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Visitação: Uma atividade em extinção no ministério pastoral – PARTE 1

Valdeci Santos
Visitação pastoral não é uma alternativa, mas uma atividade básica na prática ministerial.
Ao escrever sobre isso, o pr. Franklin Dávila afirma: “o pastor é um trabalhador que tem
de visitar para poder apascentar. A visita é indispensável e certamente a tarefa mais
desgastante no campo emocional”.[1] Conquanto não exista um mandamento bíblico a
esse respeito, é importante observar que Paulo suplementava o seu ministério público
com o ensinamento “de casa em casa” (cf. At 20.20). Além do mais, Tiago ensina que a
prática da visitação é uma das evidências da religião pura e sem mácula (cf. Tg 1.27).
Dessa maneira, menosprezar essa atividade pode ser extremamente prejudicial ao sucesso
do pastorado.
Nos últimos dias, a visitação pastoral tem sido questionada e sua importância minimizada
por alguns líderes. Alguns pastores preferem limitar suas interações com o rebanho por
meio das redes sociais e aplicativos de trocas de mensagens. Há aqueles que justificam a
não visitação por entenderem que essa é uma atividade relacionada ao trabalho de algum
coaching pessoal ou agente social. Por último, existem alguns que reduzem a prática
pastoral ao ministério público, ou seja, a entrega de sermões no púlpito, os estudos
bíblicos, palestras ou reuniões conciliares. Esses pastores partilham da tese de Thom
Rainer, missiólogo batista, que defende ser a visitação uma atividade pertencente ao
século passado.[2] O problema é que Rainer não apresenta nenhum respaldo sólido para
seu argumento, o qual permanece apenas no campo da subjetividade. Nesse sentido,
Franklin Dávila lembra que embora a sociedade tenha mudado, “as necessidades
espirituais das ovelhas continuam sendo as mesmas e o coração dos homens é o mesmo
de outras gerações”.[3]
É verdade que algumas igrejas colocam uma exigência descabida sobre seus ministros em
relação à visitação. Além das atividades comumente exigidas deles, há pessoas para
quem, se o pastor não realiza um certo número de visitas semanais, ele será considerado
preguiçoso. Nesse sentido, equilíbrio e contexto são dois assuntos a serem considerados.
O primeiro diz respeito ao tempo necessário para o pastor desempenhar suas tarefas e o
segundo, o lugar onde a igreja local se encontra. Por exemplo, a visita pastoral será mais
difícil de ser realizada nos grandes centros, enquanto nas pequenas cidades será
fundamental. Ainda assim, essa atividade é relevante em ambos os contextos,
diferenciando apenas a frequência que ela ocupa na agenda pastoral e a formalidade
quanto ao seu agendamento (no interior, nem sempre é necessário agendar). Nos grandes
centros, nem sempre será possível ao pastor visitar o membro de sua igreja que trabalha
mais de oito horas por dia e ainda cursa uma faculdade ou algo semelhante. Mas sempre
será possível partilhar com ele um almoço próximo ao seu trabalho ou tomar um café com
ele no intervalo de seus estudos. De qualquer maneira, o contato e discipulado pessoal,
que é o cerne daquilo que deve ocorrer na visita do pastor as suas ovelhas, será mantido.
O propósito desse ensaio é ressaltar alguns benefícios da visitação pastoral. Entendendo
não haver nenhum outro aspecto da prática pastoral que possibilita o ministro conhecer
melhor suas ovelhas, é necessário ter uma perspectiva correta sobre o valor e
características dessa atividade.

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Diferentemente do que alguns pensam, a visita pastoral não é apenas um dever, mas algo
rico em benefícios tanto para quem visita quanto para quem é visitado. Enumeramos
abaixo alguns desses benefícios, mas o espaço aqui é insuficiente para listar todos e,
certamente, alguns serão omitidos.
O conhecimento da ovelha em seu habitat. Os membros de nossas igrejas não vivem em
um vácuo e a estrutura do lar e convívio doméstico acabam tendo mais influência sobre
eles do que imaginamos. A visitação revela a condição social, a dinâmica familiar e
alguns outros detalhes que não são possíveis conhecer somente pelos cumprimentos e
conversas de pátio da igreja. Por exemplo, durante essas visitas é possível notar algumas
famílias que se organizam “em torno” de um aparelho de TV sempre ligado. Há ainda
outras ovelhas que vivem com tantas restrições que nos surpreendemos com a fidelidade
delas na entrega dos dízimos e ofertas. O que dizer ainda daquelas famílias nas quais nem
todos são crentes? Enfim, as visitações acabam relevando aspectos tão importantes do
rebanho que o pastor poderá crescer em sensibilidade e atenção em relação a suas ovelhas.
Oportunidades evangelísticas. Nesse sentido, se o pastor visita membros de sua igreja
cujos parentes não são crentes, ele não apenas dá um bom testemunho do cuidado que os
crentes têm uns com os outros, como também pode se dispor a responder algumas
perguntas sobre a fé cristã. Algumas pessoas não crentes talvez não se interessem em
frequentar a igreja antes de perceber o quanto o pastor dessa igreja cuida de suas ovelhas,
e isso pode ser demonstrado na visita pastoral. A mesma dinâmica ocorre quando esse
pastor visita membros do seu rebanho em locais de trabalho ou estudos.
A identificação de carências sociais. Nem todo membro da igreja se apresentará ao pastor
para compartilhar seu estado social ou financeiro. Todavia, quando o pastor visita suas
ovelhas ele pode ter os olhos abertos para algumas necessidades básicas que elas
enfrentam. Ele pode identificar se há alguém desempregado, saber se estão sendo
suficientemente supridos, se possuem condições para os medicamentos necessários, se os
diáconos da igreja devem ser acionados para prestarem alguma assistência à família
visitada. Enfim, a boa obra da visitação pode ser instrumental na identificação dos
necessitados.
O cuidado com os enfermos espirituais. Toda igreja possui alguns membros que,
ocasionalmente, revelam certa frieza, falta de entusiasmo e descompromisso em relação
às programações locais. Todavia, as melhores ocasiões para compreender as razões dessas
pessoas são as visitas pastorais. O ambiente doméstico parece assegurar que a pessoa será
ouvida em suas queixas e, no geral, ela abre seu coração mais facilmente nesses
momentos. O pastor pode identificar exageros, crença errada, amarguras, ressentimentos
ou qualquer outro sintoma de enfermidade espiritual. Mas o fato de ele ter atentado para
aquela ovelha a ponto de visitá-la pode garantir a ele a oportunidade de falar ao coração
enfermo.
O enriquecimento na vida de oração e intercessão do pastor. Após visitar e conhecer
melhor suas ovelhas, o pastor saberá como interceder especificamente por elas. Ele
conhecerá suas alegrias, preocupações e ansiedades mais comuns e intensas e poderá
apresentá-las ao Senhor em oração de maneira individual e não apenas genericamente.
Dependendo da situação de cada ovelha, o pastor poderá ser levado a orar mais

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intensamente por ela. Enfim, sua vida de oração pelos santos será enriquecida e ele poderá
interceder pelo seu rebanho de maneira mais significativa.
Crenças e pensamentos errados podem ser corrigidos com maior eficácia. A congregação
que ouve o pastor dominicalmente, no geral, o faz de maneira seletiva. Nem tudo que o
pastor ensina é corretamente compreendido ou aceito. O culto público, seguido pelas
rápidas interações com o pastor, não oferece ao membro da igreja muita oportunidade de
aprofundar o estudo ou responder alguma dúvida restante. Logo, é possível que algumas
ovelhas cultivem crenças e pensamentos errados sobre diferentes assuntos que necessitam
ser corrigidos. A visita doméstica proporciona uma excelente ocasião para esse
discipulado mais eficiente quanto a essas questões.
O enriquecimento da pregação, especialmente quanto à aplicação do sermão. Nenhum
programa de visita pastoral deve estabelecer a agenda do que será pregado no púlpito,
mas certamente o púlpito será beneficiado por essa prática. Compreender a condição de
nossos ouvintes sempre é útil no processo de ensinar e aplicar as Escrituras a eles. O
escritor da carta aos Hebreus deixou de abordar em sua carta alguns assuntos que seus
leitores não estavam em condição de entender, pois eles haviam se tornado “tardios em
ouvir” (Hb 5.11). Em outras palavras, ele aplicou sua mensagem de maneira apropriada
à compreensão dos seus leitores.
Nas visitas o pastor não compartilha apenas o seu conhecimento, mas sua vida. Ao refletir
seu ministério entre os tessalonicenses o apóstolo Paulo afirmou oferecer a eles “não
somente o evangelho de Deus, mas, igualmente, a própria vida” (1Ts 2.8). É interessante
observar que além de conhecer melhor as ovelhas do rebanho nas visitas pastorais, o
ministro também permite que elas o conheçam melhor. Esse compartilhamento de vidas
é fundamental para o estabelecimento de amizades e o fortalecimento dos laços fraternais.
As visitas pastorais livram o ministro de viver dentro de uma redoma. O propósito da
redoma é proteger certos objetos ou plantas, mas ao mesmo tempo ela acaba isolando o
que se encontra sob sua proteção. Infelizmente, há pastores que preferem se manter dentro
de seus círculos de proteção, sejam esses a sala de estudos, o ambiente virtual ou a própria
residência e não se dispõem a conhecer o estado de suas ovelhas, as dificuldades que elas
enfrentam e vários outros aspectos do “mundo real”. No geral, o discurso desses pastores
é piedoso, porém, nada prático. Assim, as visitações nos impedem de distanciarmos da
vida diária de nossas ovelhas.
O benefício de sermos consolados quando pensávamos em consolar. Esta é uma
experiência de muitos que saíram para levar uma palavra de consolo a alguém sofrendo,
mas ao chegar na residência, o testemunho de fé e firmeza da pessoa visitada foi tamanho
que quem visitava foi consolado. Nesses casos, geralmente saímos da visita nos
perguntando quem foi mais abençoado por aquela atividade! Por isso, o encorajamento
com irmãos e irmãs, advindo das visitas regulares, é importantíssimo para o ministro do
Evangelho.
De fato, muitos seminários ensinam os futuros pastores a pregar, fazer exegeses bíblicas,
administrar igrejas, falar em público e tantas outras coisas necessárias ao exercício
ministerial. Conquanto tudo isso seja imprescindível, não se pode minimizar a
importância das visitas pastorais onde o pastor pode ouvir, aconselhar e discipular suas

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ovelhas no contexto doméstico. Franklin Dávila corretamente afirma: “o pastoreio de uma
igreja começa a partir da casa dos membros. A igreja nasce nas casas”.[4]

[1] DÁVILA, Franklin. Visitação pastoral. Aracaju, SE: Primeira Igreja Presbiteriana de
Aracaju, 2005, p. 5.
[2] RAINER, Thom. Fifteen reasons why your pastor should not visit much. Disponível
em: https://thomrainer.com/2016/08/fifteen-reasons-pastor-not-visit-much/. Acesso em:
02.12.2019.
[3] DÁVILA, Visitação, p. 8.
[4] DÁVILA, Visitação, p. 10

Visitação Pastoral: Tipos e Orientações – PARTE 2


Valdeci Santos
A visita pastoral é uma das ferramentas mais poderosas no exercício do cuidado com as
ovelhas que pertencem a Cristo. Os momentos espirituais mais significativos para alguns
crentes ocorreram durante o cuidado e atenção que receberam em alguma visita pastoral.
A sensação de ser lembrado por alguém que é admirado, a ponto dessa pessoa “abrir um
espaço” em sua agenda e para se encontrar com sua ovelha, de fato, comunica uma
mensagem que fala diretamente ao coração. Além do mais, ter o pastor ministrando
pessoalmente a palavra de Deus ao crente é uma expressão concreta do seu cuidado pelo
rebanho. Também, quando nos momentos de angústia e aflição o crente se sente cuidado,
seus momentos de deserto e aridez se tornam mais suportáveis. De fato, todo pastor
necessita aprender que as pessoas não se importam com o quanto ele sabe até que elas
saibam o quanto ele se importa com elas!
Por outro lado, a visita pastoral não é benéfica apenas para quem recebe, mas também
para aquele que a pratica. A experiência revela que, inúmeras vezes, aquele que sai para
consolar retorna consolado!
Porém, é necessário esclarecer sobre o que estamos falando, pois muitos pastores
contabilizam os encontros sociais, os incidentes informais em que “esbarram” em alguma
ovelha no supermercado ou algum outro lugar, como visita pastoral. Conquanto esses
momentos possam ser significativos, eles não deveriam ser confundidos com o exercício
da visitação pastoral. Antes, a visita pastoral consiste naqueles encontros significativos
que criam interações espirituais intencionais, os quais ocorrem, mais especificamente,
fora dos limites das dependências da igreja. Em outras palavras, “a visita pastoral é o
‘ministério da presença’ que o pastor exerce em relação aos membros e visitantes de sua
igreja, estendendo pessoalmente a eles o amor de Jesus”.[1] Essas interações podem
ocorrer em residências, locais de trabalho, hospitais, prisões ou em algum outro lugar,
segundo a necessidade dos envolvidos. A visitação pastoral pode ser considerada como
um “ato de amor”, “discipulado” e “amizade” do pastor em relação às suas ovelhas. Essa
prática acaba funcionando como “portas de entrada” nos corações e vidas das pessoas,

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bem como oportunidades para se estabelecer relacionamento e fortalecer a confiança, o
que pode ajudar em várias dimensões do ministério pastoral.
Escrevendo sobre esse assunto, Michael W. Campbel identifica quatro objetivos básicos
da visitação pastoral: “fortalecer relacionamentos, edificar espiritualmente, reforçar a
conexão do crente com a igreja e praticar a oração com as ovelhas individualmente”.[2]
Fica claro, assim, que a visita pastoral é uma interação intencionalmente programada e
não meramente alguns encontros ocasionais.[3] Nesse sentido, é importante lembrar que
“de todos os profissionais, o pastor é o único com o privilégio e responsabilidade de
iniciar o relacionamento com as pessoas no ambiente residencial, o qual é o melhor lugar
para a interação humana”.[4]
Algumas pessoas que questionam a validade da visitação pastoral deveriam se lembrar de
que o princípio bíblico de “visitar órfãos e viúvas em suas tribulações”, o qual é parte
integral da verdadeira religião, é uma exigência para todo crente, especialmente para os
pastores (cf. Tg 1.27). Além do mais, a prática da visitação é apresentada na Bíblia como
uma expressão concreta de amor e cuidado (cf. Mt 25.37-40, Gn 3.8 e Lc 19.1-10).
Mesmo após a queda de Adão e Eva no jardim do Éden, o Senhor continuou a visitá-los
com o objetivo de cuidar deles (cf. Gn 3.15).[5] Dessa forma, o ministro que conduz
corretamente seu trabalho além da esfera do púlpito realizará dez vezes mais do que
aquele que limita o seu trabalho atrás de uma mesa.
Diferentes explicações têm sido apresentadas para a diminuição da prática da visitação
pastoral, mas talvez a mais coerente seja a falta de planejamento dos pastores em relação
a esse exercício. É verdade que o contexto sociocultural influencia nesse sentido, mas ele
não pode ser tomado como definitivo. Franklin Dávila corretamente se posiciona quanto
a essa questão, dizendo: “se os cristãos desta sociedade contemporânea não passassem
por crises de fé e por lutas espirituais, eu concordaria plenamente com os que se opõem
a esse ministério”.[6] Ao que tudo indica, muitos pastores quase não visitam porque não
se programam nesse sentido. Alguns pastores parecem satisfeitos em manter um
relacionamento superficial com o rebanho, o que resulta em generalizações no púlpito e
contribui para eventuais esvaziamentos nos bancos da igreja. Por outro lado, os pastores
mais eficientes na prática da visitação não ficam apenas esperando serem convidados por
suas ovelhas, mas desenvolvem estratégias proativas para alcançá-las. Em sua experiência
ministerial, Franklin Dávila desenvolveu um método interessante e recomenda os jovens
pastores a que façam algo semelhante. Segundo ele, “é importante que o pastor tenha uma
agenda e, em acordo com os irmãos, deixe que eles marquem nela o dia e a hora para a
visita”.[7] Com isso, não apenas o pastor, mas também os membros da igreja acabam
participando do planejamento.
Quanto à natureza da visita pastoral, é possível distinguir três categorias comuns e
extremamente relevantes no cuidado com o rebanho. Primeiro, há a visita preventiva ou
regular, que ocorre ordinariamente e deve ser realizada sem que haja algum problema
específico, sendo útil para manter o contato entre pastor e ovelhas. Segundo o pastor
Franklin, “esse tipo de visita é importante, porque dará ao visitador a oportunidade de
conversar, tirar dúvidas, esclarecer pontos e, ainda que não possam aquilatar os
resultados, muita coisa pode ser evitada no futuro por causa desse encontro”.[8] Também
há a visita curativa ou terapêutica, que é aquela visita extraordinária, na qual o pastor se

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dirige a alguém que está necessitado da sua presença, conselhos e cuidado específico.
Franklin explica que a motivação dessa visita é a necessidade da ovelha, ou seja, “a ovelha
está precisando ser visitada por estar enfrentando alguma dificuldade. Necessita ser
assistida, sarada e fortalecida”.[9] Nesses casos podem ser incluídas as visitas a enfermos
(casas ou hospitais), aos enlutados ou visitas a famílias em crise. O objetivo é sempre
apresentar o remédio da palavra de Deus ao coração sofrido. Por último, há a visita
corretiva ou reparadora, na qual algum problema moral, relacional ou de crença deverá
ser abordado. O objetivo dessa visita é cuidar para que o erro não se propague no Corpo
a ponto de contaminar outros. Alguns pastores se limitam a zelar pela correção apenas do
púlpito, mas o discipulado e a admoestação pessoal, ainda que mais difíceis, podem
também ser qualitativamente mais benéficos. O elemento unificador desses três tipos de
visitação é a intencionalidade com a qual elas são desenvolvidas. Em outras palavras, não
se trata de “encontros acidentais”.
Um assunto espinhoso em relação à visitação pastoral é o aspecto ético a ser observado
pelos praticantes dela. Por desconsiderarem essa questão, alguns obreiros acabam
causando mais males do que bem ao Corpo de Cristo e outros até se envolvem em casos
escandalosos. Para que o objetivo da edificação seja atingido, é necessário agir com
prudência nessa prática. A esse respeito, o pastor sábio sempre evitará visitar alguém do
sexo oposto quando estiver desacompanhado, especialmente em se tratando de mulher
casada, se o marido dela não estiver presente. Há que se fugir não apenas do mal, mas
também da aparência do mal. Também, é importante que o visitador não permita que a
conversa se desenvolva sobre a vida de alguém que não esteja presente para se defender
ou prestar esclarecimentos. Muitos intrigas e dissentimentos são alimentados quando isso
ocorre. Nenhum pastor precisa saber sobre a vida de alguém por meio da narrativa de
outros. Finalmente, o pastor deve cuidar para não usar os casos e as particularidades da
vida doméstica de suas ovelhas no púlpito, como “ilustrações de sermão”. Enfim, se o
pastor não cuidar dessas questões éticas, “não demorará muito e logo todas as casas
estarão fechadas para ele”.[10]
Finalmente, é necessário considerar o que deve ser feito na visita pastoral, ou seja, como
deve ser o seu modus operandi. Embora não exista nenhuma norma específica para esse
processo, alguns princípios gerais podem ser observados. Por exemplo, uma das primeiras
coisas a serem feitas é a preparação do pastor para a visita a ser realizada. Em um artigo
sobre esse assunto, David Murray diz que se prepara para visitação pastoral com alguns
minutos de oração em prol da família a ser visitada, bem como do assunto a ser abordado
naquele evento.[11] Feito isso, ao chegar ao local, creio ser importante o pastor esclarecer
às pessoas quanto tempo sua visita durará. Alguns parecem não perceber que a visita
longa pode ser extremamente inconveniente para suas ovelhas, que possuem outras
atividades (interações em família, estudados, atividades profissionais etc.). O
estabelecimento inicial de um período ajuda até na atenção a ser dedicada pelas ovelhas
ao ministro e ao que ele tem para ensinar.
Além disso, Murray sugere que os quinze minutos iniciais sejam dedicados ao diálogo
sobre o que tem acontecido na vida da família, coisas sobre o trabalho, criação de filhos,
escola e assim por diante. Se há algum acontecimento importante no âmbito nacional ou
local, ele também inclui o assunto como parte da conversação inicial. O cuidado a ser
tomado nesse sentido é quanto ao perigo de se perder em meio a algum assunto

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interessante e esquecer o propósito “espiritual” da visita. Por isso, retomar o assunto para
a conversação sobre as questões espirituais é o terceiro passo a ser observado.
Uma sugestão muito prática feita por Franklin Dávila é que o pastor evite “monopolizar”
a conversação. Um dos objetivos da visita é conhecer melhor suas ovelhas e se o pastor
não permite que as pessoas nesse momento emitam suas opiniões e expressem suas
dúvidas, esse alvo não será atingido. Quanto a isso, Franklin nos lembra que “as palavras
pastorais ditas numa visita podem germinar para o bem ou para o mal. Podem abater os
espíritos ou abater as almas... Se não tivermos uma boa palavra para o momento é melhor
ficar em silêncio. Jamais seremos punidos se ficarmos em silêncio”. [12] Portanto,
sensatez e juízo crítico são bem-vindos nesses momentos.
Há ocasiões em que o processo de direcionar a conversa para questões espirituais pode
ser fácil, especialmente dependendo da necessidade ou maturidade da pessoa visitada.
Porém, há outras situações em que esse enfoque poder ser muito difícil e isso ocorre nos
casos em que a pessoa visitada insiste em permanecer conversando sobre as questões
triviais da vida. Se o pastor não atentar para essa armadilha ele pode usar o tempo
dedicado à visita em interações que não resultarão no progresso espiritual de suas ovelhas.
A fim de retomar o interesse espiritual da visita, David Murray sugere que, se necessário,
o pastor intervenha com algumas perguntas como:
Há alguma coisa pela qual você gostaria que eu orasse?
Qual porção da Bíblia você tem lido ultimamente? Alguma coisa que lhe chamou mais a
atenção?
Quais as dificuldades que você tem tido em sua leitura bíblica?
Há algum assunto que você gostaria que fosse abordado em um sermão dominical?
Você tem sido ajudado por algum sermão em particular? Sobre o que ele dizia respeito?
Você tem lido boa literatura cristã ultimamente?
Quais dons espirituais você acredita ter recebido do Senhor? Como você acredita poder
exercitá-los em nossa igreja?
O que as crianças estão aprendendo na Escola Dominical?
A lista de Murray inclui outros tópicos, mas o resumo acima é suficiente para ilustrar
como apenas uma pergunta pode ser suficiente para direcionar a conversa para o propósito
da interação que deve ocorrer em uma visita pastoral.
Em quinto lugar, o pastor deve abrir as Escrituras e compartilhar de maneira rápida e
objetiva alguma passagem que seja relevante à situação da família (ou pessoa) visitada.
A instrução bíblica não é opcional, mas uma parte inegociável da visita pastoral. Esse é o
elemento da visita que provavelmente somente ele poderá realizar com sabedoria e
autoridade. Se ele se esquece ou omite essa prática na visita, a mensagem comunicada é
que a interação foi mais importante do que a edificação. A melhor maneira de se observar
essa prática é fazer “anotações mentais” durante a conversação a fim de selecionar uma
passagem bíblica que melhor se aplique à realidade da pessoa visitada. Lido o texto, ele
pode até perguntar às crianças (se existir alguma) sobre o que entenderam sobre o texto

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lido, pois essa é uma boa maneira de engajá-las no estudo bíblico e, também, observar o
quanto seus pais têm conversado com elas sobre a Palavra de Deus.
Finalmente, conclua a visita com uma oração pelos assuntos conversados durante ela. O
derramar de nossos desejos e preocupações diante do Senhor, além de ser um exercício
devocional, também é pedagógico, pois o pastor poderá ensinar suas ovelhas a apresentar
“tudo a Deus em oração”. Ao fazer isso, o obreiro estará, paralelamente, dando provas
concretas do quanto ele ouviu com atenção tudo o que suas ovelhas lhe disseram durante
aqueles minutos de interação.
Em havendo oportunidade, é importante que o pastor deixe alguma literatura que poderá
ser útil aos visitados. Além de demonstrar carinho por meio desse ato, ele contribui para
a instrução espiritual por meio de boas obras literárias.
Outras sugestões poderiam ser oferecidas quanto a algumas visitas específicas em
hospitais ou prisões, mas isso demandaria outro artigo. Para o propósito dessa pequena
reflexão, creio que o que foi abordado tenha sido suficiente.
[1] NWAOMAH, Evans N. e DUBE, Sikhumbuzo. Pastoral visitation as a veritable tool
in strengthening family relationships. Insight: Journal of Religious Studies 2008, p. 126
[2] CAMPBEL, Michael W. The art of pastoral visitation. Ministry: International Journal
for Pastors, 85, number 7 (July 2013): 18.
[3] JACKSON, E. N. Calling and visitation pastoral. Em HUNTER, R. J., ed. Dictionary
of pastoral care and counseling. Abington Press: Nashville, TN, 1990, p. 115
[4] Ibid., 126
[5] JAMIESON, Robert, FAUSSET, A. R. e BROWN, David. A commentary, critical
and explanatory on the Old and New Testament. Oak Harbor, WA: Logos Research
Systems, Inc. 1997, Gênesis 3.8
[6] DÁVILA, Franklin. Visitação pastoral. Aracaju, SE: Primeira Igreja Presbiteriana de
Aracaju, 2005, p. 8
[7] Ibid., p. 21
[8] Ibid., p. 9
[9] Ibid., p. 9
[10] Ibid., p. 22
[11] MURRAY, David. A “normal” pastoral visit. Disponível em:
http://headhearthand.org/blog/2010/06/01/a-normal-pastoral-visit/. Acesso em
29.11.2019.
[12] DÁVILA, Visitação, p. 26