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Homem e Sociedade

Autora: Profa. Kênia Kemp


Colaboradores: Prof. Fabio Gomes da Silva
Prof. Flávio Celso Müller Martin
Profa. Renata Viana de Barros Thomé
Professora conteudista: Kênia Kemp

Historiadora pela Universidade Federal de Pernambuco; mestre em antropologia social pela Unicamp. Docente do
ensino superior com experiência em graduação e pós‑graduação Latu Sensu.

Professora universitária com atuação nas áreas de: antropologia do corpo; antropologia da comunicação;
identidade cultural; sociologia da cultura; mídia e movimentos de produção artístico‑cultural; cyber cultura; tribos
urbanas; patrimônio cultural e memória.

Publicações........................................................................................................

• A identidade cultural e A relação saúde‑doença, in GUERRIERO, Silas (org) Antropos e psique: o outro e sua
subjetividade. 9. ed. São Paulo: Olho d´Água, 2011.

• Corpo modificado, corpo livre? São Paulo: Paulus, 2005.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

K32 Kemp, Kênia

Homem e Sociedade. / Kênia Kemp - São Paulo: Editora Sol,


2011.
152 p. il.

Notas: este volume está publicado nos Cadernos de


Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XVII, n. 2-006/11,
ISSN 1517-9230.

1.Cultura 2.Origens humanas 3.Diversidade cultural I.Título

CDU 572

U502.28 – 19

© Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou
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Vice-Reitora de Graduação

Unip Interativa – EaD

Profa. Elisabete Brihy


Prof. Marcelo Souza
Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar
Prof. Ivan Daliberto Frugoli

Material Didático – EaD

Comissão editorial:
Dra. Angélica L. Carlini (UNIP)
Dra. Divane Alves da Silva (UNIP)
Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR)
Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT)
Dra. Valéria de Carvalho (UNIP)

Apoio:
Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD
Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos

Projeto gráfico:
Prof. Alexandre Ponzetto

Revisão:
Amanda Casale
Leandro Freitas
Sumário
Homem e Sociedade

APRESENTAÇÃO.......................................................................................................................................................7
INTRODUÇÃO............................................................................................................................................................8

Unidade I
1 SER HUMANO, CULTURA E SOCIEDADE.....................................................................................................9
1.1 A relação entre indivíduo e sociedade.......................................................................................... 17
1.2 A questão da influência da natureza sobre a cultura............................................................ 20
2 O SURGIMENTO DA CULTURA..................................................................................................................... 27
2.1 A teoria da evolução............................................................................................................................ 28
2.2 O aparecimento do Homo Sapiens – uma espécie que trabalha....................................... 31
2.3 A cultura do homem – uma espécie que troca e se organiza............................................ 39
3 O SENSO COMUM E A CIÊNCIA ANTROPOLÓGICA EXPLICAM A CULTURA.............................. 49
3.1 A cultura explicada pelo senso comum....................................................................................... 50
3.2 O conceito antropológico de cultura............................................................................................ 51
4 A COMUNICAÇÃO HUMANA É SIMBÓLICA........................................................................................... 63
4.1 O símbolo, o ato de simbolizar e a cultura................................................................................. 64

Unidade II
5 AS RELAÇÕES HUMANAS DEPENDEM DE VALORES E REGRAS.................................................... 87
5.1 As mudanças de regras e valores.................................................................................................... 94
6 CADA POVO UMA CULTURA, CADA CULTURA UMA SENTENÇA: A DIVERSIDADE
CULTURAL..............................................................................................................................................................102
6.1 A diversidade cultural........................................................................................................................103
6.2 Cultura e visão de mundo................................................................................................................ 113
7 DIFERENTES CULTURAS, CARACTERÍSTICAS HUMANAS UNIVERSAIS...................................... 117
7.1 A pesquisa de campo produz o conhecimento antropológico.........................................120
8 QUEM SOMOS, QUEM SÃO ELES: ADMIRAÇÃO E PRECONCEITO NA ALDEIA GLOBAL......123
8.1 Globalização e diversidade cultural.............................................................................................124
8.2 Identidade cultural em tempos de globalização....................................................................127
APRESENTAÇÃO

A antropologia social é uma das ciências da sociedade, voltada à compreensão do comportamento


humano orientado pela cultura.

A disciplina Homem e Sociedade baseia‑se na antropologia como uma ciência fundamental para que
você possa compreender como nossas relações sociais são profundamente influenciadas pelo conjunto
complexo que forma a cultura.

Em nossa convivência com outros, podemos perceber como os objetivos pessoais ou dos grupos
aos quais pertencemos se chocam o tempo todo com limites, conflitos ou falta de compreensão.
Compreender a cultura leva a uma nova postura que permite perceber nossa vida em sociedade como
uma fonte inesgotável de estabelecimento de regras e padrões, e suas constantes mudanças. A isso
chamamos diversidade.

Conhecer o comportamento humano da perspectiva da cultura nos possibilita analisar muitas


situações de uma perspectiva enriquecida pela diversidade. Trabalho em equipe, capacidade comunicativa
e desenvoltura social são habilidades que podem ser desenvolvidas conforme ampliamos a compreensão
sobre a cultura e a diversidade.

Você terá a oportunidade de entrar em contato com conceitos da antropologia, tais como
socialização, diversidade cultural, etnocentrismo, relativismo cultural, identidade cultural,
reciprocidade, e perceber como se aplicam à nossa vida cotidiana e ao mundo do trabalho e das
relações interpessoais.

Iniciando com o conhecimento sobre as origens humanas e o surgimento da cultura, chegaremos a


questões atuais como a globalização e as relações entre diferentes povos.

Objetivos gerais

Apoiada na antropologia, a disciplina Homem e Sociedade vai possibilitar o desenvolvimento de


muitas habilidades profissionais e pessoais. A partir de seus conceitos será possível compreender a vida
cotidiana, além de:

• Proporcionar enriquecimento social, cultural, afetivo e cognitivo ao estudante.


• Comparar, contrastar e desenvolver temáticas ou perspectivas presentes em outras áreas do
conhecimento de sua formação específica.
• Proporcionar a integração e o aproveitamento de saberes, tradições e experiências dos vários
membros componentes das comunidades de seu trabalho, moradia ou lazeres.
• Desenvolver capacidades como autonomia para a seleção, avaliação e utilização das informações
obtidas, possibilitando uma maior capacidade crítica na tomada de decisões em vários contextos
da vida.
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• Ampliar a participação cidadã do estudante por meio de aprofundamento das capacidades
críticas para avaliar a importância das mudanças e das reproduções de situações no mundo
atual.

• Valorizar a importância da diversidade cultural, do conhecimento mútuo e da autonomia, visando


incrementar a consciência da diferença e o respeito pela mesma.

INTRODUÇÃO

Caro aluno,

Aqui você inicia seu programa de estudos on‑line. Seja bem‑vindo!

Nesta disciplina, o eixo é a compreensão da cultura como construtora do comportamento coletivo


humano, vista através da antropologia.

O desafio que se coloca é confrontar o conhecimento da ciência antropológica com ideias muito
comuns em nosso dia a dia que sequer percebemos, e que infelizmente, acabam nos conduzindo a
atitudes preconceituosas.

A antropologia pode fazer parte de uma nova visão sobre o ser humano e seu comportamento
cotidiano. Essa ciência nos mostra o quanto somos produto de nosso meio, mas não somos
determinados por ele. Assim, ao tomar consciência sobre essa influência, abre‑se possibilidade de
refletir sobre como agirmos, nos tornando responsáveis por construir em nossas relações sociais
novos valores.

Valores esses que se pautem por evitar o preconceito com o outro e ter atitudes que levem à sua a
exclusão. Esse processo de desumanização ou a recorrência a atitudes moralmente ofensivas a povos
e setores da sociedade que possuem valores próprios e justos, deixou de ser aceitável como base das
relações interpessoais no mundo de hoje.

O que se espera é que, ao final de nosso programa de estudos, você tenha alcançado os objetivos
colocados acima.

Todos os objetivos a ser cumprida pela disciplina colaborarão diretamente com vários âmbitos
da sua vida. Eles podem colaborar para as relações interpessoais seja no trabalho, na vida pessoal
e familiar, em sua vida religiosa, e principalmente, em sua vida como cidadão, membro de uma
sociedade.

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HOMEM E SOCIEDADE

Unidade I
1 SER HUMANO, CULTURA E SOCIEDADE

Neste item será abordada a natureza social do ser humano, e vamos observar nas características
de comportamento de nossa espécie, o que é inato (de nossa natureza) e o que é adquirido a partir da
experiência social. Esse debate é comum em nossa vida social, pois procuramos respostas para fenômenos
como criminalidade, genialidade ou heroísmo. O que determina que algumas pessoas desenvolvam
comportamentos desses tipos? É a sua “natureza”? É a influência do meio social?

Para as ciências sociais, somos “animais culturais”, capazes de produzir conhecimento, mas
dependentes do aprendizado social que é a socialização. Por meio da compreensão de conceitos como
cultura, natureza e socialização é possível uma nova perspectiva do comportamento humano.

Introdução

Desde o surgimento de nossa espécie no planeta, temos observado que o ser humano surpreende
por suas capacidades de inteligência, de organização social e de adaptação em diferentes ambientes
naturais. Essa diferença em relação às outras espécies foi garantida pelo desenvolvimento de nossas
habilidades sociais e culturais.

Veremos como a cultura, a natureza humana e os processos de socialização se relacionam em nossa


espécie para determinar nosso comportamento.

Principais conceitos

Cultura, natureza e socialização.

Ser humano, cultura e sociedade

Atualmente, somos seis bilhões e oitocentos milhões de habitantes no planeta. Devemos essa
condição aos nossos ancestrais que há milhões de anos desenvolveram a capacidade de se adaptar
a novos ambientes e de vencer predadores mais fortes e velozes com armas sociais que os fizeram
imbatíveis: a comunicação, a cooperação, a capacidade de estabelecer regras de convívio coletivo etc.
Tudo isso só foi possível uma vez que o comportamento humano, diferentemente de outras espécies que
vivem coletivamente, foi orientado pela cultura ao invés do instinto.

Você já deve ter ouvido falar que o sucesso de nossa espécie se deve ao fato de que o ser humano
é o único ser racional dotado de inteligência, não é mesmo? Isso é verdade, mas não é toda a história.
Já pensou que não adianta nada ser dotado de inteligência e não ser estimulado a utilizá‑la? Pois é
exatamente isso que acontece com o conjunto de nossa espécie. Se o ser humano não tivesse desenvolvido
9
Unidade I

a vida em sociedade baseada em uma cultura, provavelmente nossas capacidades de inteligência sequer
seriam exploradas.

Vamos pensar por que é importante essa informação?

É importante perceber que é comum o pensamento que existem pessoas ou sociedades “naturalmente”
mais dotadas de pessoas inteligentes. Pois bem, isso é parte de um preconceito infundado, e essa discussão
será aprofundada mais adiante no decorrer da disciplina. Por ora, reflita sobre a importância da cultura
para organizar os grupos humanos. Todas as capacidades que decorrem da inteligência dependem de
nosso convívio coletivo e das necessidades ou exigências impostas por esse modelo de vida.

O ser humano é uma espécie diferente de animal que vive em grupo. Ao desenvolver a cultura,
afastou‑se da natureza e, portanto, dos instintos.

Atualmente, cercados pelas comodidades culturais em uma sociedade moldada pela tecnologia e
pelo mercado, fica difícil nos imaginarmos como de fato somos: um animal cultural. Somos a única
espécie a desenvolver um ambiente totalmente controlado para sobreviver, que são as cidades, e, talvez
por isso, esquecemos uma dimensão constitutiva de nosso ser: os instintos.

Somos uma espécie modelada pela cultura. Substituímos o comportamento dos impulsos instintivos
(preservação da espécie por meio da alimentação, reprodução e abrigo) pelas regras de conduta social.
Apenas dessa forma nossos antepassados puderam deixar uma herança importantíssima baseada na
acumulação de conhecimentos, nas tradições e nos laços sociais.

O comportamento humano baseado na cultura e na troca de conhecimento (aprendizagem) é o que


nos distingue das demais espécies. Não dependemos apenas da herança biológica e do comportamento
também herdado geneticamente para evoluir. Precisamos de história, das experiências das gerações
passadas, da capacidade de nos educarmos mutuamente. Portanto, dependemos da cultura.

Mas talvez o que está sendo chamado aqui de cultura não seja exatamente o que você se acostumou
a utilizar, por isso vamos fazer uma abordagem científica?

Antropologicamente, a cultura foi definida pela primeira vez no século XIX (1871), por Edward Tylor,
como “um conjunto complexo que inclui os conhecimentos, as crenças, a arte, a lei, a moral, os costumes
e todas as outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade”.

É importante ressaltar, nessa definição já antiga de Tylor, que a caracterização da cultura é o resultado
de processos de aprendizagem.

Nenhum de nossos padrões de comportamento coletivo é herdado geneticamente, eles são adquiridos, e
para isso dependemos do convívio com o meio social. Quando nascemos não temos “tendências naturais” em
relação à crença, bem como a qualquer tipo de alimentação. Tudo em nossa vida coletiva, desde a língua com
a qual nos comunicamos, os hábitos rotineiros de alimentação e vestuário, nossa noção de moral, enfim, tudo
o que compartilhamos ao viver em sociedade e que podemos observar que se repete na maioria dos indivíduos
de nosso grupo, é resultado de um processo de aprendizagem da cultura, e a isso denominamos socialização.
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HOMEM E SOCIEDADE

Vamos compreender melhor o importante conceito de socialização.

Comecemos pela definição de autores importantes para as ciências da sociedade. Peter e Brigitte
Berger afirmam que:

O processo por meio do qual o indivíduo aprende a ser um membro da


sociedade, designado pelo nome de socialização, não tem fim e pode
dividir‑se em socialização primária e socialização secundária. A família é
tradicionalmente a instituição responsável pela socialização primária e a
escola, o trabalho e as demais instituições são responsáveis pela socialização
secundária. (BERGER, P., BERGER, B. apud FORACCHI, M.; MARTINS, 1977).

Esses autores exploraram os processos de aprendizagem da vida social, demonstrando que quase
tudo em nosso comportamento precisa ser modelado desde os primeiros momentos de vida, e que esse
processo não termina nunca. Em cada fase de nossa vida social, somos exigidos a adquirir novos padrões
que nos permitem conviver em coletividade.

Podemos concluir que a socialização compreende todas as formas de aprendizado em sociedade.


Tem início com as exigências de condutas dentro da família, que é nossa primeira experiência de
vida social, se estendendo depois aos contatos sociais cada vez mais amplos como a escola, a
vizinhança, as amizades, o ambiente profissional, a vida religiosa, a participação em associações
ou clubes, os lazeres etc.

Você percebe que quando começa o convívio em um novo grupo social existe uma tendência a
observar o comportamento dos outros? Esse processo vai criando referências sobre como devemos nos
comportar, como os outros reagem a determinadas situações. Assim, podemos agir com mais segurança
dentro dessas situações, pois aos poucos as coisas vão se tornando mais previsíveis à medida que nos
habituamos e incorporamos muito dessa dinâmica coletiva.

Pode‑se dizer, ainda, que a socialização é uma forma de educação, mas vai para além dela. Mesmo
em contextos nos quais as pessoas não têm consciência de que estão se educando mutuamente, o
contato social indica formas esperadas de comportamento.

Assim, podemos interagir com os outros sabendo seguramente que de acordo com nossa
conduta pessoal podemos esperar um ou outro tipo de resposta. Por exemplo: se nos dirigimos
com bons modos a alguém, esperamos ter o mesmo tipo de tratamento, ao passo que ao sermos
agressivos, podemos esperar também uma reação agressiva. Quando, por exemplo, professamos
determinada religião, entramos para uma nova turma de amigos ou um grupo praticante de
determinado esporte, aprendemos como nos comportar, como pensar sobre aquele assunto,
como interagir com os outros membros do grupo. Mesmo sem termos consciência, estamos
sendo socializados nesses meios.

De acordo com a nossa cultura e a socialização, controlamos até mesmo os horários de fome, a
postura corporal e os gestos, os hábitos de higiene pessoal e as formas de tratamento de saúde etc.
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Unidade I

Ou seja, cada cultura corresponde a um padrão diferente de realizar todas essas coisas necessárias
à vida social, e que consideramos ser “normal” todos fazerem. E nenhuma dessas condutas é inata,
ou seja, componente da nossa natureza. Aprendemos cada um dos procedimentos de conduta
pessoal que possibilite o convívio coletivo de acordo com padrões herdados e modificados
constantemente.

Vamos fazer um exercício de pensar exemplos das situações descritas acima?

Todo mundo se recorda de experiências marcantes naquele momento da vida quando


começamos a frequentar uma escola, não é mesmo? Então, tente se lembrar de momentos que
você, ou algum conhecido, tenha enfrentado dificuldades em se adaptar à rotina e à disciplina
escolar.

Pense como uma criança que foi “retirada” do mundinho de sua casa, onde parecia haver liberdade
para deixar de fazer algo quando se tornava cansativo. Agora pense nessa criança, que de repente deve
permanecer dentro de uma sala de aula, até que o “sinal” do intervalo ou do final das aulas a autorize a
se retirar de sua cadeira; ou ainda sobre as regras de oferecer seu lanche aos outros, tentar dividir o que
é seu, e quantas situações estranhas ao universo de uma criança que era tratada como o “centro das
atenções”, e nesse ambiente escolar, precisa perceber que os outros existem.

Lembrete

O curioso sobre a socialização é que, a partir do momento em que


tornamos rotina, ou hábito cada um desses procedimentos, passamos a
encarar com naturalidade, e esquecemos que dependemos do contato com
a sociedade para adquirir conhecimentos, crenças, moral, leis etc.

Pense em outros exemplos que demonstram que, ao longo da vida, todos os indivíduos precisam
“aprender” as regras de convívio social. Até mesmo em lugares de diversão, como parques, praças ou a
praia. Para passar um tempo de lazer e descontração, também há regras a seguir, mas não pensamos
nelas durante esses momentos.

Voltando ao conceito de cultura de Edward Tylor, podemos perceber que, apesar da cultura ser
um todo complexo adquirido por cada um de nós “enquanto membros da sociedade, esquecemos que
somos um “animal cultural”. A cultura tem uma influência tão profunda em nossa forma de encarar
o mundo que pensamos, durante a maior parte do tempo, que tudo é muito “natural”. De fato, um
indivíduo da espécie homo sapiens é dotado de potencialidades inatas, como linguagem, inteligência,
postura bípede etc. Entretanto, nenhuma dessas características se desenvolve “naturalmente”.
Precisamos, portanto, dos estímulos do meio para que cada uma delas seja utilizada, desenvolvida e
lapidada.

Existem alguns exemplos históricos capazes de sugerir que nossa espécie é totalmente dependente da
influência do meio para desenvolver comportamento humano, são as chamadas “crianças selvagens” ou
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HOMEM E SOCIEDADE

“meninos‑lobo”. Essas crianças foram assim denominadas, pois em decorrência de razões desconhecidas,
foram abandonadas em florestas ou lugares isolados, sem qualquer contato com nenhum outro ser
humano, talvez desde que eram ainda bebês. Encontradas em idades mais avançadas, elas costumam
apresentar um comportamento totalmente “animal”, sem nenhum traço que permita lembrar que são
seres humanos.

Os casos mais conhecidos são as irmãs Amala e Kamala, encontradas na Índia em 1920. Ambas
se alimentavam de carne crua ou podre, emitiam ruídos ao invés de utilizarem linguagem, andavam
apoiadas nos quatro membros, usavam os cotovelos para trajetos curtos e não apresentavam sinais de
afetividade.

Veja o trecho de um artigo científico de resenhas que trata do desenvolvimento da linguagem


humana:

Em 1920, chamado por um vilarejo a sudoeste de Calcutá para exorcizar


fantasmas, o reverendo Singh teria descoberto que os “fantasmas” não
passavam de duas meninas, que dormiam, comiam e, enfim, viviam para
todas as finalidades com um grupo de lobos. Tendo‑as seguido até a toca em
que moravam, Singh teria cavado um buraco até resgatar as duas crianças.
A mais velha teria por volta de oito anos e a mais nova, um ano e meio. O
reverendo as levou para viver no orfanato que administrava juntamente com
sua esposa, e protegeu as crianças da curiosidade da imprensa e da ciência
enquanto pôde. Mas ele próprio coletou e registrou muitas informações
sobre as meninas.

Segundo ele, elas não tinham senso de humor, tristeza ou curiosidade e


nem senso de ligação afetiva a outras pessoas. Elas nunca riam; e as únicas
lágrimas derramadas pela mais velha, Kamala, aconteceram na ocasião da
morte de sua pequena irmã, devido a uma grave diarreia causada por uma
infestação de vermes.

Para o casal Singh, embora se parecesse fisicamente com qualquer outra


criança de oito anos, Kamala se comportava como um bebê de um ano
e meio. Mas, apesar de seu silêncio, começou pouco a pouco a entender
palavras. Logo depois, começou a pronunciar algumas dessas palavras:
Kamala estava adquirindo linguagem.

Por oito anos, Kamala viveu no orfanato; mas, como nos relatos (reais
ou fictícios, que acabaram por inspirar a criação da personagem Mogli,
de Rudyard Kipling) de outras crianças‑lobo indianas e como no caso
de sua irmã Amala, ela não estava destinada a uma vida longa. Em
1928, sua saúde começou misteriosamente a declinar, culminando
seu sofrimento em sua morte, no ano seguinte (MASSINI‑CAGLIARI,
2003).
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Unidade I

Saiba mais

Se você tiver curiosidade de ler mais sobre esse tipo de achado de crianças
que foram encontradas vivendo em estado selvagem, faça uma busca eletrônica
com os termos “crianças fera” ou “meninos lobo”. Você terá oportunidade de
descobrir que existe um debate científico a respeito, e um famoso antropólogo,
Lévi‑Strauss, defende que todas seriam crianças que foram abandonadas por
serem portadores de algum tipo de deficiência mental. Entretanto não há
consenso na ciência, pois os achados são raros e por isso não constituem um
campo muito desenvolvido em termos de observação e pesquisa. Em todo caso,
tente os links abaixo para tirar suas próprias conclusões:

— RIBEIRO, F. Humanos criados como animais: coração selvagem. In:


Aventuras da história. São Paulo: Abril Cultural, n.91, fev. 2011.

— WIKIPEDIA. Criança selvagem. Disponível em: <http://pt.wikipedia.


org/wiki/Crian%C3%A7a_selvagem>.

Esse tipo de achado é considerado a “fonte inspiradora” de histórias e


lendas como a do personagem Mowgli, o menino selvagem de Disney, ou
ainda “Tarzan”, um clássico do cinema de meados do século XX. Há também
um filme muito cultuado por admiradores do cinema europeu, chamado
“O enigma de Kaspar Hauser” que conta uma história real do mesmo tipo,
passada na Alemanha no final do século XIX. Se quiser ler um artigo sobre
o filme e também uma análise do fato, tente:

— SABOYA, M. C. L. O enigma de Kaspar Hauser (1812?‑1833): uma


abordagem psicossocial. Psicologia USP, São Paulo, v. 12, n.2, 2001.

Analisando esses casos, muitos cientistas concluem que o ser humano é um “animal cultural” em
potencial, pois nascemos com todas as características que nos habilitam ao comportamento que nos
caracteriza. Entretanto, precisamos do estímulo da vida em sociedade que exige o desenvolvimento de
capacidades como inteligência, comunicação e cooperação. Para exercitar essas capacidades, precisamos
de modelos, exemplos que podem ser seguidos. A cultura é exatamente esse modelo.

Em quais aspectos esse “exercício de capacidades” nos afeta? Pense sobre sua vida social, como,
por exemplo, o fato de estar em contato com alguém para uma simples conversa te fazer exercitar
não apenas o nosso modo de agir de acordo com as regras, como ser alguém conveniente com a
situação.

Cada um de nós ao ser socializado em uma cultura, passa a aprender sempre e gradativamente
como utilizar coisas como o corpo, o intelecto, a emoção e as regras de convívio social. Quando
14
HOMEM E SOCIEDADE

esse aprendizado funciona de forma interativa, faz com que cada um de nós saiba como se
comportar.

Vamos trabalhar alguns exemplos sobre a socialização e o aprendizado das atitudes sociais. Para
um mulçumano, por exemplo, faz sentido se autoflagelar quando morre um líder político, expressando
todo seu pesar e sofrimento; todos esperam de seus colegas esse comportamento. Entretanto, em nossa
cultura, os padrões, valores e hábitos são bem diferentes, e nossa reação diante da morte de políticos não
segue esse tipo de conduta. Podemos citar muitos outros exemplos como este, e com isso percebemos
como a cultura e os processos de socialização modelam nossa forma de perceber o mundo e agir em
cada situação.

Quanto mais somos expostos a situações, mais as compreendemos, e nos tornamos pessoas mais
seguras de nossas atitudes.

As pessoas aprendem como e em que momento podem utilizar as emoções. Durante uma cerimônia
de casamento as pessoas não agem da mesma forma como em uma torcida de jogo. Em cada uma
dessas situações é necessário saber como e em que momento expressar as emoções (como rir, chorar,
gritar, levantar, sentar etc.).

Em cada cultura, esses padrões de comportamento coletivo variam imensamente, e quase não temos
exemplos que nos permitam afirmar que cultura faz parte da nossa natureza. Se fosse “natural” o nosso
comportamento, ele não sofreria tanta variação de um lugar para o outro, e de uma época para a outra,
pois seguiríamos uma orientação única.

Entretanto, a imensa diversidade cultural humana reforça a tese segundo a qual a cultura é resultado
da interação do indivíduo com seu grupo social. Ao mesmo tempo em que aprendemos e reproduzimos
nossa cultura, colaboramos para suas mudanças ou para manter hábitos e tradições.

Você poderá constatar, nas próximas unidades, que de uma cultura para outra há variações
em situações idênticas, que algumas vezes podem ser bem pequenas, mas outras vezes podem ser
imensas.

As fronteiras entre o inato e o adquirido são extremamente tênues e


vacilantes. Pode‑se dizer que todo comportamento humano, do mais simples
ao mais complexo, contém um pouco de cada uma dessas duas dimensões.
Geertz1 nos traz o exemplo da anatomia humana: natural e fisiologicamente
preparada para a fala, de nada serviria se vazia de cultura, uma vez que é ela
que nos fornece as línguas, os idiomas e os dialetos a falar (LEITÃO, Disponível
em: <http://www.geocities.com/deborakrischkeleitao/artigo.html>).

Pense no caso dos funerais. A dor da perda de um indivíduo tem sido, ao longo da história humana,
um caso de exemplo de diversidade. Os funerais são rituais que expressam diferentes questões humanas

1
Geertz, (1989, p. 62).
15
Unidade I

com relação à inevitabilidade da morte, dos medos sobre a condição do morto após a morte, da putrefação
do corpo, da perda de um ente querido, enfim, de uma infinidade de coisas que cada cultura responde
de uma forma diferente.

A cremação e o canibalismo do corpo do indivíduo morto são formas de solucionar a sua decomposição
física. Os egípcios desenvolveram o embalsamento para evitar esse processo. Já o sepultamento é uma
forma de afastar os vivos dos mortos.

Saiba mais

Leitura complementar: procure pelo artigo de Roseney Bellato e Emília


Campos de Carvalho, chamado “O jogo existencial e a ritualização da
morte”, conforme indicação eletrônica abaixo:

BELLATO, R.; CARVALHO, E. C. de. O jogo existencial e a ritualização da


morte. Revista Latino‑Americana de Enfermagem, Ribeirão Preto, v. 13, n.
1, fev. 2005.

Há rituais fúnebres tradicionais, como os excêntricos realizados na cidade de New Orleans nos Estados
Unidos. Há uma procissão que leva o corpo até o cemitério, acompanhada de uma banda de jazz, que
segue entoando canções tristes e cheias de lamento. Os parentes e amigos que seguem a procissão a pé
demonstram tristeza, perda e consternação.

Entretanto, ao sair do cemitério, a procissão faz o caminho inverso, retornando. E de fato, tudo se
inverte. A música se torna alegre e agitada, e as pessoas que seguem a procissão dançam, demonstram
muita alegria e satisfação.

Isso é um exemplo de diversidade, e de como dependemos de um aprendizado social para dar sentido
a tais ações.

Em nossa cultura, seria considerado um desrespeito com o falecido e sua família sair do cemitério
cantando e dançando alegremente, num tom de comemoração, como se houvesse felicidade pela morte.
Para nós isso não é o “natural”, e sim demonstrar pesar, tristeza e solidariedade pela dor da perda. Mas
naquela cultura, é “natural” comemorar que a morte foi devidamente respeitada e sentida até aquele
momento, e sair do “lugar dos mortos” feliz por acreditar que eles foram talvez para um lugar melhor, e
também porque a vida deve ser comemorada.

Na ciência, em geral, não há uma ideia única ou provas que garantam quais traços de cada indivíduo seriam
“inatos” e quais teriam sido “adquiridos”. A “filosofia do homem comum” também não apresenta um consenso.

Você já percebeu frases muito comuns em nosso dia a dia, que ora defendem que somos fruto de
uma herança genética e ora defendem a importância do aprendizado?

16
HOMEM E SOCIEDADE

Vamos ver alguns exemplos:

• “Tal pai, tal filho.” – Não parece que há uma crença na herança genética como fator que determina,
e, portanto, que nosso comportamento é inato?

• “É de pequenino que se torce o pepino.” – Há uma defesa da importância do comportamento


adquirido, e, portanto, do aprendizado.

• “Diga‑me com quem andas, e direi quem és.” – Novamente percebemos a importância da influência
da sociedade e da socialização.

• “A fruta nunca cai longe do pé.” – Esse exemplo retoma a defesa das características inatas.

Portanto, quando você tiver a sua próxima atitude social, seja ir buscar um café para dar uma pausa
nos estudos ou no trabalho, seja responder a um pedido de seu chefe, você poderá se lembrar que somos
resultado de uma cultura, e que compreender seus mecanismos nos possibilita uma nova visão sobre os
fenômenos humanos.

Síntese

Perceber que não somos apenas guiados pela genética e pelas chamadas características inatas e que
é muito importante para valorizar os processos de convívio social.

Aprender a conviver em grupo e conhecer as regras desse convívio é essencial para desenvolvermos
nossas potencialidades como humanos. Muito pouco de nossas habilidades são comprovadamente
inatas, ou seja, herança de uma carga genética. A maior parte do que realizamos ao longo de nossas
vidas dependem de processos de convivência em grupo e de troca de conhecimentos.

1.1 A relação entre indivíduo e sociedade

É possível afirmar que cada indivíduo é produto do meio, ou o produto de uma herança genética?
Bem, qualquer cientista da área das ciências médicas e biológicas tende a dar uma resposta com
ênfase às nossas características inatas, ou seja, que nascem conosco e podem definir tendências de
comportamento.

Por outro lado, as ciências humanas procuram enfatizar a importância do meio social como
modelador das capacidades inatas, que podem ou não ser desenvolvidas ao longo da vida de cada um.
Para resolver esse impasse, precisamos considerar que nenhuma dessas ciências pode afirmar com plena
certeza a respeito de todas as características do comportamento humano, pois ainda há muito a ser
pesquisado e compreendido. Uma posição que pondere ambos os pontos de vista pode responder de
forma satisfatória nossos questionamentos.

Sem dúvida cada um de nós carrega potencialidades diferentes para esta ou aquela tarefa,
mas precisamos fazer escolhas ao longo de nossas vidas, e elas sempre são limitadas por condições
17
Unidade I

socioeconômicas, oportunidades, contatos sociais etc. Portanto, não há como verificar “se tivesse
escolhido outra carreira, como teria me saído?”

Lembrete

A questão importante neste item é: o ser humano é produto do meio ou


produto de sua própria natureza?

Nosso comportamento é resultado da combinação entre a influência de nossa cultura, nossas


capacidades inatas e a história de vida pessoal. Para nos desenvolvermos plenamente como seres
humanos, precisamos da referência de comportamento dado pela sociedade. É a partir dessa perspectiva
que podemos reconhecer que cada um de nós é um “indivíduo social”.

Para refletir sobre a imensa variedade de comportamentos individuais, que levam algumas pessoas
a se revelarem “gênios”, outras “heróis”, outras “criminosos”, temos que recorrer tanto às ciências
sociais quanto às biociências. Sob o enfoque da perspectiva antropológica, obviamente nossa herança
genética é importante e deve ser considerada como um fator que pode facilitar ou impedir certos
comportamentos. Entretanto, essa herança por si só, não garante necessariamente a tendência aos
indivíduos desenvolverem hábitos e características tão marcantes.

Vamos refletir mais sobre isso. Suponha que um cientista vá fazer uma pesquisa em favelas urbanas,
onde os recursos materiais de sobrevivência são mínimos e as crianças têm pouco acesso à educação.
Suponha que ele verifique que em um ambiente de cem crianças, cinco possuem o que chamamos de
“ouvido absoluto”, uma capacidade de distinguir com absoluta precisão as notas musicais emitidas.
Apesar de possuírem essa capacidade, essas crianças dificilmente terão oportunidades sociais de
desenvolver essa habilidade. Portanto, a habilidade inata, nesse caso, será de pouca valia para a vida
pessoal dessas crianças.

Podemos desdobrar esse exemplo para outras características tais como o Q.I. (Quociente de
Inteligência), habilidade para expressão corporal, memória etc. Podemos citar também características,
tais como o gene da obesidade ou da dependência química. O fato de um indivíduo ser portador de
qualquer uma dessas heranças genéticas não é suficiente para garantir que ele vá desenvolver um
comportamento para utilizar bem esses recursos.

Lembrete

Um indivíduo pode ter uma carga genética que o destaca dos demais, como
inteligência acima da média ou habilidade artística de excelência, mas, sem as
condições sociais para desenvolver suas potencialidades, de nada adianta.

Assim, para a antropologia, a experiência estimulada e garantida pelo meio social pode ser muito
mais determinante do que qualquer característica inata. O aprendizado, o reforço, o estímulo e o
18
HOMEM E SOCIEDADE

reconhecimento de nossas atitudes e habilidades por parte do grupo social são de extrema importância
para o desenvolvimento de características desejadas. Todos gostam de ser premiados, elogiados e
reconhecidos, assim buscamos demonstrar empenho no desenvolvimento de habilidades esperadas
pelo grupo social. Mas, ao contrário, quando somos reprimidos, repreendidos, tolhidos em certos
comportamentos, sendo excluídos do bom convívio social, procuramos evitar esse comportamento.

Você consegue perceber como essa questão sobre o “inato” (característica que nos pertence desde o
nascimento) versus o adquirido (influência do meio) faz parte de muitos campos profissionais?

Vamos trabalhar alguns exemplos. No campo das práticas esportivas, isso é muito comum. Pessoas
muito talentosas e que se sobressaem, parecem ter “nascido para aquele esporte”, ou no campo artístico,
ou mesmo na ciência.

Essas pessoas muitas vezes se tornam “ídolos”, não é mesmo? Pelé no futebol, atrizes como Fernanda
Montenegro, Einstein na ciência, Michael Phelps na natação. São apenas poucos nomes, em uma extensa
lista. O fato de essas pessoas terem um desempenho excelente no que fazem, ou fizeram, como tantos
outros, é o que inquieta nossa compreensão. Parece que apenas explicações como “dons naturais”
(ou mesmo “sobrenaturais”) é que nos acalmam. Afinal, aceitar “apenas” que são pessoas que cada
cultura, cada época produziu, parece pouco, não é?

A sociedade está o tempo todo nos apoiando ou reprimindo, e isso é necessário para que possamos
ter uma garantia de que todos se comportem de forma ética e dentro dos padrões aceitos.

Certamente, os padrões mudam de uma época para outra, pois a sociedade é dinâmica e está em
constante mudança. Portanto, temos que ter bom senso em relação à aceitação ou não de certas
repressões e também de certos estímulos.

Como indivíduo, cada um de nós passa a vida sendo influenciado e influenciando a sociedade. É um
processo recíproco do qual não temos como fugir, pois precisamos do convívio social.

Agora vamos pensar. A recíproca é verdadeira? Quanto é que cada um de nós pode interferir em
nossa sociedade?

Isso é muito interessante. A resposta é sim. O grupo sofre a interferência de seus indivíduos. Uma
sociedade que cria condições favoráveis, por meio de instituições e de sua determinação coletiva, ou de
seus valores, para permitir que um número cada vez maior de indivíduos possa desenvolver plenamente
suas potencialidades, se tornará uma sociedade melhor.

Isso acontece em qualquer grupo social, assim como na família ou nas empresas. As características
de um grupo dependem das características de seus indivíduos, mas um e outro não podem fazer muita
coisa isoladamente.

As realizações de uma coletividade estão sempre relacionadas com a possibilidade de seus


indivíduos realizarem conquistas, que vão interferir diretamente na condição de todos. Claro que há
19
Unidade I

os “gênios” que surgem em todos os momentos da história. Gênios dos esportes, da intelectualidade,
das artes, da religião, da política etc. Mas essa não é a realidade de todos os dias para todos os
povos.

Para finalizar, portanto, consideramos “indivíduo” e “sociedade” aspectos inseparáveis para falarmos
de seres humanos.

Para ilustrar essa discussão, leia um trecho do livro de Roque de Barros Laraia:

Em outras palavras, não basta a natureza criar indivíduos altamente


inteligentes, isto ela o faz com frequência, mas é necessário que coloque
ao alcance desses indivíduos o material que lhes permita exercer a sua
criatividade de uma maneira revolucionária. Santos Dumont (1873‑1932)
não teria sido o inventor do avião se não tivesse abandonado a sua
pachorrenta Palmira, no final do século XIX, e se transferido em 1892 para
Paris. Ali teve acesso a todo o conhecimento acumulado pela civilização
ocidental. Em Palmira, o seu cérebro privilegiado poderia talvez realizar
outras invenções, como, por exemplo, um eixo mais aperfeiçoado para
carros de bois, mas jamais teria tido a oportunidade de proporcionar
à humanidade a capacidade da locomoção aérea. Albert Einstein
(1879‑1955) não teria desenvolvido a teoria da relatividade se tivesse
nascido em uma distante localidade do Himalaia e lá permanecido.
Mas, por outro lado, se Alberto Santos Dumont tivesse morrido em sua
primeira infância, fato comum no lugar e época em que nasceu, e se
Albert Einstein tivesse sido consumido pela voragem de uma das guerras
europeias do final do século XIX, a humanidade teria que esperar um
pouco mais, talvez, pelas suas descobertas. Mas certamente não ficaria
privada da teoria da relatividade e do aeroplano, pois outros cientistas
e inventores estariam aptos para utilizar os mesmos conhecimentos e
realizar as mesmas façanhas (LARAIA, 2006, p. 46‑47).

Síntese

Portanto, para as ciências da sociedade, a herança genética dos indivíduos não é garantia para
determinar seu desenvolvimento ao longo da vida. Essa natureza que dá características únicas a
cada indivíduo depende de sua condição social e de sua interação com o meio. Os indivíduos sofrem
interferência de seu meio social, e, por outro lado, o meio sofre a influência de cada um. Por isso, quanto
mais a sociedade der condições de desenvolvimento das potencialidades de cada um, mais irá realizar
feitos e conquistas.

1.2 A questão da influência da natureza sobre a cultura

É bastante comum a ideia de que o comportamento de um povo possa sofrer influências de elementos
da natureza, como a genética ou o meio ambiente.
20
HOMEM E SOCIEDADE

Há uma grande polêmica na ciência, mas de uma forma geral, há também um consenso que gira
em torno da afirmação que elementos naturais podem influenciar, mas nunca são os únicos fatores a
determinar o comportamento de um povo.

Apesar desse consenso, existem ainda aqueles que retiram a importância da cultura e explicam
o comportamento humano apenas por fatores que não fazem parte de escolhas humanas, como a
genética ou o ecossistema2. Para os que defendem que a cultura é um mero reflexo das condições
naturais de um povo (sua genética e seu ecossistema), há as teses que chamamos de “determinismo
biológico” ou, ainda, o “determinismo geográfico”.

Roque de Barros Laraia, antropólogo brasileiro, demonstra em seus capítulos iniciais do livro Cultura:
um conceito antropológico, que essas teses são equivocadas e não consideram dados importantes. A
antropologia preocupa‑se em demonstrar a importância da cultura e minimizar coisas como nossas
características físicas ou o clima e a geografia do lugar em que nascemos.

Ao discordar das teses deterministas, ele argumenta que mesmo em ambientes muito semelhantes,
mas distantes geograficamente, os grupos humanos desenvolvem hábitos muito diferentes.

A princípio esse raciocínio pode nos enganar. Muitas vezes pensamos: “oras, se um povo vive no frio
deve construir uma casa com matérias‑primas quentes, forradas de peles, com paredes bem grossas”.
Mas as coisas humanas não seguem um padrão tão lógico. Os esquimós vivem em um clima de extremo
frio, mas constroem casas com blocos de gelo, os famosos iglus. Em compensação, em outro continente,
mas na mesma latitude, estão povos tradicionais conhecidos como “lapões”. Também conhecidos como
“sami”, ocupavam territórios que hoje correspondem à Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia. Ao invés de
iglus, eles viviam até o inicio do sec. XX em tendas feitas de pele de rena.

Saiba mais

Você está curioso sobre esses povos? Pesquise na Internet sobre eles, veja
imagens e saiba mais sobre a vida tradicional deles. Mas veja, é interessante
lembrar que como outros povos do planeta, eles já não vivem mais da
maneira tradicional, e adquiriram hábitos de moradia e estilos de vida bem
semelhantes aos nossos. Certo? Mas, em todo caso, segue algumas dicas de
sítios da internet para você saber mais sobre lapões (sami) e esquimós.

— WIKIPEDIA – verbete “Lapónia” <http://pt.wikipedia.org/wiki/


Lap%C3%B3nia_%28povo_Sami%29>

2
As características genéticas fazem parte de uma herança biológica que os indivíduos não podem controlar, por
isso afirma‑se que são influências das quais não podemos fazer escolhas; o mesmo se dá com o meio ambiente e as
características naturais do território que abriga um povo. Populações inteiras precisam se adaptar ao deserto, enquanto
outras possuem florestas e rios. Nada disso é resultado das escolhas humanas.
21
Unidade I

— WIKIPEDIA – verbete “Esquimós”

<http://pt.wikipedia.org/wiki/Esquim%C3%B3s>

A seguir algumas imagens para que você possa comparar a diversidade de vestuário e habitação,
para o mesmo clima, como cita Laraia (2006):

Figura 1 – Vestuário sami.

Figura 2 – Família Sami em 1900 com tenda ao fundo.

22
HOMEM E SOCIEDADE

Figura 3 – Esquimós.

Figura 4 – Exterior de iglu.

Leia este trecho para perceber a importância desse debate sobre a relação natureza versus cultura:

São velhas e persistentes as teorias que atribuem capacidades específicas


inatas a “raças” ou a outros grupos humanos. Muita gente ainda
acredita que os nórdicos são mais inteligentes do que os negros; que
os alemães têm mais habilidade para a mecânica; que os judeus são
avarentos e negociantes; que os norte‑americanos são empreendedores
e interesseiros; que os portugueses são muito trabalhadores e pouco
inteligentes; que os japoneses são trabalhadores, traiçoeiros e cruéis;
que os ciganos são nômades por instinto, e, finalmente, que os brasileiros
herdaram a preguiça dos negros, a imprevidência dos índios e a luxúria
dos portugueses.

23
Unidade I

Os antropólogos estão totalmente convencidos de que as diferenças


genéticas não são determinantes das diferenças culturais (LARAIA, 2006,
pg. 17).

Os antropólogos reforçam a tese de que não existem determinismos, a cultura não é uma mera
herança natural e a espécie humana é mais complexa do que a combinação entre genes e clima.

De todas as pesquisas desenvolvidas pela antropologia entre diferentes povos, há uma única e
primeira proposição que nos faz pensar que eles têm razão. Por exemplo, tome um bebê de qualquer
origem genética, mas o leve a ser criado em uma cultura, entre um povo bem diferente de sua
origem.

Essa criança, com toda certeza, vai desenvolver linguagem, valores e hábitos cotidianos que são
compatíveis com seu lugar de desenvolvimento, e não de seu lugar de origem. Não há facilidade ou
dificuldade para aprender qualquer língua, hábito alimentar ou crença, quando crescemos com tudo
isso como algo normal.

Assim, por exemplo, se um casal da Dinamarca adotar um bebê japonês, e jamais ensinar a essa
criança como comer com “palitos”, ela vai ter tanta dificuldade em aprender isso quanto qualquer
ocidental que aprendeu a comer com talheres.

Por isso, não é correto confundir características de comportamento que são culturais e desenvolvidas
pela história de um povo, com uma espécie de “essência”, como se fosse sua natureza que determina.

O comportamento cultural é um conjunto complexo de conhecimentos desenvolvidos ao longo de


gerações, como necessidades, crenças, valores e ética de vida coletiva, entre outras coisas.

Por isso, julgar uma cultura é uma operação que requer, antes de mais nada, que se conheça suas
razões. O julgamento sem conhecimento de causa se chama preconceito.

Para enriquecer esse debate, leia o trecho abaixo em que os autores demonstram os erros do
pensamento determinista.

O determinismo biológico

No século XIX e na primeira metade do século XX, o conceito de raça fazia


parte da centralidade do debate em torno do determinismo biológico. Nessa
época, fervilhavam teorias que defendiam a existência de capacidades
específicas, inatas de determinadas raças. Assim, era comum a defesa de
teorias que se baseavam na existência da superioridade‑inferioridade dos povos,
ignorando por completo as suas diferenças como elemento fundamental da
diversidade humana. Essa condição se reproduziu dentro de lógicas racistas
e de intolerância face às diferenças culturais, políticas, sociais, econômicas
e ambientais.
24
HOMEM E SOCIEDADE

Apesar da perplexidade de parte da sociedade, foi possível, em pleno século


XX, o redescobrimento de atitudes refletindo o velho pensamento sobre
inferioridade‑superioridade das raças. Mas existem aqueles que ainda
acreditam na diferença inata entre “povos do norte” e “povos do sul”.

Baseados em concepções em que os fatores de ordem biológica determinam o


comportamento humano, muitos chegaram a defender verdadeiros absurdos
que, drasticamente, ganharam corpo e ressonância em nível mundial. Na
Alemanha, a concepção da superioridade da raça adquiriu status de uma
ideologia de Estado (o nazismo), atingindo proporções avassaladoras a
partir de 1939. Uma concepção de cultura local ou regional que se elevou
a um sistema de explicação justificando uma doutrina de Estado. (CANTO;
ALMEIDA, 2008).

As ciências, de forma geral, e as ciências humanas, em particular, exigem atitudes de imparcialidade.


Julgar populações inteiras e seus costumes não faz parte de uma atitude científica. Grande parte
do conhecimento da antropologia procura demonstrar a falta de fundamentos válidos em atitudes
preconceituosas que estão presentes no costume de “julgar os outros”.

Até mesmo a “guerra dos sexos”, que é uma reação feminina ao machismo predominante em nossa
sociedade, usa a tese do determinismo biológico para desfavorecer o sexo feminino. Vale lembrar que,
muitas vezes, há um reforço de que “a natureza feminina” e a “natureza masculina” sejam a explicação
para situações criadas ao longo da história, e que servem para reforçar a ideia de que deve existir um
sexo submisso (feminino) e um sexo dominante (masculino).

Mas, mesmo sobre essas ideias preconceituosas, a antropologia procura demonstrar que não há
verificação válida para sustentar a relação desigual entre os sexos.

Leia abaixo um trecho do livro de Roque de Barros Laraia:

A verificação de qualquer sistema de divisão sexual do trabalho mostra que


ele é determinado culturalmente e não em função de uma racionalidade
biológica. O transporte de água para a aldeia é uma atividade feminina no
Xingu (como nas favelas cariocas). Carregar cerca de vinte litros de água
sobre a cabeça implica, na verdade, um esforço físico considerável, muito
maior do que o necessário para o manejo de um arco (arma de uso exclusivo
dos homens). Até muito pouco tempo, a carreira diplomática, o quadro de
funcionários do Banco do Brasil, entre outros exemplos, eram atividades
exclusivamente masculinas. O exército de Israel demonstrou que a sua
eficiência bélica continua intacta, mesmo depois da maciça admissão de
mulheres soldados (LARAIA, 2006, pg. 19).

É importante lembrar que todo tipo de tese que procura explicar características de comportamento
humano por meio de uma única explicação pode ser questionada.
25
Unidade I

O ser humano é um fenômeno bastante complexo para ser explicado apenas por meio de sua
biologia, ou de sua localização geográfica, de sua influência em relação aos outros. A antropologia
procura demonstrar que a vida social permite uma grande riqueza de interpretações e abordagens sobre
o comportamento humano.

A diversidade cultural demonstra essa complexidade. Em todos os lugares em que se forma um


grupo humano há a tendência à inovação, à criação de novas condutas e formas de pensar o mundo.

Observação

O que são as teses “deterministas”?

• São teses que procuram explicar o comportamento de populações


humanas, a partir da determinação de um ou dois únicos fatores.

• Chamam‑se deterministas porque pretendem que a biologia ou a


geografia de um povo determine todo o seu comportamento.

A antropologia e todas as ciências da sociedade discordam dessas


teses deterministas e procuram demonstrar que, na maior parte das vezes,
a biologia e a geografia influenciam certos comportamentos, mas nunca
os determinam.

Uma cultura é sempre o conjunto de muitos fatores, como a história desse


povo, suas necessidades e formas de supri‑las; os valores e conhecimentos
transmitidos; o conjunto de hábitos e regras sociais etc.

Síntese

O ser humano depende da cultura para realizar suas capacidades inatas, como inteligência e
comunicação. É por meio da socialização que nos tornamos membros de uma sociedade. Não existem
indivíduos que não sejam parte de uma sociedade. Somos, ao mesmo tempo, modelados por ela e
podemos transformá‑la, pois a cultura é dinâmica e está sempre sendo modificada pelos indivíduos.

Apesar de nascermos com algumas características inatas, ao longo de nossas vidas, as oportunidades
sociais para desenvolvê‑las serão extremamente importantes. Não adianta nascer com um Q.I. de gênio e, por
necessidade ou opção, desenvolver uma carreira que depende do desempenho físico e não do cérebro.

A antropologia recusa as teses deterministas, pois afirma que somos seres complexos, pois nossa
espécie é resultado de influências biopsicossociais. Ou seja, nossa composição inata (herança biológica
e características que “nascem” com cada um de nós) é influenciada e influencia nossas características
psicológicas e, finalmente, as características psicológicas influenciam e são influenciadas pela nossa
experiência social.
26
HOMEM E SOCIEDADE

Você consegue perceber como esses três aspectos que definem o comportamento humano atuam
em uma complexa relação de interferências mútuas? Nosso corpo, que é orgânico, interfere em nossas
emoções, que por sua vez interferem em nossa vida social. Nossas emoções, que são os aspectos psicológicos,
interferem em nosso organismo e em nossa vida social. Nossa vida social, que não está sob nosso controle
pessoal, interfere em nosso organismo e em nossas emoções. É um exercício quase infinito de exemplos que
poderíamos trabalhar, demonstrando como apenas o componente biológico, ou apenas o psicológico, ou
apenas o social não determinam nada. A interferência entre os três aspectos é que produz o ser humano.

Se não há determinismos, o que explica a diversidade cultural?

O ser humano é uma espécie moldável e criativa. Em cada grupo social, as respostas às necessidades
resultam em uma história que é única para aquele grupo. Portadores das marcas da história, das
experiências coletivamente vividas, das soluções criadas, os grupos vão construindo um conjunto
absolutamente único que é sua cultura.

A cultura é um processo e não resultado de um único fator.

Saiba mais

Sugestão de leituras:

CANTO, O.; ALMEIDA, J. Meio ambiente: determinismos, metamorfoses e


relação sociedade – natureza. Revista de Estudos Paraenses, v. 3, p. 91‑102,
2008.

2 O SURGIMENTO DA CULTURA

Objetivos

Voltar às origens da cultura é também voltar à origem da humanidade. Ter costumes e hábitos
aprendidos é um comportamento relacionado com a nossa sobrevivência e evolução enquanto espécie.

O tema possibilita uma abordagem que ressalta a importância da compreensão do ser humano como
um ser biopsicossocial, ou seja, somos seres cujo comportamento é determinado ao mesmo tempo por
nossas características orgânicas (o tipo de aparelho físico que temos e como podemos utilizá‑lo), por nossas
experiências pessoais racionais ou afetivas de mundo, e, finalmente, pelo meio social onde vivemos.

Introdução

Parece que todo ser humano tem como qualidade inata (que nos pertence desde o nascimento)
certos comportamentos, como preferir alguns tipos de roupas ou alimentos, e ainda se comunicar por
meio desta ou daquela língua.

27
Unidade I

Pois a antropologia, junto com outras ciências como a arqueologia, a paleontologia e a história,
explorou profundamente essa questão sobre a diferença do homem em relação ao resto do mundo
animal, e pôde concluir que nosso comportamento é fruto de um processo histórico no qual a biologia
e a cultura modelaram nossos ancestrais. Esse trabalho conjunto entre nosso desenvolvimento biológico
e a cultura foi responsável por tamanhas mudanças em nossa espécie, que hoje achamos um fato
“natural” não necessitarmos entrar na “luta pela sobrevivência”, na “lei da selva”.

Quem começou a inventar palavras para dar nomes às coisas, ou saber quais alimentos são
comestíveis e como devemos prepará‑los? Quem inventou o primeiro tipo de calçado, ou descobriu
como fabricar o vidro? Enfim, como surgiu a cultura? Que importância decifrar esse fato pode ter para
nossa compreensão de ser humano?

Essas questões devem ser respondidas ao longo desse tema.

Principais conceitos

Biologia, cultura, evolução, adaptação, troca, reciprocidade, sociedade.

2.1 A teoria da evolução

No século XIX Charles Darwin (biólogo), afirmou que todas as espécies vivas resultam de uma
evolução ao longo do tempo. Isso significa, que se retornássemos em nosso planeta milhões de anos
atrás não encontraríamos as espécies conforme as vemos hoje.

Cada ser vivo, para chegar até hoje, passou por sucessivas e pequenas transformações que
possibilitaram sua sobrevivência; esse processo de mudanças orgânicas ocorre por necessidade de
adaptação ao meio. Essas mudanças ocorrem em conjuntos em populações de uma espécie, então
é necessário considerar cada uma delas como grupo, e não apenas as características individuais.
Certo?

Junto com a necessidade de adaptação ao meio vem a outra exigência para uma espécie evoluir,
que é a seleção natural. A seleção natural significa que sobrevivem por mais tempo os indivíduos
mais aptos a sobreviver. Como são mais aptos, por estarem mais adaptados, eles têm mais chances de
reproduzir e deixar essa carga genética para a próxima geração. Assim, os indivíduos gerados pelos que
passaram por essa seleção, serão ainda mais privilegiados a sobreviver, pois já nascem com “vantagens
genéticas” e passam mais uma geração adiante essa vantagem adaptativa.

Vamos ver como a adaptação ao meio e a seleção natural funcionam em conjunto?

Consideremos que as condições do meio como clima, quantidade na oferta de alimentos e todas
as questões relacionadas às condições ambientais estão em constante mudança. Pois bem, as formas
de vida existentes precisam acompanhar essas mudanças, estando sujeitas, segundo Darwin, a dois
destinos: a) podem se adaptar e, ao longo de muitas gerações, apresentarem mudanças visíveis; b) não
conseguirem se adaptar, entrando em extinção.
28
HOMEM E SOCIEDADE

Quais são as espécies que conseguem se adaptar? São as que possuem alguns indivíduos de seu
grupo dotados de características tais que o permitem sobreviver e gerar uma prole (conjunto de filhos)
que dá continuidade a essas características. Os outros indivíduos da mesma espécie que não possuem
tais características, não conseguindo “lutar” pela sobrevivência, têm mais chances de morrer sem deixar
descendentes. Assim, após muitas gerações, temos uma espécie que já não se parece com seus primeiros
indivíduos.

Observação

Atenção: Falar em evolução e adaptação não significa que sempre


sobrevivem os mais fortes. A força pode ser uma necessidade para
sobreviver, mas muitas vezes são outras as exigências. Pode ser a habilidade
para enxergar no escuro, ou a capacidade de voar mais alto, ou mesmo ter
que voar bem baixinho. Pode, ainda, ser a habilidade de pensar.

Veja que da perspectiva evolucionista, adaptação significa basicamente


ser dotado de uma habilidade qualquer, mas que é fundamental para os
indivíduos de uma população sobreviverem de forma ótima. E ainda por
cima, transmitirem seus genes para a próxima geração.

Quer um exemplo? Suponhamos que como consequência de uma terrível guerra, um povo não
tivesse alternativa a não ser passar a viver em uma imensa caverna. Eventualmente alguns indivíduos
saem para buscar alimentos, mas procuram fazê‑lo no período noturno, quando ficam menos
expostos.

Com certeza os indivíduos que tenham como características próprias a facilidade de enxergar um
pouco mais que os outros no escuro, facilidade em passar longos períodos em ambientes fechados e
autocontrole para não provocar conflitos com outros seriam indivíduos mais bem adaptados.

Essa “vantagem” lhes proporcionaria maior probabilidade de sobrevivência, e, por isso, teriam maiores
chances reprodutivas, podendo transmitir certas características para a próxima geração. Enquanto isso,
os que não demonstrassem adaptabilidade pereceriam.

Pois bem, após muitas e muitas gerações vivendo sob essas circunstâncias, as características físicas
desse grupo, comparadas ao outro inicial, devem ser tão diferentes, que poderíamos dizer não se tratar
da mesma família ou espécie. Enxergariam perfeitamente no escuro, ao contrário dos outros humanos
que continuaram na superfície. Talvez até mesmo isso resultasse em um formato de fossa orbital (esse
“buraco” em nosso crânio onde se alojam os olhos) completamente diferente.

A possibilidade da geração de uma prole com características que permitam a adaptação ao meio
é, para os evolucionistas, chamada de “seleção natural” – sobrevivem apenas aqueles indivíduos com
traços que os permitam sobreviver. Ao lado da seleção natural, as mutações aleatórias também são
responsáveis pelas modificações de um organismo ao longo do tempo.
29
Unidade I

Saiba mais

Você gostaria de ler um pouco mais sobre o tema “seleção natural”? Pois
bem, tente o texto disponível na Internet como está abaixo:

PAZZA, R. Seleção natural. Projeto Evoluindo – Biociência.org. (2005)


Disponível em: <http://www.evoluindo.biociencia.org>.

A teoria da evolução é um assunto bastante específico de interesse


para quem segue as áreas de saber relacionadas com a biologia. Por isso,
se você tem interesse em ler mais sobre o assunto, há algumas indicações
abaixo:

MARCONDES, A. Teoria é a plataforma básica para os estudos biológicos.


In: UOL. Portal UOL Educação. Disponível em: <http://educacao.uol.com.br/
biologia/ult1698u40.jhtm>. Acesso em: 12 out. 2010.

ARAGUAIA, M. Evolução. In: BRASIL ESCOLA. Biologia Evolutiva.


Disponível em: <http://www.brasilescola.com/biologia/evolucao.htm>.
Acesso em: 12 out. 2010.

Uma das dificuldades do senso comum em aceitar as ideias evolucionistas está no fato de que
não podemos “ver” a evolução acontecendo – apesar de ela estar sempre acontecendo – isto é, não
testemunhamos alterações expressivas, pois as mudanças são muito sutis e ao longo de um período de
tempo que é muito longo do ponto de vista do ser humano.

As alterações podem ser consideradas em intervalos de tempo não inferiores a cem ou duzentos mil
anos. Portanto, muito além de qualquer evento que possamos acompanhar. Mas podemos acompanhar
a luta pela sobrevivência e a mudança de hábitos em muitas espécies, como os pombos que povoam as
cidades, mas não estão tão concentrados demograficamente nos campos. Essa espécie encontrou um
ambiente ótimo nas cidades construídas pelos seres humanos, aprendendo rapidamente como obter
abrigo e alimento, com a vantagem de estar livre de predadores como nas florestas e campos. Faz parte
de sua evolução esse novo ambiente.

Assim, entendemos que a evolução biológica de todas as espécies vivas não acontece sem a influência
de muitos fatores, não acontece de forma “mágica” e independente do tipo de meio e hábitos que
podemos observar.

Hoje em dia o darwinismo está com uma nova roupagem e temos teorias como o
pós‑darwinismo ou neo‑darwinismo, que são consequência do desenvolvimento de nossa
tecnologia de pesquisa, e do próprio conhecimento, cujas portas foram abertas por Charles
Darwin para seus sucessores.
30
HOMEM E SOCIEDADE

Saiba mais

Leituras e pesquisas complementares

CANTARINO, C. Natureza, cultura e comportamento humano. In:


LABJOR. Comciência. Disponível em: <http://www.comciencia.br/200407/
reportagens/07.shtml>. Acesso em: 19 abr. 2011.

RIBEIRO, F. J. L.; BUSSAB, V. L. R. Biologicamente Cultural. In: SOUZA,


L.; FREITAS, M. F. Q.; RODRIGUES, M. M. P. (Org.). Psicologia: Reflexões
(im)pertinentes. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998, p. 177‑203.

2.2 O aparecimento do Homo Sapiens – uma espécie que trabalha

O homem descende do macaco. Essa foi a afirmação polêmica de Darwin na segunda metade
do século XIX e que dividiu opiniões na sociedade moderna. Essa polêmica permanece até hoje, pois
encontrou como opositor o ponto de vista de uma prática humana muito mais antiga que a teoria da
evolução: a religião.

Não conhecemos nenhuma crença em nenhuma cultura que coincida e concorde totalmente com
a afirmação de Darwin. Da perspectiva das crenças, a criação da vida é atribuída a um “ser criador”, a
algo externo e superior a toda a vida existente. Pois bem, para pensar como Darwin, e a maior parte dos
cientistas até hoje, esqueça suas crenças.

A ciência não reconhece como possível a existência de seres superiores que tenham dado origem
à vida, e muito menos entende que o ser humano é uma espécie “privilegiada” ou “superior”, seja pela
capacidade de raciocínio, seja pela capacidade de criar crenças.

Para os evolucionistas, todas as espécies vivas foram surgindo das transformações de outras já
existentes, dando origem a novas espécies, enquanto outras se extinguiram. Os primeiros humanos,
chamados cientificamente de hominídeos, surgiram das transformações de algumas famílias de símios
que fazem parte dos chimpanzés.

Lembrete

Veja: a ciência entende o desenvolvimento da vida biológica como


algo sobre o qual não cabe fazer juízo de valor. Ou seja, não existem
formas de vida “melhores” ou “piores”. Não existe uma hierarquia que
seja comprovável e que permita dizer que uma espécie seja “superior” às
outras.

31
Unidade I

Nossa espécie surgiu devido às mudanças biológicas e ao surgimento da cultura. Que mudanças
biológicas são essas que nos diferenciam dos símios? O aumento da caixa craniana que nos dotou de um
volume cerebral muitas vezes maior que o de um macaco. A postura ereta, que possibilita utilizarmos
apenas os membros inferiores para nos locomover. E o surgimento do polegar opositor, que possibilita
à nossa espécie a capacidade do chamado “movimento de pinça”. É a partir dessas três características
básicas que desenvolvemos inúmeras outras características fascinantes como a capacidade da fala ou,
ainda, de fabricar instrumentos para nossa sobrevivência.

Mas essas características como inteligência, fala e indústria não teriam surgido em nossos
ancestrais se não fosse a presença de um tipo de comportamento que ajudou a modelar o corpo
de nossos ancestrais, que é o comportamento baseado na cultura. Ou seja, a necessidade de
comunicação, cooperação e divisão de tarefas facilitou o desenvolvimento dessas características
biológicas.

• Características biológicas: forma, funcionamento e estrutura do corpo. É a nossa anatomia,


características herdadas biologicamente e que não são resultado da nossa escolha pessoal.

• Características culturais: todo comportamento que não é baseado nos instintos, mas
nas regras de comportamento em grupo que nos permite transformar a natureza para a
sobrevivência (trabalho), e nos permite atribuir significados e sentidos ao mundo por meio
dos símbolos (a cor branca, por exemplo, simboliza a paz, ou um tipo de vestimenta que
simboliza status).

Durante muito tempo pensou‑se que o ser humano já teria surgido plenamente dotado dessas
características em conjunto.

Hoje sabemos que nossa cultura foi determinante para modelar nossas características biológicas
ao longo do tempo, e vice‑versa. Nossos ancestrais foram lentamente se transformando em humanos,
e essa espécie que somos agora, foi aos poucos sofrendo pequenas transformações que ao longo de
milhões de anos nos diferenciaram totalmente de qualquer ancestral símio.

Há muitas questões importantes sobre a teoria da evolução e que parecem não ter resposta. A mais
comum, vamos lembrar? Se o homem evoluiu do macaco, por que o macaco não evoluiu?

É importante que você saiba que a teoria da evolução afirma que o ser humano e o macaco têm
um ancestral comum. Ou seja, os macacos evoluíram sim! Os macacos atuais não são os mesmos de
milhões de anos atrás. O que ocorreu, foi que um ancestral comum, deu origem a diferentes famílias de
símios, e cada uma delas se adaptou de forma distinta, gerando espécies distintas. Vamos ver uma figura
que ilustra bem isso?

32
HOMEM E SOCIEDADE

Figura 5

Você pode analisar nessa ilustração a lógica da evolução para a nossa espécie. Um mesmo animal,
que é esse desenhado mais próximo à base da árvore, deu origem a muitas famílias diferentes de
macacos. Aquela foto à direita, acima de nosso ancestral comum, é um Australopithecus afarensis, ou a
famosa Lucy, reconstituída digitalmente, pois temos apenas o esqueleto dela para recompor sua provável
aparência. Pois bem, e do Australopithecus afarensis que surgiram três outras espécies “modernas”: os
chimpanzés e os humanos.

Então, entre os Australopithecus afarensis e nós, alguns milhões de anos se passaram, até que nascesse o
primeiro homo sapiens. Há muitas outras famílias ancestrais que ocupam esse intervalo de tempo. Certo?

A questão evolutiva humana mais básica é:

Por que nossa espécie mudou tanto?

A resposta é que a biologia e a cultura colaboraram ao mesmo tempo para as grandes mudanças em
nossos ancestrais. Veja o esquema abaixo:

Quadro 1

Mudanças culturais:
- fabricar instrumentos;
- comunicação;
- trabalhar em grupo.
Novo estágio evolutivo:
- ser humano com maior
capacidade anatômica de
desenvolver mais cultura.
Mudanças biológicas:
- uso do polegar opositor;
- postura ereta libera laringe
para a fala;
- aumento da caixa craniana.

33
Unidade I

A necessidade de agir de forma cada vez mais humana (distante dos “macacos”) afeta a seleção
natural. A seleção natural permite que indivíduos mais preparados para que se tornem humanos
sobrevivam, acentuando o ritmo evolutivo.

No início da história humana, nossos ancestrais eram muito semelhantes a um macaco. Tinham mais
pelos no corpo, o cérebro era menor e a mandíbula maior. A postura não era totalmente ereta e as mãos
não tinham muita habilidade, pois o polegar ficava mais próximo dos outros dedos.

O tamanho do cérebro foi aumentando muito devagar, como também a postura ereta surgiu
gradualmente, e igualmente o polegar opositor não surgiu repentinamente. A cada geração, mudanças muito
sutis transformaram a espécie, e nesse processo a cultura teve um papel fundamental, pois possibilitou ou
exigiu que nosso ancestral desenvolvesse comportamentos capazes de mudar nossa estrutura biológica.

Exemplo: sabemos que o surgimento da fala tem relação com duas características que são a posição da
laringe resultante da postura ereta e a utilização das mãos para trabalhos de fabricação de instrumentos.
Ao fabricar os chamados instrumentos de “pedra lascada”, nossos ancestrais permitiram operações mais
complexas e passaram a utilizar uma área do cérebro, que é a mesma que nos permite falar.

Segundo uma grande quantidade de pesquisas arqueológicas, que consistem na teoria científica mais
aceita, a origem dos primeiros humanos ocorreu no continente africano entre 200 e 100 mil anos atrás.

Esse grupo teria começado sua migração para fora da África entre 65 e 50 mil anos atrás, povoando
os outros continentes. Nesse longo caminho, as famílias humanas foram adquirindo características
físicas diferentes em função tanto da necessidade de adaptação a novos meios, como pela combinação
da carga genética de cada grupo.

A evolução humana ou antropogênese é a origem e a evolução do Homo Sapiens como espécie


distinta de outros hominídeos, dos grandes macacos e mamíferos placentários. O estudo da evolução
humana engloba muitas disciplinas científicas, incluindo a antropologia física, primatologia, arqueologia,
linguística e genética.

Observação

O termo “humano” no contexto da evolução humana, refere‑se ao


gênero Homo, mas os estudos da evolução humana usualmente incluem
outros hominídeos, como os australopitecos. O gênero Homo se afastou
dos australopitecos há cerca de 2,3 e 2,4 milhões de anos na África. Os
cientistas estimam que os seres humanos ramificaram‑se de seu ancestral
comum com os chimpanzés – o único outro hominins vivo – cerca de 5‑7
milhões anos atrás. Diversas espécies de Homo evoluíram e agora estão
extintas. Estas incluem o Homo erectus, que habitou a Ásia, e o Homo
neanderthalensis, que habitou a Europa. O Homo sapiens arcaico evoluiu
entre 400.000 e 250.000 anos atrás (WIKIPEDIA).
34
HOMEM E SOCIEDADE

É importante compreender que nossa espécie não é fruto de coisas inexplicáveis, mas resulta de um
longo e lento processo de evolução, que significa mudanças ao longo do tempo. Essas mudanças, por
sua vez, são fruto de uma dura luta por parte de nossos ancestrais para sobreviver em condições pouco
favoráveis e convivendo com espécies mais fortes e predadores mais bem preparados fisicamente para
tal. Nossos ancestrais não tinham a mesma caixa craniana que temos hoje, e não eram tão inteligentes;
não tinham a postura totalmente ereta, e não viviam em cidades. Eram mais uma espécie entre tantas
outras, e o pouco que puderam fazer então determinou sua sobrevivência, e mais que isso, determinou
como somos hoje3.

Sobreviveram lascando uma pedra na outra para conseguir objetos pontiagudos e cortantes que
serviam como arma de caça, como raspador de alimentos ou qualquer utilidade para a vida humana.
Dormiam em cavernas, ao invés de fabricar abrigos. Durante muito tempo o domínio do fogo era um
mistério, portanto, não comiam muitos alimentos cozidos.

Nessa época não havia escrita, e os únicos vestígios de comunicação encontrados são as pinturas em
cavernas (arte rupestre) e pequenas estatuetas representando figuras femininas. Eram organizados em
bandos que praticavam caça e coleta, por isso, dependiam de deslocamentos constantes em busca de
alimento. Durante quase quatro milhões de anos sobreviveram dessa forma, e nesse período de tempo a
forma física foi se alterando, até que no chamado período Neolítico (Idade da pedra polida) houve uma
revolução.

A “revolução neolítica” foi um período marcante em nossa evolução, durante o qual o ser humano
desenvolveu técnicas determinantes para a história de nossa espécie:

• a agricultura;

• a domesticação de animais.

Essas mudanças no estilo de vida permitiram o sedentarismo; nosso ancestral humano começou a
construir abrigos e povoados ao invés de habitar em abrigos naturais como cavernas e rochas.

Principais mudanças que surgiram no período Neolítico – aproximadamente de 12.000 a 6.000 a.C.
• a sociedade se divide em camadas sociais;
• primeiras manifestações religiosas, crenças em divindades;
• sedentarismo;
• surgem a cerâmica e a tecelagem;
• surge o comércio e o uso de moeda (inicialmente eram sementes e não metal cunhado);
• começa a divisão sexual do trabalho, que determina as tarefas masculinas e as femininas;
• fundição de metais;
• surge a propriedade privada.
O período Neolítico termina quando surge o domínio da escrita.

3
Essas afirmações são baseadas em evidências como: achados fósseis e todo tipo de material arqueológico; pesquisas
do conjunto das ciências que estudam a história da vida em nosso planeta como a geologia, a biologia e a física.
35
Unidade I

Saiba mais

Você já assistiu a algum documentário que reconstitui a vida humana


nesse período? Ou algum filme? Há um clássico do cinema europeu, que
se chama A guerra do fogo. Nesse longa‑metragem, o diretor reconstrói
de forma ficcional, um momento de nossa evolução no qual diferentes
estágios evolutivos de seres humanos conviviam. Então ele mostra tribos
humanas que ainda não sabiam fazer o fogo, não tinham linguagem, viviam
em cavernas, e outras que já tinham uma cultura bem desenvolvida com
língua própria, aldeias com construções de cabanas, rituais, chefes e assim
por diante. É uma boa dica para você entrar em contato com essa história
muito inicial da humanidade.

Outra fonte para sua pesquisa na internet, se você quiser aprofundar seu
conhecimento nesse assunto, é o documentário produzido pelo Discovery
Channel:

HOMEM PRÉ‑HISTÓRICO:Vivendo entre as Feras. Direção: Pierre De Lespinois.


Produção: Discovery Channel. Estados Unidos: 2002. (100 min.) 1 DVD.

A agricultura e a domesticação de animais significaram a garantia de alimentação dos grupos


humanos, independentemente do sucesso na caça e na coleta. Isso permitiu à nossa espécie se fixar por
períodos prolongados em determinados lugares, formando aldeias o que colaborou para o crescimento
demográfico.

É nesse momento que o ser humano começa a trabalhar, e não mais viver da caça/coleta que o
tornava dependente dos recursos nos territórios habitados.

A introdução do trabalho como estratégia de sobrevivência depende de um padrão estabelecido em


nossa evolução, que se baseia em:

• divisão de tarefas;

• cooperação com o grupo;

• especialização.

Trabalhar dessa forma permite produzir mais do que o necessário para a sobrevivência, pois pode
estabelecer troca com outras comunidades humanas. Surge, então, a produção de excedentes.

Essas características são importantes, uma vez que possibilita que cada um de nós realize apenas um
tipo de tarefa. Não é possível produzir sozinho tudo o que necessitamos em nossa vida. Se a capacidade
36
HOMEM E SOCIEDADE

de trabalho, baseada nos princípios acima, não tivesse sido desenvolvida, provavelmente, nossos
ancestrais não teriam tido sucesso em sua evolução, e nenhum de nós estaria aqui hoje, compartilhando
a condição de seres humanos.

Leia o trecho abaixo em que o autor demonstra como o trabalho e os rituais coletivos são uma forma
de especialização desde o princípio da humanidade. E como esses atos implicam em uma relação de
ensino‑aprendizagem que se encontra “imersa”.

Durante quase toda a história social da humanidade a prática pedagógica


existiu sempre, mas imersa em outras práticas sociais anteriores. Imersa
no trabalho: durante as atividades de caça, pesca e coleta, depois, de
agricultura e pastoreio, de artesanato e construção. Ali os mais velhos
fazem e ensinam e os mais moços observam, repetem e aprendem. lmersa
no ritual: seja no enterro de um morto (os homens do paleolítico superior
já faziam isto com todo o cuidado), num rito de iniciação, ou em outra
qualquer celebração coletiva, as pessoas cantam, dançam e representam,
e tudo o que fazem não apenas celebra, mas ensina. E não ensina apenas
as artes do canto, da dança e do drama. Ritos são aulas de codificação
da vida social e de recriação, através dos símbolos que se dança, canta
e representa, da memória e da identidade dos grupos humanos. Imersa
nos diferentes trabalhos do viver o cotidiano da cultura: aparentemente
espontâneas e desorganizadas, as situações de brincadeiras de meninos, as
tropelias de adolescentes e as trocas do amor entre jovens são momentos
de trocas de condutas e significados, regidas por regras e princípios que,
aos poucos, incorporam à pessoa de cada um os códigos das diferentes
outras situações da vida social. Incorporam, no seu todo, a própria estrutura
simbólica da sociedade no universo pessoal de ideias, ações e sentimentos
de cada pessoa. (BRANDÃO, 1997).

Até os dias de hoje utilizamos essas habilidades de trabalho em grupo para viabilizar nossa existência
social. A capacidade de dividir tarefas, cooperar e se especializar permite atingir objetivos com resultados
mais efetivos e também possibilita um conjunto social com melhor qualidade de vida.

O conjunto de tudo que o grupo social produz torna viável uma existência cultural, nos libertando
da “lei da selva”. O trabalho humano se fundamenta em características básicas como comunicação e
cooperação4. Fixando‑se em um lugar, inaugurando o sedentarismo, o ser humano passa a viver em uma
sociedade organizada.

4
É sabido que muitas espécies trabalham de forma organizada e com divisão de tarefas especializadas. Esse é o caso
das abelhas e das formigas, por exemplo. A diferença entre o mundo animal e a humanidade, é que essas espécies agem
de acordo com seus instintos, já o Homem tem atitude intencional. A formiga cortadeira traz em seus genes a habilidade
para cortar; a abelha rainha já nasce rainha. Some a isso o fato de o trabalho dessas espécies estar regido pelo instinto
da sobrevivência, enquanto o Homem possui objetivos e intenções; temos visão de processo e capacidade de relacionar
eventos de ordens diferentes. Sobretudo, o ser humano tem capacidade de escolhas.
37
Unidade I

Mais alimentos disponíveis, mais segurança com as casas fabricadas, maior permanência do grupo,
isso tudo levou a uma maior reprodução da espécie. Tais condições permitiram aos nossos ancestrais
uma organização social mais complexa baseada na sociedade, e não mais em bandos. A comunicação
também sofre uma revolução que foi o surgimento da escrita.

A partir da escrita e do surgimento das grandes civilizações da Antiguidade, como Egito, Grécia e
China, conhecemos exatamente como a humanidade se desenvolveu. Os registros escritos permitem um
conhecimento detalhado da vida nessas sociedades.

Para chegar até as grandes civilizações, nossos ancestrais percorreram um longo caminho. Ele é o
resultado de um processo muito longo no tempo, e para os quais foram determinantes: a postura ereta,
a capacidade craniana, o polegar opositor e a aquisição da fala.

Nesse esquema abaixo, perceba como habilidades que são de ordens distintas colaboram para formar
o complexo fenômeno que denominamos humanidade.

Quadro 2

Postura ereta;
capacidade craniana;
polegar apositor;
aquisição da fala

Capacidade de dividir Comunicação através


tarefas, cooperar e de da fala e da escrita
se especializar

HUMANIDADE = sociedade
baseada em regras de
conduta ética, história e
inventidade

Humanidade é uma soma de características que unem habilidades físicas, comportamento coletivo,
valores e ética de mundo, e, enfim, a história de uma espécie.

Cada uma dessas características depende da existência das outras. São inseparáveis.

Entretanto, nenhuma dessas características nos valeria muita coisa se não tivéssemos desenvolvido
um tipo de comportamento baseado em regras de convivência social, divisão de grupos em parentesco,
divisão do trabalho e uma mente dotada de raciocínio lógico e abstrato ligado à criatividade e à
imaginação. Foram nossas capacidades de organização e comunicação que definiram tal resultado,
afastando nossa espécie do comportamento instintivo e determinando essa longa e rica viagem chamada
humanidade.

38
HOMEM E SOCIEDADE

Saiba mais

Caso você queira pesquisar um pouco mais sobre os estudos de


pré‑história, procure páginas de universidades no Brasil e Portugal (o idioma
amplia nossa possibilidade não é?).

Uma dica interessante é o jornal “Ciência Hoje”. Trata‑se de um jornal


de ciência, tecnologia e empreendedorismo, que divulga páginas dedicadas
à arqueologia e antropologia. Veja por exemplo, o noticiário disponível no
endereço: <http://www.cienciahoje.pt/58>.

2.3 A cultura do homem – uma espécie que troca e se organiza

Um antropólogo francês muito famoso, Claude Lévi‑Strauss, defende que a proibição do incesto
(relações sexuais entre indivíduos com parentesco próximo) foi a primeira “atitude cultural” do ser
humano, e que permitiu uma mudança fundamental no comportamento do animal humano: as trocas.

Que tipo de trocas?

Quando nós vamos às compras, trocamos dinheiro (valor) por mercadorias. Essa é uma
das muitas formas de troca que nos permite afirmar que o mundo do mercado é o mundo
das trocas. Mas o mundo do mercado e dos negócios só passou a existir a partir do momento
em que o ser humano, em sua evolução, começou a praticar esse tipo de atitude como algo
rotineiro. Então, é necessário que tenha havido um tipo de troca original, que fundou na
sociedade essa atividade como algo aceito por todos, como uma convenção. Foi necessário
fundar a lógica das trocas.

Vamos refletir sobre outras formas de troca para chegar à origem delas. Quando presenteamos
alguém, estamos fazendo uma “troca simbólica”: damos algo e recebemos amizade, consideração,
carinho. Muitas vezes, ao dar estamos sinalizando que esses sentimentos são mútuos. As trocas
simbólicas estão muito presentes em nosso dia a dia. Além dos presentes, podemos nos lembrar dos
cumprimentos que trocamos, das orações seguidas de pedidos, dos grandes e pequenos favores, entre
tantas outras.

Pois bem, as trocas foram determinantes na evolução de nossa espécie. Pense que antes de vivermos
em sociedade, éramos nada mais do que um “bando” de humanos. O bando tem como característica
o fato de ser uma coletividade, um ajuntamento sem grande organização e carente de laços que
o torne definitivo.

Quando um “bando” de humanos dependia apenas de seu próprio sucesso na coleta ou caça, as
coisas podiam se complicar em longo prazo. Muitos bandos humanos devem ter se extinguido por
dificuldades de sobrevivência, e em casos de diminuição demográfica intensa, por dificuldades também
39
Unidade I

de reprodução. Nesse período dos bandos, não existia mercado, e muito menos troca, o que dificultava
imensamente a sobrevivência, pois cada bando deveria assegurar apenas com seus recursos o abrigo e
os alimentos para todos.

Nossos ancestrais tiveram nesse ponto um momento crítico em sua evolução. De nada adiantaria
a postura ereta e as habilidades para fabricar instrumentos, se não houvesse também a evolução de
seu comportamento para uma nova forma de organização coletiva. Começa a surgir o comportamento
orientado pela cultura, ocupando o lugar dos instintos.

A seguir vamos relacionar todo esse processo de reciprocidade, troca e parentesco com a ideia
inicial de Lévi‑Strauss sobre o incesto ter sido, simbolicamente, a “primeira” regra cultural da
humanidade.

A proibição do incesto indica que em determinado momento da nossa evolução começou a existir a
noção de família e parentesco. Os outros mamíferos não possuem essa noção e, eventualmente, pode
haver cruzamentos entre irmãos ou entre pais e filhos.

Ao proibir o incesto, os bandos eram obrigados a abrir mão de suas fêmeas, pois muitas eram irmãs
ou filhas com quem já não era mais permitida e tolerada a relação sexual. Assim, eram obrigados a
“trocar mulheres” com outros bandos. Sim, segundo a Antropologia, as mulheres foram as primeiras
“coisas” trocadas pela humanidade, muito antes de qualquer mercadoria. Questão de sobrevivência, pois
sem sua presença não haveria descendentes.

As mulheres passaram, então, por uma grande mudança histórica em seu papel para o grupo humano,
pois serem trocadas implicava que os homens criariam laços de parentesco com o outro bando. Elas
passam a ser o que há de maior valor para a sociedade.5

“Se a minha irmã está casada com o guerreiro do bando vizinho, seus filhos serão meus sobrinhos,
e teremos uma convivência pacífica e solidária garantida por muito tempo; eu não os atacarei, eles não
me atacarão”. Assim, espalhando parentes por aí, as mulheres garantiram trocas que não se limitavam
a elas.

Trocando mulheres e formando grupos de parentesco, os bandos foram se transformando em


sociedade, organizando melhor a produção e a distribuição de alimentos e recursos.

É a regra da reciprocidade, característica de nosso comportamento, que orienta nossa conduta para
recompensar quem nos dá ou presenteia com alguma coisa. Portanto, a ideia de troca traz consigo a
ideia de reciprocidade, ou seja, devolver, de alguma forma, o que foi recebido.

5
A proibição do incesto como fenômeno humano tem muita importância, pois representa que nossa
espécie abandonou o impulso sexual instintivo. Vamos lembrar que os instintos básicos de sobrevivência de
qualquer espécie são: alimentação, abrigo e reprodução. O fato de o ser humano estabelecer uma noção moral
sobre os instintos indica a relevância de compreender cientificamente suas origens e seu impacto em nosso
comportamento.
40
HOMEM E SOCIEDADE

Observação

Recíproco (adj.) – que se faz ou que se dá em recompensa ou em troca


de algo similar; mútuo (HOUAISS, 2001).

Em qualquer situação na qual um indivíduo recebe algo de alguém, o mesmo se vê na obrigação de


retribuir. Essa é a verdadeira lógica da troca, e é o que chamamos reciprocidade. Os presentes dados em
aniversários e casamentos são retribuídos imediatamente com festas que envolvem a comensalidade
(camaradagem à mesa). Aos poucos são retribuídos com presentes dados por quem antes recebeu,
além, é claro, de servirem para reforçar os laços de amizade e solidariedade. Amizade e solidariedade
pressupõem troca.

Observação

A noção sobre os valores das coisas trocadas é muito contextual e


pode variar imensamente. A forma como aqueles que trocam se sentem
recompensados, muitas vezes, não faz sentido para quem não está
envolvido na situação. A noção de valor não é um dado objetivo: é
cultural, histórica, subjetiva e contextual.

A troca de mulheres proporcionou uma mudança histórica para a Humanidade. Os laços de


reciprocidade entre pessoas antes estranhas, que através do casamento se tornam solidários por toda
a sua vida. Isso é o parentesco – um grupo social solidário que garante aos seus membros não quebrar
o “contrato” de reciprocidade por qualquer desavença ou desacordo, como é possível entre parceiros/
sócios, amigos ou estranhos. A família – mesmo em tempos de mudança como agora – ainda é um grupo
de apoio mútuo e com forte solidariedade, que garante aos seus membros uma duração e permanência
muito maior do que laços eventuais com não parentes. Podemos abandonar um sócio ou amigo, mas é
muito mais raro e difícil abandonar um filho.

Bem, se quisermos fazer um exercício e perceber como até hoje o funcionamento do mercado utiliza
e se beneficia de nossas aptidões para a reciprocidade, vamos pensar sobre os programas de “fidelização”
incorporados por muitas empresas modernas. São promoções em que a empresa “presenteia” o cliente
com algum beneficio extraordinário, e em troca o cliente se torna fiel por mais tempo à marca ou ao
produto. Os resultados são bastante interessantes do ponto de vista dos empresários, tanto que esse tipo
de ação tem se tornado cada vez mais recorrente.

Lembrete

Evoluir não significa que certos traços de comportamento humano


“sumiram”. A maior parte de nossa lógica humana tem um fundamento,

41
Unidade I

que é muito antigo e vai apenas mudando de aparência ou se tornando


mais sofisticada.

Dinheiro, mercado e capitalismo dependem de fundamentos da lógica


humana, que são muito mais antigos que este fenômeno moderno.

Vamos retomar os aspectos mais importantes vistos neste tema. Compreender o processo da origem
e evolução de nossa espécie possibilita o entendimento de que todos nós somos resultado de um meio
social. De um indivíduo para outro encontramos pequenas diferenças biológicas, muitas delas dadas pela
herança genética que recebemos ao nascer, mas isso não é determinante de nosso comportamento.
Muito mais que genes, o meio social vai influenciar profundamente cada um de nós durante toda a
vida.

O ser humano depende do modelo encontrado no meio social como um reforço e uma rotinização
de comportamentos. Seguimos regras de comportamento coletivo, e, ao fazê‑lo, construímos a
sociedade.

Nossas capacidades de organização em grupos, divisão de tarefas, especialização em diferentes áreas


de atuação, planejamento e visão estratégica, flexibilidade de comportamento e adaptação a mudanças,
nossa tendência à reciprocidade nas trocas, foram determinantes na evolução de símios para seres
humanos.

Lembrete

• Para haver sociedade humana precisa haver parentesco e regras.

• Para haver parentesco precisa haver compromisso e responsabilidade


baseados em reciprocidade e troca (uns dão cuidados e recebem
carinho).

• Para haver mercado, emprego e produção de riqueza, é necessário


reconhecer regras, reconhecer a importância das trocas e contar com
a reciprocidade.

• Nada surge por acaso em nossa cultura.

Quando realizamos essas capacidades, mais que colocar em prática “dons naturais”, estamos
utilizando recursos evolutivos que determinaram a diferença entre o homem e todas as outras espécies
vivas. E, ao fazer isto, nossa espécie interfere nos futuros passos dessa evolução.

A organização social e a participação individual ativa e consciente definem que tipo de


sociedade se constrói dia após dia como modelo de referência para o conjunto de indivíduos do
grupo.
42
HOMEM E SOCIEDADE

Lembrete

As trocas podem finalizar em:

1 – reciprocidade equivalente (ou simétrica, ou igual) – quando o


que é trocado entre as pessoas possui igual valor;

2 – reciprocidade não equivalente (ou assimétrica, ou desigual)


– quando uma das partes não recebe o equivalente à sua dádiva, ao
que foi dado.

Concluindo, vivemos em sociedade porque somos capazes de nos organizar e seguir regras.
Nossa organização e a obediência às regras são um recurso evolutivo que nos capacitou na luta pela
sobrevivência.

Para realizar a sociedade dependemos uns do trabalho especializado dos outros, cujos produtos
precisam ser trocados constantemente. A lógica das trocas não é meramente a lógica do lucro, muitas
vezes trocamos coisas simbolicamente para poder manter laços de solidariedade e dar significado à
nossa sociedade, pois não somos peças em um mecanismo, somos humanos com necessidades afetivas
tanto quanto racionais.

Assim, a organização da sociedade humana é baseada em princípios bastante diferentes


das sociedades animais. As abelhas e formigas, também seres trabalhadores e organizados,
seguem simplesmente o instinto de sobrevivência. Uma formiga cortadeira jamais almejará ser
a rainha, e mesmo que tivesse desejo, seu aparelho biológico não permitiria. Os animais nascem
determinados a certas tarefas, e se adaptam ou não às condições de seu ambiente de acordo com
seu instinto.

No caso humano, a sociedade pressupõe não apenas organização para realizar tarefas, mas também
as necessidades subjetivas como realizar tarefas de acordo com a oportunidade de desenvolver
habilidades; os desejos e sonhos de crescimento pessoal; os objetivos que associam os lucros materiais
com a realização pessoal, e, acima de tudo, o sentimento de pertencer em algum momento a um grupo
de apoio, aceitação, defesa e que nos faz sentir um indivíduo único e insubstituível.

Lembrete

• A cultura é um conjunto complexo que organiza e dá sentido à vida


social.

• Mas mesmo pertencendo a um grupo, nossa individualidade tem seu


espaço.

43
Unidade I

• Em cada esfera da vida social – família, trabalho, lazer, religião –


podemos manifestar nossas características pessoais e nos realizar
individualmente.

Por isso, dividimo‑nos em diferentes esferas de participação social, tais como o mundo do trabalho,
do lazer, das amizades, da família e assim por diante. Em cada um deles realizamos diferentes tarefas, e
nos mantemos como membro participante por meio das trocas.

Observação

A seguir você pode ler um trecho de um antropólogo brasileiro


comentando sobre a diferença entre as sociedades animais e a humana,
destacando a importância das tradições culturais.

“...entre as formigas (e outros animais sociais) existe


sociedade, mas não existe cultura. Ou seja, existe uma
totalidade ordenada de indivíduos que atuam como
coletividade. Existe também uma divisão de trabalho, de
sexos e idades. Pode haver uma direção coletiva e uma
orientação especial em caso de acidentes e perigos – tudo
isso que sabemos ser essencial nas definições de sociedade.
Mas não há cultura porque não existe uma tradição viva,
conscientemente elaborada, que passe de geração para
geração, que permita individualizar ou tornar singular
e única uma dada comunidade relativamente às outras
(constituídas de pessoas da mesma espécie).

Sem uma tradição, uma coletividade pode viver ordenadamente,


mas não tem consciência do seu estilo de vida (DaMATTA,
2000).

Vamos compreender como a “lógica das trocas” está presente nas culturas humanas?

No trabalho trocamos tarefas realizadas por salário, e temos oportunidade de realizar certos aspectos
psíquicos como empenho, desafios e reconhecimento.

No mundo do lazer trocamos experiências que podem ser práticas ou de sociabilidade6 para
recebermos o tempo livre como forma de descanso e complemento das relações sociais.

6
Sociabilidade – característica do que é sociável; prazer em levar vida em comum, inclinação a viver em companhia
dos outros; domínio e exercício das regras de boa convivência; civilidade; afabilidade; urbanidade. Fonte: Dicionário Houaiss
da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
44
HOMEM E SOCIEDADE

Já no complexo mundo da família, considerada a célula fundamental da sociedade, tudo que há


na vida coletiva se realiza de forma intrincada: investimos uns nos outros – tempo, recursos materiais,
educação, carinho e dedicação para garantirmos laços indissolúveis que nos realizam como indivíduos.
O que há de intrincado na família é que esses investimentos mútuos normalmente são desiguais, pois a
noção de valor tende a ser mais afetiva.

Os princípios humanos que nos fazem estabelecer trocas e relações de reciprocidade permitem a
cada indivíduo estabelecer um maior equilíbrio entre as condutas individualistas e as altruístas7.

Se agíssemos o tempo todo apenas pensando de forma individualista, não realizaríamos uma grande
parte de nossas necessidades materiais e emocionais.

Sem organização não há sociedade, e sem trocas não há humanidade.

Observação

Por que a antropologia afirma que a proibição do incesto é importante


para entender a cultura humana?

O humano é a única espécie que tem como princípio em seu


comportamento sexual/reprodutivo evitar contato com pessoas que são
consideradas parente. É uma regra universal. Mas essa proibição não atinge
todas as culturas da mesma forma, pela simples razão de que a atribuição
de parentesco não é universal.

A consanguinidade biológica não é o único fator para afirmar quem é


ou não parente entre si.

Leia ao trecho a seguir:

A proibição do incesto: passagem da natureza para a cultura

Dois dos mais influentes pensadores do século XX procuraram dar uma


resposta à questão sobre a regra fundadora da cultura: Claude Lévi‑Strauss
e Sigmund Freud – ainda que fundadores de escolas de pensamento tão
distintas, como a antropologia estruturalista e a psicanálise, e partindo de
pressupostos teóricos diversos – reconheceram na proibição das relações
sexuais incestuosas a regra que é o principio de uma ordem que leva o

7
Altruísmo – segundo o pensamento de Comte (1798‑1857), tendência ou inclinação de natureza instintiva que
incita o ser humano à preocupação com o outro. Ação antagônica dos instintos naturais do egoísmo, Fonte: Dicionário
Houaiss da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
45
Unidade I

ser humano a superar suas condições naturais de existência, resultando no


surgimento da cultura como condição da espécie (PASSADOR, 2005).

Síntese

Somos resultado de uma longa evolução que modelou nossas características biológicas e nosso
comportamento em grupo. Somos seres naturalmente gregários, precisamos conviver em grupo para
sobreviver. A cultura representou uma conquista evolutiva importante em nossa espécie, e é por meio
dela que podemos realizar plenamente nossas potencialidades humanas que envolvem as trocas sociais,
a organização coletiva e o comportamento baseado em regras e não no instinto.

A organização social do trabalho e os princípios que orientam nossa conduta para uma parcela
maior de coletivismo e menor de individualismo são importantes traços das culturas humanas.

Você já deve ter ouvido falar em diferentes formas de organização coletiva do ser humano.
Termos como “bando”, “tribo”, “grupo”, “comunidade”. Alguns estudiosos conceituam esses termos
para diferenciar coletividades humanas com menor ou maior rigor de regras de participação ou
de envolvimento pessoal. Independente da teoria sociológica ou antropológica mais específica, é
interessante que você saiba distinguir no seu dia a dia essas diferentes formas de agregação social.
Há um interessante trecho abaixo o qual torna muito fácil identificar agrupamentos comuns do
cotidiano. Leia:

Hordas – os corredores de supermercado, num sábado à tarde, são um bom


exemplo de horda. Grupamento de pessoas que não têm vínculo entre si,
não se relacionam, nem desempenham papéis interativos.

Bandos – aglomerados de pessoas que têm alguma interação e papéis


complementares, há regras rígidas e não se permite alteração. O Congresso
Nacional e os torcedores em um estádio de futebol são exemplos.

Grupos – certamente, sua equipe de trabalho é um exemplo perfeito de


grupo. Uma união de pessoas, onde há troca de papéis e objetivos comuns,
alem de dinâmica flexível. Na atualidade, a palavra grupo tem sido substituída
por equipe ou time ou team, entretanto, entendo que a definição é a mesma
(FAILDE, 2007, p. 55).

E quanto às “comunidades virtuais” que estão tão fortemente presentes em nossa vida hoje? Existem
as comunidades da internet, pessoas que se comunicam virtualmente, as redes sociais, e todo um
universo de comunidades que não possuem um território, não compartilham o cotidiano real, não se
relacionam face a face, mas possuem vínculos, não é mesmo?

Se você quer entender o termo, vai perceber que tem muita relação com a noção de reciprocidade,
e abaixo há um trecho bem interessante. Se você quiser aprofundar a leitura, vá ao link indicado na
referência.
46
HOMEM E SOCIEDADE

Segundo Lévy (1999) e Palloff & Pratt (1999), uma comunidade virtual
é formada a partir de afinidades de interesses, de conhecimentos, de
projetos mútuos e valores de troca, estabelecidos num processo de
cooperação. Elas não são baseadas em lugares e filiações institucionais,
muito menos em “obrigações”, sejam elas de que tipo forem. Um curso
não é “concluído” por um aluno, “porque sim”. Para que este o conclua é
necessário que tenha algum envolvimento, motivação etc. E esta motivação
deve ser bem mais consistente do que uma ordem de um superior.
Lévy (1999), afirma que nas comunidades virtuais de aprendizagem, as
relações on‑line estão muito longe de serem frias. Elas não excluem as
emoções. Entre os participantes de comunidades virtuais também se
desenvolve um forte conceito de “moral social”. Uma espécie de código de
conduta, um conjunto de leis não escritas, que governam suas relações,
principalmente com relação à pertinência das informações que circulam na
comunidade. Ou seja, não é necessário impor o que “pode” e o que “não
pode” em uma comunidade. Ela mesma se autorregula, se organiza. Se não
for assim, não é uma comunidade...

A “moral” de uma comunidade virtual é a da reciprocidade, ou seja,


se aprendemos algo lendo as trocas de mensagens, é preciso também
expressar o conhecimento que temos quando uma situação problema ou
questionamento for formulado. A responsabilidade de cada um envolvido
no processo, a opinião pública e seu julgamento aparecem naturalmente (e
bem claramente!) no ciberespaço, pois, durante os processos de interação,
os participantes ativos constroem e expressam competências, que são
reconhecidas e valorizadas de imediato pela própria comunidade. Líderes
surgem naturalmente. Papéis são assumidos claramente. Há o ‘implicante’,
o ‘contestador’, o ‘meigo’, e esse papéis, todos, fazem parte e constituem a
comunidade (SAMPAIO‑RALHA, 2006).

Na cultura humana, todos os elementos se relacionam formando um sistema. Por isso, as noções morais
de responsabilidade e reciprocidade são reforçadas nas relações de parentesco e podem ser compreendidas
como uma lógica que permite as trocas presentes também nas relações comerciais e produtivas.

Você percebe que os “elementos da cultura funcionam como sistema”? Se está um pouco complicado
compreender essa ideia, vamos exercitar alguns exemplos? A antropologia afirma que a cultura é uma
totalidade composta de elementos. É como se fosse um grande conjunto, certo? Pois bem, a primeira
coisa a se compreender é que existe uma lógica entre as partes, que é o que chamamos de “elementos”.
Um elemento “afeta” os outros. O sistema precisa ter uma lógica, uma coerência. Então, os valores que
sustentam a família, as relações recíprocas de afeto e responsabilidade, atuam também em nossa vida
fora de casa. E vice‑versa.

Para dar outros exemplos: nossas leis e normas de conduta social não podem ser totalmente
contrárias aos nossos valores morais e tradições, não é mesmo? Assim, a lei não pode nos
47
Unidade I

obrigar a fazer coisas que não concordamos. Em uma sociedade poligâmica (que existe
tradicionalmente a aceitação do casamento com mais de uma pessoa), seria incoerente a
lei obrigar à monogamia, ou seja, a fidelidade conjugal. Já em uma sociedade de tradição
monogâmica, a lei não pode obrigar as pessoas a terem mais de uma esposa, ou mais de um
marido. Não é mesmo?

Tudo na cultura funciona assim. Tem que haver uma coerência, e os elementos não são totalmente
autônomos e desconectados uns dos outros. Consegue perceber agora?

Saiba mais

Sugestão de leitura:

GUERRIERO, S. As origens do antropos. In: Antropos e psique: o outro e


sua subjetividade. São Paulo: Olho d´Água, 2005.

Sugestão de sites para leituras complementares:

Tema – A evolução humana

WIKIPEDIA. Evolução humana. Disponível em: <http://pt.wikipedia.


org/wiki/Evolu%C3%A7%C3%A3o_humana>. Acesso em: 19 abr.
2011.

VITÓRIA, P. Evolução humana. 18 slides. 2008. In: SCRIBD INC. Scribd.


Disponível em: <http://www.scribd.com/doc/6454529/Evolucao‑Humana>.
Acesso em: 19 abr. 2011.

Tema – A primeira brasileira (Luzia)

SOARES FILHO, N. DNA do Homem de Lagoa Santa já foi extraído dos


ossos. LAGOA SANTA. Lagoa Santa na internet. Disponível em: <http://www.
lagoasanta.com.br/homem/index.htm

TEICH, D. H. A primeira brasileira. Veja. 1999. Disponível em: <http://


veja.abril.com.br/250899/p_080.html>. Acesso em: 19 abr. 2011.

Tema – A história do Paleolítico ao Neolítico

GUIA, L. Do Paleolítico ao Neolítico. In: NOTA POSITIVA. Nota positiva.


Disponível em: <http://www.notapositiva.com/trab_professores/textos_
apoio/historia/dopaleoaoneol.htm>. Acesso em: 19 abr. 2011.

48
HOMEM E SOCIEDADE

3 O SENSO COMUM E A CIÊNCIA ANTROPOLÓGICA EXPLICAM A CULTURA

Objetivos

A cultura determina hábitos e rotinas, conceitos e formas de encararmos o mundo. Cada povo
desenvolve um conjunto diferente de formas de pensar o mundo e de agir, e o resultado é que para uma
mesma situação temos tantas soluções e julgamentos de acordo com quantas culturas existirem.

E a cultura não muda apenas de um lado do mundo para o outro, Oriente e Ocidente. Ela muda de
uma região para outra dentro de um mesmo país, e muda, até mesmo, de uma cidade para outra na
mesma região.

De um lugar para outro, quando muda a cultura, muda também a forma como o ser humano interfere
na natureza para utilizar seus recursos, mas mudam também os conceitos por meio dos quais pensamos
sobre o mundo material e os sentimentos.

A palavra “cultura” é usada com diferentes significados, conforme o contexto. Podemos encontrá‑la
em nosso dia a dia, fazendo parte da forma como tratamos os outros e reagimos a certas situações.
É possível lembrar algumas frases que ouvimos repetidamente no cotidiano, onde aparece a palavra
“cultura”. Refletir sobre seus significados rotineiros pode revelar os valores presentes em nossas relações
sociais.

Mas não é só em nosso dia a dia que essa palavra pode ser encontrada. Cultura é o conceito central
da ciência antropológica, em que há um significado que enfatiza outros aspectos bem diferentes desse
cotidiano e possibilita um tipo de visão sobre o ser humano e suas relações bem diferente do uso
comum.

Nosso objetivo, ao confrontar esses dois usos da palavra cultura, é ultrapassar as armadilhas e os
limites provocados pelo preconceito que o senso comum pode nos conduzir. O preconceito presente
no senso comum não proporciona oportunidades para que as pessoas resolvam problemas e situações
sociais instaladas por choques culturais ou qualquer outro fenômeno. Ele nos faz, simplesmente,
rejeitar os outros e impede a reflexão produtiva socialmente sobre essas situações. Apenas por meio
do pensamento reflexivo e da aceitação de novos valores e verdades podemos superar a atitude
preconceituosa e conduzir a soluções dinâmicas e originais. Para isso, confrontar nosso conhecimento
comum com o científico pode ser valioso.

Introdução

Na maior parte do tempo o ser humano tende a agir em situações cotidianas de acordo com rotinas
que aprendemos a repetir mecanicamente, sem questionar muito o porquê de cada uma delas. Quem
nos ensina esses hábitos é o chamado senso comum. Ter reações que proporcionam soluções imediatas
para situações cotidianas é uma das funções do senso comum. Saber avaliar prontamente uma atitude
como correta ou errada, ou ainda, saber técnicas rotineiras de como cozinhar, como tomar banho, como
arrumar uma casa fazem parte de seu repertório.
49
Unidade I

Chamado pelos pensadores e intelectuais de “filosofia do povo”, e popularmente de “escola da vida”,


nem sempre o senso comum nos proporciona soluções eficientes no que se refere aos contatos sociais.
É de responsabilidade do senso comum o conjunto de preconceitos e ideias equivocadas sobre questões
complexas cuja polêmica exigiria reflexão, interação e ponderação.

Conhecendo o que o senso comum afirma sobre o conceito de cultura e confrontando com um
oposto a ele, que é a ciência, temos a oportunidade de abrir espaço para essa reflexão.

É importante no mundo atual, que os indivíduos adquiram sempre maior capacidade crítica. Essa
capacidade crítica deveria ser mais aplicada em nossas experiências cotidianas, e não apenas nos estudos
e na formação profissional. Isso porque muitas vezes é nos contatos mais rotineiros que podemos definir
resultados de processos, e é muitas vezes na capacidade crítica de perceber essas rotinas que podemos
planejar, redirecionar e avaliar de forma mais eficiente e consistente. Por isso, ao discutir o conceito de
cultura, devemos manter essa perspectiva de aprendizado, levando‑o do cotidiano e estendendo até a
literatura antropológica.

Principais conceitos

Cultura e socialização, senso comum, ciência, civilização, valores, simbolização, diversidade


cultural.

3.1 A cultura explicada pelo senso comum

A palavra cultura é utilizada em nosso dia a dia com significados diferentes. Por causa desse uso
definimos e julgamos pessoas e povos, situações vividas e criamos heróis admirados e respeitados. A essa
capacidade das pessoas de aplicarem palavras e conceitos para explicar algo que viveram, sem recorrer
a livros, instrução ou reflexão, chamamos senso comum. A seguir, discutiremos algumas utilizações do
nosso senso comum e suas implicações.

Vamos ver em que situações diárias o conceito cultura surge, e o que ele vem a significar em cada
um dos casos. Quando ouvimos alguém pronunciar a frase: “Fulano tem muita cultura”, o que isso
significa? A capacidade de ter acumulado conhecimentos por meio da chamada “cultura letrada” (livros
e instrução) foi atribuída a uma pessoa. Assim, “ter cultura” significa ter estudado muito e dominar
uma grande variedade de temas e áreas do conhecimento letrado. Segundo esse tipo de raciocínio, são
poucas as pessoas que “têm muita cultura”, enquanto a maioria delas se classificaria como tendo “pouca
cultura” ou sendo “sem cultura”. O que podemos perceber nesse uso do conceito de cultura é que ele
serve para criar distinção entre pessoas “especiais” e o restante delas que, por muitas razões, não tiveram
acesso ao mesmo tipo de instrução letrada.

Isso é criar uma hierarquia, na qual uma minoria está ocupando posições superiores e uma maioria
está ocupando posições inferiores. Nesse caso, a cultura é algo que pode ser adquirida em maiores ou
menores quantidades, e é isso que vai determinar o julgamento que se faz dos outros. Normalmente as
pessoas utilizam essa ideia para julgar pessoas ou povos. “Que povo sem cultura!” é uma frase recorrente
e que reproduz essa mesma ideia. Quando utilizam esse tipo de julgamento, as pessoas querem dizer,
50
HOMEM E SOCIEDADE

na verdade: “Que povo sem a minha cultura!”, assim, cada vez que não encontramos nos outros o que
achamos certo, achamos por bem apontar que os outros são errados.

Essa definição de cultura, que pode ser encontrada no senso comum, recebeu muita influência da
tradição francesa do século XVIII, quando o conceito de cultura passou a ser associado à “civilização”
e às “letras”. Para os pensadores franceses daquela época era correto pensar que algumas pessoas ou
povos tinham “civilização” e, portanto, cultura. A ideia de cultura estava para eles associada aos hábitos
de sua própria elite; e algumas pessoas ou povos não tinham civilização, pois careciam das influências
de comportamento e pensamento da intelectualidade francesa e nesse caso, deveriam ser educados e
submetidos à boa “educação / civilização”. Tanto o senso comum de hoje quanto essa herança francesa
veem a cultura como algo que deve ser adquirido, por meio, por exemplo, de boas condições financeiras.
Você vai perceber em um conteúdo mais adiante, que essa noção do senso comum para definir o que é
cultura, tem muita relação com o que hoje é classificado como “cultura erudita”. Mas isso será mais bem
explicado depois. Por enquanto é importante que você entenda que de acordo com o senso comum, a
cultura diferencia as pessoas: as que a têm, daquelas que não a têm.

Uma segunda situação é quando nos referimos às culturas de outros povos, em frases como: “no
costume deles é assim”. Nesse caso, as pessoas comparam situações nas quais elas não agiriam da mesma
forma, mas tentam justificar a atitude de outra(s) pessoa(s). Nesse segundo caso, a cultura é associada a
costumes diferentes, com os quais as pessoas tentam um diálogo, seja para aprovar como para reprovar.

Como a Antropologia define o conceito de cultura?

3.2 O conceito antropológico de cultura

Antropologia é uma ciência dedicada ao estudo do Homem. O radical latino “anthropos” significa
Homem, e “logia” significa estudo. Surgiu no século XIX, empenhada em aprofundar o conhecimento
científico sobre as “sociedades primitivas” (como eram chamadas as tribos e os povos não europeus – os
nativos das Américas, Austrália e África). Para explicar a grande diferença de comportamento entre esses
povos e os povos europeus, a Antropologia acabou se concentrando no conceito de cultura.

Atualmente, essa ciência não estuda apenas as tribos ou pequenas comunidades distantes dos centros
desenvolvidos, mas qualquer ambiente social. Isso ocorreu, pois ficou comprovado que a diversidade
cultural não gira apenas em torno de “povos primitivos” e “povos civilizados”, mas está em toda parte
onde haja contato entre dois povos que cultivam costumes e valores diferentes.

Em nossa história, com o início da chamada “globalização”, o contato entre pessoas e organizações
com diferentes referenciais de mundo e diferentes culturas intensificou‑se num ritmo frenético. Por
isso, compreender o conceito científico de cultura é tão importante.

Anteriormente, apresentamos a primeira conceituação de cultura na Antropologia, feita por Edward


Tylor, no final do século XIX. Retomando, vimos que esse autor definiu cultura como “um conjunto
complexo que inclui os conhecimentos, as crenças, a arte, a lei, a moral, os costumes e todas as outras
capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade”.
51
Unidade I

Após essa definição seguiram‑se muitas outras, e hoje podemos encontrar centenas de formas
diferentes para fazer referência ao mesmo conceito. Mas, por que a Antropologia não chega a uma
definição única para esse fenômeno? Porque a cultura, como um fenômeno humano complexo, permite
ao cientista abordar suas manifestações a partir de diferentes ângulos. Assim, os autores que dão maior
importância aos atos práticos das culturas, como o trabalho e a tecnologia, definem cultura de um jeito.
Já para os autores que apontam que o importante mesmo, nas culturas humanas, é revelar a capacidade
de nossa espécie em interpretar e comunicar suas experiências por meio dos símbolos, a definição de
cultura é outra.

Vamos, então, ver a definição de cultura feita por alguns dos principais autores, para compreender
a complexidade do tema.

Franz Boas (1930) – “A cultura inclui todas as manifestações dos hábitos sociais de uma comunidade,
as reações do indivíduo na medida em que são afetadas pelos costumes do grupo em que vive, e os
produtos das atividades humanas na medida em que são determinados por tais costumes”.

B. Malinoswki (1931) – “Esta herança social é o conceito central da antropologia cultural (...).
Normalmente é chamada de cultura na moderna antropologia e nas ciências sociais. (...) A cultura inclui
os artefatos, bens, procedimentos técnicos, ideias, hábitos e valores herdados. Não se pode compreender
verdadeiramente a organização social senão como uma parte da cultura”.

W.H. Goodenough (1957) – “A cultura de uma sociedade consiste em tudo aquilo que se conhece
ou acredita para influenciar de uma maneira aceitável os seus membros. A cultura não é um fenômeno
material: não consiste em coisas, pessoas, condutas ou emoções, mas em uma organização de tudo isso.
É a forma das coisas que as pessoas têm em sua mente, seus modelos de percebê‑las, de relacioná‑las
ou de interpretá‑las.”

Clifford Geertz (1966) – “Se compreende melhor a cultura não como complexos de esquemas
concretos de conduta – costumes, usos, tradições, conjuntos de hábitos – mas sim como planos, receitas,
fórmulas, regras, instruções (o que os engenheiros de computação chamam de ‘programas’) e que
governam a conduta”.

Clifford Geertz (1973) – “Cultura é um sistema simbólico, característica fundamental e comum da


humanidade de atribuir, de forma sistemática, racional e estruturada, significados e sentidos às coisas
do mundo”.

M. Harris (1981) – “A cultura se refere a um corpo de tradições sociais adquiridas que aparecem de
forma rudimentar entre os mamíferos, especialmente entre os primatas. Quando os antropólogos falam
de uma cultura humana, normalmente se referem ao estilo de vida total, socialmente adquirido, de um
grupo de pessoas, que inclui os modos pautados e recorrentes de pensar, sentir e atuar”.

Anthony Giddens (1989) – “Cultura se refere aos valores que compartilham os membros de um
grupo, às normas que estabelecem e aos bens materiais que produzem. Os valores são ideais abstratos,
enquanto que as normas são princípios definidos ou regras que as pessoas devem cumprir”.
52
HOMEM E SOCIEDADE

Nas diferentes colocações acima o que há em comum é a tentativa de abarcar todas as realizações
humanas, representadas em dois níveis complementares que são as realizações materiais e as imateriais.
Entre as realizações materiais podemos citar todo o universo de coisas fabricadas pelo ser humano, de
arados até ônibus espaciais. Entre as imateriais estão nossas crenças, conhecimento, arte, ideias e todos
os sentimentos.

Os autores que enfatizam os aspectos materiais argumentam que eles são importantes uma vez
que somos a única espécie a transformar a natureza de forma sistemática, mesmo quando não haja
necessidades que afetem a sobrevivência.

Outros autores, entretanto, entendem que as maiores realizações humanas estão contidas
nos aspectos imateriais, uma vez que somos a única espécie dotada de capacidade de abstração
(pensar em coisas que não estão presentes, criar, imaginar). Mas não usamos essas capacidades
realizadoras de qualquer forma, e sim de acordo com regras, normas e hábitos estabelecidos
coletivamente.

Podemos dividir todas as definições vistas em dois grandes grupos, conforme sua “concepção de
homem”.

Saiba mais

Se você quiser ler um pouco mais sobre as diferentes “escolas” que


trabalham como o conceito de cultura, tente os links abaixo:

SILVA, V. G. da. Antropologia. In: USP – FFLCH. Faculdade de Filosofia


Letras e Ciências Humanas. Disponível em: <www.fflch.usp.br/da/vagner/
antropo.html>. Acesso em: 19 abr. 2011.

CARNEIRO, P. N. Uma antropologia da cultura I: a antropologia. 2009.


In: WEBARTIGOS. Webartigos.com. Disponível em: <http://www.webartigos.
com/articles/13428/1/Uma‑Antropologia‑da‑Cultura‑I‑A‑Antropologia/
pagina1.html#ixzz1Jo18d654>. Acesso em: 19 abr. 2011.

O homem como produtor do mundo material

Aqueles que dão maior importância às nossas realizações materiais procuram ressaltar a nossa
capacidade adaptativa, mostrando a cultura como sendo uma forma de solução da sobrevivência, em
que grupo social, recursos e meio ambiente se combinam para determinar os hábitos de um povo. Para
eles, as técnicas desenvolvidas para solucionar todos os tipos de empresa humana, que vão de uma
simples pescaria às necessidades comunicativas, passando por todo tipo de engenhos que nos cercam é
que definem propriamente a cultura. Aqui, podemos dizer que cultura equivale a soluções práticas para
a existência humana.

53
Unidade I

O homem como produtor do mundo imaterial

Outros autores entendem que a solução prática para a vida humana é uma consequência de outras
capacidades, que muito mais do que nos fazer capazes de fabricar instrumentos, nos faz diferentes de
todas as outras espécies existentes. São as capacidades de criar, planejar, prever, avaliar, imaginar, atribuir
significado e modificar a natureza não apenas por necessidade de sobrevivência, mas por necessidade de
se sentir bem. A isso chamamos de capacidade de simbolização.

Não construímos o mesmo tipo de prédio para servir a qualquer uso, pois para cada fim
encontramos uma arquitetura. Não é apenas pelos aspectos práticos que o fazemos, mas porque
cada espaço deve carregar significados que orientem os indivíduos e os faça compreender como
devem se comportar.

Os templos são diferentes dos teatros, as casas são diferentes dos escritórios (ou pelo menos deveriam
ser). A funcionalidade de cada um desses espaços é tão importante quanto o que nos faz sentir por meio
de suas formas e cores. As formas de nossa casa nos transmitem sensações de pensamentos diferentes
de um escritório ou de um templo, por causa dos símbolos que criamos para cada um deles. Para os
autores que defendem a preponderância desse aspecto, cultura equivale à nossa incansável capacidade
intelectiva de carregar o mundo de símbolos e seus significados.

Lembrete

Respostas às necessidades práticas, ou respostas às necessidades


intelectivas, a cultura é sempre uma forma de estarmos no mundo. Ela nos
orienta em cada situação da vida social, como um modelo que recebemos e
sobre o qual passamos a vida operando pequenas modificações.

Vamos ver mais adiante, que algumas regras presentes nas culturas podem ser modificadas,
suprimidas, desgastadas; enquanto outras são mais difíceis de negociar. “É assim, e pronto”. Ou seja, há
aspectos mais dinâmicos e outros mais permanentes em cada cultura.

Concluindo essa discussão, entre todas as definições de cultura que foram apresentadas, atualmente
há uma ênfase maior em torno de nossa capacidade de simbolização. Temos necessidades tão importantes
quanto a sobrevivência orgânica e a reprodução da espécie, que são necessidades psíquicas, intelectuais,
espirituais, ou como você prefirir chamá‑las. Não somos apenas um “animal fabril”, somos um “animal
simbólico”.

Leia o trecho em que Laraia cita um famoso antropólogo americano, Leslie White, para demonstrar
a importância da capacidade de simbolizar para a espécie humana.

Todo comportamento humano se origina no uso de símbolos. Foi o símbolo


que transformou nossos ancestrais antropóides em homens e fê‑los humanos.
Todas as civilizações se espalharam e perpetuaram somente pelo uso de
54
HOMEM E SOCIEDADE

símbolos. Toda cultura depende de símbolos. É o exercício da faculdade de


simbolização que cria a cultura e o uso de símbolos que torna possível a sua
perpetuação. Sem o símbolo não haveria cultura, e o homem seria apenas
animal, não um ser humano. O comportamento humano é o comportamento
simbólico. Uma criança do gênero Homo torna‑se humana somente quando
é introduzida e participa da ordem de fenômenos superorgânicos que é a
cultura. A chave deste mundo, e o meio de participação nele, é o símbolo
(WHITE, L. apud LARAIA, 2006).

Vamos retomar a visão do senso comum a respeito de cultura. No uso cotidiano, cultura é um bem
que pode ser adquirido, acumulado e, assim, distinguir as pessoas umas das outras. “Fulano tem muita
cultura.” Essa frase exemplifica a ideia do senso comum.8

Lembrete

Explicando melhor

Esse uso do senso comum que atribui mais ou menos culturas às


pessoas e sociedades humanas não está “errado”. É uma das formas
como a palavra cultura é entendida e explicada pelas pessoas em geral.
O importante é perceber que a ciência não utiliza esse conceito do
mesmo jeito.

Na ciência esse pensamento é considerado equivocado. Se cultura é algo que define nossa espécie,
não existe ser humano que tenha ou não cultura, como não existe ser humano que tenha mais cultura
que os outros. A cultura é algo que se realiza na vida social, que define a qualidade que essa convivência
vai adquirindo, em um processo que nunca cessa. Portanto, não existe um povo que tenha “mais cultura”
ou uma “cultura mais avançada”.

Saiba mais

Se você quiser ler um pouco mais sobre essas duas concepções bem
diferentes do conceito de cultura, tente o link abaixo.

SCHILLING, V. Antropologia, ciência recente. In: TERRA. Cultura e


pensamento. Disponível em: <http://educaterra.terra.com.br/voltaire/
cultura/2002/06/07/001.htm>. Acesso em: 19 abr. 2011.

8
A noção do senso comum sobre a cultura tem uma origem, que pode ser apontada a partir do século XVIII, quando
a palavra cultura passou a ser compreendida como sinônimo de “erudição”, ou seja, uma pessoa que cultiva o estudo e o
domínio da cultura letrada, que constitui os estudos de um conhecimento especializado.
55
Unidade I

Por que é incorreto afirmar que há culturas evoluídas e culturas atrasadas?

Para afirmar isso, teríamos que escolher entre todas as culturas humanas, uma única que fosse tomada
como medida e parâmetro para julgarmos todas as outras. E, cientificamente, isso não é possível.

Afirmar que a cultura do povo norte‑americano é a melhor, por exemplo, significa colocar um único
povo no centro da história e afirmar que todos os outros deveriam seguir seu modelo, em todos os seus
aspectos descritos acima como valores, ideias, soluções práticas etc.

Então, aqueles que mais se aproximam da cultura deles seriam “avançados”, e aqueles que estivessem
perdendo a corrida para se assemelhar seriam “atrasados”. Isso é um pensamento equivocado, pois será
que a cultura tomada em sua totalidade pode ser julgada “boa” ou “avançada”?

Em todas as culturas há aspectos que alguns podem considerar como “bons”, mas outros podem julgar
como “ruins”. Não há uma cultura “perfeita”, mesmo porque a perfeição é um conceito relativo. Correto?

Ao fazer julgamentos sobre uma cultura, o senso comum não esclarece quais foram os critérios
morais ou da ordem da razão e que orientaram as conclusões.

Quando uma única cultura passa a ser modelo e referência para o comportamento de todas as outras, o
que temos não é um consenso. Mas, sim, um problema. Julgar de forma preconceituosa uma cultura pode
levar a atos de intolerância e conflitos que poderiam ser evitados e solucionados de outras formas.

Evolucionismo social ou darwinismo social

A ideia presente no senso comum e que faz com que as pessoas julguem culturas e indivíduos como
portadores de mais ou de menos cultura é consequência de uma teoria científica do século XIX, que
ficou conhecida como evolucionismo social ou, ainda, darwinismo social.

Essa teoria surge em função do impacto da teoria da evolução de Charles Darwin para explicar a transformação
da vida em nosso planeta ao longo do tempo. Fundada em conceitos da biologia, essa teoria adquiriu tanta
importância que passou a ser um paradigma, ou seja, influenciou todo o pensamento da época.

O antropólogo inglês Lewis Henry Morgan e o filósofo, também inglês, Herbert Spencer são alguns
dos responsáveis pela incorporação das ideias darwinistas às ciências humanas.

Esses e outros autores começaram a utilizar a teoria da evolução como forma de explicar a diversidade
cultural. Assim, da mesma forma como os seres vivos evoluem, também as sociedades passariam por
estágios evolutivos.

Esses estágios iriam das sociedades mais primitivas para as mais civilizadas9, passando por alguns
estágios intermediários. Essa “linha evolutiva” poderia revelar as sociedades com mais capacidade

9
Note que “civilização” era tomada como sinônimo de sociedade mais evoluída.
56
HOMEM E SOCIEDADE

evolutiva, que corresponderia, naquele momento, às sociedades de países da Europa como a Inglaterra,
França ou Alemanha. E também revelaria aquelas sem a mesma capacidade, e que corresponderiam
aos povos mais primitivos como as tribos africanas, os povos indígenas das Américas e os aborígenes
australianos.

Essa capacidade evolutiva seria consequência direta da condição biológica dessa população, que
determinaria coisas como a capacidade intelectual e mesmo o caráter moral.

Considerado, hoje, um equívoco científico, o evolucionismo social deixou marcas no pensamento


ocidental e podemos encontrá‑las em frases do senso comum, e mesmo em parte da comunidade
científica que reproduz ainda essas ideias.

O trecho a seguir, retirado do livro O que é cultura, de José Luiz dos Santos, nos esclarece a questão
do evolucionismo social.

Tais esforços de classificação de culturas não implicavam apenas a justificação


do domínio das sociedades capitalistas centrais, que naqueles esquemas
globais apareciam no topo da humanidade, sobre o resto do mundo. Ideias
racistas também se associaram àqueles esforços; muitas vezes os povos não
europeus foram considerados inferiores, e isso era usado como justificativa
para seu domínio e exploração. (...)

Estudos sistemáticos e detalhados de muitas culturas permitiram destruir os


falsos argumentos dessas concepções preconceituosas. (...)

A ideia de uma linha de evolução única para as sociedades humanas é,


pois, ingênua e esteve ligada ao preconceito e à discriminação racial
(SANTOS, 1983).

Fica evidente que é uma teoria que privilegia a sociedade de quem a produziu, em detrimento das
outras.

Muitas pessoas se perguntam quando essa questão é discutida, porque não é correto para a ciência
reconhecer a imensa diferença de forma de vida entre um indivíduo que vive em um confortável bairro
parisiense e outro que se encontra em uma tribo indígena isolada em meio à floresta amazônica?

Perceba que reconhecer que as diferenças existem não é o problema, mas pretender que a
“civilização” e o “progresso”, tais como foram construídos por um tipo de cultura, é sinal da maior
capacidade evolutiva e nos traz o problema das “raças humanas”.

Quando a diversidade cultural passa a ser explicada pelas características biológicas de seus indivíduos,
entramos no perigoso terreno do racismo científico. Para superar esse momento em que a ciência passou
a servir como recurso de justificativa do poder econômico de alguns povos sobre outros, as ciências
humanas substituíram o conceito de raça pelo de cultura, ou mesmo o de etnia.
57
Unidade I

O darwinismo social predominou durante o século XIX e início do XX, sendo


a raiz do racismo científico e dos estudos de evolução cultural. (...) Nesse
contexto, raça surgiu como categoria científica para explicar as diversidades.
A civilização ocidental, caucasiana, vitoriosa no processo de colonização e
ungida pelos benefícios tecnológicos e econômicos gerados pela Revolução
Industrial, passou a ver‑se como o mais alto grau de evolução humana (...)
(PASSADOR, 2003).

Abaixo você pode analisar imagens produzidas antes do século XX e que representam os povos nativos
das Américas. Os colonizadores europeus, que tomaram posse de todo o continente, encontraram no
evolucionismo social uma ótima justificativa para o domínio sobre esses povos, muitos dos quais foram
exterminados.

Figura 6 – Índios Munduruku.

Figura 7 – Índios, por Albert Eckout, que foi um pintor holandês que veio ao Brasil durante o período da invasão holandesa em
Pernambuco, em 1624. Seria bem interessante você pesquisar mais quadros produzidos por esse artista, pois é praticamente a única
fonte do Brasil nesse Período.

58
HOMEM E SOCIEDADE

Figura 8 – Crianças da etnia Yanomami, no Rio Orinoco, fronteira entre Brasil e Venezuela.

Figura 9 – Eanger Irving Couse, artista americano do final do século XIX, retrata um índio que segundo o título da tela, se chama
“Pé de Alce”.

A seguir, observe que obra suprema. Trata‑se de uma tela que representa várias etnias nativas de
todo o continente. É uma incrível representação da diversidade cultural e étnica dos povos nativos de
nosso continente. Se você quiser ver a legenda na qual o nome de cada etnia é resgatado, vá até o link:
<http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Amerikanska_folk,_Nordisk_familjebok.jpg>

59
Unidade I

Figura 10 – Amerikanska folk, ou povo americano, publicada em 1876

Pois bem, a razão para analisar todas essas imagens acima é relacionar a teoria do evolucionismo
social com o poder dos europeus. Hoje sabemos tratar‑se de uma teoria eurocêntrica, que privilegia a
condição cultural deles naquele momento, inferiorizando os povos dos outros continentes. Talvez não
seja possível perceber isso na figura acima, mas os nativos eram todos retratados indistintamente como
se fossem negros.

Isso nos leva à conclusão sobre o motivo da recusa em aceitar teorias evolucionistas: elas servem
a propósitos de ideologias raciais. Infelizmente seu uso histórico levou a uma catástrofe humana, que
foi o uso da ideia de superioridade genética de um povo pela ideologia nazista no período do poder de
Hitler na Alemanha.

Ao defender que os europeus eram superiores, pois dominavam a ciência e a indústria, e nenhum
outro povo no mundo havia atingido esse patamar, acabaram abrindo brechas para interpretações de
todo tipo. Até chegarmos ao nazismo.

A reação dos cientistas a esse momento surge no início do século XX com o pensamento relativista,
que veremos mais adiante.

Por enquanto é importante compreender que o trabalho de investigação dos antropólogos


representou uma contribuição imensa para superar o racismo científico. Quando cientistas europeus
e norte‑americanos passaram a conviver entre as tribos e povos em questão, passaram a formular um
pensamento que rejeita qualquer tipo de teoria evolucionista para explicar a sociedade.

Em pleno século XX foi possível perceber os equívocos das teorias evolucionistas, reforçadas pelas
teses deterministas, como, principalmente, o determinismo biológico.
60
HOMEM E SOCIEDADE

O conceito de cultura é complexo e polissêmico. Em uma perspectiva


antropológica, cultura pode ser definida como a rede de significados que
dá sentido ao contexto que envolve os sujeitos como membros de uma
sociedade. Essa rede é composta de diversos conteúdos sociais simbólicos,
como os costumes, as crenças, os valores, os mitos e os ritos sociais (TOSTA,
Breve ensaio sobre civilização e cultura).

O fato de existir uma cultura diferente em cada lugar não é algo que tenha que ser solucionado,
isso é próprio de nossa espécie. A cada experiência social deve corresponder um conjunto de valores
e práticas únicos. Nenhum povo pode repetir a história dos outros como se fosse uma receita. O mundo
do trabalho no Brasil é diferente do argentino, do americano ou do europeu, e todos são diferentes entre
si. O que promove essa diferença é a cultura.

Vamos fazer uma metáfora usando a informática para auxiliar no aprofundamento dessa questão. A
mente humana corresponde a um “disco rígido” (hardware), que apesar de capaz de muitas tarefas, não
consegue realizar nada sem um programa (software). Esse programa é a cultura. Cada sociedade desenvolve
um tipo diferente de programa para disponibilizar aos seus indivíduos, que aprendem como operá‑lo por
meio dos processos que denominamos anteriormente de socialização e endoculturação10.

É por isso que em cada cultura os indivíduos reagem mais ou menos da mesma forma em relação
a uma situação. Faz parte da cultura brasileira torcer para os times e pela seleção de futebol. Já nos
Estados Unidos, esse esporte não mobiliza o interesse da população, que se interessa muito mais por
um esporte quase ausente no Brasil que é o beisebol. Interesse é uma das formas de expressão do que
chamamos de valores. Cada cultura valoriza o interesse de seus indivíduos por certos tipos de esportes,
alimentos, vestimentas, crenças etc. Não é possível nos dedicarmos a tudo ao mesmo tempo.

Cada povo possui uma cultura. Cada cultura possui um conjunto diferente de valores. Isso é o que
chamamos de diversidade cultural.

Você pode estar se perguntando se é correto afirmar que alguns animais têm cultura.

Sim, atualmente muitas ciências demonstram em suas observações do comportamento animal alguns
traços de hábitos coletivos, mas em nada se equivalem à complexidade das culturas humanas.

Leia o trecho abaixo:

De nada adianta o corpo de Homo sapiens somente. É necessária a cultura


para nos completar. Somos seres em aberto. As determinações instintuais
acabam sobrepujadas pelas marcas da cultura, das escolhas que os grupos

10
Esse conceito será aprofundado adiante, no item 6 “Cada povo uma cultura, cada cultura uma sentença: a diversidade
cultural”. Para fazer sentido agora, resumidamente, endoculturação ou enculturação é um conceito utilizado para designar os
processos sociais que transformam o aprendizado sobre o comportamento social em algo que é assimilado pelos indivíduos como
parte de sua personalidade ao atingir a idade adulta. A maioria dos autores usa como sinônimo de socialização.
61
Unidade I

humanos realizaram ao longo de sua história. Se o código genético não


define o nosso comportamento, é necessária a cultura para nos orientar e
dizer como devemos nos comportar. Através de escolhas proporcionadas
pelo livre arbítrio, cada grupo humano foi tecendo um conjunto de códigos
e normas de conduta que compõe a cultura. Desta maneira, os grupos
foram se diferenciando, estabelecendo marcas distintivas, construindo
identidades e modos diferenciados de se relacionar. Seja o relacionamento
com a natureza, através de técnicas e ferramentas específicas, seja entre
seus integrantes, por meio de linguagens distintas, ou ainda com o mundo
do imaginário, através de mitologias próprias (...).

A capacidade de simbolização e criação cultural permitiu‑nos constituir


uma extraordinária característica: pensar no que não está presente, diante
de nossos olhos. Essa capacidade de abstração e transcendência possibilitou
superar as limitações impostas pela natureza (GUERRIERO, 2003).

Concluindo, o conceito de cultura é utilizado em dois registros bem diferentes: o do senso comum
e o da ciência antropológica. No primeiro caso, podemos notar que cultura é utilizada para distinguir
numa sociedade aqueles que receberam uma educação mais refinada, e, portanto, podemos discriminar
pessoas ao dizer que “não têm cultura”. Para a antropologia, cultura é um conceito que define nossa
imensa capacidade de criar diferentes soluções para a vida humana.

Criar soluções significa utilizar nosso potencial para transformar o mundo material e também o
mundo das ideias, incluindo nossa comunicação, crenças, hábitos e valores.

Ao criar essas soluções, cada sociedade contribui para gerar a diversidade cultural.

É importante você saber que atualmente, em qualquer campo de atuação profissional, e em nossa
vida de cidadãos, não é correto reproduzir um pensamento evolucionista para tratar de culturas. A
explicação do evolucionismo social, que todos os povos devem trilhar a mesma história, já não é aceita
cientificamente, e em nossas relações sociais gera preconceito, discriminação e injustiças.

Pois bem, vamos pensar um pouco por quê? É comum ouvir as pessoas dizerem coisas como “que
povo atrasado”, ou “que gente sem cultura”, como explicação para o fato de que muitas vezes, o que
está em questão é uma falta de compreensão sobre a cultura dos outros.

Desde o início do século XX, todos os antropólogos concordam que não há linearidade nos processos
de transformação da cultura. O que há são relações de poder. Ou seja, uma cultura dominante em seu
tempo, tende a influenciar e gerar padrões de comportamento para todos os outros, mas não porque ela
seja necessariamente melhor, ela apenas é dominante.

Nas primeiras décadas do século XX o antropólogo alemão nascido em


Mindem, Prússia, e radicado nos Estados Unidos, Franz Boas, crítico do
evolucionismo social, teoria de caráter predominantemente eurocêntrico,
62
HOMEM E SOCIEDADE

defensora de que as sociedades inicialmente encontram‑se em um estado


primitivo, ou inferior e processualmente tornam‑se civilizadas nos padrões da
cultura europeia, apresenta os princípios do relativismo cultural defendendo
que cada cultura é um sistema articulado e integrado, produto de um
desenvolvimento histórico único, dinamizado pelas constantes interações.
entre os indivíduos e a sociedade.

Para Boas não há culturas superiores ou inferiores, todas as culturas,


independente do local geográfico em que se localizam, das técnicas e
dos valores que as regem, constituem fenômenos distintos e originais.
Esta formulação traz luz a discussão histórica a respeito da diversidade
de modos de comportamento dos diferentes povos, bem como sobre
os determinismos biológico e geográfico, ressignificando o olhar sobre
as diferentes comunidades humanas que povoam o planeta, em uma
perspectiva de reconhecimento de suas singularidades (TOSTA, Breve ensaio
sobre civilização e cultura).

Saiba mais

LARAIA, R. de B. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro:


Jorge Zahar. 2006.

ROCHA, E. O que é etnocentrismo. São Paulo: Brasiliense, 1998.

4 A COMUNICAÇÃO HUMANA É SIMBÓLICA

Objetivos

Ao entrar em contato com esse fenômeno que se chama comunicação, sob o enfoque da antropologia,
é possível ampliarmos nossas capacidades comunicativas e também a capacidade de compreensão do
outro. Ao se comunicar, o ser humano utiliza símbolos que significam algo para ele. Quando esses
significados não são os mesmos, podem surgir problemas no diálogo entre pessoas e sociedades
diferentes.

Atribuir significado ao mundo é parte de um processo relacionado à cultura e nos auxilia nos
processos de relacionamento humano.

Introdução

Sem a comunicação, nossa sociedade seria semelhante às sociedades de outros animais que vivem
em coletividade, como abelhas, formigas e leões. A cultura humana tem características que diferenciam
nossa forma de vida coletiva. Para expressar a cultura, dependemos da utilização dos símbolos. Língua,

63
Unidade I

conceitos, valores, ideias, crenças, tudo que faz parte da cultura humana é baseado em símbolos que, por
meio de uma convenção social, são associados pelos indivíduos a um determinado significado, e isso faz
com que seja possível a interpretação dos conteúdos comunicados.

Entretanto, de uma cultura para outra esses significados variam imensamente, o que torna
necessária a compreensão do contexto cultural em que os símbolos são criados e utilizados para que
nossa comunicação seja eficaz e consiga atingir seus objetivos.

4.1 O símbolo, o ato de simbolizar e a cultura

A cultura depende dos símbolos, a comunicação humana é baseada na simbolização. Mas o que é
símbolo?

Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (edição de 2001):

1 aquilo que, por um princípio de analogia formal ou de outra natureza,


substitui ou sugere algo 1.1 aquilo que, num contexto cultural, possui
valor evocativo, mágico ou místico (...) 2 aquilo que, por pura convenção,
representa ou substitui outra coisa.

Normalmente, pensamos que símbolos são aquelas placas com figuras indicativas como “proibido
fumar”; ou ainda pensamos em imagens religiosas como cruzes e estrelas; pensamos também em sinais
da matemática utilizados nas operações de divisão e multiplicação.

Mas o universo dos símbolos inclui todas as formas de comunicação humana e também nossa vida
social. O símbolo é uma ferramenta humana para pensar e agir, e simbolizar nada mais é do que criar
um símbolo para as convenções sociais.

O mundo à nossa volta é “traduzido” em pensamentos que precisam ser comunicados. Assim, a
capacidade de simbolizar é inata à nossa espécie, todo ser humano cria e utiliza símbolos.

A linguagem, a escrita, a forma de associar datas a sentimentos e a eventos coletivos muda de uma
cultura para outra. Claro que podemos fazer com que alguns símbolos sejam universais, por exemplo: a
propagação da religião ou da ciência; por isso os símbolos da química e da matemática são os mesmos
para todo mundo.

A maior parte de nossa comunicação social e de nossas convenções é desenvolvida localmente, e, muitas
vezes, acreditamos que estamos “falando uma linguagem universal” com gestos e sinais, mas não é isso!

Vamos fazer um exercício: nós convencionamos que a palavra “flor” simboliza aquela coisa que
encontramos na natureza e que é uma das partes do organismo de algumas plantas.

Apesar de existir um imenso número de flores, quando pensamos em uma flor para comunicar uma
situação corriqueira envolvendo flores, não pensamos em flores de tipos muito específicos e em suas
64
HOMEM E SOCIEDADE

qualidades. Quando pensamos em uma flor e queremos comunicar essa ideia básica, temos que recorrer
a um som, uma palavra que, ao ser pronunciada, faça com que todos os presentes entendam em que o
comunicador estava pensando.

Portanto, a palavra flor não é a “coisa real” que existe na natureza, mas um som que representa
essa realidade. Esse é um primeiro passo para entendermos o processo de simbolização, e até agora foi
possível entender que sem símbolos não conseguiríamos sequer compartilhar o que se passa em nossas
mentes.

Mas observe que a palavra flor é um dos símbolos para a coisa em si, a própria flor. Para cada coisa
existente, o ser humano cria muitos símbolos. Temos, por exemplo, a representação da flor por meio dos
desenhos, que é também um símbolo. Assim:

Essa imagem fotográfica, apesar de parecer a própria flor, ou uma


delas, não é a flor em si. É uma representação da “flor”, pois já deixou
de ser a própria flor, e é simbolizada em uma imagem que não é
tridimensional, mas, sim, bidimensional, criando algo que a representa,
mas que não é ela mesma. Ou seja, é um símbolo.

Figura 11

Essas imagens são desenhos, ou seja,


representações artísticas da flor, e, portanto, também
não são a flor em si, mas formas simbólicas para elas.
A arte é, em sua essência, simbólica. O artista procura
sempre “representar algo”. Na pintura, na música, na
dança, o artista procura através da forma obtida (a
forma plástica, a sonoridade ou o movimento) criar
Figura 12 um símbolo para algo visto, percebido, sentido ou
Figura 13
experimentado antes.

Todas essas imagens são símbolos para a coisa “flor”. Então, podemos compreender que as “coisas
em si” são transportadas para a nossa mente, e podemos pensar nelas, mesmo quando não estamos em
sua presença.

A maior parte de nossa comunicação diária tem como finalidade narrar, descrever, lembrar e
conceituar coisas que não estão presentes. Ao fazer isso, retiramos todas as coisas de seus contextos
originais, que não pode ser reproduzido em toda a sua riqueza e complexidade, e escolhemos alguns de
seus aspectos a serem ressaltados.

Assim é que nós simbolizamos as experiências vividas, e por meio dessa comunicação simbólica
podemos atribuir qualidades ao mundo. “Essa flor é alegre”, “esse cheiro me lembra a infância”, “as
cores desta bandeira simbolizam a paz e a riqueza”, “o crucifixo identifica os cristãos”, são formas de
simbolizar experiências e sensações.

65
Unidade I

Não está na “flor em si” ser alegre ou triste, mas o ser humano identifica certas qualidades. Não
existe “cheiro de infância”, mas aromas que são convencionalmente usados em bebês, ou, ainda, aromas
de um lugar que marcaram a infância de determinada pessoa etc.

O correto é observarmos que na natureza não existem qualidades que são criadas pelo homem, como
bondade/maldade, justiça/injustiça, beleza/feiura. Uma catástrofe da natureza, como um terremoto, não
é ruim senão do ponto de vista dos prejuízos que possa causar aos seres humanos. Para a terra, onde ele
se originou, não existe esse tipo de julgamento.

Bondade, justiça e beleza, bem como todos os conceitos de valor que dispomos são resultados da
criação das culturas humanas, e não da natureza. Portanto, são valores, que se expressam por meio de
símbolos. Um céu escuro e carregado de nuvens pode simbolizar preocupações e problemas, ou um
terremoto pode ser utilizado para simbolizar alguém inquieto, agitado.

Abaixo você pode ler um trecho do livro Cultura – um conceito antropológico, e perceber a importância
cultural da capacidade humana de simbolizar:

Com efeito, temos de concordar que é impossível para um animal


compreender os significados que os objetos recebem de cada cultura. Como,
por exemplo, a cor preta significa luto entre nós e entre os chineses é o
branco que exprime esse sentimento. Mesmo um símio não saberia fazer
a distinção entre um pedaço de pano, sacudido ao vento, e uma bandeira
desfraldada. Isto porque, como afirmou o próprio White, “todos os símbolos
devem ter uma forma física, pois do contrário não podem penetrar em nossa
experiência, mas o seu significado não pode ser percebido pelos sentidos”.
Ou seja, para perceber o significado de um símbolo é necessário conhecer a
cultura que o criou (LARAIA, 2006).

Ao utilizar um crucifixo, uma pessoa é identificada pelos outros como “cristão”, pois a cruz simboliza
um evento da figura fundadora dessa fé, que é Cristo. Essa é outra associação possível com os símbolos.
Os símbolos representam coisas, ideias e pessoas que não estão presentes.

Cada profissão elege seu símbolo; os times utilizam brasões, cores e emblemas; placas de trânsito
são símbolos; placas de “proibido fumar”, “proibido cães” e outras regras de uso do espaço são símbolos.
O símbolo facilita e agiliza a comunicação, transmite ideias complexas e sentimentos, e tudo isso é
possível porque, como afirma Geertz, “a humanidade atribui, de forma sistemática, racional e estruturada,
significados e sentidos às coisas do mundo”. Portanto, tudo na comunicação é símbolo? Sim!

Os símbolos são frutos da persistência humana em olhar para o mundo e ver significados, em tornar
rotineiras as soluções racionalmente pensadas11, cheias de significados coletivamente construídos.

11
Rotina é o mesmo que fazer algo sempre da mesma maneira, portanto, é um hábito. Os significados dos símbolos
culturais dependem de uma rotinização, ou seja, precisam ser incorporados de maneira mecânica em nossas atitudes, de
forma que não precisamos raciocinar o tempo todo para compreender as linguagens à nossa volta.
66
HOMEM E SOCIEDADE

Lembrete

Para dominar coletivamente o significado dos símbolos, e compartilhar


com as pessoas de nossa cultura, precisamos:

1 – atribuir significados de forma coletiva às coisas do mundo. Uma pessoa


pode “inventar” um símbolo, mas, para que todos compreendam da
mesma forma e queiram utilizá‑lo, é necessário haver participação,
ou seja, uma forma de “adoção” coletiva dos símbolos;

2 – repetir cotidianamente o uso dos símbolos e seus significados para


que se tornem rotina/hábito, e sejam incorporados como parte da
cultura.

A cada cultura corresponde um processo coletivo único de criar símbolos, portanto, a maioria
dos símbolos cotidianos tem um significado apenas local. Mas alguns símbolos, por efeito da
sistemática e da rotina de circulação em outros meios, conseguem ter significado para praticamente
a humanidade toda. Assim, ocorreu com a logomarca da “Coca‑Cola”, presente em todo o mundo
como um ícone de prazer e do mercado, ou com o símbolo da juventude dos anos 1960 para “paz
e amor”.

A atuação do mercado, que intensifica e aumenta a necessidade humana de fazer trocas, é a


responsável atualmente por esse deslocamento dos símbolos de seu contexto original e pela incorporação
de significados extralocais. Ou seja, os símbolos passam de uma cultura para outras, sem carregar
necessariamente seus significados originais e atribuídos localmente.

Lembrete

Simbolização – ato ou efeito de simbolizar; processo que procura


expressar o raciocínio por meio de um sistema simbólico.

(fonte: Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro:


Objetiva)

A cultura caracteriza a espécie humana e nos dota de infinitas possibilidades. Somos indivíduos
em aberto, modeláveis, com plasticidade, que aceitam mudanças e têm capacidade de refletir e
escolher.

Necessitamos participar de uma coletividade, necessitamos de referências para saber como nos
comportar e, sobretudo, precisamos organizar nossa coletividade de forma a permitir um comportamento
mais voltado para o grupo e menos voltado para satisfações individuais.

67
Unidade I

Se cada um de nós agisse o tempo todo apenas de acordo com sua própria vontade, a sociedade
entraria em colapso.

Isso é interessante, pois ao mesmo tempo em que somos criativos, plenos de possibilidades, somos
também bons aplicadores de regras. Aliás, necessitamos delas, para que o mundo da coletividade se
torne possível. Somos seres complexos, entre outras coisas, porque somos dotados de criatividade e, ao
mesmo tempo, precisamos de regras, pois elas permitem nossa convivência, nossa interação.

Essa complexidade só é possível, pois o pensamento e a comunicação humanos são estruturados em


um conjunto de símbolos. Vamos retomar uma das definições de cultura aplicada acima, de Clifford
Geertz, que diz que: “Cultura é um sistema simbólico, característica fundamental e comum da humanidade
de atribuir, de forma sistemática, racional e estruturada, significados e sentidos às coisas do mundo”.

A comunicação humana é tão complexa que existem várias ciências dedicadas a estudar e a compreender
esse universo. Para que você entenda que há muitas formas de comunicar e que dependem do uso dos símbolos,
vamos lembrar que há basicamente duas formas de comunicação humana: a verbal e a não verbal.

Na comunicação verbal precisamos de palavras, da nossa língua, que traduz em sons e organiza, por
meio da sintaxe, as regras de comunicação. Na comunicação não verbal há todo o universo de símbolos
que não dependem das palavras, como os sons sem palavras, os gestos e as cores.12

Comunicação é o processo de troca de informações entre um emissor e um receptor. Um dos aspectos


que podem interferir nesse processo é o código a ser utilizado, que deve ser entendível para ambos.

Para compreender melhor a divisão entre linguagem verbal e não verbal leia o texto abaixo.

Quando falamos com alguém ou lemos um livro ou uma revista, estamos


utilizando a palavra como código. Esse tipo de linguagem é conhecido como
linguagem verbal, sendo a palavra escrita ou falada, a forma pela qual nos
comunicamos. Certamente, essa é a linguagem mais comum no nosso dia a
dia. Quando alguém escreve um texto, por exemplo, está usando a linguagem
verbal, ou seja, está transmitindo informações através das palavras.

A outra forma de comunicação, que não é feita nem por sinais verbais nem
pela escrita, é a linguagem não verbal. Nesse caso, o código a ser utilizado é
a simbologia. A linguagem não verbal também é constituída por gestos, tom

12
A linguagem dos gestos e as expressões faciais também não são universais, podendo variar imensamente de uma
cultura para outra. “Os gestos são compreendidos de diversas formas nas diferentes culturas. Só existe um gesto semelhante
em qualquer lugar do mundo, o sorriso, muito embora essa semelhança não deva ser entendida como uma expressão
invariável de prazer ou alegria, uma vez que seu significado difere de cultura para cultura e, ainda, conforme o contexto
da situação, pode significar surpresa, prazer, desaprovação, ironia, superioridade, desprezo, agressividade, maldade etc.”
(SILVA, L. M. G. da et al. Comunicação não verbal: reflexões acerca da linguagem corporal. Rev. Latino‑Am. Enfermagem,
Ribeirão Preto.)
68
HOMEM E SOCIEDADE

de voz, postura corporal etc. Se uma pessoa está dirigindo e vê que o sinal
está vermelho, o que ela faz? Para. Isso é uma linguagem não verbal, pois
ninguém falou nem estava escrito em algum lugar que ela deveria parar, mas
como ela conhece a simbologia utilizada, apenas o sinal da luz vermelha já
foi suficiente para que ela compreendesse a mensagem.

(Disponível em: <http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/redacao/lingua


gem‑verbal‑e‑nao‑verbal.php>. Acesso em: 25 out. 2010.)

Vamos exercitar um pouco nosso pensamento sobre a realidade para perceber como utilizamos os
símbolos para quase tudo.

O uso da comunicação não verbal é uma rica fonte de simbolização,


utilizamos, por exemplo, os recursos do corpo para expressar ideias. Leia o
trecho abaixo para esclarecer melhor sobre esse assunto.

A comunicação é fundamental nas relações pessoais, empresariais e educacionais.

Pode ser feita de várias maneiras, entretanto, só existe realmente


entendimento quando a mensagem é recebida com o mesmo sentido com
o qual ela foi transmitida.

A comunicação não é somente a linguagem verbal, ela é feita em grande parte


pela linguagem não verbal. O importante é que uma esteja em concordância
com a outra, de forma que a comunicação seja um processo completo e
coerente. Contudo, os seres humanos, em sua complexidade, muitas vezes
transmitem sem perceber uma mensagem verbal diferente da mensagem
corporal, o que poderá dificultar a compreensão da sua mensagem. O nosso
corpo fala todo tempo, as expressões do rosto, os olhares, os gestos, as
posturas, o tom e o ritmo da voz (SCHELLES, 2008).

O ser humano fabrica um instrumento qualquer, por exemplo: uma faca. Mesmo pensando apenas
em seu aspecto utilitário, que deve ser a preocupação com o formato da lâmina e o fio para cortar, a
maioria das facas que são fabricadas traz algo para além da utilidade; elas trazem também a preocupação
ornamental/estética.

Por que precisamos que objetos utilitários como facas, louças e móveis tenham uma expressão estética?

Vamos exercitar refletindo sobre isso apenas da perspectiva cultural, pois a necessidade estética
humana é de um assunto bastante amplo.

Pois bem, os objetos dos quais nos cercamos, como o vestuário e os adornos corporais possuem uma
função social, que é demarcar identidades. Por isso, existe não apenas a diversificação do material que é
utilizado na fabricação das coisas, mas também uma simbologia relacionada a essas coisas.
69
Unidade I

Então, objetos utilitários como as facas podem servir também para demarcar posições de status
social ou de especialização de funções. Assim, existem as facas com cabos adornados com madrepérola,
ou com pequenos encraves de pedras preciosas e ouro. Nesse caso, não há uma utilidade no adorno
do cabo, e sim uma função social simbólica. Quando vemos o objeto, mesmo longe de seu proprietário,
sabemos se tratar de algo que pertence a alguém com posição social privilegiada.

A estética, a ornamentação das facas, como de qualquer objeto utilitário que está a nossa disposição,
também simboliza e expressa as características da forma de organização de uma sociedade.

Lembrete

Nossa vida coletiva é simbolizada. Objetos, vestuário, construções e


mesmo aromas se tornam símbolos de nossas relações sociais. A simbolização
é uma das características básicas das culturas humanas.

Você pode ver abaixo a imagem de objetos que a princípio são meramente utilitários (moedas,
espadas, roupas) mas que cada cultura enriquece com símbolos, e os transformam em um objeto que
nos comunica algo sobre seu povo, seu tempo.

Figura 14 – Espadas Viking.

Figura 15 – Moeda romana, na imagem há um cônsul e seus lictores, que eram acompanhantes.

70
HOMEM E SOCIEDADE

Figura 16 – Roupas Rajasthani, Índia.

Isso porque, nós “atribuímos significado às coisas do mundo”, e percebemos que a quase totalidade
do que vemos, ouvimos e sentimos adquirem significado. Assim, as facas trazem ornamentos como
pedras ou formas adicionadas ao cabo, que as tornam atraentes ou únicas.

As cores têm significado: o branco pode simbolizar a paz, o preto pode simbolizar tristeza ou mistério,
o vermelho a sensualidade ou o amor. Os sons têm significado: o badalar dos sinos em uma igreja podem
simbolizar comemoração ou morte, o som da água em uma fonte pode simbolizar tranquilidade e, por
isso, é utilizado terapeuticamente para acalmar.

Os alimentos precisam ter significado: não comemos qualquer alimento de qualquer jeito, eles
precisam receber cores, formas de apresentação para se tornarem convidativos à degustação.

A culinária e as regras sociais relacionadas ao ato de comer são uma forma de simbolização.
Uma receita de bolo recebe um tratamento quando este é servido em um lanche para a família, e
outro completamente diferente quando é servido como comemoração festiva de aniversários ou
casamentos.

Quando pensamos sobre qualquer coisa no mundo que nos cerca externamente, e também em nossa
vida interior, damos significados a elas. Associamos coisas a sentimentos e ideias, e assim elas passam a
significar algo.

Vamos pensar em exemplos? Os “amuletos” são em princípio simples objetos, mas em cada cultura
atribuímos a eles uma “aura” que nos faz encará‑los como objetos “de poder” para trazer proteção, sorte
ou fortuna.

Quando associada a uma cultura, a simbolização pode ser percebida como um conjunto de sentimentos,
valores e ideias que atribuem o mesmo significado a certas “coisas do mundo” e que valem para a média
de indivíduos do grupo e que se repetem nas rotinas sociais. Em uma mesma cultura, existe a tendência
a utilizar o mesmo “repertório simbólico”, e esse repertório pode mudar em outras culturas.

71
Unidade I

O que é exatamente esse “repertório simbólico”?

É um conjunto de símbolos e os significados que atribuímos às coisas.

Exemplos:

Coração

Como muitas palavras e coisas das culturas, coração não é uma “coisa em si”, mas um conjunto de
ideias e valores, que chamamos aqui de repertório.

1. Coração como o órgão do corpo humano.

2. Coração como um sentimento de ternura.

3. Coração como o centro de alguma coisa.

4. Coração como um complexo de emoções que podem ser até contraditórias, como dor, amor,
apego ou memória.

Perceba como uma única coisa (coração) forma um conjunto, um repertório de significados para
nossas ideias?

Isso acontece do mesmo jeito com muitas outras coisas às quais associamos mais de um significado.
Para fazer um exercício mental, podemos pensar em exemplos: doente, amargo, pedra, estrada etc.

Estar doente, ou “doente de paixão”, “doente de vontade de comer algo”.

Ser “uma derrota amarga”, “amargo para o paladar”, “amargo de doer”.

Ter uma “pedra no sapato”, ser uma “rocha” ou uma “pedreira”, ter uma “pedra preciosa”, ou apenas
uma pedra.

Pegar uma estrada, caminhar na “estrada da vida”.

Quando vistas da perspectiva da cultura, as coisas da vida se transformam em conjuntos, repertórios


simbólicos que podem ter seu pleno sentido compreendido apenas se olharmos o todo funcionando.

Por isso, dizemos que a cultura é um “sistema simbólico”, uma vez que os exemplos acima fazem
parte de nossa cultura, ou seja, da sociedade brasileira. Portanto, esse repertório se modifica de uma
cultura para a outra.

Vamos nos debruçar sobre exemplos que envolvem não apenas a linguagem e nossa forma de
expressar as coisas, mas também valores sociais.
72
HOMEM E SOCIEDADE

A começar pela noção de liderança.

O líder, na cultura japonesa, é alguém que não precisa, necessariamente, ter atributos de
“simpatia” ou “iniciativa” para receber de seus liderados tratamento de confiança, admiração ou
qualquer outra reação de reconhecimento. Para a tradição japonesa, o líder, apenas por ocupar certa
posição na hierarquia profissional, é “naturalmente” encarado como aquele que deve ser respeitado,
deve servir de modelo e referência a todos os seus subordinados. Isso se deve ao fato de que, na
cultura japonesa, ao contrário da cultura ocidental, a hierarquia é tradicionalmente encarada como
algo a ser respeitado em qualquer circunstância independentemente das características pessoais de
quem ocupa as posições mais superiores. Nos países ocidentais, a hierarquia, e como consequência,
a liderança são fenômenos que mobilizam sentimentos e reações bem diferentes da japonesa. Entre
nós, o líder precisa “demonstrar” merecimento do lugar que ocupa, “conquistar” a confiança de seus
liderados. Precisa ter atributos pessoais que tornem legítima sua posição. Para os japoneses isso não
é necessário.

Portanto, os significados relacionados ao conceito de liderança, como muitas outras atribuições e


qualidades sociais, mudam dependendo da cultura. O repertório simbólico, portanto, é o que nos orienta
a compreender os sentidos da vida social em cada cultura.

Assim, vemos que a simbolização acompanha o ser humano. Mesmo em suas realizações materiais
o ser humano pensa simbolicamente. Não nos abrigamos de qualquer forma, não nos alimentamos de
qualquer forma, não fabricamos as coisas de qualquer forma.

Desenvolvemos cores, linhas, texturas e densidades para nos cercar de significado. Tomamos as
coisas da natureza e passamos a organizá‑las de tal forma que estas já não lembram a matéria‑prima
inicial. A madeira é transformada em mobiliário, as plantas em jardins, o barro em cerâmica.

Lembrete

Os símbolos estão presentes em todas as nossas experiências sociais.


Precisamos deles para nos comunicar, para dar significado às nossas ações,
para nos sentir parte de uma comunidade.

As vestimentas que usamos não são apenas utilitárias, servindo para nos proteger do frio ou do calor.
Elas são carregadas de simbologias sociais. Por meio delas comunicamos nossa posição social, nossa
identidade, nossos estilos de vida, nossa condição emocional. Para cada contexto social inventamos uma
roupagem adequada, e esperamos encontrar todos seguindo a regra. Quem iria fantasiado a uma festa
se soubesse que ninguém mais seguiria essa indicação?

Os símbolos são socialmente inventados e mantidos. Não é possível saber quem foi o primeiro a
praticá‑los, como um movimento de dança, ou o uso de uma gíria, ou expressões faciais e gestos. O
que importa é a necessidade do grupo em manter e reproduzir esse significado, e não saber quem o
“inventou”.
73
Unidade I

O símbolo é a mais antiga forma de expressar a cultura de um povo.


A simbolização permite ao homem transmitir os seus conhecimentos
adquiridos e acumulados no decorrer do tempo. Os símbolos
conservam os valores básicos para que a cultura de uma sociedade
seja perene.

Os símbolos são constituídos de várias coisas concretas ou abstratas e lhes


são atribuídos valores ou significados específicos, dentro de um contexto
cultural, por meio de atos, atitudes e sentimentos. A criação deles consiste,
basicamente, na associação de significados daquilo que pode ser percebido
pelos sentidos.

Sabemos que as culturas mudam continuamente, assimilam novos traços


ou abandonam os antigos, por meio de diferentes formas. Toda sociedade
está sujeita a essas modificações pelo próprio processo de desenvolvimento,
pelos contatos com povos de culturas diferentes, pelas inovações científicas
e tecnológicas, interferindo nas artes, no artesanato e em sua cultura como
um todo (MEDEIROS, 1997).

Quando nos comunicamos, seja pela linguagem escrita, falada, filmada, ou pelas artes, o conteúdo
do que é comunicado é sempre algo que precisa ser interpretado. Interpretar é dar sentido, entender,
julgar.

A maior parte de nossa comunicação é composta de conteúdos que se tornaram convenção social.
Serem membros da mesma cultura é uma garantia de que todos estejam interpretando de forma muito
semelhante os conteúdos comunicados.

Claro que isso não garante eventuais desentendimentos, os chamados “erros de comunicação”, ou
“mal entendidos”. Mas garante que não tenhamos que explicar minuciosamente o tempo todo nosso uso
dos conteúdos comunicativos.

Lembrete

A língua, toda comunicação e os hábitos mantidos entre as pessoas de


uma cultura, depende das convenções sociais.

Observação

Os símbolos podem “sair do lugar”, podem ser transportados para um


contexto social diferente do convencional?

Sim!
74
HOMEM E SOCIEDADE

Como os símbolos cotidianos dependem desse consenso em torno da interpretação, é muito


comum que quando usados em um contexto diferente do original, eles sejam interpretados de formas
completamente diferentes da convenção da cultura que lhe deu origem.

Isso porque ao saírem de sua cultura original, podem ir parar em lugares onde não há essa convenção
sobre como ele deve ser interpretado. Então, o que acontece é que as pessoas tendem a dar o sentido
mais apropriado ao seu próprio contexto. O que os indivíduos fazem, nesse caso, é idêntico ao trabalho
feito pelo tradutor, ou seja, as pessoas tentam adequar os símbolos de outras culturas à sua própria
linguagem e vida social.

Ou seja, quando se “adota” símbolos de outras culturas, de outras convenções sociais, a tendência é que
as pessoas façam um esforço para adaptar os significados possíveis desse símbolo à sua própria realidade.

Hoje em dia esse fenômeno é muito comum no mundo da moda e das tendências de
comportamento.

Lembrete

A moda, o cinema, a publicidade e os meios eletrônicos de comunicação que


disponibilizam uma quantidade cada vez maior de informação simbólica sobre
muitas culturas, permitem uma “migração” de símbolos cada vez mais intensa.

Vamos pensar em um exemplo: o modismo que envolve atualmente as tatuagens faz com que seus
adeptos se especializem em buscar inspiração para traçados e desenhos originais nas tribos e povos que
utilizam a tatuagem há séculos.

Um desses povos é os Maoris, que habitam a Nova Zelândia, e são conhecidos pelo costume milenar
de utilizar a tatuagem facial como uma forma de comunicar seu nome e sua linhagem ancestral. São
traços geometricamente complexos desenhados no rosto das pessoas, e são chamados de moko. Muitos
jovens norte‑americanos têm aderido a esse costume, tatuando toda a área do rosto. A esse tipo de
prática, um jovem chefe Maori chamado George Nuku trás seu ponto de vista em entrevista à National
Geographic. Leia abaixo um trecho da reportagem.

Chefe Maori fala de tatuagens faciais e orgulho tribal

Ryan Mitchell

National Geographic News

14 de outubro de 2003

George Tamihana Nuku é um orador notável e entusiástico do orgulho


reemergente entre muitas culturas indígenas ao redor do mundo. Sua

75
Unidade I

tatuagem facial elaborada, ou Moko, distintamente o identifica como


membro de uma tribo Maori, um homem, isto é, cuja própria identidade
está indissoluvelmente ligada a seus antepassados e suas tradições seculares
(...).

– Como você responderia aos não nativos que estão usando alguns dos
desenhos que são similares ao moko?

– Se você não vive aquilo que está em você, então isto é apenas um desenho.
Não é um moko. Antes de mais nada, ele (o moko) vem da sua linhagem. Ele
define quem são (ou eram) seus pais e avós desde o princípio dos tempos.
Isso é só a primeira coisa

(MITCHEL, 2003, tradução nossa).

Vamos avaliar melhor essa situação. Do ponto de vista de um nativo maori, os significados de uma
tradição são reduzidos a um desenho, pois deixaram de transmitir seus símbolos originais.

Já para os jovens modernos das grandes cidades que optam por reproduzir esse costume em outro
contexto, fazer uma tatuagem tribal no rosto pode significar que ele não se sente alguém comum,
parecido com a maioria de seu grupo, e ao expressar sua identidade procura se diferenciar da “massa”.
Ele, de alguma forma, procura se aproximar do primitivo, da tribo, mas com sua própria história. A
história de um “primitivo moderno”13.

Como esse caso descrito acima, há muitos outros exemplos de como os símbolos são apropriados
e “traduzidos” para uma linguagem local. Para aqueles que vivem na zona rural, alguns objetos como
latões de leite, carroças e carriolas, ou mesmo chapéus são coisas utilitárias, necessárias para o dia a dia.
Mas na cidade existe o costume de utilizar essas mesmas coisas como objetos decorativos em algumas
residências.

Durante muito tempo, o uso de marcas famosas através de seus “logos”, como a da fabricante
de motocicletas Harley Davidson ou como a fabricante de carros Ferrari, eram utilizadas apenas nos
próprios produtos ou pela própria empresa em sua comunicação. Atualmente há uma enormidade de
itens no mercado que utilizam essas marcas, e são vendidas mesmo para quem não tem o próprio
objeto que originou a marca. Não é incomum encontrar essas logomarcas em copos, roupas, canecas,
chaveiros, cadernos etc. Deixaram de ser apenas símbolos corporativos e se transformaram em símbolos
de status.

Tente pensar em outros exemplos dessa “migração” dos símbolos para contextos diferentes do
original.
13
“Primitivos modernos” é o nome dado a uma das muitas tribos urbanas da atualidade. Consiste em uma
coletividade que se inspira nas práticas de modificação corporal dos povos ditos “primitivos” para compor um visual
atualizado, de acordo com as influências da cultura contemporânea. Tatuagens, piercings, alargadores, implantes sob a pele
e outros tipos de modificação fazem parte dessa cultura.
76
HOMEM E SOCIEDADE

Lembrete

Quando uma instituição faz o trabalho de propagar seus símbolos, a


possibilidade de que eles sofram mudanças em seus significados é menor,
pois ela precisa manter seus princípios básicos para não haver discordâncias
que a descaracterize.

Pensemos em outros tipos de símbolos, como, por exemplo, os religiosos, ou os de grupos


institucionalizados (como associações, clubes, escolas, partidos e fraternidades), ou de movimentos
sociais que não “sofrem” essas mesmas distorções ou, como chamamos, ressignificações. Isso porque
quando migram para outras culturas, seguem junto com outras ações que fazem com que sejam
incorporados dentro de certos parâmetros de interpretação.

Os “portadores” desses símbolos institucionais promovem a cultura das ideias a eles relacionadas, de
forma que produzem um contexto transportado, e não apenas o símbolo “descolado” de seu contexto.
As instituições precisam garantir que seus princípios sejam garantidos, independentemente da cultura
em que se estabeleçam. No caso institucional, a liberdade dos indivíduos para interpretar livremente os
símbolos é bem menor que no caso do mercado ou da moda, por exemplo.

Quando se trata de instituições, junto com os símbolos estão os indivíduos responsáveis por disseminar
os conceitos, ideias e valores. Não é possível haver a propagação dos símbolos de uma instituição sem o
conjunto dela. Há um maior controle social no processo de utilização dos símbolos.

Já no mercado, na moda e na comunicação cotidiana não há esse processo que envolve a participação
dos sujeitos comprometidos com valores, e não com vendas. Mas é possível que alguns símbolos, como
a cruz cristã ou os símbolos comunistas da cruz com o martelo, a estrela de Davi ou o símbolo da
maçonaria sejam utilizados fora de seu contexto, e, portanto, ganhem outro significado? Sim, temos
alguns exemplos disso, apesar de pouco comuns.

Leia o trecho abaixo para compreender a importância da simbolização para a humanidade.

Para Geertz, o homem encontraria sentido nos acontecimentos através dos


quais ele vive por intermédio de padrões culturais, que seriam amontoados
e ordenados de símbolos significativos. O homem é um animal amarrado
a teias de significado que ele mesmo teceu, sendo a cultura estas teias.
Os indivíduos sentem, percebem, raciocinam, julgam e agem sob a direção
destes símbolos. A experiência humana é assim uma sensação significativa,
interpretada e aprendida (RIBEIRO, 2004).

Alguns fatores colaboram para a possibilidade ou impossibilidade de símbolos serem utilizados por
pessoas fora de seu contexto. Primeiro, vemos que os símbolos são “denunciadores” da identidade dos
indivíduos que pertencem a determinado grupo. Um coletivo é organizado em torno de características

77
Unidade I

formais como tradições, hierarquia, crenças, ideologias, práticas coletivas. Os participantes dessa
comunidade gostam de utilizar seus símbolos como forma de se reconhecerem e serem reconhecidos.

Desse fato, podem decorrer situações como as descritas a seguir, e que envolvem a interpretação
dos símbolos de um grupo social.

A primeira situação trata o caso de os símbolos serem “secretos”, e seu significado partilhado apenas
pelos iniciados. Nesse caso, sua divulgação é sempre muito restrita, e sua pouca exposição social pode
dificultar durante algum tempo sua apropriação por pessoas “estranhas” a esse coletivo.

A segunda situação ocorre com os símbolos “não secretos”, principalmente os símbolos relacionados
a ideologias políticas, movimentos coletivos ou eventos polêmicos. Eles são divulgados como forma
de afirmação de uma coletividade em torno de suas ideias e princípios, mas dependem de situações
históricas que podem torná‑los aceitos e desejáveis, ou, pelo contrário, reprovados e indesejáveis.

É o caso da suástica nazista, que no período de prevalência desse regime na Alemanha, era um símbolo
de poder. Enquanto a II Grande Guerra estava em processo havia uma nação e todos os simpatizantes ao
redor do mundo interpretavam a suástica como afirmação de ideais.

Com o final da II Grande Guerra, e conhecendo os crimes do “holocausto” contra os judeus, ela
passou a ser evitada, transformada em símbolo de terror e sua utilização foi evitada.

Como nossa memória mantém o registro dos eventos, nenhum indivíduo utiliza uma suástica
inconsequentemente, ou para significar outra coisa que não a concordância com as ideias nazistas.

Um “caso brasileiro” de uma prática social e os símbolos a ela relacionados é o da capoeira. Ao ler
esse trecho citado abaixo temos a dimensão de como a cada época as interpretações que envolvem os
mesmos rituais e símbolos sociais podem levar à rejeição ou à aceitação.

A capoeira é uma manifestação popular que possui um importante registro


histórico na corporeidade brasileira, representando modos de ser de nossos
antepassados africanos. Estes povos, que para cá vieram na condição de
escravos, foram submetidos a um processo desumano e exploratório de
suas capacidades. Diante desta situação, utilizando‑se de elementos de sua
cultura de origem, criaram estratégias para resistir e lutar contra o sistema
que os oprimia. Nesse contexto, situamos a capoeira. Um misto de luta,
dança e jogo, que se materializou como uma arma na busca pela liberdade.

Esta manifestação cultural, ao longo da história de nosso País, sofreu


modificações na sua constituição, na maneira de se interpretá‑la, praticá‑la
e difundi‑la, acompanhando mudanças políticas, econômicas e sociais.
Foi considerada de contravenção penal a símbolo da identidade nacional.
Devido à sua origem no interior das senzalas, com raízes na cultura africana,
e por ser a maioria de seus praticantes negros, durante o período Imperial
78
HOMEM E SOCIEDADE

e princípio da República, sua prática foi considerada contravenção penal.


Desta condição foi criminalizada e incorporada ao Código Penal (1890),
destacando mais uma vez a posição do negro na sociedade como ameaça
à ordem e aos cidadãos de bem. Assim, atravessou a mudança de regime,
de Monarquia à República, até meados de 1930 quando se instalou no país
uma política nacionalista comandada por Getúlio Vargas (REIS, 199714).

Naquele momento a manifestação da capoeira foi legalizada, podendo ser


praticada em ambientes fechados, passando a ser tratada como ginástica
nacional e símbolo da cultura brasileira (NORONHA, NUNES PINTO, 2004).

Entretanto, na medida em que um símbolo se distancia de seu registro original, perdendo para a maioria
de uma sociedade seus significados, ou ainda quando ele é “importado” de outra cultura ou tempo, ele
pode ser utilizado livremente, comunicando novas ideias ou sendo usado com outras finalidades15.

Lembrete

Os símbolos podem ser utilizados mesmo fora dos contextos originais


para os quais foram criados. Quando isso acontece, pode haver mudança
em seus significados.

O que aprendemos sobre os símbolos até aqui? Primeiramente, que a comunicação humana é baseada
na criação, divulgação, incorporação e rotinização de símbolos.

A linguagem falada é simbólica, a linguagem escrita é simbólica, assim como a linguagem gestual,
ou, ainda, a comunicação audiovisual. Para que nossa comunicação seja eficaz, precisamos dominar e
compartilhar os mesmos símbolos.

Em segundo lugar, os símbolos comunicam não apenas o mundo exterior à nossa mente, que é o
mundo que nos rodeia, mas comunicam também coisas imateriais, como sentimentos, ideias abstratas
e conceitos. Por isso, utilizamos os símbolos para comunicar quem somos, o que fazemos, nossas
preferências, nossa condição etc. A partir dos símbolos, materializamos aquilo que é interior à nossa
mente. Sem tal comunicação não realizaríamos nenhuma de nossas capacidades, como raciocínio,
criatividade, emotividade etc. Portanto, sem os símbolos não haveria cultura humana.

Você consegue perceber no seu dia a dia como não apenas a linguagem de sinais (como placas, sinais de
trânsito) como os objetos dos quais nos cercamos são capazes de comunicar através de sua simbologia?

14
REIS, L. V. S. O mundo de pernas para o ar: a capoeira no Brasil. São Paulo: Publisher Brasil, 1997.
15
Na verdade há uma exceção a esse fato, que teve no movimento Punk, na década de 1970, um contraponto. Os
integrantes dessa tribo urbana utilizavam de forma irônica as suásticas, pois eram contrários a qualquer identificação com
as ideias nazistas. Obviamente, nem sempre eram interpretados da forma como desejavam, trazendo ainda mais polêmica
ao irreverente movimento cultural daquele momento.
79
Unidade I

Vamos ver juntos algumas imagens como exemplo?

Figura 17 – Totem em Ketchican, Alaska.

Figura 18 – Vasos da comunidade Wuanaan, em Colombia. Foto de Pilar Quintana.

80
HOMEM E SOCIEDADE

Figura 19 – Porcelana. Museu do Prado, representando Apolo e Marsias.

Figura 20 – Lampião e Maria Bonita. Entrada do Espaço Cultural Tancredo Neves em Caruaru, Pernambuco.

81
Unidade I

Figura 21 – Casal em dança de cerimônia de casamento tradicional, nas Filipinas.

Os sistemas simbólicos criados no processo de vida coletiva em uma cultura formam um todo
integrado, cujas “partes” devem se relacionar e manter uma coerência. Leia abaixo:

Toda cultura pode ser considerada como um conjunto de sistemas simbólicos,


à frente dos quais se situam a linguagem, as regras matrimoniais, as relações
econômicas, a arte, a ciência, a religião. Todos esses sistemas visam a
exprimir certos aspectos da realidade física e da realidade social, e, mais
ainda, as relações que esses dois tipos de realidade mantêm entre si e que
os próprios sistemas simbólicos mantêm uns com os outros (LÉVI‑STRAUSS.
apud MAUSS, 2005).

Síntese

Para concluirmos, podemos afirmar que para viver em sociedade é necessário se comunicar. A
comunicação é a base de todas as culturas humanas e só é possível por sermos capazes de criar e
interpretar símbolos. Os símbolos comunicam o que pensamos, as técnicas que inventamos e utilizamos
para modificar o mundo à nossa volta, e até como nos sentimos. Para uma boa comunicação, precisamos
conhecer as convenções sociais criadas para interpretar adequadamente as mensagens.

Os símbolos são um aspecto dinâmico das culturas humanas. Eles dependem do contexto em que são
utilizados, mas podem ser incorporados por outras culturas, criando novos significados ou reproduzindo
os já conhecidos.
82
HOMEM E SOCIEDADE

Saiba mais

Sugestão de link para estudar o tema cultura e antropologia:

Blog de J. Francisco Saraiva de Sousa.

SOUSA, F. S. Antropologia simbólica, comunicação e educação. 2008.


Disponível em: <http://wwwsebantropologiacom.blogspot.com/2008/09/
antropologia‑simblica‑comunicao‑e.html>. Acesso em: 20 abr. 2011.

Exercício

Questão 1. (ENEM 2004) Cândido Portinari (1903‑1962), em seu livro Retalhos de minha vida de
infância, descreve os pés dos trabalhadores.

Pés disformes. Pés que podem contar uma história. Confundiam‑se com
as pedras e os espinhos. Pés semelhantes aos mapas: com montes e vales,
vincos como rios. (...) Pés sofridos com muitos e muitos quilômetros de
marcha. Pés que só os santos têm. Sobre a terra, difícil era distingui‑los.
Agarrados ao solo, eram como alicerces, muitas vezes suportavam
apenas um corpo franzino e doente (Cândido Portinari, Retrospectiva,
Catálogo MASP).

As fantasias sobre o Novo Mundo, a diversidade da natureza e do homem americano e a crítica social
foram temas que inspiraram muitos artistas ao longo de nossa história. Dentre estas imagens, a que
melhor caracteriza a crítica social contida no texto de Portinari é:

A) B) C)

D) E)

83
Unidade I

Resposta correta: alternativa E.

Análise das alternativas

A) Alternativa incorreta.

Justificativa: a alternativa não pode ser considerada correta, pois a figura retratada parece um ser
mitológico ou do folclore popular, mas não um trabalhador.

B) Alternativa incorreta.

Justificativa: a alternativa não pode ser considerada correta, pois a figura retratada é a de um
indígena se dedicando à arte da guerra e não um trabalhador.

C) Alternativa incorreta.

Justificativa: a alternativa não pode ser considerada correta, pois a figura retrata camponeses de
maneira estilizada não aparecendo as marcas do trabalho pesado citadas por Portinari.

D) Alternativa incorreta.
84
HOMEM E SOCIEDADE

Justificativa: a alternativa não pode ser considerada correta, pois a figura retrata pés delicados que
não possuem marcas do trabalho pesado citadas por Portinari.

E) Alternativa correta.

Justificativa: a alternativa é correta, pois a figura retrata pés disformes que se assemelham a
pedras e espinhos, aos mapas: com montes e vales, vincos como rios, pés sofridos com muitos e muitos
quilômetros de marcha, maltratados pelo trabalho pesado citado por Portinari.

Questão 2. ENEM 2004 (adaptada). A questão étnica no Brasil tem provocado diferentes atitudes:

I. Instituiu‑se o “Dia Nacional da Consciência Negra” em 20 de novembro, ao invés da tradicional


celebração do 13 de maio. Essa nova data é o aniversário da morte de Zumbi, que hoje simboliza
a crítica à segregação e à exclusão social.

II. Um turista estrangeiro que veio ao Brasil, no carnaval, afirmou que nunca viu tanta convivência
harmoniosa entre as diversas etnias.

Também sobre essa questão, estudiosos fazem diferentes reflexões:

Entre nós [brasileiros], (...) a separação imposta pelo sistema de produção foi a mais fluida possível.
Permitiu constante mobilidade de classe para classe e até de uma raça para outra. Esse amor, acima de
preconceitos de raça e de convenções de classe, do branco pela cabocla, pela cunhã, pela índia (...) agiu
poderosamente na formação do Brasil, adoçando‑o (Gilberto Freire, O mundo que o português criou).

[Porém] o fato é que ainda hoje a miscigenação não faz parte de um processo de integração das
“raças” em condições de igualdade social. O resultado foi que (...) ainda são pouco numerosos os
segmentos da “população de cor” que conseguiram se integrar, efetivamente, na sociedade competitiva
(Florestan Fernandes, O negro no mundo dos brancos).

Considerando as atitudes expostas acima e os pontos de vista dos estudiosos, é correto afirmar
que:
85
Unidade I

A) A posição de Gilberto Freire e a de Florestan Fernandes demonstram o conhecimento do senso


comum diante da questão étnica no Brasil.

B) A posição de Gilberto Freire e a do turista estrangeiro demonstram a visão da ciência antropológica


diante da questão étnica no Brasil.

C) A posição do turista estrangeiro demonstra o conhecimento do senso comum diante da questão


étnica no Brasil.

D) Somente a posição de Gilberto Freire caracteriza a visão da ciência antropológica diante da


questão étnica no Brasil.

E) Somente a posição de Florestan Fernandes caracteriza a visão da ciência antropológica diante da


questão étnica no Brasil.

Resolução desta questão na Plataforma.

86
HOMEM E SOCIEDADE

Unidade II
CULTURA, CULTURAS – CIÊNCIA, RELAÇÕES HUMANAS, SÍMBOLOS E
COMUNICAÇÃO

5 AS RELAÇÕES HUMANAS DEPENDEM DE VALORES E REGRAS

Objetivos

Todos nós enfrentamos diariamente situações em que existe a necessidade de conhecermos e nos
conformarmos com as regras. Outras vezes, somos responsáveis por criá‑las ou, até mesmo, por zelar
pela conduta de todos. Compreender como e por que a sociedade cria regras, ou qual sua importância
em nossas relações sociais, cria habilidades de relacionamento com o grupo, promovendo integração e
bem‑estar.

Evitar conflitos ou solucionar as situações conflituosas exige um amadurecimento que pode ser
obtido com as reflexões propostas nesse item.

Introdução

As relações sociais em qualquer cultura são mediadas por valores, normas e regras. Assim, quando
nos relacionamos uns com os outros, precisamos recorrer a formas de conduta que orientem nosso
comportamento e que nos tornem menos individualistas e mais coletivistas.

Se cada um de nós obedecesse apenas aos impulsos pessoais o tempo todo, ou aos instintos de nossa
espécie, fazendo apenas aquilo que “der na telha”, não seria possível existir sociedade, pois cada um
gostaria de fazer prevalecer sua própria vontade e não a dos outros.

Esse é o papel das regras sociais, que aprendemos repetitivamente durante a vida, até que se tornem
hábitos. O que torna possível essa educação para agir de acordo com as regras de uma sociedade é a
socialização. Aprendemos regras do mundo doméstico, da escola, do convívio com amigos, do trabalho,
da religião etc. Em cada universo social existem os valores que são mantidos pelo grupo e fazem parte
das condutas pessoais.

As regras não existem apenas no tratamento com os outros, elas fazem parte também de
todo o universo cultural de forma a organizar a vida. Para dar exemplos – como preparar
alimentos, servir e comê‑los, como tomar banho e manter a higiene pessoal, como arrumar uma
casa, como se vestir para cada ocasião social, como se comportar no trabalho, tudo em nossa
cultura possui uma regra ou uma forma de normalizar o comportamento, que é transformada
em hábito.
87
Unidade II

Por isso, de uma cultura para outra tudo isso se modifica, e quando mudamos de uma cultura para
outra precisamos nos adaptar às novas soluções para a vida pessoal e coletiva.

Principais conceitos

Regras, valores, normas, hábitos, socialização.

Valores e regras – desenvolvimento

O que nos torna humanos não é apenas a inteligência, mas o conjunto de nossas capacidades
biológicas somado às nossas tendências de comportamento social. Para participar de um grupo
precisamos abrir mão da maior parte dos impulsos individualistas e do que a nossa natureza, por meio
de seus instintos, nos ordena.

Para isso, é necessário entrar em uma lógica que pressupõe uma forma de controle do grupo sobre
os indivíduos. Esse controle se dá por meio da aplicação das normas e dos valores sociais.

Normas e valores são orientações para a conduta social e prevalecem em um grupo social. Os valores
são responsáveis por noções coletivas que possibilitam aos indivíduos considerar/julgar as atitudes dos
outros como “boas” ou “ruins”, “certas” ou “erradas”, “justas” ou “injustas”, comportamentos desejáveis
e indesejáveis.

Já as normas nos ajudam a diferenciar entre condutas “próprias” ou “impróprias”. As regras são
conjuntos de normas que regulam o nosso comportamento. Para todas as ocasiões sociais, aprendemos
a segui‑las e, sem perceber, exigimos dos outros que também o façam.

Lembrete

Valores são modelos de referência para a nossa moral, enquanto as


normas garantem que nosso comportamento seja adequado ao do grupo.

Não existe necessidade de que todos os indivíduos concordem e obedeçam a totalidade do conjunto
de valores e normas de seu grupo social. Muitas vezes, discordamos de alguns valores que orientam a
conduta das pessoas e procuramos seguir um senso próprio.

Mas, na maior parte do tempo percebemos que certos valores prevalecem em nossa sociedade, e que
não é possível individualmente mudá‑los. É importante lembrar também que a sociedade é dinâmica, e
que, ao longo do tempo, os valores e as normas tendem a mudar de acordo com a vontade coletiva.

Até a década de 1960 era considerada imoral a atitude de um casal de namorados se beijar na boca
em público. Atualmente, essa norma está bastante flexibilizada. Ainda nesse assunto, é sabido que a
virgindade feminina era um valor social. As mulheres tinham que se casar virgens obrigatoriamente. A
virgindade deixou de ser um valor.
88
HOMEM E SOCIEDADE

Mas o que exatamente é uma regra?

Vamos começar com o auxílio do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.

Regra s.f. 1 aquilo que regula, dirige, rege; princípio, norma, preceito 2 norma,
fórmula que indica o modo apropriado de falar, pensar, agir em determinados
casos (r. de gramática, de um jogo) 3 aquilo que foi determinado, ou se tem
como obrigatório pela força da lei, dos costumes etc.; lei, princípio, norma
(r. de conduta, de boa educação); (...) (HOUAISS, 2009).

O que é possível perceber nessa definição de nosso dicionário sobre a regra?

Para nosso estudo, é importante ressaltar que há duas dimensões das regras. Uma de caráter formal,
que está relacionada com normas e leis. É o conjunto de regras como as leis de um povo, ou as regras
de um tipo de jogo.

Há também as regras mais informais, que não estão registradas de forma escrita e que não precisam
ser “estudadas” ou conhecidas pela escrita. São as regras que permeiam nossa vida cotidiana, que
regulam nossa conduta.

Lembrete

Existem diferentes “universos” de regras. As regras de jogos, que


são necessárias conhecer apenas para poder jogar ou torcer, e as regras
do cotidiano social, que precisamos aprender para poder viver em
coletividade.

Será que podemos equivaler hábitos a regras? Vamos pensar nisso! Hábitos são formas repetitivas e
regulares de fazer certas coisas. Quando a maioria dos indivíduos de uma sociedade possui os mesmos
hábitos, eles passam a ser compreendidos como regras.

Pois bem, nossa cultura está cheia de hábitos que aprendemos com os outros. Comer com talheres
ou palitos, tomar banho em chuveiros ou de imersão, horários de refeições, dormir em camas ou redes,
e uma infinidade de coisas diárias que nos ocupam.

Quando uma regra é insistentemente repetida, ela se transforma em hábito, então percebemos que
não precisamos pensar em “como eu devo fazer isso, mesmo?” Quer dizer que essas ações como o jeito
de comer, dormir ou tomar banho são regras?

De certa forma sim! Quando você testemunha alguém em sua cultura fazendo as “coisas habituais”,
como preparar alimentos ou mesmo escrever de outra forma que não aquela usual, a tendência é você
se manifestar e reprimir o comportamento do outro. Claro que isso depende da situação e da intimidade
possível, mas, no geral, nos espantamos, por exemplo, se uma pessoa em um jantar não familiar resolve
89
Unidade II

pegar os alimentos servidos à mesa com as mãos, ou se leva seu próprio talher que está sendo usado
na tigela comum para se servir.

Transformamos algumas regras em hábitos, e alguns hábitos em regras. Tudo depende de qual
situação está sendo analisada.

Lembrete

As regras se transformam em hábitos quando repetimos exaustivamente


seu uso e deixamos de pensar que esse comportamento é uma forma de
regrar a vida coletiva.

Para cada cultura existe apenas um único conjunto de valores e normas? Sim e não.
Ocorre que existem valores e regras muito gerais, que nos dão noção de como agir “em qualquer
situação”.

Entretanto, quando participamos de grupos dentro dessa cultura, como grupos religiosos,
profissionais, esportivos, acadêmicos etc., percebemos que a cada âmbito social correspondem valores e
normas específicos para aquele contexto.

Lembrete

Há regras e normas que devem ser seguidas por todos os indivíduos


de uma sociedade, e há aquelas que são aplicadas apenas a alguns grupos
específicos. Clubes, instituições religiões, associações e partidos são bons
exemplos desses grupos.

A tendência de um pequeno grupo social é estabelecer seu próprio conjunto de valores, que pode
estar em acordo com a sociedade, como pode estar em grande desacordo.

Tudo depende da relevância e da legitimidade que esse grupo possa adquirir perante o resto
da sociedade. Quando ele se torna muito influente, pode mudar coisas consideradas impossíveis. É
importante ressaltar que, estando ou não de acordo com o conjunto de valores, é necessário que ele
exista. É a partir de um modelo que os indivíduos e os grupos podem estabelecer concordância ou
discordância com a totalidade da sociedade.

Lembrete

O consenso, em relação aos valores, é obtido quando a grande


maioria da sociedade concorda com alguma atitude e lhe atribui
importância.
90
HOMEM E SOCIEDADE

As normas e os valores precisam ser mantidos, e, para isso, há uma espécie de “vigilância”. Existem
vários níveis de “vigilância” que a sociedade cria para zelar pelo cumprimento dos valores e das normas.
Um é o institucional. Existem instituições para punir quem não se comporta “adequadamente”, como
escolas, prefeituras, a polícia, as leis e a jurisdição, além do Estado.

Também existe outro nível de “vigilância”, que é o convívio social. Em todos os nossos contatos
podemos observar como as pessoas julgam todo o tempo a conduta uns dos outros. Frases como:
“mas também, mereceu!”, “fulano é muito fofoqueiro”, “eu não faria isso”, “você pode me explicar por
que fez isso?” entre tantas outras, são uma forma que os indivíduos demonstram que é preciso que
todos participem de alguma forma do conjunto de valores, e que as normas devem valer para todos.
Os que não seguem as normas e os valores são repreendidos, e recebem um tipo de punição moral,
psicológica.

Então, vamos retomar um pouco nesse ponto. Vimos que há uma norma mais geral, que há normas
que valem apenas em alguns grupos, e que os grupos que conseguem se tornar mais influentes podem
determinar, para os outros, algumas normas e valores.

É possível afirmar que o estabelecimento de normas e valores em uma sociedade é sempre resultado
de uma disputa em torno do consenso? Sim, a sociedade está o tempo todo debatendo sobre seus
próprios valores, e a maior parte deles dificilmente é um consenso absoluto, mas apenas corresponde a
uma maioria.

Aprendemos o “jogo social” de seguir regras desde muito cedo. Além, é claro, da educação oferecida
pelos pais, que nos proporcionam a primeira socialização em nossas vidas, temos outras formas de
introjetar1 a lógica das regras. Os jogos são bons exemplos disso. Para participar, aprendemos desde
cedo que é necessário seguir as regras, do contrário, o jogo não se desenrola. E se as regras de um
jogo mudassem sempre e a cada vez que fosse jogado, não seria mais esse mesmo jogo, mas um jogo
diferente.

Observe que é lento o processo de mudança de valores em uma sociedade. E para que ele aconteça,
é necessária a participação, a discussão, os exemplos contrários, até que o coletivo perceba que não tem
nada a perder, que não “acabaria o jogo” se abrisse mão de um ou outro valor ou se transformasse essa
ou aquela regra.

Dentro de pequenos grupos sociais essa mudança é mais fácil. O coletivo torna‑se mais acessível
a todos que participam, e é viável um debate constante. Em clubes, empresas, associações, escolas, a
mobilização para a discussão é um processo mais rápido e mais efetivo.

Já para mobilizar toda a sociedade, o processo é bem mais lento, pois pode haver um longo período
de transição sem muito consenso em torno de determinado valor ou norma. Daí, o que normalmente
ocorre é muito conflito em relação a como todos devem agir.

1
Introjeção designa em psicologia e, mais especificamente, na teoria psicanalítica o processo pelo qual a criança
incorpora os valores dos pais e da sociedade, transformando‑os em seus (WIKIPEDIA).
91
Unidade II

As regras enquadram o comportamento humano, no sentido de que não permitem qualquer forma
de conduta o tempo todo. Muitas vezes os indivíduos não podem fazer certas coisas como de fato
gostariam, e acabam abrindo mão de suas vontades em função do que os outros iriam falar ou pensar.

Mas, as regras são, necessariamente, algo que “aprisiona” ou “limita” os indivíduos? Não! Seguir
regras é um atributo humano, e tudo em nossa cultura depende delas. A linguagem falada/escrita é
um conjunto de regras. Não seria possível nos comunicarmos se não as seguíssemos. Para formular
qualquer pensamento em sua mente, você precisa recorrer à linguagem que aprendeu. Você já percebeu
que pensamos por meio de palavras? E que se não houvesse palavras, seu pensamento seria algo
absolutamente incomunicável?

A língua, como todas as formas de linguagem, é um corpo repleto de regras


que garantem a produção de sentido pela sua ordem lógica e gramatical.
Permitindo aos seres humanos o uso dessa lógica na produção e ordenação
de seus pensamentos, emoções e expressões, de forma individual ou
coletiva. Os princípios lógicos dessa ordem são as regras que ela contém
(PASSADOR, 2003).

Então, a exemplo da linguagem, podemos dizer que tudo, mas tudo mesmo, em nossa cultura é
uma aplicação de regras. Para falar uma língua, é necessário dominar todas as regras de formulação do
pensamento a partir de frases com coerência, coesão e de acordo com a norma dessa língua. Apenas
assim, é possível comunicar tudo o que passa em nossa mente.

Língua e cultura não existem separadamente. Uma depende da outra, pois sem o desenvolvimento
de uma língua, os indivíduos de um grupo não se comunicariam, e sem a cultura a linguagem seria
limitada às necessidades de nosso instinto.

Até mesmo para expressar sentimentos como ciúme, amor ou ódio, não o fazemos a partir de algo
inato em nosso ser, e sim a partir da forma como é aprendido em nossa cultura que é correto fazê‑lo.
Os sentimentos são inatos, mas a forma que encontramos para expressá‑los não são. Vamos pensar em
exemplos?

Pois bem, vamos falar de amor materno. Será que é algo que toda mulher tem “dentro dela”?
Infelizmente não. O amor materno é um valor reforçado socialmente, e que algumas mulheres seguem
com maior rigor e outras menos. Instinto materno seria mais apropriado para falarmos de natureza. Se
amor fosse algo natural, será que encontraríamos bebês abandonados em lixeiras e em outros locais
impróprios, como é comum vermos em noticiários?

Está bem, você pode argumentar que nesses casos o “desespero” foi maior que o amor dela por seu
bebê, mas então é possível que a condição social/cultural se sobreponha a sentimentos inatos?

Sim, e muitos bebês são abandonados não apenas for falta de condição material da mãe para criá‑lo;
é comum mulheres de classes sociais privilegiadas, por questões morais, acabarem optando por essa
prática. Moral, dinheiro ou tantas outras coisas podem se sobrepor ao “amor materno natural”? Apenas
92
HOMEM E SOCIEDADE

entendendo que esse sentimento é resultado de um valor social, podemos explicar tantas exceções. Na
hora de tomar uma decisão, os valores são ponderados, e a moral pode prevalecer sobre o amor ou a
vontade pessoal.

As línguas são parte das culturas e, como os demais sistemas culturais


(religião, economia, moral, arte, etc.), guardam relação intrínseca com
as formas de vida e pensamento culturais. O fato de serem ordenadas a
partir de regras, que se constituem como seus princípios de ordenação
lógica, assim como qualquer sistema simbólico, revela que as culturas
como um todo são ordenadas a partir de regras, que se constituem como
seus princípios de ordenação lógica, possibilidade de produção e troca de
significados compartilhados e, portanto, de comunicação e compreensão
(PASSADOR, 2005).

Bem, continuaremos falando sobre outro sentimento, o ciúme. Em cada cultura, é reforçado que
em alguns contextos é considerado apropriado “sentir ciúmes”. Em nossa cultura, em que a forma de
casamento é monogâmica, é muito comum vermos cenas de ciúme de namorados e de casais.

Os parceiros expressam com certa “naturalidade” esse sentimento frente aos outros, e em certa
medida são apoiados em suas atitudes. A monogamia é uma regra e pressupõe a fidelidade conjugal.
Pois bem, existem culturas onde a regra de casamento é a poligamia.2

Será que esse tipo de coisa acontece? Não! Em lugares onde o casamento pressupõe vários parceiros
legalmente constituídos, as cenas de ciúme conjugal não são vistas, e, de fato, as pessoas são estimuladas
desde cedo a reprimir esse tipo de atitude.

Assim, como o amor e o ciúme, todos os sentimentos humanos recebem influência da cultura de um
povo para que adquiram expressão. A expressão de sentimentos humanos recebe uma forte carga da
cultura de cada povo.

Esses são exemplos de como, ao longo da vida, os indivíduos respondem às influências de sua cultura
e transformam em coisas naturais as regras que são sociais, ou seja, externas a cada um de nós. As regras
se tornam hábitos, e, por isso, quando estes são confrontados com hábitos de outras culturas, surge uma
tendência a considerar errado o que é apenas estranho.

Lembrete

Se os valores são um conjunto de ideias que um grupo social considera


desejável no comportamento de seus indivíduos, as normas são regras de
conduta baseada nesses valores.

2
A poligamia é uma instituição presente em muitas sociedades, e supõe que o casamento pode e deve se realizar
entre um marido e mais de uma esposa (poliginia) ou, ainda, uma esposa e mais de um marido (poliandria).
93
Unidade II

O mesmo acontece no mundo do trabalho. Cada um de nós se habitua às regras e formas de


procedimento em certa organização, e, ao mudarmos de emprego, seja com outras funções,
seja em outra empresa, precisamos passar por um período de adaptação, e isso é uma forma de
socialização.

As regras são a garantia do grupo social de que cada um de nós tome atitudes, a maior parte do tempo,
de acordo com a convenção coletiva, e não com os impulsos pessoais. Ao repetirmos os hábitos sociais,
realizamos a possibilidade de convivência em grupo, evitando atitudes conflituosas e individualistas que
exigiriam uma constante negociação das partes envolvidas até chegarem a um acordo. Já pensou como
isso tornaria impossível a sociedade?

5.1 As mudanças de regras e valores

O conjunto de valores e regras de uma cultura está em constante transformação.

Não é possível manter indefinidamente o mesmo conjunto de valores e regras, porque tudo em
uma cultura se transforma com o tempo. Se há uma transformação de hábitos, por exemplo, no
uso da tecnologia, isso terá impacto em outros âmbitos da vida social, assim como na família ou no
trabalho.

Você pode estar se perguntando: mas hábitos no uso da tecnologia podem mudar valores familiares?
Sim! É muito claro isso em nossa própria cultura. Os membros de uma família tendem a empregar cada
vez mais tempo interagindo com aparelhos eletrônicos do que com os próprios familiares. Por conta da
importância dada à tecnologia, o ritmo das relações familiares face a face perdeu espaço na vida das
pessoas.

Com relação aos valores e às regras no mundo do trabalho, há uma grande quantidade de
transformações, que vão desde as exigências na formação até os hábitos que precisam ser coibidos por
superiores, como o desperdício de tempo das pessoas com a interatividade social eletrônica.

Lembrete

Uma transformação de valores leva à outra, porque a cultura funciona


em conjunto. É um todo interligado e não há como isolar algum de seus
aspectos e garantir que não haverá mudanças.

Segundo Laraia (2006), as mudanças podem resultar de dois fatores principais, internos e externos.

As transformações são geradas a partir da vida coletiva de um povo que se transforma dinamicamente
com o tempo, mesmo sem qualquer influência de eventos ou povos externos a ela. O choque de gerações
é um bom exemplo para perceber esse fenômeno. Mas, muitas vezes, são transformações mais lentas
para serem notadas e que podem ser aceleradas com eventos históricos como uma grande descoberta
tecnológica ou mesmo uma guerra.
94
HOMEM E SOCIEDADE

Já as externas são mais repentinas e normalmente resultam do contato com uma cultura alheia. Um
caso exemplar em nossa história foi a chegada dos europeus ao continente americano, na época das
Grandes Navegações, a partir de 1500 d.C.

Dizer que é um caso exemplar se justifica, pois hoje há um intenso contato entre culturas do mundo
todo, a ponto de tornar mais difícil para as pessoas leigas perceberem os impactos de uma cultura sobre
outra.

Já no caso dos povos nativos das Américas, os chamados indígenas, as transformações decorrentes
do contato com culturas alheias foi um fato inegável. Isso ocorreu devido ao isolamento dos
indígenas, que viviam em nosso continente há séculos, sem qualquer influência de povos não
americanos.

Atualmente, não é tão nítida essa influência, pois quase não existem mais povos isolados, e as culturas
passaram a ter cada vez mais valores que são mundiais, sendo o processo de influência perceptível
apenas para os estudiosos das ciências sociais.

Portanto, as influências que resultam de fatores externos continuam a acontecer com frequência em
nosso mundo cada vez mais globalizado.

A diferença é que atualmente há uma confusão sobre as fronteiras. Não há mais como afirmar o que
é apenas interno e aquilo que, sem sombra de duvidas, é algo apenas externo.

Lembrete

A palavra “tradição” deriva do latim traditio, que significa transmissão,


algo que é transmitido do passado ao presente. Por isso, chamamos de
tradição cultural um conjunto de valores e práticas que se mantém e
atravessa muitas gerações.

O importante em diferenciar essas fronteiras é compreendermos que fazemos parte de um processo


de transformações que tendem a ampliar a consolidação de valores mundiais, mas que não impedem
de haver regras e valores locais. Afinal de contas, nossa vida cotidiana se faz, ainda, no convívio com o
“nosso povo” e com o “nosso lugar”.

Essa questão das tendências que denominamos de globalização será tratada de forma mais
aprofundada na próxima unidade.

Por enquanto, nos interessa compreender como essa dinâmica de transformações de valores e regras
ocorre, e quais seus impactos na vida de cada um de nós individualmente.

As regras e os valores se formam conjuntamente. Sim, não é possível aplicar regras que ferem valores,
como não é possível manter valores se não há regras a eles associados.
95
Unidade II

Pois bem, em cada sociedade há uma enormidade de valores que podem estar presentes em
pequenos grupos ou comunidades, mas que não, necessariamente, representam o conjunto dessa
sociedade. Entretanto, sempre há uma norma vigente, um desses conjuntos de valores que atravessa
toda a sociedade, independentemente de sexo, classe social ou religião.

É o que denominamos de valores predominantes ou valores vigentes. Eles se encontram dispersos


na sociedade e são defendidos pela maioria de seus membros. Eles, portanto, caracterizam uma
cultura.

A transformação desse conjunto predominante de valores é o nosso foco de interesse nesse momento.
Como é que uma sociedade vivencia a transformação de valores que são tão importantes para a maioria
de seus membros?

Toda transformação de valores acarreta em consequências desagradáveis para algumas pessoas. Isso
porque há um controle social sobre nosso comportamento individual. Quando alguém age de forma
considerada inadequada ou imoral, fica sujeito a punições de ordem pessoal. Essas punições atingem a
vida desses indivíduos por meio da desmoralização pública, do isolamento ou mesmo da perseguição
moral.

Ser chamado de nomes vexatórios e humilhantes, receber tratamento desprezível ou ser ignorado
são recursos de punição moral que o grupo pode utilizar quando alguém age fora dos padrões
convencionais.

Nesse momento, torna‑se claro quem são os conservadores, aqueles que defendem a manutenção
de uma ordem de valores; e quem são os inovadores, que apesar dos custos para sua vida pessoal e social
assumem as consequências em nome das mudanças.

Lembrete

O processo de transformação de valores e regras pode gerar duas


reações básicas no grupo social: os que as aceitam (podemos chamá‑los de
inovadores); e os que as rejeitam (podemos chamá‑los de conservadores).

Segundo Laraia (2006), a sociedade pode ser vista como um palco de embate entre essas duas
tendências e “as primeiras pretendem manter os hábitos inalterados, muitas vezes atribuindo aos mesmos
uma legitimidade de ordem sobrenatural. As segundas contestam a sua permanência e pretendem
substituí‑los por novos procedimentos”.

Esse autor chama atenção para o fato de que ir contra regras morais vigentes coloca a sociedade em
situações de conflito.

Assim, uma moça pode hoje fumar tranquilamente em público, mas isto
somente é possível porque antes dela numerosas jovens suportaram as
96
HOMEM E SOCIEDADE

zombarias, as recriminações, até que estas se esgotaram diante da nova


evidência. Por isto, num mesmo momento é possível encontrar numa mesma
sociedade pessoas que têm juízos diametralmente opostos sobre um novo
fato (LARAIA, 2006).

Os conservadores representam a ordem de valores que está instituída e, portanto, têm apoio e poder
para julgar e reprimir os inovadores. E para obter transformação, os inovadores precisam enfrentar as
situações de constrangimento até que sua conduta não seja mais percebida como uma ameaça ao grupo.

Como todo sistema, a cultura e os valores vigentes também têm dois níveis de existência, que são o
ideal e o real. O ideal corresponde àquilo que as pessoas idealizam, portanto, não é algo concreto, mas
uma abstração, uma construção mental.

Já o real corresponde à forma como as pessoas colocam em prática, de fato, os valores vigentes. Sabe
aquela velha frase: “na prática a teoria é outra”?3 Apesar de seus equívocos, essa frase nos serve para
ilustrar a questão de como a sociedade, às vezes, é bastante dúbia.

É que mesmo entre os defensores da moral vigente, é possível perceber que há muitas exceções,
e, ainda muitas vezes, as regras sendo aplicadas de forma equivocada. Vamos pensar em um exemplo
bem simples para uma colocação que pode lhe parecer tão complicada: o caso da regra de fidelidade
matrimonial.

Em nossos valores vigentes, idealmente o casamento deve ser uma instituição monogâmica, dentro
da qual os parceiros devem manter esse preceito da fidelidade. Entretanto, mesmo entre pessoas muito
conservadoras, não é incomum encontrarmos casos de infidelidade, que muitas vezes são conduzidos
de forma muito danosa afetivamente e moralmente para o outro cônjuge.

O ideal é um, a prática é outra.

Mas os valores não são referentes apenas a esse tipo de questão relacionada à moral sexual ou
de comportamento em público. Todo tipo de ideia que carrega consigo uma importância para nossa
consciência é um valor.

Vamos citar exemplos bem atuais. A preservação do meio ambiente passou a ser um valor para a
humanidade quando se percebeu a falta de sustentabilidade do modelo que utiliza de forma abusiva os
recursos do meio ambiente, gerando poluição, extinção e desequilíbrio.

Há aspectos da vida social em torno dos quais não existe um consenso de valores, e é possível
encontrarmos coisas opostas. Por exemplo, sobre o tema “trabalho”, podemos levantar uma multiplicidade

3
Essa frase representa certas falácias sociais, uma vez que essa divisão é inexistente e foi construída pela sociedade
que dá supremacia a resultados práticos, não discutiremos aqui todo o problema que envolve tal afirmação pelo senso
comum. Mas é importante que você saiba que ela está sendo usada como recurso de lógica e não no seu sentido literal, e
que as ideias embutidas nela são errôneas.
97
Unidade II

de valores, como dignidade e esperança, realização e motivação. Mas também encontramos o trabalho
relacionado a valores como sofrimento, mal necessário, martírio.

Você consegue pensar em outros exemplos que ilustrem essa ideia sobre as regras e valores de nossa
sociedade atualmente? Faça esse exercício por alguns instantes. Relacione aspectos de nossa vida social,
como a família, as amizades, o lazer, e procure fazer uma lista dos valores relativos a cada um deles.

Depois de fazer isso, você vai perceber como os valores vão mudando com o passar do tempo e como
é necessário que se compreenda esse movimento da cultura em torno dos valores e das regras.

Toda cultura sofre uma constante transformação, a cultura é algo vivo e dinâmico. Por mais que uma
sociedade pareça “congelada”, há sempre algumas coisas que mudam com o tempo.

Estar preparado para entender as mudanças de nossa época, e se posicionar como indivíduos capazes
de construir uma opinião é um grande desafio.

Concluindo, cada sistema cultural está sempre em mudança. Entender esta


dinâmica é importante para atenuar o choque entre as gerações e evitar
comportamentos preconceituosos. Da mesma forma que é fundamental para a
humanidade a compreensão das diferenças entre povos de culturas diferentes, é
necessário saber entender as diferenças que ocorrem dentro do mesmo sistema.
Este é o único procedimento que prepara o homem para enfrentar serenamente
este constante e admirável mundo novo do porvir (LARAIA, 2006).

Ser conservador sempre pode transformar uma pessoa em inflexível e preconceituosa. Por outro
lado, não refletir sobre as mudanças e abraçar todas as novas causas pode transformar uma pessoa em
alguém pouco confiável para tecer julgamentos, por incapacidade de se posicionar.

Um bom caminho para saber se posicionar, em relação às atitudes muito simples do cotidiano até
as questões que colocam em risco a ordem das coisas, é tentar ponderar considerando os seguintes
aspectos.

As mudanças/inovações beneficiam a quem e por quê?

As mudanças/inovações prejudicam a quem e por quê?

Assim, podemos considerar, de forma mais justa, a necessidade ou não da defesa das inovações ou
da manutenção da ordem.

Observação

Na antropologia, a discussão a respeito da manutenção da tradição cultural


ou de sua transformação tem uma longa lista de autores e pesquisas.
98
HOMEM E SOCIEDADE

Normalmente, a importância dessa discussão se deve aos fenômenos do


contato entre diferentes culturas, a que denominamos “contato cultural”
ou “contatos interétnicos”. Os cientistas procuram compreender qual o
impacto desse contato com o diferente em uma tradição.

Leia o trecho, a seguir, em que o autor Mércio Pereira Gomes coloca algumas observações
importantes.

Além do aspecto físico, a cultura se reproduz, para usarmos um raciocínio


tautológico, por meios próprios, culturais. O principal meio cultural de
reprodução é a transmissão de significados culturais não só de geração a
geração, mas no espaço de uma mesma geração, no cotidiano. Isso se dá por
meio da linguagem e do comportamento ensinado, emulado e aprendido
pelos novos membros da coletividade. Ao transmitir os significados que
a caracterizam, a cultura ao mesmo tempo se mantém. No processo de
transmissão, que se dá no tempo, ela pode criar novos significados e, portanto,
mudar. A cultura tem meios e instituições de autopreservação e conservação
que lhe permitem funcionar com estabilidade – e, por conseguinte, dar
confiança aos indivíduos que a vivenciam. São meios de conservação
a língua, entendida aqui como o compartilhamento dos significados
das palavras para a transmissão de mensagens; os modos de educação,
formais e informais, que também podemos chamar de “enculturação”4, isto
é, o tornar‑se membro de uma cultura; as maneiras de sociabilidade; as
instituições como casamento e família. Os rituais de solidariedade social, e
muito mais. (GOMES, 2009)

Síntese

Para ser possível a vida em sociedade, precisamos de valores comuns e regras que orientem nossa
conduta pessoal. Ao longo de nossas vidas, aprendemos constantemente as formas mais adequadas de
conduta em cada ambiente social por meio dos processos de socialização.

Os valores e regras estão em constante mudança, e são uma importante referência para o
comportamento dos indivíduos em relação às suas consciências. Cada indivíduo procura agir de acordo
com o que entende ser correto, também emite julgamentos ou toma exemplos alheios como lições de
boa conduta social.

É importante você saber que esse assunto que envolve normas, regras, valores é de extrema importância
em nossas relações sociais, e envolve reações que podem ser muito expressivas emocionalmente. Ou
seja, ao defender um conjunto de valores, ao defender uma tradição ou simplesmente algo considerado
muito importante, as pessoas podem se deixar levar por fortes emoções e se tornarem agressivas, ou
com raiva, ou intolerantes, ou ainda muito sensíveis e abaladas.

4
Enculturação é o mesmo que endoculturação, conceito utilizado.
99
Unidade II

Em muitos campos de atuação profissional isso faz parte de experiências que são quase cotidianas.
Advogados, psicólogos, veterinários, educadores físicos, publicitários, administradores, educadores,
nutricionistas, médicos, fisioterapeutas, enfim, para listar apenas uma pequena amostra, todos esses
profissionais em seu contato com o público, e ao aplicar ou indicar um procedimento profissional, podem
se deparar com conflitos de interesses e valores que já estão instituídos, ou as “verdades” locais.

A forma como as pessoas organizam seu universo social, como orientam sua conduta com os outros,
consigo mesmo ou com os animais é resultado de um sistema de valores estabelecido sobre tradições,
costumes, regras que são herdadas. Esse conjunto que orienta a conduta das pessoas pode ter um caráter
muito local, ser muito específico de um tipo de comunidade, ou ter uma abrangência mais universal.

A ciência e seus procedimentos não defendem que seja papel de um profissional impor outra
perspectiva às pessoas. Mas quando essa perspectiva que já está instituída é prejudicial à saúde, às boas
relações sociais, ou à natureza, se faz necessário um trabalho de diálogo, de esclarecimento. Nem tudo
que é tradicional é necessariamente bom para todos.

E o inverso também é verdadeiro. A ciência depende da expansão do conhecimento. Muitas vezes


aspectos de uma tradição podem colaborar para a boa atuação profissional e ampliar o conhecimento
sobre um tema.

Portanto, o que vale no final de tudo é a ética do profissional. O respeito ao outro não pode ser
abandonado mesmo quando se faz necessária alguma mudança em seu universo de valores.

Saiba mais

Se você quiser aprofundar suas leituras sobre esses temas, tente os links
abaixo:

— Valores e normas, publicado por Caderno de Sociologia.

GIDDENS, A. Sociologia. 5. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian,


2007, pp. 22‑23. Trecho Disponível em:<http://cadernosociologia.blogspot.
com/2009/01/valores‑e‑normas.html>. Acesso em: 19 abr. 2011.

— Regina Aparecida Freitas da Costa Diniz. Uma reflexão sobre a ética,


multiculturalismo e educação:

DINIZ, R. A. F. da C. Uma reflexão sobre a ética, multiculturalismo


e educação. In: NET SABER. Net Saber. Disponível em: <http://artigos.
netsaber.com.br/resumo_artigo_10165/artigo_sobre_uma_reflexao_
sobre_a_etica,_multiculturalismo_e_educacao>. Acesso em: 19 abr.
2011.

100
HOMEM E SOCIEDADE

— Conceitos básicos de sociologia e antropologia, ferramentas para


pensar.

CONCEITOS BÁSICOS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA, ferramentas


para pensar. Texto disponível em: <mit.universia.com.br/21/21A218J/PDF/
basicconcepts.pdf>. Acesso em: 19 abr. 2011.

— Para ler um documento muito interessante de uma comissão


da UNESCO, que discute a prática científica e as tradições culturais,
no contexto de uma profissionalização transdisciplinar (que abrange
diferentes ciências), leia: Ciência e tradição perspectivas transdisciplinares
para o século XXI.

Berger, R. et alii. Ciência e tradição perspectivas transdisciplinares para o


século XXI. Texto disponível em: <www.manamani.org.br/cienciaetradicao.
pdf>. Acesso em: 19 abr. 2011.

— Turquia mantém tradição de tratar psoríase com “peixe médico”,


reportagem disponível no G1:

TURQUIA MANTÉM TRADIÇÃO DE TRATAR psoríase com “peixe


médico”. G1. 2009. Disponível em: <http://g1.globo.com/Noticias/
Ciencia/0,,MUL1261527‑5603,00‑TURQUIA+MANTEM+TRADICAO
+DE+TRATAR+PSORIASE+COM+PEIXE+MEDICO.html>. Acesso em: 19 abr.
2011.

— Sobre sustentabilidade e aproveitamento de recursos


ambientais:

SILVA, W. C. C. et alii. Identidade cultural: sustentabilidade em


comunidades tradiconais. In: X JORNADA DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO
– JEPEX 2010 – UFRPE: Recife, 2010. Recife. Anais... Disponível em: <http://
www.sigeventos.com.br/jepex/inscricao/resumos/0001/R0601‑2.PDF>.
Acesso em: 19 abr. 2011.

Sugestão de leitura complementar

GOMES, M. P. Antropologia: ciência do homem, filosofia da cultura. São


Paulo: Contexto, 2009.

PASSADOR, L. H. A noção de regra: princípio da cultura, possibilidade


de humanidade. in GUERRIERO, S. Antropos e psique: o outro e sua
subjetividade. São Paulo: Olho d´Água, 2005.

101
Unidade II

6 CADA POVO UMA CULTURA, CADA CULTURA UMA SENTENÇA: A


DIVERSIDADE CULTURAL

Objetivo

Tentar compreender outra cultura é um exercício muito parecido com o de tentar compreender o
outro, ou seja, alguém que pensa bem diferente de você.

Entrar em contato com diferentes perspectivas ou formas de reagir ao contato com as diferenças
culturais traz um aprendizado maior do que pode parecer. Possibilita uma flexibilidade pessoal
para compreender que, ao aceitar o ponto de vista do outro, pode‑se enriquecer a visão de mundo
pessoal.

Assim é quando aprendemos a compreender o diferente, desde outra pessoa até outro povo.

Aprender com o relativismo cultural essa possibilidade de se colocar no lugar do outro, é ampliar as
possibilidades de soluções criativas.

Introdução

Existe uma tendência no senso comum a classificar as diferentes culturas em graus evolutivos.
Frases como: “que povo atrasado!”, “isso sim é um povo evoluído!” são corriqueiras em nosso cotidiano.
Mas dificilmente nos questionamos sobre o que estamos considerando para julgar alguém dessa
forma.

A antropologia entrou nesse debate na segunda geração de pesquisadores5, que ao conhecer mais
profundamente a diversidade cultural por meio da pesquisa de campo, apontou a impossibilidade de
tais julgamentos.

Principais conceitos

Etnocentrismo, relativismo, diversidade cultural, alteridade, cultura evoluída versus cultura primitiva,
endoculturação, aculturação.

Ao formar uma coletividade, o ser humano desenvolve hábitos de convívio e soluções para sua vida
social que podem ser extremamente variados. A isso denominamos diversidade cultural. Nossa reação
perante as diferenças de comportamento de um lugar para outro podem ser orientadas de duas formas:
ou pelo etnocentrismo ou pelo relativismo cultural. Neste item serão abordadas a rejeição do diferente
(representada pelo etnocentrismo) e a aceitação do diferente (representada pelo relativismo).

5
A chamada primeira geração de antropólogos inclui os primeiros pesquisadores do século XIX, que jamais saíram
da Europa para conhecer os povos sobre os quais teorizavam. Já a chamada “segunda geração” chegou logo depois, a partir
dos primeiros anos do século XX, e praticavam a “pesquisa de campo”, que supõe a permanência entre os membros da
cultura observada.
102
HOMEM E SOCIEDADE

Estamos o tempo todo em contato com universos culturais diferentes do nosso, seja com outros
povos, seja com costumes regionais. Por isso, é importante exercitarmos nossa capacidade de relativizar
as diferenças, considerando a perspectiva a partir da qual o “outro” vê o mundo.

A antropologia nega a existência de culturas em estágios de evolução ou primitivismo, e desenvolveu


o relativismo cultural para refletir sobre as diferenças entre as muitas culturas humanas.

6.1 A diversidade cultural

Vamos nos dedicar a refletir sobre a diversidade cultural.

Vimos, nos itens anteriores, que a cultura é um fenômeno produzido pelo ser humano, mas
que depende da condução da coletividade, ou seja, ela é construída socialmente, e não herdada
biologicamente. Isso faz com que em cada lugar e em cada época histórica, exista uma imensa
diversidade de regras, símbolos e formas de conduzir a vida coletiva. É o que chamamos de diversidade
cultural.

Podemos considerar algumas consequências deste fato. O primeiro deles, é que em cada cultura o ser
humano desenvolve respostas e soluções, às vezes, completamente originais e diferentes para sua vida
em sociedade. Isso acontece tanto em relação às técnicas de sobrevivência e transformação da natureza
à sua volta, como nas regras de convívio social.

Vimos anteriormente em outros itens, que mesmo em meio ambientes muito semelhantes, podemos
encontrar exemplos de formas culturais bastante diferentes entre si.

A outra consequência da diversidade cultural é que, quando colocadas em contato, as diferenças


culturais suscitam reações que podem ir da simples admiração ou humor até o ódio mais violento.
Quando essa reação ao diferente faz com que as pessoas julguem a sua própria cultura como sendo
superior à outra, chamamos a isso etnocentrismo.

Etnocentrismo é uma visão do mundo em que o nosso próprio grupo é tomado como centro de
tudo e todos os outros são pensados e sentidos a partir dos nossos valores, nossos modelos e nossas
definições do que é a existência.

No plano intelectual, esse pensamento pode ser visto como a dificuldade em aceitar que a diferença
de lógicas e sentidos possa existir; no plano afetivo, o etnocentrismo pode ser percebido em sentimentos
de estranheza, medo, hostilidade etc.

Para compreender o conceito de etnocentrismo, vemos que “etno” vem da palavra etnia, que
significa um povo que compartilha a mesma base cultural – língua, tradições, religião – e “centrismo”
significa colocar no centro. Portanto, praticar o etnocentrismo é o mesmo que colocar minha própria
cultura como centro do mundo, a partir da qual todas as outras são comparadas inferiormente, nunca
se igualando à superioridade da minha.

103
Unidade II

Todos nós somos, em alguma medida, etnocêntricos, pois é natural preferirmos nosso próprio
modo de encarar o mundo ao de qualquer outro povo. Portanto, guardadas as devidas proporções, o
etnocentrismo nada mais é que uma forma de valorizar a própria identidade cultural.

Mas o etnocentrismo pode ser um problema quando se torna uma forma sistemática e repetitiva
para enfrentarmos a diferença, pois assim nos tornamos incapazes de ser flexíveis e admitir novas
formas de solucionar as coisas.

Ou pior ainda, quando o etnocentrismo se torna tão radical que uma etnia deseja exterminar a outra
simplesmente por não tolerar seus costumes e sua forma de encarar o mundo, ou quer dominar o outro,
sufocando suas regras, leis e costumes até que nada de sua originalidade tenha sobrevivido.

Atualmente, temos vários exemplos de “guerras étnicas” no mundo, tanto guerras de fato – para
citar a Bósnia, ou a Chechênia – quanto guerras que acontecem por causa do “imperialismo cultural”,
que é quando uma cultura se impõe sobre outras exercendo influências no cotidiano e se utilizando
do mercado, dos meios de comunicação ou qualquer outra forma de participar dos hábitos de seus
indivíduos e influenciá‑los a agir de outra forma.

O fato de que o homem vê o mundo através de sua cultura tem como


consequência a propensão em considerar o seu modo de vida como o
mais correto e o mais natural. Tal tendência, denominada etnocentrismo, é
responsável em seus casos extremos pela ocorrência de numerosos conflitos
sociais.

O etnocentrismo, de fato, é um fenômeno universal. É comum a crença


de que a própria sociedade é o centro da humanidade, ou mesmo a sua
única expressão. As autodenominações de diferentes grupos refletem
este ponto de vista. Os Cheyene, índios das planícies norte‑americanas, se
autodenominavam “os entes humanos”; os Akuáwa, grupo Tupi do Sul do
Pará, consideram‑se “os homens”; os esquimós também se denominam “os
homens”; da mesma forma que os Navajo se intitulavam “o povo”. (...)

Tais crenças contêm o germe do racismo, da intolerância, e, frequentemente,


são utilizadas para justificar a violência praticada contra os outros
(LARAIA, 2006).

A diversidade cultural pode ser encontrada não apenas de um povo para outro, de um lugar para
outro, mas, por exemplo, dentro de um mesmo país. Aqui no Brasil, conhecemos o fenômeno dos
“regionalismos”, que são costumes que mudam de uma região para outra, e como resultado temos um
país rico em culturas locais.

Além disso, sentimos as diferenças culturais entre pessoas que moram em grandes centros urbanos
e aquelas que habitam em pequenas cidades do interior. Mudam alguns aspectos da cultura brasileira
entre esses diferentes ambientes sociais (de uma região para outra, da cidade para o campo).
104
HOMEM E SOCIEDADE

Lembrete

É possível perceber a diversidade cultural quando um grupo social tem


dificuldades em aceitar o modo dos “outros” fazerem as coisas.

Os cidadão urbanos, tendem a achar “atrasadas” as localidades em que ainda não chegaram os
shopping centers, as grandes avenidas, os viadutos, o aglomerado humano e cultural das grandes
cidades. A vida no interior tem outros hábitos, outro ritmo, outras preocupações cotidianas. Assim, de
forma etnocêntrica, as pessoas tendem a achar que falta “agitação”, “opção”, como se não houvesse “o
que fazer” em um lugar menos denso populacionalmente.

A diversidade cultural existe em dois níveis, de uma grande cultura para outras e dentro de uma mesma
cultura. Esses níveis são percebidos na experiência social quando se sente que, independentemente do
Estado de origem, temos muita coisa em comum, que nos faz em pertencer a um mesmo complexo
cultural, uma nacionalidade.

Lembrete

A diversidade cultural existe tanto de um povo para outro ou de uma


nação para outra, como dentro de uma mesma cultura.

Entretanto, de uma região para outra ou de um tipo de ambiente social para outro, existem
variações que tornam esse povo único, especial. Existe uma imensa variação possível dos hábitos
culturais dentro de um único país: o uso da linguagem, a alimentação, o trato social, o tipo de
humor etc.

Na linguagem antropológica, quando estamos lidando com uma pessoa com hábitos diferentes do
nosso, com outra cultura, estamos perante o “outro”. Esse outro pode ser alguém que não fala a minha
língua, que não se veste como eu, mas também pode ser alguém que compartilha muitos hábitos
semelhantes aos meus, e outros nem tanto.

A nossa capacidade em nos relacionar com o “outro” é chamada de alteridade. Essa capacidade nos
torna pessoas mais flexíveis e mais criativas em soluções, pois ampliamos nosso universo de visão do
mundo, saindo da própria “casca”.

Alteridade (ou outridade) é a concepção que parte do pressuposto básico


de que todo homem social interage e interdepende de outros indivíduos.
Assim, como muitos antropólogos e cientistas sociais afirmam, a existência
do “eu‑individual” só é permitida mediante um contato com o outro (que
em uma visão expandida se torna o Outro – a própria sociedade diferente
do indivíduo).

105
Unidade II

Dessa forma eu apenas existo a partir do outro, da visão do outro, o que me


permite também compreender o mundo a partir de um olhar diferenciado,
partindo tanto do diferente quanto de mim mesmo, sensibilizado que estou
pela experiência do contato (WIKIPEDIA. Alteridade. Disponível em: <http://
pt.wikipedia.org/wiki/Alteridade>, acesso em 02 de novembro de 2010).

Quanto mais fechados em nosso próprio universo cultural menos possibilidades temos de compreender
a riqueza humana em criar diferentes perspectivas para uma mesma questão.

Você consegue perceber em seu cotidiano essa dificuldade de adaptação a novos ambientes sociais/
culturais? Quando a gente começa a frequentar um novo círculo social, por causa de trabalho, ou
religião, ou amizades, enfim, independente da motivação que temos para estar lá, existe uma dificuldade
inicial que é “entender o outro”.

Para compreender a importância de aprofundar a reflexão sobre o contato com o outro ou com a
diferença, leia esse trecho, a seguir, em que a autora Neusa M. M. de Gusmão, demonstra que os tempos
mudaram, e isso exige uma conduta diferente por parte da sociedade.

Se no passado o outro era de fato diferente, distante e compunha uma


realidade diversa daquela de meu mundo, hoje, o longe é perto e o outro
é também um mesmo, uma imagem do eu invertida no espelho, capaz de
confundir certezas, pois não se trata mais de outros povos, outras línguas,
outros costumes. O outro, hoje, é próximo e familiar, mas não necessariamente
é nosso conhecido. O desafio da alteridade é assim, mais contundente agora
do que no passado, em que a imposição pela força era suficiente para definir
hierarquias e papéis, subjugando em nome de princípios científicos, morais e
religiosos (GUSMÃO, 1999).

Você considera o brasileiro etnocêntrico?

Pense um pouco sobre essa questão. Normalmente o brasileiro se julga pouco patriota e muito
aberto às influências externas. O brasileiro sabe que aceita a presença de outros povos de forma muito
mais cordial que a população de muitos outros lugares. Pensando assim, nos falta etnocentrismo, é bem
verdade.

Entretanto, o brasileiro se julga o povo mais receptivo, informal e alegre do mundo. Isso é uma forma
de etnocentrismo. Negamos a outros povos a alegria, nos colocando como superiores nessa questão.

Ou, ainda, podemos lembrar que em relação aos outros povos da América Latina, o brasileiro se
considera “melhor” ou “superior”. Por isso, somos etnocêntricos sim! E vale lembrar que o etnocentrismo
pode acontecer dentro de um mesmo país, como o nosso, que comporta diferentes regiões culturais.

O paulista, por suas próprias razões, se considera “melhor” ou “mais trabalhador” que o carioca,
e vice‑versa; “nordestino” ou “baiano” virou apelido pejorativo no Centro‑Sul, utilizado de forma
106
HOMEM E SOCIEDADE

preconceituosa e ofensiva. Os baianos por sua vez, acusam os paulistas de serem um povo sem tradições
próprias ou identidades, e assim seria possível seguir com muitos exemplos. Todas essas são formas de
etnocentrismo.

Veja o que Roque de Barros Laraia coloca sobre o assunto: “Comportamentos etnocêntricos resultam
também em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes. Práticas de outros sistemas
culturais são catalogadas como absurdas, deprimentes e imorais (LARAIA, 2006).

Existe uma oposição ao etnocentrismo? Sim, é o que chamamos de relativismo cultural.

Quando somos capazes de avaliar uma cultura alheia, sem utilizar o tempo todo a nossa própria
cultura como parâmetro de comparação, estamos relativizando. O relativismo cultural faz parte da
antropologia desde meados do século XX, quando muitos pensadores passaram a defender que não era
correto um cientista julgar algumas culturas como “evoluídas” ou “atrasadas” em relação às outras. Para
isso, usaram argumentos sobre a falta de imparcialidade nesse tipo de pensamento.

Lembrete

O relativismo cultural é uma atitude que exige que o observador se


coloque no lugar do outro para julgar as situações a partir de uma perspectiva
relativa ao outro, e não a si mesmo. Por isso, exige a alteridade.

Se você quiser pesquisar um pouco mais sobre etnocentrismo e relativismo cultural, há no portal de
vídeos “Youtube” um bom número de trabalhos desenvolvidos. Basta você colocar em sua busca esses
termos, e poderá ver como é uma questão que envolve dificuldades para um relacionamento humano
bom e ético.

Quando julgamos a totalidade de uma cultura como “evoluída”, sugerimos que ela está avançada ou
melhorada em relação às outras que devem seguir esse mesmo rumo de modificações.

A pergunta que a antropologia colocou é: existe uma única forma de evolução cultural? Todas as
culturas devem, necessariamente, evoluir na mesma direção? Se a resposta que você der for afirmativa,
então, deveremos levantar alguns problemas.

O que podemos considerar como evolução?

O relativismo cultural rompe com a noção de uma história e uma cultura


únicas e comuns a todos os povos, assumindo que cada povo tem sua
história particular, relativa às experiências que cada um viveu naquele
tempo e espaço em que se inserem (PASSADOR, 2003).

Podemos dizer que evolução são conquistas tecnológicas? Será que a tecnologia é um quesito
suficiente para garantir que uma cultura seja superior?
107
Unidade II

Nas sociedades de tecnologia avançada, atualmente, os indivíduos trabalham pelo menos oito
horas diárias para sobreviver, e necessitam de, pelo menos, 15 anos de estudos para garantir um nível
“médio” de qualidade de vida. Quanto menor for o investimento de tempo e recursos para os estudos,
menor serão os rendimentos garantidos para a família. Assim, se não quisermos nos submeter a uma
vida materialmente difícil e com poucos recursos, temos que investir bastante em nossa qualificação
profissional.

Essa situação é completamente diferente em uma tribo, em que a tecnologia se resume aos
instrumentos de sobrevivência, como arados, machados e teares. Um indivíduo de uma tribo brasileira,
por exemplo, trabalha, em média, três horas diárias, e não frequenta um dia sequer em escolas. Ele
não precisa se preocupar com sua qualidade de vida, pois todos em uma tribo possuem exatamente o
mesmo nível econômico6. Sua qualificação para o trabalho se dá durante seus contatos com indivíduos
mais experientes, e as crianças participam com os adultos de todas as atividades, sendo submetidas
desde cedo às estratégias de sua cultura para sobreviver. Como a sociedade não conhece diferenças
econômicas, não existe criminalidade, violência ou problemas sociais, como drogas, prostituição e
doenças mentais.

Você pode ter uma ideia de como uma economia como a dos índios, que nos acostumamos a chamar
de “economia de subsistência”, por não produzir excedentes para o mercado, pode ser encarada de
forma muito contrária à ideia de “miséria” ou de “condição precária”. Leia abaixo:

Os índios, efetivamente, só dedicavam pouco tempo àquilo a que damos o


nome de trabalho. E apesar disso, não morriam de fome. As crônicas da época
são unânimes em descrever a bela aparência dos adultos, a boa saúde das
numerosas crianças, a abundância e variedade dos recursos alimentares. Por
conseguinte, a economia de subsistência das tribos indígenas não implicava,
de forma alguma, a angustiosa busca, em tempo integral, por alimento.
Uma economia de subsistência é, pois, compatível com uma considerável
limitação do tempo dedicado às atividades produtivas (CLASTRES, 1990).

O trecho demonstra que não há, entre os indivíduos das sociedades de economia de subsistência,
qualquer sentimento ou evidência de escassez ou penúria. O autor, Pierre Clastres defende que essas
sociedades não são incapazes de desenvolver tecnologia e não desejam produzir excedentes. Para eles, o
valor fundamental é o tempo livre, e não a riqueza acumulada individualmente (Clastres, 1990).

Jacques Lizot, que vive há muitos anos entre os índios Yanomami da Amazônia venezuelana,
estabeleceu, cronometricamente, que a duração média do tempo que os adultos dedicam todos os dias
ao trabalho, incluídas todas as atividades, mal ultrapassa três horas. Não chegamos, pessoalmente, a

6
Denomina‑se “sociedades de economia igualitária” os modelos de organização social e econômica que não geram
desigualdades e hierarquia entre os indivíduos, em termos de poder econômico; e “sociedades de economia desigualitária”
aqueles modelos que geram essa desigualdade. A nossa sociedade é desigualitária. Para aprofundar esse assunto, é
recomendada a leitura de: GOMES, M. P. Antropologia. São Paulo: Contexto, 2009 (Especialmente o capítulo “Antropologia
Econômica”).
108
HOMEM E SOCIEDADE

realizar cálculos desse gênero entre os Guayaki, caçadores nômades da floresta paraguaia. Mas pode‑se
assegurar que os índios – homens e mulheres passavam pelo menos a metade do dia em quase completa
ociosidade, uma vez que a caça e a coleta se efetuavam, e não todos os dias, entre, mais ou menos, 6 e
11 horas da manhã. É provável que estudos desse gênero, levados a efeito entre as últimas populações
primitivas, resultassem – consideradas as diferenças ecológicas – em resultados muito parecidos
(CLASTRES, 1990).

Desse ponto de vista, será que ainda é sustentável afirmarmos que a tecnologia é o quesito mais
importante para formar uma sociedade evoluída? Podemos mesmo sustentar que evolução pode ser
resumida em avanço tecnológico?

A antropologia defende que isso não é possível, e que precisamos considerar cada aspecto de uma
cultura dentro de seu próprio contexto, comparativamente a outras, mas cada uma dentro de seus
próprios valores. Portanto, existem tecnologias e tecnologias. Quando o conceito de tecnologia vem
associado à destruição ambiental, à exclusão social, ao monopólio de conhecimentos e à acumulação de
riquezas, podemos afirmar que acontece evolução? As ciências sociais afirmam que não.

Assim, não podemos generalizar nossas comparações, não podemos julgar com preconceitos, ou
seja, antes é necessário conhecer e ponderar as implicações e os aspectos de cada traço de uma cultura,
como sua tecnologia, seu conhecimento, suas leis ou suas crenças.

Isso é relativizar, analisar cada aspecto de uma cultura de acordo com seu próprio contexto. Por isso,
a antropologia nega a existência de uma hierarquia de culturas, que começaria com as mais “primitivas”
ou “atrasadas” e iria até o topo das mais “avançadas” e “evoluídas”.

Essa escala única, dentro da qual teríamos que encaixar e classificar cada cultura, só faz sentido se
aceitarmos que um índio precisa se transformar no futuro em um operário, em um executivo engravatado
ou em um cientista. As culturas não precisam produzir, necessariamente, o mesmo tipo de sociedade,
cada uma vai construindo sua própria história e suas próprias soluções de mundo. Cada uma “evolui”
ao seu próprio modo.

Relativizar é aceitar outras soluções de mundo, sem querer transpor de forma simples essa solução para
um contexto onde ela não se encaixa. Os brasileiros não se adaptam à forma de trabalhar dos orientais, mas
podem usar seus conceitos, adaptando‑os às suas características, trazendo‑os ao seu contexto7.

Para que você situe a questão do problema gerado pelo etnocentrismo em nossa sociedade
atualmente, veja abaixo algumas colocações de autores como Everardo ROCHA (O que é etnocentrismo,
São Paulo: Brasiliense) e Mércio P. GOMES (Antropologia, São Paulo: Contexto):

7
Há hoje na antropologia um intenso debate sobre o valor do relativismo cultural. Isso porque se considera que seu
uso é exagerado e se levado à risca, impede o debate da ética entre as diferentes culturas. Assim, não poderíamos jamais
julgar o outro como errado, pois não existiriam princípios éticos universais, como os Direitos Humanos. Mas, guardados
esses radicalismos, o relativismo cultural cumpre um importante papel científico e humano ao valorizar a existência dos
“outros”.
109
Unidade II

• A colocação central sobre etnocentrismo pode ser expressa como a procura de sabermos quais
são os mecanismos, as formas, os caminhos e razões, enfim, pelos quais tantas e tão profundas
distorções se perpetuam nas emoções, pensamentos, imagens e representações que fazemos da
vida daqueles que são diferente de nós?

O poder de que fala sobre o outro:

Quando construímos uma fala sobre o outro, nos colocamos em uma posição central, e esquecemos que
algumas coisas podem ser “distorcidas” em nossa fala. Falar do diferente pode provocar medo, ou raiva.

• A diferença é ameaçadora porque fere nossa própria identidade cultural

• No etnocentrismo, uma mesma atitude informa os diferentes grupos. O etnocentrismo não é


propriedade de uma única sociedade.

• O etnocentrismo passa exatamente por um julgamento do valor da cultura do “outro” nos termos
da cultura do grupo do “eu”.

• Aqueles que são diferentes do grupo do eu – os diversos “outros” deste mundo – por não poderem
dizer algo de si mesmos, acabam representados pela ótica etnocêntrica e segundo as dinâmicas
ideológicas de determinados momentos.

• A “indústria cultural” – TV, jornais, revistas, publicidade, certo tipo de cinema, rádio – está
frequentemente fornecendo exemplos de etnocentrismo.

• No universo da indústria cultural é criado sistematicamente um enorme conjunto de “outros”


que servem para reafirmar, por oposição, uma série de valores de um grupo dominante que se
autopromove a modelo de humanidade.

Mas, como relativizar então?

• Relativizar é ver as coisas do mundo como uma relação capaz de ter tido um nascimento, capaz
de ter um fim ou uma transformação.

• Relativizar é não transformar a diferença em hierarquia, em superiores e inferiores ou em


bem e mal, mas vê‑la na sua dimensão de riqueza por ser diferença.

• Relativizar é olhar para o mundo a partir do ponto de vista do outro.

• Quando vemos que as verdades da vida são menos uma questão de essência das coisas e mais
uma questão de posição: estamos relativizando.

• Quando compreendemos o “outro” nos seus próprios valores e não nos nossos: estamos
relativizando.
110
HOMEM E SOCIEDADE

• Quando o significado de um ato é visto não na sua dimensão absoluta, mas no contexto em que
acontece: estamos relativizando (ROCHA, 1998).

Lembrete

O etnocentrismo e o relativismo cultural são formas opostas de agir em


relação ao “outro”. Pode haver uma gradação ao utilizá‑los. Não devemos
ser tão etnocêntricos a ponto de odiar o outro, e não devemos relativizar
princípios que são universais e preservam a integridade de qualquer ser
humano.

O valor da hierarquia para os orientais é tão fundamental, que muitas vezes não compreendemos sua
obsessão em obedecê‑la. Acabamos chamando a isto de “submissão”, quando na verdade é um fenômeno
mais complexo que isto. Se não compreendemos a importância da hierarquia para os orientais em toda
sua profundidade, podemos valorizar uma chefia que conduz sua equipe a um trabalho bem sucedido,
ou um subordinado que desempenha brilhantemente suas tarefas. Valorizar e respeitar alguém superior
ou inferior na escala de divisão de tarefas são componentes da hierarquia.

Quanto mais exposta à diversidade cultural, mais exercícios de alteridade uma pessoa precisa
desenvolver. Aprendemos a julgar o mundo a partir dos valores de nossa cultura, e isto é necessário
em nossas vidas. Mas nenhum de nós possui a totalidade do conhecimento de nossa própria cultura, e
nenhuma cultura é isoladamente perfeita. Portanto, a riqueza da diversidade cultural está em mostrar
diferentes pontos de vista para questões semelhantes.

Lembrete

É preciso considerar que em qualquer sociedade todos os indivíduos são


influenciados pela visão de mundo de sua cultura para fazer julgamentos.

A diversidade cultural é tão importante para a humanidade quanto a diversidade biológica. Sem o
equilíbrio e a convivência entre as diferentes culturas, teríamos, com certeza, uma humanidade mais
pobre, na qual a troca de experiências se limitaria a repetir sempre as mesmas soluções. Respeitar e
saber aproveitar a diversidade são desafios para o mundo futuro.

A seguir, você tem a oportunidade de ler um trecho do documento produzido pela 31ª Conferência Geral
da Unesco, ocorrida em novembro de 2001, em Paris. Trata‑se da “Declaração Universal sobre a Diversidade
Cultural”. O documento é disponibilizado para consulta eletrônica e é apresentado como: “um instrumento
legal que reconhece, pela primeira vez, a diversidade cultural como ‘patrimônio comum da humanidade’ e
considera sua guarda um imperativo concreto, inseparável do respeito à dignidade humana”8.

8
Tradução livre do original em inglês disponível em: <http://portal.unesco.org/culture/en/ev.php‑URL_
ID=2977&URL_DO=DO_TOPIC&URL_SECTION=201.html>, acesso em 03 de novembro de 2010.
111
Unidade II

Identidade, diversidade e pluralismo

Artigo 1 – A diversidade cultural, patrimônio comum da humanidade.

A cultura adquire formas diversas através do tempo e do espaço. Essa


diversidade se manifesta na originalidade e na pluralidade de identidades
que caracterizam os grupos e as sociedades que compõem a humanidade.
Fonte de intercâmbios, de inovação e de criatividade, a diversidade cultural
é, para o gênero humano, tão necessária como a diversidade biológica é para
a natureza. Nesse sentido, constitui o patrimônio comum da humanidade e
deve ser reconhecida e consolidada em benefício das gerações presentes e
futuras (UNESCO, 2002.).

Na última década, a diversidade cultural se tornou um tema importante em muitos setores da


sociedade. O tema “diversidade” pode ser encontrado em artigos que procuram desenvolver novas
condutas em muitas esferas de atuação profissional. Como, por exemplo, as áreas de gestão e
administração de empresas, educação, publicidade, jornalismo, marketing, arquitetura, design, entre
outras.

Você pode pesquisar na internet blogs, revistas, páginas corporativas, artigos científicos em que
os termos “diversidade cultural” estejam envolvidos. Você poderá perceber que tem sido um tema
importante na atualidade.

Você também pode assistir a um pequeno audiovisual disponível no Youtube, e que se chama
exatamente “Diversidade Cultural”, e trata‑se de uma seleção muito boa de imagens da diversidade.
Você vai perceber que ao final da apresentação, todos nós deveríamos ficar muito satisfeitos com a
imensa capacidade humana para a diversidade. Mas o que nós todos percebemos acontecendo em nosso
cotidiano, é um rápido processo de homogeneização cultural, ou seja, toda a humanidade segue cada
vez mais um mesmo padrão.

É muito importante como profissional, e, sobretudo como cidadão do mundo, que você tenha
consciência que a diversidade cultural é tão importante para a humanidade, quanto a diversidade
biológica é importante para a sustentabilidade do planeta.

O conceito envolvido na questão do etnocentrismo e do relativismo cultural hoje em dia é inclusão.


A diversidade deve ser tratada como um direito de expressão, como um patrimônio humano, e não como
fonte de intolerância entre povos e pessoas.

Há uma famosa frase de um cientista social português, nosso contemporâneo, que tem sido muito
divulgada, e nos dá o sentido dessa discussão.

“As pessoas têm direito a serem iguais sempre que a diferença as tornar inferiores;
contudo, têm também direito a serem diferentes sempre que a igualdade colocar em risco suas
identidades.” (SANTOS, 1997, pg. 122).
112
HOMEM E SOCIEDADE

Essa frase resume toda a necessidade de discussão sobre diversidade cultural, ou seja, temos que
ser tratados como iguais para não sermos inferiorizados, mas também temos o direito à diferença para
não arriscar nossa identidade. É interessante você discutir essa frase com amigos, familiares, colegas de
trabalho e poder trocar ideias a respeito.

A íntegra do texto citado acima está disponível para visualização em: <http://www.dhnet.org.br/
direitos/militantes/boaventura/boaventura_dh.htm>.

6.2 Cultura e visão de mundo

A cultura humana, em sua diversidade, não se expressa apenas através de diferentes formas de
vestuário, culinária, hábitos cotidianos e rituais. Pois é, sobretudo, através dos conceitos que aprendemos
em nossa endoculturação que somos capazes de atribuir qualidades e significados à vida.

Endoculturação se refere aos processos de aprendizado dos valores e hábitos de nossa cultura, do
lugar onde nascemos. Você se lembra do conceito de socialização, não é mesmo? A socialização nos
capacita a sermos membros de uma sociedade, a nos comportar coletivamente. Já a endoculturação é
um processo em que, alguns valores, ideias, hábitos e crenças de nossa cultura são tão internalizados por
cada indivíduo, que se tornam quase inconscientes. Inconsciente, no contexto, significa que o indivíduo
não percebe como algo foi aprendido, e esse aprendizado está tão inculcado que parece fazer parte de
nossa natureza, ou personalidade.

Lembrete

Ao passarmos por processos de endoculturação, estamos nos tornando


membros desta cultura, sendo aceitos como “iguais”, por compartilharmos,
em grande parte, a mesma visão de mundo. Não temos consciência de que
certas condutas foram aprendidas, por isso, passam a nos parecer naturais,
pertencentes de nossa própria vontade e de nossos próprios impulsos.

A antropóloga Ruth Benedict é autora de uma frase muito explicativa e poética para definir cultura.
Ela afirma que cultura “são as lentes através das quais vemos o mundo”.

Pois bem, em sua afirmação podemos compreender que entre o mundo que nos rodeia e seu
intérprete (nossa mente) existem lentes, uma espécie de “filtro” que possibilita conceituar, qualificar
e dar sentido a tudo que nossa mente apreende. Essa lente nunca é neutra, e a cultura a carrega com
seus valores. Em cada uma delas, o ser humano interpreta de forma diferente o que vê, como entender
fenômenos e situações, como julgar e conceituar tudo que acontece à sua volta, e até mesmo em sua
própria mente.

O que se afirma é que não existe uma total objetividade na forma como o ser humano observa,
apreende e conceitua o mundo. Existem, na verdade, métodos de conhecimento que podem chegar
a uma maior objetividade, como a ciência ou a filosofia. Já o senso comum e as religiões não exigem
113
Unidade II

objetividade, pois são formas de conhecimento atravessadas por valores muito próprios, dos quais
não podem abrir mão. No caso do senso comum, as afirmações são feitas sem qualquer pesquisa ou
indagação; para as religiões, existem os princípios de fé em preceitos e dogmas que afirmam verdades
sobre o mundo.

• Visão de mundo e senso comum: Quando conversamos sobre o mundo baseados no senso
comum, afirmamos aquilo que nossa cultura nos ensina ser verdadeiro, pois tudo é visto através
de suas lentes.

• Visão de mundo e religião: Quando conversamos sobre o mundo baseados em uma religião,
afirmamos aquilo que nossa fé nos ensina ser verdadeiro.

• Visão de mundo e ciência ou filosofia: Quando conversamos sobre o mundo baseados na


ciência ou na filosofia, precisamos aceitar certas verdades, mesmo que não sejam adequadas à
nossa moral, aos nossos princípios religiosos ou preconceitos.

Cada cultura possui uma forma específica de ver o mundo. No México, por exemplo, o catolicismo
tem uma forte influência sobre a cultura popular e um grande sincretismo9 com crenças astecas. Para a
população desse país, o dia de finados, que na tradição católica é um dia de tristeza pela dor da perda,
na cultura mexicana recebe o tratamento de uma festa alegre, com muita dança, música e culinária. É o
chamado “dia dos mortos”, cujas crenças afirmam que os antepassados adquirem vida e vêm visitar os
lares de seus entes queridos. Por isso, eles “são recebidos” com muita alegria e fartura.

Para o povo havaiano, antes da colonização inglesa, as erupções vulcânicas eram explicadas como
sendo uma forma de comunicação dos deuses com a tribo, e não como fenômeno da natureza.

Esses povos, e todos os outros com suas características marcantes, estão errados? Partindo da
perspectiva de outras culturas, podemos afirmar que sim. Partindo da perspectiva de suas culturas,
podemos afirmar que não. Pois visão de mundo é a forma como as pessoas interpretam o mundo de
acordo com seus valores e reagem da forma adequada ao seu grupo social.

Existe a possibilidade de mudança nessas visões de mundo? Sim, a cultura é algo que está o tempo
todo em transformação. Ao entrar em contato com outro povo, vários tipos de mudanças são possíveis,
bem como o reforço de antigos valores culturais às vezes esquecidos ou “fora de moda”.

Para uma parte dos antropólogos, quando uma cultura se modifica em função do contato com o
“outro”, seja em pequenos aspectos ou mesmo de forma avassaladora, podemos denominar aculturação.
Isso acontece quando substituímos valores de nossa cultura original pelos valores de outras culturas. Este
caso poderia ser aplicado ao exemplo acima do povo havaiano. Atualmente, após séculos de colonização
inglesa e depois norte‑americana, os havaianos já não explicam erupções como sendo “castigos dos

9
Sincretismo é um fenômeno cultural e designa um processo em que um povo mescla diferentes influências
religiosas e crenças ou misticismos, apesar da não aceitação por parte dos representantes oficiais dessas instituições e
grupos.
114
HOMEM E SOCIEDADE

deuses”. Os índios brasileiros também sofreram alterações comportamentais, pois foram obrigados a
substituir as línguas nativas pelo português, e a nudez pelas roupas europeias. Esses seriam exemplos de
aculturação. Entretanto, muitos antropólogos não concordam com essa perspectiva.

Aculturação significa, literalmente, negar a cultura; perder a cultura. O prefixo “a” é ausência, negação.
Utilizado por muitos cientistas sociais para descrever fenômenos de perda de tradições, de referenciais
próprios. Mas muitos antropólogos entendem que não existe cultura totalmente pura, isolada ou que
não aproveite traços e se deixe influenciar por outras. Afirmamos sempre que a cultura é dinâmica. Pois
bem, se formos pensar rigorosamente, qual cultura não seria jamais aculturada? Nenhuma cultura cria
sozinha, a não ser por total e completo isolamento, todo o conhecimento e técnicas de mundo.

As expressões “troca cultural”, “empréstimo cultural”, “aculturação,


transculturação”, “acomodação”, “assimilação”, “sincretismo” e outros termos
correlatos foram muito utilizados pelos antropólogos norte‑americanos,
no sentido de que a cultura dominada adota características da cultura
dominante. Estas categorias, usadas até os anos de 1960, depois caíram de
moda quando se passou a refletir mais sobre o colonialismo e a dominação
(FERRETTI, 2007).

Apesar desse debate, podemos recorrer corretamente ao conceito de aculturação para muitos
fenômenos que pretendemos explicar. Por exemplo, a influência da televisão sobre os valores de
sociedades tradicionais, como os moradores do campo e das pequenas comunidades rurais, que passam
a pensar como os moradores dos grandes centros urbanos.

Isso seria uma forma de aculturação? Sim, pois esses valores não estão sendo mudados em função
de uma dinâmica própria, ou de necessidades reais, mas de um contato que se impõe por meio de um
instrumento (televisão) sobre as comunidades locais, que não escolhem temas, produzem programas ou
se qualificam para administrar essas empresas de comunicação.

Você consegue levantar exemplos de aculturação, ou de assimilação em seu campo de atuação


profissional? Não? Pois saiba que se trata de um fenômeno de relacionamento entre culturas diferentes,
que atinge um grande espectro de profissionais atualmente.

Saiba mais

Para quem trabalha com gestão, ou administração, a questão da


“cultura organizacional” pode ser um elemento de conflito e problemas em
processos. Se você quiser fazer uma leitura complementar, tente este link:

OLIVEIRA, O. V.; FORTE, S. H. A. C. Processo de aculturação em aquisições:


estudo de caso de uma grande empresa do setor alimentício. Artigo disponível
em: <http://www.aedb.br/seget/artigos08/229_229_ArtigoCultura%5D.pdf>

115
Unidade II

Para quem atua no setor de educação, há um sem número de artigos


publicados no portal “Scielo Brasil”, que dá acesso a publicações científicas
on‑line. Você pode fazer uma busca sobre “educação indígena”, ou
simplesmente “educação multicultural”.

Para quem atua na área de economia ou direito, há um artigo


interessante de Denis Lerrer Rosenfield, intitulado Aculturação e integração,
e que está disponível em: <http://www.bloglawandeconomics.org/2009/03/
aculturacao‑e‑integracao.html>.

Quem se interessa pela questão social do negro no Brasil, há uma obra


rara, e muito importante, de 1942, e disponibilizada digitalmente e na
íntegra em um portal chamado Brasiliana Eletrônica, de responsabilidade
da UFRJ, na página: <http://www.brasiliana.com.br/brasiliana/colecao/
obras/110/A‑aculturacao‑negra‑no‑Brasil>.

Aliás, para você que atua na área de viagens e turismo, ou direito, ou


economia, ou mesmo relações internacionais há nesse portal acima obras
de interesse histórico. Vale a pena conferir os títulos em: <http://www.
brasiliana.com.br/brasiliana/colecao>.

Os indivíduos se relacionam e interagem socialmente a partir de valores e hábitos culturais. Portanto,


quando pessoas de culturas diferentes interagem, é correto afirmar que as culturas estão se relacionando.
Leia o texto abaixo de Mércio P. Gomes.

Aqui chegamos ao importante tema do relacionamento entre culturas.


Podemos dizer, com um pouco de licença poética, que as culturas se
relacionam umas com as outras. Por exemplo, a cultura brasileira se relaciona
com a cultura norte‑americana ou com as culturas indígenas. É certo que
são os indivíduos que se relacionam uns com os outros; mas ao fazerem,
ao lado de trocarem bens e produtos, transmitem e recebem valores,
ideias, pensamentos, modos de comportamento que são absorvidos, isto é,
“emprestados”, de propósito ou até inconscientemente (...) (GOMES, 2009).

Para aprofundar as questões levantadas pelo contato entre as diferentes culturas, e a interferência da
visão de mundo de um povo, você pode ler o capítulo “A cultura condiciona a visão de mundo do homem”,
no livro Cultura: um conceito antropológico, de Roque de Barros Laraia, citado na bibliografia.

Síntese

A diversidade cultural expressa a infinita capacidade humana em produzir diferentes visões de


mundo. Não existem culturas atrasadas ou avançadas, mas, sim, uma multiplicidade de soluções para a
vida humana. Somos seres endoculturados e nossa visão de mundo equivale grandemente aos valores

116
HOMEM E SOCIEDADE

de nossa própria cultura. Podemos reagir ao contato com o “outro” etnocentricamente ou a partir do
relativismo cultural. O etnocentrismo revela a incapacidade de se colocar no lugar do outro, por julgá‑lo
preconceituosamente como inferior. Quando nos colocamos no lugar do outro, é estabelecido o que se
denomina relação de alteridade. O relativismo cultural e a postura de alteridade agregam valores ao ser
humano, e o torna mais flexível ao debate, à convivência e a um tratamento mais justo em relação à
diferença.

Saiba mais

Conceitos básicos da antropologia e da sociologia: <http://universia.


com.br/mit/21/21A219/PDF/hobasicconcepts.pdf>

7 DIFERENTES CULTURAS, CARACTERÍSTICAS HUMANAS UNIVERSAIS

Objetivo

Diferenciar o que é universal no comportamento humano e o que é particular.

Introdução

O ser humano produz diversidade cultural. Você pode aprender como é importante constatar essa
diversidade e se habilitar a lidar com ela em situações de contato com a diferença.

Entretanto, o ser humano não é apenas diverso. Somos uma espécie que compartilha características
que nos assemelham, nos tornandos iguais e não diferentes. Por isso este item trabalha os conceitos de
“características universais”.

Características universais são aquelas que não se alteram em função do contexto ou condição
momentânea. Características particulares são aquelas que encontramos apenas em determinados
contextos, seja de um lugar para outro, seja de uma época para outra.

As culturas humanas são, sem sombra de dúvida, plenas em particularidades. Mas dar atenção ao
que é universalizado em nossa espécie também é fundamental.

Principais conceitos

Simbolização, estruturalismo, pesquisa de campo, diversidade cultural.

Diversidade cultural, relações humanas

A humanidade sempre conviveu, se espantou e reagiu à diversidade cultural. Temos registros


de povos muito antigos curiosos por solucionar dilemas, como: “teria existido um dia uma língua
117
Unidade II

universal?”, “existe uma cultura primeira, que deu início a todas as outras?”, “por que os outros
povos não acreditam no meu Deus?” etc. Na verdade, esses dilemas demonstram, em alguns casos,
etnocentrismo, em outros espanto ou indignação, e fazem parte da eterna inquietação humana
por responder a tudo. Para a antropologia, esses dilemas apresentam questões equivocadas, pois
todas pretendem chegar a uma cultura primordial, perfeita ou que explique que os povos que não a
seguiram são inferiores ou errados.

Para as ciências sociais, o ser humano é um animal cultural, ou seja, jamais será capaz de viver em
sociedade sem produzir símbolos, interpretar ao seu modo o mundo que o rodeia, e, assim, produzir uma
cultura original. Se vivemos em uma tribo ou em uma grande metrópole como São Paulo ou Nova York,
somos o mesmo ser humano e o que muda é a forma exterior da cultura que nos rodeia.

Vamos mudar nossa lógica anterior, que era a de evidenciar a diversidade cultural, e vamos olhar
para os recursos e as capacidades humanas que produzem essa diversidade. Em certas culturas, os
indivíduos adoram a alguém ou a algo, que podem chamar de “Alá” ou de “Deus”, em outras, ainda,
não existe um único deus, mas vários deuses. Bem, independentemente do nome e da forma como
ritualizamos essa fé, o que leva o ser humano a fixar um nome ou um ritual é a nossa capacidade,
totalmente idêntica para todas as culturas, de ter crenças. Assim, independentemente da forma
desenvolvida, somos seres dotados da capacidade de acreditar em coisas que transcendem, que vão
para além da matéria.

Outro exemplo: em certas culturas o trabalho agrícola é uma tarefa feminina, e em outras, masculina.
Independentemente da forma como cada cultura o faz, temos uma mesma capacidade, a de dividir
socialmente as tarefas.

Seguindo com nossos exemplos, podemos afirmar que nas tribos não existe a noção de mercado, que
é uma forma de organizar as trocas materiais, com objetivo de lucro para quem oferece a mercadoria ou
o serviço. O que eles possuem são as trocas baseadas em “escambo”, no qual inexiste a moeda, e ambas
as partes oferecem algo que consideram de comum acordo, ou seja, equivalentes. Independentemente
da forma como é realizada existe nossa capacidade de avaliar trocas.

Apesar de você achar que isso não existe mais, o escambo ainda é uma forma de troca realizada em
muitas partes do mundo, e em muitos lugares a moeda é algo raro e ausente das relações sociais.

Os indivíduos que vivem em grandes cidades têm à sua disposição uma grande quantidade de
meios de comunicação, mas desconhecem realidades sociais que não fazem parte do que chamamos
“modernidade”. De fato, o que nos dá a sensação de que o mundo inteiro vive da mesma forma como
nós vivemos é o etnocentrismo. Ele nos joga numa forma de isolamento de realidades alheias à nossa
própria, e nos faz julgar como “atrasados” os povos que ainda não aderiram totalmente à nossa forma
de vida social.

Não é incomum encontrarmos termos como “povos esquecidos”, ou “povos primitivos” para nos
referirmos àquelas sociedades que ainda vivem de forma tradicional, sem os valores e recursos da vida
moderna.
118
HOMEM E SOCIEDADE

Saiba mais

Para você ter contato com manifestações de culturas tradicionais,


faça uma busca no portal de vídeos “Youtube” com termos como “cultura
tradicional”. Entretanto, há um material muito farto para a busca em
termos com a língua inglesa. Como muitas gravações não necessitam
tradução, tente inserir no campo de busca termos como “traditional
culture”.

Sugiro por exemplo, uma série de gravações com uma etnia da África,
o povo “Maasai”, que vai colocar você em contato com um ambiente
natural bem diferente do nosso, vestuário, expressão vocal, tudo enfim,
de uma grande riqueza. São canções tradicionais entoadas em vários
clipes.

Para você conhecer a diversidade cultural e as culturas tradicionais no


Brasil, ou seja, a vida dos povos indígenas, há um excelente link, de um
projeto chamado “Video nas Aldeias”. Faça uma pesquisa em:

<http://www.videonasaldeias.org.br/2009/index.php>

Apesar de vivermos de formas muito diferentes de um lugar para o outro, temos as mesmas
necessidades, enquanto seres da mesma espécie. Nos organizamos coletivamente, criamos instituições
capazes de resolver certos problemas, dividimos socialmente as tarefas, criamos grupos de apoio e de
exercício de nossas habilidades sociais, defendemos nossa cultura, educamos as novas gerações de
acordo com nossos valores, ritualizamos nossas crenças e ouvimos os nossos chefes. Não existe sociedade
perfeita. Em todas elas encontramos algum tipo de decisão que gera problemas, e aprendemos que nem
sempre solução significa que tudo está resolvido.

Lembrete

Há elementos particulares às culturas humanas, mas também


temos muitas coisas em comum, que são os elementos universais da
humanidade.

Das tribos às metrópoles, o que muda é a quantidade de terra asfaltada e a quantidade de especialistas
possíveis para resolver uma única questão, mas os princípios de organização são os mesmos. Lévi‑Strauss,
um grande antropólogo francês, comparou a diversidade cultural a um caleidoscópio. Nele, temos sempre
uma mesma quantidade e cores de pedrinhas, mas a cada vez que viramos o caleidoscópio, o que vemos
no fundo é um arranjo completamente original de cores e formas, como se tudo tivesse sido trocado,
mas não foi.
119
Unidade II

O mesmo acontece com o ser humano. Somos dotados das mesmas necessidades e capacidades, mas
produzimos arranjos sociais bem originais e diferentes entre si. Essa perspectiva explicativa criada por
Lévi‑Strauss é conhecida como estruturalismo. Compartilhamos uma estrutura mental que é universal,
entretanto nos expressamos de formas diferentes.

Para Lévi‑Strauss, essa estrutura mental comum a toda a humanidade explica o fato de ser possível
encontrar elementos e traços de uma cultura semelhantes ou, até mesmo, idênticos a outras tão
distantes; o que nos abriga a descartar a influência como forma de “imitação” entre elas.

Ele explica que a diversidade cultural é apenas a aparência, uma forma de expressão diferente,
de uma estrutura mental que é universal à nossa espécie. Assim, os rituais, os hábitos e as línguas
são apenas uma forma diferente de expressar as categorias mentais do homem. Essas categorias
estão “ocultas”, não sendo perceptíveis, mas podem ser percebidas por meio da pesquisa comparativa
entre as culturas que demonstre uma espécie de “lógica” única, uma ferramenta humana de estar no
mundo.

7.1 A pesquisa de campo produz o conhecimento antropológico

Todo o conhecimento antropológico e as novas formas de conceituar a diversidade cultural, que


extrapolam imensamente o senso comum e a forma como nos relacionamos com as diferenças culturais,
resultam de uma sistemática metodologia de pesquisa.

Para descrever, compreender e conceituar todo o universo cultural humano, os pesquisadores


desenvolveram o que chamamos “pesquisa de campo”, ou “pesquisa de observação participante”.
Basicamente, o pesquisador permanece durante um longo período de tempo convivendo com
a cultura que deseja conhecer, abandonando sua mera condição de “observador alheio”. O
antropólogo faz um mergulho profundo na visão de mundo e no cotidiano do “outro”. Quem criou
os mecanismos desse tipo de pesquisa foi B. Malinowski10. Isso possibilita uma mudança profunda
na forma de interpretar o mundo por parte do pesquisador, pois ele deixa de ver o mundo com
suas lentes anteriores, e passa a ver o mundo através da perspectiva do outro. Ele se coloca no
lugar do outro.

A observação participante é uma das técnicas muito utilizadas pelos


pesquisadores que adotam a abordagem qualitativa e consiste na
inserção do pesquisador no interior do grupo observado, tornando‑se
parte dele, interagindo por longos períodos com os sujeitos, buscando
partilhar o seu cotidiano para sentir o que significa estar naquela
situação (QUEIROZ, 2007).

10
Segundo a enciclopédia eletrônica Wikipedia: “Bronisław Kasper Malinowski (Cracóvia, 7 de Abril de 1884 —
New Haven, 16 de Maio de 1942) foi um antropólogo polaco. Ele é considerado um dos fundadores da antropologia
social. Fundou a escola funcionalista. A principal contribuição de Malinowski para a antropologia foi o desenvolvimento
de um novo método de investigação de campo, cuja origem remonta à sua intensa experiência de pesquisa na Austrália,
inicialmente com o povo Mailu (1915) e posteriormente com os nativos das Ilhas Trobriand (1915‑1916, 1917‑1918).”
120
HOMEM E SOCIEDADE

Após esse período de permanência em um universo completamente estranho, o pesquisador se


retira e coloca em avaliação tudo que conseguiu registrar daquela cultura por meio de anotações, fotos,
filmes, entrevistas, memórias, que normalmente se concentram no que chamamos “caderno de campo”.

Então, não mais “contaminado” pela perspectiva alheia, mas capaz de refletir sobre ela de forma
mais imparcial, o pesquisador apresenta ao leitor uma nova forma de interpretar essa cultura, baseada
nos princípios científicos de objetividade e experimentação.

Esse tipo de pesquisa é que apontou as falhas do etnocentrismo, e criou o relativismo cultural. A
proposta do relativismo é, basicamente, uma nova atitude de relação cultural com a diferença. Indo para
além das estatísticas e mergulhando nas razões mais profundas do comportamento do outro, passamos
a ter uma nova compreensão sobre a diversidade cultural.

Dentro da ciência antropológica, o relativismo teve um grande impulso durante o século XX, sendo
também bastante criticado e debatido. Isso aconteceu porque:

...em 1947, um grupo de antropólogos, liderados por Herskovits, é convidado


pela ONU para escrever o relatório preparatório à carta dos Direitos Humanos.
(...) Seus autores se debatem entre a afirmação dos direitos universais e o
horizonte relativista dos valores (ORTIZ, 2010).

Os postulados no documento redigido davam margens para concluir que, de acordo com a
antropologia, não seria possível estabelecer conceitos legais que tivessem validade universal, uma vez
que tudo era relativo e particular.

Isso simplesmente invalidaria a Declaração Universal dos Direitos Humanos, e colocava os


antropólogos que defendessem radicalmente o relativismo em uma fronteira moral complicada. Não
se poderia julgar o nazismo ou mesmo o infanticídio e a mutilação sexual das mulheres em nome do
respeito à diversidade.

Não é a totalidade dos antropólogos que defende o relativismo interpretado dessa forma. “O
relativismo cultural possui um mérito, ele inocula no pensamento uma sensibilidade pelo diverso. Isso
não é pouco.” (idem)

Ainda comentando os méritos do relativismo cultural, o autor Ortiz enfatiza que é necessário
“percebermos que o particular é sempre tensionado pelo contexto no qual se insere”, e que no
contexto atual “os direitos humanos não são universais, mas pertencem ao destino comum no âmbito
da modernidade‑mundo11” (idem). Ou seja, mesmo que certos países não reconheçam alguns direitos
humanos, há um clima crescente de pressão mundial para dialogar e interferir em casos considerados
como atentados aos direitos humanos.

11
Para Renato Ortiz, o termo “modernidade‑mundo” é equivalente ao que todos conhecem por “globalização”. Mas
em sua teoria ele defende que globalização é um termo inadequado para se referir aos fenômenos de inter‑relação entre
todos os países atualmente, preferindo a ideia de mundialização.
121
Unidade II

É o caso de uma mulher iraniana chamada Sakineh Ashtiani. Leia a reportagem reproduzida abaixo.

Sakineh Ashtiani será executada na quarta‑feira no Irã, diz ONG

O caso de Sakineh, de 43 anos, atraiu a atenção do mundo inteiro, em uma


campanha que mobilizou inúmeros governos e entidades humanitárias.
Considerada culpada de adultério pela Justiça iraniana, ela foi condenada à
morte por apedrejamento, mas a pena acabou sendo suspensa no início de
setembro.

No final do mês passado, autoridades locais anunciaram o castigo de


enforcamento como punição pela participação na morte do marido. A
medida foi logo retificada pela Chancelaria do Irã, a qual afirmou que as
formalidades legais do processo ainda não estavam concluídas.

Entre os que tentaram intervir estiveram o presidente Luiz Inácio Lula da


Silva, que pediu a libertação de Sakineh e ofereceu‑lhe asilo. Em resposta,
o governo de Mahmoud Ahmadinejad afirmou que o brasileiro estava
“desinformado” sobre o caso.

No dia 5, Sajjad informou ter pedido a interferência do papa Bento 16 a favor


de sua mãe e solicitou asilo político à Itália. Na ocasião, o jovem afirmou que
ele e a irmã, Sahideh, temiam ser presos em seu país, e que Kian também
corria esse risco. (SAKINEH ASHTIANI SERÁ..., 02 nov. 2010).

Independentemente desse debate em torno dos usos do relativismo cultural, a pesquisa desenvolvida
pelos antropólogos tem resultado em um conhecimento cada vez mais profundo de todas as culturas do
mundo. Atualmente, compreendemos melhor como podemos promover um contato mais equilibrado
entre as diferentes nações.

Sabemos que, hoje em dia, a pesquisa antropológica é utilizada inclusive como recurso de exploração
de nichos de mercado, para lançamento de novos produtos ou mudança de imagem institucional.
Conhecendo a forma como o outro vê o mundo, é possível lhe apresentar soluções muito mais bem
aceitas e adequadas aos seus padrões e valores.

Síntese

A questão sobre o que é universal e o que é particular no ser humano suscita curiosidade desde
os primeiros pensadores das civilizações humanas. Apesar de afirmar o caráter da imensa diversidade
cultural humana, a antropologia realça a existência de estruturas que nos fazem igual.

A seguir, você pode ler algumas frases em artigos científicos de diferentes áreas do conhecimento
humano, nas quais a preocupação em lidar com a diversidade cultural está presente:

122
HOMEM E SOCIEDADE

O conceito de diversidade está relacionado ao respeito à individualidade dos


empregados e ao reconhecimento desta; gerenciar a diversidade implica o
desenvolvimento das competências necessárias ao crescimento e sucesso do
negócio (FLEURY, 2000).

Reconhecer que a sociedade brasileira é multicultural significa compreender


a diversidade étnica e cultural dos diferentes grupos sociais que a compõem.
Entretanto, significa também constatar as desigualdades no acesso a
bens econômicos e culturais por parte dos diferentes grupos, em que
determinantes de classe social, raça, gênero e diversidade cultural atuam de
forma marcante (CANEN, 2001).

A cultura brasileira é o resultado de misturas entre os diferentes povos que


para o Brasil vieram, de forma espontânea ou não, e aqui se estabeleceram,
escolhendo‑o como o seu lugar de viver. Fica claro o quanto é importante
e pertinente que o Brasil mostre ao mundo a sua diversidade cultural como
atrativo de visitação turística (DIAS; BORDA, 2005).

As organizações do futuro, mais que as atuais, irão operar em um ambiente


de negócio incerto, complexo e altamente competitivo. As organizações
cada vez mais trabalharão com equipes heterogêneas em termos de
raça, etnia, gênero e outros grupos culturalmente diversos. (HANASHIRO;
CARVALHO, 2005).

Saiba mais

Sugestão de leitura complementar

ORTIZ, R. Sobre o relativismo cultural. Revista Alambre, n. 2, março


de 2009. Disponível em <http://www.revistaalambre.com/Articulos/
Articuloprint.asp?Id=33>, acesso em 05 de novembro de 2010.

ROCHA, E. O que é etnocentrismo. São Paulo: Brasiliense, 1998.

8 QUEM SOMOS, QUEM SÃO ELES: ADMIRAÇÃO E PRECONCEITO NA ALDEIA


GLOBAL

Objetivos

Conhecer as características das culturas atuais, considerando as novas tecnologias e os meios de


comunicação interativos. Refletir sobre as novas formas de construção de identidades culturais que
passam pelo mundo real‑presencial e também pelo mundo virtual.
123
Unidade II

Introdução

Com o imenso desenvolvimento dos meios de comunicação e transporte, as culturas humanas se


aproximaram como nunca na história da humanidade.

Esse contato com a diferença trouxe importantes questões que afetaram a política, o mundo dos
negócios, o desenvolvimento de valores, a totalidade das culturas humanas etc.

Com a proximidade entre as diferentes culturas, pode‑se notar uma reação das pessoas, que oscila
entre as atitudes de admiração em relação aos outros ou de preconceito.

Neste item será desenvolvida a reflexão sobre como a globalização afeta o processo de identidade
cultural de todos nós.

Principais conceitos:

Globalização, inclusão, exclusão, identidade cultural, desenraizamento, tradição.

Saiba mais

Sugestão de bibliografia básica:

SANTOS, R. J. Tão diferentes, tão tribais: somos todos tão iguais. In:
Antropologia para quem não vai ser antropólogo. Porto Alegre: Tomo
Editorial, 2005.

8.1 Globalização e diversidade cultural

A globalização é um fenômeno que coloca em contato constante um número cada vez


maior de povos e pessoas do mundo todo. Para a globalização, contribuíram de forma decisiva
a intensificação de atividades como o comércio exterior, a transnacionalização das grandes
indústrias e empresas, o turismo, a valorização de serviços como a gastronomia, a disseminação
dos meios de comunicação de massa, ou, ainda, a valorização da escola como forma de educação
no mundo todo.

Os grandes avanços nos meios de transporte e comunicação tiveram um papel fundamental para
permitir ampliar imensamente as fronteiras comerciais entre os países, bem como estreitar suas relações
culturais e políticas.

A consequência direta da intensificação de tais atividades foi colocar em contato cada vez mais direto
culturas que antes viviam relativamente isoladas. Por causa do aumento da circulação de bens e de pessoas,
aumentou também a circulação de informações, ideias e conceitos entre povos do mundo inteiro.
124
HOMEM E SOCIEDADE

Portanto, a chamada globalização é um fenômeno que inclui aspectos econômicos, tecnológicos,


culturais e políticos.

Entretanto, sabemos que essa circulação intensa de bens e ideias acaba impondo certo modelo de
cultura que é considerada “melhor” e “mais avançada”, em detrimento de outras consideradas “exóticas”,
“atrasadas” ou “piores”. Atualmente, a língua universal, não por acaso, é o inglês, e o que se globalizou,
sendo encontrado em esquinas do mundo todo, foram as redes de sanduíches fast food de marcas como
McDonald´s, e não o famoso pão de queijo mineiro ou os tacos mexicanos. Portanto, sabemos que o país
dominante economicamente, se torna dominante também culturalmente.

Os costumes da cultura norte‑americana são extremamente mais divulgados e disseminados que os


de qualquer outra, e tornou‑se o modelo ou a referência a partir da qual todos os povos precisam se
comparar, ou tentar se equivaler. Nisso não há nenhuma novidade, não é mesmo? O que há de novidade
na globalização, quando falamos a respeito da diversidade cultural, é que agora, mais do que em qualquer
outro momento histórico, temos a oportunidade de que pessoas comuns e costumes de culturas não
dominantes, também sejam conhecidos globalmente. Hoje em dia, até mesmo os norte‑americanos
perceberam a importância de dar atenção a conceitos, métodos e técnicas de trabalho de países como o
Japão, a Tailândia, a Índia ou a China. Procura‑se na literatura especializada, tanto quanto na literatura
tradicional desses povos, inspiração para planejar, solucionar, criar, relacionar ou reconstruir métodos e
técnicas de trabalho, formas de nos relacionarmos uns com os outros, ou, ainda, estruturas mentais que
possibilitem novas soluções pessoais/coletivas.

Para Octávio Ianni, a globalização que se acha em curso nesta altura


da história apresenta características muito especiais, primeiro por ter a
energia nuclear se tornado a mais poderosa técnica de guerra; segundo,
pela excepcional capacidade de formar e informar, induzir e seduzir da
revolução informática, base encontrada na microeletrônica; terceiro, pela
organização de um sistema financeiro internacional, em conformidade
com as exigências da economia capitalista mundial; quarto, pelo fato de
as relações econômicas mundiais estarem amplamente influenciadas pelas
exigências das empresas, corporações ou conglomerados multinacionais,
transnacionais, mundiais, globais, planetários; quinto, pela reprodução
ampliada do capital, recriando relações nos quatro cantos do mundo;
sexto, pela transformação do inglês na língua universal, por meio da qual
se articulam e expressam indivíduos, grupos e classes, em suas relações
sociais, políticas, econômicas e culturais e, sétimo, pela resposta do capital
à crise (ALVES, 2005).

Ao mesmo tempo em que admiramos e tomamos como exemplo certas condutas culturais
“novas” para a maioria de nós, e que sempre foram tradição para outros povos, temos um conflito,
pois também temos preconceito e não sabemos como enfrentar o diferente. É comum os alunos
indagarem, “mas o que é que podemos aprender, por exemplo, com os índios?”, pois ainda pensam
as culturas de forma etnocêntrica, considerando os povos indígenas como “primitivos”, povos que
“não têm nada”.
125
Unidade II

A resposta da antropologia é simples. Essas são sociedades onde há hierarquia e divisão de tarefas,
mas onde não há desigualdade social. Vamos explicar melhor isso? As tribos são socialmente organizadas,
e possuem figuras sociais como “pajé”, “cacique” ou “guerreiro”. Até aqui nenhuma novidade, não é?
Entretanto, apesar dessa organização, não existe diferença econômica entre seus membros, eles formam
o que denominamos de “sociedade planificada”, onde todos estão em um mesmo plano de recursos
econômicos. Portanto, não existem classes sociais. O cacique ocupa o mesmo tipo de moradia e dispõe
da mesma quantidade de alimentos que qualquer indivíduo de seu grupo, portanto, o fato de ocupar
uma função de influência e importância não lhe dá prerrogativas de maior conforto material, a não ser
em ocasiões rituais.

Quando alguém exerce poder, não está, necessariamente, criando uma superioridade de condição
em relação aos dominados?

Pois bem, no caso das tribos, esse tipo de poder inexiste. As figuras de grande importância social, e
que influenciam as tomadas de decisão do grupo, não são pessoas que desfrutam de privilégios materiais.
Assim, o reconhecimento social da autoridade está baseado em coisas como a tradição, as habilidades
pessoais demonstradas pelo indivíduo, a linhagem de seus ancestrais, ou, ainda, eventos místicos. As
tribos não são sociedades perfeitas, mas o fato de se organizarem sem criar grandes diferenciações
sociais gera um grupo no qual existe a total ausência de fenômenos como: criminalidade, prostituição,
trabalho infantil, violência urbana; e onde são desnecessárias instituições como: asilos, abrigos de
menores e moradores de rua, manicômios, prisões etc.

O que temos a aprender com os índios? Eles conseguiram produzir uma sociedade em que existe
respeito, autoridade, liderança e organização, sem haver discriminação, autoritarismo, imposição e
exclusão. O que se propõe, não é uma volta “à idade da pedra”, mas que nossa sociedade possa
tomar como exemplo não apenas o modelo de sucesso mercadológico americano, mas um pouco,
também, do modelo de sucesso social de nossos índios. Concluindo, o ser humano pode produzir uma
sociedade mais justa, se conseguir por meio do debate, da exposição de conteúdos culturais cada vez
mais diversificados e da reflexão coletiva, chegar às soluções menos etnocêntricas e mais originais.
A globalização pode nos oferecer ferramentas para esse tipo de conduta. Os povos tradicionais da
América Latina, da África, da Ásia e da Europa têm muito mais a oferecer à humanidade do que pratos
exóticos e danças admiráveis. Existe uma sabedoria acumulada por séculos e séculos de culturas que
são ricas para todos nós.

Atualmente, muitas pessoas estão abertas a esse tipo de atitude. Muitas vezes começa com
oportunidades de exploração de nichos de mercado, como oferecer uma culinária exótica ou espetáculos
artísticos tradicionais. Mas isso pode ser aproveitado, também, de forma a sensibilizar as pessoas a
desenvolverem atitudes que respeitem a diversidade cultural, que agucem a curiosidade de conhecimento
dos outros povos, e que defenda a preservação dessa diversidade. Afinal, a cultura é algo que está o
tempo todo em transformação.

Inclusão social deve ser um conceito não apenas de políticas que possibilitem educação, acesso
às tecnologias e qualificação profissional para todos, mas, também, de políticas do mercado e das
estratégias de consumo. Desenvolvimento de produtos baseados em tradições e necessidades locais,
126
HOMEM E SOCIEDADE

valorização da estética e dos valores locais e aproveitamento dos recursos comunicativos locais são
apenas alguns exemplos de como o mundo da produção, das organizações, da publicidade e do mercado
podem promover inclusão e respeito à diversidade cultural.

8.2 Identidade cultural em tempos de globalização

Com o fenômeno da globalização, que coloca num ritmo acelerado de contato um grande
número de culturas, podemos nos questionar a respeito do processo de construção das identidades
culturais. Ainda existem identidades próprias, ou somos resultado de um grande e flexível mercado
global?

Para começar essa reflexão, é interessante pontuar algumas características da globalização, cujos
fenômenos culturais são denominados na antropologia de “pós‑modernidade”. Essa época está sendo
caracterizada por um fenômeno original em relação às identidades culturais, pois até a modernidade,
antes da globalização, as culturas eram mais enraizadas, faziam parte da história de um povo e de um
lugar. Agora, em tempos de globalização e pós‑modernidade, os símbolos de muitas culturas migram
por meio do mercado, do turismo, da aceleração do contato mundial.

Observação

A globalização pode permitir a emergência de novas formas de


identificação coletiva, as quais, por não mais se definirem em função
de um pertencimento territorial, ou de uma tradição imemorial, mas em
função de questões de relevância global, se subtraem às exigências de
lealdade tradicional ou de atuação localizada.

(BURITY, J. A. Globalização e identidade: desafios do multiculturalismo.


Disponível em: <http://www.fundaj.gov.br/geral/textos%20online/
ciencia%20politica/jburity02.pdf>)

O termo “desenraizamento” cultural significa falar de uma cultura, com seus hábitos, símbolos e
identidades coletivas, que deixa de ter um único território e se “desenraiza” para levar suas influências
para muitas outras culturas que participam do processo de globalização.

Portanto, hoje em dia, não é apenas a influência do “jeito de ser” americano que pode atingir pessoas
do mundo inteiro com o cinema ou os produtos que vendem. Mesmo culturas antes desconhecidas têm
seus símbolos e hábitos “migrando” por todo o mundo, porque estes estão desenraizados. Isso mudou
nossa forma de julgar a diversidade cultural.

Vamos compreender melhor. Antes da globalização, as culturas rotuladas de “atrasadas” eram


submetidas aos símbolos das culturas dominantes, na tentativa de incorporar uma identidade de
“avançados”, “evoluídos”. Os “povos atrasados” tinham, necessariamente, que “imitar” ou seguir as
culturas tidas como mais avançadas.
127
Unidade II

Assim, havia uma “mão única” de influência cultural. Era questão de status se parecer e se comportar
como um europeu ou um norte‑americano. Eles levavam seus símbolos e costumes para os países sob
sua influência, e isso era considerado sinal de progresso, avanço e modernidade.

Agora, a diferença é que esse tipo de procedimento tem uma “mão dupla”. Em tempos de
pós‑modernidade, os europeus e norte‑americanos passam a utilizar símbolos e costumes de culturas
tradicionais, sem que isso fosse considerado sinal de “atraso” ou “esquisitice”.

Vamos pensar em alguns exemplos: a indumentária africana tradicional passou a ser valorizada
como artigo “étnico” por grifes bem posicionadas no mercado. Os objetos de artesanato dos índios
sul‑americanos ou dos orientais passaram a ser disputados por decoradores e lojas voltadas a um público
consumidor de alto poder aquisitivo em países da Europa e nos Estados Unidos. O hábito de comer peixe
cru, o famoso sushi, passou a fazer parte do cotidiano de pessoas do mundo todo, bem como a culinária
chinesa, que se tornou rede de fast food.

Antes da globalização, isto seria considerado sinal de mau gosto, esquisitice ou falta de adequação
aos padrões “normais”. A pós‑modernidade trouxe a possibilidade da migração dos símbolos culturais, de
sua utilização em novos e originais contextos, provocando seu desenraizamento.

Vamos comparar agora:

Até a modernidade, pré‑globalização:

Quadro 3

Um povo Uma cultura

Um lugar

Características da identidade cultural:

• Baseada na tradição local, enraizamento.

• Os indivíduos possuem um único modelo de socialização‑endoculturação.

• Transformações em ritmo lento, decorrente da valorização das tradições locais.

• A cultura se desenvolve em um território geograficamente delimitado, real.

• A cultura se desenvolve como resultado da interação de um povo.


128
HOMEM E SOCIEDADE

Após a globalização – pós‑modernidade:

Quadro 4

Um povo
real, muitos Muitas
povos culturas
virtuais

Um lugar
real, lugares
virtuais

Características da identidade cultural:

• Baseada na velocidade de transformação, desenraizamento.

• Os indivíduos possuem muitos modelos de socialização‑endoculturação através dos meios de


comunicação.

• Transformações em ritmo acelerado, decorrente da valorização das “novidades”, ou seja, das


mudanças.

• A cultura se desenvolve em dois tipos de territórios, o real, geograficamente delimitado, e o virtual,


que é o mundo do consumo e das comunicações interativas como a Internet e os celulares.

• A cultura se desenvolve como resultado da interação de vários povos.

• Os indivíduos são produtos de muitas influências, como uma bricolagem (aqueles trabalhos
manuais que utilizamos materiais procedentes de diferentes recursos para compor uma coisa
original).

Em tempos de globalização, todos os lugares estão se comunicando culturalmente e mutuamente, e


os símbolos culturais flutuam livremente em lugares virtuais, como o mercado e os objetos de consumo
e as comunicações virtuais não presenciais e interativas.

Em função disso, podemos observar alguns fenômenos, com, por exemplo, os símbolos. Antes da
pós‑modernidade, apenas as pessoas que tivessem uma motocicleta Harley Davidson se interessavam
em utilizar essa logomarca ou toda a estética de motociclista que foi culturalmente construída em torno
desse produto. Atualmente, essa marca se transformou em símbolo de liberdade e forma de expressão,
sendo incorporada e utilizada por pessoas que, sequer, possuem uma motocicleta, e, muito menos, uma
Harley. A estética do motociclista, ou suas partes, estão presentes em vários grupos e podem ser usados
apenas como recurso visual.
129
Unidade II

O mesmo ocorre com os automóveis que antes eram meramente utilitários, os chamados off road.
Desenvolvidos inicialmente para servirem as tarefas do campo ou os militares, foram, a princípio,
incorporados por esportistas. Em tempos de globalização, pessoas que sequer se interessam em dirigir
em estradas de terra, e, muito menos, são esportistas, militares ou trabalhadores do campo, consomem
avidamente esses veículos para expressar status, identidade ou, simplesmente, para se sentirem
“diferentes”.

Você pode perceber como símbolos e coisas se unem? Um não existe sem o outro. Estamos vivendo,
atualmente, fenômenos que ainda prometem uma infinidade de manifestações culturais em função do
desenraizamento simbólico.

Você já ouviu falar em “tribos urbanas”? Esse é um fenômeno bem associado à globalização,
e que permite que os símbolos de muitas culturas se misturem, e isso acaba gerando esse tipo de
expressão cultural. É sobretudo uma cultura presente em grandes cidades, onde as pessoas estão
mais expostas às mensagens dos veículos de comunicação de massa, como cinema, televisão e
Internet.

Esses grupos urbanos, são chamados de “tribos”, pois todos, mesmo os que não pertencem a esse ou
aquele grupo, conseguem reconhecer que há uma identidade entre os indivíduos. Vestuário, linguagem,
lugares que concentram sua frequência, tudo que pode ser usado como recurso de identificar um grupo
especial dentro de nossa cultura.

Grupos religiosos ou políticos não podem ser consideradas “tribos urbanas”, pois seu caráter de
agregação, de solidariedade, enfim, o que os mantêm unidos e como uma comunidade não os caracteriza
como um grupo que quer “ser diferente” por ter uma “identidade própria”. Os grupos políticos e religiosos
não usam recursos simbólicos como vestuário e linguagem para serem percebidos e se destacarem “da
massa”, mas antes porque defendem uma tradição e/ou ideologias.

Abaixo você poderá analisar imagens que nos mostram como o mundo se transformou numa “aldeia
global”, e mesmo muito distantes fisicamente, somos todos submetidos diariamente ao contato com
o que é local em outro lugar. Ou seja, imagens de um multiculturalismo que se torna cada vez mais
presente em nossas vidas.

Figura 22 – Moda masculina urbana.

130
HOMEM E SOCIEDADE

Figura 23 – O repórter e explorador Jacek Palkiewicz com criança yanomami.

Figura 24 – Punk com penteado e vestuário.

131
Unidade II

Figura 25 – Mulher Kayan com argolas no pescoço, Tailândia.

Figura 26 – Menina da comunidade Miao, China. Entre esse povo, o cabelo feminino é deixado de herança pelas avós e mães, e a
estética tradicional exige que muitos metros de cabelos sejam cuidadosamente enrolados para a beleza feminina.

132
HOMEM E SOCIEDADE

Figura 27 – Jovem japonês com cabelo de “surfista”.

Muitos autores veem no desenraizamento cultural uma ameaça às certezas humanas, que antes
tinham seus territórios onde fincavam suas raízes.

A importação de modelos globais, em todas as dimensões da vida humana,


pulveriza a dimensão simbólica de forma violenta, transformando os modos de
produção, os hábitos, os valores etc., promovendo um desenraizamento cultural,
gerando um mundo de incertezas e de riscos produzidos, o qual se desdobra na
perda da liberdade e da identidade humana (ANDRADE, BOSI, 2003).

Podemos dizer que na pós‑modernidade as tradições sumiram? Não, elas se transformaram em


espetáculos de mídia e turísticos, e muitas foram revividas e retomadas após um longo abandono e falta
de valorização. Atualmente, as tradições são mais respeitadas, pois já não significam “coisa de gente
atrasada”. Ao mesmo tempo, os símbolos, que antes eram apenas tradicionais, estão migrando por todas
as partes, perdendo seu significado original. A antropologia, como ciência, não se preocupa em julgar
se isto é “bom” ou “ruim”. Cabe, sim, uma reflexão sobre o novo papel da cultura em nossas vidas como
cidadãos, profissionais e pessoas comuns.

Comentando a questão da importância da diversidade cultural e o relativismo em tempos de


globalização (nota‑se que o autor usa o termo mundialização), Renato Ortiz defende que:

Dizer que as culturas são um “patrimônio da humanidade” significa


considerar a diversidade enquanto valor universal. Todos devemos

133
Unidade II

cultivá‑la e respeitá‑la. A crítica ao etnocentrismo, assimilada, na


maioria das vezes, à dominação ocidental, somente pode ser validada
quando se manifesta como algo que transcende a província de cada
cultura, de cada identidade. É isso que nos permite dizer: “as culturas
minoritárias correm o risco de desaparecer, por isso, necessitamos
preservá‑las”; “as culturas precisam ser consideradas nos contextos aos
quais elas pertencem”; “precisamos valorizar todas as facetas da memória
coletiva da humanidade”; “o respeito a todas as culturas é um direito
de reconhecimento à diferença”. Há nessa operação semântica uma
redefinição do que seria impensável nos marcos anteriores: o diverso
torna‑se um bem comum (ORTIZ, 2007).

Síntese

A globalização tem como um dos resultados mais importantes a intensa aproximação entre as
diferentes culturas do mundo.

Essa aproximação afeta a todos, tanto países mais desenvolvidos e dominantes desse processo,
quanto países mais frágeis que precisam se adaptar à nova ordem mundial.

A intensificação desse contato tem promovido a necessidade de uma compreensão sobre a


diversidade menos baseada em preconceitos e no etnocentrismo, e mais amadurecida e aberta às
novas soluções.

Surgem novas formas de identidade cultural, que são fortemente influenciadas pela diversidade e
que exigem uma mentalidade baseada em novos valores mais inclusivos e democráticos.

Em nosso cotidiano, seja no âmbito doméstico, como no mundo do trabalho, das relações de amizades,
na educação ou, ainda, na produção de conhecimento, o tema da diversidade e das novas formas de
relacionamento estão em pauta.

Saiba mais

TESSAROTTO, T. de O. Novos horizontes antropológicos: indivíduo,


cultura e globalização. CAOS, Revista Eletrônica de Ciências Sociais, nº 07,
set. 2004. Disponível em: <http://www.cchla.ufpb.br/caos/thaisoliveira.
pdf>. Acesso em: 19 abr. 2011.

134
HOMEM E SOCIEDADE

Exercícios

Questão 1. (ENADE 2006 )

Jornal do Brasil, 3 ago. 2005.

Tendo em vista a construção da ideia de nação no Brasil, o argumento da personagem expressa:

A) A afirmação da identidade regional.

B) A fragilização do multiculturalismo global.

C) O ressurgimento do fundamentalismo local.

D) O esfacelamento da unidade do território nacional.

E) O fortalecimento do separatismo estadual.

Resposta correta: alternativa A.

Análise das alternativas

A) Alternativa correta.

Justificativa: a alternativa é correta, pois aborda um dos conceitos centrais dos estudos de cultura
em antropologia: identidade que se relaciona aos elementos comuns aos indivíduos de um determinado
grupo social.

B) Alternativa incorreta.

Justificativa: a alternativa não pode ser considerada correta porque a questão não aborda nenhum
aspecto do multiculturalismo global, mas da identidade de uma região brasileira.

135
Unidade II

C) Alternativa incorreta.

Justificativa: a alternativa não pode ser considerada correta porque o fundamentalismo é um aspecto
das culturas tradicionais ligadas a rígidos valores religiosos.

D) Alternativa incorreta.

Justificativa: a alternativa não pode ser considerada correta, pois a questão não aborda aspectos
ligados a discussão de territórios nacionais.

E) Alternativa incorreta.

Justificativa: a alternativa não pode ser considerada correta, pois a questão não aborda aspectos
ligados a discussão de movimentos separatistas estaduais, ou seja, a reivindicação de um estado se
tornar independente politicamente do país ao qual pertence.

Questão 2. (ENADE 2005) As ações terroristas cada vez mais se propagam pelo mundo, havendo
ataques em várias cidades, em todos os continentes.

Nesse contexto, analise a seguinte notícia:

No dia 10 de março de 2005, o Presidente de Governo da Espanha José Luis Rodriguez Zapatero em conferência
sobre o terrorismo, ocorrida em Madri para lembrar os atentados do dia 11 de março de 2004, “assinalou que os
espanhóis encheram as ruas em sinal de dor e solidariedade e dois dias depois encheram as urnas, mostrando
assim o único caminho para derrotar o terrorismo: a democracia. Também proclamou que não existe álibi para o
assassinato indiscriminado. Zapatero afirmou que não há política, nem ideologia, resistência ou luta no terror, só
há o vazio da futilidade, a infâmia e a barbárie. Também defendeu a comunidade islâmica, lembrando que não se
deve vincular esse fenômeno com nenhuma civilização, cultura ou religião. Por esse motivo apostou na criação
pelas Nações Unidas de uma aliança de civilizações para que não se continue ignorando a pobreza extrema, a
exclusão social ou os Estados falidos, que constituem, segundo ele, um terreno fértil para o terrorismo”.

A principal razão, indicada pelo governante espanhol, para que haja tais iniciativas do terror está
explicitada na seguinte afirmação:

A) O desejo de vingança desencadeia atos de barbárie dos terroristas.

B) A democracia permite que as organizações terroristas se desenvolvam.

C) A desigualdade social existente em alguns países alimenta o terrorismo.

D) O choque de civilizações aprofunda os abismos culturais entre os países.

E) A intolerância gera medo e insegurança criando condições para o terrorismo.

Resolução desta questão na Plataforma.


136
FIGURAS E ILUSTRAÇÕES

Figura 1

COSTUMES_SAAMI.JPG. Largura: 228 pixels. Altura: 312 pixels. Tamanho: 25,67KB (26.291 bytes).
Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Costumes_Saami.jpg>. Acesso
em: 27 abr. 2011.

Figura 2

SAAMI FAMILY 1900.JPG. Largura: 800 pixels. Altura: 588 pixels. Tamanho: 107,92KB (110.515 bytes).
Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Saami_Family_1900.jpg>.
Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 3

ESKIMO FAMILY NGM‑V31‑P564.JPG. Largura: 800 pixels. Altura: 501 pixels. Tamanho: 100,33KB
(102.742 bytes). Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Eskimo_
Family_NGM‑v31‑p564.jpg>. Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 4

IGLOO OUTSIDE.JPG. Largura: 400 pixels. Altura: 348 pixels. Tamanho: 61,72KB (63.199 bytes).
Formato JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Igloo_outside.jpg>. Acesso
em: 27 abr. 2011.

Figura 5

APE AND HUMAN EVOLUTION TREE.JPG. Largura: 655 pixels. Altura: 600 pixels. Tamanho: 32,03KB
(32.795 bytes). Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ape_and_
Human_Evolution_Tree.JPG>. Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 6

INDIOS MUNDURUKU.JPG. Largura: 686 pixels. Altura: 600 pixels. Tamanho: 107,63KB (110.214 bytes).
Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Indios_munduruku.jpg>.
Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 7

ÍNDIOS.JPG. Largura: 266 pixels. Altura: 346 pixels. Tamanho: 40,97KB (41.954 bytes). Formato: JPEG.
Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Índios.jpg>. Acesso em: 27 abr. 2011.

137
Figura 8

ALTO ORINOCO5.JPG. Largura: 800 pixels. Altura: 533 pixels. Tamanho: 78,69KB (80.582 bytes). Formato:
JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Alto_orinoco5.jpg>. Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 9

ELK FOOT OF THE TAOS TRIBE.JPG. Largura: 263 pixels. Altura: 598 pixels. Tamanho: 36,11KB (36.973
bytes). Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Elk_Foot_of_the_
Taos_tribe.jpg>. Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 10

AMERIKANSKA FOLK, NORDISK FAMILJEBOK.JPG. Largura: 780 pixels. Altura: 599 pixels. Tamanho:
154,81KB (158.524 bytes). Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:
Amerikanska_folk,_Nordisk_familjebok.jpg>. Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 11

2006‑10‑18DAHLIA03M.JPG. Largura: 2.848 pixels. Altura: 2.136 pixels. Tamanho: 383 KB Formato: JPEG.
Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:2006‑10‑18Dahlia03m.jpg>. Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 12

22308788V1_150X150_FRONT.JPG. Largura: 148 pixels. Altura: 148 pixels. Tamanho: 383 KB.
Disponível em: <http://images.cafepress.com/product/22308788v1_150x150_Front.jpg>. Acesso em:
30 abr. 2011.

Figura 13

ARTE09_TH.JPG. Largura: 127 pixels. Altura: 168 pixels. Tamanho: 19,4 KB. Disponível em:
<http://images.clix.pt/canais/postais/thumbs/arte09_th.jpg>. Acesso em: 30 1br. 2011.

Figura 14

VIKING SWORDS CLOSEUP.JPG. Largura: 689 pixels. Altura: 600 pixels. Tamanho: 71,89KB (73.619
bytes). Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Viking_swords_
closeup.jpg>. Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 15

CONSUL ET LICTORES.JPG. Largura: 400 pixels. Altura: 380 pixels. Tamanho: 57,35KB (58.726 bytes).
Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Consul_et_lictores.jpg>.
Acesso em: 27 abr. 2011.
138
Figura 16

RAJASTHANI CLOTHES.JPG. Largura: 800 pixels. Altura: 600 pixels. Tamanho: 204,22KB (209.126 bytes).
Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Rajasthani_clothes.jpg>.
Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 17

KETCHICAN TOTEM POLE 2 STUB.JPG. Largura: 550 pixels. Altura: 550 pixels. Tamanho: 80,62KB (82.557
bytes). Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ketchican_totem_
pole_2_stub.jpg>. Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 18

ARTESANÍAS INDÍGENAS EN WERREGUE, JARDÍN BOTÁNICO LA MANIGUA BY PILAR


QUINTANA.JPG. Largura: 800 pixels. Altura: 600 pixels. Tamanho: 123,91KB (126.882 bytes).
Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Artesanías_
indígenas_en_werregue,_Jardín_Botánico_La_Manigua_By_Pilar_Quintana.JPG>. Acesso em:
27 abr. 2011.

Figura 19

APOLO Y MARSIAS (PORCELANA DEL BUEN RETIRO, PRADO O-298) 01.JPG. Largura: 450 pixels. Altura:
600 pixels. Tamanho: 29,19KB (29.892 bytes). Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.
wikimedia.org/w/index.php?title=Special%3ASearch&search=Apolo_y_Marsias_Porcelana_del_Buen_
Retiro_Prado&button=>. Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 20

CARUARU-FIGURAS-DE-BARRO.JPG. Largura: 482 pixels. Altura: 599 pixels. Tamanho: 80,32KB (82.250
bytes). Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Caruaru-figuras-de-
barro.jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 21

YAKAN.JPG. Largura: 240 pixels. Altura: 368 pixels. Tamanho: 12,24KB (12.532 bytes). Formato: JPEG.
Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Yakan.jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 27
abr. 2011.

Figura 22

IMAGE0566.JPG. Largura: 800 pixels. Altura: 517 pixels. Tamanho: 51,77KB (53.017 bytes). Formato:
JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Image0566.JPG?uselang=pt-br>.
Acesso em: 27 abr. 2011.
139
Figura 23

JACEKPALKIEWICZ3.JPG. Largura: 800 pixels. Altura: 538 pixels. Tamanho: 87,47KB (89.571
bytes). Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:JacekPalkiewicz3.
jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 24

PUNKJACKET.JPG. Largura: 249 pixels. Altura: 449 pixels. Tamanho: 21,33KB (21.839 bytes). Formato:
JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Punkjacket.jpg>. Acesso em: 27 abr.
2011.

Figura 25

KAYAN WOMAN WITH NECK RINGS.JPG. Largura: 400 pixels. Altura: 600 pixels. Tamanho: 67,14KB
(68.747 bytes). Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Kayan_
woman_with_neck_rings.jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 26

CHINE MIAO À CORNE 601.JPG. Largura: 400 pixels. Altura: 600 pixels. Tamanho: 67,14KB (68.747
bytes). Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Chine_Miao_à_corne_
601.jpg>. Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 27

JAPANESE SURFER HAIR.JPG. Largura: 399 pixels. Altura: 599 pixels. Tamanho: 66,37KB (67.959 bytes).
Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Japanese_surfer_hair.jpg>.
Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 28

CONSUL ET LICTORES.JPG. Largura: 400 pixels. Altura: 380 pixels. Tamanho: 57,35KB (58.726 bytes).
Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Consul_et_lictores.jpg>.
Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 29

RAJASTHANI CLOTHES.JPG. Largura: 800 pixels. Altura: 600 pixels. Tamanho: 204,22KB (209.126 bytes).
Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Rajasthani_clothes.jpg>.
Acesso em: 27 abr. 2011.

140
Figura 30

APOLO Y MARSIAS (PORCELANA DEL BUEN RETIRO, PRADO O‑298) 01.JPG. Largura: 450 pixels. Altura:
600 pixels. Tamanho: 29,19KB (29.892 bytes). Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.
wikimedia.org/w/index.php?title=Special%3ASearch&search=Apolo_y_Marsias_Porcelana_del_Buen_
Retiro_Prado&button=>. Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 31

CARUARU‑FIGURAS‑DE‑BARRO.JPG. Largura: 482 pixels. Altura: 599 pixels. Tamanho: 80,32KB


(82.250 bytes). Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:
Caruaru‑figuras‑de‑barro.jpg?uselang=pt‑br>. Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 32

YAKAN.JPG. Largura: 240 pixels. Altura: 368 pixels. Tamanho: 12,24KB (12.532 bytes). Formato: JPEG. Disponível
em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Yakan.jpg?uselang=pt‑br>. Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 33

IMAGE0566.JPG. Largura: 800 pixels. Altura: 517 pixels. Tamanho: 51,77KB (53.017 bytes). Formato:
JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Image0566.JPG?uselang=pt‑br>.
Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 34

JACEKPALKIEWICZ3.JPG. Largura: 800 pixels. Altura: 538 pixels. Tamanho: 87,47KB (89.571
bytes). Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:JacekPalkiewicz3.
jpg?uselang=pt‑br>. Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 35

PUNKJACKET.JPG. Largura: 249 pixels. Altura: 449 pixels. Tamanho: 21,33KB (21.839 bytes). Formato:
JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Punkjacket.jpg>. Acesso em: 27 abr.
2011.

Figura 36

KAYAN WOMAN WITH NECK RINGS.JPG. Largura: 400 pixels. Altura: 600 pixels. Tamanho: 67,14KB
(68.747 bytes). Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Kayan_
woman_with_neck_rings.jpg?uselang=pt‑br>. Acesso em: 27 abr. 2011.

141
Figura 37

CHINE MIAO À CORNE 601.JPG. Largura: 400 pixels. Altura: 600 pixels. Tamanho: 67,14KB (68.747
bytes). Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Chine_Miao_à_corne_
601.jpg>. Acesso em: 27 abr. 2011.

Figura 38

JAPANESE SURFER HAIR.JPG. Largura: 399 pixels. Altura: 599 pixels. Tamanho: 66,37KB (67.959 bytes).
Formato: JPEG. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Japanese_surfer_hair.jpg>.
Acesso em: 27 abr. 2011.

REFERÊNCIAS

Audiovisuais

HOMEM PRÉ‑HISTÓRICO:Vivendo entre as Feras. Direção: Pierre De Lespinois. Produção: Discovery


Channel. Estados Unidos: 2002. (100 min.) 1 DVD.

Textuais

ALVES, P. et alii, Neoliberalismo e a desterritorialização dos espaços. E‑revista.unioeste.br. v. 9, n. 1. 2005, p.2.


Disponível em: http://www.e-revista.unioeste.br/index.php.

ANDRADE, A.; BOSI, M.L.M. Mídia e subjetividade: impacto no comportamento alimentar feminino.
Rev. Nutr. Campinas, jan./mar., 2003. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/rn/v16n1/a11v16n1.
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EXERCÍCIOS

Unidade I – Questão 1: INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO


TEIXEIRA (INEP). Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) 2004. Disponível em: <http://www.curso-
bjetivo.br/vestibular/resolucao_comentada/enem/2004/ENEM2004_prova.pdf>. Acesso em: 21 mai.
2011.

Unidade I – Questão 2: INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO


TEIXEIRA (INEP). Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) 2004. Disponível em: <http://www.curso-
objetivo.br/vestibular/resolucao_comentada/enem/2004/ENEM2004_prova.pdf>. Acesso em: 21 mai.
2011.
147
Unidade II – Questão 1: INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO
TEIXEIRA (INEP). Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE) 2006: Formação Geral.
Questão 3. Disponível em: <http://download.inep.gov.br/download/enade/2006/Provas/PROVA_DE_
FORMACAO_GERAL.pdf>. Acesso em: 21 mai. 2011.

Unidade II – Questão 2: INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO


TEIXEIRA (INEP). Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE) 2005: Formação Geral.
Questão 3. Disponível em: <http://download.inep.gov.br/download/enade/2005/Provas/PROVA_DE_
FORMACAO_GERAL.pdf>. Acesso em: 21 mai. 2011.

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Informações:
www.sepi.unip.br ou 0800 010 9000