐνιστάµενον τῇ ῥυσει), não produzindo (γενόµενοι) nenhum

73
παράλληλοι ὑπαρχωσιν, a expressão quererá dizer, ruas dominantes, ou que mandam, embora a gama
de acepções de ὑπαρχω, admita começar, ser o fundamento, etc. (ver, Isidro Pereira, S. J., ob. cit.
(1990), p. 589; id., Bailly, ob. cit. (1901), p. 895-896).
74
οἰκοδόµηµα τὸ µεταξὺ, mais propriamente, esta expressão significará, nenhum edifício entre, ou seja,
pelo meio do percurso, que obstaculize a passagem dos ventos. – A tradução franceza, que se seguiu,
traduzindo para português, revela-se deficiente em algumas passagens, além de extremamente palavrosa,
raramente fazendo utilização do procedimento metonímico. – Será que pretendia ser didáctica?
75
Estes seriam ventos “bons”, como indica o prefixo “εὐ”, logo, tipo brisas matinais ou vespertinas.
30

(οὐδὲν) efeito violento (ἐργάζονται βίαιον) quando sopram (διάπνευστοι) através da cidade
(πόλει); porque os ventos (ἄνεµοι), quando eles não encontram (µὴ ἔχωσι) obstáculo
(κωλῦον), passam sem que se aperceba (λανθάνουσι παριόντες); contudo eles não atra-
vessam (διέρχονται) a cidade (πόλιν) sem exercer uma influência (ἀργοὶ)76...

Assim, Oribase, tal como Hipócrates (que lhe é anterior, à volta de oitocentos anos), e
Vitrúvio (que escrevera cerca de quatrocentos anos antes, em latim, num espaço cultu-
ral similar, donde o Império de Oriente era originário), também reconhece que os
ventos, ao atravessar a cidade exerciam uma certa influência. Nisto, tudo bem, mas na
maneira de ver e avaliar essa influência é que há toda uma diferença. – Veja-se:
...pois que eles purificam (καθαίπουσι) a localidade (κατάστηµα), tirando (ἐκβάλλοντες) da
cidade (πόλεως) o fumo (καπνοὺς), a poeira (κονιορτοὺς) e as exalações (ἀναθυµιάσεισ),
quaisquer que sejam (πάσας). As ruas (ἀγυιαὶ) assim dispostas (ἔχουσαι ποιοῦσιν) tornam
o acesso do Sol fácil (εὐήλιόν77) na cidade (πόλιν), pois que ele penetra (εἰσέρχεται) aí,
desde o seu nascer (ἀνατέλλων) até ao seu ocaso (δυόµενος); penetra em linha recta
(εὐθείας), ao erguer-se (ἐπὶ), nas ruas que estão voltadas para Nascente (ἀνατολὴν), ao
meio-dia (µεσουρανῶν), naquelas que encaram o Norte (ἄρκτους) ou o Sul (µεσηµβρίας); as
ruas da cidade (πόλει τὰς ἀγυιάς) sentirão pois todos os dias (ἑκάστης ἡµέρας) a influência
do Sol (ἡλιουσθαι). Se todas (πάσας) as ruas (ἁγυιάς) não são paralelas (µήτε παραλλήλους),
nem direitas (εὐθείας), se algumas são oblíquas (σκόλιας) ou sem saída (ἀδιεξιτήτους) e
com uma direcção oblíqua (λοξὰς) em relação aos ventos (ἀνέµους), o ar da cidade
(πολλὴν τοῦ ἀέρος) será notavelmente perturbado (ταραχὴν ἔχει) nos seus movimentos:
com efeito, mesmo que um só vento sopre (πνεύσαντος ἀνέµου), esse vento se dividirá
(γενέσθαι συµβαίνει) em vários (πολλοὺς) opostos (µαχοµένους) uns aos outros (αλλή-
λοις), porque o vento (ἄνεµος) sopra (ῥεῖ) em linha recta (ὲπὶ εὐθείας), mesmo que as
ruas (ἀγυιαὶ) não sejam rectilíneas (οὐκ εἰσὶν εὐθεῖαι)78.

Estes eram os efeitos favoráveis da acção do vento numa cidade de traçado ortogonal,
com as ruas a direito – pelo menos, as dominantes (ὑπάρχωσιν) –, e orientadas para os
quadrantes principais, Norte, Sul, Nascente e Poente, logo formando uma quadrícula, o
76
Oribase, ob. cit., IX, 20, 243, 1-2, in Oeuvres d’Oribase (1851-1876), Tome 2, p. 318-319.
77
εὐήλιόν, que surge traduzido por fácil (facile, em fr., doc. trab.), pode ser traduzido por sol bom, ou sol
feliz (εὗ), metáfora muito apropriada para designar e homenagear o sol (ver, Isidro Pereira, S. J., ob. cit.
(1990), p. 234, p. 237; id., Bailly, ob. cit. (1901), p. 369, p. 373, acepções de ambas as palavras).
78
Oribase, ob. cit., IX, 20, 244, 2-3, in Oeuvres d’Oribase (1851-1876), Tome 2, p. 319-320.
31

que aponta para a cidade colonial romana, como modelo subjacente. – Mas também os
efeitos perniciosos ou funestos (ὅλοισιν) sobre a cidade oposta a esta, de ruas oblíquas
(σκόλιας), ou sem saída (αδιεξιτήτους), estão contemplados, como se verá a seguir:

por consequência, se ele tomba (ἐµπίπτων) sobre ruas sem saída (ἀδιεξιτήτοις, impasses79),
ele aí não entra (εἰσέρχεται), pois que não encontra passagem (ὁδὸν) alguma, mas agita
(ἀράσσει) o ar (ἀέρα) contido na rua (ἀγυιᾷ) e produz um movimento de fluxo e refluxo
(ἀντικυµαίνεται), enquanto que nas ruas oblíquas (σκολιαῖς) e que estão abertas (διέξοδον
ἐχούσαις) nas duas extremidades, como elas se cortam (ἑγκεκλᾶσθαι) tanto duma maneira
como de outra (ἄλλως ἄλλας), ele será repelido (ἀποπαλλόµενος) em algumas e se escapará
(φέρεται) por todos os lados (περιῥῥεῖ); muitas vezes (πολλάκις) retornará (πάλιν) ao mesmo
sítio (τόπυς) por onde (ὅθεν) tinha entrado (εἰσεῥῥύν) e as suas ondas se farão mutuamente
obstáculo entre si (ἀντικυµαίνει ἑαυτῷ); outras vezes escapará (ἀπὸ) numa direcção dife-
rente (ἑτέρους), porque as correntes reflectidas (ἀντιπνεύσεις) do vento (ἄνεµοι) não são
reguladas (τεταγµένους) como os raios refractados da luz (αὐγὴ τὰς ἀνταυγίας): com efeito,
a luz é sempre reflectida (ἀνακλᾶται) por ângulos (γωνίας) iguais (ἴσας), enquanto que os
ventos, assim como a água (ὕδωρ), mudam (µεταῥῥέουσι) o seu percurso (ἐκεῖσε) em todas
as direcções onde (ὅπου) encontrem (τύχωσιν) uma passagem (ὁδοῦ), se qualquer coisa os
impede (κωλυόµενοι) de marchar (φέρεσται) em linha recta (ευθείας). Ocorrerá (συµβαί-
νει), pois, algumas vezes (ὅτε), que o vento (ἄνεµον), lançando-se (προσπεσόντα) sobre um
corpo sólido (στερεῷ), se bifurcará (σχίζεσθαι) para os dois lados (ἐκάτερα), se houver duas
vias abertas (παράκεινται ἑκατέρωθεν ὁδοὶ); uma segunda corrente de ar (πάλιν), chegando
nas mesmas circunstâncias (τοῦτο πάσχειν), ensaiará (προσπεσόντα) a mesma bifurcação
(ἑτέραν ῥυσιν τοιούτῳ), e o vento, que era único (ἕνα ὅντα), dividindo-se (γίνεσθαι) assim
em vários (πολλοὺς), retombará sobre ele próprio (συµπίπτειν ἑαυτῷ), lançando-se
(φερόµενοι) tanto numa direcção lateral (ἐκ πλαγίου), como numa direcção oposta (ἐξ
ἐναντίας); em cada (ἑκάστην) ângulo (ἔγκλισιν80) de rua (ἀγυιῶν), sendo pressionado no

79
Forma original do texto em francês, impasses, embora em português becos talvez fosse melhor, pois é
um termo mais centrado no tradicional léxico designativo das artérias urbanas ou arruamentos.
80
Ἔγκλισιν, comporta a acepção de inclinação, ou inclinaison, como subs. fem., e, como verbo,
Ἔγκλίνω, as de dobrar, encurvar, inclinar-se, apoiar-se, desviar, voltar, ceder, retirar-se, ou incliner,
courber, plier, faire pencher, s’appuyer sur, reposer sur, etc. (ver, Isidro Pereira, S. J., ob. cit. (1990),
p. 164; id., Bailly, ob. cit. (1901), p. 243). – Enfim, tudo palavras que exprimem o contrário da ideia
de recto, a direito, ou plano, aprumado, autónomo, que são as correspondentes à ideia de boa cidade,
segundo a concepção exposta por Oribase, compreensivo, todavia, em relação aos outros tipos de cidade.
32

sentido contrário (ἀντιθλιβόµενον), acometerá (προσπτώσει) de diversos lados a cidade (τὸ


κατάστηµα81) soprando agudamente (ἀράσσειν σφοδρῶς): com efeito, em algumas ruas, os
ventos (ἄνεµοι) chegam (ἥκουσιν) docemente (ἁπαλῶς), enquanto noutras, encontram um
obstáculo (ἀντιπίπτουσιν). A cidade (τῆς πόλεως), sendo exposta (κατάστηµα) a correntes
de ar de sentido contrário (ἀντιπνεόµενον), será pois atingida (κλονεῖται) pelos ventos de
uma maneira (σὺν κόσµῳ) muito desagradável (οὐδενὶ). Toda a constituição da cidade
(Ἑνὸς) será perturbada (κυκήσει) na sequência da mistura (συγκυκᾶται) de duas partes
de uma mesma (ὅλον) corrente (ἀέρος), uma rechaçada (τινος), a outra conservando a
sua direcção primitiva (κυήσει συγκυκᾶται)82...

E na sequência, configurando as essenciais características antropomórficas do pensa-


mento grego, estabelece uma analogia entre a respiração do homem e a da cidade, em
que surgem palavras (conceitos!), como unidade ou uno (Ἑνὸς), mas que designaria
também a cidade, e igualdade, ou melhor, coesão (συµφυὲς83). – Veja-se:

igualmente (συµφυὲς*) o sopro (souffle = πνεῦµα) inato do homem (ἀνθρώπου) apresenta


um obstáculo (ἐµποδίζει) à digestão (πέψεις) e à distribuição dos alimentos (ἀναδόσεις),
quando está (ἔχον) numa condição parecida (οὕτως); se isto é assim (τοιούτου δὲ ὄντος), a
constituição da cidade jamais será saudável (ἂν [οὐκ] εἴν ὑγιεινόν)84...

81
τὸ κατάστηµα, literalmente tem as acepções de a situação, o estado, a condição, ou état, situation,
condition; no entanto, neste contexto, parece estar compreendida a noção de sistema, conceito que os
gregos já possuíam, ou de que andaram perto, como o assinala a aplicação da palavra κατάστηµα neste
contexto, e, mais significativamente, em termos genéricos, a palavra σύστηµα, que comporta, entre
outras, as acepções de conjunto e total, ou ensemble, total, masse (ver, Isidro Pereira, S. J., ob. cit.
(1990), p. 310, p. 560; id., Bailly, ob. cit. (1901), p. 476, p. 844).
82
Oribase, ob. cit., IX, 20, 1-8, in Oeuvres d’Oribase (1851-1876), Tome 2, p. 318-322.
83
,* συµφυὲς ou συµφυή, subs. fem., comporta as acepções de coesão, ou union, cohésion; συµφυή, ής,
ές, adv., que parece corresponder mais ao termo registado nesta passagem, tem a acepção de da mesma
natureza, ou de mème nature; assim, mais do que a ideia de igualdade, o texto original parece expres-
sar a ideia de uma certa homologia, que se faria observar, entre fenómenos (cidade e homem) de natu-
reza semelhante, ou análoga, no entanto, a ideia de coesão ou união entre os efeitos da respiração do
homem e a ventilação da cidade, não são descabidos, ambos reforçando a ideia de sistema
(κατάστηµα, σύστηµα), ou seja, de integração num conjunto ou unidade (Ἑνὸς), que estaria na origem
e natureza de la constitution de la ville, como traduzem os editores franceses (ver, Isidro Pereira, S. J.,
ob. cit. (1990), p. 544; id., Bailly, ob. cit. (1901), p. 824.
84
Oribase, ob. cit., IX, 20, 245, 6-7, in Oeuvres d’Oribase (1851-1876), Tome 2, p. 320-321.
33

Com efeito, é desta maneira que a relação do homem com a cidade é vista: formando
uma unidade ou sistema (κατάστηµα, σύστηµα), em oposição à da natureza, de cujo
caos, a impetuosidade dos ventos era manifestação exemplar, mas que, no entanto,
poderiam ser domesticados, pondo-se a sua força, ou influência (ἀργοὶ) ao serviço dessa
unidade e sistema (Ἑνὸς, κατάστηµα), formados pelo homem e a cidade.

Por outro lado a luz do Sol (ἡλίου φῶς), que parte sempre (ἀεὶ ἀπὸ) desse astro (αὐτοῦ) em
linha recta (εὐθείας), não se lançará (προςπίπται) duma maneira igual (ὁµαλῶς) sobre
(φερόµενον) as ruas (ἀγυιαῖς) oblíquas (σκολιαῖς), mas atingirá (ἐφάψαιτο) apenas certas
partes (σποράδην) da cidade (πόλεως); deste modo, ela [πόλις] sentirá muito fracamente
(ἥκιστα) a influência do Sol (ἡλιοῖτο) e as exalações (ἀναθυµίασις) serão muito pouco
(ἥκιστα) dissipadas (διαλύοιτο) pelo Sol (ἡλίου); a cidade oferecerá pois sobretudo
(µάλιστα) um ar espesso (παχὺ) e uma estadia de respiração difícil (δυσδιάπνευστον); ora
esse estado (κατάστηµα) não é (οὐκ ἔστιν) favorável à saúde (ὑγιεινόν)85.

Assim, à influência dos ventos, sucede o reconhecimento dos efeitos de uma boa expo-
sição solar sobre as exalações (ἀναθυµίασις), que ajudava a dissipar (διαλύοιτο) – o
que parece referir-se aos efeitos de oxidação da matéria orgânica exercidos pelo Sol,
que ao secar os detritos torna-os inócuos –, embora tal acontecesse de uma maneira
deficiente nas cidades mal orientadas, de ruas mal traçadas (σκολιαῖς ou λοξὰς, isto
é, oblíquas), ou em localidades situadas em territórios anómalos (χωρίῳ ἀνωµαλεῖ),
temas que o tratado de Oribase abordará logo de seguida. – Veja-se:

O que acabo de dizer (Ταῦτα δὲ) aplica-se (συµβαίνει) às cidades (πόλεις) que estão situa-
das (ἐν) num país (χωρίῳ) de planície (ἐπιπέδῳ); mas, se elas estão construídas num país
acidentado (εἰ δὲ εἶεν [ἐν] ἀνωµαλεῖ), as que têm (ἔχουσαι) ruas (ἀγυιὰς) paralelas
(παραλλήλους) devêm (γίνονται) mal arejadas (δυσάεροι), quando o vento sopra (πνεύσῃ)
numa direcção contrária (ἐναντίως) às partes (µέρεσι) mais elevadas (ὑψηλοτέροις) das
ruas (ἀγυιῶν), enquanto que as cidades de ruas oblíquas (αἱ δὲ σκολιὰς) estão (ἔκουσαι)
então em melhores condições (ἀµείνους), pois acontece (συµβαίνει) que as zonas (µέρη)
da cidade (πόλεως) situadas (ἐν) nas partes mais elevadas (ὑψηλοτέροις) do território
(χωρίον) são (εἶναι) melhor arejadas (εὐαερώτερα)86.

85
Oribase, ob. cit., IX, 20, 245-246, 7-8, in Oeuvres d’Oribase (1851-1876), Tome 2, p. 321-322.
86
Oribase, ob. cit., IX, 20, 246, 8, in Oeuvres d’Oribase (1851-1876), Tome 2, p. 322.
34

Como se constata, na totalidade dos seus vários aspectos, a visão de Oribase sobre a
exposição das cidades ao Sol e aos ventos é muito diferente da que se apresenta nos
Tratados Hipocráticos ou em Vitrúvio, e parece que bastante mais evoluída, desprovida
dos antigos preconceitos em relação, quer à insolação, quer aos ventos, de que mostra
consciência e conhecimento do seu papel benéfico, para secar os excessos de humi-
dade, para fazer medrar os frutos e as árvores, e para limpar os ambientes urbanos de
fumos, poeiras, maus cheiros, exalações, putrefacções, e ares parados e fétidos, em
geral. A cidade, a que se refere, como correcta, seria de traçado ortogonal, com ruas no
sentido Norte-Sul, cruzadas por outras no sentido Nascente-Poente, ao menos naquelas
que refere como ruas principais ou dominantes (ὑπάρχωσιν), paralelas (παράλληλοι)
entre si, e seguindo aquelas direcções solares, embora este modelo seja referente às
cidades de planície (πόλεις ὲν ἐπιπέδῳ χωρίῳ), pois as construídas num país aciden-
tado (ἀνωµαλεῖ), poderiam ter outras disposições, de tipo ruas oblíquas (ἀγυιαῖς
σκολῖας ou λοξὰς), o que deve ser entendido como de traçado irregular.

Se em Hipócrates se faz sentir, em relação à insolação e aos ventos, a alopatia, ou


medicina dos contrários, que implicava combater o calor com o frio, e o movimento
com o repouso, ou seja, combater os contrários com os contrários (τὰ ἐναντία τῶν
ἐναντίων ἐστίν ἰήµατα87), como aparece formulado em Περὶ φυσῶν – e deve-se lem-
brar que para os hipocráticos a medicina é vista como uma espécie de arte marcial, cuja
missão seria ajudar o corpo e a saúde a combater a doença88 –, em Oribase pode-se
dizer que é quase uma medicina dos similares (similia similibus curantur89) a que se

87
Hippocrates, ob. cit., I, 5 (1988), p. 104. – Esta atitude tem a ver com a filosofia médica hipocrática
de reestabelecer no homem a εὔκρασία (equilíbrio) entre os quatros humores dominantes.
88
Note-se que este entendimento bélico da medicina, ainda hoje tem actualidade, como o demonstra o
título de um popular “programa de saúde” da televisão alemã: Kampf gegen die Krankheit, ou seja,
Combate contra a Doença, cujos tema e tom são os que o título indicia.
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Este é o princípio da chamada Medicina Homeopática, tal como foi formulado pelo médico alemão,
Samuel Hahnemann (1755-1843), in Organon der Heilkunst, Dresden, 1818. – Várias reedições, sendo
de salientar a 6.ª ed. de 1921, de Leipzig, Wilmar Schwabe Verlag, que é uma edição crítica, da res-
ponsabilidade de R. Haehl, e de que há várias reimpressões recentes. – De resto, na Alemanha, a Me-
dicina Homeopática tem grande popularidade, e é aceite pelo Poder Politico, sendo os seus custos parti-
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assiste, implicando não oferecer resistência aos elementos e fenómenos da Natureza,


mas deixando-os exercer a sua acção, que, bem orientada, poderia até ser benéfica
para a cidade e o homem, seu edificador e habitante. Assim, nada de contrariar a pas-
sagem dos ventos, pois aí, sendo contrariados, é que eles se podiam tornar perigosos
pela turbulência e redemoinhos que se originavam.

A filosofia médica de Hipócrates, para além de toda uma relação ou mesmo subordina-
ção à cosmogonia geral dos gregos (ou a sua Weltanschauung, isto é, concepção do
mundo ou mundividência), parece estar conexionada com uma época de triunfo grego
no combate com os persas, seus inimigos. Porém, agora, cerca de oitocentos anos
decorridos, ao tempo de Oribase, assiste-se à lenta decadência de um Império Romano,
já dividido em Império do Ocidente e Império do Oriente (aquele em que Oribase
viveu, estudou e escreveu), e que, exaurido, já não tinha forças para se opor à passagem
dos bárbaros, seus inimigos, o que provocaria turbulências, antes os convidava a passar
e até a fixarem-se, domesticados, no Império. Mas é claro que as verdadeiras razões,
ou as mais aceitáveis, pelo menos, para a diferença entre os sistemas de Hipócrates e
Oribase, poderão ter sido outras: o estoicismo, com a sua doutrina de aceitação e con-
formação perante a Natureza; o epicurismo com o seu primado do sensorial90; depois, o
Cristianismo, com a sua visão da πανκαλία, beleza e bondade total do Cosmos, logo, da
Natureza, porque obras de Deus, favoreciam este tipo de concepções sobre a bondade
dos elementos e dos fenómenos naturais. E também, autonomamente, a ciência mé-
dica, embora não imune ao Zeitgeist, tinha avançado bastante, a partir da Escola de
Alexandria, onde Oribase se formara91. Além dos avanços entretanto operados na
Meteorologia, na Astronomia, e nas Ciências da Natureza, em geral.

cipados pelo Estado. Os médicos de família, Hausarzt, praticam-na em paralelo, sendo a escolha da
responsabilidade do utente. É vista como uma medicina weich, ou seja, leve, sem efeitos laterais (ne-
benwirkungen) perniciosos, encarada como incerta em fazer bem, mas certa de não fazer mal.
90
A doutrina de Epicuro (341-270 a.C.), com o seu primado do sensorial, parece ressoar naquela des-
crição sensual das terras odoríferas (εὐωδεστέρα), dos frutos perfumados (εὐωδέστεροι) e de gosto
(γεύσει) mais agradável (κεχαρισµένοι), das árvores de madeira mais cómoda (εὐχερέστερον) para os
carpinteiros (τέκτονι) a trabalharem, etc., e tudo isto graças a uma boa exposição solar...
91
Jouanna, ob. cit. (1992), p. 83-84, e 489 ss.
36

Mas o que de Oribase, quatro séculos posterior a Vitrúvio, se reflectiu na Teoria da


Arquitectura é muito pouco, ou mesmo nada, ao contrário de Hipócrates, cujo imenso
prestígio, com algo de mítico, não poderia deixar de repercutir-se no tratadista romano,
e nos seus sucessores, quer os do tempo do Império Romano, como Cetio Faventino,
quer os da Renascença, a começar por Alberti, embora discretamente, como já se
assinalou. As traduções, parciais, de Oribase, na Idade Moderna, começam na segunda
metade do Séc. XVI, quando a Teoria da Arquitectura Renascentista se havia formado
já, na sua parte mais significativa, além de que seria um tipo de literatura mais do âmbito
de especialistas em Medicina do que de arquitectos ou tratadistas da Arquitectura.
Até que ponto poderá ter contribuído para a mudança de paradigmas sobre a acção do
Sol e dos ventos que se operou no Séc. XVIII, quando quase todos os paradigmas e
preconceitos e pressupostos (Vorürteile) da Cultura Ocidental foram postos à prova e
alterados, é assunto que está por estudar, tanto quanto se saiba.

Assim, e como se acabou de ver, não pode haver dúvidas de que a grande fonte de
Vitrúvio e da Teoria da Arquitectura, nomeadamente, da cidade eólica, e da orientação
das cidades, face aos quadrantes geográficos, são os Tratados Hipocráticos, designa-
damente aqueles que se intentou expor e interpretar neste capítulo, onde aparecem
prefiguradas muitas das formulações sobre a orientação e a disposição das cidades,
avultando a preocupação com os ventos92, assim como a importância da salubridade
e do ambiente para a vida. – E é de lembrar que creazione di un ambiente più propizio
alla vita e intenzionalità estetica sono i caratteri stabili dell’architettura93, como
ainda no nosso tempo foi formulado por um dos grandes, talvez o último, entre os
grandes tratadistas da Arquitectura, e cuja obra teórica maior ostentou o título de,
precisamente, A Arquitectura da Cidade.

92
Ainda em 1970, num projecto de iniciativa do Estado (HE) de casas económicas para Peniche, em que
se colaborou, no atelier do arquitecto Vítor Figueiredo, a orientação dos arruamentos defensivamente,
em relação aos ventos, se colocou e, no caso, com a particularidade de serem ventos marítimos, especial-
mente perniciosos. – Isto, num tempo de aparente e entediante inmotam stabilitatem...
93
Rossi, A., L’architettura della Città, Padova, 1966, reed. Milano, 1995, p. 9.
37

97 – Sforzinda, a cidade vitruviana, interpretação radio-concêntrica, in Filarete, A. A. detto il, Trattato


di Architettura, ed. critica (1972), Vol. II, Tav. 23 (f. 43r).

98 – A cidade vitruviana, interpretação irregular, in Vitruvius-Caporali, 1536


(inspirada na edição de Cesariano, 1521 – em baixo, as συστάδας ou quincôncio aristotélico?).
38

99 – A cidade vitruviana, interpretação ortogonal, in Perrault, C., Les dix livres d’architecture de
Vitruve, corrigez et traduits nouvellement en François, avec des Notes & des Figures… par M.
Perrault de l’Academie Royalle des Sciences, Docteur en Medecine, Paris, 2.e ed. 1684, p. 27.

Como se constata, pela diversidade das interpretações, o esquema de orientação eólica, descrito por
Vitrúvio, permitia vários e diferentes modelos de traçado de cidades, embora seja comum a todos, a
defesa em relação aos ventos que não deviam enfiar directamente pelos arruamentos.