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Meireles, J. et. al. Psicólogas brancas e relações étnico-raciais: em busca de formação crítica sobre a
branquitude

Psicólogas brancas e relações étnico-raciais: em busca de formação crítica


sobre a branquitude

White psychologists and ethnic-racial relations: searching critical training


on whiteness

Psicólogas blancas y relaciones étnico-raciales: en busca de formación


crítica sobre la branquitud

Jacqueline Meireles1

Mariana Feldmann2

Tamiris da Silva Cantares3

Simone Gibran Nogueira4

Raquel Souza Lobo Guzzo5

Resumo

Este trabalho apresenta uma síntese de discussões realizadas em um grupo de estudos sobre relações
étnico-raciais, composto por psicólogas brancas pós-graduandas, pelo período de três semestres. Os
estudos foram motivados pela lacuna na formação em Psicologia no que diz respeito às relações étnico-
raciais. São discutidos os efeitos da branquitude na formação subjetiva e profissional, a partir de três
eixos: 1. Uma breve leitura histórica sobre a construção social da ideia de raças humanas e sua influência
no pensamento psicológico brasileiro. 2. Histórico sobre como a Psicologia se dedicou ao estudo das
relações étnico-raciais no Brasil.E 3. contribuições da Psicologia Crítica no estudo da branquitude.
Esperamos que estas reflexões favoreçam a Construção de diálogos com profissionais, docentes e
pesquisadores de Psicologia sobre a necessidade de formação a respeito das relações étnico-raciais e,
principalmente, a necessidade de se desenvolver uma branquitude crítica para uma postura ética na
atuação profissional.

Palavras-chave: Psicologia. Educação. Branquitude. Relações étnico-raciais

1
Doutoranda e Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia pela Puc-Campinas. Graduada em
Psicologia pela PUC-Campinas.
2
Doutoranda e Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia pela Puc-Campinas. Graduada em
Psicologia pela PUC-Campinas.
3
Doutoranda e Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia pela Puc-Campinas. Graduada em
Psicologia pela PUC-Campinas.
4
Pós-Doutorado pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Doutora em Psicologia Social pela PUC de
São Paulo. Mestra em Educação pela Universidade Federal de São Carlos. Psicóloga pela Universidade Federal
de São Carlos.
5
Professora titular da Graduação em Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUC-
Campinas. Pós-Doutorado na University of Texas/USA e na University of Rochester/USA. Doutora e Mestra em
Psicologia pela USP. Psicóloga pela PUC-Campinas,

Pesquisas e Práticas Psicossociais 14(3), São João del-Rei, julho-setembro de 2019. e3181
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Resumen

Este trabajo presenta discusiones realizadas en un grupo de estudios sobre relaciones étnico-raciales,
compuesto por psicólogas blancas postgraduadas, por el período de tres semestres. Los estudios fueron
motivados por la brecha en la formación en Psicología sobre las relaciones étnico-raciales. Se discuten
los efectos de la branquitud en la formación subjetiva y profesional, a partir de tres ejes: 1. Breve lectura
histórica sobre la construcción social de la idea de razas humanas y su influencia en el pensamiento
psicológico brasileño. 2. Histórico sobre cómo la Psicología estudió las relaciones étnico-raciales en
Brasil.Y 3. Contribuciones de la Psicología Crítica en el estudio de la branquitud. Esperamos que estas
reflexiones favorezcan la construcción de diálogos con profesionales, docentes e investigadores de
Psicología sobre la necesidad de formación acerca de las relaciones étnico-raciales y, principalmente, la
necesidad de desarrollar una branquitud crítica para una postura ética en la actuación profesional.

Palabras clave: Psicología. Educación. Branquitud. Relaciones étnico-raciales.

Abstract

This work aims to share reflections carried out in a group of studies on ethnic-racial relations, carried
out by white postgraduate psychologists for a period of three semesters. The studies were motivated by
the gap we identified in Psychology training regarding ethnic and racial relations. The effects of
whiteness on subjective and professional formation are discussed, from three parts: 1. A brief historical
reading about the social construction of the idea of human races and its influence on Brazilian
psychological thinking. 2. History about how Psychology was dedicated to the study of ethnic-racial
relations in Brazil.A 3. Contributions of Critical Psychology in the study of whiteness. We hope that
these reflections favor the construction of dialogues with professionals, teachers and researchers of
Psychology on the need for training on ethnic-racial relations and, especially, the need to develop a
critical whiteness to an ethical stance in professional practice.

Keywords: Psychology. Education. Whiteness. Ethnic-racial relations.

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Introdução psicólogas ou para essa região do país. Em


pesquisa referente ao perfil do profissional
Este artigo apresenta reflexões de Psicologia no Brasil, Lhullier (2013)
produzidas a partir de um grupo de estudos enfatiza a predominância feminina na
sobre relações étnico-raciais e o papel da profissão: em 2012, dos 232 mil
branquitude na vida cotidiana, realizado por profissionais em exercício, 89% eram
psicólogas autodeclaradas brancas do mulheres. O documento apresenta, também,
Grupo de Pesquisa Avaliação e Intervenção uma pesquisa realizada com 1.331
Psicossocial: Prevenção, Comunidade e psicólogas, em que uma das questões se
Libertação. Os estudos foram motivados referiu à raça, conforme os critérios do
por inquietações derivadas de nossa atuação IBGE. Os resultados não surpreendem ao
em um projeto de extensão universitária nas revelar que 67% das psicólogas se
escolas públicas, o Projeto Espaço de autodeclararam brancas, 25% pardas, e
Convivência, Ação e Reflexão – Projeto apenas 3% pretas, 3% amarelas e 1%
Ecoar (Guzzo et al., 2019). Esse projeto indígenas. Além disso, quando
nasceu em 2014, após um convite da questionadas sobre o referencial teórico
Secretaria de Educação de Campinas-SP utilizado em sua prática profissional, dentre
para que o grupo de pesquisa organizasse as psicólogas que souberam responder
ações para o enfrentamento à violência em (1,179), 28% declararam utilizar as
escolas da Rede Municipal em uma região construções de Sigmund Freud (alemão),
periférica da cidade. Por meio desse projeto, 7% de Carl Gustav Jung (alemão), 6% de
foram mapeadas as violências vivenciadas e Carl Rogers (estadunidense), 5% de B. F.
produzidas por estudantes, professores, Skinner (estadunidense), 4% de Lacan
gestores, funcionários, familiares e (francês), 4% de Aaron Becker
comunidade (autor/a 01, 2017; autor/a 02, (estadunidense), e os demais foram citados
2015; autor/a do grupo de pesquisa 01, por menos de 3% das psicólogas.
2017; autor/a do grupo de pesquisa 02, Esses dados revelam que a
2017). Psicologia é uma profissão
A atuação nas escolas e a predominantemente composta por mulheres
sistematização das informações nos brancas, orientadas por referenciais teóricos
trabalhos de autor/02 (2015), autor/a do euro-americanos produzidos por homens.
grupo de pesquisa 01 (2017) e autor/a 01 Para além da observação de que não há
(2017) revelaram o racismo como uma das sequer uma mulher apontada dentre os
violências mais recorrentes nas escolas da autores mais estudados e utilizados no
região. Semanalmente, deparamo-nos com Brasil – apesar de ser uma profissão
as diversas formas de sofrimento causadas majoritariamente praticada por elas –,
pelo racismo manifesto no contexto das destacamos o problema dos referenciais
escolas e das comunidades em que atuamos. teóricos utilizados. Dessa forma, de acordo
No entanto, apesar da evidente demanda de com o Conselho Federal de Psicologia
combate ao racismo nas escolas, nossa (2017, p. 75),
formação em Psicologia não oferecia
elementos para elaborarmos e organizarmos Historicamente, a Psicologia brasileira
ações para o enfrentamento desse problema posicionou-se como cúmplice do racismo,
tendo produzido conhecimento que o
social. legitimasse, validando cientificamente
Infelizmente, essa lacuna não é estereótipos infundados por meio de teorias
realidade singular para esse grupo de eurocêntricas discriminatórias, inclusive

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por tomar por padrão uma realidade que não abordou os seguintes conteúdos: Introdução
contempla a diversidade brasileira. às Políticas de Ações Afirmativas e à
Educação das Relações Étnico-Raciais;
Ainda hoje os cursos de graduação Colonização e Descolonização do
perpetuam essa realidade, ao não abordar e Conhecimento, Racismo à Brasileira e Seus
não preparar psicólogas(os) para trabalhar efeitos Psicossociais.
com as relações étnico-raciais. Importam- Essa preparação passou, e ainda
se, de forma acrítica, referenciais do passa, por um processo de autorreflexão
hemisfério Norte para analisar o contexto crítica sobre nossa própria identidade racial,
psicossocial no hemisfério Sul, como mulheres brancas em uma sociedade
historicamente explorado por aqueles (Lane racista e a necessidade de desnaturalizar o
& Codo, 1986; Martín-Baró, 2009). lugar do ser branco como um ser
Referências oriundas de outros lugares e universalmente humano, um modelo a ser
povos, como os ameríndios, africanos, seguido. O estudo das relações étnico-
asiáticos e aborígenes, por exemplo, são raciais e do conceito de branquitude crítica
negligenciadas e categorizadas como envolveu aprendizados sobre lidar ética e
atrasadas, primitivas, selvagens e não politicamente com o lugar social de
cientificamente válidas para as sociedades privilégios que ocupamos na sociedade e
ocidentalizadas (Nogueira, 2013a). como combater a ideologia da supremacia
Essa reflexão é bastante pertinente racial branca em nossas pesquisas e práticas
quando consideramos que o Brasil é um profissionais (Nogueira, 2013a e 2013b;
país onde a questão raça/cor tem sido um Cardoso, 2010).
importante indicador nos últimos 10 anos Organizamos o presente artigo com
na configuração da violência. De acordo o objetivo de apresentar uma síntese das
com o Atlas da Violência (Cerqueira et al., reflexões realizadas no grupo de estudos e
2018, p. 4), “a taxa de homicídios de fomentar um diálogo sobre a branquitude
indivíduos não negros diminuiu 6,8%, ao crítica com a nossa categoria profissional.
passo que a taxa de vitimização da Utilizando como metodologia a revisão
população negra aumentou 23,1% [...] que bibliográfica, o texto foi organizado a partir
71,5% das pessoas que são assassinadas a de três eixos: No primeiro, realizamos uma
cada ano no país são pretas ou pardas”. breve leitura histórica sobre a construção
Atuando nesse contexto, o Projeto social da ideia de raças humanas. Em
Ecoar é desenvolvido em escolas seguida, apresentamos um histórico sobre
municipais de uma região periférica da como a Psicologia se dedicou ao estudo das
cidade com expressiva presença de relações étnico-raciais no Brasil. O terceiro
estudantes negros(as). Sendo assim, eixo apresenta algumas contribuições da
compreendemos a necessidade de estudar Psicologia Crítica no estudo da branquitude
essa problemática para construir e, por fim, concluímos o trabalho com
referenciais e instrumentos adequados para reflexões sobre a importância desse
seu enfrentamento. Com a orientação de processo de estudo e autorreflexão em
uma especialista em Educação e Psicologia nossas formações e práticas como
das Relações Étnico-Raciais, entramos em psicólogas, chamando a atenção sobre a
contato com referências teórico- urgência dessa discussão se fazer presente
metodológicas para nos prepararmos para o nos currículos de Psicologia.
enfrentamento à violência racial. Durante
três semestres, o coletivo de estudos

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Considerações sobre a construção da (Nogueira & Guzzo, 2017; Santos, 2002;


ideia de raça Munanga, 1999; Patto, 1992). Dessa
maneira, povos com histórias milenares
Esta seção contém breve exposição foram enquadrados em classificações
sobre como a ideologia da supremacia racial negativas e inferiorizantes em função dos
branca foi historicamente forjada, com matizes de cor: branca, amarela, vermelha e
determinada intencionalidade, preta.
desdobrando-se no desenvolvimento de Quijano (2005) aponta que uma
teorias racistas na Europa as quais foram hierarquia racial foi estabelecida, ditando os
importadas pelos intelectuais brasileiros, papéis e posições na divisão social do
influenciando o pensamento social e trabalho a serem ocupadas pelo grupo
psicológico, o que garantiu às elites racializado. Por uma suposta inferioridade
brancas 6 do país um lugar de poder biopsíquica, justificou-se a escravização de
institucionalizado e de primazia nas negros(as), e a servidão dos indígenas,
decisões sobre os rumos do país e sua enquanto o trabalho assalariado e os postos
população. Essa posição privilegiada das de comando foram atribuídos como
elites brancas foi construída por meio da privilégios de brancos. Para além da
desqualificação, desumanização, organização do trabalho, o processo de
dominação e exploração de outros grupos dominação se deu pelo viés da cultura, por
sociais não brancos, especialmente os meio da repressão das formas de produção
indígenas e africanos. Com base nessa de conhecimento e sentidos dos povos
perspectiva, a profunda desigualdade social colonizados. O conhecimento possível era
no Brasil é sustentada pela ideologia da apenas o que fosse útil para a reprodução da
supremacia racial branca, que orienta a dominação e exploração: colonial/moderna,
organização das classes sociais, entre outros capitalista e eurocêntrica.
fatores fundamentais (Souza, 2016). Como produto desse processo de
Quijano (2005) faz uma importante colonização, o racismo no Brasil tomou
contribuição ao explicitar como o processo contornos próprios devido às nuanças de
de colonização das Américas inaugurou um nossa história. Ele foi, e ainda é, regido pelo
novo padrão de poder com características tripé ideológico: do mito da democracia
globais, ao justificar o suposto direito à racial, do preconceito de marca/cor, e
dominação e exploração de recursos política governamental de branqueamento
naturais e humanos desses territórios, com da população pós-abolição (Munanga &
base na construção da ideia de raças Gomes, 2006).
humanas e na suposta hierarquia natural O termo democracia racial foi
entre elas. A busca por dar legitimidade a cunhado por Gilberto Freyre (1933) e diz
essa justificativa se deu no âmbito das respeito à falsa ideia de que o Brasil
ciências, principalmente fundamentadas em escapou do racismo. O mito da democracia
perspectivas biopsíquicas, que associavam racial está ancorado na falácia de que neste
características fenotípicas dos povos país as relações entre senhores e
colonizados (como tipo de cabelo, tamanho escravizados foram mais harmônicas e
de nariz, entre outros) a determinados menos violentas que em outros países
comportamentos morais e intelectuais escravocratas. Diante disso, não

6
O termo “elite branca brasileira” é utilizado por pessoas de ascendência europeia que detinham o
Bento (2002) para designar os grupos compostos por poder desde o Brasil colonial.

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precisaríamos nos preocupar e nem debater brancocêntrico que ela desejava. O


sobre a problemática racial, pois a realidade branqueamento se materializou num projeto
do Brasil difere dos EUA e África do Sul, de governo bem definido que instituiu um
que eram regidos por regimes jurídicos de genocídio silencioso para a população negra
Apartheid. Essa inverdade sobre a realidade ao abandonar os(as) negros(as) libertos sem
racial brasileira foi amplamente divulgada políticas públicas específicas após a
no país e internacionalmente, e ainda abolição, ou mesmo enviar grandes
persiste no imaginário social de muitos contingentes de negros para as guerras,
brasileiros(as) e estrangeiros(as). Ela é como forma de exterminar um problema
facilmente desmitificada pelas estatísticas indesejado. Somado a esse genocídio, o
sociais brasileiras, que revelam a profunda governo implementou uma política de
desigualdade racial do país. incentivo à imigração, que favorecia a vinda
A ideologia da democracia racial de povos brancos e amarelos (europeus,
foi, e continua sendo, muito criticada e árabes, asiáticos) como mão de obra
debatida por pensadores(as) sociais assalariada. Estratégia que serviu ao
brasileiros(as). Oracy Nogueira (2006) declarado propósito de miscigenar a
desmente a democracia racial ao discorrer população brasileira, antes
sobre o tipo de preconceito característico do majoritariamente negra, com a finalidade de
Brasil, que é o preconceito de marca. Sua clarear e intelectualizar o povo à moda
contemporânea, Virgínia Bicudo, também eurocêntrica (Munanga, 1999).
defende a tese de que o preconceito de cor Essa panorama apresentou
no Brasil minimiza o confronto direto e brevemente o problema do racismo e como
impede o desenvolvimento da consciência a ideia de raças humanas atrelou-se
sobre a discriminação racial. O preconceito diretamente ao pensamento que fundou a
de marca/cor associa atributos físicos, como sociedade brasileira. Todavia, diante dessa
cor da pele, formato de nariz, etc., às construção histórica, os primeiros a
qualidades morais e intelectuais. Assim, a identificarem tais problemáticas, criticar e
cor da pele determinaria a capacidade moral apontar novas perspectivas na compreensão
e intelectual da pessoa e a que classe social das relações étnico-raciais foram os
ela “deveria” pertencer, de forma que as intelectuais negros no âmbito das ciências
relações “deveriam” ser regidas pela sociais, abrindo caminhos para algumas
aparência. Segundo os autores, esse tipo de revisões críticas da Psicologia. Os estudos
preconceito estabelece uma “linha de cor”, da branquitude deslocaram o foco do
quanto mais escura a pele de uma pessoa problema racial como algo que diz respeito
mais discriminação sofrerá, e o inverso, apenas aos “negros ou indígenas”,
quanto mais clara a pele de alguém mais reorientando-o para a origem, isto é, os
aceita poderá ser na sociedade colonizadores com propósitos de
ocidentalizada e eurocêntrica. dominação.
A terceira perna do tripé do racismo Esse movimento intelectual iniciado
à brasileira é a ideologia do branqueamento. nos Estados Unidos foi chamado de
Segundo Bento (2002) e Souza (1983), é “estudos críticos sobre a branquitude ou
uma projeção dos(as) brancos(as) sobre branquitude crítica” e teve como principais
os(as) negros(as), a única saída plausível teóricos: a) W. E. B. Du Bois (1868-1963),
que a elite brasileira encontrou para a sociólogo norte-americano, filósofo e
formação de uma nação neste país, político. Em 1903 lançou o livro The Souls
conforme o modelo eurocêntrico e of the Black Folk (Du Bois, 1903/1994), no

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qual realizou uma análise das categorias de étnico-raciais, recorremos, neste momento,
raça, classe e status da classe trabalhadora de forma muito sintetizada, a três
branca norte-americana do século XIX em importantes artigos que ajudam a nos situar
relação à classe trabalhadora negra; b) no tempo histórico e em relação ao que foi
Franz Fanon (1925-1961), psiquiatra e produzido até então (Santos, Schucman &
filósofo da Martinica. Analisou a identidade Martins, 2012; Schucman, Nunes & Costa,
branca em seu livro Pele Negra, Máscaras 2015; Sacco, Couto & Koller, 2016;
Brancas (1952/2008), a partir de categorias Conselho Federal de Psicologia, 2017).
fundamentais como a raça, o colonizador e Santos, Schucman e Martins (2012)
o colonizado para a compreensão do fazem um levantamento histórico do
processo de construção de subjetividades; pensamento psicológico brasileiro sobre as
c) Albert Memmi (nascido em 1920), relações étnico-raciais, organizando-o em
escritor tunisiano que, em seu livro Retrato três diferentes momentos: o primeiro, no
do Colonizado Precedido pelo Retrato do século XIX, consiste no período colonial
Colonizador (1957/2007), discute que a em que, conforme já explicitamos, os
violência sofrida pelo colonizado é autores da Psicologia estavam muito
precedida de toda a construção teórica e ligados ao modelo biopsíquico da Medicina
prática do racismo elaborada e e associavam doenças mentais e práticas
desenvolvida pelos colonizadores europeus criminosas às raças consideradas inferiores.
brancos; d) Alberto Guerreiro Ramos De acordo com esses mesmos autores
(1915-1982), sociólogo brasileiro e (2012), o segundo momento localiza-se no
político, foi pioneiro na discussão das início da década de 1930, quando Raul
consequências do racismo e da ideologia do Briquet, Arthur Ramos e Donald Pierson se
branqueamento para brancos no país. Em tornaram os primeiros estudiosos do tema
um dos capítulos do livro Introdução na Psicologia e ministraram os primeiros
Crítica à Sociologia Brasileira (1954), o cursos de Psicologia Social. No entanto,
autor analisa a patologia social do “branco vale destacar que, apesar dos avanços
brasileiro”. Vale ressaltar que, na área psi, críticos, esses autores ainda reproduziam
Virgínia Bicudo (1945/2010) e Neusa em suas reflexões teóricas fundamentos das
Santos Souza (1983) foram pioneiras a teorias racistas eurocêntricas, conforme
refletir de forma crítica sobre a branquitude. aponta Oliveira (2007) e Santos (2002).
Esses foram e são alguns dos O terceiro momento é localizado por
inúmeros intelectuais que, desde a segunda Santos, Schucman e Martins (2012) com
metade do século XIX, vêm denunciando início em 1990, mas, já na década de 1980,
criticamente a origem e as consequências as contribuições teóricas da psicóloga e
psicossociais nefastas da ideologia da psicanalista Neusa Santos Souza com seu
supremacia racial branca nas sociedades livro Tornar-se negro: as vicissitudes da
ocidentalizadas. Partimos neste momento identidade do negro em ascensão social
para um enfoque sobre a relação da (Souza, 1983), inaugura a discussão
Psicologia com a problemática. contemporânea e analítica sobre o racismo,
o sofrimento psíquico e a identidade negra.
Psicologia e relações étnico-raciais no Em seguida, após a Constituição Federal de
Brasil 1988, tendo em vista a pressão dos
movimentos sociais com protagonismo de
Para explicitar como a Psicologia negras e negros, o Estado brasileiro passou
tem atuado no que se refere às relações a incorporar importantes Políticas Públicas

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transversais e Políticas de Afirmação, 1. A criação do Centro de Estudos das


porém ainda poucos foram os estudos que Relações de Desigualdade e Trabalho
buscavam instrumentalizar esses (Ceert), em 1990, que produz
profissionais (Conselho Federal de conhecimentos e desenvolve projetos
Psicologia, 2017). voltados à promoção de igualdade racial e
Ainda no terceiro momento, na de gênero em diversas instituições sociais.
década de 1990, estudos de Jurandir Freire 2. A criação do Instituto AMMA Psique e
Costa, Iray Carone, Maria Aparecida Bento Negritude, em 1995, uma organização que
e Edith Piza discutiram o branqueamento e tem como objetivo enfrentar o racismo,
branquitude no Brasil. Esses foram os discriminação e preconceito política e
primeiros estudos que trouxeram a psiquicamente, por meio de formação e
perspectiva da Branquitude Crítica para a prática clínica, desconstruindo o racismo e
Psicologia brasileira. A branquitude é seus efeitos psicossociais. 3. O lançamento
conceituada pela Psicologia Social como de uma campanha do Conselho Federal de
um modelo de comportamento social Psicologia (CFP) denominado Preconceito
inserido numa estrutura de poder e posta racial humilha, a humilhação social faz
como neutra, não refletida, mas sofrer, em 2002. 4. A aprovação da
mantenedora dos privilégios sociais da vida Resolução CFP nº 18/2002, que estabeleceu
cotidiana do ser branco. Considerada como normas de atuação para as(os)
uma forma de viver o mundo, ela garante psicólogas(os) em relação ao preconceito e
vantagens simbólicas ao grupo social à discriminação racial.
branco, sustentando o silêncio e a omissão Mais recentemente, Schucman,
em relação a si mesmo, para manter a Nunes e Costa (2015) publicaram revisão
desigualdade racial (Bento, 2002). em que são analisadas todas as produções
Conforme explicitamos do Programa de Pós-Graduação do Instituto
anteriormente, a concepção de Bento de Psicologia da USP, desde 1970 até 2012.
(2002) sobre o branqueamento passa pelo As autoras encontraram, nos 15 trabalhos
medo da elite branca em relação ao negro, investigados, três grandes categorias de
que a ele impõe seus valores e padrões análise: denúncia do racismo, modos de
estéticos. Dessa forma, revela que o subjetivação do racismo e estratégias para
racismo é um problema que se origina no superar o racismo. Categorias essas que
branco e, por conseguinte, o envolve nas foram encontradas a partir de quatro
relações raciais. Esse terceiro momento diferentes perspectivas: dimensão política;
produz uma virada epistemológica, o negro no meio científico brasileiro;
modifica o foco dos estudos no sentido de diferentes expressões do racismo como
considerar os efeitos da branquitude na vida preconceito sutil e branquitude; e a
cotidiana e considerar o papel fundamental dimensão identitária discutindo os efeitos
do branco nas relações étnico-raciais. A psicossociais do racismo. Contudo, ainda é
partir dessa referência, a Psicologia passa a presente a dificuldade em encontrar
olhar criticamente para o lugar que o branco produções que se dediquem às formas
ocupa na sociedade e seu processo de sistemáticas da desconstrução do racismo,
construção da identidade. incluindo a discussão sobre o
De acordo com o Conselho Federal branqueamento, assim como, também,
de Psicologia (2017), entre a década de metodologias e práticas profissionais da
1990 e 2000, importantes avanços foram Psicologia que possam vir a contribuir com
conquistados por psicólogas(os) negras(os): a luta antirracista em nossa sociedade.

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Sacco, Couto e Koller (2016) psicóloga(o) na desconstrução do racismo e


revisaram sistematicamente os estudos promoção da igualdade.
brasileiros da Psicologia sobre o A partir das produções analisadas
preconceito racial, utilizando as bases de nessas Referências Técnicas, foram
dados do SciELO, LILACS, Index Psi, apresentadas duas hipóteses para explicar a
PePSIC e PsycINFO e os descritores falta de pesquisas que pensem a
racismo e/ou preconceito racial. As autoras branquitude. A primeira pode ser explicada
encontraram 77 artigos publicados de 2001 pela grande maioria das pesquisadoras ser
a 2014. A maioria das pesquisas sobre o branca e socializada em um grupo que ainda
preconceito racial realizadas pela acredita ser desracializado. Ou seja, um
Psicologia apontou que os estudos são grupo que tende a olhar para si mesmo e
desenvolvidos com participantes adultos e, para outros entendendo que a raça existe
principalmente, com estudantes apenas nos outros, mantendo a branquitude
universitários (maioria branca). como parâmetro normativo e
Compreendendo a importância social dos inquestionável. Uma segunda hipótese seria
estudos sobre o preconceito racial no Brasil que tomar consciência de sua branquitude é
e as contribuições possíveis da Psicologia, a se rever e expor os privilégios simbólicos e
quantidade de artigos publicados ainda é materiais que existem nessa sociedade
reduzida, considerando que os resultados racista (Conselho Federal de Psicologia,
dessa revisão são recentes e que a área ainda 2017). É possível que pessoas brancas
está em desenvolvimento em nosso país. As tenham resistência em se comprometer com
autoras consideraram a necessidade do mudanças psicossociais que envolvem
avanço das pesquisas buscando a perda de privilégios herdados
compreensão do preconceito racial em historicamente de forma indébita.
crianças e adultos não universitários e Essas publicações demonstram que
pessoas de grupos discriminados. a Psicologia tem avançado na produção de
A publicação mais recente que conhecimentos sobre relações étnico-
destacamos, aqui, trata-se das Referências raciais, mesmo que, ainda, as pesquisas
Técnicas para Atuação nas Relações sejam poucas e fragmentadas. O foco dos
Raciais (Conselho Federal de Psicologia, estudos passou a não ser “um problema dos
2017). O documento construído negros ou indígenas”, mas sim como a
coletivamente teve por objetivo ampliar o branquitude impacta a vida de brancos e
debate da temática do racismo na categoria negros em uma sociedade racista.
profissional e qualificar as(os)
psicólogas(os) no combate a Contribuições da Psicologia Crítica para
comportamentos discriminatórios e Estudos da Branquitude
preconceituosos em razão da desigualdade
de raça/etnia. O material está organizado Diante dessa revisão de produções e
em cinco eixos principais: 1. Dimensão temáticas raciais na Psicologia brasileira,
histórica, conceitual, ideológico-política da pontuamos a necessidade de fazer avançar a
temática racial. 2. Âmbitos do racismo: discussão, a fim de que não seja um
racismo institucional, interpessoal e fragmento da Psicologia, mas uma
pessoal. 3. Enfrentamento político ao construção que se consolida e se integra aos
racismo: o movimento negro. 4. Psicologia saberes e práticas da disciplina, de forma
e a área em foco. 5. Atuação da(o) orgânica e não fragmentada. Em nosso
Grupo de Pesquisa, entramos em contato

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com as obras do psicólogo alemão Klaus O psicólogo Thomas Teo (2016)


Holzkamp (1927-1995), que, com seus aponta que as contribuições de Holzkamp
colegas de trabalho, iniciou o movimento possibilitam a acomodação de concepções
conhecido como a Psicologia Crítica de dentro e de fora do mundo ocidental.
Alemã. Temos encontrado nesse Além disso, Teo sugere que na
movimento algumas possibilidades de compreensão da condução de vida cotidiana
diálogo internacional a respeito da é necessário ir para além do campo da razão
branquitude, pois, ainda que seja europeu, e consciência, ainda que na concepção de
Holzkamp posicionou-se contra o poder Holzkamp (2016) a razão seja
dominante e construiu importantes compreendida de forma inseparável aos
fundamentos para uma Psicologia afetos. Segundo Teo (2016), para
compromissada com mudanças sociais a compreender a ação humana, é necessário
favor das maiorias populares. acrescentar à consciência noções que
Holzkamp (2016), ainda pouco envolvem a corporalidade, tão importante
conhecido no Brasil, analisou os problemas às diversas culturas não europeias. Assim, o
epistemológicos da Psicologia e suas autor propõe a utilização de conceitos
afirmações construídas a partir de contextos relacionados ao corpo, tais como hábito,
artificiais e distantes da realidade de vida performatividade e privilégio, tendo em
das pessoas (como os experimentos em vista que muitas de nossas ações são
laboratórios ou análises em clínicas). O performances de classe, gênero e privilégio,
autor chamava a atenção para o quanto esse que estamos habituados, e não
tipo de ciência pode favorecer o poder necessariamente temos razões para agir
dominante. Assim, traz contribuições assim. As razões só emergem quando, no
significativas ao propor uma categoria processo intersubjetivo, somos
capaz de analisar a relação confrontados com o outro – ou seja, quando
indivíduo/sociedade, superando as visões por meio do diálogo e convivência atenta
deterministas vigentes: a condução da vida nos damos conta de que há pessoas vivendo
cotidiana. de formas completamente diferentes. O
Holzkamp (2016) enfatiza a ação autor exemplifica com o uso da água: nos
dos sujeitos diante de possibilidades (nem países onde há água abundante, nos
sempre muito óbvias à primeira vista), que habituamos a utilizar uma certa quantidade
podem voltar-se tanto à manutenção das por dia, e podemos nunca compreender isso
situações atuais, quanto ao rompimento das como um privilégio, se não refletirmos de
condições de opressão. Para Holzkamp, forma crítica e não conhecermos as
toda ação tem uma razão do ponto de vista realidades em que a vida cotidiana se
do sujeito, ainda que para alguém de fora desenrola em torno da escassez e da busca
possa parecer que o sujeito agiu de acesso a esse recurso tão vital.
“irracionalmente”. Assim, o autor sugere Essa discussão abre caminhos para
que devemos abandonar a lógica de compreendermos a branquitude como um
causa/efeito e compreender a ação humana privilégio encarnado na vida cotidiana. À
em termos de premissas e razões, e que medida que o ser branco se torna o sinônimo
essas razões devem ser ditas em primeira de “mais evoluído” e, consequentemente,
pessoa e não por um psicólogo com seu mais humano, as performances cotidianas
suposto conhecimento sobre o sujeito maior ganham uma característica própria, que
que o próprio sujeito. necessita ser refletida e criticada. Harris
(1993), autor norte-americano que discute a

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branquitude, aponta para o ser branco como senhor, o que o traz aqui?”, mas ao não
uma propriedade útil, um privilégio branco diz: “Sente, meu velho, o que é que
encarnado a ser usado e gozado. você tem? – Onde tá doendo?” (p. 45).
O branco conduz sua vida como se Fanon discute que, por essa aparente
ela fosse “neutra”, “normal” ou “natural”, sutileza, o branco está pressupondo que o
porque vê seu modo de vida como único negro não seria capaz de compreender a
modelo válido de humanidade e não linguagem formal e, ao mesmo tempo,
reconhece que outros modelos podem ser passando o recado: “permaneça em seu
tão humanos quanto o seu. Numa sociedade lugar”.
marcada pela ideologia da democracia Segundo Jensen (2005), psicólogo
racial, as manifestações da branquitude estadunidense, as pessoas brancas que
serão incisivas. No entanto, serão aceitam seus privilégios e não fazem a
vivenciadas como norma, algo natural e crítica vivem em uma condição de
universal para aqueles que não querem ver supervalorização ilusória da sua aparência e
os seus beneficiários (Piza, 2003; Nogueira das suas formas de ser no mundo. Esse lugar
2013a, 2013b; Nogueira & Guzzo, 2017). de supervalorização na sociedade impede o
Em contrapartida, para não brancos, a reconhecimento do outro/diferente como
percepção é inevitável, pois vivenciam um ser humano, além de interditar o
cotidianamente seus efeitos nocivos. O reconhecimento de que outras formas de ser
racismo permeia o processo de construção e viver o mundo sejam humanas e válidas.
da subjetividade entre brancos(as) e Consequentemente, o ser branco se recusa a
negros(as), gerando sentimentos de reconhecer a humanidade do
inferioridade, culpa, humilhação e angústia outro/diferente, pois, se assim o fizer, terá
na população não branca. Esses sentimentos que reconhecer que seus privilégios são
decorrem de atitudes de discriminação e indébitos e desumanizam o outro (no caso,
preconceito, levando à sensação de não não brancos). O processo de desumanização
pertencimento e impondo limites às ou estado de colonização mental dos
potencialidades dos(as) não brancos(as) ao brancos em uma sociedade racista ocorre
não atingirem os ideais brancos de quando ele trata o outro/diferente como
universalidade e superioridade. Essa menos humano ou não humano, recusando-
expressão do racismo pode ser definida se a entender que os dois podem ter
como racismo interpessoal, que atinge, diferentes formas históricas e culturais de
inclusive, as relações entre profissionais e pertencimento à humanidade (Nogueira,
usuários(as) de serviços (Conselho Federal 2013b).
de Psicologia, 2017). Nogueira (2013b), psicóloga branca
Fanon (1952/2008) discute, pelo brasileira, sugere três dimensões para
exemplo da linguagem, a manifestação processos de humanização e
dessa supremacia racial branca descolonização mental em brancos.
apresentando situações em que os brancos Primeiro, a pessoa tem que reconhecer que
se dirigiam aos negros com uma diferença existem diferentes maneiras humanas de ser
de formalidade. Na França de sua época, era e viver no mundo. As que são diferentes de
comum o tratamento formal a um seu modelo de referência, no entanto, são
desconhecido, mas, quando um branco se tão humanas quanto a sua própria. Isso
dirigia a um negro, perdia a formalidade em requer abertura sincera e amorosa para
sua linguagem. O autor traz o exemplo de aprender com os outros, conforme nos
um médico que ao branco diz: “Sente-se, orienta Freire (1968/2016). Nesse mesmo

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sentido, Jensen (2005) aponta que para condição se abre, entra em contato e
romper com a supremacia branca as pessoas aprende como respeitar outros modelos de
brancas têm que aprender mais sobre outras humanidade, assim como se engaja e ajuda
culturas e entender as contribuições únicas a construir relações sociais sinceras com
de cada uma delas. Mais ainda, pessoas de diferente origens, histórias e
compreender que as várias culturas podem culturas.
compartilhar de qualidades e valores Jensen (2005) vai além e aponta que
comuns. para realmente mudarmos as estruturas
Outra dimensão do processo de sociais racistas, com vistas a descolonizar a
descolonização mental em brancos, de sociedade, é necessário um
acordo com Nogueira (2013b), é aquela em comprometimento ético e político
que a pessoa começa a perceber e a lidar profundo. Não basta que as pessoas brancas
conscientemente com a degradação social policiem suas atitudes para não serem
produzida pela branquitude. É possível racistas em seu cotidiano. Isso não muda a
desenvolver a consciência coletiva de que sociedade. Ela ainda será estruturada com
sua forma de ser e viver no mundo, baseada base na ideologia da supremacia branca e as
na ideologia racista, é profundamente pessoas brancas sempre se beneficiarão
desumana e opressora a outros povos com dela, de forma intencional ou não. As
os quais convivemos cotidianamente. A pessoas brancas têm uma responsabilidade
nossa forma de ser e viver no mundo precisa ou débito a mais, a obrigação de se
ser alvo de autorrevisão permanente. Isso posicionarem ética e politicamente como
implica reconhecer que nós temos coisas antirracistas e se engajarem em lutas contra
porque outros são interditados de ter, mas é o racismo institucional, contra as estruturas
emocionalmente difícil lidar com essa de poder que mantém a supremacia racial
compreensão da desigualdade. Segundo branca. Somente a partir daí podemos
Jensen (2005, p. XX, tradução livre nossa), vislumbrar uma sociedade verdadeiramente
democrática e justa.
Em parte, porque ser completamente
humano é buscar comunicação com outros, Considerações finais
e não separação deles. Uma pessoa não
pode estabelecer esta conexão sob
condições em que o poder injusto traz Bater contra uma porta de vidro
privilégios não merecidos. Ser humano aparentemente inexistente é um impacto
completo é rejeitar um sistema que fortíssimo e, depois do susto e da dor, a
condiciona seu prazer à dor de outra pessoa. surpresa de não ter percebido o contorno do
vidro, a fechadura, os gonzos de metal que
mantinham a porta de vidro. Isso resume,
Essa mesma perspectiva é defendida em parte, o descobrir-se racializado [...]
por Cardoso (2010), quando ele sugere que diante da imensa racialidade atribuída ao
uma tarefa para brancos poderia ser uma outro. (Piza, 2003, p. 61)
dedicação cotidiana e insistência na crítica
social e autocrítica pessoal a respeito de O processo de estudos sistemáticos
privilégios não merecidos, herdados sobre as relações étnico-raciais, durante três
indebitamente pelo seu próprio grupo. Essa semestres, fez-nos bater, inesperadamente,
permanente autocrítica pode ser associada à na porta de vidro. Como postula Piza
última dimensão proposta por Nogueira (2003), o branco não se reconhece no
(2013b), quando defende que quando a processo das relações étnico-raciais e,
pessoa que reflete sobre sua própria muito menos, como agente do processo

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histórico de opressão e desigualdade “tratamento” que ignora o racismo


baseada em raça. A experiência de formação estrutural.
possibilitou a racialização do nosso lugar de Para que isso seja possível,
mulheres brancas, bem como repensar o que destacamos a importância de uma formação
significa ser branca em uma sociedade crítica sobre as relações étnico-raciais.
desenvolvida sob a ideologia da democracia Alguns caminhos para a construção dessa
racial e da supremacia racial branca. formação poderiam implicar na realização
Antes dessas reflexões, de momentos informais no contexto de
compreendíamos que pouco ou quase nada formação de psicólogas(os), como rodas de
poderíamos fazer para transformar a conversa, mas também práticas
desigualdade estrutural, no que se refere às institucionalizadas, como a inclusão de
questões raciais. Mesmo com a magnitude teorias e práticas não discriminatórias e que
do impacto da violência étnico-racial nos tenham protagonismo científico de saberes
contextos em que atuamos, nossas lentes e sujeitos não brancos no currículo de
profissionais estavam desfocadas pela vida Psicologia, a discussão da temática em
cotidiana e pela formação, rodeadas de diferentes disciplinas e o incentivo à
privilégios, que não colaboraram para realização de pesquisas na área, além da
compreendermos o nosso lugar racializado. garantia de acesso e permanência de grupos
O processo de conscientização sobre a não brancos na universidade.
branquitude envolveu diferentes estágios Há, ainda, um caminho longo a ser
como: o silenciamento, a negação e o percorrido, mas deixamos as palavras ditas
reconhecimento do nosso lugar de pela facilitadora de nosso grupo de estudo,
privilégio na sociedade. As reflexões sempre que percebia nosso sofrimento
geradas no grupo de estudo redirecionaram diante das discussões: “aprender e nos
nossa atuação, fazendo-nos buscar uma conscientizar sobre o problema, isto é,
postura ético-política de enfrentamento ao como nós, brancos, construímos e nos
racismo estrutural. beneficiamos das desigualdades raciais, é
Se o profissional inserido em muito doloroso. Mas a solução é boa
comunidades negras e periféricas não tiver demais!”, isto é, envolve conhecer e
uma formação crítica, reflexiva e aprender culturas e possibilidades de ler o
consciente sobre a sua branquitude, ele mundo com outras lentes, lentes de respeito
mesmo pode ser o agente que reproduz a e não violência, de aprendizagem e não a
violência étnico-racial nos seus espaços de tentativa de suprimir o conhecimento do
atuação. No caso da escola, por exemplo, há outro, de diversidade e não “mais do
a Lei nº 10.639/2003 (Brasil, 2003), que mesmo”, de amor e não de medo.
torna obrigatório o ensino de História e
cultura afro-brasileira na educação básica. Referências
É de extrema importância que as(os)
psicólogas(os) que atuam nesse contexto Bento, M. A. S. (2002). Branqueamento e
não apenas conheçam, mas se posicionem branquitude no Brasil. In I. Carone &
como agentes que contribuam para sua M. A. S. Bento (Orgs.). Psicologia
efetivação no cotidiano escolar. Isso terá social do racismo: estudos sobre
inúmeras implicações práticas: por branquitude e branqueamento no
exemplo, se uma criança negra apresenta Brasil (p. 25-57). Rio de Janeiro, RJ:
sinais de baixa autoestima, deixaremos a Vozes.
postura de adaptá-la individualmente a um

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obrigatoriedade da temática “História étnico-raciais no Brasil (pp. 15-24).
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